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BLOCOS ECONÔMICOS INTERNACIONAIS AULA 3 Prof. Tareq Yacoub Helou 2 2 CONVERSA INICIAL Vimos que o comércio internacional é pontuado por várias negociações entre países. Relembre que as negociações que ocorrem no âmbito da OMC são multilaterais; isso significa que todos os países participam e todos têm que seguir certas regras para comercializarem internacionalmente. Nesta etapa, veremos que acordos regionais podem servir de base para a integração econômica que vai além das negociações da OMC. Estudaremos o que são os blocos econômicos e o processo de integração regional. Veremos os tipos ou etapas desses blocos e suas características, além de alguns exemplos. Ainda, investigaremos quais as consequências dos blocos econômicos para o comércio internacional; e, por fim, abordaremos algumas das principais teorias que explicam a integração regional. CONTEXTUALIZANDO Vimos que a negociação internacional trouxe uma intensificação do comércio internacional, que, por sua vez, precipitou a criação de vários acordos comerciais regionais entre países. Porém, a integração regional vai muito além da intensificação de relações comerciais, ela influencia quase todas as dimensões da economia, e a integração econômica evoluiu para comportar essas dimensões. Para além do comércio, temos o movimento de pessoas, de investimentos, de cadeias produtivas, e até de moedas. Crédito: Dominik Bruhn/Shutterstock. 3 3 TEMA 1 – BLOCOS ECONÔMICOS: CONCEITOS Na definição de Almeida (2002), blocos regionais podem ser descritos como grupos de países contidos dentro de uma contiguidade geográfica, sendo blocos econômicos a dimensão moldada por acordos intergovernamentais de caráter econômico e comercial. Os blocos regionais contemporâneos são resultado do adensamento dos processos de integração econômica que o mundo experienciou após a Segunda Guerra Mundial, sendo o primeiro exemplo o Mercado Comum Europeu, em 1957, que depois viria a se tornar a União Europeia (Almeida, 2002, p. 5). Hoje, praticamente todos os países são membros de pelo menos um bloco econômico, com alguns pertencendo a vários. Há, claro, uma grande diferença entre eles, alguns são bem mais simples e menores que outros, mas, no geral, o objetivo de todo bloco gira em torno de reduzir barreiras entre os membros. Conforme as relações econômicas entre os membros vão se entrelaçando, esses blocos podem evoluir para coordenar funções econômicas mais complexas, como uma moeda comum. Qual a diferença de bloco econômico e acordos regionais de comércio, algo que já estudamos? Acordos regionais de comércio, como zonas de livre comércio e uniões aduaneiras, são tipos de blocos econômicos, mas estes podem ir além de acordos regionais de comércio. Por exemplo, o USMCA (acordo regional que inclui Estados Unidos, México e Canada) é uma zona de livre comércio. A maioria dos bens e serviços produzidos nesses países pode ser comercializada sem maiores problemas entre ele; e esse é o objetivo final. Não há intenção, pelo menos por ora, de aprofundar o USMCA além do livre comércio. Esse não é o caso do Mercosul, que não é apenas uma zona de livre comércio, mas uma união aduaneira com o objetivo de se aprofundar ainda mais e se tornar um mercado comum. TEMA 2 – DEFINIÇÕES DE INTEGRAÇÃO REGIONAL E CARACTERÍSTICAS CENTRAIS A integração regional é o processo de criação de blocos econômicos. Há diferença entre integração regional e integração econômica? Em teoria, sim. A integração regional abarca vários fenômenos econômicos, políticos, sociais e legais. Falamos de integração econômica, ou integração econômica regional, 4 4 para referir-se aos aspectos econômicos da integração, como acordos comerciais ou harmonização de políticas econômicas. Contudo, a integração é um fenômeno complexo em que essas dimensões sempre acabam se entrelaçando. Ao longo desta etapa, usaremos o termo “integração regional” e “integração econômica” de forma intercambiável, mas haverá ressalvas quando falarmos de aspectos mais específicos. 