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As origens da sociologia Apresentação Os processos que estabeleceram a sociologia como disciplina e campo científico tiveram início ainda no século XIX. Tais processos constituem um cenário de contraposição da observação de ações e comportamentos sociais e da relação do indivíduo com o todo às práticas de ciências consideradas "duras". A sociologia nasce como uma "física social", ou seja, como o desejo de compreender os padrões de comportamento e de relacionamento entre indivíduo e sociedade ou, em padrões físicos, entre a partícula e o todo. Esse processo teve grande influência de pesquisadores brasileiros. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai travar contato com tais processos e ver que os materiais ensejam um duplo exercício reflexivo: compreender os desenrolares históricos e identificar seus reflexos em ações contemporâneas. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer o objeto de estudo da sociologia.• Descrever a perspectiva sociológica sobre a realidade.• Distinguir ciências naturais e ciências sociais.• Desafio A sociologia se torna ciência quando são definidos padrões empíricos de leituras de formações, interações e diálogos no interior de grupos sociais ou entre grupos sociais diversos. Nesse aspecto, o contexto no qual se insere o grupo é muito importante. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/c31e6d9c-eaf9-4774-a9ba-49bad1f12214/d226f725-73bf-447f-93d1-82e8b039c167.png Passo 1. Exercite sua imaginação sociológica: na situação de observação de candidatos às provas para o ingresso no Ensino Superior, qual elemento do comportamento social configura o comportamento de sul-coreanos e qual elemento configura o comportamento de brasileiros? Observe a constituição dessas duas sociedades e reflita sobre a razão pela qual nelas se observam comportamentos distintos em situações parecidas. Passo 2. O que é possível fazer para que, no quadro brasileiro, as interações tenham como produto mais empatia e sensibilidade? Não se preocupe em escrever um tratado sociológico. Observe as duas situações e, com a liberdade permitida pela observação sociológica, destaque as interações que fizerem mais sentido para você. Infográfico A sociologia é uma ciência que estuda as formas de conexões sociais, os padrões estabelecidos e o comportamento dos sujeitos a partir dos papéis sociais desempenhados quando alocados em grupos sociais diferentes. Estuda também as formas de relacionamento e diálogo com as instituições, ou seja, com Estados. Tanto sociedades quanto Estados e sujeitos sociais têm comportamentos, desejos e formas de expressão e compreensão muito voláteis, e esse foi um dos aspectos mais desafiadores para que a chamada “física social” pudesse ser interpretada como ciência. A volatilidade do objeto impede que leituras sejam permanentes, porque qualquer alteração contextual pode alterar os resultados da pesquisa ou ainda torná-la obsoleta. Mas são a impermanência e a imprevisibilidade dos comportamentos sociais que fazem do campo uma das ciências mais dinâmicas e importantes: um contexto social, político ou cultural não espera nada antes de se alterar, não pode ser pausado ou congelado. Por isso, as leituras sociológicas são dinâmicas e, desde a escolha de ferramentas metodológicas até as preocupações e os objetos escolhidos para análises, revelam os movimentos e os direcionamentos sociais de sua época. Veja o Infográfico a seguir: Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/a0991dfa-8cad-4a89-ac8c-161fc0f83786/11c5b819-0e55-4466-bff3-1fb25b404258.png Conteúdo do Livro A sociologia não precisa ser feita só de reflexões, tornando-se abstrata e de difícil compreensão por parte dos alunos. Ela pode, a partir da imaginação e da observação que fomentaram sua criação, ter aplicações práticas muito importantes. No capítulo As origens da sociologia, da obra Sociologia contemporânea, você vai aprender como a sociologia se torna uma ciência e, mais tarde, como se torna uma disciplina acadêmica. O Brasil tem importantíssimo papel nesse processo. Os pesquisadores e ensaístas brasileiros traçam um debate frutífero com especialistas das chamadas ciências duras, como física e biologia, e contribuem para a construção dos elementos que tornam possível a delimitação do campo científico: as ferramentas metodológicas e a definição dos processos empíricos. Ao longo do texto, você vai compreender o objeto de estudo da sociologia e entender como se constrói a perspectiva sociológica sobre a realidade, além de diferenciar aspectos das ciências naturais e das ciências sociais, que dão origem à sociologia. Boa