Prévia do material em texto
Copyright 2013 do Organizador Sumário Todos os direitos desta edição reservados à Editora Contexto (Editora Pinsky Ltda.) Montagem de capa e diagramação Gustavo S. Vilas Boas Preparação de textos Lilian Aquino PREFÁCIO 7 Revisão Fernanda Guerriero Antunes A LINGUAGEM HUMANA: DO MITO À CIÊNCIA 13 José Luiz Fiorin As LÍNGUAS DO MUNDO 45 José Luiz Fiorin Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasilcira do Livro, SP, Brasil) A NATUREZA DA LINGUAGEM HUMANA 75 Linguística? Que é isso? / organizador José Luiz Fiorin. 1. ed., reimpressão. - São Paulo : Contexto, 2015. Esmeralda Vailati Negrão Bibliografia LÍNGUA E VARIAÇÃO 111 ISBN 978-85-7244-796-6 Ronald Beline Mendes 1. Língua e linguagem 2. Linguística 3. Metalinguagem 4. Variações linguísticas I. Fiorin, José Luiz. MUDANÇA LINGUÍSTICA 137 13-03379 CDD-410 Evani Viotti para catálogo sistemático: 1. Linguística 410 O USO LINGUÍSTICO: A PRAGMÁTICA E O DISCURSO 181 José Luiz Fiorin e Norma Discini Os AUTORES 205 2015 EDITORA CONTEXTO Diretor editorial: Jaime Pinsky Rua Dr. José Elias, 520 Alto da Lapa 05083-030 - São Paulo - SP PABX: (11) 3832 5838A linguagem humana: do mito à ciência José Luiz Fiorin No princípio era o Verbo; o Verbo estava em Deus e o verbo era Deus. Jo 1 Linguagem e língua A linguagem é a capacidade específica da espécie humana de se comunicar por meio de signos. Entre as ferramentas culturais do ser humano, a linguagem ocupa um lugar à parte, porque o homem não está programado para aprender física ou matemática, mas está programado para falar, para aprender línguas, quaisquer que elas sejam. Todos os seres humanos, independentemente de sua escolaridade ou de sua condição social, a menos que tenham graves problemas psíquicos ou neurológicos, falam. Uma criança, por volta dos três anos de idade, já domina esse dispositivo extremamente complexo que é uma língua. A linguagem responde a uma necessidade natural da espécie humana, a de comunicar-se. No entanto, ao contrário da necessidade de comer, dormir, respirar,14 Linguistica? Que é isso? A linguagem humana 15 manter relações sexuais, etc., ela não se manifesta de maneira natural. Ela deve mais sublimes e mais íntimos dos quais a vida de todos os dias retira, graças ser aprendida. No caso da linguagem verbal, ela deve ser aprendida sob a forma às lembranças encarnadas pela linguagem, força e calor. A linguagem não é de uma língua, a fim de se manifestar por meio de atos de fala. A língua é um um simples acompanhante, mas sim um fio profundamente tecido na trama sistema de signos específicos aos membros de dada comunidade. do pensamento: para o indivíduo, ela é tesouro da memória e a consciência vigilante transmitida de pai para filho. Para o bem e para o mal, a fala é a A aptidão para a linguagem é um traço genético. Sua realização, no entanto, marca da personalidade, da terra natal e da nação, o título de nobreza da passa por um aprendizado, que é do domínio cultural, como testemunham os humanidade. O desenvolvimento da linguagem está tão inextricavelmente casos das crianças selvagens, cuja capacidade de linguagem não se desenvolveu. ligado ao da personalidade de cada indivíduo, da terra natal, da nação, da Os sentidos podem manifestar-se de diversas maneiras: por meio de sons, humanidade, da própria vida, que é possível indagar-se se ela não passa de um como no caso da linguagem verbal, por meio de imagens, como na pintura, por simples reflexo ou se ela não é tudo isso: a própria fonte de desenvolvimento meio de gestos, como nas línguas de sinais utilizadas pelos surdos. Temos lin- dessas (1975: 1-2) guagens não mistas, cujos significados se manifestam apenas de uma maneira: a Há um provérbio popular que diz: "Palavra não quebra osso". Esse ditado escrita, a pintura, a escultura, a língua de sinais; temos linguagens mistas, cujos quer contrapor a palavra à ação, quer dizer que a ação é que conta, pois a lin- significados se manifestam de diferentes maneiras, como o cinema, em que os guagem não tem nenhum poder. Um golpe, mas não uma palavra, é que quebra sentidos são veiculados pelos sons da linguagem verbal e da música, pelas imagens Esse provérbio vê as coisas de maneira simplista. Vamos analisar para que da linguagem visual, etc. Assim, podemos falar da linguagem como capacidade serve a linguagem. específica da espécie humana de produzir sentidos, de se comunicar, mas também das linguagens como as diferentes manifestações dessa capacidade. Uma ordem de parar no trânsito pode concretizar-se por meio da palavra "pare" pronunciada por um guarda; por um sinal de um apito; pelo gesto de abrir a palma da mão em Funções da linguagem posição vertical; pela luz vermelha do semáforo. São diferentes linguagens que Em primeiro lugar, a linguagem é uma maneira de perceber o mundo. comunicam a mesma significação. Hjelmslev, no primeiro capítulo de seu Prolegômenos a uma teoria da lin- "Este deve ser o bosque", murmurou pensativamente [Alice], "onde as coisas guagem, escreve uma das mais belas páginas sobre o papel da linguagem na vida não têm nomes". [...] la devaneando dessa maneira, quando chegou à entrada do dos seres humanos: bosque, que parecia muito úmido e sombrio. "Bom, de qualquer modo é um alí- vio", disse enquanto avançava em meio às árvores, "depois de tanto calor, entrar A linguagem [...] é uma inesgotável riqueza de múltiplos valores. A linguagem dentro do... dentro de quê?" Estava assombrada de não poder lembrar o nome. é inseparável do homem e segue-o em todos os seus atos. A linguagem é o "Bom, isto é, estar debaixo das... debaixo das... debaixo disso aqui, ora", disse instrumento graças ao qual o homem modela seu pensamento, seus senti- colocando a mão no tronco da árvore. "Como essa coisa se chama? É bem capaz mentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade e seus atos, o instrumento de não ter nome nenhum ora, com certeza não tem mesmo!" graças ao qual ele influencia e é influenciado, a base última e mais profunda Ficou calada durante um minuto, pensando. Então, de repente, exclamou: Ah, da sociedade Mas é também o recurso último e indispensável do então isso acabou acontecendo! E agora quem sou eu? Eu quero me lembrar, se homem, seu refúgio nas horas solitárias em que o espírito luta com a exis- puder. (Carroll, 1980: 165-6) tência, e quando o conflito se resolve no monólogo do poeta e na meditação do pensador. Antes mesmo do primeiro despertar de nossa consciência, as Esse texto, retirado do livro Através do espelho e o que Alice encontrou lá, palavras já ressoavam à nossa volta, prontas para envolver os primeiros germes mostra que Alice, quando entra no bosque em que as coisas não têm nome, é frágeis de nosso pensamento e a nos acompanhar inseparavelmente através da incapaz de apreender a realidade em torno dela, de saber o que as coisas são. Isso vida, desde as mais humildes ocupações da vida cotidiana até os momentos significa que as coisas do mundo exterior só têm existência para os homens quando16 Linguística? Que é isso? A linguagem humana 17 são nomeadas. Quando fazemos essa afirmação não estamos querendo dizer que a poderiam expressar ideias mais gerais, apresentando objetos. Não produzimos realidade não existe independentemente das pessoas ou que ela seja uma criação palavras apenas para designar as coisas, mas para estabelecer relações entre elas de sua mente, mas que só atentamos para as coisas por intermédio da linguagem. e comentá-las. Mostrar um objeto não exprime as categorias de quantidade, de Em outras palavras, só pela linguagem o mundo ganha sentido para nós. gênero, de posse, não permite indicar sua localização no espaço, etc. A língua não Por outro lado, cada língua é uma forma de interpretar a realidade. é um sistema de mostração de objetos, porque permite falar do que está presente e do que está ausente, do que existe e do que não existe, porque possibilita até O segundo projeto era representado por um plano de abolir completamente todas as palavras, fossem elas quais fossem [...]. Em vista disso, propôs-se que, sendo criar novas realidades, mundos não existentes. as palavras apenas nomes para as coisas, seria mais conveniente que todos os A linguagem é uma atividade simbólica, o que significa que as palavras criam homens trouxessem consigo as coisas de que precisassem falar ao discorrer sobre conceitos e eles ordenam a realidade, categorizam o mundo. Por exemplo, cria- determinado assunto [...].[...] muitos eruditos e sábios aderiram ao novo plano de mos o conceito de nascer do sol. Sabemos que, do ponto de vista científico, não se expressarem por meio de coisas, cujo único inconveniente residia em que, se existe nascer do sol, uma vez que é a Terra que gira em torno do Sol. Contudo, um homem tivesse que falar sobre longos assuntos e de vária espécie, ver-se-ia esse conceito, criado pela linguagem, determina uma realidade que nos encanta obrigado, em proporção, a carregar nas costas um grande fardo de coisas, a menos de poder pagar um ou dois criados robustos para acompanhá-lo [...]. a todos. Apagar o que foi escrito no computador é visto como uma atividade Outra grande vantagem oferecida pela invenção consiste em que ela serviria de diferente de apagar o que foi escrito a lápis. Por isso, cria-se uma nova palavra língua universal, compreendida em todas as nações civilizadas, cujos utensílios para denominar essa nova realidade, deletar, que é considerada diferente de apa- e objetos são geralmente da mesma espécie, ou tão parecidos que o seu emprego gar. Afinal, o instrumento desta ação é uma borracha, enquanto se deleta, com pode ser facilmente percebido. (Swift, 194-5) um clique, um texto selecionado. No entanto, se esses vocábulos distintos não existissem, não perceberíamos a atividade de escrever no computador como uma Esse trecho do livro Viagens de Gulliver narra uma invenção dos sábios de ação diferente daquela de escrever à máquina. Uma nova realidade, uma nova Balnibarbi. Eles propõem substituir as palavras, que, segundo eles, têm o incon- invenção, uma nova ideia exigem novas palavras, e são os novos termos que lhes veniente de variar de língua para língua, pelas coisas. Quando alguém quisesse conferem existência para toda a comunidade de falantes. falar de uma cadeira, mostraria uma cadeira; quem desejasse discorrer sobre uma As palavras formam um sistema independente das coisas nomeadas por elas, bolsa apresentaria uma bolsa e assim sucessivamente, A história narrada por Swift o que quer dizer que cada língua pode ordenar o mundo de maneira diversa, é uma ironia às concepções vulgares que imaginam que a compreensão da realidade exprimir diferentes modos de ver a realidade. Não há uma homologia entre a independe da língua que a nomeia, que pensam que as palavras são etiquetas que ordem da língua e a ordem do mundo. O inglês, por exemplo, tem duas palavras, se aplicam a coisas classificadas independentemente da linguagem. A língua é finger e toe, para expressar aquilo que denominamos dedo. A primeira significa uma forma de categorizar o mundo, de interpretá-lo. o dedo da mão; a segunda, o do pé. Isso quer dizer que, para nós, as extremida- A impossibilidade de o sistema imaginado pelos sábios de Balnibarbi funcionar des das mãos ou dos pés constituem mesma parte do corpo. Para os falantes de não é o inconveniente prático de que cada um teria que carregar muitos objetos, inglês, são duas coisas muito distintas. O inglês tem dois termos, pig e pork, para se fosse falar de muita coisa. As coisas não podem substituir as palavras, porque designar o que chamamos porco. O primeiro denota o animal vivo, o segundo a língua não é apenas um sistema de mostração de objetos. As coisas não desig- refere-se ao alimento preparado com a carne do suíno. Em português, dizemos nam tudo o que uma língua pode expressar. Mostrar um objeto não indica, por Havia muitos porcos no chiqueiro e O tempero do porco ficou no ponto certo. exemplo, sua pertença a uma dada classe. No léxico de uma língua, agrupamos os Em inglês, no primeiro caso, usa-se pig e, no segundo, pork. A mesma realidade nomes em classes. Maçã, pera, banana e laranja pertencem à classe das frutas. é categorizada diferentemente em inglês e em português. Naquele, o animal e Ao se exibir qualquer fruta, não se pode exprimir a ideia da classe fruta. Não se o alimento feito com a carne do animal são vistos como duas coisas distintas.18 Linguística? Que é isso? A linguagem humana 19 Neste, porco indica uma única coisa, seja vivo, seja morto e preparado para ser P Qual o montante de investimentos que a Petrobras aplicará este ano consumido. Em português, veste-se uma roupa, mas calça-se um sapato ou uma em Sergipe? luva. Em inglês, nos dois casos, usa-se to wear. Isso significa que a língua é uma R Não posso ter na cabeça. maneira de recortar a realidade, de ordenar o mundo, de categorizar as coisas, as P Qual a atual produção de Sergipe em terra e no mar? R Vocês não sabem isso? Vocês entendem de metros cúbicos? ações, os sentimentos, etc. Por essa razão, a linguagem modela nossa maneira de P Foram localizadas novas jazidas de gás natural? perceber e de ordenar a realidade. R (silêncio). Vamos explicar melhor o que significa dizer que a linguagem interpreta o (16 de janeiro de 1977: 12) mundo. Um tomate é uma fruta ou um legume? Do ponto de vista botânico, é uma fruta. No entanto, na feira, o tomate está entre os legumes. Nenhum ser Na interação entre o diretor da Petrobras e os jornalistas, os repórteres do mundo pertence a uma determinada categoria preexistente à linguagem. A não obtiveram nenhuma informação. O engenheiro da Petrobras transmitiu língua não é uma nomenclatura que se aplica a uma realidade já categorizada. uma imagem antipática e prepotente, a ideia de que ele tem total desprezo Ela é um meio de categorizar o mundo. Ela cria categorias e nelas os seres. pela imprensa. Isso não ocorre somente com os seres Também acontece com as Diz-se que a função principal da linguagem é comunicar. No entanto, há duas ações, os processos, etc. Imaginemos que uma pessoa mate outra. Essa ação questões que devem ser pensadas. De um lado, comunicar não é só transmitir pode ser categorizada como assassinato, quando alguém tira a vida de outrem informações, pois as pessoas se comunicam até para não dizer De outro por vingança; como acidente, quando alguém está manuseando uma arma e lado, comunicar não é um ato unilateral, mas é um jogo em que um parceiro ela dispara e mata alguém; como cumprimento do dever, quando um policial da comunicação age sobre o outro. A comunicação é, antes de qualquer coisa, mata um sequestrador que se preparava para atirar na vítima; como um ato relacionamento, interação. Por isso, a linguagem é um meio de ação recíproca, de heroísmo, quando o soldado mata o inimigo no campo de batalha; como é um meio de interagir com os outros, é um lugar de confrontações, de acordos, perda temporária da razão, quando alguém por uma forte emoção mata uma de negociações. pessoa. Essa categorização determina nossas atitudes; prendemos o assassino, Na interação, usamos a linguagem com diferentes funções. perdoamos quem foi vítima das circunstâncias; elogiamos o policial que matou A linguagem serve para informar. Essa função é denominada informativa ou o sequestrador; damos uma medalha ao referencial. Mas a língua não é só o instrumento pelo qual percebemos o mundo, não é apenas uma forma de interpretar a realidade. A língua é também o meio pelo qual O Conselho Regional de Medicina (Cremerj) proibiu a participação de médicos interagimos socialmente. No texto que segue, temos uma reprodução feita pela em partos domiciliares e nas equipes de sobreaviso, que ficam de plantão para o caso de alguma complicação. revista Veja de um diálogo travado entre Francisco de Paula Medeiros, à época (O Estado de S. Paulo, 24 de julho de 2012; A 10) diretor de produção da Petrobras, e alguns repórteres. Pergunta Qual é a finalidade de sua visita a Aracaju? Com a linguagem, armazenamos conhecimentos na memória, transmitimos Resposta Que pergunta besta. Rotina. esses conhecimentos a outras pessoas, ficamos sabendo de experiências bem- P Que poderia informar sobre a implantação da unidade de amônia e ureia sucedidas, somos prevenidos contra as tentativas malsucedidas de fazer alguma em Sergipe? coisa. Graças à linguagem, um ser humano recebe de outra pessoa conhecimentos, R Não é da minha área. aperfeiçoa-os e transmite-os. P Quais as perspectivas de aumento da produção petrolífera no Estado? A função informativa da linguagem tem uma importância central na vida das R Não sou computador. pessoas, consideradas individualmente ou como grupo social. Para cada indiví-20 Linguística? Que é isso? A linguagem humana 21 duo, ela permite conhecer o mundo; para o grupo social, possibilita o acúmulo Tristeza que vai de conhecimentos e a transferência de experiências. Por meio dessa função, a Tristeza que vem linguagem modela o intelecto. Sem você, meu amor, É a função informativa que permite que o trabalho conjunto se desenvolva. Eu não sou ninguém Operar bem essa função da linguagem possibilita que cada indivíduo continue (Baden Powell e de Moraes. Samba em prelúdio. Universal, 1963) sempre a aprender. Nesse trecho, quem fala está exprimindo seus sentimentos por causa de um Além de prestar-se à função informativa, a linguagem serve para influenciar rompimento amoroso. Com palavras, objetivamos e expressamos nossos sen- e ser influenciado. É a chamada função conativa da linguagem. timentos e nossas emoções. Exprimimos a revolta e a alegria, expressamos o Vem pra Caixa você também. sentimento amoroso e explodimos de raiva, manifestamos desespero, desdém, desprezo, admiração, dor, tristeza. Inúmeras vezes, contamos coisas que fizemos Essa frase fazia parte de uma campanha destinada a aumentar o número de para afirmarmo-nos perante o grupo, para mostrar nossa valentia ou nossa eru- correntistas da Caixa Econômica Federal. Para persuadir as pessoas a tornarem-se dição, nossa capacidade intelectual ou nossa competência na conquista amorosa. clientes da Caixa, usa-se um convite expresso numa linguagem bastante coloquial. Quando falamos ou escrevemos, transmitimos uma imagem nossa, por meio Por exemplo, emprega-se a forma vem, forma de segunda pessoa do imperativo, do tipo de linguagem que usamos, do tom de voz que empregamos, etc. em lugar de venha, forma de terceira pessoa, que, na norma culta, deveria ser Com a linguagem, objetivamos os fenômenos subjetivos, exteriorizamos o utilizada quando se usa você. que estava dentro de nós, libertamo-nos de emoções penosas. Com a linguagem, levam-se os outros a fazer determinadas coisas, a crer em Mas a linguagem não se presta somente a informar, a influenciar, a exprimir determinadas ideias, a sentir determinadas emoções, a ter determinados estados as emoções e os sentimentos. Na canção "Sinal fechado", Paulinho da Viola ex- de alma (amor, desprezo, desdém, raiva, etc.). Por isso, pode-se dizer que ela plora o tema dos encontros apressados entre velhos amigos que não se veem há modela sentimentos, emoções, paixões. muito