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CURSO DE DIREITO 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico legais” 
 
 
 
 
Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
R.A. 43.23.28-2 
Turma: 329-B 
Telefones: 3559-8340 e 9624-0871 
Professor Orientador: Antônio José Eça 
 
 
 
 
São Paulo 
2003 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
___________________________________________________________________________________ 
 
 
 
 
CURSO DE DIREITO 
 
 
 
“Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico legais” 
 
 
 
 
Monografia apresentada à Banca Examinadora do 
Centro Universitário das Faculdades 
Metropolitanas Unidas, como exigência parcial 
para obtenção do título de Bacharel em Direito, 
sob orientação do Professor Antônio José Eça. 
 
 
 
 
São Paulo 
2003 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
___________________________________________________________________________________ 
 
 
 
 
 
CURSO DE DIREITO 
 
 
 
 
 
 
 
BANCA EXAMINADORA 
 
 _______________________________( ) 
 Professor Antônio José Eça 
 _______________________________( ) 
 Professor Argüidor 
 _______________________________( ) 
 Professor Argüidor 
 
 
 
São Paulo 
2003 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
___________________________________________________________________________________ 
 
 
DEDICATÓRIA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
À minha família que sempre foi companheira e 
soube me apoiar e incentivar, principalmente nas 
horas mais difíceis. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
___________________________________________________________________________________ 
 
 
AGRADECIMENTOS 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ao ilustre professor e orientador Antonio José Eça, 
pelo apoio, profissionalismo e preocupação que sempre 
demonstrou no decorrer de todo o trabalho. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
___________________________________________________________________________________ 
 
 
SINOPSE 
 
O presente trabalho tem por objetivo a discussão sobre questão do 
portador de personalidade psicopática que comete crimes, e como este deve ser 
entendido e tratado, pois só assim será possível dar um encaminhamento jurídico 
apropriado a seu caso. 
 
Procurou-se mostrar as implicações na área da Psiquiatria para se 
conhecer melhor o transtorno de personalidade em questão, em segundo plano, 
foi mostrado as implicações na área do Direito para se saber qual o trato dado 
pela legislação com relação a esse transtorno, e por fim juntou-se esses 
conhecimentos, adequando a Justiça correta às personalidades psicopáticas 
criminosas. 
 
A partir de doutrinas e jurisprudências demonstramos a importância 
do tema e suas problemáticas, para então chegar a conclusão de que a questão, 
de como tratar ou penalizar um psicopata que cometeu um crime, é um 
problema de todos, não só dos envolvidos ( psicopata, magistrado e perito), 
como do Estado, e principalmente da sociedade, que leiga, sofre as 
conseqüências. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
___________________________________________________________________________________ 
 
 
SUMÁRIO 
 
Introdução ..........................................................................................................9 
 
Capítulo I – Generalidades .............................................................................11 
1. História do conceito ......................................................................................11 
2. Conceito atual ...............................................................................................15 
 
Capítulo II – Aspectos da Psicopatologia .....................................................17 
1. Distúrbios psíquicos .....................................................................................17 
1.1. Classificação ..........................................................................................17 
2. Os psicopatas: características .......................................................................18 
2.1 Classificação ...........................................................................................21 
 
Capítulo III – Aspectos Jurídicos ...................................................................24 
1. Elementos do crime .....................................................................................24 
2. Responsabilidade e Imputabilidade ..............................................................26 
2.1. Conceito de Responsabilidade Penal .....................................................26 
2.2. Conceito de Imputabilidade Penal .........................................................27 
2.2.1. Critérios de avaliação ...................................................................28 
 
Capítulo IV – Aspectos da Psicopatologia Forense ......................................29 
1. Conduta Criminosa dos psicopatas ...............................................................29 
2. Relação Direito e Psicopatologia ..................................................................31 
3. Perturbação da saúde mental: capacidade de imputação do psicopata .......32 
3.1 . Sanção Penal Cabível ............................................................................34 
3.1.1. Pena e Medida de Segurança .......................................................36 
3.1.2. Pressupostos para aplicação, imputação e espécies de Medida de 
Segurança ......................................................................................................37 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
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3.1.3. Psicopata: qual a sanção ideal? .....................................................38 
 
Capítulo IV – Criminosos em série ................................................................40 
 
 
Capítulo V – Decisões Judiciais versus Laudos Médicos ............................42 
 
 
Conclusão .........................................................................................................44 
 
Jurisprudência .................................................................................................48 
 
Bibliografia .......................................................................................................51 
 
Anexos ...............................................................................................................53 
A. Laudo médico ...............................................................................................53 
B. Entrevista com o “Maníaco do Parque” .....................................................68 
C. Decisão do caso “Maníaco do Parque” .......................................................81D. Psicopatas conhecidos .................................................................................84 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
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INTRODUÇÃO 
 
A personalidade é a totalidade relativamente estável e previsível dos 
traços emocionais e comportamentais que caracterizam a pessoa na vida 
cotidiana, sob condições normais. Um transtorno da personalidade é uma 
variação desses traços de caráter que vai além da faixa encontrada na maioria 
das pessoas. Essa variação é inflexível e causa desajustes. 
 
Entre os portadores desse transtorno de personalidade está a 
personalidade psicopática, que devido essa variação, tem alteração dos 
sentimentos, dos impulsos, dos instintos, do sentido ético e moral que se traduz 
por uma alteração de conduta e comportamentos sociais. 
 
Este trabalho versará sobre o estudo das personalidades psicopáticas e 
o seu cometimento de crime abrangendo o universo do portador do transtorno de 
personalidade (suas características, seu comportamento), como se encaixa no 
Direito (sua capacidade de imputação), quais as conseqüências do seu crime 
(pena cabível) e a hipótese da aplicação da Medida de Segurança. 
 
Trata-se de um tema relevante e que gera opiniões diversas tanto na 
área médica como na área forense, e principalmente entre elas, por isso é 
interessante a busca de discussões, através dos doutrinadores, sobre os 
conceitos, resultados e, indubitavelmente, tentativas de soluções, uma vez que 
todos possuem um único desejo: a preservação do bem estar dentro do convívio 
social. 
 
Primeiramente será apresentado os aspectos psicopatológicos dos 
portadores de personalidade psicopática, mostrando a problemática de se 
conceituar e diagnosticar esse transtorno. 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
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Após, enfocaremos os aspectos jurídicos, tratando da dificuldade da 
imputar e responsabilizar o indivíduo por determinado fato. 
 
Em seguida será feita a junção dos dois aspectos – Direito e 
Psicopatologia – resultando na Psicopatologia Forense, e a partir daqui mostrar 
como os portadores de personalidade psicopática criminosos são considerados 
semi-imputáveis e como o Direito se utiliza da Psicopatologia para aplicar a 
sanção penal. 
 
E por último haverá a discussão da aplicação da Medida de Segurança 
em substituição à Pena Privativa de Liberdade e da utilização dos laudos 
médicos pelos magistrados. 
 
Para finalizar haverá a conclusão, jurisprudências, entrevistas e 
reportagens, esperando com isto ter conseguido alcançar a proposta inicialmente 
estabelecida. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
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CAPÍTULO I – GENERALIDADES 
 
1. HISTÓRIA DO CONCEITO 
 
A evolução dos conceitos sobre a personalidade psicopática 
transcorreu, durante mais de um século, oscilando entre a bipolaridade orgânica-
psicológica, passando à transitar também sobre as tendências sociais e parece ter 
aportado finalmente, numa idéia bio-psico-social que, senão a mais verdadeira, 
ao menos a mais sensata. 
 
Conceituar a personalidade psicopática, ou tão somente psicopata, é 
algo que vem preocupando tanto a Psiquiatria como o Direito, evidentemente 
essa preocupação contínua e perene existe porque sempre houve personalidades 
anormais como parte da população geral. 
 
O que houve primeiro foi a definição para a relação entre o crime e o 
criminoso e aquelas pessoas que se entendiam pré dispostas para o crime, os 
delinqüentes. 
 
O estudo da evolução da Criminalidade realizado por Lombroso, 
permite fixar o fio condutor desta ciência e as suas diretrizes atuais, além de 
estabelecer as bases para novos progressos. 
 
Lombroso ao efetuar estudos sobre o homem delinqüente, estabeleceu 
um tipo particular de indivíduo, definido pelos seus caracteres físicos e 
psíquicos e pela prática no crime, denominado: “Criminoso Nato”. 
 
A obra de Lombroso foi continuada pela chamada “Escola de 
Antropologia Criminal de Roma”, a qual remodelou o conceito do “Criminoso 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
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Nato”, definindo assim, a “Constituição Delinqüencial”, grupo biológico, com a 
característica fundamental da predisposição ao delito, essência esta, de uma 
personalidade, alcançando assim, o conceito comparável aos das personalidades 
psicopáticas. 
 
A “Escola de Graz” salienta a importância de dois fatores, 
determinantes da vida psíquica de cada indivíduo: o terreno (constituição 
biológica individual) e o ambiente. Admite uma tendência criminógena, 
transmissível por hereditariedade, com disposições instintivas que levam 
determinado indivíduo, mais facilmente do que outros, a entrar em conflitos com 
as leis penais. 
 
A concepção do “Criminoso Nato” de Lombroso e da “Constituição 
Delinqüencial” da Escola de Antropologia Criminal de Roma refere-se a um tipo 
peculiar de indivíduos, com características próprias, predispostas 
especificamente para o crime. 
 
Entre essa peculiaridade de indivíduos criminosos está a personalidade 
psicopática. São “indivíduos fronteiriços” que se separam do grosso da 
população em termos de comportamento, conduta moral e ética. 
 
Girolano Cardamo, professor de Medicina da Universidade de Pavia, 
retratou uma das primeiras descrições registradas pela Medicina sobre algum 
comportamento que pudesse se identificar à idéia de personalidade psicopática. 
Neste relato, Cardamo falou em “Improbidade”, quadro que não alcançava a 
insanidade total, porque as pessoas que padeciam dessa “Improbidade” 
mantinham a aptidão para dirigir sua vontade. 
 
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Pablo Zacchias, considerado por alguns como fundador da Psiquiatria 
Médico Legal, descreve, em Questões Médico Legais, as mais notáveis 
concepções, as quais logo resultariam significado às “Psicopatias” e aos 
“Transtornos de Personalidade”. 
 
Em 1801, Philippe Pinel publica seu Tratado Médico Filosófico sobre 
a Alienação Mental e descreve que os loucos em nenhum momento, sofrem de 
um prejuízo de seu entendimento, e que estavam sempre dominados por uma 
espécie de furor instintivo, como se o único dano fosse em suas faculdades 
instintivas. 
 
Prichard, em 1835, designou a expressão “Insanidade Moral”, para 
caracterizar a conduta anti-social e a falta do senso ético de certos criminosos e 
afirmava que existiam insanidades sem o comprometimento intelectual, mas 
possivelmente com prejuízo afetivo e volitivo (da vontade); esta denominação 
igualou-se ao atual conceito de psicopatia. 
 
Em 1888, é definida pela primeira vez uma insanidade como 
inferioridade psicopática, mas foi em 1896 que surgiu o termo “Personalidade 
Psicopática”, esta designada por Kraepelin, o qual, trouxe átona o debate 
científico, relacionando assim, anomalias ou transtornos psíquicos com o 
cometimento do crime.No ano de 1923, Kurt Schneider, em sua obra Personalidades 
Psicopáticas define:1 
 
“Personalidades psicopáticas são as anormais, que sofrem por sua 
anormalidade ou fazem sofrer a sociedade”. 
 
1 Kurt Schneider, Personalidades Psicopáticas, 1923 
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 Frase esta criticada por José Alves Garcia, em sua obra 
Psicopatologia Forense, onde qualificou a definição de Kurt Schneider como 
irrelevante. Pode-se destacar nelas certas características e propriedades que as 
definem de maneira nada comparável aos sintomas de outras doenças. 
 
 A concepção de Schneider traz um certo determinismo, porque define 
o psicopata, portador de uma personalidade estranha, separada de seu meio. A 
psicopatia, portanto não é exógena, sua essência é constitucional e inata. 
 
Schneider englobou no conceito de personalidade psicopática todos os 
desvios da normalidade, não suficientes para serem considerados doenças 
mentais francas, incluindo nesses tipos, também aquele que hoje se entende por 
sociopata (psicopatia). 
 
 Muito mais tarde Mira y López conceitua a Personalidade 
psicopática:2 
 
“Personalidade mal estruturada, predisposta à desarmonia 
intrapsíquica, que tem menos capacidade que a maioria dos membros 
de sua idade, sexo e cultura para adaptar-se às exigências da vida 
social”. 
 
Em 1941, Cleckley escreveu um livro chamado “A Máscara da 
Saúde”, o qual se referia a este tipo de criminosos. Em 1964 descreveu as 
características mais freqüentes do que hoje é chamado de psicopata. 
 
Na década de 60, Karpmam afirmou:3 
 
 
2 Mira y López 
3 Karpmam, 1961 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
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“Dentro dos psicopatas há dois grandes grupos; os depredadores e os 
parasitas”. 
 
Os depredadores são aqueles que tomam as coisas pela força e os 
parasitas tomam-nas através da astúcia . 
 
Outros autores, mais precisamente nas décadas de 60 e 70, foram 
também definindo os traços característicos da psicopatia com termos tais como; 
perturbações afetivas, perturbações do instinto, deficiência superegóica, 
tendência a viver somente o presente, baixa tolerância e frustrações. Alguns 
classificam esse transtorno como anomalias do caráter e da personalidade, 
ressaltando sempre a impulsividade e a propensão para condutas anti-sociais. 
 
2. CONCEITO ATUAL 
 
As divergências, ainda hoje, existem, entre os que defendem a origem 
desses desvios em certa predisposição constitucional, os que sustentam 
encontrar a causa nas deficiências funcionais do cérebro e aqueles que admitem 
que os desvios se originam em possíveis rejeições sofridas pela criança nos 
primeiros anos de vida. 
 
A personalidade está sujeita, entretanto, a transtornos em seu 
desenvolvimento e em sua continuidade, quando se evidenciam as hipóteses dos 
seus desdobramentos , como na identidade; quando ocorrem transtornos da 
relação da pessoa com o mundo exterior; transtornos da percepção, como os 
estados depressivos e obsessivos, enfim uma infinidade existente de desvios de 
personalidade, com profundos reflexos em todo o comportamento do indivíduo 
e, evidentemente, com suas conseqüências na esfera do mundo jurídico. 
 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
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O renomado Nélson Hungria define os psicopatas como:4 
 
“Portadores de psicopatias a escala de transição entre psiquismo 
normal e as psicoses funcionais. Seus portadores são uma mistura de 
caracteres normais e caracteres patológicos. São os inferiorizados ou 
degenerados psíquicos. Não se trata propriamente de doentes, mas de 
indivíduos cuja constituição é “ab initio”, formada de modo diverso 
da que corresponde ao “homo medius”. 
 
No entanto, em meio a tantas definições, a discussão atualmente não 
reflete só a preocupação de conceituar, mas sim a tentativa de buscar correlação 
entre a criminalidade e esse tipo de transtorno de personalidade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4 Nélson Hungria, Conferência realizada na Sociedade Brasileira de Criminologia, em 29/09/1942 (apud Heitor 
Piedade Júnior. Personalidade Psicopática, Semi-Imputabilidade e Medida de Segurança, p. 140). 
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CAPÍTULO II – ASPECTOS PSICOPATOLÓGICOS 
 
1. OS DISTÚRBIOS PSÍQUICOS 
 
A Psicopatologia pesquisa sobre as doenças mentais, sua etiologia e 
sua classificação. 
 
Segundo Gerardo Vasconcelos5, as causas mais freqüentes dos 
distúrbios mentais são: doenças em geral, endo-intoxicações, exo-intoxicações, 
infecções, herança psíquica, crenças e superstições, causas psíquicas, causas 
mecânicas, disposições individuais e fisiológicas. 
 
Os psicopatas estariam dentro das causas psíquicas, que são traumas, 
principalmente de causas emotivas, que em determinado momento 
desencadeiam um quadro patológico grave; e também das disposições 
individuais, que é a constituição, temperamento e caráter do indivíduo. 
 
Ou seja, como já foi falado, os psicopatas teriam defeitos de base 
constitucional e que ao longo de sua vida, fatores, como a impotência sexual, 
potencializariam esses defeitos. Lembrando que são incapazes de aprender por 
qualquer experiência vivida. 
 
1.1. CLASSIFICAÇÃO 
 
Adotaremos a classificação dada por Flamínio Favero6; que seguindo 
os dispositivos legais, classificou os distúrbios psíquicos em: psicoses, 
insuficiências mentais ou oligofrenias, personalidades psicopáticas e neuroses. 
 
 
5Ob. cit. 
6 Apud Gerardo Vasconcelos, ob. cit. 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
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As psicoses envolvem os distúrbios qualitativos, orgânicos (psicoses 
endógenas e exógenas) e alguns psíquicos (desenvolvimentos delirantes); 
enquanto as demais referem-se aos distúrbios quantitativos. 
 
Os distúrbios qualitativos caracterizam-se pela alteração da qualidade, 
com surgimento de “algo novo” na vida psíquica do paciente, como por 
exemplo, vozes, pensamentos delirantes, visões. 
 
Os distúrbios quantitativos caracterizam-se pelo aumento ou 
diminuição de coisas consideradas normais até então; o que muda é a 
quantidade, como por exemplo as reações de um psicopata de personalidade 
explosiva, que bate na mulher porque esta não colocou o lixo para fora (há uma 
extrema desproporcionalidade entre o estímulo e a reação), ou o oligofrênico 
que não consegue ler, por pouca inteligência. 
 
2. OS PSICOPATAS: CARACTERÍSTICAS 
 
A personalidade traduz-se, na visão psicopatológica, na somatória das 
tendências somatopsíquicas da constituição do indivíduo e do meio ambiente 
com o qual interage. Daí cada um ter umapersonalidade diferente. 
 
