Prévia do material em texto
geografia escolar geografia Uma história sobre seus discursos pedagógicos escolar Uma sobre seus discursos pedagógicos O S diversos entendimentos que atualmente podem ser dados à Geografia foram gestados em intensas discussões conceituais, tramadas desde sua institucionalização como campo do Isso resulta em finalidades plurais na escola, pois cada discurso do pensamento traz inscrições conceituais diferenciadas. Esses múltiplos discursos que se inscrevem na Geografia, a maioria, estão inscritos nos livros didáticos, resultando formações discursivas Ivaine N Este livro, tenta mostrar como esses discursos foram inventados, quais as marcas que carregam e como cada um se torna legitimado no currículo escolar. Para essa investida, a autora busca compreender as sobre a constituição da Geografia, numa tentativa de não como uma narrativa linear, mas problematizando suas acontecências, mostrando as rupturas e os desdobramentos discursivos. ISBN 85 - 7429 - 341 5 9 88574 293417 > 18,00 9788574293417 Editora2003, Editora Unijuí Rua do Comércio, 1364 Caixa Postal 560 98700-000 - Ijuí - RS - Brasil - Fone: (0 55) 3332-0217 - Fax: (0_55) 3332-0343 - E-mail: editora@unijui.tche.br Http://www.unijui.tche.br/unijui/editora/ Responsabilidade Editorial e Editora Unijuí da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí; Ijuí, RS, Brasil) Serviços Gráficos: Sedigraf Capa: Elias Ricardo Schüssler Catalogação na Fonte: Biblioteca Central Unijuí T665g Tonini, Ivaine Maria Geografia escolar : uma história sobre seus discursos pedagógicos / Ivaine Maria Tonini - Ijuí: Ed. Unijuí, 2003. - 88 p. ISBN 85-7429-341-5 1.Geografia 2.Ensino 3.Práticas pedagógicas 4.Discur- pedagógicos 5.Discurso geográfico I.Título II.Série CDU 91 91:37 37:91 Editora Unijuf afiliada: Associação Brasileira Editoras Universitáriassumário PREFÁCIO 9 Ponto de entrada 13 Inventando a matéria escolar 19 Trilhando o status acadêmico 41 Rompendo significados naturais 57 Saindo do texto 77 BIBLIOGRAFIA 79prefácio Discutir a história de uma disciplina é estimulante. Ela permi- te, por exemplo, avaliar momentos de ruptura, de afirmação de teorias, de construção de novos conceitos. Mas permite também encontrar a identidade de uma ciência e as de sua aplicação e teorias junto à sociedade. Em Geografia Escolar - uma história sobre seus discursos pedagógi- cos, a autora fez a opção de recontar a história da geografia com uma nova interpretação: relacioná-la à educação. Nada mais importante dado que esse campo do conhecimento ganhou os bancos escolares desde o século XIX e permanece até hoje construindo identidades regionais, nacionais e de civilizações. A preocupação central da autora é tratar dos elementos da geo- grafia que a tornaram interessante para a formação escolar. Em seu livro ela persegue os discursos que entrelaçaram idéias, conceitos e interpretações sobre mundo que propiciaram a construção de um conteúdo geográfico veiculado no ensino básico. Nessa trajetória ela estabelece um profícuo diálogo com outros intérpretes da história do pensamento geográfico.10 11 WAGNER RIBEIRO PREFÁCIO A autora aborda as matrizes da geografia destacando seus funda- O determinismo era diferente. Ele explicitava a escassez de re- dores e a influência deles na elaboração de teorias como determinismo cursos naturais por meio do conceito de espaço vital, do geógrafo ale- e o possibilismo geográfico. A introdução da geografia escolar é analisa- mão Friedrich Ratzel. Descrever a natureza era uma etapa para da como integrante da formação da identidade nacional, da disciplina a população da sua base material da existência. A falta de espaço vital para a pátria, do nacionalismo. A geografia escolar colabora para a for- justificava a invasão de áreas ocupadas por outros povos. mação do cidadão ao desenvolver o sentimento de pertencimento a um grupo social mais amplo. Nada melhor quando projeto das elites Aos primeiros discursos acadêmicos foram incorporados outros, era a construção do estado-nacional e a economia agregava territórios que também eram repassados para a geografia escolar. A geografia cul- extras na forma de colônias. Assim era facilmente compreensível por- tural, com sua afirmação dos lugares e os estudos regionais, nos quais a que ensinar geografia no século XIX. particularidade era entendida como integrante de uma realidade mais O debate entre o possibilismo francês e determinismo ampla, passaram a compor ideário geográfico difundido entre os es- germânico ocorria em universidades levando o discurso geográfico para tudantes do início da escolarização, como bem demonstra a autora. a academia. A convergência destes discursos ocorria na definição da A permanência da geografia escolar é um fato que merece ser relação entre a sociedade e a natureza e na matriz filosófica: positivismo. Outro aspecto comum era o uso do conhecimento geográ- entendido. Este livro colabora para isso ao afirmar uma série de teorias fico, tanto pela França quanto pela Alemanha, para dominar territórios geográficas e relacioná-las à conjuntura histórica e filosófica em que em outras partes do mundo. elas surgiram. Esses elementos alicerçaram a identidade da geografia, que per- Porém, para que ensinar geografia a estudantes em nossos dias? manece até nossos dias. O entendimento das relações de poder entre Em um mundo onde as relações de poder estão cada vez mais países e povos, o conhecimento da dinâmica da natureza para sua complexas, a consciência da escassez de recursos naturais é pequena e instrumentalização pela espécie humana e as diferentes matrizes cul- turais também integram esse universo. a ampliação do universo da produção para diversos países pode ser per- cebida indo a um ponto de comércio, não resta dúvida da necessidade Apesar disso, é possível identificar diferenças entre aqueles dis- da continuidade dos estudos geográficos. Por isso é fundamental en- cursos. O possibilismo visava conhecer o de vida, expressão do geógrafo francês Vidal de La Blache. Por meio de levantamentos das tender as tradições discursivas produzidas ao longo de mais de um sé- condições naturais, do estilo de vida das populações que viviam nos culo e suas versões escolares para traçar um campo de ação que indique lugares surgiam elementos que eram aplicados na colonização das ter- alternativas aos cidadãos, dadas as desigualdades verificadas atualmen- ras novas. te e que também são demonstradas em estudos geográficos.12 WAGNER COSTA RIBEIRO A geografia pode servir para um mundo melhor, no qual a injus- tiça social, acesso a serviços de saúde e a distribuição da riqueza sejam mais equânimes. Um mundo que está por vir. Mas que pode começar a ser construído desde já. ponto de entrada São Paulo, outubro de 2002. Wagner Costa Ribeiro* Os diversos entendimentos que atualmente podem ser dados à foram gestados por intensas discussões conceituais em dis- tintos contextos históricos, tramadas desde sua institucionalização como campo do conhecimento. Isso resulta em finalidades plurais na escola, pois cada discurso do pensamento geográfico traz inscrições conceituais diferenciadas. Os múltiplos discursos que se inscrevem na Geografia, a maioria, estão inscritos nos livros didáticos, resultando formações discursivas distintas. Os enunciados do pensamento geográfico são elaborados em di- versos espaços universidades, associações profissionais, órgãos de pes- quisas públicas e privadas, escolas e tornam-se discursos escolares no momento em que se inscrevem no ensino. Embora muitos desses enun- ciados estejam ausentes no ensino, por não terem conseguido obter Escrevo Geografia com "G" maiúsculo por seguir uma regra da Língua Portuguesa. Mas refuto a concepção de perceber a Geografia como um campo de conhecimento dito "científico" e superior pelo discurso ocidental, pois, como toda invenção ela é atraves- * Professor do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências sada e constituída historicamente por discursos, que a fazem um campo de conhecimen- Humanas e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da USP. to marcado, datado, historicamente situado.14 15 MARIA TONINI PONTO DE ENTRADA Os significados não existem soltos no mundo, à espera de serem efeito de verdades, ou seja, não foram autorizados. No entanto, os descobertos e formalizados Enquanto coisa deste discursos presentes já possibilitam a existência de uma pluralidade de mundo, o significado não preexiste à sua enunciação. Ele só existe a partir do momento em que foi enunciado, passando a fazer parte de perspectivas geográficas. um ou mais discursos (p. 56). Neste livro tento mostrar como esses discursos foram inventa- Esse dar sentido as coisas nos discursos em momentos e lugares dos, quais as marcas que carregam e como cada um se torna légitimado diversos é o que me permite vê-los como construções culturais. O pro- no currículo escolar. Para essa investida busco compreender as histórias cesso de deslocamento dos significados nos discursos é sobre a constituição da Geografia, numa tentativa de analisá-la não de condições históricas possibilitadas por uma série de transformações como uma narrativa linear, mas problematizando suas acontecências, ocorridas em distintos acontecimentos: no campo filosófico (alastra- mostrando as rupturas e os desdobramentos discursivos, "rompendo mento das idéias iluministas); no político (instituição dos Estados-Na- seus silêncios, sublinhando seus desvios" (Giroux, 1995, p. 99). ções); no econômico (mudança do modo de produção, feudal-capital) Para entender processo de configuração da Geografia como e no técnico (industrialização). campo de conhecimento, há que se analisar as vias pelas quais cla foi Segundo consta na historiografia, parece que a Geografia torna- adquirindo autonomia em relação aos demais conhecimentos e, assim, se um campo de conhecimento somente em fins do século XIX. As constituindo seu próprio campo de abrangência, mapeando sua condições de possibilidades para a sua tessitura estão assinaladas desde especificidade, fabricando seu próprio discurso, até tornar-se um cam- primórdios da Antiguidade e se estendem por um longo período. As po disciplinar. Assim, valho-me da no sentido foucaultiano idéias sobre as coisas do mundo estavam cartografadas em outros cam- para analisar esse processo de invenção; por isso, conduzo-me para al- pos do conhecimento, entre eles a Astronomia, a Cartografia... É, por- guns momentos da história do pensamento geográfico, em que os de- tanto, deslocando parte dos conhecimentos desses campos que se vai bates foram mais fortemente assinalados e caracterizam os deslocamen- organizar a Geografia. E ela vai então ser fabricada como um campo tos discursivos. Portanto busco, nas condições de possibilidades que demarcado de saberes e com identidade própria. permitiram significados para a invenção, deslocamento e a ruptura em cada discurso geográfico. Como diz Veiga-Neto (2000), Os primeiros passos para a sistematização da Geografia foram dados com a intenção de construir um campo de conhecimento com a finalidade de descrever os grupos humanos e seus lugares. Esse conhe- 2 Machado (apud Veiga-Neto, 1995, p. 21) diz que a arqueologia é "um método de escavar verticalmente as camadas descontínuas do passado a fim de trazer à luz frag- cimento foi buscado, inicialmente, nos relatos das aventuras dos explo- mentos de idéias, conceitos, discursos já conhecidos aparentemente desprezíveis, para, a partir desses fragmentos, compreender as epistemes antigas ou mesmo, e talvez radores, nas narrativas dos viajantes, nas relações entre os comerciantes, principalmente, a nossa presente e entender como [e logo em seguida por que] os saberes apareciam e se transformavam". nos romances dos escritores, nas investidas dos historiadores. Muitos16 17 MARIA TONINI PONTO DE ENTRADA desses conhecimentos eram vistos simplesmente como curiosidades ções entre natureza e sociedade. Buscarei, então, nas histórias da Geo- sobre as coisas do mundo. Pode-se observar, no entanto, que alguns grafia, os suportes que registram as marcas dos discursos, tentando dos referidos relatos eram estratégias para registrar informações preci- articulá-los sempre com a sas sobre espaço visitado, as quais relatavam potencial natural, a Minha análise sobre perspectivas históricas da Geografia começa população e as possibilidades de relação. Desse modo, atribuir inge- nuidade a esses relatos seria deixar de olhar a extraordinária fonte de mostrando alguns caminhos que ela suas movimentações e informações precisas que continham, seria continuar, na atualidade, a alguns deslocamentos entre suas escolas epstemológicas, através dos insistir numa visão naturalista das descrições. livros didáticos. Embora a apresentação dessa caminhada possa sinali- zar alguma linearidade, ela deve-ser entendida somente como forma A estratégia para a invenção desse outro campo de conhecimen- de exposição, pois não existe a pressuposição de percorrer um caminho to Geografia foi reunir, então, um arcabouço de informações sobre trilhado por uma causalidade cronológica que seria responsável pelos os elementos da superfície terrestre. Tal ação, também, possibilitou deslocamentos dos discursos geográficos. O que procurarei analisar, sim- configurar e preparar o estabelecimento de um domínio mais eficaz sobre cada território que foi "diretamente explorável pelas autorida- plesmente, são os diferentes momentos que assinalam os deslocamen- des coloniais, os estrategistas, os negociantes ou os industriais" tos das formações para a Geografia: a sua sistematização (Foucault, 1996a, p. 163). Assim, a Geografia emerge produzindo um (finais do século XVIII), a sua institucionalização como disciplina saber que utiliza triplo registro: do inquérito, da medição e do exame. (finais do século XIX) e a sua ruptura como conhecimento moder- no (finais do século XX). Atualmente não existem mais novos lugares para serem desco- bertos, para serem relatados e estudados como lugares nunca visitados. Hoje, Embora saiba que dentro de um mesmo discurso possa existir uma multiplicidade de as explorações geográficas consistem em verdadeiras metáforas das meu texto está direcionado para aquele eixo que aparece mais articu- antigas. Os mundos novos são parte do nosso cotidiano, as descober- lado com conhecimento escolar. tas são novas formas de olhar, de relacionar, de conceber; as viagens A escolha do tempo histórico para iniciar a discussão não deve ser entendida simples- são constituídas pela interiorização em novos per- mente por ser preciso entrar em algum tempo, mas por compreender que a partir desta cursos. Nesse sentido, a Terra incógnita não cessa de ser descoberta data é que se intensificam, convergem arranjos e condições para a invenção da Geogra- (Castro; Gomes; Corrêa, 1997, p. 7). como matéria escolar, como campo de disciplinamento, cujo território coloniza diversos significados sobre os povos em conformidade aos interesses econômicos, polí- ticos, sociais, culturais de cada contexto A identidade produzida para a Geografia a de descrever o São vários os desdobramentos das escolas geográficas. somente cixo central de cada Isso não deve ser visto como uma negação ou omissão aos desdo- mundo foi fabricada por diversas engrenagens colocadas, adaptadas, bramentos, mas como uma opção de análise centrada no dela no ensino, com finalidade de entender como cada uma se constitui qual sua articulação ajustadas nos discursos que se foram configurando para traduzir as rela- cominventando a matéria escolar Para a maioria dos historiadores