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Unidade 01
Aula 01
Arte Medieval – O Gótico
Introdução
Bem-vindo(a) à disciplina Tópicos de História da Arte, Design e Arquitetura. Nela, abordaremos, a
partir de uma contextualização sintética, a caracterização panorâmica das artes visuais definidas
dentro dos períodos e movimentos culturais ocidentais, subdivididos temporalmente e segundo
tendências estilísticas.
Trabalharemos nosso conteúdo com ênfase nos aspectos concernentes ao design e à arquitetura,
tendo em mente que a sintetização das características gerais do estilo ou do período quanto às
artes gerais, como pintura e escultura, já está embasada, introduzindo, assim, brevemente, algumas
características formais e nomeando entes de destaque, sem nos atermos à análise específica.
Pretendemos, com esse conteúdo, que você compreenda os processos de mudanças e alterações
quanto às percepções e definições da cultura visual ao longo do tempo, entendendo as relações, as
consonâncias e as dissonâncias entre arte e cultura visual em si e estabelecendo sua dimensão
global na história social aplicada.
Considerar-se-á, para isso, na primeira unidade, o transpasso do tempo entre a era medieval e o
rococó, incluindo as definições estilísticas do design, tendo como ponto de partida o período Gótico
medieval.  Ao final desta aula, você será capaz de:
identificar as características que definem o período Gótico tanto na pintura quanto na
escultura;
conceituar e definir o estilo arquitetônico e de design Gótico, identificando os elementos
compositivos;
estabelecer marcos contextuais que definem as variações e a transição entre o Gótico e o
Renascimento.
Arte Medieval - O Gótico
Apesar da Idade Média ter seu início datado no ano de 476 e durar até meados do século XV,
consideramos o consumo e a produção de arte como algo sólido a partir dos séculos XIII e XIV. O
período artístico é compreendido entre o estilo românico e o início do Renascimento,
contextualizado na fundamentação dos espectros cristãos, nos períodos das cruzadas, da queda de
Constantinopla e da Reforma Católica – devido à difusão de ideias que os movimentos e translados
do comércio, das guerras e da diplomacia permitiram, ao fazerem com que o mundo católico tivesse
contato com o oriente e as américas, ou seja, tivesse contato com os acontecimentos além de suas
fronteiras, o que  teve impacto direto no conceito, na produção de arte e na disseminação de obras
e artistas  (BARKER; EDWARDS; WOODS, on-line).
Nesse sentido, o que se considera como arte medieval reúne uma produção extensa que inclui a
produção bizantina e árabe, porém o que consideramos arte gótica (também chamada de ogival)
representa a fase culminante do pensamento medieval na Europa, ligada, principalmente, à cultura
católica.
O Gótico, diferente do Românico, por exemplo, que teve início em diversos centros, tem origem no
norte da França e se expande dali para o restante da Europa, não só como estilo arquitetônico mas
também escultórico e pictórico.
O termo gótico foi utilizado, originalmente, pelos renascentistas, no sentido pejorativo, fazia
referência ao povo godo, povo bárbaro de origem germânica, ou seja, era considerado estranho,
monstruoso e vulgar em relação ao clássico.  A partir do século XVIII, começa na Inglaterra, e segue
por toda a Europa um processo de reavaliação do estilo artístico que elimina os aspectos negativos
associados ao termo. Hoje, a arte produzida no período é considerada uma das mais cheias de
significância (PROENÇA, 2008; JANSON; JANSON, 2003).
Devido ao extenso período que corresponde ao Gótico medieval e a sua difusão geográfica, os
estudiosos da arte e da arquitetura necessitam caracterizar e considerar as inflexões definidas por
diferentes momentos e contextos. Portanto, apesar das características generalistas quanto à
leveza, à verticalidade das construções e às tendências naturalistas e realistas na escultura e na
pintura, cada período e região podem apresentar variações.
ATENÇÃO
No início da Era Medieval, não havia cidades, a vida social se desenvolvia no campo e nos
mosteiros, porém, com o incremento do comércio, surgem os burgos e, com eles, uma nova
classe social formada pelos comerciantes, a burguesia. Desenvolve-se a vida urbana e, nela,
passa-se a cultivar a arte e a cultura. A expansão do gótico nos séculos XIV e XV acompanha
esse movimento de crescimento do comércio e das cidades.
Fonte:  Adaptada de Gombrich (1995).
O Gótico na Arquitetura
O Gótico, como estilo artístico europeu, expressa-se de forma relevante por meio da arquitetura. É
na arquitetura religiosa que o Gótico predomina nos séculos XII e XIII, passando a ser utilizado
também na construção civil nos séculos posteriores.
Sinteticamente, podemos descrever como principais características dessa arquitetura gótica, tanto
religiosa quanto civil, o rompimento com o horizontalismo românico e uma tendência à
verticalização baseada na dinâmica de distribuição das forças, no uso do arco ogival (ou quebrado),
tendência vinda do oriente, e de abóbadas de arcos cruzados, que possibilitaram maior robustez
das cúpulas e maior segurança (BATTISTONI FILHO, 2012).
As abóbadas eram feitas baseadas no sistema de arestas, que consiste em dividir a abóbada em
planos que, ao se interpenetrarem, formam uma superfície côncava. Ao se conectarem, as arestas
formam arcos ogivais que se cruzam diagonalmente, no centro ou na chave da abóbada.
Quando discutimos a história de tempos remotos, a estratificação do tempo em espaços
cronológicos, em períodos bem demarcados, funciona de forma simples, porém, a partir do
momento que nos aproximamos do presente e as informações adquirem maior precisão, esse
processo fica mais difícil. É aí que nos utilizamos de demarcações não só temporais como
também físico-espaciais para definir a profundidade do evento histórico. Quando falamos do
Gótico, por exemplo, utilizamo-nos dessa divisão físico-espacial, já que, em alguns lugares, como
a Itália, o Gótico durou apenas 150 anos, enquanto em outros, como Paris e arredores franceses,
cerca de 400 anos. Essa análise mais profunda também é feita devido ao fato de o Gótico, como
estilo, não se mostrar constante em todas as artes visuais, sendo na arquitetura seu maior
destaque.
Fonte: adaptada de Janson; Janson (2003).
ATENÇÃO
Esse sistema permitiu uma menor espessura tanto da base quanto da abóbada em si, porém exigiu,
também, o uso do arcobotante. Este surgiu como uma evolução do contraforte românico e recebeu
as forças de repulsão das abóbadas. Os arcobotantes ofereciam maior estabilidade e resistência e,
ao mesmo tempo, serviam para o escoamento das águas pelas gárgulas (BATTISTONI FILHO,
2012).
Figura 1 - Arcos, abóbadas e feixe de colunas – Catedral de Reims - França.
Fonte: MM / Wikimedia Commons
Ao mesmo tempo que detinham a função de escoamento d’água e evitavam que a água
escorresse diretamente pelas paredes, segundo as crenças do período, as gárgulas também
espantavam o mal, por isso, eram representadas por figuras monstruosas.
SAIBA MAIS
Figura 2 - Gárgula.
Fonte: Michael Reeve / Wikimedia Commons
O uso de vitrais rendilhados e em forma de rosácea (vitral com forma semelhante à de uma flor e
suas pétalas) ou quatrefoils (em forma de flor com quatro pétalas) também é uma característica
marcante do estilo. Os vitrais são elementos essenciais da arquitetura gótica, já que esta se utiliza
de grandes vãos para captar a máxima luminosidade. Seu uso foi permitido a partir do momento
que as paredes deixaram de servir como sustentáculo da estrutura. As paredes pesadas foram
substituídas por arcos e suportes amparados pelos arcobotantes, o que tornava a construção leve e
ajudava a acentuar a luminosidade.
No início, os vitrais eram feitos da junção, por meio de uma estrutura de chumbo, de pedaços de
diversos vidros de diferentes cores, que, unidos, resultavam nas figuras e nas cenas. Esse método
era inovador, por adicionar cor mediante os elementos químicos ao vidroSanta Maria della Vittoria, em Roma, é feita de
mármore e traz ao ambiente religioso toda a devassidão das sensações humanas (veja a figura de
capa da aula).
Na Espanha, as esculturas famosas são as produzidas em madeira policromada, que representam as
figuras religiosas muito realistas e sempre vestidas com muitos adornos, joias e pedras preciosas
nos olhos. Obras de Alonso Cano, como um Santo Antônio em madeira, na Catedral de Murcia, e
Cristo Crucificado, de Martinez Montanes, na catedral de Sevilha, são reconhecidas por seu
realismo quase patético, já que as obras são consideradas de rua, e não de palácios, por estarem
presentes em procissões comuns em Andaluzia e em Casela (BATTISTONI FILHO, 2012).
O Barroco na Arquitetura
No período, os grandes temas produzidos pelo barroco são: a cidade, o planejamento urbano, que é
posto em prática, a igreja, em todas suas esferas, e o palácio e as casas residenciais de nobres
(BATTISTONI FILHO, 2012).
O Barroco na arquitetura torna-se complexo, irregular e intrincado, buscando gerar impacto e
produzindo ambientes dramatizados com contrastes e efeitos de luz e sombra representados com
maior força nas praças – como Place Deuphine (1599-1606), Place des Victoires (Place dos Voges)
(1604-1612) e Place Vendôme, sempre regulares e dispostas em locais estratégicos, focando na
expansão urbana.
SAIBA MAIS
Enquanto o Barroco se desenvolveu como arte, o contexto científico se aprimorou, surgiu o
conceito de celsius e as medidas dos graus centígrados proposta pelo astrônomo sueco
Anders Celsius (1701-1744), Mozart compôs aos 8 anos, em 1764, e se efetuou o primeiro
voo de balão, em 1783.
Fonte: Elaborado pela autora.
Na França, a construção barroca de praças se divide em dois estilos, o que tende às ideias italianas,
chamadas, então, de “places royales”, e outro que se volta mais ao paisagismo francês de caráter
geométrico, amplo e organizado, para gerar grandes perspectivas (BATTISTONI FILHO, 2012).
Palácios reais, como o Louvre e Versailles, são exemplos do Barroco francês. Além desses exemplos
de construções no período, ainda se destacam as bibliotecas, os institutos de astronomia, botânica
e zoologia e os edifícios públicos em geral.
Todas essas construções tinham como objetivo definir a expansão urbana projetada para transmitir
um ar de modernidade, organização e espaço às cidades antigas. Os projetos de expansão
buscavam facilitar a circulação, ampliando as ruas estreitas e tortuosas medievais. Os projetos, em
sua maioria, previam a organização radial de ruas e avenidas e o embelezamento de praças e
parques com fontes e monumentos, em uma perspectiva monumental. Esse processo de
embelezamento das cidades se tornou eficiente e foi sendo aprimorado ao longo do século,
modificando radicalmente os perfis urbanos de diversas cidades na Europa.
Figura 6 - Place des Victoires (Place des Voges) – (1604-1612).
Fonte: Nogueira (2017a, p. 12)
Figura 7 - Expansão urbana francesa durante o Barroco
Fonte: Nogueira (2017a, p. 11)
Na construção de tema civil, o Palácio de Versalhes é o grande referencial, ele foi construído em
1660 por Luís XIV, dirigido por Louis le Vau, executado por mais de 36 mil trabalhadores para
abrigar mais de 100 mil pessoas (NOGUEIRA, 2017). O objetivo do Palácio era criar uma cidade real
ocupada pelos entes próximos à corte do rei, cujas conexões levariam aos principais pontos de
Paris. Considerado uma das maiores construções da história, o local impressiona tanto na parte
externa quanto na interna. Nele, os corredores são cobertos de espelhos e, no outro lado, de
grandes aberturas. Os cômodos são subdivididos em pequenos apartamentos, para dar maior
conforto aos convidados. Na galeria de espelhos, os jardins e suas perspectivas são projetados
pelas grandes janelas que reduzem as paredes ao mínimo necessário para suporte e integram, de
forma única, interior e exterior (BATTISTONI FILHO, 2012).
Figura 8 - Palácio do Louvre, Palácio das Tulherias e a Grande Galeria - 1615.
Fonte: Nogueira (2017a, p. 30)
Figura 9 - Da esquerda para direita: Luís XIV ordenando a construção do Hotel dos Inválidos,
Locação do Hotel e Fachada principal
Fonte: Nogueira (2017a, p. 16-17)
Figura 10 - Planta palácio de Versalhes - Piso principal (1837), em vermelho, a Galeria de Espelhos,
em verde, o Hall das Batalhas, em amarelo, a Capela Real e, em lilás, a Ópera.
Fonte: Nogueira (2017a, p. 38)
Figura 11 - Planta pavimento superior, Apartamentos (1676) - em amarelo, aposentos da rainha e,
em lilás, os aposentos do rei
Fonte: Nogueira (2017a, p. 39)
Figura 12 - Vista aérea do Palácio de Versalhes.
Fonte: Nogueira (2017a, p. 37)
Das obras religiosas do período, destacam-se os projetos de Vignola e della Portas. As diferenças
introduzidas pelo Barroco nas igrejas foram a supressão do transepto, a ênfase na axialidade e o
encurtamento da nave; procurava obter uma acústica interna eficaz. A fachada se tornou um
modelo para as gerações futuras de igrejas jesuítas, com pilastras duplas sustentando um frontão,
no primeiro nível, e um outro frontão, maior, coroando toda a composição.
Na arquitetura das igrejas, os conceitos impostos pela Contrarreforma estabeleciam que houvesse
a união e a participação dos fiéis, mas que sua posição em relação ao culto fosse claramente
marcada, isso fez com que o formato das naves das basílicas se alterasse da cruz grega para a cruz
latina, que, ao possuir um lado mais extenso, determinava com clareza a posição dos fiéis ao longo
da nave e o altar-mor e o coro na porção menor, além de proporcionar o acontecimento de
procissões e a construção de capelas ao longo das laterais da naves principais. Outra característica
marcante é a preferência por coberturas em abóbadas que marcavam e direcionavam a luz e
acentuavam a verticalidade marcando o céu (BATTISTONI FILHO, 2012).
Figura 13 - Ópera Palácio de Versalhes.
Fonte: Nogueira (2017a,  p. 45)
Figura 14 - Igreja barroca portuguesa.
Fonte: Acervo pessoal da autora
Os elementos que caracterizam as construções barrocas são: uso da voluta, elemento curvo,
marcam as construções de grande porte e religiosas, colunas torsas ou salomônicas, que
proporcionam a sensação de movimento, de cúpulas, que agora recebem infinitas pinturas e
adorno, fachadas ressaltadas, nas quais a parte central é extremamente detalhada e recebe
destaque. Preferem-se, no período, torres duplas, molduras sob as janelas etc. (BATTISTONI
FILHO, 2012).
Roma foi a capital do Barroco em suas formas gerais, como centro da religiosidade, e a máxima
representante dele, por meio da Praça de São Pedro (1656-1657), projetada por Gian Lorenzo
Bernini, com grandes colunatas que, para Bernini, faziam uma correção visual na fachada da
Basílica. Outra praça produzida por Borromini e Bernini, a Praça Navona, tem um espaço integrado
e equilibrado com a fonte dos Quatro Rios de Bernini e um obelisco ao centro rodeado de figuras
em movimento, em contraste com a dureza do mármore e a leveza da água  (BATTISTONI FILHO,
2012).
O Barroco no Design
O Barroco no design foi a tendência seguida no século XVII, caracterizado pela decoração rica em
detalhes e mais majestosa do que sua antecessora; o Barroco se espalhou rapidamente pela Europa.
Na França, a tendência foi nomeada de Luís XIV, sobre o qual falaremos mais na nossa última aula
desta unidade.
O design barroco, originário da Itália, privilegiava as emoções frente ao racionalismo renascentista
e, para tanto, buscava criar efeitos decorativos e visuais por meio de entalhes, molduramento e
efeitos visuais (BATTISTONI FILHO, 2012).
