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Brasília-DF. Poder Judiciário e Políticas Públicas Elaboração Leandro Molhano Ribeiro Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário APRESENTAÇÃO .................................................................................................................................. 4 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA ..................................................................... 5 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 7 UNIDADE I POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO ....................................................................................... 11 CAPÍTULO 1 JUDICIÁRIO, PROCESSO DECISÓRIO E POLÍTICAS PÚBLICAS .................................................... 11 CAPÍTULO 2 JUDICIALIZAÇÃO E ATIVISMO JUDICIAL COMO CATEGORIAS DE ANÁLISE SOBRE O PODER JUDICIÁRIO: SISTEMATIZANDO A DISCUSSÃO .......................................................................... 27 CAPÍTULO 3 DESENHO INSTITUCIONAL, PODER JUDICIÁRIO E POLÍTICAS PÚBLICAS: EXPLICANDO A JUDICIALIZAÇÃO E O ATIVISMO JUDICIAL ............................................................................... 34 REFERÊNCIA ...................................................................................................................................... 47 4 Apresentação Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 5 Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam a tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta, para aprofundar os estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Praticando Sugestão de atividades, no decorrer das leituras, com o objetivo didático de fortalecer o processo de aprendizagem do aluno. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. 6 Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Exercício de fixação Atividades que buscam reforçar a assimilação e fixação dos períodos que o autor/ conteudista achar mais relevante em relação a aprendizagem de seu módulo (não há registro de menção). Avaliação Final Questionário com 10 questões objetivas, baseadas nos objetivos do curso, que visam verificar a aprendizagem do curso (há registro de menção). É a única atividade do curso que vale nota, ou seja, é a atividade que o aluno fará para saber se pode ou não receber a certificação. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 7 Introdução O termo “políticas públicas” possui um conceito complexo e não há uma definição única na literatura especializada. No entanto, uma definição amplamente reconhecida foi elaborada pelo cientista político Thomas Dye, para quem políticas públicas podem ser definidas como tudo o que os governos escolhem fazer ou não fazer. Ora, se políticas públicas são uma escolha de governos, como relacionar Poder Judiciário e políticas públicas, uma vez que, normalmente, este poder não está associado, na teoria democrática tradicional, à elaboração legislativa? De fato, faz sentido afirmar que o Poder Judiciário participa, como ator relevante, do processo político decisório na produção de políticas públicas, se a visão tradicional de separação de Poderes, na qual o Poder Legislativo cria leis e o Executivo as implementa, não tiver mais sentido. É isso que estudos empíricos e novas proposições sobre a interação de Poderes afirmam. De fato, diversos estudos sobre o Poder Judiciário têm afirmado que a configuração institucional da soberania parlamentar, por meio da qual as noções de que a produção de políticas públicas cabe exclusivamente ao Legislativo eleito por meio da regra da maioria, não se aplica mais às democracias contemporâneas. Tal formulação, vale lembrar, está no cerne da teoria democrática que inspirou as revoluções burguesas ao longo dos séculos XVIII e XIX. Como afirma o cientista político Tom Ginsburg (2003, p. 2), “era natural que os proponentes da democracia defendessem a soberania parlamentar (pois) eles viam ameaças à liberdade por parte de fontes tradicionais: o antigo regime, a monarquia e a igreja. Uma vez que esses obstáculos ao poder popular fossem superados, os teóricos dificilmente poderiam justificar limites a vontade do povo, única fonte de poder”. A solução institucional percebida pelos teóricos foi conferir ao corpo Legislativo, representante do povo, o poder de legislar. Ao Executivo, caberia a implementação, das decisões soberanamente decidida por maioria no parlamento. As experiências ditatoriais e totalitárias vivenciadas sobretudo por países europeus na época da Segunda Guerra Mundial levaram a uma reformulação teórica e prática deste modelo de democracia. Por um lado, houve um esforço de constitucionalização de direitos básicos dos indivíduos; direitos esses a serem respeitados, mesmo que uma maioria parlamentar tente infringi-los. Por outro, para também garantir o respeito aos direitos constitucionalizados, houve a institucionalização em diversos países de cortes constitucionais. Neste novo modelo, não há soberania parlamentar, uma vez que tal maioria não pode infringir normas e regras definidas na Constituição. Os tribunais constitucionais assumem, assim, um papel contramajoritário e a defesa das minorias em relação às vontadesdas maiorias passa a ser concebida como essencial à democracia. O fato é que os direitos individuais básicos foram constitucionalizados muitas vezes de forma vaga, como princípios a serem interpretados em situações concretas de produção legislativa ou de resolução de conflitos entre agentes políticos, econômicos ou sociais. O poder de controlar a constitucionalidade de atos normativos passa a ser papel importante a ser exercido pelo Poder Judiciário. Nesse sentido, este pode se constituir como um ator de veto a proposições dos Poderes Legislativo e Executivo consideradas inconstitucionais. Mais ainda, a interpretação legal das situações conflitivas concretas não previstas no ordenamento jurídico – muitas vezes fruto de um 8 desenvolvimento tecnológico que é mais rápido do que a codificação legal – é responsabilidade dos juízes. Sendo assim, estes podem, ao resolver situações novas, criar um novo discurso normativo, não previsto no ordenamento jurídico existente. É fácil perceber que, nesses casos, o Poder Judiciário passa a se constituir como um ator relevante no processo decisório e, consequentemente, na produção de políticas públicas. Contudo é preciso ainda considerar que o poder e a forma por meio da qual o Poder Judiciário deve e pode atuar variam segundo o desenho institucional de separação e interação entre os Poderes e, também, conforme a configuração institucional das próprias instituições judiciais. Há países em que o controle de constitucionalidade é centralizado em cortes constitucionais. Em outros ele é difuso, podendo ser exercido por qualquer juiz em qualquer instância. Os atores que podem contestar a constitucionalidade de leis no Judiciário também podem variar de situações mais restritivas a situações menos restritivas. Em determinados casos, mesmo um veto do Poder Judiciário pode ser derrubado pelo Parlamento. Em vez de separação de funções entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, o que passa a ser observado no mundo empírico é uma interação, um diálogo entre tais Poderes. Tais características institucionais serão discutidas no capítulo 3, mas o que chama a atenção é o fato de que as próprias instituições judiciais podem ser vistas por outros atores relevantes do processo decisório como um recurso a ser usado para barrar políticas indesejadas ou como aliado a ser incorporado no processo, com o intuito de produzir determinada política. Essas são algumas das questões que serão discutidas ao longo dessa disciplina, intitulada Judiciário e Políticas Públicas. O capítulo 1 inicia a discussão, apresentando os modos pelos quais o Poder Judiciário pode participar do processo decisório e, dessa forma, impactar na produção de políticas públicas. Tal participação insere o Poder Judiciário em uma espécie de diálogo institucional com os Poderes Executivo e Legislativo e tem proporcionado um debate importante sobre o efeito que o Judiciário exerce sobre o comportamento estratégico de atores políticos, econômicos e sociais. Além disso, o capítulo apresenta dois estudos importantes sobre a participação do STF no processo decisório: um, elaborado por Mathew Taylor, que mostra como este órgão atua como ator de veto a decisões dos demais Poderes e outro, realizado por Oscar Vilhena Vieira, que argumenta que o STF tem exercido um papel de criação legal. Com isso procura-se ilustrar duas formas por meio das quais o Poder Judiciário pode atuar, através de seus órgãos de cúpula: como veto a políticas públicas ou como criador de políticas públicas. Em seguida, apresenta-se um caso decidido por juízes de primeira instância que pode ser concebido como de criação de políticas públicas. Isso porque o caso em questão diz respeito a situações conflitivas novas, não previstas nos códigos legais, cujas resoluções pelo Judiciário implicam um discurso normativo novo. Como o Judiciário só atua se acionado por outros atores, a literatura especializada tem denominado a inserção deste Poder no processo decisório como um modelo de “contestação legal”, diferente da visão tradicional de separação de Poderes. Sendo assim, o capítulo finaliza a discussão fazendo referência às principais implicações que este modelo tem para a teoria democrática. O segundo capítulo sistematiza a discussão sobre os principais conceitos usados na literatura especializada para analisar a atuação do Poder Judiciário, tais como apresentadas no capítulo 1: “judicialização” e “ativismo judicial”. De fato, a judicialização pode levar a atuação do Judiciário predominantemente 9 como veto, enquanto o ativismo está associado a um exercício de criação legislativa do Judiciário – criação esta que originalmente não é sua função e, sendo assim, é concebida por diversos autores como uma extrapolação de suas atribuições. Judicialização e ativismo, apesar de serem bastante difundidos na literatura em geral, são conceitos complexos e que não apresentam uma definição única. Nesse sentido, o capítulo apresenta as principais formulações sobre judicialização e ativismo e sua relação com a produção de políticas públicas, complementando a discussão realizada no primeiro capítulo. O terceiro capítulo apresenta os principais fatores institucionais que explicam a existência, a intensidade e a direção da judicialização e do ativismo judicial, se o Poder Judiciário tende a ser contramajoritário ou não às políticas públicas propostas pelos atores do Executivo e do Legislativo. Por intermédio de todas essas discussões, a seguir, pretende-se apresentar ao aluno os principais aspectos envolvidos na discussão “judiciário e políticas públicas. » A importância crescente do Poder Judiciário na definição de questões de políticas públicas: › questões políticas; › questões econômicas; › questões sociais. » Os fatores que explicam a importância crescente do Poder Judiciário. » As formas por meio das quais o Judiciário impacta na produção de políticas: › mediante órgãos de cúpula; › por instâncias inferiores; › como ator de veto; › como ator “criativo”. » Democracia, separação de Poderes e contestação judicial: › interação estratégica entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário; › O Judiciário como recurso a ser acionado por atores políticos, econômicos e sociais. » Sistematização dos conceitos usados para descrever a atuação do Poder Judiciário no processo polítido decisório: judicialização e ativismo; » Fatores institucionais que explica a judicialização e o ativismo: › escopo de atuação do Judiciário (questões em que pode atuar); › instrumentos de atuação (principalmente instrumento de controle de constitucionalidade); 10 › efeitos das decisões judiciais; › atores com acesso a contestação de constitucionalidade; › seleção e mandato dos juízes e sua relação com independência e isolamento do Poder Judiciário a pressões de atores não judiciais. » Instituições e direção do impacto do Poder Judiciário nas políticas públicas: › contra políticas públicas definidas por coalizões governistas majoritárias (atuação contramajoritária do Judiciário); › favorável à coalizão majoritária. Espera-se que toda a discussão teórica realizada na disciplina pode e deve ser utilizada para a análise da relação entre o Poder Judiciário e a produção de políticas públicas no Brasil. Objetivos » Apresentar e discutir as principais vertentes teóricas sobre o papel do Poder Judiciário nos processos de elaboração e implementação de políticas públicas. » Analisar o papel do Poder Judiciário no processo decisório, ou seja, sua relação/ interação com os Poderes Executivos e Legislativo no processo mais amplo de tomada de decisão de políticas públicas. » Analisar os fenômenos do ativismo judicial, da judicialização da política e da politização da justiça.» Analisar o impacto do desenho institucional do Poder Judiciário na configuração das políticas públicas. 11 UNIDADE IPOLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO CAPÍTULO 1 Judiciário, processo decisório e políticas públicas Poder Judiciário e questões de políticas públicas Entre os dias 1o a 25 de junho de 2011, o termo “STF” teve 101 inserções no jornal Valor e o termo “Judiciário” no mesmo jornal teve 93 inserções. Quantitativamente esses números revelam uma média de um pouco mais de quatro aparições diárias. Qualitativamente, vale ressaltar que a ocorrência desses termos não se deu apenas em espaços reservados a discussões jurídicas. Na verdade, “STF” e “Poder Judiciário” estavam presentes em diversos espaços desse jornal, abrangendo, entre outros, os seguintes assuntos: » definição de prazos para o aviso prévio no Brasil; » parcelamento do pagamento de precatórios; » definição da constitucionalidade de leis estaduais de concessão de incentivos fiscais; » controvérsia sobre uma emenda visando à flexibilização de licitações; » fornecimento de material genético deixado por um marido falecido a sua mulher por parte de uma clínica de reprodução; » reabertura de um caso de investigação de paternidade; » liberação da marcha da maconha; » definição se sentenças de Cortes internacionais de arbitragem proferidas no Brasil são decisões nacionais. Essa rápida pesquisa em somente um jornal de alcance nacional em apenas um mês de um único ano ilustra o quanto o Poder Judiciário está presente na vida política (nacional e internacional), econômica e social do Brasil. Presença, vale dizer, não como ator coadjuvante, mas como um player relevante na configuração das políticas públicas do País. 12 UNIDADE I │ POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO Para se ter uma ideia da importância que o Poder Judiciário vem assumindo em questões relevantes no País, basta enumerar um conjunto de temas sociais, políticos e econômicos listados pelo professor Oscar Vilhena Vieira (2008) acerca dos quais o Supremo Tribunal Federal tomou decisões nos últimos anos: » Direito fundamentais: o STF decidiu ou tem em sua agenda de decisão questões referentes a células-tronco, cotas nas universidades, desarmamento, aborto (anencéfalos), demarcação de terras indígenas, reforma agrária, distribuição de medicamentos, lei de imprensa, lei de crimes hediondos, poder da polícia de algemar, direito de greve. » Representação política: o STF decidiu ou tem em sua agenda de