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Bioética e Responsabilidade Civil Profª. Drª. Viviane Krominski Reitor Prof. Ms. Gilmar de Oliveira Diretor de Ensino Prof. Ms. Daniel de Lima Diretor Financeiro Prof. Eduardo Luiz Campano Santini Diretor Administrativo Prof. Ms. Renato Valença Correia Secretário Acadêmico Tiago Pereira da Silva Coord. de Ensino, Pesquisa e Extensão - CONPEX Prof. Dr. Hudson Sérgio de Souza Coordenação Adjunta de Ensino Profa. Dra. Nelma Sgarbosa Roman de Araújo Coordenação Adjunta de Pesquisa Prof. Dr. Flávio Ricardo Guilherme Coordenação Adjunta de Extensão Prof. Esp. Heider Jeferson Gonçalves Coordenador NEAD - Núcleo de Educação à Distância Prof. Me. Jorge Luiz Garcia Van Dal Web Designer Thiago Azenha Revisão Textual Kauê Berto Projeto Gráfico, Design e Diagramação Carlos Eduardo Firmino de Oliveira 2021 by Editora Edufatecie Copyright do Texto C 2021 Os autores Copyright C Edição 2021 Editora Edufatecie O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correçao e confiabilidade são de responsabilidade exclusiva dos autores e não representam necessariamente a posição oficial da Editora Edufatecie. Permi- tidoo download da obra e o compartilhamento desde que sejam atribuídos créditos aos autores, mas sem a possibilidade de alterá-la de nenhuma forma ou utilizá-la para fins comerciais. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP K93b Krominski, Viviane Bioética e responsabilidade civil / Viviane Krominski. Paranavaí: EduFatecie, 2022. 84 p. : il. Color. 1. Bioética. 2. Saúde pública. 3. Responsabilidade (Direito). I. Centro Universitário UniFatecie. II. Núcleo de Educação a Distância. III. Título. CDD : 23 ed. 174.2 Catalogação na publicação: Zineide Pereira dos Santos – CRB 9/1577 UNIFATECIE Unidade 1 Rua Getúlio Vargas, 333 Centro, Paranavaí, PR (44) 3045-9898 UNIFATECIE Unidade 2 Rua Cândido Bertier Fortes, 2178, Centro, Paranavaí, PR (44) 3045-9898 UNIFATECIE Unidade 3 Rodovia BR - 376, KM 102, nº 1000 - Chácara Jaraguá , Paranavaí, PR (44) 3045-9898 www.unifatecie.edu.br/site As imagens utilizadas neste livro foram obtidas a partir do site Shutterstock. AUTOR Profa. Dra. Viviane Krominski Graça de Souza ● Pós-doutorado em Sustentabilidade pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) – Em andamento; ● Doutora em Microbiologia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL); ● Mestre em Microbiologia pela Universidade Estadual de Londrina; ● Especialista em Biologia Aplicada à Saúde pela Universidade Estadual de Londrina; ● Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG); ● Foi docente do departamento de Microbiologia da UEL; ● Foi docente/pesquisadora de 2010 até 2020 do Centro Universitário São Lucas em Porto Velho-RO. Foi professora do departamento de microbiologia da UEL por 5 anos, ministrando a disciplina de Microbiologia para vários cursos: Enfermagem, Zootecnia, Biomedicina, Fisioterapia, Odontologia, Agronomia e Biologia. Foi também docente/pesquisadora de 2010 até 2020 do Centro Universitário São Lucas em Porto Velho-RO, onde ministrou as disciplinas de Microbiologia e Imunologia para os cursos de Medicina, Enfermagem, Nutrição, Biologia, Biomedicina e Odontologia. Foi Editora-chefe da Revista Eletrônica Saber Científico do Centro Universitário São Lucas no período de 2015 a 2020. Atualmente realiza pós-doutorado em Sustentabilidade pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e é docente na Faculdade de Tecnologia e Ciências do Norte do Paraná (UNIFATECIE). CURRÍCULO LATTES: http://lattes.cnpq.br/7780313263901907 APRESENTAÇÃO DO MATERIAL Seja muito bem-vindo (a)! Prezado estudante, a partir de agora, estaremos juntos para percorrer os assuntos desta disciplina; uma caminhada interessante e enriquecedora sobre o estudo da bioética! Proponho, junto com você, construir nosso conhecimento sobre os fundamentos da bioética, seus princípios e reflexões! Na Unidade I, daremos início aos nossos objetivos, falando sobre o significado de bioética, sua importância e correlação com noções fundamentais de valor, moral e ética. Vamos ainda, acompanhar e refletir a evolução da bioética ao longo dos tempos e sua importância para a solução de conflitos contemporâneos, analisando o modelo principialista e seus fundamentos para as práticas na área das ciências da vida e da saúde. Na verdade, veremos a real aplicabilidade dos conceitos e fundamentos da bioética na resolução de conflitos e tomada de decisão. Já na Unidade II, você saberá mais sobre saúde pública e bioética, refletindo sobre seus impactos e perspectivas. Vamos compreender a importância dos códigos de conduta e sua interrelação com a bioética e os conceitos de ética, moral e deontologia. Trataremos também da necessidade e importância das leis que reforçam os direitos do paciente e discutir sobre sua autonomia na tomada de decisão no que diz respeito ao seu corpo e sua vida. Vamos ainda, falar sobre a relação profissional-paciente e você verá a importância da bioética como norteadora dessas relações, uma vez que esse convício deve ser pautado em princípios e normas éticas. Na sequência, na Unidade III, falaremos sobre a relação da bioética com pesquisa científica, analisando a importância dos princípios bioéticos para orientar as ações e experimentos nessa área, como conduta ética e moral, diante dos avanços tecnológicos atuais. Será que existe um limite para a ciência? Qual a importância dos comitês de ética em pesquisa? A bioética vai responder! Por fim, na Unidade IV, fecharemos a disciplina com uma discussão sobre os avanços tecnológicos e o olhar da bioética voltado para o ser humano em todas as suas características e dimensões. Como a bioética pode atuar e impor seus conceitos e princípios, quando falamos em cuidados paliativos e dignidade humana? Quais os desafios da bioética na atualidade e suas novas abrangências? Pois é, discutiremos tudo isso aqui, e você terá as respostas! Quero aqui revelar minha satisfação em ter você neste longo, mas enriquecedor e prazeroso aprendizado. É uma verdadeira jornada de conhecimento, que juntos, faremos do início ao fim desta trajetória. Muito obrigada e um excelente estudo! SUMÁRIO UNIDADE I ...................................................................................................... 4 Noções e Fundamentos de Bioética UNIDADE II ................................................................................................... 25 Saúde Pública e Bioética UNIDADE III .................................................................................................. 42 Bioética e Pesquisa UNIDADE IV .................................................................................................. 59 Bioética e os Dilemas Contemporâneos 4 Plano de Estudo: ● Introdução e noções fundamentais: valor, moral e ética; ● Histórico e reflexões; ● Estudo do modelo principialista; ● Panorama da bioética no cenário globalizado. . Objetivos da Aprendizagem: ● Conceituar noções fundamentais de valor, moral e ética correlacionando com a bioética e sua importância; ● Refletir sobre a evolução da bioética ao longo dos tempos e sua importância para a solução de conflitos contemporâneos; ● Analisar o modelo principialista da bioética e seus princípios para as práticas na área das ciências da vida e da saúde; ● Aplicar os conceitos e reflexões da bioética no cenário globalizado. UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética Profª. Drª. Viviane Krominski 5UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética INTRODUÇÃO Olá! Você já encontrou dificuldade para decidir o que fazer em uma determinada situação? Ficou na dúvida de como se posicionar? Qual conduta adotar? Pois é, acredito que suaprofissional deve ser pautado na ética com responsabilidade, no conhecimento técnico, científico, ético e legal, na postura profissional e no compromisso com o grupo de trabalho e a sociedade. Além disso, verificou a necessidade e importância de conhecer e aplicar no dia-a-dia profissional que o paciente tem seus direitos assegurados, e eles dever ser valorizados e cumpridos. A adoção de leis de direitos dos pacientes pressupõe o reconhecimento da importância de tais direitos e da presença de um sistema de saúde no qual os direitos dos pacientes são protegidos. Finalmente, você foi capaz de compreender a importância da relação profissional- paciente e suas implicações no âmbito da bioética. Abordamos o conceito de relação humana, humanização do cuidado em saúde, respeito ao paciente e verificamos, por fim, que todas essas relações, pautadas em princípios éticas, levam como consequência ao objetivo mais importante que é a promoção de saúde. Com todos esses conhecimentos é só refletir sobre a aplicabilidade de todos eles no dia-a-dia e permitir que saiam do papel e permeiem nossas ações! Vamos lá! 41UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética 41UNIDADE II Saúde Pública e Bioética MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Segurança do Paciente. Como Garantir Qualidade nos Serviços de Saúde Autor: Guilherme Armond. Editora: DOC. Sinopse: O objetivo principal desta obra é ampliar e nortear o conhecimento e aplicabilidade de diretrizes e estratégias direcionadas à segurança do paciente visando melhorias na qualificação da assistência à saúde. O objetivo específico é contextualizar incidentes notificáveis por lei que resultam dano ao paciente, bem como estratégias e metodologias para minimizar a ocorrência desses eventos. A proposta do conteúdo do livro é utilizar imagens, fotos, gráficos, tabelas, fatos e relatos de eventos adversos associados a erros na assistência ao paciente bem como experiências e desfechos. FILME/VÍDEO Título: Tempo de despertar Ano: 1990. Sinopse: Bronx, 1969. Malcolm Sayer (Robin Williams) é um neurologista que conseguiu emprego em um hospital psiquiátrico. Lá ele encontra vários pacientes que aparentemente estão cata- tônicos, mas Sayer sente que eles estão só “adormecidos” e que se forem medicados da maneira certa poderão ser despertados. Assim pesquisa bem o assunto e chega à conclusão de que a L-DOPA, uma nova droga que já estava sendo usada para pacien- tes com o Mal de Parkinson, deve ser o medicamento ideal para estes casos. No entanto, ao levar o assunto para o diretor, ele autoriza que apenas um paciente seja submetido ao tratamento. Imediatamente Sayer escolhe Leonard Lowe (Robert De Niro), que há décadas estava “adormecido”. Gradualmente Lowe se recupera e isto encoraja Sayer em administrar L-DOPA nos outros pacientes, sob sua supervisão. Logo os pacientes mostram sinais de melhora e também se mostram ansiosos em recuperar o tempo perdido. Mas, infelizmente, Lowe começa a apresentar estranhos e perigosos efeitos colaterais. 42 Plano de Estudo: ● Bioética: prática profissional e pesquisa científica; ● Fundamentação da ética na pesquisa científica envolvendo seres humanos; ● Comitê de ética em pesquisa (CEP); ● Consentimento livre e esclarecido para a prática profissional e pesquisa científica. Objetivos da Aprendizagem: ● Compreender a importância da bioética, seus fundamentos e princípios na prática profissional relacionada à realização de pesquisas científicas e as ações éticas necessárias com os diversos aspectos que vieram com o progresso científico e como estão impactando fortemente a sociedade, de forma a se refletir na conduta individual e coletiva; ● Analisar os fundamentos da bioética na pesquisa científica envolvendo seres humanos e a avaliação necessária dos projetos de pesquisa antes da sua fase de execução, afim de garantir integridade e dignidade aos participantes; ● Compreender a função e importância dos comitês de ética em pesquisa, bem como, suas atribuições como órgão responsável na análise dos aspectos metodológicos, da relevância e exequibilidade dos projetos de pesquisa, de forma a garantir o bem-estar dos indivíduos, a equidade e a justiça social; ● Analisar a importância e aplicabilidade do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) como documento necessário para a validação de pesquisas envolvendo seres humanos. UNIDADE III Bioética e Pesquisa Profª. Drª. Viviane Krominski 43UNIDADE III Bioética e Pesquisa INTRODUÇÃO Olá! Iniciamos mais uma unidade, falando sobre Bioética e Pesquisa Científica. O que tem a ver uma coisa com a outra? A resposta, você terá em detalhes na leitura e reflexão desta unidade, mas podemos exercitar um pouco antes. Veja se você consegue responder algumas questões a seguir, e vai imaginando como seriam as pesquisas envolvendo seres humanos, sem os princípios da bioética. Vamos lá: Existe limite para a ciência? A ausência de limites à ciência, traria riscos à existência humana? Com os avanços biotecnológicos e de engenharia genética, haveria limites para a pesquisa com seres humanos? Como realizar uma pesquisa, respeitando o direito à vida e a dignidade dos participantes? Isso é importante? Bom, você terá condições de responder e refletir todas essas questões, nos tópicos desta unidade, no qual falaremos sobre a importância da bioética, seus fundamentos e princípios na prática profissional relacionada à realização de pesquisas científicas e as ações éticas necessárias com os diversos aspectos que vieram com o progresso científico e como estão impactando fortemente a sociedade, de forma a se refletir na conduta individual e coletiva. Você vai verificar os fundamentos da bioética na pesquisa científica envolvendo seres humanos e a avaliação necessária dos projetos de pesquisa antes da sua fase de execução, afim de garantir integridade e dignidade aos participantes. Na sequência, vai compreender a função e importância dos comitês de ética em pesquisa, bem como, suas atribuições como órgão responsável na análise dos aspectos metodológicos, da relevância e exequibilidade dos projetos de pesquisa, de forma a garantir o bem-estar dos indivíduos, a equidade e a justiça social. Finalmente, se dará conta, da importância e aplicabilidade do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) como documento necessário para a validação de pesquisas envolvendo seres humanos. Bom, você percebeu que teremos um grande e valioso aprendizado pela frente! Aproveite e tenha um ótimo estudo! 44UNIDADE III Bioética e Pesquisa 1. BIOÉTICA: PRÁTICA PROFISSIONAL E PESQUISA CIENTÍFICA Com os avanços da sociedade em relação à medicina, as tecnologias biomédicas e a novos tratamentos, surge a necessidade de se pensar sobre a ética médica, ética em saúde, pesquisa ou bioética (FRANÇA, 2017). Diversos aspectos que vieram com o progresso científico estão impactando fortemente a sociedade, de forma a se refletir na conduta individual e coletiva (CLOTET, 1993). Atualmente, a bioética é uma área que cuida de questões éticas que dizem respeito ao início e ao fim da vida humana, como métodos de fecundação, engenharia genética e formas de eutanásia, bem como temas referentes a transplante de órgãos e pesquisas com seres humanos. É importante ressaltar que a criação da bioética não trouxe novos princípios éticos, mas começou a aplicar conceitos já conhecidos do estudo da ética em novas situações que foram trazidas com as inovações no campo da saúde (FRANÇA, 2017). No Brasil, os aspectos éticos, as diretrizes e as normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos são estabelecidos pela Resolução no 466, de 12 de dezembro de 2012 (BRUM, 2017). Inúmeros fatores influenciam o contexto da pesquisa em saúde, incluindo questões relacionadas aos profissionais da área da saúde, aspectos econômicos (como patrocínio de indústria farmacêutica), familiares e religiosos, além de aspectos legais e institucionais.Em determinadas situações, tais fatores podem resultar em conflitos de interesse, na tentativa de influenciar e até restringir as tomadas de decisões clínicas, o estabelecimento de objetivos de pesquisa ou mesmo a divulgação de resultados (BRUM, 2017). 45UNIDADE III Bioética e Pesquisa No entanto, a dimensão ética norteia decisões clínicas e objetivos de pesquisa, de forma a assegurar a justiça, a equidade e a dignidade das diversas relações, atividades e pesquisas no campo da saúde (BEAUCHAMP e CHILDRESS, 2009). O conceito pesquisa pode ser compreendido como toda atividade com o objetivo científico de demonstrar, construir ou desenvolver um conhecimento generalizável. No entanto, podemos encontrar definições de pesquisa atreladas aos objetos e/ou objetivos específicos de cada área do conhecimento. Na área da saúde humana, em geral, o principal objetivo das pesquisas é o desenvolvimento de melhorias relacionadas a proteção, promoção e manutenção da saúde individual ou coletiva. Além disso, as pesquisas em saúde estão relacionadas a uma gama de contextos que vão desde a busca por um tratamento até a análise da situação dos sistemas de saúde ou a descoberta de novas tecnologias. Os interesses econômicos, por sua vez, não devem se sobrepor a nenhum objetivo dessas pesquisas (BRUM, 2017). 