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INTRODUÇÃO AO METABOLISMO - Metabolismo: conjunto de reações químicas que servem para a obtenção, o armazenamento e a utilização de energia. - Via Metabólica: série de reações metabólicas, catalisadas enzimaticamente. - Catabolismo: conjunto de reações de degradação de moléculas orgânicas, que oxidam o substrato para a produção de energia, conservada na forma de ATP. - Anabolismo: conjunto de reações síntese de moléculas orgânicas, que utilizam a energia proveniente da quebra do ATP para a redução do substrato. - Coenzimas: moléculas que transportam elétrons e auxiliam as enzimas nas vias metabólicas. As principais são NAD, FAD e NADP. - O metabolismo é regulado por hormônios (insulina e glucagon), neurotransmissores e disponibilidade de nutrientes. METABOLISMO DOS CARBOIDRATOS Nos vertebrados, a glicose é transportada através do corpo pelo sangue. Quando as reservas de energia celular estão baixas, a glicose é degradada pela via glicolítica. As moléculas de glicose não necessárias para a imediata produção de energia, são armazenadas como glicogênio no fígado e músculo. Dependendo das necessidades metabólicas da célula, a glicose pode também ser empregada para sintetizar outros monossacarídeos, ácidos graxos e certos aminoácidos. Nos processos metabólicos dos carboidratos, algumas etapas (vias metabólicas) são essenciais para a obtenção da reserva energética: glicólise (anaeróbia e aeróbia), via das pentoses-fosfato, glicogênese, glicogenólise, gliconeogênese, ciclo de Krebs ou ciclo do ácido cítrico e cadeia respiratória ou fosforilação oxidativa. TRANSPORTE DA GLICOSE: - A glicose não consegue entrar normalmente pelos poros da membrana plasmática, pois tem um alto peso molecular. - Assim, ela precisa de mecanismos para entrar na célula e ser aproveitada para a síntese de ATP, pelo metabolismo. Existem dois tipos de mecanismos: transporte facilitado (mediado por transportadores de membrana específicos ou GLUTs) e transporte ativo (cotransporte com íon Na+, com auxílio do SGLT). - Transporte Facilitado: a insulina, liberada pelo pâncreas, deve se ligar ao seu receptor específico, do tipo catalítico, gerando alterações conformacionais nesse receptor e promovendo a ativação dos resíduos de tirosina-quinase. Essa ativação dá início a uma cascata de fosforilações até a ativação da proteína de transporte (GLUT). Com isso, essa proteína é transferida do interior da célula para a membrana, permitindo o transporte da glicose para dentro da célula. - Transporte Ativo: 2 Na+ e 1 glicose se acoplam ao domínio extracelular do transportador SGLT e entram na célula ao mesmo tempo. Essa entrada é promovida pelo gradiente eletroquímico do sódio (mais concentrado fora do que dentro). GLICÓLISE - Via catabólica responsável pela quebra da Glicose em 2 moléculas de Piruvato, acontece independentemente da presença de oxigênio e ocorre no citoplasma/citosol. FASE PREPARATÓRIA: é uma fase de investimento, pois gasta ATP, para que depois seja produzido mais ATP. Nessa fase, a glicose sofre duas fosforilações, uma isomerização e uma clivagem, produzindo Gliceraldeído-3-fosfato. ETAPA 1: Glicose é fosforilada pelo ATP, numa reação irreversível catalisada pela enzima Hexoquinase (Glicoquinase no Fígado), produzindo Glicose-6-fosfato, ADP e H+. O íon Mg+2 é usado como cofator pra enfraquecer a ligação fosfato terminal do ATP, facilitando a transferência de um grupo fosfato do ATP pra Glicose. ETAPA 2: Glicose-6-fosfato sofre uma