O design barroco baseava-se na integração das artes. Todos os espaços, elementos e objetos eram
pensados de forma envolvente e expressos de forma exemplar nos palácios, nas óperas e nas igrejas
construídas no período. Até mesmo os protestantes adotaram princípios estéticos barrocos, porém
não como forma de doutrinação, como os católicos faziam por meio da iconografia. Os absolutistascatólicos utilizavam-se da estética barroca para representar seu poder, luxo e ostentação. O
esplendor e a pompa tornaram-se mais importantes nos desenhos de interiores do que o conforto e
a conveniência.
Caracteristicamente, o design toma para si as mesmas características das artes plásticas. Adotaram-
se formas curvas, volutas, espirais, abundantemente ornamentadas com motivos e temas diversos,
uso de materiais nobres, raros e preciosos, de madeiras, madrepérola, tartaruga, pedras, ouro e
prata, mármores em diversas cores, vitrais e cúpulas pintadas, grandes espelhos e quadros em
molduras douradas. As colunas tornaram-se espiraladas, as fachadas receberam tratamento em
alto relevo, escultórico, as janelas foram feitas em diferentes formatos, ovoide, estrelada etc.,
cornijas e beirais tornaram-se bases escultóricas para anjos e deidades, as mísulas também
receberam tratamento escultórico com temáticas,  pisos recebiam desenhos de acordo com o novo
estilo, a talha em madeira recebia destaque, e a cobertura em ouro dos ornamentos refletia a ideia
de ostentação (LIMA, 2005).
Figura 15 - Interior Hotel Soubise.
Fonte: Nogueira (2017a, p. 22)
Figura 16 - Interior Barroco.
Fonte: Nogueira (2017a, p. 44)
No design de móveis, as formas seguem esses mesmos padrões, com destaque para o aumento das
proporções e dos ornamentos. O abuso de ornamentos se deu porque estes se tornaram mais
acessíveis à população burguesa, que, ao refletir seu status, sentia-se mais poderosa e em pé de
igualdade para com a alta sociedade.
O design do mobiliário barroco é caracterizado apenas no final do século XVII, até então apenas as
superfícies receberam influências do estilo, a partir daí móveis, estofados, até livros como
ornamentos são usados nos interiores e se assumiu a utilização de detalhes e entalhes em peças
como armários e cômodas (LIMA, 2005).
Figura 17 - Salão dos Espelhos do Palácio de Versalhes.
Fonte: Zimmermann (on-line)
Figura 18 - Interior do palácio Charlottenburg - Munique - Alemanha.
Fonte: Zimmermann (on-line)
Barroco no Brasil
No Brasil, o Barroco se estendeu até o século XIX, tendo sido introduzido pelos missionários
jesuítas e portugueses no processo de colonização, e se deu de forma expressiva por meio das
esculturas como complemento da arquitetura (BATTISTONI FILHO, 2012).
As características do Barroco europeu se repetem no Brasil: estilo dinâmico, narrativo, ornamental,
dramático, cultivando os contrastes e uma plasticidade sedutora. Trazida pelos católicos e muito
ligada à Igreja e ao Estado na posição de solicitante da produção artística, a arte assumia uma
postura em essência funcional, porque, além de decorativa, auxiliava na doutrinação como
instrumento catequético. Índios e negros escravos passavam por esse processo.
Figura 19 - Interior Barroco.
Fonte: Nogueira (2017a, p. 42)
Figura 20 -  Diferença de fachadas barrocas nas Igrejas do Brasil.
Fonte: Nogueira (2017b, p. 19)
O Barroco no Brasil aconteceu simultaneamente às construções do estilo na Europa, em relação às
de cunho religioso. Em 1577, Francisco Dias, arquiteto jesuíta, veio ao Brasil para construir o Real
Colégio Jesuíta de Olinda, com a igreja de nossa Senhora da Graça. A igreja foi construída em 1580
e incendiada pelos holandeses em 1631, ela seguia as indicações e referências da igreja de São
Roque, em Lisboa, e foi restaurada posteriormente seguindo a mesma referência. A principal obra
do arquiteto jesuíta no Brasil foi o conjunto produzido em Salvador no século XVIII (BATTISTONI
FILHO, 2012).
No Brasil, na pintura barroca, destacam-se José de Oliveira Rosa, no Rio de Janeiro, considerado o
fundador da Escola Fluminense de pintura, e seus retratos e quadros religiosos, porém a maior
figura da pintura no estilo barroco brasileira foi Manuel da Costa Ataíde, pintor mineiro, com seu
trabalho nas igrejas de Ouro Preto no período do ciclo do ouro. Um aspecto característico das obras
de Ataíde são as representações das figuras humanas em tons mulatos (BATTISTONI FILHO, 2012).
Na escultura barroca brasileira, o principal representante foi Antônio Francisco Lisboa (1730-
1814), conhecido como Aleijadinho, que realizou inúmeras obras em Minas Gerais, incluindo as 96
estátuas dos passos da paixão de Cristo, as quais estão, hoje, em Congonhas do Campo
(BATTISTONI FILHO, 2012).
O design barroco no Brasil teve influência e foi determinado por Portugal e representava uma
espécie de contraste entre ostentação e austeridade.
Figura 21 - Interior Igreja Barroca.
Fonte: Zimmermann (on-line)
O mobiliário brasileiro origina-se no século XVI. Anteriormente, ele era trazido da Europa, luxuoso
e ornamental, com influência indiana e oriental, pelas navegações feitas pelos colonizadores, agora,
ganhava traços originais de influência indígena, com redes e jiraus presentes nas primeiras
residências.
Os móveis de assento, bancos e cadeiras, eram simples e podiam ser desde toras de madeira a
cadeiras com decoração mínima. Para algumas tribos indígenas da época, as cadeiras eram apenas
para os homens. Somente no final desse mesmo século é que aparecem nas cadeiras o espaldar
ligeiramente inclinado para trás, como nas cadeiras portuguesas. Quando tinham braços, as
cadeiras dessa época eram chamadas cadeiras de espaldar; se não tivessem braços, eram
designadas por tamboretes.
Além dos móveis de assento, também eram produzidos de maneira rústica baús, em couro e
madeira, utilizados, ainda hoje, no interior. Conforme os colonizadores e seus descendentes iam se
desenvolvendo e enriquecendo no país, o mobiliário ia se tornando mais desenvolvido.
A partir da segunda metade do século XVII, os moveleiros brasileiros já imitavam os móveis
quinhentistas vindos de Portugal, de forma mais rústica, com maiores proporções e com madeiras
como o cedro, a canela e outras originais do Brasil. Nesses móveis, executavam-se, também, alguns
ornamentos que não detinham a preciosidade para fim de mercado, mas pelo trabalho bem feito.
A partir da instalação das ordens religiosas no país, o mobiliário funcional religioso foi também
sendo desenvolvido conforme os modelos europeus, de forma rica e sólida, bastante similar aos
originais.
Durante o período barroco, os móveis eram interpretações brasileiras dos portugueses, que
recebiam o nome de luso-brasileiro, porém, assim como os portugueses, o Brasil também sofre
influências inglesas e francesas. Nesse período, as nossas cadeiras vão se assemelhar bastante às
do estilo Rainha Ana (Queen Anne), como veremos na última aula desta unidade.
Figura 22 - Barroco Interior Brasileiro.
Fonte: Zimmermann (on-line)
Fechamento
Vimos, nesta aula, que o Barroco surge como um estilo exuberante, dramático, dinâmico, que é
cheio de contrastes, realismo e tensão, definido pelo contexto religioso e absolutista que impõe
uma opulência, uma monumentalidade e um exagero formal para demonstrar poder, em contraste a
uma moralidade dúbia.
Na arquitetura e no design, de forma semelhante, as características se repetem e definem um estilo
complexo, irregular e intrincado, buscando gerar impacto, produzindo ambientes dramatizados
com contrastes e efeitos de luz e sombra, uma integração total das artes, ornamentação excessiva,
com uso de materiais raros, nobres e caro e tentativa de criar ilusões teatrais.
Nesta aula, você teve a oportunidade de:
conhecer, compreender e analisar criticamente os fundamentos da cultura visual do período
barroco;
identificar as características que definem o período na arquitetura, como o uso de espirais,
volutas, esculturas em gesso e estuque etc.;
identificar as características do design rebuscado e ricamente ornamentado.
VÍDEO
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Unidade 01
Aula 05
Rococó e demais estilos
Introdução
Considerado um Barroco exagerado (ou mais sofisticado, podemos dizer), o Rococó surge como
estilo no século XVIII, no período transicional entre oBarroco e o Neoclássico, e se caracteriza por
formas ornamentais, delicadas, elegantes, sensuais e leves, linhas curvas em cores claras que
representavam os ideais hedonistas e aristocráticos “libertos” dos patronos, mecenas e igreja,
independentes dentro de um novo mercado.
No Rococó, diferentemente dos outros períodos, havia uma atenção maior voltada às artes
decorativas, arquitetura e design de interiores. As demais manifestações artísticas, como
esculturas e pinturas, eram utilizadas em profusão, mas quase sempre como complemento da
essência decorativa dos ambientes, para traduzir aos mesmos um caráter mais jovial.
A convenção quanto à classificação e o uso de estilos como abordagem na análise da História da
Arte do Design e da Arquitetura permite que características, conceitos e princípios sejam agrupados
de uma forma mais didática, para que se possa compreender determinados períodos. Muitos
autores, atualmente, revogam essa ideia em prol de abordagens mais sociais e contextuais ou
admitem apenas uma classificação temporal e geográfica. Porém, para as artes decorativas, para o
design e para a arquitetura em geral, a noção de estilo expressa tendências que transmitiram
conceitos comerciais e especificações recorrentes.
Nesta aula, veremos alguns estilos que se fizeram presentes dentro do período que analisamos
nesta unidade, e que, por especificações mais detalhadas, situação geográfica e uso frequente,
foram classificados de formas distintas.
Os estilos ou tendências aqui descritos ajudarão a reforçar aspectos que vimos nos conteúdos
anteriores, pois são o testemunho de uma época.
Ao final desta aula, você será capaz de:
identificar as características que definem o estilo Rococó, tanto na pintura quanto na escultura;
conceituar e definir o estilo arquitetônico e de design, identificando seus elementos
compositivos;
estabelecer os estilos contemporâneos que coexistiram com o Rococó.
caracterizar diferentes estilos contemporâneos ao Rococó e ao Barroco;
identificar as características de cada estilo e sua origem.
Rococó
O Rococó, como movimento artístico e cultural, surge na França, entre 1720 e 1770,  numa reação
da sociedade francesa ao Barroco, até então praticado no reinado de Luís XIV. Contextualmente, o
Rococó acontece no mesmo período da Revolução Americana, em 1776, e a Revolução Francesa,
em 1789. O termo Rococó define o estilo caracterizado por formas ornamentais e decorativas
delicadas, elegantes e sensuais, manifestado em temas leves, linhas curvas em cores claras que
representam os ideais hedonistas e aristocráticos. Provém, etimologicamente, de rocaille, palavra
francesa que significa "concha", e representa uma técnica de incrustação de conchas em vidro para
a decoração de grutas artificiais.
O Rococó, assim como outros estilos, foi alvo de críticas e depreciações. Contudo, foi considerado o
estilo da luz, relacionando-se ao século XVIII, chamado “Século das Luzes”. Surge a partir do
momento em que o Barroco migra para temáticas não religiosas. O Rococó é considerado o Barroco
exagerado. Como cultura estilística, no que se refere a arquitetura, design e artes plásticas, no geral,
dá-se entre o Barroco e o Neoclássico.
Como estilo, o Rococó foi considerado patrimônio nacional francês e migrou para outros locais da
Europa, como Alemanha, Inglaterra, Áustria, Itália, Espanha, Portugal, Países Nórdicos e demais
continentes. Porém, manteve apenas seus princípios formais, que se conservaram presentes até
meados do século XIX.
No Brasil, o Barroco estendeu-se e o Rococó surge no início do século XIX, tendo como expoentes
do estilo os mesmos representantes do estilo anterior: José Pereira Arouca; Francisco Xavier de
Brito; Manuel da Costa Ataíde; e António Francisco Lisboa.
O uso dos rótulos de estilo justificam-se a partir da ideia de que seu emprego baseia-se na
análise formal da produção artística, na representação de determinado conceito em
determinados lugares e períodos históricos. No início, os estilos foram utilizados como forma de
depreciação de certos artistas enquadrados em categorias  de maneira ampla, de forma a
desqualificar seu trabalho. Recentemente, o conceito de estilo alterou-se e os artistas passaram
a ser admirados justamente por seguirem determinadas tendências. Conta-se a história de que
os alunos de Jacques-Louis David (1748-1825), artista neoclássico, para hostilizarem a moda da
sociedade francesa que foi dissipada com a Revolução Francesa, chamaram-na de rocaille +
barroco (por isso, Rococó). O termo, antes pejorativo, agora é utilizado para descrever o estilo
erótico, lúdico e decorativo que, no entanto, ainda leva o peso de suposto frívolo, superficial e
decadente, se não analisado de acordo com o lapso temporal no qual se enquadra. Um problema
muito comum em utilizarmos os rótulos de estilo é que eles homogeinizam muitas vertentes que
se distanciam geograficamente. Por exemplo: na França, o Barroco teve pouco impacto, se
comparado à Itália ou à Grã-Bretanha; da mesma forma que o Rococó em si desmembrou-se em
diversos outros estilos (sendo chamados, então, de Estilo Queen Anne, Estilo Regência etc), ou
também chamadas tendências, em países como a Inglaterra, Estados Unidos e Espanha,
conforme veremos em nosso próximo conteúdo.
Fonte: Adaptado de Barker, Edwards e Woods (on-line).
SAIBA MAIS
Figura 1 - William Hogarth, Marriage A-la-Mode: 2, The Tête à Tête, 1743–45.
Fonte: William Hogarth / Wikimedia Commons
O Rococó na Arte
As artes plásticas (em especial, a pintura), durante o período que engloba o Rococó, foram, em
partes, entendidas simplesmente como integrantes do design de interiores. No período, a arte
posicionava-se independente. Já não havia mais a pressão dos patronos e nem da Igreja de forma
explícita e o mercado estava aberto.
A pintura no Rococó dividiu-se entre o retrato de época e como elemento decorativo monumental.
Estabeleceu-se e ascendeu até meado do século XVIII, quando ocorreu a Revolução Francesa,
ocasião em que os conceitos considerados frívolos já não condiziam com os ideais burgueses e
iluministas, fazendo, então com que o estilo caísse em descrédito.
No início do século XIX, a pintura no Rococó foi considerada um testemunho do período anterior,
retrato dos costumes, da cultura e do estilo de vida da sociedade europeia. A arte Rococó definiu-se
como bem cultural francês, conforme dito anteriormente, e seu valor estético, único e original
levantou questionamentos que foram, posteriormente, discutidos no desenvolver das artes
modernas.
Surge no final do século XVII uma mudança significativa na "cultura representacional", que
incorporava a "esfera pública burguesa" à apreciação da arte, composta por pessoas de classe
média, como comerciantes e advogados, que se uniam para trocar notícias e ideias que deram
origem a novas instituições culturais, como jornais, clubes, bibliotecas de empréstimo e teatros
públicos. Essa interface fez com que o interesse público pela arte crescesse rapidamente
durante o século XVIII, crescimento esse que foi auxiliado pela imprensa em expansão, que
difundia a arte para um público cada vez maior, que começava, também, a participar das
exposições realizadas durante as décadas intermediárias do século. Os primeiros museus
públicos foram criados na mesma época. A maioria apresentava coleções reais e principescas
abertas ao público, fosse como um gesto benevolente por parte do governante ou, no caso do
Louvre, pelo governo revolucionário francês em 1793.Fonte: Adaptado de Barker, Edwards e
Woods (on-line).
