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ENTRE O EXISTIR E O SER: IMPACTOS PSÍQUICOS DA ALIENAÇÃO PARENTAL NOS FILHOS Amarilis Rocha dos Santos¹ ¹ Graduada pelas Faculdades Integradas de Ciências Humanas, Saúde e Educação de Guarulhos. Psicóloga Clínica. amarilispsico@gmail.com RESUMO O presente trabalho versou compreender os impactos psíquicos da alienação parental nos filhos. A fim de subsidiar esta pesquisa, percorreu-se um caminho teórico que perpassa o processo de amadurecimento emocional sob o olhar Winnicottiano; a definição de alienação parental e suas formas de caracterização; a compreensão dos elementos que circundam o agente alienante e o papel do psicólogo ante a alienação parental. Foi possível compreender, ao final, que a alienação parental pode obstar o processo maturacional do indivíduo, comprometendo o seu vir a ser real, espontâneo e responsável. Notou-se, ainda, que a teoria do amadurecimento de Winnicott oferece um novo olhar para as outras facetas deste fenômeno, a saber, que o alienante busca uma relação dual com os filhos a fim de inconscientemente reparar a simbiose materna precocemente perdida em seu processo de desenvolvimento e que, por meio desse olhar, o analista pode acolher as personagens desse enredo suprindo suas necessidades internas. PALAVRAS-CHAVE: Alienação Parental; Impactos Psíquicos; Amadurecimento. ÁREA DE CONHECIMENTO: Humanas 1 INTRODUÇÃO O embrião do trabalho que se apresenta, surgiu ante a minha inquietação no que parece ser um consenso entre os docentes do curso de Psicologia: as mudanças progressivas no conceito e na dinâmica familiar no último século, em especial, no que concerne ao aumento do número de divórcios e recasamentos. Dentre as múltiplas questões que permeiam esse assunto, estão o lugar dos filhos em divórcios litigiosos e os impactos psicológicos que neles reverberam, sobretudo, quando um dos genitores ou outra figura afetivamente importante macula a imagem da figura parental contrária, objetivando o rompimento dos laços entre ela e o filho. Assim, tencionou-se compreender os impactos psicológicos nos filhos submetidos à alienação parental e, a fim de subsidiar o encontro com as possíveis respostas a essa questão, pretendeu-se compreender o processo de desenvolvimento emocional sob a ótica da teoria Winnicottiana do amadurecimento, identificar as mudanças ocorridas na dinâmica familiar ao longo do tempo, entender quem é o sujeito alienante, bem como descobrir qual o papel do psicólogo ao receber essa demanda dentro e fora dos tribunais. Não se desejou, porém, esgotar o assunto, que deve ser amplamente debatido nos centros de pesquisas, de aprimoramento e de formação em psicologia. Relevante se faz o tema a ser abordado, na medida em que tanto os psicólogos em formação, quanto os já formados, precisam atentar-se às mudanças da dinâmica familiar e na judicialização de questões inerentes a ela, tal como a alienação parental, que ganham forma nos consultórios clínicos, nas escolas, tribunais de justiça e em tantos outros lugares em comum à família e à psicologia. 2 OBJETIVOS Delimitou-se como questão central compreender os impactos psicológicos dos filhos submetidos à alienação parental. De modo a orientar o trabalho com vistas a possibilitar a compreensão das questões que cercam o tema, objetivou-se apresentar o processo de desenvolvimento emocional sob a ótica Winnicottianna do amadurecimento, conceituar a alienação parental, bem como apresentar suas formas de caracterização, entender quem é o agente alienante e, por fim, apontar os aspectos de atuação do psicólogo dentro do contexto da alienação parental. 3 MATERIAL E MÉTODOS O presente trabalho parte da concepção de que para se estudar um fenômeno deve-se compreendê-lo e interpretá-lo a partir dos seus significados e do contexto em que está inserido. Para a compreensão dos fenômenos deste trabalho, utilizou-se o método qualitativo bibliográfico que se nutriu por meio da análise de livros, artigos, dissertações e teses de autores referenciados em suas áreas de atuação. Segundo Denzin e Lincoln (2006), a pesquisa qualitativa é um conjunto de atividades práticas e interpretativas que dão visibilidade ao mundo, seja ele, representado por livros, entrevistas, conversas, fotografias ou gravuras, uma vez que cabe ao pesquisador apresentar o entendimento e/ou interpretação dos fenômenos. Nesse sentido, as referências colhidas nortearam o encontro com objetivos elencados, possibilitando a perceptibilidade do tema a partir de olhares diversos e harmônicos. 