reação de isomerização, catalisada pela enzima Fosfo-glico-isomerase, produzindo Frutose-6-fosfato. ETAPA 3: Frutose-6-fosfato é fosforilada pelo ATP, numa reação irreversível catalisada pela enzima Fosfofrutoquinase, produzindo Frutose-1,6-bifosfato, ADP e H+. O íon Mg+2 é usado também como cofator pra enfraquecer a ligação fosfato terminal do ATP, facilitando a transferência de um grupo fosfato do ATP pra Frutose-6-fosfato. ETAPA 4: Frutose-1,6-bifosfato sofre uma reação de quebra ou clivagem, catalisada pela enzima Aldolase, produzindo Di-hidroxiacetona-fosfato e Gliceraldeído-3-fosfato. ETAPA 5: Di-hidroxiacetona-fosfato sofre uma reação de isomerização, catalisada pela enzima Triose-fosfato-isomerase, produzindo mais um Gliceraldeído-3-fosfato. FASE DE PAGAMENTO: é a fase de produção de ATP, compensando o gasto de ATP na fase preparatória e produzindo mais, deixando um saldo positivo de ATP. ETAPA 6: As 2 moléculas de Gliceraldeído-3-fosfato produzidas sofrem uma complexa reação de oxidação/fosforilação com Pi, catalisada pela enzima Gliceraldeído- 3-fosfato Desidrogenase, produzindo 2 moléculas de 1,3-bifosfoglicerato e reduzindo 2 NAD+ em 2 NADH. ETAPA 7: As 2 moléculas de 1,3-bifosfoglicerato produzidas são desfosforiladas, numa reação catalisada pela enzima Fosfoglicerato-quinase, produzindo 2 ATPs e 2 moléculas de 3-fosfoglicerato. ETAPA 8: O grupo fosfato das 2 moléculas de 3-fosfoglicerato é doado para a enzima Fosfoglicerato-mutase, que doa outro grupo fosfato para o carbono 2 do fosfoglicerato, produzindo 2-fosfoglicerato. ETAPA 9: As 2 moléculas de 2-fosfoglicerato sofrem uma reação de desidratação, catalisada pela enzima Enolase, produzindo 2 moléculas de Fosfoenolpiruvato e liberando 2 moléculas de água. ETAPA 10: As 2 moléculas de Fosfoenolpiruvato produzidas são desfosforiladas, numa reação irreversível catalisada pela enzima Piruvato-quinase, produzindo 2 moléculas de Piruvato e 2 ATPs. - As três enzimas das três reações irreversíveis vão limitar/regular a velocidade da glicólise e elas são a Hexoquinase, Fosfofrutoquinase e Piruvato-quinase. - Nesse caso, a Hexoquinase é regulada pelo aumento da quantidade de Glicose-6- fosfato (inibição por feedback negativo) e a Fosfofrutoquinase é inibida alostericamente pela quantidade de ATP e de Citrato (primeiro produto do ciclo de Krebs). RESUMINDO: a Glicose (6C) produz 2 Piruvatos (3C), gera um saldo final de 2 ATPs (4 ATPs produzidos na Fase 2 – 2 ATPs gastos na Fase 1) e 2 NADH (red. de 2 NAD+). - O Piruvato formado pela glicólise entra na matriz mitocondrial e pode ter vários destinos. DESTINOS DO PIRUVATO 1) Formação da Acetil-CoA - Em condições aeróbias, o Piruvato é oxidado, perdendo um grupo carboxil na forma de CO2 (sofre uma descarboxilação), e reage com a Coenzima A, produzindo Acetil- CoA e reduzindo NAD+ em NADH, numa reação catalisada pelo complexo enzimático Piruvato Desidrogenase. - Ou seja, essa reação tem como objetivo a geração de uma coenzima reduzida (NADH) e a formação da Acetil-CoA para entrar no Ciclo de Krebs, gerando ainda mais coenzimas reduzidas. - A energia dessas coenzimas reduzidas vai ser aproveitada pela cadeia transportadora de elétrons, para a geração de ATP. Piruvato + Coenzima A + NAD+ → Acetil-CoA + CO2 + NADH 2) Fermentação Láctica - Quando o músculo esquelético trabalha em uma contração muito forte, ele fica sob condições de baixa concentração de oxigênio (hipóxia – condição anaeróbia) e não consegue reoxidar NADH em NAD+. - Como NAD+ é necessário para a