SAIBA MAIS
Nas artes plásticas, os artistas mais reconhecidos foram: François Boucher; Antoine Watteau; e
Jean-Honoré Fragonard.
As esculturas, na época, também receberam destaque por sua aplicação nos interiores, rompendo
de forma decisiva com as posturas do Barroco. No Rococó, as esculturas caracterizam-se por serem
menores, mais leves, utilizando-se do gesso ou madeira e já não mais de pedras e mármores.São
suaves, demonstrando menor tensão e dramaticidade, e sua temática define-se a partir dos motivos
decorativos aplicados como um todo. Os representantes de renome do estilo foram: Antonio
Corradini; Guillaume Coustou; Étienne-Maurice Falconet; e o brasileiro Aleijadinho.
Surgem os bibelôs no mercado, produzidos em porcelana. Em sua grande maioria, fizeram a região
de Sèvres, produtora dos mesmos, tornar-se famosa. Os famosos souvenirs eram pequenos
artefatos, leves, coloridos e com temáticas  simplórias.
Figura 2 - A Marquesa de Pompadour - François Boucher.
Fonte: François Boucher / Wikimedia Commons
Figura 3 - Les Plaisirs du bal - Antoine Watteau.
Fonte: Antoine Watteau /  Wikimedia Commons
Figura 4 - Coustou - L'été.
Fonte: Guillaume Coustou / Wikimedia Commons
Figura 5 - Winter Hermitage - Étienne Maurice Falconet.
Fonte: Yair Haklai / Wikimedia Commons
Figura 6 - Bibelô de Porcelana.
Fonte: Nicolas Lancret / Wikimedia Commons
O Rococó na Arquitetura
O Rococó como estilo é representado mais no design que na arquitetura. Assim, interiores e
mobiliários ganham destaque. Na arquitetura, o Rococó preza pela sobriedade de seu exterior em
contraposição aos excessos dos interiores. Caracteriza-se por grandes aberturas. A Rocaille
(concha) é um elemento frequente, e já não se faz uso das ordens clássicas. Também, as cores
utilizadas são etéreas e suaves, e as curvas, inspiradas na natureza, são elementos constantes.
Figura 7 - Porcelana de Sèvres.
Fonte: Jean-Charles Develly / Wikimedia Commons
Figura 8 - Palácio de Würzburg, na Alemanha
Fonte: Rainer Lippert / Wikimedia Commons
Figura 9 - Nave da Igreja de St. Michael em Tyrol, Austria.
Fonte: Ansgar Koreng / Wikimedia Commons
ATENÇÃO
No Rococó, que é considerado o estilo que complementa o Barroco com ornamentações
exageradas, a voluta é substituída pela concha (do francês, rocaille), que dá nome ao
movimento.
Fonte: Adaptado de Battistoni Filho (2012).
O Rococó no Design
O design característico do Rococó foi representado na decoração de interiores, no design de
artefatos, na ourivesaria e no mobiliário.
O período, apesar de ser preenchido por diversos outros estilos contemporâneos e coexistentes
(como o estilo Luís XV, na França; Guilherme e Maria e Rainha Ana, na Inglaterra; e, no fim do século
XVIII, os estilos Regência, Luís XV, Adam e Hepplewhite e outros), define-se por suas linhas fluídas,
delicadas, cores suaves e pelo caráter lúdico de suas formas.
Uma inovação do período quanto ao design é sua preocupação com a ergonomia testada a partir de
métodos empíricos. Estudava-se, na época, as variações funcionais dos cômodos, dos mobiliários e
dos artefatos em geral. O Rococó buscava uma maior delicadeza na escala e nos objetos e uma
conexão mais íntima entre os móveis e as pessoas. Os móveis passaram a ser constituídos com base
no gosto e na comodidade das pessoas, e não na habitação (LIMA, 2005). Anjos e querubins
aparecem nas decorações.
Figura 10 - Interiores no Estilo Rococó
Fonte: Zimmermann (on-line)
O mobiliário adapta-se a diferentes costumes e práticas. No início do século XVIII, os braços das
cadeiras e seus assentos eram encurvados, mas não para acompanharem a forma dos braços ou
das pernas, e sim para se evitar que os vestidos da época amassassem.
Fonte: Adaptado de Galvão (2016).
ATENÇÃO
Figura 11 - Vestimenta da época.
Fonte: Scan by NYPL  / Wikimedia Commons
Figura 12 - Vestimentas de época, de acordo com a classe social.
Fonte: Nogueira (2017, p. 19)
Figura 13 - Pendule, Charles-Nicolas Du Tertre (1715-1793).
Fonte: Jebulon / Wikimedia Commons
O design de mobiliário desenvolvido no estilo Rococó apresenta linhas leves e curvas sinuosas que
geram um movimento elegante e uma fluidez inspirada na natureza, em motivos orientais,
desenhos florais representados em curvas, na marchetaria e no uso de materiais elegantes, tais
como madeiras variadas, mármore, bronze, porcelana, madrepérola e casca de tartaruga.
Surge no período uma profusão de móveis para os mais variados fins: mesas, estofados, secretárias,
cômodas etc.
Figura 14 - Palácio de Versalhes.
Fonte: Zimmermann (on-line)
Figura 15 - Palácio de Versalhes.
Fonte: Zimmermann (on-line)
Figura 16 - Hotel de Soubise, em Paris.
Fonte: Zimmermann (on-line)
Figura 17 - Interior Rococó.
Fonte: Zimmermann (on-line)
Figura 18 - Palácio de Würzburg, na Alemanha.
Fonte: Zimmermann (on-line)
SAIBA MAIS
O mobiliário revela muito sobre a época em que se realizou, porque reflete, com clareza, as
mudanças e a evolução dos gostos da sociedade que o utilizou. Os móveis mais simples,
direcionados ao grande público, tendiam a ser funcionais e, portanto, atemporais. Mesas e
cadeiras utilizadas pela classe trabalhadora no século XVII eram muito similares às mesas e
cadeiras utilizadas por algumas sociedades no início do século XIX. Muitas vezes, os
interiores rurais tendem a ser extraordinariamente parecidos.
Fonte: Adaptado de Lima (2005).
Estilos
Entre as várias abordagens que foram aplicadas ao estudo da arte produzida entre os séculos XVII e
XIX, a mais usual e importante é aquela que se baseia no conceito de estilo, a qual, também,
utilizamos aqui, em nosso conteúdo.
Por meio desse método, os historiadores veem a arte como uma sucessão de estilos: Barroco no
século XVII; Rococó na primeira metade do século XVIII; Neoclassicismo até o final do século XVIII;
Romantismo no início do século XIX; e assim por diante. Porém, essa abordagem foi praticamente
invalidada a partir dos anos 1970, já que tais rótulos restringem muito a arte de toda uma época.
Apesar de ainda serem utilizados os rótulos de estilo, as publicações mais recentes tendem a
utilizar como títulos “Arte do Século XVII” ou “Arte na Europa de 1700 a 1830” (BARKER;
EDWARDS; WOODS, on-line). Para utilizarmos os rótulos de estilos, precisamos definir e examinar
se a forma como foram conceituados se adequa à forma sob a qual iremos estudar o
desenvolvimento artístico.
ÉPOCA ESTILO FRANÇA ITÁLIA ESPANHA ALEMANHA INGLATERRA
1600 RENASCIMENTO
Henrique IV
Luís XIII
Renascimento Renascimento Renascimento
Isabelino
Jacobino
1650 BARROCO Luís IV Barroco Barroco Barroco
Restauração
Guilherme e Maria
Rainha Ana
1700 ROCOCÓ Regência Veneziano Rococó Rococó
Georgiano
Chippendale
VÍDEO
Olá, estudante! Para assistir a esse vídeo, acesse a versão web do seu material didático.
1750 NEOCLÁSSICO Luís XV Neoclássico Carlos IV Neoclássico
Adam
Hepplewhite
1800 IMPÉRIO
Diretório
Consulado
Império
Império Ferdinandino Império
Sheraton
Regência
1850 ROMANTISMO
Restauração
Luís Felipe
Napoleão III
Romantismo Isabelino Romantismo Vitoriano
1900 MODERNO
Art Nouveau
Cubismo
Floral
Cubismo
Modernismo
Cubismo
Jugendstil
Bauhaus
Art And Crafts
Modern Style
Cubismo
1950 CONTEMPORÂNEO
Funcionalismo
Organicismo
Design
Funcionalismo
Organicismo
Design
Funcionalismo
Organicismo
Design
Funcionalismo
Organicismo
Design
Funcionalismo
Organicismo
Design
Quadro 1 - Cronologia de Estilos
Fonte: Galvão (2016, p. 3)
Em nosso caso, além de o conceito de estilo ser didaticamente mais reconhecível, ainda é o mais
usual quando falamos em design. Ao tratar especificamente do design de interiores e mobiliário, o
conceito costuma subdividir-se ainda mais, conforme veremos ao longo desta aula.
ATENÇÃO
Estilo individual + estilo nacional + estilo de época = objetivos de uma História da Arte
abrangente.
Fonte: Elaborado pela autora.
Estilo Luís XIV
O Estilo Luís XIV é uma tendência dentro do design que define o Barroco Francês de forma mais
clara. O estilo expressava as vontades e desmandos do rei Luís XIV (1638-1715) e a ideia de
esplendor, etiqueta e requinte de seu reino e corte (GALVÃO, 2016).
O Estilo Luís XIV marca o reinado de estabilidade financeira e riqueza na França. Portanto, o luxo
era aparente em suas construções, moda e festas, que eram invejadas em toda a Europa. No
entanto, o que se destaca são os interiores.O reinado de Luís XIV é um dos mais famosos da
história e reflete a forte relação existente na época entre arte e poder.
Os estilos definem e refletem os costumes e espírito da época. Nesse sentido, podemos dizer que o
Estilo Luís XIV era masculino, com pouca delicadeza, pesado e taciturno, apesar da ornamentação
excessiva.
Dentro da distribuição dos ambientes, no estilo Luís XIV é primeira vez que os ambientes sala de
jantar e salão aparecem planejados para receber convidados e caracterizam-se por sua
extravagância e riqueza de detalhes e de materiais.
Considerava-se muito importante a ornamentação das paredes, portas e janelas, que tinham
tratamentos arquitetônicos com pesadas molduras, terminando, às vezes, em cornija. A parte de
cima das portas era enfeitada com um medalhão em circunferência ou oval.
As tapeçarias tornaram-se famosas na época e os móveis ficaram em segundo plano. As lareiras, de
pedra ou mármore colorido, não iam mais até o teto. Possuíam como enfeites, na parte de cima, os
quadros ou enormes espelhos e eram decoradas com esculturas e entalhes
A iluminação era feita com lustres em cristal, bronze ou prata. Os lustres eram chamados de
“girândolas”. Eram enfeitados com placas de cristal lapidado, em forma de pirâmide, e suspensos por
correntes de prata ou seda. Eram usados, também, apliques arandelas e candelabros de prata e
cristal (GALVÃO, 2016).
Os tons escuros, como o vermelho-sangue e verde-escuro, predominaram no Barroco francês.
Figura 1 - Quarto de Luís XIV.
Fonte: Photochrom Print Collection / Wikimedia Commons
Figura 2 - The Salon de la Guerre, Château de Versailles, design de Jules Hardouin-Mansart.
Fonte: Barker, Edwards e Woods (on-line)
Apesar de renegado a segundo plano quando o tema era ornamentação, o mobiliário da época foi o
grande legado do estilo. Durante o reinado de Luís XIV até 1667, o mobiliário tinha influências
italianas e flamengas, e depois começou a ter características próprias com a criação da Manufacture
Royale des Meubles de la Couronne (Manufatura dos móveis da Coroa), que definia o desenho e
execução dos mobiliários da corte, seguindo as ordens do pintor Charles le Brun e de outros
designers contratados para tal, como Daniel Marot e Jean Bérain. Ficaram famosos, também, os
mobiliários de André-Charles Boulle, que criou o processo de folhear o mobiliário com uma
combinação de ébano, tartaruga, estanho, latão e madrepérola, não necessariamente com todos em
uma só peça.
Caracteristicamente, o mobiliário da época era definido em grandes proporções, absolutamente
simétrico, muito luxuoso, dourado ou ornamentado com incrustações de metais. Na estrutura dos
móveis predominavam linhas retas, e as curvas eram severas e dignas. Os painéis eram
retangulares, limitados por molduras arquitetônicas. As madeiras utilizadas eram o carvalho, o
ébano e o castanheiro.
Os temas decorativos eram muito variados: motivos baseados na imitação de lambrequins, franjas,
pregas e faixas; relacionados com a arte da guerra (troféus, capacetes, escudos e flechas); de origem
vegetal (folhas, grinaldas e festões de flores e frutos, folhagens mais ou menos  complexas e, com
frequência, uma cornucópia); de origem animal (cabeças de leão, grifos, golfinhos e esfinges); de
origem humana ou antropomórfica (máscaras, sóis com feições humanas, carrancas grotescas); e,
por último, motivos geométricos, utilizados principalmente para ornamentar os fundos, à base de
molduras, esquemas florais, losangos simples, lisos, e grandes losangos em ponta de diamante.
Figura 3 - Salão Luís XIV.
Fonte: MFSG / Wikimedia Commons
SAIBA MAIS
O rei Luís XIV era conhecido como Rei Sol pois gostava de ostentar seu poder de todas as
formas possíveis, desde rituais até cerimônias e sermões públicos. Durante seu reinado, ele
passava horas posando para seus inúmeros retratos, que o ajudavam a consolidar uma
imagem de grande homem, poderoso, magnificente e rico que refletia sua influência sobre o
desenvolvimento artístico, industrial e comercial. Essa figura de monarca foi reproduzida por
diversos outros reis posteriores a ele.
Fonte: Elaborado pela autora.
Muitas peças de mobiliário de prata maciça foram feitas para mobilar o Palácio de Versalhes, mas
nenhuma delas se conservou, uma vez que foram derretidas para a cunhagem de moedas, tanto nas
guerras europeias de Luís XIV como na Revolução Francesa.
Além dos móveis já conhecidos, como mesas, camas, cadeiras e armários, surgiram novas peças:
secretária, medalheiro, billard, cômoda, canapé e console. O "cabinet" caiu em desuso.
A cama denominada quenouilles era monumental. Com cortinados junto à parede, tinha o dossel
suspenso por quatro colunas, enfeitado por plumas, e os tecidos que recobriam a peça eram os
veludos, tapeçarias, rendas e cetins bordados com ouro e prata.
As mesas tinham formatos variados, com decoração pesada e luxuosa, algumas em mármore e
outras em madeira entalhada com complicados marchetados, douradas ou ornamentadas com
incrustações de tartaruga, bronze e prata. Quando as mesas se destinavam a ficar encostadas à
parede, eram designadas como consoles ou apliques e ornamentadas apenas nos três lados visíveis.
O billard era a mesa de jogos, quadrada e recoberta por veludo arrematado por madeira aparente,
que sempre era acompanhada por quatro mesinhas redondas de pé centrais, destinadas a
receberem as tochas que iluminavam os jogadores. Quando fora de uso, essas mesas eram cobertas
por um couro vermelho.
As cadeiras variavam de acordo com a posição social do usuário, mas geralmente eram altas e
excediam os 45 cm. O rei sentava-se em cadeira imponente, com braços, pesada, dourada e forrada
de brocados de ouro e prata. Os outros assentos podiam ter braços ou não, espaldar alto, pernas
retas e braços curvos ou retos, terminados em volutas, pernas e travessas semelhantes, tendo os
pés com balaústre, pequenas bolas ou cubos unidos por traves em "X" ou "H". Os assentos eram
forrados de veludo, tapeçarias ou brocado, e os encostos bordados em cores, predominando o
verde e o vermelho. O canapé, com seis ou oito pés, que se parece muito com a poltrona em
estrutura e ornamento, tem linhas retangulares, estendendo-se lateralmente para comportar três
ou quatro pessoas (um móvel exclusivo de salões).