da Geografia (Andrade, 1987; Capel, Gomes, 1996; Moraes, 1989; Sodré, 1989), a obra de Immanuel Kant (1724-1804) significou um papel relevante para, pos- teriormente, reconhecimento da como campo discipli- nar. Nela está contida a primeira proposta de tentativa de demarcar o objeto de estudo da Geografia a relação entre e natureza. A primazia de Kant esta em entrelaçar esses conceptos em um campo disciplinar. Embora as coisas do mundo sempre foram objetos de especulação filosófica, elas aparecem com outra perspectiva no pensa- Embora a Geografia seja vista como ciência só a partir do final do século XIX, há muito tempo de Geografia os estudos que abrangessem os fenômenos que interferiam e aconteciam na superfície terrestre. Nos livros estudados para esta pesqui- não encontrei registros capazes de fornecer uma data oficial que registre quando a Geografia começa a se inscrever com esse nome e como matéria escolar. Em alguns livros, aparece como matéria nas universidades e nas escolas (século XVIII); em outros, como parte de conteúdos de um outro campo disciplinar (Antiguidade), espalhados nos mais diversos campos do conhecimento: Astronomia, Cartografia, Matemática, etc. A perspectiva teórica em que este estudo ancora-se, não estabelece diferenças culturais entre os gêneros, uso do masculino aqui é proposital para assinalar mostrar quanto foi pontual seu uso na Geografia, desde os primeiros indícios de territorialização do objeto geográfico até momento em que começa a problematizar questões relativas ao Isso são instigações muito recentes na Geografia, portanto era impensável propor tais iniciativas voltadas para gênero.20 21 MARIA TONINI INVENTANDO A MATÉRIA ESCOLAR mento kantiano, possibilitadas pelas condições históricas. Os filósofos Uma das questões que prendeu a atenção de Descartes foi de precursores de Kant construíram um arcabouço teórico que lhe possi- indagar se o conhecimento era seguro. Sua obra não é outra senão a de bilitaram condições para desenvolver essa tese. Isso é percebido na se fundamentar um conhecimento universal de forma indisputável. obra de Kant ao compartilhar alguns aportes teóricos trazidos por pen- Ao desenvolver a tese sobre a teoria do conhecimento, elaborou um sadores da Grécia Antiga, como por exemplo: outras formas de explicar conjunto de regras que deviam ser seguidas para que um conhecimen- a origem das coisas, não mais baseadas em mitos a chuva não seria to seja considerado verdadeiro e universal. Muitas dessas verdades eram mais uma obra divina e, sim, o resultado do entendimento de uma comprovadas pelas balizas matemáticas, as quais "confere um sentido conjunção de elementos atmosféricos; a transformação de elementos determinado à categoria em exame. A clareza e a distinção que predicam do conhecimento prático em ciências a construção de instrumentos a evidência são espelhadas na certeza das demonstrações matemáticas, de navegações para facilitar entendimento das coisas, do universo; a certeza esta qualificada como momento decisivo da resistência à dúvi- elaboração de um pensamento sistemático sobre as coisas uso de nor- da" (Pimenta, 2000, p. 27). mas, regras universais para entender as várias diversidades que a paisa- A perspectiva cartesiana tenta aplicar o método matemático na gem apresentava. Esta nova perspectiva no conhecimento foi conside- reflexão filosófica. Para provar as verdades filosóficas utiliza-se a mes- rado um período áureo para a Filosofia. Depois disso, por cerca de dois ma ferramenta de trabalho com números: a razão. A razão era vista mil anos, a Filosofia "estagnou" pela inserção da escolástica em suas como a única coisa capaz de elaborar um conhecimento seguro. Assim, abordagens. O propósito constante em sua obra é a unificação do conhecimento a No entanto é com as perspectivas trazidas pela Filosofia Moder- partir da consolidação de um método universal, para o qual elaborou na que as especulações sobre o mundo começa a assinalar uma ruptura um procedimento: a dúvida metódica, pela qual sujeito do conheci- teórica, ou seja, a reflexão passa a ser centrada em volta do pensamento mento ao analisar cada um dos conhecimentos tem a possibilidade de sobre o sujeito do conhecimento. Isso mostra a exclusão de um "ser avaliar suas fontes, causas, formas, conteúdos, falsidades para encon- divino" como ponto de partida para investigar que podia se saber trar meios de livrar-se de tudo quanto seja duvidoso ao pensamento. sobre mundo. Entre os filósofos modernos Rene Decartes (1596- Para Decartes o conhecimento está dividido em dois eixos: 1658) foi o que trouxe em seus estudos essa ruptura nas tentativas de sensível, aquele elaborado pela sensação, percepção, imaginação do entender o mundo. Foi o primeiro, desses novos tempos, a tentar cons- homem, O qual não era muito confiável. Ele é a causa do erro e deve truir um sistema filosófico, isto é, uma filosofia de base, cujo objetivo ser afastado. Assim, afasta a experiência sensível como conhecimento era encontrar respostas para todas as questões consideradas impor- verdadeiro. O conhecimento verdadeiro é puramente intelectual, par- tantes. te das idéias inatas e controla, por meio de normas, as investigações22 23 INVENTANDO A MATÉRIA ESCOLAR IVAINE MARIA TONINI filosóficas, científicas e técnicas. Desse modo, sua tese desemboca numa do mundo físico. São percebidos pela razão humana que considera tudo perspectiva que permitiu separar o conhecimento elaborado pela per- que acontece dentro de uma relação de causa e efeito. Kant acreditava cepção humana, de difícil comprovação do conhecimento intelectual, na validade absoluta das leis da natureza, à medida que mostrasse que facilmente comprovado. As especulações filosóficas de entender a na- quando falamos em leis da natureza estamos falando de leis do conhe- tureza estavam ancoradas no conhecimento intelectual, enquanto o cimento humano e elas são resultantes de nossas experiências. entendimento da humanidade estava atrelado ao conhecimento sensí- Nesse sentido tempo e espaço são unidades de conhecimento. vel. Essa separação do conhecimento em sensível (humano) e inte- Segundo Kant a unidade do conhecimento que se preocupava com lectual (natureza) são os primeiros aportes que vão sendo construídos para ancorar a divisão das ciências em humanas e naturais e a demons- seu registro era o tempo (História), enquanto que aquela que se preo- tração de uso de regras distintas para elaboração do conhecimento, em cupava com sua localização era o espaço (Geografia). Assim, essa pers- que uma regra será legitimada como a universal. pectiva permite a separação entre o conhecimento para dois campos disciplinares: História e Geografia. Kant foi um seguidor de Descartes, no sentido de pensador des- ses novos tempos. Ele elabora a tese de sujeito transcendental, O que a Embora a história mais aceita relata que foi com Kant que a diferencia das outras perspectivas filosóficas. Sua tese articula homem Geografia começa a ser mais facilmente percebida com esse discurso, e natureza numa relação, como coisas que se comunicam, que produ- há registros bem anteriores. Esses relatos mostram fortemente uma zem resultados, ou seja, tenta descrever a relação que homem esta- Geografia articulada ao discurso do determinismo natural, inicialmen- belece com a natureza para entender os vários comportamentos dos te articulado a uma descrição simplista da relação entre clima e diferentes grupos humanos nas distintas paisagens terrestres. Isto mos- homem. tra que embora homem seja parte da natureza, ele é capaz de agir por O final do século XVIII pode ser visto pelos estudiosos como um escolha livre, por determinação racional de sua vontade e é capaz de agir em nome de fins ou finalidades humanas, e não apenas condicio- divisor entre a Renascença e a Modernidade, porque é nesse momento nados por causas naturais necessárias, como acontece com os fenôme- que começam a ser dados os nós na trama da sistematização de um nos da natureza. Essa ação de poder ter livre escolha é que vai justificar outro campo de conhecimento: a Geografia. As explicações sobre as as diferenças entre os povos quando apresentam a mesma paisagem coisas do mundo que, na Renascença, vão interessar para a construção física em seus territórios. da Geografia trazem a marca da dualidade a Para o filósofo percebemos tudo que vemos como eventos no qual tentava mostrar a imagem do mundo pela generalização da natu- tempo e no espaço, eles são propriedades da nossa consciência, são reza, pelos mapas a cosmografia e da dualidade histórico-descritiva, subjetivos, são nossos métodos de perceber mundo, e não atributos que narrava a particularidade dos lugares a corografia. Assim, dis-24 MARIA 25 INVENTANDO A MATÉRIA ESCOLAR curso geográfico que vai ser constituído traz na valorização da observa- O surgimento da Geografia articulada aos estudos da natureza ção direta e na descrição detalhada dos fenômenos seu método deu-se pelas condições históricas do momento, que se criaram pela investigativo. concepção de um pensamento filosófico alicerçado no racionalismo Alguns estudiosos da Renascença, muitos deles atualmente re- moderno6. Observa-se a singularidade do discurso naturalista na cons- conhecidos como geógrafos, trazem essa dualidade em seus trabalhos trução de um regime de verdade, cujo entendimento da natureza era ao abordarem uma temática. Segundo Gomes (1996), isso é uma sina- elaborado por uma noção de fenômenos imbricados em uma cadeia de lização da tentativa de integrar essas idéias como De certa ma- ligações necessárias, ou seja, a paisagem geográfica apresentava deter- neira, há registros dessa época que podem ser vistos como pontos de minada configuração devido à presença a priori dos elementos naturais contato com a abordagem iniciada pela Geografia no final do século (relevo, clima, vegetação, hidrografia, homem). A maneira de eles XVIII, quando se reúne todo um conjunto de informações sob uma interagirem era que dava condições para surgimento de determina- mesma ordem sistemática. A identidade dual, baseada nos elementos da paisagem geográfica. da natureza e nas marcas humanas inscritas na paisagem, característi- ca deixada pela Renascença para processo de sistematização da Geo- Assim, o discurso determinista inscreve homem, assim como os outros fenômenos da natureza, como efeito dessa totalidade determinante. O homem é um fato inerte da natureza. Ele está mera- As explicações sobre as coisas do mundo chegam, portanto, ao final do século XVIII com essa característica dual. É esse modo de mente Gomes (1996) diz que, nessa perspectiva, como o homem abordagem que forma a base para a invenção da faz parte da natureza, ele é submetido aos mesmos imperativos natu- Geografia; sua emergência foi possibilitada pela elaboração dos pressu- rais, mesmo que disponha da razão. Portanto a identidade da Geogra- postos históricos4 e filosóficos5, os quais "implicavam a valorização dos fia está fortemente ligada a esse discurso. Inserida, então, nesse temas geográficos para reflexão da época, a ponto de legitimarem a criação de uma disciplina específica" (Moraes, 1988, p. 37). 6 projeto da Modernidade para romper com a antiga ordem em todas as instâncias (economia, política, artes, ciências, etc.), com a finalidade de transformar mundo, por meio da associação de um conjunto de atitudes humanas (o homem como e um complexo de instituições econômicas (industrialização, capitalismo) e 3 Essa dualidade ainda está fortemente marcada na das listagens dos conteúdos políticas (Estado-nação). "Simplificando, modernidade é sinônimo de sociedade mo- programáticos nas escolas e nos livros didáticos, em que figuram, primeiramente, a derna ou civilização industrial (...) que, à diferença de todas as culturas anteriores, vive generalização física depois, as descrições humanas. no futuro e não no passado" (Giddens e Pierson, 2000, p. 73). A Modernidade caracte- 4 Os pressupostos históricos correspondiam ao conhecimento total da superfície terrestre, riza-se pela valorização da vida na cidade (e não no campo); da tecnologia (e não da natureza); da ciência (e não da do capitalismo (e não do sistema bascado em à existência de uma literatura contendo essas informações inventariadas e ao aprimora- trocas), das mudanças rápidas e incessantes não da tradição); da indústria (e não da mento das técnicas cartográficas (Ferreira e Simões, 1986; Moraes, 1988). agricultura). Datar a Modernidade é problemático, pois esse projeto não se originou de 5 As discussões filosóficas do século XVIII proporcionaram uma explicação racional do um acontecimento-cixo e concomitante em todos os lugares. Existe um consenso entre mundo, contribuindo para as explicações geográficas sobre os fenômenos naturais (Moraes, os historiadores de que a Modernidade iniciou no século XVI, mas foi mais disseminada 1988). a partir do século XVIII.26 MARIA 27 INVENTANDO A MATÉRIA ESCOLAR enunciado, ela descreve os aspectos físicos da superfície terrestre com influência dos bruxos na vida da sociedade (Sodré, 1989). Também nesses a tarefa de buscar as leis naturais que regem a relação entre a natureza registros fica evidenciado que a diversidade da natureza européia e homem. contribuía para a produção do pensamento lógico e da consciência científica. A partir dessa perspectiva vão-se construindo as marcas identitárias para os povos, relacionados com uma natureza que estaria desde sem- Esses exemplos mostram que as narrativas sobre os povos eram pre presente em cada paisagem geográfica. Isso possibilitou determi- entendidas como algo inscrito no mundo em conjunto com a natureza, nados enquadramentos dados forçosamente pela natureza. Percebe-se como elementos da mesma estrutura orgânica. Tal perspectiva consis- esse fato nas grandes metanarrativas geográficas que circulavam no tia em estudar a relação meio físico/homem como alguma coisa capaz período que antecede a Modernidade e que continuou adentrando-a. de ser vista e, em termos gerais, objetiva e verificável. Ela apresenta uma visão sobre as diferentes configurações da superfície terrestre, Os primeiros registros sobre as descrições dos grupos humanos procurando, a partir delas, inventar a identidade dos povos. Pode-se confirmam essa filiação ao discurso determinista da natureza. Estes dizer que nesse contexto começam a emergir sinais de um discurso registros foram encontrados pelos pesquisadores das histórias da Geo- que buscava a generalização das relações homem e meio físico (as tão grafia nos relatos das expedições científicas, nas narrativas dos viajan- procuradas leis geográficas). A ocorrência de determinado clima num tes, nos romances dos escritores, nas investidas dos historiadores, que lugar vai remeter sempre para a construção de uma identidade fixa: descreviam os povos pela observação direta da relação natureza e ho- para clima frio, encontramos povos mais corajosos; para clima quente, mem: através do relevo era possível identificar a constituição física dos povos menos corajosos. Assim, configura-se o discurso da natureza: é grupos humanos habitantes das montanhas seriam bravos e de esta- ela que elabora os dispositivos para se entenderem as características, as tura alta, os das planícies seriam suaves; as estações do ano conferiam o qualidades, os costumes, os hábitos dos grupos humanos. seu caráter os amarelos são hesitantes, os brancos são corajosos; pela configuração territorial era possível assinalar seu espírito conquistador A inserção do homem como algo a mais na natureza era vista os litorâneos são mais inclinados às