oxidação do Piruvato, o Piruvato é reduzido pelo NADH, produzindo Lactato, numa reação catalisada pela enzima Lactato Desidrogenase, e regenerando o NAD+ necessário para a glicólise. - Algumas células, como as hemácias e os espermatozoides, convertem o Piruvato da glicólise em lactato mesmo em condições aeróbias. Glicose → 2 Piruvato 2 Piruvato + 2 NADH + 2 H+ → 2 Lactato + 2 NAD+ 3) Produção de Etanol - Em condições anaeróbias, alguns microrganismos geram a fermentação alcoólica. - Produção de pães e cervejas, no caso das leveduras. Glicose → 2 Piruvato 2 Piruvato + 2 H+ → 2 Acetaldeído + 2CO2 2 Acetaldeído + 2 NADH → 2 Etanol + 2 NAD+ - Na primeira reação, a enzima que catalisa é a Piruvato Descarboxilase, com auxílio da coenzima TPP. - Na segunda reação, a enzima que catalisa é a Álcool Desidrogenase.4) Reação Anaplerótica - Piruvato reage com CO2 (sofre uma carboxilação), H2O e ATP para produzir Oxaloacetato, que participa do Ciclo de Krebs. - Essa reação ocorre como uma forma de compensar um aumento na produção de Acetil-CoA, como a β-oxidação (que gera bastante Acetil-CoA). Piruvato + CO2 + H2O + ATP → Oxaloacetato + ADP + Pi + 2H+ - A enzima que catalisa essa reação é a Piruvato Carboxilase, que usa a biotina como cofator. CICLO DE KREBS Trata-se de uma via catabolítica cíclica de oxidação total da glicose a CO2 e H2O, com liberação de energia. Tal processo só ocorre em condições aeróbicas, na matriz mitocondrial. ETAPA 1: Acetil-CoA reage com Oxaloacetato, produzindo Citrato, numa reação catalisada pela enzima Citrato Sintase. ETAPA 2: Citrato sofre uma reação de isomerização, catalisada pela enzima Aconitase, produzindo Isocitrato. ETAPA 3: Isocitrato sofre uma reação de oxidação/desidrogenação, catalisada pela enzima Isocitrato Desidrogenase, produzindo α-Cetoglutarato e reduzindo NAD+ em NADH. ETAPA 4: α-Cetoglutarato sofre uma reação de oxidação/desidrogenação, catalisada pela enzima α-Cetoglutarato desidrogenase, produzindo Succinil-CoA e reduzindo NAD+ em NADH. ETAPA 5: Succinil-CoA produz Succinato, em uma reação catalisada pela enzima Succinil-CoA Sintetase, e gera 1 molécula de ATP/GTP. ETAPA 6: Succinato sofre uma reação de oxidação/desidrogenação, catalisada pela enzima Succinato Desidrogenase (Complexo II da Cadeia Transportadora de Elétrons), produzindo Fumarato e reduzindo FAD+ em FADH2, que não é liberado pela matriz, pois já está presente como grupo prostético no Complexo II da Cadeia. ETAPA 7: Fumarato sofre uma reação de hidratação (reage com água), catalisada pela enzima Fumarase, produzindo Malato. ETAPA 8: Malato sofre uma reação de oxidação/desidrogenação, catalisada pela enzima Malato Desidrogenase, produzindo Oxaloacetato (que reage com Acetil-CoA e reinicia o ciclo) e reduzindo NAD+ em NADH. - Formação de coenzimas reduzidas para estas serem reoxidadas na cadeia transportadora de elétrons, para gerar ATP (fosforilação oxidativa). - Coenzimas Reduzidas: NADH e FADH2. - Produto Final do Ciclo: Para cada 1 Acetil-CoA há a produção de 3 NADH, 1 FADH2 e 1 ATP/GTP. - Cada NADH é reoxidado formando 3 ATP na cadeia de transporte de elétrons. - Cada FADH2 é reoxidado formando 2 ATP na cadeia de transporte de elétrons. FOSFORILAÇÃO OXIDATIVA Após o Ciclo de Krebs, este é um processo metabólico de síntese do ATP a partir da energia liberada pelo transporte de elétrons na cadeia respiratória. Ocorrendo nas cristas mitocondriais, é um sistema de transferência de elétrons provenientes do NADH e FADH2 (estas coenzimas são carreadoras do