Os armários eram pesados, opulentos e de um só corpo (todo em madeira ou trabalhado),
enriquecidos com bronze dourado ou cinza. As cômodas eram, em geral, ricas e trabalhadas à
maneira Boulle, com três gavetas e tampo de mármore.
O medalheiro era um móvel muito apreciado que servia para guardar as jóias e preciosidades. O
canapé, em madeira estofada, tinha a estrutura da cadeira, linhas direitas e várias pernas. Também
surgiram, nessa época, os armários-bibliotecas e a poltrona "confessional".
Figura 4 - Lit à quenouilles.
Fonte: ADT 04 / Wikimedia Commons
Figura 5 - Billard Luís XIV.
Fonte: Jean Carolus / Wikimedia Commons
O bureau difere-se da secretária da época de Luís XV, que é bem mais feminina e delicada. O bureau
tem as pernas retas e firmes que apresentam ornamentos e aplicações em bronze. É retangular e
tem o tampo forrado de couro acima do saial, de marchetaria. Nele, encontram-se duas ou três
gavetas providas de ricos puxadores e fechaduras de proporções sólidas e com o mesmo
ornamento encontrado nos outros móveis da época. É a secretária de oito pernas, denominada
mazarino, que apresenta dois blocos de gavetas separados por um vão central.
Aparecem, também novos móveis. As cômodas, os armários-bibliotecas e as poltronas
confessionais também surgem nesta época, além da bergère (como se fosse uma poltrona, só que
mais confortável e mais profunda).
Com Luís XIV, mais velho houve uma mudança, também, em seu estilo. Sentiu-se uma necessidade
de um pouco de mocidade e alegria, e a decoração tornou-se, então, mais leve. Os emblemas de
guerreiros, capacetes e troféus foram abandonados, assim como as alegorias muito pomposas. A
ornamentação tornou-semais naturalista, com motivos novos, como a concha e o florão, e já
tornava-se sensível na decoração a influência da arte oriental.
Estilo Restauração
O Barroco na Inglaterra subdividiu-se em três estilos, conforme o soberano da época: Restauração
(no reinado de Carlos II), Guilherme e Maria e Rainha Ana.
Durante a Restauração, os mobiliários apresentavam formas muito semelhantes às do estilo Luís
XIII, que se deu durante o reinado do mesmo, mas evoluíram rapidamente, ganhando novas formas
dentro da estética barroca.
SAIBA MAIS
Houve, no decorrer da história das tendências estilísticas, dois períodos denominados
Restauração.
Fonte: Adaptado de Galvão (2016).
O gosto pelo jogo e pela elegância das reuniões deu origem a uma série de mesas pequenas e
grandes, utilizadas para diversos jogos de cartas ou para servir de apoio a tabuleiros de xadrez e de
damas. Os pés passaram a ser o principal ornamento de uma mesa, fossem torneados ou, mais
tarde, em volutas.
A mesa de toillet e a penteadeira tinham a parte superior em mármore, aparecendo um espelho
móvel, colocado entre dois colos de cisnes, traço característico do período. O console aparece sem
o espelho.
A tapeçaria tinha um grande destaque nos interiores e eram utilizadas como cortinas, mantendo a
luz do sol quase imperceptível. Os interiores sombrios eram invadidos por plantas verdes e flores,
uma moda que persiste até os dias de hoje.
Os móveis de assento apresentavam espaldar alto e ornamentos com esculturas, colunas ou
ramagens e, com frequência adquiriam uma linha em gôndola, com os pés dianteiros retos e os
traseiros “em sabre”. A chaise-longue e o cadeirão estofado constituíam uma inovação. Para imitar o
móvel prateado procedente de Versalhes, introduziu-se a moda da utilização de madeiras pintadas
de prata e, posteriormente, até mesmo de ouro.
Estilo Rainha Ana
Durante o reinado da Rainha Ana (1665- 1714), a tendência no design definia-se pela preferência
de formas elaborada frente a uma ornamentação exagerada. O luxo e ostentação foram deixados
de lado para se evidenciar a técnica.  O estilo Queen Anne foi a representação inglesa dentro dos
ATENÇÃO
O mobiliário, geralmente, é definido pela harmonização entre materiais, técnicas disponíveis
e necessidades cotidianos do período em que são produzidos. Exemplo disso era a localização
das marcenarias no século XVII. Elas eram instaladas próximas aos portos, porque ali eram
descarregadas as madeiras exóticas e raras, vindas de diferentes lugares, o que facilitava a
sua produção.
Fonte: Adaptado de Galvão (2016).
estilos do Barroco. No período, Londres tornava-se o centro comercial da Europa e passava a
dispensar a influência francesa. A burguesia e a classe média tornaram-se os novos consumidores
dos mobiliários e, por isso, a tendência à simplificação é estatizada (GALVÃO, 2016; CASTELNOU,
1999).
O estilo Queen Anne caracteriza-se por linhas curvas no mobiliário que o tornavam menos pesado
e maciço, geralmente chapado ou decorado com marchetaria, com pernas torneadas e o frontão
com volutas ou laqueados, em vermelho, preto e verde. Os assentos eram mais confortáveis, com
espaldares menores, podendo ser tanto em madeira entalhada como estofados, com pés de bola
e/ou garra (ball and claw feet).
Os ambientes tornaram-se mais claros e elegantes, sóbrios e ponderados. As cores mais utilizadas
eram roxo, vermelho, turquesa, verde, amarelo e ouro.
Na Espanha, o estilo Rainha Ana alcançou maior difusão, pois combinava mais com o severo e rígido
gosto espanhol do que o estilo Luís XIV.
Um detalhe no design que distingue facilmente a mobília Queen Anne é uma concha de vieira
entalhada ou uma forma de leque acima de algumas peças, como cadeiras, baús e mesas com topo
inclinado.
Em 1725, a mobília estilo Queen Anne tornou-se popular na América. Os fabricantes de mobília
usaram pernas estilo cabriolet em cadeiras, mesas e armários de cozinha. A perna era mais fina,
entalhada à mão e curvada no final.
Figura 6 - Ambiente estilo Queen Anne.
Fonte: Marelbu / Wikimedia Commons
Figura 7 - Interior estilo Queen Anne.
Fonte: Artico2 / Wikimedia Commons
Figura 8 - Detalhe no entalhe de concha (estilo Queen Anne).
Fonte: Centpacrr / Wikimedia Commons
Figura 9 - Móveis Queen Anne.
Fonte: Wmpearl / Wikimedia Commons; Daderot / Wikimedia Commons
Figura 10 - Cadeira estilo Queen Anne.
Fonte: Pharos / Wikimedia Commons
Estilo Regência
Após a morte de Luís XIV, no período transicional entre o Barroco e o Rococó, surgiu a tendência de
estilo Regência, também conhecido como Regência Francesa, que se desenvolveu durante a
regência de Filipe de Orléans, entre 1715 e 1723, enquanto Luís XV não assumia o poder. Apesar de
ser considerado um estilo decorativo, desenvolveu-se principalmente no mobiliário.
Contextualmente, no período governado pelo regente Felipe, a corte teve de deixar Versailles por
passar por dificuldades financeiras. Por isso, tornou-se uma “opção” a construção de palácios
menores, mais simples, mas sem disporem totalmente do esplendor anterior. De modo geral, o
estilo coincidiu com um período em que a corte francesa buscava por independência, leveza, menos
rigidez e maior liberdade imaginativa, visando mais descontração e menos severidade.
Suntuoso, mas bastante controlado, o estilo já demonstra traços do Rococó, com o qual coexistiu
durante certo período, resultando em composições elegantes e flexíveis destinadas não somente a
apresentar uma bela aparência, mas também a ser funcionais.
Caracterizava-se por: unir o Barroco solene e o gracioso Rococó; manter a simetria, porém inserir o
experimentalismo assimétrico aos poucos, em pequenos detalhes, em toda espécie de móveis e em
todas as técnicas de decoração; iniciar a utilização de curvas em reação à rigidez barroca,
suavizando o mobiliário; utilizar-se de materiais nobres (mármore, bronze, ouro e prata) e madeiras
exóticas (pau-rosa, violeta, amaranto) para execução do mobiliário; e utilizar-se de elementos
decorativos figurativos com temáticas e motivos naturais (flores, folhas etc.), animalescos (asas de
morcego, macacos, golfinhos, dragões, pássaros e quimeras), geométricos etc.
As tipologias de móveis mantiveram-se iguais: móveis de assento (cadeiras, poltronas, bancos) que
aparecem estofados, mais leves e confortáveis; cômodas, ainda pesadas; e as secretárias, que são
substituídas por escrivaninhas mais simples.
Estilo Luís XV
O estilo Luís XV apareceu como uma tendência na decoração e mobiliário durante o reinado de Luís
XV e foi determinado pelo estilo Rococó e sua retórica ornamental, fluída e graciosa. Encontra-se
entre o estilo Regência e o estilo Luís XVI, mais austero e rígido que os anteriores, sendo um dos
mais revisitados no decorrer da história. Destaca-se pelo uso da porcelana (de Sèvres).
Figura 11 - Chateau de Talcy - interior.
Fonte: Patrick Giraud / Wikimedia Commons
Nos interiores, o pé-direito foi reduzido e começou-se a utilizar tons pastéis nas paredes. O
mobiliário reduziu suas proporções, tornando-se mais compatível à escala humana e passando a ser
item presente por todo o espaço, incentivando uma percepção de intimidade. A tendência foi
definida e utilizada até pela burguesia.
Os mobiliários do período caracterizam-se por estruturas leves, fluidez e assimetria, que indicavam
movimento e elegância. Primava-se pela execução de qualidade com atenção aos detalhes. Os
materiais variavam bastante, sendo utilizadas madeiras diversas, na sua maioria nobres e exóticas,
bem como porcelana, mármore e incrustações em bronze. A pintura em laca substituiu as pinturas
douradas anteriores.
Os móveis passaram a ter suas partes posteriores ornamentadas, já que, agora, ficavam à vista. Os
motivos ornamentais novamente retomavam a natureza, com flores e folhagens, figuras
geométricas, conchas e outros.
Os móveis começaram a variar bastante, diminuindo de tamanho e ganhando diversas utilidades e
funções específicas: cômodas; toucadores; mesascom espelho; secretárias; bureaus de diversos
tamanhos e com muitas gavetas; mesas para escrever; jogar; comer etc.; diferente tipos de assento,
para descansar, para apoiar o pescoço, para pentear os cabelos, para sentar-se à frente da lareira;
sofás para descansar; camas para dormir etc. Também surgiram múltiplos modelos criados para
guardar objetos, como as cantoneiras e estantes.
Figura 12 - Quarto estilo Luís XV.
Fonte: Robert Valette / Wikimedia Commons
Figura 13 - Cadeira Luís XV.
Fonte: Georges Jacob / Wikimedia Commons
Figura 14 - Ornamentação  Luís XV.
Fonte: Charles Cressent  / Wikimedia Common
Figura 15 - Cômoda Luís XV.
Fonte: Maryne Dorée / Wikimedia Commons
Figura 16 - Bergère.
Fonte: Allot René / Wikimedia Commons
Figura 17 - Lit de Repos
Fonte: Jean-Baptiste Claude Sené / Wikimedia Commons
Figura 18 - Bureau Luís XV
Fonte: Trizek / Wikimedia Commons
Estilo D. João V
O estilo D. João V correspondeu ao Rococó em Portugal e influenciou o móvel brasileiro. Suas
características foram: a utilização de madeiras muitos escuras e enceradas (o pau-santo ou o pau-
preto, a nogueira e o castanho); o aparecimento de entalhes substituindo o trabalho de torno; o
encurvamento cada vez mais acentuado;  presença das pernas em cabriolet e bastante finas; o uso
de ornamentos em excesso; e a utilização do jacaranda na fabricação do mobiliário.
Como exemplo de mobiliários nesse estilo, temos as cômodas. As frentes das gavetas possuíam
pregadeiras de metal e uma barriga. Geralmente, continham apenas incrustações metálicas, não
sendo mais douradas (GALVÃO, 2016).
Figura 19 - Sala Verde, Palácio Nacional da Ajuda - Lisboa.
Fonte: Palace / Wikimedia Commons
Figura 20 - Quarto D. João V - Palácio Mafra.
Fonte: QUARTO… (on-line)
Figura 21 - Palácio de Mafra - Salão amarelo.
Fonte: Concierge.2C / Wikimedia Commons
VÍDEO
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Fechamento
O Rococó, como movimento estilístico, retratava os costumes, a cultura e o estilo de vida da
sociedade europeia de forma delicada e rebuscada, ao mesmo tempo. Na arquitetura, contrapunha
sobriedade no exterior a uma profusão de excessos nos interiores.
O valor estético do estilo foi questionado no desenvolver das artes modernas, mas manteve sua
influência como tendência de design, o que ocorre, ainda, atualmente, principalmente quando
falamos em ergonomia (inovação do período que estudava as variações funcionais dos cômodos,
dos mobiliários e dos artefatos, buscando uma maior delicadeza na escala e nos objetos), e em uma
conexão mais íntima entre os móveis e as pessoas, além de maior comodidade a partir de métodos
empíricos.
Vimos que os estilos e tendências de interiores e mobiliários dentro da história da cultura visual
ocidental compõem diferentes aspectos e se definem por características bastante tênues, que
podem ser somadas e englobadas dentro do estilo/período conceitual maior. Vimos, por exemplo,
que o Barroco definiu-se na França como Luís XIV, tratando-se de um estilo bastante exuberante,
masculino e ornamentado com vigor. Já na Inglaterra, os estilos dividiram-se em Restauração (no
reinado de Carlos II), Guilherme e Maria e Queen Anne, estilos mais simples, menos rebuscados,
mais sóbrios e ponderados. O estilo Regência definiu-se como transicional entre o Barroco e o
Rococó, apresentando-se bastante agradável e  equilibrado. O estilo Luís XV, mais austero e rígido
que o Regência e o D. João V, era mais escuro e sóbrio, com menos detalhes em dourado.
Essa visão geral nos fornece exemplos das mudanças nas percepções e definições de arte ao longo
do tempo.
Nesta aula, você teve a oportunidade de:
compreender os fundamentos da cultura visual dentro do estilo Rococó;
identificar as características que definem o período na arquitetura de traços delicados, leves e,
ao mesmo tempo, exageradamente rebuscados;
identificar as características do design ergonomicamente inovador.
conhecer particularmente a cultura visual no que se refere ao design de interiores e mobiliário
em específico;
caracterizar algumas das tendências mais revisitadas do design na história.
Unidade 01
Amplie seu conhecimento
Referências
BARKER, E.; EDWARDS, S.; WOODS, K. W. Art and visual culture: Medieval to modern. OpenLearn.
Disponível em: . Acesso em: 17 out. 2018.
BATTISTONI FILHO, D. Pequena História da Arte. 19. ed. São Paulo: Papirus, 2012.
CASTELNOU, A. M. N. Estilos Históricos da Decoração e Mobiliário. Londrina-PR: UNOPAR -
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vidro antique (PROENÇA, 2008). Posteriormente, os pintores começaram a desenvolver sobre o
vidro verdadeiras obras de arte, pintando esses vidros (BATTISTONI FILHO, 2012).
Figura 3 - Arcobotante.
Fonte: Jean-Frédéric / Wikimedia Commons
Figura 4 - Formato das janelas e dos vitrais.
Fonte: Fæ / Wikimedia Commons
Podemos dividir a arquitetura gótica em quatro períodos, definidos pelas características dos arcos
ogivais (ou quebrados):
Século XII - Gótico primitivo ou de transição. Nesse período, o arco ogival era usado como
românico, como arco de meia circunferência. As abóbadas começaram a se dividir em arcos
cruzados e diagonais. Começou-se a tentativa de romper com a horizontalidade românica, e
esculturas decorativas começaram a aparecer nas fachadas (BATTISTONI FILHO, 2012).