leitura! SOCIOLOGIA CONTEMPORÂNEA Aline Michele Nascimento Augustinho As origens da sociologia Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer o objeto de estudo da Sociologia. Descrever a perspectiva sociológica sobre a realidade. Distinguir ciências naturais de ciências sociais. Introdução Neste capítulo, você vai ver como a sociologia se constituiu como ciên- cia e como o campo se estabeleceu no Brasil. A partir da influência de pensadores clássicos europeus, o Brasil teve atores pioneiros na análise da sociedade e das interações sociais com uma óptica próxima a das ciências da natureza. Ao longo do texto, você vai conhecer os objetos de estudo e interesse da sociologia, bem como as leituras dessa ciência sobre a realidade e os contextos analisados. Por fim, você vai ver como a sociologia se po- siciona diante das ciências que lhe deram origem, as ciências naturais e as ciências sociais. A formação da sociologia e a identificação de seus objetos As refl exões sobre o comportamento humano sempre estiveram presentes em sociedades e comunidades ao redor do mundo e ao longo do tempo, em épocas e confi gurações sociais distintas. As pinturas rupestres feitas em cavernas e elaboradas por hominídeos expressavam as formas de organização dos grupos sociais que surgiam, as caças, os perigos vividos, os espaços visitados, as viagens empreendidas. As representações pictóricas podem datar do período Paleolítico, que se estendeu da origem do homem até 10.000 a.C. Ou seja, o desejo de expressar, gravar e compreender a história humana está presente entre indivíduos desde os primórdios das organizações sociais mais elementares. É possível que a identifi cação do indivíduo como parte de um grupo seja um fator preponderante para a inclinação à refl exão a respeito dos contextos em que o grupo se insere. A expressão livre dos laços entre humanos deu espaço à reflexão, elaborada pelos filósofos da Antiguidade Clássica, sobre a pureza, a moral e a função de cada comportamento. Esse tipo de pensamento norteou as leituras sobre interações sociais até meados do século XVIII. O Iluminismo, também cha- mado de Século das Luzes, trouxe novas possibilidades de interpretação da natureza do comportamento humano. Nesse período, passa-se a considerar a complexidade das relações humanas, normalmente baseadas na estrutura de organização política do Estado. Mas são as rápidas transformações decorrentes da Revolução Industrial as responsáveis pelo grande interesse em medir, projetar e identificar formas de relações e comportamentos sociais. Devido à Revolução, se altera o modo de produção, consumo e organização social e política. E isso tem um motivo: o caos e os desequilíbrios sociais, desencadeados por situações nunca antes conhecidas. Por isso, pensadores passaram a observar os comportamentos sociais em busca de uma resposta para as transformações que se sucediam. As dinâmicas sociais passaram a ser foco não apenas de observação, mas de estudo. Por que essas dinâmicasacontecem da forma como acontecem? Quais são os elementos que incidem sobre as organizações sociais? Quais elementos as tornam estáveis, lineares, ou quais incitam o desejo por ruptura, por revo- luções? E, para os pensadores cujos trabalhos deram origem à sociologia, a questão preponderante era: como reorganizar ou reestabelecer as sociedades após o caos? Esses são alguns dos questionamentos que nortearam a definição de meto- dologias para a observação e a análise de dinâmicas sociais e que culminaram na delimitação de um campo científico específico, a sociologia. A ciência das relações sociais nasce com o estigma de pousar o olhar sobre um objeto instável, abstrato, difícil de ser controlado. Por isso, alguns autores que anali- saram brilhantemente seus contextos sociais e históricos tiveram seus estudos utilizados como base para a construção da sociologia como campo científico, e seus métodos foram considerados integrantes do aporte que deu origem a essa área de estudo. Entre eles, destacam-se Auguste Comte, Karl Marx, Émile Durkheim e Max Weber. Desses autores, apenas Karl Marx não define claramente etapas ou métodos de análise e interpretação de interações sociais com o objetivo de criar uma abordagem científica a ser retomada por futuros pesquisadores. Mas a forma de organização de sua leitura sobre as estruturas sociais oferece As origens da sociologia2 tantos dados para o fortalecimento da sociologia como ciência que sua obra se equipara, nesse sentido, às dos outros três estudiosos. A seguir, você vai conhecer melhor a contribuição de cada um deles para o estabelecimento e o fortalecimento da sociologia como campo científico. Tenha em