decisão temas relacionados à representação política, como sub-representação na Câmara dos Deputados, cláusula de barreira, fidelidade partidária, número de vereadores nas Câmaras Municipais. » Eleições: vale acrescentar a essa lista elaborada por Vieira o conjunto de resoluções do TSE regulamentando as eleições, desde que o País vivenciou sua democratização, no final dos anos 1980. » Julgamentos políticos: caso do impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello; julgamento dos acusados do caso de mensalão. » Federalismo: ainda no tema político, mas com relação à questões federativas, o STF tomou decisões ou tem em sua agenda questões relacionadas com a delimitação de atribuições das esferas do Estado. » Atribuições dos Poderes Executivo e Legislativo: nesse caso, passou ou está em pauta do STF temas como restrição à atuação das CPIs; limitação do poder de edição de medidas provisórias pelo Presidente da República; restrição aos Poderes de investigação do Ministério Público; garantia dos direitos das minorias parlamentares na composição das mesas da Câmara e do Senado; delimitação do campo de autonomia das agências reguladoras; a restrição às sessões secretas do Senado. » Economia: o STF tem que lidar com temas como guerra fiscal, questões trabalhistas relacionadas ao Cofins e ao FGTS, questões relativas aos ajustes econômicos. » Políticas de reformas: Vieira lembra em seu estudo que o “Supremo, por outro lado, também não viu nenhuma dificuldade em discutir a validade de emendas à Constituição, como nas reformas administrativa, previdenciária e do próprio Judiciário, chegando, sem qualquer hesitação, a declarar algumas emendas contrárias às cláusulas pétreas, como no caso da extinta CPMF” (VIEIRA, 2008, p. 450). Essa importância do Poder Judiciário não é uma exclusividade do Brasil, ao contrário, o tema “expansão do Poder Judiciário” tem sido abordado de forma sistemática pelo menos desde a década de 1990. Um estudo que referencia esse debate foi organizado pelos professores Neal Tate e Torbjorn Vallinder, em 1995, intitulado “The global expansion Judicial Power: the judicialization of politics” e lançado pela editora New York University Press (TATE; VALLINDER, 1995). Este 13 POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO │ UNIDADE I trabalho apresenta uma discussão sobre o tema da “judicialização da política” em diversos Países, a partir de um referencial teórico que passou a ser muito utilizado no debate acadêmico. Os autores Tate e Valinder dividem analiticamente o conceito de judicialização da política em dois aspectos: um fenômeno “mais dramático” de transferência de decisões normativas do Legislativo e/ou do Executivo para o Judiciário – e que se dá, principalmente, por meio de instrumentos de controle de constitucionalidade. Nesse sentido “mais dramático”, a judicialização significa um processo por meio do qual tribunais e juízes se tornam atores relevantes ou aumentam sua participação na produção de políticas públicas, previamente elaboradas por órgãos dos Poderes Legislativo e Executivo (TATE; VALINDER, 1995, p. 28); um fenômeno “menos dramático” de incorporação de métodos próprios de decisão e resolução de conflitos dos tribunais para setores administrativos diversos. É importante enfatizar neste momento que o conceito de judicialização é controverso na literatura especializada e que essa controvérsia será objeto de análise no capítulo seguinte. Neste momento, basta mencionar que o primeiro sentido atribuído à judicialização por Tate e Vallinder é que passou a ser explorado cada vez mais nos trabalhos acerca do tema. Justamente nesse caso é que podemos perceber a atuação do Poder Judiciário brasileiro no processo decisório de produção de políticas públicas, principalmente através de seu principal órgão, o STF. Como o Poder Judiciário participa no processo decisório: iniciando o debate Participação do Judiciário por meio dos seus órgãos superiores Uma observação um pouco mais detida nessas notícias mostra essa relevância do Poder Judiciário e nos dá uma ideia de como este ator vem sendo acionado por diversos outros atores e como suas decisões estão contribuindo, seja para a manutenção de determinadas políticas públicas, seja para sua alteração. A questão do prazo para o aviso prévio foi debatida no Supremo Tribunal Federal por causa de quatro ações propostas por empregados da Companhia Vale do Rio Doce que foram demitidos da empresa. Todos eles tiveram 30 dias de aviso prévio, embora tenham trabalhado por diferentes períodos na Vale e foram buscar no Poder Judiciário uma indenização de acordo com o tempo de serviço. Como a questão do prazo do aviso prévio não foi regulamentada em lei, a Corte Superior brasileira está sendo chamada a cumprir o inciso 21 do artigo 7o da Constituição Federal, que determina ser o “aviso prévio proporcional ao tempo de serviço, sendo, no mínimo, de 30 dias, nos termos da lei”. Segundo o noticiário do jornal Valor, Na falta de lei sobre os prazos para aviso prévio, o Supremo Tribunal Federal (STF) vai definir o assunto, segundo decisão de quarta-feira. Nessa tarefa, os ministros do tribunal vão seguir as recomendações da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e as experiências internacionaisque podem levar o aviso prévio a passar dos 30 dias atuais para até seis meses. 14 UNIDADE I │ POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO Segundo o noticiário, o STF poderá basear sua decisão nos projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional que tratam da questão, no direito aplicado em outros Países em recomendações da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Esse caso mostra uma participação direta do Poder Judiciário, através de sua instituição máxima, o STF, na definição de uma questão cuja competência é claramente do Poder Legislativo (o Congresso Nacional, como reconhece o próprio ministro do STF Gilmar Mendes, responsável a elaborar uma proposta a ser levada a julgamento). Vale observar que essa questão foi judicializada por ex-empregados de uma grande empresa e a decisão a ser tomada pelo Poder Judiciário terá consequências econômicas relevantes. No caso do parcelamento dos precatórios, o STF invalidou uma Emenda Constitucional (Emenda Constitucional 30/2000) que autorizava em dez anos o parcelamento dos precatórios judiciais. O STF considerou que o parcelamento contraria o artigo 5o da Constituição Federal de 1988. A ação contra o parcelamento dos precatórios foi proposta por um ator coletivo de abrangência nacional, a Confederação Nacional das Indústrias, e veta uma emenda a Constituição editada pelo Poder Executivo. Assim como no caso anterior, a decisão do Poder Judiciário tem consequências importantes, como indica o seguinte trecho do noticiário: A estimativa do Conselho da Justiça Federal (CJF) é que o estoque de precatórios, que vinha sendo pago parceladamente e que terá que ser quitado no próximo ano, de uma única vez, por causa da decisão do Supremo, é de cerca de R$ 9,5 bilhões. Se o parcelamento tivesse sido mantido, a despesa ficaria entre R$ 2 bilhões e R$ 2,5 bilhões. Na questão de concessões de benefícios fiscais por meio de leis estaduais, o STF julgou 14 ações diretas de inconstitucionalidades (ADIs) movidas por estados, que questionaram a concessão de benefícios tais como redução da alíquota do ICMS em operações internas, redução do saldo devedor do imposto e da base de cálculo em operações internas e interestaduais concedidos por seis estados (São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Espírito Santo, Pará e Mato Grosso do Sul), além do Distrito Federal. As leis estaduais foram consideradas inconstitucionais pelo Supremo, pelo fato de este órgão considerar que os estados não podem conceder qualquer tipo de benefício sem convênio prévio do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz). Segundo o noticiário, a discussão tem como base uma alínea do artigo 155 da Constituição Federal, que atribui à lei complementar a função de regulamentar a forma em que os incentivos fiscais serão concedidos. A Lei Complementar no 24, de 1975, diz que esses benefícios dependerão de convênio prévio do Confaz. Para atrair investimentos, os estados vêm concedendo todo tipo de vantagem de forma unilateral, gerando questionamentos no Judiciário. Essa decisão provocou uma reação por parte de governadores estaduais, que se mobilizaram para ingressar no Supremo com pedido de modulação dos seus efeitos: uma definição de prazos para que os estados se adaptem à decisão e para que possam resolver este problema: 15 POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO │ UNIDADE I Os governadores querem agora um encontro com o presidente do STF, Cezar Peluso, para expor as suas preocupações. Na reunião que tiveram ontem com a presidente Dilma Rousseff, os governadores do Norte e do Nordeste comentaram a questão e expuseram os seus temores. É significativo que o primeiro item da “Carta de Brasília”, divulgada por eles após o encontro com a presidente Dilma, defenda justamente a “convalidação dos benefícios fiscais existentes, na forma da legislação de cada estado”. Essa “convalidação” dos incentivos fiscais concedidos já estava sendo negociada pelo governo, antes mesmo da decisão do Supremo, e constará da proposta de reforma tributária, como lembrou ontem o secretário-Executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa. Segundo ele, a “convalidação” poderá ser feita pelo Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz). A decisão também provocou uma reação, também, por parte do Ministério Público (MP), que, segundo o noticiário, passou a considerar a possibilidade de iniciar ações de cobrança de tributos retroativos de empresas que tiveram benefícios considerados inconstitucionais. Diante de todas essas reações, que inseriu o tema das concessões de benefícios na agenda de debates entre governadores e a Presidência da República e inspirou a iniciativa de ações do MP, a decisão do Supremo pode ter consequências importantes para o debate mais amplo sobre reforma tributária no País. Vale observar que a decisão do STF alterou estratégias de atores políticos, que também podem se utilizar do próprio Poder Judiciário para tentar se “defender” de consequências negativas. Essa consequência da decisão de um órgão superior do Poder Judiciário sobre o comportamento de atores políticos pode ser ilustrada pela análise feita por um político expressivo do País, o governador de Sergipe, Marcelo Déda, que esteve na reunião dos governadores do Norte e Nordeste com a Presidenta da República, Dilma Rousseff. Perguntado pelo jornal Valor como a decisão do STF sobre concessão de benefícios afeta a vida dos governadores, Déda respondeu: Em duas palavras: insegurança jurídica. As decisões do Supremo colocaram um grau de insegurança na relação dos estados com empresas beneficiárias de incentivos que praticamente paralisaram as negociações em curso e criaram um processo de extrema angústia naquelas que já se encontram instaladas há décadas nos estados. Não temos o que discutir com relação à postura do Supremo. Mas temos o que discutir com relação à forma. E à maneira como aquela decisão vai ser aplicada. Tratar a guerra fiscal como um tema Judiciário clássico pode produzir efeito danoso não apenas aos estados que são mais eficientes na captação de empresas com esses recursos. Não tenho estatística, mas diria que um terço do PIB industrial brasileiro tem algum tipo de incentivo praticado por leis estaduais que o Supremo decretou inconstitucional. Empresas como Ambev, Volks, Ford, como a Fiat que vai agora para Pernambuco, como ficam? A imensa maioria delas, com ações na Bolsa, têm que fazer provisão para possível pagamento do imposto que foi isentado? Como serão tratadas situações consolidadas? A decisão terá repercussão só para o futuro ou é aplicável imediatamente? 16 UNIDADE I │ POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO Depois, questionado se os estados iriam questionar a decisão no próprio STF, Déda comentou a estratégia do Distrito Federal de entrar com uma ação questionando o critério de decisão do Confaz. Segundo Déda: O DF está entrando (com uma ação). O que o Supremo disse? Nenhuma lei que cria incentivo fiscal é válida se os benefícios criados não forem objeto de convênio no Confaz. O Confaz é por unanimidade. Então o DF entrou também com uma ação específica para questionar a constitucionalidade do critério de unanimidade, que ofende o principio de construção da maioria numa democracia. A Constituição não fala em unanimidade, fala em Confaz. A lei que regulou o dispositivo constitucional é que tocou na unanimidade. Com isso a gente tenta, do ponto de vista de estratégia, equilibrar. Isso ajuda a criar um contraponto que, possibilite aos estados uma negociação mais equilibrada. No caso que trata da flexibilização das licitações, a própria manchete na notícia, “PPS promete ir ao STF contra emenda que flexibiliza licitações” informa como o Poder Judiciário pode ser convocadoa atuar no processo político decisório. O partido político PPS viria a propor uma ADI contra uma emenda editada em medida provisória editada pelo governo federal visando flexibilizar as licitações para as obras da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016. Esse caso ilustra um tipo de comportamento comum entre os atores políticos, principalmente entre os partidos de oposição, de reivindicar no Judiciário o veto a medidas tomadas pelo Poder Executivo. Esses casos envolvem diretamente a instância máxima do Poder Judiciário brasileiro, o Supremo Tribunal Federal, em questões que têm consequências diretas para a produção de políticas públicas no País. De fato, os casos são reveladores de como o STF tem participado do processo político decisório, participação esta que tem ocorrido não apenas no Brasil, mas parece ser um fenômeno geral, conhecido, na literatura especializada, como judicialização da política. Tais casos ilustrativos, revelam as seguintes características desse processo de participação do Judiciário no processo decisório e produção de políticas públicas: a. Diferentes atores, individuais ou coletivos, da sociedade civil ou da arena política judicializando questões, ou seja, buscando no Poder Judiciário a resolução de conflitos ou questões ou a defesa de seus interesses (vale observar, não necessariamente interesses legais ou jurídicos mas sim políticos e econômicos): › cidadãos – atores individuais, que consideraram que seus direitos foram violados em alguma medida, como no caso dos ex-empregados da Companhia Vale do Rio Doce; › grupos de interesse da sociedade civil – atores coletivos não governamentais, que buscam, no Poder Judiciário, não apenas resolver conflitos, mas, também, defender seus interesses, como no caso em que a CNI questiona o parcelamento no pagamento de precatórios; › atores políticos – ingressam no Poder Judiciário para vetar determinadas medidas e defender seus interesses, como no caso em que governadores de 17 POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO │ UNIDADE I alguns estados ingressam com ação de inconstitucionalidade de leis estaduais de concessão de benefícios fiscais. b. Que as decisões do STF têm consequências diretas sobre as esferas social, política e econômica: › têm impactos sobre o arcabouço normativo que define as regras que organizam as esferas social, econômica e política; › têm