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Tal declaração, porém, não acabou com as controvérsias e 
contradições. 
 
 
 
Segundo o historiador e jurista norte-americano Samuel Moyn, que defende 
essa onda atual de direitos humanos como uma espécie de última utopia 
humana e aponta a década de 1970 como o momento em que a Europa 
buscou uma identidade fora dos termos da Guerra Fria, que separava o 
mundo entre países alinhados aos EUA capitalistas ou à URSS comunista. 
 
Além disso, depois da desastrosa saída do Vietnã, em 1975, a política externa dos 
EUA mudou para padrões mais liberais, a fim de manter relações mais igualitárias 
com outras nações. E, principalmente, foi a década em que a aventura colonialista 
dos países europeus na África se dissolveu, ocasionando a libertação de diversos 
povos que até hoje pagam a conta dessa longa dominação. 
 
 
Isso, claro, sem contar o rescaldo dos grandes movimentos populares do fim 
da década de 1960, que sacudiram os paralelepípedos das ruas de várias 
cidades do Norte Global, de Paris a Berkeley (EUA), passando por Praga, 
capital da então república socialista tchecoslovaca. Após tais protestos e 
modificações do tabuleiro mundial, não dava mais para se crer capitalista ou 
comunista de forma inocente. 
 
Com a eleição de Margareth Thatcher no Reino Unido, em 1979, e de Ronald 
Reagan nos EUA, em 1981, os direitos humanos se transformaram em uma 
moeda imperialista. 
 
Exemplo 
Usando como desculpa o combate às ditaduras comunistas e o perigo do 
chamado avanço “vermelho”, EUA e Reino Unido intervinham diretamente na 
política interna e externa de países periféricos. Contraditoriamente, não se 
importavam com as violações dos mesmos direitos nesses mesmos países 
periféricos, que seguiam suas cartilhas subservientes e, na maioria dos 
 
 
 
 
 
 
casos, aderiam às suas políticas econômicas neoliberais. Era o caso das 
ditaduras sul-americanas do período, tais quais as implantadas no Brasil, na 
Argentina e no Chile. 
 
 
Essa política de direitos humanos também não aconteceu de forma igual nem ao 
mesmo tempo em todos os países da Europa do oeste — basta lembrar que, 
paralelamente a esse período, toda a Península Ibérica continuava sob o domínio 
de ditaduras nacionalistas até metade da década de 1970: Portugal se liberta do 
salazarismo, iniciado em 1933, somente com a Revolução dos Cravos, em 1974. Já 
a Espanha se livraria do franquismo — imposto desde o fim da Guerra Civil 
Espanhola, em 1938 — apenas com a morte do “generalíssimo” Francisco Franco, 
em 1975. 
 
 
Mas, afinal, como definir o que são os direitos humanos? 
 
 
Para começarmos a entender esse assunto, é possível citar alguns 
procedimentos dentro do escopo dos direitos humanos: o direito à liberdade 
de culto e religião; o direito a um julgamento justo, quando se é acusado de 
algum crime; o direito a não ser torturado; e o direito à educação. 
 
É nesse sentido que, atualmente, os direitos humanos: 
 
 
 
Plurais e têm como fim acabar com a escravização no mundo 
 
Destacam que todos os seres humanos nascem livres e iguais em 
dignidade e direitos, com o fim de acabar com a escravização no 
mundo e prevenir genocídios, através de direitos e liberdades 
fundamentais. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Universais e inerentes a todos os seres humanos 
 
Promovem o respeito e a observância aos direitos e liberdades fundamentais 
do ser humano, como um ideal comum a ser atingido por todas as nações, 
independentemente das práticas, morais e leis específicas de seus países. 
 
 
 
Prioridades e sua violação é uma grave afronta à Justiça 
 
Esclarecem que o pleno reconhecimento e respeito aos direitos e 
liberdades fundamentais, para que toda e qualquer pessoa tenha 
direito a uma vida digna, é um requisito inerente à moral, à ordem 
pública e ao bem-estar de toda e qualquer nação democrática. 
 
