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UNIDADE 1– DOS ATOS ADMINISTRATIVOS 1. ATO ADMINISTRATIVO 1.1 Fato administrativo e ato administrativo O ramo do Direito Administrativo está em constante transformação e atualização no âmbito do rol das normas jurídicas brasileiras. As práticas administrativas e os princípios que as regem são influenciados pelos valores acolhidos na sociedade em determinado momento. Estes influem no desenvolvimento da gestão pública, conduzindo-a para o atendimento da coletividade. O Direito Administrativo dos novos tempos prima pela eficiência, pela celeridade, por resultados. Contudo, essa busca deve ser guiada por um princípio indispensável, que é a legalidade. Cabe lembrar que esta não é mais tão restrita como outrora, pois passou a ter em seu bojo princípios e valores. Objetiva-se desenvolver uma gestão menos burocrática, mas de maneira que sua efetivação permaneça trazendo segurança jurídica aos envolvidos e à coletividade como um todo. A administração pública deve atender os cidadãos, à coletividade, ou seja, tem responsabilidades e obrigações. Em contrapartida, há deveres da outra parte. Esse diálogo entre administração e coletividade é intermediado pela via da produção e do desenvolvimento dos atos administrativos. Importa enfatizar que a administração pública não pratica apenas atos administrativos, mas também vários outros, como os atos políticos. No entanto, os administrativos são o foco de nossa disciplina. A supremacia do interesse público faz com que este sobreponha-se a qualquer outro. É justamente por essa circunstância que os atos administrativos são munidos de certas prerrogativas, ou seja, têm características próprias para que possam exercer suas atribuições. Para assegurar-se a liberdade, sujeita-se a Administração Pública à observância da lei; é a aplicação ao direito público, do princípio da legalidade. Para assegurar-se a autoridade da Administração Pública, necessária à consecução de seus fins, são-lhe outorgados prerrogativas e privilégios que lhe permitem assegurar a supremacia do interesse público sobre o particular. [...] Ao mesmo tempo, que as prerrogativas colocam a Administração Pública em posição de supremacia perante o particular, sempre como objetivo de atingir o benefício da coletividade, as restrições a que está sujeita limita sua atividade a determinados fins e princípios que, se não observados, implicam desvio de poder e consequente nulidade dos atos da Administração (DI PIETRO, 2009a, p. 61). A prática dos atos administrativos é predominantemente do Poder Executivo, mas é possível que sejam exercidos por outros Poderes em certas circunstâncias. A legalidade orienta os atos administrativos, impedindo que resultem em arbitrariedades. É necessário sempre seu controle, para que atenda aos interesses coletivos sem que haja lesão. Quando não atendem ao interesse social ou ainda nos casos em que contrariam o princípio da legalidade, podem ser revistos. O administrador privado conduz seu empreendimento com dominus, agindo com os poderes inerentes à propriedade em toda a sua extensão. Assim, tudo o que não é proibido, é permitido ao gestor privado. Diga-se, ainda, que o administrador privado pode inclusive conduzir ruinosamente seu empreendimento sem que muito possa ser feito por terceiros[...] O gestor público não age como “dono”, que pode fazer o que lhe pareça mais cômodo. Diz-se, então, que ao Administrador Público só é dado fazer aquilo que a lei autorize, de forma prévia e expressa. Daí decorre o importante axioma da indisponibilidade, pela Administração, dos interesses públicos (MIRANDA, 2005, p. 173). O ato administrativo submete-se ao controle tanto da administração que o pratica quanto do Poder Judiciário. Nesse diapasão, é possível afirmar sobre ele: Ato administrativo é toda manifestação unilateral de vontade da administração pública que, agindo nessa qualidade, tenha por fim imediato adquirir, resguardar, transferir, modificar, extinguir e declarar direitos, ou impor obrigações aos administrados ou a si própria (MEIRELLES et al.,2006,p.149). Bandeira de Mello (2008, p.117) entende que há certa dificuldade em definir o conceito de ato administrativo na esfera legal e apresenta a justificativa para sua delimitação: Não há definição legal de ato administrativo. Sendo assim, não é de estranhar que os autores divirjam ao conceituá-lo. [...] O que particulariza o ato administrativo e justifica que se formule um conceito que o isole entre os demais atos jurídicos é a circunstância de que ele tem peculiaridades(a) no que concerne às condições de sua válida produção e (b) no que atina à eficácia que lhe é própria (MELLO, 2008, p. 117). Figura – Ato Administrativo – divisões De acordo com a teoria de Bandeira de Mello (2011, p. 173), os atos administrativos seriam assim considerados como a declaração do Estado (ou de quem lhe faça às vezes – como, por exemplo, um concessionário de serviço público), no exercício de prerrogativas públicas, manifestada mediante providências jurídicas complementares da lei a título de lhe dar cumprimento, sujeitas a controle de legitimidade por órgão judicial. Os atos administrativos são importantes para que se alcance a denominada boa administração, pois permitem um diálogo entre a administração e a coletividade. Dentro do conceito de boa governança, na boa administração, estariam enquadradas as seguintes características: imparcialidade, eficiência, transparência, probidade e principalmente a qualidade de ser dialógica. Figura – Princípios da Boa Governança Pública Fonte:elaborada pela autora (2022). A Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, também denominada Carta de Nice, descreveu a existência de vários direitos fundamentais. Entre eles, é oportuno citar o denominado direito a uma boa administração, previsto no seu art. 41: Artigo 41. Direito a uma boa administração 1. Todas as pessoas têm direito a que os seus assuntos sejam tratados pelas instituições e órgãos da União de forma imparcial, equitativa e num prazo razoável. 2. Este direito compreende, nomeadamente: - o direito de qualquer pessoa a ser ouvida antes de a seu respeito ser tomada qualquer medida individual que a afecte desfavoravelmente, - o direito de qualquer pessoa a ter acesso aos processos que se lhe refiram, no respeito dos legítimos interesses da confidencialidade e do segredo profissional e comercial, - a obrigação, por parte da administração, de fundamentar as suas decisões. 3. Todas as pessoas têm direito à reparação, por parte da Comunidade, dos danos causados por suas instituições ou pelos seus agentes no exercício das respectivas funções, de acordo com os princípios gerais comuns às legislações dos Estados-Membros. 