impactos, consequentemente, sobre o comportamento dos agentes sociais, econômicos e políticos que atuam nas esferas mencionadas; › têm impactos, consequentemente, econômicos e sociais diretos e indiretos; › têm impactos, consequentemente, sobre orçamentos públicos; c. Que a opção em “judicializar” questões está presente no cálculo estratégico dos atores, principalmente dos grupos de interesse e dos atores políticos, como um recurso a ser usado na consecução de seus objetivos. Nesse caso, o uso da instância judicial pode ser concebido como uma alternativa por parte destes atores para resolver conflitos, anular regras concebidas como desvantajosas ou aumentar as chances de implementar regras que atendam seus interesses. d. Que este processo de judicialização tem consequências sobre o comportamento posterior de outros atores, imprimindo uma dinâmica na interação estratégica entre os atores afetados pelas decisões judiciais, no qual o próprio Judiciário é inserido no processo decisório. e. Que a atuação do Poder Judiciário assume diferentes formas nesse processo: › pode preencher um vazio Legislativo, assumindo um caráter de criação legal; › pode ser uma instância de veto, ao anular atos normativos. Os itens a e b mostram que diferentes atores das esferas social, política e econômica podem acionar o Poder Judiciário (nos casos apresentados, através do órgão máximo, o STF) para, de alguma forma, salvaguardar seus interesses. Uma vez acionado, o Poder Judiciário acaba interferindo no ordenamento normativo, seja para manter o status quo – e desta forma “cristatilizar” ou “consolidar” o estado de coisas existente – seja para alterá-lo. Seja como for, uma vez que o Poder Judiciário atua, o arcabouço normativo consolidado ou criado passa a orientar o comportamento dos agentes que atuam nas esferas social, política e econômica, ou seja o discurso legal criado pelo Poder Judiciário cria um arcabouço normativo que orienta o comportamento dos agentes. Nesse sentido, pode-se dizer que o referido Poder Judiciário ocasiona impactos diretos (ao atuar no ordenamento legal) e indiretos (ao orientar comportamentos) nas próprias esferas da vida social, política e econômica. Ao ser “convocado” a atuar diretamente em questões de políticas públicas, o Poder Judiciário passa a ser um ator relevante do processo, como mostram os itens c, d e e. Como sua atuação provoca impactos diretos e indiretos, os próprios agentes podem conceber o Judiciário como um recurso 18 UNIDADE I │ POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO a ser explorado nas suas estratégias de produção de políticas públicas. Como o jogo “político” é dinâmico, envolve idas e vindas de ações estratégicas de atores políticos, sociais e econômicos, o Poder Judiciário pode ser envolvido em diferentes etapas das interações entre esses atores. Ao atuar, ele pode de alguma forma preencher vazios normativos deixados pelos Poderes Legislativo e Executivo; ter um papel de maior deferência a estes Poderes e se recusar a atuar, devolvendo a responsabilidade de produção legislativa aos outros Poderes; ou pode ainda ter um papel de veto, ao anular atos normativos considerados inconstitucionais. Instância de veto e criação legislativa: dois estudos sobre o STF no processo político decisório brasileiro Alguns dos aspectos sobre como o Poder Judiciário, através do STF, tem participado do processo decisório brasileiro foram explorados em dois estudos importantes e que serão apresentados brevemente a seguir, como complementação e ilustração da discussão apresentada até o momento. O STF como instância de veto: o estudo de Mathew Taylor Mathew Taylor, em trabalho intitulado Judging Policy: courts and policy reform in democratic Brazil, publicado pela editora Stanford University Press, em 2008, explora, entre outros temas, o uso do STF (ou Judiciário em geral) como recurso de veto por parte de atores políticos, econômicos e sociais. Ao longo de seu trabalho, Taylor (2008, p. 10) formula a seguinte proposição: ao perseguirem seus objetivos de políticas públicas, os atores podem se dirigir os tribunais como pontos de veto que os possibilitam prorrogar ou anular políticas públicas ou, de forma alternativa, desacreditar as políticas públicas ou declarar sua oposição a elas (“In pursuing their policy objectives, policy actors may turn to courts as veto points that enable them to delay or disable policy or, alternatively to discredit policy, or declare their opposition”). Com base nessa proposição, o autor formula as seguintes questões de investigação: » “Como o ambiente político (incluindo os efeitos tanto das condições políticas contigenciais a as regras institucionais mais estáveis) pode contribuir para a importância dos tribunais como arenas alternativas importantes para os atores marginalizados no processo Legislativo?” (“how the political environment (including the effects of both contingent political conditions and more stable institutional rules) may contribute to the court’s importance alternative venues for policyplayers marginalized in the legislative process?” – TAYLOR, 2008, p. 73) » “E com qual extensão, então, os tribunais realmente influenciam o ambiente político mais amplo, oferecendo uma arena alternative para a contestação de políticas públicas?” (“To what extent, though, do courts really influence the broader political environment byoffering an alternative venue for policy contestation?” – TAYLOR, 2008, p. 75) As respostas do autor giram em torno da possibilidade de contestação das políticas públicas por parte de atores minoritários (perdedores) no processo Legislativo, através do Poder Judiciário. 19 POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO │ UNIDADE I Nesse caso, portanto, o Judiciário é utilizado como um recurso para anular uma política pública, se possível, ou, como afirma Taylor, pelo menos retardar sua implementação ou ainda como forma de esses grupos minoritários manifestarem seu descontentamento. É importante ter em vista que, no esquema analítico de Mathew Taylor, o tipo de política pública influencia a forma como o Judiciário será acionado pelos atores e, nesses sentido, o tipo de política pública influencia o modo de participação desse poder no processo decisório. Em sua análise, Taylor observa a probabilidade de uma política pública ser levada a contestação no Judiciário por parte de atores políticos ou sociais. A hipótese do autor é que a intensidade com que o Poder Judiciário é acionado por atores políticos e sociais com o objetivo de contestar uma política pública decretada depende fortemente da saliência dessa política. A saliência da política pública, por sua vez, é, para o autor, fortemente influenciada pelo grau com que seus custos e benefícios são distribuídos. Assim, Taylor, em vez de utilizar a tipologia definida por Lowi, usou uma matriz elaborada pelo cientista político James Wilson para classificar as políticas em análise. Primeiramente, Taylor classificou quatro tipos de políticas específicas, segundo a matriz de Wilson: a reforma a agrária, a política voltada para a indústria automobilística, a reforma da seguridade social e as medidas de racionamento de energia. Em seguida observou se tais políticas foram contestadas no Poder Judiciário. A análise do autor mostrou que a política teve seus custos concentrados em um determinado grupo, mas os benefícios distribuídos para toda a sociedade foi que sofreu maior grau de contestação no Poder Judiciário. De fato, para o autor, tal concentração de custos fez com que os atores que iriam sustentá-la se mobilizassem e recorressem ao Poder Judiciário para barrá-la (vetá- la). Por sua vez, a política que teve os seus benefícios concentrados, mas seus custos distribuídos, não chegou a mobilizar fortemente os atores sociais e políticos em sua contestação. Sendo assim, esse tipo de política foi o menos contestado no Poder Judiciário, ou seja, foi a que sofreu menor oposição organizada contra ela. Por fim, os demais tipos de políticas tiverem mobilizações e contestações moderadas por parte dos atores políticos e sociais. O resultado dessa pesquisa pode ser observado no quadro abaixo: Quadro 1 Quadro resumo do estudo de Taylor sobre a relação entre tipo de política pública e intensidade de sua contestação no Poder Judiciário Custos concentrados Custos distribuídos Benefícios concentrados Reforma agrária Taxação de terra improdutivas Transferências de crimes de morte para tribunais civis Nova Lei Agrária Não expropriação de terras invadidas Retirada dos invasores do programa de reassentamento = contestação moderada no Judiciário Política para indústria automobilística Cotas de importação Incentivos para produção doméstica = ganhos concentrados para a indústria automobilística com custos repassados a consumidores e cidadãos = contestação baixa no Judiciário Benefícios distribuídos Reforma da seguridade social Idade mínima para aposentadoria Teto para os benefícios Taxa sobre benefícios para o setor público Mudança na fórmula do cálculo dos benefícios = ganhos distribuídos todos com custos repassados aos servidores = contestação forte no Judiciário Racionalização de eletricidade: Plano emergencial para redução de consumo (tarifas) Limitação de recursos legais = contestação moderada no Judiciário Fonte: TAYLOR, Mathew. Judging Policy: courts and policy reform in Democratic Brazil. Stanford: Stanford University Press, 2008. 20 UNIDADE I │ POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO Supremocracia: o estudo de Oscar Vilhena Vieira Outro estudo importante sobre a participação do STF no processo decisório foi realizado pelo professor Oscar Vilhena Vieira, intitulado “Supremocracia” e publicado na Revista DIREITO GV, volume 4, número 2, em 2008. Neste texto, o autor defende que o STF é um ator relevante, central, no sistema político brasileiro e que vem não apenas exercendo o papel tradicional de controle de constitucionalidade no País, como também está participando, em alguma medida, da criação de regras, ou seja, vem exercendo, também, uma função e Poder Legislativo. Esse “poder” do STF deriva de condições institucionais específicas do Brasil, assim como de fatores relacionados com a extensão do Poder Judiciário verificada em outros Países – ambos os elementos (fatores explicativos da extensão do Poder Judiciário em geral, como o impacto do desenho político- institucional para alcance e profundidade do exercício do poder do Judiciário) serão explorados em capítulos posteriores. Para Vieira, vivemos no Brasil uma supremocracia, sendo este termo usado para designar, por um lado, a autoridade do STF em relação às demais instâncias judiciais, e, por outro lado, a expansão do STF em relação aos demais Poderes, o Executivo e o Legislativo. No primeiro sentido, Vieira observa que o STF vivenciou um processo crescente de concentração de poder que o possibilitou governar jurisdicionalmente o Poder Judiciário. Tal processo teria se concretizado em 2005 com a adoção do instrumento da súmula vinculante, através do qual o STF pode “sanar sua incapacidade de enquadrar juízes e tribunais resistentes às suas decisões” (VIEIRA, 2008, p. 445). Em sua segunda acepção, Vieira apresenta os seguintes indícios da função legislativa que estaria sendo exercida pelo STF: » O julgamento do caso das células-tronco, ADI 3.510-0, que para o autor foi “emblemático da atual etapa de expansão da autoridade do Supremo Tribunal Federal, como arena de discussão pública de temas de natureza político moral” (VIEIRA, 2008, p. 450). Nesse caso, é digno de nota o fato de que, como bem analisa Vieira, o STF não ter sequer discutido a possibilidade de deferência, entendida pelo autor como “a postura respeitosa que muitos tribunais demonstram em relação ao legislador, democraticamente eleito”. Tal deferência poderia ser uma atitude normal do STF neste caso, na medida em que não apenas a lei a ser discutida pelo STF passou por maioria no Legislativo, como não estava em discussão a sua constitucionalidade, mas tão somente uma ponderação legislativa. Uma das conclusões de Vieira sobre este caso é que O que ficou claro é que o Supremo não se vê apenas como uma instituição que pode vetar decisões parlamentares claramente inconstitucionais, mas que pode comparar a qualidade constitucional das decisões parlamentares com as soluções que a própria Corte venha a imaginar, substituindo as decisões do parlamento caso entenda que as suas são melhores. (VIEIRA, 2008, p. 451). Além de não atuar com deferência, Vieira ressalta que a posição minoria no próprio STF, vocalizada na ocasião pelos ministros Carlos Alberto Direito e Antonio Carlos Peluso, procuraram inserir na decisão do órgão medidas de caráter Legislativo, visando a criação de mecanismos mais rigorosos pra fiscalizar pesquisas com células-tronco. Nesse sentido, o autor conclui que 21 POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO │ UNIDADE I uma das maiores idiossincrasias deste julgamento foi o fato de que a minoria no plenário, já derrotada por aqueles que entendiam que a lei era constitucional em sua totalidade, obstinadamente buscou que fossem incluídas na sentençamedidas de caráter Legislativo, que restringiriam enormemente a eficácia da legislação (VIEIRA, 2008, p. 452). Por fim, é importante mencionar o fato de que a deliberação do STF neste caso de alguma forma deu lugar a discussões da sociedade civil, seja através de amici, seja por parte de audiência pública, fazendo com que o próprio órgão se constituísse como um locus de discussão pública de um tema complexo. » O caso da fidelidade partidária, tratado no Mandado de Segurança 26.603/DF, e o caso dos crimes hediondos, tratado na Reclamação 4.335-5/Acre. Nesses dois casos, Vieira procura mostrar a forma pela qual o STF expandiu o exercício de atividades legislativas. Segundo o autor, em ambos os casos, “o Supremo parece ter dado um passo na direção do exercício do poder constituinte reformador” (VIEIRA, 2008, p. 454). No caso da fidelidade partidária, o TSE respondeu à consulta 1398 formulada pelo então Partido da Frente Liberal (PFL), na qual reconheceu que os partidos e as coligações partidárias têm o direito de manter as cadeiras parlamentares obtidas nas eleições quando o deputado decide mudar de partido político. Como a decisão do TSE não foi acatada pela Presidência da Câmara dos Deputados, o PSDB entrou com o Mandado de Segurança no 26.603. Segundo Vieira, o STF atuou neste caso como um constituinte reformador, na medida em que ao decidir pela perda de mandado do deputado que, injustificadamente, mudar de partido, após o pleito eleitoral, devendo sua vaga ser preenchida pelo suplemente que se encontra na lista do partido ou coligação de origem, o órgão criou uma nova categoria de perda de mandado parlamentar, distinta daquelas hipóteses previstas no artigo 55, da Constituição Federal (VIEIRA, 2008, p. 455). No caso dos crimes hediondos, a questão explorada por Vieira foi uma decisão no HC 82.956 no qual o STF afastou a incidência do artigo da Lei de Crimes Hediondos que vedava a progressão do regime àqueles que cometeram crimes hediondo, com base nos princípios da dignidade da pessoal humana e da individualização da pena. Diante dessa decisão, vários condenados com base na referida lei solicitaram progressão da pena. O fato gerador, do que Vieira chama de expansão da atividade legislativa do Judiciário, foi um juiz da Vara de Execuções Penais da