mente que, com exceção de Durkheim e Weber, os autores mais importantes para a formação das teorias sociológicas clássicas não faziam parte da mesma geração e analisavam contextos sociais, políticos e históricos distintos. Auguste Comte (1798–1857) O francês Auguste Comte inicia seus estudos na Escola Politécnica ainda adolescente, mas há uma pausa entre o início de seus estudos e a sua conclusão. Tal pausa foi causada pelo fechamento temporário da Escola e depois por sua expulsão. Após concluir os estudos, ele vive uma grave crise psicológico- -emocional e se afasta da pesquisa por algum tempo. Sua primeira obra, Plano de Trabalho Científi co para Reorganizar a Sociedade, realizada em 1822, demonstra como imaginava recompor a sociedade num período de intensas rupturas, em que a Europa vivia alternâncias de poder entre regimes despóticos e revoluções. Comte foi secretário e amigo do Conde de Saint- -Simon, nobre francês teórico do socialismo utópico. Contudo, rompeu com o Conde após alguns anos, por não considerar defi nitivas as suas teorias sobre as organizações sociais. O positivismo comtiano define os parâmetros empíricos para a observação das dinâmicas sociais. Além disso, é a teoria que define o objeto sociológico como elemento próprio da ciência. Para Comte, se existiam leis que regiam as ciências naturais, também existiam leis que regiam os objetos sociais. Para conhecê-las, as etapas empíricas da observação à comparação deveriam ser respeitadas. Foi Comte o teórico que definiu o termo “sociologia”. Karl Marx (1818–1883) De origem judaica, o alemão Karl Marx estudou direito, fi losofi a e história, concluindo o doutorado ainda bem jovem, aos 23 anos. Voltado à fi losofi a hegeliana, o jovem Marx escrevia artigos jornalísticos que questionavam a organização política alemã e enfatizavam o aporte democrático. Por isso, foi expulso e se mudou para a França, onde conheceu Engels. Seu posicionamento político o levou a ser expulso também da França, então ele foi para a Ingla- terra, onde permaneceu até a sua morte. O primeiro trabalho em que aparece 3As origens da sociologia sua marca metodológica mais importante para a sociologia, o materialismo histórico, é O Manifesto do Partido Comunista, escrito em parceria com Friedrich Engels, em 1848. O materialismo histórico é uma teoria que entende que as relações entre a produção e o consumo de mercadorias é o que determina as estruturas e organizações sociais. Por isso, as grandes transformações históricas foram pautadas pela alteração na forma de produção, do feudalismo para o mercan- tilismo e depois para o capitalismo. Para Marx, o capitalismo causaria tensões ininterruptas entre as classes, trabalhadores e burgueses, e essas tensões levariam à tomada de poder pelos trabalhadores, que colapsariam o sistema e estabeleceriam o comunismo. Para o autor, a marcha para o comunismo era inevitável, por isso o materialismo histórico possui um viés determinista. Émile Durkheim (1858–1917) O francês Émile Durkheim também tinha origem judaica, mas declarava não praticar nenhuma religião. Assim como Marx, estudou fi losofi a, porém seus trabalhos se voltavam inteiramente à defi nição das metodologias de pesquisas e aportes técnicos da sociologia. Sua carreira acadêmica se inicia com estudos voltados para a ciência da educação. Criador da chamada “escola de sociologia francesa”, Durkheim foi o primeiro acadêmico a ocupar a cátedra de ciências sociais na Universidade de Sorbonne. Durkheim dialoga em seus trabalhos com Comte e Marx, mas tem um alinhamento maior com as teorias positivistas. Ele compreende que a socio- logia tem objetos próprios e diferentes daqueles do direito, da filosofia e da economia. Mas, diferente de Comte, Durkheim não acreditava em leis sociais, e sim na determinação de métodos e etapas para a observação, a classificação e a comparação dos fenômenos sociais, o que constituiria a verdadeira ciência sociológica. A tipificação de comportamentos é um dos elementos usados pelo pensador para chegar à observação científica dos fenômenos sociais. Max Weber (1864–1920) O alemão Max Weber estudou história, economia e direito. Sua origem foi intelectualmente privilegiada, já que, como fi lho de um político do Partido Na- cional Democrata alemão, pôde ter contato com estudiosos e intelectuais de seu tempo. Weber foi para os Estados Unidos durante a Primeira Guerra Mundial. Lá, passou a analisar aspectos de uma sociedade capitalista, comparando-os às estruturas tradicionais morais e culturais da Alemanha, cuja corrupção As origens da sociologia4 ou enfraquecimento durante a República de Weimar o preocupava. Weber transcende o positivismo