tempo e são obrigados a conversar, sem ter muito que dizer um ao outro: Não se leva as pessoas a fazer certas coisas, apenas com a ordem, o pedido, a súplica. Há textos, como o publicitário, que nos influenciam de maneira bastante Olá, como vai? Eu indo, e você tudo bem? sutil, com tentações e seduções, dizendo-nos como seremos bem-sucedidos, Tudo bem, eu you indo, correndo, atraentes, charmosos, se usarmos determinadas marcas, se consumirmos certos pegar meu lugar no futuro. E você? produtos. A provocação e a ameaça, que são expressas pela linguagem, também Tudo bem, eu indo em busca de um sono servem para levar alguém a fazer alguma coisa. tranquilo, quem sabe? A linguagem alivia as dores, consola os aflitos, apazigua a cólera, aumenta a Quanto tempo... coragem e assim por diante. Pois é, quanto tempo... A linguagem não se destina apenas a informar e a influenciar, ela serve também (Paulinho da Viola. Sinal fechado. Philips, 1974) para expressar a subjetividade. É a denominada função emotiva da linguagem. Nesse caso, a linguagem está sendo usada na função fática, isto é, aquela que Eu sem você serve para criar laços entre as pessoas e mantê-los. Sou só desamor Quando estamos num grupo de pessoas, numa festa, por exemplo, não é Um barco sem mar cortês manter-nos em silêncio, olhando uns para os outros. Nessas ocasiões, a Um canto sem flor conversação é obrigatória, porque o silêncio poderia parecer hostil. Por isso,22 Linguística? Que é isso? A linguagem humana 23 quando não se tem assunto, fala-se do tempo, repetem-se histórias que todos falamos sobre o mundo exterior (os acontecimentos, as coisas) e o mundo interior conhecem, contam-se anedotas que todos estão cansados de saber. A linguagem, (os sentimentos, as sensações, etc.), intercalamos comentários sobre a nossa fala e nesse caso, tem como única função manter os laços sociais. Quando encontramos a dos outros. Quando dizemos, por exemplo, Desculpe a grosseria da expressão, alguém e lhe dizemos Tudo bem?, não se quer, de fato, saber se ele está bem, estamos comentando o que dissemos, estamos dizendo que não temos o hábito se está doente, se está com problemas. A fórmula é uma maneira de estabelecer de dizer uma coisa tão vulgar como a que estamos enunciando. Todos os estudos um vínculo sobre a linguagem são metalinguísticos. A gramática é, assim, a linguagem em Os hinos, como, por exemplo, o hino nacional ou os hinos dos clubes de função metalinguística. futebol, têm a função de criar um vínculo entre os habitantes de um país ou As artes são linguagens e, portanto, quando elas falam da própria arte, temos entre os torcedores. Não importa que as pessoas não entendam bem o signi- também metalinguagem. A poesia que trata da poesia é uma metapoesia, o teatro ficado da letra do hino nacional, pois ele não tem uma função informativa. O que trata do teatro é um metateatro; o cinema que trata do cinema é um metaci- que tem importância é que, ao cantá-lo, sentimo-nos participantes da comu- nema e assim por diante. nidade de brasileiros. Vejamos dois exemplos de metapoesia. O primeiro é o poema "Autopsico- A linguagem não se destina somente a informar, a influenciar, a exprimir grafia", de Fernando Pessoa, em que o poeta discute o problema do sentimento emoções e sentimentos, a criar ou manter laços sociais, mas ela serve também exposto no poema; o segundo é um soneto de Cruz e Sousa, em que o poeta co- para falar sobre a própria linguagem, como neste trecho a seguir: menta a elaboração de um soneto, destacando sua forma tradicional (os quartetos Papai, que é plebiscito? [...] e os tercetos) e os recursos poéticos (a rima, por exemplo). Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios. O poeta é um fingidor. (In: Gonçalves, 2006: 148-50) Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor Esse pequeno trecho foi retirado do conto "O plebiscito", de Artur Azevedo, A dor que deveras sente. em que se satiriza a imagem do pai sabe-tudo. O filho pergunta-lhe o que é ple- biscito e, como ele não sabe e não quer confessar sua ignorância, esbraveja que o E os que leem o que escreve, filho deveria saber e que ele está perguntando só para testar seus conhecimentos. Na dor lida sentem bem, Depois de fazer uma cena, vai para o quarto onde há um Mais tarde, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. volta para a sala e explica que plebiscito é um sistema de promulgação de leis, inventado pelos romanos, em que o povo vota diretamente determinada proposi- E assim nas calhas de roda ção. Nesse caso, pai e filho estavam usando a linguagem para explicar o sentido Gira, a entreter razão, produzido pela própria linguagem. Esse comboio de corda Quando dizemos frases como A palavra é um substantivo; É errado dizer Que se chama coração. "a gente viemos Estou usando o termo "direção" em dois sentidos; Não é mui- (1997: 176) to elegante usar estamos falando não de acontecimentos do mundo, mas estamos tecendo comentários sobre a própria linguagem. Em outros termos, Nas formas voluptuosas o Soneto estamos usando palavras para referir-nos a palavras. É o que se chama função Tem fascinante, cálida fragrância metalinguística. A atividade metalinguística é inseparável da fala. Mesmo quando E as leves, langues curvas da elegância De extravagante e mórbido esqueleto.24 Linguistica? Que é isso? A linguagem humana 25 A graça nobre e grave do quarteto Verifica-se que a linguagem pode ser usada utilitária ou No Recebe a original intolerância, Toda a sutil, secreta extravagância primeiro caso, ela é utilizada para informar, para influenciar, para manter os laços Que transborda terceto por terceto. sociais, etc. No segundo, para produzir um efeito prazeroso de descoberta de sen- tidos. Quando se usa a linguagem em função utilitária, importa mais o que se diz. E como um singular polichinelo Em função estética, o mais importante é o como se diz, pois o sentido também é Ondula, ondeia, curioso e belo, criado pelo ritmo, pelo arranjo dos sons, pela disposição das palavras, etc. O Soneto, nas formas caprichosas. Na estrofe a seguir, retirada do poema "A cavalgada", de Raimundo Correia, a sucessão de sons oclusivos, /p/, /k/, /b/, /d/, /g/, sugere o patear dos cavalos: As rimas dão-lhe a púrpura vetusta E na mais rara procissão augusta E o bosque estala, move-se, estremece... Surge o sonho das almas dolorosas.. Da cavalgada o estrépito que aumenta (1965: 190-1) Perde-se após no centro da montanha. Dois exemplos de metamúsica são os clássicos "Samba de uma nota só" e Observe-se que a maior concentração de sons oclusivos ocorre no segundo "Desafinado", ambos de Tom Jobim e Newton Mendonça. Tivemos, no Brasil, verso, quando se afirma que o barulho dos cavalos aumenta. até mesmo uma metanovela de televisão: a novela Espelho mágico, de Lauro Nos versos a seguir, do poema "Noite de S. João", de Jorge de Lima, o poeta César Muniz, apresentada, nos anos 1970, na rede Globo. Nessa novela, havia não quer transmitir aos leitores nenhuma informação sobre fogos de artifício, nem outra novela, que se chamava Coquetel de amor e que era escrita por uma das deseja levá-los a tomar cuidado com eles. O que ele quer de fato é imitar, nas personagens, um escritor de telenovelas. O que Lauro César Muniz pretendia, ao palavras, o ruído que eles fazem, para descrever seu espetáculo nos céus. Daí a discutir o fazer novelístico, era mostrar todos os de que uma novela é feita. quantidade de sons sibilantes (s/z) ou chiantes (expressos na escrita por dígrafo ch e Como há dois níveis de linguagem, a linguagem-objeto e a metalinguagem, as pela letrax), que imitam o sibilo e o chiado dos fogos, e a onomatopeia tchi bum. artes falam do mundo e, assim, nos dão a conhecer os seres humanos, a História, etc. e falam de si mesmas e, assim, nos revelam o próprio fazer artístico. delegado proibiu bombas, foguetes, busca-pés Chamalotes checoslovacos A linguagem não se presta apenas para informar, influenciar, expressar emo- enchem o chão ções e sentimentos, criar e manter laços sociais e falar da própria linguagem, ela de chamas rubras é também lugar e fonte de prazer. Chagas de enxofre chinesas Brincamos com as palavras. Os jogos com o sentido e os sons são formas de chiam tornar a linguagem um lugar de prazer. Divertimo-nos com eles. Manipulamos choram os vocábulos para deles extrair cheiram Oswald de Andrade, em seu manifesto diz Tupi or not tupi. numa nuvem de chispas, chispas de todos os tons Trata-se de um jogo com a frase shakespeariana To be or not to be. Conta-se que listas de todas as cores Emílio de Menezes, quando soube que uma mulher muito gorda sentara-se no e no fim banco de um ônibus e este quebrara, fez o seguinte trocadilho: É a primeira vez sempre um que vejo um banco quebrar por excesso de fundos. A palavra banco está usada Tchi bum! em dois sentidos: "móvel comprido para sentar-se" e "casa bancária". Também (1997: 218) está empregado em dois sentidos o termo fundos: "nádegas" e "capital, dinheiro".26 Linguística? Que é isso? A linguagem humana 27 A linguagem não se presta somente para perceber o mundo, para categorizar por exemplo, abanca, indio velho, mate, tchê. De outro, mostra sua franqueza a realidade, para propiciar a interação social, para informar, para influenciar, para rude: por exemplo, quando diz que não vai curar angústia do paciente, mas vai exprimir sentimentos e emoções, para criar e manter laços sociais, para falar da mudar o mundo ou quando afirma que o paciente é mais complicado que receita própria linguagem, para ser fonte e lugar de prazer, mas serve também para esta- de creme Assis Brasil. belecer uma identidade social. O uso de uma determinada variedade linguística marca a inclusão num dado Te abanca, índio velho, que tá incluído no preço. grupo social e dá uma identidade a seus membros. Aprendemos a distinguir as Ai diz o paciente. diversas variedades e, quando alguém começa a falar, sabemos se a pessoa é um Toma um mate? gaúcho, um carioca, um paulista e assim por Sabemos que certas expressões geme o paciente. pertencem à fala dos mais jovens; outras indicam que o falante tem mais idade. Respira fundo, Enche o bucho que passa. As variantes linguísticas conferem uma identidade às pessoas, sejam elas pessoas O paciente respira O analista de Bagé pergunta: do mundo real ou personagens, que são pessoas de ficção. Agora, qual é o causo? É depressão, doutor. Ridicularizar a variante usada por alguém é uma atitude muito agressiva, pois O analista de Bagé tira uma palha de trás da orelha e começa a enrolar um cigarro. estamos zombando do próprio ser das pessoas. Existe um julgamento social sobre Tô te ouvindo diz. as variantes: algumas são consideradas elegantes e outras, feias. Do estrito ponto É uma coisa existencial, entende? de vista linguístico, não existem formas feias ou bonitas, pois elas se equivalem. Continua, no más. Escarnecer de alguém, por causa da variante linguística utilizada, é mostra de Começo a pensar, assim, na finitude humana em contraste com o infinito cósmico... preconceito, de dificuldade de conviver com as diferenças. Mas tu é mais complicado que receita de creme Assis Brasil. As recorrências de traços linguísticos da expressão (por exemplo, ritmos, E então tenho consciência do vazio da existência, da desesperança inerente rimas) e do conteúdo (por exemplo, seleção lexical, construção de personagens), à condição humana. E isso me angustia. isto é, o estilo, criam uma imagem do falante. Paulo Mendes Campos tem uma Pos vamos dar um jeito nisso agorita diz o analista de Bagé, com uma crônica, em que mostra que um mesmo fato pode ser narrado de diferentes pon- baforada. tos de vista, empregando diferentes estilos. O fato é o seguinte: "o corpo de um O senhor vai curar a minha angústia? homem de quarenta anos presumíveis é encontrado de madrugada pelo vigia de Não, vou mudar o mundo. Cortar o mal pela mandioca. uma construção, à margem da Lagoa Rodrigo de Freitas, não existindo sinais de (Verissimo, 15-16) morte violenta". Observe-se um dos estilos: Luis Fernando Verissimo criou uma personagem, que se tornou um clássico do Estilo reacionário humor brasileiro, o analista de Bagé. O analista, embora não seja nada ortodoxo Os moradores da Lagoa Rodrigo de Freitas tiveram na manhã de hoje o profundo na análise da alma humana, diz-se um freudiano "mais ortodoxo do que caixa desagrado de deparar com o cadáver de um vagabundo que foi logo escolher para de maisena". Trata os problemas dos pacientes como quem amansa cavalo. É morrer (de bêbado) um dos bairros mais elegantes desta cidade, como se já não um gaúcho de uma franqueza rude, que considera bobagem todos os problemas bastasse para enfear aquele local uma sórdida favela que nos envergonha aos psíquicos. A identidade do analista é criada pela linguagem e na linguagem. De olhos dos americanos que nos visitam ou que nos dão a honra de residir no Rio. um lado, ele usa a variedade regional gaúcha em sua fala: tratamento com o pro- (1979: 32) nome tu, concordando com a terceira pessoa; perda das semivogais em ditongos O mesmo fato, contado por um reacionário ou por um progressista, é muito de palavras como pois e mais, que se tornam pos e mas; léxico regional, como, diferente. Dizer o corpo ficou às margens da Lagoa é muito diferente de dizer o28 Que é isso? A linguagem humana 29 corpo ficou ali entregue às moscas que pululam naquele perigoso foco de epidemia; A ordem acontece, quando alguém enuncia ordeno; a aposta efetiva-se, quando dizer corpo de um homem é distinto de cadáver de um vagabundo. A linguagem alguém declara aposto; a sessão se abre, quando alguém diz declaro aberta a cria a imagem de um reacionário ou de um opositor aos governantes. sessão. Esses atos se realizam de muitas formas: uma ordem se dá também É preciso muito cuidado para não rotular alguém disso ou daquilo, pois a quando se usa um imperativo (por exemplo, Saia daqui), um pedido efetua-se identidade é móvel, não é fixa. Uma pessoa ora é reacionária, ora é progressista; quando se diz, por exemplo, Uma esmola pelo amor de Deus. Muitas vezes, ora mostra-se durona; ora sensível. Por outro lado, ela pode simular uma imagem esses atos efetivam-se de maneira indireta. Por exemplo, se alguém, no inverno, que quer transmitir a seus interlocutores. Por isso, é frequente encontrar pessoas entra numa sala, cujas janelas estão todas abertas, e diz Está muito frio aqui, que mudam o que dizem conforme o meio em que estão. ele não estará constatando a temperatura ambiente, mas estará certamente pe- A linguagem não se destina apenas a perceber o mundo, a categorizar a realida- dindo que se fechem as janelas. O mesmo acontece quando a mãe diz ao filho de, a servir de instrumento de interação social, a informar, a influenciar, a exprimir Seu quarto está uma bagunça. Nesse caso, ela não estará constatando o estado sentimentos e emoções, a criar e a manter laços sociais, a falar da própria linguagem, de arrumação do quarto, mas ordenando que ele seja arrumado. O falante tem a ser fonte e lugar de prazer, a forjar uma identidade para o falante, mas é também uma grande capacidade de compreender esses atos de fala indiretos: se alguém uma forma de ação. pergunta Você sabe onde fica a não está solicitando que o outro diga se sabe ou não a localização desse lugar, mas está pedindo que lhe seja expli- a) Depois da chuva, apareceu um bonito arco-íris. cado onde se localiza. Seria muito estranho que diante de tal pergunta a pessoa b) Peço desculpas por ter chegado atrasado. respondesse apenas Sei. Além dos atos que se realizam ao dizer, há outra forma de agir no mundo pela A primeira frase fala de um evento do mundo, o aparecimento de um linguagem. São os atos produzidos não ao dizer, mas em consequência do dizer. arco-íris depois da Pode, por isso, ser submetida à prova da verdade. Cecília Meireles mostra isso no belo poema "Romance das palavras aéreas", de O acontecimento mostrado por ela pode estar ou não de acordo com o que que vamos reproduzir alguns versos: acontece no mundo. Se, de fato, apareceu um arco-íris depois da chuva, a frase é verdadeira. Em caso contrário, é falsa. Já a segunda frase não relata Ai, palavras, ai, palavras, um evento do mundo, é a realização do ato de pedir desculpas. Portanto, ela Que estranha potência a vossa! não pode ser submetida à prova da verdade, pois, quando alguém pede des- Todo sentido da vida culpas, não se pergunta se o ato é verdadeiro ou falso. A pessoa está, de fato, principia à vossa porta; o mel do amor cristaliza pedindo desculpas. O ato pode ter sucesso ou não. Só terá sucesso se forem seu perfume em vossa rosa; observadas certas condições: por exemplo, a pessoa que pede desculpas deve sois o sonho e sois a audácia, ser a mesma que ofendeu alguém, porque um pedido de desculpas feito por calúnia, fúria, derrota... uma terceira pessoa não vale. Na língua, temos enunciados que servem para fazer uma constatação a res- A liberdade das almas, peito dos eventos ou dos estados do mundo e temos outros que são a realização ai, com letras se elabora... E dos venenos humanos de um ato. Isso quer dizer que a linguagem é também uma forma de ação, pois sois a mais fina retorta [...] há determinados atos que se realizam quando se diz um determinado enunciado. Reis, impérios, povos, tempos, São exemplos de atos que acontecem ao dizer: Ordeno que você saia daqui; Pelo vosso impulso rodam Aposto dez reais como você não consegue fazer isso; Declaro aberta a (1985: 493)30 Linguística? Que é isso? A linguagem humana 31 A poeta vai, nesse poema, falar do poder da palavra. Ela serve para o bem e têm que rolar seu destino de pedra para o resto para o mal, isto é, as consequências que ela produz são positivas ou negativas. dos tempos. Com a palavra, declaramos amor; com ela, caluniamos e, assim, destruímos o Só as palavras não foram castigadas com a ordem natural das coisas. outro; com ela, mostramos nossa audácia; com ela seduzimos e fazemos que As palavras continuam com seus deslimites. o outro se enamore de nós; com ela, ampliamos nossa mente e, assim, liberta- (Barros, 1998: 77) mos nossa alma; com ela, magoamos, espezinhamos, humilhamos e, por isso, ela é a mais fina retorta dos venenos humanos; com ela, concebemos novos O poeta Manoel de Barros fala do tempo em que as coisas não tinham limites. projetos sociais, novas utopias e, por isso, derrubamos a tirania; alteramos os Nele, tudo podia acontecer: urubus conversavam sobre auroras, pessoas viravam sistemas políticos, criamos novos tempos; com ela, sonhamos em construir árvores, pedras se transformavam em rouxinóis e assim por diante. O poeta mostra uma nova vida; com ela, fazemos planos; com ela, elogiamos e apoiamos e, acontecimentos impossíveis, como a mãe dizer à filha que ela iria parir uma árvore assim, incitamos os outros a seguir em frente; com ela, corrigimos; com ela, para que comessem goiaba nela e isso acontecer ("e comeram goiaba") ou alguém repreendemos. O que podemos fazer em consequência daquilo que dizemos desejar (= encostar em ser) ser ave e ganhar o poder de voo, para revelar é ilimitado. que não havia limites para os acontecimentos. Depois, veio