2.1 A Teoria da integração econômica O estudo da integração econômica é comumente atribuído ao economista húngaro Bela Balassa, que, em 1961, escreveu a Teoria da Integração Econômica, buscando teorizar os episódios de integração que estavam tomando forma depois da Segunda Guerra Mundial. Em seu trabalho, ele teorizou que países buscam a integração como formas de abolir as discriminações entre seus fatores econômicos (Balassa, 1961). Discriminações são aqui definidas como as diferenças que os países têm entre si em relação a fatores como impostos, tarifas, políticas econômicas, mãos de obra, políticas sociais e até legislação. Em suma, a integração busca eliminar elementos que diferenciam as economias dos países. O conceito de discriminação é importante para entendermos a distinção de cooperação internacional e integração. A cooperação é a busca pela diminuição de discriminações. A OMC é um exemplo de cooperação internacional, pois busca diminuir as discriminações que os países apresentam sobre o comércio, em particular por meio de tarifas e de barreiras comerciais. Enquanto isso, a integração internacional almeja a eliminação de discriminações. A remoção de barreiras por meio de um acordo regional, por exemplo, é um caso de integração. Por fim, a definição de regional repousa sobre o conceito de que a integração acontece primeiramente no entorno geográfico do país. Aqui podemos pensar no Asea, que começou com cinco países vizinhos e aos poucos foi incorporando outros países do Sudeste Asiático. A integração econômica avança em etapas. Nas primeiras, temos tipos mais simples de blocos, zonas de livre comércio, ficando a implementação mais restrita a elementos do comércio, e, conforme o processo de integração se adensa, começa-se a ter mercados comuns, uniões monetárias e econômicas, em que instituições fundamentais da política e gestão econômica de vários 5 5 países são manejadas por organismos centrais comuns a todos; o exemplo mais famoso é a União Europeia. Veremos essas etapas mais detalhadamente no tópico 3. Figura 1 – Divisão Norte-Sul Fonte: Tait, 2016. 2.2 A distinção Norte-Sul Crédito: Brichuas/Shutterstock. Nessa famosa imagem do mundo à noite, podemos ver como países mais desenvolvidos na América do Norte e na Europa detém um nível de urbanização e consumo energético muito maior que os do Sul 6 6 Quando estudamos a UNCTAD, vimos a importância de diferenciar países desenvolvidos de países em desenvolvimento. Aqui também se faz necessária essa distinção. Quando estudamos integração regional, dois termos muito utilizados são o “Norte” e o “Sul”. O Norte, ou Norte Global, refere-se aos países, geralmente localizados ao norte do globo, considerados desenvolvidos, com elevados níveis de renda, qualidade de vida e infraestrutura quando comparados com o resto do mundo. Enquanto o Sul, ou Sul Global, é formado por países com rendas mais baixas, mais elevados índices de corrupção e desigualdade, além de infraestrutura e economias menos desenvolvidas; ou seja, é bastante similar ao famoso e abrangente termo “terceiro mundo” (Bevir, 2007, p. 628). Ambos os termos são bem generalizantes e de cunho exclusivamente político-econômico. Podemos nos atentar que nem todos os países considerados do Norte estão geograficamente no Norte, como mostra o mapa na Figura 1, onde em azul estão os países do Norte Global e em vermelho os do Sul Global. Também vale destacar que, apesar de o Sul ser composto por países que compartilham dos problemas que tocamos há pouco, ainda assim é uma categoria extremamente diversa. Temos países relativamente ricos, como o Brunei e os Emirados Árabes Unidos, sendo agrupados no Sul com países de médio desenvolvimento, como o Brasil ea China, assim também com países muito mais pobres, como o Níger e o Afeganistão. Ainda assim, esses termos são hoje muito presentes na literatura econômica e política. É importante observar que os objetivos pelos quais os países do Norte buscam com a integração não necessariamente são os mesmos dos países do Sul. Geralmente, países do Norte ocupam uma posição predominante, podendo melhor ditar os termos dos acordos regionais que buscam