Comarca de Rio Branco não ter autorizado a progressão da pena por entender que o HC havia produzido somente efeito inter partes e aplicou o artigo 52 da Constituição Federal, o qual afirma que o juiz de primeira instância não está obrigado a cumprir decisão do STF enquanto o Senado Federal não suspender a execução da lei (De fato, segundo o artigo 52 da CF, “compete privativamente ao Senado Federal: suspender a execução, no todo ou em parte, de lei declarada inconstitucional por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal”). Diante disso, o STF apreciou a Reclamação 4335 e foi então que, de acordo com Vieira, o STF expandiu seu poder para esfera legislativa: Após uma detalhada e sofisticada argumentação, o Ministro relator buscou demonstrar que o sistema brasileiro de controle de constitucionalidade vem passando por um longo processo de mutação, marcado pela ampliação da 22 UNIDADE I │ POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO importância do sistema de controle concentrado em detrimento do controle difuso. Neste sentido, especialmente após a introdução do efeito vinculante em nosso sistema jurídico, a regra do artigo 52, X, ficou destituída de maior significado prático, tendo, portanto, ocorrido “uma autêntica reforma da Constituição sem expressa modificação do texto”. Esta mutação, evidentemente, consubstancia-se em novo direito constitucional, na medida em que é avalizada pelo Supremo Tribunal Federal (VIEIRA, 2008, p. 456). Os estudos de Mathew Taylor e Oscar Vilhena Vieira chamam a atenção para alguns aspectos do que está sendo denominado nesta seção como judicialização da política, particularmente a utilização do Poder Judiciário, e especificamente da sua Corte Suprema, como recurso para em alguma medida vetar políticas públicas (como no exemplo de Taylor) ou ainda como uma instância mesmo do processo de criação legislativa (como no exemplo de Vieira). Taylor ainda chama a atenção para a forma como atores perdedores na arena política utilizam o Judiciário de forma estratégica para afirmar posturas oposicionistas à opinião pública em geral. O fato é que, enquanto Taylor mostra que atores perdedores na arena legislativa inserem o Judiciário no processo decisório de políticas públicas como um ator que pode instituir veto (anulação ou atraso) a atos Legislativos, Vieira mostra que o próprio STF, ao ser chamado a decidir, de alguma forma expande sua atuação para esfera legislativa, criando, de certa forma, políticas públicas diretamente. Essas duas formas de atuação serão discutidas no capítulo posterior, no qual os conceitos de judicialização e ativismo judicial serão analisados mais detidamente. Por ora, é importante enfatizar que os casos apresentados até o momento mostram que, de fato, o Poder Judiciário pode e deve ser considerado um ator relevante no processo decisório e suas decisões têm tido impacto importante na configuração de políticas públicas, não apenas no Brasil, como em diversos Países. A participação do Judiciário por meio de suas instâncias inferiores Não apenas a judicialização dos temas políticos e a participação direta de órgãos superiores do Poder Judiciário têm implicações importantes para as políticas públicas e, consequentemente, para a configuração das esferas sociais, econômicas e políticas. O Poder Judiciário, ao ser chamado a resolver conflitos cotidianos de cidadãos comuns, pode criar novos entendimentos normativos a partir de sua base (instâncias de primeiro e segundo graus) que, a longo prazo, contribuem para a própria mudança social. Este tipo de atuação pode ser ilustrada com o caso sobre fornecimento de material genético deixado por um marido falecido a sua mulher por parte de uma clínica de reprodução. O caso apresentado pelo jornal Valor é o da professora Kátia Adriana Lenerneier e diz respeito a um tema de reprodução assistida. Kátia teve a gestação autorizada pela justiça com material genético deixado pelo marido morto, vítima de câncer. O Poder Judiciário teve que ser acionado por Kátia, pois o contrato assinado com a clínica que recolheu o material genético não tinha uma autorização do seu marido para que seu sêmen fosse usado. As etapas e argumentos apresentados nesse processo foram resumidos pelo Valor: As advogadas Dayana Sandri Dallabrida e Adriana Szmulik, do Escritório Vernalha Guimarães & Pereira Advogados Associados, propuseram uma ação 23 POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO │ UNIDADE I denominada de “obrigação de fazer” para forçar a clínica a liberar o material congelado para que a fertilização fosse realizada. O laboratório entendeu que seria necessária autorização expressa de Roberto. Três dias após o pedido da professora, uma decisão do juiz Alexandre Gomes Gonçalves autorizou o procedimento. Um dos argumentos das advogadas foi o de que sua cliente, na época com 38 anos, já teria sinais de envelhecimento ovular. “Ela não poderia aguardar por muito tempo longos debates na Justiça”, afirma Dayana. O que chama a atenção nesse caso, para o propósito da análise realizada neste capítulo sobre a participação do Poder Judiciário na produção de políticas públicas é o fato de que o Judiciário foi convocado a decidir sobre um tema para o qual não há lei para problemas e conflitos que possam surgir a partir da reprodução assistida. Na ausência de lei sobre o tema, conflitos como o da professora Kátia, assim como questões como herança de filhos nascidos de material genético depai morto, destinação de embriões excedentes de uma inseminação, registro de filhos gerados por “barriga de aluguel”, doação anônima de óvulos e sêmen, não têm previsão legal. Generalizando tais questões, o filósofo e professor titular da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), Tércio Sampaio Ferraz Júnior, afirma no Valor que “A escala de situações geradas hoje pela tecnologia é muito alta e as leis simplesmente não conseguem acompanhá-las”. Nos casos citados acima, o que ocorre é que a matriz normativa existente para lidar com questões de família não acompanham situações novas, geradas pelo desenvolvimento tecnológico. Nesses casos, na ausência de lei, é o Poder Judiciário que, através de suas decisões, está, de algum modo, construindo o arcabouço normativo para resolver conflitos e regulamentar questões controversas. O exemplo de casos relacionados a direito de família podem ser expandidos para outras áreas, nas quais a tecnologia altera as relações sociais em um ritmo muito mais rápido do que a lei é capaz de acompanhar. Diante de uma espécie de “vazio” legal, muitas vezes é o Poder Judiciário quem toma decisões, já que a resolução de conflitos é judicializada pelas partes interessadas. Ao decidir, o Judiciário cria regras ou normas que passam a orientar a conduta dos demais atores. Implicações: democracia, separação de Poderes e contestação legal Não é difícil perceber que os processos empíricos de judicialização, com suas diferentes características apresentadas acima, têm implicações normativas importantes para a operação da própria democracia. Como será problematizado posteriormente questões como independência e controle do Poder Judiciário, legitimidade e limites de sua atuação, deferência a decisões do Executivo e Legislativo são temas que têm ganhado relevo na agenda de pesquisas acadêmicas sobre a relação entre os três Poderes nas democracias contemporâneas. Tais temas serão discutidos ao longo da disciplina. Por ora, será abordado as implicações da participação do Poder Judiciário para a teoria de separação de Poderes e para a teoria democrática. Nova separação de Poderes X “adversarismo legal” O que chama a atenção na discussão acima é a capacidade do Poder Judiciário em atuar, no processo decisório, seja influenciando outros atores, quando age como ator com capacidade de vetar 24 UNIDADE I │ POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO determinadas políticas, seja diretamente, ao “criar” estruturas normativas, tanto por meio de seus órgãos de cúpula, como por suas instâncias inferiores. Como visto na introdução, esse modelo difere de uma abordagem tradicional de democracia de supremacia legislativa, como também da visão tradicional de separação de Poderes. De acordo com uma abordagem conhecida como “nova separação dos Poderes”, o processo decisório das democracias contemporâneas é, inerentemente, formado pela interação institucional entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário (FIGUEIREDO, JACOBI, WEINGAST, 2008). Nesse sentido, a análise do processo decisório deve incorporar as características de atores “externos” à produção de políticas públicas, ou seja, daqueles que não atuam diretamente na decisão em um primeiro momento, mas podem se constituir em obstáculo importante em um momento subsequente, tal como visto anteriormente no estudo de Taylor. Diante da possibilidade de veto, diversos atores da arena decisória podem antecipar as preferências dos atores com poder de barrar políticas em suas escolhas de políticas, a fim de evitar uma derrota posterior das suas decisões. É nesse sentido que o Poder Judiciário pode ser e normalmente é inserido na análise de políticas públicas: como um ator com poder de restringir as opções do Executivo e do Legislativo a) durante o processo de elaboração da política pública e b) quanto à entrada de determinada política na agenda legislativa. Dessa forma, para ter suas preferências e escolhas de políticas públicas atendidas, os atores majoritários do Executivo e do Legislativo podem agir de acordo como o que esperam do Poder Judiciário, nos casos de contestação de políticas por parte da oposição ou de grupos insatisfeitos da sociedade civil. Outro modelo de análise do papel do Poder Judiciário no processo decisório das democracias contemporâneas foi desenvolvido com base em caso norte-americano e foi denominada pelos cientistas sociais Robert Kagan e Jeb Barnes como “adversarial legalism”, ou seja, “legalismo adversarial”. Tal modelo contesta a visão tradicional, pela qual o processo de elaboração e de políticas públicas se dá por meio de negociações entre o chefe do Poder Executivo e os membros do Poder Legislativo e sua implementação é realizada por diferentes órgãos do Poder Executivo. Nesse modelo tradicional, cabe ao Judiciário tão somente o papel de adjudicar disputas e conflitos surgidos na aplicação da legislação da política pública proposta e impor sanções aos atores que violarem as normas e regras criadas. O modelo tradicional, em resumo, afirma que as decisões fundamentais de políticas são realizadas pelo corpo representativo eleito pelo povo, que sua implementação é de responsabilidade de corpos administrativos especializados do Poder Executivo e que os tribunais cumprem a função de julgar, mediante especialistas em direito, politicamente independentes, a legislação ou atos regulatórios criados pelos outros Poderes. Contudo, os casos ilustrativos e os estudos apresentados acima problematizam esse modelo ao afirmar que a linha de divisão entre os Poderes é menos nítida do que a teoria tradicional supõe. Grupos da sociedade civil ou atores políticos relevantes apelam ao Judiciário quando podem para contestar ou manifestar oposição a políticas públicas. Mais ainda, esses grupos se derrotados em um primeiro recurso, muitas vezes reingressam no Judiciário, seja com outras ações, seja em outras instâncias, com suas contestações. Grupos e atores majoritários fazem sua defesa, também, utilizando o Poder Judiciário. Essa forma de atuação, por meio do Judiciário, de atores políticos, econômicos e sociais na defesa de seus interesses e preferências de políticas públicas é o que Robert Kagan denomina “legalismo 25 POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO │ UNIDADE I adversarial”, em um artigo sobre os Estados Unidos, intitulado “American Courts and the Policy Dialogue: the role of adversarial legalims” publicado no livro Making Policy, Making Law: a interbranch perspective, editado por Mark Miller e Jeb Barnes. Para o autor, este é um modo de governança em que a elaboração e implementação de políticas públicas e de resolução de conflitos se caracteriza pelo uso frequente do Judiciário como recurso de contestação legal. No caso dos Estados Unidos, Robert Kagan com estudos de caso, chama a atenção para o fato de que, em geral, os juízes norte-americanos incorporaram essa participação no processo decisório como atores ativos, extrapolando suas funções tradicionais. Ao analisar um caso sobre a extrapolação de Poderes de uma agência administrativa em um conflito ambiental, por exemplo, o autor observa que os juízes, ao julgarem tal caso, repetidamente agiram como especialistas administrativos e como elaboradores de políticas públicas, que emitiram suas opiniões, desafiando modelos científicos e análises de dados levados por especialistas e fundamentalmente o tribunal se constituiu como um fórum político alternativo aos interesses de ambientalistas envolvidos na disputa. O autor afirma que no caso dos Estados Unidos, o modelo de “adversarismo legal” é extremo, em função do modelo do direito consuetudinário, e resume da seguinte forma o seu processo: 1. “uso organizado dos tribunais por parte de grupos de interesse como um fórum político alternativona consecução de seus objetivos de políticas públicas; 2. ousadia judicial em escrutinar e reverter decisões governamentais científicas e decisões de políticas públicas e Persistência de incerteza legal e controvérsia política em torno das decisões judiciais.” (KAGAN, p. 41) Conclusão Observa-se que o processo apresentado acima por Robert Kagan é uma situação extrema, na qual os juízes extrapolaram suas funções, ao criarem políticas públicas a partir da contestação legal a ser decidida por eles. Esse modelo, embora possa ser observado em algumas situações, difere do modelo de análise apresentado no início dessa seção denominada “nova separação de Poderes”. Ambos os modelos analíticos, “nova separação de Poderes” como o “adversarismo legal” podem ser úteis para se analisar a realidade social. A aplicação de um outro modelo de análise dependerá dos casos concretos em estudo. De fato, como visto nos casos ilustrativos e nos estudos sobre o Brasil, o Judiciário pode se constituir em: » um ator cujas preferências devem ser levadas em consideração por elaboradores e implementadores de políticas públicas, diante do seu poder de veto; » um ator a ser explorado como “recurso” de contestação ou de manifestação de descontentamento por parte de atores perdedores na arena legislativa; » um ator que cria estruturas normativas, uma vez que casos concretos são resolvidos judicialmente. 26 UNIDADE I │ POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO Tais formas de atuação são, recorrentemente, apreendidas na literatura especializada através dos conceitos de judicialização e ativismo judicial. Esses termos, apesar de serem extremamente difundidos na literatura especializada e mesmo na mídia, são controversos. Nesse sentido, o capítulo seguinte procura sistematizar a discussão teórica sobre os fenômenos da judicialização e do ativismo, complementando o referencial teórico que relaciona Judiciário, processo decisório e políticas públicas. 