Quanto às personalidades psicopáticas, estas são marcadas por 
desajustamento social, tendências de reação às normas, sem acomodação ao 
grupo, dificuldades de adaptação ao meio e de relações com os demais. São, 
desta forma, parte integrante do indivíduo, precocemente reveladas, e constantes 
em toda a sua existência. Caracterizada por perturbações constitucionais, 
transtornos da afetividade, dos instintos, do temperamento e do caráter, vão se 
intensificando com o desenvolvimento do indivíduo, tornando-se cada vez mais 
marcadas. Revela-se, assim, num distúrbio da conduta. 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
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Mas para um melhor entendimento desses indivíduos estão elencados 
abaixo os traços e características mais significantes: 
 
Encanto Superficial e Manipulação: nem todos os psicopatas são 
encantadores, mas é expressivo o grupo deles que utilizam o encanto pessoal e, 
consequentemente capacidade de manipulação das pessoas, como meio de 
sobrevivência social. O encanto, a sedução e a manipulação são fenômenos que 
se sucedem no psicopata, partindo do princípio que somente será possível 
manipular alguém se esse alguém foi antes seduzido; 
 
Mentiras Sistemáticas e Comportamento Fantasioso: o psicopata 
utiliza a mentira como uma “ferramenta de trabalho”. O psicopata não mente 
circunstancialmente ou esporadicamente para conseguir safar-se de alguma 
situação. É comum que o psicopata priorize algumas fantasias sobre 
circunstâncias reais. Esse indivíduo pode converter-se no personagem que sua 
imaginação cria como adequada para atuar no meio com sucesso, propondo a 
todos a sensação de que estão, de fato, em frente a um personagem verdadeiro; 
 
Ausência de Sentimentos Afetuosos: o criminoso psicopático não 
manifesta nenhuma inclinação ou sensibilidade por laços sentimentais habituais 
entre familiares. Além disso, eles têm grande dificuldade para entender os 
sentimentos das outras pessoas. Na realidade são pessoas extremamente frias, do 
ponto de vista emocional; 
 
Amoralidade: os psicopatas são portadores de grande insensibilidade 
moral, faltando-lhes totalmente juízo e consciência morais, bem como noção de 
ética; 
 
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Impulsividade: a ausência de sentimentos éticos e altruístas, unidos à 
falta de sentimentos morais, impulsiona o psicopata a cometer brutalidades, 
crueldades e crimes. Essa impulsividade reflete também um baixo limiar de 
tolerância às frustrações, refletindo-se na desproporção entre estímulos e as 
respostas, ou seja, respondendo de forma exagerada diante de estímulos 
mínimos e triviais, contudo, demonstra uma absoluta falta de reação frente a 
estímulos importantes; 
 
Incorregibilidade: dificilmente ou nunca aceita os benefícios da 
reeducação, da advertência e da correção; 
 
Falta de Adaptação Social: desde os primeiros contatos, como por 
exemplo, na escola, na família, no trabalho, é manifestada uma tendência 
egocêntrica, logo, essa tendência se torna responsável pelas dificuldades de 
sociabilidade; 
 
A média da população de psicopata é de 1 a 4% em maior ou menor 
escala. A maioria das pessoas com distúrbios da personalidade antisocial não é 
criminosa e é capaz de se controlar dentro dos limites da tolerabilidade social. 
Eles são considerados somente como "socialmente perniciosos", ou têm 
personalidade odiosas. 
 
Observação muito bem feita pelo neurologista Henrique Del Nero:7 
 
 “Sofrer desse distúrbio não significa necessariamente que a pessoa seja 
ou se torne assassino.” 
 
 
 
7 Henrique Del Nero, neurologista da USP, Superinteressante - abril 
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2.1. CLASSIFICAÇÃO 
 
Dentre as várias classificações de psicopatias, a de Kurt Schneider 
inaugurou uma posição original, clássica e revolucionária na caracterização do 
problema, estas classificações serão apresentadas a seguir: 
 
1. Psicopatas Hipertímicos: indivíduos alegres, loquazes, 
despreocupados, otimistas, superficiais em seu trabalho e inclinados a 
escândalos e às desavenças conjugais. Propensos a cometerem crimes como 
brigas, disputas, estelionatos, entre outros. Possuem sexualidade exaltada. 
 
2. Psicopatas Depressivos: indivíduos tranqüilos, 
melancólicos, permanentemente deprimidos e eternamente descontentes e 
ressentidos, ligados a uma consideração pessimista da vida, iniciada, às vezes, 
na juventude. 
 
3. Psicopatas Anancásticos: inseguros, com ideação especial 
dominada por uma ação coativa ou fóbica que surge de improviso por estímulos 
desencadeantes insignificantes, às vezes, acompanhada por manifestações 
subjetivas de exaltação, produtora de intenso sofrimento ao indivíduo, como por 
exemplo, a possibilidade de matar o próprio filho. Alguns são sensitivos ou 
escrupulosos morais. 
 
4. Psicopatas Fanáticos: indivíduos dominados pelo elemento 
expansivo e criativo que se aproximam da personalidade do paranóico. Possuem 
um elevado sentimento de si mesmo, luta sempre por uma finalidade qualquer e 
suas idéias são sempre prevalecentes ou supervaloradas. Querem impor sua 
verdade ao mundo. Não procuram ajuda médica de forma alguma. 
 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
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5. Psicopatas Lábeis de Estado de ânimo: irritáveis com 
extrema facilidade, seu estado de ânimo sofre oscilações imotivadas e 
desproporcionais. São sempre impulsivos e cometem crimes tais como roubo e 
abandono de trabalho. 
 
6. Psicopatas Necessitados de Valorização: personalidade em 
que a ideação se ressente da exaltação da fantasia que, junto com o relaxamento 
de crítica, conduz à pseudologia fanática. Cometem agressões e estelionatos. 
 
 7. Psicopatas Explosivos: irritáveis e coléricos, podem cometer 
homicídios e lesões corporais pelo menor estímulo externo. São acometidos por 
amnésia no momento da contenda. Cometem atos de violência e crimes 
passionais. 
 
8. Psicopatas Abúlicos: caracterizam-se pelo enfraquecimento 
da volição, da vontade. Por não possuírem vontade própria, são facilmente 
influenciáveis, absorvendo os bons e os maus exemplos de seu meio. 
Normalmente, envolvem-se com o crime através de jogos, roubos. 
 
9. Psicopatas Astênicos: sensitivos, assustadiços, dominados 
pelo sentimento de incapacidade e de inferioridade que, junto a qualquer 
deficiência orgânica são acometidos de difuso sentimento de estranheza 
comparável a alguns estados dissociativos. São os únicos que possuem aspectos 
físico-corporais. Procuram com freqüência, ajuda médica. São cometedores de 
suicídios reiteradamente. 
 
10. Psicopatas Desalmados: sem sensibilidade ética, e em geral, 
com embotamento afetivo, sem compaixão ou culpa, defeituosos morais, 
inimigos da sociedade, com tendência à delinqüência. 
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 Segundo o jurista e criminólogo, JasonAlbergaria, os psicopatas que 
interessam à Criminologia são os tipos fundamentais, como por exemplo, os 
Hipertímicos, que tendem à difamação, à indolência e à fraude; os Fanáticos 
praticam o delito político; os Explosivos, os delitos contra a pessoa e os 
Abúlicos cometem furtos, fraudes e apropriações indébitas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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CAPÍTULO III – ASPECTOS JURÍDICOS 
 
1. ELEMENTOS DO CRIME 
 
Para uma ação humana ser considerada criminosa precisa 
corresponder objetivamente à conduta descrita pela lei, contrariando a ordem 
jurídica e incorrendo seu autor no juízo de censura ou reprovação social. Nesse 
sentido que Noronha diz:8 
 
“Considera-se delito como um ação típica, antijurídica e culpável.” 
 
Isto quer dizer que para a norma penal os elementos do crime são a 
Tipicidade, a Ilicitude e a Culpabilidade. 
 
Tipicidade – O tipo é a descrição abstrata da ação proibida ou da ação 
permitida. A ação, também chamada conduta, compreende o comportamento 
humano, que pode ser comissivo ou omissivo. 
 
Exprime elementos essenciais da ação descrita, como por exemplo, se 
a ação é dolosa ou culposa. Abrange a ação com seus elementos objetivos e 
subjetivos, o resultado e até o objeto, quando for o caso. 
 
Ilicitude – Para que haja crime, exige-se que o fato material causado 
seja lesivo de interesses protegidos. É protegido todo fato que a lei penal manda 
fazer ou deixar de fazer sob pena de uma sanção. Uma ação pode ser típica, mas 
não ser ilícita, logo, não é criminosa por falta de um de seus elementos. 
 
 
8 E. Magalhães Noronha, Direito Penal: Introdução e Parte Geral, p.97 
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Culpabilidade – Magalhães Noronha entende que culpabilidade é:9 
 
“...a reprovação pela prática de um fato lesivo a um interesse 
penalmente tutelado, que o agente quis ou a que deu causa por 
negligência, imprudência ou imperícia...” 
 
Já para Fragoso culpabilidade consiste na:10 
 
“...reprovabilidade da conduta ilícita (típica e antijurídica) de quem 
tem capacidade genérica de entender e querer (imputabilidade) e 
podia, nas circunstâncias em que o fato ocorre, conhecer a sua 
ilicitude, sendo-lhe exigível comportamento que se ajuste ao 
direito...” 
 
Ou seja, é o nexo subjetivo que liga o crime ao seu autor, revestindo, 
no Direito Penal, as formas de dolo e culpa. Dentro da culpabilidade existem os 
seguintes elementos: Imputabilidade, Possibilidade de Consciência do Injusto e 
Exigibilidade de Conduta conforme o Direito. Para o estudo em questão merece 
especial atenção a Imputabilidade, estudada no item a seguir. 
 
A culpabilidade possui a finalidade de aferir a capacidade de delinqüir 
do agente, então se faz necessário o exame da intensidade do dolo e o grau de 
culpa. A razão pela qual a vontade se determina é um outro requisito importante 
para determinar a periculosidade individual. Lembrando que tudo isso deverá ser 
muito bem analisado no momento da aplicação da sanção. 
 
 
 
 
 
9 E. Magalhães Noronha, Culpabilidade e Periculosidade, p.59 
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2. RESPONSABILIDADE E IMPUTABILIDADE 
 
Responsabilidade e imputabilidade são dois termos que não se 
desagregam, e a proximidade de sentido é tamanha que pode ser observada até 
mesmo no Código Penal, na denominação do seu Título III, da Parte Geral. O 
Código atual, após a reforma de 1984, trata da imputabilidade nos artigos 26 a 
28, enquanto no Código anterior à reforma tratava da responsabilidade nos 
artigos 22 a 24. 
 
 Nas opiniões de dois juristas conhecidos há divergências, para 
Magalhães Noronha, responsabilidade e a imputabilidade são sinônimos, no 
entanto para Damásio11: 
 
 “...imputabilidade e responsabilidade não se confundem...” 
 
Mas, como dito acima, esses dois termos caminham juntos, sendo a 
imputabilidade um pressuposto, e a responsabilidade uma conseqüência, enfim, 
podemos dizer que a imputabilidade é a capacidade de poder ser 
responsabilizado pelo ato. 
 
2.1. CONCEITO DE RESPONSABILIDADE PENAL 
 
A responsabilidade diz respeito à possibilidade jurídica, portanto será 
decretada ou não pela justiça e deverá ser analisada cada caso. 
 
Segundo Magalhães Noronha, em seu livro Direito Penal, parte geral, 
a responsabilidade seria um dever de prestar contas, como descrito abaixo :12 
 
10 Heleno Cláudio Fragoso, Lições de Direito Penal, p.196 
11 Damásio E. de Jesus, Direito Penal, p.410 
12 E. Magalhães Noronha, Direito Penal, pg. 161 
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“...responsabilidade penal é a obrigação que alguém tem de arcar 
com as conseqüências jurídicas do crime. É o dever que tem a pessoa 
de prestar contas de seu ato. Ela depende da imputabilidade do 
indivíduo, pois não pode sofrer as conseqüências do fato criminoso 
(ser responsabilizado) senão o que tem a consciência de sua 
antijuridicidade e quer executá-lo...” 
 
 A responsabilidade penal implica, então em atribuir certo ato 
considerado como crime a um indivíduo, que somente sofrerá a punição 
adequada a sua ação se tiver capacidade ( condições psíquicas, intelecto-
volitivas) de entender o caráter ilícito do ato praticado. 
 
2.2. CONCEITO DE IMPUTABILIDADE PENAL 
 
O termo imputar, vem do latim “imputare”, que significa atribuir a 
alguém responsabilidade de algo.13 
 
 No Código Penal não há um definição do que é imputabilidade, mas, 
prevê no artigo 26 as condições em que são possíveis o seu reconhecimento. 
 
Para Magalhães Noronha a imputabilidade é como:14 
 
“...o conjunto de requisitos pessoais que conferem ao indivíduo 
capacidade, para que, juridicamente, lhe possa ser atribuído um fato 
delituoso...” 
 
 Desta forma, a imputabilidade diz respeito à capacidade do indivíduo 
ter um juízo de reprovação em relação a conduta criminosa, que possa entender 
 
13 De Plácido e Silva, Vocabulário Jurídico, V.02, p.802 
14 E. Magalhães Noronha, Direito Penal, p.161 
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a ilicitude do ato e de determinar-se de acordo com esse entendimento, em 
linhas gerais é a capacidade de ter consciência se seu ato foi bom ou mau. 
 
2.2.1. CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO 
 
Existem três critérios de avaliação da capacidade penal do indivíduo, 
o método biológico, o método psicológico, e o método biopsicológico. O 
critério adotado pela Legislação Brasileira é o critério que une os dois primeiros: 
o biopsicológico.- Método biológico: sem levar em consideração investigações 
minuciosas, o agente que possui uma enfermidade mental ou desenvolvimento 
mental deficiente, e ainda, perturbação transitória da mente, ser sempre 
considerado inimputável. 
 
- Método psicológico: neste leva-se em consideração apenas as 
condições psíquicas do agente no momento do fato, sem se preocupar com 
existência de doença mental ou qualquer distúrbio psíquico. 
 
- Método biopsicológico: é a união dos métodos acima mencionados, 
primeiramente verifica-se se o agente é doente mental ou tem desenvolvimento 
mental incompleto ou retardado, e se no momento da ação era incapaz de 
entendimento ou autodeterminação, ou seja é necessário uma relação de causa-
conseqüência. De qualquer forma, deve o agente ser submetido ao exame de 
sanidade mental. 
 
No que se refere aos portadores de personalidade psicopática, que são 
os fronteiriços entre a sanidade psíquica e a doença mental (incapacidade 
intelectiva e volitiva plena) haverá maiores explicações no próximo capítulo. 
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CAPÍTULO IV – ASPECTOS DA PSICOPATOLOGIA FORENSE 
 
1. CONDUTA CRIMINOSA DOS PSICOPATAS 
 
A psicopatia é reconhecida precocemente em um indivíduo: ela 
começa na infância ou adolescência e continua na vida adulta (o diagnóstico é 
possível em torno de 15 a 16 anos). Crianças psicopatas manifestam tendências 
e comportamentos que são altamente indicativos de seu distúrbio. Por exemplo, 
eles são aparentemente imunes a punição dos pais, e não são afetados pela dor. 
Nada funciona para alterar seu comportamento indesejável, e consequentemente 
os pais geralmente desistem, o que faz a situação piorar. Os mais violentos 
mostram uma história de torturar pequenos animais quando eles eram crianças e 
também vandalismo, mentiras sistemáticas, roubo, agressão aos colegas da 
escola e desafio à autoridade dos pais e professores. 
 
No entanto, como já foi dito anteriormente apenas uma pequena fração 
dos psicopatas se desenvolve em criminosos violentos, como estupradores e 
assassinos . 
 
Os criminosos psicopatas praticam crimes , via de regra, por impulsos 
irresistíveis. São comuns nesses indivíduos, os atos incendiários, a perversão 
sexual, a mitomania, o cinismo, o homicídio, etc. No momento da ação ele se 
encontra desprovido de emoção, e mesmo depois não sente culpa, não há 
angústia ou conflito interno. A história registra casos de psicopatas que se 
tornaram celebridades. Um psicopata clássico foi Donatien-Alphonse-François 
de Sade (1740-1814), um nobre francês cuja preferências sexuais perversas e 
novelas (tais como Justine) originaram o termo sadismo; outro foi o do pintor 
italiano Michelangelo Merisi, o Caravaggio (1571-1610). Ele morreu, aos 39 
anos, após uma atribulada vida de desajustes e crimes – além, claro, de uma das 
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mais importantes obras legadas à história da arte. No livro Loucos Egrégios, o 
médico Juan Antonio Vallejo-Nágera apontou vários indícios de que a obra de 
Caravaggio teria sido influenciada por seu comportamento anti-social. Ele 
chamou a atenção para alguns detalhes macabros da obra de Caravaggio. No 
quadro O Sacrifício de Isaac, observa a expressão fria do ancião enquanto este 
se prepara para sacrificar o próprio filho. 
 
Na opinião do pesquisador canadense Robert Hare, os criminosos 
psicopatas:15 
“...são predadores intra-espécie que usam charme, manipulação, 
intimidação e violência para controlar os outros e para satisfazer 
suas próprias necessidades. Em sua falta de consciência e de 
sentimento pelos outros, eles tomam friamente aquilo que querem, 
violando as normas sociais sem o menor senso de culpa ou 
arrependimento. 
 
Os crimes cometidos por criminosos psicopatas mais violentos 
apresentam, pelo menos: multiplicidade de golpes, ausência de motivos 
plausíveis, ferocidade na execução, ausência de premeditação, instantaneidade 
na ação, falta de remorso. 
 