aventuras que os habitantes do como condição a priori, permitindo posicioná-lo em lugares distintos, continente; a fertilidade do solo marcava seu estágio econômico são tudo dependia da variabilidade do referente proporcionado pelo meio selvagens porque o solo produz tudo para si; a diversidade geomorfoló- A presença ou ausência de um aspecto físico permitia a constru- gica e climática produzia a intelectualidade temível e grandiosa a ção de identidades iguais ou diferentes. natureza dos habitantes dos trópicos, com frequentes terremotos e erup- Para esse discurso as fronteira entre os povos eram demarcadas ções vulcânicas, com tormentas e chuvas torrenciais; essa instabilidade pela natureza, eram as características peculiares de determinada paisa- influía sobre a imaginação dos homens e se manifestava na poderosa gem geográfica que criavam os referentes identitários. Assim, as fron-28 MARIA TONINI 29 INVENTANDO A MATÉRIA ESCOLAR teiras entre eles eram delineadas pelos limites e localizações naturais. constituída por modelos experimentais. A razão é vista como fonte de Por entender o homem como elemento da natureza, a identidade que toda generalização, da norma, do direito e da verdade. Os enunciados lhe conferia era fixa, estável, perpétua. inscritos no discurso da Modernidade operacionalizam a invenção de Nesse sentido os marcadores identitários dos povos apresenta- outros campos de conhecimentos. vam uma dependência direta da conjunção das relações naturais que se Isso significou, ao mesmo tempo, abandono de algumas ferra- estabeleciam no espaço territorial por eles ocupados. Assim, conforme mentas de análises fornecidas anteriormente a Kant e a apropriação de as características físicas dos territórios que habitavam, os povos, como outras, capazes de fornecer entendimento do dinamismo da relação já disse, eram enquadrados em diversas categorias: mais guerreiros, entre a natureza e o homem. Segundo Claval (1999), os discursos ante- menos guerreiros; mais altos, mais baixos... riores não sabem ainda tratar da marca do homem sobre a natureza. As O discurso determinista da natureza regularizava, e narrativas de viagens contêm longos desenvolvimentos sobre os mo- governava povos. Os estudiosos dessa época aceitavam e difundiam dos, os costumes, as crenças dos povos, mas o quadro no qual eles evo- primado desse discurso. Tal fato pode ser corroborado numa citação do luem é passado em silêncio. livro XIII de Herder, metade do século XVIII, Ideen zur Philosophie der Geschichte der Menschheit: "toda a história da cultura teria mu- A maioria dos historiadores da Geografia comentam que a obra dado se a Força que criou nossa Terra tivesse alterado a forma das de Kant7 desempenhou um papel relevante para o seu reconhecimen- montanhas e dos mares" (apud Sodré, 1989). to como campo de conhecimento. Ela contém a primeira proposta de É a partir das contribuições dos estudos de Kant que as explica- demarcação do objeto de estudo da Geografia. Nas pesquisas kantianas ções sobre mundo começam a deslocar significado determinista da emerge a tese de que todo conhecimento é empírico. Embora a Geo- relação homem e meio físico. Assim, começava a inscrever-se outro grafia, desde seus primeiros sinais como campo de conhecimento, já discurso quando se passa a buscar "estabelecer relações espaciais entre viesse sendo inscrita num discurso que privilegiava a descrição dos fe- diversos fenômenos apreendidos através de experiências, as quais são nômenos naturais no espaço, foi dado a Kant tributo de criar essa guiadas por conceitos logicamente arranjados no pensamento" (Go- base metodológica. Seus estudos auxiliaram a tramar os primeiros si- mes, 1996, p. 141). 7 Foi professor de Geografia Física na Universidade de Königsberg (Alemanha) de 1756 Dessa forma, as explicações sobre o mundo inseriram-se nas pers- 1796. Durante esse período ministrou esse curso 48 vezes (Sodré, 1989). Embora não pectivas filosóficas propostas pela Modernidade, cujas idéias principais tenha sido primeiro professor a ensinar Geografia na academia, trabalhou num dos lugares mais prestigiados da época e era um renomado filósofo, e, assim, associada a pretendem posicionar a razão como uma instituição, uma ciência, a Geografia adquire signos de prestígios. Para Kant a Geografia deveria estudar a natureza; é por isso que se sobressai em seus estudos à Geografia Física.30 IVAINE MARIA TONINI INVENTANDO A MATÉRIA ESCOLAR 31 nais desse campo disciplinar. Para entender a emergência da Geografia permitiria a construção de uma nova identidade. Com essa perspectiva na escola básica é necessário compreender contexto histórico da Ale- iniciou-se a universalização do ensino primário de maneira obrigatória manha. e gratuita; seu currículo era ancorado em matérias escolares capazes de No século XVIII o capitalismo já havia se instalado na maioria representar os interesses substanciais de uma classe política (Goodson, dos Estados europeus, traduzindo um certo tipo de desenvolvimento 1990). A escola alemã como instituição assumiu características peculia- econômico e social que ainda não surgira na Alemanha, mergulhada no res e funções próprias, em sua relação com projeto de unificação feudalismo. O país encontrava dificuldades para incorporar capitalis- alemã. A generalização da escolarização da população não seria possível sem a existência deste projeto. Assim, a escola constituiu-se como um mo em seu sistema econômico. O maior entrave para a penetração desse novo modo de produção era fato de que a Alemanha não existia espaço pedagógico normatizador e controlador por atender a um dis- curso de produção da identidade nacional como Estado Nacional. Ocorre que, nesse período, ela era um Estado fraco, ou uma justaposição de quase-estados, pseudo-estados, de pe- O processo de invenção da identidade ocorreu pois, essen- quenas unidades muito poucos estatais. Essa situação permitia a pres- cialmente, a partir de uma tecnologia disciplinar: a escolarização. Por são do expansionismo econômico e principalmente territorial dos im- meio dela era possível distribuir espacialmente os indivíduos, mantê-los périos inglês e francês. Tal pressão representava, na economia, forças sob vigilância perpétua e constante, exercer um controle sobre de- modernizadoras que tentavam penetrar em seu território. A questão senvolvimento da produção do saber e registrar continuamente tudo espacial, portanto, passa a centralizar as discussões referentes à forma- que ocorria na instituição. ção do Estado-Nação, realizada com mais pela Prússia (por ser A Geografia, então, foi considerada uma ferramenta de grande a unidade política que apresentava condições para essa tarefa mais para este projeto. Tornou-se importante devido à possibilidade desenvolvida, escolarizada e preparada militarmente). neste contex- de produzir as verdades necessárias para a unificação alemã (1871). A to que surgiu a questão da premência da unificação alemã. Por isso contribuição da Geografia para esse projeto foi de produzir mesmo O Estado tornava-se objeto de conhecimento, de práticas um saber sobre a relação homem e natureza com efeitos de verdade. discursivas que tinham como objeto. Enfim, por essas e outras ra- Assim, O surgimento do Estado-Nação alemão só ocorreu com a deli- zões, é na Alemanha que se viu desenvolver a invenção de uma iden- mitação precisa do território e com a imposição de uma ordem jurídica tidade nacional. homogênea, enquanto a nação ergueu-se sob a consciência Os precursores da unificação alemã perceberam que, para alcan- da unidade cultural, produzida por um discurso natural. Para operaciona- çar o seu projeto a escola seria um forte dispositivo disciplinar, porque permitia controle do saber. A escola tornava-se lugar de laboratório: expressão para me referir à disciplina de Geografia do ensino33 32 INVENTANDO A MATÉRIA ESCOLAR MARIA lizar o projeto alemão foi necessário também recorrer ao discurso do cujos estudos cujos discursos estavam alicerçados numa consciên- nacionalismo, por meio de uma operação em que os discursos produzi- cia européia soberana, de inconteste centralidade e propicia- am representações de um espaço geográfico naturalizado. O apelo ao ram a sistematização de um conhecimento que se tornou uma matéria discurso da natureza para a representação do espaço geográfico impli- escolar e que foi legitimado pelas forças que buscavam a unificação da caria sublimar meio físico como fator determinante na construção da Alemanha (Moraes, 1989; Sodré, 1989; Soja, 1993; Gomes, 1996). identidade nacional. Por privilegiar a descrição dos fenômenos físicos, Seus estudos estabeleceram novos solos para um conhecimento cujos discursos foram atravessados pela causalidade natural, a Geogra- que estava sendo sistematizado, dando condições de possibilidade para fia foi posicionada como dispositivo para fabricação da identidade do sua legitimação como campo de saber, frente a ciência. Seus estudos povo alemão na escola. Nesse contexto, Vlach (1991) diz que permitiram a inscrição da Geografia no quadro das ciências, por apre- ao privilegiar a descrição dos fenômenos naturais, mas principalmen- sentar uma metodologia rigorosa nas análises, buscando as explicações te ao descrever os demais (a população e suas atividades econômicas, das relações entre a natureza e homem. Nessa perspectiva, o discurso por exemplo) a partir de uma escala estabelecida por fenômenos da natureza (como se natureza e sociedade não se relacionassem), o geográfico não está mais preocupado somente com a descrição direta ensino da Geografia, por causa desta inversão do real (predicado ter- dessas relações, mas com a busca de suas explicações. É um discurso ritório elevado à categoria de sujeito) direcionou-se no sentido de veicular um discurso hegemônico, baseado em fatos naturais (p. 58). que diz proporcionar mais cientificidade nas análises geográficas ao Nesse sentido a Geografia foi autorizada a ter um lugar garanti- do na grade curricular ao ser inventada como matéria escolar. A Geo- grafia Escolar e projeto alemão, portanto, entrelaçaram-se. Humboldt e Ritter são considerados os arquitetos da Geografia Moderna. Isto foi possível porque sendo professores universitários e renomados pesquisadores, manti- nham relações muito próximas com membros do governo. Em Moraes (1989) existe A contribuição da invenção da matéria escolar Geografia para a biografia desses precursores da Geografia, mostrando toda sua caminhada como consolidação da Alemanha é evidente. Esse conhecimento construiu Modernidade inventa uma superioridade econômica a partir de certos valores prove- um ideal patriótico, favorecido por um momento em que ocorreu a de uma cultura específica e os transforma em valores universais para conformar Como a Europa foi, inicialmente, palco e bastidor desse acontecimento, sua penetração das relações capitalistas, as quais tinham vinculações dire- cultura foi legitimada como a melhor do mundo, enquanto que as outras culturas foram tas com a filosofia positivista, reforçando a transformação dos fatos so- vistas como sua periferia. Isso constituiu a Europa como centro econômico, político e cultural conhecido como que a definiu como topo de uma escala ciais em naturais. de civilizações, com notáveis efeitos de ordenamento geopolítico no mundo, efeitos perpetuados por uma histórica política colonialista. A Europa, ao ser afirmada como possuidora de uma superioridade cultural, confirma a lógica do pensamento tradicional A Alemanha é considerada o local da emergência da constituição que consiste em dividir a cultura em "alta", como a superior (Europa Moderna), e geográfica como campo de conhecimento. Os nós dessa trama foram "baixa", como inferior (resto do mundo). Nesse sentido, eurocentrismo se consti- em parâmetro para qualquer instância de avaliação, edificando-se como um dados por Alexander Von Humboldt (1769-1859) e Karl Ritter (1779- lugar privilegiado que serve de inspiração para () mundo todo.34 MARIA TONINI 35 INVENTANDO A MATÉRIA ESCOLAR buscar uma totalização, uma generalização, uma universalização dos A presença do caráter físico e de síntese da Geografia, segundo a fatos, enfim um encontro com a Modernidade. É um discurso que visão de Humboldt, reflete-se na própria denominação dos títulos de busca construir uma outra identidade para a Geografia, cujas marca só suas principais obras. Por exemplo: Quadros da Natureza (1808) e Cos- pela ciência seria capaz de ser expressa. mos (1845), que revelam, ao mesmo tempo, espírito enciclopedista e esforço de síntese. Revisitando as matrizes teóricas de Humboldt, percebe-se que sua contribuição à Geografia não corresponde apenas ao grande núme- Ritter divide com Humboldt a posição de pioneirismo na siste- ro de informações presentes em seus estudos, pois era um pesquisador matização da Geografia. Em suas obras são encontrados alguns pontos que circulava por vários campos do conhecimento Botânica, Geolo- de contato: a) tentavam elaborar novas bases de um saber organizado e gia, Química, Física mas também à maneira como abordava suas metodologicamente rigoroso; b) ambos viveram no mesmo período, pesquisas. Humboldt buscava estabelecer relações entre os elementos quando o ambiente cultural e político sinalizava rupturas filosóficas, presentes em seus estudos. Enquadrá-los numa única tradição de pen- observados, acentuando sua interação recíproca, pois "cada observação samento, contudo, é difícil, pois suas fontes filosóficas abarcam um era analisada separadamente e em seguida recolocada em conexão com leque amplo de orientações. Suas divergências estão mais ancoradas na as outras, a fim de resgatar uma verdadeira cadeia explicativa" (Go- história de pesquisa de cada um: Humboldt foi um viajante e suas mes, 1996, p. 151). Para ele, a existência do fenômeno na natureza só afirmações foram formuladas pela "prática direta de investigação", apre- seria significativa no momento em que se tornasse apreensível. Assim, sentando uma temática bastante diversificada e de grande amplitude; caberia à Geografia "reconhecer a unidade na imensa variedade dos Ritter, por sua vez, era um pesquisador de gabinete, destacou-se como fenômenos, descobrir, pelo livre exercício do pensamento, combinan- docente, e sua temática estava direcionada para a elaboração teórico- do as observações, a constância dos fenômenos em meio às suas varia- metodológica da Geografia (Andrade, 1987; Moraes, 1988 e 1989; Sodré, ções aparentes" (Moraes, 1988, p. 48). Nessa visão a Geografia, segun- 1989; Gomes, 1996). do Humboldt, seria um conhecimento de síntese: observa-se e tenta- A perspectiva ritteriana apresenta particularidades captadas em se articular os elementos naturais e, por meio dessas articulações, ex- seu livro Geografia Comparada (1822). Segundo Moraes (1989), este plica-se sua ocorrência. A existência de um ambiente natural é resulta- trabalho pode ser assim delineado: é carregado por uma visão teológica do da presença de determinados elementos naturais; este mesmo am- de mundo ao afirmar que "o objetivo de toda ciência seria aproximar biente, portanto, pode ser encontrado em outros lugares, desde que homem da divindade pela observação e entendimento da forma de ser ocorram os mesmos elementos naturais. Trata-se da causalidade exis- das obras criadas" (p. 162), que sinaliza um estudo racional do mun- tente na natureza. do sem romper com plano religioso; mostra a visão da natureza como36 MARIA TONINI 37 INVENTANDO A MATÉRIA ESCOLAR um organismo; revela a extensão da natureza como organismo para continentalidade e litoral