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Vozes masculinas Dirigem-se para problemas de ordem da justiça. A justiça perseguida pela voz moral masculina diria respeito a uma lógica individualista, na qual o que importa é conseguir diferenciar o que é devido a cada um em determinada situação. Vozes femininas Dão mais ênfase à perspectiva do cuidado. As vozes femininas orientam as ações a partir de uma preocupação e um desejo de proteção dos seus próximos. Como são problemas morais diferentes que estão em jogo (justiça e cuidado), Gilligan reconstrói a teoria dos estágios morais do ponto de vista de uma ética do cuidado. Assim como Kohlberg, ela dividiu os estágios em três grupos: Pré-convencional A mulher teria suas preocupações voltadas para sua sobrevivência como indivíduo e para a compreensão de quem ela é. Convencional As mulheres começam a preocupar-se mais com os outros, passando a considerarem-se como seres altruístas. Pós-convencional O estágio é supostamente marcado por maior reflexividade e responsabilização pelos gestos altruístas. Não se trataria apenas de cuidar dos outros, mas de compreender e articular esse cuidado de modo sistemático. Diferentemente de Kohlberg – para o qual o avanço dos estágios implicava autonomia do indivíduo –, Gilligan descreve o progresso em que cada etapa implica menor individualismo. O que aparece nessa distinção é que não apenas o progresso moral pode se dar em várias direções, mas a posição original do psicólogo também é menos neutra do que ele desejava inicialmente. Seu foco em problemas de justiça acaba revelando a posição que privilegia a lógica individualista no progresso moral. Isso não significa que Gilligan procure afirmar que uma das vozes é superior à outra. Seu objetivo é justamente apontar as diferenças para permitir um desenvolvimento que integre as diferentes vozes. A psicologia norte-americana e a filosofia contemporânea Confira, neste vídeo, como Kohlber e Gilligan contribuíram para o pensamento moral de nossos dias. Considerações finais Neste conteúdo, revisitamos os principais pensadores e os conceitos da filosofia no campo da ética. Começamos na Antiguidade, acompanhando o surgimento das discussões sobre o conceito de bem e as virtudes necessárias para alcançá-lo. Em seguida, abordamos as transformações dessas questões na Idade Medieval, a partir da consolidação do Cristianismo e de sua difusão no campo filosófico. Também analisamos as transformações das questões éticas no mundo moderno. Diante dos avanços produzidos pela revolução científica, pontuamos como o problema da liberdade começa a tornar-se cada vez mais central na investigação sobre a forma de situarmo-nos no mundo. Por fim, investigamos alguns dilemas contemporâneos apresentados pelos pensadores do século XX, observando que seus questionamentos dizem respeito ao fundo existencial de nossas preocupações éticas, às relações de poder que determinam o tipo de vida que podemos ter e aos tipos de progresso moral a que podemos aspirar. Tema 2 - Ética, Direitos Humanos e Direitos Não Humanos Propósito A discussão sobre ética, uma das mais antigas da filosofia, é essencial na tentativa de formular direitos humanos e estabelecer uma igualdade entre os homens, o que nos leva a olhar para outros seres, como animais e máquinas, a possuírem direitos similares aos dos homens. Objetivos ● Listar as diferentes formas de se pensar a ética e os limites impostos pela liberdade de expressão. ● Reconhecer a trajetória — com percalços — dos direitos humanos desde a Grécia Antiga até os dias atuais. ● Identificar a luta de outros seres, como os animais não humanos, para conseguir direitos e a preocupação de uma ética para máquinas inteligentes. Introdução Mesmo que seja um assunto discutido há séculos, raramente se chega a uma conclusão sobre como algo poderia ser considerado ético. A começar porque a própria noção de ética é controversa por si só: tanto pode ser vista como algo bom, certo e justo para um grupo; como pode ser considerada uma prescrição, como os códigos para categorias profissionais ou os mandamentos religiosos. Ainda, pode ser classificada como uma disciplina da própria filosofia que analisa os limites da ética. Ao longo da história, pensadores lutaram com força para ampliar suas vozes e fazer circular suas ideias, por vezes consideradas éticas; outras vezes, não. Recentemente, a