de Comte, o materialismo de Marx e o funciona- lismo de Durkheim, mas admite as contribuições de cada um desses aportes, dialogando com seus teóricos em alguns trabalhos. O pensador alemão criou a chamada sociologia compreensiva, um método de análise que compreende as construções simbólicas de maneira subjetiva. Ou seja, é um método que admite que o aparato sistêmico de significação de fenômenos sociais é o que dá sentido à ação, e ele pode ser diferente em contextos sociais, políticos e históricos distintos. Por isso, Weber contraria o determinismo do materialismo histórico de Marx e a impossibilidade de transcendência das estruturas sociais de Durkheim. Para ele, o espaço que Marx deu aos conflitos entre classes como motor da história foi dado aos pro- cessos de racionalização dos fenômenos sociais, em associação às dinâmicas de dominação social. Comte viveu todo o processo de erosão do poder da nobreza e da monarquia francesa, bem como os impactos resultantes dos movimentos que culminaram na Revolução Francesa, na ruptura da monarquia e na constituição da república no país. Revoluções não são transições, não são alterações que ocorrem aos poucos; não há espaço ou tempo para acomodações de mudanças. Para que eclodam, é preciso que haja um momento anterior de caos. E os momentos subsequentes à ruptura e à instalação de um novo modelo de organização política e social costumam também ser pautados por desorganização e incer- teza. Para Comte, porém, independentemente dos objetivos de um movimento político e das alterações que ele poderia trazer às organizações sociais,já que também é importante conhecer e verificar as interpretações que as pessoas fazem de sua própria experiência para explicar parte do comportamento social. Uma das maiores dificuldades das ciências humanas ao se estabelecerem como disciplinas foi a criação e a adequação de ferramentas metodológicas para tratar de seus objetos de pesquisa. A ideia era que, ao mesmo tempo em que normatizassem a produção científica e acadêmica, as ferramentas também legitimassem tais disciplinas, mostrando normatização e controle da pesquisa. Havia grande dificuldade em mostrar que, embora afastadas das ciências na- turais, necessitando de abordagens diferentes, as ciências cujos objetos eram os homens e seus pensamentos, suas construções e interações sociais, podiam As origens da sociologia8 ser confiáveis; a volatilidade do objeto consistia mais em uma oportunidade do que em um problema. Foi preciso construir modelos de certa forma rígidos, que conferissem legitimidade às pesquisas das novas disciplinas que se formavam — por muitas vezes, a quebra desses modelos mostrava certos vieses nas pesquisas. Depois da criação da sociologia como disciplina, ocorreu o processo de distinção entre ela e as demais ciências, a partir da formulação de metodologias próprias ainda no século XIX. A interdisciplinaridade é retomada a partir de fins do século XX, tornando as análises mais ricas e aprofundadas. Mas qual é a trajetória da sociologia como disciplina? De acordo com Candido (2006), pode-se dividir o processo de constituição da sociologia brasileira como ciência em dois períodos. No primeiro, entre 1880 e 1930, a sociologia seria “[...] praticada por intelec- tuais não especializados, interessados principalmente em formular princípios teóricos ou interpretar de modo global a sociedade brasileira” (CANDIDO, 2006, documento on-line). Nesse período, não haveria ensino nem pesquisa empírica acerca de aspectos delimitados da realidade contemporânea. O segundo período se construiria após a década de 1940, e nesses 10 anos entre uma fase e outra é que a sociologia se incorpora ao ensino superior e passa a ser tratada como instrumento de análise social. Nessa fase, surgem os pri- meiros sociólogos de formação brasileira, que fomentam o segundo período da sociologia no País. Ainda segundo Candido (2006), a sociologia como campo científico sofre duas influências tão decisivas que a marcam permanentemente: a do direito e a do evolucionismo. No século XIX, o esforço de compreender o Estado, o universo econômico e as estruturas políticas do País foi, essencialmente, do jurista, que o autor determina como “[...] o intérprete por excelência da sociedade, que o requeria a cada passo e sobre a qual estendeu o seu prestígio e maneira de ver as coisas” (CANDIDO, 2006, p. 273). Contudo, [...] como as teorias dominantes na segunda metade do século se achavam marcadas pelo surto científico de então, notadamente a Biologia, que saiu dos laboratórios para se divulgar de maneira triunfante, os juristas mergulharam na fraseologia científica e se aproximaram, neste terreno, dos seus pares menos aquinhoados, médicos e engenheiros, que com eles formavam a tríade dominante da inteligência brasileira. Vemos então, na Sociologia, os juristas inaugurarem uma orientação cientificista, como se dizia, que contou desde logo com a cooperação de engenheiros e sobretudo médicos. A sociologia brasileira formou-se, portanto, sob a égide do evolucionismo e recebeu dele as preocupações e orientações fundamentais, que ainda hoje marcam vários dos seus aspectos (CANDIDO, 2006, p. 273). 