retilíneo, estava destinada à monotonia; a marcar as identidades dos grupos humanos e, por último, aceita o Ásia, devido a suas barreiras naturais, impedia o contato entre povos, determinismo natural na fabricação causal das identidades. por isso devia permanecer estagnada; e a Europa, pela sua configura- Nesse contexto, a contribuição de Ritter para a Geografia dá-se ção e posição geográfica, era destinada à expansão (Sodré, 1989). Estas pela tentativa de estabelecer formulações teóricas sobre a relação ho- formulações tentavam mostrar como desenvolvimento dos povos está Ele interpretava a natureza como elemento circunscrito às próprias condições ambientais que os envolvem. Assim, determinante para o desenvolvimento histórico dos povos. A natureza os povos se defrontam com possibilidades e necessidades objetivas dis- carregava a idéia da predestinação dos lugares, constituindo sua identi- tintas, que pode justificar domínio de uns sobre outros. Pode-se dade, mas isso não impedia que estudioso a interpretasse racional- dizer que tal concepção demonstra os primeiros passos para mente. Moraes (1989), ao comentar essa perspectiva, diz que Ritter direcionamento na busca de uma explicação geográfica para a História. considera A linha fronteiriça entre o Ocidente e o Oriente começa a ser traçada, autorizada pelas "leis da natureza", e esta verdade atua como regula- a Terra e a Natureza como entidades distintas, criações diferenciadas, dora para o destino dos povos. se bem que integradas num plano comum. Daí pode-se deduzir que a Terra é uma base para a Natureza e para homem, também diferen- Esse regime de verdade atua como regulador para destino dos ciado desta. Entretanto, homem, Natureza e Terra ao povos, pois somente aqueles que habitam determinados territórios, nível da divindade, que a todos criou. Sendo criações conscientes, suas manifestações revelam uma racionalidade traduzida em causali- cujos atributos são considerados como condições para serem dade (p. 163). categorizados com estas ou aquelas características, com estes ou aque- Os lugares são portadores, para Ritter, de uma finalidade impos- les destinos poderiam ser considerados superiores. São estratégias agen- ciadas para autorizar um discurso que justifique domínio de uns so- ta pela teleologia que os cria, que os destina para determinados grupos bre humanos. O nível de desenvolvimento de um povo está diretamente relacionado com a predestinação do determinismo Nesse sen- Aos poucos o discurso geográfico vai deslocando os significados tido, é a natureza que fornece referente identitário. Tal fundamen- de povos e culturas articulados por suas localizações geográficas mon- tação é elaborada por argumentos de "leis naturais" que explicam a tanhas, planícies, ilhas, rios inserindo nele outros dispositi- identidade e o destino dos povos: a configuração geográfica dos territó- vos, elaborados nos discursos formulados por Humboldt e Ritter. To- rios determina destino dos povos a África, com sua grande discurso aproxima-se das geopolíticas praticadas pela Europa. O século XIX é considerado por Said (1995) como século do apogeu da "ascenção do Ocidente", por 11 Seu nome será inscrito como pioneiro no determinismo geográfico (Moraes, 1989). apresentar um poderio sem precedentes.38 MARIA TONINI INVENTANDO A MATÉRIA ESCOLAR 39 das essas manifestações para construir uma nova identidade para os o inexperiente intruso assegura um lugar no horário escolar, justifi- cando sua presença com base em fatores, tais como pertinência e povos, articulada a um território configurado politicamente: asiáticos, utilidade. Durante esse estágio, os aprendizes são atraídos para a africanos, americanos... Esse outro dispositivo político autoriza a matéria por causa de sua relação com questões de seu interesse. Os professores raramente são especialistas treinados, mas trazem en- explicar porque determinados povos apresentam características dife- tusiasmo missionário dos pioneiros à sua tarefa. O critério dominante rentes para justificar a expansão territorial e dominação de uns sobre os é a relevância para as necessidades e os interesses dos aprendi- zes (p. 235). outros. Essa perspectiva auxiliou a busca da unidade alemã, que encon- Ao tornar-se matéria escolar no ensino primário alemão, a Geo- trou, na explicação geográfica, suporte para a construção de sua identi- grafia não passou a ser logo oferecida como formação especializada em dade. Torna-se fácil, pois, entender a inserção da Geografia como ma- curso superior nas universidades. Embora a matéria Geografia já viesse téria escolar, no momento em que foram relacionados os conhecimen- sendo ministrada nas universidades, ela demorou a ter legitimidade tos da natureza elaborados por Humboldt e as formulações teóricas de suficiente para motivar sua implantação como um curso superior. Foi Ritter; é desta correlação que se elabora a tessitura das primeiras tra- por meio do ensino primário que começou a ser tramada a necessidade de sua entrada no ensino superior. mas do pensamento geográfico. A Geografia Escolar, ao estabelecer que, para melhor governar Ratifica-se, mais uma vez, que as obras desses pesquisadores era imprescindível conhecer melhor quadro natural, direcionou seu continuam inscritas na dualidade geográfica: a cosmografia, em discurso para descrever os povos via natureza, pois esta era elemento Humboldt, e a corografia, em Ritter. Ambas, entretanto, apontam para de normatização, já que todas as relações de poder eram explicadas uma direção explicativa dos fenômenos que estudavam, que possibi- pela natureza. Assim, com inspiração na perspectiva foucaultiana, pode- litou deslocamento dessas idéias para um campo de conhecimento se afirmar que a identidade do Estado alemão "é produto de uma específico: geográfico. Isso garantiu espaço no currículo para uma relação de poder que se exerce sobre corpos, multiplicidades, movi- matéria escolar denominada Geografia, com a finalidade de descrever mentos, desejos, forças" (Foucault, 1996a, p. 162). a superfície terrestre. Segundo essa visão, a Geografia concentra em sua gênese "cien- É nesse contexto que a Geografia é promovida como matéria a invenção das grandes metanarrativas geográficas que circula- escolar na escola básica. Sirvo-me do modelo de Layton (apud Goodson, vam na Geografia Escolar da época. Por exemplo: 0 clima como ele- 1990) para explicar como tal fato ocorre. A inserção da Geografia pas- mento que regula, governa e normatiza sujeitos: os homens dos sou a ser caracterizada como matéria escolar por apresentar as credenciais trópicos são exóticos, os de clima temperados são racionais e trabalha- necessárias para entrar no currículo. Isso é visto no primeiro estágio do dores; os países são ricos por localizarem-se em zonas de clima tem- modelo do autor, ao comentar que perado.40 IVAINE MARIA TONINI A Geografia Escolar institui um regime de verdade por meio de um discurso por ela acolhido que faz suas assertivas funcionarem como verdades com o auxílio de mecanismos que permitiriam pro- duzir efeitos de um saber universal. Esse foi o primeiro discurso inscri- trilhando to na Geografia Escolar, o qual está registrado nas pesquisas de Humboldt e Ritter, considerados responsáveis pelo status alcançado o status acadêmico pela Geografia no currículo escolar. Os primeiros passos para a sistema- tização do pensamento geográfico foram dados com os estudos desses autores. Suas teorias e propostas metodológicas proporcionaram, en- fim, a sistematização de um conhecimento geográfico. Nas últimas décadas do século XIX o processo da unificação ale- mã possibilitou uma das condições para o reconhecimento da Geogra- fia como campo de conhecimento no sistema escolar, ou seja, a Geo- grafia ganhou sua credencial pedagógica. Anteriormente a esse contex- to histórico ela já era ministrada em alguns cursos nas universidades como matéria. Embora já presente na academia, por apresentar um conhecimento sistematizado, deixando para trás o período chamado de "cabos e baías" para ser caracterizada pelo estudo de "casa em muitas áreas" como chamou Goodson (1990), a Geografia ainda não havia en- contrado condições suficientes para alcançar o status acadêmico como as outras profissões, ou seja, não apresentava as credenciais necessárias para isso. Foi por meio, novamente, da particularidade do contexto histórico alemão que foram geradas as condições de possibili- dades para que a Geografia estabelecesse suas credenciais tanto peda- gógicas como intelectuais. A denominação de intelectual está carregada de sentido de cientificidade. É um signi- ficado construído pela Modernidade, que evidencia um saber que oferece certezas.42 TONINI 43 TRILHANDO 0 STATUS ACADÊMICO Nessa perspectiva a Alemanha assume um papel importante para mem sobre meio, deixa claro que tal ação possui papel secundário na a Geografia pelas várias acontecências que ocorrem nesse período. Pri- organização do meio. O homem continua sendo apenas uma variável a meiramente por ser o local em que foram criadas as primeiras cátedras mais na descrição da paisagem, isto é, da mesma forma como eram nas universidades, os primeiros cursos de graduação, durante o proces- consideradas as variáveis clima, relevo, vegetação e hidrografia, SO da criação do Estado nacional. A criação dos cursos universitários dever-se-ia conceder também lugar ao homem na descrição da pai- tinha por finalidade inicial especializar o corpo docente de Geografia sagem geográfica. das escolas elementares. Em segundo lugar, os estudos de Friedrich Com essa perspectiva discurso de Ratzel constrói um saber Ratzel (1844-1904) deslocam o discurso da Geografia para outra pers- cujo regime de verdade autoriza a legitimar as diferenças econômicas e pectiva. Este pesquisador inscreve em seu discurso as preocupações de sociais pela relação que homem estabelece com a natureza. Ou seja, um Estado recém-constituído, caracterizado por uma economia capita- desenvolvimento dependeria da capacidade humana de lista tardia, com resquícios feudais na sociedade e com grande atraso se relacionar com a natureza. A citação a seguir mostra essa forma de nas políticas de expansionismo (nesse período ocorria a repartição das colônias no mundo). Nesse sentido as questões relativas ao território pensamento nos livros escolares da época: passam a ser preocupações centrais. Qual é o estado da civilização na Africa? A maior parte da Africa é bárbara. Não só as sciencias e as lettras, mas a agricultura e todas as Assim, as políticas expansionistas do novo Estado constituído artes úteis á vida alli estam em desprezo, na infância, ou inteiramente são legitimadas no discurso ratzeliano, que vê as relações entre ho- desconhecidas. Só se encontra principio de civilzação nas costas do Mediterrâneo, do mar Vermelho, e em alguns sítios ultimamente mem e o meio físico como um organismo que se molda, se adapta, se explorados da Nigricia (Gaultier, 1867, p. 403). transforma em função do seu estágio de desenvolvimento. Para Ratzel, homem era visto como produto de uma evolução, cuja principal di- Esse discurso produz um efeito de verdade que constrói e divi- nâmica era a seleção natural dos "tipos", regulada pela capacidade de de mundo em "desenvolvidos" e "atrasados". O dispositivo utilizado se ajustarem ao meio natural. Ele tendia a considerar homem como para agenciar esta verdade estava articulado "na relação entre as socie- produto de seu meio, entendendo que o próprio homem moldava e dades e as distintas condições ambientais dos variados quadros terres- vencia esse meio na medida em que a ele se adaptava. tres" (Moraes, 1990, p. 20). O resultado dessa relação criou condições Ratzel interpretava o meio físico como um elemento que influen- para autorizar a expansividade territorial e domínio de uns sobre ciava modo de vida dos grupos humanos e, ao mesmo tempo, influía outros. E isso era visto como uma ocorrência natural entre os povos, na expansão territorial, obstaculizando-a ou acelerando-a (Sodré, 1989). Ratzel também prioriza O meio físico. Embora valorize a ação do ho- Quando comento sobre estágio de desenvolvimento econômico estou me referindo aos valores instituídos pelo mundo ocidental.44 45 TRILHANDO 0 STATUS ACADÊMICO tornando-se naturalmente aceitável e inevitável. Assim, com o discur- O domínio de uns sobre os outros poderia ser justificado pelo ratzeliano legitimou-se um caminho que foi seguido para a larga esgotamento dos recursos naturais, pela pressão demográfica ou pelas prática da política colonialista. Esta, exercida principalmente por al- relações comerciais que levavam os dominadores à necessidade de ex- guns Estados europeus, impunha como verdade que a hierarquia en- pansão. Este expansionismo político e econômico é considerado, no tre os povos era determinada pela sua relação de apropriação com a discurso ratzeliano, benéfico para povos "selvagens", pois só assim po- natureza. deriam sair da sua condição de atraso. Isso é trazido por Moraes (1990) ao comentar a justificativa desse discurso sobre essa maneira de levar Nesse período as ciências naturais passam a ter papel relevante desenvolvimento: "seu crescimento nunca se desenvolveu sem influên- na ordenação do conhecimento. E o discurso sobre a hierarquização cia estrangeira. A fonte de tal crescimento é a colonização" (p. 188). entre os Estados, construído por Ratzel, ancorou-se na Teoria da Sele- ção Natural das Espécies, proposta por Darwin (1809-1882). Segundo As idéias de Ratzel criaram condições de possibilidades não so- mente para o projeto imperial expressar e autorizar sua essa teoria, a busca pela sobrevivência faz as espécies travarem lutas expansividade, mas também para todos os projetos imperialistas e intensas, que sempre acabam na sobrevivência do mais forte. A teoria europeus ocorridos, principalmente, na África e na Ásia. darwiniana fornece uma das bases para a formulação de um dos Marcas da inscrição desse discurso podem ser encontradas no livro paradigmas que auxiliariam na construção do pensamento geográfico Geografia, de 1935, de Aroldo de Azevedo, ao comentar sobre as zonas moderno: determinismo de antagonismo O determinismo auxiliou o discurso da Geografia a legitimar a idéia de que as diferenças econômicas entre os Estados são originadas que se multiplicam dentro do seu organismo, dada a sua enorme São as regiões em que as ambições estrangeiras surgem a pela relação que o homem estabelece com meio físico. Nesse senti- tolher os passos do imperialismo inglês. do, a suposta superioridade de uns sobre os outros, que determinou a Sem falar na Alemanha (que se considera despojada de tão esplêndidas colônias e não pode conformar-se com esse fato), é a França que apare- divisão mundial de mundo civilizado e mundo selvagem, estaria base- ce colidindo com os interesses britânicos na rota do Oriente (p. 24). ada "na relação entre as sociedades e as distintas condições ambientais dos variados quadros terrestres" (Moraes, 1990, p. 20). Justificada, por- Era um Estado que estava tentando configurar-se como potência industrial, no século tanto, a expansividade dos Estados, ela seria tanto maior quanto maior XIX, cujos recursos naturais eram insuficientes para abastecer suas indústrias, necessita- alastrar suas fronteiras para que continuasse a se desenvolver. Caso isso não aconte- fosse estágio de civilização dos grupos humanos que a praticassem. poderia estagnar ou ser caracterizado como atrasado. E, mais grave ainda, poderia anexado por outros Estados que praticavam uma política de expansionismo, como a França a Inglaterra, consideradas desenvolvidas pelo modelo europeu. 