4. Todas as pessoas têm a possibilidade de se dirigir às instituições da União numa das línguas oficiais dos Tratados, devendo obter uma resposta na mesma língua (UNIÃO EUROPEIA, 2000). Os fatos administrativos são denominados como aquelas atividades materiais que se desdobram em fato administrativo em sentido estrito e em fato da administração, sendo que o primeiro instituto produz efeito jurídico, já o segundo não. Os atos da administração englobam tanto os atos administrativos como outros atos, por exemplo, os políticos. José Cretella Júnior (1995,p.53) define o ato administrativo como [...] a manifestação de vontade do Estado, por seus representantes, no exercício regular de suas funções, ou por qualquer pessoa que detenha, nas mãos, fração de poder reconhecido pelo Estado, que tem por finalidade imediata criar, reconhecer, modificar, resguardar ou extinguir situações jurídicas subjetivas, em matéria administrativa. 1.2 Ato jurídico e ato administrativo O denominado ato jurídico está contido em uma categoria maior, denominada fato jurídico. Neste, há o elemento da vontade como elemento principal. Vicente Ráo (1979, p.29) descreve assim os atosdos administrados e as prerrogativas da Administração” (DI PIETRO, 2010, p. 60). Ronald Dworkin (2002) estabelece certa diferenciação entre as regras e os princípios, enfatizando a questão da dimensão que possui cada um, assim como a importância ou peso de um frente ao outro: Os princípios possuem uma dimensão que as regras não têm – a dimensão do peso ou importância. Quando os princípios se intercruzam [...], aquele que vai resolver o conflito tem de levar em conta a força relativa de cada um. Esta não pode ser, por certo, uma mensuração exata e o julgamento que determina que um princípio ou uma política particular é mais importante que outra frequentemente será objeto de controvérsia. Não obstante, essa dimensão é uma parte integrante do conceito de um princípio, de modo que faz sentido perguntar que peso ele tem ou quão importante ele é (DWORKIN,2002. p.42-43). Iremos iniciar o estudo dos princípios a partir da igualdade, que se encontra inscrito expressamente no art. 5º da Constituição Federal, contudo, já passou por grande evolução. Art. 5º - Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e propriedade, nos termos seguintes [...]. Com a evolução desse princípio, a igualdade deixa de possuir um viés meramente formal, adquirindo uma dimensão mais ampla, em que pretende alcançá-la de forma material, equalizando desigualdades desproporcionais. Segundo Bandeira de Mello (2004, p.73-74), o princípio da igualdade [...] firma a tese de que não se pode desenvolver qualquer espécie de favoritismo ou desvalia em proveito ou detrimento de alguém. Há de agir como obediência ao princípio da impessoalidade. [...] O princípio da isonomia da Administração não necessita, para seu fundamento, da invocação cânones da ordem moral. Juridicamente se estriba na convincente razão de que os bens manipulados pelos órgãos administrativos e os benefíciosqueosserviçospúblicospodempropiciarsãobensdetodacomunidade, embora por ela geridos, e benefícios a que todos igualmente fazem jus, uma vez que os Poderes Públicos, no Estado de Direito, são simples órgãos representantes de todos os cidadãos. O princípio da legalidade é um dos mais relevantes na esfera administrativa. É descrito no art. 5º, II, e salienta que a lei determinará o que não se pode fazer e, na sua omissão, a conduta estaria permitida. Contudo, esse entendimento aplica-se ao indivíduo, ao particular. Diferente é o que se impõe à administração pública, que só pode fazer aquilo que estiver expressamente determinado na lei. Ao particular é dado fazer tudo quanto não estiver proibido; ao administrador somente o que estiver permitido pela lei (em sentido amplo). Não há Liberdade Desmedida ou que não esteja expressamente concedida. Toda a atuação administrativa vincula- se a tal princípio, sendo ilegal o ato praticado sem lei anterior que o preveja [...]. Do princípio da legalidade decorre a proibição de, sem lei ou ato normativo que permita, a Administração virá, por mera manifestação unilateral de vontade, declarar, conceder, restringir direitos ou impor obrigações (ROSA,2003,p.11). Bandeira de Mello (2004, p. 90-91) também acentua a importância do princípio da legalidade como basilar no regime jurídico administrativo e para o próprio Estado de Direito: Este é o princípio capital para a configuração do regime jurídico-administrativo. Justifica- se, pois, que seja tratado – como será – com alguma extensão e detença. Com efeito, enquanto princípio da supremacia do interesse público sobre o interesse privado é da essência de qualquer Estado, de qualquer sociedade juridicamente organizada com fins políticos, o da legalidade é específico do Estado de Direito, é justamente aquele que o qualifica e que lhe dá identidade própria. Por isso mesmo é o princípio basilar do regime jurídico administrativo, já que o Direito Administrativo “pelo menos aquilo que como tal se concebe” nasce como Estado de Direito: é uma consequência dele. É o fruto da submissão do Estado à Lei. É, em suma: a consagração da ideia de que Administração Pública só pode ser exercida na conformidade da Lei e que de conseguinte, a atividade administrativa é a atividade sub-legal, infralegal, consistente na expedição de comandos complementares à Lei. O princípio da finalidade deve ser o orientador da atuação do administrador público, pois este sempre deve se ater ao interesse público. No desenvolvimento de sua competência, o administrador depara-se com uma finalidade geral e uma específica, devendo coordená-las de modo a realizar sua função atendendo ao interesse coletivo, evitando que os atos produzidos sejam anulados. O princípio da finalidade impõe que o administrador, ao manejar as competências postas a seu encargo, atue com rigorosa obediência à finalidade de cada qual. Cumpre-lhe cingir- senão apenas finalidade própria de todas leis, que é o interesse público, mas também à finalidade específica abrigada na lei a que esteja dando execução. Assim, há desvio de poder e em consequência nulidade do ato, por violação da finalidade legal, tanto nos casos em que a atuação administrativa é estranha a qualquer finalidade pública, quanto naqueles em que o fim perseguido, se bem de interesse público, não é o fim preciso que a lei assinalava paratalato (MELLO, 2005, p. 57). O princípio da motivação não se confunde com o motivo, mas ambos se relacionam, conforme verificado por Maria Sylvia Zanella Di Pietro (2011, p. 121): [...] Motivo é o pressuposto de fato e de direito que serve de fundamento ao ato administrativo e que a motivação é a exposição dos motivos, ou seja, é a demonstração, por escrito, de que os pressupostos de fato realmente existiram. [...] No ato de punição do funcionário, o motivo é a infração que ele praticou, no tombamento, é o valor cultural do bem, na licença para construir, o conjunto de requisitos comprovados pelo proprietário; na exoneração do funcionário estável é o pedido por ele formulado. A necessidade de motivação ou não ainda gera alguns debates entre estudiosos. Há doutrinadores que afirmam que só seria imprescindível nos atos considerados vinculados; já outros entendem que só se aplicaria aos atos discricionários, devido à existência de subjetividade. A seguir, vemos a posição de Celso Antonio Bandeira de Mello (2002, p. 102) nesse sentido: Em algumas hipóteses de atos vinculados, isto é, naqueles que há aplicação quase automática da lei, por não existir campo para interferência de juízos subjetivos do administrador, a simples menção do fato e da regra de Direito aplicada pode ser suficiente, por estar implícita a motivação. Todavia, em que existe discricionariedade administrativa ou em que a prática do ato vinculado depende de atirada apreciação e sopesamento dos fatos e das regras jurídicas em causa, é imprescindível a motivação detalhada. Entretanto, a posição que predomina coaduna-se como pensamento apresentado por Diógenes Gasparini (2005, p. 23), de que a motivação é necessária para todo e qualquer ato: A motivação é necessária para todo e qualquer ato administrativo, pois a falta de motivação ou indicação de motivos falsos ou incoerentes torna o ato nulo devido [à] Lei n.