Entretanto, já é consenso entre os autores que o psicopata pode entrar 
em estado de estreitamento de consciência e, nesse estado, praticar os mais 
cruéis delitos, cujos atos, às vezes bem ordenados, podem até ser premeditados, 
mas é uma premeditação mórbida, doentia. 
 
E esses casos acabam causando polêmicas jurídicas, mormente 
quando, em vez da explosão momentânea, há premeditação e, posteriormente ao 
crime, condutas dissimuladoras, com ocultação do cadáver e fuga do criminoso, 
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o que muitas vezes confunde autoridades, podendo parecer uma pessoa 
mentalmente normal. Exemplo disso são os assassinos em série, que 
premeditam, matam e despistam as autoridades. 
 
Aliás, o exemplo citado cima, o assassino em série ou serial (Serial 
Killer) é um tipo especial de portador de personalidade psicopática, de extrema 
periculosidade e incorrigível. 
 
2. RELAÇÃO DIREITO E PSICOPATOLOGIA 
 
Após falarmos sobre as duas áreas de conhecimento podemos agora 
traçar um paralelo entre ambas, considerando diferenças e semelhanças que 
apresentam ao tratarem do doente mental; sobre aquilo que a Psicopatologia 
entende por doente mental e como o Código Penal o utiliza. 
 
 Os distúrbios psíquicos se dividem em: 
 
1. qualitativos: 
a) orgânicos: 
- causa conhecida : psicoses exógenas ou sintomáticas, por exemplo, 
infecção que causa alteração cerebral, diabetes, medicamentos, etc. 
- causa desconhecida: psicoses endógenas (são geneticamente 
determinadas e não têm cura); por exemplo, esquizofrenia, PMD, 
psicose epiléptica, etc. 
 
b) psíquicos 
- desenvolvimentos delirantes 
 
 
15 Robert Hare, pesquisador e especialista canadense em sociopatia criminosa 
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2. quantitativos: 
- personalidade psicopática; 
- desenvolvimento neurótico ou simples; 
- oligofrenia 
 
Para a Psicopatologia estes são distúrbios psíquicos e como tais 
necessitam de especial atenção e tratamento adequado, pois enquanto distúrbios 
traduzem-se em anormalidade. 
 
O Código Penal, por sua vez, embora se apoiando na Psicopatologia, 
adotou critérios rígidos na consideração dos distúrbios psíquicos para a 
aplicação da pena. Procurou dividi-los em 4 (quatro) aspectos distintos: “doença 
mental”, desenvolvimento mental incompleto”, “desenvolvimento mental 
retardado” e “perturbação da saúde mental”. 
 
3. PERTUBAÇÃO DA SAÚDE MENTAL: CAPACIDADE DE 
IMPUTAÇÃO DO PSICOPATA 
 
Como já foi dito anteriormente, a lei reputa, para os efeitos da 
responsabilidade penal e da capacidade civil, que o indivíduo possua saúde 
mental e maturidade psíquica; isto para que tenha discernimento do certo e do 
errado no tocante de suas ações e omissões, que vem a ser imputabilidade. 
 
A norma que trata da imposição da imputabilidade se faz presente no 
artigo 26 da parte geral do CódigoPenal, o caput torna inimputáveis 
determinados casos patológicos e o parágrafo único traz outros casos que são 
semi-imputáveis. 
 
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 “É isento de pena o agente que, por doença mental ou 
desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da 
ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter 
ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. 
 
Parágrafo único. A pena pode ser reduzida de um a dois terços, se o 
agente em virtude de perturbação de saúde mental ou por 
desenvolvimento mental incompleto ou retardado não era 
inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de 
determinar-se de acordo com esse entendimento.” 
 
De suma importância para este trabalho é a análise do parágrafo único, 
pois contém uma causa especial de diminuição da pena, em face da diminuição 
da responsabilidade, embora persista a culpabilidade. 
 
 Conforme o artigo terá reduzida a pena dos agentes que no momento 
da ação ou omissão não eram inteiramente capazes de entender a ilicitude do ato 
ou de determinar-se de acordo com esse entendimento, mas somente nos casos 
de desenvolvimento mental incompleto ou retardardo, e de perturbações da 
saúde mental. 
 
Desses somente nos interessa as perturbações da saúde mental, que é o 
termo jurídico que abriga os indivíduos que estão entre o campo da doença 
mental e da normalidade, os chamados fronteiriços ou border-line. São eles: a 
personalidade psicopática (objeto de estudo), o débil mental leve, o 
desenvolvimento simples e alguns casos o neurótico e o início e fim de psicoses 
(mais raro). 
 
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Assim, os portadores de personalidades psicopáticas são considerados 
semi-imputáveis, pois apesar de entenderem o caráter ilícito da ação, não são 
capazes de controlar seus atos. 
 
 No entanto, não se pode esquecer que o julgamento dos termos da 
responsabilidade compete à ação do juiz, que tendo dúvidas quanto ao 
desenvolvimento mental do acusado deve nomear um perito (o delegado, o 
Ministério Público, os familiares ou representante do acusado também podem 
requerer a instauração do incidente de insanidade mental) que atestará de forma 
clara esse aspecto, pois a existência da incapacidade de imputação é uma 
circunstância preliminar e imprescindível para a melhor e mais correta 
interpretação causal dos fatos, e posteriormente na aplicação das penas. 
 
3.1. SANÇÃO PENAL CABÍVEL 
 
Como foi visto, verificou-se que os criminosos psicopatas estão 
dispostos no artigo 26, parágrafo único, do Código Penal, pois estão 
enquadrados no termo “Perturbação Mental”, isto é, possuem capacidade de 
entendimento em relação ao cometimento da ação criminosa, entretanto, têm 
uma perturbação de conduta que lhes tiram o controle, não ocorre a chamada, 
excludente de culpabilidade, todavia a responsabilidade é reconhecida de forma 
diminuída, no tocante à sua intensidade. 
 
Sendo assim, o juiz proferirá uma sentença condenatória, prevista nos 
termos do Artigo 387 do Código de Processo Penal.16 E terá a opção de aplicar 
 
16 Artigo 387. O juiz, ao proferir sentença condenatória: 
 
I – mencionará as circunstâncias agravantes ou atenuantes definidas no Código Penal, e cuja existência 
reconhecer; 
II – mencionará as outras circunstâncias apuradas e tudo o mais que deva ser levado em conta na aplicação da 
pena, de acordo com o disposto nos arts. 42 e 43 do Código Penal; 
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pena reduzida de um a dois terços. Segundo o artigo a atenuação é facultativa, 
mas há decisões também no sentido de ser obrigatória, como para Paulo José da 
Costa Júnior:17 
“...preferimos, entretanto, sustentar que o poder, referido na norma, 
significa dever. A faculdade do magistrado está em dosara 
redução...” 
 
Ou necessitando o condenado de especial tratamento essa pena poderá 
ser substituída por internação ou tratamento ambulatorial, regra prevista no 
artigo 98 do Código Penal: 
 
“ Na hipótese do parágrafo único do art. 26 deste Código e 
necessitando o condenado de especial tratamento curativo, a pena 
privativa de liberdade pode ser substituída pela internação, ou 
tratamento ambulatorial, pelo prazo mínimo de 1 (um) a 3 (três) anos, 
nos termos do artigo anterior e respectivos §§ 1º a 4º.” 
 
Essa alternativa imposta no artigo 98 demonstra a reforma penal de 
1994, a qual trouxe a substituição da aplicação aos semi-imputáveis e 
imputáveis do “sistema vicariante” e não mais do duplo binário (pena + medida 
de segurança), em que se pode aplicar somente pena ou medida de segurança 
para os semi-imputáveis e unicamente a pena para os imputáveis. 
 
 
 
 
III – aplicará as penas, de acordo com essas conclusões, fixando a quantidade das principais e, se for o caso, a 
duração das acessórias; 
IV – declarará, se presente, a periculosidade real e imporá as medidas de segurança que no caso couberem; 
V – atenderá quanto à aplicação provisória de interdições de direitos e medidas de segurança, ao disposto no 
Título XI deste Livro; 
VI – determinará se a sentença deverá ser publicada na íntegra ou em resumo e designará o jornal em que será 
feita a publicação (art. 73, § 1º, do Código Penal). 
 
17 Paulo J. C. Júnior, Direito Penal-curso completo, p.96 
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3.1.1. PENA E MEDIDA DE SEGURANÇA 
 
Pena é a conseqüência jurídica decorrente de uma violação do tipo 
penal, considerada assim como sanção penal, e a medida de segurança? 
 
Segundo Damásio18: 
 
“...enquanto a pena é retributiva-preventiva, tendendo a readaptar 
socialmente o delinqüente, a medida de segurança possui natureza 
essencialmente preventiva, visto que evita que um sujeito que praticou 
um crime e se mostra perigoso venha cometer novas infrações 
penais.” 
 
 Além disso, diz que as penas são proporcionais à gravidade da 
infração, enquanto a proporcionalidade das medidas de segurança é estabelecida 
de acordo com a periculosidade do sujeito e que a imposição das penas 
pressupõe prática de um crime, enquanto as medidas de segurança podem ser 
aplicadas aos autores de quase-crimes ( não é o entendimento que vigora em 
nossa legislação). 
 
Já para Noronha19 
 
“...na pena prevalece o cunho repressivo, ao passo que na medida de 
segurança predomina o fim preventivo; porém, como já fez sentir, a 
prevenção também não é estranha à pena.” 
 
Ao contrário do que leciona Damásio, para Noronha, Mirabete, entre 
outros ambas pressupõem a prática de ato ilícito e manifestam o “jus puniendi” 
 
18 Damásio E. de JESUS, Direito Penal : Parte Geral, v. 01, p. 475. 
19 E. Magalhães NORONHA, Direito Penal : Introdução e Parte Geral, V.01, p. 312. 
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estatal, colimando que o indivíduo que delinqüiu e se revelou perigoso não torne 
a delinqüir. 
 
Conforme Grispigni, tanto a medida de segurança quanto a pena são 
espécies de sanções penais que apresentam traços comuns : 20 
 
“ambas importam diminuição de bens jurídicos; baseiam-se as duas na 
existência de um crime; servem para intimidação em massa como para 
readaptação do delinqüente e ambas são aplicadas jurisdicionalmente.” 
 
3.1.2. PRESSUPOSTOS PARA A APLICAÇÃO, IMPOSIÇÃO E 
ESPÉCIES DA MEDIDA DE SEGURANÇA 
 
O Código Penal adota a medida de segurança pós delitual, ou seja é 
necessário que tenha havido um fato criminoso. Além disto, é também 
necessário que haja periculosidade do autor. 
 
 Periculosidade é 21: 
 
“...a potência, a capacidade, a aptidão ou a idoneidade que um homem 
tem para converter-se em causa de ações danosas.” 
 
O prazo para cumprimento da medida de segurança é indeterminado, 
enquanto a perícia médica não constatar a cessação da periculosidade (§ 1º do 
artigo 97 do Código Penal). Para isso, necessário se faz a realização de um 
exame após o prazo mínimo de três anos (artigo 97, §§ 1º e 2º, CP). 
 
 
20 Filipo Grispigni, Le problème de l’unifiction de la peine et des mesures de sûreté, in Scuola Positiva, p. 434 
21 Soler, Exposición y critica del estado peligroso, p. 21 
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Para desinternação a extinção da medida de segurança só ocorrerá, 
após um ano (prazo indicativo das condições para o livramento condicional; se 
não praticar fato indicativo de persistência de sua periculosidade (C.P., art. 97, § 
3º). Se solto, a medida de segurança se extingue com a extinção da punibilidade. 
 
Quanto as espécies de medidas de segurança são a detentiva e a 
restritiva. A primeira consiste na internação em hospital de custódia e tratamento 
psiquiátrico, enquanto a segunda resulta de tratamento ambulatorial. 
 
3.1.3. PSICOPATA: QUAL A SANÇÃO IDEAL? 
 
O criminoso portador de personalidade psicopática, além do alto grau 
de periculosidade, é de difícil corrigibilidade, portanto o tratamento ambulatorial 
é praticamente nulo, primeiramente, porque não possui uma patologia e em 
segundo lugar, esses criminosos não possuem a mínima possibilidade de 
ressocialização. 
 
Sendo assim, é recomendável a análise profunda da personalidade do 
agente, por parte do perito, para no momento do julgamento o juiz aproveitá-la, 
pois a pena está totalmente descartada pelo seu caráter inadequado em relação à 
punição e prevenção desses criminosos. A prisão poderá resultar em um fato 
evasivo, e, posteriormente, eclodir em fugas lideradas pelo mesmo. 
 
No caso, do portador de personalidade psicopática o ideal é o 
cumprimento de medida de segurança, mesmo sendo, computada em um prazo 
de um a três anos, porque é difícil ou praticamente impossível, a cessação de 
periculosidade ser extinta, ao ser realizada pelo perito. 
 
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Nestes casos substituição da pena pela medida de segurança, esta será 
cumprida no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico, como dispõe o 
artigo 99 da Lei 7210, de 11 de Julho de 1984: 
 
“O Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico destina-se aos 
inimputáveis e semi-imputáveis referidos no art. 26 e seu parágrafo 
único do Código Penal. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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CAPÍTULO IV – CRIMINOSOS EM SÉRIE 
 
Os criminosos em série, também conhecidos por seu nome em inglês, 
serial killer´s, geralmente são psicopatas muito violentos, há casos também de 
doentes mentais, mas são raros. E como o próprio nome diz, são criminosos que 
matam em seqüência, quase sempre da mesma forma e que escolhem 
determinadas vítimas de acordo com sua fantasia. 
 
Algumas características são próprias dos criminosos em série, como o 
grande prazer de demonstrarem que possuem poder sobre os outros. Donos de 
um enorme sadismo, sentem prazer em assistir o sofrimento alheio, e não sentem 
remorso por isso. Grande parte deles não assume seus crimes, confessando, 
somente, através de pequenos deslizes movidos pela vontade de reviver o 
momento do crime, pois são muito dissimulados. Tendem a cometer crimes de 
natureza sexual. 
 
Há também uma curiosidade em relação a esses criminosos, existe 
uma incidência muito pequena de assassinas mulheres e negros, mas não existe 
explicações do porquê isto ocorre. 
 
São eles, os criminosos em série, que tem grande exposição na mídia e 
acabam ficando na história. Aqui no Brasil tivemos, o caso do “Chico 
Picadinho”, do “Bandido da Luz Vermelha”, do “Maníaco do Parque”, entre 
outros. 
 
Estatísticas feitas por investigadores norte-americanos:22 
82 % dos serial killer´s sofreram abusos na infância 
 
22 Fontes: FBI, John Douglas e Ncjd (National Archive of Criminal Justice Data) 
 
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5% dos serial killer´s mentalmente doentes no momento dos crimes 
35 a 500 é o número de serial killer´s soltos 
93% dos serial killer´s são homens 
65% das vítimas são mulheres 
75% dos serial killer´s conhecidos no mundo estão nos Estados Unidos 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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CAPÍTULO V – DECISÕES JUDICIAIS VERSUS LAUDOS MÉDICOS 
 
 Existe no Brasil um descaso dos juizes com relação aos laudos 
elaborados pelos médicos-peritos, no momento de sua decisão. Fala-se que os 
médicos resolvem as questões, os juizes decidem as soluções, entretanto, não é 
que temos visto, como por exemplo, no caso do “Chico Picadinho” e do 
Maníaco do Parque, em que os médicos deram o diagnóstico, mas a Justiça não 
o aceitou, em sua decisão. 
 
 Vejamos por exemplo a opinião de Fragoso com relação a 
Psiquiatria23: 
 
“É um ramo da medicina muito subjetivo, onde tudo são hipóteses, 
conjecturas, inferências sem base na realidade, falsificações para o 
encalço de fantasias, deixando apenas de manifesto a persistente 
indemonstrabilidade das pretendidas causas genéticas do crime.” 
 
No entanto verificamos que a Psiquiatria possui critérios de 
avaliação que o juiz não levaria em conta no julgamento do criminoso, 
verificando a ocorrência de alterações de comportamento consideradas 
anormais, mas que para o juiz seriam normais. 
 
O que ocorre na realidade é que ao mesmo tempo que a lei possibilita 
que a justiça chame um perito para elaborar um laudo sobre as funções psíquicas 
do acusado, com o fim específico deatribuir-lhe ou não capacidade de 
imputação acerca do crime praticado, a mesma lei também permite que o juiz 
decida a causa sem que esteja adstrito ao laudo apresentado pelo perito. 
 
 
23 Heleno Cláudio FRAGOSO, Lições de direito penal : Parte Geral, p. 349. 
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E esse juiz influenciado pela sociedade, que infelizmente é aguçada 
pelos meios de comunicação, não leva em conta o laudo médico e aplica a pena 
privativa de liberdade; principalmente nos casos de psicopatas violentos, que 
tem uma grande exposição na mídia. 
 
Dificilmente a sociedade aceitaria a decisão de um juiz que absolveu 
um psicopata que estuprou e matou brutalmente suas vítimas, pois como 
sabemos, para a aplicação da Medida de Segurança é necessário primeiro a 
absolvição perante o Tribunal do Júri. Para a sociedade o psicopata estaria 
ficando impune. 
 
Em suma, é evidente que o juiz não deverá sempre aceitar o laudos 
apresentados pelos peritos, tendo em vista que a prática também tem nos 
mostrado a existência de médicos que atestam uma disfunção psíquica que não 
existe para que o criminoso seja considerado inimputável ou semi-imputável 
pelo Poder Judiciário. Todavia, deve existir um meio termo na conduta do juiz 
que infelizmente, nos dias atuais, tem se mostrado bastante radical ao 
desconsiderar laudos bem elaborados e adstritos a ética profissional. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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CONCLUSÃO 
 
 A personalidade psicopática sofre do chamado transtorno de 
personalidade, que traz como conseqüência direta um desregramento de 
conduta, a qual determina a perda dos sentimentos éticos. Portanto de acordo 
com a legislação, a capacidade de imputação em relação ao cometimento de 
crime é de semi-responsabilidade, porque o criminoso psicopata identifica a 
conduta delituosa, mas não possui total responsabilidade sobre seus atos, pois 
está conduzido por impulsos advindos de sua malgrada personalidade. 
 