9As origens da sociologia De fato, os pensadores mais influentes do período, como Sílvio Romero e Fernando de Azevedo, tiveram e assumiram influência darwinista e jurista. Azevedo, um dos fundadores da disciplina no Brasil, foi influenciado por um caldo de cultura científica — que ia dos juristas aos filósofos, passando pelos defensores da biologia. No texto A Ciência da Humanidade: Sociologia... Seu lugar entre a ciência, seu método, pode-se perceber em Sílvio Romero a influência evolucionista, a partir da óptica jurista de análise social. O direito constitui-se de fatos observáveis: as leis. Mas as leis existem para regimentar uma sociedade, um corpo social que age, vive e discute; que, portanto, está em constante movimento. Num Estado, cidadãos estão sob suas leis, mas as leis não são as mesmas em países diferentes, nem se apresentam a todos os cidadãos da mesma maneira. A ciência jurídica, portanto, pode ser subdividida em vários ramos, que entram numa mesma variável geral: a sociologia. Mas a sociologia é uma ciência? Esse questionamento sobre a legitimidade da sociologia como ciência é para onde o olhar de Romero (2001) se direciona, criticando os opositores da “ciência da sociedade”. O maior crítico da sociologia brasileira é o poeta e jurista Tobias Barreto. A crítica do jurista sergipano estaria especialmente desenvolvida em “estudos alemães” e é apresentada no ensaio Variações antissociológicas. Seus argu- mentos contrários à “ciência da sociedade” eram os seguintes: o estudo dos fenômenos sociais culminaria numa “pantosofia” (uma ciência do “tudo”), que não é compatível com o espírito humano; culminaria também em sociolatria, ou seja, a exaltação da grandeza humana, algo que para Barreto era inconciliável com uma ciência social; a liberdade invalidaria a sociologia: “Enquanto não se provar que a vontade humana é uma força natural [...] como o calor e a eletricidade, a sociologia nada vale” (BARRETO, 1962, p. 42); se a sociologia trata da sociedade, então seu objeto seria uma abstração sem objetivo e haveria tantas sociologias quanto existem grupos sociais; homem, família e Estado não poderiam ter explicações e mecanismos, como existem nos objetos das ciências naturais; a sociologia derivaria da ideia errada de que a sociedade é um indivíduo diferente do Estado, assim sociologia e ciência política seriam ciências diferentes; para Barreto (1962), a mania da “lei”, que regularia normas e épocas, exposta com a estatística como prova para o fenômeno social, não provaria nada; As origens da sociologia10 o emparelhamento da sociologia com as ciências naturais não fun- cionaria, pois não há uma ciência da natureza parecida com o que a sociologia procurava ser em relação à sociedade. Segundo Romero (2001, p. 54), “[...] não há dúvida de que o jurista de Estudos de Direito tem em grande parte razão. Mas não se deve concluir do abuso para a condenação geral da coisa. Porque alguns fantasistas andam por aí a inventar engraçadas e insustentáveis leis sociológicas”. O trabalho do pesqui- sador está em constante construção e transformação. O objeto demanda sempre uma forma de olhar única, particular. Assim, transportar métodos de análises conhecidos, eficazes anteriormente, nem sempre mostra-se eficiente. Mas o trabalho dos sociólogos que se seguiram à delimitação do campo científico mostra que, muito mais do que encaixar um objeto num tipo de abordagem ou análise preexistente, é ofício do pesquisador procurar, desbravar, produzir novos meios de se chegar ao seu tema, ao seu objeto. Ciências naturais e sociologia: o trabalho de Spencer na legitimação do campo sociológico É interessante você observar que os pensadores da sociologia empreenderam uma luta árdua para desenvolver metodologias próprias, e a ciência política trava hoje a mesma batalha. Defi nida por alguns autores apenas como um desdobramento ou uma ramifi cação da sociologia, já que seu foco é uma parte importante da estrutura de qualquer sociedade (o Estado e as relações sociais que advêm dele), a ciência política busca ainda hoje estabelecer metodologias particulares, que a legitimem como ciência diversa da sociologia. Nesse