 
Equiparados a estabilidade e a segurança nacional 
 
Enfatizam que o direito a uma renda justa e satisfatória, que assegure uma 
existência digna, está diretamente relacionado com a estabilidade, a 
segurança nacional, a autonomia individual e dos povos, bem como a 
prosperidade nacional e global. 
 
 
 
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, já em 1948, nos fornece um 
bom parâmetro para tentar entender o que são, afinal, os direitos humanos: 
são uma tentativa de criar uma moral — uma ética — compartilhada por 
“todos os membros da família humana”, como escreve a declaração das 
Nações Unidas publicada em 1948. Tais direitos são aquilo no qual todos 
deveríamos nos basear, por serem as condições fundamentais para uma vida 
digna de toda e qualquer pessoa, sem importar quem ela é ou o que ela faz. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Quando os humanos têm direitos 
Neste vídeo, você aprofundará o termo direitos humanos em suas 
nuances. 
 
 
Fundamentação histórica dos direitos humanos 
 
Direitos humanos e iluminismo 
 
 
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São 
dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com 
espírito de fraternidade. (Art. 1º da Declaração Universal dos Direitos 
Humanos) 
 
 
 
Livres, iguais e com espírito fraterno. Desde o seu primeiro artigo, a 
Declaração Universal dos Direitos Humanos não esconde sua principal 
influência: a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. 
 
 
Redigida logo no início da Revolução Francesa, em 1789, o icônico documento — 
cujo lema principal era “liberdade, igualdade e fraternidade” — não apenas ignorava 
o rei, como toda nobreza e a Igreja, atribuindo a soberania do país ou nação ao seu 
povo. Destacando que “os direitos naturais, inalienáveis e sagrados do homem” são 
a base de qualquer governo. 
 
 
O caráter universal dos direitos humanos também já aparecia na declaração 
de 1789, que se refere, ao longo de seu texto e de diversas formas, aos 
homens, sem fazer distinção da sua nacionalidade, com apenas uma menção 
ao povo francês. Seu artigo 1º, que ecoa no documento da ONU, quase dois 
 
 
 
 
 
 
séculos depois, já assegurava que “os homens nascem e permanecem livres 
e iguais em direitos”. 
 
Era tanta liberdade, igualdade e propunha tanta fraternidade que teóricos e 
políticos anglófilos como Richard Price e Edmund Burke, que tinham apoiado 
a independência norte-americana, em 1776, foram contrários à Revolução 
Francesa, com medo de que ela acabasse provocando o caos. 
 
Foi contra ela que Burke escreveu Reflexões sobre a Revolução na 
França, e criou as bases para o conservadorismo moderno, que até 
aceita transformações, mas acredita que as revoltas são movimentos 
extremos demais. 
 
 
Aliás, a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América é outro 
documento que historiadores, como a estadunidense Lynn Hunt, defendem como 
seminais no tema dos direitos humanos. A segunda linha do texto de 1776 já afirma: 
"Consideramos estas verdades autoevidentes: que todos os homens são criados 
iguais, dotados pelo seu Criador de certos Direitos inalienáveis, que entre estes 
estão a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade". 
 
 
Mesmo que haja uma menção ao Criador, o Seu trabalho termina ali. O 
governo era dos homens e para os homens. Todos os homens. 
 
 
Há uma conexão estreita entre as duas famosas declarações do século XVIII: 
Thomas Jefferson, o autor da declaração americana, estava em Paris 13 anos 
depois, meses antes da queda da prisão da Bastilha, o evento que marca o 
início da Revolução Francesa. Thomas Jefferson era amigo e muito 
provavelmente influenciou o marquês de Lafayette, que foi um dos redatores 
do documento de 1789. 
 
Todas essas declarações revolucionárias respiraram os ares críticos e científicos do 
Iluminismo, que criou as bases estruturantes para a proposta da formação de uma 
sociedade, em tese, muito menos estratificada. 
 
 
 
 
 
 
 
A expressão “direitos do homem”, que ficou bastante associada à declaração 
francesa de 1789, já aparecia na obra O contrato social ou princípios do direito 
político, de 1762, do iluminista Jean-Jacques Rousseau. 
 