a ordem natural das A linguagem é uma forma de o homem agir no mundo, porque há ações que coisas e as pedras têm que rolar seu destino de pedra para o resto dos tempos, se realizam ao dizer e ações que ocorrem em consequência do que se diz. isto é, cada coisa tem uma função no mundo. No entanto, as palavras não foram A linguagem não se presta apenas para perceber o mundo, para categorizar a castigadas com essa ordem natural, elas continuam, segundo o poeta, com seus realidade, para realizar interações, para informar, para influenciar, para exprimir deslimites. Nesse belo poema, o que o poeta nos mostra é que as palavras, ou sentimentos e emoções, para criar e manter laços sociais, para falar da própria seja, a linguagem, não são um decalque do mundo, não se limitam a reproduzir linguagem, para ser lugar e fonte de prazer, para estabelecer identidades, para agir a ordem natural das coisas, mas são um instrumento com que os homens podem no mundo, mas também para criar novas realidades: criar as realidades que bem entenderem. Esse poder criador da linguagem está A menina apareceu grávida de um gavião. presente nas narrativas religiosas. Na Bíblia, conta-se que Deus cria o mundo pela Veio falou para a mãe: o gavião me desmoçou. linguagem: "Deus disse: Faça-se a luz. E a luz foi feita" 1,3). A mãe disse: Você vai parir uma árvore para A linguagem não fala apenas daquilo que existe, fala do que nunca existiu. a gente comer goiaba nela. Com ela, imaginamos novos mundos, outras realidades. Essa é a grande função E comeram goiaba. da arte, que é um modo de organização da linguagem: mostrar que outras manei- Naquele tempo de dantes não havia limites ras de ser são possíveis, que outros universos podem existir. O famoso filme de para ser. Se a gente encostava em ser ave ganhava o Woody Allen A rosa púrpura do Cairo mostra isso de maneira bem expressiva. poder de Nele, conta-se a história de uma mulher, que tinha um cotidiano muito sofrido Se a gente falasse a partir de um córrego e que era maltratada pelo marido. Por isso, ela refugia-se no cinema, assistindo a gente pegava murmúrios. a filmes de amor, onde a vida é glamorosa. Um dia, o sai da tela e eles vão Não havia comportamento de estar. viver juntos uma série de aventuras. Nessa outra realidade, os homens são gentis, Urubus conversavam sobre auroras. a vida não é monótona, o amor nunca diminui e assim por diante. Pessoas viravam árvore. Pedras rouxinóis. Uma função importante da linguagem é seu poder de criar realidades, que Depois veio a ordem das coisas e as pedras revelam os anseios, os temores, as expectativas do homem da época em que foram criadas. O homem pode criar uma realidade futura, como em muitos fil-32 Linguística? Que é isso? A linguagem 33 mes de ficção científica, em que a terra é um lugar sombrio, poluído, dominado o homem. Nos primórdios da marcha do homem sobre a Terra, os mitos tentam por gangues que impõem a lei do mais forte (veja, por exemplo, o filme Duna). explicar as origens da linguagem e a diversidade das línguas. Isso revela a angústia com a destruição do meio ambiente e com a quebra das No Gênese, vê-se que a linguagem é um atributo da divindade, pois o Criador normas sociais. Pode construir realidades em que os computadores dominam dela se vale, quando realiza sua obra. No primeiro relato da criação, Deus cria o os homens (veja, por exemplo, o filme 2001, uma odisseia no espaço), o que mundo falando. No início, não havia nada. Depois, há o caos. mostra a angústia diante das aceleradas mudanças produzidas pelas novas tecno- logias. Também o homem pode idealizar o passado. Criar novos espaços, como No princípio, criou Deus o céu e a terra. A terra, contudo, estava vazia e vaga e as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas. 1-2) a Terra Média, que aparece no Senhor dos Anéis, de Tolkien; a Ilha dos Amores, onde os navegantes portugueses, segundo a epopeia Os de Camões, A passagem do caos à ordem (= cosmo) faz-se por meio de um ato de lingua- encontram muitos prazeres e descansam depois das fadigas da expedição de gem. É esta que dá sentido ao mundo. O poder criador da divindade é exercido Vasco da Gama. Criam-se com a linguagem personagens, que nos ensinam a pela linguagem, que tem, no mito, um poder ilocucional, já que nela e por ela se conhecer melhor os seres humanos: por exemplo, Dona Flor, de Dona Flor e ordena o mundo. seus dois maridos, de Jorge Amado, que mostra o desejo dos seres humanos de conciliar o trabalho e o prazer, pois o primeiro marido é Vadinho, o sujeito Deus disse: Faça-se a luz. E a luz foi feita. E viu Deus que a luz era boa: e separou folgazão, que representa o princípio do prazer, enquanto o segundo, Teodoro, é a luz e as trevas. Deus chamou a luz dia e as trevas noite; fez-se uma tarde e uma um homem metódico, que é a imagem do trabalho. A linguagem permite criar manhã, primeiro dia. 3-5) as realidades que quisermos, pois ela não está submetida, como nos diz Manoel Até o quinto dia, o Senhor vai criando linguisticamente o mundo. No sexto, de Barros, aos limites da ordem natural das coisas. Ela dá ao homem o poder depois de fazer os animais da terra, cria o homem. considerado divino de criar universos. Depois de analisar todas as funções da linguagem, compreende-se por que ela Façamos o homem a nossa imagem e semelhança; e que ele domine os peixes é onipresente. Sem ela, não se pode estruturar o mundo do trabalho, pois é ela que do mar, e as aves do céu, e os animais da terra, e todo réptil, que se move na permite a cooperação entre os homens e a troca de informações e de experiências. terra. E Deus criou o homem a sua imagem; à imagem de Deus criou-o, macho e fêmea criou-os. 26-7) Sem ela, o homem não pode conhecer-se nem conhecer o Sem ela, não se exerce a cidadania, porque os eleitores não podem influenciar o governo. Sem Mas há, no primeiro livro da Bíblia, uma segunda narrativa da criação, o ho- ela não se pode aprender, sem ela não se podem expressar os sentimentos, sem ela mem é feito de barro, portanto, não mais com a linguagem, mas com o trabalho não se podem imaginar outras realidades, sem ela não se constroem as utopias e das mãos: os sonhos. Sem ela... Sem Sem ela... Então, o Senhor Deus modelou o homem com o barro da terra, e soprou-lhe no rosto o sopro da vida, e o homem tornou-se um ser vivo. 7) A reflexão sobre a linguagem O mito mostra que as duas categorias fundadoras do cosmo, do sentido, são a linguagem (primeiro relato da criação) e o trabalho (segunda narrativa). Aliás, Por esse papel tão importante é que sempre "a linguagem cativou o homem nesta, não só o homem foi feito de barro, mas também os outros animais. O que enquanto objeto de deslumbramento e de descrição na poesia e na ciência" (Hjelmslev, 1975: 1-2). Se ela está presente em todas as atividades humanas, se diferencia aquele destes é que o homem é composto de dois princípios distintos: o barro da terra (corpo) e o sopro de Deus (alma). A mulher foi feita de uma cos- é constitutiva do estar do homem no mundo, conhecer a linguagem é conhecer34 Que é isso? A linguagem humana 35 tela de Adão. Quando o Criador leva a mulher ao homem, este realiza um ato de de línguas de fogo. Isso permitiu aos apóstolos seja falar todas as línguas linguagem, um ato de denominação. de seus ouvintes, vindos de diferentes países ("... e começaram a falar em várias línguas". Atos, 4), seja serem compreendidos pelos ouvintes como Depois, o Senhor Deus transformou a costela, que tirara de Adão, numa mulher se falassem a língua de cada um ("porque cada um ouvia-os falar em sua e levou-a para Este disse: "Este é o osso de meus ossos, a carne de minha carne: será chamada mulher, porque foi tirada do homem". É por isso que o ho- própria língua"). mem deixará seu pai e sua mãe e se unirá a sua e eles serão dois numa Espantavam-se todos e maravilhavam-se, Por acaso todos estes homens só carne. 22-4) que falam não são galileus? Como ouvimos cada um nossa língua materna? Os Partos, e os Medas, e os Elamitas, e os que habitam a Mesopotâmia, a Judeia, A língua adâmica é uma faculdade divina dada ao homem, para que ele, de- a Capadócia, o Ponto e a Ásia, a Frígia e a o Egito e a parte da Líbia, nominando cada uma das coisas criadas, apreenda o À proporção que que é próxima de Cirene, e os Romanos que estão aqui, também os Judeus e os Adão descobre o mundo, denomina os seres, pois uma coisa só existe na medida Prosélitos, e os Cretenses e os Árabes: ouvimo-los falar em nossas línguas as em que tem um nome, ou seja, entra no universo da linguagem. maravilhas de Deus. (Atos, II, 6-11) Disse também o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só, façamos-lhe Pode-se entender que os apóstolos falavam numa espécie de "esperanto um auxílio semelhante a ele. Tendo formado o Senhor Deus do barro todos os místico", numa língua que reconstitui a língua adâmica (Yaguello, 1984: 31). animais da terra e todas as aves do céu, levou-os para Adão, para que visse como Esse episódio é muito importante, porque, se, com a morte de Cristo, os homens os chamaria; cada um deveria portar o nome que Adão lhe tivesse dado. E chamou receberam a salvação e, assim, tiveram a possibilidade de anular as maldições da Adão por seus nomes todos os animais, e todas as aves do céu, e todas as feras da terra. (II, 18-20) primeira queda, com o milagre de Pentecostes, um termo à maldição da segunda queda: à diversidade das línguas opõe-se aqui a unidade, e, dessa forma, O episódio da torre de Babel explica o mistério da diversidade das línguas. Os o ciclo do mito completa-se. homens pretenderam fazer uma torre que chegasse aos céus. Deus foi ver o que Observe-se a explicação sobre a origem do mundo e da linguagem dada por eles faziam e não aceitou sua pretensão. Como castigo, provocou a confusão das uma sociedade bem diversa: línguas. A diversidade linguística é vista, então, como maldição, como castigo à soberba dos homens. Uma das grandes escolas de iniciação da savana sudanesa, o Komo, diz que a palavra (kuma) era um atributo reservado a Deus, que por ela criava as coisas: Todos se serviam da mesma língua e das mesmas palavras. [...] Disseram-se uns que Maa Ngala (Deus) diz No começo, só havia um vazio vivo, vivendo aos outros: Vinde, façamos tijolos e cozamo-los no fogo. Os tijolos serviram-lhes da vida do Ser. Um que se chama a si mesmo Maa Ngala. Então ele criou Fan, de pedra e o betume, de cimento. Disseram: Vinde, façamos uma cidade e uma o ovo primordial, que, nos seus nove compartimentos, alojava nove estados torre, cujo cume atinja o céu. Celebremos nosso nome antes que nos dispersemos fundamentais da existência. Quando esse ovo abriu, as criaturas que daí saíram por toda a terra. Ora, Deus desceu para ver a cidade e a torre que os filhos de eram mudas. Então para se dar Maa Ngala tirou uma parcela de Adão edificavam e disse: Eis que todos são um só povo e falam uma única língua. cada uma das criaturas, misturou-as e por um sopro de fogo que emanava dele Começaram a fazer isto e não desistirão, até que tenham completado sua obra. mesmo, constituiu um ser à parte: o homem, ao qual deu uma parte de seu próprio Vamos, desçamos e confundamos sua língua, para que um não entenda mais a nome (Maa). (Petter, 2002: 11) voz do outro. 18-9) Os dois mitos expostos anteriormente, engendrados em sociedades muito di- No Novo Testamento, aparece o relato do chamado milagre de Pentecostes. ferentes, narram a origem da linguagem de maneira muito próxima: a linguagem A narrativa conta que o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos sob a forma é um atributo da divindade, que é concedido ao homem. Aliás, o mito vai mais36 Linguística? Que é isso? A linguagem humana 37 longe. No início do Evangelho de São João, que serve de epígrafe a este texto, determinados pelo uso. Assim, está inaugurada a disciplina gramatical, que tem diz-se que a linguagem não só estava em Deus, mas ela era o próprio Deus. por objeto a sistematização dos fatos da língua. A filosofia fornece-lhe as bases Mais tarde aparece a reflexão linguística, que é feita pelos filósofos. Por teóricas. A língua vai pouco a pouco sendo considerada autônoma: primeiro, da exemplo, Platão, no Crátilo, estuda o estatuto do nome, algo que não é a própria realidade; em seguida, das categorias do pensamento. Isso possibilita, nas con- coisa. Como instrumento e imagem, ele implica a natureza e a convenção. Com dições históricas particulares do período helenístico, o levantamento dos fatos isso, começa a delinear-se o problema da significação. Se a linguagem conduz a concretos do uso correto e eficiente da língua. E, a partir daí, o estabelecimento alguma coisa fora de si, o nome é um signo e, portanto, pode-se analisar seu sig- das classes de palavras e de suas flexões não mais como suporte das categorias nificado. Em Platão, o nome é o lógos da coisa e o discurso é o lógos da relação da lógica, mas como uma realidade em si. Nas condições particulares de sua entre as Surge o problema da adequação entre a linguagem e a realidade. emergência, a gramática é normativa. Ela separa-se da filosofia, que fica sendo No Crátilo, o nome tem uma relação de semelhança com a coisa nomeada, o que o domínio dos conceitos, já que a linguagem é um domínio específico, uma vez implica certo grau de representação. No Sofista, a adequação não é buscada nos que ela não é uma imagem fiel das relações dialéticas (Cf. Neves, 2005). termos, mas em sua articulação, que é um reflexo do acordo existente entre as A gramática foi o modelo de reflexão linguística durante toda a Antiguidade, espécies. Nesse lógos discursivo, não há convenção, pois a articulação das partes a Idade Média e parte da Idade Moderna. Depois surge a filologia: da proposição revela a articulação das essências. A representação das essências, feita pelos nomes, permite certo grau de convenção, o que não acontece no dis- Já em Alexandria havia uma escola "filológica", mas esse termo se vinculou sobretudo ao movimento criado por Friedrich August Wolf a partir de 1777 e que curso, pois a relação entre as espécies é natural e, por conseguinte, universal (Cf. prossegue até nossos dias. A língua não é o único objeto da Filologia, que quer, Neves, 2005). antes de tudo, fixar, interpretar, comentar os textos; esse estudo a leva a se ocupar No período helenístico, as condições históricas propiciam a instituciona- também da história literária, dos costumes, das instituições, etc.; em toda parte lização de uma disciplina gramatical, pois ele é marcado por um intenso plu- usa seu método próprio, que é a crítica. Se aborda questões linguísticas, fá-lo rilinguismo, ou seja, um confronto de línguas e culturas. Ora, esse ambiente sobretudo para comparar textos de diversas épocas, determinar a língua peculiar plurilíngue, ao invés de produzir uma profunda mescla de cultura, intensifica de cada autor, decifrar e explicar inscrições redigidas numa língua arcaica ou (Saussure, 1969: 7-8) o zelo de preservação da língua considerada mais pura e elevada, o grego. Exalta-se o ideal helênico contra os bárbaroi. Isso implica o exame atento dos Mais modernamente constitui-se a Linguística como ciência da linguagem. fatos linguísticos, aqueles revelados pelo uso concreto da língua, bem como o A Linguística é uma ciência, porque ela, ao contrário da gramática, não se pre- estabelecimento de padrões normativos para a língua que constitui, na visão tende normativa (não tem por finalidade prescrever como se deve dizer), mas se helênica, o modelo mais elevado de analogia, o grego. O helenismo precisa ser quer descritiva e explicativa (tem por objetivo dizer o que a língua é e por que é difundido; a língua grega, ensinada, para ser preservada da corrupção. O ensino assim). Assim como um químico não diz que uma reação é certa ou errada, um de padrões linguísticos implica o estabelecimento dos quadros da gramática, que biólogo não declara que determinada espécie não deveria existir ou que ela é feia, é a exposição das analogias no âmbito das formas linguísticas. O modelo dessas um astrônomo não classifica os corpos celestes em bons e maus, um linguista formas são os autores clássicos. No entanto, é curioso o mundo dos conceitos. não condena certas maneiras de falar, não as declara inexistentes, não prescreve Assim como nas narrativas só existe o herói porque há o vilão, a analogia só como se deve falar, mas procura descrever e explicar as construções, as formas. pode ser estabelecida, quando se tem em vista a anomalia. Ambas supõem-se e Por exemplo, explicar por que aparece o chamado gerundismo, por que se usa o explicam-se. Ademais, a ideia de língua comum (a koiné) está na base da codifi- pronome em função de objeto direto em lugar dos pronomes que serviam para cação das noções gramaticais e associa-se à noção de norma. Estabelecem-se os expressar essa função sintática, o, a, os, as. quadros de flexão como paradigmas; mapeiam-se os desvios e as irregularidades38 Linguística? Que é isso? A linguagem humana 39 A Linguística, ao contrário da Filologia, ocupa-se principalmente da linguagem b) Na fala, ocorre uma alternância dos papéis de falante e de ouvinte. O oral. Muitas vezes, pensa-se que a escrita seja uma simples transcrição da fala. receptor pode interromper o emissor a qualquer momento e tomar a pala- Na verdade, a relação entre elas é muito mais complexa. São duas modalidades vra. Este, por sua vez, usa certas estratégias para manter a palavras (por distintas. Cabe lembrar, em primeiro lugar, que a oralidade é condição necessária, exemplo, prolongar uma vogal, enquanto procura uma palavra), busca porém não suficiente, da fala. Quando lemos, por exemplo, um texto previamente anuência do interlocutor (diz, por exemplo, cê não acha?), escrito, temos manifestação oral da linguagem, mas não temos a construção de solicita-lhe colaboração (por exemplo, como é mesmo que se diz?), etc. um texto falado. Na escrita, não ocorre essa alternância de papéis. Mesmo quando nela se Quando se elabora um texto, ele é feito para alguém, que é seu receptor. O cria um diálogo, trata-se de uma simulação e não de um diálogo real com texto falado é recebido ao mesmo tempo que é elaborado. Enquanto o emissor vai suas interrupções, superposições de vozes, tentativa de segurar a palavra, construindo o texto, o receptor vai ouvindo-o. Na escrita, é diferente, pois o texto marcas da presença do outro, etc. é lido só depois de ter sido escrito, depois de estar pronto. Dessa característica c) Na fala, o planejamento e a execução do texto são concomitantes. Por resultam várias distinções entre um texto escrito e um texto falado. isso, o texto falado caracteriza-se por um grande número de pausas, frases truncadas, repetições, correções, períodos começados e abandonados para a) Na fala, a recepção ocorre no interior de uma situação de interlocução, ou iniciar outro, desvios, voltas, acelerações. O texto escrito não apresenta seja, dentro de uma cena enunciativa, que compreende dois participantes (os marcas de planejamento e de execução. O produto é apresentando pronto interlocutores) e se passa num