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Responsabilidade Civil
Informações Gerais
Conteúdo programático disponível no portal do aluno.
BIBLIOGRAFIA.
ASPECTOS HISTÓRICOS DA
RESPONSABILIDADE CIVIL.
período de Talião expressa na máxima “olho por olho, dente por dente” – foi repetida pelo
Código de Hammurabi, na Mesopotâmia antiga.
“a palavra talião tem a sua origem no latim talis – igual, semelhante, tal –, donde talio,
onis: pena igual à ofensa; tal ofensa, tal pena.
Código de Manu, da cultura hindu, apresentou uma evolução em relação ao Código de
Hammurabi, eis que trazia a previsão de multa ou indenização a favor do prejudicado.
Direito Romano, parâmetro para qualquer estudo de Direito Privado, a Lei das XII
Tábuas, de 450 a.C, ainda, previa a possibilidade de penas pecuniárias.
Lex Aquilia de Damno, aprovada possivelmente no século III a.C. trazia a ideia de
damnum iniuria datum = dano tivesse origem em ato contrário ao direito + a culpa
genérica + lesão patrimonial. Influenciam até hoje a construção estrutural da
responsabilidade civil.
ASPECTOS HISTÓRICOS DA
RESPONSABILIDADE CIVIL. Cont.
Ulpiano . Iuris praecepta sunt haec: honeste vivere, alterum non laedere, suum cuique
tribuere: “Os preceitos do direitos são estes: viver honestamente, não lesar a outrem, dar a
cada um o que é seu”
Ainda.
Dura Lex, Sed Lex : "A lei é rigorosa, mas é a lei“.
A culpa ainda influenciou o Direito Medieval.
Na modernidade, a culpa foi elemento estruturante de muitas codificações que surgiram à
época.
A codificação francesa de 1804, o Código de Napoleã (art. 1.382) exigir a culpa como
elemento da responsabilidade civil, enunciando que todo ato de homem que cause dano a
terceiro obriga o responsável que agiu com culpa a repará-lo.
ASPECTOS HISTÓRICOS DA
RESPONSABILIDADE CIVIL. Cont.
O Código francês influenciou o Código Civil brasileiro de 1916 (Clóvis Beviláqua). Art. 159,
previa que “aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência, ou imprudência, violar
direito, ou causar prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar o dano”.
no ano de 1897, Raymond Saleilles escreveu o seu notório estudo em defesa da teoria objetiva,
ou seja, da responsabilidade sem culpa.
Tese ganhou notoriedade em artigo de Louis Josserand que defendeu em 1936 em conferência
nos maiores centros jurídicos da Europa sob o título “Evolução da Responsabilidade Civil”.
a teoria do abuso de direito: as hipóteses de abuso da propriedade e de litigância de má-fé. A culpa
seria subentendida e presumida toda vez que um direito fosse exercido com desproporção.
teoria das faltas ou culpas negativas: a responsabilidade civil surgiria da omissão, da inércia, da falta
de conduta.
doutrina do risco: aquele que criou o risco à custa de outrem deve suportar as suas
consequências, respondendo perante a outra parte.
ASPECTOS HISTÓRICOS DA
RESPONSABILIDADE CIVIL. Cont.
Brasil. o Decreto-lei n. 2.681, de 1912, que tratava da responsabilidade civil das empresas
de estradas de ferro. Previa o art. 17 dessa norma que “as estradas de ferro responderão
pelos desastres que nas suas linhas sucederem aos viajantes e de que resulte a morte,
ferimento ou lesão corpórea. A culpa será sempre presumida, só se admitindo em
contrário alguma das seguintes provas: 1.ª – caso fortuito e força maior; 2.ª – culpa do
viajante, não concorrendo culpa da estrada”.
DO ATO ILÍCITO CIVIL TRATADO
PELO ART. 186 DO CÓDIGO CIVIL
Art. 159 do Código Civil de 1916
“Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência, ou imprudência, violar direito, ou
causar prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar o dano.
X
Art. 186 do Código Civil de 2002
“Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e
causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.”
a menção ao dano como pressuposto para a responsabilidade civil consta do caput do art.
927 do Código Civil brasileiro, segundo o qual “aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e
187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo”.
Somente haverá direito à indenização e o correspondente dever de reparar, se esse
elemento objetivo estiver presente. Em síntese ainda maior, sem a presença do dano, não
há que reconhecer a responsabilidade civil da parte.
Existência de forte corrente doutrinária que prega a existência da responsabilidade civil
sem dano.
Paulo Luiz Netto Lôbo (UFPE) pagamento da multa ou cláusula penal, sem que exista a
necessidade de prova do dano, conforme a redação do caput do art. 416 do Código Civil.
Críticas a esta tese: Gerar situações de injustiça, mormente de pedidos totalmente
imotivados, fundados em meros aborrecimentos, tão comuns no Brasil.