1. Leia os textos abaixo, disponíveis da base de dados Scielo e compare as formas por meio das quais o Poder Judiciário foi incorporado na análise como ator relevante do processo decisório: › TAYLOR, Matthew. O Judiciário e as políticas públicas no Brasil”. Dados. v. 50, 2007. › VERÍSSIMO, Marcos Paulo Veríssimo. A Constituição de 1988, vinte anos depois: suprema corte e “ativismo judicial à brasileira”. Revista DIREITO GV. v. 4. n. 2. p. 407-440, jul./dez. 2008. 2. Quais as principais características das vertentes teóricas “nova separação de Poderes” e do “adversarismo legal” sobre o papel do Poder Judiciário nos processos de elaboração e implementação de políticas públicas? 3. Estudo de caso: pesquise casos concretos na mídia ou na jurisprudência em que o Judiciário tenha atuado como ator no processo decisório nos seguintes casos: › Na configuração das políticas de ação afirmativa, na garantia dos direitos fundamentais, no acesso a políticas sociais (educação, saúde e assistência social). › Na prática judicial: novos instrumentos de gestão da justiça, novos paradigmas gerenciais, monitoramento e avaliação, seja como criador legislativo, seja como recurso de poder a ser utilizado por outros atores. 4. De que forma o Poder Judiciário pode ser utilizado como recurso estratégico por parte de atores políticos e econômicos e sociais na defesa de seus interesses? Ilustre sua resposta com casos concretos (encontrados na jurisprudência ou na mídia). 5. Refletindo sobre casos concretos julgados pelo Supremo Tribunal Federal, qual a sua opinião sobre os resultados práticos para a democracia brasileira da atuação do Tribunal como ator relevante no processo decisório? 27 CAPÍTULO 2 Judicialização e ativismo judicial como categorias de análise sobre o Poder Judiciário: sistematizando a discussão Discussão conceitual sobre judicialização da política e ativismo judicial Este capítulo apresenta as principais formulações teóricas sobre a judicialização e ativismo judicial discutidas na literatura especializada. O conceituação desses termos é importante para complementar a discussão iniciada no capítulo 1, na medida em que » revela as condições necessárias para que judicialização ocorra, tal como definido pelas abordagens teóricas; » ressalta os elementos que permitam pensar na variação da judicialização da política, seja em intensidade ou grau, seja em sua direção, seja como veto a maioria legislativa ou em concordância com a maioria legislativa; » mostra os diferentes tipos de “solução” dada pelo Judiciário aos temas políticos. Nesse sentido, a sistematização da discussão sobre judicialização ativismo é fundamental para analisar empiricamente as formas de participação do Judiciário no processo decisório e de sua influência na produção de políticas públicas. Judicialização como ativismo contramajoritário: a proposta de Tate e Vallinder Em um volume dedicado à análise da expansão do Poder Judiciário em diversos Países e que se tornou referência importante sobre o tema, Tate e Valinder (1995) dividem analiticamente o conceito de judicialização da política como 1) referente a um fenômeno “mais dramático” de transferência de decisões normativas do Legislativo e/ou do Executivo para o Judiciário – e que se dá, principalmente, através de instrumentos de controle de constitucionalidade – e 2) um fenômeno “menos dramático” de incorporação de métodos próprios de decisão e resolução de conflitos dos tribunais para setores administrativos diversos. Em seu sentido “mais dramático”, a judicialização significa um processo por meio do qual tribunais e juízes se tornam atores ou aumentam sua participação na produção de políticas públicas previamente elaboradas por órgãos dos Poderes Legislativo e Executivo (TATE; VALINDER, 1995, p. 28). Os autores listam oito condições “facilitadoras” da judicialização, em seus dois sentidos: a existência de um regime democrático, que aumenta a probabilidade de que juízes independentes 28 UNIDADE I │ POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO participem do processo decisório e de que os demais atores aceitem suas decisões; a separação de Poderes, o que permite que os juízes interpretem atos normativos; a existência de direitos políticos formalizados, os quais garantem os direitos de minorias; o uso dos tribunais por parte de grupos de interesse e pela oposição; partidos políticos e governos de coalizão fracos que, ao produzirem políticas inefetivas e com pouco apoio, aumentam a ação da oposição no Judiciário – condição que os autores denominam de “instituições majoritárias inefetivas”; percepção negativa das instituições majoritárias por parte do público e da elite, o que pode aumentar contestações de políticas públicas no Judiciário; e, por fim, a delegação para os tribunais de medidas e decisões que as instituições majoritárias não querem tomar. Vale reforçar que as condições expostas por Tate e Valinder são descritas como “facilitadoras”, ou seja, não são necessárias e muito menos suficientes para produzir o fenômeno da judicialização. Para que isso ocorra é necessário, segundo o modelo explicativo dos autores, que os juízes decidam que devem participar do processo decisório que poderia ser realizado por outras instituições e que devam interferir em soluções de políticas públicas realizadas por outras instituições. Embora cientes de que uma não decisão de alguma forma implicar tomar uma decisão, Tate e Valinder conferem ao fenômeno da judicialização um componente ativo ou positivo dos juízes na tomada de decisão. Nesse sentido, a judicialização requer que os juízes tenham atitudes ou predisposições pessoais e tenham preferências de políticas ou valores que os levam a procurar participar do processo decisório. Dessa forma, tal como elaboradopelos autores, a judicialização pressupõe uma orientação dos juízes para o que os autores chamam de “ativismo judicial” e para preferências por políticas públicas. É importante notar que, no sentido dado por Tate e Valinder, a judicialização é um fenômeno que pode ocorrer quando (a) as condições facilitadoras existem e (b) os valores dos juízes não são coincidentes com os valores da coalizão majoritária. Segundo o argumento dos autores, caso os valores sejam compartilhados entre os juízes e as instituições majoritárias, os incentivos para que os juízes procurem participar do processo decisório são baixos. Nesse caso, a própria formulação do conceito de judicialização que se tornou referência nos estudos sobre o tema já chamava a atenção para a complexa interação entre valores dos atores relevantes, relações e interações entre instituições e condições objetivas restritivas da ação política. Judicialização como resolução de conflitos e a participação dos juízes constitucionais no processo Legislativo: a proposta de Stone Sweet Em trabalho intitulado Governing with Judges: constitutional politics in Europe, Alec Stone Sweet, ao analisar o impacto das cortes constitucionais sobre as leis e a política na França, Alemanha, Itália, Espanha e União Europeia, define judicialização da vida social como um processo de resolução de conflitos por meio do qual um mecanismo de resolução de conflitos formado por três atores principais – duas partes em disputa e uma terceira, da qual tribunais podem se constituir como ator relevante, seja capaz de impor a solução – se estabelece sobre uma estrutura normativa em dada comunidade. Stone Sweet elabora o conceito de judicialização como um processo formado por uma dimensão micro – na qual dois atores interagem e, não havendo acordo voluntário quando a conflitos surgidos entre eles, um terceiro ator é mobilizado – e uma dimensão macro – constituída pela estrutura 29 POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO │ UNIDADE I normativa subjacente às interações sociais. As regras de resolução definidas pelo ator competente (terceiro ator) fazem a ligação entre essas duas dimensões. A reputação de neutralidade do terceiro ator é fundamental para sua legitimidade social e, consequentemente, para que os atores em conflito recorram a ele. Nesse sentido, Stone Sweet afirma que, para resolver os conflitos de forma efetiva e manter a legitimidade social, o terceiro ator lança mão de duas estratégicas básicas: 1. justificam seu comportamento normativamente, enquadrando os argumentos apresentados pelas partes em disputas em posições normativas e não revelando suas próprias preferências e 2. em casos difíceis, procuram decidir dentro do espaço que incorpora os pontos medianos de preferência dos atores em disputa, evitando declarar um claro vencedor ou um claro perdedor da disputa. A decisão tomada pela terceira parte cria regras, as quais de alguma forma reforçam ou introduzem mudanças na própria estrutura normativa existente, fechando o que o autor chama de ciclo da judicialização. Elaborado dessa forma, o processo de resolução de conflitos em uma dada comunidade pode variar em um contínuo que vai desde o uso de procedimentos voluntários e mutuamente consentidos de resolução até a adjudicação, com seu componente compulsório e base jurisdicional. Nesse polo da adjudicação é que os juízes e os tribunais exercem seu papel. Ao decidirem, os juízes e tribunais criam regras – assim como qualquer terceiro ator – que afeta, como mencionado acima, a estrutura normativa existente. Embora Stone Sweet não use o termo “judicialização da política”, sua análise volta-se ao processo de judicialização dos conflitos envolvendo medidas elaboradas e implementadas pelos agentes governamentais – Legislativo e Executivo. Uma das formas – se não a principal – de atuação do Judiciário nesses casos é de rever atos do governo e, considerando que tais atos contrariem regras definidas na Constituição, invalidá-los – fenômeno que o autor chama de revisão constitucional, sendo realizado por juízes constitucionais. Os juízes constitucionais, ao fazerem a mediação entre as regras constitucionais – nível macro do processo de judicialização – e os atos do poder público e de outros indivíduos – nível micro do processo – criam e recriam regras e constroem um discurso, ou diálogos coletivos, sobre as capacidades e limites do uso do poder do estado – fenômeno denominado política constitucional. Observa-se que essa proposição ressalta o caráter contramajoritário do Judiciário, ou seja, sua atuação como veto às decisões majoritárias, tendo como parâmetro as Constituição vigente. Esse modelo decisório se expandiu na Europa através da instituição de cortes constitucionais em diversos Países após a Segunda Guerra. No entanto, na concepção de Stone Sweet, a incorporação do Judiciário (ou juízes constitucionais) no processo decisório vai além da atuação contramajoritária nos Países que adotam o modelo de corte constitucional: ele é um ator participante do próprio processo Legislativo. Isso ocorre nos contextos nos quais coexistam cortes constitucionais e constituições que codificam direitos. A instituição das cortes institucionais na Europa foi uma forma pensada de resolver o problema da defesa da normas constitucionais sem gerar um outro problema de “confusão” entre os Poderes 30 UNIDADE I │ POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO – sendo esse um dos temores em se adotar a solução do judicial review do tipo norte-americano. Tais cortes exercem o monopólio da revisão constitucional, decidem exclusivamente casos de disputa constitucional e ocupam um espaço constitucional que não é nem judicial nem político; alguns modelo de cortes constitucionais têm Poderes de rever uma legislação antes dela produzir efeitos (controle abstrato). O modelo de corte constitucional, portanto, difere-se do modelo norte-americano e do desenho institucional judicial brasileiro. Seu desenho institucional foi elaborado a partir das considerações de Hans Kelsen, mas sua concretização difere em um aspecto central: para Kelsen as cortes constitucionais não deveriam ter jurisdição sobre direitos, a fim de garantir a separação entre as funções judiciais e legislativas. Na medida em que os direitos foram codificados nas constituições europeias em Países que adotaram cortes constitucionais, portanto, a condição de separação das funções dos Poderes Legislativo e Judiciário foi quebrada. Na concepção de Stone Sweet, a natureza, o escopo e a intensidade da interação entre o Legislativo e as cortes constitucionais – o que o autor chama de grau de judicialização da governança parlamentar – se relacionam com o modelo de revisão exercidos pela corte constitucional e a extensão e radicalismo com que a as maiorias parlamentares buscam reformar a legislação. No caso de controle abstrato, a interação é direta, enquanto no controlo concreto a relação é indireta, já que mediada pelas cortes comuns. A possibilidade de exercício do controle abstrato aumenta a probabilidade da judicialização. Por outro lado, quanto mais drástica for a pretensão de alteração do status quo, maior também a probabilidade de judicialização. Essa interação entre os Poderes permite que Stone Sweet conceba o processo Legislativo como um locus da política constitucional e, nesse sentido, considere as cortes constitucionais como um tipo de órgão Legislativo especializado e a revisão constitucional é entendida pelo autor como um estágio da produção normativa. Assim, Stone Sweet concebe as cortes constitucionais como espécie de câmara especializada dotada de independência para tratar de assuntos constitucionais, sem capacidade de iniciar legislação e obrigada a justificar suas decisões em bases legais. Difere,portanto, das comissões legislativas e dos atores governamentais, mas participa necessariamente do processo Legislativo quando a disputa constitucional for levada a ela. Nesse sentido, tem a) um impacto Legislativo, que, segundo o autor pode ser imediato, direto, formal nas decisões sobre políticas públicas ou b) um efeito pedagógico, indireto de retroalimentação (feedback) sobre o processo Legislativo. As formas de atuação direta das cortes constitucionais são o veto, a invalidação ou a invalidação parcial de atos dos Legislativo, ou definindo as forma de comportamento das autoridades públicas quanto à norma produzida ou ainda especificando como norma produzida deve ser aplicada. As formas indiretas de atuação ocorrem quando o Legislativo ou Executivo definem (ajustam) sua produção normativa aos julgamentos prévios (precedentes) ou ao comportamento possível da corte. Autolimitação, ou seja, uma reação antecipatória a uma possível invalidação por parte da corte constitucional; consulta a juristas especializados em direito constitucional; revisão corretiva da lei proposta segundo a jurisprudência existente – o que pode ocorrer após invalidações parciais – são exemplos do efeito indireto explorados por Stone Sweet. 