º 9.784/99, [que] em seu art.50, prevê a necessidade de motivação dos atos administrativos sem fazer distinção entre atos vinculados e os discricionários, embora mencione nos vários incisos desse dispositivo quando a motivação é exigida. Os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade são fundamentais para a existência e a realização efetiva do princípio do devido processo legal, já que o integram. As decisões jurídicas hão de ser, ainda, substancialmente de vidas. Não basta a sua regularidade formal; é necessário que uma decisão seja substancialmente razoável ecorreta. Daí, fala-se em um princípio do devido processo legal substantivo, aplicável a todos os tipos de processo, também. É desta garantia que surgem os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade (DIDIER, 2008,p.33). O princípio da proporcionalidade relaciona fim como meio, devendo haver equilíbrio entre ambos. Para se alcançar certa finalidade, não cabe a utilização de todo e qualquer meio: O princípio ordena que a relação entre o fim que se pretende alcançar e o meio utilizado deve ser proporcional, racional, não excessiva, não arbitrária. Isso Significa que entre meio e fim deve haver uma relação adequada, necessária e racional ou proporcional (STEINMETZ, 2001, p. 149). O princípio da proporcionalidade radicao seu conteúdo na noção segundo a qual deve a sanção disciplinar guardar adequação à falta cometida. Tal princípio, mesmo que não esteja literalmente previsto no nosso ordenamento jurídico, encontra-se nele integrado por força de compreensão lógica (COSTA, 2010, p.64). José dos Santos Carvalho Filho(2006) acentua que haveria uma divisão no âmbito do princípio da proporcionalidade. Este deveria ser analisado sob um prisma tridimensional, conforme afirma: adequação, significando que o meio empregado na atuação deve ser compatível com o fim colimado; b) exigibilidade, porque a conduta deve ter-se por necessária, não havendo outro meio menos gravoso ou oneroso para alcançar o fim público, ou seja,omeioescolhidoéoquecausaomenorprejuízopossívelparaosindivíduos; c) proporcionalidade em sentido estrito, quando as vantagens a serem conquistadas superam as desvantagens (CARVALHO, 2006, p. 31). Já o princípio da razoabilidade é um conceito amplo que traz a ideia de moderação, cautela, visando a uma atuação legítima e justificada administração pública: Pelo princípio da razoabilidade, o que se pretende é considerar se determinada decisão, atribuída ao Poder Público, de integrar discricionariamente uma norma, contribuirá efetivamente para um satisfatório atendimento dos interesses públicos.A razoabilidade, agindo como um limite à discrição na avaliação dos motivos, exige que sejam eles adequados, compatíveis e proporcionais, de modo a que o ato atenda a sua finalidade pública específica; agindo também como um limite à discrição na escolha do objeto, exige que ele se conforme fielmente à finalidade e contribua eficientemente para que ela seja atingida (GASPARINI, 2001, p. 22). O princípio da moralidade no âmbito administrativo significa que aqueles que atuam na função pública devem respeitar os preceitos legais e os éticos e morais. A boa-fé e a probidade vem orientar a administração pública. A importância desse princípio precede mesmo a Constituição Federal: Poder-se-á dizer que apenas agora a Constituição Federal consagrou a moralidade como princípio da administração pública (art. 37 da CF). Isso não é verdade. Os princípios podem estar ou não explicitados em normas. Normalmente, sequer constam de texto regrado. Defluem no todo do ordenamento jurídico. Encontram-se ínsitos, implícitos no sistema, permeando as diversas normas regedoras de determinada matéria. O só fato de um princípio não figurar no texto constitucional, não significa que nunca teve relevância de princípio. A circunstância de, no texto constitucional anterior, não figurar o princípio da moralidade não significa que o administrador poderia agir de forma imoral ou mesmo amoral (PEREZ, 1983, p. 15). Há certa divergência entre doutrinadores acerca da diferença entre imoralidade administrativa e a improbidade administrativa. Há dois entendimentos, um que as considera distintas, mas relacionadas, e outro que a se ntende como a mesma circunstância. Quando o administrador público age contrariando as regras de probidade administrativa, também a moralidade administrativa restou prejudicada, desrespeitada, ainda que de forma indireta. Isso ocorre porque o dever da boa administração está ligado ao atendimento à finalidade pública, mas sem flexibilização das normas às quais está submetida a Administração Pública, sob pena de atropelar o ordenamento jurídico. Isto significa que, por mais que esteja bem-intencionado o administrador, ele não poderá afastar os preceitos do regime jurídico vigente sob o argumento de que os mesmos impedem ou inviabilizam o interesse público (FRANÇA, 2001, p. 185). Sobre os princípios da ampla defesa do contraditório, pode-se afirmar serem fundamentais e imprescindíveis para legitimar e validar os processos de forma geral. Permitem que haja equilíbrio e isonomia nas relações processuais. É uma garantia político-constitucional do indivíduo. É um meio técnico de que a lei se vale para a condução do processo e garantir os fins da justiça. As partes interessadas é que devem fornecer a matéria de fato válida, a definir a instrução (ROSAS,1997,p.48). Além da previsão constitucional desses princípios, outras disposições surgem para enfatizá-los, como é o caso da Súmula Vinculante nº 14, que ressalta aspectos inerentes à ampla defesa: É Direito do defensor, no interesse do representado, ter acesso amplo ao elementos de prova que, já documentados em procedimento investigatório realizado por órgão com competência de polícia judiciária, digam respeito ao exercício do direito de defesa. É interessante salientar que os princípios da ampla defesa e do contraditório possuem uma dimensão mais ampla que descrevem alguns