Direito Administrativo OAB/Fev 2020
(exame XXXI)
Rafael, funcionário da concessionária prestadora do serviço público de
fornecimento de gás canalizado, realizava reparo na rede subterrânea, quando
deixou a tampa do bueiro aberta, sem qualquer sinalização, causando a queda de
Sônia, transeunte que caminhava pela calçada.
Sônia, que trabalha como faxineira diarista, quebrou o fêmur da perna direita em
razão do ocorrido e ficou internada no hospital por 60 dias, sem poder trabalhar.
Após receber alta, Sônia procurou você, como advogado(a), para ajuizar ação
indenizatória em face.
Direito Administrativo OAB/Fev 2020
(exame XXXI)
A - da concessionária, com base em sua responsabilidade civil objetiva, para cuja
configuração é desnecessária a comprovação de dolo ou culpa de Rafael.
B- do Estado, como poder concedente, com base em sua responsabilidade civil direta e
subjetiva, para cuja configuração é prescindível a comprovação de dolo ou culpa de
Rafael.
C- de Rafael, com base em sua responsabilidade civil direta e objetiva, para cuja
configuração é desnecessária a comprovação de ter agido com dolo ou culpa,
assegurado o direito de regresso contra a concessionária.
D- do Município, como poder concedente, com base em sua responsabilidade civil
objetiva, para cuja configuração é imprescindível a comprovação de dolo ou culpa de
Rafael.
Direito Administrativo Prova da OAB 1ª Fase - XXXI
Exame (2020.1) - Resposta
A - da concessionária, com base em sua responsabilidade civil objetiva, para cuja
configuração é desnecessária a comprovação de dolo ou culpa de Rafael.
XXIX EXAME DE ORDEM UNIFICADO
PROVA PRÁTICO-PROFISSIONAL Aplicada
em 18/08/2019
Joana adquiriu, na condição de consumidora final, um automóvel em uma das
concessionárias da sociedade empresária Carros S.A., com pagamento parcelado, e a sociedade
empresária passou a debitar, mês a mês, o triplo do valor pactuado para cada parcela, o que
ficou comprovado pela simples análise dos contratos e dos seus extratos bancários, com o
débito dos valores em triplo.
Joana tentou resolver a questão diretamente com a sociedade empresária, mas o funcionário da
concessionária apenas afirmou que poderia ter ocorrido um erro no sistema, sem dar qualquer
justificativa razoável, e afirmou que não havia o que fazer para corrigir a cobrança.
Joana então procurou você, como advogado(a), para ajuizar ação em face da sociedade
empresária Carros S.A. com pedidos de obrigação de não fazer, para que a sociedade parasse
de realizar as cobranças em excesso, e condenatório, para devolução em dobro dos valores
cobrados em excesso, com atualização monetárias e juros legais, e para indenização por danos
morais pelos transtornos causados a Joana.
É devida a indenização por danos morais
pelos transtornos causados?
Código Civil.
Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência,
violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato
ilícito.
Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica
obrigado a repará-lo.
Constituição Federal. Art. 5º:
V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por
dano material, moral ou à imagem;
X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas,
assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrentede sua
violação;
“discute-se a existência de dano moral na hipótese em que o consumidor adquire garrafa
de refrigerante com corpo estranho em seu conteúdo, sem, contudo, ingeri-lo. A aquisição
de produto de gênero alimentício contendo em seu interior corpo estranho, expondo o
consumidor a risco concreto de lesão à sua saúde e segurança, ainda que não ocorra a
ingestão de seu conteúdo, dá direito à compensação por dano moral, dada a ofensa ao
direito fundamental à alimentação adequada, corolário do princípio da dignidade da
pessoa humana. Hipótese em que se caracteriza defeito do produto (art. 12, CDC), o qual
expõe o consumidor a risco concreto de dano à sua saúde e segurança, em clara
infringência ao dever legal dirigido ao fornecedor, previsto no art. 8.º do CDC” (STJ,
REsp 1.424.304/SP, 3.ª Turma, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 11.03.2014, DJe
19.05.2014).
“a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça se consolidou no sentido de que a
ausência de ingestão de produto impróprio para o consumo configura, em regra, hipótese
de mero dissabor vivenciado pelo consumidor, o que afasta eventual pretensão
indenizatória decorrente de alegado dano moral. Precedentes” (STJ, AgRg no AREsp
489.030/SP, 4.ª Turma, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 16.04.2015, DJe 27.04.2015).
A demonstrar toda essa divergência, pontue-se que na Edição n. 39 da ferramenta Jurisprudência
em Teses, do próprio Superior Tribunal de Justiça, que trata do Direito do Consumidor, poderiam
ser encontradas premissas conflitantes sobre o assunto. https://scon.stj.jus.br/SCON/jt/
Conforme a tese 2, “a simples aquisição do produto considerado impróprio para o consumo, em virtude
da presença de corpo estranho, sem que se tenha ingerido o seu conteúdo, não revela o sofrimento
capaz de ensejar indenização por danos morais”.