46UNIDADE III Bioética e Pesquisa 2. FUNDAMENTAÇÃO DA ÉTICA NA PESQUISA CIENTÍFICA ENVOLVENDO SERES HUMANOS A vida é o bem mais valioso para o ser humano no contexto de todas as suas relações (social, política e jurídica). Assim, a proteção da vida e da integridade física do ser humano, tornam-se os direitos considerados mais preciosos, e a bioética surge no âmbito da socie- dade científica, como proposta de um espaço para se refletir sobre desenvolvimento e uso das tecnologias e seus impactos na natureza e na vida humana, preocupando-se com todo tipo de intervenção humana. Por outro lado, o avanço da medicina rumo à determinação de novos tratamentos clínicos e cirúrgicos e novos métodos de diagnóstico envolve a experi- mentação em seres humanos, o que torna necessária a avaliação dos projetos de pesquisa antes da sua fase de execução, afim de garantir integridade e dignidade aos participantes (BALLESTRERI, 2017). A bioética oferece aos pesquisadores e à sociedade parâmetros para que eles possam julgar e se manifestar sobre os riscos e sobre a oportunidade do uso das tecnologias. No caso da pesquisa com seres humanos, a ênfase da bioética estará nos efeitos que o projeto desenhado pelo pesquisador terá sobre os participantes. A função prioritária da bioética em pesquisa é proteger o participante, um indivíduo que se submete voluntariamente a um risco. Os três princípios referentes à bioética são os da autonomia, da beneficência e da justiça. Entretanto, a incidência de um quarto princípio, o da não maleficência, é reconhecida por muitos pesquisadores (BALLESTRERI, 2017). 47UNIDADE III Bioética e Pesquisa REFLITA Uma ciência que acolhe a reflexão ética, é uma ciência com consciência. A tomada de consciência da ciência conduz à noção de responsabilidade dos cientistas e pesquisadores, na sua atuação, perante a sociedade. Fonte: Morin, 2005; Moller, 2009; Santos, 2003. O princípio da autonomia se reporta à capacidade de auto escolha, que é a possibilidade de alguém tomar suas próprias decisões. As pessoas devem ser reconhecidas como entes capazes de tomar suas próprias decisões, devendo ser prévia e devidamente informadas a respeito dos procedimentos, seus riscos e suas consequências. O princípio da beneficência deve ser entendido como uma dupla obrigação: primeiramente, a de não causar danos; e, em segundo lugar, a de maximizar o número de possíveis benefícios e minimizar os prejuízos. Já o princípio da justiça pode ser resumido no dever da imparcialidade na distribuição dos riscos e dos benefícios inerentes à pesquisa, bem como no tratamento igualitário. O princípio da não maleficência é o mais controverso de todos e muitos autores o incluem no princípio da beneficência. Estes justificam essa posição por acharem que, ao evitar o dano intencional, o indivíduo já está, na realidade, visando ao bem do outro. A bioética não possui novos princípios básicos fundamentais. Ela trata da ética já conhecida e estudada ao longo da história da filosofia, porém aplicada a uma série de situações novas, que são causadas pelo progresso das ciências biomédicas (BALLESTRERI, 2017). A pesquisa em seres humanos só é aceitável quando ela responde preliminarmente às conveniências do diagnóstico e da terapêutica do próprio experimentado, a fim de restabelecer sua saúde ou diminuir seu sofrimento. Qualquer pesquisa que não almeje a esses interesses é inaceitável. Se o ser humano tem pelo seu corpo um direito limitado, muito mais limitado é o direito do médico, cuja missão é preservar a vida até em que suas forças e a ciência permitirem. O médico deve ter, como norma irrecusável, um conjunto de princípios éticos e morais, inclinando-se mais para a vida, para a preservação da espécie e para a exaltação das liberdades fundamentais (SCHNAIDER, 2010). Sem dúvida, a experimentação com seres humanos é uma das razões de grandes discussões na bioética, e se baseia, no dilema entre o respeito à dignidade humana e a necessidade de experimentação imposta pelo desenvolvimento tecnocientífico, que representa benefício para a humanidade. 48UNIDADE III Bioética e Pesquisa No século XVI, Galileu defendeu que a verdade sobre os fenômenos naturais não deveria ser simplesmente aceita, mas, sim, deveria passar por experimentação sistemática e observação crítica. A partir daí, surgiu o método científico e desde então o número de pessoas que se dedica à pesquisa e à ciência vem aumentando consideravelmente (BALLESTRERI, 2017). Tornou necessário, então, serem criadas maneiras de formalizar e legalizar os procedimentos que poderiam ser utilizados e as atitudes que deveriam ser tomadas para que fosse viável e seguro lidar com seres humanos em pesquisas. Entre elas, estão os Comitês de Ética, a Declaração de Nuremberg, de 1947, a Declaração de Helsinque, publicada em 1964, a Resolução do Conselho Nacional de Saúde n. 196/96 e Resolução do Conselho Nacional de Saúde n. 466/12. O Código de Nuremberg foi o primeiro documento específico envolvendo ética na pesquisa com seres humanos, em 1947, e surgiu em função das pesquisas médicas abusivas que eram praticadas nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial (BALLESTRERI, 2017). Os médicos que praticavam experimentos negligentes eram levados a julgamento no Tribunal de Nuremberg, porém, os juízes não encontravam disposições éticas ou legais que pudessem servir de subsídios para condenar os médicos, então, a partir daí, foi elaborado um documento contendo 10 itens que passou a ser conhecido como o Código de Nuremberg. Entre os itens do código, podemos destacar o item I – “O consentimento voluntário do ser humano é absolutamente essencial para a inclusão na pesquisa” – e o item V – “Não deve ser conduzido nenhum experimento quando existirem razões para acreditar que pode ocorrer morte ou invalidez permanente, exceto, talvez, quando o próprio médico pesquisador se submeter ao experimento”. O código estabelece que somente um paciente falante e que tenha autonomia para decidir o que é melhor para si, participe, e que a ele sejam apresentados pontos referentes a como deve ser conduzida a experimentação, aos direitos do investigado, a quem conduzirá a investigação e à segurança do investigador (BALLESTRERI, 2017). Mesmo com a elaboração do código, as práticas abusivas continuaram, e por essa razão, surgiu a Declaração de Helsinque, elaborada pela Associação Médica Mundial, em 1964, que, após passar por diversas revisões, a última em 2008, foi considerada um guia para os pesquisadores em todo o mundo. Essa declaração traz umconjunto de princípios éticos que orientam a pesquisa com seres humanos e é considerada o primeiro padrão internacional de pesquisa biomédica (BALLESTRERI, 2017). 49UNIDADE III Bioética e Pesquisa O Brasil, até 1988, não dispunha de normas específicas. A orientação para as pesquisas envolvendo seres humanos se baseavam nos documentos internacionais. Assim, em 1987, o Conselho Nacional de Saúde (CNS) iniciou uma análise sobre essa questão e no ano seguinte publicou a Resolução no 01/88, que abrangia vigilância sanitária, biossegurança e ética (BRASIL, 1988). Em 1996, essa resolução foi revista e então elaborada a Resolução n. 196/96, que então foi revogada pela Resolução 466/12, que estabelece as normas e diretrizes de pesquisa envolvendo seres humanos e aborda as questões que vão, desde o início do projeto de pesquisa até a operacionalização da pesquisa (BALLESTRERI, 2017). Pela resolução, todo projeto de pesquisa em seres humanos que possa conter riscos, entendidos como possibilidade de danos à dimensão física, psíquica, moral, intelectual, social, cultural ou espiritual do ser humano em qualquer fase da pesquisa e em qualquer área do conhecimento, deve ser aprovada antes do início de sua execução por um Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) (BALLESTRERI, 2017). 50UNIDADE III Bioética e Pesquisa 3. COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA (CEP) A análise dos princípios éticos de projetos de pesquisa em saúde deve considerar a garantia da beneficência, da justiça e do respeito ao indivíduo, englobando todas as pessoas que possam estar relacionadas à pesquisa (pesquisador, paciente, etc.). A avaliação ética de um projeto de pesquisa na área da saúde obrigatoriamente deve estar fundamentada na verificação da experiência e da qualificação dos pesquisadores, assim como na avaliação risco–benefício ao indivíduo ou à comunidade (BRUM, 2017). No Brasil, os Comitês de Ética em Pesquisa surgiram por meio da Resolução 196/96; os aspectos éticos, as diretrizes e as normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos, por sua vez, foram estabelecidos pela Resolução no 466, de 12 de dezembro de 2012. Os Comitês de Ética em Pesquisa (CEPs), institucionais e multidisciplinares na sua composição, têm a função de analisar as pesquisas em seres humanos nas diversas áreas de conhecimento, bem como fomentar discussões sobre bioética. De forma global, têm como atribuições a análise dos aspectos metodológicos, da relevância e exequibilidade do projeto de pesquisa, de forma a garantir o bem-estar dos indivíduos, a equidade e a justiça social. É importante que, além de profissionais da área, também haja representatividade da comunidade civil (por exemplo, associações representativas de determinadas patologias) (BRUM, 2017). 51UNIDADE III Bioética e Pesquisa No campo da assistência à saúde humana, o aumento da complexidade relacionada aos aspectos éticos no cuidado clínico incrementou a necessidade de implementação de Comitês de Ética e de consultoria ética nas unidades de saúde, especialmente em hospitais de grande porte e que atendam a inúmeras especialidades médicas (BRUM, 2017). Nos hospitais, os Comitês de Ética são responsáveis pela organização de políticas e condutas éticas e, para tal, é imprescindível que os participantes estejam familiarizados com a bibliografia de bioética. Além disso, é preciso que haja representatividade dos diferentes profissionais da área da saúde, com organograma e atribuições especificadas, assim como representatividade da comunidade externa à organização de atenção à saúde. Devem ocorrer reuniões periódicas, mantendo o sigilo dos casos discutidos (BRUM, 2017). Hospitais e empresas de atenção à saúde também têm recorrido, em algumas situações, a consultores em ética. A consultoria em ética deve ser prestada por profissionais com qualificação e experiência na área em questão, de forma que emitam pareceres adequados a cada caso. A qualificação necessária para consultoria em ética inclui conhecimentos de bioética, dos códigos de ética profissional e da legislação em saúde (BRUM, 2017). As informações e decisões dos Comitês de Ética e dos consultores em ética são apenas orientadoras e, em geral, são relatadas ao médico responsável pelo acompanhamento do caso clínico. Elas têm por objetivo promover melhoria na atenção ao paciente e resolver questões éticas encontradas em casos individuais (BRUM, 2017). O fato é que a bioética tem a preocupação ética com as aplicações dos novos conhecimentos científicos e tecnológicos, em especial quando dirigidos à saúde humana; e a tentativa de refletir sobre e estabelecer os princípios norteadores das pesquisas e realizações da ciência. Os novos conhecimentos científicos e biotecnológicos adquiridos vêm tornando possível o desenvolvimento de novos fármacos, tratamentos, aparelhos e procedimentos médicos, além de novas formas de reprodução humana e da pesquisa em engenharia genética que permite a manipulação do genoma com fins terapêuticos. E, de fato, tais conhecimentos nos permitem vislumbrar, senão já usufruir, de significativos benefícios à saúde de um incremento da qualidade e da expectativa de vida. Vivenciamos, assim, um cenário de veloz concretização de muitos anseios: o alívio da dor, a superação da infertilidade, a libertação das doenças, o prolongamento da vida (MOLLER, 2009). No entanto, os atuais avanços das ciências biomédicas suscitam uma série de questionamentos de ordem ética, política e jurídica, acerca do modo de fazer ciência e acerca dos usos dos resultados das pesquisas e das novas tecnologias à saúde humana e ao ecossistema. 52UNIDADE III Bioética e Pesquisa Assim, a ciência e seus produtos saem do âmbito restrito de pesquisa, atuação e arbítrio do cientista (e dos laboratórios, indústrias farmacêuticas e institutos tecnológicos), para ganhar espaço nas reflexões, seja de estudiosos de áreas diversas, seja de um público leigo apto a imaginar ou perceber as conseqüências, vantagens e riscos, que o espantoso progredir da ciência pode trazer em múltiplas esferas de sua vida. Neste contexto, diante dos riscos comportados pelo uso arbitrário dos novos conhecimentos, e partindo-se de uma consideração da ciência como necessariamente indissociável do âmbito da ética, veio conformando-se uma particular noção de responsabilidade: a responsabilidade do cientista para com a sociedade, e a responsabilidade da sociedade de hoje para com a sociedade de amanhã (das gerações presentes para com as gerações futuras) (MOLLER, 2009). Os CEPs (Figura 1) devem ser multidisciplinares, ou seja, não mais da metade dos membros deve pertencer à mesma categoria profissional e é obrigatório ter um representante da comunidade. Esses representantes não serão remunerados. Os CEPs vão atuar analisando os projetos e os acompanhando, de modo a garantir e resguardar a integridade e os direitos dos voluntários. Assim, o pesquisador, ao desenvolver uma pesquisa que envolve seres humanos, deverá enviar o protocolo de pesquisa ao CEP, contendo um conjunto de documentos com a finalidade de comprovar os procedimentos científicos e éticos empregados. O projeto de pesquisa deve ser submetido ao CEP da instituição em que a pesquisa será realizada. Caso a instituição não possua um CEP, o pesquisador deverá submeter o projeto à apreciação do CEP de outra instituição. Ao ser aprovado um projeto, o CEP passa a ser co-responsável pelos aspectos éticos da pesquisa. A Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) é quem controla a atuação dos CEPs e os projetos de pesquisa de interesse à saúde pública e coletiva. Essa comissão é vinculada ao governo (BALLESTRERI, 2017). 53UNIDADE III Bioética e Pesquisa FIGURA 1 - COMITÊS DE ÉTICA EM PESQUISA FONTE: BRUM, 2017; VENTURA, 2015. A pesquisa científica, representa uma realidade que interfere em toda a sociedade, tornando-se de responsabilidade coletiva,tendo em vista a salvaguarda da dignidade da pessoa humana (BENTO, 2011). 54UNIDADE III Bioética e Pesquisa 4. CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO PARA A PRÁTICA PROFISSIONAL E PESQUISA CIENTÍFICA Para a realização de uma pesquisa, além dos itens citados anteriormente, a resolução também exige o respeito à autonomia do ser humano, delegando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) como documento que envolve os aspectos éticos básicos da pesquisa, que são (BALLESTRERI, 2017): 1. Esclarecer os indivíduos e proteger grupos vulneráveis e os legalmente incapazes (autonomia); 2. Ponderar entre riscos e benefícios (beneficência); 3. Comprometer-se com o máximo de benefícios e o mínimo de danos e riscos, garantindo que danos previsíveis serão evitados (não maleficência); 4. Relevância social da pesquisa com vantagens significativas para os sujeitos da pesquisa e a minimização do ônus para os sujeitos vulneráveis (justiça). 55UNIDADE III Bioética e Pesquisa SAIBA MAIS O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) é um documento elaborado pelo pesquisador em linguagem acessível à compreensão dos sujeitos da pesquisa. O TCLE deve ser obtido após o sujeito da pesquisa ou seu responsável legal estar suficiente- mente esclarecido de todos os possíveis benefícios, riscos e procedimentos que serão realizados, assim como fornecidas todas as informações pertinentes à pesquisa. Fonte: Schnaider, 2010. O TCLE visa à aceitação de um tratamento específico ou à experimentação, sabendo da sua natureza, das suas consequências e dos seus riscos, ele assegura todos os direitos e a autonomia dos sujeitos da pesquisa, inclusive o direito a indenizações, ressarcimentos, medicamentos, etc. O participante, após receber explicação completa sobre a natureza da pesquisa, os seus objetivos, os métodos, os benefícios previstos e os potenciais riscos, tendo concordado com estes, deverá assinar e receber uma cópia do TCLE e tem o direito de desistir a qualquer momento (BALLESTRERI, 2017). O TCLE deve ser redigido em linguagem clara e acessível, conter a justificativa, os objetivos e os procedimentos que serão utilizados na pesquisa e garantir o sigilo e a privacidade dos sujeitos quanto aos dados que possam identificá-los. Ele deverá ser elaborado pelo pesquisador responsável e aprovado pelo CEP. A pesquisa envolvendo seres humanos deverá observar alguns aspectos, como (BALLESTRERI, 2017): 1. Ser adequada aos princípios científicos e estar fundamentada na ex-perimentação prévia realizada em laboratórios, animais ou em outros fatos científicos; 2. Ser realizada somente quando o conhecimento que se pretende obter não possa ser obtido por outro meio; 3. Devem, os benefícios, sempre prevalecer aos riscos previstos; 4. Contar com o consentimento livre e esclarecido do sujeito da pesquisa; 5. Assegurar a confidencialidade, a privacidade e a proteção da imagem do pesquisado; 6. Respeitar sempre os valores culturais, sociais, morais, religiosos e éticos quando as pesquisas envolverem comunidades; 7. Comunicar às autoridades sanitárias os resultados da pesquisa sempre que necessário; 8. Assegurar a inexistência de conflito de interesses entre o pesquisador e os sujeitos da pesquisa ou patrocinador do projeto. 