3 A Geografia sempre utilizou um determinismo mecânico para descrever as relações Uso estes termos no mesmo sentido que Said (1995) "nem o imperialismo nem entre a natureza e homem. Ratzel utiliza, para essas análises, o determinismo colonialismo é um simples ato de acumulação e aquisição. Ambos são sustentados evolucionista, qual marca a entrada da Geografia na modernidade científica (Gomes, talvez impelidos por potentes formações ideológicas que incluem a noção de que certos 1996). territórios e povos precisam e imploram pela dominação" (p. 40).46 MARIA TONINI TRILHANDO 0 STATUS ACADÊMICO 47 Isso mostra uma mudança na estratégia de dividir o mundo. Os bárbaros ou meio civilizados saíram do estado selvatico por meio d' um culto, de leis e pela arte de escrever; mas seus conhecimentos, Anteriormente as separações se faziam pelas localizações geográficas ainda muito limitados, não têm combinação entre si. povos das montanhas; das planícies; dos das ilhas; dos rios -, Os povos civilizados têm classificado os seus conhecimentos, em agora, para justificar as divisões, insere-se outro elemento, elaborado fórma de sciencias; têm aperfeiçoado as artes mecânicas; cultivam as lettras e as bellas artes, e sujeitam-se ao direito das gentes; isto é, no discurso de Ratzel: o nível de desenvolvimento. consideram em tempo de paz, todas as nações como amigas, e em tempo de guerra, respeitam a vida e propriedades dos cidadões não A Geografia, ao inscrever esse discurso nas suas análises, coadu- armados (p. 96). nava-se com o próprio momento político e econômico mundial, deno- minado por Hobsbawm (1998) A Era dos (1875-1914). Esse Este exemplo mostra como as asserções de verdades sobre povos período caracterizava-se por um mundo genuinamente global, no sen- foram agenciadas pelo dispositivo da técnica para produzir um saber tido de que quase tudo era conhecido e mapeado. A expansão territorial sobre eles. Ou seja, o domínio ou não de determinada técnica permite já não consistia em descobertas de novas terras, mas na dominação dos enquadrá-los nas categorias "selvagem", "meio civilizado" e "civiliza- povos em todos os sentidos. do". Esta lógica de pensamento produz a diferença entre os povos, a Segundo Hobsbawm (1998), esse período mostra um mundo qual tem efeito regulador sobre o governo das populações. É, tam- divido em dois que, combinados, formam um sistema global: por meio desse dispositivo que se inventaram as diferenças, nele o desenvolvido e o defasado; o dominante e dependente; o civilizado é inserida uma norma que impõe os limites entre as categorias. Nesse e o bárbaro; rico e o pobre. sentido, isso permite a legitimação da constituição do sujeito. Assim, por esse meio, a Geografia operava suas práticas discursivas para fabri- A citação que encontro no livro escolar Lições de Geographia, cação das identidades. de Abbade Gaultier (1867), ilustra como a técnica é acionada como marcador para inventar as diferenças entre os povos: A gênese das relações de poder, portanto, na visão ratzeliana, estava no Estado: "tudo se desenvolve como se o Estado fosse único Como se dividem os povos, segundo o seu modo de viver e os pro- núcleo do poder, como se todo poder estivesse centrado nele" gressos que têm feito nas artes? Em três classes, a saber: selvagens, bárbaros ou meio civilizados, e civilizados. (Raffestin, 1993, p. 15). Dessa forma, o Estado desempenha um poder Os selvagens não têm conhecimento da arte de escrever, e toda a sua que legitima os dispositivos utilizados para a expansão e a industria se limita á caça e á pesca; ordinariamente sam nomadas. consolidação do imperialismo político, econômico e cultural. 6 Definir a diferença entre esses setores é um exercício complexo, pois tais classificações são construídas por indicadores conforme os regimes de verdade que circulam em idéia sobre a origem do poder era dessa época, pois Foucault (apud Veiga-Neto, determinados lugares e tempos. Nesse período ser desenvolvido significava apresentar 1996) alerta que essa visão não pode ser mais aceita na atualidade, pois "não se deve indicadores do modelo europeu: valores pautados nos processos de urbanização, alfabe- pensar Estado como fonte central do poder, senão como uma matriz de individualização tização e altas técnicas na industrialização. sobre a qual cada um tem construída sua subjetividade" (p. 174).48 49 MARIA TONINI TRILHANDO STATUS ACADÊMICO As análises das relações entre Estado e espaço estão assinala- Os promotores da Geografia perceberam que, para melhor esti- das nas obras de Ratzel: Antropogeografia (1882) e Geografia Política (1890), mular o ensino dessa disciplina em todos os níveis das instituições es- as quais comentam suas formulações teóricas sobre a relação entre o colares, era necessário criar um lobby. Assim, foi fundada uma associa- solo e grupos humanos. Essa relação dependeria do grau de desenvol- ção geográfica, a qual, "extremamente bem cronometrada, rapidamente vimento em que cada sociedade se encontrasse: maior desenvolvimen- começou a operar como um lobby ativo para a matéria" (Goodson, to significaria maior necessidade de expansão para buscar mais recursos 1990, p. 237). Nesse sentido, tornou-se possível inserir definitivamen- naturais, como também a procura de novos mercados consumidores. te a Geografia nas legislações educacionais por meio de argumentos Para alcançar isso é necessário manter a posse do território. A criação do mais intelectuais (fornecidos pelo discurso de Ratzel). Estado Nacional, entre outros, foi elaborada por esses motivos. O Es- tado Nacional emerge com a intenção de demarcar suas fronteiras e Outro paradigma que se inscreve no discurso da Geografia Mo- assegurar sua soberania. derna foi desenvolvido na França por Paul Vidal de La Blache (1845- 1918), considerado "pai fundador" da Escola Francesa de Geografia Para legitimar a expansividade espacial de povos, Ratzel elabora (Andrade, 1987; Gomes, 1996; Lacoste, 1985; Moraes, 1988), O qual conceito de espaço Assim, a estratégia utilizada para a também vai auxiliar na construção da credencial intelectual da Geo- expansividade do Estado, seja por anexação de territórios através de guerras, seja de maneira mais sutil, por colonialismo, não é relevante, grafia. já que é uma necessidade natural do Estado, segundo esse discurso. Esse outro paradigma que surgia possibilismo geográfico Também Andrade (1987) me auxilia nessa idéia de justificar a posse além de transferir o eixo espacial da discussão da Alemanha para a territorial do Estado, ao comentar que França, passa a estabelecer outros direcionamentos na relação entre homem e meio físico. A guerra franco-prussiana, em 1870, em que a a dominação do território caracteriza Estado, dependendo a sua importância da extensão e da situação do território ocupado (...) O França perdeu parte de seu território Alsácia e foi pontual progresso ou a decadência de um Estado dependeria de sua capaci- dade de expansão ampliação do território sob seu domínio ou de para a universalização do ensino da Geografia nas escolas, a criação de redução diminuição do território dominado (p. 55). disciplinas acadêmicas e dos Institutos de Geografia nas universidades. Tudo isso ocorre em decorrência do apoio do Estado, cujo interesse O discurso ratzeliano pode ser visto como o fator de maior con- das da referida guerra. Como afirma Thiers, pri- tribuição para processo da construção de uma lógica interna na Geo- meiro ministro francês da época, "a guerra foi ganha pelos instrutores grafia, capaz de ocupar uma posição mais acreditada na academia. 8 espaço vital para Moraes (1988) é "uma proporção de equilíbrio entre a população de Grandes áreas consideradas vitais para desenvolvimento industrial da uma dada sociedade e os recursos disponíveis para suprir suas necessidades, definindo França, cujas inovações teenológicas trazidas pela Revolução Industrial estavam atrela- assim suas potencialidades de progredir e suas preeminências territoriais" (p. 56). das recursos naturais.50 MARIA TONINI 51 TRILHANDO STATUS ACADÊMICO alemães" (apud Moraes, 1988, p. 64). Também Lacoste (1985) comen- Esse discurso prioriza, em sua análise, entendimento de que ta sobre a importância adquirida pela Geografia escolar na França após os grupos humanos são capazes de transformar a natureza, criando modos esse episódio: de vida que resultam em paisagens distintas sobre a superfície terres- tre. Essa relação difere do discurso evolucionista e de causalidade, ins- É professor primário prussiano que, pela primeira vez no mundo, crito no determinismo geográfico, porque, embora admita a influência se a ensinar a Geografia, não mais aos membros das classes diri- gentes, mas ao conjunto de crianças; e a função política deste ensino da natureza no modo de vida dos grupos humanos, considera-os capa- é de tal forma clara, que será explicitamente evocada pela França zes, "dependendo das condições técnicas e do capital de que dispo- depois da Guerra de 1870, quando foi introduzida a Geografia nos programas da escola primária: fomos vencidos porque o professor nham, de exercer influência sobre meio" (Andrade, 1987, p. 70). prussiano lhes ensinou a Geografia (p. 58). Comentando essa idéia, Bernardes (1982) afirma que, na análise dessa relação, "não se trata de negar a influência do meio, que é, muitas Tal afirmação demonstra a preocupação com as idéias espaciais vezes, influência poderosa, mas sim de enfatizar como os grupos e trazidas pelo determinismo geográfico, as quais a Alemanha já tinha meio interagem mutuamente, produzindo uma resultante geográfica traduzido para sua política imperialista. A França, conseqüentemente, entre o meio natural e a cultura" (p. 397). deveria começar a pensar sobre o espaço, elaborar um discurso geográ- Em tal discurso a herança cultural foi dispositivo acionado para fico que legitimasse o expansionismo francês e que, concomitante- justificar a construção das diferentes identidades dos povos, a partir mente, desconstruísse o discurso geográfico da escola das formas como eles intervinham na Quanto mais diversi- O discurso da Geografia francesa foi construído, nessa perspecti- ficados os obstáculos naturais apresentados para a adaptação do homem va, enunciando relações de poder que afirma diz apresentar um tom à natureza, maior o desafio de buscar, por meio de sua cultura, a possi- bilidade de transformar meio em função de suas necessidades de mais liberal, uma vez que condenava a visão de espaço vital inscrita no vida. Isso pode ser evidenciado nas atividades econômicas desenvolvi- determinismo geográfico. Essa é a contradição mais assinalada entre os das em determinados espaços geográficos, configurados como herança dois paradigmas geográficos, ou seja, paradigma alemão e o francês cultural. distanciavam-se pelo entendimento das questões políticas nas relações O modo de o homem relacionar-se com a natureza proporciona- entre o homem e a natureza. O discurso francês vai se mostrar mais rá, obviamente, paisagens que retratarão os diferentes gêneros de vida. sutil, ou seja, procurará disfarçar a presença do Estado como força Gênero de vida, aqui é entendido como a relação entre os grupos huma- determinante nas relações espaciais. Essa "nova roupagem" nada mais faz do que mascarar seu conteúdo político, visto que a França também teve uma política de expansionismo, embora só a tenha praticado fora significado de cultura, nessa perspectiva, refere-se ao conjunto de técnicas que são compartilhadas entre os homens de um mesmo agrupamento, os quais as desenvolve- do território europeu. aprimoraram em função da configuração do espaço físico que habitavam. A cultura estava articulada a materiais visíveis.52 MARIA TONINI 53 TRILHANDO STATUS ACADÊMICO nos e os recursos disponíveis no meio, e é dessa relação que surgirá a 162) - tramadas pelos elementos físicos da paisagem em interação com configuração da paisagem. Assim, encontramos diversas paisagens no ação humana. Assim, as diferenças regionais eram resultados da trans- mundo, e cada uma exige relações distintas entre homem e a nature- formação física dos ambientes pela ação de grupos humanos que agin- za, que cria as diferenças culturais. Por exemplo: as relações do sobre um determinado ambiente natural, moldavam segundo sua estabelecidas pelos povos que habitam regiões de clima frio resultam cultura. em de vida bastante diversos daqueles que habitam regiões de clima quente. Para esse discurso possibilista a um entendimento de que não Diferenças de gênero de vida que sejam observadas em paisa- havia diferenças internas nas regiões geográficas. Essa percepção se gens naturais semelhantes podem ser explicadas pelo exaurimento de deve na constatação das inexpressivas mudanças, nas descrições entre certos recursos naturais. Isso determina a migração humana ou apri- povos que formam a região geográfica, cujos marcadores identidários moramento das técnicas. O processo de urbanização pode ser citado são buscados em atributos que remetem a uma homogeneidade no seu como exemplo de mobilidade humana quando os recursos se tornam interior. Como exemplo, para fazer parte da região da Europa Ociden- escassos no espaço rural, enquanto o manejo na agricultura de Israel é tal povos são descritos por valores semelhantes na estrutura instituída exemplo do aprimoramento de técnicas sobre uma paisagem não mui- como modelo de região geográfica. to propícia. A cultura anunciada nesse discurso está inscrita com mesmo Nessa perspectiva homem é dinâmico, capaz de atuar sobre o sentido que Veiga-Neto (2000) chama de domínio material e que "se meio, modificando-o. O homem, por meio de sua cultura, passa a ser, restringe às práticas materiais (...) à produção e ao uso de ferramentas então, "agente ativo" na transformação da natureza. Assim, no olhar dessa visão la blachiana, a natureza passou a ser vista com possibilidade para realizar uma determinada tarefa" (p. 57), com objetivo de o de ser transformada pela ação humana, advindo daí o termo possibilismo homem apropriar-se da natureza, de vencer as barreiras físicas, de ex- geográfico. Eis, portanto, o deslocamento na análise sobre a relação pandir limites territoriais. O entendimento de cultura, nesse discurso, homem e natureza: o que vinha sendo fundamentado somente na for- está articulado, portanto, somente com os aspectos materiais dos obje- ça determinista da natureza passa a ser entendido também como uma tos culturais. Assim, estudo geográfico da cultura confundia-se com construção cultural. dos artefatos utilizados pelos homens para dominar o espaço" (Claval, As diferenças culturais entre os povos eram entendidas como 1999, p. 24). A ênfase cultural está colocada, pois, sobre as técnicas, os algo superorgânico - "como uma entidade todo-poderosa, sujeita a sua utensílios e as transformações da paisagem, e não sobre processo de própria lógica, que as pessoas herdam e difundem" (Dowell, 1996, p. produção.54 MARIA TONINI TRILHANDO 0 STATUS ACADÊMICO 55 O homem, para o possibilismo geográfico, inscreve-se apenas Nos livros didáticos percebe-se possibilismo geográfico nos como uma variável que modela e humaniza as paisagens geográficas. capítulos que trabalham com a regionalização. Anteriormente os países Essa visão negligencia, portanto, processo pelo qual os homens dão eram estudados somente pela proximidade física, ou seja, a Europa era significados para suas práticas e o modo como abstraem e transferem estudada como um rol de países articulados somente por ocuparem