O2, o qual serve como aceptor de H+). Durante o fluxo de elétrons, há liberação suficiente de energia livre para a síntese de ATP nos sítios de fosforilação oxidativa. Neste fluxo, os elétrons são passados de molécula para molécula nos citocromos presentes nas cristas mitocondriais. Estes “pulam” de um citocromo para outro até chegar no O2 e fazer a liberação de energia convertida em ATP. - Para cada molécula de glicose → 2 ATP + 2 NADH + 2 Piruvato → 2 Acetil-CoA - 1 Piruvato → 1 NADH - 1 Acetil-CoA → 9 ATPs + 2 ATPs + 1 ATP → 12 ATPs - TOTAL DE ATP: 2 ATP + 2x3 ATPs + 2x3 ATP + 2x12 ATP + → 38 ATPs GLICONEOGÊNESE • Produção de Glicose a partir de compostos que não são carboidratos, em jejum prolongado. • Processo inverso à Glicólise, que ocorre no fígado e nos rins. • Os principais precursores são aminoácidos (provenientes das proteínas), lactato (produzido principalmente nos músculos) e glicerol (proveniente dos triglicerídeos). • Quase todas as etapas são iguais às da Glicólise, com exceção de três, que são exatamente o inverso das etapas irreversíveis da Glicólise e consistem nos 3 desvios da gliconeogênese. • 1° Desvio: dividida em duas partes. Na primeira, o Piruvato sofre uma carboxilação, catalisada pela enzima Piruvato Carboxilase, utilizando ATP e produzindo Oxaloacetato e ADP. Na segunda parte, o Oxaloacetato reage com o GTP, sendo fosforilado e sofrendo uma descarboxilação, produzindo CO2, GDP e Fosfoenolpiruvato, em uma reação catalisada pela enzima Fosfoenolpiruvato- carboxiquinase. • 2° Desvio: a Frutose-1,6-bifosfato sofre uma hidratação, catalisada pela enzima Frutose-1,6-bifosfatase, e libera um grupo fosfato na forma de Pi, produzindo Frutose-6-fosfato. • 3° Desvio: a Glicose-6-fosfato sofre uma hidratação, catalisada pela enzima Glicose-6-fosfatase, e libera um grupo fosfato na forma de Pi, produzindo Glicose. VIA DAS PENTOSES FOSFATO • Via alternativa à oxidação da Glicose, ou seja, alternativa à Glicólise. • Produz dois compostos: ribose-5-fosfato e NADPH, coenzima semelhante ao NADH. • A ribose-5-fosfato compõe nucleotídeos para fazer parte de ácidos nucleicos. • O NADPH é uma coenzima que doa H+ em sínteses redutoras de ácidos graxos e de esteroides e auxilia também os antioxidantes na proteção contra o estresse oxidativo de espécies reativas de oxigênio, como o peróxido de hidrogênio. • O NADPH promove a redução da Glutationa-Dissulfeto (GSSG), para que ela possa agir como antioxidante novamente (GSH). • Produção de NADPH: catalisada pela enzima Glicose-6-fosfato Desidrogenase. Glicose-6-fosfato + NADP+ + H2O → Ribulose-5-fosfato + 2 NADPH + 2H+ + CO2 • A glutationa é importante para os glóbulos vermelhos porque, como eles transportam oxigênio, existe o perigo de dano por radicais de oxigênio. • Esse dano pode acabar prejudicando a capacidade de transporte de oxigênio pela hemoglobina, tornando-a incapaz de se ligar e transportar oxigênio. • Assim, o NADPH é essencial para a proteção contra os danos por radicais livres, justamente porque ela promove a redução da forma oxidada da glutationa (GSSG), permitindo que ela possa agir como antioxidante. CASOS CLÍNICOS Deficiência da enzima Piruvato-quinase: • Essa enzima é responsável por converter o Fosfoenolpiruvato em Piruvato. • Sua deficiência impede a produção de Piruvato e, com isso, impede a sua conversão em Lactato, bloqueando a produção de energia e provocando anemia hemolítica, uma vez que as hemácias usam apenas a glicose como fonte de energia. Deficiência da enzima Glicose-6-fosfato