Século XIII – Gótico lanceolado. Nesse período, o arco ogival já aparecia bastante elevado,
sendo formado por um triângulo agudo. O uso dos vitrais era generalizado, a decoração
escultórica das fachadas era constante e verticalizaram-se ainda mais as edificações, sendo,
nessa época, construídas as grandes catedrais (BATTISTONI FILHO, 2012).
Século XIV: Gótico irradiante. Nesse período, o arco ogival aparecia na forma de um triângulo
equilátero e atenuavam-se a verticalidade das construções (BATTISTONI FILHO, 2012).
Século XV: Gótico flamejante. Nesse período, o arco torna-se ainda menos agudo, com
tendências horizontais no formato de um triângulo obtuso (BATTISTONI FILHO, 2012).
A abadia de Saint-Denis, reformada entre 1137 e 1144, foi o primeiro exemplar que definiu as
mudanças do estilo Românico para o Gótico, tinha como objetivo tornar-se o centro espiritual
francês. Nela, definem-se as principais características recorrentes nas igrejas e catedrais góticas, a
começar pelas fachadas principais: a igreja gótica tem três portais que dão acesso a três naves em
seu interior (entrada até o santuário que fica entre as colunas que sustentam as abóbadas), a
central e as laterais. Acima da janela e da nave central, encontra-se a rosácea, típica do estilo gótico
das igrejas dos séculos XII a XIV.
Apesar do papel da Abadia Saint-Denis de demarcar o início da caracterização da arquitetônica
gótica, esta foi representada nas grandes catedrais das cidades, como Notre-Dame, Reims e
Chartres, principais obras do período na França. A Catedral de Notre-Dame (1163-1250)
representa o Gótico irradiante; Reims, começada em 1210, o Gótico lanceolado, assim como
Chartres, começada em 1194.
Figura 5 - Janelas e vitrais góticos.
Fonte: Harmonia Amanda / Wikimedia Commons
A Catedral de Notre-Dame de Paris, uma das maiores igrejas, com 150 m, 20 m de comprimento e
32,5 m de altura do chão às abóbadas, assim como a Saint-Denis apresentam os três portais (um
central e dois laterais) com as peças escultóricas relevantes e introduzem um novo elemento, o
arcobotante.
A Catedral de Westminster, na Inglaterra, e a Catedral de Milão, na Itália, são exemplos da
internacionalização do Gótico. Na arquitetura civil, os mais belos exemplos são o palácio de
Avignon, na França, e o palácio dos Doges, em Veneza, na Itália (BATTISTONI FILHO, 2012).
Figura 6 - Catedral Notre-Dame de Paris.
Fonte: Skouame / Wikimedia Commons
NA PRÁTICA
A influência da arquitetura gótica na arquitetura católica dos séculos posteriores
permaneceu pelo reflexo de imponência que transmitia. Em São Paulo, a Catedral da Sé,
construída no século XX, tem inspiração em elementos góticos: arcos ogivais, pilares, vitrais e
arcobotantes em seu exterior.
Fonte: adaptado de Proença (2008).
O Gótico na Arte
Como dissemos, a representação do período Gótico se destacou mais na arquitetura. A pintura e a
escultura somente se destacaram no último século, contudo essa delimitação ainda gera incertezas.
A escultura gótica no início é muito ligada à arquitetura. O que consideramos hoje um ornamento
plástico tinha um propósito funcional de doutrinação e ensino de história, o pórtico da Catedral de
Chartres é um exemplo. A escultura começou a se desvencilhar da arquitetura a partir do século
XIII (sendo que os maiores expoentes desse tipo de representação aparecem entre os anos de 1220
e 1420). As esculturas góticas se distinguem das românicas com relação ao tipo de relevo que
utilizam, enquanto a Românica era feita em baixo-relevo, a Gótica é em alto-relevo e decora portais
e fachadas. Outra característica de destaque da escultura gótica é a inspiração mais humilde
própria dos populares (BATTISTONI FILHO, 2012).
No contexto do nosso conteúdo, devemos fazer menção à distinção de termos utilizados hoje
para nos referenciarmos à produção artística. Do século XVI até o início do século XX, a arte era
entendida como pintura, escultura e arquitetura, as chamadas artes do design, porém essa
definição se tornou um pouco estreita e é aí que surge o termo "cultura visual", que abrange não
só a aplicação intelectual com talento e habilidades manuais mas também atividades artísticas
antes não consideradas, como a ourivesaria, a tapeçaria, a ilustração de livros, a literatura, além
da identificação da observação e da capacidade interpretação como princípio artístico. A arte
passa a não ser definida simplesmente como algo apenas para ser observado, agora, além de
observadas e admiradas, as obras de artes poderiam ter uma variedade de funções e compor,
assim, a cultura visual de cada período.
Fonte: adaptada de Barker; Edwards; Woods (on-line).
SAIBA MAIS
Já a pintura gótica teve seu apogeu no século XIV (entre os anos de 1300 e 1350), antes, ela era
utilizada, muitas vezes, apenas para dar destaque à arquitetura e à luminosidade dos vitrais ou,
então, para ilustrar livros medievais no processo chamado iluminura (BATTISTONI FILHO, 2012).
Próximo ao ano de 1400, nota-se uma alteração da ênfase característica do período da arquitetura
para a pintura.
A reflexão que fizemos quanto à demarcação temporal e espacial dos períodos históricos se reflete
agora: há uma divisão entre o Gótico internacional e o Gótico regional, principalmente na pintura.
Originário da França, o estilo gótico recebe influências regionais e adquire características próprias
na Itália, por exemplo.
A principal característica que define  a pintura gótica é o Realismo. Os pintores mais conhecidos da
época são Ambogiotto Bondone (1266-1337), com obras decorativas dos interiores das igrejas,
grandes murais, quadros menores e retábulos (painéis compostos por uma, duas até quatro partes,
utilizados em cerimônias religiosas). Giotto se destaca pela representação dos santos como figuras
humanas comuns, contudo os coloca em destaque sobre a paisagem e os demais personagens
(PROENÇA, 2008; BATTISTONI FILHO, 2012).
Na iconografia religiosa, também se destaca a mudança para o primeiro plano da Virgem Maria, o
que revela o poderio da Igreja Católica no período. O trabalho de Jan Van Eyck (1390-1441)
considera uma transição entre o Gótico e o Renascimento com a primazia dos detalhes e os
realismos extremos, como nas obras Nossa Senhora do Chanceler Rolin e Casal Arnolfini.
Figura 7 - Portal da Catedral de Notre-Dame de Chartres.
Fonte: Nina Aldin Thune / Wikimedia Commons
O Gótico no Design
A produção do design, especificamente do mobiliário e de interiores, surgiu quando os povos
passaram a se fixar. Com o surgimento da burguesia e do comércio, a mobilidade passou a ser
frequente, o que reduziu novamente o número de artigos de mobílias; as que existiam,
frequentemente, eram desmontáveis (mesas de cavaletes e cadeiras articuláveis) e/ou tinham
múltiplas funções, como armários-bancos, baús-bancos.
Figura 8 - Nossa Senhora do Chanceler Rolin.
Fonte: Menze~commonswiki / Wikimedia Commons
Figura 9 - Handon Hall -John Callcott Horsley.
Fonte: Zimmermann (on-line)
O design tanto de mobiliários como de vestuário, adornos, enfim, sofria forte influência da igreja
Católica. Nos séculos XII e XIII, as inovações que se viam quanto à nova conceituaçãodo espaço
verticalizado e de aparência leve não se refletiam nos interiores. As grandes catedrais mantinham
sua aparente opulência no que se refere às construções, enquanto seus interiores eram simples e
funcionais (LIMA, 2005).
As edificações civis começavam a se tornar lares, símbolo disso era a construção de lareiras com
grandes chaminés que se projetavam para fora da construção, ao contrário das anteriores acesas no
chão, e eram decoradas com o uso de escudos e armas. As lareiras tornavam-se o centro das casas, a
sua frente se inseriam elementos de tapeçaria, cadeiras e bancos móveis (LIMA , 2005).
Os registros definem mobiliários como muito rudimentares, feitos geralmente em carvalho, com
proporções pesadas  e deixados ao natural, com exceção de alguns entalhes decorativos, e com o
uso de ferragens mais funcionais que decorativas. As peças mais comuns eram:
Figura 10 - Interior Gótico
Fonte: Zimmermann (on-line)
SAIBA MAIS
Mais um conceito deve ser esclarecido para que se tenha o profundo entendimento no
estudo da história da arte: a diferença entre arte e ornamento. Essa era uma questão
levantada devido a alguns objetos, de origem greco-romana, serem alvo de admiração
estética a partir do século XV, além de serem funcionais, por exemplo, os camafeus gregos de
posse da família Médici, em Florença. Outra convenção medieval era de que a arte sacra tinha
a função tanto doutrinária quanto de modelo e inspiração. Um terceiro conceito descrevia a
arte simplesmente como adorno, com intenção totalmente estética de deleite visual
(BARKER; EDWARDS; WOODS, on-line).
arcas ou cofres – utilizados para guardar itens, precursores dos armários e, ao mesmo tempo,
podiam ser usados como camas ou bancos. Caracterizavam-se por serem lisos ou divididos em
painéis, com formas de diamante, volutas e folhagens inscritas como forma de decoração e com
ferragens de ferro forjado. O trabalho de entalhe decorativo e detalhes era restrito à madeira.
No século XV, esses mobiliários já aparecem com elementos ogivais e, até mesmo, brasões
como forma decorativa.
bancos, mochos ou tamboretes de pedra ou madeira de carvalho - por serem pouco
confortáveis, às vezes, contavam com encostos móveis e/ou almofadas.
cadeiras – as cadeiras não eram muito comuns nesse período, as existentes eram desmontáveis,
dobráveis em forma de x, ou para uso dos senhores, pesadas e em forma de trono com dossel.
credência – uma espécie de aparador onde se colocavam os alimentos para que os criados
provassem antes dos senhores, por precaução. Tinha espaço para guardar objetos e para
sobrepô-los. O uso desse móvel demonstrava a adesão a uma vida mais estável.
Figura 11 - Arca/banco gótico
Fonte: Shakko / Wikimedia Commons
Figura 12 – Cadeira dobrável gótica
Fonte: Storye book / Wikimedia Commons
camas – curiosamente, a hierarquia das pessoas era definida pelos dosséis das camas, que eram
muito amplas e altas. Um estrado, uma arca estreita ou banqueta era utilizado para alcançar a
altura, como um degrau. As camas eram fechadas por cortinas, tapeçarias ou tecidos pesados
que eram móveis e feitos para serem facilmente transportados.
mesas – As mesas se limitavam a tábuas sobrepostas sobre cavaletes, desmontáveis,
permitindo maior mobilidade. Eram cobertas por toalhas, porém não se usavam talheres e
pratos individuais (começou-se a utilizar a partir do séc. XVI).
São raros os exemplares de mobiliário desse período, os ainda encontrados podem ser vistos em
museus ou igrejas e denotam o desconforto, apesar da beleza. Os elementos arquitetônicos
decorativos do Gótico só passaram para os interiores no futuro, a partir de revivalismos.
Damos destaque aos manuscritos ilustrados que podem ser considerados, hoje, peças de design e,
na época, eram colecionados, ricamente trabalhados sobre folhas de velino (obtidas pelas peles de
cordeiro ou vitela curtidas) e ilustrados de forma primorosa depois do texto transcrito em um
processo conhecido como iluminura. Além desses, objetos em ouro, prata, marfim e esmalte eram
produzidos (PROENÇA, 2008).
A Transição: O Gótico X O Renascimento
O período que compreende a era medieval do século V ao XV ficou conhecido como idade das
Trevas, porque demarcava o período entre a Antiguidade Clássica e a Renascença como
improdutivo no que se refere à produção artística, porém, como vimos, essa denominação é, agora,
questionada, já que a produção artística gótica existiu como produção artística e apresenta uma
produção considerável (JANSON; JANSON,  2003).
Com o desenvolvimento e a expansão do estilo pelas conexões comerciais entre as cidades
europeias, delimita-se o Gótico internacional, que é praticado no decorrer do século XV. As obras
realizadas do meio do século XV ao fim do XVI são batizadas de gótico tardio e são produzidas
contemporâneas ao primeiro Renascimento, o qual, por si, torna-se base de um novo estilo
internacional. Giotto e seus murais e afrescos são considerados a transição para o Renascimento.
Fechamento
A arte gótica medieval, representada com destaque pela arquitetura, caracteriza um período em
que a igreja necessita demonstrar seu poder por meio das opulentas catedrais, o comércio recém-
instaurado e a nova classe social começam a se definir e a arte se torna algo mais realista.
Como resposta, há a construção de grandes catedrais verticalizadas, leves e iluminadas, que
atendiam às necessidades religiosas ao indicar, com conceitos verticais e iluminação filtrada, o
plano superior. A pintura e a escultura muito atreladas à arquitetura representavam uma visão mais
obscura quanto ao ser humano, e o design pouco evoluído demonstrava a necessidade de
mobilidade ainda presente e a aceitação gradual de uma vida mais estável.
A partir da análise sintética do período Gótico medieval, podemos definir, crítica e reflexivamente, a
cultura visual e o design nesse contexto. Vimos que o desenvolvimento é definido pelas demandas
sociais e culturais da época e atende ao contexto. Partindo desse conteúdo, comporemos a
Figura 13 - Batismo de Jesus. Afresco de Giotto locado da Abadia de Viboldone em Milão - Itália.
Fonte: G.dallorto / Wikimedia Commons
VÍDEO
Olá, estudante! Para assistir a esse vídeo, acesse a versão web do seu material didático.
evolução da temática seguindo para o Renascimento. Resumidamente, portanto, nesta aula, você
teve a oportunidade de:
conhecer, compreender e analisar criticamente os fundamentos históricosda cultura visual do
período Gótico medieval;
identificar as características que definem o período na arquitetura, como o uso de vitrais, arcos
ogivais, abóbadas nervuradas e arcobotantes;
identificar as características do design ainda insípido, com poucos e simples mobiliários.
Unidade 01
Aula 02
Renascimento
Introdução
Assim como o Gótico, apenas a demarcação temporal não faz juz à caracterização do
Renascimento, que teve seu início na Itália como movimento cultural internacional, mas que acaba
por se difundir e desenvolver, de acordo com aspectos regionais, em diferentes profundidades.
Como aqui falamos da caracterização do movimento artístico como tal, nesta aula, definiremos, de
modo geral, esse movimento de acordo com a origem dele.
A caracterização do Renascimento traduz-se em um humanismo antropocêntrico, um cientificismo
e uma volta aos princípios clássicos greco-romanos, com inspiração em tratados filosóficos e
arquitetônicos e escavações arqueológicas.
O Renascimento, especificamente no que se refere à cultura visual arquitetônica e de design, insere
uma perspectiva não religiosa com a construção de palácios e villas; já no concernente às artes
plásticas, define os padrões autorais e pessoais dos artistas como qualidade de valoração das obras
e determina os padrões clássicos de beleza.
Ao final desta aula, você será capaz de:
identificar as características que definem o período renascentista tanto na pintura quanto na
escultura;
conceituar e definir o estilo arquitetônico e de design renascentista,identificando suas
características compositivas;
estabelecer marcos filosóficos que determinaram conceitos do estilo.
Renascimento
O Renascimento como movimento cultural se desenvolveu entre os séculos XIV e XVI, a princípio,
na Itália, expandindo-se, posteriormente, para o restante da Europa. De forma conceitual,
determinava a ideia de um renascimento das artes e da cultura clássica e a formação de uma cultura
humanista contraposta à visão medieval, de conceitos definidos por termos como escuridão,
ignorância, barbarismo, uma visão científica e empírica de valorização do espírito humano. A
difusão do renascimento marca a transição do feudalismo para o capitalismo.