estudiosos e permitem a obtenção de decisões mais justas. O princípio da ampla defesa na teoria neo-institucionalista do processo é que vai permitir defesas não só em face de defeitos procedimentais ou contra o mérito, mas numa concepção expansiva da negação ou afirmação de constitucionalidade dos atos e conteúdos jurídicos das pretensões e de sua procedimentalidade formal. Ampla defesa é nessa concepção o direito processualmente garantido a um espaço procedimental cognitivo à construção de fundamentos obtidos dos argumentos jurídicos advindos das liberdades isonômicas exercidas em contraditório na preparação das decisões(LEAL,2002,p.171). O Contraditório permite que haja uma harmonização do sistema normativo. É decorrente do direito de defesa, mas não se subsume a uma mera ciência de atos processuais, e envolve participação efetiva no processo, de modo a contribuir para a elaboração da decisão. Se interpretarmos o contraditório como o reconhecimento de iguais possibilidades de participação no procedimento, por sua vez o direito de ampla argumentação há que ser a todos os envolvidos reconhecido como o direito de trazer à discussão institucionalizada, que é o processo, toda e qualquer questão que entendam ser relevantes também, e mais uma vez, para reconstrução do caso e do Direito afim de que seja construída a decisão do caso (CHAMON JÚNIOR, 2005, p. 87). O princípio da segurança jurídica relaciona-se ao da boa-fé, sendo ambos exigidos na atuação da administração. É uma garantia do indivíduo em face do Estado de Direito, impedindo desconstruções jurídicas, ainda que haja desconformidade com as disposições legais, visando preservar a confiança do administrado. A regra do art. 54 da Lei n° 9.784/99, por traduzir, no plano da legislação ordinária, o princípio constitucional da segurança jurídica, entendida como proteção à confiança, tem como pressuposto a boa-fé dos destinatários. A decadência do direito da Administração à anulação não se consuma se houver má fé dos destinatários. Não está em questão a má-fé da Administração Pública ou da Autoridade Administrativa. Assim, mesmo existente esta, se os destinatários do ato administrativo estavam de boa-fé e houve o transcurso do prazo quinquenal sem que o Poder Público houvesse providenciado na anulação do ato administrativo ilegal, configuram-se todos os requisitos para a incidência e aplicação do art. 54, perecendo, pela decadência, o direitoàanulação (COUTO E SILVA, 2005, p.48). O princípioda supremacia do interesse público possui uma origem muito mais longínqua e diferente do que se imaginava, pois não surgiu do Direito Administrativo: Embora possa parecer que o princípio da supremacia do interesse público sobre o privado tenha sido criado no âmbito do direito administrativo, na verdade ele antecede em muitos séculos o nascimento desse ramo do direito, que somente começou a se formar como ramo autônomo em fins do século XVIII, com a formação do Estado de Direito. Com efeito, a ideia da existência de interesses gerais diversos dos interesses individuais encontra suas origens na antiguidade greco-romana (DI PIETRO, 2009b, p. 36). Dentro da definição do princípio da supremacia do interesse público, cabe asseverar que são diferenciadas as relações entre administração e particulares. A Administração Pública não está no mesmo plano que o particular as relações que mantém com este. Está em situação de verticalidade, em situação de superioridade, sustentando interesse coletivo, que tem predominância sobre interesse individual. O Estado não poderia desincumbir-se de suas tarefas se estivesse no mesmo plano que os particulares, os quais possuem autonomia de vontade e interesses individuais nem sempre coincidentes com o interesse da sociedade. Para propiciar o atingimento dos fins do Estado é que se reconhece à Administração Pública a supremacia de seus interesses, que preponderam sobre os interesses individuais.[...] O interesse da Administração prevalece sobre o particular porque é titularizado por toda sociedade (VIEIRA, 2011, p. 34). O princípio da eficiência exige que a administração pública, no desenvolvimento de suas atribuições, atue com celeridade e rendimento. Dessa maneira, até os processos têm exigência de uma duração razoável que não ultrapasse o tempo justo. Figura – Princípio da eficiência pública Fonte:elaborada pela autora(2022). Alguns entendem a eficiência como dever da administração escolher o meio que implique menos dispêndios financeiros. Dentre as várias alternativas, cumpre escolher a opção mais barata. Essa interpretação remete-nos a dois modos de consideração do custo administrativo: a um modo absoluto, no sentido de que a opção menos custosa deve ser adotada, indiferente se outras alternativas, apesar de mais custosas, apresentam outras vantagens; a um modo relativo, no sentido de que aopçãomenoscustosadeveseradotadasomenteseasvantagens proporcionadas por outras opções não superarem o benefício financeiro. O modo relativo é aquele que melhor se compatibiliza com o ordenamento jurídico brasileiro. Isso significa dizer que não se pode entender, de chofre, como melhor a compra de equipamentos eletrônicos só porque são mais baratos relativamente a outros,sem consideração, por exemplo, da sua durabilidade, dos serviços de assistência técnica que eles exigem, da sua obsolescência, da sua praticidade. O equipamento mais barato pode ser, até mesmo, o menos adequado para realizar a finalidade de modo satisfatório (ÁVILA,2003,p.127). 4.4.2 Processo Administrativo Disciplinar Figura–Processo Disciplinar–responsabilidades Fonte:elaborada pela autora(2022). O Processo administrativo disciplinar é previsto na Lei nº 8.112/1990, a qual disciplina o regime jurídico dos servidores públicos civis da União, das autarquias e das fundações públicas federais. No âmbito da compreensão do processo administrativo disciplinar, é relevante analisar quais são as proibições aos servidores. Estas se encontram dispostas no art. 117 da Lei nº 8.112/1990: Art.117. Ao Servidor é Proibido: 1. ausentar-se do serviço durante expediente, sem prévia autorização do chefe imediato; 2. retirar, sem prévia anuência da autoridade competente, qualquer documento ou objeto da repartição; 3. recusar fé a documentos públicos;opor resistência injustificada ao andamento de documento e processo ou execução de serviço; 4. promover manifestação de apreço ou desapreço no recinto da repartição;cometer a pessoa estranha à repartição, fora dos casos previstos em lei, o desempenho deatribuição que seja de sua responsabilidade ou de seu subordinado; 5. coagir ou aliciar subordinados no sentido de filiarem-se a associação profissional ou sindical, ou a partido político;manter sob sua chefia imediata, em cargo ou função de confiança, cônjuge, companheiro ou parente até segundo grau civil; 6. valer-se do cargo para lograr proveito pessoal ou de outrem, em detrimento da dignidade da função pública;participar de gerência ou administração de sociedade privada, personificada