4 DENVOLVIMENTO 4.1 O PROCESSO DE AMADURECIMENTO A saúde, em termos de funções biológicas adequadas, está atrelada ao desenvolvimento corporal em consonância com a idade do indivíduo. Isso depende, em boa parte, de condições herdadas, de uma boa alimentação e de bons manejos físicos impulsionados pelos cuidados que os pais podem oferecer na infância e pelo desenvolvimento constante da medicina (WINNICOTT, 1983). A saúde mental, de igual modo, possui estreita ligação com cuidados suficientemente bons, isto é, sem intercorrências graves que podem perturbar o curso do processo maturacional do indivíduo e impedi-lo de se relacionar com responsabilidade em relação ao ambiente que o cerca (WINNICOTT, 1990). Para o Winnicott (1990), a soma, enquanto unidade do corpo vivo, é o que existe à priori, a psique vem depois e se desenvolve por meio das experiências imaginativas que se dividem em ambientais e pessoais. As experiências pessoais são vividas por meio de fantasias através da apropriação de sensações e funções corporais. As ambientais, por outro lado, referem-se aos cuidados em relação ao corpo e a satisfação de suas exigências instintivas. “A psique começa como uma elaboração imaginativa das funções somáticas, tendo como sua tarefa mais importante a interligação das experiências passadas com as potencialidades, a consciência do momento presente e as expectativas para o futuro. É desta forma que o self passa a existir” (WINNICOTT, 1990, p. 37). Denota-se, deste modo, que a psique só se constitui por íntima ligação com o funcionamento biológico, em outras palavras, só há a psique, porque há funcionamento cerebral. Ademais, o processo de personalização do ser tem ainda, um elemento herdado, que não o define, antes, porém, atua em conjunto com o componente facilitador ofertado por um ambiente suficientemente bom e o próprio potencial do indivíduo (WINNICOTT, 1990). Há tudo o que é herdado, incluindo os processos de maturação, e talvez tendências patológicas herdadas; estas têm uma realidade própria e ninguém pode alterá-las; ao mesmo tempo, o processo maturativo depende para sua evolução da provisão do ambiente. Podemos dizer que o ambiente favorável torna possível o progresso continuado dos processos de maturação. Mas o ambiente não faz a criança. Na melhor das hipóteses possibilita à criança concretizar seu potencial. (WINNICOTT, 1983, p. 81) Acresce Dias (2003) que, não obstante os aspectos inatos do desenvolvimento humano, ele não acontece por si mesmo. Antes, se faz necessário a presença marcante de um ambiente facilitador, a base primordial para a existência real do ser, que se torna gradativamente menos marcante à medida que esse processo se desenrola. 4.1.1 Relacionamento mãe-bebê Winnicott (1983) chamou de preocupação materna primária o estado de completa devoção da mãe ao bebê que ocorre entre o fim da gravidez e as primeiras semanas após seu fim. Essa condição é caracterizada pela intensa identificação da mãe em relação ao nenê, de modo que ela sabe exatamente quais são suas necessidades nos momentos certos. Seu amor por seu próprio bebê provavelmente é mais verdadeiro, menos sentimental do que o que qualquer substituto; uma adaptação extrema às necessidades do bebê pode ser feita pela mãe real semressentimento. É ela que está em condições de preservar todos os pequenos detalhes de sua técnica pessoal, fornecendo assim ao bebê um ambiente emocional simplificado (que inclui os cuidados físicos) (WINNICOTT, 1990, p. 132). É verdade, entretanto, que os cuidados suficientemente bons não são ofertados apenas pela mãe enquanto condição biológica, mas enquanto lugar. Ocorre que, para essa tarefa, se faz necessário que exista total entrega, a fim de que as necessidades do bebê sejam supridas com total naturalidade (WINNICOTT, 1990). Em suas primeiras experiências, há no bebê uma crescente tensão instintiva, há a expectativa de encontrar algo, em algum lugar, a qualquer momento. Então, no momento certo, o seio é oferecido. Preocupando-se com essa tarefa, a mãe é capaz de oferecer um ambiente suficientemente bom, no qual o relacionamento excitado pode ser colocado em prática. Assim, se tem a primeira mamada, e se a primeira mamada é satisfatória, estabelece- se um padrão para outras mamadas (WINNICOTT, 1990). Para Winnicott (1990), há no bebê a ilusão de que o seio, e consequentemente a primeira mamada, foram projetados com o intuito de suprir sua necessidade instintual. A mãe, por sua vez, por sua identificação e dedicação, está preparada para subsidiar essa ilusão no nenê. Estabelece-se, pois, a onipotência. Se não há esse padrão, o bebê não pode ter esperanças de manter padrões de relacionamentos excitados no mundo compartilhado. Gradativamente a identificação da mãe com o bebê diminui, ao passo que ele desenvolve mecanismos para suportar bem essa “desilusão”, qual seja, a descoberta de que os objetos externos não foram criados por intermédio de suas próprias necessidades, seus instintos. “Desta forma inicia-se no bebê a concepção da realidade externa, um lugar de onde os objetos aparecem e no qual eles desaparecem” (WINNICOTT, 1990, p. 126). 