56UNIDADE III Bioética e Pesquisa LEITURA COMPLEMENTAR O artigo a seguir, fala sobre o TCLE e fatores que interferem na adesão: TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (TCLE): FATORES QUE INTERFEREM NA ADESÃO. Fonte: SOUZA, M. K. et al. Termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE): Fatores que interferem na adesão. São Paulo: [s.n.], 2013. Disponível em: https://www. scielo.br/j/abcd/a/PZYGqFG7mwwDH9sBzZjZ4Vw/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 10 out. 2021. Considera-se que toda pesquisa envolvendo seres humanos tem riscos. Levando isso em conta, esse tipo de pesquisa será admissível quando o risco se justifique pela importância do benefício esperado e que o benefício seja maior, ou no mínimo igual, a alternativas já estabelecidas para prevenção, diagnóstico e tratamento. Além disso, o pesquisador responsável deverá suspender a pesquisa imediatamente ao perceber algum risco ou dano não previsto no termo de consentimento. A responsabilidade de assistência integral às complicações e aos danos decorrentes dos riscos é do pesquisador, do patrocinador e da instituição (BALLESTRERI, 2017). 57UNIDADE III Bioética e Pesquisa CONSIDERAÇÕES FINAIS Chegamos ao final de mais uma unidade! Quanto aprendizado, não é mesmo? Foi possível compreender que a bioética, seus fundamentos e princípios são fundamentais para nortear as decisões clínicas e pautar os objetivos de pesquisas envolvendo seres humanos, bem como em outras áreas. Com os avanços nas metodologias e técnicas de biologia molecular, a ética é princípio essencial para a realização de ações responsáveis na pesquisa, de forma a assegurar a justiça, equidade e a dignidade das diversas relações, atividades e a avaliação metodológica adequada de pesquisas no campo da saúde. Você foi capaz de entender a importância e como funcionam os CEPs, bem como, o significado e aplicabilidade do TCLE, ferramentas necessárias para impedir o uso arbi- trário dos novos conhecimentos, garantindo a relevância e exequibilidade dos projetos de pesquisa, e assim, garantir a integridade e dignidade dos participantes, em todas as fases de execução da pesquisa. Resumindo, é fazer ciência e pesquisa baseados nos princípios éticos, com consciência, responsabilidade e respeito à vida! 58UNIDADE III Bioética e Pesquisa MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Introdução à bioética aplicada a pesquisas envolvendo seres humanos Autor: Sebastião Rogério Gois Moreira. Editora: CRV. Sinopse: Os laços entre ética e pesquisa, nem sempre compreendidos em sua profundidade, são o foco desde trabalho. Este livro possibilita conhecer as regulamentações, os princípios éticos que orientam a realização da pesquisa com seres humanos, o papel e funcionamento dos Comitês de Ética, o que por si já o torna leitura fundamental para qualquer pesquisador ou futuro pesquisador. Mas o autor vai mais além: com a sensibilidade de quem trilha há muitos anos os caminhos da pesquisa acadêmica e atua como psicólogo no sistema público de saúde, traz à reflexão uma ética do cuidado, do compromisso. FILME/VÍDEO Título: Gattaca Ano: 1997. Sinopse: Aborda um futuro no qual os seres humanos são criados geneticamente em laboratórios, e as pessoas concebidas biologicamente são consideradas “inválidas”. Vincent Freeman (Ethan Hawke), um “inválido”, consegue um lugar de destaque em uma corporação, escondendo sua verdadeira origem. Mas um misterioso caso de assassinato pode expôr seu passado. 59 Plano de Estudo: ● A bioética e os dilemas atuais; ● Bioética: cuidados paliativos e a terminalidade da vida; ● Neuroética: novos campos da bioética; ● Bioética: desafios contemporâneos. Objetivos da Aprendizagem: ● Discutir os avanços da tecnologia com o olhar da bioética e voltado para o ser humano em todas as suas características; ● Compreender o significado e importância dos cuidados paliativos como exemplo de dignidade humana no processo de morrer; ● Reconhecer novas abrangências da bioética e assinalar alguns aspectos iniciais da neuroética; ● Explorar algumas interfaces da bioética com as neurociências; ● Discutir e refletir os desafios da bioética nos dias atuais. UNIDADE IV Bioética e os Dilemas Contemporâneos Profª. Drª. Viviane Krominski 60UNIDADE IV Bioética e os Dilemas Contemporâneos INTRODUÇÃO Olá! Tudo bem? Como agir no âmbito da bioética, diante da evolução científica que nos encontramos e levando em consideração os avanços tecnológicos, a rapidez com que as informações são repassadas, sem esquecer dos conceitos e aspectos éticos? Bom, iniciamos esta unidade com exatamente a mesma questão! E assim, vamos no decorrer das reflexões, buscando respostase procurando entender que a bioética clínica surge nesse contexto dos avanços da tecnologia, mas com o olhar voltado para o ser humano em todas as suas características. Vamos na sequência dos estudos, buscar compreender o significado e importância dos cuidados paliativos como exemplo de dignidade humana no processo de morrer, enxergando que pessoa em fase terminal está viva e tem necessidades especiais que podem ser descobertas e atendidas pelos profissionais de saúde. E assim deve ser! Ainda nesta unidade, você vai reconhecer novas abrangências da bioética e assinalar alguns aspectos iniciais da neuroética, bem como, explorar algumas interfaces da bioética com as neurociências e suas implicações. Por último, vamos discutir e refletir os desafios da bioética nos dias atuais, destacando que “nem tudo o que é cientificamente possível é eticamente admissível”. É isso aí! Compreendeu? Bons estudos! 61UNIDADE IV Bioética e os Dilemas Contemporâneos 1. A BIOÉTICA E OS DILEMAS ATUAIS Como agir no âmbito da bioética, diante da evolução científica que nos encontramos e levando em consideração os avanços tecnológicos, a rapidez com que as informações são repassadas, sem esquecer dos conceitos e aspectos éticos? Por exemplo, a rapidez atual da comunicação faz com que entremos em contato diário com os avanços tecnológicos no tratamento dos pacientes e assim, cada vez mais, a formação profissional, vai deixando para traz a importância do relacionamento profissional e paciente, abandonando a sua caracterís- tica fundamental que é a de cuidar do doente e não só da doença (GIMENES, 2020). A bioética clínica surge nesse contexto, como uma forma de entender e discutir os avanços da tecnologia com o olhar voltado para o ser humano em todas as suas características. Por exemplo, a inseminação artificial trouxe um grande alento aos casais que por diversas causas não podiam concretizar o seu desejo de ter filhos. No entanto, com essa questão, surgiu problemas éticos de difícil solução. Um dos problemas, refere-se à inseminação homóloga, na qual óvulos e espermatozoides são doados pelo próprio casal dando origem a embriões que podem ser implantados no útero da doadora; isso fez surgir a questão do destino dos embriões congelados nas clínicas de reprodução assistida e também o número de embriões a serem implantados em cada gestação. Outra questão que se tornou motivo de discussão foi a da cessão temporária de útero conhecida como “barriga de aluguel” e todas as implicações que existem em tal procedimento. 62UNIDADE IV Bioética e os Dilemas Contemporâneos Já na inseminação heteróloga, na qual os gametas não pertencem ao casal, o surgimento dos bancos de espermatozoides que possibilitam a escolha do doador através da análise de suas características físicas, acaba conduzindo inevitavelmente a questões como a eugenia e a real paternidade do concepto (GIMENES, 2020). Por outro lado, a pesquisa científica com células tronco embrionárias humanas trouxe a expectativa do desenvolvimento da terapia gênica. No entanto, vem acompanhada de dilemas éticos e jurídicos relacionados a origem destas células retiradas de embriões humanos descartáveis nas clínicas de fertilização. Dar ao embrião humano o mesmo amparo jurídico que tem atualmente o nascituro é uma questão amplamente discutida em nosso meio. Outro item analisado pela bioética clínica é o aborto. Além das suas implicações legais, a discussão se torna mais ampla quando se coloca em pauta as teorias sobre a determinação do início da vida humana (GIMENES, 2020). REFLITA Quando ocorre o início da vida humana? Ela se daria após a junção dos gametas, após a nidação, após o desenvolvimento do sistema nervoso do embrião ou após o parto? A defesa de cada uma destas teorias está diretamente ligada ao conceito de aborto. Sob o ponto de vista legal, qual seriam as implicações da sua descriminalização em nosso país? Fonte: Gimenes, 2020. Outra questão, é o desenvolvimento da genética a partir do sequenciamento completo do genoma humano, isso trouxe a reflexão sobre questões éticas e legais como o uso de testes genéticos preditivos de doenças após o nascimento, a terapia gênica em células somáticas ou germinativas com a possibilidade da transmissão de genes modificados para gerações futuras. A importância do aconselhamento genético por profissionais capacitados tem se tornado um ponto fundamental na atuação da bioética clínica. A identificação biológica ao nascer, através do estudo do genoma, traz a possibilidade da criação de bancos de dados que podem ser utilizados em diversas ocasiões futuras (GIMENES, 2020). O transplante de órgãos traz à discussão os aspectos técnicos, legais e éticos que vão além do processo de captação. Surge a necessidade da definição do quadro de morte. 63UNIDADE IV Bioética e os Dilemas Contemporâneos O diagnóstico de morte encefálica passa a ser utilizado como condição fundamental para a eleição do doador e a sua confirmação por exames clínicos e complementares regidos por lei e resoluções do CFM. No que se refere à legislação existe todo um histórico que se inicia em 1963 na tentativa de disciplinar o transplante de órgãos no Brasil. Desde então, as normas foram modificadas culminando na Lei 9.434/1997 que estabelece os critérios técnicos para a doação de órgãos e tecidos entre vivos e “post mortem” (GIMENES, 2020). Outra questão é o aumento de idosos na população mundial e especialmente em nosso país, que trouxe a necessidade da inclusão do tema sobre envelhecimento nos estudos sobre humanização. A bioética passa a ser o fórum mais adequado para a reflexão e discussão sobre o envelhecimento. Abordamos não só as condições fisiológicas e clínicas, mas também as dificuldades do cuidador e a interação do paciente idoso com a família e com a sociedade. Reconhecer a sua vulnerabilidade e preservar a sua autonomia deve ser uma meta a ser alcançada. Envelhecer deve ser encarado como uma conquista, nunca como um demérito. A terminalidade da vida é o momento no qual o ser humano se defronta com angústias e medos. A bioética clínica se propõe a discutir amplamente, a forma de enfrentar as diversas situações relacionadas a tal estado (GIMENES, 2020). A distanásia que pode ser definida como a manutenção de procedimentos fúteis que prolongam o sofrimento do paciente na fase final da vida deve ser o ponto de reflexão a ser levantado por todos os envolvidos. Médico, família e pacientes tem o direito e o dever de ter acesso e discutir todas as informações antes da tomada de decisões. A ortotanásia, definida como a morte justa sem prolongamento artificial ou desnecessário da vida do doente, caracteriza o processo de humanização. Proporciona a morte digna permitindo que o paciente enfrente o período final da sua existência sem dor, com tranquilidade e aceitação. Este procedimento necessita, na maioria dos casos, da aplicação dos cuidados paliativos onde a atuação adequada requer a formação de grupos multiprofissionais. O suicídio assistido, atualmente adotado em alguns estados americanos, trouxe a reflexão sobre a eutanásia e a validade de tal procedimento como ato médico eticamente aceitável. Cada um desses itens citados, estão sob o olhar da bioética e exigem aprofundadas discussões e reflexões (GIMENES, 2020). 64UNIDADE IV Bioética e os Dilemas Contemporâneos Dentro deste contexto se insere a importância da relação médico paciente e o valor da comunicação, escuta e acolhimento como formas de humanização. Estes valores acabam sendo relegados a um segundo plano frente a velocidade da evolução biotecnológica. Existe, de fato, a necessidade da constante atualização diante de novos procedimentos e tratamentos o que faz com que a maioria dos profissionais da saúde deixem de enfocar a sua atuação nas características holísticas do paciente. A bioética não deve se ater apenas à tentativa deresolução de conflitos, mas, fundamentalmente, na capacidade de introduzir as informações necessárias para o desenvolvimento da reflexão sobre assuntos voltados a ética. Nesse contexto, a humanização deve ser encarada como um verdadeiro instrumento de trabalho, colocada em prática e essencial na formação de profissionais da saúde (GIMENES, 2020). 65UNIDADE IV Bioética e os Dilemas Contemporâneos 2. BIOÉTICA: CUIDADOS PALIATIVOS E A TERMINALIDADE DA VIDA Apesar de todo o avanço tecnológico de que dispomos na atualidade, temos ainda um número expressivo de enfermidades para as quais não é possível a cura. Quando um doente e sua família recebem a informação de que a doença não tem mais cura, muitos questionamentos e dúvidas surgem em suas vidas. Essa realidade costuma causar muita angústia a essas pessoas e seus familiares (MORAES, 2009). Para agravar essa situação, o paciente fora de possibilidades de tratamento e cura é comumente rotulado como “terminal”. Isso traz a falsa percepção de que nada mais pode ser feito em seu favor. Porém, a pessoa em fase terminal está viva e tem necessidades especiais que podem ser descobertas e atendidas pelos profissionais de saúde (KÓVACS, 1992). Por exemplo, quando falamos em dignidade humana no processo de morrer, na morte e no luto dos familiares, espera-se dos profissionais de saúde práticas pautadas nos princípios bioéticos para que sejam garantidos os cuidados de fim de vida (BARCHIFONTAINE, 2010). Esses cuidados se sustentam na assistência ativa e integral, prestada a pacientes com doença grave, progressiva e irreversível que não respondem a tratamentos curativos, buscando controlar a dor e outros sintomas, tendo em vista a prevenção precoce e o alívio do sofrimento nas dimensões física, emocional, social e espiritual. Trata-se de perspectiva centrada no enfermo e na família, que rompe o paradigma da atenção biologicista (direcionada exclusivamente para a doença) por compreender que nada é mais humano do que ajudar a aliviar o sofrimento da pessoa em cuidados paliativos e seus familiares (MEDEIROS et al., 2020). 66UNIDADE IV Bioética e os Dilemas Contemporâneos Nesse contexto, torna-se imprescindível a introdução de outras formas de atenção que propiciem a melhoria da qualidade de vida que resta, bem como o suporte necessário para o doente e sua família. Diante dessa realidade surge uma nova maneira de atuar perante esses pacientes sem perspectiva de cura. Esse conjunto de ações recebe a denominação de cuidados paliativos, definidos como os cuidados ativos e totais aos pacientes quando a doença não responde mais aos tratamentos curativos (FERREIRA et al., 2008). A Organização Mundial da Saúde, define que cuidados paliativos consistem na atenção promovida por uma equipe multidisciplinar, que busca a melhoria da qualidade de vida do paciente e seus familiares, diante de uma doença terminal, por meio da prevenção e alívio do sofrimento, da identificação precoce, avaliação impecável e tratamento de dor e demais sintomas físicos, sociais, psicológicos e também, espirituais. Cabe, portanto, ressaltar que, dentro desse conceito, os cuidados paliativos baseiam-se em ciências referentes às diversas especialidades do conhecimento médico reafirmando a necessidade de saber específico, desde a prescrição de medicamentos, decisões à respeito de medidas não farmacológicas, observando a importância da forma de atuação que envolve a interação com o paciente, sua adequação psicológica e social, principalmente, quando se lida com a dor, tendo desvelo quanto ao aspecto espiritual, respeitando crenças e valores da pessoa (MELLO, 2020). 