Em geral, os direitos humanostêm três condições características, devem ser: 
 
 
Naturais 
Inerentes aos seres humanos. 
 
Iguais 
Os mesmos direitos para todo mundo. 
 
Universais 
Aplicáveis por toda parte. 
 
 
 
 
Dito de outra forma: todos considerados humanos — mesmo as piores pessoas, 
mesmo os maiores genocidas, os bandidos mais detestáveis e aqueles sujeitos que 
odiamos — devem usufruir desses direitos. Por isso, merecem não serem torturados 
bem como terem um julgamento e um tratamento justo, igualitário e digno. 
 
A ironia do processo é que parcelas consideráveis da população tanto dos 
EUA quanto da França — isso para não falar de periferias como o Brasil — 
não eram incluídas nesses direitos humanos. Isso se mantém, de certa forma, 
até hoje. Quando algum grupo é excluído na hora de votar, por exemplo. 
 
Pela lei brasileira, menores de 16 anos, os considerados loucos, presos 
que têm sentença transitada em julgado, indígenas vivendo em situação 
de isolamento, jovens prestando serviço militar obrigatório e 
estrangeiros não são autorizados a participar das eleições. Todos são 
 
 
 
 
 
 
impedidos por serem considerados dependentes, portanto, podendo ser 
influenciados por outras pessoas. 
 
Ainda no século XVIII, também eram colocados fora dos direitos “universais” 
aqueles sem propriedade, os escravizados, os negros livres, certas minorias 
religiosas (como os judeus) e, por último, mas não menos importante: as 
mulheres. Aos poucos, por vezes de forma lenta demais, esses segmentos da 
sociedade foram sendo incorporados à ideia de “universal” e começaram a 
usufruir dos direitos humanos. 
 
 
 
O primeiro país a autorizar o voto feminino foi a Nova Zelândia, em 
1893. No Brasil, as mulheres conquistam o direito de votar em 1932. Na 
revolucionária França, elas só foram às urnas em 1945, depois da 
Segunda Guerra Mundial. 
 
 
A noção de quem pode ou não receber direitos vai se alargando, vai sendo 
modificada a partir das necessidades, condições e exigências da sociedade. 
O que é considerado razoável há 200, 300 anos, não é mais hoje em dia, um 
processo que tem bastante influência da moral. 
 
 
O próprio Jefferson, redator da declaração de independência norte-americana 
e terceiro presidente dos EUA, era um grande proprietário de escravos — o 
que causa um enorme constrangimento hoje em dia entre os seus 
compatriotas. Talvez no futuro tenhamos essa mesma vergonha de situações 
que hoje toleramos e, até mesmo, de certa forma, incentivamos, como a 
extrema desigualdade social. 
 
 
Direitos humanos e Grécia 
 
 
 
 
 
 
 
Essa aparente contradição para os olhos contemporâneos entre um 
discurso de universalização e uma prática que excluía certos grupos 
sociais é comum desde a época da democracia ateniense na Grécia 
Antiga, comumente considerada o berço da democracia ocidental. 
 
Foi lá que o primeiro experimento democrático digno desse nome aconteceu, 
com a população — isto é, homens adultos livres — da cidade-estado de 
Atenas participando da organização da sociedade. Escravizados, mulheres e 
estrangeiros eram excluídos de todo o processo, entretanto. Na prática, os 
participantes ativos desse sistema atingiam no máximo 20% da população de 
Atenas. 
 
De qualquer forma, há quem enxergue também na Grécia de séculos antes 
de Cristo a origem dos direitos humanos. Sofistas e estoicos já tinham, no 
mínimo implicitamente, uma ideia de igualdade entre os homens. Os 
primeiros, com a sua noção de que o homem é a medida para todas as 
coisas, e os segundos, colocando a razão para reger o mundo que, por sua 
vez, seria pensado de forma a priorizar o bem de todos. 
 
Outros teóricos enxergam ainda no poeta grego Hesíodo, que teria 
atuado entre 750 e 650 AEC, o passo inicial da caminhada que 
culminou no direito de todas as pessoas serem tratadas como 
iguais. 
 