4.1.2 Holding Winnicott (1983) chamou de holding o estágio do desenvolvimento emocional caraterizado por um estado de extrema dependência psicológica do bebê em relação a mãe em um momento em que ele ainda não separou dela seu próprio self, necessitando de cuidados suficientemente bons em termos fisiológicos e psicológicos, vez que são interdependentes. Para Winnicott (1983), cada holding é único, uma vez que um bebê nunca será igual ao outro e inclui, entre outras peculiaridades, os sentidos e sensações físicas e psicológicas do bebê, bem como toda a rotina de cuidado. “O holding inclui especialmente o holding físico do lactante, que é uma forma de amar. É possivelmente a única forma em que uma mãe pode demonstrar ao lactante o seu amor” (WINNICOTT, 1983, p. 48). Na visão de Winnicott (1990), o bebê vem ao mundo em um estado de não–integração, emocionalmente incompleto. O que há, à priori, é um estado em que o self do bebê está completamente fundido ao da mãe, não tendo, entretanto, consciência da magnitude dessa dependência. Gradativamente, o nenê se torna capaz de reter as lembranças dos cuidados maternos ofertados e com isso o estado de integração começa a ganhar forma. Destarte, é apenas por intermédio do holding que o lactante tem a base para que seu ego seja transformado. Nesta fase, por meio de um cuidado materno contínuo e eficaz, o bebê se torna gradualmente integrado, podendo deste modo, desenvolver sua própria individualidade. Outrossim, “sem um holding suficientemente bom esses estágios não podem ser alcançados, ou uma vez alcançados não podem ser mantidos” (WINNICOTT, 1983, p. 45). 4.1.3 Estágios da dependência Para Winnicott (1983), cada ser humano trilha uma jornada com vistas a alcançar um estado gradativo de independência em relação ao ambiente e, com isso, tornar-se maduro ou, em outras palavras, emocionalmente responsável. Segundo o autor: A maturidade do ser humano é uma palavra que implica não somente crescimento pessoal, mas também socialização. Digamos que na saúde, que é quase sinônimo de maturidade, o adulto é capaz de se identificar com a sociedade sem sacrifícios demasiado da espontaneidade pessoal: ou, dito de outro modo, o adulto é capaz de satisfazer suas necessidades sociais sem ser anti-social, e, na verdade, sem falhar em assumir alguma responsabilidade pela manutenção ou pela modificação da sociedade em que se encontra. (WINNICOTT, 1983, p. 80) Winnicott (1983) salienta que o indivíduo nunca atinge a completa independência, isso porque o ser humano é naturalmente sociável, de modo que a relação entre ambiente e indivíduo se torna inevitavelmente recíproca durante toda sua trajetória. Ademais, o autor formulou de modo exemplificativo três estágios da dependência, quais sejam, absoluta, relativa e rumo à independência, conforme se apresenta a seguir. 4.1.3.1 Dependência absoluta O lactante, a princípio, não tem consciência dos cuidados maternos suficientemente bons que a ele são dispensados. Para ele, não há distinção entre o que é eu e o que é não-eu, toda a gama de experiências boas é vista como pertencente ao próprio self. Esse estágio é caracterizado por um alto grau de adaptação da mãe às necessidades do bebê, que pode, deste modo, continuar tranquilamente seu processo rumo à maturidade (WINNICOTT, 1983). Falhas de adaptação, nessa fase, por outro lado, são sentidas pelo bebê como uma quebra de sua continuidade. “Se reagir a irritações é o padrão de vida da criança, então existe uma séria interferência com a tendência natural que existe na criança de se tornar uma unidade integrada, capaz de ter um self com um passado, um presente e um futuro” (WINNICOTT, 1983, p. 82). 4.1.3.2 Dependência relativa Nessa fase o bebê, gradativamente, se torna capaz de perceber e registrar os cuidados maternos. Isso acontece em consonância com a progressiva desadaptação materna que é vista, nesse contexto, não em seu aspecto negativo, mas necessária para que o bebê possa iniciar o enfrentamento da realidade compartilhada e, consequentemente, a consolidar sua própria individualidade (WINNICOTT, 1983). Para Winnicott (1983, p. 49), nesse estágio o bebê começa a perceber ausência da mãe em seu aspecto reversível por meio dos recursos do próprio ambiente. Do ponto de vista da mãe “é como se ela agora se desse conta de que o lactente não mais espera existir a condição em que há quase uma compreensão mágica de suas necessidades”. Assim, o nenê descobre que do mesmo modo que a mãe se ausenta, ela volta. O bebê aprende a esperar. 4.1.3.3 Rumo à independência Nesse estágio, o bebê se torna capaz, por meio da retenção dos cuidados recebidos, de se identificar com a sociedade em que está inserido, responsabilizando-se como alguém que dela faz parte. Isso só acontece à medida que o lactente, paulatinamente, aprende a introjetar os cuidados suficientemente bons, conservando assim, subsídios para confiar que continuará inteiro (WINNICOTT, 1983). Winnicott (1983) destacou que o processo de amadurecimento não é linear, certos períodos de tensão na vida do indivíduo podem fazê-lo regredir por um momento. Ademais, o processo maturacional do ser humano perdura por toda a vida e mesmo necessidades muito primitivas podem ser encontradas em um adulto. Para o autor: Deve-se esperar que os adultos continuem o processo de crescer e amadurecer uma vez que eles raramente atingem a maturidade completa. Mas uma vez que tenham encontrado um lugar na sociedade através do trabalho, e tenham talvez se casado ou se estabelecido em algum padrão que seja uma conciliação entre imitar os pais e desafiadoramente estabelecer uma identidade pessoal, uma vez que esses desenvolvimentos tenham lugar pode-se dizer que se iniciou a vida adulta (WINNICOTT, 1983, p. 87). De todo modo, nenhuma conquista, em termos de desenvolvimento, é sinônimo de garantia. Uma vez alcançada, o contexto no qual vive determinará sua manutenção,evolução ou regressão. “Por isso, em uma pessoa de qualquer idade, pode-se encontrar todos os tipos de necessidades, das mais primitivas às mais tardias” (DIAS, 2003, p. 101). Dias (2003) pontua que, apesar de não sequencial, alguns aspectos maturacionais dependem primordialmente da conquista e elaboração da fase anterior. Assim, se há uma falha em uma das fases de dependência, as fases seguintes podem ficar detidas ou serem absorvidas falsamente. 