67UNIDADE IV Bioética e os Dilemas Contemporâneos LEITURA COMPLEMENTAR Conflitos bioéticos nos cuidados de fim de vida Esta revisão integrativa da literatura tem por objetivo identificar os principais conflitos entre paciente em cuidados de fim de vida, familiares e equipe de saúde sob a ótica da ética principialista. Fonte: MEDEIROS, M. O. S. F.; MEIRA, M. V.; FRAGA, F. M. R.; SOBRINHO, C. L. N.; ROSA, D. O. S.; SILVA, R. S. Conflitos bioéticos nos cuidados de fim de vida. Rev. Bioét. 28 (1). 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/bioet/a/FGXnfknWjcgmnqVKJ- TKP5mw/?lang=pt. Acesso em: 10 nov.2021. 68UNIDADE IV Bioética e os Dilemas Contemporâneos Em uma visão ampla, considerando o indivíduo em sua integração biopsicossocial, agrega-se aos cuidados paliativos a questão da espiritualidade e a preocupação com a família, em relação a assistência prestada após a morte e durante o período de luto. É importante afirmar, que tais cuidados não se baseiam em protocolos e, sim, em princípios, não se falando mais em terminalidade, mas em doença que ameaça a vida (MELLO, 2020). É diante desse panorama que o serviço de cuidados paliativos surge, propondo uma nova filosofia de cuidado por meio da qual o profissional de saúde deve respeitar a autonomia do paciente enfermo, fora de possibilidades de cura, quando ele não quiser mais uma vida de sofrimento (BIFULCO, 2005). A assistência aos pacientes com doença terminal e a suas famílias, deveria ser prestada dentro de uma concepção multiprofissional de cuidados totais, ativos e continuados. A equipe multiprofissional deveria empenhar-se em aumentar a qualidade de vida restante de pacientes (e familiares) que lutavam contra uma enfermidade mortal (BRASIL, 2002). A palavra pallium, de origem greco-romana, está relacionada ao casaco de lã que era usado pelos pastores para se protegerem do clima adverso, estando, portanto, relacionada com o cuidado e proteção, não com medidas extraordinárias para combater a morte (KOVÁCS, 1999). O movimento dos cuidados paliativos trouxe de volta, no século XX, novamente a possibilidade de humanização do processo de morrer, opondo-se à ideia de morte como uma doença a ser curada a qualquer custo. Nesta perspectiva a morte deve ser vista como uma parte de um processo da vida, e, no adoecimento os tratamentos devem visar à qualidade de vida e ao bem-estar, mesmo quando a cura não é mais possível (BIFULCO e IOCHIDA, 2009). No contexto atual, paliativos são cuidados ativos totais prestados a pacientes e às suas famílias quando o doente já não se beneficiará de tratamento que cure sua doença. Nesse momento, o enfoque terapêutico é voltado para a qualidade de vida, o controle dos sintomas do doente e o alívio do sofrimento humano (BRASIL, 2002). O cuidado paliativo como um campo científico e não científico ao mesmo tempo, em que pessoas se organizam para lidar com suas próprias dificuldades e, também, das outras pessoas, acerca de uma etapa enigmática para a ciência, que é a morte (SILVA et al., 2010). O cuidado paliativo implica, principalmente, a relação entre as pessoas que cuidam e as que são cuidadas, sendo as intervenções técnicas secundárias à relação que se estabelece entre equipe de cuidados e pacientes (SIMONI e SANTOS, 2003). 69UNIDADE IV Bioética e os Dilemas Contemporâneos Para Remedi et al. (2009), nos cuidados paliativos a ação não é determinada apenas pela competência técnico-científica, apoiada no processo diagnóstico e terapêutico; a ação é também realizada por questões políticas, éticas, culturais, sociais e subjetivas. Dessa forma, o maior desafio enfrentado pela equipe multidisciplinar envolvida no processo, é encontrar no trabalho cotidiano, junto dos que recebem cuidados paliativos, um equilíbrio harmonioso entre a razão e a emoção. O termo paliativo é adotado na modernidade para o cuidado no fim de vida. É um termo ligado à morte ritualizada nos hospitais, embora não esteja necessariamente associado ao fim de vida medicalizado (SIMONI e SANTOS, 2003). Os cuidados paliativos abordam de forma objetiva a melhoria da qualidade de vida do paciente e de seus familiares diante de uma doença que ameaça a vida, por meio da prevenção, alívio de sofrimento, identificaçãoprecoce, avaliação, tratamento da dor e outros problemas físicos, psicológicos e espirituais (CLEMENTE e SANTOS, 2007). A origem do termo cuidado paliativo situa-se, na verdade, em uma discussão da prática médica sobre o lidar com pacientes considerados terminais. Desta forma, o cuidado paliativo difere do curativo pela noção médica de paciente “terminal” ou “fora de possibilidades terapêuticas” (SIMONI e SANTOS, 2003). Os princípios dos cuidados paliativos incluem: não apressar ou postergar a morte e, sim, oferecer alívio da dor e de outros sintomas angustiantes, integrar aspectos psicológicos e espirituais do tratamento do paciente, apoiando a família durante a doença do paciente e após sua morte (SILVA, 2000). Os alicerces dos cuidados paliativos abrangem três grandes áreas: honestidade e sinceridade em lidar com a morte e o morrer; comprometimento em avaliar todos os fatores necessários ao conforto do paciente enfermo e de seus familiares; o desejo de contemplar essas necessidades pelo envolvimento ativo com outros profissionais ca- pacitados para esse fim (MOHALLEN e RODRIGUES, 2007). A Bioética, no contexto dos cuidados paliativos, se coloca no patamar da autonomia da pessoa enferma, proporcionando-lhe, de acordo com a sua situação, oportunidades de decisão e de opções que lhe tragam satisfação. Cabe ao profissional de saúde, que tem a oportunidade de estar e permanecer com o paciente e seus familiares por um período relativamente largo, a responsabilidade e o compromisso de lhe proporcionar a beneficência por meio do processo cuidativo em enfermagem, que deve estar ancorado pela dimensão humanística. É imprescindível estar comprometido com o outro; neste caso, é o compromisso do profissional com o paciente (SILVA et al., 2010). 70UNIDADE IV Bioética e os Dilemas Contemporâneos 3. NEUROÉTICA: NOVOS CAMPOS DA BIOÉTICA A neuroética é um campo novo, mas altamente influente, no espectro internacional. Emergiu na interface da bioética com as novas descobertas e estudos das neurociências, psiquiatria, neurologia (ZOBOLI e PENA, 2017). A neurociência penetra tópicos historicamente ligados à filosofia, indo ao núcleo do que significa ser humano: qual é a natureza da moralidade? O que explica a perda de autocontrole? Quando as crenças são justificadas? Como se deve buscar o conhecimento? (LEVY, 2008). Há trabalhos na neurociência, e na psicologia também, que parecem demonstrar que a emoção tem papel significativo no julgamento moral, talvez maior do que a maioria das pessoas, filósofos e científicos ousavam pensar (LEVY, 2008). Com isso, a neuroética é um saber interdisciplinar e se refere a duas questões éticas interrelacionadas: a ética das neurociências e o estudo das bases neurais do comportamento moral (ZOBOLI e PENA, 2017). Como ética da neurociência e de outras ciências voltadas ao estudo da mente humana, a neuroética busca refletir e responder questões sobre a aplicação do conhecimento neurocientífico. Faz a análise das implicações éticas do desenvolvimento do conhecimento, da pesquisa, da tecnologia e da prática clínica em neurologia, neurocirurgia, psiquiatria. Em certa medida, esse âmbito é mais habitual na bioética, uma vez que está se difundiu por meio de reflexões acerca das questões éticas envolvidas na aplicação de novas tecnologias biomédicas (LEVY, 2008). Ao estudar as bases neurais do comportamento moral das pessoas, a neuroética é a “neurociência da ética”. Ou seja, o estudo das bases neurais do comportamento ético, livre-arbítrio, consciência e comportamento moral, integrando dados científicos duros a conceitos humanísticos (RAMOS-ZUÑIGA, 2015). 71UNIDADE IV Bioética e os Dilemas Contemporâneos SAIBA MAIS Neurociência: ciências experimentais que tentam explicar o funcionamento do cérebro, valendo-se de métodos e técnicas de pesquisa próprios das ciências como observação, experimentação e hipóteses. Epigenética: o conceito, surgido nos anos 1940 e reelaborado na década de 1990, identifica o modelo etiológico que compreende a vulnerabilidade às doenças como consequência da interação gene-ambiente. Nos estudos psiquiátricos, a genética e a variação ambiental não são fatores determinantes da doença, mas contribuições discretas e probabilísticas à formação psicopatológica. Fonte: Zoboli e Pena, 2017. O respeito pela autonomia, na bioética, tem pressuposto identidades pessoais relativamente estáveis ao longo do tempo, mas como ficará isso com as possibilidades abertas pelas novas tecnologias neurocientíficas de se fazerem modificações cognitivas que poderão implicar novas identidades para a pessoa? Ao ter boa parte de suas memórias reescritas, o que se dará com a autonomia da pessoa? Esse reescrever das memórias é violação da autonomia? O direito de as pessoas autonomamente direcionarem suas vidas incluirá o direito de se recriarem para enriquecer suas vidas? Quem decidirá quais bens possíveis com a neurociência são valiosos ou benéficos para a pessoa e a sociedade? Quem vai, e como vai aquilatar os danos de modificações cognitivas, se as pessoas podem, por exemplo, obter vantagens competitivas no local de trabalho? Será justo que alguns tipos de modificações sejam patrocinados por comunidades, empresas, militares e países para tornar as pessoas mais aptas e úteis para as tarefas de interesse dessas organizações ou estados? Será justo as pessoas se utilizarem de modificações que melhorem desempenho cerebral para manter-se empregado ou numa colocação de boa remuneração? Por que não melhorar as funções cerebrais se as melhorias físicas são buscadas pelas pessoas, e em certa medida até prescritas pelos profissionais de saúde, com exercícios, cirurgias plásticas? Essas modificações não atingirão a dignidade humana? (SHOOK e GIORDANO, 2014). 72UNIDADE IV Bioética e os Dilemas Contemporâneos Esses questionamentos mostram que neuroética, a fim de guiar de maneira prudente e responsável essas dinâmicas considerando a dignidade humana em um cenário mundial moralmente plural, não pode se furtar a indagações relevantes para a humanidade, pois os avanços da neurociência e as neurotecnologias possibilitarão mudanças profundas na condição humana, se não no ser humano (SHOOK e GIORDANO, 2014). Os avanços das neurociências abrem espaço para concretizar ainda mais um dos princípios éticos que norteiam a atividade científica e a prática da atenção à saúde: beneficiar. Aumentam as possibilidades de intervir de maneira mais efetiva sobre agravos como esquizofrenia, Alzheimer, demência senil, transtorno bipolar (CORTINA, 2011). Os avanços da neurociência se acompanham de significativos desafios éticos de natureza prática (monitorar e manipular a mente humana, quebrar sua privacidade, melhorar as funções motoras e psicológicas e entender as bases físicas da tomada de decisões) e filosófica (entendimento da relação cérebro--mente, pós-humanidade). É urgente, uma neuroética que almeje as diretrizes para o uso moralmente prudente das neurotecnologias (KIPPER, 2011). A neuroética precisa ser construção conjunta dos que se dedicam à bioética e às neurociências, considerando três chaves da ética moderna, como define Cortina (CORTINA, 2011): ética universal, política democrática e liberdade. 73UNIDADE IV Bioética e os Dilemas Contemporâneos 4. BIOÉTICA: DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS O respeito à vida deve prevalecer em toda a sua dimensão, independendo do momento evolutivo do ser humano, abrangendo desde a fase pré-implantatória do embrião até a valorização da dignidade daquele que já morreu. Novas esperanças e conflitos nascem com o desabrochar da biotecnologia, pois “nem tudo o que é cientificamente possível é eticamente admissível”. Daí advém a importância do debate bioético, da regulamentação do biodireito daquilo que a biotecnologia constrói (MALUF, 2020). A bioética relaciona-se intimamente com os movimentos sociaise com a evolução das ciências, da tecnologia e do pensamento que se transmutam com a evolução histórica dos tempos; ao biodireito coube a regulamentação dos temas explorados pela bioética introduzidos pela biotecnologia, que operam numa velocidade astronômica, alterando a feição do cotidiano. Assim, ao se fazer um balanço dessas grandes realizações e do legado que se está deixando para as futuras gerações, começa-se a pensar como estará o mundo no futuro; quais serão os valores dominantes; como estarão equacionadas as condições de vida e saúde da humanidade. E por fim, que desafios enfrentarão as gerações futuras? (PESSINI, 2002).Busca-se desta forma dar um novo sentido à existência e à experiência humana, destaca-se cada vez mais o encontro da felicidade e da realização pessoal, raiz máxima da condição humana. 74UNIDADE IV Bioética e os Dilemas Contemporâneos É fundamental o estabelecimento de limites éticos e operacionais bem definidos para que as pesquisas científicas possam progredir sem danificar o meio ambiente, sem ultrapassar as barreiras da dignidade, sem comprometer o futuro das espécies, suplantando assim os interesses individuais em prol do interesse da coletividade, evitando desta forma uma nova maneira de sujeição do homem pelo homem, agora do ponto de vista genético, quando falamos em eugenia, em mapeamento genético, na relativização dos papéis familiares (MALUF, 2020). O respeito à vida humana tomou uma nova dimensão no mundo contemporâneo, tendo em vista vários aspectos, como a valorização da dignidade humana, o momento histórico vigente, a evolução dos costumes, o diálogo internacional, a descoberta de novas técnicas científicas, a tentativa da derrubada de mitos e preconceitos, fazendo com que o indivíduo possa, sentir-se em casa no mundo (MALUF, 2010). 75UNIDADE IV Bioética e os Dilemas Contemporâneos CONSIDERAÇÕES FINAIS Estamos chegando ao final de nossa última unidade. Já sabemos o que é bioética e como ela se aplica no mundo globalizado e nos conflitos do dia-a-dia. Tivemos acesso às questões sobre a ética da responsabilidade pública e individual, seus impactos e perspectivas e a importância da bioética, seus fundamentos e princípios na prática profissional relacionada à realização de pesquisas científicas e o papel dos Comitês de Ética em Pesquisa como órgão responsável para avaliar a relevância e exequibilidade dos projetos de pesquisa, de forma a garantir o bem-estar dos indivíduos, a equidade e a justiça social. Agora, ao longo desta unidade discutimos os desafios e o olhar da bioética diante dos avanços biotecnológicos, as novas abrangências da bioética, os cuidados paliativos no final da vida, mostrando sempre que a vida é nosso bem maior e o ser humano, o protagonista desse processo evolutivo, e que, portanto, o respeito à vida, deve ter uma nova dimensão no mundo contemporâneo, tendo em vista a valorização da dignidade humana, seu bem-estar e direito à autonomia nas decisões. É fundamental o estabelecimento e cumprimento de limites éticos num mundo globalizado e quase “sem limites científicos”. Assim, a bioética e seus princípios tornam-se essenciais para impor valores e reflexões diante de questões de ética e moral que assolam o cotidiano, valorizando e respeitando sob todos os aspectos, a dignidade e a vida humana! 76UNIDADE IV Bioética e os Dilemas Contemporâneos MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Bioética no século XXI: Anseios, receios e devaneios Autor: Leocir (Leo) Pessini, Christian de Paul de Barchifontaine, William Saad Hossne. Editora: Edições Loyola. Sinopse: Estamos diante de um texto escrito por autores, amigos morais (segundo Engelhardt) que trabalham juntos as questões de Bioética há mais de duas décadas, um percurso iniciado em 1995, e que têm distintos backgrounds em termos de conhecimento, formação científica e trabalho profissional. Longe de antagonismos em virtude dessas diferenças, nutrimos ao longo desse tempo uma sintonia e um sincronismo em assuntos de interesse da Bioética, como a promoção, proteção e defesa dos valores éticos relacionados com a vida, no sentido mais amplo possível, e os cuidados humanizados na esfera do sistema de saúde e do exercício profissional das diferentes profissões da saúde. Este texto celebra 20 anos de reflexão, militância, amizade e caminhada nas sendas desafiadoras da Bioética contemporânea. Nossa condição humana e profissional representa, desse modo, a característica fundamental da Bioética: um saber de cunho inter, multi e transdisciplinar. FILME/VÍDEO Título: Menina de ouro Ano: 2004. Sinopse: O filme Menina de ouro conta a história de Maggie Fitzgerald, interpretada por Hilary Swank, que enfrenta mais que apenas preconceitos na tentativa de construir uma carreira no boxe. A garota vai à academia de Frankie Dunn (Clint Eastwood), treinador experiente que agenciara grandes nomes do esporte, em busca do sonho, mas ele a rejeita por ser mulher e estar acima da idade ideal. Mesmo assim, Maggie utiliza o ginásio para treinar, diariamente, e recebe o apoio de Scrap (Morgan Freeman), zelador da academia e único amigo de Frankie. Vencido pela insistência, Frankie aceita treiná-la, mas, após tornar-se uma lutadora de grande potencial, Maggie sofre uma lesão que a deixa completamente paralisada. Neste momento, o filme toca em um assunto ainda delicado: a eutanásia. O destino da garota está nas mãos de Frankie: deixá-la viver, porém infeliz; ou autorizar a morte assistida e tirá-la do sofrimento de não poder lutar. 