 
 
Se Homero — outro poeta grego do século VIII AEC — ainda colocava a vingança 
como fundamento da Justiça, o que, por isso, não leva em conta o valor da vida 
humana como igual, Hesíodo inclui o homem na equação. 
 
 
Em Hesíodo, sai o guerreiro, personagem dos épicos homéricos, e entra o 
agricultor, que quer apenas viver uma vida tranquila, uma existência justa, que seja 
regida por algum tipo de direito. 
 
 
 
 
 
 
 
O homem nos poemas de Hesíodo deveria seguir as leis que 
criavam a ordem universal sob pena de receber algum castigo de 
Zeus. Eram castigos ainda muito conectados com fatos da 
natureza, mas que mostravam, de alguma forma, a preocupação 
com a vida do próprio homem. 
 
A despeito de não se ter uma certidão de nascimento que seja indiscutível — 
e nunca haverá —, o que se pode entender é que todas as vezes que se 
pensa em direitos humanos se coloca a vida humana, em toda a sua 
dignidade, no centro da questão. Os direitos humanos foram resumidos pelo 
jurista inglês do século XVIII William Blackstone, que os chamou de a 
“liberdade natural da humanidade", isto é, os "direitos absolutos do homem, 
considerado como um agente livre, dotado de discernimento para distinguir o 
bem do mal". 
 
 
 
 
Olhando a realidade pela história 
Com este vídeo, você poderá perceber como a história nos ajuda a 
entender a realidade. 
 
 
A trajetória dos direitos humanos 
 
 
Crítica aos direitos humanos 
 
Direitos humanos como alvo de críticas 
 
Embora ninguém seja, de forma aberta, contra os direitos humanos — 
apesar de haver diversas deturpações do conceito que levam certos 
 
 
 
 
 
 
políticos de extrema-direita a reclamar de um enviesamento na sua 
prática —, a maneira como tais direitos foram estabelecidos e usados 
politicamente ao longo dos séculos fez deles um alvo. A começar pelo já 
mencionado uso de propaganda parcial por políticos reacionários da 
década de 1980 que queriam desestabilizar países comunistas. 
 
É fácil dizer que um país como Cuba, por exemplo, não respeita os direitos 
humanos, quando eles abertamente perseguiram homossexuais. 
 
O mais difícil é justificar o silêncio desses mesmos políticos diante 
das torturas, prisões e assassinatos dos opositores de ditadores 
como Augusto Pinochet, no Chile. 
 
Ou o incentivo militar norte-americano ao massacre da população de El 
Salvador, que se opunha ao governo de direita. Ou o apoio do mesmo país ao 
grupo dos “Contra”, na Nicarágua, que tentava acabar com a Revolução 
Sandinista, que tinha derrubado um ditador apoiado pelos EUA. Isso só para 
ficar em exemplos que ocorreram na América Latina na década de 1980. 
 
Mas as críticas não param aí. Teóricos de tradição marxista enxergam na 
Revolução Francesa um movimento que se utilizou da força das classes mais 
baixas para destronar os chamados primeiro e segundo Estado, isto é, a 
nobreza e o clero, e instalar no poder não os pobres e necessitados, mas 
uma outra classe intocável: a burguesia. 
 
Banqueiros, grandes industriais e comerciantes assumiram as posições 
que antes eram dos nobres e dos padres. A camada mais desvalida, 
embora tenha tido participação ativa no movimento revolucionário, foi 
mais uma vez colocada para escanteio quando o processo se 
estabilizou. 
 
Há também quem associe os direitos humanos a apenas uma boa 
intenção que nunca foi concretizada de verdade, e a demora para que 
outros grupos além do segmento de sempre — os homens brancos 
ricos — participassem do jogo democrático corrobora esse tipo de 
 
 
 
 
 
 
	Definição de direitos humanos 
	Exemplo 
	Fundamentação histórica dos direitos humanos 
	A trajetória dos direitos humanos 
	Crítica aos direitos humanos

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