inserir-se. Saiba mais O termo “terceiro mundo” foi muito utilizado durante a Guerra Fria na segunda metade do século XX. O “primeiro mundo” seria os Estados Unidos e países capitalistas aliados, em especial a Europa, seguido do “segundo mundo” liderado pela União Soviética e de países que adotavam governos socialistas. Enquanto isso, o terceiro mundo seria “o resto”, composto por uma centena de nações em vários estágios de desenvolvimento econômico, que seria disputado entre americanos e soviéticos. A expressão “terceiro mundo” já está em desuso 7 7 e não é mais oficialmente utilizada por organismos internacionais e pela academia; ela foi substituída pelo termo “países em desenvolvimento”. TEMA 3 – ETAPAS DOS BLOCOS ECONÔMICOS Como vimos no primeiro tópico, os blocos econômicos podem avançar em etapas, sendo que cada etapa envolve um nível mais complexo de integração que a anterior. Tradicionalmente, distinguem-se cinco principais tipos de blocos econômicos. Vejamos mais detalhadamente o que cada um deles representa. 3.1 Zonas de Livre Comércio Já falamos sobre as Zonas de Livre Comércio (ZLC) e de seu principal objetivo, que é o aumento do comércio internacional pela eliminação ou redução de barreiras comerciais entre seus membros, sobretudo tarifárias. Elas são o tipo mais simples de bloco econômico; por conta disso, são também as mais comuns no cenário internacional. Há, claro, distinções entre elas, enquanto algumas se estendem apenas a mercadorias, outras podem incluir serviços e propriedades intelectuais. Os exemplos mais famosos desse tipo de bloco são a USMCA (que substituiu o Nafta, também área de livre comércio) e o Asean, no Sudeste Asiático. Um aspecto muito importante negociado nos acordos constituintes das zonas livres de comércio é a definição das regras de origem. Lembre-se de que nessas zonas o comércio entre os membros é livre ou bem menos taxado, mas cada um pode adotar a política tarifária que quiser para países fora da zona, desde que siga as regras da OMC. Isso pode causar uma complexidade desnecessária às ZLC. Imagine no caso da USMCA, em que os Estados Unidos decidem taxar as importações de carros vindas do Brasil em 25%, enquanto o Canadá só taxa os carros brasileiros em 10%. Dado que o Canadá tem livre comércio de carros com os Estados Unidos por conta da UMSCA, podemos simplesmente exportar nossos carros para o Canadá, pagar as tarifas de 10% e revendê-los nos EUA, certo? Não. Para evitar que esse tipo de oportunismo em cima das diferentes tarifas aconteça, zonas de livre comércio já preveem regras de origem para os produtos 8 8 importados a países dentro do bloco. O carro brasileiro pode ter entrado pelo Canadá, mas sua origem ainda é brasileira; portanto, deve ser taxado nos EUA como um carro brasileiro e não como um carro canadense. Mas e se você exportar o carro sem as rodas para o Canadá, comprar rodas lá e montá-lo, agora ele é um carro canadense? Também, não. As regras de origem acordadas regem o quanto de uma dada mercadoria sofreu transformação substancial, ou seja, ela deve ter sido transformada dentro do bloco usando insumos dentro do bloco para ser considerada como feita no bloco, e assim não precisar pagar tarifas quando exportada para outros países do bloco. Só adicionar quatro rodas a um carro que já está inteiramente montado não é uma transformação substancial. No caso da UMSCA, para ser considerado um carro norte- americano, um carro tem que ter 75% de suas peças feitas na América do Norte, antes essa parcela era 62,5% nos tempos do Nafta (Feenstra; Taylor, 2021, p. 366). 