determinado tempo e num dado lugar. Essa ao leitor e não em elaboração como na fala. Na versão final do texto escrito, cena é a instância de instauração de um eu (pessoa que fala), um tu (a pessoa são abandonadas as marcas da construção do texto. Nele, não aparecem com quem se fala), um aqui (o lugar onde está o eu), um agora (o momento hesitações, truncamentos, correções, etc. em que o eu toma a palavra). A partir do eu/aqui/agora, ordenam-se todas d) Na fala, empregam-se períodos mais curtos e mais simples. Na escrita, as pessoas, os tempos e os espaços colocados no discurso. Ora, na fala, não eles são mais longos e complexos. Nesta, usam-se mais orações subordi- é preciso explicar ao interlocutor a que o emissor se refere, quando diz eu, nadas. As unidades de sentido de um texto escrito são os parágrafos, os aqui, agora, hoje, lá, ele, etc. O sentido desses elementos linguísticos capítulos, etc. No texto falado, são os turnos (intervenção de cada falante) é retirado da própria situação de interlocução. Por outro lado, o receptor e os tópicos (assuntos de que se fala). entende os sentidos que se referem à situação. Se alguém diante do carro e) Na fala, há um grande envolvimento do interlocutor no texto do outro. parado, com o capô aberto, diz: Droga! Mandei ver o motor semana passada, Ele colabora em sua elaboração, participa dela com sugestões, diz que não precisa explicar que se trata do motor do carro. Da mesma forma, se isso compreendeu, assente na continuação, etc. Há uma série de marcadores for dito diante da enceradeira, a referência do termo motor será outra. Como conversacionais que servem para indicar esse envolvimento do interlo- a comunicação na escrita se dá fora da situação de interlocução, é preciso cutor: hum, hum!, certo!, claro!, ah, O falante monitora o acompa- recriar a cena enunciativa, a situação, para que o receptor compreenda quem nhamento do interlocutor (por exemplo, você está me entendendo?). Essa está falando, que semana foi mencionada como semana passada, quais são as participação do interlocutor é tão intrínseca ao texto falado que, quando, referências situacionais dos sentidos. É por isso que, numa carta, por exemplo, por exemplo, se fala ao telefone e a outra pessoa não diz nada, imediata- é imprescindível que se mencionem o lugar e a data em que o texto foi pro- mente se lhe pergunta: alô, você está ouvindo? No texto escrito, não há duzido, que se assine o texto e que se contem todos os elementos situacionais esse envolvimento da parte de um interlocutor. cuja omissão não permite entender o sentido do que é dito.40 Linguística? Que é isso? A linguagem humana 41 Muitas pessoas dizem que, num texto escrito, podem-se admitir quando muito tras abelhas, tornando-se um motor para a ação. Benveniste, num clássico texto variantes lexicais, mas, em hipótese alguma, variantes de outros planos da língua, intitulado Comunicação animal e linguagem humana (1976: 60-7), diz que as pois elas constituem erro. A questão é mais complexa. No trato com as variantes, abelhas têm a capacidade de formular e interpretar um "signo", que remete a certa devemos substituir o par certo/errado pela dicotomia adequado/inadequado. Com "realidade"; elas têm a memória da experiência e a aptidão de decompô-la. No efeito, cada variante é mais adequada para uma determinada situação de interlocução entanto, a comunicação das abelhas não é linguagem no sentido humano, aquela e, portanto, a um dado gênero do discurso. Por isso, na construção de uma perso- que é objeto da Linguística. As abelhas não conhecem o diálogo, que é condição nagem de um romance, por exemplo, não se pode atribuir-lhe aleatoriamente uma da linguagem humana. Assim, suas mensagens não provocam uma resposta lin- variedade linguística. As variedades criam uma identidade para o narrador e para guística, mas uma conduta. Não há reação linguística à mensagem: ela não pode as personagens: por exemplo, não se faz um peão da fronteira do extremo sul do ser reproduzida por outra abelha, que vá a outra colmeia levar uma mensagem país falar como um adolescente carioca. Uma variedade cria um efeito de sentido, que tenha recebido de outra abelha. Ela não constrói uma mensagem a partir de pois se ajusta a um lugar, a um tempo, a uma situação de interlocução, a um grupo outra mensagem, mas a partir de um dado da realidade. Sua comunicação refere-se social. Um bom falante da língua é o que sabe usar a variedade adequada à situação sempre a um dado objeto, não há comunicação referente a um dado linguístico, de comunicação. É tão inadequado dizer, num bate-papo de botequim, Fi-lo ao meu as abelhas não têm metalinguagem. O conteúdo da mensagem se refere sempre alvedrio, quanto, num depoimento na Câmara dos Deputados, afirmar Fiz pruque a um dado da realidade, a existência de uma fonte de alimento. A linguagem me deu na humana é uma mistura livre e infinita de referência à realidade objetiva e de reação às manifestações linguísticas. Ela propicia um substituto da experiência que pode ser transmitido indefinidamente no espaço e no tempo. Na linguagem Linguagem humana e linguagem animal humana, não há relação necessária entre referência objetiva e forma linguística. A linguagem não fala apenas do que existe, fala também do que nunca existiu. Temos ouvido falar de experiências científicas que comprovam que os A mensagem das abelhas tem um conteúdo global que não se deixa analisar em animais são dotados de capacidade de linguagem. São primatas que aprendem unidades menores. A linguagem humana é analisável em elementos menores (uni- centenas de palavras, são abelhas que se comunicam, animais domésticos que dades mínimas dotadas de forma fônica e sentido, que se combinam para formar entendem o que lhes dizemos. Pensemos melhor a questão. Em Através do palavras; sons que se combinam para constituir as unidades dotadas de sentido). espelho, de Lewis Carroll: O princípio que rege a linguagem humana é a criatividade, que está ausente da comunicação animal. Os animais não têm linguagem, têm código de sinais, cujas É um hábito muito inconveniente dos gatinhos (Alice já tinha observado isso) características são sentidos fixos, invariabilidade das mensagens, referência a uma responderem sempre com um ronrom a qualquer coisa que se diga. "Se ao menos eles fizessem rom para 'sim' e miau para 'não', ou qualquer coisa desse tipo", ela dada realidade, natureza indecomponível do enunciado e transmissão unilateral. se dizia, "então já se podia continuar uma conversa. Mas como conversar com Portanto, a Linguística não se ocupa da "linguagem" animal. alguém que sempre diz a mesma coisa?". (1980: 245) A linguagem é comum a todos os homens. Não há diferença de natureza entre as línguas. As distinções entre elas são culturais. Não há línguas simples e Não se nega que os animais tenham uma forma de comunicar-se. As abe- línguas complexas. Todas são igualmente simples e complexas. Todas as línguas lhas, por exemplo, são capazes de produzir e entender uma mensagem, com três têm determinadas propriedades e características, que são universais: informações: existência de uma fonte de alimentos, sua distância e sua direção. Podem, pois, registrar relações de posição e distância, conservá-las na memória, a) têm dupla articulação (poucos sons que se combinam para formar unidades comunicá-las por meio de certos movimentos, que são compreendidos pelas ou- dotadas de sentido, que, por sua vez, se combinam formando enunciados);42 Linguística? Que é isso? A linguagem humana 43 b) constituem sistemas cujas unidades se definem umas em relação às outras; Poderíamos continuar a dar exemplos de formas de abordagem do fenômeno da c) são convencionais os signos linguísticos; linguagem, mas cremos que os elementos expostos anteriormente são suficientes d) comportam (excesso de meios em relação às informações para mostrar que a linguagem é, como dizia Saussure, "multiforme e transmitidas); está "a cavaleiro de diferentes domínios"; é, "ao mesmo tempo, física, fisiológica e) apresentam ambiguidades, dissimetrias, irregularidades; e psíquica"; "pertence [...] ao domínio individual e ao domínio social" (1969:17). f) produzem infinitos enunciados a partir de regras infinitas; A Linguística moderna, na verdade, criou cinco grandes objetos teóricos, que g) estão em perpétua mudança; serão examinados nos capítulos que seguem: a língua, a competência, a variação, h) permitem a invenção, a criatividade, o deslocamento de sentido, o jogo; a mudança e o uso. i) são estruturadas em três níveis, o dos sons, o da gramática e o do léxico; j) são lineares os significantes (um som tem que vir depois do outro); k) são constituídas de unidades discretas (unidades distintas umas das outras, Nota isoláveis, segmentáveis). Em seu célebre estudo a respeito das funções da linguagem, Jakobson diz que a comunicação tem seis fatores: contexto, remetente, mensagem, destinatário, contato e código. Cada um desses fatores determina uma função da linguagem. Quando a mensagem está para o contexto, ela tem uma função referencial; para o remetente, Os objetos da Linguística uma função emotiva; para destinatário, uma função conativa; para o contato, uma função fática; para o código, uma função metalinguística; para a mensagem, uma função poética (1969: 118-62). Como se vê, as funções estudadas por Jakobson são, praticamente, aquelas que se dão no âmbito das interações sociais. A Linguística tem por finalidade elucidar o funcionamento da linguagem hu- mana, descrevendo e explicando a estrutura e o uso das diferentes línguas faladas no mundo. Esse é seu objeto empírico. No entanto, o objeto empírico é diferente Bibliografia dos objetos observacionais e teóricos. O objeto observacional é a "região" do objeto empírico que será objeto de estudo. Sendo ele delimitado, estabelecem-se BARROS, Manoel de. Retrato do artista quando Rio de Janeiro: Record, 1998. BENVENISTE, Emile. Problemas de geral. São Paulo: Nacional/Edusp, 1976. entidades básicas, a partir das quais serão atribuídas propriedades aos fenômenos Paulo Mendes. Para gostar de ler. São Paulo: Ática, 1979, V. 4. pertencentes ao campo de análise, e serão determinadas relações entre eles. O CARROLL, Lewis. Aventuras de Alice. 3. ed. São Paulo: Summus, 1980. objeto observacional converte-se então em objeto teórico. CRUZ E SOUSA, João da. Poesias completas. Rio de Janeiro: Ed. de Ouro, 1965. Podemos estudar os universais da linguagem, isto é, as propriedades e caracte- Magali Trindade et al. Antologia comentada da Literatura Brasileira, Petrópolis: Vozes, 2006. HJELMSLEV, Louis. Prolegômenos a uma teoria da linguagem. São Paulo: Perspectiva, 1975. rísticas universais, que definem o que é inerente à natureza mesma da linguagem; as JAKOBSON, Linguistica e comunicação. São Paulo: Cultrix/Edusp, 1969. operações cognitivas envolvidas no processamento linguístico, bem como a perda LIMA, Jorge de. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997. da capacidade da linguagem por lesões no cérebro. Podemos debruçar-nos sobre as MEIRELES, Cecília. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1985. diferenças entre as línguas. Podemos ocupar-nos da variação no espaço, como fazem NEVES, Maria Helena de Moura. A vertente grega da gramática tradicional: uma visão do pensamento grego sobre a linguagem. 2. ed. rev. e atual. São Paulo: Editora da Unesp, 2005. a dialetologia e a geolinguística. Podemos examinar a variação de grupo social para Poemas escolhidos. São Paulo: O Estado de S. Paulo/Klick Editora, 1997. grupo social. Podemos observar a variação de uma situação de comunicação para PETTER, Margarida. "Linguagem, língua, linguística". In: FIORIN, José Luiz (Org.). Introdução à Linguistica: objetos São Paulo: Contexto, 2002. outra. Podemos pesquisar a mudança linguística e a evolução de uma língua ou de SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguistica geral. São Paulo: Cultrix/Edusp, 1969. uma família de línguas. Podemos analisar a aquisição da linguagem. Podemos ver SWIFT, Jonathan. Viagens de Rio de Janeiro/São Paulo: Ediouro/ Publifolha, 1998. a linguagem como um sistema formal. Podemos investigar as unidades maiores do VERISSIMO, Luis Todas as histórias do analista de Bagé. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004. que a frase, isto é, o discurso e o texto. YAGUELLO, Marina. Les fous du language. Paris: Seuil, 1984.A natureza da linguagem humana Esmeralda Vailati Negrão Tem sido segura e seguidamente afirmado que a origem dos seres huma- nos jamais poderá ser conhecida, mas ignorância muito mais frequente- mente do que conhecimento gera certezas: são aqueles que sabem pouco, e não aqueles que sabem muito, que confiantemente afirmam que este ou aquele problema nunca poderá ser resolvido pela ciência. Darwin Conhecer e explicar são algumas das mais fundamentais atitudes humanas. E, dentre os objetos alvo dessas atitudes, destaca-se a linguagem humana. Esse objeto foi alvo de estudo desde a Antiguidade, mas é a partir do início do século com o advento da Linguística moderna, que ele passa a ser investigado sob a perspectiva científica. De maneira bem genérica, dizer que a perspectiva científica ins- taura, no processo de busca de conhecimento, um procedimento de investi- gação: a partir da observação e descrição dos fatos pertinentes, depreende-se um comportamento sistemático e geral que, alçado à condição de hipótese explicativa do fenômeno estudado, poderá ter sua validade testada em novas observações de outros fatos. Esse procedimento, ao mesmo tempo, aproxima e afasta o fazer científico de outros fazeres humanos. A aproximação se dá pelo fato de que ele é um fazer criativo como o é o fazer artístico. A realidade não76 Linguística? Que é isso? A natureza da linguagem humana 77 se expõe à observação. É o olhar do pesquisador, guiado por suas experiências, cognitivas. A língua não é mais um objeto social, ela é um componente central conhecimento e teorias, que enxerga e dá forma ao O distanciamento da natureza humana. se dá pelo fato de que ao saber científico se associa a ideia de progresso, de avanço do conhecimento por superação, ou seja, saberes tornam-se ultrapas- sados. O conhecimento obtido pela investigação permite a formulação de Conceitos de língua/linguagem novas perguntas que, por sua vez, levam a nova investigação, gerando novos e suas consequências conhecimentos e novos saberes No caso dos estudos linguísticos, algumas das propriedades do objeto sob para a concepção de gramática investigação subvertem esse procedimento. Em primeiro lugar, contrariamente ao Todos nós temos explicações sobre a linguagem humana, sua função, sua que supõe o senso comum, a linguagem humana não é observável a olho nu, ou origem, como ela é aprendida, como e por que ela muda. No entanto, essas ex- mais apropriadamente, a ouvido nu. O que nossos sentidos percebem são manifes- plicações, geralmente, não estão fundamentadas em observações sistemáticas, tações linguísticas e não a linguagem propriamente Sendo assim, as teorias não se baseiam no conhecimento acumulado ao longo da história dos estudos linguísticas (cada uma delas composta por hipóteses explicativas dessa proprie- linguísticos. Sendo assim, pode-se dizer que elas expressam o conceito de lin- dade que nos define como humanos, a linguagem) recortam essas manifestações, guagem do senso comum. abstraindo-lhes características que passam a definir certos objetos construídos, Na história dos estudos linguísticos, mais especificamente dos estudos gra- passíveis de serem investigados. Em segundo lugar, essa necessidade de construção maticais, devem-se contrapor dois tipos de abordagem que, de maneira geral, dos objetos teóricos caracteriza a Linguística como uma ciência humana, à qual a caracterizam esses estudos: de um lado, a dimensão normativa representada pela ideia de superação não pode ser aplicada. Na Linguística, diversos objetos teóricos gramática prescritiva e, de outro, as diferentes abordagens científicas. Na abor- coexistem sem que se possa privilegiar um ou outro como o mais próximo da rea- dagem prescritiva, a concepção é a de que certos usos linguísticos, produzidos lidade, uma vez que essa realidade é constituída de diversas realidades construídas por falantes tidos como mais conhecedores da língua, devem ser tomados como e, por isso, parciais. No entanto, no interior de cada teoria, os resultados obtidos padrão a ser seguido pelos demais falantes de uma língua dada. Nessa abordagem na investigação abrem sempre a possibilidade de formulação de novas questões, vigoram juízos de valor, como certo e errado, feio ou bonito, puro ou degenerado, numa constante reconstrução de hipóteses e reformulação da teoria. sobre as produções linguísticas. O objetivo deste capítulo é familiarizar o leitor com um desses objetos teó- À abordagem prescritiva as abordagens Como já foi ricos, a faculdade da linguagem, construído pela teoria conhecida como Teoria discutido, a perspectiva científica dá à linguagem humana e ao uso linguístico Gerativa, bem como com os procedimentos metodológicos e analíticos decorrentes o estatuto de fenômeno a ser investigado pelos procedimentos da ciência mo- dos pressupostos teóricos adotados. derna. O objetivo agora é descrever e explicar a e não ditar A Teoria Gerativa, que acabou por se constituir num longo, sólido e pro- regras de comportamento. dutivo projeto de investigação, inicia-se na segunda metade do século XX, Quando os pesquisadores atuando dentro do modelo de investigação pro- com a publicação do livro Syntactic Structures (Chomsky, 1957). Ela mudou posto pela Teoria Gerativa, dizem que mudaram o foco da pesquisa linguís- o foco da pesquisa linguística. Definindo a língua como um sistema de prin- tica, o que está sendo dito é que estamos tratando de diferentes abordagens cípios conhecidos intuitivamente por qualquer falante, princípios esses que científicas e, consequentemente, de conceitos de língua/linguagem distintos. integram, juntamente com outras capacidades cognitivas, a mente humana, Esses pesquisadores opõem ao conceito de o conceito de Língua-I. essa teoria aproximou a Linguística dos estudos biológicos e das ciências Segundo o conceito de Língua-E, a linguagem é um construto teórico for-78 Linguística? Que é isso? A natureza da linguagem humana 79 mulado a partir da totalidade dos enunciados linguísticos produzidos numa Muitos cinquentões aprenderam inglês com os Beatles que as músicas comunidade homogênea. Já na Língua-I, a linguagem é um sistema interno deles todos sabem de cor. à mente humana com propriedades específicas determinadas pela relação da Essas sentenças exemplificam as três estratégias de relativização, para usar língua com os demais componentes cognitivos. Dessa forma, os princípios que a denominação de Tarallo (1983), observáveis no português brasileiro atual. regulam a estruturação das expressões linguísticas o fazem de uma maneira Relativização é um mecanismo utilizado pelas línguas para encaixar, subordinar, muito diferente da que resultaria de uma estruturação determinada por fato- sentenças dentro de outras sentenças. Nesse caso, o encaixamento se dá pelo fato res externos à linguagem, tais como o seu uso ou a sua função comunicativa de que um dos constituintes da sentença matriz4 está anaforicamente relacionado (Chomsky, 1986; 1996). a um dos constituintes da sentença encaixada. Nas três sentenças (1 a, b, c) há Esses diferentes conceitos de língua, advindos das diferentes abordagens do uma relação anafórica estabelecida entre o constituinte complemento do verbo fenômeno, acabam por determinar diferentes concepções de gramática. Retoman- aprender da sentença matriz, "com os Beatles", e outro constituinte parte de do a discussão de Carlos Franchi sobre gramática, em seu livro O que é mesmo um constituinte maior, complemento do verbo saber da sentença encaixada, "Gramática" (2006), três diferentes formulações podem ser reproduzidas, corres- "as músicas dos Beatles". Para tornar visíveis as duas sentenças envolvidas no pondendo respectivamente a cada um dos conceitos e a cada uma das abordagens processo de encaixamento podemos explicitá-las da seguinte maneira: descritas anteriormente: (2) a. Muitos cinquentões aprenderam inglês com os Beatles. 