4.1.4 O verdadeiro e o falso self Winnicott (1983) define como verdadeiro self a personalidade dotada de espontaneidade, capaz de se relacionar responsavelmente com o ambiente e que teve origem em um ambiente suficientemente bom, cuja mãe foi capaz de se adaptar de forma extrema às necessidades do bebê e que, consequentemente subsidiou os aspectos que denotam a sensação de onipotência. Como efeito, o lactente aprendeu a reter os cuidados maternos e a suportar a desadaptação gradativa da mãe, tornando-se mais a frente, responsável para com seu meio. Dito de outro modo, a mãe foi eficaz ao transformar o fraco ego do bebê em forte. O falso self, em contrapartida, tem sua etiologia marcada por cuidados maternos ineficientes, tendo a mãe falhado em promover a onipotência do bebê. Por conseguinte, o nenê se torna submisso aos gestos da própria mãe, tem sua capacidade de se tornar espontâneo comprometida e passa a existir falsamente (WINNICOTT, 1983). Somente o indivíduo que conserva o self verdadeiro pode se sentir real, no campo oposto, o do falso self, o indivíduo se torna exatamente como quem o criou, sua própria individualidade se torna severamente comprometida. Ainda, segundo Winnicott (1983, p. 137), “ao invés de objetos culturais, observam-se em tais pessoas extrema inquietação, uma incapacidade de se concentrar e uma necessidade de colecionar ilusões da realidade externa, de modo que vida toda do indivíduo pode ficar cheia de reações a essas ilusões”. Uma das possíveis formas de manifestação do falso self, é a hiper-intelectualização. Neste cenário, o indivíduo apresenta grande sucesso no campo acadêmico, sem gerar qualquer desconfiança na sociedade acerca de uma possível desordem emocional. Acontece que, na verdade, a mente se tornou o local de morada do falso self e deste modo, em conformidade, quanto mais intelectualmente vitorioso, mais falso o indivíduo se sente (WINNICOTT, 1983). 4.2 A FAMÍLIA Winnicott (1990, p. 174) destaca a importância da família no processo maturacional do indivíduo. Segundo o autor “É mais fácil para a criança suportar ou recobrar-se da morte de um dos pais do que das complicações provocadas pelas dificuldades emocionais entre eles”. Nos estágios iniciais do desenvolvimento, um lar equilibrado, em que há a união sem intercorrências do casal, favorece o processo que permeia o percurso da dependência absoluta à dependência relativa. O pai, primeiramente, serve de suporte à mãe no âmbito da preocupação materna primária e, gradativamente, se junta a ela na tarefa de proporcionar um ambiente facilitador (WINNICOTT, 1990). No período da latência, a formação estável da família se torna ainda mais importante, vez que, nesta fase, o indivíduo não deveria se ocupar com outras coisas, que não o descobrimento de novas experiências internamente enriquecedoras, tais como o brincar e o aprender (WINNICOTT, 1990). Segundo o autor, um ambiente familiar original preservado possibilita ao adolescente a interação com diferentes grupos sem que com isso seja preciso abrir mão de sua referência primordial. Há, ainda, a possibilidade de encontrar no lar a conciliação de atitudes e afetos ambivalentes tão características dessa fase, como a necessidade de enfrentamento e acolhimento (WINNICOTT, 1990). Para Winnicott (1990), a fragmentação do lar pode impactar diretamente o processo de amadurecimento do indivíduo, sua magnitude, entretanto, depende primordialmente do estágio do desenvolvimento emocional em que ele se encontra e do grau de adaptação às falhas ambientais até então desenvolvidas. 4.3 A ALIENAÇÃO PARENTAL Por alienação, entende-se a súbita ou gradativa diminuição da capacidade de pensar ou agir com base na própria vontade. Tal fato pode ser caracterizado por imaturidade ou ser condicionado por alguém com alto poder de persuasão (FERREIRA, 2010). Sob a ótica familiar, a alienação pode ser observada pelo viés parental, condição caracterizada pela manipulação dos filhos em detrimento de um dos genitores, sobretudo, por intermédio da implantação de falsas memórias traumáticas, a fim de tornar as relações afetivas entre estes, impraticáveis. Este infortúnio pode ser protagonizado por mães, pais e quem mais integre o convívio afetivo do infante, como avós e tios (LAGRASTA NETO, 2011). Próchno, Paravini e Cunha (2011) ensinam que a alienação parental pode estar atrelada ao término conturbado de um relacionamento. Deste modo, o privar o contato afetivo do ex- cônjuge com os filhos tem por finalidade atingir o antigo companheiro, tendo como mais drástica consequência o prejuízo da saúde psíquica da criança ou adolescente em questão. Historicamente, a alienação parental está atrelada às mudanças ocorridas na