ou não personificada, exercer o comércio, exceto na qualidade de acionista, cotista ou comanditário; 7. atuar, como procurador ou intermediário, junto a repartições públicas, salvo quando se tratar de benefícios previdenciários ou assistenciais de parentes até o segundo grau, e de cônjuge ou companheiro; 8. receber propina,comissão, presente ou vantagem qualquer espécie,em razão de suas atribuições; 9. aceitar comissão, emprego ou pensão de estado estrangeiro; 10. praticar usura sob qualquer de suas formas;proceder de forma desidiosa; 11. utilizar pessoal ou recursos materiais da repartição em serviços ou atividades particulares;cometer a outro servidor atribuições estranhas ao cargo que ocupa, exceto em situações de emergência e transitórias; 12. exercer quaisquer atividades que sejam incompatíveis como exercício do cargo ou função e com o horário de trabalho; 13. recusar-se a atualizar seus dados cadastrais quando solicitado. No âmbito das responsabilidades, o servidor responde em até três esferas – civil, penal e administrativa – pela irregularidade no desempenho da função. A responsabilidade decorre tanto de ato comissiv oquanto de omissivo, desde que haja dano à administração ou a particulares. As penalidades disciplinares que podem decorrer da irregularidade da atuação dos servidores seriam: • advertência; • suspensão; • demissão; • cassação de aposentadoria ou disponibilidade; • destituição de cargo em comissão; e • destituição de função comissionada. DIREITO ADMINISTRATIVO. Aplicação de PENA DISCIPLINAR EM PROCESSO ADMINISTRATIVO REGULAR. IRREGULARIDADES APONTADAS NA SINDICÂNCIA SEM OFENSA AO PRINCÍPIO DA AMPLA DEFESA. O PROCESSO SINDICÂNCIA NÃO TEM FORMA E NEM FIGURA DE JUÍZO, NÃO OBEDECE A PROCEDIMENTO ESPECÍFICO, NEM AO PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO.AO INDICIADO NÃO CABE ALEGAR DEFEITOS OU IRREGULARIDADES NA SINDICÂNCIA (OU VÍCIOS DE INTIMAÇÃO), PORQUANTO A SUA DEFESA SERÁ SEMPRE FEITA, DE FORMA EXAUSTIVA E EFICIENTE, NA FASE DO INQUÉRITO ADMINISTRATIVO,COMO OCORREU, NA HIPÓTESE OS EFEITOS DE INTIMAÇÃO, NA FASE DA SINDICÂNCIA, NÃO SE PODEM REFLETIR PARA EFEITO DE ANULAÇÃO DE PUNIÇÃO IRROGADA, AO SINDICADO, COM BASE EM PROCESSO ADMINISTRATIVO REGULAR, MEDIANTE O ASSEGURAMENTO DA MAIS AMPLA DEFESA. O DEVER DO FUNCIONÁRIO DE COMUNICAR IRREGULARIDADES, PORVENTURA EXISTENTES, NO SERVIÇO PÚBLICO DE QUE É AGENTE, NÃO EXCLUI AQUELE PERTINENTE AO RESPEITO,À DIGNIDADE, À HONRA E AO DECORO DEVIDOS, PELO SERVIDOR, AOS SUPERIORES HIERÁRQUICOS. NÃO SE ANULA PENA DE ADVERTÊNCIA, QUANDO APLICADA COM BASE NA LEI PROCEDIMENTO ADEQUADO. RECURSO A QUE SE NEGA PROVIMENTO. DECISÃO POR MAIORIA DE VOTOS‟ (RMS 281/SP–STJ– 1ª Turma – Relator Min.Demócrito Reinaldo – Publicado no DJ em 17.05.1993) „PROCESSO CIVIL – ADMINISTRATIVO – RECURSO MANDADO DE SEGURANÇA – SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL – IMPOSSIBILIDADE DE DILAÇÃO PROBATÓRIA – SINDICÂNCIA– PROCEDIMENTO SUMÁRIO – PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS – AMPLA DEFESA– CONTRADITÓRIO –DEVIDO PROCESSO LEGAL – INCABIMENTO. 1– Aprova, na via mandamental, deve vir pré-constituída, não podendo ocorrer a chamada dilação probatória, já que o direito que se visa proteger deve ser líquido certo e, de plano demonstrado. 2– A sindicância é um procedimento preliminar sumário, instaurada com o fim único investigação de irregularidades funcionais,que precede ao processo administrativo disciplinar, não se confundindo com este. Sendo, desse modo, prescindível, nesta fase, a observância dos princípios constitucionais do contraditório, da ampla defesa e do devido processo legal. 3– Precedentes (ROMS nºs 2.530/Pi e 10.574/ES). 4– Recurso Conhecido, porém, desprovido.”(RMS12680/MS,STJ, 5ªTurma, rel.min. Jorge Scartezzini, publicado no DJem 5/8/2002). Quem seriam os legitimados para aplicar essas penalidades? Depende de que estas sejam: Demissão e cassação de aposentadoria ou disponibilidade de servidor – presidente da República, presidentes das Casas do Poder Legislativo e dos Tribunais Federais e procurador-geral da República. Suspensão superior a 30 dias – autoridades administrativas de hierarquia imediatamente inferior às anteriores. Advertência ou de suspensão de até 30 dias – chefe da repartição e outras autoridades regulamentares. Destituição de cargo em comissão – autoridade nomeante. Quanto à prescrição, cabe ressaltar que também depende da penalidade a ser aplicada, conforme a infração praticada: Cinco anos: demissão, cassação de aposentadoria ou disponibilidade e destituição de cargo em comissão. Dois anos: suspensão. 180 dias: advertência. Verificada a irregularidade no exercício da função pública, deve ocorrer a devida apuração, iniciada por meio de sindicância ou processo disciplinar. Sindicância jamais condena alguém a coisa alguma. Trata-se de um procedimento facultativo,inquisitório, prévio a qualquer procedimento para pretensão punitiva, que por tudo isso nunca pode ensejar penalização a quem que seja. Ninguém pode ser condenado num inquérito policial, como ninguém pode ser condenado numa sindicância administrativa, nem mesmo à pena de advertência, muito menos à de suspensão. É seguro e pacífico que tantas penalidades quantas a União aplicar em função do inc.II deste art.145 serão revogadas, com execração para a desavisada autoridade que as aplicar, em mandado de segurança (RIGOLIN, 2015, p.247). As denúncias serão apuradas, e, se não for verificada infração disciplinar ou fato que gere responsabilização penal, haverá o arquivamento. A garantia do devido processo legal não só assegura ao funcionário a feitura do procedimento disciplinar previsto na lei (sindicância e processo ordinário sumário), como exige, por via de consequência, a existência de elementos prévios que legitimem tal iniciativa. Não fosse a exigência desse pré-requisito, os procedimentos disciplinares – estribando-se em meros caprichos do administrador e podendo ser instaurados sem mais nem menos, isto é, semaexistênciade indícios ou outros adminículos legais idôneos – a vida funcional do servidor público seria um constante transtorno recheado por uma insegurança jurídica. Daí porque o aspecto mais democrático e importante do devido processo legal é a exigência desse imprescindível requisito de iniciação processual (fumus boni iuris), sem o qual ficaria o servidor público à mercê das trepidações emocionais dos seus superiores hierárquicos, os quais poderiam, assim, infelicitar, importunar e desassossegar os seus subalternos como bem lhe aprouvesse, já que não estariam vinculados a esse pressuposto legal (COSTA, 2002, p. 202- 203). Dessa forma, do procedimento de sindicância, pode resultar o arquivamento do processo, a aplicação de penalidade diretamente (advertência ou suspensão de menos de 30 dias) ou a instauração de processo disciplinar. Não é possível instaurar-se um processo administrativo disciplinar genérico para que, no seu curso se apure se, eventualmente, alguém cometeu falta funcional. Não