3.2 União aduaneira Na união aduaneira, além da eliminação de barreiras alfandegárias para os países integrantes, há a adoção de uma Tarifa Externa Comum (TEC) para os produtos importados de países fora do bloco. Veja que, por conta da TEC, uniões aduaneiras não sofrem com as mesmas dores de cabeça com regras de origem que as zonas de livre comércio, uma vez que quem exportar para uma união aduaneira terá que pagar as mesmas tarifas alfandegárias independentemente do país. O Mercosul é o caso mais clássico de união aduaneira, mas há outra união aduaneira na América do Sul, a Comunidade Andina (CAN), composta pela Bolívia, Colômbia, Equador e Peru. 3.3 Mercado comum Seguindo adiante temos o mercado comum, que além de eliminar as barreiras alfandegárias internas e adotar um regime de TEC, há livre mobilidade de mão de obra e capital. Isso quer dizer que cidadãos-membros de um mercado comum podem livremente obter emprego, estudar ou se aposentar em qualquer país do bloco sem a necessidade de obter vistos de residência/trabalho ou novas carteiras de trabalho. Além disso, há a mobilidade de capitais, ou seja, dinheiro, ativos financeiros e investimentos podem ser 9 9 transferidos livremente dentro do bloco, sem a aplicação de regras especiais para capital estrangeiro. É aqui que a integração econômica vai além de políticas comerciais, e começa a englobar outros aspectos da economia. Mas se o Mercosul quer dizer “Mercado Comum do Sul”, ele não é um mercado comum? Infelizmente, não. Apesar de nós, como brasileiros, termos maior mobilidade para transitar e trabalhar em outros países do Mercosul, ainda assim estamos longe de nos tornar um mercado comum. Para isso, deveria haver uma harmonização das leis e dos regimes trabalhistas do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, além de uma harmonização de nossos sistemas previdenciários, isso sem falar da harmonização de sistemas bancários e de custódia de ativos. No mundo, hoje, existe apenas um bloco econômico que podemos chamar de mercado comum, a Comunidade Econômica Europeia (CEE). Não a confunda com a União Europeia! A CEE engloba todos os países da União Europeia mais três outros, a Islândia, o Lichtenstein e a Noruega. Esses três desfrutam a livre mobilidade de trabalho e capitais com o resto do continente europeu, mas não participam de certas instituições econômicas da União Europeia. Não se preocupe, voltaremos a falar da CEE quando abordarmos sobre a União Europeia. 3.4 União econômica Dentro de uma união econômica, além de todas as atribuições anteriores, há um alinhamento das políticas econômicas dos países-membros conforme o que é orientado por uma instituição regional central, ou seja, políticas macroeconômicas devem seguir as regras aplicáveis a todos os membros. O maior exemplar era a União Europeia antes da criação da zona do euro, onde países podiam elaborar suas políticas fiscais e monetárias desde que estivessem em conformidade com as metas e estipulações das instituições regionais europeias, como o Parlamento Europeu e a Comissão Europeia. 3.5 Integração econômica total Aqui os países do bloco já delegaram grande parte de sua autonomia à organização regional, ainda mais que na união econômica. Além dessa delegação, há a implementação de uma união monetária entre seus países, 10 10 estabelecendo uma moeda única a ser usada. A introdução de uma só moeda é vital para o funcionamento de uma região que atinge esse nível de integração. Novamente, a União Europeia aparece como o grande exemplo de bloco econômico que conseguiu atingir esse nível de integração. O Euro hoje é uma das moedas mais usadas e importantes na economia internacional. Há, porém, um sacrifício a ser feito para se adotar o euro. Por ser uma moeda regional,o euro é emitido e controlado pelo Banco Central Europeu, portanto, todos os países que adotaram o euro tiveram que delegar sua habilidade de conduzir política monetária a esse banco central. Embora a adoção do euro seja ainda bastante desejada, essa alienação da política monetária pode ser desastrosa em situações de crise. Existe uma diferença entre ser membro da União Europeia e ser membro da Zona do Euro. Essa zona é composta por países que adotaram o euro como sua moeda nacional. Todo o país na zona do euro é membro da União Europeia, mas nem todo país membro da União Europeia é membro da zona do euro, o exemplo mais famoso é o do Vaticano – que usa o Euro, mas não faz parte do bloco. TEMA 4 – DESVIO DE COMÉRCIO E BLOCOS ECONÔMICOS Crédito: Monster Ztudio/Shutterstock. 