Por outra via, nos termos da tese 3, “a aquisição de produto de gênero alimentício contendo em seu
interior corpo estranho, expondo o consumidor a risco concreto de lesão à sua saúde e segurança, ainda
que não ocorra a ingestão de seu conteúdo, dá direito à compensação por dano moral, dada a ofensa ao
direito fundamental à alimentação adequada, corolário do princípio da dignidade da pessoa humana”.
Todavia, no ano de 2019, as duas teses foram retiradas da citada ferramenta de jurisprudência,
justamente diante dessa contradição. (Cf. art. 926 do CPC. Os tribunais devem uniformizar sua
jurisprudência e mantê-la estável, íntegra e coerente.)
Exemplos:
a presença ou não do ato ilícito civil.
o simples ato de dirigir bêbado não constitui, por si só, uma ilicitude privada.
ato de traição ou de infidelidade em um casamento ou em uma união estável, presente o
adultério ou a infidelidade.
DO ABUSO DE DIREITO PREVISTO NO
ART. 187 DO CÓDIGO CIVIL
o art. 187 do atual Código Civil brasileiro dispõe que “Também comete ato ilícito o
titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos
pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes”. Trata-se de
consagração do abuso de direito ou abuso do direito como ato ilícito equiparado.
Resumindo: o exercício de um direito com o fim de prejudicar outrem ou
Enunciado n. 431, da V Jornada de Direito Civil, evento promovido pelo Conselho da
Justiça Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em novembro de 2011, segundo o qual
“a violação do art. 421 conduz à invalidade ou à ineficácia do contrato ou de cláusulas
contratuais”
“Agravo regimental. Recurso especial. Civil. Plano de saúde. Cobertura securitária. Recusa
indevida de internação hospitalar. Cláusula abusiva. Ato ilícito. Situação emergencial. Doença
grave. Meningite. Ocorrência de danos morais. Precedentes. Quantum indenizatório.
Razoabilidade. Revisão. Reexame fático-probatório. Súmula 07/STJ. 1. Abusiva a cláusula de
contrato de plano de saúde que exclui de sua cobertura o tratamento de doenças
infectocontagiosas, tais como a meningite. 2. A seguradora, ao recusar indevidamente a cobertura
para tratamento de saúde, age com abuso de direito, cometendo ato ilícito e ficando obrigada à
reparação dos danos patrimoniais e extrapatrimoniais dele decorrentes. 3. A recusa indevida da
cobertura para tratamento de saúde, em situações de emergência, quando o fato repercute
intensamente na psique do doente, gerando enorme desconforto, dificuldades e temor pela própria
vida, faz nascer o direito à reparação do dano moral. 4. Segundo entendimento pacificado desta
Corte, o valor da indenização por dano moral somente pode ser alterado na instância especial
quando ínfimo ou exagerado, o que não ocorre no caso em tela, em que, consideradas as suas
peculiaridades, fixado no valor de dez salários mínimos. 5. Agravo regimental desprovido” (STJ,
AgRg no REsp 1.299.069/SP, 3.ª Turma, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, j. 26.02.2013,
DJe 04.03.2013).
Enunciado n. 431, da V Jornada de Direito Civil, evento promovido pelo Conselho da
Justiça Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em novembro de 2011, segundo o qual
“a violação do art. 421 conduz à invalidade ou à ineficácia do contrato ou de cláusulas
contratuais”
“Recurso de apelação. Ação de cobrança. Contrato para desconto de títulos garantido por
fiança. Nulidade da assinatura do cônjuge do fiador, reconhecida pela instituição
financeira credora, que não invalida a fiança, tampouco o contrato por ela garantido,
observados os postulados da boa-fé objetiva e da função social dos contratos. Quebra dos
deveres anexos e abuso de direito que autorizam, força na função interpretativa da boa-fé
objetiva, a manutenção da validade da fiança prestada. Responsabilidade da fiadora que
também decorre da condição de coobrigada. Salvaguarda da meação do cônjuge do fiador
em futura execução, observada a regra contida no art. 655-B do CPC. Apelo não provido.
Unânime” (TJRS, Apelação Cível 426207-78.2011.8.21.7000, 17.ª Câmara Cível, Estrela,
Rel. Des. Bernadete Coutinho Friedrich, j. 15.12.2011, DJe 18.01.2012).
Vide artigo 1.647 do CC
“a recusa injustificada de Plano de Saúde para cobertura de procedimento médico a
associado configura abuso de direito e descumprimento de norma contratual, capazes de
gerar dano moral indenizável. Precedentes. As cláusulas restritivas ao Direito do
Consumidor devem ser interpretadas da forma mais benéfica a este, não sendo razoável a
seguradora se recusar a prestar a cobertura solicitada. 3. Agravo regimental não provido”
(STJ, AgRg no REsp 1253696/SP, 4.ª Turma, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j.