um mesmo território, cuja demarcação era construída por atributos físicos tais significados para outros contextos. do lugar. O discurso possibilista permitiu regionalizar espaço mundial Gomes (1998) faz uma crítica a essa abordagem ao dizer que a com outros indicadores construídos pela intervenção do homem na cultura era "vista como ação direta de transformação física do ambien- natureza. Assim, foi possível criar várias classificações de região com te, através de um conjunto de técnicas, onde grupos humanos criam base em diferentes critérios. Por exemplo: físicos: zonas climáticas, um conjunto de instrumentos e ações destinados e orientados pelas geológicas; políticos: Brasil, Suíça; humanos: densidade demográfica, determinações da produção da vida material" (p. 39). Nesse sentido, a crescimento populacional. Além desses, outras dimensões podem ser utilizadas para regionalizar, permitindo também certas subdivisões: análise da paisagem geográfica estava muito presa às explicações do América do Sul, por exemplo, em Andina, Platina... visível, ou seja, a uma matriz estética que colocava olhar apenas sobre As regiões geográficas, então, passam a ser estudadas por uma resultado da ação dos grupos humanos na paisagem natural. Suas estrutura de análise que permitia elaborar suposto rigor metodológi- análises ficavam presas, assim, ao mundo das aparências. aspecto físico (limites, relevo, clima, hidrografia, vegetação e reino A contribuição do discurso do possibilismo para a Geografia foi animal), aspectos humanos (religião, raça, língua, composição e distri- ter elaborado uma nova maneira de demarcar a divisão do mundo, por buição populacional) e aspectos econômicos (agricultura, indústria e co- meio de comparações entre os lugares, sinalizando pontos comuns en- mércio). O somatório dessas interações resultaria em arranjos com ca- racterísticas homogêneas que, conjuntamente, forneceriam a unidade tre os fenômenos e, sobretudo, analisando a modificação da natureza regional. realizada pelo homem. Isso permitia ressaltar a individualidade de cada paisagem no momento de generalizar as regiões. Assim, esse discurso Este foi o itinerário da denominada Geografia Moderna, que trouxe, como marca significativa, a constituição de um discurso geo- mostra a tentativa de anunciar regularidades na paisagem, vislumbran- gráfico com um corpo de conhecimento sistematizado, que contém do, também, a possibilidade de encontrar as tão procuradas "leis geo- um saber elaborado num determinado contexto. Seu mérito foi ter gráficas". Essa estrutura de análise pode ser vista como um "receituá- conseguido alcançar legitimação acadêmica. rio" para estudos regionais, por ter sido largamente utilizado. Esse "re- ceituário" permitia esquadrinhamento da região, que significa maior 11 Tal rigor metodológico constitui-se numa das condições para ser legitimada como ciência, pois nesse momento a Geografia começa a apresentar maior reconhecimento governamentalidade sobre as populações. na academia.56 A Geografia, para alcançar esse status, teve de passar pelos outros dois estágios estabelecidos por Layton (apud Goodson, Ao se- gundo estágio corresponde a idéia de que "a lógica interna e a discipli- na da matéria estão se tornando crescentemente influentes sobre a seleção e a organização do seu conteúdo" (p. 235). Esse estágio pode rompendo ser sinalizado pelo discurso determinista. O último estágio comentado significados naturais por Layton demonstra que "a seleção de conteúdo da matéria é deter- minada em grande medida pelos julgamentos e práticas dos acadêmi- cos especialistas que levam a pesquisa na área" (idem, p. 236). O dis- curso possibilista se inscreve nesse estágio ao instituir um modelo de pesquisa. Neste capítulo examinarei o discurso geográfico fazendo uso de Assim, os discursos elaborados por Ratzel e La Blache, junta- alguns eixos que têm maiores aproximações com o discurso pedagógi- mente com lobby das associações geográficas, auxiliaram a Geografia co. Os eixos centrais a serem examinados serão a Nova Geografia, a a obter a respeitabilidade intelectual na academia, ou seja a paridade Geografia Crítica e a Geografia de status com outras disciplinas acadêmicas. O discurso da Nova Geografia para a Geografia Escolar apresen- ta uma particularidade em relação aos anteriores: ele não foi instituído para atender ao discurso escolar. A Nova Geografia diferencia-se, sob ponto de vista pedagógico, dos discursos anteriores porque ela não emerge com a finalidade de atender ao ensino, não está articulada a nenhum projeto educacional. Segundo Lacoste (1985), ela não "está ligada ao funcionamento de uma máquina para fabricar professores" (p. 153); sua emergência ocorre para atender à organização Sua aproximação com os órgãos de planejamento espacial está vincula- da a sua perspectiva teórica. Para Lacoste (1985) esta perspectiva "pa- rece cada vez mais útil àqueles que estão à testa das grandes firmas e 12 Para Layton, um campo de conhecimento, para alcançar seu status de "ciência" deve cumprir três estágios. A idéia do primeiro estágio já foi comentada no início neste contexto histórico pós-guerra exigia um novo arranjo espacial na economia.58 MARIA TONINI 59 ROMPENDO SIGNIFICADOS NATURAIS do aparelho de Estado" (p. 154) do que ao discurso pedagógico. Assim, vam-se no pressuposto filosófico elaborado no Neopositivismo4. Esta- esse discurso ancorou-se nas pesquisas de uma Geografia aplicada, di- vam centradas na busca do desenvolvimento de técnicas; na sofistica- ferentemente do que ocorreu na França e na Alemanha. Nestes países ção representada por um maior rigor científico em suas discurso geográfico foi construído para fabricar a identidade nacio- análises; no desenvolvimento de teorias que levassem para a generali- nal, ou seja, como um saber patriótico. Já nos Estados Unidos ele foi zação e na utilização de métodos estatísticos e matemáticos para expli- construído objetivando fornecer ferramentas para intervenção espacial, car a realidade existente. as quais possibilitariam atender aos interesses econômicos e políticos Nesse discurso a Matemática era vista como reveladora do valor estadunidenses pelo mundo. de verdade, apresentando autoridade para entender as relações entre O discurso da Nova Geografia, por ter a finalidade de construir homem e natureza pela medição, quantificação, correlação de suas ferramentas de análise para a organização do espaço, vai usar como manifestações. Desse modo as explicações geográficas teriam aborda- estratégia para construir suas verdades a linguagem Esse gem quantitativa por conceberem as relações que se estabeleciam no discurso emerge a partir da metade do século XX, tendo como centro espaço geográfico como variáveis: a alteração no valor da variável ou a de dispersão os Estados Unidos. A migração para outro continente deve- inclusão/exclusão de uma variável autorizava a produzir um saber. A se ao fato de que os Estados Unidos começavam a assinalar sua supre- partir dessa lógica a Matemática poderia desenvolver métodos de veri- macia na economia mundial e, também na difu- ficação para o discurso da Nova Geografia e de previsão, por meio de são de novas Os primeiros elaboradores desse discurso foram uma estrutura lógica e única, capaz de produzir a "transparência" e a Willian Bunge, Peter Hagget e David Harvey. objetividade necessária a todo planejamento. A busca de novas metodologias, que dessem conta das novas Para a análise do espaço geográfico prontamente eram trazidos tarefas impostas pelo planejamento, passou a ser O grande diferenciador os números e colocados em tabelas, gráficos, fluxogramas. Isso possibi- dos discursos anteriores da Geografia. Essas novas metodologias basea- litava melhor visualização e fixação do valor de verdade, para se ela- borarem os argumentos analíticos. No entanto, o número representa 2 Essa busca da linguagem matemática era, segundo Santos (1980), resultado de uma um conjunto fundamental de princípios organizadores. O número não procura de cientificismo que a Geografia já havia tentado, sob outras roupagens e em outros momentos. Os métodos matemáticos são considerados como os mais precisos, os é apenas um valor em si. Ele produz uma maneira de dar visibilidade mais gerais e os mais dotados de um valor de previsão" (p. 45). 3 Santos (1980) comenta que isso "era, em grande parte, a produção de idéias de enco- menda, destinadas a facilitar desígnios comerciais e políticos" (p.85). Essa citação mos- 4 Embora a filosofia neopositivista tenha sido iniciada na Alemanha, a implantação do tra, mais uma vez, como a Geografia caminhou lado a lado com as políticas do governo, regime nazista fez com que os pensadores do Círculo de Viena migrassem para a as quais estabelecem posições privilegiadas para alguns segmentos da sociedade. Bretanha e os Estados Unidos.60 MARIA TONINI 61 ROMPENDO SIGNIFICADOS NATURAIS e dizibilidade na política de identidade. Essa forma de construir uma desenvolvimento" e "subdesenvolvido" possui indicadores fundamen- verdade incorpora muitos conjuntos de cálculos. O rótulo do número tados em valores que determinam a existência de uma categoria consi- está conectado a relações de poder. Por isso, os valores que aparecem derada como modelo idealizado. Isso mostra a construção de uma rede nas tabelas, nos gráficos, nos fluxogramas não são simples números, de significados que, além de produzir seus efeitos de verdade, constrói mas valores capturados a uma grade que produz um saber sobre eles. O um saber que classifica, nomeia, regula a população. número traz um rótulo que incorpora um sistema de raciocínio que Tais modelos sistêmicos foram usados como ferramentas de cál- produz o modo como pensamos, vemos, agimos e falamos sobre que culo de probabilidade e, por meio deles, é possível estimar o compor- ali está registrado. tamento provável de um espaço geográfico, prever ou antecipar fatos. Assim, as relações ocorridas no espaço geográfico eram entendi- Na perspectiva de Foucault (1996a), deve-se estar sempre alerta para das pelos significados expressos pelos números, por meio de uma rela- uso dessas formas de estratégias, pois "é focalizando estas técnicas de ção direta, ou seja, não havia interesse de entender os processos gera- poder e mostrando os lucros econômicos ou as utilidades políticas que dores desses valores. Segundo Santos (1980), para esse discurso delas derivam, num determinado contexto e por determinadas razões, que se pode compreender como estes mecanismos acabam efetiva- as coisas têm o valor definitivo "das coisas em si"; de resto, o processo de sua formação não tem interesse. Eles estão mais preocupados em mente fazendo parte do conjunto" (p. 185-186) que destina espaços demonstrar que em explicar como são as coisas. A preocupação de específicos para cada país. Tais espaços se constroem nas tramas das medir sobrepõe-se à procura das causas reais dos fenômenos (p. 87). relações de poder. Essa política de planejamento está relacionada ao A partir dessa premissa o entendimento da Geografia sobre as modo como as práticas discursivas do capitalismo encerram e capturam coisas seguia um critério de variáveis que são estrategicamente países num binarismo: igual/diferente, normal/anormal, desenvolvido/ construídas discursivamente, as quais produzem regime de verdades subdesenvolvido. Para a lógica capitalista, as diferenças são produtivas materializadas no número. Por meio desses números são inventadas no sentido de funcionarem para desqualificar povos "subdesenvolvi- normas que instituem sistemas de classificação. O enquadramento de dos", afastando-os da participação nos benefícios da vida capitalista. um país, uma região, de uma cidade em uma categoria do sistema de Com a perspectiva trazida pelo discurso da Nova Geografia, classificação é automaticamente capturado para um significado já de- governamento dos povos ocorre por meio das estratégias de planeja- terminado antecipadamente. As normas contidas no discurso penetram mento espacial. Essa estratégia passou a informar todos os fatos exis- nos sistemas de classificação. São elas que vão dizer O que é semelhan- tentes, comprovados matematicamente, gerando um conhecimento te/diferente ou normal/anormal. Como exemplo, a norma que deter- operacionalizável, que oportunizou a intervenção deliberada sobre a mina a regionalização do mundo capitalista em "desenvolvido", "em organização do espaço. Esse discurso utilizou o empirismo da observa-62 MARIA TONINI ROMPENDO SIGNIFICADOS NATURAIS 63 ção direta proposto pelos discursos do determinismo e possibilismo O discurso da Nova Geografia é visto no ensino com essas mani- geográfico. Tal ação permitiu que as práticas de governo se desenrolas- festações matemáticas. Para estudar uma região geográfica prontamen- sem mais racionalmente, por meio de formas particulares corporificadas, te são trazidos números colocados em tabelas, gráficos, fluxogramas, pelas quais as práticas estatais e a consciência individual se relacionaram. possibilitando melhor visualização e fixação do valor de verdade, che- Numa perspectiva foucaultiana, pode-se dizer que, na Nova gando-se à explicação da região estudada. A partir dessa constatação a Geografia, "as relações de poder foram progressivamente governamen- região estudada obedecia a um critério de variáveis, como índices de talizadas, ou seja, elaboradas, racionalizadas e centralizadas na forma exportação, produto interno bruto, mão-de-obra qualificada, escolari- ou sob a caução das instituições do Estado" (Foucault, 1995, p. 247), dade, natalidade, crescimento vegetativo, entre outros, que permitiam a com a finalidade governar a população. Essa forma de ordenar as pes- soas através da aritmética inventada pelos administradores do Estado, realização de um modelo de classificação. Como exemplo disso cita-se no século XIX, produziu uma nova forma de governar. As pessoas pas- a classificação dos países em "desenvolvidos" e "subdesenvolvidos", saram a ser definidas como população pela estatística. Segundo Po- inventado pelo mundo capitalista. Resta portanto aos estudantes me- pkewitz (2001), essa maneira faz com que morizar quais variáveis podem entrar no modelo de "desenvolvi- mento" e no modelo de pois entre ambos há as populações, uma vez estabelecidas conceitualmente, podem ser medidas, organizadas, divididas em categorais utilizando-se técni- uma diferenciação de inclusão e exclusão de variáveis, bem como de cas estatísticas e tratadas interiormente como instituições através seus respectivos valores. das técnicas de conhecimento-poder. Aplicando-se esse cálculo de probabilidade, o raciocínio populacional constrói nosso entendimen- to (...) Os indivíduos e os eventos são organizados e reclassificados de Nesse sentido o discurso da Nova Geografia para o entendimen- uma maneira que separa o evento particular de sua situação histórica to das relações sociais continua a auxiliar no processo de manutenção imediata. A racionalidade aplicada à população normaliza-se através da construção de médias (e de outras medidas estatísticas), daí o do discurso constituído por políticas imperiais, ao manter-se categori- normal/anormal (p. 34). zando os países e os lugares por meio desses mecanismos de instituição de modelos. A Nova Geografia que continuou, portanto, a ser a via conserva- dora dos discursos geográficos, embora tivesse apresentado uma sofis- Exemplos de uso desses modelos podem ser vistos na insti- ticação ferramental de análise, seguiu sombreando a heterogeneidade tucionalização de planejamentos utilizados pelo Estado. No