dinâmica familiar que provocou uma alteração na relação pai e filho. A naturalização do amor materno levava ao Judiciário delegar, em quase a totalidade dos casos, a guarda à mãe, o contato dos filhos com o pai, deste modo, ficava condicionado aos fins de semana. Com o avançar cultural e dos tempos, o pai foi convocado a reivindicar seu importante papel, que foi também reconhecido pelo Judiciário. Estabeleceu-se campanhas, promulgou-se leis (DIAS, 2010a). Para Silva (2014), o Brasil está tradicionalmente inserido em um contexto conservador e, nesse sentido, a vida conjugal e parental se confundem. Assim, apesar da evolução nos contextos de família, ainda hoje, quando um dos cônjuges decide unilateralmente pelo divórcio, sua figura é associada ao traidor, que quebrou o pacto indissolúvel do casamento e que, portanto, deve pagar por isso, com frequência, por meio da perturbação do contato afetivo com os filhos. Segundo Dias (2010a), frequentemente a alienação parental tem sua etiologia marcada por um contexto no qual o luto, ante a separação conjugal, foi disfuncional. Para a autora, quem não consegue elaborar de modo equilibrado a ruptura do sistema familiar, pode encontrar nos filhos a oportunidade de se vingar do antigo parceiro e por meio deles externar sua agressividade. São pais que não sabem distinguir a morte conjugal da vida parental. Pessoas com sentimentos de abandono, com a percepção de que foram traídas (dentre várias outras circunstâncias), começam a não só afastar outro genitor do convívio do filho, mas também enfatizar uma campanha de desmoralização e de descrédito à imagem e a tudo que diz espeito ao genitor não guardião (PRÓCHNO; PARAVIDINI; CUNHA, 2011, p. 1476). Lagrasta Neto (2011) destaca que o processo alienação tem início, frequentemente, quando o antigo parceiro do alienador inicia um novo relacionamento. Com efeito, por sua capacidade de exercer alto controle emocional sobre os filhos, o alienador desestrutura o novo sistema familiar como um todo, desencadeando reflexos de ordem material, espiritual e psíquico. Importante acrescentar que a alienação parental não acontece em apenas um modelo de arranjo familiar, mas nos vários contextos da entidade. Não há, igualmente, diferenças quanto ao seu impacto. Famílias mono ou pluriparentais, nucleares ou não; todas as configurações estão suscetíveis à incidência e aos impactos desse processo. (QUEIROZ; SOUGEY, 2015) O alienador, por sua tirania, inicia um verdadeiro processo de maculação da imagem do, geralmente, antigo parceiro. Os ataques começam com exaustivos relatos direcionados acerca de eventos traumáticos que nunca aconteceram,ademais, o indivíduo alienante cria inúmeros obstáculos às visitas que, na visão dos filhos, ratificam o abandono. Por conseguinte, o infante se identifica com o alienador e com ele se une na tarefa de afastar o genitor contrário, tornando-se órfão de um pai ou de uma mãe vivo. (DIAS, 2015) Outras vezes, com argumentos mais fortes, o alienante faz chantagem emocional com a criança, dizendo, por exemplo, que ficará muito triste e sozinho se o menor encontrar o outro genitor, e que tal atitude seria uma traição; de modo mais grave ainda, alguns pais chegam a ameaçar suicídio caso a indefesa criança se relacione com seu outro genitor. Utilizam-se, ainda, de artimanhas, como dizer que o filho não se sentiu bem após a última visita, e de que o genitor alienado não é capaz de cuidar do menor sozinho, ou que a criança necessita adaptar-se à nova situação primeiro. (MADALENO; MADALENO, 2018, p. 34) Segundo Dias (2010b), durante o jogo de implantações de falsas memórias, é comum que surjam acusações de abuso sexual. O filho, por meio das reiteradas histórias contadas pelo alienante, é convencido de que o abuso ocorreu. Ocorre que, quando essa situação é levada ao Judiciário, dada a gravidade dos relatos, as visitas são suspensas, a fim de que a denúncia seja apurada com perícias e estudos. Nesse interim, geralmente extenso, o convívio entre genitor alienado e filho é suspenso, corroborando com o intuito vingativo do alienante. Uma vez instaurada a aliança entre alienante e filho, os ataques passam a ser protagonizados pelo próprio infante, tratando a quem intimamente ama, com ódio e desprezo. A ambivalência afetiva, tendência inerente ao ser humano, dá lugar a sentimentos unilaterais de toda espécie. Para o genitor alienado, prevalece a sensação de impotência, preferindo, por vezes, afastar-se concretamente, dando forma ao intento do ex-companheiro (MADALENO; MADALENO, 2018). O ódio demonstrado pelo filho em relação ao pai alienado é equiparado ao fanatismo terrorista, não existem brechas, não há espaço para diálogo ou concessões. De outro modo, o genitor alienador é visto como um indivíduo totalmente bom, imaculado e sem falhas, onde qualquer reprovação à sua conduta é prontamente refutada, em defesa visceral, como se fosse um ataque à sua própria pessoa, sendo o conflito entre os pais vivido pelos filhos, que, ao se aliarem a um dos progenitores, se transformam em guerreiros fiéis e cruéis (MADALENO; MADALENO, 2018, p. 33). Lagrasta Neto (2011) aponta que não se deve esperar qualquer tentativa de acordo por parte do alienador, uma vez que ele dificilmente se convence do grau de nocividade de sua conduta. Deste modo, a intervenção judicial eficaz é imperativa que pode se fazer necessária. 