luta por liberdade de expressão tem se convertido em argumento para o compartilhamento de notícias falsas (fake news) e discursos de ódio. Uma primeira tentativa de compreender a questão ética está na busca por criar um solo comum para todos os homens, isto é, uma ética universal. A Declaração dos Direitos Humanos, publicada pela ONU na metade do século XX — mas com raízes nos movimentos revolucionários do século XVIII ou mesmo na Grécia da Antiguidade —, pode ser considerada uma tentativa ou o resultado da trajetória da discussão dos direitos humanos ao longo dos anos. Contemporaneamente, mas no mesmo sentido, chegam críticas de movimentos que veem um tipo de soberba no hábito de colocar o homem no centro da discussão político-social-legal em detrimento de outros seres. É necessário que haja debates éticos sobre inteligência artificial e como é possível, e até mesmo aconselhável, criar figuras jurídicas equivalentes aos direitos humanos para outros seres, como animais não humanos, máquinas e até a própria Terra. Definição de ética Sem dúvida, a ética é um dos mais antigos temas da filosofia. Aparece nas obras filosóficas desde, pelo menos, os grandes nomes do período clássico grego: Sócrates, Platão e Aristóteles (todos nascidos entre os séculos V e o III AEC). Platão escreveu inúmeros diálogos e, na maioria deles, o seu já falecido mestre Sócrates — que nunca escreveu ele mesmo uma única linha e teve sua obra inteiramente registrada por seus alunos — era o protagonista. No mais famoso de todos os seus livros e também uma das obras mais importantes da história da filosofia, A república, o tema principal é a construção de uma cidade ideal, governada por cidadãos superespecializados que orientam suas ações através da ética. O método socrático-platônico das definições universais, que parte do princípio que sempre há uma caráter comum-universal que abrange toda multiplicidade das particularidades. Por exemplo, a noção comum-universal de árvore abrange toda e qualquer árvore no mundo. Tal projeto encontrou muitos críticos — a começar por Aristóteles, seu aluno mais notável da Academia —, não por Platão defender a ética, mas por, especialmente, defender a possibilidade uma ética comum-universal. Por outro lado, de um ponto de vista bem específico, ninguém é aético: todo mundo obedece a uma ética própria e, se ninguém é aético, o que quer dizer, então, ética? Por que ela é tão importante assim? A palavra vem do grego antigo ethos, que significa algo como conjunto de hábitos, costumes e valores de um grupo social ou cultura. Os romanos traduziram tal expressão para os termos mos ou moris, que originaram o nosso termo moral. Dessa forma, ética seria os códigos visíveis ou invisíveis que determinam o que é o certo e o errado, o bom e o ruim, o verdadeiro e o falso para determinada sociedade. O problema é que, mudando de geografia, de grupo, de tempo, a ética, então, mudaria. Para ficar num exemplo banal, basta pensar nos talheres utilizados para se alimentar ao redor do planeta. Qual seria o instrumento “certo”: garfos, facas e colheres? Hashi (ou palitinhos)? As próprias mãos? Pode-se imaginar o quanto um japonês tradicional ficaria chocado com alguém cortando com garfo e faca um sashimi. Alguns indianos dizem que os talheres de metal dão gosto ruim para a comida — daí a escolha pelas mãos. E, seguindoainda no tema culinária, há diversos vídeos na internet mostrando italianos agoniados porque alguém decidiu quebrar o espaguete para fazer caber em uma panela pequena. Se quisermos elevar um pouco a dificuldade do debate, basta lembrar a diferença de tratamento para grupos geralmente excluídos entre as diversas sociedades ou ao longo da história. Até cerca de 150 anos atrás, no Brasil, homens, mulheres e crianças de pele mais escura, africanos ou descendentes, poderiam ser considerados, por lei, propriedade de outras pessoas e eram escravizados. Em certos países, como a Arábia Saudita, as mulheres não compartilham dos mesmos direitos que os homens: até muito recentemente elas não podiam votar nem dirigir veículos. Atualmente, sob o controle dos talibãs, as mulheres afegãs sequer podem sair de casa sem a companhia de algum membro homem de sua família. Certos grupos religiosos, doutrinas ideológicas, ou mesmo países que abertamente consideram uma aberração qualquer tipo de comportamento sexual