 Assim, através da reforma de 1984, quando se criou o sistema vicariante, 
o semi-imputável poderá receber pena reduzida de um a dois terços ou no caso 
de necessidade de um tratamento ambulatorial, substitui-se pela medida de 
segurança. 
 
Primeiro, com relação ao tratamento ambulatorial, é praticamente nulo, 
nesses casos, pois o fronteiriço não possui patologia e sim, um transtorno de 
personalidade e a aplicação de uma pena é extremamente perigosa e inadequada. 
 
Perigosa, pois o nosso sistema penitenciário é caótico, ultrapassado e 
comprometido. 
 
 Assistindo à televisão ou lendo os jornais, quase que diariamente, 
deparamo-nos com notícias de rebeliões em presídios, devido à superpopulação 
carcerária, à falta de cumprimento de benefícios já adquiridos e assim por 
diante. 
 
E inadequada, pois o criminoso fronteiriço não possui chance, mesmo 
que por uma imposição normativa, de retornar à sociedade. A reincidência entre 
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esses criminosos é elevadíssima, podendo cometer assassinatos em série e com 
certa premeditação, razão pela qual, esses indivíduos constituem um problema 
muito sério, não só para o Sistema Penal, como para todos os segmentos da 
sociedade. 
 
O ideal para esses casos seria o cumprimento da medida de segurança, 
porque, não haveria redução da pena, mas sim, um prolongamento por tempo 
indeterminado, o qual, se prolongaria pela realização do exame de cessação de 
periculosidade, o que provavelmente jamais aconteceria. 
 
 Mas, o nosso grande problema diz respeito a substituição da pena pela 
medida de segurança dessa medida, um vez que dificilmente o juiz leva em 
conta o laudo médico realizado no acusado. 
 
 No entanto devemos lembrar que é através do diagnóstico do perito 
que o juiz terá condições de formar o seu convencimento. Não significa dizer 
que este ficará vinculado ao diagnóstico, mas que certamente será de grande 
valia na hora da decisão. Daí a responsabilidade na sua elaboração, devendo 
serem refutadas, de ambas as partes, as posições tendenciosas, que, por vezes, 
são fruto de influências da sociedade, da imprensa ou dos próprios órgãos 
públicos encarregados da manutenção da justiça e da ordem social, 
principalmente nos casos de grandes repercussões na sociedade como nos casos 
de assassinos em série. 
 
 Tudo isto se deve ao desconhecimento do assunto, que pode ser 
facilmente verificado quando a mídia veicula notícias sobre crimes praticados 
com demasiada violência, levando a população e até profissionais da saúde 
mental a um juízo associativo entre psicopatia e anos de prisão. Claro que 
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representam um perigo para a sociedade, porém na verdade precisam serem 
isolados e estudados. 
 
 Outro ponto a ser falado é a situação dos Hospitais de Custódia e 
Tratamento Psiquiátrico, apareceu nos jornais a alguns anos atrás no Estado de 
Goiás, um juiz que estava mandando os internos para casa, diante das péssimas 
condições do Hospitais de Custódia Tratamento Psiquiátrico e daquela região, 
chegando ao ponto dos parentes pedirem ao Juiz que encontrasse outra solução, 
pois tinham medo, diante do perigo que oferecia o doente liberado. 
 
 Assim como acontece outros casos piores, como presos colocados em 
liberdade após o transcurso do prazo máximo de prisão (“Bandido da luz 
vermelha”); na iminência de ser solto, também pelo cumprimento máximo de 
prisão (“Chico picadinho”), só não o sendo diante de pedido de interdição 
perante a Justiça Cível. Tudo isso se deve pela própria abertura dada pelo 
Código Penal às medidas de segurança (artigo 99 do Código Penal). 
 
 Mas a verdade é que não é novidade dizer que o sistema 
prisional necessita melhorias, tanto nos presídios, como nos Hospitais de 
Custódia e Tratamento Psiquiátrico. Todavia, não podemos relegar à Justiça toda 
a responsabilidade sobre a questão, esta, sobretudo, decorre do Estado como um 
todo, especificamente ao Poder Legislativo, pois ao Poder Judiciário cabe a 
aplicação da lei, lei esta elaborada por aquele, e ao Poder Executivo fazer 
cumprir as decisões do Judiciário. 
 
 Através deste trabalho podemos constatar que o psicopata, embora 
entenda o caráter ilícito de suas ações, não possui freios para não cometê-las, e 
que isso acontece devido um desvio de personalidade que vai além de sua 
pessoa. 
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Portanto não há como acreditar que a medida de segurança não deva 
substituir a pena privativa de liberdade, ainda que reduzida, porque só através 
dela é que se poderá deter um psicopata, uma vez que não aprendem com 
experiências, nem punições, pois são incorrigíveis. 
 
Então de suma importância se faz, que o estudioso do Direito tenha 
conhecimentos na área da Psiquiatria Forense, pois, só assim terá condiçõesde 
poder avaliar se um diagnóstico é confiável ou se há necessidade de se consultar 
outro profissional, e assim constatar se deve aplicar a medida de segurança. 
 
Por fim , requeremos que, em nome da defesa social, os criminosos 
portadores de personalidades psicopáticas sejam submetidos a um eficaz 
sistema de medida de segurança (medida de segurança com caráter até de 
“medida perpétua”, se um dia for possível, e quando for o caso), pois a presença 
dos criminosos psicopáticos no convívio social é nociva, inconveniente e 
perigosa. Não visando somente uma preocupação com moldes idealizadores para 
esses indivíduos, mas sim, a preocupação de completar estudos benéficos à 
Ciência Penal, Criminológica, Psiquiátrica, Social e, indubitavelmente a 
segurança da sociedade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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JURISPRUDÊNCIA 
 
“A personalidade psicopática não se inclui na categoria das moléstias 
mentais, acarretadoras da irresponsabilidade do agente. Inscreve-se no elenco 
das perturbações da saúde mental, em sentido estrito, determinantes da redução 
de pena”. RT 462/409 - TJMT – Ap. Crim. – Relator Des. Costa Lima. 
 
“Personalidade psicopática não significa, necessariamente, que o 
agente sofre de moléstia mental, embora o coloque na região fronteiriça 
transição entre o psiquismo normal e as psicoses funcionais”. RT 495/304 – 
TJSP – Ap. Crim. – Relator Des. Adriano Marrey. 
 
“A personalidade psicopática se revela pelas perturbações da conduta 
e não como enfermidade psíquica. Destarte, embora não enfermo mental, é o 
indivíduo portador de anomalia psíquica, que se manifestou quando do seu 
procedimento violento, ao cometer o crime, justificando, de um lado, a redução 
da pena, dada a sua semi-responsabilidade; e de outro, a imposição, por 
imperativo legal, da medida de segurança”. RT 442/412 – TJSP – Rev. Crim. – 
Relator Des. Adriano Marrey. 
 
Semi-imputabilidade – Réu com perturbação de saúde mental – 
Ocorrência – Redução obrigatória da pena – Inteligência do parágrafo único do 
artigo 26 do Código Penal – Pedido deferido na espécie. (Revisão Criminal n. 
221.301-3 – São Vicente – 3º Grupo de Câmaras Criminais – Relator: Djalma 
Lofrano – 06.11.97 – V.U.). 
 
“A diminuição da pena, prevista neste parágrafo, é obrigatória e não 
facultativa (STJ,Resp 10.476, DJU 23.9.91, p. 13090; TJSP, RJTJSP 103;453; 
contra: STJ, RT 655/366).” 
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“A redução da pena pode ser aplicada de acordo com o vulto da 
deficiência mental do réu (TJSP, mv, RT 599/312), ou, ainda, em função da 
gravidade do fato e da capacidade de delinquir demonstrada (TJSP, RT 
645/266). Se o juiz apenas a diminui de um e não de dois terços, fica obrigado a 
motivar essa decisão (TACrSP, Julgados 67/56).” 
 
 
Medida de Segurança – Internação em Hospital Psiquiátrico – 
Cumprimento na própria cadeia pública local, por falta de vaga em 
estabelecimento adequado – Inadmissibilidade – Constrangimento ilegal 
configurado – Concessão de “Habeas Corpus” – Liberdade condicionada a 
tratamento em ambulatório. 
 
Ementa da Redação: O Estado só poderá exigir o cumprimento de 
medida de segurança de internação (detentiva, portanto), se estiver aparelhado 
para tanto. A imprevidência do Estado-Administração, não justifica o 
desrespeito ao direito individual, pois, além de ilegal, não legítima a finalidade 
de tal instituto. RT 612/303 – HC 41.405-3 – Santos – 4ª C. – j. 4.11.85 – 
Relator. Des. Renato Talll – v. u. 
 
Medida de Segurança – Semi-imputável – Internação em Hospital de 
Custódia e Tratamento Psiquiátrico pelo prazo mínimo de um ano – Redução 
pretendida – Inadmissibilidade – Apelação improvida – Inteligência e aplicação 
dos arts. 26 parágrafo único, 61, II, “e”, 97, § 1º, e 98 do Código Penal. 
 
Ementa da Redação: A medida de segurança imposta a acusado com 
responsabilidade diminuída é executada, em princípio, por tempo 
indeterminado, fixado apenas o prazo mínimo. Perdurará enquanto não for 
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averiguada, mediante perícia médica, a cessação de periculosidade. RT 612/303 
– Ap. 46.250-3 – 1ª C. – j. 1.9.86 – Relator. Des. Jarbas Mazzoni. 
 
Medida de Segurança – Inaplicabilidade do prazo máximo de 30 anos 
para o cumprimento de pena previsto constitucionalmente – Internação que pode 
prolongar-se indefinidamente se não constatada a cessação da periculosidade do 
agente. 
 
Ementa da Redação: O prazo máximo de 30 anos para o cumprimento 
de pena prevista constitucionalmente não se aplica à medida de segurança, pois 
a internação pode prolongar-se indefinidamente se não constatada a cessação de 
periculosidade do agente. Ag em Execução Penal 260.868-3/9 – 2ª Câm. – j. 
09.11.1998 – rel. Des. Egydio de Carvalho. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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BIBLIOGRAFIA 
 
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MIRABETE, Júlio Fabrini. Manual de direito penal. 6. ed. São Paulo: Atlas, 
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NOGUEIRA, Ataliba. 1942 v. 01 Conferência na Faculdade de Direito de São 
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NORONHA, E. Magalhães. Direito penal. 33. ed. São Paulo: Saraiva, 1998, v.1. 
 
NORONHA, E. Magalhães. Direito Penal : Introdução e parte geral. v. 01. São 
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SOLER, Exposiciòn y critica del estado peligroso. 2. ed. Buenos Aires: s.ed., 
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VASCONCELOS, Gerardo. Lições de medicina legal. Rio de Janeiro - São 
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Revista Superinteressante – edição de abril de 2002 
 
Revista Isto é Gente – edição de setembro de 2002 
 
<http://www.psiqweb.med.br/forense/crime.html> Acesso em 15.05.2002. 
 
<http://www.doencasmental.hpg.com.br> Acesso em 15.05.2002. 
 
 
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___________________________________________________________________________________ANEXOS 
A – LAUDO MÉDICO 
JUÍZO DE DIREITO DA ggg VARA DO JÚRI 
PROCESSO CRIME N.º dddd/ff 
INCIDENTE DE INSANIDADE MENTAL 
RÉU : F. DE A. P. 
 
Os abaixo assinados “H”, “R” peritos nomeados e 
compromissados nos Autos em epígrafe, após a conclusão dos trabalhos 
periciais vem à presença de Vossa Excelência apresentar os resultados à que 
chegaram. 
 
I - IDENTIFICAÇÃO 
 
 “F”, do sexo masculino, branco, nascido aos 29/11/67, 
natural de São José do Rio Preto/SP. Filho de “N” e “M”. Estado civil: solteiro. 
Profissão: moto-boy. Atualmente recolhido à Casa de Custódia e Tratamento “ 
Dr. Arnaldo Amado Ferreira” de Taubaté/SP. Portador da Cédula de Identidade 
RG XX.XXX.XXX SSP/SP. 
 
II – ANAMNESE 
 
 A – Antecedentes Pessoais 
 
 Os informes colhidos indicam não ter havido durante a 
gestação intercorrências dignas de registro. Nasceu de parto normal, a termo, 
hospitalar, sem relato de complicações no período neo-natal. Seu 
desenvolvimento neuropsicomotor registra discreto retardo, tendo começado a 
andar por volta de um ano e seis meses e a aquisição da linguagem falada 
apresentou dificuldades até os seis anos de idade, quando ainda apresentava 
inversão de fonemas. 
 Das doenças próprias da infância foi acometido de sarampo 
e varicela (catapora) que evoluíram para a cura sem intercorrências ou seqüelas. 
 Entre os equivalentes comiciais na infância refere: 
freqüentes sonilóquios, terrores noturnos e pesadelos, negando a ocorrência de 
sonambulismo, epistaxes freqüentes e bruxismo ( ranger dos dentes ). 
Refere um desmaio aos onze anos de vida, cuja descrição oferecida não é 
compatível com crise convulsiva generalizada clássica. Refere ainda, algumas 
quedas acidentais da própria altura e um atropelamento por motocicleta sem que 
se estabelecesse em nenhum dos episódios o diagnóstico de traumatismo crânio-
encefálico. Nega passado mórbido grave e infecções do sistema nervoso central. 
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Nega ter sido acometido por qualquer das doenças sexualmente transmissíveis. 
De passado cirúrgico há o registro de pequena cirurgia em região retro-auricular 
esquerda para retirada de corpo estranho ( lasca de madeira) aos 13/14 
anos, após acidente (queda) enquanto empinava “pipas” sem comprometimento 
de relevo. 
 Nega ter sido submetido a qualquer forma de tratamento 
psiquiátrico e/ou psicológico no passado, seja em regime ambulatorial ou 
hospitalar. Após sua prisão e remoção à Casa de Custódia e Tratamento “Dr. 
Arnaldo Amado Ferreira” de Taubaté está fazendo uso, por prescrição médica, 
de fluoxetina e diazepam ( medicação anti-depressiva e ansiolítica 
respectivamente). 
 Vida escolar : Sua vida escolar iniciou-se aos 07 anos 
prosseguindo até a primeira série do segundo grau sem, no entanto, completá-la. 
Nesse período sofreu várias repetências, um hiato temporal e troca de várias 
instituições de ensino, incluindo nessas curso supletivo. Registra-se em sua vida 
escolar marcada dificuldade de relacionamento, de aprendizagem, além de 
atitudes inadequadas caracterizando razoável grau de indisciplina. 
 Vida laborativa: Começou a trabalhar aos 14 anos de 
idade. Durante toda sua vida laboral ocupou diversas funções em variadas 
empresas sem, no entanto, conseguir fixar-se em nenhuma delas por tempo 
superior a um ano e meio. Além da inconstância em seus empregos registra-se 
dificuldade em adaptar-se às normas de trabalho, demissões por indisciplina ou 
voluntárias sob alegação de não antever perspectivas de ascensão profissional. O 
maior período de trabalho registrado foi em seu último emprego quando 
trabalhava como moto-boy. Em duas oportunidades morou no seu ambiente de 
trabalho em razão de conflitos familiares que tornava a convivência no seio 
familiar desarmônica. Merece registro dentro de sua vida laborativa que, em 
função de sua reconhecida habilidade como patinador, ter tido oportunidade de 
auferir rendimentos em trabalhos esporádicos como instrutor em pistas de 
patinação, demonstrações, assistência técnica em manutenção de pistas e 
comercialização de patins, em várias cidades do interior de São Paulo. 
Registre-se ainda que a atividade de patinação, a par de ser fonte de 
rendimentos, foi em grande parte de sua vida, a atividade que lhe proporcionava 
maior prazer sendo a única ocupação de maior constância onde vislumbrava a 
perspectiva de notoriedade e ascensão social. 
 Vida militar: Durante quase dois anos serviu o Exército 
Brasileiro no 39.º Batalhão de Infantaria Motorizada sediado em Quitaúna - 
Osasco/SP. No primeiro ano cumprindo obrigação constitucional e no segundo 
como soldado engajado por opção e visando prosseguir na carreira militar como 
cabo. Durante esse período sofreu mais de duas dezenas de sanções disciplinares 
motivadas desde a má apresentação pessoal até embriaguez dentro das 
instalações militares chegando a importunar a esposa de um superior. Conseguiu 
permanecer todo esse tempo no Exército em razão de ocupar a função de 
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“rancheiro” o que lhe permitia usufruir e propiciar regalias ( fornecer porções 
alimentares extras e diferenciadas aos seus pares e superiores – sic.). Tudo isso 
evitou sua expulsão, substituída pela recomendação de solicitar voluntariamente 
sua baixa. 
 Vida afetiva: A pesquisa dos dados de anamnese 
revelaram que o periciando não faz referência à amizades duradouras, 
engajamento em grupos sociais seja no âmbito profissional, religioso, esportivo 
ou outros. Mesmo sua vida familiar é descrita sem que vínculos mais estreitos 
tenham sido estabelecidos e relatados, excetuando-se uma maior aproximação 
com sua avó materna com quem conviveu nos seus primeiros anos de vida. Não 
estabeleceu ao longo de sua vida relações afetivas significativas, incluindo nelas 
um maior relacionamento com seu único filho. 
 Vida sexual: Relata precoce experiência sexual 
traumática, quando aos sete anos de idade teria sido molestado por tia materna 
que lhe obrigara a manusear sua genitália enquanto lhe induzia a que 
sugasse suas mamas. Outra experiência traumática relatada teria sido constantes 
tentativas de coito anal praticadas por um adulto que supõe-se ser um tio 
materno, sob a perspectiva de gratificação através de doces e balas. Merece 
registro que a autoria deste atentado ao pudor, violento por presunção, não ter 
sido satisfatoriamente estabelecida. Embora faça questão de afirmar que nunca 
praticou ou deixou que com ele se praticasse coito anal com homens, práticas 
homossexuais são relatadas ao longo de sua vida, consistindo basicamente em 
felação na forma passiva. As práticas acima relatadas foram inclusive motivo de 
obtenção benefícios e regalias. Durante cerca de um ano satisfez seu 
empregador, diariamente, ao lhe permitir praticar felação em troca de moradia, 
presentes e favores. 
 As relações heterossexuais são permanentemente 
descritas como dificultosas, insatisfatórias, raramente completas, alegando para 
estes insucessos dificuldade de penetração em função de fimose. Esta alegação 
não foi confirmada através de exame especializado e que faz parte deste 
processo. 
 A curta vida conjugal é caracterizada por escassas 
cópulas completas, segundo sua descrição, mas suficiente para a geração de seu 
único filho. A vida conjugal acima descrita se estabeleceu de maneira informal 
não havendo noivado ou mesmo casamento. 
 Em que pese as dificuldades de relacionamentoheterossexual acima 
citadas faz questão de asseverar para estes peritos ter sido sempre indivíduo 
namorador, conquistador de sucesso e, com não disfarçada vaidade, ser 
conhecido por muito tempo como “Zé Galinha”. 
 Hábitos de vida: É tabagista compulsivo. Relata o 
uso social de bebidas alcoólicas, sendo a embriaguez completa episódio raro em 
sua vida. Nega o uso de drogas psicoativas de uso ilícito ou lícito em qualquer 
época de sua vida. Refere uso de substâncias anabolizantes durante curto 
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período. 
 