18.08.2011, DJe 24.08.2011).
Consigne-se, no âmbito doutrinário, a aprovação de enunciado na V Jornada de Direito
Civil, evento promovido pelo Conselho da Justiça Federal em 2011, conforme proposição
deste autor, prevendo que “o descumprimento de contrato pode gerar dano moral quando
envolver valor fundamental protegido pela Constituição Federal de 1988” (Enunciado n.
411 do CJF).
enunciado doutrinário aprovado na V Jornada de Direito Civil, de autoria de Otávio Luiz
Rodrigues Jr.: “os bons costumes previstos no art. 187 do CC possuem natureza subjetiva,
destinada ao controle da moralidade social de determinada época, e objetiva, para permitir
a sindicância da violação dos negócios jurídicos em questões não abrangidas pela função
social e pela boa-fé objetiva” (Enunciado n. 413 do CJF).
no que concerne a maus costumes, a jurisprudência superior do Supremo Tribunal Federal
acabou por proibir atos coletivos de crueldade contra animais, como a farra do boi (RE
153.531/SC, 2.ª Turma, Rel. Min. Marco Aurélio, j. 03.06.1997, DJU 13.03.1998, p. 13),
a rinha de galos (ADI 1.856/RJ, Tribunal Pleno, Rel. Min. Celso de Mello, j. 26.05.2011,
DJe 16.11.2011, p. 16) e a vaquejada (ADI 4.983/CE, Tribunal Pleno, Rel. Min. Celso de
Melo, j. 06.10.2016).
Enunciado n. 37, da I Jornada de Direito Civil, de 2004: “a responsabilidade civil
decorrente do abuso do direito independe de culpa e fundamenta-se somente no critério
objetivo-finalístico”
o Enunciado n. 414 da V Jornada de Direito Civil (2011), que preconiza com precisão: “a
cláusula geraldo art. 187 do Código Civil tem fundamento constitucional nos princípios
da solidariedade, devido processo legal e proteção da confiança, e aplica-se a todos os
ramos do direito”.
Posição Mintoritária : não há no Código Civil nenhum ponto de apoio para a conclusão de
que a responsabilidade por abuso de direito seria independente de culpa. (Guilherme
Henrique Lima Reinig e Daniel Amaral Carnaúba).
O abuso no exercício da propriedade ou ato
emulativo (aemulatio)
Art. 1.228. O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, e o
direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha.
Sendo oponível contra todos (erga omnes).
“O direito de propriedade não se reveste de caráter absoluto, eis que, sobre ele, pesa
grave hipoteca social, a significar que, descumprida a função social que lhe é
inerente (CF, art. 5.º, XXIII), legitimar-se-á a intervenção estatal na esfera dominial
privada, observados, contudo, para esse efeito, os limites, as formas e os
procedimentos fixados na própria Constituição da República. O acesso à terra, a
solução dos conflitos sociais, o aproveitamento racional e adequado do imóvel rural,
a utilização apropriada dos recursos naturais disponíveis e a preservação do meio
ambiente constituem elementos de realização da função social da propriedade” (STF,
ADIn 2.213/MC, Rel. Min. Celso de Mello, DJ 23.04.2004).
O abuso no exercício da propriedade ou ato
emulativo (aemulatio)
Art. 1.228. O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, e o
direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha.
Sendo oponível contra todos (erga omnes).
“O direito de propriedade não se reveste de caráter absoluto, eis que, sobre ele, pesa
grave hipoteca social, a significar que, descumprida a função social que lhe é
inerente (CF, art. 5.º, XXIII), legitimar-se-á a intervenção estatal na esfera dominial
privada, observados, contudo, para esse efeito, os limites, as formas e os
procedimentos fixados na própria Constituição da República. O acesso à terra, a
solução dos conflitos sociais, o aproveitamento racional e adequado do imóvel rural,
a utilização apropriada dos recursos naturais disponíveis e a preservação do meio
ambiente constituem elementos de realização da função social da propriedade” (STF,
ADIn 2.213/MC, Rel. Min. Celso de Mello, DJ 23.04.2004).
regra dos três Ss (segurança, sossego e
saúde) e propriedade
Silvio Rodrigues - caso Bayard, no qual o vizinho de um construtor de balões
e dirigíveis ergueu pilastras de madeira com pontas de ferro, com a intenção
de dificultar a aterrissagem das aeronaves.
o Tribunal de Justiça de São Paulo já limitou o número de animais que
poderiam ficar em uma pequena casa. Conforme a sua ementa, “alegação de
barulho excessivo e maus odores causados por criação de animais, alegações
comprovadas por certidão do oficial de justiça. Sentença de procedência
mantida” (TJSP, Apelação 9185370-21.2008.8.26.0000, Acórdão 5552471,
31.ª Câmara de Direito Privado, Campinas, Rel. Des. Francisco Casconi, j.