4.4 O ALIENADOR Na lição de Araújo e Carmo (2014), para uma compreensão ampla da Alienação Parental, se faz necessário conhecer as características relativas ao sujeito alienador. Para as autoras, diferentemente do que é amplamente difundido, o comportamento do alienante não se inicia quando da separação, mas torna evidente a estrutura psíquica do indivíduo, ante a situação de fragmentação dos laços. Para Trindade (2007), não é possível afirmar com precisão qual o perfil do alienador, tendo em vista as peculiaridades de cada ser singular. Entretanto, alguns aspectos parecem estar presentes em boa parte dos casos relatados, quais sejam, a extrema dependência afetiva, a baixa autoestima, o não respeito às regras impostas que se efetiva por meio do desrespeito às determinações judiciais, o alto poder de sedução e persuasão e a baixa aderência ao tratamento psicológico. Araújo e Carmo (2014) propõem olhar para essas características como uma reação à perda que remonta à períodos muito precoces do desenvolvimento. A separação conjugal, nesse sentido, se apresenta como a atualização da cisão mãe-bebê em um momento em que ele ainda não estava preparado egoicamente. A alienação parental se materializa como a forma de resgatar a simbiose materna perdida. Com a separação do casal a relação do casal deixa de ser dual e passa a ser triangular, uma vez que o casal se divide em dois genitores. O genitor alienante, diante de sua fragilidade egóica, causada por uma perda prematura no seu processo de desenvolvimento, não suporta a cisão e tenta a qualquer custo excluir o ex- cônjuge da relação, mantendo uma díade entre ele e os filhos, caracterizando então o processo de alienação parental. (ARAÚJO; CARMO, 2014, p. 192) Segundo Dias (2003), para qualquer fenômeno psíquico que se queira olhar, se faz imprescindível considerar os estágios do amadurecimento, sobretudo, se for possível cogitar o momento maturacional em que a estrutura teve origem por força de uma falha ambiental não resolvida. Winnicott (1983) postula acerca da etiologia dos distúrbios de caráter. Segundo o autor, falhas ocorridas durante a fase de dependência relativa, na qual o bebê já conseguia identificar os cuidados maternos recebidos, podem deter ou adiar o curso maturacional do indivíduo, dando ensejo ao surgimento de uma tendência antissocial. Nessa circunstância, o indivíduo espera constantemente que o meio reconheça a privação e efetue a reparação. A tendência antissocial se consubstancializa no empobrecimento da personalidade do indivíduo, marcada pela incapacidade de sentir real e inteiro. Ademais, verifica-se frequentemente a manifestação desta predisposição por meio do furto e da destruição, visando o controle da situação apresentada (WINNICOTT, 1983). No contexto da alienação parental, esta inclinação aparece por meio do roubar dos filhos e do genitor alienado o direito da convivência afetiva, destruindo os laços entre eles. Em seu íntimo a alienante busca, na verdade, a recuperação de uma relação primordial que foi boa, mas foi perdida durante seu processo de amadurecimento. (ARAÚJO; CARMO, 2014) É certo, contudo, que não se pode afirmar categoricamente acerca da constituição psíquica do sujeito, sem antes considerar seus aspectos individuais. O que se tenciona é o desafio de olhar para o indivíduo alienador para além do que é difundido no senso comum (ARAÚJO; CARMO, 2014). 4.5 IMPACTOS DA ALIENAÇÃO PARENTAL NOS FILHOS Uma vez iniciado o processo de alienação parental, todos sofrem. O alienante porque não consegue lidar com o fim da separação, atualizando, possivelmente, a relação simbiótica mãe-bebê vivenciada com intercorrências. O genitor alienado porque, por mais que queira, não consegue estabelecer uma relação desembaraçada com o filho, recebendo ataques e desprezo de uma figura que ocupa, na vida dele, um lugar de amor. Os filhos, sobretudo, porque ainda estão em um momento de constituição da vida psíquica, estando especialmente mais vulneráveis aos impactos desse processo. (DIAS, 2010c; ARAÚJO; CARMO, 2014) Segundo Madaleno e Madaleno (2018), ao vivenciarem esse contexto, crianças e adolescentes tendem a desenvolver uma visão deturpada do mundo circundante, tornam-se ansiosos, temendo pequenas situações do cotidiano; ademais, adquirem uma percepção falseada de si mesmos, ocupando-se com questões não relacionadas à idade, deixando as brincadeiras típicas da fase em segundo plano. Ainda, segundo as autoras, São afetados o desenvolvimento e a noção do autoconceito e autoestima, carências que podem desencadear depressão crônica, desespero, transtorno de identidade, incapacidade de adaptação, consumo de álcool e drogas e, em casos extremos, podem levar até mesmo ao suicídio. A criança afetada aprende a manipular e utilizar a adesão a determinadas pessoas como forma de ser valorizada, têm também uma tendência muito forte a repetir a mesma estratégia com as pessoas de suas posteriores relações (MADALENO; MADALENO, 2018, p. 48). Para Trindade (2007), os efeitos da alienação parental no indivíduo variam conformeo grau de desenvolvimento atingido quando da sua efetivação, a intensidade de aproximação anterior à alienação com o genitor contrário e aspectos internos individuais. Ocorre que, rotineiramente, em virtude da ausência de espaço para a elaboração dos afetos, essas consequências se manifestam por meio de alterações somáticas e comportamentais. Medo, insegurança, isolamento, tristeza e depressão, comportamento hostil, dificuldades escolares, baixa tolerância à frustração, irritabilidade, enurese, transtorno de identidade ou de imagem, sentimento de desespero, culpa, dupla personalidade, inclinação ao álcool e às drogas, e, em casos mais extremos, idéias ou comportamentos suicidas (TRINDADE, 2007, p. 104) Nas lições de Yaegash e Milani (2011), Nüske e Grigorieff (2015) e Boch-Galhau (2018), a alienação parental é experimentada pelos filhos como uma falha ambiental que se interpõe no processo maturacional do indivíduo. O campo de batalha inerente às situações de litígio e que se torna ainda mais evidente frente à alienação, torna os cuidados suficientemente bons, indispensáveis para o desenvolvimento emocional do ser, severamente comprometidos. Ao postular acerca da origem do falso self Winnicott (1983, p. 134) ensina que quando há comprometimento no fornecimento de um ambiente facilitador, o infante é “seduzido à submissão, e um falso self submisso reage às exigências do meio e o lactante parece aceita- las”. Por conseguinte, as bases relacionais do indivíduo, assim como a percepção de si mesmo, tornam-se falseadas. É que o processo de maturação está atrelado aos cuidados suficientemente bons, condição básica para que a tendência inata à integração possa se concretizar. É apenas através dessa junção que o sujeito pode adquirir “o sentimento de ser, de ser real, de existir num mundo real como um si-mesmo”. (DIAS, 2003, p. 97) Se não há a concretização desses cuidados, se não há espaço para a onipotência e sua posterior renúncia, se não há uma resposta adequada aos gestos espontâneos da criança, sua capacidade de simbolização e sua consequente espontaneidade se tornam bloqueadas. Tem-se então, o falso self. (WINNICOTT, 1983) No contexto da alienação, por força da fragmentação do lar, da necessidade de demonstrar lealdade ao genitor alienante e do ajustamento às vontades de um outro que não hesita em manipular, os cuidados suficientemente bons não podem subsistir, os filhos alienados tendem a desenvolver um falso-eu, e com ele, a responsabilidade, espontaneidade, autonomia e individualidade não podem advir. (BOCH-GALHAU, 2018) Do ponto de vista da sociedade, o falso self é frequentemente aceito. Isto porque esses indivíduos tendem a se portar com grande êxito social e acadêmico, moldando-se às exigências do outro ou de outros. Ocorre que, quanto mais bem sucedido, mais falso o sujeito tende se sentir. (WINNICOTT, 1983) 4.6 ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO FRENTE À ALIENAÇÃO PARENTAL Trindade (2007) destaca a necessidade de atendimento psicológico especial e urgente a todos os personagens integrantes da alienação parental, isto é, alienantes, alienados e filhos, tão logo identificada. Para o autor, quanto mais precocemente reconhecida, melhor serão os efeitos interventivos clínicos e jurídicos. Araújo e Carmo (2014) entendem que o tratamento psicológico do sujeito alienador se constitui enquanto medida essencial, visto que, ao se olhar para esse indivíduo, tratar-se-á o cerne da questão e não apenas as consequências. Destaca-se que a intenção não é encobrir os erros do alienante, mas compreender para conscientizar, tratar e prevenir danos maiores aos envolvidos. A melhor forma de tratar os efeitos da alienação parental deve ser decidida pelo profissional da psicologia com base no caso concreto apresentado com vistas a atenuar os traumas advindos desse abuso, bem como impedir sua propagação. A psicoterapia se constitui aqui, campo de elaboração dos afetos (CHEFER; RADUY; MEHL, 2016). Sob a perspectiva Winnicottiana, a elaboração desses conteúdos adentra o setting psicanalítico pela via da projeção, dentro da onipotência do paciente. Esse lugar é construído de modo semelhante à preocupação materna primária. Tal como a mãe se torna internamente disponível a dispensar os cuidados suficientemente bons ao bebê, o analista se torna sensível à regressão do paciente aos primórdios das fases de dependência, de modo a satisfazer suas respectivas necessidades (WINNICOTT, 1983). Sob esta ótica todos os envolvidos no delicado processo da alienação parental podem ser assistidos, isto é, alienantes, genitores alienados e filhos alienados. Isto porque ao psicoterapeuta é possibilitado identificar por meio da oferta dos cuidados suficientemente bons a origem do sofrimento e, então, supri-los de modo que ao final se possa vislumbrar um sujeito autônomo, emocionalmente responsável (ARAÚJO; CARMO, 2014). Para Jesus e Cotta (2016), o psicólogo atuante no âmbito escolar deve ter subsídios teóricos e práticos para lidar com a alienação parental, especialmente por meio de ações que visem intermediar o diálogo entre os personagens centrais dessa trama e a comunidade social que a cerca: a escola, os alunos e a família. No contexto jurídico, o psicólogo tem a função de perito. Nesse cenário, a experiência e qualificação do profissional devem ser intensas, podendo atuar como técnico do Juiz ou assistente técnico das partes. Enquanto auxiliar do Juízo, o psicólogo tem a importante função de avaliar adequadamente e imparcialmente o contexto da alienação parental em consonância com o conhecimento ético-técnico-prático que possui, a fim de responder os quesitos formulados pelo juiz e pelas partes. É certo que não há um intento decisório, qualidade privativa do juiz, mas tão somente o intuito de esclarecer aspectos que fogem do campo de conhecimento dos operadores da lei (CHEFER; RADUY; MEHL, 2016). 