diferente do estritamente heterossexual, passível de punição ou, ao menos, de um processo de reeducação forçada. Os exemplos poderiam prosseguir. O argumento aqui é mostrar que as pessoas que defendem esses tipos de ações não se consideram “más” ou agindo contra a própria “ética”. Sempre houve e sempre haverá uma autojustificativa, mesmo para os mais atrozes comportamentos ou para muitos deles, ao menos. Dessa primeira forma de entender a ética, pode-se tirar uma segunda: ética pode ser vista também como um conjunto de regras prescritivas, que vão criar o fundamento para sabermos o que é certo ou errado antes de agirmos. Exemplo É o que acontece com a ética cristã ou estoica, ou, mais especificamente, com os códigos de ética de determinadas categorias profissionais, como advogados, médicos, psicólogos, enfermeiros e por aí vai. Entretanto, mesmo quando o código de ética está registrado em letra fria, há controvérsias e debates para se estabelecer a “verdadeira” interpretação do texto. Lembremo-nos das guerras ao longo da história entre diferentes grupos cristãos que leem a mesma Bíblia; ou os grandes debates entre advogados sobre determinadas passagens de códigos legislativos. Isso sem falar nas discussões eternas dentro da filosofia sobre o que um autor quis “verdadeiramente” dizer. Um caso ligeiramente diferente é o da autonomia médica, presente no código do Conselho Federal de Medicina. Que declara que o médico, entre diversos outros direitos e deveres, deve indicar o procedimento adequado ao paciente, observadas as práticas cientificamente reconhecidas e respeitada a legislação vigente. O problema pode aparecer quando há casos de doenças desconhecidas, sem tratamento farmacológico reconhecido. Por fim, há ainda uma terceira forma de pensar a ética: as teorias e concepções da filosofia que tentam estabelecer os limites da própria ética, que buscam dentro da ética suas fronteiras e consequências. É uma espécie de ética da ética, ou metaética, como se diz em “filosofês”. É esse o principal foco filosófico: investigar se há uma “verdade” intrínseca nos valores, de caráter universal, aplicada a todas as situações. Algo que não mudaria tanto de um lugar para outro, nem de um tempo para outro. O que é ética? Neste vídeo, você poderá reconhecer as características do conceito de ética. 1. Ética e liberdade de expressão Ética e moral Muita gente faz um esforço conceitual para diferenciar a ética da moral. A primeira teria uma ligação mais forte com um comportamento individual, “natural”, que estaria presente em todas as pessoas, independentemente do grupo social, da classe, das crenças e dos desejos que possuímos, e daria certa autonomia em relação às influências do exterior. Já a segunda funcionaria como o conjunto de leis desse agrupamento, que respeitaria as particularidades dessa comunidade. Há diversos problemas em ambos os casos. De início, como isolar essa nossa suposta “natureza”, a ponto de ela não ser persuadida pelas forças externas? Como dizer que há um mundo “interno”, intacto, sem influência do que acontece “lá fora”, com as outras pessoas, com as nossas relações cotidianas? No máximo, daria para dizer que a ética é o filtro “interior”, individual, para as regras exteriores, comunitárias — o âmbito da moral. Em seguida, há uma série de outras questões, por exemplo: Responder a essas questões não é fácil! E você não encontra uma resposta unânime para elas. O importante é que você, a partir de nosso conteúdo estudado — e do aprofundamento esperado — possa tomar posição frente a elas, com certa fundamentação teórica. O pensador alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) foi um dos maiores críticos do que chamou de moral. Ele associava essa moral a um conjunto de valores criados a partir do pensamento socrático-platônico, que se manteve vigente ao ser, posteriormente, adaptado pelo cristianismo . Nietzsche propôs filosofar com o martelo, como dizia, para explicitar sua intenção de destruir esses valores que, segundo ele, nos enfraqueciam, nos tornavam menos capazes de lidar com a própria vida e toda a sua variedade de possibilidades e surpresas. Saiba Mais Adaptado pelo cristianismo No prefácio de Além do bem e do mal, Nietzsche acusa o cristianismo de ser uma mera adaptação simplificada e, consequentemente, mais acessível do dogmatismo platônico para o povo comum; ou seja, um “platonismo para as massas”. Contudo, assim que “quebrou” a moral platônico-cristã, esse pensador, com ou sem intenção, logo colocou um outro tipo de proposta de valores, mais “fortes”, em que se encarava com coragem a aleatoriedade da vida, em que não haveria uma separação tão óbvia entre razão e emoção, entre bem e mal, entre verdadeiro e falso. Ou seja, Nietzsche percebeu que não há vácuo moral: sempre outros valores assumem o posto deixado vazio. Mesmo que a moral seja associada a determinado grupo social, portanto perdendo a capacidade de universalização, percebe-se, de forma concomitante, que é impossível viver sem uma moral, mesmo que implícita. Isso porque precisamos recorrer à moral (ou à ética, dependendo de quem fala) quando estamos diante de um impasse, quando precisamos tomar uma grande decisão e não temos recursos próprios, imediatos, ou para saber qual é a melhor estrada para se pegar na hora da encruzilhada. Immanuel Kant (1724-1804) foi outro filósofo que muito se debruçou sobre questões ético-morais, exatamente porque sabia que havia um limite para o racional e que não era possível saber qual é a regra na qual o outro sujeito está se baseando para agir. Tentando responder a essa demanda, ele formulou o chamado imperativo categórico, que pode ser sintetizado na seguinte frase: “Aja de tal forma que sua ação possa ser considerada lei universal”. Em outras palavras, aja do jeito que gostaria que agissem com você. Ainda: considere ética toda ação sua, desde que você aceite que façam a mesmíssima coisa consigo. A proposta de Kant não passou ilesa, entretanto. Entre outros apontamentos, seus críticos defendem que, às vezes, ser justo é tratar de maneira desigual os desiguais. Dito de outra forma: nem todas as pessoas têm as mesmas necessidades, desejos similares ou uma tábua de códigos que se equivalha. Por isso, achar que a “minha” percepção é a melhor para todos parece uma falta de conhecimento das subjetividades dos outros indivíduos — e no fundo até egoísmo. Uma das principais críticas à ética kantiana afirma que ele apenas atualizou o que foi o padrão ouro da moral durante quase todos os últimos 2 mil anos: o cristianismo. Desde os Dez Mandamentos até a categorização dos pecados, todo o sistema cristão funcionou para dar parâmetros que guiassem seus adeptos a sabero que era o certo e o errado, o que era verdade e o que era mentira, e como se poderia garantir uma vida boa no paraíso, após a morte. Com o passar do tempo, porém, o cristianismo perdeu a relevância que possuía há séculos. Mesmo que ainda haja muitos cristãos no mundo, outras forças (como a ciência) surgiram para colocar em dúvida as propostas sacerdotais. Antes mesmo da subida em definitivo da ciência ao altar dos valores morais, outros encontros já tinham afetado o monopólio cristão da lei prescritiva. Um caso exemplar foi a chegada dos europeus, nos séculos XV e XVI, nas terras que depois receberam o nome de América. Assim que encontraram populações nativas tão diferentes em seus comportamentos e valores, uma série de perguntas atravessou a cabeça dos europeus: Como tratar os nativos americanos, que seguiam outras éticas que permitiam relacionamentos menos monogâmicos, que não tinham pudores excessivos com o corpo, que não veneravam o mesmo Deus, que queriam trabalhar apenas o necessário, sem conseguir compreender a pretensão europeia de acumular riquezas? Parecia claro que não era apenas o cristianismo que sabia lidar com o mundo. Outros modos de viver funcionavam tão ou melhor que o europeu e isso precisava ser levado em conta. Ou deveria ser. As divergências entre ética e moral Com este vídeo, você poderá identificar as possíveis diferenças entre ética e moral. Ética e liberdade Em vários momentos da história, a ética (ou a moral) foi vista como aquilo que tentou controlar o que se pode ou não fazer. Há uma frase muito citada, mas que não aparece exatamente assim, de Os irmãos Karamazov, obra literária do russo Fiódor Dostoiévski, que resume bem a intenção: “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Isto é, Deus (ou um ente que tivesse uma importância ética parecida) seria o tampão moral que nos impediria de cair no caos completo, na desordem total, no vale-tudo. Como se apenas uma mão pesada nos impedisse de nos destruir por completo. Se não houvesse uma lei repressora, nós tenderíamos ao aniquilamento