é dado à Administração Pública nem ao Ministério Público, simplesmente molestar gratuitamente e imotivadamente qualquer cidadão por alguma suposta eventual infração da qual ele, talvez, tenha participado. Vale também aqui o princípio da proporcionalidade inerente ao poder de polícia, segundo o qual só é legítimo o constrangimento absolutamente necessário, e na medida do necessário (DALLARI, 2001, p. 38). As sindicâncias têm prazo específico para ocorrerem – não podem exceder 30 dias, havendo a possibilidade de prorrogação por mesmo período. É importante lembrar que, se o ato praticado pelo servidor ensejar penas mais gravosas, será necessária a instauração de processo disciplinar. Essas penas incluem suspensão por mais de 30 dias, demissão e cassação de aposentadoria ou disponibilidade. Na apuração da irregularidade, pode haver necessidade de afastamento preventivo do servidor do cargo para que ele não obste o desenvolvimento do processo administrativo disciplinar. Esse afastamento deve ser pelo prazo máximo de 60 dias, e o servidor continuará percebendo remuneração. O processo administrativo disciplinar desenvolve-se por intermédio de uma comissão, que é integrada por três servidores. Estes devem ser de carreira(estáveis), sendo que o presidente deve ocupar cargo igual ou superior ao do servidor indiciado. É vedada a participação, nessa comissão, de parentes até terceiro grau ou cônjuge/companheiro. As audiências são reservadas, e a comissão deve orientar-se pela imparcialidade. O processo administrativo tem duração de 60 dias, sendo possível prorrogação por igual período, caso necessário. Como todo processo administrativo, o de natureza disciplinar também se desenvolve por meio de fases, que são: instauração (ato designa comissão); inquérito administrativo (instrução, defesa e relatório); e julgamento. No inquérito administrativo, é assegurado o devido processo legal (ampla defesa e contraditório). Nos casos em que a sindicância se converta em processo administrativo, passará a integrar este (peça de informação). FIQUE LIGADO(A) Uma das principais novidades da Nova Lei de Licitações é um capítulo específico a respeito de infrações e sanções administrativas. Enquanto a antiga Lei nº 8.666/93 tratava de sanções apenas no art. 87, a Nova Lei nº 14.133/2021 contempla o assunto em nove (artigos 155 a 163).[…] Na Nova Lei, a amplitude das sanções restritivas de licitar e contratos - assim como os prazos aplicáveis - são normatizados. O âmbito de aplicação das sanções de impedimento e inidoneidade são destacados nos 4º e 5º parágrafos do art. 156. As diligências, as investigações e os depoimentos são inerentes à fase do inquérito, podendo- se recorrer a peritos para esclarecimentos. Se a conclusão for que houve ilícito penal, haverá encaminhamento dos autos ao Ministério Público, ainda que instaurado o processo também no âmbito administrativo. De acordo com a Súmula nº 591STJ: “É permitida a prova emprestada no processo administrativo disciplinar, desde que devidamente autorizada pelo juízo competente e respeitados o contraditório e a ampla defesa.” Tipificada a infração, o investigado será citado para em 10 dias apresentar sua defesa escrita. Não fazendo isso, será considerado revel. Após a avaliação da defesa apresentada, um relatório será elaborado pela comissão citando as principais peças e provas. Ele pode concluir pela inocência ou pela responsabilidade, com o respectivo dispositivo legal transgredido. STJ, MS10.906/DF2005/0129.244-1, rel. Min. Nilson Naves Irregularidade do processo disciplinar. Mérito administrativo. Ocorrência de erro invencível. Possibilidade de intervenção do Judiciário. 1. No que diz respeito ao controle jurisdicional do processo administrativo disciplinar, a jurisprudência do Superior Tribunal é firme no sentido de que compete ao Poder Judiciário apreciar, à luz dos princípios do contraditório, da ampla defesa e do devido processo legal, a regularidade do procedimento sem, contudo, adentrar o mérito administrativo. Havendo, porém, erro invencível justifica-se a intervenção do Judiciário. 2. Na Hipótese, cabia à administração proceder às diligências necessárias para a descoberta da verdade quanto à participação do impetrantena gerência da empresa, e não simplesmente colocar o ônus da prova sobre o servidor, que, por meio de sua curadora, tentou demonstrar a inatividade da empresa desde a fundação. Agindo assim, a administração esquivou-se das suas funções, lançando ao servidor a incumbência de comprovar a ausência de circunstância irregular. Ao final, não ficou nada provado no processo administrativo. A não intervenção se afigura estranho comportamento. Quero, por isso, entender comigo mesmo que, em certas situações e determinados assuntos, é lícita a intervenção judicial (é lícito ao juiz conhecer da provocação). 3. Segurança concedida em parte para se anular a demissão do impetrante, determinando-se,em consequência, a sua reintegração no cargo. Assim, haverá o julgamento pela autoridade competente em 20 dias, e a regra é de que seja acatada a conclusão da comissão, exceto quando as provas forem divergentes. De acordo com a Súmula nº 592 STJ: “O excesso de prazo para a conclusão do processo administrativo disciplinar só causa nulidade se houver demonstração de prejuízo à defesa.” Poderá haver a revisão do processo disciplinar de ofício ou ainda a pedido, independentemente do prazo, desde que haja novos fatos que possam gerar a inocência ou a percepção de que a penalidade não é adequada. O requerente da revisão é que terá o ônus da prova. Com base nessas normas gerais, é possível extrair a conclusão de que se a Administração Pública, representada pela comissão responsável pela condução de um processo disciplinar, tem conhecimento da existência prévia de uma prova constante de outro processo em trâmite perante o poder público, o dispêndio de recursos para produzir novamente material deve ser evitado,em nome da eficiência e da economicidade ENAP, 2017, p.14). A Terceira Seção, no MS 13.933/DF, enfatiza o prazo prescricional da pretensão punitiva: A leitura do art. 143 da Lei n.º 8.112/90 reforça a ideia de que somente com a ciência da autoridade competente para instauração do procedimento administrativo disciplinar começa o prazo prescricional para o exercício da pretensão punitiva da Administração. O ato de apuração de irregularidade não pode ser praticado por qualquer agente público, ao contrário, só pode ser iniciado por uma determinada autoridade, assim considerada aquela que está legalmente investida de poder e que, no caso em tela, é a autoridade competente para instaurar respectivo procedimento administrativo disciplinar. (STJ, Mandado de Segurança nº14391DF2009/XXXXX-0, rel. min. Napoleão Nunes Maia Filho, Data de Julgamento: 24/8/2011, S3 – Terceira Seção, data publicação: DJe 10/2/2012. A jurisprudência a seguir trata da punitividade, da discricionariedade e dos elementos (motivo e finalidade) do ato administrativo: CONSTITUCIONAL. ADMINISTRATIVO. MANDADO DE SEGURANÇA. DELEGADO DE POLÍCIA. REMOÇÃO EX OFFICIO. ATO ADMINISTRATIVO EM QUALQUER REFERÊNCIA AOS MOTIVOS QUE LHE DERAM ENSEJO. ILEGALIDADE. INOBSERVÂNCIA DO ART. 50,I, DA LEI 9.784/99. MOTIVAÇÃO APRESENTADA SOMENTE NAS INFORMAÇÕES EM QUE NÃO HÁ CONGRUÊNCIA ENTRE O MOTIVO E A FINALIDADE DO ATO, ALÉM DE EVIDENCIAR ELEVADO GRAU DE SUBJETIVISMO À REVELIA DE CONCRETA DEMONSTRAÇÃO DE QUE A TRANSFERÊNCIA ATENDE A ALGUMA DAS HIPÓTESES PREVISTAS NO ART. 26, II, DALEI ESTADUAL 4.122/99. ATO ADMINISTRATIVO QUE, APESAR DE DISCRICIONÁRIO, SUJEITA-SE AO CONTROLE DE JURIDICIDADE. PRECEDENTES. [...] 