22.11.2011, DJe 29.11.2011).
regra dos três Ss (segurança, sossego e
saúde) e propriedade
“guarda de grande número de animais (cães e gatos). Geração de excessivo mau
cheiro e incômodos desproporcionais aos vizinhos. Fato constitutivo do direito da
parte autora devidamente comprovado. Restrições aos direitos à propriedade e à
liberdade cabíveis na espécie, visando harmonizá-los com iguais direitos dos
proprietários vizinhos. Exegese do art. 187 do Código Civil. Limitada a posse de
animais em propriedade vizinha. Pretensão dos autores de impor à ré a proibição de
posse de todo e qualquer animal na propriedade. Indeferimento. Ausência de amparo
legal. Utilização, como norte da solução do litígio, dos princípios da razoabilidade e
da proporcionalidade” (TJRS, Apelação Cível 517572-19.2011.8.21.7000, 18.ª
Câmara Cível, Tapejara, Rel. Des. Pedro Celso Dal Pra, j. 10.11.2011, DJe
18.11.2011).
regra dos três Ss (segurança, sossego e
saúde) e propriedade
Enunciado n. 319, aprovado na IV Jornada de Direito Civil, de 2006, a solução dessas
causas que envolvem os conflitos de vizinhança deve guardar estreita sintonia com os
princípios constitucionais da intimidade, da inviolabilidade da vida privada e da proteção ao
meio ambiente.
“Insegurança do autor baseada na alegação de que a árvore do terreno vizinho está morta,
com risco de queda sobre sua casa. Boletim de ocorrência emitido pela Defesa Civil no
sentido de que a árvore não está morta e que, apesar de velha e de possuir muitos galhos
secos e deteriorados, não há risco de queda. Interesses do autor, após o laudo, baseados
apenas no fato de a árvore ser velha, o que esbarra na questão ambiental. Enunciado 319, da
IV Jornada de Direito Civil realizada pelo Conselho de Justiça Federal/STJ, referente ao
artigo 1.277 do CC. (...)” (TJRJ, Apelação 00113109320088190203, 20.ª Câmara Cível, Rio
de Janeiro, Origem: 5.ª Vara Cível de Jacarepaguá, Rel. Des. Odete Knaack de Souza, j.
04.11.2009, Data de Publicação: 27.11.2009).
Direito Ambiental x propriedade
CF. Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida,
impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e
preservá- lo para as presentes e futuras gerações.
CC Art. 1.228. § 1 o O direito de propriedade deve ser exercido em
consonância com as suas finalidades econômicas e sociais e de modo que
sejam preservados, de conformidade com o estabelecido em lei especial, a
flora, a fauna, as belezas naturais, o equilíbrio ecológico e o patrimônio
histórico e artístico, bem como evitada a poluição do ar e das águas.
Defesa do interesse público x propriedade
Há restrições relacionadas com a segurança e a defesa nacional, com a
economia, com a higiene e a saúde pública, com o interesse urbanístico, com a
cultura nacional e o patrimônio cultural e artístico. Existem também outras
restrições, em defesa do interesse particular, previstas no Código Civil. Tudo
isso estribado no que prescreve o Texto Maior, em seu art. 5.º, inc. XXIII, ao
consagrar a função social da propriedade.
Defesa do interesse público x propriedade
Há restrições relacionadas com a segurança e a defesa nacional, com a
economia, com a higiene e a saúde pública, com o interesse urbanístico, com a
cultura nacional e o patrimônio cultural e artístico. Existem também outras
restrições, em defesa do interesse particular, previstas no Código Civil. Tudo
isso estribado no que prescreve o Texto Maior, em seu art. 5.º, inc. XXIII, ao
consagrar a função social da propriedade.
Abuso de direito e imprensa. O abuso do
direito de informar
Critérios a ser observados: função social e econômica, boa-fé e bons costumes.
Superior Tribunal de Justiça condenou jornal pela veiculação de notícia utilizando apelido
com menção à opção sexual do retratado (“bicha”).
“Direito Civil. Indenização por danos morais. Publicação em jornal. Reprodução de
cognome relatado em boletim de ocorrências. Liberdade de imprensa. Violação do direito ao
segredo da vida privada. Abuso de direito. A simples reprodução, por empresa jornalística,
de informações constantes na denúncia feita pelo Ministério Público ou no boletim policial
de ocorrência consiste em exercício do direito de informar. Na espécie, contudo, a empresa
jornalística, ao reproduzir na manchete do jornal o cognome – ‘apelido’ – do autor, com
manifesto proveito econômico, feriu o direito dele ao segredo da vida privada, e atuou com
abuso de direito, motivo pelo qual deve reparar os consequentes danos morais” (STJ, REsp
613.374/MG, 3.ª Turma, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 17.05.2005, DJ 12.09.2005, p. 321).