11 11 Uma das principais críticas aos blocos econômicos é a ideia de que eles distorcem artificialmente o comércio internacional; com isso, a implementação do livre comércio entre as nações é problemática. Por meio de seus regimes preferenciais, o comércio entre países pode ser desviado para aqueles que conseguem negociar melhor as suas posições em blocos econômicos e acordos, e não necessariamente para os países que são mais produtivos e eficientes. Ilustremos essa lógica com o exemplo apresentado na tabela a seguir. Tabela 1 – Preço hipotético de vinhos por país Preço em R$ Brasil Uruguai Portugal Preço original 30,00 28,00 25,00 Com tarifa de 30% 30,00 36,40 32,50 Com tarifa de 30% e sem tarifa para o Mercosul 30,00 28,00 32,50 Com tarifa de 15% para todos 30,00 32,20 28,75 Com tarifa de 15% e sem tarifa para o Mercosul 30,00 28,00 28,75 Pense que o Brasil produz e consegue vender vinhos a R$30,00 por garrafa, o Uruguai consegue vendê-los a R$28,00 e Portugal a R$25,00, como ilustrado na Tabela 1. Em um primeiro momento, o Brasil cobra uma alíquota de 30% para importações de vinho, independente do país. Também consideremos que os três vinhos têm a mesma qualidade. Como todos os vinhos importados são mais caros, o consumidor brasileiro tenderá a comprar o vinho mais barato, produzido aqui. Agora pense: dentro do Mercosul foi negociada uma política de tarifa zero para o comércio de vinhos dentro do bloco. O vinho uruguaio passa a ser vendido a R$ 28,00, e é mais barato que o brasileiro e o português (que permanece taxado); portanto, compradores no Brasil tenderão a comprar o vinho Uruguaio. Aqui houve o que chamamos de criação de comércio; o brasileiro deixou de comprar a garrafa produzida aqui para comprar uma produzida fora, criando, assim, o comércio entre os dois países. Isso tem benefício para o consumidor brasileiro, que agora pode tomar seu vinho e ainda lhe sobram R$ 2,00 para poupar ou gastar com outra coisa. Enquanto isso, Portugal, por não ter acesso 12 12 à tarifa zero do Mercosul, continua com seu vinho sendo vendido mais caro no Brasil. Porém, em um terceiro momento, pense que o Brasil resolveu abaixar as tarifas sobre vinho para 15% para todo o mundo. Agora o vinho português custa R$ 28,75 e fica mais competitivo aqui. Se esses 15% também fossem aplicados ao Uruguai, seu vinho custaria R$ 32,20 e seria o mais caro das alternativas disponíveis ao consumidor brasileiro. Porém, o Uruguai ainda desfruta da tarifa zero por ser membro do Mercosul, portanto, seu vinho vendido a R$ 28,00 ainda é o mais barato de todos. Podemos dizer aqui que houve um desvio de comércio, ou seja, o comércio que naturalmente deveria estar indo para Portugal foi artificialmente desviado para o Uruguai por conta do Mercosul. Apesar de Portugal ser o mais eficiente dos três países em produzir vinho, ainda assim perde mercado por não fazer parte de um bloco econômico. No mundo ideal, com zero tarifas, quem mais teria a ganhar seria o consumidor brasileiro, que agora poderia comprar o vinho português por R$ 25,00, mas por conta do protecionismo e do regionalismo tem que se conformar com o vinho brasileiro de R$ 30,00, ou, no melhor cenário, o uruguaio de R$ 28,00. TEMA 5 – TEORIAS DA INTEGRAÇÃO REGIONAL Crédito: Jelena990/Shutterstock. 13 13 A literatura que busca entender a integração regional se sustenta sobre três principais teorias: o intergovernamentalismo, o funcionalismo e o neofuncionalismo. 5.1 Intergovernamentalismo É uma escola teórica das relações internacionais que busca explicar o regionalismo por meio da escolha racional dos governos. Esses governos, por sua vez, são moldados por políticos, agentes e grupos que têm seus próprios objetivos e preferências. Além disso, governos têm que se defender e negociar seus objetivos em um mundo anárquico. O conceito de anarquia em relações internacionais prega que no mundo não existe uma autoridade suprema e imparcial que pode julgar e regular as relações entre os países. Países podem usar-se do seu próprio poder militar, econômico e político para coagir outros países a seguirem suas regras. Sendo assim, o mundo é um lugar incerto e perigoso. É por isso que países resolvem