B – Antecedentes familiares 
 
 É o segundo filho de uma prole de três, todos do 
sexo masculino. Seus irmãos estão vivos e gozando de saúde. Um de seus 
irmãos já teve envolvimento com a Justiça: acusado de receptação e furto. Na 
constelação familiar são descritas patologias psiquiátricas as mais diversas entre 
as quais podemos citar casos de: farmacodependência ( tio materno usuário de 
drogas injetáveis no passado); surtos de natureza psicótica e de 
características esquizofreniformes ( tios maternos, tia e prima paternas); 
alcoolismo ( avô materno e paterno); epilepsia ( primas paternas e prima 
materna ) e oligofrenia ( prima materna seria “retardada”). 
 Merece particular consideração o fato de que o 
avô materno seria uma pessoa extremamente violenta sendo-lhe imputado várias 
agressões a familiares, inclusive uma tentativa de homicídio à foice contra a 
própria esposa, e vários homicídios não devidamente esclarecidos. Seu avô 
paterno era alcoólatra tendo falecido com quadro de abstinência alcoólica, após 
várias internações psiquiátricas. ( Os elementos deste item foram obtidos através 
dos elementos constantes do Parecer Psicológico e colhidos pela Dra. “C”, uma 
vez que em duas oportunidades os pais do periciando não compareceram às 
entrevistas agendadas) 
 
 
III – HISTÓRICO 
 
 Trata o presente de Laudo para instruir Incidente de 
Insanidade Mental, por restarem dúvidas quanto a higidez mental do acusado. 
 
Denúncia 
 
 O Ministério Público denunciou o Sr. “F” como 
incurso no artigo 121 § 2.º, incisos I , III ( quarta e quinta figuras ) e IV, 
artigo 214, artigo 212 e artigo 211 combinados com o artigo 69, todos do 
Código Penal, por em horário incerto, entre as 15h30min do dia 03/07/98 e 
13:00 horas do dia 04/07/98 ter matado “S” por motivo torpe, meio cruel e 
agindo com dissimulação, precedidos da prática de atos libidinosos e seguidos 
de vilipêndio e ocultação do cadáver. 
 
Elementos Colhidos nos Autos 
 
 
 1 – A análise dos depoimentos prestados pelas vítimas e pela confissão do 
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examinado permite a estes peritos estabelecer a morfologia delitiva ou modus 
operandi do examinado: 
 
 A) Seleção da possível vítima em locais públicos ( “ caçando 
como um predador” fls.154 ) 
 B) Abordagem verbal através da qual conseguia convencer 
as vítimas, sob promessa de dinheiro e fama, a serem fotografadas para 
comerciais de cosméticos ou participarem de um acampamento próximo ao 
Zoológico. ( apenas uma vítima refere o emprego de arma para intimidação ) 
 C) Entrada no Parque do Estado quando, livre da 
possibilidade de ser surpreendido por alguém “transformava-se” e passava a 
agredir física e verbalmente as vítimas, dando início à pratica de atos libidinosos 
consistentes em mordidas no corpo das vítimas, coito anal e oral e conjunção 
carnal mediante violência, todos com crueldade e sofrimento desnecessário 
infringido às vítimas. 
 D) Morte por asfixia mecânica ( estrangulamento ou 
esganadura) ou liberação da vítima. 
 E) Nos casos de morte vilipêndio e ocultação do cadáver. 
 
2 – Em relação à vítima objeto do presente incidente destacamos de seu 
interrogatório no DHPP às fls. 149/156: 
 
 “ .... acordou sentindo-se mal, visto que tinha o 
pressentimento que seu lado maléfico iria aflorar naquele dia, pois acordou 
transpirando bastante e ofegante, que significava que algo tomaria seu ser e 
fatalmente coisa ruim aconteceria........que quando se dirigia à Paulista na 
verdade seu lado ruim já o estava dominando, vez que tinha certeza que 
encontraria muitas pessoas ali e, dentre elas, uma mulher a qual seria 
abordada........... .tomado completamente pelo seu lado ruim não conseguia mais 
conter seus impulsos violentos....que “S” deve ter percebido a transformação que 
o interrogando sofria, sendo 
que nitidamente percebeu que “S” estava aterrorizada, o que causou grande 
prazer ao Interrogando...... que naquele momento, o Interrogando não se 
importava nem um pouco com o sofrimento de “S”, porém, somente naquele 
momento em que parou de estrangulá-la que sentiu um pouco de compaixão, no 
entanto, era algo muito fraco... acha importantíssima a manutenção de sua 
custódia, pois se permanecer a qualquer tempo em liberdade, fatalmente voltará 
a matar, pois sente seu lado negro crescer e crescer....que no dia seguinte após 
tê-la matado, retornou e acariciou bem como abraçou tal corpo..” 
 No Interrogatório Judicial de fls.161/209 não se apurou 
grandes mudanças em seu discurso, apenas cita que: “ ... o meu nervoso que eu 
tinha, quando eu acordava transpirando, suando, desesperado como se fosse um 
animal querendo sair da jaula.....J: esses ataques não lhe impedem de lembrar 
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das coisas? D: Não senhor.” 
 
Versão do acusado aos peritos 
 
 Nada acrescentou em relação às versões dadas nos 
interrogatórios. Não sente arrependimento ou remorso pelos atos que praticou. 
Repete ser vítima de “dominação pelo seu lado ruim”. 
 
IV – EXAME NEUROLÓGICO 
 
 Vide Parecer Neurológico em anexo realizado pelo Dr. 
Flávio Roberto Huck – Médico Neurologista do Instituto de Psiquiatria do 
Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. 
 
V – EXAMES COMPLEMENTARES 
 
A - Tomografia Computadorizada de Crânio realizada em 17/09/98 no Hospital 
Santa Isabel de Clínicas de Taubaté cuja conclusão feita pelo Dr. MARCO 
ANTONIO TAMBELINI foi: “ EXAME TOMOGRÁFICO 
COMPUTADORIZADO DE CRÂNIO DE ASPECTO NORMAL.” Vide anexo 
1. 
 
B - Exame Eletroencefalográfico realizado em 17/09/98 no Hospital Santa 
Isabel de Clínicas de Taubaté sob n.º 36.667 cuja conclusão feita pela Dra. 
MAGALI TAINO SCHMIDT foi: “ ELETROENCEFALOGRAMA DENTRO 
DOS LIMITES DA NORMALIDADE.” Vide anexo 2. 
 
C) - Exame de Ressonância Magnética Nuclear de Crânio com Contraste 
realizado em 26/09/98 no Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da 
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo sob n.º 98-36804 cuja 
conclusão feita pela Dra. CLÁUDIA DA COSTA LEITE foi: “ LEVE 
ASSIMETRIA DOS CORNOS TEMPORAIS DOS VENTRÍCULOS 
LATERAIS E FISSURAS CORÓIDEIAS, MAIOR A DIREITA.” Vide anexo 
3. 
 
VI – EXAMES PSICOLÓGICOS 
 
 Parecer Psicológico realizado pela Dra. CANDIDA 
HELENA PIRES DE CAMARGO – Diretora do Serviço de Psicologia do 
Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da 
Universidade de São Paulo realizados nos dias 04,09 e 28 de setembro nas 
dependências da Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, cuja conclusão foi: 
 “ Os dados de história,de exames complementares por 
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imagem, psicológicos e neuropsicológicos mostrando: 
 “ história de desenvolvimento neuropsicomotor sugestivo de 
Transtorno Específico de Desenvolvimento, de linguagem e visuoespacial, mais 
possível Déficit de Atenção com Hiperatividade, substanciando os déficits de 
linguagem, visuoespaciais e de atenção encontrados. 
 “ exame por Ressonância Magnética Nuclear sem sinais 
lesionais e com discreta assimetria dos lobos temporais, achado este presente 
com alguma freqüência nos Transtornos de Desenvolvimento tais como de 
linguagem, dislexia e outros, mas não passíveis de fornecer relação causal. 
 “ falhas de julgamento, não atribuíveis à déficit de 
inteligência, abstração, privação cultural ou ambiental, mas passíveis de serem 
atribuídas às falhas mais profundas no desenvolvimento afetivo, 
comprometendo tanto a apreensão empática nas relações, como o contexto 
emocional apropriado, ou ainda, a apreensão e introjeção dos valores que regem 
o comportamento humano e as relações sociais. 
 “ testes de personalidade mostrando desvios importantes na 
esfera do temperamento, caráter e dinâmica psicológica – desordens do 
desenvolvimento afetivo-social, 
compatíveis com Transtorno de Personalidade Anti - social. (grifos nossos). 
 Estes achados sugerem, portanto, que o periciando apresenta 
a capacidade de elaboração intelectual preservada, permitindo o entendimento 
normal de seus atos, porém considerando os desvios estruturais de personalidade 
abordados tem comprometida, de modo parcial, a capacidade de 
autodeterminação. Entendemos que a somatória destes fatores com o déficit de 
julgamento apresentado, impede a possibilidade de vir a entender e introjetar 
mudanças internas a partir de tratamentos/abordagens sócio-reeducativas.” ( 
grifos nossos ) Vide anexo 4. 
 
VII – EXAME PSÍQUICO 
 
 O periciando foi entrevistado nas dependências da Casa 
de Custódia e Tratamento “ Dr. Arnaldo Amado Ferreira” de Taubaté/SP. 
Apresentou-se para exame trajando calça cáqui, camisa de malha de algodão e 
sandálias pretas, uniforme da instituição. Higiene pessoal bem cuidada, barba 
feita e cabelos penteados. Fácies atípica, mímica adequada às condições de 
exame. Estabelece bom contato interpessoal com os examinadores. Responde ao 
solicitado de bom grado, não se eximindo a nenhuma de nossas indagações. Está 
lúcido sob o aspecto neurológico. Orientado quanto a si, meio e circunstância. 
Durante todo o exame não foram detectadas alterações da senso-percepção ( 
visuais, auditivas, cenestésicas entre outras ). Atenção espontânea e provocada 
são normais tanto no que diz respeito à vigilância e tenacidade. O seu 
pensamento, embora minucioso e detalhista, não apresenta alterações marcantes 
quanto ao seu curso, forma e conteúdo. Não foram constatadas idéias delirantes. 
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A avaliação empírica de sua inteligência a coloca dentro dos padrões da 
normalidade compatível com o grau de instrução e meio sócio-cultural de onde 
provem. Humor estável, adequado à situação que vivencia. Memórias de fixação 
e evocação preservadas. Denota frieza de ânimo e sua afetividade mostra-se 
indiferente mesmo quando aborda os crimes que cometeu. Capacidade crítica e 
pragmatismo preservados. 
 
VIII – DISCUSSÃO 
 
 A – A CAPACIDADE DE IMPUTAÇÃO 
 
 A finalidade do presente exame consiste em 
determinar a capacidade de imputação do examinado à época do cometimento 
do delito de que trata o presente processo. 
 Imputar uma ação a um indivíduo significa 
estabelecer entre os dois termos – fato e indivíduo – uma relação de causa para 
efeito. É atribuir a alguém como causa uma ação como efeito A 
imputabilidade, do ponto de vista jurídico, verifica-se sempre que o indivíduo dá 
vida a uma ação lesiva à lei. 
 Segundo Aníbal Bruno: “ ... a posição do agente 
perante a lei penal se define, então, nos três momentos: imputabilidade, 
culpabilidade e responsabilidade penal. Imputabilidade que é a capacidade de 
entender e de querer; culpabilidade que é aquele vínculo psíquico para prender o 
agente, imputável ao fato, como seu autor. E responsabilidade, que é o dever 
jurídico que incumbe ao imputável, culpado de determinado fato punível, de 
responder por ele perante a ordem do Direito.” Estamos, portanto, no 
primeiro momento da posição do agente perante a lei penal, onde a 
imputabilidade é um pressuposto que conduz à responsabilidade penal. 
Em nossa legislação como visto acima, para que um indivíduo tenha conservada 
sua capacidade de imputação, é necessário que, à época do fato delituoso, tenha 
preservada sua capacidade de entendimento ( inteligência) e de determinação 
(vontade) do caráter delituoso do fato. Segundo a doutrina adotada na Exposição 
de Motivos do Código Penal, o ato criminoso compreende dois momentos: 
a) um momento intelectual (apreciação da criminalidade do fato) e um 
momento volitivo ( a capacidade de determinar-se ). 
 Segundo Heber Soares Vargas em sua obra “Manual de Psiquiatria 
Forense” lemos à página 46 : “ a) entender – é a capacidade normal de 
apreensão intelectual das coisas, de que está dotado o homus medius, capaz de 
ter consciência do certo e do errado; b) determinar-se- é a espontaneidade na 
inclinação ou tendência do sujeito que atua para, entre diversas opções, escolher 
aquela que o levará ao fim previsível, previsto e desejado.” 
 
 Os achados periciais que levam a um diagnóstico psiquiátrico deverão 
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enquadrar-se numa das quatro figuras jurídicas previstas no Código Penal, a 
saber: 
 
 1 – Doença Mental. 
 2 - Desenvolvimento mental incompleto. 
 3 - Desenvolvimento mental retardado. 
 4 – Perturbação da saúde mental. 
 
 De acordo com o grau de comprometimento que a patologia 
apurada causar no que chamamos entendimento ( razão ) e determinação ( 
vontade ) do examinado será indicado seu grau de imputação jurídica . 
 Três são as possibilidades de gradação da imputabilidade 
jurídica: 
 
Inimputabilidade – Quando o agente, à época dos fatos, for totalmente incapaz 
de entender e/ou determinar-se de acordo com o entendimento do caráter 
delituoso de sua ação. 
 
Semi-imputabilidade – Quando o agente, à época dos fatos, for parcialmente 
incapaz de entender e/ou determinar-se de acordo com o entendimento do 
caráter delituoso de sua ação. 
 
Imputabilidade – quando o agente, à época dos fatos, for totalmente capaz de 
entender e de determinar-se de acordo com o entendimento do caráter delituoso 
de sua ação. 
 
 Cumpre assinalar que o Brasil é um dos raros países do 
mundo que contempla o critério da semi-imputabilidade o que implica 
necessariamente numa circunstância atenuante que leva consigo a obrigação de 
uma sanção penal mais breve ou a aplicação de medida de segurança. Tais 
indivíduos, o mais das vezes, são portadores de uma periculosidade maior que a 
dos criminosos julgados como normais. Na maioria dos países são previstas 
apenas a inimputabilidade e a imputabilidade, exatamente porque a semi-
imputabilidade ocorre quase sempre nos casos em que a periculosidade do 
agente é alta e os recursos terapêuticos, disponíveis na atualidade, são 
praticamente ineficazes. 
 Por fim, para que haja comprometimento totalou parcial 
da capacidade de imputação do agente é preciso que haja uma relação de causa e 
efeito entre a patologia mental e o crime praticado, ou seja, o delito tem que ser 
efeito da doença para que se altere o grau da imputabilidade. 
 
B – O CONCEITO DE NORMALIDADE EM PSIQUIATRIA 
 Deixando de lado discussões acadêmicas que não caberiam 
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num laudo de sanidade mental e, baseado em critérios definidos pela Escola 
Psiquiátrica do Prof. Dr. Aníbal Silveira, a normalidade “ .. é um conceito 
abstrato que subentende o comportamento em várias circunstâncias, em várias 
épocas da vida de um indivíduo, em várias fases desta mesma época e que 
corresponde de certa maneira à realidade exterior. Disto advém que de certa 
forma é a realidade exterior que delimita e define o normal, assim como a 
maneira e o modo que o indivíduo se utiliza dos estímulos da realidade e 
elabora os conceitos com lógica para conseguir uma adaptação ativa e útil entre 
coisas, pessoa e meio.” 
 Mira y López, numa análise psicossocial do normal assim o 
conceituou: “ compreenderia o normal a uma seqüência de atos pessoais que, 
desde que se tomem 
em consideração as circunstâncias que os motivaram e o ambiente em que se 
desenrolaram, corresponderiam ao previsto para o grupo social em que se 
produziu, como também seria entendido e aceito, sem esforço, por este mesmo 
grupo.” 
 Nério Rojas assim conceitua normalidade: “ dentro das 
variações individuais e das oscilações fisiológicas da mesma pessoa, homem 
mentalmente normal é aquele que aprecia com exatidão as formas acessíveis 
da realidade para atuar com inteligência no meio, dentro de uma adaptação 
ativa, lógica e útil entre os fatos, coisas e pessoas.” 
 Em Psiquiatria a noção de normal e anormal, pela sua 
complexidade, torna difícil a distinção entre estas noções, exatamente pelo fato 
de não haver uma nítida linha demarcatória entre as duas. 
 