Desidrogenase: • Essa enzima catalisa a reação que produz NADPH na via das pentoses fosfato. • O NADPH é essencial para prevenir o dano oxidativo às hemácias (estresse oxidativo), já que essa coenzima auxilia a glutationa em sua função como antioxidante, promovendo a redução de sua forma oxidada (GSSG). • Essa deficiência é hereditária e transmitida como um caráter recessivo ligado ao Cromossomo X. • Ela foi descoberta quando estudava-se a hemólise após a administração do antimalárico Primaquina. • Essa deficiência reduz a energia disponível pra manter a integridade da membrana das hemácias, diminuindo a sua sobrevida, podendo causar anemia hemolítica. • Essa lise da hemácia ocorre principalmente por causa do estresse oxidativo, causado por infecções virais ou bacterianas, que promovem a oxidação pela produção de peróxido de hidrogênio, por exemplo. • A anemia hemolítica ocorre quando as hemácias são perdidas e a medula óssea não consegue produzir mais hemácias a tempo. • O mecanismo de ação da Primaquina envolve o aumento na quantidade de peróxido de hidrogênio, que atua como antimicrobiano, pois o plasmódio, causador da malária, é sensível a radicais livres. • Assim, o aumento de radicais livres provoca o estresse oxidativo das hemácias, que, pela deficiência da enzima Glicose-6-fosfato Desidrogenase, não conseguem realizar a destoxificação e, por isso, sofrem hemólise. METABOLISMO LIPÍDEOS Os principais produtos da digestão de lipídeossão o glicerol e ácidos graxos. O glicerol é metabolizado na via glicolítica. Para isto ele precisa primeiro ser ativado pela enzima glicerol-quinase, que utiliza uma molécula de ATP para converter o glicerol em L- glicerol-3-fosfato. Em seguida a enzima glicerol-3-fosfato-desidrogenase utiliza o NAD+ para converter o L-glicerol-3-fosfato em diidroxiacetona-fosfato. Por fim, a enzima triose-fosfato-isomerase converte a diidroxiacetona-fosfato em D-gliceraldeído- 3-fosfato, que segue seu caminho na via glicolítica. Já a oxidação mitocondrial dos ácidos graxos ocorre em três etapas (Figura 17-7). Na primeira etapa – β-oxidação –, os ácidos graxos sofrem remoção oxidativa de sucessivas unidades de dois carbonos na forma de acetil-CoA, começando pela extremidade carboxílica da cadeia acil-graxo. Na segunda etapa da oxidação de ácidos graxos, os grupos acetil da acetil-CoA são oxidados a CO2 no ciclo do ácido cítrico, que também ocorre na matriz mitocondrial. A acetil -CoA derivada dos ácidos graxos então entra em uma via de oxidação final comum com a acetil-CoA derivada da glicose precedente da glicólise e da oxidação do piruvato. As duas primeiras etapas da oxidação dos ácidos graxos produzem os transportadores de elétrons reduzidos NADH e FADH2, que na terceira etapa doam elétrons para a cadeia respiratória mitocondrial, por meio da qual os elétrons passam para o oxigênio com a fosforilação concomitante de ADP a ATP. A energia liberada pela oxidação dos ácidos graxos é, portanto, conservada como ATP. Resumo da oxidação de ácidos graxos Na primeira etapa da β-oxidação, quatro reações retiram cada unidade de acetil-Coa da extremidade carboxila de um acil-CoA graxo saturado: (1) desidrogenação dos carbonos α e β (C-2 e C-3) pelas acil-CoA-desidrogenases ligadas à FAD, (2) hidratação da dupla ligação trans-D2 resultante pela enoil-CoA-hidratase, (3) desidrogenação do L- β - hidroxiacil-CoA resultante pela β -hidroxiacil-CoA-desidrogenase ligada à NAD, e (4) clivagem por CoA do β -cetoacil-CoA resultante pela tiolase, para