criar suas próprias instituições regionais e blocos. Se integrar com seus vizinhos reduz as incertezas da política internacional, a criação de instituições e acordos com eles permite que compromissos sejam mantidos, que expectativas possam ser consolidadas e que os interesses de cada governo possam ser negociados de forma civilizada, e não por meio de conflitos (que podem ser tanto armados como guerras comerciais). Essa teoria é muito utilizada para explicar o papel da União Europeia. Pense que há 80 anos o continente Europeu, engolido pela Segunda Guerra Mundial, hoje é o continente mais integrado do mundo. A criação de instituições regionais europeias permitiu coordenar os objetivos e as negociações dos países europeus, possibilitando que pudessem integrar suas economias a tal ponto que é inimaginável contemplar que países como a Alemanha e a França fariam uma guerra entre si, apesar de terem lutado em inúmeras disputas ao longo dos séculos. Pense na dificuldade de fazer uma guerra contra um país que é um dos seus maiores parceiros comerciais, cujas indústrias fazem parte da cadeia de produção de quase todas as suas indústrias, que usa a mesma moeda e ainda tem os mesmos aliados. 14 14 5.2 Funcionalismo e neofuncionalismo O funcionalismo considera que a formação de organizações internacionais começa pela cooperação internacional nos mais variados campos da economia, ciência, sociedade e direitos. O nome deriva das “funções” que governos e o setor público desempenham, como compartilhar políticas de desenvolvimento, coordenar respostas a epidemias e até mesmo coordenar o tráfego aéreo, sendo capazes de estimular a cooperação entre países quanto negociar questões mais sensíveis como soberania ou defesa. Portanto, funcionalistas defendem que a criação de agências internacionais com funções específicas seria a chave para estreitar laços entre países e aprofundar sua integração. Esses princípios funcionalistas serviram de grande inspiração para a Organização das Nações Unidas, por exemplo. Hoje, a ONU opera por intermédio de uma série de agências especializadas em várias áreas, desde grandes organizações que você provavelmente já ouviu falar, como a Organização Mundial da Saúde e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, até agências menores e de funções mais específicas, como a União Postal Universal e a Organização da Aviação Civil Internacional. A perspectiva neofuncionalista se baseia nas mesmas premissas do funcionalismo, em que a cooperação entre estados começa por funções mais específicas, mas agora focando-se no aspecto regional dessa cooperação, em detrimento do internacional. Portanto, os neofuncionalistas buscam compreender quais as razões que levam um país soberano a buscar a integração mesmo que isso custe cederaspectos de sua soberania para instituições regionais. Essa racionalidade também se baseia na escolha racional, mas em vez de pensar em grandes estratégias de cooperação em um mundo anárquico, os neofuncionalistas focam em analisar como menores cooperações em um setor da economia podem transbordar para outro setor e, com isso, adensar a integração econômica regional. Conforme setores nacionais vão ficando cada vez mais integrados com os de outros países, começa-se a ter a necessidade da criação de novas instituições regionais para coordenar essa integração (Bevir, 2007, p. 809). Um exemplo disso seria a própria União Europeia, que, como veremos, começou como a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço em 1951. Essa 15 15 comunidade tinha como objetivo coordenar e regular a produção de carvão e aço entre seus países-membros, conforme mais funções foram sendo integradas, ela evoluiu para a União Europeia, conforme a conhecemos hoje. TROCANDO IDEIAS Retornemos ao exemplo dado no tópico 4 sobre o desvio de comércio. Lá falamos que, por meio do comércio, vinhos mais baratos seriam vendidos no Brasil, a diferença seria os vinhos de quem. Usamos o benefício ao consumidor para justificar por que o desvio de comércio pode ser danoso, mas pense, os vinhos vendidos por R$ 30,00 remuneram produtores