Superior Tribunal de Justiça exercício regular do direito de informar diante
da veracidade dos fatos e pelos interesses coletivos que permeavam as
notícias de que um funcionário público estaria embriagado. (Bêbado).
O dever de veracidade ao qual estão vinculados os órgãos de imprensa não
deve consubstanciar-sedogma absoluto, ou condição peremptoriamente
necessária à liberdade de imprensa, mas um compromisso ético com a
informação verossímil, o que pode, eventualmente, abarcar informações
não totalmente precisas.
“Responsabilidade civil. Notícia jornalística que irroga a motorista de Câmara Municipal o predicado de ‘bêbado’.
Informação de interesse público que, ademais, não se distancia da realidade dos fatos. Não comprovação, em sindicância
administrativa, do estado de embriaguez. Irrelevância. Liberdade de imprensa. Ausência de abuso de direito. 1. É fato
incontroverso que o autor, motorista de Câmara Municipal, ingeriu bebida alcoólica em festa na qual se encontravam
membros do Poder Legislativo local e que, em seguida, conduziu o veículo oficial para sua residência. Segundo noticiado,
dormiu no interior do automóvel e acordou com o abalroamento no muro ou no portão de sua casa. Constam da notícia relatos
da vizinhança, no sentido de que o motorista da Câmara ostentava nítido estado de embriaguez. 2. Se, por um lado, não se
permite a leviandade por parte da imprensa e a publicação de informações absolutamente inverídicas que possam atingir a
honra da pessoa, não é menos certo, por outro lado, que da atividade jornalística não são exigidas verdades absolutas,
provadas previamente em sede de investigações no âmbito administrativo, policial ou judicial. 3. O dever de veracidade ao
qual estão vinculados os órgãos de imprensa não deve consubstanciar-se dogma absoluto, ou condição peremptoriamente
necessária à liberdade de imprensa, mas um compromisso ético com a informação verossímil, o que pode, eventualmente,
abarcar informações não totalmente precisas. 4. Não se exige a prova inequívoca da má-fé da publicação (‘actual malice’),
para ensejar a indenização. 5. Contudo, dos fatos incontroversos conclui-se que, ao irrogar ao autor o predicado de ‘bêbado’,
o jornal agiu segundo essa margem tolerável de inexatidão, orientado, ademais, por legítimo juízo de aparência acerca dos
fatos e por interesse público estreme de dúvidas, respeitando, por outro lado, o dever de diligência mínima que lhe é imposto.
6. A pedra de toque para aferir-se legitimidade na crítica jornalística é o interesse público, observadas a razoabilidade dos
meios e formas de divulgação da notícia. 7. A não comprovação do estado de embriaguez, no âmbito de processo disciplinar,
apenas socorre o autor na esfera administrativa, não condiciona a atividade da imprensa, tampouco suaviza o desvalor da
conduta do agente público, a qual, quando evidentemente desviante da moralidade administrativa, pode e deve estar sob as
vistas dos órgãos de controle social, notadamente, os órgãos de imprensa. 8. Com efeito, na reportagem objeto do dissenso
entre as partes, vislumbra-se simples e regular exercício de direito, consubstanciado em crítica jornalística própria de estados
democráticos, razão pela qual o autor deve, como preço módico a ser pago pelas benesses da democracia, conformar-se com
os dissabores eventualmente experimentados. 9. Recurso especial provido” (STJ, REsp 680.794/PR, 4.ª Turma, Rel. Min.
Luis Felipe Salomão, j. 17.06.2010, DJe 29.06.2010).
STJ, que afastou o dever de indenizar de jornal por
afirmações contundentes relacionadas à procuradora federal.
as pessoas consideradas públicas estão sujeitas à maior exposição e suscetíveis a
avaliações da sociedade e da mídia, especialmente os gestores públicos de todas as
esferas de poder, mesmo quando envolvidos em processos judiciais – que, em regra,
não correm em segredo de justiça – como partes, procuradores ou juízes. No caso
dos autos, o jornalista apresentou sua opinião crítica acerca dos argumentos
utilizados pela Procuradora da Fazenda Nacional na contestação apresentada pela
União em autos de ação declaratória movida por Inês Etienne Romeu, sem, contudo,
atingir a honra e a imagem da autora. A ponderação trazida pelo articulista procura
rechaçar a tese alegada pela União de se exigir a identificação dos responsáveis pela
prática de tortura dentro da chamada ‘Casa da Morte’. Para isso, faz uma análise
crítica da atuação da procuradora, mas sem transbordar os limites da garantia de
liberdade de imprensa, a ponto de configurar abuso de direito” (STJ, AgRg no
AREsp 127.467/SP, 4.ª Turma, Rel. Min. Marco Buzzi, Rel. p/ Acórdão Min. Luis
Felipe Salomão, j. 17.05.2016, DJe 27.06.2016).