C – O CONCEITO DE PERSONALIDADE E SEUS TRANTORNOS. 
 
 Seguindo a orientação doutrinária do Prof. Dr. Aníbal 
Silveira a estrutura da personalidade é definida como “ o conjunto de funções 
subjetivas agrupadas fundamentalmente em três setores: afetividade, conação e 
inteligência. Estas funções psíquicas resultam do funcionamento cerebral, são 
peculiares à espécie humana e continuamente regem em harmonia as disposições 
do indivíduo e as suas relações com o ambiente físico e social”. 
 Da afetividade parte o impulso a todos os nossos 
pensamentos e atos, sendo assim o princípio de toda atividade cerebral; a 
inteligência institui os meios que melhor convém à atividade ou execução ( 
conação ). 
Para Eysenck a personalidade é a soma total dos padrões de 
comportamento do organismo, potenciais e manifestos, determinados pela 
hereditariedade e pelo meio; tem seu início e desenvolvimento através da 
interação dos quatro principais setores em que se organizam os padrões de 
comportamento: o setor cognitivo (inteligência), setor conativo (caráter), setor 
afetivo (temperamento) e setor somático ( constituição ) 
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 O conceito do que no passado se denominava personalidade 
psicopática e hoje transtornos de personalidade, varia discretamente de autor 
para autor, mas a grande maioria considera tal grupo mórbido como resultante 
de desarmonia na integração da personalidade, não como distúrbio dinâmico, 
mas como desequilíbrio que decorre da própria estrutura da personalidade. 
 Kurt Schneider foi um autor cujas idéias sobre personalidades 
psicopáticas mais influenciaram os psiquiatras deste século. Na sua acepção: “... 
das personalidades anormais distinguimos como personalidades psicopáticas 
aquelas que sofrem com sua anormalidade ou que assim fazem sofrer a 
sociedade.” 
Aníbal Silveira conceitua o transtorno de personalidade ( personalidade 
psicopática) como “ consistindo em desvio de conjunto nas disposições 
subjetivas das esferas afetivas e conativas”. 
 Mira y López adota o conceito clássico e genérico: “ Trata-se 
de uma personalidade mal estruturada, predisposta à desarmonia intrapsiquica, 
que tem menor capacidade que a maioria dos membros de sua idade, sexo e 
cultura para adaptar-se às exigências da vida social”. 
 Diversos autores ao longo do tempo procuraram estabelecer 
características ou critérios comuns as personalidades psicopáticas. Comparados 
estes diversos quadros de critérios temos que em todos eles constam os critérios 
abaixo assinalados. 
 Dentre as relações de características próprias dos transtornos 
de personalidade organizadas por Hervey Cleckey, Gray e Hutchson e McCord e 
Mccord encontramos em comum: 
 
1 - Incapacidade de aprender pela experiência. 
2 - Egocentrismo patológico. 
3 - Impulsividade. 
4 - Incapacidade de sentir culpa. 
5 - Incapacidade ou pobreza no estabelecimento de relações afetivas. 
6 - Conduta anti-social inadequadamente motivada. 
 
 
O Código Internacional de Doenças da O.M.S. em sua décima revisão descreve 
como Transtornos específicos da personalidade ( F60) : “ Trata-se de distúrbios 
graves da constituição caracterológica e das tendências comportamentais de um 
indivíduo, não diretamente imputáveis à uma doença, lesão ou outra afecção 
cerebral ou a um outro transtorno psiquiátrico. Estes distúrbios compreendem 
habitualmente vários elementos da personalidade, acompanham-se em geral de 
angústia pessoal e desorganização social; aparecem habitualmente durante a 
infância ou a adolescência e persistem de modo duradouro na idade adulta”. 
No sub-item Personalidade dissocial ( F60.2 ) lê-se: 
“ Transtorno de personalidade caracterizado por um desprezo das obrigações 
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sociais, falta de empatia para com os outros. Há um desvio considerável entre o 
comportamento e as normas sociais estabelecidas. O comportamento não é 
facilmente modificado pelas experiências adversas, inclusive pelas punições. 
Existe uma baixa tolerância à frustração e um baixo limiar de descarga da 
agressividade, inclusive da violência. Existe uma tendência a culpar os outros ou 
a fornecer racionalizações plausíveis para explicar um comportamento que leva 
o sujeito a entrar em conflito com a sociedade.” 
 
 D – MEIOS DE QUE DISPÕEM OS PSIQUIATRAS PARA O 
DIAGNÓSTICO DE TRANSTORNO DE PERSONALIDADE 
 
 Para o diagnóstico de transtorno da personalidade – na 
acepção psiquiátrica correta – alguns dos métodos correntes de exame são de 
alcance muito relativo ou mesmo nulo, outros se mostram inúteis, ao passo que 
ainda outros aparecem como indispensáveis. Por se tratar de elementos técnicos 
que se restringem ao âmbito da psiquiatria/psicologia 
os peritos julgam dever enumerá-los como subsídio para a esclarecida decisão 
dos julgadores: 
Exame mental direto – Considerando que nos transtornos de personalidade ( 
personalidades psicopáticas ) não sofre alteração o “juízo da realidade’, isto é, 
não se apreciam conceitos delirantes, o exame psíquico direto nada revela que 
autorize firmar ou excluir o diagnóstico de transtorno de personalidade. 
Portanto não tem valor qualquer conclusão baseada somente em semelhante 
classe de verificação. 
Anamnese subjetiva ou seja, o relato que sobre o próprio curso da vida faz o 
paciente. Como é bem de ver-se,tal reconstituição oferece valor quase nulo, 
pois varia em função da sinceridade do examinado. Somente apresentará alguma 
valia se obtida de modo indireto, não intencional 
Exames clínicos subsidiários - Os exames radiológicos como a tomografia 
computadorizada de crânio e o exame de ressonância magnética do crânio com 
contraste, poderiam revelar ou afastar a hipótese de ocorrência de encefalite na 
infância ( o que caracterizaria as 
denominadas pseudo-psicopatias ou “encefalopatia minor”) ou outras patologias 
como, por exemplo, seqüelas de traumatismos cranio -encefálicos ou 
processos expansivos cerebrais. A pesquisa eletroencefalográfica poderia 
colocar a descoberto componentes heredológicos da série epileptóide. Todavia, 
distúrbios bio-elétricos podem faltar mesmo em casos de epilepsia manifesta, 
sem que isto invalide o diagnóstico clínico. Alguns autores relatam que, nos 
transtornos de personalidade, é freqüente a ocorrência de “ondas lentas” do tipo 
“theta” como dado importante no traçado eletroencefalográfico 
Anamnese objetiva – Se a anamnese subjetiva depende da sinceridade do 
examinado, a anamnese objetiva refletirá o comportamento deste segundo o 
apreciam informantes de vária intenção, de variável capacidade de observação e 
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situados em condições diversas de apreciação. No presente caso dispõe-se dos 
elementos colhidos nos autos e dados fornecidos pelos familiares do periciando 
para tal apreciação. 
Anamnese heredológica – É o levantamento da ocorrência de patologias 
psiquiátricas nos ascendentes e colaterais diretos, cuja transmissibilidade 
genética é reconhecida pela ciência. 
Provas Psicológicas – Diverso é o valor das provas psicológicas quando se visa 
o diagnóstico de transtornos de personalidade. Quando criteriosamente 
escolhidas as técnicas denominadas “ de projeção” e o exame neuropsicológico 
permitem avaliar de modo objetivo as condições reais da personalidade em 
estudo. Dentre elas, a Prova de Rorschach, é considerada indispensável em 
qualquer estudo sério da personalidade. 
 
IX – CONCLUSÕES 
 
 Do acima exposto, observado e apreendido, ancorados 
também, nos exames complementares, na avaliação psicológica a que se 
submeteu o periciando e, particularmente, na análise de sua curva vital 
constatamos: a) sua precoce e marcada dificuldade de adaptação às normas e 
regras sociais ( vida escolar, vida militar, vida profissional); b) sua incapacidade 
de estabelecer relações afetivas profundas e duradouras; c) seu acentuado 
egocentrismo; d) a consciência de que seus atos são censuráveis e puníveis, 
motivo pelo qual procura ocultar e dissimular seus impulsos até quando, a 
oportunidade se torna propícia e o mal e a crueldade desatam sem nenhuma 
repressão e) a absoluta falta de arrependimento ou o sentimento de culpa pelo 
que cometeu. 
 Diante do elencado acima um diagnóstico se impõe, sem 
margem a dúvida. Estamos frente à uma personalidade a quem Kurt Schneider 
denominou de “frio de alma”, Kraepelin de “desalmados” e Ferri de “loucura 
moral”. Presentemente essas personalidades estão descritas na décima revisão da 
Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde ( CID 
– 10 ) dentre os Transtornos Específicos da Personalidade, sub-tipo 
Personalidade Anti-Social (F60.2). 
 Este tipo de patologia enquadra-se, dentro do critério 
médico legal, como sendo uma perturbação da saúde mental, colocando seu 
portador nas condições previstas no parágrafo único do artigo 26 do Código 
Penal. É semi-imputável por comprometimento da plena capacidade de 
determinação. 
 Este peritos aproveitam a oportunidade para, a título de 
subsídio aos eminentes julgadores e com a devida vênia, esclarecer que o 
tratamento do transtorno anti-social de personalidade, como o caso em tela é, 
segundo a visão predominante dos tratadistas que desse assunto se ocuparam, o 
que se revelou mais ineficaz, pois se pode afirmar que não se dispõe no 
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momento atual de meios terapêuticos para modificar favoravelmente a conduta 
dessas personalidades. A assertiva acima implica necessariamente em 
reconhecer que o prognóstico é desfavorável e, no entender destes peritos, não 
há especial tratamento curativo, o que afastaria o previsto no artigo 98 do 
Código Penal. 
 
 
X – RESPOSTAS AOS QUESITOS 
 
 
QUESITOS DA JUSTIÇA PÚBLICA 
 
1 - O réu, por doença mental, era, ao tempo da ação, inteiramente incapaz de 
entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse 
entendimento? 
Resposta: Não. 
2. O réu, por desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da 
ação, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-
se com esse entendimento? 
Resposta: Não. 
3 - O réu, em virtude de perturbação da saúde mental, não possuía, ao tempo 
da ação, plena capacidade de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-
se de acordo com esse entendimento? 
Resposta: Sim. 
4 - O réu, por desenvolvimento mental incompleto ou retardado, não possuía, 
ao tempo da ação, plena capacidade de entender o caráter ilícito do fato ou de 
determinar-se de acordo com esse entendimento? 
Resposta: Não. 
 5 - Constatada a higidez mental do acusado nos quesitos anteriores, apresentaria 
ele doença mental que tenha sobrevindo à prática delituosa ( artigo 152 do 
Código de Processo Penal) ? 
 Resposta: Não. 
6 - Qual o estado atual do examinando? Necessita ele de trata mento? Qual o 
tratamento indicado? Que espécie de estabelecimento é o indicado para eventual 
internação ou tratamento ambulatorial? 
Resposta: Vide exame psíquico e neurológico. Demais respostas vide item 
conclusões do presente laudo. 
7 - Queiram os senhores peritos aduzir outras informações necessárias ao 
esclarecimento da questão, bem como explicitar se o réu é plenamente imputável 
ou se enquadra no disposto no artigo 26 do Código Penal ou em seu parágrafo 
único. 
Resposta: O réu encontra-se nas condições previstas no parágrafo único do 
artigo 26 do Código Penal. As considerações que estes peritos julgavam 
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pertinentes encontram-se no corpo do Laudo. 
 
 
QUESITOS DA DEFESA 
 
 
1 = O periciando apresenta doença mental, desenvolvimento mental incompleto 
ou retardado, ou perturbação da saúde mental? 
Resposta: Sim, perturbação da saúde mental. 
2 - Caso a resposta seja positiva a qualquer dessas possibilidades, qual o 
diagnóstico a que chegaram os ilustres “experts”? Qual sua classificação na 
décima revisão da Organização Mundial de Saúde para Classificação 
Internacional de Doenças ( CID-10)? 
Resposta: Transtorno Anti-social de Personalidade. F60.2. 
3 - Diante do diagnóstico estabelecido indaga-se se o periciando é: inimputável, 
semi-imputável ou plenamente imputável? 
Resposta: Semi-imputável. 
4 - Frente as respostas fornecidas aos quesitos anteriores, pergunta-se qual o 
tratamento mais indicado e o tipo de regime e de instituição a que deve ser 
conduzido o periciando? 
Resposta: Vide item Conclusões do presente laudo. 
5 - Considerando-se as respostas anteriores, solicita-se aos Senhores peritos 
tecerem considerações a respeito do prognóstico do caso em tela. 
Resposta: Estes peritos entendem ter sido suficientemente claros no corpo do 
Laudo no que diz respeitoao prognóstico. Vide item Conclusões do Laudo. 
 
 
 
São Paulo, 13 outubro de 1998. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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B – ENTREVISTA COM O “MANÍACO DO PARQUE” 
 
 
Foto: Liane Neves Foto: Edison Vara 
 
Francisco de Assis Pereira: "Eu matei todas. As nove" 
 
— Francisco, você conhece Thayná? 
— Thayná? Thayná... Não conheço. 
— E Elisângela, você conheceu alguma? 
— Não. 
— Selma? 
— Não. Também não. 
— E você fez sexo anal com alguma de suas vítimas? 
— Fiz, com algumas. 
Pausa. Surpresa. O diálogo continua, em ritmo menos frenético: 
Foto: Álbum de 
Família 
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— Você matou algumas daquelas mulheres, Francisco? 
— Matei 
— Quais? 
— Todas. 
— Quantas mulheres você matou? 
— Nove. 
— Você matou Isadora? 
— Matei. Fui eu. 
Francisco demorou frações de segundos para reconhecer que matou Isadora 
Fraenkel, 18 anos, uma bonita garota de classe média paulistana que no dia 10 
de fevereiro saiu de casa para ir à aula de inglês e desapareceu. O silêncio que 
veio depois da confissão durou pelo menos um minuto. 
— Como você matava as moças? 
— Com o cadarço dos sapatos ou com uma cordinha que às vezes eu levava 
na pochete. Eu dava um jeito. 
Outra pausa, alguns pigarros. É o próprio Francisco quem volta a falar. A voz 
sai serena, com um tom de constatação: 
— Nunca contei isso pra ninguém, nem pra minha mãe. Eu tenho um lado 
ruim dentro de mim. É uma coisa feia, perversa, que eu não consigo 
controlar. Tenho pesadelos, sonho com coisas terríveis. Acordo todo suado. 
Tinha noite que não saía de casa porque sabia que na rua ia querer fazer de 
novo, não ia me segurar. Deito e rezo, pra tentar me controlar. 
Era um dos primeiros dias de Francisco de Assis Pereira, 30 anos, no prédio da 
Divisão de Homicídio e Proteção à Pessoa, DHPP, no centro de São Paulo. 
Havia um caos nas três salas da equipe C-Sul que antecedem uma pequena cela 
para onde Francisco é levado antes dos depoimentos. Investigadores, escrivães, 
detetives e advogados transitavam por ali. Funcionários de outras equipes de vez 
em quando aproveitavam para dar uma espiada em Francisco e sair com um 
veredicto pessoal. Em meio a esse movimento, Francisco estava confuso. Na 
presença de três pessoas, confessou ser o maníaco do Parque do Estado, o 
suspeito mais procurado pela polícia brasileira. O assassino não de oito 
mulheres, como acredita a polícia, mas de nove. O homem que estuprou e 
enforcou suas vítimas e depois largou seus corpos em clareiras de uma das 
maiores áreas verdes de São Paulo. A confissão foi ouvida por VEJA. Apesar do 
clima dramático em que foi feito, era um relato informal. 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
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Pouco tempo depois, no primeiro depoimento oficial que deu ao delegado Sérgio 
Alves, responsável pelo caso, Francisco estava mais calmo. O interrogatório 
durou sete horas. Durante todo esse tempo, ele negou qualquer relação com os 
oito assassinatos e cinco estupros dos quais é suspeito. A opção de Francisco 
tinha uma lógica. No caso de uma confissão, ele poderia ser considerado um 
psicopata e ficaria trancafiado no Pavilhão Dois do Manicômio Judiciário — o 
inferno na terra — por pelo menos trinta anos. Negando, pode ser condenado 
por apenas um homicídio e pegar uma pena menor. 
 