ou, no mínimo, à perda de certos traços que nos tornam diferentes de outros seres, a começar pelos outros animais. Nessa passagem do livro, o personagem de Dostoiévski dá alguns exemplos do que, para ele, seria o mais baixo que o homem poderia chegar: se não acreditarmos na imortalidade da alma, então não haverá mais nada amoral, tudo será permitido, até a antropofagia. Considerando que este era um costume de certos grupos indígenas das Américas na época da invasão europeia, há mais de 500 anos, o contraste moral fica ainda mais gritante. Antropofagia Ato ritual religioso de comer uma ou várias partes do corpo de um ser humano como uma forma de se vingar por mortes ocorridas em conflitos anteriores e para adquirir as características de seus inimigos. Para um intelectual urbano russo do século XIX, talvez o ato de comer outros seres humanos fosse um dos pontos mais baixos que o homem chegaria. Mas, para um tupi da costa de Pindorama (nome que os indígenas dessa etnia davam para a terra que se chamou depois de Brasil), o ato tinha diversas conotações: espirituais, existenciais e até éticas. Como equiparar tais noções tão distantes? O dilema ético aqui está exatamente em poder analisar a questão proposta da forma mais ampla possível. Aqui essas perguntas podem nos ajudar a refletir, mas não nos darão uma resposta pronta: a moral cristã, que eliminou o antropofagismo no Brasil, não deveria acontecer? Todos os aspectos culturais de um povo devem permanecer sempre intactos? O dilema ético aqui está exatamente em poder analisar a questão proposta da forma mais ampla possível. Aqui essas perguntas podem nos ajudar a refletir, mas não nos darão uma resposta pronta: a moral cristã, que eliminou o antropofagismo no Brasil, não deveria acontecer? Todos os aspectos culturais de um povo devem permanecer sempre intactos? https://conteudo.ensineme.com.br/hu/03193/intro?brand=estacio# É preciso estabelecer o que se pode ou não fazer, para criar uma coesão e, assim, nos liberar para sermos livres no restante das ações. Muitos pensadores ao longo da história da filosofia, como o suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), consideravam que o homem nasce livre, mas precisa se aclimatar à sociedade, diminuir seu ímpeto, se adaptar aos códigos impostos pela tradição. Esses pensadores foram empurrando a fronteira do que se podia fazer ou não — ou seja, da moral — a cada vez que um impedimento dogmático aparecia. Uma das questões primordiais do Iluminismo, por exemplo, foi a liberdade de expressão. Até o movimento europeu que teve como expoentes Kant, os franceses Voltaire, Diderot e Rousseau, e os ingleses Hume e Adam Smith, falar o que se pensava podia dar em prisão ou até em morte. Por isso, eles lutaram, escreveram, correram riscos para que todos pudessem expressar aquilo que tinham em mente, sem medo de serem exterminados por isso. A título de comparação do tamanho do risco do simples ato de opinar publicamente — algo banalizado em tempos de redes sociais —, lembre-se de como a imprensa foi perseguida na colônia portuguesa das Américas. Só se foi permitido ter jornais impressos com a vinda de D. João VI para o Brasil, em 1808. E, ainda assim, não era exatamente uma imprensa livre, mas profundamente censurada. Liberdade: abre as asas sobre nós? Neste vídeo, você poderá aprofundar a complexidade do conceito de liberdade. Liberdade de expressão No Brasil, na segunda metade do século XX, estudantes, artistas, militantes, músicos, operários, escritores, em suma, críticos ao regime foram presos, torturados, condenados ao exílio e até mortos por discordarem com veemência dos ditadores. O assassinato do jornalista Vladimir Herzog é um dos casos mais famosos que representa quão violenta foi a repressão dos militares. Em 1975, Vlado, como era apelidado, se apresentou espontaneamente para prestar depoimentos ao DOI-CODI, órgão militar famoso por atacar dissidentes do regime. O jornalista foi preso na mesma hora e apareceu enforcado, em sua cela, apenas um dia depois. Segundo as informações declaradas pelos oficiais, ele teria se matado com um cinto de pano que prendia sua roupa. Havia, contudo, uma grosseira inconsistência na versão apresentada pelos militares: na foto divulgada, os joelhos do jornalista apareciam encostados no chão, o que impossibilitaria o suicídio. Desde o Iluminismo, portanto, a liberdade de