31 POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO │ UNIDADE I Judicialização da política e da megapolítica: a proposta de Hirschl O elemento complicador da decisão tomada pelo Poder Judiciário é que, pelo fato de suas instituições pertencerem à esfera pública (Estado), o problema de legitimidade de suas decisões não recai apenas nas partes envolvidas na disputa, mas também sobre outros atores públicos, introduzindo o que Stone Sweet denomina de problema da separação de Poderes, na qual se espera, segundo uma doutrina de separação de Poderes, que cada ator institucional exerça funções delimitadas: o Legislativo cria as leis e o Judiciário resolve disputas legais. Outra forma de abordar a judicialização da política foi elaborada por Hirschl. Neste caso, o fenômeno pode ser definido como a confiança depositada nos tribunais para resolver disputas morais, questões de políticas públicas e mesmo conflitos políticos através dos procedimentos de controle de constitucionalidade (HIRSCHL, 2005). A expansão de tal mecanismo como instrumento resolução de conflitos pode ser observada não apenas pelo número crescente de processos de controle judicial de decisões dos outros Poderes, mas também pelo amplo escopo de temas que podem ser tratados dessa forma, englobando questões distintas como religião, imigração, direito de propriedade etc. Uma proposição recorrente a respeito do impacto do Poder Judiciário no processo decisório em regimes democráticos – e que, portanto, tem implicações relevantes sobre os resultados de políticas públicas – diz respeito ao uso controle de constitucionalidade (judicial review) exercido pelas cortes sobre a produção legislativa do Executivo e do Legislativo. O uso crescente do controle de constitucionalidade, bem como sua proliferação para diversos Países têm sido analisados na literatura especializada como um fenômeno da judicialização da política. A despeito da controversa que possa existir sobre o conceito de judicialização, nesse caso, especificamente, o fenômeno é definido como a confiança depositada nos tribunais para resolver disputas morais, questões de políticas públicas e mesmo conflitos políticos através dos procedimentos de controle de constitucionalidade. A expansão de tal mecanismo como instrumento resolução de conflitos pode ser observada não apenas pelo número crescente de processos de “revisão”, mas, também, pelo amplo escopo de temas que podem ser tratados dessa forma, englobando questões distintas como religião, imigração, direito de propriedade etc. Há uma tentativa recente de classificar o processo de judicialização em três dimensões distintas. Em primeiro lugar, a “juridificação das relações sociais” que diz respeito basicamente à proliferação do discurso e procedimentos legais em diversas esferas da vida social. Em segundo, o uso dos tribunais e dos juízes na determinação dos resultados de políticas públicas através “revisão” administrativa, o qual focaliza, basicamente, o julgamento do processo de tomada de decisão, se de acordo com as regras estabelecidas, seguindo os devidos ritos e procedimentos. Por fim, a judicialização da mega política, na qual o Judiciário decide controversas políticas centrais que vão desde a definição de regras eleitorais, passando pelo julgamento de planos macroeconômicos ou fiscais do Executivo e do Legislativo, até a decisão sobre políticas externas e de segurança nacional (em alguns casos o Judiciário pode definir até sobre a mudança de regime ou ratificação do resultado eleitoral). 32 UNIDADE I │ POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO Judicialização e ativismo judicial O mapeamento da discussão sobre judicialização da política em alguma medida faz referência à motivação dos juízes em participar do processo decisório, o que Tate denominou de ativismo judicial. No entanto, o autor não esclarece o que significa esse tipo de comportamento. De todo o modo, essa concepção de ativismo não pressupõe um abuso por parte dos atores do Judiciário, quer dizer um tipo de motivação que leve tais atores a ultrapassarem os limites de suas funções e exercerem funções delimitadas ao Legislativo ou Executivo. Por isso, é possível pensar em graus de judicialização por meio da motivação dos juízes. Contudo, essa forma de abordar o ativismo revela que os juízes podem, de forma não abusiva ou indevida, modular sua participação no processo decisório, desde uma atuação mais contida ou mais ativa. Apesar de toda dificuldade existente em medir de forma adequada essa modulação, ela não significa um tipo de ação que também é encontrada na literatura e que caracteriza como um elemento definidor do ativismo o abuso por parte do Judiciário – abuso no sentido de ser uma ação que ultrapassa os limites de ação do Judiciário e adentra em questões que seriam de competência dos Poderes Legislativo e Executivo. Essa abordagem do ativismo judicial como abuso parece ser dominante nos estudos sobre o tema e impõe uma grande dificuldade de medição, já que a própria delimitação do que consiste em uma ação abusiva está sujeita a interpretação jurídica – ainda mais se tratando de casos nos quais princípios jurídicos estão em jogo, como ocorre em grande parte dos casos em que a política é judicializada. Um trabalho de compilação sobre o uso do conceito de ativismo judicial em trabalhos empíricos realizada por Kmiec em seu texto The Origin and Current Meanings of Judicial Activism possibilita uma boa compreensão desse tipo de abordagem. Kmiec define cinco tipos de ativismo judicial: a. Segundo o autor, a literatura trata como ativistas os juízes que invalidam atos dos outro Poderes. No entanto, para diferenciar as invalidações ativistas do exercício de controle de constitucionalidade, é necessário que os juízes invalidem atos considerados constitucionais. Observa-se assim que um elemento de abuso ou impropriedade é inserido na definição. Como o debate sobre o que é considerado constitucional está sujeito a ambiguidades uma especificação ainda pode ser encontrada na literatura: seria a prática de invalidar atos dos outros Poderes, os quais a Constituição não proíbe claramente. Não obstante, encontram-se críticas a essa forma de conceber o ativismo mesmo com essa especificação, uma vez que cabe ao Judiciário delimitar o que a lei expressa, ou seja, mesmo que o que a Constituição não proíbe claramente é passível de interpretação. b. Outro tipo de ativismo é a invalidação ou desconsideração de precedentes. Assim, como no primeiro caso, esse tipo de ativismo é negativo(ou seja, exerce-se como veto), mas recai sobre as próprias decisões do Judiciário e não dos outros Poderes. Essa abordagem é criticada pelo fato de que não é necessariamente impróprio invalidar ou desconsiderar precedentes. Tal crítica revela, mais uma vez que uma atuação do Judiciário para ser considerada ativista deve ser imprópria. Desnecessário dizer 33 POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO │ UNIDADE I que a impropriedade dos atos do Legislativo também é vaga e, portanto, está sujeita a interpretação. c. O terceiro tipo de ativismo não é negativo, mas refere-se ao ato judicial Legislativo. Nesse caso, são chamados de ativistas os juízes que legislação por trás dos tribunais. Muitas vezes a atribuição da qualificação ativista neste caso está associada a algum tipo de crítica normativa realizada pelo autor à decisão proferida pelo juiz, ou seja, se o autor considera que a decisão é ruim, rotula o juiz de ativista. Seja como for, ativismo nesse caso significa que os juízes ultrapassaram seus limites de atuação e estão exercendo o papel de outro autor, no caso o Legislativo. Mais uma vez, esse “abuso” não está livre de controvérsias. Esses três primeiro tipos de ativismo não diferem das formas possíveis de participação do Judiciário no processo decisório, elaboradas a partir do debate sobre judicialização. O diferença é que, em alguma medida, a atuação do Judiciário vai além do que é considerado apropriado, ou seja, extrapola o ponto extremo do grau máximo de judicialização. d. O quarto tipo de ativismo ocorre, de acordo com a compilação feita por Kmiec, quando os juízes lançam mão de interpretações que desviam dos instrumentos interpretativos considerados adequados. Esse tipo também revela uma dificuldade de identificação do que consiste uma metodologia interpretativa inadequada. e. Por fim, podem ser considerados ativistas, segundo a revisão de Kmiec, os juízes que agem como nos casos acima, mas com vistas a atingir outros objetivos ou objetivos que vão além das questões discutidas no caso concreto. É fácil perceber o quanto esse tipo de formulação é vago e, portanto, difícil de ser traduzido em critérios objetivos. Os tipos de ativismo judicial compilados com Kmiec mostram que, pelo menos para uma parcela significativa de trabalho sobre o tema, a condição necessária para que um juiz se comporte de forma ativista se relaciona com abuso, inadequação, desvio etc. Se, por um lado, essa literatura não resolve claramente o conceito ativismo, na medida os termos usados para caracterizá-lo também são vagos e sujeitos a interpretação, por outro pode proporcionar uma espécie de referência (guia) para que se identifique empiricamente comportamento mais ou menos ativistas nos casos em que a controvérsia sobre o ato abusivo se manifeste. Quer dizer, juízes autocontidos são aqueles que, em caso passível de dúvida, considera inapropriado julgar, enquanto os ativistas agem de forma contrária. 34 CAPÍTULO 3 Desenho institucional, Poder Judiciário e políticas públicas: explicando a judicialização e o ativismo judicial O modo pelo qual o Poder Judiciário pode participar do processo de produção de políticas públicas, em interação com os outros atores políticos e sociais, que denominamos anteriormente como adversarismo legal, assim como a intensidade com que este poder pode impactar na manutenção ou alteração do status quo estão fortemente relacionadas como o desenho institucional do arcabouço político mais amplo existente. De fato, fatores como os enumerados abaixo podem ter implicações importantes para o modo pelo qual o Poder Judiciário pode participar e o escopo de sua atuações, tendo consequências importantes para a judicialização e ativismo judicial – tal como discutidos anteriormente – e, consequentemente sobre as políticas públicas: » regras de acesso ao Poder Judiciário, definindo a amplitude de atores que podem propor ações de inconstitucionalidade; » formas preenchimento de vagas para composição dos tribunais, como indicação ou concurso ou mesmo eleições; » regras que definem requisitos para os candidatos ou indicados a juízes; » instrumentos e formas existentes de controle de constitucionalidade; » regras que definem formas de interação entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário; entre outras Este capítulo apresenta os principais fatores institucionais discutidos pela literatura especializada que relacionam Poder Judiciário, processo decisório e políticas públicas. Primeiramente, no entanto, serão abordados, ainda que de forma breve, aspectos relevantes da teoria que reivindica uma posição importante das instituições na explicação de comportamentos e fenômenos sociais. A exposição dessa primeira seção será importante para contextualizar a discussão seguinte especificamente sobre a relação entre instituições judiciais e políticas públicas. Instituições, Judiciário e políticas públicas A análise institucional: normas e regras como incentivos e restrições ao comportamento de atores relevantes Uma vertente importante de explicação das políticas públicas é a análise institucional. Tal vertente procura responder à seguinte indagação ou “problema de pesquisa”: como o comportamento de 35 POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO │ UNIDADE I atores políticos e sociais e suas escolhas coletivas são influenciadas por incentivos e restrições dadas pelas normas e regras existentes. Análises baseadas em teorias institucionais assumem diferentes abordagens na teoria social, como o “institucionalismo da escolha racional”, o “sociológico” e o “histórico”, mas todas elas têm uma suposição ou ponto de partida comum que perpassa por toda a discussão analítica, que se refere ao modo pelo qual regras formais e informais restringem ou incentivam opções ou escolhas de atores relevantes e, nesse sentido, e impactam sobre o resultado de suas ações. Nesse caso, a configuração de uma política pública é o resultado de escolhas definidas por atores políticos e sociais que, de alguma forma, sofrem restrições por parte das regras e normas existentes. » Este é o sentido do termo muito utilizado nas teorias institucionalistas de que “as instituições importam”. Nas abordagens institucionalistas, tal afirmação significa que as instituições são concebidas como um conjunto de características contextuais (normas e regras formais e informais) do processo de escolha coletiva que define restrições sobre e oportunidades e incentivos, orientando o comportamento dos indivíduos na busca de objetivos. Resumindo, a análise institucional, portanto, apresenta proposições que relacionam normas e regras a comportamentos e estes a resultados. Esse ponto de partida da análise institucional, embora seja uma proposição simples ainda é bastante vago e apresenta dificuldade de operacionalização teórica e empírica. Afinal, como definir de forma clara, inequívoca e concreta o que são normas e regras formais e informais (ou seja instituições) e especificar, entre o conjunto de normas e regras existentes, quais são as instituições importantes para explicar o fenômeno estudado (no caso as políticas públicas) e como essas instituições influenciam o comportamento dos atores? Para se ter uma ideia das dificuldades teóricas e empíricas envolvidas, basta perceber que uma análise baseada em teorias institucionalistas precisa ter: » uma definição de postulados sobre o comportamento dos atores relevantes. Os atores envolvidos apresentam uma racionalidade limitada ou têm informações completas e inequívocas sobre as instituições e preferências dos demais atores envolvidos no processo social? » uma modelagem do efeito das instituições, que engloba uma definição das características contextuais essenciais (ou seja, daqueles que são determinantespara restringir e incentivas o comportamento); uma suposição de que as instituições não são alteradas pelos atores durante o “jogo” ou interação entre os atores (pois de outro modo seria impossível determinar o efeito das instituições sobre o comportamento. » uma modelagem do comportamento e caracterização dos seus resultados. Não é objetivo desta disciplina esgotar as abordagens institucionais, mas chamar a atenção para os aspectos relevantes de tais abordagens que podem contribuir para o entendimento de como o Poder Judiciário pode ser analisado como ator relevante do processo decisório e, com isso, influenciar na produção de políticas públicas. Nesse sentido, serão apresentados nas duas seções seguintes dois exemplos de como o Judiciário pode ser incorporado na análise institucional. 