A cultura renascentista não se atém apenas à cultura visual, abrange a filosofia, a ciência e envolve,
inclusive, a literatura, exemplo disso são os poemas do italiano Dante Alighieri (1264-1321) e a
difusão de autores e da filosofia grega e romana nas escolas e mosteiros.
O Renascentismo tem como principais características o realismo, a racionalidade e o rigor
científico.
O Renascimento na Arte
Os artistas renascentistas primavam por atender à interpretação cientificista do mundo, ou seja,
primavam por ideais de perfeição, harmonia, equilíbrio, proporção, simetria, de acordo com os
ideais estéticos clássicos e as determinações geométricas, matemáticas.
A pintura era feita a partir de princípios geométricos, com a prática da perspectiva inserida e o uso
de luz e sombra em profusão e de forma rigorosa. O uso dos contrastes e sombreamentos
revelavam uma aparência de volume e davam maior realismo às pinturas (JANSON, 2003;
As ideias principais do Renascimento giram em torno de conceitos filosóficos como: o
racionalismo, que defende a razão sobre os sentimentos como forma de alcançar a sabedoria; o
experimentalismo, que defende a demonstração empírica racional dos conhecimentos; o
antropocentrismo, o homem no centro de tudo e como criação divina suprema; o humanismo,
que defende o homem e a natureza e o glorifica frente ao divino e ao sobrenatural; o otimismo,
forma de pensamento que se caracteriza pelo positivismo; o hedonismo, que defende o prazer
terreno para o maior número de pessoas; o individualismo, que defende a liberdade individual
frente à de um grupo.
ATENÇÃO
SAIBA MAIS
Os artistas renascentistas levavam a racionalidade e a inventividade ao seu desenvolvimento
máximo. Nessa época, inúmeros utensílios, instrumentos e ferramentas utilizados até hoje
foram inventados, como o relógio e o telescópio, ambos aperfeiçoados por Galileu Galillei
(1564-1642).Fonte: Adaptado de Maia (2016).
PROENÇA, 2008).
Nesse período, também surge o conceito de identidade pessoal dos artistas; estes começam a ser
reconhecidos por seus estilos próprios, por exemplo, Piero della Francesca (1410-1492), que se
utilizava da geometria e do jogo de luzes e sombras, não para transmitir emoções ou sensações,
apenas como representação do que via, ou como Botticelli, que imprimia ritmo às figuras de seus
quadros e expressava por meio deles seu ideal de beleza baseado na antiguidade grega (PROENÇA,
2008).
Figura 1 - Duke and Duchess of Urbino.
Fonte: Sailko / Wikimedia Commons;  Shakko / Wikimedia Commons
SAIBA MAIS
Ao explorar os desenvolvimentos artísticos nos séculos que destacamos aqui, uma estrutura
ou instituição a se considerar é a do patrocínio, os famosos Mecenas do período
renascentista. No Renascimento, os artistas trabalhavam para patronos que possibilitavam a
execução de suas obras, principalmente as de grande escala. Exemplo disso é a construção da
Basílica de São  Pedro, por Bernini (1598-1680), que precisou do apoio de diversos papas
desde seu início, em 1620, até sua conclusão, o quadro Juramento dos Horatii (Benjamin
West- 1738-1820, desenvolvido no período neoclássico, só foi realizado porque foi
encomendado pelo Estado francês.
Fonte: Adaptado de Barker; Edwards; Woods (on-line).
Divide-se o Renascimento em três fases: Trecento (século XIV), que manifesta-se em Florença e na
Itália de forma geral, representada por Giotto, Dante Aliguieri, Bocaccio e Petrarca, e caracteriza
pela valorização do individualismo e pelo rompimento com a hierarquia e a imobilidade da pintura
medieval; Quattrocento (século XV), que também se manifesta na Itália e atinge aí seu auge, é
representada por Masaccio, Mantegna, Botticelli, Leonardo da Vinci, Rafael e Michelangelo, e
caracteriza-se pela forte inspiração greco-romana, com temáticas pagãs, linhas clássicas e um forte
experimentalismo; o Cinquecentto (século XVI), que se manifesta em toda Europa, universalizando
o movimento renascentista, apesar de, na Itália, já ter iniciado seu declínio, nesse período, já se
veem as primeiras manifestações maneiristas e barrocas, e a Igreja Católica impõe, junto à
Contrarreforma, o barroco como seu estilo oficial, no entanto artistas como Rafael e Michelangelo
ainda se destacam.
Com certeza, o maior destaque do período foi Leonardo da Vinci (1452-1519), que uniu
conhecimento científico e beleza artística em seus trabalhos, fez estudos sobre perspectiva, ótica,
anatomia, proporções, desenvolveu diversos artefatos, foi urbanista, pintor, engenheiro, enfim, um
artista completo.
Figura 2 - Primavera – Botticelli (1482)
Fonte: Sandro Botticelli / Wikimedia Commons
Figura 3 - Estudo da Anatomia do Braço – Leonardo Da Vinci.
Fonte: Leonardo da Vinci / Wikimedia Commons
Na pintura, a forma como Da Vinci utilizava as luzes e as sombras fazia com que a visão realística
abrisse espaço também para a imaginação; foi considerado autor da técnica do sfumato, na qual a
matização de tons e cores justapostas define a forma, mas não cria limites ou bordas marcadas,
revelando as potencialidades da tinta a óleo. No Quatrocentto, desenvolveu o famoso quadro de
Monalisa que chama a atenção ainda hoje pelo sorriso enigmático (BARKER; EDWARDS; WOODS,
on-line).
Rafael, influenciado por Leonardo e Michelangelo, produz, no mesmo período, seu quadro Madona
Sistina e a Sagrada Família, que definem sua composição sutil e a escolha no uso das cores.
As esculturas foram produto marcante do período artístico, elas e a pintura se desprenderam da
arquitetura e passaram a ser autônomas. Algumas obras de Michelangelo e Verrochio (1435-1488),
como a Pietá, obra de destaque pela figura bela e harmoniosa gerada a partir de uma cena trágica e
por seus estudos de anatomia – como os feitos para a produção do teto da Capela Sistina (1508-
1512), considerada uma obra-prima do período e da prática pictórica de Michelangelo –, ou a
escultura de Davi (1501-1504), são exemplos clássicos do período (BATTISTONI FILHO, 2012).
Figura 4 - Anunciação - Leonardo da Vinci.
Fonte: Leonardo da Vinci / Wikimedia Commons
Figura 5 - Madona Sistina (1513-1514), Rafael.
Fonte: Raphael / Wikimedia Commons
Os conceitos renascentistas circularam e, no século XVI, eram considerados um estilo universal,
com seguidores por toda a extensão europeia, como: Albrecht Dürer (1471-1528), Lucas van
Leyden (1494-1533), Quinten Metsys (1466-1530), Jan van Scorel (1495-1562), dentre outros
(BARKER; EDWARDS; WOODS, on-line).
O Renascimento na Arquitetura
Nesse período, a arquitetura buscava responder aos mesmos padrões cientificistas da arte:
proporcionalidade (perspectiva homem/edificação), racionalidade, simplicidade, mas sempre
trazendo os ideais greco-romanos como influência e inspiração, por isso a utilização de ordens
Figura 6 - Pietá de Michelangelo.
Fonte: Jörg Bittner Unna / Wikimedia Commons
Figura 7 - Adão e Eva - Albrecht Dürer.
Fonte: Albrecht Dürer / Wikimedia Commons
arquitetônicas e arcos perfeitos, além disso, buscava por uma forma de superação do infinito
vertical das catedrais góticas.
Para a arquitetura renascentista, o espaço ocupado pela edificação deveria compreender o
entendimento das relações matemáticas estabelecidas para sua organização por qualquer
observador e de qualquer ponto de observação.
Na época, diferente dagrande demanda religiosa por templos, como na era gótica medieval (que
ainda existia, porém em menor profusão), as moradas eram itens frequentes, palácios e vilas de
descanso fora da cidade, além de fortalezas militares eram construídas. Os castelos medievais
tornaram-se lares.
Os artistas do período detinham o conhecimento holístico de todos os ramos das artes, eram
pintores, escultores, matemáticos, arquitetos, construtores. Um desses de renome foi Filippo
Brunelleschi (1377-1446), arquiteto responsável pela obra expoente do período, a Catedral de
Florença - Igreja Santa Maria del Fiore (1296 a 1420) (PROENÇA, 2008).
SAIBA MAIS
Os estudos de Leonardo da Vinci sobre proporção se baseavam no tratado de Arquitetura
escrito pelo engenheiro e arquiteto romano Vitrúvio (Marcos Vitruvius Pollio), que descrevia
as proporções ideais do corpo humano e das construções. O trabalho o Homem Vitruviano
(que vimos na capa desta aula) descreve tais proporções que da Vinci denominava “divina
proporção”.
Fonte: Motta (2016).
Como dito anteriormente, apenas na segunda metade do século XVI é que o Renascimento se
expandiu para outros pontos da Europa. Na arquitetura, ele encontrou uma resistência maior, já
que a devoção e o poder representativo da arquitetura gótica ainda se mantinham em muito locais,
como na França. Por isso, muitas obras do período, não italianas, somavam à simplicidade clássica a
complexidade e a verticalidade góticas. Um exemplo clássico disso é a Universidade de Salamanca,
na Espanha, que se apropriou das ideias renascentistas sem deixar de lado sua tradição gótica com
inspiração árabe espanhola de então.
Figura 8 - Santa Maria del Fiore, Florença - Arquiteto Brunelleschi.
Fonte: Warburg / Wikimedia Commons
Figura 9 - Santa Maria del Fiore, Florença – Arquiteto Brunelleschi.
Fonte: Acervo pessoal da autora
Figura 10 - Salamanca.
Fonte: Acervo pessoal da autora
O Renascimento no Design
O design do Renascimento representou a transição do feudalismo ao capitalismo e uma
revalorização das referências da antiguidade clássica greco-romana. Colunas e pilastras, frontões,
frisos e arquitraves eram usados interna e externamente.
A renascença definiu e inspirou diversos ramos relacionados às artes e aos ofícios de modo geral,
que, hoje, constituem  o que consideramos ser o design em si, e renovou e otimizou a área.
Arquitetos passaram a pensar nos ambientes internos e externos, inserindo nestes um elevado
número de detalhes e elementos decorativos. O entalhe, os elementos de gesso, os painéis de
mármore, o piso complexamente paginado, a pintura de afrescos nas paredes de forma
perspectivada, a presença de móveis sofisticados e produzidos com materiais raros, os nichos de
madeira embutidos eram itens decorativos comuns a diversos ambientes. Todos esses elementos
eram aplicados não mais apenas na arquitetura religiosa, mas, principalmente, nas vilas e nos
palácios italianos e, posteriormente, tomaram a Europa em geral; o intuito era representar riqueza
e poder.
Figura 11 - Escadaria em Knole – Residência Palaciana.
Fonte: Zimmermann (on-line)
ATENÇÃO
No período em que o Renascimento prosperava na Europa, o Brasil era “descoberto”, os
primeiros escravos eram trazidos e os franceses chegavam ao país.
Nos interiores, a influência greco-romana proporcionava áreas mais formais, singulares e
esplendorosas. Os detalhes e apreço por atingir os ideais de beleza clássicos atingiram até os mais
simples objetos. Na época, os trabalhos de entalhe em madeira, os vidros produzidos e pintados em
Veneza, com destaque para o espelho, a inovação com relação aos metais polidos usados
anteriormente e a indústria cerâmica em Faenza e Urbino se desenvolvem.
As cores presentes nos mais variados artigos, de tapeçaria a louças, eram o vermelho, o verde, o
azul e o amarelo/dourado.
As lareiras, que demarcaram o avanço medieval a uma vida fixa e à construção de lares, agora
produzidas em pedra ou mármore, eram rigorosamente trabalhadas e não tinham mais a chaminé
do gótico.
O mobiliário da época passa a integrar a arquitetura e representa tanto as ideias racionalistas
quanto algumas características mantidas do período medieval, como a robustez, a rigidez e a
funcionalidade. Destaca-se pelo trabalho de marchetaria e entalhe e pelo uso de madeiras nobres e
Figura 12 - Interior Renascentista.
Fonte: Victoria and Albert Museum / Wikimedia Commons
Figura 13 - Villa Farnesina - Arq. Peruzzi.
Fonte: Zimmermann (on-line)
raras, além de detalhes e incrustações feitas em marfim e osso. A madeira popularmente usada, o
carvalho, é substituído pela nogueira, o que define um polimento com azeite e cera dissolvida em
essência de terebentina ou aguarrás (GALVÃO, 2016).
Figura 14 - Arca Renascentista.
Fonte: Made by Villa Demidoff / Wikimedia Commons
Historicamente, o mobiliário se adequava e adaptava a cada diferente estilo e época. Sua
composição, geralmente, se atrela à do design de interiores e à arquitetura, e sua aparência
estética é tão ou mais importante quanto a sua funcionalidade. Muitas vezes, a arquitetura
define o mobiliário, e este pode ser simples ou complexo e elaborado, dependendo do uso e da
época em que foi produzido. Geralmente, o uso da madeira para fabricação de mobiliário é o
mais convencional, apesar de outros materiais também serem utilizados, como o metal, a pedra,
até o plástico atualmente. Desde os tempos mais remotos, como na antiga Mesopotâmia e no
Egito, a descrição dos interiores e dos mobiliários recebem destaque, pois representam o estilo
de vida do período. Em geral, as descrições e os vestígios expostos são os de peças luxuosas das
classes mais altas, como a realeza e a nobreza, porque esses vestígios são os mais bem
conservados, porém é possível encontrar elementos mais simples, que, independentemente,
demonstram o estilo de vida.
Fonte: Adaptada de Lima (2005).
ATENÇÃO
As peças do mobiliário buscavam o equilíbrio entre estrutura e ornamento. A estrutura do
mobiliário era bastante robusta, mas, diferente do Gótico, não chega a ser grosseira ou de
proporções exageradas, porém como era projetada para ambientes de grandes proporções e para
passar uma ideia de monumentalidade, acabou não sendo reutilizada nos ambientes definidos pelas
condições de vida posteriores.
Não eram desenvolvidas grandes variações formais, porém, muitas vezes, havia um excesso, no
intuito de aparentar maior luxuosidade. O torneado, os entalhes com motivos figurativos, os
revestimentos em tecido, brocado e veludo ou couro, o ferro e o bronze fazem parte do arsenal
decorativo. Em contraste à verticalidade gótica, predominavam as linhas e os planos horizontais
(GALVÃO, 2016).
Especificamente as cadeiras e as poltronas ganharam espaldar, braços e esteios e quatro pés fixos
em forma de quadrado ou trapézio. Aparecem, novamente, as cadeiras dobráveis, mas, agora, com
acento em couro e laterais e pés entalhados. O buffet e o gabinete (buffet menor) definem-se como
complementares dos ambientes. Mantém-se, ainda, o uso das arcas, agora decoradas e
denominadas “cassone”, na Itália, com inspiração nos sarcófagos romanos, porém o uso de armários
já é mais frequente (LIMA, 2005).
Figura 15 - Cadeira Renascentista.
Fonte: Unknown / Wikimedia Commons
No século XVI, ainda há uma permanência do design renascentista sob o Barroco, apesar da
predominância do estilo na arquitetura. Na Itália e na Espanha, o estilo se mantém ainda por
bastante tempo, apesar de a Espanha receber grande influência do design árabe devido ao seu
contato próximo à cultura, com o uso dos delicados azulejos e a combinação de madeira e metal. Na
França, a decoração, apesar da influência renascentista a partir dos desenhos do arquiteto Jacques
Androuet du Cerceau, passam a ser feitas justaposições complexas com motivos clássicos. Na
Inglaterra, o Renascimento se desenvolve menos que em outros países, os detalhes são menos
elegantes, os móveis são mais planos e menos torneados(LIMA, 2005).