77 REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE, A. Direitos Humanos dos Pacientes. Curitiba: Juruá, 2016. ALBUQUERQUE, A. Os Direitos dos Pacientes no Brasil: análise das propostas legislati- vas e o papel do Sistema Único de Saúde. Rev Bras Bioética. 15(e16):1-24. 2019. 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Destacamos também, a necessidade e importância dos códigos de conduta em diversas áreas, ou seja, os deveres, os princípios e regras inerentes a uma determinada profissão. Assim, todos os profissionais estão sujeitos à sua própria deontologia para regular o exercício da sua profissão de acordo com o código de ética da sua categoria. Os códigos deontológicos referem-se estritamente à moralidade de uma profissão e ao comportamento exigido por um profissional, e, que norteiam a conduta e reflexões acerca de um conflito. Nesse contexto, você viu também como é necessário a regulamentação de leis que respeitem os direitos do paciente e assegurem sua autonomia na tomada de decisão no que diz respeito ao seu corpo e sua vida. Tudo isso, tem ação direta na ética da relação profissional-paciente, respeitando os princípios bioéticos da autonomia (por meio do consentimento livre e esclarecido), beneficência, não maleficência e justiça, objetivando sempre o melhor cuidado dedicado ao paciente. Vimos que a bioética é essencial na orientação de condutas individuais e coletivas dentro da ciência e pesquisa, como promotora de conceitos éticos e morais, para garantir a realização de ações responsáveis, de forma a assegurar a dignidade das diversas relações, atividades e a avaliação metodológica adequada de pesquisas no campo da saúde. Nesse contexto, falamos da função e importância dos comitês de ética em pesquisa, bem como, suas atribuições como órgão responsável na análise dos aspectos metodológicos, da relevância e exequibilidade dos projetos de pesquisa, de forma a garantir o bem-estar dos indivíduos, a equidade e a justiça social. 86 Compreendemos ainda, os desafios da bioética diante dos avanços tecnológicos e da rapidez com que as informações são divulgadas, pois devemos acompanhar estas evoluções sem nos esquecer dos conceitos e aspectos éticos e da importância do relacionamento profissional e paciente, pois não se deve abandonar a sua característica fundamental que é a de cuidar do doente e não só da doença. Assim, a bioética clínica surge nesse contexto, como uma forma de entender e discutir os avanços da tecnologia com o olhar voltado para o ser humano em todas as suas características, com valores e total dignidade. Finalizamos esta disciplina, destacando o significado e importância dos cuidados paliativos como exemplo de dignidade humana no processo de morrer; pois quando estamos falando de final da vida, morte e no luto dos familiares, espera-se dos profissionais de saúde práticas pautadas nos princípios bioéticos para que sejam garantidos os cuidados adequados, com total empatia e demonstrando um respeito incondicional à vida humana nesse momento tão delicado. Agora é com você! Aplique e pratique todo conhecimento conquistado até aqui! Até uma próxima oportunidade. Muito Obrigada! +55 (44) 3045 9898 Rua Getúlio Vargas, 333 - Centro CEP 87.702-200 - Paranavaí - PR www.unifatecie.edu.brresposta foi sim e de forma geral, a maioria das pessoas já vivenciou uma questão como essa! É nesse contexto que a Bioética adquire espaço e suas fundamentações e reflexões se tornam fundamentais. Mas o que é bioética e como ela se aplica no mundo globalizado e nos conflitos do dia-a-dia? É sobre exatamente isso que abordaremos nesta unidade. Vamos nos familiarizar com conceitos e princípios da Bioética e como ela vem para fundamentar e solucionar conflitos que envolvam questões como valores, ética e moral. A Bioética tem o objetivo de amenizar os enfrentamentos de conflitos que surgirão na vida profissional e na sociedade de uma forma geral. Para isso, vamos mergulhar em um universo de conceitos, definições e princípios que serão fundamentais para o embasamento científico e a possibilidade de reflexões e argumentações sobre esse tema tão relevante no mundo atual! SEJA BEM VINDO (A) E BOM ESTUDO! 6UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética 1. INTRODUÇÃO E NOÇÕES FUNDAMENTAIS: VALOR, MORAL E ÉTICA “Será que minha conduta profissional está fundamentada em princípios éticos?” ou ainda: “Estou agindo da maneira mais adequada?”. Você já passou por uma situação parecida de ter que fazer essas perguntas diante de um acontecimento? Eu já. Como responder à estas questões ou melhor, como agir diante de situações que envolvem valores, ética, moral e conduta? Nesse contexto, a Bioética tem como objetivo facilitar o enfrentamento de questões éticas/bioéticas que surgirão na vida profissional. Sem esses conceitos básicos, dificilmente alguém consegue enfrentar um dilema, um conflito, e se posicionar diante dele de maneira ética. Assim, esses conceitos devem ser muito claros e fundamentados, pois a ideia não é impor regras de comportamento, pois as leis existem justamente para isso; a ideia é ter subsídios para que as pessoas possam pensar e saber se comportar nas diferentes relações e situações da vida profissional em que surgem conflitos éticos (JUNQUEIRA, 2020). Para Cohen e Segre (2002) a ética ou a condição de vir a ser ético, leva as pessoas a pensarem que signifique apenas a competência para ouvir-se o que “o coração diz”. Na verdade, os autores acreditam que essa seja apenas uma característica de sensibilidade emocional, reservando-se o “ser ético” para os que tiverem a capacidade de percepção dos conflitos entre “o que o coração diz e o que a cabeça pensa”, podendo-se percorrer o caminho entre a emoção e a razão, posicionando-se na parte desse percurso que se considere mais adequada ou seja, colocando a ética em prática (COHEN e SEGRE, 2002). 7UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética Diante da Bioética das Relações, a pessoa não é moralmente inata, sua estrutura moral coincide com seu desenvolvimento. Reconhecendo que o ser humano nasce sem moralidade ou capacidade para funções sociais, ambas as características serão combinadas no processo de se tornar humano que cada indivíduo terá que passar. Portanto, como premissa, podemos considerar que cada indivíduo só se torna virtuoso quando consegue pensar a moralidade em seu aspecto social como ser humano. O pensamento ético torna- se assim uma tarefa diária quando se está no mundo contemporâneo, pensando e agindo como um ser humano (LEUTÉRIO et al., 2020). A Bioética está relacionada com a clareza de conceitos como valor, moral e ética; não dá para abordar questões bioéticas sem rever e reafirmar esses conceitos (LEUTÉRIO et al., 2020). Conceitos como valor, moral e ética vão sendo adquiridos e vivenciados de acordo com a experiência de vida de cada um e sua realidade (COHEN e SEGRE, 2002). Todos somos influenciados pelo ambiente em que vivemos, histórico, cultural ou social. Para construir uma mentalidade bioética completa, precisamos conhecer e compreender essas influências, afinal, não podemos excluí-las de nossa vida! (JUNQUEIRA, 2020). O conceito de valor está associado ao conceito de preferência ou escolha - o que é valioso em um determinado momento em um determinado grupo. A ética é um sistema de valores que conduz a padrões considerados justos por uma determinada sociedade, grupo ou raça (COHEN e SEGRE, 2002). Alguns autores argumentam que a ética começa quando as pessoas entendem que certos comportamentos são obrigatórios ou inaceitáveis justamente por seus efeitos sobre os outros e, portanto, sobre a sobrevivência do próprio grupo. Nesse contexto, a ética implica análise e reflexão crítica sobre os valores. É uma ação, um movimento de dentro para fora; surge dos valores intrínsecos de cada indivíduo para ajudá-lo a definir o que é certo e errado, justo ou injusto, o bem ou o mal em uma ação humana (LEUTÉRIO et al., 2020). REFLITA Para Clotet (1986), ser ético, implica principalmente, na busca do desenvolvimento pessoal, ou seja, permitir que as pessoas se realizem, com uma ética diretamente ligada à perfeição humana. O que você pensa sobre isso? Ou ainda, a ética é a ciência que estuda o comportamento humano e a moral é a qualidade desse comportamento, do ponto de vista do bem e do mal (WALKER, 2015). Conseguiu compreender essa relação do bem e do mal? Fonte: Clotet, 1986; Walker, 2015. 8UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética Pode-se dizer que a ética é antes de tudo um processo de reflexão sobre decisões e atitudes anteriores diante do conflito de valores. A ética e a moralidade são preceitos fundamentais que regem as ações e decisões de um indivíduo ao longo da vida, mas, ao contrário da moralidade, a ética não estabelece regras. A moralidade é um padrão humano. Em seu sentido mais profundo, ética é como cada indivíduo vive em sociedade, como ele interpreta e reage à vida. Em vida, o homem constrói sua própria dimensão moral: definindo e fortalecendo seus valores, desenhando seu caráter (COHEN e SEGRE, 2002). Assim, Warren T. Reich, na Encyclopedia of Bioethics, define bioética como o estudo sistemático do comportamento humano, nas ciências da vida e na saúde, quando esse comportamento é visto à luz de valores e princípios morais. No entanto, essa definição é caracterizada por uma bioética aplicada, o que não significa uma nova ética ou sistema ético, mas um sistema reflexivo (LEUTÉRIO et al., 2020). O estudo e fundamentação em princípios bioéticos é importante para que se consiga responder às questões como as apresentadas acima e apresentar uma conduta baseada em princípios éticos e morais. Muitas são as situações que envolvem a bioética vivenciada no dia-a-dia de pessoas durante o exercício profissional. Um exemplo atual, refere-se às questões bioéticas postas para os países diante da pandemia mundial da Covid-19. Dentre estas, talvez o mais óbvio esteja relacionado ao gerenciamento de recursos escassos e, portanto, à necessidade de se estabelecer critérios para a seleção de pacientes a serem internados em terapia intensiva. O rápido aumento de pessoas infectadas que requerem hospitalização em países como Itália, Espanha e Estados Unidos, Brasil e muitos outros; impactou e alarmou, ao mostrar a nítida adoção de parâmetros, evidenciando a existência da “escolha de quem vive e de quem morre” (GONÇALVES e DIAS, 2020). REFLITA As diretrizes produzidas pela associação britânica British Medical Association, por exemplo, orientam que pacientes idosos ou outros com maior probabilidade de morrer, assim como os que precisem de cuidados intensivos por mais tempo, devem ser secundarizados na avaliação de viabilidade para a assistência à saúde. (GONÇALVES; DIAS, 2020). Diante de situações como esta, nem sempre as respostas estão claras: o que é certo ou errado? Fonte: Gonçalves e Dias, 2020. 9UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética Existe, portanto, a necessidade de debater questões que colocam em risco conceitos e as condutas éticas diante de situações inusitadas e de grandes proporções como a pandemia da COVID-19 e tantas outras questões que envolvem aética e a moral. O que fazer? Como agir? São questões que muitas vezes para obter as respostas corretas não se pode ou muito menos se consegue fazer sozinho, havendo a necessidade da criação de um comitê bioético multidisciplinar, e que possa assessorar as decisões estratégicas neste grave momento pandêmico em que não podemos permitir que a escolha por quem vive e quem morre incida, mais uma vez, sobre os segmentos historicamente mais invisíveis ou vulneráveis de nossa sociedade (GONÇALVES e DIAS, 2020). Bom, agora que você já sabe o que é bioética e foi capaz de compreender sua importância em diversos aspectos da sociedade, iremos avançar para o tópico II! Nele você terá uma visão geral sobre a história da Bioética e reflexões acerca de seus conceitos e fundamentos! Vamos estudar juntos? 10UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética 2. HISTÓRICO E REFLEXÕES O termo bioética foi utilizado pela primeira vez em 1970 pelo americano Van Rensselaer Potter (Figura 1), em texto publicado na revista Perspectives in Biology and medicine, e a seguir, em 1971, no livro Bioethics: Bridge to the future, com o objetivo de contribuir para o futuro da humanidade e promover a formação de um novo campo do conhecimento. Potter propôs a Bioética, destacando que, como alguns conflitos entre ciência e humanidade levam à insegurança, é preciso fazer uma ponte para o futuro, por meio da ética, para construir outro campo do conhecimento como elo entre dois saberes (LEUTÉRIO et al., 2020). FIGURA 1 - VAN POTTER E INTRODUÇÃO DO TERMO BIOÉTICA Fonte: Junqueira, 2021. Leone e colaboradores (2001), no entanto, citaram a bioética na década de 1970 como um fenômeno cultural nascido da necessidade, cada vez mais presente na sociedade contemporânea, de transições políticas e societárias de acordo com proposições éticas autênticas. 11UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética Com a expansão do conceito, a bioética atingiu seu apogeu com ampla popularidade, diretamente relacionada ao desenvolvimento da mídia e ao poder das pessoas de intervir efetivamente nos processos humanos da natureza, principalmente no nascimento e na morte. Em 1975, na Universidade de Washington, Andre Hellegers institucionalizou o termo como uma área acadêmica do conhecimento, possibilitando o estudo, a disseminação e a aplicação desse conhecimento gerado, bem como um significativo movimento social e transdisciplinar nas universidades e na mídia (LEUTÉRIO et al., 2020). Um aspecto bastante importante a ser considerado para que você consiga construir a reflexão bioética de maneira adequada é compreender qual a influência histórica exercida desde a época de Hipócrates (Figura 2). É necessário, portanto, retomar alguns conceitos históricos para entender a influência dessa época. No século IV a.C., a sociedade era formada por diversas castas, ou seja, camadas sociais bem definidas e separadas entre si que faziam com que ela fosse “piramidal”. Mas o que isso significa? Isso quer dizer que, na base da pirâmide, encontrava-se à maior parte das pessoas: os escravos e os prisioneiros de guerra, que nem mesmo eram considerados “pessoas”. Eles eram tratados como objetos e sem direito algum. Logo acima deles, numa camada intermediária e, portanto, em número um pouco menor, estavam os cidadãos. Os cidadãos eram os soldados, os artesãos, os agricultores, e estes tinham direitos e deveres. No ápice da pirâmide e, todavia, um número bastante reduzido de pessoas, estavam os governantes, os sacerdotes e os médicos (JUNQUEIRA, 2021). FIGURA 2 - HIPÓCRATES: “O PAI DA MEDICINA” Fonte: Junqueira, 2021. A importância desse resgate histórico está em enfatizar que os médicos da época eram superiores aos demais, e essa diferença de posição também se manifesta em uma “degradação de dignidades”. Isso significa que os médicos (semideuses), mesmo que pretendam salvar os enfermos, são pessoas superiores, melhores que os outros (são mais valiosos que os outros). Ao longo da história, a estrutura da sociedade não é mais piramidal, mas essa postura “paternalista”, ou seja, na qual os profissionais da saúde são considerados “pais”, ou melhores que os seus pacientes ainda é comumente concebida até os dias de hoje. 12UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética Os profissionais de saúde possuem conhecimentos técnicos superiores aos dos pacientes, mas não são mais dignos do que os seus pacientes, nem valem mais do que eles (como seres humanos). Quando os profissionais se consideram superiores (em dignidade) aos seus pacientes, também temos uma atitude patriarcal. Esses profissionais paternalistas são aqueles que não respeitam a autonomia do paciente, não permitindo que ele expresse seus desejos. Por outro lado, alguns pacientes nem mesmo percebem que podem questionar o especialista, pois partem do pressuposto de que “quem sabe, quem decide e quem escolhe é o médico” (JUNQUEIRA, 2021). SAIBA MAIS Você sabia que em 1929, foi estabelecido o primeiro Código de Ética no Brasil? Recebeu o nome de Código de Moral Médica. Esse código era a versão em português aprovado pelo VI Congresso Médico Latino-Americano que foi realizado na cidade de Havana, em Cuba, em 1922 e com objetivo de contribuir para a consolidação de uma rede científica latino-americana. Com ele, surgia a possibilidade de modificar efetivamente a história natural das doenças. Um novo tipo de profissionalismo surgia com médicos mais atentos aos pacientes (GRINBERG, 2015). Para saber mais acesse: https://portal.cfm.org.br/ images/stories/documentos/EticaMedica/codigomoralmedica1929.pdf. Fonte: Grinberg, 2015. O termo “bioética” surgiu nas últimas décadas, dos grandes avanços tecnológicos no campo da biologia, e das questões éticas decorrentes das descobertas e da aplicação das ciências biológicas, possuem grande poder de intervenção na vida e na natureza. A partir dos anos 80, com o advento da AIDS, a Bioética ganhou impulso definitivo, obrigando à profunda reflexão “bioética” em razão das consequências advindas para os indivíduos e a sociedade. O comportamento ético em atividades de saúde não se limita ao indivíduo, devendo ter também, um enfoque de responsabilidade social e ampliação dos direitos da cidadania, uma vez que sem cidadania não há saúde (KOERICH et al., 2005). 13UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética A Bioética exige muito conhecimento e estudo em diversas áreas, conhecidas como interdisciplinares, em especial, aos conceitos da Biologia e do Direito, uma vez que ambos buscam proteger a vida humana, evitando assim, que a ciência evolua sem regramento ético e com a utilização de seres humanos por outros seres humanos em experimentações sem regras, valores ou preocupação com as consequências desses atos, como aconteceu, infelizmente, nos campos de concentração nazistas durante as duas grandes Guerras Mundiais (RODRIGUES, 2020). No Brasil, a Bioética surgiu em meados dos anos 90 como uma nova área do conhecimento, com uma abordagem religiosa muito forte e aliada a conceitos morais, embora não seja a única abordagem apresentada pela bioética. A partir desse novo conhecimento, iniciou-se também uma necessidade maior de olhar para o ser humano de uma maneira mais autônoma e humanizada e assim, valorizar seus direitos, sua autonomia, garantindo e valorizando verdadeiramente, a dignidade da pessoa humana sob o olhar da Bioética (RODRIGUES, 2020). Ainda nessa perspectiva, Hans Jonas apresentou o conceito de ética da responsabilidade, ou seja, todos têm responsabilidade pela qualidade de vida do ser humano, aplicando o conceito de risco e a necessidade de avaliá-lo com responsabilidade (ZANCANARO, 2000). Por isso, as discussões e reflexões da Bioética não se limitam aos grandes dilemas éticos atuais como o projeto genoma humano, o aborto, a eutanásia ou os transgênicos. A Bioética faz uma leitura crítica, conceitual, reflexiva e de igualdade sobreoutras áreas e ações do homem, incluindo também os campos da experimentação com animais e com seres humanos, os direitos e deveres dos profissionais da saúde e todos os envolvidos, as práticas psiquiátricas, pediátricas e com indivíduos inconscientes e, inclusive, as intervenções humanas sobre o ambiente que influem no equilíbrio das espécies vivas e muito mais. A Bioética não está restrita às Ciências da Saúde e sim, desde que surgiu, abrange todas as áreas do conhecimento. A Bioética tem a ver com a vida e com um enfoque interdisciplinar ou, talvez até transdisciplinar (KOERICH et al., 2005). No próximo tópico abordaremos o modelo principialista da Bioética e seus princípios. Já ouviu falar sobre ele? Convido você a mergulhar neste universo de conhecimento e reflexões! Bom estudo! 14UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética 3. ESTUDO DO MODELO PRINCIPIALISTA A Bioética é fundamentada em princípios que são por muitos estudiosos e pesquisadores denominados basilares ou princípios fundamentais da bioética. Esses princípios foram propostos no Relatório Belmont em 1978 e têm como objetivo fornecer orientação adicional para a pesquisa científica em seres humanos. Em 1979, essas diretrizes, inicialmente propostas apenas para pesquisas científicas, foram estendidas também à área médica, abrangendo não apenas os médicos, mas também todos os profissionais de saúde (RODRIGUES, 2020). Esses princípios são modelos explicativos em bioética para que diferentes autores possam desenvolver suas propostas e estabelecer uma classificação desses diferentes modelos para permitir uma visão global de todas as diferentes perspectivas teóricas que fundamentam o pensamento bioético contemporâneo. O principialismo, o modelo que vamos discutir neste capítulo, estabelece códigos de conduta no campo das ciências da vida e da saúde, com base em seus fundamentos filosóficos (BEUCHAMP e CHILDRESS, 2002; DINIZ, 2002). O principialismo (Figura 3) foi gerado para alicerçar princípios éticos para as práticas na área das ciências da vida e da saúde em função dos abusos cometidos com seres humanos nesta área e da ausência de normas éticas que coibissem tais incorreções de conduta (Diniz, 2002) e se estabeleceu como modelo explicativo da bioética a partir da obra Princípios da Ética Biomédica de Beauchamp e Childress (2002). 15UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética Este modelo presenta quatro princípios gerais para orientar eticamente a conduta no campo da biomedicina e são descritos a seguir (RODRIGUES, 2015; RODRIGUES, 2020): 1. Princípio da autonomia: diz respeito à relação médico-paciente e determina que seja vedado ao médico executar qualquer procedimento sem o esclarecimento e consentimento prévios do paciente ou responsável, em caso de incapacidade deste, exceto em situações de perigo iminente de morte. Esse princípio assegura ao paciente o direito ao autogoverno, a autodeterminação sobre a sua integridade biopsicossocial, à liberdade de escolha e requer que o indivíduo esteja em estado de consciência plena, caso contrário, as decisões devem ser tomadas por um tutor legal. É o princípio da autonomia da vontade do paciente e talvez seja este o princípio que provoque mais influência sobre a relação médico x paciente, justamente por ser o princípio que fundamenta o exercício da atividade médica. O indivíduo tem, em suas mãos, o poder de decisão sobre a sua vida. O paciente quando capaz e consciente de seus direitos e deveres é livre para decidir o que deseja ou não consentir autonomamente e assim gerenciar suas vontades. Evidente que estamos falando de situações em que há a possibilidade de uma escolha consciente, pensada e estruturada do paciente e não de casos, no qual o profissional da saúde não dispõe de tempo para avaliar se o paciente aceitaria ou não o procedimento indicado. 2. Princípio da beneficência: esse princípio estabelece que o médico deva ponderar entre riscos e benefícios para o paciente e se comprometer em promover o máximo de benefícios e o mínimo de malefícios. O Princípio da Beneficência é também conhecido como princípio hipocrático da beneficência e que resumidamente orienta o profissional a sempre fazer o bem ao seu paciente. O profissional deve potencializar os benefícios do tratamento e evitar ao máximo a ocorrência de danos ao paciente. 3. Princípio da não maleficência: estabelece que o médico deva evitar causar qualquer tipo de mal ao paciente, prevenindo e evitando riscos e danos; expressa puramente a obrigatoriedade do profissional da saúde de não causar dano a saúde de seu paciente. Ao médico, cabe a obrigação de empregar todos os seus conhecimentos, técnicas e recursos disponíveis no intuito de beneficiar o paciente e jamais exercer o contrário. 16UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética O que diferencia a beneficência a não maleficência é exatamente a postura do profissional, em que de um lado ele deve agir em total conformidade com os interesses individuais do paciente, desde que, para isso, não necessite cometer nenhum ato ilícito e de outro lado, o dever de evitar um dano ao paciente (RODRIGUES, 2020). 4. Princípio da justiça: esse princípio estabelece que a sociedade deva promover com equidade a distribuição de bens e benefícios, assegurando a todos o acesso ao tratamento em condições equânimes. O princípio da justiça ou Ideário da Justiça, como é assim conhecido exatamente por ser dever do profissional da saúde oferecer a todo paciente um atendimento imparcial, equitativo e livre de julgamentos ou crenças pessoais. Neste princípio, a máxima constitucional deve ser sempre praticada: “Todos são iguais perante a lei”, artigo 5º, caput, da Constituição Federal do Brasil de 1988, e assim, devem ser igualmente respeitados quando necessitados de atendimento médico. Não cabe ao profissional de saúde agir com parcialidade, pelo contrário, a ele é exigido que aja com imparcialidade, equidade, livre de preconceitos, crenças religiosas, diferenciações sociais e/ou culturais. FIGURA 3 - BASES DO MODELO PRINCIPIALISTA DA BIOÉTICA: QUAL PRINCÍPIO DEVO ES- COLHER EM CASO DE CONFLITO ENTRE ELES? QUAL É O PRINCÍPIO MAIS IMPORTANTE? Fonte: ETHOS UFMG. Modelos Explicativos em Bioética. 2016. Disponível em: https://ethosufmg.wor- dpress.com/2016/05/05/modelos-explicativos-em-bioetica/. Acesso em: 10 nov. 2021. 17UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética O que todos esses princípios sugerem? Em qual se basear? A resposta é simples: todos eles são alicerces para a bioética. O importante é compreender que é responsabilidade dos profissionais da área da saúde e dos advogados especialistas na área médica e proteção à saúde lembrar sempre que não há hierarquia, ou a existência de um que seja melhor, entre os princípios apresentados, embora, não seja raro a existência de conflito envolvendo dois princípios ou mais com distintas interpretações e julgamentos. O adequado é compreender que quando situações divergentes surgirem, o ideal é fazer uma análise criteriosa do caso concreto com a presença das partes envolvidas (sempre que possível) ou de seus representantes, para que juntos construam uma solução que melhor atenda aos interesses dos envolvidos e com o menor prejuízo aos conflitantes. Dessa forma, é importante reforçar a valorosa importância dos Conselhos e Comitês de Bioética nos Hospitais, composta sempre por profissionais conhecedores e habilitados a facilitar resoluções de conflitos (RODRIGUES, 2020). Você observou que dentro do modelo principialista não há hierarquia entre seus princípios e também não existe um que seja melhor, concorda? No próximo tópico vamos correlacionar tudo o que discutimos até agora para entender qual é o panorama da Bioética no cenário globalizado! Vem comigo! 18UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética 4. PANORAMA DA BIOÉTICA NO CENÁRIO GLOBALIZADO A ética é um aspecto importantena vida de todos, pois é o que nos permite analisar os valores morais, que mudam com o tempo. Com a globalização, muitos dos valores apresentados mudaram inevitavelmente de forma drástica devido à quebra de barreiras, nomeadamente devido ao melhor acesso à informação e à aproximação entre o global e o local. A globalização, portanto, está afetando também o trabalho dos profissionais de saúde, o que contribui para a promoção de uma ética capaz de refletir as situações de saúde de forma macroscópica. A conclusão disso é que mesmo um lugar longe dos centros urbanos e da tecnologia acredite que a única cura possível para uma criança doente sejam orações, não estará agindo de forma ética se, na cidade mais próxima, com hospital, essa doença já é facilmente tratada (FRANÇA et al., 2017). Nesse contexto, a Bioética surgiu da percepção simbólica da existência do outro, do conflito que isto causa e da necessidade de nos relacionarmos com as diferenças, sabendo que podemos agir com autonomia e que a sociedade irá responsabilizar os nossos atos e isto é o correto e o que se espera de uma sociedade justa e ética. Por outro lado, o surgimento da Bioética, como consequência do progresso da ciência e do conceito de autonomia, conduziu a uma revolução social além dos limites da medicina. Por exemplo, a epidemia de SARS (Severe Acute Respiratory Syndrome) reflete, assim como outras doenças infecto-contagiosas como a AIDS (Acquired Immune Deficiency Syndrome), a fragilidade de todos os seres humanos diante de um mundo globalizado, mas vulnerável ao agente causador da doença. 19UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética Isso traz à tona a necessidade de um trabalho educativo, deixando-se de lado questões políticas, sociais, culturais ou econômicas, uma vez que o risco é tanto individual quanto mundial. O que temos na atualidade com os grandes casos e conflitos envolvendo a bioética é a possibilidade de reflexão com qualidade e embasamento, embora a dualidade entre o bem e o mal, o certo e errado sempre permeiam estas situações como por exemplo, nas questões que falam sobre pesquisa com células-tronco embrionárias, a aceitação da eutanásia ou da ortotanásia, a quebra de patentes de medicamentos, as questões éticas sobre o aquecimento global, etc (COHEN, 2008). REFLITA Koerich e colaboradores (2005) reforçam que a bioética é uma ferramenta que nos auxiliará nas reflexões diárias de nosso trabalho, sendo fundamental para que as gerações futuras tenham a vida com mais qualidade. Entretanto, como está o ensino da bioética no mundo? Como as escolas estão preparando os profissionais de saúde para os impasses éticos do dia-a-dia? As decisões são orientadas para que o mundo se torne mais humano? Como buscar equidade na assistência com respostas morais adequadas a realidade que se apresenta no nosso mundo do trabalho? O que você tem a dizer sobre estas questões? Fonte: Koerich et al., 2005. Analisando as normas éticas historicamente, desde seu surgimento até os dias atuais, é possível observar a relação entre ética e sociedade, em que os princípios morais variam com as diferentes sociedades ao longo do tempo. “O conceito de ética surgiu na Grécia com Sócrates, quando ele perguntava aos atenienses em ruas e praças o que eram diversos conceitos, tais como coragem, justiça e amizade, e as pessoas respondiam que eram virtudes. Diante disso, Sócrates então perguntava o que era uma virtude, e as pessoas respondiam que era agir conforme o bem. Por fim, Sócrates perguntava “O que é bem?”. Assim, a civilização grega arcaica manifestava o pensamento sobre a ética humana, seja em suas religiões, poesia ou organização política” (FRANÇA et al., 2017). A Bioética se consolida na tentativa de possibilitar apreender e compreender o verdadeiro significado do novo, capacitando você e eu a uma possível adaptação a diferentes situações inusitadas. Ela nos permite expressar o pensamento ético, o que abre perspectivas de encontrar consensos de qual será o comportamento moral mais adequado frente a uma determinada questão (COHEN, 2008). 20UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética Devido a intensificação das mudanças extremas e diárias no mundo globalizado atual, os princípios éticos da nossa sociedade tiveram que se adaptar a essa nova realidade. Com a globalização, ocorreu o imediato fortalecimento das relações sociais a nível mundial e também o aumento de disparidades entre países ricos e pobres. Os países em desenvolvimento, possuem pouca mão de obra qualificada, o que é uma importante restrição no contexto em que existe uma maior pressão competitiva e uma necessidade do aumento de produtividade para se inserir no mercado global. Essas disparidades do mundo globalizado devem ser levadas em consideração diante de uma perspectiva ética, quando se põe em xeque questões sobre o que é moralmente correto diante de diferenças econômicas, políticas e culturais tão grandes em um mundo que deveria estar se unificando (FRANÇA et al., 2017). Outra questão extremamente relevante é observada em situações catastróficas, como desastres ambientais e atentados terroristas, que mostra mais uma vez a necessidade dos países se unirem, fortalecerem suas relações e se integrarem para superar tais acontecimentos e que, em um mundo globalizado, trazem a perspectiva de que eventos que ocorrem em um lugar podem gerar consequências para pessoas do outro lado do mundo. Dessa forma, é importante a consciência de uma ética coletiva e global que sirva para a convivência das pessoas ao redor do mundo em uma só comunidade (FRANÇA et al., 2017). Isso pode ser exemplificado com uma situação a qual estamos vivenciando hoje com a pandemia da COVID-19, em que a ação de uma pessoa implica direta ou indiretamente na vida da outra pessoa. Quando por exemplo, alguém opta por não usar máscara pode, mesmo não sabendo se está doente, colocar em risco a vida de outras pessoas. A saúde, no mundo globalizado, passou a ser vista como um aspecto macro, em que, mesmo que um problema de saúde atinja apenas uma região, ele pode vir a se espalhar para outros locais do planeta, como ocorreu com o vírus H1N1 e atualmente com a COVID-19. Além disso, mesmo no caso de um problema de saúde estar restrito a um local, muitas vezes a solução pode necessitar da ajuda de outros países, como ocorre com a migração de profissionais da saúde e na pesquisa científica, a qual pode também ser de interesse de outros locais. Com a globalização, vieram diversos fatores que podem alterar a saúde de um país devido às grandes diferenças socioeconômicas entre países (FRANÇA et al., 2017). Várias questões bioéticas como a realização de pesquisas multicêntricas envolvendo seres humanos, patente de medicamentos, tráfico de órgãos e bioterrorismo, vem, cada vez mais, se tornando um fenômeno incontestável de proporções extraordinárias. Essas questões rompem fronteiras e causam impacto de forma disseminada nas diversas regiões do planeta promovendo a necessidade de se adotarem medidas de cunho normativo e operacional com a adoção de tratamento equânime em nível mundial. (OLIVEIRA, 2010). 21UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética A visão da saúde no mundo globalizado, por se tratar de um tema que afeta pessoas e comunidades, deve falar da ética na resolução dos problemas globais de saúde. A saúde, como um bem universal, significa que ninguém está excluído de sua posse ou consumo e que seu uso não deve impedir que outros o usufruam. Nenhum indivíduo, país ou região deve ser excluído e todos podem se beneficiar desse bem universal. Os principais valores embutidos na ética da saúde global são justiça social, equidade e solidariedade (FRANÇA et al., 2017). Para Franca e colaboradores (2017) a justiça é um aspecto fundamental da vida em sociedade e um valor que une a moral individual e coletiva. Um aspecto importante da justiça social no contextoda saúde global é a contribuição, alocação e distribuição de recursos entre os países, sejam eles humanos, técnicos ou econômicos. Portanto, existe também o princípio da equidade (Figura 4), ou seja, a equidade de acesso à saúde no mundo, que alguns autores defendem ser o principal objetivo da saúde global, enquanto outros argumentam que o objetivo é reduzir os problemas sociais e de saúde no mundo. De qualquer forma, ao assumir a equidade e a justiça social como valores centrais na ética da saúde global, faz-se necessário priorizar países ou regiões mais desfavorecidas no âmbito da saúde. Diferentemente da igualdade, a equidade enfoca nas diferenças, de forma a tratar desigualmente diferentes pessoas, conforme suas necessidades. FIGURA 4 - IGUALDADE E EQUIDADE: VALORES DISTINTOS Fonte: Oliveira, 2015. Por fim, a solidariedade internacional desempenha um papel fundamental na ética da saúde global, por meio do apoio e da cooperação entre os países. Essa preocupação se baseia na reciprocidade e na necessidade humana como ser social, evidenciada pela ética da proximidade. Mesmo que a pessoa que você está ajudando não seja próxima o suficiente para tirar proveito dessa premissa, pertencer à humanidade faz com que as pessoas ao redor do mundo se sintam próximas e a globalização acaba aproximando as pessoas através dos canais de comunicação globais. No entanto, é importante sublinhar que as ações de solidariedade em saúde devem ser tratadas de forma horizontal, sem relação dominante e com respeito às culturas dos países envolvidos (FRANÇA et al., 2017). 22UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética CONSIDERAÇÕES FINAIS Bom, chegamos ao final desta unidade e nela apresentamos os principais conceitos, a história, fundamentações, princípios e aplicações da Bioética na atualidade! Você pôde refletir sobre conceitos como ética, moral e valores que estão estreitamente relacionados à Bioética contextualizando com o mundo globalizado! Ainda foi possível refletir sobre a evolução da bioética ao longo dos tempos e sua importância para a solução de conflitos contemporâneos. Na sequência desta unidade você estudou o modelo principialista da bioética e seus fundamentos para as práticas na área das ciências da vida e da saúde. Além disso, se deu conta de que não existe um princípio melhor que o outro, pois todos eles são alicerces para a Bioética. Finalmente, você foi capaz de aplicar os conceitos e reflexões da bioética no cenário globalizado, envolvendo questões e conflitos extremamente relevantes e difíceis do ponto de vista da Bioética! Compreendeu a importância dos Conselhos e Comitês de Bioética nos Hospitais, para uma análise imparcial e crítica de situações em que a Bioética e/ou seu estudo se torna fundamental para entender a real necessidade dos envolvidos e sempre, minimizar os prejuízos em uma situação de conflito. Agora, com os conhecimentos adquiridos até o momento, pense comigo…você agiria diferente em uma situação que presenciou ou participou? É para refletir! 23UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética LEITURA COMPLEMENTAR Motta e colaboradores (2012) fizeram a seguinte pergunta: Bioética: afinal, o que é isto? Abordando sobre o que realmente é a Bioética, seu contexto histórico, surgimento no Brasil, conceitos, problemas atuais no campo da bioética e diversos outros pontos importantes! Faço um convite para você dedicar-se à leitura desse artigo e refletir: afinal, o que é a Bioética? Qual a sua aplicabilidade e importância? Fonte: MOTTA, L. C. S.; VIDAL, S. V.; SIQUEIRA-BATISTA, R. Bioética: afinal, o que é isto? Rev. Bras. Clin Med, São Paulo, 2012 set-out;10(5):431-9. Disponível em: http:// files.bvs.br/upload/S/1679-1010/2012/v10n5/a3138.pdf. Acesso em: 25 nov. 2021. 24UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Bioética e COVID-19 Autor: Luciana Dadalco. Editora: Foco. Sinopse: A primeira edição da obra “Bioética e Covid-19” foi um sucesso absoluto e a rapidez com que as questões bioéticas foram sendo alteradas nos últimos meses tornou imprescindível uma nova edição dessa obra, com novos artigos e atualização dos artigos anteriores. Hoje, a Bioética não está mais negligenciada na pandemia da Covid-19. Comitê Internacional de Bioética e a Comissão Mundial sobre Ética do Conhecimento e da Tecnologia, ambos da UNESCO já reconheceram o papel de destaque da bioética no contexto da Covid-19. FILME/VÍDEO Título: Patch Adams – O amor é contagioso Ano: 1998. Sinopse: Em 1969, após tentar se suicidar, Hunter Adams (Robin Williams) voluntariamente se interna em um sanatório. Ao ajudar outros internos, descobre que deseja ser médico, para poder ajudar as pessoas. Deste modo, sai da instituição e entra na faculdade de medicina. Seus métodos poucos convencionais causam inicialmente espanto, mas aos poucos vai conquistando todos, com exceção do reitor, que quer arrumar um motivo para expulsá-lo, apesar de ele ser o primeiro da turma. 25 Plano de Estudo: ● A Ética da Responsabilidade Pública e Individual; ● Códigos de Conduta; ● Direitos do Paciente; ● A relação profissional-paciente. Objetivos da Aprendizagem: ● Analisar a importância e aplicações da ética da responsabilidade pública e individual, refletindo sobre seus impactos e perspectivas; ● Compreender a importância dos códigos de conduta e sua interrelação com a bioética e os conceitos de ética, moral e deontologia; ● Compreender a necessidade e importância das leis que reforçam os direitos do paciente e sua autonomia na tomada de decisão no que diz respeito ao seu corpo e sua vida; ● Analisar a relação profissional-paciente a partir do referencial da bioética. UNIDADE II Saúde Pública e Bioética Profª. Drª. Viviane Krominski 26UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética 26UNIDADE II Saúde Pública e Bioética INTRODUÇÃO Olá, tudo bem? Nesta unidade você terá acesso às questões sobre a ética da responsabilidade pú- blica e individual, e poderá refletir seus impactos e perspectivas. Além disso, iremos discutir, os códigos de conduta, compreendendo sua importância e inter-relação com a bioética e os conceitos de ética, moral e deontologia. Trataremos ainda, dos direitos do paciente, e nesse contexto, você irá perceber a necessidade das leis, para fazer valer esse direito e a autonomia do paciente na tomada de decisão no que diz respeito ao seu corpo e sua vida! Ao final desta unidade, vamos falar da relação profissional-paciente e as questões envolvidas nesse processo a partir do referencial da bioética. Você vai compreender que essas relações devem ser pautadas pelas normas éticas e jurídicas e devem ter como base os princípios que permeiam essas relações. Desejo a você um excelente estudo! 27UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética 27UNIDADE II Saúde Pública e Bioética 1. A ÉTICA DA RESPONSABILIDADE PÚBLICA E INDIVIDUAL O que é a ética da responsabilidade? Hans Jonas foi um dos autores que mais abordou questões de ética da responsabilidade neste século. Segundo sua linha de ideias, no campo da ciência, por exemplo, a liberdade de criar e usar novos conhecimentos deve estar atrelada à responsabilidade individual e pública na aplicação das descobertas e seus desdobramentos (GARRAFA et al., 2009). De acordo com Hans Jonas, todos são responsáveis pela qualidade de vida das gerações futuras (KOERICH et al., 2005). Foi também ele quem abordou o conceito de risco e a necessidade de avaliá-lo com responsabilidade (ZANCANARO, 2000). As questões éticas em praticamente todas as áreas da atividade humana já adquiriram uma conotação pública e não são mais uma questão de consciência individual que deve ser resolvida na esfera privada (GARRAFA et al., 2009). O “princípio universal de responsabilidade” não deve ser ignorado em qualquer discussão ética, ao contrário, sempre deverá pautar as mais inusitadas situações. Esse princípio deve permear todas as questões éticase está relacionado aos aspectos éticos da responsabilidade individual que cada um de nós assume; a ética da responsabilidade pública, que está relacionada ao papel e às obrigações dos Estados em relação à saúde e à vida das pessoas; e com a ética da responsabilidade planetária, nosso compromisso como cidadãos do mundo com o desafio de preservar o planeta (KOERICH, 2002). 28UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética Essa visão ética ampliada de valorização da vida no planeta exige uma atitude consciente, solidária, responsável e virtuosa de todos os seres humanos e, sobretudo, daqueles que pretendem cuidar de outros seres humanos, nas instituições de saúde ou em seus lares. Poderíamos pensar em algumas situações do nosso dia a dia que nos levem a refletir sobre a atitude ética necessária aos profissionais de saúde, nos mais diversos contextos, questionando-nos: como ajo, penso e falo perante um cliente descontrolado e agressivo? Enfrentando um cliente alcoolizado que acaba de receber alta do hospital psiquiátrico? Ou alguém que usa drogas e/ou tem HIV? Diante de uma adolescente grávida? Diante do cliente que não colabora, não aceita o tratamento e pede alta? Na frente do cliente inconsciente, da criança ou alguém com demência? Diante da falta de estrutura de ação e planejamento de recursos na organização dos serviços de saúde? (KOERICH et al., 2005). É importante, ainda nesse contexto, refletir, como medir, em uma escala de atribui- ções cada vez mais complexas, mas com atribuições proporcionais, a ética da responsabi- lidade individual (e o nível de comprometimento ...) de um simples administrador de centro de saúde que trata mal os usuários? Do maqueiro que faz “corpo mole” na entrada de emer- gência? Do motorista que afirma “desvio de função” quando solicitado para ajudar a levar um acidentado até a ambulância? Do ajudante de lavanderia ou de cozinha que negligencia os requisitos essenciais de higiene e limpeza? Do médico que cuida ou atende de qualquer forma seus pacientes? Do político responsável por colocar “emendas” de seu interesse particular no orçamento público da saúde? Do burocrata que deliberada ou abnegadamente atrasa a entrega de fundos dramaticamente antecipados para locais de necessidade? Do ministro todo-poderoso que pensa ser o único dono da “chave do cofre”? Ou o Presidente da República, que na prática insiste que a saúde não deve ser prioridade na ação política de seu governo (GARRAFA, 1995) O que pensar ou como agir diante dessas situações? No que se refere à ética da responsabilidade pública, um aspecto que não deve ser deixado de lado na reflexão sanitária é aquele que diz respeito à definição das prioridades nos investimentos do Estado, incluindo o estudo da destinação, alocação, distribuição e controle dos recursos financeiros dirigidos ao setor. Ao contrário dos países industrializados, no Brasil vivemos situações paradoxais que vão desde a presença persistente de doenças comuns nos países mais pobres do mundo (dengue, malária, doença de chagas, esquistossomose, febre amarela) até o registro significativo em nossas estatísticas de mortalidade dos problemas comuns aos países mais avançados (câncer, problemas cardiovasculares, acidentes de trânsito, etc.). Com o custo crescente do diagnóstico e a sofisticação tecnológica natural resultante do avanço científico, os recursos de saúde estão lentamente se tornando inadequados, mesmo nos países mais ricos. 29UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética 29UNIDADE II Saúde Pública e Bioética A discussão sobre “prioridades” começa a adquirir conotações éticas cada vez mais dramáticas. É responsabilidade do Estado e das instituições públicas encontrar soluções morais que abordem a escassez; soluções que não envolvam discriminação injusta ou a tirania das minorias (HARRIS, 1988). São questões comuns relacionadas aos serviços de saúde, entre outras, que podem orientar um debate mais aprofundado do ponto de vista ético. Mostra que abordar os aspectos éticos na atenção à saúde não se limita à mera padronização nas leis ou na ética profissional, mas também se estende ao respeito às pessoas como cidadãos e como seres sociais, por isso se enfatiza que “a essência da Bioética é a liberdade, mas com compromisso e responsabilidade” (KOERICH et al., 2005). Encerramos este tópico com a reflexão de Koerich e colaboradores (2005), que diz: a ética reconhece o valor de todos e considera o ser humano um dos fios que formam a grande teia da vida. Dessa forma, todos os fios são importantes, indissociáveis e co-produtores uns dos outros. Ao aderir ao comportamento ético, buscamos saúde e vida. Essa busca leva as pessoas a um processo de crescimento contínuo. Uma vez que nosso trabalho ocorre em um ambiente complexo (centro de saúde ou comunidade), todas as nossas ações (a forma como ouvimos, vemos, tocamos, falamos, nos comunicamos e realizamos procedimentos) são eticamente questionáveis. A forma como tratamos funcionários, clientes e familiares, pode influenciar o resultado do nosso trabalho. A relação recíproca não permite arrogância, onipotência e autoritarismo, mas permite liberdade de expressão de pensamentos, ideias e experiências e inclui o respeito pela compreensão moral e ética de todos os envolvidos. A ética da saúde está impregnada de “bom raciocínio” e “introspecção” (auto-exame), e “boas intenções” não são suficientes. O auto-exame nos permite descobrir que somos falíveis, frágeis, inadequados, necessitados e que precisamos de compreensão mútua. A bioética é um instrumento que nos guiará na reflexão cotidiana sobre o nosso trabalho e é essencial para as futuras gerações para uma melhor qualidade de vida. É o que se espera! 30UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética 30UNIDADE II Saúde Pública e Bioética 2. CÓDIGOS DE CONDUTA A deontologia pode ser entendida como a ciência dos deveres, que inclui o estudo, a discussão, a elaboração e a necessidade constante de atualização do código de ética. Tem como objetivos essenciais, os fundamentos do dever, bem como os padrões morais e éticos (FRANÇA et al., 2017). A deontologia, neste contexto, também se refere aos princípios e regras de conduta inerentes a uma determinada profissão, ou seja, seus deveres. Assim, todos os profissionais estão sujeitos à sua própria deontologia para regular o exercício da sua profissão de acordo com o código de ética da sua categoria. O código de ética é o documento que reflete a deontologia de uma profissão e pode ser visto como a ética da intenção. Informa como as pessoas devem se comportar no campo profissional, com colegas, clientes e pacientes, parentes, professores, etc. Os códigos deontológicos referem-se estritamente à moralidade de uma profissão e ao comportamento exigido por um profissional, e, que norteiam a conduta e reflexões acerca de um conflito (Figura 1). É o próprio grupo profissional que estabelece os padrões e é responsável por listá-los e colocá-los em prática (FRANÇA et al., 2017). 31UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética 31UNIDADE II Saúde Pública e Bioética FIGURA 1 - CONFLITOS ÉTICOS: COMO AGIR? Fonte: HORA de falar sobre ética na tecnologia da informação. Scurra Tecnologia e Inteligência, 2019, online. Disponível em: https://www.scurra.com.br/blog/hora-de-falar-sobre-etica-na-tecnologia-da- informacao/. Acesso em: 10 jan.2022. O contexto de qualquer exercício profissional deve ser pautado por uma ética responsável, conhecimento técnico, científico, ético e jurídico, postura profissional e compromisso com o grupo de trabalho e a sociedade. Sabe-se que ao utilizar os serviços de um profissional, espera-se que ele não apenas domine os conhecimentos teóricos e práticos inerentes à sua profissão, mas também a correta aplicação dessa competência - conduta profissional ética. Na verdade, a sociedade está cada vez mais atenta aos seus direitos, exige muito da qualidadedo atendimento e se preocupa com os erros técnicos profissionais. Todas as profissões legalmente reconhecidas e regulamentadas possuem um código de ética. Este código expressa a obrigação de não prejudicar, de renunciar e defender a dignidade e o respeito. Nesse contexto, é preciso refletir profundamente sobre até onde podemos ir e quais podem ser os limites de nossa sede de conhecimento (FRANÇA et al., 2017). REFLITA A ética não é um obstáculo para a ciência; pelo contrário, é um eixo norteador do conhecimento. Fonte: França et al., 2017. O que você acha de fazer um exercício agora? Pense comigo: já se decepcionou com o atendimento que recebeu em um determinado estabelecimento? Já se sentiu humilhado ou esperava um excelente atendimento, com qualidade, acolhimento e respeito e isso não aconteceu? 32UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética 32UNIDADE II Saúde Pública e Bioética Pois é, não são raras as vezes que esse tipo de acontecimento permeiam as relações profissional-cliente e, sem dúvida alguma, são momentos de desgaste emocional e caracterizam uma conduta indesejável do profissional que nos atende. Quantas vezes vamos procurar um atendimento médico, por exemplo, já fragilizados com a causa/ doença e saímos ainda mais entristecidos e desgastados com a recepção e condução da consulta pelo profissional, do qual esperávamos atenção e empatia com nosso sofrimento e angústia? Por que isso acontece? Onde encontra-se a conduta ética desse profissional? Como devemos agir nestas situações? Nesse contexto, é importante saber que os termos ética (do grego éthos, modo de ser), moral (do latim costumes, costumes, normas de coexistência) e deontologia (do grego déon, dever) estão relacionados e ligados uns aos outros na bioética (MALUF, 2020). A ética é um conhecimento racional que trata de determinar o que é bom. A moralidade tem a ver com a escolha da ação em que uma dada situação deve ser empreendida. Então, podemos entender que a tomada de decisões e ações concretas são um problema prático e, portanto, moral. Examinar esta decisão e esta ação, a responsabilidade daí resultante e os graus de liberdade e determinismos associados, é um problema teórico e, portanto, ético. A ética é fundamentalmente investigativa e tem um caráter conceitual. A moralidade é praticamente inconcebível fora de qualquer contexto histórico, social, político e econômico. A Deontologia (Código de Ética Profissional) regula as ações dos trabalhadores no contexto da sua prática, torna-as boas e adequadas. A bioética engloba conhecimentos complexos que visam dar respostas em situações específicas, sempre em busca de uma certa autonomia. Tem um caráter pragmático (baseado nos quatro princípios) que se aplica às questões morais levantadas por decisões clínicas e avanços científicos e tecnológicos. Implica a capacidade de tomar decisões moral e legalmente aceitas em casos que envolvem valores conflitantes. Em síntese, concluímos que “o que se estuda na ética, se pratica na moral, é obrigatória na deontologia, é por fim, é problematizado na bioética” (MALUF, 2020). Na bioética, ao contrário do que ocorre na ética, na moral e na deontologia, o bem é sempre pensado a partir de um determinado sujeito e nunca de forma abstrata ou coletivizada. A peculiaridade da situação do paciente deve sempre servir de base para questionar, à luz dos princípios da bioética, o grau de humanidade, legitimidade e legalidade inerente à conduta do profissional de saúde ou do pesquisador (GRACIA, 2010). 33UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética 33UNIDADE II Saúde Pública e Bioética Em síntese, podemos concluir que a Bioética é a disciplina que estuda os aspectos éticos das práticas médicas e biológicas, avaliando suas implicações para a sociedade e as relações entre os homens e entre eles e os demais seres vivos, indicando a linha de conduta a ser adotada, a fim de respeitar a dignidade humana (MALUF, 2020). Agora que você já compreendeu o que é um código de conduta, sua importância e sua aplicabilidade e inter-relação com a bioética, podemos avançar para o tópico II, onde falaremos dos direitos do paciente, como validar esses direitos e o dever de respeitá-los e colocá-los em prática! Vamos lá? 34UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética 34UNIDADE II Saúde Pública e Bioética 3. DIREITOS DO PACIENTE O Brasil não está em sintonia com outros países na adoção de uma lei nacional sobre os direitos do paciente (ALBUQUERQUE, 2019). Antes da década de 1970, os direitos dos pacientes não eram exigidos (MALIK, 1997). O paciente não tinha direitos e voz, para fazer valer suas vontades. Este cenário, foi aos poucos se modificando e o paternalismo médico, em que o médico “pode tudo”, foi dando espaço para uma medicina centrada no paciente e no seu bem-estar. A existência de leis sobre os direitos dos pacientes pressupõe o reconhecimento da importância desses direitos e a presença de um sistema de saúde em que os direitos dos pacientes sejam protegidos (JUN, 2019). Os direitos do paciente são o que as pessoas têm quando recebem tratamento médico simplesmente porque são seres humanos e devem obter todo respeito. Segundo Albuquerque (2016), os direitos dos pacientes são os seguintes: direito à vida; direito à privacidade; direito de não ser discriminado; direito à liberdade; direito à saúde; direito à informação e direito a não ser submetido a tratamentos desumanos e degradantes. Destes direitos derivam outros mais específicos; são eles: direito ao consentimento informado; direito a uma segunda opinião; direito de recusar tratamentos e procedimentos médicos; o direito de morrer com dignidade, sem dor e de escolher o lugar da morte; direito à informação sobre o estado de saúde; direito de acesso a prontuários médicos; direito à confidencialidade das informações pessoais; o direito a cuidados médicos seguros e de qualidade; direito de não ser discriminado; direito de reclamar; direito a indemnização e direito a participar no processo de tomada de decisão (EUROPEAN COMMISSION, 2016). 35UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética 35UNIDADE II Saúde Pública e Bioética LEITURA COMPLEMENTAR O direito-dever de sigilo na proteção ao paciente O artigo reflete sobre o dever de sigilo profissional em relação às informações que o paciente recebe durante o tratamento médico, quanto ao cumprimento de seus direitos e proteção. Embora a confidencialidade seja considerada um dos preceitos morais mais tradicionais em saúde, ainda é um dos princípios menos respeitados, fato particularmente preocupante em épocas de intensa exposição da intimidade como os tempos atuais. De outro lado, a garantia da confidencialidade, além de estimular o vínculo profissional-paciente, pode favorecer a adesão ao tratamento e a tomada de decisões mais autônomas, ao assegurar ao paciente a não exposição de circunstâncias de sua vida pessoal que possam ensejar julgamentos que ele deseja evitar, mesmo aos entes mais próximos. Nesse contexto, o sigilo atua como mecanismo de proteção do paciente no que diz respeito aos seus valores e experiências pessoais e sustenta a necessária confiança na relação médico-paciente. Fonte: VILLAS-BÔAS, M. L. O direito-dever de sigilo na proteção ao paciente. Rev. Bioét. 23 (3). 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/j/bioet/a/ kFY5sjrzNCZYd3qVc5BLXDt/?lang=pt. Acesso em: 10 out. 2021. 36UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética 36UNIDADE II Saúde Pública e Bioética Os direitos do paciente, ao serem incorporados devidamente nas leis e diretrizes específicas, convergem para os movimentos da sociedade civil que visam ao engajamento do paciente no seu processo de cuidado e na tomada de decisão sobre questões que digam respeito ao seu corpo e à sua vida, bem como em decisões sobre a aquisição de recursos escassos em saúde e incorporação de novas tecnologias em saúde (EUROPEAN COMMISSION, 2016). Asleis de direitos dos pacientes fundamentam-se no cuidado pautado pela vontade e preferências do próprio paciente, separando-se do modelo paternalista e objetiva seu empoderamento com vistas ao exercício de seus direitos. Esse modelo de cuidado em saúde derivado das leis de direitos dos pacientes ultrapassa as concepções de compaixão, de dignidade e de respeito, pois tem como fundamentação a reafirmação da sua condição de cidadão que deve ter seus direitos assegurados (HEALTH AND SOCIAL CARE ALLIANCE SCOTLAND, 2019). Uma vez que o paciente tem seus direitos respeitados, consequentemente, ficam mais satisfeitos com os serviços de saúde. As leis sobre direitos dos pacientes fomentam o modelo do cuidado centrado no paciente, criando uma nova cultura nos serviços de saúde que se alicerça na parceria entre o paciente e o profissional, o que resulta em melhores condições de saúde para o paciente (HEALY, 2019). Dessa forma, as leis de direitos dos pacientes são compreendidas como uma ferramenta útil e central na mitigação da assimetria de poder e de conhecimento que permeia a relação profissional de saúde e paciente, estimulando assim, a parceria e conformidade ente os dois (EUROPEAN COMMISSION, 2016). 37UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética 37UNIDADE II Saúde Pública e Bioética SAIBA MAIS Você tem conhecimento de quantos e quais são, os direitos dos pacientes? “Você sabia que pode consultar seu prontuário médico no momento que desejar? Que tem direito a uma conta detalhada especificando todas as despesas do tratamento? Que o hospital é obrigado a informar a origem do sangue utilizado nas transfusões? Pois esses são alguns dos chamados Direitos do Paciente – uma série de 35 garantias que médicos e hospitais devem levar em conta para preservar a ética em sua conduta profissional e a saúde dos pacientes, claro. O problema é que, apesar de asseguradas por lei, essas normas são praticamente desconhecidas. Hospitais, clínicas e postos de saúde não têm obrigação de afixá-las em local de fácil visualização e os manuais onde elas constam são difíceis de encontrar”. Fonte: Brasil. Ministério da Saúde. Carta dos direitos dos usuários da saúde / Ministério da Saúde. – 1. ed. – Brasília: Ministério da Saúde, 2012. Disponível em: https://conselho.saude.gov.br/biblioteca/livros/Carta5.pdf Bom, o importante até aqui é você entender que as leis de direitos do paciente são ferramentas essenciais para mudar a cultura de cuidados em saúde no Brasil e promover o bem maior do paciente, que é a sua vida e o seu bem-estar. Apesar dos avanços já alcançados até o momento, ainda temos um longo e árduo caminho pela frente, neste assunto. 38UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética 38UNIDADE II Saúde Pública e Bioética 4. A RELAÇÃO PROFISSIONAL-PACIENTE Nas relações entre as pessoas durante o exercício profissional, nos diversos ramos de atividade, é a qualidade do encontro que determina o seu sucesso, por exemplo, na formação de um bom médico, a relação médico-paciente é fundamental (PEREIRA e AZEVEDO, 2005). Nesse contexto, no modelo hipocrático, a relação médico- paciente é um dos alicerces da medicina e, juntamente com o exame físico, permite obter informações importantes para o diagnóstico e tratamento de doenças (MENDONÇA e VON ATZINGEN, 2010). Por outro lado, a necessidade de relacionamento próximo com o paciente para um correto diagnóstico e terapia adequada, tem sido progressivamente substituída pela solicitação e execução de exames de diagnóstico cada vez mais sofisticados (NASCIMENTO JUNIOR e GUIMARÃES, 2003). As relações profissional-paciente devem ser orientadas por padrões éticos e legais e pelos princípios básicos que permeiam essas relações. Essas normas éticas e legais também devem atingir diversos profissionais da saúde, incluindo dentistas, cientistas, farmacêuticos, nutricionistas, fisioterapeutas, veterinários, entre outros. É de vital importância respeitar os princípios bioéticos da autonomia (por meio do consentimento livre e esclarecido), beneficência, não maleficência e justiça, objetivando sempre o melhor cuidado dedicado ao paciente (DINIZ, 2017). 39UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética 39UNIDADE II Saúde Pública e Bioética Na prática médica, por exemplo, os deveres inerente à profissão são: informação detalhada sobre o estado de saúde do paciente, bem como a explicação do tratamento a ser implementado diante do diagnóstico obtido; tratar o paciente com zelo e dedicação, utilizando todos os recursos disponíveis da sua profissão; respeitar as decisões pessoais dos pacientes em caso de recusa do tratamento oferecido; respeitar os limites contratuais estabelecidos e preservar o sigilo profissional tendo em vista a privacidade do paciente (DINIZ, 2017). Quando um profissional da área de saúde tem diante de si uma pessoa que busca seus serviços, por qualquer que seja o motivo, está ocorrendo um encontro clínico, o qual pode receber diferentes denominações: relação profissional de saúde-paciente, relação médico-paciente, interação médico-cliente, interação profissional-usuário, dentre outras (RANGEL et al., 2011). Os procedimentos terapêuticos e as características dos profissionais de saúde desejáveis para que ocorra uma satisfatória aliança de trabalho na relação com o paciente, são baseados principalmente em qualidades humanas, esperadas em qualquer relação e situação, e princípios bioéticos, essencialmente presentes nas ações em saúde (GOMES, 2003; PORTO, 2003). Entre as qualidades humanas estão: empatia, continência, humildade, respeito às diferenças, curiosidade, capacidade de conotar positivamente, capacidade de comunicação, flexibilidade, criatividade, paciência, solidariedade, integridade e compaixão. Com relação aos princípios bioéticos, são almejados a ética e sigilo, autonomia do paciente, beneficência, não-maleficência, justiça, consentimento esclarecido, atenção ao paciente e responsabilidade (GOMES, 2003; PORTO, 2003). As características pessoais dos pacientes e as variáveis psicossociais também influenciam no relacionamento com os profissionais de saúde. As diferenças nas variáveis psicossociais entre pacientes e profissionais de saúde influenciam, ainda que inconscientemente, atitudes, percepções e sobretudo a comunicação na interação profissional-paciente (DIAS, 2011). Entre os fatores do contexto em que se desenvolve a relação profissional de saúde- paciente, o próprio lugar do cuidado e a estrutura do sistema de saúde podem desgastar ou comprometer essa interação e prejudicar a harmonia (TAYLOR, 2000). Ressalta-se ainda, que o conhecimento do contexto sociocultural e do sistema de saúde em que profissionais e pacientes estão inseridos também pode influenciar na relação entre eles (ASSUNÇÃO, 2013). É importante ressaltar, que falar de relação profissional de saúde-paciente é abordar o conceito de relação humana, de princípios, deveres e respeito mútuo (CANTO et al., 2011; GOMES, 2003) e que isso reflete, portanto, discutir sobre humanização do cuidado em saúde e ponderar a respeito do encontro entre seres humanos, em todas as suas etapas e circunstâncias, cuja prioridade é a promoção da saúde (GOMES, 2003). 40UNIDADE I Noções e Fundamentos de Bioética 40UNIDADE II Saúde Pública e Bioética CONSIDERAÇÕES FINAIS Bom, chegamos ao final desta unidade e nela falamos sobre a ética da responsabilidade pública e individual, fazendo você refletir que a ética da responsabilidade e a bioética conduzem a responsabilidade para questões que nos deparamos no cotidiano e para as relações humanas, para que possamos atuar com sabedoria e apresentar valores em todas as suas dimensões. Você pôde perceber, que em qualquer discussão que envolva um tema ético não se pode abrir mão do “princípio universal da responsabilidade”. Na sequência, você estudou sobre a importância dos códigos de conduta e entendeu que qualquer exercício