"Essas mulheres não tiveram 
chance de se defender. 
Foram acuadas como uma 
caça. Isso dá muita raiva" 
Jane Belucci, perita da Polícia 
Civil 
Foto: Frederic Jean 
No momento de sua confissão extra-oficial, Francisco ainda não sabia das firulas 
jurídicas que envolvem o seu inquérito. Com voz pausada, desembestou no 
relato de uma complicada teia de namoradas, traumas e rancores que, segundo 
ele, formaram seu "lado negro". Falou de uma tia, irmã de sua mãe, que o teria 
molestado sexualmente na infância ("por causa dela, tenho fixação em seios"). 
Falou de um ex-patrão, com quem teria um relacionamento homossexual 
("sempre que ele chegava perto, eu virava o rosto"). Falou de uma companheira 
de patinação, Silvia ("uma menina gótica, curtia cemitérios"), que mordera e 
quase lhe arrancara o pênis. E falou que, de fato, sente dores durante as relações 
sexuais, como dizem as mulheres que denunciam ter sido atacadas por ele. 
Depois do relato, o desfecho: "Sou ruim, gente. Ordinário". A conversa durou 
pouco mais de duas horas. Consultada formalmente sobre a confissão, a 
advogada Maria Elisa Munhol, que divide a defesa de Francisco com o sócio 
Ubiratan Alencar, diz o seguinte: "Eu não sou psiquiatra, mas a minha 
experiência indica que o Francisco deve ter o que os especialistas chamam de 
'transtorno de personalidade'. Não descarto a hipótese de ele ter feito essa 
confissão como uma forma de aparecer mais, de se tornar uma grande estrela, de 
virar um grande astro. A confissão que vocês têm em mãos não é digna de 
confiança, nem de crédito" 
Antes mesmo da terça-feira em que foi preso, por três policiais militares, na 
cidade gaúcha de Itaqui, fronteira entre Brasil e Argentina, Francisco já se 
transformara numa espécie de superstar do mal. Na semana passada, ele era 
assunto em todo o país. Preso, em apenas um dia deu três entrevistas coletivas. 
Na última, já no prédio do DHPP, em São Paulo, falou durante quase duas horas. 
Estava ladeado pelo vice-secretário de Segurança Pública do Estado e por dois 
advogados, que o fizeram assinar um papel em branco como procuração e logo 
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depois se afastaram do caso. Jurou inocência, disse que não fugira tão logo o 
retrato falado do "maníaco do parque" começou a ser divulgado, mas que apenas 
fizera uma viagem para participar de um campeonato de patinação. Chegou a 
advertir sobre o perigo de todas as atenções se voltarem sobre ele. "É uma forma 
de deixar o verdadeiro psicopata à solta." Um encontro entre ele e os pais, Maria 
Helena e Nelson Pereira, foi transmitido ao vivo no programa Ratinho Livre e 
alcançou 38 pontos no Ibope. É mesmo possível que Francisco tenha gostado de 
seus dias de Xuxa do crime. Mas sua confissão paralela é rica em detalhes. E 
tem como moldura uma coleção de indícios contra seu autor. 
"Ele era um cara comum,
educado, estudado, com papo
legal. Engana qualquer garota"
João Carlos Dornelles 
Villaverde, 
o pescador que identificou 
Francisco 
 Foto: Edison Vara 
Na quinta-feira 6, Francisco foi indiciado pelo assassinato da balconista Selma 
Ferreira Queiroz, 18 anos. Tecnicamente, as provas contra ele não são das 
melhores. Isso porque o único elo capaz de associá-lo ao homicídio é a carteira 
de identidade da garota, encontrada no vaso sanitário da empresa onde ele 
morava. Como álibi contra essa evidência, Francisco alega que a casa era 
freqüentada por um sem-número de pessoas. A polícia tentou identificar o DNA 
do sêmen encontrado no corpo de Selma. Mas o azar, aliado a uma dose de 
incompetência, estragou a prova. O número de espermatozóides encontrados — 
45 — já era pequeno para um exame conclusivo. Para piorar, os peritos ainda 
usaram a técnica errada na hora de tingir a amostra. A polícia alardeou o fato de 
que pretendia cotejar o formato das mordidas espalhadaspelo cadáver de Selma 
com a arcada dentária do principal acusado: Francisco. De novo, pode ser um 
furo n'água. Existem peritos dizendo que as mordidas foram dadas depois da 
morte de Selma, quando o fluxo sanguíneo já estava interrompido. Nessa 
situação, os tecidos são incapazes de reter o molde dos dentes do assassino. Os 
dois pontos que Francisco tem a seu favor são esses. Contra, há dezenas. Alguns 
dos mais importantes: 
No dia 12 de julho, um domingo, os jornais publicam o primeiro retrato falado 
do maníaco que atacava no Parque do Estado, elaborado por policiais do 97º DP. 
No mesmo dia, a manicure Selma Rodrigues Goes, de 35 anos, afirma ter visto 
uma fumaça saindo de dentro da empresa J.R. Express, na Rua Alcântara 
Machado, 100-C, Brás. O morador do lugar: Francisco de Assis Pereira. 
No dia seguinte, ao chegar a sua empresa, Jorge Alberto Sant'Ana, de 25 anos, 
estranhou a ausência do único funcionário que trabalhava e dormia na empresa. 
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Ele tinha deixado um bilhete sobre a mesa, com um recorte do jornal em que 
havia o retrato falado. Lamentava ter de ir embora, pedia desculpas pela forma 
repentina da partida. "Infelizmente, tem de ser assim." Assinado: Francisco de 
Assis Pereira. 
No mesmo dia, o empresário percebeu que havia algo de errado com o vaso 
sanitário da empresa. Tentou consertar duas vezes, mas não conseguiu. Na 
sexta-feira 24, quebra o encanamento para descobrir a causa do entupimento. 
Encontra um bolo de papéis queimados, misturado aos restos de um churrasco 
feito no final de semana anterior, no cano de saída da privada. Esse bolo é que 
entupira o esgoto. Entre as coisas que o empresário recolheu do cano estava a 
carteira de identidade de Selma Ferreira Queiroz, parcialmente queimada. Selma 
foi uma das mulheres cujo cadáver a polícia encontrou no Parque do Estado. 
 
"Como pai, tenho 
uma 
certeza muito grande 
de que não vou 
encontrar minha filha 
com vida" 
Cláudio Fraenkel, pai 
da estudante Isadora 
Foto: Rogerio 
Assis/Folha Imagem 
Em 22 de julho, a estudante Sara Adriana Ferreira reconhece na polícia a voz do 
homem que, no dia 4 de julho, telefonou para sua casa, na cidade de Cotia, na 
Grande São Paulo, exigindo 1.000 reais pela libertação de sua irmã Selma. A 
identificação foi feita por meio de uma entrevista que o homem havia dado a 
uma rede de televisão em 1994 sobre um grupo de patinadores noturnos. A voz 
era de Francisco de Assis Pereira, segundo a irmã da vítima. 
Alguns dias depois do desaparecimento da estudante Isadora Fraenkel, em 10 de 
fevereiro, dois cheques da garota, um de 200 reais e outro de 50, foram 
compensados na agência Cidade Jardim do Banco Itaú. O pai de Isadora, o físico 
Cláudio Fraenkel, procura a polícia com cópias dos cheques. O de 50 reais 
estava com a assinatura falsa. Durante as investigações, os policiais chegam ao 
suspeito de estelionato, que se apresenta como namorado de Isadora. Cláudio 
Fraenkel, numa nota oficial, negou que a filha estivesse namorando o rapaz e 
acusou-o de ser o principal envolvido no desaparecimento dela. Nome do 
implicado: Francisco de Assis Pereira. 
Durante 23 dias em que esteve foragido, o suspeito de ser o "maníaco do 
parque" passou por várias cidades de três países. Chegou a Itaqui, no Rio 
Grande do Sul, cansado e faminto. Pediu abrigo a pescadores e disse se chamar 
"Pedro". Desconfiados, os pescadores João Carlos Dornelles Villaverde e Nilton 
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Fogaça da Silva, o "Pitoco", resolveram checar os documentos do rapaz. Pedro, 
na verdade, era um nome falso. O nome verdadeiro: Francisco de Assis Pereira. 
Cinco mulheres apresentaram-se à polícia identificando o homem que as havia 
violentado no Parque do Estado. Todas indicaram um rosto: o de Francisco de 
Assis Pereira. 
No mesmo parque, foram encontrados oito cadáveres de mulheres assassinadas. 
Era o mesmo parque em que foi achado o cadáver de Selma. O indiciado pelo 
assassinato de Selma é Francisco de Assis Pereira. 
Entre os moradores da vizinhança pobre do Parque do Estado, um deles tinha 
este nome: Francisco de Assis Pereira. Ao ser preso, ele negou conhecer o 
parque. Mas, segundo depoimentos de amigos dele à polícia, Francisco 
freqüentava o lugar. 
Em 1995, uma moça de 19 anos prestou queixa na delegacia da cidade de São 
José do Rio Preto, no interior paulista, contra um homem que a agarrou numa 
avenida do bairro Cidade Nova e a forçou a entrar num prédio em construção. 
Ela conseguiu escapar. O homem foi detido por constrangimento ilegal, pagou 
80 reais e foi solto por ser primário. O acusado: Francisco de Assis Pereira. 
"Ele apertou meu pescoço.
Disse que era psicopata e já 
havia enterrado muitas 
mulheres ali" 
Sandra Aparecida de Oliveira,
19 anos, uma das mulheres
que dizem ter sido atacadas
no parque por Francisco 
 Foto: Antonio Milena 
Com tantos indícios contra, é estranho, mas Francisco é um boa-praça. Tem o 
rosto sardento como a mãe, Maria Helena, o que lhe dá um ar de garotão. Veste 
roupas joviais. Quando foi preso, estava com uma camisa colorida, de um time 
de hóquei. É o tipo que passa despercebido na rua ou no elevador, mas que, 
quando puxa assunto, atrai simpatias. É conversador, gosta de falar e responde 
atenciosamente às perguntas que lhe são feitas. Desde que sua vida começou a 
ser devassada, são comuns as descrições do Francisco gente fina. É o que dizem 
seus chefes, seus pais, algumas ex-namoradas. "O Francisco é bastante 
carinhoso e brincalhão. O único defeito é que o tempo livre dele é todo para os 
patins", diz a estudante Juliana Prado Fanasca, 16 anos, moradora de Guaraci, 
município a 522 quilômetros de São Paulo, onde vivem os pais de Francisco, e a 
ex-namorada dele. Juliana e Francisco ficaram juntos um mês. "Comigo ele era 
um cara superlegal", conta Ellen Renata Pereira, de 16 anos. Também vizinha 
dos pais de Francisco, Regiane Alves, 20 anos, conheceu o motoboy quando a 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
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família dele se mudou para a Rua Joaquim Rossini, no bairro Cohab 4. "A gente 
batia papo, jogava conversa fora." Segundo a garota, Francisco sempre pareceu 
ser uma pessoa normal, um cara legal. "Não acredito que ele possa ser o 
maníaco." Curiosamente, no entanto, ela diz que deixou de falar com o vizinho 
depois que uma amiga lhe contou que o motoboy teria tentado estuprar uma 
outra garota, em São José do Rio Preto. "Perguntei se ele tinha mesmo feito isso. 
Ele falou que não, mas não acreditei nele." Desde então (ela não tem certeza, 
mas acha que o episódio se passou em 1995), Regiane nunca mais conversou 
com Francisco. 
Até mesmo a simpatia excessiva pode ser usada contra um assassino em série. 
Especialistas do mundo inteiro tentam entender os mecanismos de mentes 
psicopáticas. Obviamente, não há como dissecá-las. Na falta de um manual de 
instruções, estabeleceram-se alguns comportamentos que se repetem com uma 
regularidade impressionante. Mais ainda, que deixam os criminologistas em 
pânico: os assassinos em série aparentam ser os homens mais normais do mundo 
quando não estão tomados pela pulsão destruidora e sádica. Para começar, um 
grande número deles é de hiper-religiosos, o que lhes confere a aparência de 
virtuosos cidadãos. 
Ao ser preso no Rio Grande do Sul, a polícia encontrou entre as coisas de 
Francisco dois papeizinhos comorações, uma para o Padre Cícero, outra para 
São Francisco. Achou ainda um santinho de São Judas Tadeu e um panfleto de 
uma igreja evangélica de Buenos Aires. A entrevista coletiva que ele concedeu 
logo ao chegar a São Paulo esteve repleta de visões de igrejas. Elas pontuaram 
toda a descrição do percurso que Francisco fez, entre as cidades de Alvear, na 
Argentina, e Itaqui, no Rio Grande do Sul. Francisco assistiu a uma missa em 
Itaqui, no domingo, apenas dois dias antes de ser preso. O pescador que 
denunciou a presença de Francisco na cidade, João Carlos Dornelles Villaverde, 
40 anos, disse que, na volta da missa, Francisco contou-lhe que tinha ido à igreja 
rezar e pedir a Deus que o ajudasse. É um traço que vem de longe. Entre as 
lembranças da infância do pequeno "Tim" — o apelido familiar de Francisco —, 
sua mãe, Maria Helena, costuma evocar as vezes em que ele ia dormir com o 
terço nas mãos. "Ele sabia umas rezas que ninguém na família conhecia." 
Um outro traço comum aos assassinos em série é o comportamento social 
aceitável e até admirável. Serial killers, como Jeffrey Dahmer e Marcelo de 
Andrade, eram assim, acima de qualquer suspeita. De novo, o acusado de ser o 
"maníaco do parque" encaixa-se à perfeição nesse modelo. Além das namoradas 
com doces lembranças dele, Francisco era popular no Parque do Ibirapuera, 
onde costumava fazer malabarismos sobre patins ao menos uma vez por semana. 
Craque no esporte, ele pacientemente ensinava aos iniciantes como dar os 
primeiros passos sobre rodas. Quando ia visitar os pais, em Guaraci, as crianças 
costumavam cercá-lo na rua. Era querido e respeitado. 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
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Há outros traços bastante comuns entre os assassinos em série. Um é a 
existência de traumas sexuais na infância. Francisco diz ter sofrido abusos de 
uma tia. Outro é a argúcia que manifestam para realizar os crimes. Eles têm de 
enganar e aperfeiçoam seus métodos vítima após vítima. Observam detalhes, 
corrigem o que está imperfeito. Situam-se entre dois limites: ou são mais 
inteligentes do que a média, e por isso capazes de planejar minuciosamente, ou 
são menos dotados intelectualmente, e matam como bestas-feras. Após duas 
horas de conversa com Francisco, a perita Jane Pacheco Belucci, 38 anos, da 
Polícia Civil de São Paulo, saiu convencida: "Ele é inteligentíssimo. Tem uma 
fala mansa que convence". 
Convence. Uma de suas vítimas, M.C., de 18 anos, que reconheceu Francisco 
como o estuprador que a dominou no Parque do Estado depois de convidá-la a 
posar para fotos, disse na quinta-feira passada, diante de um batalhão de 
repórteres: "Ele sabe fazer ar de desamparado". Francisco estava com esse ar no 
primeiro encontro com os pais depois de sua prisão. Quando as luzes das 
câmeras de televisão se apagaram, logo em seguida à entrevista coletiva, chorou 
no ombro da mãe e do pai como uma criança. Com as mãos algemadas, passava 
os braços em torno do pescoço deles enquanto dizia que havia pensado muito na 
família nas últimas semanas. Maria Helena perguntou baixinho: 
— Meu filho, você fez essas coisas todas? 
Francisco colocou a cabeça em seu ombro, chorando. 
 
O desejo de aparecer 
 
Maria Elisa: 
Escola Base e Bar 
Bodega, 
preferência por 
causas antipáticas 
Foto: Antonio Milena 
 
Aos 50 anos, a advogada Maria Elisa Munhol, três filhas — 30, 28 e 12 anos —, 
é uma especialista em causas antipáticas. Também é uma vencedora. Foi ela 
quem conseguiu provar a inocência de um dos acusados do crime do Bar 
Bodega, um pobre coitado que a polícia, depois de torturar, apresentou como 
culpado pela morte de um rapaz e uma moça, em São Paulo. Antes disso, foi 
Maria Elisa também que demonstrou ser infundada a acusação de abuso sexual 
de crianças que pesava sobre um casal envolvido no escândalo da Escola Base, 
de São Paulo. Esse caso se tornou emblemático. Porque destruiu a vida dos 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
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acusados, salvos por um triz de ser linchados, e mostrou os riscos de um 
jornalismo apoiado apenas em informações oficiais da polícia. Agora, de novo, 
Maria Elisa está envolvida em uma causa antipática, a defesa do motoboy 
suspeito de ser o "maníaco do Parque". 
Veja — O senhor Francisco de Assis Pereira admitiu ter matado nove 
mulheres, entre as quais a jovem Isadora Fraenkel. O que a senhora tem a 
dizer sobre isso? 
Maria Elisa Munhol — É interessante que essa confissão entre aspas tenha sido 
obtida por vocês. Eu não sou psiquiatra, mas minha experiência indica que 
Francisco deve ter o que os especialistas chamam de "transtorno de 
personalidade". Não descarto a hipótese de ele ter feito essa confissão como 
forma de aparecer mais, de se tornar uma grande estrela, de virar um grande 
astro. Aliás, esse exibicionismo pôde ser facilmente verificado por ocasião da 
entrevista coletiva que Francisco deu em sua chegada a São Paulo. Ele falou sem 
parar e estava evidentemente muito à vontade nessa atuação. É claro que tem um 
enorme desejo de aparecer, de ser valorizado. Se esse tipo de "transtorno de 
personalidade" ficar comprovado, a confissão que vocês têm em mãos não é 
digna de confiança nem de crédito. 
Veja — A senhora está dizendo que Francisco, que admite as mortes, mente 
para aparecer. Por que não acreditar que ele esteja mentindo ao se dizer 
inocente? 
Maria Elisa — Já sabemos aonde levam os pré-julgamentos que a imprensa 
tanto gosta de fazer. Veja o caso da Escola Base, ou do crime do Bar Bodega, ou 
do professor Leonardo de Castro, acusado de colocar a bomba no avião da 
TAM, ou do funcionário público Jorge Mirândola, acusado de enviar uma carta-
bomba ao Itamaraty. Todos os acusados foram destruídos covardemente. 
Quando a verdade veio à tona, essas vidas já estavam no precipício. 
Veja — Mas e o reconhecimento das vítimas que sobreviveram ao maníaco? 
E a coincidência de a jovem Isadora desaparecer e Francisco logo em 
seguida estar usando cheques dela? Isso, mais a confissão, não faz sentido? 
Maria Elisa — A confissão é chamada nos meios jurídicos de "prostituta das 
provas". É assim exatamente porque depende de subjetividades imensas. Por 
outro lado, os reconhecimentos que foram feitos até o momento só aconteceram 
por intermédio de fotografias ou imagens de televisão. O reconhecimento 
pessoal ainda não foi feito. E, mesmo esse, é sujeito a dúvidas grandes. O 
Francisco tem um tipo físico igual ao de milhões de brasileiros. E, atenção, não 
possui um detalhe que a polícia dizia ser fulcral ao reconhecimento: a falha na 
sobrancelha. Do que estamos falando, então? É preciso ter muita cautela, 
porque, se devemos respeito às vítimas e seus parentes, também o devemos à 
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mãe do suspeito e ao próprio suspeito. Antes de apontarmos o dedo acusando 
alguém de uma prática, precisamos refletir em cima dos laudos periciais, dos 
pareceres técnicos. A inocência presumida é um princípio constitucional. 
Veja — A senhora acha que seu cliente é, então, apenas um mentiroso 
inocente? 
Maria Elisa — Ontem, o Francisco prestou um depoimento de sete horas 
consecutivas, no qual admitiu que mantinha práticas sexuais não usuais. Eu não 
sou especialista nessa área, mas tenho claro que ele necessita de ajuda 
psiquiátrica. Daí a julgá-lo automaticamente culpado dos crimes de que o 
acusam vai uma distância longa. Se, lá na frente, ficar comprovada a 
responsabilidadedele por intermédio dos laudos e perícias, então teremos uma 
outra luta: aquela que visa garantir aos portadores de transtornos de 
personalidade o direito de ser tratados. Execrá-los, pura e simplesmente, é 
desumano. 
Veja — A senhora conversou com Francisco em várias oportunidades desde 
que ele foi preso. Repito a pergunta: ele é inocente? 
Maria Elisa — Eu busco a justiça. 
 