caso do da sociedade. Segundo Santos (1980), discurso da Nova Geografia, Brasil, diversos modelos são empregados para o planejamento de seu em geral, ignorou as estruturas sociais e concebeu um espaço abstrato e sem rugosidades, eliminando de suas preocupações o espaço da socie- espaço, entre eles o modelo de Chisthaller para localização urbana; o dade em movimento permanente. modelo de Von Thüner para políticas agrícolas; o modelo de Estal64 MARIA TONINI 65 ROMPENDO SIGNIFICADOS NATURAIS para localização industrial. Esses modelos são mecanismos utiliza- função de organizar o espaço, a Nova Geografia é rotulada de "móvel dos para regular, normalizar e controlar a organização do espaço utilitário", é vista como um canal que legitima discurso do Estado e geográfico5. da classe dominante. Por meio das estratégias de planejamento espacial, A Nova Geografia aproxima-se da economia espacial, de um com- ela passa a informar todos os fatos existentes, gerando um conheci- portamento racional e de maximização de lucros e oportunidades. Como mento operacionalizável que permite a intervenção deliberada sobre a os órgãos de planejamento estavam fortemente centrados nas políticas organização do espaço. Essa perspectiva troca empirismo da observa- governamentais direcionadas para planejamentos espaciais, essa abor- ção direta, proposto pelo discurso da Geografia Moderna, por um le- vantamento mais abstrato dos fatos filtrados pela estatística, que ela- dagem não encontrava legitimidade para circular no ensino, porque a bora diagnóstico, apresenta uma enumeração exaustiva sobre as carac- Geografia Escolar não tem a finalidade de planejamento espacial. O terísticas e ainda insere as tendências de evolução dos fenômenos em que encontramos em alguns livros didáticos é a aplicação esporádica de determinado espaço. alguns desses modelos sistêmicos para analisar espaço geográfico. Percebe-se, no entanto, uso regular de termos que se articulam com A Nova Geografia representou, portanto, a via conservadora do o planejamento. Os termos mais apropriados e que sinalizam proximi- deslocamento do discurso geográfico. Para Santos (1980) essa perspec- dade com o discurso da Nova Geografia são, por exemplo: tiva, em geral, ignora as estruturas sociais e sugere que não haja preo- cinturão verde, shopping center, distrito industrial, periferia urbana, cupação com os processos que geram as desigualdades sociais. Acaba, bairros residenciais, área central, entre outros. simplesmente, por ignorar as relações sociais. A crítica à Nova Geografia está fundamentada em vários autores Numa perspectiva foucaultiana, pode-se dizer que na Nova (Andrade, 1987; Gomes, 1996; Moraes, 1988; Santos, 1980). Tal crítica Geografia "as relações de poder foram progressivamente governamen- talizadas, ou seja, elaboradas, racionalizadas e centralizadas na forma baseia-se no fato de essa abordagem levar em consideração as relações ou sob a caução das instituições do Estado" (Foucault, 1995, p. 247), sociais que se estabelecem no espaço geográfico de forma restrita, isto com a finalidade de organizar o espaço. Esse planejamento espacial é, o social estaria subjugado pelo econômico e político. Assim, pela sua elaborado é visto por Moraes (1988) como a 5 Sinais desses modelos podem ser facilmente observado nos livros didáticos tanto pela nomenclatura como pelo significado que No de Christhaller uso da manutenção da realidade existente, atuando no sentido de neutrali- hierarquia urbana entre as cidades: centros regionais, cidades médias, cida- zar os conflitos e facilitar a ação do Estado. Nas sociedades capitalis- des de pequeno porte; () de Von Thüner, nas políticas agrárias, ao determinar que tas, auxilia o domínio da burguesia, orientando a alocação do capital produtos hortigranjeiros devem estar localizados próximos às cidades, a produção meca- nizada à média distância e a produção extensiva à longa distância; e de Estal, ao no espaço, propondo reformas, atenuando contradições ambientais e afirmar que a localização da indústria deve ser função do equilíbrio entre mercado gerando informações para a expansão das relações capitalistas de pro- consumidor, a mão-de-obra e as reservas de matérias-primas. dução (p. 108).67 66 ROMPENDO SIGNIFICADOS NATURAIS MARIA TONINI Assim o discurso da Geografia foi, novamente, funcionalista em Com essa mesma visão Ferreira e Simões (1986) destacam que, relação ao Estado. entre 1950 e 1970, ocorreram grandes transformações socioeconômicas no mundo, as quais direcionaram o conhecimento social para outros A partir da década de 60 surge outro discurso na Geografia, de- eixos. Esses acontecimentos tiveram início com o nominado de Geografia Crítica. Marifesta-se principalmente nos Esta- dos Unidos com os estudos de Willian Bunge e David Harvey e, na fim da guerra fria, através de uma política de coexistência pacífica que França, com Yves Lacoste. Essa abordagem inspirou-se tanto nas ma- atenua as tensões ideológicas internacionais no confronto Leste-Oeste e permite o florescimento da reflexão marxista no Ocidente; as mu- nifestações de massa contra políticas governamentais marcadas pelas danças nos países do Terceiro Mundo; a crise do sistema de domina- contradições sociais geradas pelo capitalismo (o qual produzia desigual- ção ocidental (p. 90). dades e conflitos sociais) como nos movimentos de oposição à guerra Os discursos até aqui apresentados Geografia Moderna e Nova do Vietnã, que marcava a continuidade dos Estados Unidos no papel de militar do mundo capitalista. As manifestações de protesto Geografia mostraram deslocamentos no sentido de que o entendi- eram sinais de não-aceitação dos discursos que tentavam explicar as mento da Geografia sobre as coisas do mundo apresenta diferenciações relações socioeconômicas; mostravam descontentamento com as res- (num dos discursos era a natureza agenciada como dispositivo para sub- postas e as "soluções" que vinham sendo apresentadas. jugar os demais elementos da análise, em outro era o homem), pois eles dão continuidade no seu entendimento em outros lugares, de um Assim, o discurso da Geografia Crítica proporcionou um direcionamento mais social às análises geográficas, resultando no desa- outro jeito, mas permanecem articulados numa mesma perspectiva: a tar das amarras do empirismo exacerbado da Geografia Moderna, a relação direta homem e natureza. qual manteve suas análises presas ao mundo das aparências. Por outro O discurso que vem romper esse entendimento é, portanto, o lado, a Geografia Crítica abandonava a sofisticação ferramental da Nova da Geografia Crítica. Tal discurso desestabiliza as formas de entender Geografia, que sombreava a heterogeneidade da sociedade. O discurso o mundo, abrindo caminhos para outras Nesse sentido da Geografia Crítica buscava mostrar as rugosidades do espaço geográ- abandona entendimento da relação homem e natureza como algo fico, "as vinculações entre as teorias geográficas e imperialismo, a inscrito de maneira essencialista. idéia de progresso veiculando sempre uma apologia da expansão (...) trabalho do geógrafo, como articulado às razões do Estado" (Moraes, 6 Esta busca por outros direcionamentos para as análises geográficas é gerada pela insatis- 1988, p. 113). Com essa perspectiva esse discurso assinalou, pela pri- fação das explicações sobre as desigualdades sociais e as contradições espaciais geradas meira vez, o rompimento da articulação entre o discurso geográfico pelas relações capitalistas. Essas contradições socioeconômicas, materializadas no espa- geográfico pelo rolo compressor da globalização, soterram determinados recortes com Estado e as classe dominantes. espaciais, ou seja, os menos privilegiados68 MARIA TONINI 69 ROMPENDO SIGNIFICADOS NATURAIS A construção desse outro discurso, inventado pelas matrizes da A Geografia Crítica traz uma extensa lista de estudos geográfi- Geografia Crítica, deve-se à concepção de que a Geografia deveria ser cos, com temas completamente diferentes dos anteriores. Esses estu- um campo de conhecimento preocupado com os problemas sociais. dos foram matizados pelo paradigma marxista e materialismo históri- Por isso tal discurso passa a examinar a relação sociedade e natureza CO e dialético ao trazerem em suas análises as categorias modo de pro- como um processo. Assim, os elementos da natureza deveriam ser es- dução, formação econômico-social, relações de produção e conceitos tudados apenas como recursos para a sociedade. A Geografia não esta- de capital, trabalho assalariado, valor-de-uso, riqueza natural, entre ria mais preocupada em examinar os processos naturais em si, mas a outros, para auxiliar na explicação do espaço geográfico. natureza como elemento a ser utilizado e apropriado pela sociedade. Essa perspectiva pode ser vista em Capel (1981), quando comenta que Os primeiros sinais da perspectiva da Geografia Crítica no Brasil estão no livro Por uma Geografia Nova, de Milton Santos, de 1978. na base desse descontentamento encontram-se problemas reais de Este autor analisou o espaço geográfico a partir das relações históri- que agora se toma consciência e se tornam agudos: problema ecoló- gico, a segregação social nas cidades norte-americanas, a guerra do cas e sociais. Já na literatura didática a inscrição dessa abordagem foi Vietnã, a revolta dos negros, descobrimento da injustiça e da misé- registrada por Melhem Adas, no início dos anos 80. Este autor traz ria na sociedade norte-americana, a consciência de pertencer a um país imperialista e (p. 246). outros critérios para regionalizar mundo, utilizando as categorias usa- das pelo marxismo. Nesses outros critérios não estão mais presentes, Foram esses e outros fatos que levaram a novos questionamentos por exemplo, os alicerces clássicos para regionalizar o mundo através da no debate interno da Geografia, proporcionando a tentativa da busca categoria física continentes Americano, Asiático, Africano, Europeu e de um outro direcionamento em seu discurso, O qual foi encontrado Oceania. O que se vê é a substituição dessa pela categoria econômica nas análises Esse novo eixo apresentou propostas díspares, mundo capitalista e mundo socialista. É evidente que somente a troca de cuja unidade estava na perspectiva de apresentar uma visão de oposi- categorias não pode ser considerada articulação com essa abordagem da ção a uma realidade social e espacial contraditória e injusta, que tenta Geografia Crítica, mas esse foi um fato que ocasionou discussões no analisar espaço geográfico a partir de outros elementos, como a rela- ambiente escolar. Foi motivo suficiente para desencadear um processo ção da sociedade com modos de produção, que engendraram as rela- de mudanças na Geografia Escolar. ções de poder. O discurso da Geografia Crítica inscrito nos livros didáticos ca- 7 Tradução minha. racterizou-se pelo rompimento de tradicionais focos de análise para 8 Gomes (1996) mostra por que a Geografia se ancora nas análises marxistas ao dizer que "a doutrina marxista deu a possibilidade às ciências sociais de desenvolverem modelos examinar espaço geográfico. Ou seja, esse discurso passou a abordar teóricos deterministas inteiramente concebidos na esfera do domínio social, isto é, "o espaço geográfico como espaço social, construído, pleno de lutas e independentes dos modelos das ciências naturais, que até então os únicos a propor modelos verdadeiramente racionalistas e objetivos" (p. 284). conflitos sociais (...), estudando a natureza enquanto recurso apropria-70 IVAINE MARIA TONINI 71 ROMPENDO SIGNIFICADOS NATURAIS do pelos homens e enquanto uma dimensão da história, da política" espaços desiguais centro urbanolperife- (Vesentini, 1989, p. 36). Desse modo os conteúdos curriculares da ria urbana -, entre outros. Essa perspectiva, portanto, examina o espa- Geografia conduziram a um entendimento da totalidade que envolve ço geográfico pelas relações de poder, dentro de uma visão econômica a sociedade e a natureza, levaram a compreender um espaço produzido que organiza territorialmente a sociedade, apresentando uma deter- pela sociedade, que gera desigualdades e contradições. Para entender minada configuração topológica. esse espaço seria necessário examinar as relações econômicas, pois seriam As relações econômicas produzem e reproduzem as formas e as elas que regulariam a produção e a distribuição dos bens materiais que funções, em diferentes momentos, assim como as regras e práticas par- iriam materializar a organização espacial. ticulares que são vistas na sociedade pela sua materialização no espaço. No conteúdo referente à natureza os livros didáticos ancorados Na visão foucaultiana, de acordo com suas análises de poder, essa for- na Geografia Crítica não trazem mais o receituário referente aos aspec- ma de pensar o espaço não se refere apenas a sua administração, mas tos físicos relevo, hidrografia, clima e vegetação deixado pela Geo- também à maneira de governar espaço geográfico, ou seja, governar a grafia Moderna. Tais aspectos são apresentados de uma maneira articu- conduta da sociedade. Tal assertiva pode ser encontrada em Santos lada, ou seja, não são mais estudados separadamente, desvinculados (1980) ao comentar que espaço pode ser uma morada do homem dos aspectos sociais e econômicos. Eles são estudados pela forma como mas pode ser também sua prisão" (p. 134). Tal afirmativa leva ao en- a sociedade se apropria deles, analisando-se os resultados da relação tendimento de que o espaço pode ser visto como prisão se for regulado sociedade e natureza. por um conjunto de mecanismos para controlar a circulação de um só saber, de um só tipo de pensar e de se relacionar. Trata-se, pois, de um O regime de verdade produzido nesse discurso inventou dife- tipo de poder exercido continuamente através de uma vigilância que rentes classes sociais conforme a divisão do trabalho. Isto é, as formas mantém excluídas as pessoas de outros espaços. São exemplos disso os pelas quais cada classe social se relaciona com as forças produtivas fa- espaços urbanos marginalizados, habitados por populações de baixo bricam uma maneira diferente de organização social. Assim, a explica- poder econômico; os fluxos migratórios da população; o acesso limita- ção sobre as condições menos privilegiadas de determinada classe social é do a determinados bens de consumo por parte da população. Esses trazida pela forma com que ela se relaciona com as forças produtivas. exemplos demonstram a ação do poder capilar, micropoder atuando Nesse sentido o discurso da Geografia Crítica explica que as so- sobre a população, ao fazer que elas mesmas se autodisciplinem. Ou ciedades produzem o espaço conforme seus interesses, em determina- seja, que ocupem determinados lugares. dos momentos históricos, mostrando que tal espaço está implicado na A crítica a essa perspectiva direciona-se à forma de posicionar o movimentação das relações econômicas. Mostra também como essas poder num único lugar no modo de produção capitalista -, qual relações produzem sociedades desiguais pobres/ricos e, também, gera as diferenças espaciais. A partir dos anos 80, entretanto, a influên-72 73 MARIA TONINI ROMPENDO SIGNIFICADOS NATURAIS cia marxista na Geografia começou a apresentar outros caminhos, pos- ça, principalmente por Paul Claval. É resultante de um dos desdobra- sibilitando a interpretação da sociedade pela produção do espaço e apro- mentos da Geografia Entretanto o atual discurso da Geo- ximando essa interpretação de análises que levam em conta o valor e o grafia cultural está matizado por um referencial teórico que