1. conjunto sistemático de normas para bem falar e escrever, estabelecidas b. Todos sabem de cor as músicas dos Beatles. pelos especialistas, com base no uso da língua consagrado pelos bons escritores (2006: 16); Essa explicitação deixa clara a razão para o estabelecimento de uma relação 2. sistema de noções mediante as quais se descrevem os fatos de uma língua, anafórica: ambas as sentenças (2a) e (2b) têm como um de seus constituintes o permitindo associar a cada expressão dessa língua uma descrição estrutural sintagma "os Beatles". O que acontece em (1b) e (1c) é que o constituinte e estabelecer suas regras de uso, de modo a separar o que é gramatical do "os Beatles" da sentença encaixada se realiza de maneiras Isso sempre que não é gramatical (2006: 22); acontece quando temos relações anafóricas estabelecidas entre constituintes: a 3. saber linguístico que o falante de uma língua desenvolve dentro de certos segunda ocorrência do constituinte é realizada por um elemento pronominal, limites impostos pela própria dotação genética humana, em condições como o que acontece em (3): apropriadas de natureza social e antropológica (2006: 25). (3) Os Beatles ensinaram inglês a muitos cinquentões com suas A apresentação e a análise de um conjunto de fatos linguísticos do português brasileiro podem ajudar-nos a entender melhor as três diferentes abordagens. As O pronome suas é a forma de realização da segunda ocorrência do consti- sentenças em (1) a seguir podem ser encontradas em produções de falantes do tuinte "os Beatles" na sentença (3). Nela, há uma relação anafórica estabelecida português brasileiro: entre o constituinte sujeito do verbo ensinar, "os Beatles", e o constituinte parte do constituinte maior, também do verbo ensinar, "com as músicas (1) a. Muitos cinquentões aprenderam inglês com os Beatles, que as músicas dos Beatles". todos sabem de cor. As formas assumidas pela segunda realização do constituinte "os Beatles" na b. Muitos cinquentões aprenderam inglês com os Beatles cujas músicas sentença encaixada dos exemplos em (1) são as seguintes: em (1a), o constituinte todos sabem de cor. "os Beatles" é realizado por um pronome silencioso,6 sem conteúdo fonológico; em80 Linguística? Que é isso? A natureza da linguagem humana 81 (1b), o constituinte "os Beatles" é realizado pelo pronome relativo cujo; em (1c), linguagem humana determinou a construção de hipóteses sobre esse fenômeno o constituinte "os Beatles" é realizado pelo eles. A forma pronominal e a escolha da metodologia que norteia a busca de evidências para a testagem utilizada está associada ao modo de encaixamento das sentenças subordinadas. dessas hipóteses. Como as investigações conduzidas, norteadas pela busca de No caso de e (1c), o elemento introduzindo a sentença subordinada é o com- respostas às questões levantadas, produziram conhecimento que abriu a possi- que. Já no caso de (1b), a sentença encaixada é introduzida pelo bilidade para novas questões de investigação, o projeto assistiu e assiste a um próprio pronome relativo cujo. grande refazer de modelos explicativos. A seguir são apresentadas as principais A análise dos dados de relativização elaborada dá-nos agora condições de questões de investigação que motivaram o delineamento do modelo teórico tal elucidar as três concepções de língua e as três concepções de gramática discutidas como foi construído, acompanhadas de algumas evidências que advogam em anteriormente. Em sua tese, desenvolvida na perspectiva teórica da Sociolinguística favor da plausibilidade dessa teoria. Tarallo observa a distribuição das três estratégias apresentadas em (1), analisa os fatores, tanto próprios ao sistema da língua, quanto relativos a traços ASPECTO CRIATIVO DA LINGUAGEM HUMANA caracterizadores e identificadores dos falantes que as produzem, como procedência geográfica, estratificação social, faixa etária, entre outros, além de mostrar como Uma das propriedades da linguagem humana tomada como questão a ser as estratégias mais inovadoras emergiram nessa língua. A sua análise baseia-se investigada pela teoria gerativa é o seu aspecto criativo. Essa propriedade já nos fatos linguísticos produzidos espontaneamente pelos falantes e registrados havia chamado a atenção de filósofos como Descartes, entre outros. Entende-se pelo pesquisador. Ou seja, a pesquisa de Tarallo caracteriza-se por uma abordagem por aspecto criativo o fato de que todos os falantes de uma língua, qualquer que científica cujo objeto pode ser caracterizado como seja ela, independentemente de seu grau de inteligência ou de instrução, têm a Tarallo também mostra que a atitude dos falantes difere com relação às três capacidade de produzir e compreender, sem esforço, um número muito grande e estratégias. A estratégia exemplificada em (1c) é estigmatizada pelos entrevista- infinito de sentenças nunca antes ouvidas e até mesmo nunca antes produzidas. dos. Ora, prescrever a estratégia como a correta, uma vez que historicamente Esse processo de construção e compreensão de sentenças é intuitivo, acontece relativas com cujo são as mais conservadoras, e estigmatizar a estratégia em (1c) sem que o falante precise refletir sobre os princípios que possibilitam que ele, como incorreta, associando-a a falantes menos escolarizados, exemplificam uma partindo de palavras, organize-as de maneira a produzir uma sentença reconhe- abordagem prescritiva da língua. cida por qualquer falante como uma sentença daquela língua. Observemos as Mas o que dizer da Língua-I? Os pesquisadores que enxergam a língua como sentenças em (4): um órgão interno da mente buscam descrever e explicar os princípios que carac- (4) a. O Pedro é difícil de agradar a namorada. terizam esse saber linguístico, responsável pela geração das sentenças como as b. O Pedro é difícil de agradar. em (1), produzidas e compreendidas por falantes do português brasileiro. O objeto de investigação da Teoria Gerativa é a Língua-I. As interpretações associadas às sentenças em (4) fazem-nos refletir sobre a natureza do conhecimento linguístico intuitivo que todos os falantes do por- tuguês possuem, uma vez que elas são sentenças comuns da língua, não são Projeto Gerativo sentenças para as quais precisamos de alguma explicação gramatical formal para interpretá-las. Para caracterizar a interpretação associada a cada uma das Projetos científicos começam por buscar responder a questões levantadas sentenças em (4), recorreremos à elaboração de paráfrases. À sentença (4a), pelo pesquisador a partir da observação de certos fatos empíricos. No caso do podemos associar a seguinte paráfrase: "O Pedro é uma pessoa difícil de ele, Projeto Gerativo, a procura de explicação para algumas observações sobre a82 Que é isso? A natureza da linguagem humana 83 Pedro, agradar a namorada". Já para a sentença (4b), a seguinte paráfrase re- Se indagados sobre os dados em (5), falantes do português brasileiro presenta a sua interpretação: "O Pedro é uma pessoa difícil de ser agradada por certamente dirão que as sentenças (5a e b) são sentenças possíveis dessa quem quer que seja". língua, em contraste com a sentença (5c) que lhes parecerá estranha. A tarefa Para descrever a construção da interpretação dessas sentenças a partir da do pesquisador é explicar esse contraste. De maneira menos técnica, o estra- análise dos elementos que as compõem, retomaremos alguns instrumentos nhamento associado à sentença (5c) parece advir do fato de que nela todos os introduzidos na seção anterior. Em ambas as sentenças, temos que postular argumentos dos predicadores contidos na sentença, quais sejam, os argumentos a existência de pronomes silenciosos. Em (4a), há um pronome silencioso na do predicador dificil e os argumentos do predicador agradar estão realizados posição de sujeito do verbo agradar, interpretado como anafórico ao sujeito por constituintes com realização fonológica, ou seja, não há pronomes silen- da sentença matriz: é o Pedro quem é difícil e é o Pedro quem (não) agrada a ciosos. A comparação entre a organização da sentença (5c), de um lado, e as namorada. Por outro lado, em (4b), há dois pronomes silenciosos, um na po- sentenças (5a e b), de outro, sugere que sentenças subordinadas ao predicado sição de sujeito e outro na posição de objeto do verbo agradar. Só que, agora, ser dificil, com verbos no infinitivo, exigem que a sua posição de sujeito seja o pronome silencioso interpretado como anafórico ao constituinte "o Pedro", ocupada por um pronome silencioso. O constituinte com conteúdo fonológico sujeito da sentença matriz, é o pronome silencioso em posição de objeto do João", realizado na posição de sujeito do verbo agradar, causa a agrama- verbo agradar. O pronome silencioso na posição de sujeito do verbo agradar ticalidade da sentença (5c). recebe uma interpretação indefinida. A extrema complexidade dessa relação entre certa organização de formas Um parêntese metodológico faz-se aqui necessário. O trabalho de análise e interpretações por ela geradas contrasta com a extrema rapidez e esponta- dos dados em (4) já nos deixa antever o porquê do procedimento metodológico neidade com que falantes produzem e compreendem sentenças. Mais ainda, utilizado para a coleta de dados nessa Para associar as formas produzi- tornam implausíveis teorias que defendem que a linguagem seja um comporta- das e externalizadas aos mecanismos internos à mente que expliquem como a mento aprendido por imitação ou analogia. Sendo assim, descrever e explicar elas atribuímos as interpretações que permitem que realizemos tudo aquilo que os mecanismos explicativos dessa capacidade criativa é um dos objetivos do fazemos com a linguagem humana, ou seja, dar sentido ao mundo, estabelecer Projeto relações com os outros, entre tantas outras funções da linguagem, temos que trabalhar com as intuições linguísticas dos falantes, uma vez que objetivo é A CAPACIDADE GERATIVA RECURSIVA chegar a esse conhecimento intuitivo que está na base das produções de todas as sentenças de uma língua, ou seja, é chegar à gramática internalizada do falante. O modelo de gramática proposto para explicar a capacidade criativa da lin- E é muito difícil tentar chegar a essa gramática somente com a análise de dados guagem humana partiu de observações e do conhecimento acumulado sobre esse organizados em corpus." O método de trabalho, então, é o da obtenção de juízos objeto de estudo. As línguas são compostas por um número infinito de sentenças de gramaticalidade. Para exemplificar o procedimento, retomemos as sentenças e não há limite para o término de uma sentença. Por outro lado, os elementos em (4), acrescentando-lhes uma nova sentença: mínimos a partir dos quais construímos essas sentenças são um conjunto finito: o conjunto de sons distintivos de uma língua é finito; o conjunto de unidades (5) a. O Pedro é difícil de agradar a namorada. mínimas significativas é finito; o conjunto de princípios que regem a construção b. O Pedro é difícil de agradar. das sentenças também é finito. O aspecto criativo da linguagem humana traduz-se Pedro é difícil de o João agradar a no uso infinito de meios finitos e discretos (capacidade gerativa recursiva). Ou seja, se os elementos e os princípios de organização são finitos e discretos e se as84 Linguística? Que é isso? A natureza da linguagem humana 85 sentenças e o conjunto de sentenças produzidas são infinitos, isso acontece porque mesmo tempo o objeto de estudo e o meio para a elaboração da metalingua- a recursividade está operando. gem que descreve esse objeto. Sendo assim, dados linguísticos exibidores Para entender o que é recursividade nas línguas naturais é necessário introduzir de certas propriedades da língua podem ser usados na própria construção da algumas noções sobre os princípios de organização dos elementos que compõem argumentação em favor de uma análise. Se a análise construída para explicar as sentenças. o fenômeno da ambiguidade observado na sentença (6), qual seja, a de que, sob a ordenação linear das palavras integrantes da sentença (6), escondem-se A organização estrutural das sentenças duas organizações em constituintes diferentes, dados construídos para revelar e a propriedade de deslocamento certas propriedades que evidenciam a organização em constituintes podem ser utilizados para comprovar a análise proposta. Milner (2002) chamou paradoxo Nossa teoria senso comum sobre a linguagem humana diz-nos que para cons- posicional a propriedade das línguas humanas segundo a qual os constituintes truir uma sentença basta combinar as palavras em uma ordem linear. Embora os se realizam nas sentenças em posições diferentes daquelas que parecem ocu- estudos linguísticos mostrem que a ordem linear tem relevância para a gramática par para carregar a interpretação que é a eles associada. Para dar conta dessa das línguas, eles também já comprovaram que a organização das sentenças obedece propriedade, a Teoria lança mão da operação metaforicamente chamada de a uma organização de palavras em constituintes e de constituintes que, por sua vez, Vejamos um exemplo: integram constituintes maiores gerando uma estrutura hierárquica de O fenômeno da é uma evidência de que a organização das sentenças (7) a. O jornalista entrevistou o ator. das línguas obedece a um princípio de organização hierárquica em constituintes. b. Quem o jornalista entrevistou? Uma sentença, constituída por palavras ordenadas em uma sequência dada, pode ter a ela associada duas interpretações diferentes, como em (6): Tanto o constituinte ator" na sentença (7a) quanto o constituinte "quem" são interpretados como o argumento desempenhando o papel semântico de pes- (6) O jornalista entrevistou o ator com o celular na mão. soa entrevistada pelo jornalista, ou seja, o papel associado com o constituinte complemento do verbo entrevistar. Acontece que somente na sentença (7a) esse A sentença (6) pode ser interpretada como: 1) o jornalista entrevistou o ator constituinte é realizado na posição canônica de objeto direto. Em (7b), o comple- que estava com o celular na mão, ou 2) o celular foi o instrumento usado pelo mento do verbo entrevistar é realizado em posição inicial de sentença. Dizemos, jornalista para entrevistar o ator. O fato de uma mesma sequência linear gerar então, que, na sentença (7b), o constituinte complemento do verbo entrevistar duas interpretações diferentes é, para a teoria, evidência de que há outro prin- foi deslocado, movido da posição de complemento para uma posição no início cípio de organização atuando na geração das interpretações da sentença em (6). da sentença. O interessante dessa propriedade é que a operação de deslocamento Mais tecnicamente, o constituinte "com o celular na mão" compõe-se de duas atua sobre constituintes e não sobre partes dele. Observem: maneiras diferentes na organização dos demais constituintes da sentença (6). Na interpretação 1, o constituinte "com o celular" é parte do constituinte maior "o (8) a. O jornalista entrevistou o ator da ator com o celular na mão". Já na interpretação 2, o constituinte "com o celular" b. O ator da novela, o jornalista entrevistou. é argumento do verbo entrevistar, ou seja, integra o constituinte maior do qual o o jornalista entrevistou da novela. verbo é o núcleo. Uma das dificuldades da ciência linguística reside no fato de que a teoria Nas sentenças em (8), o constituinte ator da novela" é o complemento do se constrói com língua para falar sobre a língua. A linguagem humana é ao verbo entrevistar, interpretado como aquele que foi entrevistado pelo jornalista. Além de completar semanticamente o predicador entrevistar, desempenhan-86 Linguística? Que é isso? A natureza da linguagem humana 87 do o papel semântico daquele que foi entrevistado, o constituinte "o ator da O trecho da canção de Chico Buarque, apresentado a seguir, exemplifica de novela" pode carregar a informação de que ele é um constituinte focalizado, maneira emblemática esse princípio de geração recursiva. como acontece na sentença (8b). Um dos mecanismos utilizados no português para focalizar um constituinte é justamente fazer com que ele seja realizado Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo que amava Juca que amava Dora que amava numa posição inicial na sentença, ou seja, nos termos da Teoria Gerativa, Carlos amava Dora que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava ele é deslocado para essa posição. Mas para que a sentença seja gramatical, Dito que amava Rita que amava o constituinte tem que ser deslocado por inteiro; partes do constituinte não Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava a filha que podem ser deixadas em sua posição de origem, pois isso gera uma sentença Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha agramatical, como é o caso de (8c). (Chico Buarque, "Flor da idade". Chico 50 anos: o cronista. Universal, 1999) Retomando a análise proposta para tratar a ambiguidade estrutural encontrada na sentença (6), podemos dar suporte a ela, se construirmos a partir dela sentenças Quando analisamos as sentenças em (1) na seção 2, introduzimos a noção de com deslocamento para testar o fato de que, numa das estruturações postuladas processos de subordinação, de encaixamento de sentenças dentro de sentenças para a sentença (6), o constituinte "com o celular na mão" integra o constituinte por meio de diferentes estratégias de relativização. Na relativização, o encai- maior ator com o celular na mão", como em (9): xamento se dá pelo fato de que um dos constituintes da sentença matriz está anaforicamente relacionado a um dos constituintes da sentença encaixada. Nessa (9) O ator com o celular na mão, o jornalista entrevistou. canção de Chico Buarque, observamos o mesmo processo de encaixamento por relativização. A análise do primeiro verso do trecho da canção pode nos servir Em (9), a interpretação de que o celular foi utilizado para fazer a entrevista para entender o processo: desaparece. Isso se deve ao fato de que, em (9), "com