brasileiros, que empregam brasileiros e pagam impostos no Brasil. Agora considere um segundo cenário, onde há uma união aduaneira com o Uruguai. Se formos pagar R$ 28,00 pelo vinho uruguaio, ainda estamos remunerando um país que está muito mais próximo e economicamente integrado ao Brasil, e é provável que esse dinheiro seja usado por uruguaios para comprar produtos brasileiros. Ainda assim, seria justo, sob o ponto de vista puramente econômico, que o produtor português, o mais eficiente de todos, perca o mercado brasileiro porque vinicultores menos eficientes do Mercosul conseguiram convencer seus governos a manter barreiras comerciais para se protegerem dos portugueses? Reflita acerca desses cenários. Não há uma resposta fácil para eles, mas é importante que você, economista, possa fazer essas reflexões. NA PRÁTICA Outra ferramenta interessante do Comex Stat que já usamos é o ComexVis, que permite que visualizemos dados de forma bem ilustrativa. Ele é ótimo para montar tabelas e gráficos rápidos e não necessita do uso de softwares específicos para manipular seus dados. Vejamos um pouco sobre as estatísticas acerca do comércio dentro do Mercosul. Na página do Comex Stat, selecione o menu ComexVis, em . Na página do ComexVis, selecione “Blocos Econômicos” no menu Visualização, e “Mercado Comum do Sul – Mercosul” em Detalhamento. Depois, é só clicar em consultar. 16 16 No detalhamento você encontrará informações das principais atividades comerciais dentro do bloco e estatísticas da participação brasileira nele. Na seção de Visão Geral dos Produtos Exportados, descubra qual é o produto mais exportado do Brasil para o resto do Mercosul. Agora, se você descer mais um pouco verá a seção Visão Geral dos Produtos Importados. Descubra qual é o produto mais importado pelo Brasil dentro do Mercosul. Encontrou? Se você encontrou “Veículos e automóveis de passageiros” como principal produto exportado e “Veículos automóveis para transporte de mercadorias e usos especiais”, você acertou. O bem mais comercializado pelo Brasil dentro do Mercosul são veículos. Tanto o Brasil quanto a Argentina têm forte presença de montadoras de veículos, e dada nossa união aduaneira não é difícil de produzir veículos em um país e enviá-los para o outro. Inclusive, um outro item que se destaca é “Partes e acessórios dos veículos automotivos”. Nossa experiência de integração no âmbito do Mercosul permite que tenhamos cadeias produtivas internacionais, e que possamos coordenar indústrias entre nossos países. FINALIZANDO Terminamos entendendo um pouco mais sobre os blocos econômicos e as consequências deles para o comércio e economia internacionais. Teorizamos que a integração regional é um fenômeno que leva países a formarem blocos econômicos e que há vantagens em formá-los para diminuir as discriminações entre os fatores econômicos de cada país. Mesmo assim, temos que nos atentar aos desvios que esses blocos podem trazer ao equilíbrio natural do mercado. 17 17 REFERÊNCIAS ALMEIDA, P. R. O Brasil e os Blocos Regionais: Soberania e interdependência. São Paulo em Perspectiva, v. 16, n. 1, p. 3-16, 2002. ALMEIDA, V. F. de. A União das Nações Sul-Americanas na Proteção da Estabilidade Política. 2021. 137 f. Dissertação (Mestrado em Relações Internacionais) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021. BALASSA, B. The Theory of Economic Integration. 1. ed. Londres: George Allen & Unwin Ltd, 1961. BEVIR, M. Encyclopedia of Governance. 1. ed. Londres: Sage Publications Inc, 2007. FEENSTRA, R. C.; TAYLOR, A. M. International Trade. 5. ed. Nova York: Worth Publishers, 2021. KRUGMAN, P. R.; OBSTEFELD, M.; MELITZ, M. J. Economia Internacional. Tradução de Ana Julia Perrotti-Garcia. 10. ed. Pearson Education do Brasil, 2015. LUZ, R. Relações Econômicas Internacionais: Teoria e Questões. 3. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011. TAIT, O. The North-South Divide: How Do We Measure Development Around the World? To What Extent is the Brandt Line Outdated? King Edward VI School, Southampton Resources, 2016. Disponível em: . Acesso em: 5 out. 2022.