cami- nho, muitos criticam seus pensadores por utilizarem métodos quantitativos e estatísticos em demasia, como numa clara oposição às experiências qualitativas 11Asorigens da sociologia mais utilizadas pela sociologia contemporânea, transformando-a, talvez, numa ciência “dura”. Mas, se para se opor à sociologia é preciso adotar metodologias quantita- tivas, isso não poderia classificar a ciência política quase como uma ciência matemática? É possível relacionar o modo como a ciência política trabalha hoje para se diferenciar da sociologia com o modo como a sociologia trabalhou para se diferenciar das ciências naturais no século XIX. Naquele período, a classificação das ciências se dava em função de uma suposta complexidade, como no modelo a seguir: 1. matemática 2. astronomia 3. física 4. biologia 5. sociologia Aqui, a sociologia já se encaixava no plano das ciências, mas no menor grau de complexidade. Para Spencer, o quadro não se definia em ordem de importância, mas da seguinte maneira: 1. ciências abstratas 2. ciências abstrato-concretas 3. ciências concretas Ou seja, para Spencer, haveria particularidades em cada ciência prove- nientes da natureza de seus objetos, mas o rigor metodológico asseguraria a sua classificação como ciência. Por isso, não poderia haver ciência mais ou menos complexa, mais ou menos importante, ainda que houvesse diferenças ocasionadas pelos objetos de estudo. O evolucionismo moderno quebrou essas barreiras, como mostra Spencer na sua delimitação dos processos do método de pesquisa: 1. observação 2. observação artificial 3. experimentação As origens da sociologia12 4. comparação 5. classificação 6. indução 7. dedução O autor definiu e categorizou passos e assegurou que não haveria outros, nem ciência que não precisasse deles. E a sociologia não fugiria à regra. Spencer relata que, como cientista e sociólogo, seu objeto foi o próprio ato de observar e desenvolver o método da sociologia. A partir de comparações com temas e objetos da física, da biologia, da astronomia, da anatomia e da química, ele chegou à conclusão que buscava: o método da sociologia é o mesmo de todas as outras ciências. Como você viu, a sociologia surgiu como uma “resposta científica” às questões sociais que emergiram no século XIX, especialmente com o desenrolar da Revolução Industrial. A sociedade em crise, desorganizada e em situação de caos, levou pensadores a trabalharem numa resposta, numa saída para os problemas sociais como a fome, a violência e o desemprego. Comte e Durkheim trabalharam para que a ciência pudesse dar respostas e direções para o restabelecimento da ordem. Já Marx viu no caos a expressão de que as sociedades estavam inevitavelmente se transformando, e o desper- tar das classes trabalhadoras levaria o processo em direção ao comunismo mais objetivo. Mas todos os teóricos se fundamentaram nos diálogos com os parâmetros empíricos das ciências naturais para a definição das práticas de análise dos fenômenos sociais, pavimentando o caminho para os chamados “sociólogos profissionais” do século XX. 13As origens da sociologia BARRETO, T. Estudos de sociologia. Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Livro-Ministério da Educação e Cultura, 1962. BENJAMIN, W. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994. CANDIDO, A. A sociologia no Brasil. Tempo Social, v. 18, n. 1, jun. 2006. Dispo- nível em: . Acesso em: 3 dez. 2018. ROMERO, S. Ensaio de filosofia do direito. São Paulo: Landy, 2001. SILVA, M. A. P. M. Das mãos à memória. In: MARTINS, J. S; ECKERT, C; NOVAES, S. C; (Org.). O imaginário e o poético nas ciências sociais. Bauru: EDUSC, 2005. Leituras recomendadas AZEVEDO, F. Princípios de sociologia: pequena introdução ao estudo da sociologia geral. 7. ed. rev. e amp. São Paulo: Melhoramentos, 1958. CANAL FUTURA. Geração Z Com Dado Schneider | Entrevista. Youtube, jul. 2017. Dis- ponível em: . Acesso em: 3 dez. 2018. SOARES, G. A. D. O calcanhar metodológico da ciência política no Brasil. Sociologia, n. 48, p. 27-52, maio, 2005. SOCIOLOGIA é a ciência que estuda os chamados fatos sociais. G1, 2016. Disponível em: . Acesso em: 3 dez. 2018. SVITRAS, C. História da sociologia: a origem. 2018. Disponível em: . Acesso em: 3 dez. 2018. As origens da sociologia14 Conteúdo: Dica do Professor Sociólogos e leituras sociológicas direcionam-se somente às reflexões acadêmicas e às universidades? O exercício docente, a pesquisa e a difusão de conhecimento no Ensino Superior é parte muito importante para a disciplina e para os profissionais da sociologia. Mas você sabia que é possível utilizar as ferramentas de análise da disciplina em outras esferas, inclusive no âmbito do mercado de trabalho? Fique atento à Dica do Professor e entenda mais. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/9a0b2d1b85c5fb2cd64baedea146cadf Exercícios 1) A análise dos fenômenos sociais não nasce no século XIX. Nesse período, porém, tem início movimento para: A) a normatização das formas de análise dos fenômenos sociais. B) a criação de formas de análise dos fenômenos sociais que fossem diferentes dos propostos pelas ciências naturais. C) a utilização dos mesmos instrumentos de verificação e análise das ciências naturais. D) a legitimação das visões sobre a instabilidade dos fenômenos sociais e, portanto, sua baixa importância para os campos científicos. E) a apropriação das metodologias de análise empírica de ciências mais confiáveis, como biologia e física. 2) De acordo com o ensaísta brasileiro Antônio Cândido, a sociologia como ciência teve dois períodos de aprimoramento das técnicas: A) o primeiro período, entre 1820 e 1880, em que a sociologia seria associada à filosofia e ao direito, e o segundo período, já no início do século XX, quando a sociologia se incorpora ao Ensino Superior e passa a ser tratada como ferramenta de análise social. B) o primeiro período, entre 1880 e 1930, em que a sociologia seria “praticada por intelectuais não especializados”, e o segundo período, após a década de 1980, quando a alteração do paradigma internacional de poder e de Estado abre espaço para a atuação de novas disciplinas sociais. C) o primeiro período, entre 1880 e 1930, em que a sociologia seria “praticada por intelectuais não especializados”, e o segundo período, após a década de 1940, quando a sociologia se incorpora ao Ensino Superior e passa a ser tratada como ferramenta de análise social. D) entre 1880 e 1930, em que a sociologia seria praticada por físicos e químicos que, ao se interessarem por fenômenos sociais, criaram métodos semelhantes às suas ciências de ofício. E) apenas a partir da década de 1940, quando a sociologia passa a ser entendida como disciplina universitária. 3) De acordo com Herbert Spencer, as ciências não deveriam ser encaradas a partir de supostos graus de complexidade, uma vez que: A) as ciências naturais seriam as verdadeiras ciências e aquelas que não se enquadrassem em seus parâmetros de complexidade empírica não poderiam ser consideradas como tal. B) ciências naturais e ciências sociais não apresentam qualquer tipo de diferença. C) ciências naturais são duras e, portanto, não necessitam do mesmo rigor aplicado à volatilidade social. D) todas as ciências são complexas, o que muda é o grau de estabilidade dos objetos analisados, o que determina o nível de abstração necessário para sua observação. E) todas as ciências são complexas, o que muda é a importância dada a elas pelos cientistas.4) Entre as ciências que deram origem à sociologia, qual importante ciência social pode ser destacada? A) O direito, como ciência jurídica, derivado da filosofia. B) A filosofia política, como antecessora unilateral do direito. C) A geografia, já que a observação de contingentes populacionais, delimitações territoriais e soberanias foi a inspiração para a construção da ciência política, braço da sociologia. D) A literatura, já que esta foi a ciência responsável por uma das práticas sociológicas mais importantes, a história oral e a análise biográfica. E) A teologia, já que o estudo da interação entre o humano e o divino na Idade Média foi o elemento-base para as formulações analíticas entre indivíduos e sociedade dos séculos XIX e XX. 5) As delimitações empíricas que deveriam ser seguidas por toda e qualquer ciência, inclusive a sociologia, segundo Spencer, são: A) observação, observação natural, experimentação, comparação, classificação, indução, dedução, redução. B) observação comparativa, observação artificial, experimentação, comparação, classificação, indução, dedução. C) supressão, observação artificial, experimentação, comparação, classificação, indução, dedução. D) observação, observação artificial, experimentação, comparação, classificação, indução, dedução. E) observação, observação artificial, alimentação, comparação, separação, indução, dedução. Na prática A sociologia tem origem como disciplina e campo científico a partir do desejo de compreender e traçar modelos de análise sobre grupos, formas e padrões de relacionamentos sociais. No entanto, as práticas sociológicas tendem a parecer excessivamente abstratas e pertencentes às reflexões de intelectuais e acadêmicos. A seguir, veja um estudo de caso em que é possível observar a interação entre leitura sociológica e práticas sociais. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/456c933b-d7b2-41be-b4dd-86578fe4a3f1/70bdb2ec-1b06-4617-8b04-5f7b7a4b0f7d.png Saiba mais Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Como a sociologia pode ajudar em nossa vida pessoal? Afinal, a sociologia ajuda em quais áreas de nossa vida? No artigo para a revista acadêmica Café com sociologia, Roniel Sampaio Silva descreve algumas das possibilidades para as práticas sociológicas. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Aristóteles: por que vivemos coletivamente? Você já se perguntou por que humanos vivem em grupos? Mais que isso, por que os grupos humanos têm regras e padrões de comportamento? Entenda mais neste artigo de José Luiz Ames, que trata o assunto a partir da leitura filosófica de Aristóteles, área de saberes que continua a influenciar a sociologia. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Por que vivemos em uma sociedade racista? | Debate - Canal Futura Se vivemos como um coletivo de humanos, por que há segregação de alguns? Neste vídeo, um programa do Canal Futura, você verá um rico debate sobre as causas do racismo, além dos efeitos negativos desse comportamento para todo o contexto social. https://cafecomsociologia.com/como-sociologia-ajudar-vida-pessoal/ https://www.tribunapr.com.br/noticias/aristoteles-por-que-vivemos-coletivamente/ Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://www.youtube.com/embed/RjRPoR8MtXU4) Entre as ciências que deram origem à sociologia, qual importante ciência social pode ser destacada? A) O direito, como ciência jurídica, derivado da filosofia. B) A filosofia política, como antecessora unilateral do direito. C) A geografia, já que a observação de contingentes populacionais, delimitações territoriais e soberanias foi a inspiração para a construção da ciência política, braço da sociologia. D) A literatura, já que esta foi a ciência responsável por uma das práticas sociológicas mais importantes, a história oral e a análise biográfica. E) A teologia, já que o estudo da interação entre o humano e o divino na Idade Média foi o elemento-base para as formulações analíticas entre indivíduos e sociedade dos séculos XIX e XX. 5) As delimitações empíricas que deveriam ser seguidas por toda e qualquer ciência, inclusive a sociologia, segundo Spencer, são: A) observação, observação natural, experimentação, comparação, classificação, indução, dedução, redução. B) observação comparativa, observação artificial, experimentação, comparação, classificação, indução, dedução. C) supressão, observação artificial, experimentação, comparação, classificação, indução, dedução. D) observação, observação artificial, experimentação, comparação, classificação, indução, dedução. E) observação, observação artificial, alimentação, comparação, separação, indução, dedução. Na prática A sociologia tem origem como disciplina e campo científico a partir do desejo de compreender e traçar modelos de análise sobre grupos, formas e padrões de relacionamentos sociais. No entanto, as práticas sociológicas tendem a parecer excessivamente abstratas e pertencentes às reflexões de intelectuais e acadêmicos. A seguir, veja um estudo de caso em que é possível observar a interação entre leitura sociológica e práticas sociais. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/456c933b-d7b2-41be-b4dd-86578fe4a3f1/70bdb2ec-1b06-4617-8b04-5f7b7a4b0f7d.png Saiba mais Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Como a sociologia pode ajudar em nossa vida pessoal? Afinal, a sociologia ajuda em quais áreas de nossa vida? No artigo para a revista acadêmica Café com sociologia, Roniel Sampaio Silva descreve algumas das possibilidades para as práticas sociológicas. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Aristóteles: por que vivemos coletivamente? Você já se perguntou por que humanos vivem em grupos? Mais que isso, por que os grupos humanos têm regras e padrões de comportamento? Entenda mais neste artigo de José Luiz Ames, que trata o assunto a partir da leitura filosófica de Aristóteles, área de saberes que continua a influenciar a sociologia. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Por que vivemos em uma sociedade racista? | Debate - Canal Futura Se vivemos como um coletivo de humanos, por que há segregação de alguns? Neste vídeo, um programa do Canal Futura, você verá um rico debate sobre as causas do racismo, além dos efeitos negativos desse comportamento para todo o contexto social. https://cafecomsociologia.com/como-sociologia-ajudar-vida-pessoal/ https://www.tribunapr.com.br/noticias/aristoteles-por-que-vivemos-coletivamente/ Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://www.youtube.com/embed/RjRPoR8MtXU