o celular na mão", um constituinte por si só, nesse caso, é parte do constituinte maior ator com (11) [Carlos amava [Dora que amava [Lia que amava [Léa que amava o celular na mão". Portanto, "com o celular na mão" identifica o ator que foi [Paulo que amava [Juca que amava [Dora que entrevistado. Agora observe a sentença (10): A grande sentença matriz em (11) é formada por sucessivos encaixamentos de sentenças relativas que são parte de um constituinte maior, modificando os (10) O o jornalista entrevistou com o celular na nomes: Dora, Juca, Paulo, Léa, Lia, Dora, sucessivamente, partindo do nome mais encaixado ao menos encaixado. O uso de colchetes em (11) dá uma representação Contrariamente a (8c), (10) é uma sentença gramatical, na qual a interpretação gráfica à organização em constituintes através dos sucessivos O é a de que o celular foi usado pelo jornalista na entrevista do ator. Isso significa constituinte complemento do verbo amar, do qual "Carlos" é o sujeito, é um longo que, em (10), o constituinte "com o celular na mão" não é parte do constituinte constituinte composto por um nome Dora modificado por uma sentença relativa ator" que, por esse motivo, pode deslocar-se como um constituinte completo. Em "que amava Lia...". Analisemos o interior dessa sentença relativa. Nela, o verbo (10), "com o celular na mão" integra outro constituinte, o constituinte nucleado amar tem dois argumentos, quem amava e quem era amado. No caso, o papel de pelo predicador "entrevistar", desempenhando o papel semântico de instrumento, quem era amado é preenchido pelo constituinte "Lia que..." e o papel de quem por ele requerido. ama é satisfeito por um pronome silencioso anafórico ao nome complemento da É essa organização segundo a qual constituintes formados podem integrar sentença matriz, Dora. Nessa análise, a sentença encaixada é introduzida pelo outros constituintes maiores, recursivamente, que explica a possibilidade de pro- complementizador que. Nessa sentença relativa, por sua vez, a nova instância do dução de sequências infinitas por intermédio de meios finitos.88 Linguística? Que é isso? A natureza da linguagem humana 89 verbo amar tem como complemento um longo constituinte composto pelo nome para explicar essas propriedades é necessário postular um conhecimento prévio, Lia, modificado por uma sentença relativa "que amava Esse processo de inato, presente desde o início do processo de aquisição. Para ilustrar o fenômeno modificação do constituinte complemento por meio do encaixamento de uma observado, utilizaremos os dados apresentados em artigo de Attié sobre sentença relativa poderia estender-se ad infinitum. Sendo assim, esse é um belo o papel do e a realização de sufixos verbais na fala de uma criança em exemplo da propriedade de recursividade presente na gramática das línguas hu- processo de aquisição de linguagem: manas, À guisa de conclusão, cito Berwick e Chomsky: Podemos começar por uma anotação do diário de A na qual a mãe-pesquisadora A linguagem baseia-se, portanto, num procedimento gerativo recursivo que toma mostra a sua surpresa diante da forma com que o verbo "dirigir" que já inte- unidades elementares como palavras, estocadas em algo que pode ser chamado de grava o vocabulário de A em formas "corretas" passou, naquela altura (2.10 léxico, e se aplica repetidamente para gerar expressões estruturadas sem limites. de idade), a ser usada pela criança. Enunciados do tipo (1) "Eu tô dirijando", (2) (2011: 27, tradução nossa) "Eu vô e (3) "Mamãe não sabe foram ditos sem hesitação, com grande espontaneidade e sem que a criança percebesse, aparentemente, que fa- lava de maneira diferente dos adultos, Estes enunciados pareciam mostrar que, PROBLEMA DE A AQUISIÇÃO naquele momento, a criança tratava este verbo, da terceira conjugação, como se pertencesse à primeira. (2003:481) Como foi dito, questões movem os cientistas que buscam caracterizar e explicar os fenômenos observados. A caracterização da natureza da faculdade A própria pesquisadora conclui que os fatos observados são indicativos de da linguagem move os pesquisadores atuando no Projeto Gerativo até hoje. que o fenômeno da curva em U tem um papel no processo de aquisição da lin- Relacionada a essa motivação, outra observação gerou mais uma pergunta guagem por parte das crianças. Um primeiro momento de acertos, resultante do para investigação, correlata à que vimos discutindo: como esse conhecimento uso de formas memorizadas como todos não decomponíveis, é seguido de uma linguístico, altamente articulado e rico, é adquirido tão rapidamente e tão cedo fase de uso de formas desviantes da forma adulta, que, no entanto, resultam de em nossas vidas, se os dados a que somos expostos são tão pobres? Essa questão um processo de reorganização de formas segundo princípios de uma gramática ficou conhecida como o Problema de Platão (o problema da pobreza do estí- em Por volta dos cinco, seis anos, a criança atinge uma fase de mulo): a criança, sem instrução e sem evidências diretas, usa regras computa- certa estabilidade no uso das formas da língua adulta. É interessante acrescentar cionalmente complexas, dependentes da estruturação hierárquica característica que, durante o período de produção de formas desviantes, mas regradas, uma vez das sentenças das línguas naturais, ao invés de usar regras computacionalmente que as produções têm sistematicidade, qualquer intervenção do adulto na tentativa simples, como, por exemplo, aquelas que envolvam somente a ordem linear. de correção é ignorada: A hipótese explicativa enunciada é a de que a linguagem é um objeto natural, um componente da mente humana, biologicamente determinada pela dotação (12) (A mãe recorda algo recém-ocorrido) genética da espécie. A hipótese inatista pretende explicar não só a rapidez no M.: [...] Não, mas agora teve uma menininha que caiu. Quem processo de aquisição, mas também o fato de que esse processo se desenvolve era? de maneira similar entre os falantes de uma determinada língua. Basta estar A.: Eu caiei. inserido numa comunidade falante para que qualquer criança, não portadora de M.: Quem era que caiu? problemas neurológicos, adquira a língua dessa comunidade. A.: Eu caiei. (G O fenômeno da "curva em longamente discutido por pesquisadores Os estudos sobre aquisição têm um papel fundamental na sustentação das atuando na área da aquisição de linguagem, é utilizado como evidência para o hipóteses postuladas pela Teoria Gerativa para a explicação do conhecimento fato de que o processo de aquisição não é caótico, nem aleatório e que, portanto,90 Linguística? Que é isso? A natureza da linguagem humana 91 linguístico exibido por todo e qualquer falante de uma língua. A rapidez com que Com a morte de Leborgne, em abril de 1861, Broca fez uma necropsia de seu a criança adquire a gramática de sua língua e todas as características do processo cérebro e concluiu que o seu problema de linguagem advinha de uma lesão no de aquisição parecem dar suporte para a hipótese de que a criança já nasce com lobo frontal esquerdo. Broca encontrou a primeira evidência anatômica para a uma faculdade de linguagem. Como dizem Beletti e Rizzi: localização da função da linguagem no cérebro. Essa área no hemisfério esquerdo passou a ser conhecida como a área de Broca. Estava aberto o caminho para um Uma hipótese natural é que as crianças nascem com uma "faculdade de lingua- gem" (Saussure), uma "tendência instintiva" para a linguagem (Darwin); essa conjunto de estudos científicos realizados até hoje, evidentemente aproveitando-se capacidade cognitiva deve envolver, em primeiro lugar, recursos de recepção para dos avanços científicos e tecnológicos na área, que buscam entender as complexas separar os sinais linguísticos dos demais sons de fundo, para então construir, com relações entre cérebro, mente e linguagem. base em seus recursos internos ativados por uma experiência linguística limitada e fragmentada, o rico sistema de conhecimento linguístico que todo falante possui. As crianças selvagens: caso de Genie (2002: 7-8, tradução nossa) As histórias das crianças também têm sido objeto de estudo A NATUREZA BIOLÓGICA DA LINGUAGEM para a comprovação de hipóteses relativas à capacidade humana da linguagem dentro do Projeto Gerativo, em especial o caso da menina Genie, uma criança Moro (2008), no prólogo de seu livro The Boundaries apresenta, com selvagem moderna. sabor de narrativa, mais uma peça emblemática do que vimos discutindo como Uma vez que essas crianças só desenvolvem linguagem no momento em que sendo o caráter do fazer científico. Ele conta a história de uma parte significativa são reintroduzidas no mundo humano, inseridas em comunidades de falantes de da vida de Monsieur Leborgne, que, com 21 anos de idade, chegou ao Hospital uma determinada língua, pode-se concluir que esse componente inato específico da Bicêtre, em Paris, e de lá nunca mais saiu. Ele internou-se com um problema mente humana precisa de estímulo para que o seu desenvolvimento seja desenca- de linguagem: quando lhe era perguntada alguma coisa, sua resposta consistia, deado. O caso Genie levantou também questões importantes para o esclarecimento invariavelmente, de duas sílabas, "tan tan", acompanhadas de variados gestos de outra hipótese acerca da aquisição da linguagem por parte das crianças: a de e entonações. Além do severo problema de linguagem, ele não exibia nenhum que há um período crítico para a aquisição por meio da ativação do componente problema motor, nem mesmo nenhum déficit de controle da língua e da face, e inato da linguagem. apresentava níveis normais de inteligência e capacidade normal para executar O conceito de período é utilizado na biologia para caracterizar uma tarefas cognitivas. Ou seja, o problema linguístico de Leborgne não era devido a fase no processo de desenvolvimento de um organismo, durante a qual uma problemas motores ou a déficits cognitivos. determinada competência precisa ser adquirida para ser incorporada como um Em 1861, devido a uma gangrena, ele foi transferido para a ala de cirurgia do comportamento daquele organismo. Às vezes também chamada de "Hipótese da Hospital, momento em que começou a ser atendido pelo neurologista, cirurgião, idade crítica" nos estudos sobre a aquisição de linguagem, ela pode ser entendida antropólogo e cientista Pierre-Paul Broca. Uma semana antes, Broca havia par- como a idade depois da qual uma criança que, por qualquer motivo, deixou de ticipado de uma reunião da Sociedade de Antropologia, na qual Ernest Auburtin adquirir a sua língua materna nunca mais conseguirá dominar essa língua como apresentou estudos, sem evidências conclusivas, em favor da hipótese de que a um falante nativo. capacidade para a linguagem pode ser localizada numa área específica do cére- Voltando à história de Genie, com 20 meses de idade, ela foi abandonada num bro. Essa hipótese de que áreas específicas do cérebro são dedicadas a funções cômodo pequeno de sua casa, onde ficou presa, sem liberdade para movimentar- específicas era objeto de debate no meio científico da época. Broca estava entre se, sem receber estímulos e com quase nenhum contato humano. Aos 13 anos e os entusiasmados pela tese de especialização do cérebro. 7 meses, após denúncia, ela foi encontrada e retirada da guarda de sua92 Linguística? Que é isso? A natureza da linguagem humana 93 A partir desse momento, ela foi acompanhada por uma equipe multidisciplinar Mais evidências advindas dos casos de afasia para ser reabilitada e Quando foi encontrada, Genie não falava. Ela Desde a grande descoberta de Broca, o estudo de pacientes por não havia desenvolvido linguagem. A linguista Susan Curtiss, que integrou essa terem sofrido algum trauma no cérebro ou algum dano cerebral advindo de equipe, acompanhou o processo de aquisição de linguagem de Genie, do qual doenças como acidente vascular cerebral (AVC), passou a ocupar um lugar de resultou um livro em que foram relatados os cinco primeiros anos desse proces- destaque na agenda de investigadores preocupados com a relação entre cérebro SO (Curtiss, 1977). A autora conta que, quando o acompanhamento começou, e linguagem. Esses estudos norteavam-se pela observação de que, dependendo Genie só era capaz de compreender algumas palavras isoladas. Ela parecia não da área do cérebro acometida, a capacidade linguística do paciente poderia compreender sentenças e não falava. Durante os cinco anos observados, ela fez ser afetada e de diversas Esse campo de investigação vem se progressos, tanto em compreensão, quanto em produção. Começou a produzir beneficiando dos significativos avanços na tecnologia de neuroimagens, que sentenças espontâneas que evidenciavam resultar de uma gramática (por exemplo, em muito contribui para o conhecimento sobre a neuroanatomia das funções suas produções exibiam sistematicidade na ordenação de palavras) e, também, cognitivas do sistema nervoso central. Essa tecnologia abriu a possibilidade mostrava compreender sentenças complexas, como as relativas. Acima de tudo, para a observação do cérebro em ação. sua produção linguística deixava entrever padrões de recursividade em sua gra- Fazer um mapeamento do desenvolvimento dessa vasta e complexa área de mática. No entanto, sua fala, depois de cinco anos, estava muito distante da fala investigação, a neurolinguística, está fora do escopo deste capítulo. No entanto, de uma jovem de sua idade. uma rápida apresentação com exemplificação de um estudo dentro da concepção As principais conclusões do livro são reportadas e comentadas por Goldin- teórica sobre o que é a linguagem humana na visão da Teoria Gerativa serve para Meadow (1978), numa resenha do livro de Susan Curtiss publicada na revista consolidar o argumento central deste texto: mostrar como a construção de um Science. Dentre elas podemos destacar que o caso Genie reforça a ideia de que a objeto de investigação, no caso, a faculdade de linguagem, um construto teórico versão biológica da Hipótese do Período Crítico precisa ser reformulada, ou seja, bem definido, acaba tendo consequências para a busca de conhecimento e para o no que se refere à aquisição da linguagem, uma versão mais fraca da hipótese desenvolvimento em outros campos de investigação científica. parece ser necessária. A questão não é mais se a linguagem pode ser adquirida O projeto de investigação desenvolvido pelo neurolinguista Yosef Grodzinsky fora desse período crítico, mas sim quais aspectos da linguagem precisam ser e seus colaboradores pode ser rapidamente apresentado como um daqueles es- adquiridos durante esse período. Os dados de Genie sugerem que algumas pro- tudos que, baseando-se nos conhecimentos produzidos pela Linguística teórica priedades, tais como recursividade e ordenação dos elementos na sentença, podem moderna, alteram a perspectiva da investigação tradicional na área, em especial, ser desenvolvidas para além da puberdade. Por outro lado, propriedades como o o delineamento da teoria sobre as áreas do cérebro responsáveis pela linguagem. uso de proformas, de regras de deslocamento e de estruturas com verbos auxiliares Nessa nova perspectiva, a língua não é mais vista como um conjunto de práti- precisam ser adquiridas até a idade crítica; os experimentos conduzidos levaram cas postas em uso a serviço da comunicação, mas sim como um conhecimento à conclusão de que Genie parecia estar adquirindo linguagem com o hemisfério estruturado, organizado em níveis de representação, o fonológico, o sintático e direito e não com o hemisfério o semântico. Essa visão tem consequências importantes para a redefinição da O caso de Genie aqui discutido oferece evidência não só para a natureza teoria sobre áreas do cérebro responsáveis por comportamentos linguísticos. biológica da linguagem, mas também para o fato de que há um período em Algumas escolhas norteiam as investigações conduzidas por Grodzinsky. A pri- nossas vidas para que adquiramos uma língua intuitivamente, com rapidez e meira é que ele resolve trabalhar com a sintaxe, por ser ela responsável pelo aspecto sem dificuldades. combinatório da linguagem. Por isso, a patologia escolhida é a síndrome conhecida por Afasia de Broca, porque os que são atingidos por ela têm problemas em combinar94 Linguística? Que é isso? A natureza da linguagem humana 95 palavras, o que leva a maioria dos pesquisadores a acreditar que a área danificada ouvem sentenças contendo dois constituintes nominais, uma sentença ativa e nessa síndrome é aquela responsável pela Nas palavras de Grodzinsky: outra passiva, por exemplo, como: Isto [uma abordagem altamente abstrata e precisa] vai esboçar um novo desenho (13) a. A menina empurrou o menino. da representação cerebral da faculdade da linguagem; depois de três décadas desta b. O menino foi empurrado pela menina. linha de investigação, parece que a habilidade de criar e analisar formas asso- ciadas a significados através de regras combinatórias é muito diferente de outras O pesquisador, então, conta histórias inventadas, uma para cada sentença, para capacidades mentais (tais como aritmética ou inteligência geral). A modularidade da mente, sobretudo, é também uma propriedade da própria sintaxe; a neurologia criar contextos adequados para a situação discursiva. Após a leitura da história, o indica que a sintaxe está totalmente representada no hemisfério esquerdo, mas na pesquisador emite uma das sentenças anteriores e pede aos sujeitos para dizer se sua maior parte não está localizada na área de Broca. A evidência sugere que essa a sentença está de acordo com a estória contada. No caso das sentenças passivas, região cerebral tem um papel altamente específico e crucial: ela é o abrigo neural as respostas evidenciam que os pacientes estão tentando adivinhar a resposta, para mecanismos envolvidos na computação das relações transformacionais entre ou seja, estão "chutando". No caso das ativas, os níveis atingidos estão acima constituintes frasais deslocados e as posições sintáticas a partir da quais eles são desse padrão aleatório. Os mesmos resultados são encontrados em experimentos movidos. (2000: 2, tradução nossa) envolvendo sentenças de interrogação de constituintes como: A conclusão de que a área de Broca tem um papel muito mais especializa- (14) a. A menina empurrou o menino. do, de ser responsável pela computação das relações estabelecidas entre as b. Que menino a menina empurrou? diferentes posições sintáticas ocupadas por um constituinte deslocado (o para- doxo posicional), é baseada num conjunto de experimentos desenvolvidos por Nas sentenças interrogativas como (14b), as respostas também exibem um Grodzinsky (2000). Esse cientista refaz o percurso de busca de evidências para padrão aleatório. Para Grodzinsky, esses resultados evidenciam que os pacientes a sua teoria, delineando, com detalhes, o papel funcional da área de Broca na afásicos não conseguem interpretar sentenças com constituintes deslocados. Para linguagem. Primeiro ele mostra que afásicos com distúrbio na área de Broca, em entender melhor essa conclusão, precisamos compreender mais adequadamente a testes de compreensão, não