formar acetil-CoA e um acil-CoA graxo encurtado em dois carbonos. O acil-CoA graxo encurtado entra de novo na sequência de reações. Na segunda etapa da oxidação dos ácidos graxos, o acetil-Coa é oxidado a CO2 no ciclo do ácido cítrico. Uma grande fração do rendimento teórico de energia livre da oxidação dos ácidos graxos é recuperada como ATP pela fosforilação oxidativa, a etapa final da via oxidativa. A oxidação de ácidos graxos insaturados requer duas enzimas adicionais: a enoil-CoA- isomerase e a 2,4-dienoil-CoA-redutase. Ácidos graxos de número ímpar são oxidados pela via de β-oxidação gerando acetil-Coa e uma molécula de propionil-CoA. Esta é carboxilada a metilmalonil-CoA, que é isomerizada a succinil-CoA em uma reação catalisada pela metilmalonil-CoA mutase, enzima que necessita de coenzima B12 CORPOS CETÔNICOS Em humanos, e na maior parte de outros mamíferos, o acetil-CoA formado no fígado durante a oxidação dos ácidos graxos pode entrar no ciclo do ácido cítrico ou sofrer conversão a “corpos cetônicos”, acetona, acetoacetato e D- β -hidroxibutirato, para exportação a outros tecidos. Corpos cetônicos são produtos da transformação de lipídios em glicose, apresentam grupo funcional cetona, são sintetizados na matriz mitocondrial dos hepatócitos (fígado) a partir de um excesso acetil-coA causado pelo excesso de lipólise causado por uma baixa glicemia, ou seja, jejum prolongado que aumenta a lipólise. No fígado dentro da mitocôndria o acetil-coA acumulado sofrera ação das tiolases e se juntarão para a formação dos corpos cetonicos. Estes corpos cetonicos sairão da mitocôndria e serão lançados na corrente sanguínea aonde irão para os tecidos neural (cérebro) e muscular que são consumidores do mesmo para produção de energia. O beta-hidroxibutirato como combustível para os tecidos extra-hepáticos é levado pela corrente sanguínea e é convertido em acetoacetato. A produção de corpos cetonicos não é um processo patológico, mas sim fisiológico, a não ser em caso da produção muito grande de corpos cetonicos, cetose no plasma sanguíneo que é um efeito patológico, por exemplo, no diabético a falta de insulina que causara cetonuria que é a liberação de corpos cetonicos pela urina principalmente e também pelas vias aéreas e pelo suor. Como os corpos cetonicos possuem grupo funcional acido liberam íons H+ em solução aquosa, então quando em grande quantidade no plasma sanguíneo abaixa o pH do sangue que em seus valores normais varia de 7,36 a 7,44 sendo no sangue arterial o pH normal de 7,41. Quando o pH abaixa muito para valores inferiores a 7,36 que é o limite aceitável começa a ocorrer a desnaturação de enzimas e proteínas o que leva a uma acidose metabólica. A acetona, produzida em menor quantidade do que os outros corpos cetônicos, é exalada. O acetoacetato e o D- β - -hidroxibutirato são transportados pelo sangue para outros tecidos que não o fígado (tecidos extra-hepáticos), onde são convertidos a acetil- CoA e oxidados no ciclo do ácido cítrico, fornecendo muito da energia necessária para tecidos como o músculo esquelético e cardíaco e o córtex renal. O cérebro, que usa preferencialmente glicose como combustível, pode se adaptar ao uso de acetoacetato ou D- β -hidroxibutirato em condições de jejum prolongado, quando a glicose não está disponível. A produção e exportação dos corpos cetônicos do fígado para tecidos extra- -hepáticos permite a oxidação contínua de ácidos graxos no fígado quando acetil-CoA não está sendo oxidada no ciclo do ácido cítrico. METABOLISMO