36 UNIDADE I │ POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO O Judiciário, política contramajoritária e política majoritária Modelos de democracia e a essência contramajoritária do Poder Judiciário: o estudo de Arendt Lijphart De acordo com as proposições acima, os fatores institucionais constituem normas e regras que organizam o processo de tomada de decisão, orientando, assim, as ações e interações entre os atores relevantes, sejam eles políticos e sociais. O argumento geralmente apresentado para explicar como instituições afetam o processo de tomada de decisão, normalmente remete a considerações sobre diferenças nas formas de interação entre os atores relevantes proporcionadas pelos diferentes arranjos institucionais, tais como o tipo de sistema político (presidencialista ou parlamentarista), ou a organização do Poder Legislativo (unicameral ou bicameral), ou dos sistemas eleitorais (proporcionais ou majoritários), entre outros. De todo o modo, argumenta-se que os arranjos institucionais definem, em alguma medida, a capacidade de tomada de decisão e o escopo das escolhas de políticas, tal como apresentado acima (HALL; TAYLOR, 2003). Orientação nesse sentido é oferecida por Kent Weaver e Bert. A. Rockman, em texto sobre o tema Do Institutions Matter? Government Capabilities in the United States and Abroad. Investigando a questão sobre os fatores que facilitam ou dificultam a habilidade de um governo em executar tarefas específicas, os autores sugerem a importância das instituições para a configuração do processo de tomada de decisão. Restrições institucionais são concebidas pelos autores como derivadas da configuração do sistema presidencial ou parlamentar, das regras eleitorais, das regras de formação do governo, dos tipos de governo e regime existentes. Tais configurações institucionais definem atributos do processo de tomada de decisão, como o nível de disciplina partidária existente, o tipo de recrutamento para cargos do Executivo, o grau de centralização do poder, o grau de centralização da accountability e da coesão das elites do governo, a estabilidade das elites do governo, a autonomia das elites frente o processo eleitoral e do eleitorado, o acesso e a influência de grupos de interesse na execução de políticas governamentais. Esses atributos do processo de tomada de decisão, por sua vez, definem a capacidade de tomada de decisão e o escopo das escolhas de políticas públicas por parte dos governos. Nesse sentido, o próprio Poder Judiciário pode ser concebido como uma configuração institucional que define atributos do processo decisório, orientando comportamentos dos atores relevantes. Vale observar, nesse sentido, que os trabalhos que incorporam fatores institucionais para explicar a provisão de políticas públicas no sentido acima podem apresentar uma grande variação no que se refere aos seus modelos explicativos, ou seja, variação das configurações institucionais e atributos do processo de tomada de decisão, concebidos como relevantes. Normalmente, no entanto, os argumentos baseiam-se nos incentivos e restrições originados pelos arranjos institucionais que formam os diferentes modelos de democracia, se majoritário ou consensual, tal como elaborado originalmente pelo cientista político Arendt Lijphart no livro Modelos de democracia (2003). Segundo Lijphart, a democracia majoritária é constituída institucionalmente de forma a concentrar o poder no partido vencedor das eleições, enquanto a democracia consensual se caracteriza por 37 POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO │ UNIDADE I partilhar o poder entre as forças políticas relevantes. As dimensões institucionais que formam ambos os tipos de democracia são apresentadas no quadro abaixo. Quadro 2 – Dimensões dos modelos de democracia majoritário e consensual Democracia Majoritária Democracia Consensual 1 – Concentração do poder executive 1 – Partilha do Poder Executivo (coalizões) 2 – Fusão de Poderes e predomínio de gabinete 2 – Separação formal e informal de Poderes 3 – Bicamaralismo assimétrico 3 – Bicamaralismo equilibrado 4 – Sistema bipartidário 4 – Sistema multipartidário 5 – Sistemas de partidos unidimensionais 5 – Sistemas de partidos multidimensionais 6 – Sistema eleitoral de maioria relativa 6 – Representação proporcional 7 – Governo unitário e centralizado 7 – Descentralização e Federalismo 8 – Constituição não escrita 8 – Constituição escrita e veto das minorias Fonte: Lijphart, 2003. O Judiciário é incorporado como instituição orientadora de comportamentos dos atores relevantes na análise de Lijphart na oitava dimensão do quadro acima. Segundo o autor, o modelo puro de democracia majoritária se caracteriza por ter, por um lado, uma Constituição flexível e, por outro, pela ausência de revisão judicial (ou controle de constitucionalidade). Já o modelo consensual puro, se caracteriza por um desenho institucional oposto, no qual a Constituição é rígida e protegida pelo controle de constitucionalidade. Vale observar que Lijphart trata desses modelos puros como “tipos ideais”, ou seja, são construções teóricas, nas quais os elementos considerados importantes são realçados. A realidade empírica é mais complexa e as configurações institucionais existentes mesclam um pouco de atributos dos dois tipos puros. O fato é que de modo geral pode-se observar nas diversas democracias existentes modelos institucionais que variam da existência de constituições escritas que no limite seriam rígidas a modelos nos quais as constituições não são escritas. Lijphart apresenta o Reino Unido, a Nova Zelândia e Israel como exemplos deste último modelo. O que interessa ao autor e à nossa discussão é o fato de se a Constituição, escrita ou não, impõe “restrições significativas sobre a maioria” (LIJPHART, 2003, p. 148). Para o autor, a configuração institucional de constituições escritas apresenta uma maior rigidez para os atores relevantes; em suas palavras: » “se a constituição escrita é um documento único, explicitamente designada para ser a mais elevada lei do país, é provável que a maioria parlamentar se sinta moralmente comprometida a respeitá-la mais do que sendo ela uma coleção, mais ou menos amorfa, de leis básicas e costumes, sem mesmo haver um acordo bem claro sobre o que, de fato, faz parte da constituição não escrita, e o que não faz parte dela.” » “que as constituições não escritas, por sua própria natureza – por não terem um status formal superior ao das outras leis – ocasionam, logicamente, tanto a completa flexibilidade quanto a ausência de revisão judicial” 38 UNIDADE I │ POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO » “as constituições escritas tanto podem ser completamente flexíveis, quanto completamente desprotegidas por revisão judicial” (LIJPHAR, 2003, p. 248-9). As constituições flexíveis são aquelas em que maiorias ordinárias podem aprovar emendas constitucionais. As constituições rígidas são aquelas que exigem algum tipo de maioria qualificadapara aprovação de emendas constitucionais, variando de maiorias de dois terços de votos no parlamento a supermaiorias acima de dois terços de votos no parlamento. O autor chama a atenção para o fato de que a configuração institucional de ter ou não Constituição e, havendo, se ela é ou não protegida – e com qual intensidade – confere aos atores relevantes incentivos e restrições distintas ao seu comportamento, tendo como consequência diferenças para os resultados de ações. De fato, observamos em capítulos anteriores a utilização no Brasil do Poder Judiciário como ponto de veto importante a ser mobilizado por atores perdedores na arena legislativa. Caso o País não apresentasse proteção institucional à Constituição dada pelo controle de constitucionalidade, os incentivos para atuação dos atores seriam distintos, ocasionando interações e, consequentemente, resultados para as políticas públicas diferentes daquelas observadas. No mesmo sentido, a possibilidade de aprovar emendas com maiorias ordinárias confere restrições e incentivos distintos aos atores relevantes do processo decisório em suas estratégias de ação. É possível vislumbrar que a existência e a intensidade dos fenômenos da judicialização e do ativismo, tais como definidos e discutidos anteriormente, se relacionem diretamente com a configuração institucional do controle de constitucionalidade e rigidez constitucional de um País. A possibilidade de incorporar o Poder Judiciário no processo político decisório e, dessa forma, influenciar a produção de políticas públicas pode ser maior nos casos que este poder tem a possibilidade de exercer o controle de constitucionalidade. Por sua vez, a probabilidade de o Poder Judiciário ser acionado nesse exercício de controle pode estar associada à intensidade com que a Constituição é emendada. É importante enfatizar que proposições acima são hipóteses que ainda precisam ser sistematicamente testadas pela literatura especializada. No entanto são hipóteses plausíveis que se baseiam em suposições sobre o efeito das instituições, tal como discutido ao longo deste capítulo. Relativizando o papel contramajoritário do Poder Judiciário: o estudo de George Tsebelis Outra forma de incorporar o Judiciário na análise do processo decisório e suas consequências para as políticas públicas pode ser encontrada em um trabalho que se tornou referência importante sobre o tema intitulado Veto Palyers: how political institutions works, elaborado por George Tsebelis e publicado em 2002 pela Russel Sage Foundation e pela Princeton University Press (este livro foi traduzido pela editora da FGV em 2010, com o título Atores com poder de veto). Partindo de questões primordiais para análise institucional sobre como analisar as instituições políticas entre Países de forma consistente e como identificar as principais dimensões que configuram o processo decisório, o autor desenvolve uma teoria que se baseia no que descreve como análise consequêncial. Tal análise parte das consequências das ações dos atores relevantes no caso das políticas públicas produzidas para, então, analisar as instituições que as produziram. O ponto 39 POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO │ UNIDADE I de partida central de Tsebelis é simples: para mudar políticas públicas, afirma o autor, um certo número de atores individuais ou coletivos devem concordar com as mudanças propostas. Um ator é relevante nesse processo se puder ser considerado como um “ator de veto” (veto players). O “ator de veto”, por sua vez, é definido por Tsebelis como atores individuais ou coletivos cuja concordância é necessária para mudança do status quo, ou seja, para a produção de políticas públicas. Tsebelis introduz ainda uma diferenciação conceitual entre os atores de veto, os quais podem ser institucionais (ou gerado diretamente pela Constituição) ou o que ele denomina como partidários (gerado pelo “jogo político”; quer dizer, pela interação estratégica da dinâmica política existente). Para o autor, qualquer sistema político tem uma configuração de “atores de veto”, que variam quanto: » ao seu número; » à distância ideológica entre eles; » ao grau de coesão interna (no caso de atores coletivos). Essa proposição teórica, ou melhor, esse ponto de partida teórico de Tesebelis o permite conceber o Poder Judiciário como um ator relevante no processo decisório nos casos em que sua concordância é necessária para a alteração do status quo, isto é, quando a concordância do Poder Judiciário é necessária para a produção da política pública pretendida. Observa-se que essa formulação apresenta algumas semelhanças com o que Arendt Lijphart propõe (discutida anteriormente): por exemplo, nos casos em que uma mudança na política pública pode ser julgada como inconstitucional pelo Poder Judiciário, este pode ser considerado como um ator “de veto”. E isso ocorre por conta das características institucionais existentes que dotam tal ator com poder de impedir a alteração do status quo. No entanto, ao conceber o Judiciário como ator do processo (com possibilidade de barrar a produção de políticas públicas), Tsebelis introduz algumas nuances que podem enriquecer a análise: caso o que o autor chama de distância ideológica – e que pode ser concebida apenas como preferências – entre os indivíduos que formam o Poder Judiciário e os indivíduos que participam do processo Legislativo, dificilmente a proposta de alteração do status quo será barrada, ou seja, embora atores perdedores na arena legislativa possam contestar decisões de políticas públicas por meio do Poder Judiciário, este somente irá se constituir como “ator de veto”, se suas preferências forem distintas das preferências dos atores Legislativos da maioria vencedora no Legislativo. A proposição de Tesebelis é polêmica, pois basicamente o que ele argumenta é que flexibilidade constitucional (possibilidade de emendar com certa facilidade a Constituição) e possibilidade de contestação de emendas através do controle de constitucionalidade não são condições institucionais suficientes para barrar a produção de políticas públicas, caso não haja distância entre as preferências entre o Poder Judiciário e os atores vencedores na arena legislativa. Assim, embora o Poder Judiciário possa ter sido configurado institucionalmente para exercer um papel contramajoritário, o efetivo exercício desse papel, segundo a proposição de Tsebelis, dependerá da distância entre preferências dos atores com Poderes Legislativos e os atores do Judiciário. Tsebelis intesifica a polêmica ao afirmar que, nos casos em que os membros do Poder Judiciário são indicados por membros do Executivo ou do Legislativo, ocorre o que ele denomina de “regra de absorção”. Essa regra indica que os atores do Executivo e do Legislativo com Poderes de nomeação 40 UNIDADE I │ POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO irão compor o Judiciário com membros cujas preferências são semelhantes às suas. Sendo assim, afirma o autor, embora constitucionalmente a configuração institucional do Poder Judiciário pretenda ser contramajoritária, efetivamente, este poder pode exercer um papel majoritário. Para corroborar sua afirmação, Tsebelis cita um artigo importante publicado na década de 1950 pelo cientista político Robert Dahl, no qual este autor relaciona indicações para a composição da Suprema Corte Norte-Americana a votos favoráveis ao governo da ocasião. Vale ressaltar que estudos nesse sentido se tornaram muito comuns nos Estados Unidos, os quais mostram alta correlação entre ideologia do Presidente da República (que indica o candidato à juiz para Suprema Corte) e ideologia dos votos dos seus juízes indicados, nos casos julgados na Suprema Corte. Configuração das instituições judiciais e atuação do Poder Judiciário A discussãoacima remete para considerações sobre configuração das próprias regras e normas que moldam as instituições judiciais e que têm impacto sobre sua participação no processo decisório e sua importância para a produção de políticas públicas, tais como acesso, mandato, exercício do controle de constitucionaldade etc., como será abordado na seção seguinte. Aspectos relevantes do desenho institucional O cientista social Tom Ginsburg enumerou as principais características institucionais que caracterizam o modo de operação e a intensidade do controle de constitucionalidade, nas democracias contemporâneas: » acesso aos tribunais; » instrumentos de controle de constitucionalidade; » Efeito e timing da decisão; » mecanismos de accountability e indicação; » duração dos mandatos; » tamanho das cortes; Como será explicitado a seguir, o desenho institucional do acesso aos tribunais pode conferir maior ou menor possibilidade de contestação das políticas públicas por parte dos atores políticos, sociais e econômicos. As demais características institucionais podem conferir maior ou menor poder de atuação ao Poder Judiciário na intervenção de políticas públicas, ou seja, essas características podem contribuir para o entendimento de como o Poder Judiciário atua no processo decisório e, dessa forma, impacta na produção de políticas públicas. Acesso A primeira característica a ser discutida é o acesso dos atores políticos, econômicos e sociais ao Poder Judiciário – principalmente o acesso à contestação da constitucionalidade de políticas 41 POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO │ UNIDADE I públicas elaboradas pelos atores do Executivo e do Legislativo. Do ponto de vista teórico, o acesso ao Poder Judiciário para contestação de políticas públicas pode ser completamente aberto a qualquer cidadão ou ser extremamente limitado a pouquíssimos atores. O desenho institucional da Áustria nos