têm problemas com sentenças simples que não con- proposta de análise de sentenças passivas e de sentenças interrogativas de consti- tenham encaixamentos intrassentenciais. Também não demonstram problemas tuintes na abordagem analítica a elas dada pela Teoria Gerativa. nas relações entre o componente lexical e sua interface com a gramática. Não Na seção "A organização estrutural das sentenças e a propriedade de apresentam problemas quando levados a desempenhar tarefas que envolvam a deslocamento", apresentamos o tratamento dado pela Teoria Gerativa ao atribuição de um determinado papel semântico a um constituinte sintático em que Milner chama paradoxo posicional, qual seja, o fato de que às vezes um sentenças ativas simples. Em línguas com marcação morfológica para caso, constituinte é realizado numa posição sintática diferente da posição que ele eles não apresentam problemas na interpretação do papel semântico de sintag- precisaria ocupar para carregar a semântica que ele carrega. mas nominais nas suas posições de base. Além disso, demonstram capacidade Como dissemos, para explicar essa propriedade, a Teoria lança mão da ope- para interpretar algumas relações intrassentenciais, como as envolvidas entre ração de deslocamento. Na sentença (14b) o valor interrogativo recai sobre pronomes e seus antecedentes. No entanto, em contraste com essas habilidades o constituinte "que menino". Ao constituinte "que menino" está associado o interpretativas intactas, eles apresentam déficits de compreensão em sentenças papel semântico de quem foi empurrado, papel esse canonicamente associado que envolvem deslocamento de constituintes. Tipicamente, os experimentos são a constituintes ocupando a posição de complemento do verbo. No entanto, o delineados da seguinte Pacientes afásicos com lesão na área de Broca fato de o valor interrogativo da sentença recair sobre faz com que ele seja realizado na posição inicial da sentença. Ou seja, o constituinte "que menino"96 Que é isso? A natureza da linguagem humana 97 parece ocupar duas posições na sentença: a posição de complemento do verbo A hipótese formulada a partir dos anos 1980 sobre as propriedades dessa empurrar e a posição de constituinte focal da interrogação. A metáfora usada gramática universal é a de que ela é composta por um sistema fixo de princípios pela teoria é a de que o constituinte se moveu da posição de complemento e por um conjunto de princípios parametrizados, cujos valores são fixados a par- para a posição de foco inicial da sentença. tir de evidências positivas no contato com uma determinada língua. A variação Uma análise de deslocamento de constituintes também é atribuída às senten- entre as diversas línguas humanas é captada pelas possibilidades advindas da ças passivas. A ideia intuitiva é que o morfema passivo adicionado ao verbo nas fixação dos valores dos diversos parâmetros. Usando uma metáfora de Chomsky, sentenças passivas faz com que o papel de agente associado à posição de sujeito podemos pensar nos parâmetros como as chaves de um quadro de força elétrica. das sentenças ativas seja implicitado. Nesse caso, em que não há mais um papel Se as chaves estão ligadas numa determinada posição, temos uma língua como o semântico associado à posição de sujeito da sentença, outro constituinte, no caso quimbundo; se em outra posição, temos o japonês, e assim sucessivamente. Desse menino", que desempenha o papel semântico de quem foi empurrado, papel modo, as línguas do mundo passam a ser agrupadas de acordo com um conjunto este, por sua vez, associado à posição de complemento do verbo empurrar, pode de propriedades que elas podem ou não compartilhar. ocupar a posição de sujeito. Mais uma vez, a metáfora do movimento é utilizada: A busca de suporte empírico para essa concepção de gramática fez com que lin- nas sentenças passivas, o constituinte complemento do verbo se move para a guistas do mundo inteiro, investigando a sintaxe das línguas naturais, engajassem-se no posição de sujeito da sentença. Projeto Gerativo a fim de, em primeiro lugar, testar, por meio da análise da gramática Para Grodzinsky, o déficit dos pacientes afásicos de Broca consiste justamente de cada uma das línguas humanas, se os princípios, formulados como compondo a na incapacidade de recuperar essa relação do mesmo constituinte com diferentes gramática universal, realmente são atestados em cada uma dessas línguas; e, em se- posições sintáticas. gundo lugar, determinar o conjunto de propriedades gramaticais a partir das quais as línguas podem ser agrupadas dependendo de compartilhar, ou não, tais propriedades. A GRAMÁTICA UNIVERSAL À guisa de uma breve exemplificação, tomemos dados de três línguas, o latim, o português e o quimbundo, uma língua africana: A postulação da hipótese explicativa inatista leva-nos a assumir que o es- tado cognitivo inicial a partir do qual uma criança, imersa numa comunidade (15) a. As crianças viram o João. falante, adquire a língua dessa comunidade, já é um sistema estruturado. A b. O João, as crianças viram. teoria sobre esse estado cognitivo inicial é chamada Gramática Universal. Ela (16) a. Pueri Johannem viderunt. consiste em explicitar o design biologicamente determinado que possibilita o João-acc. viram desenvolvimento, nos seres humanos, da capacidade para a linguagem. Essa é As crianças viram o João. uma consequência necessária da postulação da hipótese inatista, uma vez que, b. Johannem pueri viderunt. se as crianças partem de um estado cognitivo inicial que faz parte da nossa João-acc criança-nomviram dotação genética, esse estado inicial deve conter propriedades comuns a todas O João, as crianças viram. as línguas. Sendo assim, se as línguas naturais parecem, a olho nu, utilizar-se (17) a. Aana Nzua a-um-mono. de processos gramaticais extremamente diversos, essa diversidade é apenas Criança João elas-ele-viram. aparente, pois o fato de a faculdade da linguagem ter seu estado inicial geneti- As crianças viram o João. camente fixado significa que ela tem na sua base princípios gerais universais, b. Nzua aana a-um-mono. João comuns a todas as línguas. criança elas-ele-viram. O João, as crianças viram.98 Linguística? Que é isso? A natureza da linguagem humana 99 Os dados mostram-nos que as três línguas se utilizam de diferentes mecanis- A gramática não é mais composta por um conjunto de regras que descrevem as mos morfológicos e sintáticos para fazer o mapeamento que relaciona as funções propriedades de cada construção de uma língua em O reconhecimento sintáticas dos constituintes das sentenças, lidas a partir da posição sintática por de construções, como, por exemplo, as sentenças na voz passiva do português eles ocupada na estrutura sentencial, aos papéis semânticos que eles desempenham e a descrição de suas propriedades, como em: "as sentenças na voz passiva são para satisfazer as exigências do predicador Explicando melhor, para atribuir às formadas pela promoção do objeto direto para a posição de sujeito, pela introdu- sentenças de cada língua a interpretação relativa ao constituinte que desempenha ção do verbo ser que recebe as marcas morfológicas de modo, tempo e pessoa o papel de experienciador do evento de ver e ao constituinte que desempenha o da sentença uma vez que o verbo principal assume a forma de particípio passado papel de objeto de visão, o português utiliza-se dos mecanismos de no e pela realização do sujeito agente em uma posição de adjunto introduzido pela verbo e de ordem dos constituintes na sentença. Já o latim se utiliza de morfologia preposição por, no caso de optar por sua realização", não passam de descrições sufixada aos substantivos: nominativo para o constituinte desempenhando o papel informais, sem nenhum estatuto teórico. As regras foram decompostas em prin- de experienciador do evento de ver e acusativo para o constituinte desempenhando cípios gerais explicativos de propriedades comuns de conjuntos de construções. o papel de objeto de visão. O quimbundo, por sua vez, utiliza-se de morfologia Não só propriedades nunca antes percebidas têm agora o seu papel fundamental prefixada ao verbo: o prefixo mais próximo da raiz verbal deve conter marcas de no conhecimento linguístico reconhecido, como também se percebe a correlação pessoal com constituinte desempenhando o papel de objeto de de feixes de propriedades nunca antes vistas como associadas. Assim, a mudança visão, enquanto o primeiro, mais distante, exibe com o constituinte em uma dessas características desencadeia a mudança no conjunto de propriedades desempenhando o papel de experienciador do evento de ver. A rica diversidade a ela associadas, com consequências para todo o sistema, o que faz a mudança morfológica observada entre as línguas esconde um princípio universal comum: agora ser percebida como abrupta. o princípio que torna legível os papéis semânticos dos argumentos ocupando as O artigo "Tense, Quantification and Clause Structure in EP and BP" (Ambar, posições para eles designadas na estrutura sintática. Observe-se que a alteração Gonzaga e Negrão, 2004) teve por objetivo derivar, de propriedades estruturais na ordem linear dos constituintes não é suficiente para alterar a interpretação dos das sentenças do português europeu em contraste com o português brasileiro, constituintes. Cabe mais uma vez ressaltar que a ordem linear esconde outro prin- tanto a distribuição do advérbio sempre, ou seja, as diferenças sistemáticas entre cípio de organização dos constituintes de uma sentença, a estruturação hierárquica as posições em que sempre aparece nas sentenças das duas línguas, quanto as em constituintes. A ordem linear é uma coerção que o módulo de exteriorização diferentes interpretações associadas a sempre, dependentes da posição que ele das línguas verbais impõe. A estrutura hierárquica precisa ser linearizada para ocupa nas sentenças das duas línguas. Para tornar mais claras as consequências poder ser falada. que a visão paramétrica da teoria adotada tem para a investigação em sintaxe, As pesquisas sobre a sintaxe das línguas naturais no âmbito do Projeto Gerativo mostraram que os conhecimentos advindos dos estudos da tradição gramatical detalho algumas das conclusões alcançadas no artigo. deixaram de registrar propriedades básicas das línguas humanas, até mesmo no Em português europeu, sempre em posição pré-verbal pode ter duas interpre- caso de línguas bastante estudadas, que contam com um conjunto de boas gra- tações, confirmativa ou temporal, dependendo do tempo morfológico da frase. máticas descritivas e de bons dicionários. Mais ainda, o fato de esse projeto de A sentença: "O João sempre comprou o livro na Fnac", em português europeu, pesquisa partir da hipótese de que as línguas, além de compartilhar um conjunto significa algo aproximado a "O João de fato (finalmente) acabou comprando o de princípios comuns a todas elas, distinguem-se com relação a opções feitas na livro na Fnac". Essa interpretação, chamada de confirmativa, não é possível no atualização dos valores dos princípios abertos, os parâmetros, instalou uma nova português brasileiro. Aliás, essa sentença seria estranha em português brasileiro, perspectiva nos estudos comparativos e nos estudos sobre a mudança linguística. uma vez que, para nós, sempre só tem o valor temporal. Com valor temporal, sempre precisa operar sobre várias situações de compra, o que está excluído na100 Que é isso? A natureza da linguagem humana 101 sentença anterior, uma vez que a referência a um único livro determinado obriga Sem a mudança de perspectiva trazida pela teoria gerativa aos estudos sobre a interpretação de um único evento de compra. a sintaxe das línguas naturais, esses fenômenos a distribuição e a interpretação Por outro lado, no caso da interpretação temporal, possível nas duas línguas, de um advérbio e o papel das marcas morfológicas de no verbo diferenças na ordem preferida para sempre ocupar com relação ao verbo também jamais seriam percebidos como correlacionados, nem mesmo seriam tomados são observadas. Em português brasileiro preferimos dizer: "O João sempre viaja como relevantes para a compreensão do que seja a capacidade linguística dos para Paris de trem", enquanto os portugueses só podem dizer: "O João vai sempre falantes de uma língua natural. Mais ainda, esses estudos mostraram que as a Paris de comboio", se se tratar do sempre temporal. guas naturais não variam aleatoriamente, ou seja, uma vez que as línguas naturais O trabalho, utilizando-se de outras construções das duas línguas, como exibem feixes de propriedades homogêneas, a teoria permitiu identificar classes sentenças interrogativas, sentenças com flutuação de quantificadores, sentenças de línguas humanas possíveis. negativas, entre outras, demonstra que o comportamento de sempre está corre- lacionado a uma propriedade mais geral das línguas: no português brasileiro, Christopher: as línguas impossíveis as marcas morfológicas de concordância no verbo perderam a capacidade de, por elas mesmas, identificar a referência do constituinte ocupando a posição O caso do menino Christopher, também narrado por Moro (2008) no pró- de sujeito e, portanto, deixaram de desempenhar o papel de tornar visível a logo de seu livro The Boundaries of Babel, oferece evidência para a distinção relação de predicação entre o sujeito e o predicado de suas sentenças. Um entre regras possíveis e regras impossíveis de integrar as gramáticas das lín- exemplo pode nos apontar o caminho para a percepção do contraste entre as guas humanas. Nascido na Inglaterra em 1962, Christopher foi diagnosticado duas línguas. como portador de uma lesão cerebral. Ele andou e falou tardiamente. Testes de inteligência colocavam-no abaixo da média e sua deficiência levou-o a (18) a. Compra ouro na Galeria viver em instituições especializadas. No entanto, ele mostrou desde cedo ser b. Ele compra ouro na Galeria Pajé. portador de uma habilidade incomum para aprender línguas estrangeiras. Ele Compra-se ouro na Galeria Pajé. foi estudado pelos linguistas Neil Smith e Tsimpli, que com ele realizaram trabalhos bastante importantes. Dentre eles, apresentarei breve- No português europeu, o sujeito da sentença (18a) tem uma interpretação mente um experimento durante o qual o processo de aquisição, por parte de definida, correspondente à interpretação associada à sentença (18b) do portu- Christopher, da língua berbere e de uma língua inventada, epun, foi observado guês brasileiro. Por outro lado, no português brasileiro, a sentença (18a) tem e analisado (Smith, Tsimpli e Ouhalla, 1993). O epun continha estruturas em a ela associada a interpretação genérica arbitrária de que é possível comprar conformidade com os princípios da Gramática Universal combinadas com um ouro na Galeria Pajé. Para obter essa interpretação arbitrária no português número de construções impossíveis de integrar uma língua natural humana. O europeu é necessário que a sentença seja construída com o pronome se in- resultado que merece ser aqui destacado foi que Christopher não conseguiu determinador do sujeito, como mostra (18c). A sentença (18a) não gera uma aprender as partes impossíveis da do epun. Ele não teve problemas interpretação arbitrária em português Isso porque, nessa língua, as para aprender a língua berbere. Esse experimento dá sustentação para a hipó- marcas de no verbo atuam plenamente no estabelecimento da tese da Gramática Universal, uma vez que Christopher, alguém que contava relação de predicação estabelecida entre o sujeito e o predicado. Essa proprie- sobremaneira com sua faculdade da linguagem para aprender uma língua, não dade parece ser necessária tanto para a realização do sempre com interpretação conseguiu se tornar proficiente numa língua que incluía princípios impossíveis confirmativa quanto para que o verbo possa realizar-se numa posição à frente de figurar numa língua natural humana. do advérbio sempre.102 Linguística? Que é isso? A natureza da linguagem humana 103 PROBLEMA DE DARWIN Boeckx levanta a questão de qual é a propriedade que torna possível a aplicação recursiva da operação de Seguindo sugestão do próprio Projetos científicos estão em constante mudança. O alcance de certos resulta- Chomsky, ele propõe que o processo de lexicalização de um conceito é a pro- dos nos obriga a reformulações, a redirecionamentos, mas também nos permite a priedade responsável pela emergência da linguagem humana. Segundo ele, o elaboração de perguntas que, sem o conhecimento prévio obtido, nunca poderiam processo de lexicalização consiste em equipar um conceito com um traço que ser feitas. o transforma em um item lexical, ativo para entrar em sucessivas operações de As pesquisas desenvolvidas no modelo de Princípios e Parâmetros produ- conectar. Mais do que isso, essa operação de lexicalização acaba por permitir ziram um corpo de conhecimentos sobre a gramática das línguas naturais e sua interações entre os módulos cognitivos da mente humana. De modo mais espe- aquisição, sem precedentes. No início dos anos 1990, o cenário estava pronto para cífico, esse traço, concretamente exemplificado como um traço categorial, ou o tratamento de novos problemas. A questão passa a ser por que a faculdade de seja, um traço que define a natureza gramatical do item lexical substantivo, linguagem tem as propriedades que tem e não outras possíveis. A hipótese passa verbo, adjetivo, etc. -, ao envolver um conceito, uma entidade dos sistemas a ser que a faculdade da linguagem possui uma arquitetura perfeita para interagir concepto-intencionais, torna-o apto para participar das operações sintáticas do com os demais sistemas cognitivos internos à mente humana. componente computacional. É como se esse traço categorial transformasse um Essa hipótese levou a um refazer do modelo de gramática. A gramática conceito, uma representação mental, em uma entidade da língua, manipulável é, agora, um componente computacional no qual itens lexicais concebidos pela sintaxe. Segundo Boeckx: como feixes de traços se combinam segundo um padrão fixo. Essa operação de combinação de itens lexicais recebe o nome técnico de merge, traduzido [...] os seres humanos parecem ser os únicos equipados com a habilidade de para o português por alguns como concatenar, por outros como conectar. O frequentemente além dos limites desses módulos [sistemas centrais de conhe- cimento] e engajar-se em sistemáticas combinações intermodulares (i.e., pen- componente computacional gera descrições estruturais de sentenças que for- samento intermodular). Eu quero argumentar que é o processo de lexicalização necem as informações linguísticas pertinentes para outros sistemas cognitivos. que subjaz a essa habilidade de extrair conceitos de seus limites modulares. É Os sistemas cognitivos tributários dos níveis de interface são responsáveis por como se o envelope lexical (traço de borda) por um lado tornasse o conteúdo nossos pensamentos e ações, neles incluídos a articulação dos sons, a interpre- de um conceito opaco para o sistema computacional [...], e, por outro lado, li- tação, a expressão de crenças e desejos, reunidos em dois tipos: os