DE PROTEÍNAS Os aminoácidos são substâncias orgânicas que apresentam uma estrutura geral composta por um grupo amina e um grupo carbóxilo, ambos ligados ao carbono α (primeiro carbono depois do grupo carboxílico). Esse mesmo carbono α é ligado a um hidrogênio e uma cadeia lateral, que é representada pela letra R. O grupo R determina a identidade de um aminoácido específico. Dessa forma os aminoácidos podem ser classificados em polares, não-polares e neutros, dependendo da natureza dessa cadeira lateral (R). Entre os aminoácidos que compõem as proteínas, a única exceção é a prolina, que contém um grupo imino no lugar do grupo amino, sendo a rigor um iminoácido. A oxidação dos aminoácidos não é efetuada por uma via única, diferentemente do que acontece com os carboidratos e lipídios. Como os aminoácidos são constituídos por cadeias laterais com estruturas variadas, sua oxidação processa-se por vias também variadas. Há, entretanto, um padrão seguido na oxidação de todos eles: inicialmente há remoção do grupo amino e, a seguir, oxidação da cadeia carbônica remanescente. Nos mamíferos, o grupo amino é convertido à ureia e as cadeias carbônicas são convertidas a compostos comuns ao metabolismo de carboidratos e lipídios. REMOÇÃO DO GRUPO AMINO – PRIMEIRA ETAPA O grupo amino de aminoácidos (Alanina, Arginina, Aspartato, Cisteína, Fenilalanina, Glutamato, Isoleucina, Leucina, Tirosina, Triptofano, Valina) é retirado por um processo comum, que consiste na transferência deste grupo para o α-cetoglutarato, virando glutamato; a cadeia carbônica restante do aminoácido é convertida ao α- cetoácido correspondente. 𝐴𝑚𝑖𝑛𝑜á𝑐𝑖𝑑𝑜 + 𝛼 − 𝐶𝑒𝑡𝑜𝑔𝑙𝑢𝑡𝑎𝑟𝑎𝑡𝑜 ↔ 𝛼 − 𝐶𝑒𝑡𝑜á𝑐𝑖𝑑𝑜 + 𝐺𝑙𝑢𝑡𝑎𝑚𝑎𝑡𝑜 Esse tipo de reação é catalisada por aminotransferase, também chamadas transaminase, são enzimas presentes no citosol e na mitocôndria e que tem como coenzima piridoxal-fosfato (aceptor intermediário do grupo amino). Esta coenzima é derivada da vitamina B6 (piridoxina). Reação geral da transaminação A reação geral da transaminação ocorre da seguinte maneira: A primeiro momento, o grupo amino de um determinado aminoácido é transferido ao piridoxal- fosfato (coenzima da reação), o presente aminoácidoentão é convertido a 𝛼-cetoácido após receber o oxigênio proveniente da coenzima (esse oxigênio faz uma dupla ligação com carbono alfa do aminoácido, por isso a nomenclatura 𝛼-cetoácido). A coenzima (piridoxal-fosfato) atua como receptor intermediário da reação, e se converte a piridoxamina-fosfato ao receber o grupo amino (NH3 +). A seguir esse grupo amino é doado ao 𝛼-cetoglutarato, que se converte a glutamato. O coenzima piridoxal-fosfato é restaurada quando o 𝛼-cetoglutarato cede o seu oxigênio para a piridoxamina-fosfato, formando então a coenzima inicial (piridoxal-fosfato). Toda a reação é catalisada por transaminases, ocorrendo transferências de grupos funcionais. O nome da amino aminotransferase (transaminase) deriva do aminoácido pelo qual a enzima tem maior afinidade. Dois exemplos importantes são: alanina aminotransferase, também conhecida por alanina transaminase (ALT) ou transaminase glutâmico- pirúvica (TGP). 