Enunciado n. 279 da IV Jornada de Direito Civil “a proteção à imagem deve
ser ponderada com outros interesses constitucionalmente tutelados,
especialmente em face do direito de amplo acesso à informação e da liberdade
de imprensa. Em caso de colisão, levar-se-á em conta a notoriedade do
retratado e dos fatos abordados, bem como a veracidade destes e, ainda, as
características de sua utilização (comercial, informativa, biográfica),
privilegiando-se medidas que não restrinjam a divulgação de informações”.
Escândalo Gugu-PCC
Escândalo Gugu-PCC, também conhecido como
escândalo da falsa entrevista dos integrantes do PCC,
foi uma controvérsia centrada numa entrevista forjada
com dois homens que se passaram por integrantes da
facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC)
realizada pelo repórter Wagner Maffezoli e veiculada
pelo programa Domingo Legal do SBT, apresentado
por Gugu Liberato. Por conta de sua repercussão e de
ameaças a apresentadores de TV e autoridades na
entrevista fictícia, a emissora foi multada e o programa
temporariamente suspenso, além de Gugu ter sido
processado.
Escândalo Gugu-PCC
Na entrevista, veiculada em 7 de setembro de 2003, os supostos criminosos,
identificados como Alfa e Beta, assumiram a autoria do sequestro do padre
Marcelo Rossi, ocorrido na semana anterior, e ameaçaram de morte os
apresentadores José Luiz Datena, Milton Neves, Marcelo Rezende e Oscar
Roberto Godói, que comandavam programas policiais
Escândalo Gugu-PCC
O Superior Tribunal de Justiça condenou Gugu e o SBT a pagarem
indenização ao ex-apresentador do Cidade Alerta, Oscar Roberto Godói, um
dos ameaçados pelos falsos bandidos do PCC na reportagem. O advogado de
Godói informou que o SBT e Gugu perderam a ação em primeira e segunda
instâncias. Em primeiro grau, a indenização pelos transtornos causados pelas
ameaças encenadas era de R$ 100 mil. O Tribunal de Justiça de São Paulo
elevou a multa para R$ 250 mil. Em fevereiro, SBT e Gugu entraram com
medida cautelar para estancar o cumprimento provisório da sentença no STJ,
em Brasília, mas o STJ negou recurso. De todos os ameaçados na entrevista,
apenas Godói decidiu processar o apresentador.
“Recurso especial. Responsabilidade civil. Dano moral. Programa televisivo. Transmissão de reportagem inverídica (conhecida como ‘a farsa do
PCC’). Ameaça de morte por falsos integrantes de organização criminosa. Efetivo temor causado nas vítimas e na população. Abuso do direito
de informar. Actual malice. Quantum indenizatório. Critérios de arbitramento equitativo pelo juiz. Método bifásico. Valorização do interesse
jurídico lesado e circunstâncias do caso. 1. A liberdade de informação, sobretudo quando potencializada pelo viés da liberdade de imprensa,
assume um caráter dúplice. Vale dizer, é direito de informação tanto o direito de informar quanto o de ser informado, e, por força desse traço
biunívoco, a informação veiculada pelos meios de comunicação deve ser verdadeira, já que a imprensa possui a profícua missão de ‘difundir
conhecimento, disseminar cultura, iluminar as consciências, canalizar as aspirações e os anseios populares, enfim, orientar a opinião pública no
sentido do bem e da verdade’. 2. Se, por um lado, não se permite a leviandade por parte da imprensa e a publicação de informações
absolutamente inverídicas que possam atingir a honra da pessoa, não é menos certo, por outro lado, que da atividade jornalística não são exigidas
verdades absolutas, provadas previamente em sede de investigações no âmbito administrativo, policial ou judicial. 3. Nesta seara de revelação
pela imprensa de fatos da vida íntima das pessoas, o digladiar entre o direito de livre informare os direitos de personalidade deve ser balizado
pelo interesse público na informação veiculada, para que se possa inferir qual daqueles direitos deve ter uma maior prevalência sobre o outro no
caso concreto. 4. A jurisprudência do STJ entende que ‘não se exige a prova inequívoca da má-fé da publicação (‘actual malice’), para ensejar a
indenização’ (REsp 680.794/PR, 4.ª Turma, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 17.06.2010, DJe 29.06.2010). 5. Apesar do aparente interesse
público, inclusive por trazer à baila notícia atemorizando pessoas com notoriedade no corpo social, percebe-se, no caso, que, em verdade, o viés
público revelou-se inexistente, porquanto a matéria veiculada era totalmente infundada, carreada de conteúdo trapaceiro, sem o menor respaldo
ético e moral, com finalidade de publicação meramente especulativa e de ganho fácil. 6. Na hipótese, verifica-se o abuso do direito de
informação na veiculação da matéria, que, além de não ser verdadeira, propalava ameaças contra diversas pessoas, mostrando-se de inteira
responsabilidade dos réus o excesso cometido, uma vez que – deliberadamente –, em busca de maior audiência e, consequentemente, de angariar
maiores lucros, sabedores da falsidade ou, ao menos, sem a diligência imprescindível para a questão, autorizaram a transmissão da reportagem,
ultrapassando qualquer limite razoável do direito de se comunicar. 7. Na espécie, não se trata de mera notícia inverídica, mas de ardil manifesto e
rasteiro dos recorrentes, que, ao transmitirem reportagem sabidamente falsa, acabaram incidindo em gravame ainda pior: percutiram o temor na
sociedade, mais precisamente nas pessoas destacadas na entrevista, com ameaça de suas próprias vidas, o que ensejou intenso abalo moral no
recorrido, sendo que o arbitramento do dano extrapatrimonial em R$ 250 mil, tendo em vista o critério bifásico, mostrou-se razoável. (...)” (STJ,
REsp. 1.473.393/SP, 4.ª Turma, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 04.10.2016, DJe 23.11.2016).