expressão se tornou um dos pilares dos regimes que se propunham democráticos. Só é possível ter uma democracia se tal direito for respeitado. Recentemente, entretanto, o processo se inverteu: utilizando-se desse arcabouço legal, vários atores políticos começaram a propagar informações que não condizem com os fatos. Em termos atuais, passaram a divulgar fake news. A liberdade de expressão é tratada por quem divulga esses “fatos alternativos” de forma distorcida. Primeiro como um valor superior aos demais: nenhum outro direito poderia ser mais importante que este. Segundo: como uma desculpa para falar qualquer coisa, não importando se é verdade ou não. Na Alemanha, por exemplo, é previsto como crime a negação do Shoá, também conhecido como Holocausto, o genocídio nazista que matou cerca de 6 milhões de pessoas, entre judeus, Testemunhas de Jeová, pessoas com deficiências, ciganos, comunistas, homossexuais e outros grupos discriminados pelos nazistas. Na Ucrânia, não só é proibido ocultar o Holodomor — o genocídio soviético da população ucraniana, com cerca de 12 milhões de mortos pela fome —, como também foi proibida a existência de partidos políticos comunistas e qualquer símbolo que remeta ao regime socialista soviético. Não importa que a liberdade de imprensa, análoga à de expressão nesse caso, esteja registradana Constituição daquele país. Há valores maiores do que a possibilidade de opinar publicamente. Na realidade, mesmo em democracias bem mais consolidadas que a brasileira, a liberdade não é infinita e precisa ser tolhida quando há riscos reais. Mesmo nos EUA, cuja Primeira Emenda à Constituição, datada ainda de 1791, já defendia a expressão livre, não é um vale-tudo. Nenhum direito é absoluto e a liberdade de expressão não é soberana em relação aos demais direitos. O Estado não interfere em relação a toda e qualquer informação veiculada, mas caso haja um exemplar considerado perigoso (planejamento de ataques terroristas, por exemplo), pode haver interferências. https://conteudo.ensineme.com.br/hu/03193/intro?brand=estacio# Além disso, no momento histórico em que pouquíssimas empresas privadas controlam o tráfego de informação pelo mundo, a relação entre liberdade de expressão, democracia e censura mudou drasticamente. Exemplo Facebook, Twitter e Google são capazes de desviar o fluxo para certas postagens a partir do quanto se investe. Ou seja, não é exatamente um procedimento democrático, mas plutocrata, isto é, com prioridade para quem tem mais dinheiro. Por outro lado, tais empresas bilionárias também podem, de uma hora para outra, banir certos personagens ou conteúdos, como no caso do ex-presidente norte-americano Donald Trump, cuja conta no Twitter foi retirada do ar no início de 2021 sob acusação de incitar a violência, é um exemplo do poder dessas companhias. Por se tratarem de empresas privadas, que não precisam dar satisfação das suas ações para o público em geral, acabam por gerar desconfianças legítimas. Para alguns, as acusações ao então presidente dos EUA foram óbvios; para outros não! Então, sendo uma empresa privada, que não precisa dar satisfação das suas ações para o público em geral, sempre há uma desconfiança. E quando houver perseguição a certos personagens que forem contrários à empresa em questão (como alegou parte da Imprensa Americana, nesse mesmo caso)? Ou acontece o problema inverso: certos conteúdos, apesar de serem classificados como discurso de ódio ou como propagadores de informações falsas, muitas vezes são mantidos porque têm audiência. É o caso de canais de propagação de notícias inverídicas no Facebook ou no Youtube (do Google), por exemplo. Para tornar as coisas ainda mais difíceis, mesmo que uma rede de divulgação caia no Whatsapp, que é ligado ao Facebook, ela surge num outro aplicativo de comunicação instantânea. E o pior: em vários desses casos, apesar de essas grandes companhias terem códigos de ética, eles são ignorados – ou interpretados de forma “criativa” – em prol de outros interesses, como manter a audiência em crescimento, engajada, com interações". Como insistido inúmeras vezes, não há unanimidade sobre algumas dessas temáticas. E é fundamental apresentar, quando possível, outras versões além daquela do "senso comum midiático". Assim, a partir desse admirável novo mundo que nos aparece, em que a liberdade de expressão já não é a mesma que