Fechamento
A arte renascentista representa o antropocentrismo e o humanismo de forma cientificista e
racionalista. A preocupação com o proporcional e matematicamente definido resultou em estudos
influentes até hoje, no que se refere a perspectivas, espacialidades, beleza e representação humana
realista.
Figura 16 - Gabinete Renascentista.
Fonte: Hiart / Wikimedia Commons
VÍDEO
Olá, estudante! Para assistir a esse vídeo, acesse a versão web do seu material didático.
A arquitetura e o design renascentistas definem da mesma maneira os padrões referidos no espaço,
demonstram uma sociedade que prima pelo gosto estético apurado e estatizam o conforto a partir
do equilíbrio entre simplicidade e ornamento.
A análise sintética do período renascentista nos dá base para o entendimento do período
maneirista, considerado transicional, demarcando o ponto que partimos para a análise. Nesta aula,
você teve a oportunidade de:
conhecer, compreender e analisar criticamente os fundamentos históricos da cultura visual do
período renascentista;
identificar as características que definem o período na arquitetura, como o uso de cúpulas,
frontões, colunas e ordens clássicas de inspiração greco-romanas;
identificar as características do design já mais acolhedor, glamuroso, colorido e confortável
renascentista.
Unidade 01
Aula 03
Maneirismo
Introdução
O Maneirismo como movimento artístico se afastou conscientemente dos modelos clássicos
definidos pelo renascimento até então. Ele e o Barroco tornaram-se formas de reação à rigorosa
postura artística renascentista de simetria, equilíbrio e perspectiva.
O Maneirismo buscou distanciar-se da exatidão renascentista para captar as tensões emocionais
das cenas e, por isso, é considerado uma transição entre o renascimento e o barroco, que tende a
uma dramaticidade superior.
Caracterizaremos o Maneirismo de forma mais ampla na arte e na arquitetura, já que, como
tendência de design, ele não se define. Buscaremos, com nosso conteúdo, conceituar o
estilo/período, definindo-o como movimento artístico, representante de um período e com
características próprias, destacando seu papel de transição e de renovação dos princípios artísticos
de acordo com uma nova perspectiva. Ao final desta aula, você será capaz de:
entender o movimento maneirista não somente como uma decadência do renascentismo
clássico mas também como um estilo com características próprias;
caracterizar e conceituar os aspectos que definem o Maneirismo como estilo;
entender o papel do Maneirismo como período de transição, desmistificando seu caráter
pejorativo.
Maneirismo
O maneirismo como movimento artístico e cultural é considerado transicional (entre o
Renascimento e o Barroco) e amplo no sentido de sua caracterização. Cronologicamente, é possível
datá-lo de 1530 a 1600, tem seu berço na Itália, como o Renascimento, e acontece imediatamente
após este. O termo maneirismo surge do italiano “maniera”, que se refere a estilo; também é
considerado proveniente da expressão “a maneira de”, usada para se referir à marca individual que
os artistas imprimiam nas obras.
O termo foi sugerido pelo arqueólogo italiano Luigi Lanzi no final do século XVIII, porém já era
utilizado por Giorgio Vasari (1511-1574), ainda no século XVI, para distinguir algumas obras que
não se enquadravam nos princípios renascentistas e tinham traços peculiares, mas no sentido de
graça, sofisticação, estabilidade, elegância, para Vasari. A denominação acabou sendo utilizada para
se referir à arte análoga à realizada pelo artista e, por muito tempo, ficou estigmatizada como uma
fase final do renascimento, decadente e desprestigiada, marcada por imprecisões e conotações
negativas, no entanto, hoje, para os estudiosos da arte que mantêm o conceito estilístico, o
maneirismo é considerado um estilo próprio que preconizava alguns aspectos modernos, uma das
primeiras manifestações anticlássicas (STRICKLAND, 2002).
Michelangelo, considerado mestre renascentista, prenuncia alguns conceitos e princípios
anticlássicos utilizando-se, ainda, da linguagem e da gramática clássica, caracterizando, assim, o
Maneirismo, já na etapa final do Renascimento. Por isso, muitos consideram o período maneirista
um decadente renascimento e um exemplo da crise de seus princípios constituintes (SANTOS,
2011).
Influenciado pelas intensas mudanças no quadro político, cultural e econômico da Europa, em que
reinavam a desolação e a incerteza, o Maneirismo demarcava o fim da era renascentista e
transforma-se em um período de transição. Na época, a Igreja dividia-se devido à reforma Luterana,
que colocou fim a era de poder católica. Carlos V, derrotou as tropas do Papa Leão X, saqueou e
destruiu Roma, o que fez com que artistas e intelectuais seguissem em direção a outros países, os
grandes Impérios começaram a se constituir, e o absolutismo consolidou-se em diversos países; a
Contrarreforma católica rejeitou a arte renascentista, em uma tentativa de moralização, para evitar
a debandada de fiéis, e eclodiram diversas guerras religiosas. As grandes navegações alteraram os
rumos da economia, deslocando o eixo da Itália para Portugal e Espanha; França, Inglaterra e Países
Baixos são sustentados pelas colônias e pela industrialização que surge, definindo os novos rumos
capitalistas.
A temática religiosa reinou novamente e, caracteristicamente, o Maneirismo, como movimento, se
afastou da exatidão anatômica e das linhas rígidas do Renascimento, aproximando-se da tensão
barroca e tendendo a uma estilização exagerada e a um capricho esmerado nos detalhes, com
intuito de renovar e desenvolver habilidades e técnicas já adquiridas no Renascimento (SANTOS,
2011).
Figura 1 - O Juízo Final (1534-1541) – Michelangelo, Capela Sistina.
Fonte: Michelangelo / Wikimedia Commons
A caracterização do Maneirismo como estilo próprio define-se por uma arte heterogênea,
polimorfa e agitada, que se vale da chamada arte de labirintos, espirais e proporções estranhas, da
distorção dos princípios clássicos, na tentativa de rompimento com sua regularidade, em uma
espécie de protesto frente às contradições da época, com o propósito de integrar a espiritualidade
do Gótico e o realismo Renascentista. Ou seja, é difícil definir a arte maneirista, que se revela
sofisticada e intelectualizada, original e individualista, dinâmica e complexa em suas formas, e
artificial na escolha temática, buscando tensão, elegância e emoção. Mais do que um período de
transição, o Maneirismo buscava renovação dos padrões artísticos.
O Maneirismo pode ser dividido em três fases. A primeira, de 1515 a 1530, é chamada de
anticlássica e se dá em Florença, onde os artistas tinham contato direto com a alta Renascença, por
isso, nota-se um contraste nítido em relação ao Classicismo. Nessa fase, após 1527, com o saque de
Roma, os artistas evadiram e disseminaram as influências do Renascimento italiano; ao
encontrarem locais com fortes tradições góticas, originaram o Maneirismo Híbrido de tais locais. A
segunda fase é chamada de Alto Maneirismo, quando o estilo domina a Europa; nessa fase,
acentuam-se o intelectualismo e as experimentações que definem “a maneira de” de cada artista.
Na terceira fase, por volta de 1590 e 1600, o declínio do Maneirismo coincide com o surgimento do
Barroco, até que se fundem, e o Maneirismo se extingue.
SAIBA MAIS
No período que se enquadra o maneirismo, Maquiavel lança seu famoso texto O príncipe
(1532), que revela as correntes práticas políticas, legitima o uso da força na condução da
administração pública e caracteriza-se por um pragmatismo e realismo frio. Na época, o texto
influenciou a condução do Concílio de Trento.
Fonte: Adaptado de Ruano (2015).
Maneirismo na Arte
Conceitualmente, a arte maneirista, como já dissemos, faz uso dos elementos e das técnicas
disseminadas no Renascimento, mas com um espírito novo, afastado dos cânones, o qual procura
deformar a realidade, que já não satisfaz os artistas,e tenta revalorizar a arte pela arte.
O que define a inovação da arte maneirista é sua noção de espaço, com uma representação
contrária à perspectiva clássica, que buscava ser coerente e lógica. O Maneirismo rompe com essa
coerência e determina um espaço disforme, heterogêneo, intrincado, descontínuo, de proporções
pequenas e sem hierarquia formal e lógica quanto ao posicionamento da cena e aos elementos da
composição, incluindo personagens, com a coexistência de diversos pontos de vista que definem um
quadro irreal em uma atmosfera tensa.
A seleção de artistas para a produção de obras para os consumidores de arte e para a igreja era
definida por critérios de qualidade, habilidade e reputação. Existia a clara predileção de um
profissional frente a outro e havia a definição de valores com base em proezas artísticas. A
eficácia de uma obra de arte dependia, em grande parte, de fatores peculiarmente artísticos.
Esperava-se que uma obra de arte, durante o período medieval e renascentista, fosse de alta
qualidade, bem como intencional. Além da qualidade e da habilidade, os artistas ainda deviam
zelar por sua reputação e prestígio. Muitas vezes, uma estátua ao estilo de "x artista" e de
material raro e valioso definia o prestígio do comprador, não exatamente pela qualidade dela,
mas pelo fato de o escultor ser famoso nas cortes, ou, então, pelo valor artístico em si, e não por
seu material especificamente. Havia três quesitos que determinavam o valor de uma peça:  a
importância cultural de materiais caros, o status da pintura e o status dos artistas. No mercado,
mesmo levando em conta o uso de materiais caros, como pigmentos, ouro etc., a pintura era
relativamente mais barata que uma peça de ourivesaria ou de bordado, porém, quando a
habilidade artística torna-se mercadoria e compõe o valor, a pintura atinge a paridade e
determina que o prestígio reside na proeza do artista. A pintura era uma arte dentre muitas
antes desse período. Sua importância, no entanto, estava aumentando.
Fonte: Barker; Edwards; Woods (on-line).
SAIBA MAIS
As composições maneiristas se caracterizam pela compressão de um número grande de
personagens e figuras dentro da cena definida em um espaço arquitetônico reduzido. Isso define o
que eles chamavam de horror vacui, ou horror ao vazio, comum ao estilo.
Esse amontoamento faz com que os personagens principais se percam na cena, já que não
aparecem mais na perspectiva central, são encontrados em algum ponto dentro do espaço
arquitetônico, com certa dificuldade, e, apenas, se procurados atentamente; faz, também, com que
se produza uma série de planos paralelos irreais à cena central  (ver Figura 3, atente-se ao canto
inferior direito) e uma tensão constante. Os corpos antes torneados e anatomicamente
representados são substituídos por figuras alongadas de formas até inumanas (ver Figura 3, atente-
se ao rosto e às mãos da figura central), em posições dinâmicas cujas torções e movimentos são
irreais. Esses movimentos sinuosos e sempre em sentido ascendente, como expressão do
movimento, têm inspiração nos gregos e imagem de fogo crepitando. As temáticas são as
tradicionalmente religiosas, porém se intensifica o drama a partir da atmosfera tensa.
Figura 2 - A Madonna do povo (1579) - Federico Barocci.
Fonte: Federico Barocci / Wikimedia Commons
Figura 3 - Madonna do pescoço longo (1534-1540) - Parmigianino.
Fonte: Parmigianino / Wikimedia Commons
Os rostos aparecem melancólicos e misteriosos. As cores são brilhantes e definidas, as sombras são
irreais, se notada a posição da fonte luminosa, e as vestes aparecem com drapeados primorosos.
Era comum ao período fazer referências à literatura e a outros autores nas composições, isso fazia
com que as obras fossem difíceis de ser compreendidas para os que não possuíam tal
conhecimento.
Os principais artistas do Maneirismo são: El Greco (Domenikos Theotokopoulos) (1541-1614), cuja
característica principal são os desenhos coloridos, fundindo a iconografia bizantina, a pintura
veneziana e a religiosidade espanhola, e Francesco Mazzola, conhecido como Parmigianino, sua
principal característica era a contravenção aos conceitos estéticos renascentistas, produzia, além
de telas, entalhes e objetos (medalhas, vasos, moedas, joias, camafeus etc.).
El Greco foi incompreendido na época, porém consolidou-se como um precursor da arte moderna
ao partir de princípios maneiristas e criar um estilo único e original.
Figura 4 - Personagens das obras de El Greco - Rostos melancólicos.
Fonte: El Greco / Wikimedia Commons
Figura 5 - O sonho de Felipe II – El Greco.
Fonte: El Greco / Wikimedia Commons
Com relação à escultura, o Maneirismo caracteriza-se por formas clássicas compostas sob o
conceito da arte pela arte e distante da realidade, com proporções estranhas e formas irreais,
superposição de planos e profusão ao exagero de detalhes, somando elementos que criavam a
sensação de tensão tão característica.
A composição pictórica com grupo de figuras dispostas umas sobre as outras se repete na escultura,
equilibrando-se de forma frágil sob contorções, posturas impossíveis e alongamentos de músculos
inumanos e compartilhando a mesma base, sempre respeitando uma ordem compositiva dinâmica
geral da peça como um todo, dando certa graciosidade ao conjunto. Os principais nomes da
escultura maneirista são Bartolomeu Ammanati (1511-1592), também arquiteto e autor de peças
utilizadas para decorar palácios e vilas, como a villa del Opollo (casa de campo do Papa Júlio II), o
palácio da família Mantova e os túmulos do Conde Mantova e Montefeltro, Giambologna (1529-
1608), que pertencia à corte dos Médici. As principais obras de Bartolomeu Ammanati são O Rapto
das Sabinas, Mercúrio, Baco, Os Pescadores, que figuram, também, dentre as obras mais
importantes do estilo. Para muitos autores, “Giambologna está para o maneirismo como
Michelangelo está para o renascimento” (MANEIRISMO, 2007, on-line).
Maneirismo na Arquitetura e no Design
A arquitetura maneirista volta a ter como foco a produção de construções religiosas definidas no
plano horizontal, com espaços alinhados, preferencialmente, ao plano longitudinal, ou seja, mais
longos do que largos, com as cúpulas principais alinhadas ao transepto, redefinindo a ideia de
centralismo e simetria do renascimento clássico.
Figura 6 - O Rapto das Sabinas.
Fonte: Ricardo André Frantz / Wikimedia Commons
As inovações construtivas partem da alteração no ritmo estrutural, na criação de perspectivas
ilusórias, e da alteração quanto à funcionalidade de alguns elementos. Essa inovação enquanto
estilo também se atrela à distribuição da luz nos interiores, as formas curvas, convexas e côncavas
prevaleciam frente aos quadrados renascentistas. Nas igrejas, as naves eram escuras e iluminadas
de ângulos não convencionais, os coros possuíam escadas em espiral que não levavam a lugar
algum, serviam apenas para gerar uma atmosfera singular.
Palácios e vilas eram extremamente decorados, guirlandas de frutas e flores aparecem, assim como
conchas e volutas nos muros e altares, em forma de afrescos e decoração em gesso.
Figura 7 - Palazzo Farnese, Piacenza - Giacomo Barozzi da Vignola.
Fonte: Attilios / Wikimedia Commons
Figura 8 - Decoração Interna Villa Rotonda - Palladio.
Fonte: Andrea Palladio / Wikimedia Commons
Os arquitetos de renome do período são Andrea Palladio (1508-1580), Giulio Romano (1499-
1546), Giacomo della Porta (1532-1602) e Giacomo Barozzi da Vignola (1507-1573).
Dentre esses autores, Palladio foi o maior destaque, com sua arquitetura maneirista, com muitas
influências clássicas, sua obras reconhecidas do período são as villas que variam muito com relação
à distribuição e à organização dos espaços, sendo a Villa Rotonda a mais conhecida.
Figura 9 - Sala dei Cento Giorni - Palácio da Cancelleria, Giorgio Vasari - 1547.