6. O ato administrativo discricionário sujeita-se à sindicabilidade jurisdicional de sua jurisdicidade. Não invade o mérito administrativo - que diz com razões de conveniência e oportunidade - a verificação judicial dos aspectos de legalidade do ato praticado. Precedentes. 7. Recurso Ordinário provido. (RMS 37.327/SE, rel. min. Herman Benjamin, 2ª T, julgado em 20/8/2013, DJe 12/9/2013). CURIOSIDADE Em 2013, houve a edição de uma lei muito relevante a respeito da responsabilização por atos praticados contra a administração pública. A Lei nº 12.846/2013 determina quais as responsabilidades administrativas ou civis caso sejam praticados atos em confronto com a administração pública, seja ela nacional ou internacional. Ela ficou conhecida como Lei Anticorrupção. A sanção prevista é a multa (variável, podendo chegar a 20%) sobre o faturamento bruto das empresas responsáveis por atos ilícitos contra o erário. Há muitas críticas em relação à aplicação da referida norma, devendo sua utilização ser orientada pela ética e moralidade, além de haver a devida motivação. RECAPITULANDO Nesta unidade abordamos o conceito e os desdobramentos do processo administrativo, o qual tem respaldo no art. 5º, LV, da Constituição Federal. Já a Lei nº 9.784/1999 acaba por regular e direcionar o processo administrativo no âmbito da administração pública federal, podendo ser aplicado à administração pública direta ou indireta. Importante ressaltar que a referida lei foi promulgada com o intuito de atender ao interesse coletivo, porém também pode ser aplicada em casos de exercício da função administrativa de forma atípica por outros Poderes. Também foi estudado que, além do contido na Lei nº 9.784/1999 para o desenvolvimento dos processos administrativos, alguns princípios da esfera administrativa também devem ser seguidos, como motivação, finalidade, legalidade, ou seja, são fundamentais para toda a administração pública. Assim, foram apresentados os princípios fundamentais e imprescindíveis que devem ser seguidos na Administração Pública e no processo administrativo, elencando de forma explicativa cada um dos princípios. Foram abordadas as espécies existentes do processo administrativo, podendo ser de defesa ou de participação, sendo diferenciados pela sua finalidade. O estudante também teve oportunidade de aprender as fases do processo administrativo e os princípios sujeitos a cada procedimento do processo administrativo, pois caso não sejam estes respeitados,a invalidação processo pode ser latente. Por fim, tivemos oportunidade de estudar o processo administrativo disciplinar, previsto pela Lei nº 8.112/1990, que pode ser aplicado ao servidor público nas esferas civil, penal ou administrativa. O processo administrativo pode decorrer de ato comissivo ou omissivo, gerando ao servidor penalidades disciplinares específicas, que também foram abordadas nesta unidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS No presente material, buscamos explicar os atos administrativos com um viés científico, demonstrando a importância deles no âmbito do exercício da função pública. A diferenciação entre os artefatos jurídicos administrativos foi demonstrada conforme a doutrina e a jurisprudência nacionais. Explicou-se, ainda, que os atos administrativos buscam ser uma ferramenta de atuação da administração pública nas suas relações, promovendo um diálogo mais justo com os administrados. Os atos administrativos têm elementos fundamentais que são responsáveis pela sua estrutura. Cada um tem uma função específica na formação do ato. A competência, o objeto, a forma, a finalidade e o motivo foram definidos neste estudo. As características ou atributos dos atos administrativos são de grande importância, já que são os fatores diferenciadores em relação aos atos particulares. Além das prerrogativas de que gozam os primeiros, a questão do direito administrativo também foi esclarecida, sendo elemento integrante dos atos administrativos discricionários. Tratou-se ainda da formação dos atos administrativos e dos aspectos relacionados à sua existência,validade e eficiência. Os efeitos que podem produzir também foram descritos. Além disso, restou demonstrada a existência de uma série de atos administrativos e a classificação de cada um. Grande parte deles foi descrita e definida, de modo a facilitar o entendimento das diferenças existentes. Os processos administrativos foram analisados sob inúmeros prismas, como pelos requisitos e objetivos. Outrosaspectos observados foram as espécies existentes. O processo administrativo foi descrito em seu tudo, assim como suas frases, minuciosamente. O estudo dos princípios também é um aspecto relevante que foi delineado. O processo administrativo disciplinar ainda foi um dos focos do estudo desta aula. GLOSSÁRIO Arbitrariedade Procedimento determinado pela vontade livre do agente, contrário à ordem jurídica. Abuso de autoridade. Common Law É um sistema jurídico utilizado em países de língua inglesa. Possui como principal característica ser baseado em precedentes criados a partir de casos jurídicos – e não em códigos. Por isso, o papel dos juízes e dos advogados é importante para o desenvolvimento desse sistema. Convalidação A convalidação, também denominada de sanatória, refere-se à correção da existência de um eventual vício em um ato administrativo. Só pode ocorrer caso não cause danos ou prejuízos a terceiros ou à própria administração. Possui efeitos retroativos. Ex Nunc Expressão em latim que indica os efeitos provenientes de um ato ou de uma decisão; significa que a decisão não retroage para alcançar atos já passados, valendo somente a partir então. Ex Tunc Expressão em latim que indica os efeitos provenientes de um ato ou de uma decisão; significa que os efeitos da decisão retroagem à data da decisão, alcançando o passado. Imprescritibilidade Caráter daquilo que não pode prescrever; qualidade daquilo cujo prazo de prescrição não tem efeito; característico que é imprescritível: a imprescritibilidade de crimes como o racismo. Probidade É a retidão das ações administrativas. Agir de forma reta e honesta não somente de acordo com as normas, como também de acordo com a ética (código de ética do servidor), dentro dos princípios de moralidade. Súmula Trata-se de pronunciamentos proferidos pelos Tribunais do nosso país, baseados em decisões reiteradas, que delimitam o entendimento e interpretação das leis sobre determinada matéria dada pelos nossos magistrados. É a “união” de várias decisões do mesmo Tribunal, com idêntica interpretação sobre o mesmo tema. Pode ser conceituada também como um resumo da decisão.jurídicos: O ato jurídico desde logo se distingue dos demais fatos voluntários lícitos pela maior relevância da vontade, isto é, da vontade que visa a alcançar, direta e imediatamente, os efeitos práticos protegidos pela norma e recebe desta o poder de auto-regulamentar os interesses próprios do agente [...]