foi defendida pelos iluministas, uma pergunta aparece com cada vez mais frequência: como estabelecer um limite, como propor uma ética para uma rede que é necessariamente ampla e tão multifacetada? Ou, para voltar à frase de Dostoiévski: se não há Deus — uma lei, um Estado, uma moral, uma ética — tudo é possível mesmo? Quem controla as agências de controle? Neste vídeo, vamos falar sobre os elementos que nos ajudam a perceber a importância e a complexidade de agências de controle das mídias digitais. Vamos lá! Definição de direitos humanos Talvez a pergunta “quando foram instituídos os direitos humanos?” só tenha uma concorrente na categoria dificuldade de responder: é a sua prima “o que são os direitos humanos?”. Sabe-se, com certeza, que tal expressão aparece na Declaração Universal da Organização das Nações Unidas, um documento proferido em 1948 — logo após o genocídio promovido por nazistas e fascistas durante a Segunda Guerra Mundial — que delimita os direitos fundamentais do ser humano. Tal declaração, porém, não acabou com as controvérsias e contradições. Segundo o historiador e jurista norte-americano Samuel Moyn, que defende essa onda atual de direitos humanos como uma espécie de última utopia humana e aponta a década de 1970 como o momento em que a Europa buscou uma identidade fora dos termos da Guerra Fria, que separava o mundo entre países alinhados aos EUA capitalistas ou à URSS comunista. Além disso, depois da desastrosa saída do Vietnã, em 1975, a política externa dos EUA mudou para padrões mais liberais, a fim de manter relações mais igualitárias com outras nações. E, principalmente, foi a década em que a aventura colonialista dos países europeus na África se dissolveu, ocasionando a libertação de diversos povos que até hoje pagam a conta dessa longa dominação. Isso, claro, sem contar o rescaldo dos grandes movimentos populares do fim da década de 1960, que sacudiram os paralelepípedos das ruas de várias cidades do Norte Global, de Paris a Berkeley (EUA), passando por Praga, capital da então república socialista tchecoslovaca. Após tais protestos e modificações do tabuleiro mundial, não dava mais para se crer capitalista ou comunista de forma inocente. Com a eleição de Margareth Thatcher no Reino Unido, em 1979, e de Ronald Reagan nos EUA, em 1981, os direitos humanos se transformaram em uma moeda imperialista. Exemplo Usando como desculpa o combate às ditaduras comunistas e o perigo do chamado avanço “vermelho”, EUA e Reino Unido intervinham diretamente na política interna e externa de países periféricos. Contraditoriamente, não se importavam com as violações dos mesmos direitos nesses mesmos países periféricos, que seguiam suas cartilhas subservientes e, na maioria dos casos, aderiam às suas políticas econômicas neoliberais. Era o caso das ditaduras sul-americanas do período, tais quais as implantadas no Brasil, na Argentina e no Chile. Essa política de direitos humanos também não aconteceu de forma igual nem ao mesmo tempo em todos os países da Europa do oeste — basta lembrar que, paralelamente a esse período, toda a Península Ibérica continuava sob o domínio de ditaduras nacionalistas até metade da década de 1970: Portugal se liberta do salazarismo, iniciado em 1933, somente com a Revolução dos Cravos, em 1974. Já a Espanha se livraria do franquismo — imposto desde o fim da Guerra Civil Espanhola, em 1938 — apenas com a morte do “generalíssimo” Francisco Franco, em 1975. Mas, afinal, como definir o que são os direitos humanos? Para começarmos a entender esse assunto, é possível citar alguns procedimentos dentro do escopo dos direitos humanos: o direito à liberdade de culto e religião; o direito a um julgamento justo, quando se é acusado de algum crime; o direito a não ser torturado; e o direito à educação. É nesse sentido que, atualmente, os direitos humanos: Plurais e têm como fim acabar com a escravização no mundo Destacam que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos, com o fim de acabar com a escravização no mundo e prevenir genocídios, através de direitos e liberdades fundamentais. Universais e inerentes a todos os seres humanos Promovem o respeito e a observância aos direitos e liberdades fundamentais do ser humano, como um ideal comum a ser atingido por todas as nações, independentemente das práticas, morais e leis específicas de seus países. Prioridades e sua violação é uma grave afronta à Justiça Esclarecem que o pleno reconhecimento e respeito aos direitos e liberdades fundamentais, para que toda e qualquer pessoa tenha direito a uma vida digna, é um requisito inerente à moral, à ordem pública e ao bem-estar de toda e qualquer nação democrática. Equiparadosa estabilidade e a segurança nacional Enfatizam que o direito a uma renda justa e satisfatória, que assegure uma existência digna, está diretamente relacionado com a estabilidade, a segurança nacional, a autonomia individual e dos povos, bem como a prosperidade nacional e global. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, já em 1948, nos fornece um bom parâmetro para tentar entender o que são, afinal, os direitos humanos: são uma tentativa de criar uma moral — uma ética — compartilhada por “todos os membros da família humana”, como escreve a declaração das Nações Unidas publicada em 1948. Tais direitos são aquilo no qual todos deveríamos nos basear, por serem as condições fundamentais para uma vida digna de toda e qualquer pessoa, sem importar quem ela é ou o que ela faz. Quando os humanos têm direitos Neste vídeo, você aprofundará o termo direitos humanos em suas nuances. Fundamentação histórica dos direitos humanos Direitos humanos e iluminismo Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade. (Art. 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos) Livres, iguais e com espírito fraterno. Desde o seu primeiro artigo, a Declaração Universal dos Direitos Humanos não esconde sua principal influência: a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Redigida logo no início da Revolução Francesa, em 1789, o icônico documento — cujo lema principal era “liberdade, igualdade e fraternidade” — não apenas ignorava o rei, como toda nobreza e a Igreja, atribuindo a soberania do país ou nação ao seu povo. Destacando que “os direitos naturais, inalienáveis e sagrados do homem” são a base de qualquer governo. O caráter universal dos direitos humanos também já aparecia na declaração de 1789, que se refere, ao longo de seu texto e de diversas formas, aos homens, sem fazer distinção da sua nacionalidade, com apenas uma menção ao povo francês. Seu artigo 1º, que ecoa no documento da ONU, quase dois séculos depois, já assegurava que “os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos”. Era tanta liberdade, igualdade e propunha tanta fraternidade que teóricos e políticos anglófilos como Richard Price e Edmund Burke, que tinham apoiado a independência norte-americana, em 1776, foram contrários à Revolução Francesa, com medo de que ela acabasse provocando o caos. Foi contra ela que Burke escreveu Reflexões sobre a Revolução na França, e criou as bases para o conservadorismo moderno, que até aceita transformações, mas acredita que as revoltas são movimentos extremos demais. Aliás, a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América é outro documento que historiadores, como a estadunidense Lynn Hunt, defendem como seminais no tema dos direitos humanos. A segunda linha do texto de 1776 já afirma: "Consideramos estas verdades autoevidentes: que todos os homens são criados iguais, dotados pelo seu Criador de certos Direitos inalienáveis, que entre estes estão a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade". Mesmo que haja uma menção ao Criador, o Seu trabalho termina ali. O governo era dos homens e para os homens. Todos os homens. Há uma conexão estreita entre as duas famosas declarações do século XVIII: Thomas Jefferson, o autor da declaração americana, estava em Paris 13 anos depois, meses antes da queda da prisão da Bastilha, o evento que marca o início da Revolução Francesa. Thomas Jefferson era amigo e muito provavelmente influenciou o marquês de Lafayette, que foi um dos redatores do documento de 1789. Todas essas declarações revolucionárias respiraram os ares críticos e científicos do Iluminismo, que criou as bases estruturantes para a proposta da formação de uma sociedade, em tese, muito menos estratificada. Carol Gilligan Pré-convencional Convencional Pós-convencional Considerações finais Tema 2 - Ética, Direitos Humanos e Direitos Não Humanos Definição de ética Exemplo Ética e liberdade de expressão Ética e moral Saiba Mais Ética e liberdade Liberdade de expressão Exemplo Definição de direitos humanos Exemplo Fundamentação histórica dos direitos humanos