Elisângela, 21 anos: 
passeio no shopping 
Elisângela Francisco da Silva tinha 21 anos. 
Paranaense, filha de uma família pobre de Londrina, 
vivia em São Paulo, com a tia Solange Barbosa, desde 
1996. Por causa das dificuldades financeiras, 
abandonou a escola na 7ª série. Às 6 horas da tarde 
de 9 de maio, ela foi deixada por uma amiga no 
Shopping Center Eldorado, na Zona Oeste de São 
Paulo. Nunca mais foi vista. Seu corpo foi encontrado 
em 28 de julho, no Parque do Estado. Ela estava nua. 
O corpo já decomposto exigiu um árduo trabalho de 
identificação. "Eu tinha esperança de que não fosse 
ela", diz a tia. Era. Elisângela era conhecida pela 
timidez excessiva. Diante do olhar mais detido de um 
desconhecido, sempre abaixava o rosto. Pertencia à 
Igreja Batista, mas recentemente freqüentava a igreja 
Deus É Amor. "Aceitei Jesus", justificava. Em casa, 
ajudava nos cuidados com a Letícia, de 3 anos, filha de 
uma de suas primas. Desde a morte de Elisângela, a 
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menina, vir pergunta pela moça. Ao passar pelo 
shopping, Letícia aponta e chora: "Lisângela ficou aqui! 
Lisângela ficou aqui!" No dia de seu desaparecimento, 
Elisângela saiu de casa dizendo que voltaria em 2 
horas. 
 
Raquel Rodrigues, 23 
anos: "É, eu não vou" 
A grande ambição de Raquel Mota Rodrigues, de 23 
anos, era ganhar dinheiro para ajudar a família, que 
vive em Gravataí, no Rio Grande do Sul. "Era uma 
moça muito ingênua", diz a prima Lígia Crescêncio, 
com quem Raquel morava desde o final de 1997. 
"Acreditava muito facilmente nas pessoas." Nos 
finais de semana, Raquel costumava freqüentar 
barzinhos com três amigas. Nunca chegou em casa 
depois da meia-noite. Por volta das 8 horas da noite 
de 9 de janeiro, ela saiu da loja de móveis onde 
trabalhava como vendedora, no bairro de Pinheiros, 
na Zona Oeste da capital paulista. Ao desembarcar 
na Estação Jabaquara do metrô, já quase em casa, 
telefonou para a prima. Avisou que conhecera um 
rapaz e que aceitara posar de modelo para ele em 
Diadema, na Grande São Paulo. "Disse que era 
melhor ela não ir", lembra Lígia. Era muito 
arriscado sair com um desconhecido. "É, eu não 
vou", respondeu a garota. Raquel nunca mais 
apareceu. Seu corpo foi encontrado no matagal do 
Parque do Estado no dia 16 de janeiro. Poucos dias 
antes de morrer, Raquel estava extremamente feliz. 
Acabara de arrumar um novo emprego. Trabalharia 
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numa loja de móveis maior, onde as comissões 
seriam mais polpudas. 
 
 
Selma, 18 anos: sonho de 
cursar a faculdade 
Na quinta-feira passada, Selma Ferreira Queiroz 
completaria 18 anos. Moça simples, a mais nova de 
três irmãs, pretendia terminar os estudos (estava na 
7ª série do 1º grau) e fazer faculdade de ciências 
contábeis ou computação. Os planos de Selma, 
contudo, foram interrompidos na tarde de 3 de julho. 
Entre sua casa, na cidade de Cotia, na Grande São 
Paulo, e o centro da capital paulista, onde trataria 
das formalidades referentes a sua demissão como 
balconista de uma rede de drogaria, ela desapareceu. 
Era uma sexta-feira. No dia seguinte, um homem 
telefonou para Sara, irmã de Selma. Informou que a 
moça havia sido seqüestrada. Pediu um resgate de 
1.000 reais. Voltaria a ligar no final da tarde. Não 
ligou. Nesse mesmo dia, o corpo de Selma foi 
encontrado no Parque do Estado. Estava nua, com 
sinais de estupro e espancamento. Nos ombros, seios 
e interior das pernas, havia marcas de mordidas. No 
rosto, a feição da dor. Selma morreu estrangulada. O 
último sinal de vida da garota foi para o namorado. 
Às 3 da tarde de sexta, de um telefone público, ela 
avisou que não chegaria a tempo para assistir ao 
jogo do Brasil contra a Dinamarca com ele. Mas que 
estava a caminho de casa. 
 
Patrícia, de 24 
anos: bijuterias 
 na mata 
 
 
 
Aos 24 anos, Patrícia Gonçalves Marinho nunca 
revelara à família o sonho de ser modelo. Adorava, 
no entanto, posar para fotografias ao lado de 
parentes e amigos. Vendedora, era uma moça alegre, 
comunicativa. Fazia amizade com muita facilidade, 
em grande parte porque tinha uma confiança 
ingênua nas boas intenções de todo mundo, mesmo 
desconhecidos. No dia 17 de abril, ela saiu da casa 
da avó Josefa, com quem morava. Desapareceu. Seu 
corpo só foi descoberto em 28 de julho. Estava 
jogado numa área erma do Parque do Estado. 
Devido ao avançado estado de putrefação, a 
identificação de Patrícia só foi possível porque ao 
lado do corpo foram encontradas roupas e bijuterias 
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Fotos: Álbum de Família 
da moça. Foi estuprada. Morreu por 
estrangulamento. Patrícia foi enterrada no Cemitério 
de Vila Formosa, em São Paulo, no último dia 5. 
Durante os serviços fúnebres, o clima entre parentes 
e amigos de Patrícia era de muita revolta. Alívio 
também — um dia antes, Francisco havia sido preso. 
"A simplicidade e ingenuidade de minha filha 
devem ter facilitado a abordagem do assassino", 
disse o pai da garota, o motorista particular João 
Severino Marinho. 
 
 
O reencontro 
de Francisco 
com os pais: 
choro de criança 
Foto: Alex Ribeiro/Folha Imagem 
 
Em seu diário, Francisco escreve sobre conquistas amorosas, romances 
impossíveis e momentos de muita agressividade. Tudo se mistura em frases 
repletas de erros de ortografia: "Princeza encantadora que me faz sonhar. só de 
pensar nela me dá vontade de chorar de gritar de alegria ti amo muito". Em 6 de 
abril de 1996, na casa dos pais em Guaraci, interior de São Paulo, ele escreveu: 
"Quando lembro daqueles momentos fico completamente excitado, malvado, 
carente, as coisas se englobam de uma só vez (...) Janete Nogueira Lemos pra 
achar alguém como você não sera fácil, mas estou procurando uma criança de 
12 ou 13 anos para que eu possa dominala como dominei você". 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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C- DECISÃO DO CASO “MANÍACO DO PARQUE” 
São Paulo - Os cinco homens e duas mulheres do júri do motoboy Francisco de 
Assis Pereira, o Maníaco do Parque, vão decidir ainda hoje se o réu deve ter a 
sua pena reduzida por ser considerado uma pessoa com transtorno de 
personalidade, diminuindo sua pena, ou se ele deve ser considerado apenas uma 
pessoa má, mas inteiramente consciente dos crimes que cometeu. Essa é a única 
polêmica entre defesa e acusação no primeiro julgamento por homicídio do 
homem acusado de pelas mortes de mulheres ocorridas em 1998 no Parque do 
Estado, na zona sul de São Paulo. 
Defesa e acusação pedem a condenação de Pereira pela morte da comerciária 
Rosa Alves Neta, de 21 anos. Caso seja condenado, pode pegar até 33 anos por 
homicídio e ocultação de cadáver. O maníaco confessou o assassinato durante 
seu interrogatório ontem,pouco depois do início do julgamento. Justificou-se 
dizendo que havia sido possuído por "forças malignas". 
Pereira é réu em sete casos de homicídio - em dois outros a acusação contra ele 
foi arquivada. Ele foi condenado no ano passado a 107 anos de prisão por 
roubos, estupros e atentados violentos ao pudor. 
Laudo psiquiátrico atesta que o maníaco é portador de um transtorno anti-social 
de personalidade, atual nome do que antigamente era chamado de psicopatia, 
sendo, portanto, semi-imputável. Se o júri acolher o laudo, o juiz decidirá se 
determina que o motoboy seja internado até ser curado ou se ele cumprirá pena 
de prisão, devendo necessariamente diminuí-la em relação a que seria dada caso 
o exame não seja levado em consideração. 
Os debates começaram às 15 horas. Para o promotor Edilson Mongenout 
Bonfim, a sociedade não pode correr o risco de Pereira ser mandado a um 
hospital psiquiátrico e solto pouco depois como ocorreu com outros maníacos, 
como o "Chico Picadinho". Solto dez anos depois de matar e esquartejar uma 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
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mulher em São Paulo, e após ter sido considerado curado, voltou a cometer o 
mesmo tipo de crime. 
Bonfim disse ainda que a personalidade do motoboy é apenas uma variante da 
normal. Ele, afirmou, entende o que faz. "Ele não rasga dinheiro, nem toma 
ônibus errado", afirmou. O promotor contou que uma das vítimas sobreviventes 
do maníaco escapou de ser estuprada porque disse ser portadora do vírus HIV, 
causador da Aids. 
A advogado do réu, Maria Elisa Munhol, afirmou que seu cliente não é uma 
pessoa normal. Ele, segundo disse, é um psicopata perverso e deve ser tratado. 
O segundo do dia do julgamento do maníaco começou com o depoimento da 
segunda testemunha de acusação, o psiquiatra Paulo Argarate Vasques, perito 
que assinou o laudo que considerou Pereira como um homem portador de um 
transtorno anti-social de personalidade. O promotor perguntou ao perito se ele 
considerava correta, do ponto de vista científico, a definição de semi-
imputabilidade da lei brasileira. 
O perito disse que não, que era muito difícil saber se o réu tinha condições na 
época do crime de dominar a sua vontade de matar, embora soubesse que se 
tratava de um delito. "O réu não tem relações sociais, não forma vínculos 
afetivos, sendo que a crueldade, o desejo de causar sofrimento desnecessário à 
vítima, a perversidade é a sua característica", disse o psiquiatra. 
Ele concluiu dizendo que não há tratamento para o caso de Pereira. Segundo ele, 
o réu deve permanecer preso pelo resto de sua vida, já que em liberdade poderia 
voltar a matar. Ontem à noite, os jurados ouviram o depoimento de Maria Luisa 
Cabral, irmã da vítima. Emocionada, ela pediu que o réu fosse retirado da sala 
enquanto fosse ouvida. "Por quê?", perguntou o promotor. "Eu não ia aguentar 
olhar para aquela cara, sabendo que ele fez uma barbaridade com a minha irmã. 
Sei que já passou muito tempo, mas ele tirou a vida de alguém que poderia estar 
aqui”. 
Marcelo Godoy 
"Maníaco do parque" é condenado a mais 24 anos de prisão 
Depois de dois dias de julgamento, o ex-motoboy Francisco de Assis Pereira é 
condenado a mais 24 anos e seis meses de prisão pelo homicídio triplamente 
qualificado da estudante Isadora Fraenkel e por ocultação de cadáver e 
estelionato. 
O juiz Waldir Galciolari sentenciou 19 anos pelo homicídio, 3 anos mais 20 
dias-multa pelo estelionato e 2 anos e seis meses mais 20 dias-multa por 
Personalidade Psicopática – implicações forenses e médico-legais – Sabrina Veríssimo Pinheiro Nunes 
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ocultação de cadáver. Os jurados foram unânimes. Os 40 dias-multa equivalem a 
cerca de um salário mínimo, segundo o promotor Edílson Bonfim. 
Francisco de Assis Pereira aplaudiu a sentença. "Fico extremamente satisfeito 
pois sinto uma sintonia entre o corpo de jurados e a sociedade", afirmou o 
promotor Edílson Bonfim. A madrasta de Isadora, Elizabeth Biorkstrom, e o pai 
da vítima, Cláudio Fraenkel, comemoraram a sentença. "O ideal seria prisão 
perpétua, mas como a lei não permite, já está satisfatório", disse Elizabeth. 
Conhecido como "maníaco do parque", Pereira já cumpre pena na Penitenciária 
de Itaí por condenações anteriores de estupro de Rosa Alves Neta (15 anos), 
ocultação de cadáver (1 ano) e estupro, atentado violento ao pudor e roubo (107 
anos) contra outras mulheres, somando 123 anos de prisão. Com a condenação 
de hoje, somam-se 147 anos de sentença. 
O julgamento começou na quarta-feira com o depoimento de Pereira, que 
confessou o crime e alegou que estava "possuído por uma força maligna". 
Outras cinco testemunhas também foram ouvidas no primeiro dia de julgamento. 
Nesta quinta-feira, foi feito o debate entre o promotor Edílson Bonfim e a 
advogada do réu Maria Elisa Munhol, que durou quatro horas e 36 minutos. 
A advogada defendia que seu cliente era "inimputável", ou seja, portador de 
distúrbio psíquico e não poderia ser responsabilizado pelos seus atos criminosos. 
Assim, Assis Pereira teria sua pena reduzida em pelo menos um terço ou seria 
encaminhado a um hospital psiquiátrico. Lá, caso fosse constatada sua 
"melhora", poderia ser libertado. 
O promotor contestou. Para Bonfim, o motoboy possuiria um distúrbio de 
comportamento anti-social, mas isso não impediria que ele soubesse as 
conseqüências de seus atos e tomasse as atitudes conscientemente. Assim, 
poderia ser integralmente responsabilizado pelo crime e receber a pena normal. 
Os jurados aceitaram a tese da promotoria e consideraram o ex-motoboy 
plenamente imputável. 
Bonfim torcia apenas para que Pereira não fosse condenado a mais de 20 anos 
de prisão, ou a advogada poderia pedir imediatamente um novo julgamento. 
Como em nenhum crime a pena ultrapassou 20 anos, Francisco de Assis Pereira 
não tem direito de pedir automaticamente um segundo júri popular. 
Quanto a outro tipo de recurso, a advogada Maria Elisa Munhol disse apenas 
que "quem vai decidir é ele". 
Além de assumir que violentou e matou Isadora, o ex-motoboy ainda afirmou 
que roubou o talão de cheques da estudante e usou três folhas: uma com o valor 
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de R$ 200,00 usou para comprar um capacete; de outra usou 500,00 e preencheu 
uma terceira de R$ 50,00 para pagar dívidas. 
Francisco de Assis Pereira deve ser julgado ainda pela morte de outras cinco 
mulheres, cujos cadáveres foram encontrados enterrados no Parque do Estado, 
para onde ele costumava levar suas vítimas, estuprá-las e matá-las. No total, a 
promotoria conseguiu reunir provas de sete homicídios e uma tentativa de 
homicídio, além de outros atentados violentos ao pudor. Estes e duas mortes já 
foram julgadas. 
 
 
 
 
 
 
D – PSICOPATAS CONHECIDOS 
 
 
 
 
Chico Picadinho, 
São Paulo, 1966 e 
1976: duas 
esquartejadas 
Charles Manson, Estados Unidos, 1969: sete mortos, entre eles a atriz Sharon 
Tate 
Henry Lee Lucas, Estados Unidos, de 1976 a 1983: 140 cadáveres 
 
Fortunato Botton
Neto, São Paulo, de
1987 a 1989:
treze homossexuais 
Jeffrey Dahmer, EUA, 1991: matou dezessete rapazes e comeu seu 
s órgãos 
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Marcelo de Andrade, 
Rio de Janeiro, 1991: 
estupro e degola de 
catorze crianças 
Frederick West,Inglaterra, de 1969 a 1994: doze mulheres e meninas 
Marc Dutroux, Bélgica, de 1989 a 1996: violentou seis crianças e matou quatro 
 
Fotos: Marisa Ochiyama/Oscar Cabral/Carlos Namba 
 
 
Com reportagem de Laura Capriglione, Cristine 
Prestes, de Porto Alegre, Angélica Santa Cruz, 
Samarone Lima e Glenda Mezarobba

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