sistemas bertasse esse conceito de seu potencial combinatório limitado (modular). Uma sensório-motores e os sistemas concepto-intencionais. Assim formulado, esse vez lexicalizado, conceitos podem ser combinados livremente (via conectar) como atestam expressões como as de Chomsky Ideias verdes descoloridas modelo de gramática, que ficou conhecido como a faculdade de linguagem dormem furiosamente ou as de Lewis Carroll em "Jabberwocky". (2011: 53-4, estreita, possibilitou a busca de uma hipótese que explique a emergência da tradução nossa) linguagem na espécie humana. Para mostrar, de maneira breve e intuitiva, como essa explicação pode ser A proposta de Boeckx é que a propriedade que emergiu em nossos ancestrais, construída, utilizarei a hipótese desenvolvida por Boeckx (2011). Esse linguista tornando-os humanos, foi o traço categorial, invólucro dos conceitos na operação parte da proposta de Hauser, Chomsky e Fitch (2002) de que o que distingue a de lexicalização, catalisador da aplicação recursiva da operação de conectar. faculdade da linguagem dos seres humanos, dos demais sistemas de comunicação Talvez a hipótese para o problema de Darwin proposta por Boeckx, embora de outras espécies animais, é o sistema computacional, ou seja, o mecanismo se- plausível, esteja distante de explicar pela ciência a origem da espécie humana. No gundo o qual palavras (itens lexicais) são combinadas, por meio da operação de entanto, sem dúvida nenhuma, ao longo destes quase 60 anos, o desenvolvimento conectar, o que explica a sua qualidade recursiva, de maneira a formar sentenças do Projeto Gerativo produziu um corpo sólido e robusto de conhecimentos sobre às quais se associam determinadas interpretações. a natureza da linguagem humana.104 Linguística? Que é isso? A natureza da linguagem humana 105 O enfoque científico na pesquisa Para ter uma ideia de como desenvolver essas práticas de experimentação sobre a linguagem e suas consequências linguística com a exploração dos diversos recursos gramaticais oferecidos pela gramática de uma língua, as chamadas atividades epilinguísticas, Franchi nos dá para ensino de língua um exemplo do trabalho de reformulação de A partir da sentença (19a), outras possibilidades de estruturação podem ser exploradas: A abordagem científica adotada pela Teoria Gerativa para explicar a capaci- dade humana para a linguagem abre novas perspectivas para o ensino de língua (19) a. A inflação continuava a crescer rapidamente e isso irritava o presidente. na escola. Nessa abordagem, todo falante tem um conhecimento intuitivo da sua b. Irritava o presidente o fato de que a inflação continuasse a crescer própria língua, conhecimento esse que é adquirido nos primeiro anos de vida rapidamente. de uma criança a partir de uma predisposição genética e de sua inserção numa Irritava o presidente continuar a inflação a crescer rapidamente. comunidade falante. O estímulo, embora insuficiente face à complexidade da d. Irritava o presidente o contínuo e rápido crescimento da inflação. gramática desenvolvida, é suficiente para que essa criança adquira a língua da comunidade na qual está inserida. É fazer aflorar o conhecimento intuitivo, é um brincar com as possibilidades abertas pela gramática das línguas. MAS, ENTÃO, QUE ENSINAR NA ESCOLA? ATIVIDADES EPILINGUÍSTICAS E METALINGUÍSTICAS Em primeiro lugar, na escola tomamos contato com a língua Ler e escrever são habilidades desenvolvidas na escola. Por outro lado, como dissemos, Mas há ainda outra tarefa que cabe à A linguagem humana é um a criança desenvolve a gramática da língua da comunidade na qual está inserida, objeto passível de descrição e explicação científica como qualquer outro objeto que muitas vezes gera produções distantes dos padrões socialmente preconizados científico. Portanto, a escola também é o lugar em que ser levados a como padrões do bem falar e do bem escrever. A escola é também o lugar em que refletir sobre o que é a linguagem humana, sua natureza, sua função, sua origem, a criança, portadora da gramática da variante linguística falada por sua comuni- sua organização, enfim, a refletir acerca de todas as questões sobre as quais a dade, entra em contato com a norma linguística padrão adotada pela sociedade. Linguística moderna tem se debruçado. A questão agora é como tornar proficiente na norma padrão essa criança falante Na tradição escolar, o ensino gramatical vale-se da metalinguagem desenvol- de uma determinada variante do português, ou seja, portadora de outra gramática vida pelos gramáticos, na crença de que o domínio dessa metalinguagem pode da língua portuguesa. Como diz Franchi: levar a uma maior proficiência na norma culta. O problema do desenvolvimento da reflexão sobre a linguagem no âmbito escolar não está somente na metalinguagem, Trata-se de levar os alunos, desde cedo, a diversificar os recursos expressivos ou seja, na teoria escolhida para embasar essa reflexão, mas está, sobretudo, no com que falam e escrevem e a operar sobre sua própria linguagem, praticando a diversidade dos fatos gramaticais de sua língua. Aí começa uma prática ou a modo como esse trabalho é feito. A teoria sobre a linguagem escolhida, ou seja, a intensificação de uma prática que se inicia na aquisição da linguagem quando tradição gramatical, é elevada à condição de verdade. A partir da apresentação de a criança se exercita na construção de objetos linguísticos mais complexos, faz um conjunto de conceitos e definições gramaticais tomadas como inquestionáveis, hipóteses de trabalho relativas à estrutura de sua língua. Chamamos de ativida- o aluno é levado a etiquetar os fatos linguísticos, reconhecendo neles exemplares de epilinguística a essa prática que opera sobre a própria linguagem, compara de tais conceitos e definições preestabelecidas. Esse trabalho sempre esbarra no expressões, transforma-as, experimenta novos modos de construção canônicos problema de que a língua escapa a essas definições. Essa tarefa tem-se mostrado ou não, brinca com a linguagem, investe as formas linguísticas de novas signi- ficações. (2006: 97) inadequada do ponto de vista da reflexão sobre a língua e vazia de significado para o aluno, do ponto de vista pedagógico.106 Linguística? Que é isso? A natureza da linguagem humana 107 Também nessa tarefa escolar, a Linguística pode trazer sua contribuição. Ao proposto pelo lógico alemão Gottlieb Frege). No nível da oração, predicador mais importante é o verbo." (1992: 275). Raposo usa o termo predicador para reservar o termo predicado para função gramatical da adotar a perspectiva científica, ela abre caminho para outro modo de construção articulação central da sentença, a que se dá entre sujeito e predicado. Na sentença (3), o verbo ensinar é um do conhecimento sobre a linguagem e, consequentemente, para o domínio de uma predicador completado semanticamente pelos argumentos: quem ensina, o constituinte "os Beatles": o que é ensinado, constituinte "inglês"; a quem é ensinado, o constituinte "a muitos com que é metalinguagem: partir da observação e da descrição dos fatos linguísticos para ensinado, o constituinte "com sua música". chegar a generalizações sobre os princípios que a constituem, ou seja, refazer com 6 Pronomes silenciosos, sem conteúdo fonológico, acontecem em diferentes posições sintáticas nas mais dife- rentes línguas. Na tradição de estudos gramaticais do português, reconhece-se a existência desses pronomes o aluno o caminho da busca de conhecimento sobre esse objeto de investigação, silenciosos somente na posição de sujeito, fenômeno classificado como sujeito oculto ou nulo, como em: a linguagem humana. Para concluir, cito Geraldi, em Hubner: (i) João disse que não sabe inglês. Em (i) o constituinte sujeito do verbo saber é realizado sob a forma de um pronome silencioso. O modo do trabalho escolar se caracteriza por apresentar ao estudante o re- 7 Na teoria gramatical moderna, prefere-se falar em proforma ao invés de pronome para evitar mal-entendidos. sultado de uma reflexão sobre a linguagem. Daí apresentar a metalinguagem o termo pronome e sua definição na tradição gramatical de palavra que substitui o nome estão equivocados. As palavras chamadas de pronome na realidade substituem todo um constituinte. No caso em (1c), eles retoma a partir da qual se vai ao fato linguístico. Exemplifico com o fato linguístico todo o constituinte "os Beatles" e não o nome "Beatles". o conceito teórico e depois se fazem exercícios. Não se começa uma refle- 8 Grosso modo, pode-se dizer que termo complementizador designa os itens que na tradição gramatical são xão sobre a linguagem que suba ao nível da construção do conhecimento. O chamados conjunções integrantes. 9 modo escolar de fazer tem de partir para uma reflexão que seja a construção Para um maior entendimento dessa teoria linguística, consultar o capítulo de Ronald Beline neste livro. de um conhecimento e não a apresentação do resultado de uma reflexão de 10 Como já foi dito, um corpus reúne produções dos falantes, ou seja, dados de realizações linguísticas. um conhecimento já construído. Inverter a apresentação do resultado para asterisco marca que a sentença (5c) é agramatical. Cabe ressaltar a diferença entre agramatical e incorreto. Para isso é necessário retomar a distinção entre gramatica prescritiva e os conceitos de gramática das abordagens a reflexão significa não saber onde é que a reflexão sobre a linguagem vai científicas. Incorreto é algo relacionado à visão normativa da língua, ou seja, a sentença fere algum padrão tido terminar. Assim, no ensino de gramática, é preciso assumir, com todos os como norma de bem falar ou escrever a ser seguida. Agramatical significa que estamos operando com algo riscos e com toda a radicalidade, que não sabemos qual será o resultado que não é uma sentença da língua, ou seja, estamos lidando com uma violação dos princípios constitutivos desse saber linguístico intuitivo internalizado que qualquer falante de uma língua possui. dessa reflexão. No entanto, é fundamental que o processo de produção do 12 Em Franchi, Negrão e Müller (2006) e em Negrão, Scher e Viotti, (2003), o fenômeno da ambiguidade es- conhecimento se instaure pela análise linguística e não a análise linguística trutural é longamente discutido. Aqui retomarci somente alguns dados para exemplificação. Remeto o leitor sirva apenas como um trampolim, ou uma passagem para a aprendizagem da interessado para as obras citadas. norma culta. (1989: 191-2) 13 "U-shaped developmental curve", Strauss (1982). Em seu livro, o autor discute diferentes abordagens teó- ricas oferecidas para explicar o fato de que, no desenvolvimento humano, certos comportamentos surgem e desaparecem para reaparecer em outro momento. 14 É preciso deixar bem claro que Attié Figueira não embasa seus achados e sua análise nas concepções teóricas Notas sobre aquisição da linguagem postuladas pela Teoria Gerativa. As aspas na palavra erro servem para ressaltar o fato de que não se trata de estudo baseado numa concepção prescritiva de gramática. Ao contrário, trata-se de uma abordagem na qual o erro, o desvio, assume objeto de estudo da Teoria Gerativa, a faculdade da linguagem, também é referido como conhecimento o estatuto de fenômeno linguístico também merecedor de análise e explicação. linguístico e competência linguística. 16 exemplo (12) corresponde ao dado (6) de Attié Figueira (2003: 483). Remetemos o leitor ao artigo para 2 Não é objetivo deste artigo contrapor os termos língua e linguagem, que serão usados indistintamente e, por obtenção de informações acerca das convenções utilizadas no registro dos dados da criança A. No entanto, conseguinte, oferecer definições precisas que distingam os dois conceitos. é importante salientar que esse dado foi produzido por A. com a idade de 3,2 anos. 3 As siglas Língua-E e Língua-I servem para marcar o contraste entre a língua como externa ao ser humano e 17 Crianças selvagens, às vezes também chamadas de crianças-lobo, são aquelas que, por motivos diversos, a língua como interna à mente humana. desde os primeiros anos de vida viveram isoladas do convívio social de qualquer comunidade humana. 4 Na tradição gramatical, os termos oração principal e oração subordinada são utilizados para classificar o que 18 Essa hipótese é conhecida como The Critical Period Hipothesis (a hipótese do período crítico) e foi pri- estamos analisando como sentença matriz e sentença encaixada, respectivamente. Não se trata, porém, de meiramente estendida para o processo de aquisição da linguagem por Eric H. Lenneberg (1967): "Há um um mero caso de diferença terminológica, pois os termos utilizados carregam consigo uma certa motivação: período crítico para a aquisição da linguagem, limitado no início por falta de maturação e no final por perda encaixamento, como ficará mais claro na discussão sobre recursividade feita mais adiante, traz consigo a da adaptabilidade e inabilidade para reorganização no cérebro, particularmente com respeito à extensão ideia de que uma sentença completa pode funcionar como um constituinte de uma outra sentença. topográfica do processo neurofisiológico" (p.179, tradução nossa). 5 Retomando Raposo: "Tal como num sistema de lógica de predicados, as expressões linguísticas podem ser 19 Desde a descoberta de Broca, descrita anteriormente, grosso modo, o hemisfério esquerdo do cérebro tem analisadas num predicador central e num determinado número de argumentos que completam o sentido, sido associado com a capacidade humana para a linguagem. convertendo o predicador numa expressão semanticamente completa (ou saturada, para empregar um termo108 Que é isso? A natureza da linguagem humana 109 20 Afasia é o nome geral dado a déficits na capacidade de linguagem adquiridos geralmente por traumas ou GRODZINSKY, Y. The neurology of syntax: Language use without Broca's area. Behavioral and Brain Sciences, doenças neurológicas. n. 23, 2000, p. 21 Manuais de anatomia caracterizam o córtex cerebral como tendo o papel mais importante no fenômeno da HAUSER, M. D.; CHOMSKY, N.; FITCH, W.T. The Faculty of Language: What is it, who has it, and how did it linguagem verbal. O de Machado (2005) assume a existência de duas áreas corticais para a linguagem: a área evolve? Science, 298, 2002, p. anterior, correspondente à área de Broca, situada nas partes opercular e triangular do giro frontal inferior, é HUBNER, R. M. (Org.). Quando o professor resolve Experiências no ensino de português. São Paulo: Loyola, 1989. caracterizada como responsável pela "expressão da linguagem"; a área posterior, situada na junção entre os KATO, M.; NEGRÃO, E. V. (Eds.). Brazilian Portuguese and the Null Subject Frankfurt: Vervuert lóbulos temporal e parietal, conhecida como a área de Wernick, em homenagem ao primeiro pesquisador a descrevê-la, Carl Wernick, é caracterizada como basicamente relacionada com a "percepção da linguagem". LENNEBERG, E.H. Biological Foundations of Language. New York: Whiley, 1967. Estudos em que os avanços da neuroanatomia estão articulados com os avanços das teorias linguísticas têm alterado substancialmente a compreensão desses fenômenos, mostrando serem mais complexas as relações MACHADO, A. B. M. functional. São Paulo: Atheneu, 2005. entre cérebro e linguagem. MILNER, J. C. Le Périple Structural. Figures et Paradigme. Paris: Seuil, 2002. 22 A área de Broca foi primeiramente associada à afasia de produção de fala porque, como vimos, a expressão MORO, A. The boundaries of Babel: The Brain and the Enigma of Impossible Languages. Cambridge: MIT linguística de Leborgne consistia na produção de uma sílaba reduplicada "tan tan", ou seja, apresentava Press, 2008. um sério problema de fluência verbal. Posteriormente, essa área foi associada ao processamento sintático. NEGRÃO, E. V.; SCHER, A. P.; VIOTTI, E. Sintaxe: explorando a estrutura da sentença. In: FIORIN, José L. (Org.). 23 Sendo uma língua com marcação morfológica de caso, as glosas assinalam os sufixos marcadores de caso Introdução à Linguistica: princípios de análise. São Paulo: Contexto, 2003, V. p. 81-109. nominativo (nom) e acusativo (acc). RAPOSO, E. P. Teoria da gramática: a faculdade da linguagem. Caminho, 1992. 24 A comparação entre a sintaxe do português brasileiro e a sintaxe do português europeu está fora do escopo ROBERTS, 1.; KATO, M. (Orgs.). Português Brasileiro: uma viagem diacrônica. Campinas: Unicamp, 1993. deste artigo. Remeto o leitor interessado para um conjunto de trabalhos desenvolvidos por pesquisadores SMITH, N. V.; TSIMPLI, I-M.; OUHALLA, J. Learning the impossible: The acquisition of possible and impossible brasileiros como os contidos em Galves (2001), Kato e Negrão (2000) e Roberts Kato (1993), entre outros. languages by a polyglot savant. Lingua, n. 91, 1993, p. 279-347. 25 Para uma leitura detalhada do experimento, remeto os leitores a Smith, Tsimpli e Ouhalla (1993). STRAUSS, S. U-shaped Behavioral Growth. New York: Academic Press, 1982. TARALLO, F. Relativization strategies in Brazilian Portuguese, Ph.D. dissertation, University of Pennsylvania, 1983. Bibliografia AMBAR, M.; GONZAGA, M.; NEGRÃO, E. V. Tense, Quantification and Clause Structure in EP and BP. Evidence from a comparative study on sempre. In: BOK-BENNEMA, R.; HOLLEBRANDSE, B.; KAMPERS-MANHE, B.; SLEEMAN. P. (Eds.). Romance Languages and Linguistic Theory 2002. Amsterdam: John Benjamins, 2004. ATTIÉ Figueira, R. A aquisição do paradigma verbal do português: as múltiplas direções dos erros. In: ALBANO, E. et al. (Orgs.). Saudades da lingua: a Linguística e os 25 anos do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. Campinas: Mercado das Letras, 2003, p. 479-503. BELLETI, A.; Rizzi, L. Editors' introduction: some concepts and issues in linguistic theory. In: BELLETTI, A.; RIZZI, L. (Eds.). On Nature and Language: Noam Chomsky. Cambridge: Cambridge University Press, 2002. BERWICK, R.; CHOMSKY, N. The Biolinguistics Program: The Current State of its Development. In: Di SCIULLO, A. M.; BOECKX, C. (Eds.). The Biolinguistic Enterprise: New Perspectives on the Evolution and nature of the Human Language Faculty. Oxford: Oxford University Press, 2011, p. 19-41. BOECKX, C. Some Reflections on Darwin's Problem in the Context of Cartesian Biolinguistics. In: SCIULLO, A. M.; BOECKX C. (Eds.). The Biolinguistic Enterprise. New Perspectives on the Evolution and nature of the Human Language Faculty. Oxford: Oxford University Press, 2011, p. 42-64. CHOMSKY, N. Syntactic Structures. The Hague: Mouton, 1957. Knowledge of Language. Its Nature, Origin, and Use. New York: Praeger, 1986. The Minimalist Program. Cambridge: MIT Press, 1996. CURTISS, S. Genie: a Psycholinguistic study of a modern-day "Wild Child". New York: Academic Press, DARWIN, C. The descent of man and selection in relation to sex. New York: D. Appleton and Company, 1871. FRANCHI, C.; NEGRÃO, E. V.; A. L. Mas o que é mesmo gramática? São Paulo: Parábola, 2006. GALVES, C. Ensaios sobre as gramáticas do português. Campinas: Editora da Unicamp, 2001. GOLDIN-MEADOW, S. A Study in Human Capacities. Science, New Series, V. 200, n. 4342, 1978, p. 649-51.