permite antropocentrismo da vida social. Essa flexibilidade no pensamento diferenciá-la de sua primeira constituição nos anos 20 do século XX, geográfico é expressa em Gomes (1996), ao comentar que nos Estados Unidos. Nessa época foram os estudos de Carlos Ortwin (1889-1975) que trouxeram viés cultural, ancorado nos dis- a Geografia abandonou o projeto de construir, por intermédio do marxismo, uma ciência total. Hoje, os geógrafos que invocam mar- cursos de Ratzel e La Blache. xismo o fazem a partir de uma perspectiva muito mais limitada, como uma filiação ideológica ou como uma inspiração de ordem geral. De O discurso cultural proposto por Sauer, ao aceitar a noção de qualquer forma, não existe mais a crença em uma via metodológica cultura como uma entidade superorgânica, analisava as diferenças da única, que será aquela da "verdadeira" Geografia, e se reconhece a importância e a riqueza de outras condutas possíveis para a Geografia paisagem mais pelo aspecto material que cada povo produzia. Chega- (p. 303). va-se, então, ao entendimento de que não havia conflitos entre os gru- pos humanos, tampouco diversidades culturais dentro de um grupo. Nos últimos anos o discurso geográfico vem sendo elaborado por Esta percepção da ausência de conflitos deve-se às inexpressivas perspectivas que privilegiam a influência humanística, marcada pelas seguintes características, conforme Gomes (1996): espaço é sempre mudanças notadas nas marcas deixadas na paisagem por cada povo; é um lugar carregado de significações; a ação humana não pode estar isso, pois, que permite, nessa abordagem, elaborar a idéia de que havia separada de seu contexto; o homem produz sua cultura; as análises uma homogeneidade cultural no interior dos grupos sociais. geográficas devem ter suas interpretações relativas, ou seja, os contex- O discurso cultural é retomado pelos "novos" geógrafos cultu- tos são próprios e específicos a cada manifestação de arte no espaço rais; estes, porém, elaboram outra compreensão de cultura social- geográfico. Todas essas características fazem parte do discurso dos mente definida e socialmente determinada. A partir de 1960 discur- geógrafos filiados ao horizonte humanista; entretanto comentar essa SO cultural começa a sinalizar mudanças em sua matriz teórica. Isso faz perspectiva torna-se um exercício bastante complexo, uma vez que ela ainda está em fase de aceitação e lapidação por parte da academia. Por Achei pertinente comentar essa abordagem neste momento e não durante os comentá- outro lado, torna-se instigante examinar como a Geografia vem anco- rios que abordei sobre a Geografia Moderna, porque cla vem sendo atualmente revisitada rando-se nessa perspectiva. pela academia. 10 Sauer foi professor de Geografia na Universidade de Michigan, de 1915 a 1923, e na Examinarei, a partir daqui, uma das tendências humanísticas: a Universidade da em Berkeley-EUA, a partir de 1923, durante 31 anos. Fundou a Escola de Berkeley, a qual assinala seu rompimento com determinismo Geografia Cultural. Essa outra orientação na Geografia, a abordagem ambiental e, seu novo entendimento da noção de cultura. Essa passagem começa a ser inscrita no seu livro A da Paisagem (1925); posterior- cultural, é retomada nos estudos geográficos a partir de 1960, na Fran- mente, artigo Foreword to Historial Geography (1941) constitui final de sua teoria.74 MARIA 75 ROMPENDO SIGNIFICADOS NATURAIS com esse discurso seja lentamente revalorizado, pois havia sido apaga- carnaval, e religiosas (as procissões a ida de todo muçulmano do pelos aportes teóricos da Nova Geografia e da Geografia Crítica, a Meca -; as crenças a divisão de castas na Índia); objetos reunidos porque apresentava, em suas análises, questionamentos sobre enten- como uma coleção de artefatos (museus); indumentárias (fotografias dimento de cultura apenas como manifestações materiais de valores. de pessoas com as roupas típicas de sua cultura); comportamentos (da As explicações geográficas começaram, então, a enfatizar a cultura com mulher no mundo islâmico). Percebe-se, pois, que as "relações abstra- outro registro, como práticas de significação, como comunicação, como sinalização de valores. tas, ou a própria relação dos objetos como representações em um siste- ma de valores, estão ausentes ou são apenas marginalmente considera- O "reaparecimento" do discurso cultural, de maneira mais in- das" (Gomes, 1998, p. 39). Nesse sentido, livro didático continua tensa a partir de 1980, está articulado ao processo de globalização na produzindo um saber que trata a cultura como acessório de cada grupo sua tentativa de homogeneizar a paisagem natural. Isso fez com que a humano, deixando de mostrar como ocorre processo que constituiu Geografia trouxesse em suas preocupações de análise a centralidade da esses "materiais visíveis". cultura para explicar o espaço geográfico, não permitindo explicações da existência da uniformização da paisagem natural, ao contrário, mos- Existem alguns livros que apresentam manifestações tímidas e trando a permanência de pluralidades culturais. Com a globalização as nuanças que podem levar a estabelecer pontos de contato com a Geo- diferenças culturais têm-se acentuado entre os lugares, que permite grafia Cultural em um outro registro. Estes pontos de contato podem ver cada local como um recorte espacial que apresenta suas particula- ser vistos em conteúdos que mostram o espaço geográfico como um ridades, ou seja, suas práticas culturais. Pensar que a organização processo de construção cultural, em que os valores inerentes a cada espacial, supostamente alcançada com processo de globalização, seja povo são apresentados numa relação de alteridade sem fronteiras inteligível apenas com base nos processos de produção é minimizar a preestabelecidas. cultura do lugar. Para Claval (1997), "aproximar-se da Geografia Cultural é, antes Dessa forma, o discurso atual da Geografia Cultural entende de mais nada, captar a idéia que temos do ambiente próximo, do país que a paisagem natural "contém um significado simbólico, porque é e do mundo. É se interrogar em seguida sobre a maneira como as re- produto da apropriação e transformação da natureza" (Corrêa, 1995, p. 5). Na paisagem estão impressas as marcas culturais, por meio de uma presentações são construídas, sobre seu papel que provocam" (p. 94). linguagem cujos significados pertencem a uma determinada cultura. Na maioria dos livros didáticos, no entanto, a noção de cultura continua sendo transmitida pelos enfoques mais tradicionais. Apresen- tam-se, por exemplo: manifestações artísticas (festas de cada regiãosaindo do texto Este livro abordou os deslocamentos que a Geografia passou ao longo da história ocidental. Essas transformações aconteceram nos mais variados contextos, pelos quais foram possibilitando surgir entendi- mentos distintos. Ao longo deste estudo, percebi o conhecimento sobre a história da Geografia como uma construção cultural e, por isso, penso ser im- possível fazer um estudo "total" dela e colocar um ponto final, até porque a própria constituição do objeto depende desse nosso olhar. Assim, minha hipótese de leitura centrou-se e orientou-se para mos- trar como se inventou os discursos que circulam pela Geografia Esco- lar. Por esta via, identifiquei e discuti algumas das dinâmicas de mu- dança e linhas de descontinuidades na construção histórica desses dis- cursos. Minha intenção foi muito modesta, simplesmente, quis apenas mostrar como a escola foi incorporando em seus processos pedagógicos esses significados. Minha expectativa é que ele possa instigar outros/as estudiosos/as a debruçar-se sobre esta temática e a auxiliar a construir mais estudos que subsidie o processo pedagógico da Geografia.bibliografia ANDRADE, Manuel Correia de. Geografia - Ciência da Sociedade. São Paulo: Atlas, 1987. AZEVEDO, Aroldo de. Geografia do Brasil. série ginasial. 12.ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1935. BERNARDES, Nilo. O pensamento geográfico tradicional. Revista Brasileira de Geografia. Rio de Janeiro: IBGE, V. 44, n.3, jul./set. 1982. CAPEL, Horácio. y ciencia en la Geografía contemporánea. Barcelona: Barcanova, 1981. CASTRO, Iná Elias de; GOMES, Paulo César da Costa; CORRÊA, Roberto Lobato (Orgs.). Explorações geográficas. Rio de Janeiro: Bertrand, 1997. CHRISTOFOLETTI, Antonio. Perspectivas da geografia. São Paulo: Difel, 1982. CLAVAL, Paul. As abordagens da Geografia cultural. In: CASTRO, Iná E. de; GOMES, Paulo C.C.; CÔRREA, Roberto L. Explorações Geográficas. Rio de Janeiro: Bertrand, 1997.80 TONINI 81 BIBLIOGRAFIA CLAVAL, Paul. A Geografia cultural. Tradução Luíz Fugazzola Pimenta GAULTIER, Abbade. Lições de Geographia. Tradução Sociedade de e Margareth de Castro Afeche Pimenta. Florianópolis: Ed. da UFSC, lieterattos portugueses. Paris: Casa de J.-P. Aillaud, Guilard E. 1999. A., 1867. COSGROVE, Denis R. Em Direção a uma Geografia cultural radical: problemas da teoria. Espaço e Cultura. Rio de Janeiro, n. 5, 1998. GIROUX, Henry. Praticando estudos culturais nas faculdades de edu- cação. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). sujeito da educação. Estu- Roberto Lobato. A dimensão cultural do espaço: alguns dos foucaultianos. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1995. temas. Espaço e Cultura. Rio de Janeiro, n. 1, out. 1995. Carl Sauer e a Geografia Cultural. In: Trajetórias geo- GOMES, Paulo Cesar da Costa. Geografia e modernidade. Rio de Janei- gráficas. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 1997. ro: Beltrand, 1996. DOWELL, Linda Mc. A transformação da Geografia cultural. In: Identidade e exílio: fundamentos para a compreensão da cul- GREGORY, Derek; MARTIN, Ron; SMITH, Graham (Orgs.). Geo- tura. Espaço e Cultura. Rio de Janeiro, n. 5, 1998. grafia humana Sociedade, Espaço e Ciência Social. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. GOODSON, Ivor. Tornando-se uma matéria acadêmica: padrões de FERREIRA, Conceição Coelho; SIMÕES, Natércia Neves. A Evolu- explicação e evolução. Teoria & Educação. Porto Alegre, n. 2, 1990. ção do pensamento geográfico. Lisboa: Gradiva, 1986. GUIDDENS, Anthony; PIERSON, Christopher. Conversas com Anthony FOUCAULT, Michel. O sujeito e poder. In: DREYFUS, H.; Guiddens. O sentido da modernidade. Rio de Janeiro: FGV, 2000. RABINOW, P. Michel Foucault. Uma trajetória filosófica: para além do GVIRTZ, Silvina. Del curriculum prescripto al curriculum enseñado. Aique: estruturalismo e da hermenêutica. Tradução Vera P. Carrero. Rio de Buenos Aires, 1997. Janeiro: Forense Universitária, 1995. A ordem do discurso. 2.ed. Tradução Laura F.A. Sampaio. São HOBSBAWM, Eric J. A era dos impérios 1875-1914.5.ed. Tradução Sieni Paulo: Loyola, 1996a. Maria Campos e Yolanda Steidel de Toledo. Rio de Janeiro: Paz e Microfísica do poder. 12.ed. Tradução Roberto Machado. Rio de Terra, 1998. Janeiro: Graal, 1996b. LACOSTE, Yves. A Geografia - isso sim serve, em primeiro lugar para FORQUIN, Jean-Claude. Saberes escolares, imperativos didáticos e fazer a Guerra. 3.ed. Tradução Maria C. França. Campinas: Papirus, dinâmicas sociais. Teoria & Educação. Porto Alegre, n. 5, 1992. 1985.82 MARIA TONINI 83 MORAES, Antonio Carlos Robert. Geografia - pequena história crítica. SANTOS, Milton. Por uma Geografia nova. 2.ed. São Paulo: Hucitec, 8.ed. São Paulo: Hucitec, 1988. 1980. A gênese da geografia moderna. São Paulo: Hucitec/Edusp, 1989. SAUER, Carl O. Geografia cultural. Espaço e Cultura. Rio de Janeiro, Ratzel São Paulo: Ática, 1990. (Coleção Grandes Cientistas n. 3, 1996. Sociais). SILVA, Tomaz Tadeu da. O adeus as metanarrativas educacionais. In: MOREIRA, Antonio Flávio; SILVA, Tomaz Tadeu da. Sociologia e te- SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). sujeito da educação. Estudos oria crítica do currículo: uma introdução. In: (Orgs.). Currículo, foucaultianos. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1995a. cultura e sociedade. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 1994. Currículo e identidade social: territórios contestados. In: PIMENTA, Olímpio. Razão e conhecimento em Decartes e Belo Alienígenas na sala de aula. Petrópolis: Vozes, 1995b. Horizonte: Ed. da UFMG, Notas sobre história do currículo. In: Identidades termi- POPKEWITZ, Thomas S. Cultura, pedagogia e poder. Teoria & Edu- Petrópolis: Vozes, 1996. cação. Porto Alegre, n. 5, 1992. SODRÉ, Nelson Werneck. Introdução à Geografia. 7.ed. Petrópolis: História do currículo, regulação social e poder. In: SILVA, Tomaz Vozes, 1989. Tadeu da (Org.). sujeito da educação. Estudos foucaultianos. 2.ed. SOJA, Edward W. Geografias Pós-Modernas. Tradução Vera Ribeiro. Rio Petrópolis: Vozes, 1995. de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. Reforma educacional. Uma política sociológica. Poder e conhe- VEIGA-NETO, Alfredo. Michel Foucault e educação: há algo de novo cimento na educação. Tradução Beatriz Neves. Porto Alegre: Artes sob sol? In: (Org.). pós-estruturalista e educação. Porto Médicas, 1997. Alegre: Sulina, 1995. Lutando em defesa da alma. A política do ensino e a construção . Governabilidade ou governamentabilidade? Disponível em: , 1996. RAFFESTIN, Claude. Por uma Geografia do poder. Tradução Maria C. Michel Foucault e os estudos culturais. In: COSTA, Marisa V. França. São Paulo: Ática, 1993. (Org.). Estudos culturais em educação: mídia, arquitetura, brinquedo, SAID, Edward W. Cultura e imperialismo. Tradução Denise Bottman. biologia, literatura, cinema... Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1995. 2000.84 IVAINE TONINI GEOGRAFIA FÍSICA E GEOMORFOLOGIA Dirce Maria VESENTINI, José William. Geografia crítica e ensino. In: OLIVEI- Antunes Suertegaray RA, Ariovaldo U. de (Org.). Para onde vai ensino da Geografia? São Uma (Re)Leitura Paulo: Contexto, 1989. VLACH, Vânia Rubia. Geografia em debate. Belo Horizonte: Lê, 1990. Geografia em construção. Belo Horizonte: 1991. G eografia Física e Geomorfologia uma (Re)Leitura, constitui uma coletânea de textos escritos desde os anos 80. Trata-se de textos que expõem as da autora sobre a necessidade de conjunção do conhecimento da natureza e da sociedade na ótica da Geografia Física e Geomorfologia. Este livro expressa um aprendizado que vem se construindo sobre a temática e não constitui obra concluída. Representa a possibilidade de compartilhar do diálogo em andamento sobre 0 tema. Fones: (55) 3332-0352/0282/0327 Fax: (55) 3332-0343 Rua do Comércio, Bairro São Geraldo 98700-000 : RSIvaine Maria Tonini É graduada em Geografia (Bel. e Lic.) mestre (PUC/RS) e doutora (UFRGS) em Educação. Professora adjunta do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Santa Maria e coordenadora do Núcleo de Estudos de Geografia e Educação (NEGE). Em suas atividades de pesquisa, tem se dedicado, atualmente, estudos com livro didático de Geografia e as produções midiáticas relacionadas com a educação. Essas temáticas são percebidas como lugares produtores de conhecimentos e são examinadas sob a perspectiva pós- estruturalista. Tem publicado vários textos e participado de congressos dentro da temática identidade, cultura e educação. Destaca-se o texto "Discursividade étnica", Fone: (0xx55) 3332-0217 publicado em 2002, no livro editora@unijui.tche.br Comunicação Midiática, editado pela Gráfica Universitária (UFSM). É SETOR DE DISTRIBUIÇÃO membro da diretoria da Associação Fones: (0xx55) 3332-0327 / 0352 / 0282 de Geógrafos Brasileiros-seção Porto Fax: (0xx55) 3332-0343 Alegre/RS. (ivaine@terra.com.br) editorapedidos@unijui.tche.br Rua do Comércio, 1364 Bairro São Geraldo 98700-000 - - RS