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS O objetivo deste trabalho foi compreender os impactos psicológicos nos filhos submetidos à alienação parental. Para tanto, se fez necessário compreender alguns dos aspectos que cercam o tema, a saber, o processo de desenvolvimento emocional apresentado, nesta pesquisa, sob o enfoque Winnicottiano; as mudanças na dinâmica familiar; a definição de alienação parental e aspectos adjacentes; o sujeito alienador e os pontos éticos e de atuação do psicólogo frente à alienação parental. A fim de subsidiar este percurso, utilizou-se o método de pesquisa bibliográfica que possibilitou o encontro com as possíveis respostas ao ponto nodal desta pesquisa. Foi possível compreender que a alienação parental está atrelada ao modo pelo qual uma figura afetivamente importante macula a imagem do genitor contrário, de modo a afastá-lo física e afetivamente dos filhos. Como ferramentas de implantação deste processo, está o incutir falsas memórias sobre fatos ou eventos traumáticos que nunca aconteceram, além de manipular situações e obstar de diversos modos o contato entre genitor e filho alienado. No tocante ao desenvolvimento emocional, se pode entender que há o que é herdado e o que é particular a cada ser humano, entretanto, ambos só se desenvolvem positivamente quando há a oferta dos cuidados maternos suficientemente bons, sejam físicos ou afetivos e que só podem ser propiciados por uma figura altamente identificada com o sujeito, de modo a suprir suas necessidades de acordo com sua fase de desenvolvimento. Tem-se como resultado positivo desta inclinação, o desenvolvimento de uma personalidade una, espontânea e responsável em relação à sociedade compartilhada. No campo oposto, na insuficiência destes cuidados, o sujeito tem a sua própria individualidade comprometida, tornando-se submissa, artificial e imatura em relação ao mundo. Nesse sentido, especula-se que a individualidade do sujeito e, por conseguinte, suasrelações sociais, podem ser impactadas pela vivência da alienação parental, na medida em que ela pode ser observada enquanto falha ambiental que pode obstar o processo de amadurecimento do sujeito, inviabilizando o seu estar no mundo enquanto ser real, autônomo e espontâneo. O sofrimento psíquico, assim, é imposto, sem questionamentos, a quem deveria receber o afeto de todas as figuras que o cercam. O viver vago e falsamente podem ser notados nesses indivíduos pelo comportamento artificial, longe da espontaneidade ou pouco compatível com a idade. Há, ainda, a possibilidade de reprodução do sofrimento vivenciado, assumindo em suas relações posteriores o papel de quem aliena ou de quem é alienado. Foi possível, ainda, cogitar a existência de sofrimento por trás da maléfica conduta do alienador. As incansáveis tentativas de separar genitor e filho, tomando-o unicamente para si, pode estar relacionado ao rompimento precoce da simbiose materna em um momento em que o sujeito já podia identificar esses cuidados. A alienação nesse sentido, se transforma no modo pelo qual ele espera que o meio repare o sofrimento por ele vivenciado. Importante se fez compreender algumas das multifacetas da alienação parental, na medida em que este tema deve constituir campo de saber para as diversas formas de atuação da psicologia, a exemplo disso, a clínica, a escola e o judiciário, lugares atravessados pela dinâmica familiar. No que concerne à psicologia clínica Winnicottiana, especialmente, pode- se compreender que o psicólogo deve se tornar sensível às necessidades do paciente, assim como a mãe suficientemente boa, pela via da projeção. É somente assim que as urgências do paciente podem ser por ele enfrentadas e adequadamente supridas. Coloca-se, por oportuno, o desafio que há para a psicologia acerca da apropriação de um campo que a ela também pertence por meio de pesquisas fundamentas acerca do tema em comento, a fim de enriquecer os debates nos mais diversos campos do saber com o olhar da psicologia 6 REFERÊNCIAS ARAÚJO, Sandra Maria Baccara; CARMO, Thalita Faria Machado do. O Sujeito Alienador. In: SILVA, Alan Minas Ribeiro da; BORBA, Daniela Vitorino (Orgs.). A Morte Inventada: Alienação Parental em Ensaios e Vozes. São Paulo: Saraiva, 2014. p. 205-212. BOCH-GALHAU, Wilfrid Von. Parental Alienation (Syndrome): A serious form of psychological child abuse. 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