anos 1920, por exemplo, limitava a possibilidade de contestação da constitucionalidade das leis apenas aos governos federal e dos estados. Já na Alemanha atual não apenas atores coletivos, mas também indivíduos podem ter acesso direto a contestações de constitucionalidade. Uma tipologia dos atores credenciados ao acesso ao Judiciário e seus exemplos podem ser observados no quadro abaixo, reproduzido de Ginsburg: Atores com possibilidade de acesso Exemplos » Somente órgãos especiais » Áustria 1920-29; França antes de 1974 » Órgãos especiais e minorias legislativas » França pós 1974, Bulgária, Romênia » Órgãos especiais e cortes » Taiwan, Polônia antes de 1997 » Qualquer litigante » Estados Unidos » Órgãos especiais, cortes e petições de cidadãos » Alemanha e Mongólia » Órgãos especiais, cortes e petições abertas » Hungria Essa caracterização do acesso (aberto ou fechado) ao Poder Judiciário pode ser combinada a outra característica institucional importante deste poder, que se refere ao órgão judicial capaz de exercer o controle de constitucionalidade. Nesse caso, a variação pode ser entre um desenho institucional centralizado, no qual um órgão de cúpula específico tem a exclusividade de exercer tal controle, a uma configuração descentralizada, na qual qualquer instância do Judiciário tem o poder de controlar a constitucionalidade de leis. A combinação dessas duas dimensões institucionais pode ser visualizada no quadro abaixo. Controle de constitucionalidade e acesso Controle Centralizado Controle Descentralizado Acesso aberto Alemanha, Itália Estados Unidos, Canadá, Países Escandinavos Acesso limitado França (5o República), Áustria (1920-1929) Instrumentos de controle Outra característica do desenho institucional importante refere-se aos instrumentos de controle de constitucionalidade disponíveis ao Poder Judiciário: se os tribunais só podem ouveri questões constitucional em situações concretas (casos concretos levados ao tribunal), como nos Estados Unidos, por exemplo, ou se há possibilidade de controle abstrato. Neste último caso, o controle determina a constitucionalidade de legislação infraconstitucional, sem considerar sua aplicação em 42 UNIDADE I │ POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO casos concretos, como no caso da França. Na Alemanha e na Espanha ambos os instrumentos de controle (concreto e abstrato) são possíveis. Outro fator relacionado aos instrumentos de controle de constitucionalidade é o “tempo” em que ele é exercido, se é ex ante a promulgação da legislação ou ex post. No primeiro caso, o controle exercido propicia a mudança no ato do Legislativo antes de sua entrada em vigor, ou melhor, se for considerado não constitucional, o ato do Legislativo não chega a ser promulgado e, nesse sentido, não tem efeito. Para que o ato seja adotado deve estar em conformidade com a decisão proferida pelo Poder Judiciário. Segundo Ginsburg, esse modo de atuação do Poder Judiciário o dota de uma característica mais semelhante a uma terceira casa do Legislativo do que efetivamente de um tribunal. Já o controle de constitucionalidade ex post permite, segundo a análise de Ginsburg, maiores possibilidade de contestação, na medida em que os atores relevantes podem questionar no Judiciário a inconstitucionalidade de uma lei no que se refere ao seu aspecto, propósito e, também, seus efeitos. O autor argumenta, também, que a possibilidade elevada de demonstração de que uma legislação vem a ser inconstitucional reduz os incentivos para que os atores políticos aprovem uma determinada legislação, ou seja, a possibilidade de uma contestação ser bem sucedida no Judiciário pode fazer com que os atores políticos não implementem uma política pública que seria sua preferência, em caso contrário. Escopo de atuação A atuação do Poder Judiciário no processo decisório e na produção de políticas públicas, embora normalmente se refira ao controle de constitucionalidade exercido pelos tribunais – seja através do controle concentrado ou difuso –, pode se dar também, como visto no capítulo 1, diante da arquitetura normativa construída por este poder diante da resolução de conflitos entre atores do mundo social em geral. Vale ressaltar que, em determinados casos, não apenas as atribuições do controle de constitucionalidade do Poder Judiciário são institucionalizadas, como também funções auxiliares, como poder de revisão sobre referendos e acordos internacionais, adjudicação de violações eleitorais, determinação sobre constitucionalidade de partidos políticos, responsabilidade sobre impeachments de mandatários de cargos oficiais. Alguns Países ainda atribuem funções atípicas a cortes superiores. Nesse sentido, vale mencionar os seguintes casos, enumerados por Ginsburg em sua análise: » o poder constitucional conferido à Corte Constitucional do Azerbajão em dissolver o parlamento em casos de repetidas aprovações de leis que violam a Constituição; » o direito da corte constitucional da Rússia de iniciar legislação; » o poder da corte constitucional de Thai de aprovamr recomentações da Comissão Contra Corrupção para banir políticos. Efeito As instituições judiciais podem variar, também, quanto ao efeito de suas decisões sobre casos concretos. No controle concentrado, os tribunais têm o poder de declarar uma lei inconstitucional 43 POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO │ UNIDADE I e anulá-la de forma imediata. Em sistemas judiciais regidos pela regra do stare decisis, a lei não é declarada nula, mas os casos que chegam aos tribunais são julgados com base nas decisões prévias de casos semelhantes: precedentes são seguidos nessas situações. Segundo Ginsburg, sem um claro princípio de que os precedentes devem ser seguidos, tribunais comuns podem variar na aplicação da Constituição, dificultando a previsibilidadee a consistência (das decisões) no sistema legal. Para evitar tais resultados, as declarações de algumas cortes constitucionais possuem o efeito erga omnes, significando elas são aplicáveis a todos os casos futuros (semelhantes). (GINSBURG, 2003, p. 40) Ginsburg cita ainda a variação da configuração institucional encontrada na tradição alemã, a Corte Constitucional, ao julgar inconstitucional uma lei, pode anular a legislação ou declarar sua incompatibilidade. Neste caso, a Corte estabelece um prazo para que o Legislativo modifique a legislação de modo a torná-la constitucional. Em algumas situações ainda a Corte pode sugerir ao Legislativo o que fazer. Tal desenho institucional confere ao Poder Judiciário um papel de ator quase Legislativo no processo decisório, inserindo-o diretamente na interação com os demais Poderes durante a produção legislativa (ou seja, na produção de políticas públicas). Para Ginsburg, “essa é tipicamente uma forma negativa de legislar” e tem um “impacto significativo na configuração da legislação” (GINSBURG, p. 41). Outros desenhos institucionais conferem ao Poder Judiciário um papel menos relevante no processo decisório, como nos casos em que o Poder Legislativo detém o poder de rejeitar ou aceitar as decisões finais dos tribunais. Indicação e accountability O desenho das instituições judiciais podem variar no que se refere aos mecanismos de para preenchimento de cargos de juízes. Essa dimensão institucional é relevante, na medida em que está diretamente relacionada a questões de imparcialidade e “insulamento” das instâncias judiciais frente ao “jogo político” ou interesses de atores políticos, econômicos e sociais. Do ponto de vista normativo, o ideal é ter uma configuração institucional que maximize as chances dos juízes decidirem de forma imparcial e independente – sem restrições, ameaças, influências não jurídicas, pressões de grupos de interesse etc. Normalmente a seleção de juízes via concursos é vista como aquela que mais propicia a formação de um Poder Judiciário imparcial e independente. Mas a seleção de juízes é um tema particularmente relevante para os estudos de políticas públicas nos casos de preenchimento de vagas para cortes superiores, nos quais, geralmente, os juízes são indicados ou confirmados em seus cargos por atores não jurídicos, tal como discutido nas seções anteriores – particularmente no estudo de Tsebelis sobre a regra de absorção. Os mecanismos de indicação nesses casos podem variar de casos nos quais o Poder Executivo indica um candidato que, após algum tipo de processo de audiência ou questionamento, deve ser aprovado pelo Poder Legislativo a situações em que mecanismos de indicação representativa são utilizados. Neste último caso, há o exemplo italiano, no qual um terço dos juízes da corte constitucional é indicado pelo presidente, outro terço pelo parlamento e os demais pela própria corte. No caso alemão, cada casa legislativa pode indicar um igual número de membros para compor a corte constitucional, os 44 UNIDADE I │ POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO quais devem, posteriormente, ser aprovados por supermaioria no parlamento. Segundo Ginsburg, tal formato institucional levou a um acordo partidário em que, de fato, os três partidos com maior número de cadeiras no parlamento acabam indicando os juízes para a corte constitucional. O fato é que tal formato pode ser considerado mais politizado do que a indicação profissional, por exemplo. Dessa forma, a configuração institucional da formo como juízes são selecionados pode levar a tribunais mais ou menos politizados, mais ou menos passíveis de sofrer pressões de atores não jurídicos etc. Mandato Outra característica institucional importante, correlacionada à discussão anterior, é o tempo de duração dos mandatos para juízes. Essa característica está fortemente associada à questão da independência. A literatura especializada considera que cargos vitalícios para juízes ou de aposentadorias por idade avançada conferem a estes maior independência do que situações nas quais o mandato de juiz tem duração estabelecida, como na corte constitucional da França e da Alemanha – principalmente nos casos em que há possibilidade de renomeação, como no caso da corte constitucional da Espanha. Nesta última situação, os juízes podem ter incentivos a agir de forma a não contrariar interesses daqueles que, no futuro, poderão decidir por sua reincidência no cargo. Tamanho dos tribunais O último fator institucional a ser considerado nessa seção é o número de juízes que tomam decisões em casos concretos: um ou vários e, se vários, como se configura a decisão colegiada. Para a literatura especializada, o tamanho dos tribunais está relacionado com questões de celeridade e acurácia. Acredita-se que decisões individuais levam, pelo menos em média, a decisões mais céleres. Por outro lado, há argumentos na literatura que afirmam que decisões colegiadas são mais acuradas. Por isso, esse tipo de decisão normalmente é adotada em casos complexos e nas cortes superiores. Segundo Ginsburg, essas afirmações são controversas, sendo difícil definir um ponto ótimo entre tamanho, celeridade e acurácia: parece plausível assumir que custos de errar são reduzidos na deliberação, e há ampla evidência empírica de que decisões tomadas em grupo tem maior qualidade do que decisões individuais. Contudo, outros (autores) argumentam que se o grupo de expandir acima de determinado tamanho ele tende a tomar decisões piores. (GINSBURG, 2003, p. 47) Talvez tão mais relevante que o tamanho seja a composição do grupo de juízes que tomam as decisões: se há uma convergência ou divergência ideológica e de preferências entre os juízes. Esse é um tema que tem ganhado destaque na literatura sobre comportamento judicial nos Estado Unidos. Conclusão: efeitos das instituições judiciais É fácil perceber que tanto a configuração institucional da democracia na qual o Poder Judiciário se insere como o desenho das próprias instituições judiciais podem explicar a intensidade da 45 POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO │ UNIDADE I judicialização e do ativismo judicial – tais como discutidos no capítulo anterior. Se há possibilidade de contestação da constitucionalidade de políticas públicas e o Poder Judiciário apresenta uma estrutura independente para realizar essa tarefa, é de se esperar que grupos perdedores na arena legislativa ou que tenham seus direitos desrespeitados pela promulgação de alguma política pública, reivindiquem o veto a tal político no Poder Judiciário. Se muitos direitos foram constitucionalizados, maior será a probabilidade de judicialização. Se o Poder Judiciário for dotado de características institucionais que garantam sua independência, menor a probabilidade de “politização” das decisões judiciais. Se o Judiciário não gozar de tal independência, maior será a probabilidade dele seguir as preferências da maioria legislativa. Se o Judiciário tiver poder para, ao resolver disputas legais, criar novos discursos normativos, maior poderá ser o ativismo judicial. Assim, as características institucionais se associam a probabilidade de comportamentos que levam a uma maior ou menor judicialização, a atos judiciais mais ou menos favoráveis à maioria legislativa, a uma maior ou menor probabilidade de ativismo por parte dos juízes. Mathew Taylor (2008) apresenta um quadro que resume a relação entre judicialização e ativismo judicial e fatores institucionais – reproduzido a seguir. Fatores institucionais relacionados à independência do Judiciário, eficiência administrativa e instrumentos de controle de constitucionalidade aumentam o seu poder como ator relevante. Isso pode levar a uma maior judicialização de questões políticas, econômicas e sociais de atoresque perdem na arena legislativa ou que simplesmente desejam, tendo em vista a capacidade de atuação do Judiciário, dar visibilidade às suas contestações. Tais fatores institucionais orientam opções ou escolhas táticas de atores políticos, econômicos e sociais, dentro do ambiente judicial. Fonte: Taylor, 2008 Taylor ressalta, ainda, que juntamente com tais fatores, a saliência da política pública produzida e as características do ambiente político mais amplo também orientam o comportamento de atores relevantes, em suas opções táticas no processo decisório. O fato é que, como discutido ao longo 46 UNIDADE I │ POLÍTICAS PÚBLICAS NO PODER JUDICIÁRIO desta disciplina, o Poder Judiciário está cada vez mais presente como ator relevante no processo de produção de políticas públicas. A forma de sua atuação, se mais ou menos intensa, se como veto ou criador Legislativo, se contra ou a favor de maiorias legislativas pode e varia conforme o arcabouço institucional que configura as interações entre os Poderes e segundo as características institucionais do próprio Judiciário. Nesse caso, Judiciário forte e, nesse sentido, relevante, é aquele dotado de autonomia ou independência em relação aos demais atores não jurídicos, que detém instrumentos amplos de controle de constitucionalidade e são administrativamente eficientes. 47 Referência ARANTES, Rogério Bastos. Direito e política: o Ministério Público e a defesa dos direitos coletivos. Revista Brasileira de Ciências Sociais. v. 14, n. 39. 1999, p. 83-102. ARANTES, Rogério. Constitutionalism, the expansion of justice and the judicialization of politics in Brazil (2005). In: SIDER, Rachel.; SCHJOLDEN, Line.; ANGELL, Alan. The judicialization of politics in Latin America. PalgraveMacmillan, 2005. CARVALHO, Ernani. 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