𝐴𝑙𝑎𝑛𝑖𝑛𝑎 + 𝛼 − 𝑐𝑒𝑡𝑜𝑔𝑙𝑢𝑡𝑎𝑟𝑎𝑡𝑜 ↔ 𝑃𝑖𝑟𝑢𝑣𝑎𝑡𝑜 + 𝐺𝑙𝑢𝑡𝑎𝑚𝑎𝑡𝑜 Essa enzima participa da reação reversível do aminoácido alanina a qual reage com 𝛼-cetoglutarato para formar piruvato e glutamato. Piridoxal-fosfato, como sempre, atua como coenzima da reação sendo então o aceptor intermediário do grupo amino. REMOÇÃO DO GRUPO AMINO – SEGUNDA ETAPA O glutamato proveniente da primeira etapa segue dois caminhos importantes: uma nova transaminação ou um desaminação. O grupo amino cedido pelo glutamato na reação pode originar aspartato (pela transaminação) ou íon amônio (por desaminação). Caso o glutamato sofra uma nova transaminação, a enzima que irá atuar é a TGO (AST – Aspartato transaminase), o grupo amino do glutamato é transferido para o oxaloacetato, que se converterá para aspartato, segundo depositário do grupo amino dos aminoácidos. O glutamato com a perda do grupo amino será convertido para 𝛼- cetoglutarato. A coenzima piridoxal-fosfato atua nessa reação. O aspartato originado na reação posteriormente é um dos precursores da ureia junto com o íon amônio proveniente da amônia. A AST é a aminotransferase mais ativa na maioria dos tecidos de mamíferos, evidenciando sua importância. Essa reação pode ocorrer tanto no citosol tanto na mitocôndria. 𝐺𝑙𝑢𝑡𝑎𝑚𝑎𝑡𝑜 + 𝑂𝑥𝑎𝑙𝑜𝑎𝑐𝑒𝑡𝑎𝑡𝑜 ↔ 𝐴𝑠𝑝𝑎𝑟𝑡𝑎𝑡𝑜 + 𝛼 − 𝑐𝑒𝑡𝑜𝑔𝑙𝑢𝑡𝑎𝑟𝑎𝑡𝑜 Caso o glutamato sofra uma desaminação, esse composto exclusivamente tem que estar na mitocôndria, uma vez que a enzima que catalisa a reação é uma enzima mitocondrial (glutamato desidrogenase), encontrada principalmente no fígado, é um exemplo raro de enzima que utiliza NAD+ ou NADP+ como coenzima. 𝐺𝑙𝑢𝑡𝑎𝑚𝑎𝑡𝑜 + 𝑁𝐴𝑃(𝑃)+ + 𝐻2𝑂 ↔ 𝛼 − 𝑐𝑒𝑡𝑜𝑔𝑙𝑢𝑡𝑎𝑟𝑎𝑡𝑜 + 𝑁𝐴𝐷(𝑃)𝐻 + 𝐻+ + 𝑁𝐻4+ O glutamato libera seu grupo amino e se converte a 𝛼 − 𝑐𝑒𝑡𝑜𝑔𝑙𝑢𝑡𝑎𝑟𝑎𝑡𝑜, esse grupo liberado como NH3 (amônia) se converte em NH4 + (íon amônio) também um precursor da ureia. A glutamato desidrogenase é uma enzima específica para glutamato (uma vez que o glutamato é um produto comum da transaminação na primeira etapa), não se conhece desidrogenases análogas para qualquer outro aminoácido. AMINOÁCIDOS DESAMINADOS POR REAÇÕES ESPECIAIS Nove aminoácidos (Lisina, prolina, histidina, asparagina, glicina, glutamina, metionina, serina, treonina) não se iniciam com transaminação com 𝛼 − 𝑐𝑒𝑡𝑜𝑔𝑙𝑢𝑡𝑎𝑟𝑎𝑡𝑜, e seu grupo amino é removido por reações particulares a cada um deles, com a participação de enzimas específicas a cada aminoácido. Contudo, um aspecto comum do metabolismo destes aminoácidos é a forma da remoção do grupo amino: o grupo amino (ou amida, no caso de asparagina e glutamina) ou é liberado como NH4 +, ou forma glutamato (através de reações especiais), que pode gerar aspartato (já na segunda etapa caso ele sofra uma transaminação pela TGO). De modo geral, na degradação dos 20 aminoácidos, o grupo amino é convertido a NH4 + e aspartato, os precursores da ureia. DEGRADAÇÃO DA CADEIA CARBÔNICA DOS AMINOÁCIDOS De modo geral a cadeia carbônica dos aminoácidos é degradada a piruvato, acetil-CoA ou intermediários do ciclo de Krebs. Ao remover o grupo amino dos aminoácidos, resta sua cadeira carbônica, na forma de 𝛼 − 𝐶𝑒𝑡𝑜á𝑐𝑖𝑑𝑜. Essa oxidação é feita por vias próprias, e o destino final desse 𝛼 − 𝐶𝑒𝑡𝑜á𝑐𝑖𝑑𝑜 dependerá do tecido e do estado fisiológico, podendo ser: oxidado pelo ciclo de Krebs, fornecendo energia; poderá ser utilizado pela gliconeogênese, para produção de glicose e etc. “Todos os aminoácidos, com exceção de leucina e lisina, produzem piruvato ou intermediários do ciclo de Krebs, precursores da gliconeogênese, e são, portanto, chamados glicogênicos. A leucina e lisina originam acetoacetato e acetil-CoA, sendo aminoácidos cetogênicos. Outros aminoácidos – isoleucina, fenilalanina, tirosina, treonina e triptofano – parte é convertida em acetoacetato e acetil-CoA e parte é convertida em intermediários do ciclo de Krebs. São tanto glicogênicos quanto cetogênicos, isto é, são glicocetogênicos.”