Fonte: Gradiva / Wikimedia Commons
Figura 10 - San Giorgio Maggiore (1565-1576) - Veneza, Palladio.
Fonte: Mfield/ Wikimedia Commons
O Maneirismo Como Protesto e
Representação de Novos Valores
O Maneirismo foi muito desacreditado ao ser considerado inferior ao Renascimento classista e um
período de transição sem valor, cuja arte incompreendida era menosprezada e considerada uma
imitação sem perícia. Porém, ao ser definido, na classificação de estilos, como um estilo próprio, que
Figura 11 - Villa Rotonda - Palladio.
Fonte: Stefan Bauer / Wikimedia Commons
Giorgio Vasari (1511-1574), um dos artistas de renome do período, tanto como pintor quanto
como arquiteto e literato, dizia, em seus escritos, que uma conquista do Maneirismo era a
liberdade (liberdade essa adquirida pela contraposição aos cânones clássicos, às regras
renascentistas) e um experimentalismo original e eclético adequado às novas demandas. Para
Vasari, as regras de ordenamento e boas práticas deviam ser seguidas, mas a conceituação da
arte pela arte tornava a arte maneirista inovadora.
Fonte: Adaptada de Enciclopédia... (1997).
ATENÇÃO
Figura 12 - Palácio Uffizi - Florença, Vasari.
Fonte: Riccardo Speziari / Wikimedia Commons
deixou um grande acervo de qualidade exaltada, teve as desconfianças que pairavam sobre si
retiradas.
Hoje, o Maneirismo é considerado uma das primeiras escolas de arte moderna, por começar a se
tornar independente das instituições e convenções políticas, sociais e religiosas, mesmo que de
forma velada, por meio de subterfúgios inscritos na permanente temática e de formalismos
clássicos; também, por se tornar experimental e buscar a originalidade na reinterpretação criativa
da realidade.
Contraditório e transicional, o Maneirismo também se considera o primeiro movimento Europeu,
internacional, no geral, depois do Gótico, já que o Renascimento se manteve bem restrito à Itália.
ATENÇÃO
Como é considerado por muitos um período de transição, o Maneirismo transita em diversas
características próximas ao período antecedente e posterior, por isso, fique atento e revise
seus pontos principais: rompimento com os cânones clássicos e ideal de beleza; distorção das
figuras humanas; representação das cores não fiéis à realidade; misto de temáticas religiosas
e profanas; intelectualismo aplicado à arte; desconsideração da proporcionalidade e da
perspectiva; expressões emocionais e subjetivas de forma mais latente.
Fonte: Elaborado pela autora.
VÍDEO
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Fechamento
Como vimos, o Maneirismo surge em um contexto conflituoso, que incide sobre a sociedade
incerteza, inseguranças e desilusão refletidas em uma atmosfera de tensão tanto nas pinturas
quanto nas esculturas.
No geral, a cultura visual maneirista determina o corte com os modelos clássicos renascentistas,
por meio do rompimento com a perspectiva clássica e com a proporcionalidade, criando espaços e
ambientes assimétricos, ilusórios e dramáticos, devido: ao descarte da regularidade e da harmonia,
à distorção das figuras, à ênfase na subjetividade e nos efeitos emocionais, ao deslocamento do
tema central da composição.
O movimento maneirista via seu contexto e sua vivência como tensos e conflituosos e, utilizando-se
da gramática clássica, representava-os. O Barroco veio para caracterizar de forma mais incisiva as
prenúncias maneiristas quanto à temática religiosa e à dramaticidade.
Nesta aula, você teve a oportunidade de:
conhecer, compreender e analisar criticamente os fundamentos históricosda cultura visual do
período maneirista;
identificar as características que definem o período na arquitetura de espaços assimétricos,
longitudinais e com perspectivas ilusórias;
identificar as características do design, que volta a ser mais rígido, adequando-se ao contexto
tenso.
Unidade 01
Aula 04
Barroco
Introdução
O Barroco foi um período estilístico e de inflexão filosófica, desenvolvido entre meados do século
XVI (1580) até o século XVIII (1756). Suas influências vêm da fervorosa fé religiosa adquirida com a
Contrarreforma e da passionalidade e dramaticidade com que essa era representada. Sua retórica
era a do contraste, com o uso de cor e sombra, do exagero, do drama, dos apelos cênicos e da
ostentação.
Ao final desta aula, você será capaz de:
identificar as características que definem o estilo Barroco tanto na pintura quanto na escultura;
conceituar e definir o estilo arquitetônico e de design barroco, identificando suas
características compositivas;
estabelecer marcos contextuais que definiram os conceitos do estilo.
Barroco
A arte barroca e o movimento cultural se desenvolvem nos séculos XVII e XVIII (1600 a 1780), no
contexto das  grandes navegações, da descoberta de novas terras e das colonizações, que geram
uma revolução comercial, que modifica a economia, e, ao mesmo tempo, do absolutismo na França,
na Áustria e na Alemanha, onde os reis eram considerados mandatários divinos.
Depois da Reforma Luterana, a Igreja teve que rever alguns dogmas e reduzir o poder papal, o que
provocou a dissolução da Igreja Católica em diversas ordens, como as da Companhia de Jesus, o
que dinamizou e levou a fé católica às colônias. Esse movimento de Contrarreforma influenciou as
artes plásticas e a arquitetura por meio das construções de mosteiros e igrejas e tornou a cultura
barroca um instrumento ideológico das classes poderosas, distinto pela sua exuberância, que criava
uma identidade coletiva e expressava hierarquias definidas.
O Barroco foi instrumento de propaganda não só da Contrarreforma mas também dos regimes
absolutistas, ao restringir a arte maneirista por conta de suas excentricidades, determinar uma
representação mais decorosa, homogênea e que servisse como doutrinária, ao poder ser entendida
pela povo. Exemplo da doutrinação pela arte são os painéis pintados nas igrejas católicas nesse
período que se integram à arquitetura e contam histórias (BATTISTONI FILHO, 2012).
Novamente, a influência da antiguidade clássica aparece reinterpretada a partir de um desejo de
superação e criação original, agora, com a mesma temática dentro de um contexto totalmente
alterado, no qual apresenta-se e busca-se maior exuberância, dinâmica, dramaticidade, contrastes,
realismo, maior tensão, uma aproximação ao gosto pelo material e ornamental, em uma espécie de
materialidade e opulência em conjunto com uma vida espiritual moralmente rígida. O período
caracteriza-se, portanto, pela monumentalidade, por um excesso e exagero de formas, de
ornamentação, de sentimentos, de drama. Os variados níveis e abordagens em que essas
características aparecem reabrem o debate quanto à classificação de estilo, porém, além dessa
definição, tomamos o Barroco como um período histórico e um movimento artísticos e cultural.
Além da abordagem estilística, geográfica, temporal, a história da arte também assume a
abordagem contextual dos períodos e movimentos artísticos, inserindo-os em seu contexto
histórico. Os historiadores da arte que empregam esse tipo de abordagem levam em conta tanto
as condições institucionais e comerciais nas quais as obras de arte foram produzidas e
consumidas quanto as condições culturais, sociais, econômicas e políticas mais amplas do
período. Tal abordagem (conhecida também como a história social da arte) representa uma
reação contra um modelo mais antigo da história da arte, que se baseava na noção do zeitgeist
(ou 'espírito da época') como um meio de explicar desenvolvimentos artísticos.Esse modelo de
história da arte estava intimamente associado a um foco no estilo, assumindo-se que cada estilo
refletia o espírito de uma era diferente. Porém a abordagem social sozinha parece não conseguir
explicar, por exemplo, a coexistência de contrastantes tendências barrocas e clássicas no século
XVII, por isso, muitos autores ainda permanecem com a abordagem estilística como princípio
organizador de suas obras, tendo em mente a ideia de que cada estilo expressa uma "visão de
mundo" distinta. Reconhece-se, porém, atualmente,que a prática artística dentro de um período
é invariavelmente mais diversificada e complexa do que uma história de arte baseada em estilos
admite. Além disso, ao invés de simplesmente 'refletir' ou 'expressar' forças sociais mais amplas,
as obras de arte são, primordialmente, moldadas pelas estruturas e pelos valores do mundo da
arte, mas também conectadas à sociedade em geral, em uma diversidade de maneiras sutis (e
algumas vezes não tão sutis). Por isso, mescla-se aqui a abordagem temporal, social e estilística
de forma sintética.
Fonte: Adaptado de Barker; Edwards; Woods (on-line).
ATENÇÃO
Um dos traços fundamentais desse vasto período é que, durante seu apogeu, as artes plásticas
conseguiram uma integração total. Assim como o Renascimento, o Barroco como estilo teve início
na Itália  e, depois, dissipou-se por toda Europa e pelas colônias portuguesas e espanholas na
América Latina, do México à Argentina, ampliando e diversificando-se à medida que se adaptava a
cada uma das diferentes culturas (BATTISTONI FILHO, 2012).
A palavra “barroco” tem sua origem na palavra espanhola barrueco, que designa uma pérola
irregular e defeituosa. Como as obras do renascimento foram de grande primazia e destaque, o
conjunto artístico produzido no final do século XVI até metade do século XVIII foi considerado
inferior, por isso o termo depreciativo adotado.
O Barroco na Arte
A missão da arte barroca era transmitir uma imagem de poder e grandiosidade por meio de uma
estética vigorosa e sobrecarregada, criando uma ilusão irreal que se aproximava da teatralidade. A
pintura barroca procurava se afastar das composições simétricas e geométricas do Renascimento,
em favor da expressividade e do movimento. Já não identificamos claramente o traçado completo
das linhas e dos contornos, que passam a se apresentar esfumaçados em rápidas pinceladas.
As características da pintura barroca que se destacam são o carácter ilusório, que criava a ideia de
perspectiva e amplitude dos espaços, dando a impressão de que eles eram maiores. O espaço era
criado pelo contraste extremo do claro-escuro, que buscava simbolizar o contraste entre
agressividade e pureza. Havia uma nítida opção pelo drama, pelas cores exuberantes que realçavam
as áreas fortemente iluminadas em oposição a objetos, cenários e personagens. Os elementos de
composição eram dispostos diagonalmente, emergindo da mais profunda escuridão, o que dava um
ar de monumentalidade ao cenário e realismo aos personagens que apareciam com expressões
faciais e musculatura nítidas, em primeiro plano, adquirindo um valor específico no todo
(BATTISTONI FILHO, 2012).
Figura 1 - Velázquez: A Infanta Doña Margarita de Austria, c. 1660.
Fonte: Juan Bautista Martínez del Mazo / Wikimedia Commons
A partir do século XVII, existe uma mudança brusca no desenvolvimento artístico: a passagem
do modelo regido pelo patrocínio para o mercado aberto. Isso resultou em uma mudança
gradual na confecção das artes 'sacra' e 'da corte'. Executadas antes a pedido de alguém para
alguém, a arte passa a ser produzida pelo artista para ele mesmo, no conceito de arte pela arte,
iniciado ainda no período  maneirista,com a liberdade adquiridas por eles. Um exemplo dessa
mudança é a obra de Caravaggio, Morte da Virgem de Caravaggio, que foi encomendada para a
Igreja Santa Maria della Scala, em Roma, em 1601, no entanto a composição desenvolvida pelo
pintor não agradou aos monges que a encomendaram, por isso, foi posta à venda, o que
despertou intenso interesse, fazendo com que a obra fosse arrematada por um alto valor pelo
duque de Mântua, transformando-se, assim, em um quadro religioso funcional (por ser feito em
um retábulo), em uma aclamada obra-prima secular, item de coleções e motivo de prestígio para
quem o possuía. Como esse exemplo demonstrou, as estruturas e as práticas voltadas ao
mercado desenvolveram-se em países como a Itália e a França, a partir do final da Renascença.
Esse processo retirou a base de segurança que as estruturas e as instituições coletivas
proporcionavam para o criador, mas lançou o artista na aventura da liberdade, com todos os
riscos e glórias que ela pudesse acarretar.
Fonte: Barker; Edwards; Woods (on-line).
ATENÇÃO
Figura 2 - Ilustração do novo contexto de mercado de arte: a venda para a burguesia – Antoine
Watteau, Gersaint’s Shop Sign, 1720–1721.
Fonte: Barker; Edwards; Woods (on-line).
Devido ao poder econômico adquirido pela burguesia, o Barroco passou a atender, também, a essa
faixa de consumidores de arte, e não mais apenas aos nobres. A abertura desse mercado introduziu
uma nova perspectiva artística focada nas preferências desse público, mais realista. Por isso,
tornaram-se recorrentes no Barroco as temáticas de naturezas-mortas e representação de
interiores, interesse dos burgueses e cortesãos no período (SANTOS, 2011).
Apesar de alinhado ao catolicismo, o Barroco, além de incidir sobre territórios católicos
absolutistas, como Itália, França e Espanha, desenvolveu-se, também, em Flandres, na Holanda, na
Alemanha e na Inglaterra. Teve como representantes: Caravaggio (1571-1610), na Itália, famoso
representante da escola tenebristra (trevas, em latim), que incorporou técnicas valiosas ao estilo,
como a representação dos santos como pessoas comuns, e influenciou a arte de Ribera e Velásquez
(1599 - 1660), na Espanha, o último é considerado o autor mais notável na utilização de luz, sombra
e cores para estabelecer contrastes, famoso pelo quadro As meninas, que determinou o apogeu do
estilo; Claude Lorrain (1600-1682) e Nicolas Poussin (1594-1665), na França, Jan Brueghel (1568-
1625), em Flandres, Vermeer (1632-1675) e Rembrandt (1606-1669), na Holanda, sendo que
Rembrandt foi o grande destaque com sua composição dramática e dinâmica nos retratos.
Figura 3 - A família de Felipe IV (Las Meninas) 1656, Madrid, Prado Museum.
Fonte: Diego Velázquez / Wikimedia Commons
As características que determinavam as diferenças entre o Renascimento e o Barroco eram claras,
o primeiro primava pela linha e pelo desenho, por planos e superfícies, na busca da harmonia; o
segundo, por sua vez, buscava o pictórico, as cores, a profundidade, o volume e a emoção como
resultado das suas obras de temáticas religiosas, mitológicas e retratos (BATTISTONI FILHO,
2012).
A pintura barroca era favorecida pela arquitetura que a contém. Nas igrejas e construções
religiosas, as grandes abóbadas e naves criavam áreas diversas para utilização como base pictórica.
Na construção civil e nos palácios, as grandes galerias também ofereciam grandes superfícies para
exposição e pintura  (BATTISTONI FILHO, 2012).
Como a arquitetura foi o campo artístico que manifestou primazia dentro do estilo Barroco, a
pintura esteve muito influenciada por ela, muitos dos arquitetos eram também pintores, e isso fazia
com que suas edificações fossem compostas junto com as outras representações plásticas
(BATTISTONI FILHO, 2012).
Na escultura, as características barrocas se atrelam e confundem com a arquitetura, porém se
apresentam também em peças isoladas; umas dessas características são a dinamicidade e a
sensação de movimento, que causavam efeitos dramáticos teatrais típicos das composições
barrocas. A técnica de execução das obras varia de acordo com os diversos tipos de materiais
empregados para essa execução, como a madeira, o bronze, o estuque e a terracota  (BATTISTONI
FILHO, 2012).
A escultura barroca se destaca na Itália com Bernini e suas obras imensas em mármore, bronze e
gesso, utilizando-se de cores. Além da dinamicidade natural das obras barrocas, Bernini ainda torce
as linhas corporais das figuras humanas, para dar maior sensação de movimento. A obra principal do
Figura 4 - Michelangelo Merisi da Caravaggio, The Death of the Virgin (1601–1603).
Fonte: Barker; Edwards; Woods (on-line)
Figura 5 - A Lição de Anatomia do Dr. Tulp
Fonte: Rembrandt / Wikimedia Commons
movimento, Êxtase de Santa Tereza, que fica na Igreja

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