O abuso no processo
Art. 79, 80 e 81 do CPC
Terceira Turma reconheceu a presença do citado assédio processual
justamente diante do excesso de demandas temerárias, sem justo motivo.
STJ
“Embora não seja da tradição do direito processual civil brasileiro, é admissível o reconhecimento da existência do ato ilícito de abuso
processual, tais como o abuso do direito fundamental de ação ou de defesa, não apenas em hipóteses previamente tipificadas na legislação, mas
também quando configurada a má utilização dos direitos fundamentais processuais. O ardil, não raro, é camuflado e obscuro, de modo a
embaralhar as vistas de quem precisa encontrá-lo. O chicaneiro nunca se apresenta como tal, mas, ao revés, age alegadamente sob o manto dos
princípios mais caros, como o acesso à justiça, o devido processo legal e a ampla defesa, para cometer e ocultar as suas vilezas. O abuso se
configura não pelo que se revela, mas pelo que se esconde. Por esses motivos, é preciso repensar o processo à luz dos mais basilares cânones do
próprio direito, não para frustrar o regular exercício dos direitos fundamentais pelo litigante sério e probo, mas para refrear aqueles que abusam
dos direitos fundamentais por mero capricho, por espírito emulativo, por dolo ou que, em ações ou incidentes temerários, veiculem pretensões ou
defesas frívolas, aptas a tornar o processo um simulacro de processo ao nobre albergue do direito fundamental de acesso à justiça. Hipótese em
que, nos quase 39 anos de litígio envolvendo as terras que haviam sido herdadas pelos autores e de cujo uso e fruição foram privados por
intermédio de procuração falsa datada do ano de 1970, foram ajuizadas, a pretexto de defender uma propriedade sabidamente inexistente, quase
dez ações ou procedimentos administrativos desprovidos de fundamentação minimamente plausível, sendo que quatro destas ações foram
ajuizadas em um ínfimo espaço de tempo – três meses, entre setembro e novembro de 2011 –, justamente à época da ordem judicial que
determinou a restituição da área e a imissão na posse aos autores. O uso exclusivo da área alheia para o cultivo agrícola pelos 14 anos
subsequentes ao trânsito em julgado da sentença proferida na primeira fase da ação divisória não pode ser qualificado como lícito e de boa-fé
nesse contexto, de modo que é correto afirmar que, a partir da coisa julgada formada na primeira fase, os usurpadores assumiram o risco de
reparar os danos causados pela demora na efetivação da tutela específica de imissão na posse dos legítimos proprietários. Dado que a área
usurpada por quem se valeu do abuso processual para retardar a imissão na posse dos legítimos proprietários era de natureza agrícola e
considerando que o plantio ocorrido na referida área evidentemente gerou lucros aos réus, deve ser reconhecido o dever de reparar os danos de
natureza patrimonial, a serem liquidados por arbitramento, observado o período dos três últimos anos anteriores ao ajuizamento da presente ação,
excluídas da condenação a pretensão de recomposição pela alegada retirada ilegal de madeira e pela recomposição de supostos danos ambientais,
que não foram suficientemente comprovados. Considerando a relação familiar existente entre os proprietários originários das terras usurpadas e
os autores da ação, o longo período de que foram privados do bem que sempre lhes pertenceu, inclusive durante tenra idade, mediante o uso
desenfreado de sucessivos estratagemas processuais fundados na má-fé, no dolo e na fraude, configura-se igualmente a existência do dever de
reparar os danos de natureza extrapatrimonial que do ato ilícito de abuso processual decorrem, restabelecendo-se, quanto ao ponto, a sentença de
procedência” (STJ, REsp 1.817.845/MS, 3.ª Turma, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, Rel. p/ Acórdão Min. Nancy Andrighi, j. 10.10.2019,
DJe 17.10.2019).
Participar com o link da turma:
https://classroom.google.com/c/MTYzMTk2ODEzNDQw?cjc=ybixvrl
Participar com o código da turma:
ybixvrl
Até a próxima aula.

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