. Consiste, pois, o ato jurídico na declaração dispositiva e preceptiva da vontade autônoma do agente, dirigida direta e imediatamente à consecução dos resultados práticos, individuais e sociais, produzidos pelos efeitos que o ordenamento lhe confere. Inúmeros eventos desenvolvem-se no dia a dia da vida das pessoas, mas só serão considerados fatos jurídicos aqueles que tiverem importância na esfera do Direito, ou seja, quando há norma que a eles se destine ou que se dirija para algum fim. De acordo com Pontes de Miranda (1983,p.77): Fato jurídico é, pois, o fato ou complexo de fatos sobre o qual incidiu a regra jurídica; portanto, o fato de que dimana, agora, ou mais tarde, talvez condicionalmente, ou talvez não dimana, eficácia jurídica. Não importa se é singular, ou complexo, desde que, conceptualmente, tenha unidade. A oferta é fato jurídico: produz efeitos jurídicos. A aceitação também os produz, porque é fato jurídico. O contrato que delas surge é fato jurídico, com suporte de dois fatos jurídicos: a regra jurídica incide sobre dois suportes fáticos, em correlação, dando ensejo, assim, à bilateralidade. Figura – Classificação do fato jurídico Fonte:elaborada pela autora(2022). Faz-se mister apresentar o aspecto diferenciador entre atos da administração e atos administrativos. O conteúdo dos primeiros é mais abrangente que o dos últimos, englobando-os. Assim, podem ser considerados atos da administração: 1. Os atos de direito privado, como doação, permuta, compra e venda, locação; 2. Os atos materiais da administração, que não contêm manifestação de vontade, mas que envolvem apenas execução, como a demolição de uma casa, a apreensão de mercadoria, a realização de um serviço; 3. Os chamados atos de conhecimento, opinião, juízo ou valor, que também não expressam uma vontade e que, portanto, também não podem produzir efeitos jurídicos; é o caso dos atestados, certidões, pareceres, votos; 4. Os atos políticos, que estão sujeitos a regime jurídico-constitucional; 5. Os contratos; 6. Os atos normativos da administração, abrangendo decretos, portarias, resoluções, regimentos, de efeitos gerais e abstratos; 7. Os atos administrativos propriamente ditos (DI PIETRO,2014, p.199). Os denominados atos administrativos serão mais bem definidos e delineados no tópico a seguir. 1.3 Conceito Adentramos a seara específica dos atos administrativos questionando acerca de quando e como teriam surgido. A origem dos atos administrativos é incerta, sendo mencionados em uma norma francesa que tratava da não intervenção dos tribunais no Poder Legislativo (Lei nº 16/24-8, de 1790). Essa lei teria, juntamente com outra norma (Lei nº 3-9, de 1795), iniciado e desenvolvido a ideia do denominado contencioso administrativo; a partir disso, inúmeros atos da administração passaram a não mais se submeter ao âmbito judicial. No que concerne à origem dos atos administrativos, Maria Sylvia Zanella Di Pietro(2014,p.27) afirma: A noção de ato administrativo só começou a ter sentido a partir do momento em que se tornou nítida a separação de funções, subordinando-se cada uma delas a regime jurídico próprio. [...] só existe nos países em que se reconhece a existência de um regime jurídico-administrativo, a que se sujeita a Administração Pública, diverso do regime de direito privado. Onde não se adota esse regime, como nos sistemas da common law, a noção de ato administrativo, tal como a conhecemos, não é aceita. Compreendendo melhor os atos administrativos, é imprescindível entender seu conceito. Mello (2011,p.173) designa-os como declaração de vontade do Estado (ou de quem lhe faça às vezes – como por exemplo, um concessionário de serviço público), no exercício de prerrogativas públicas, manifestada mediante providências jurídicas complementares da lei a título de lhe dar cumprimento, e sujeitas a controle de legitimidade por órgão jurisdicional. Importa ressaltar que os atos administrativos produzem efeitos jurídicos e se encontram na esfera do Direito Público. A vontade estatal materializa-se por meio deles. RECAPITULANDO Foi possível conceituar que o Direito Administrativo está em constante mudança ante a sociedade dominante em cada momento da história, o que acaba influenciando no desenvolvimento da gestão de cada época da Administração. Assim, ante os conceitos mais modernos da Administração Pública, com menos burocracia e maior atendimento à coletividade, foi possível diferenciar o fato administrativo e o ato administrativo. O ato administrativo acaba sendo submetido ao controle da administração e não há definição legal para ele, embora seja conceituado amplamente por doutrinadores. O ato administrativo é pautado na boa administração, a qual prega a imparcialidade, eficiência e a transparência, entre outros princípios. Foi também conceituado o que vem a ser um fato administrativo, que são as atividades materiais da administração, podendo ser divididas em fato administrativo em sentido estrito. Por fim, identificamos as principais diferenças entre ato jurídico e ato administrativo, sendo que estes produzem efeitos jurídicos e são manifestados no Direito Público. UNIDADE 2 - ASPECTOS GERAIS DOS ATOS ADMINISTRATIVOS 2. ELEMENTOS E ASPECTOS DOS ATOS ADMINISTRATIVOS 2.1 do ato administrativo: competência, objeto, forma, motivo, finalidade Os atos administrativos têm elementos fundamentais que integram a sua estrutura. São eles a competência, o objeto, a forma, o motivo e a finalidade. Segundo Marcello Caetano (1997), há diversos requisitos que os atos administrativos devem cumprir para que se verifique sua validade no plano jurídico. Para um ato administrativo ser válido é necessária a verificação de vários requisitos. Em primeiro lugar, a conduta há de ser proveniente de um órgão da administração competente para a adotar. Depois é indispensável que, havendo exigências legais quanto ao processo de formação e de manifestação de vontade, sejam observadas as formalidades e forma prescritas. O ato visa a produzir efeitos jurídicos num caso concreto: tal é o seu objeto. Ora para que os efeitos jurídicos se produzam validamente é preciso que sejam respeitadas certas normas quanto à individualização do caso concreto e quanto aos requisitos objetivos e subjetivos que são pressupostos da lei. Enfim, o ato administrativo tem de ter um fim de interesse público. Este fim reveste a maior importância no caso de serem exercidos poderes discricionários (CAETANO, 1997, p. 466). A competência é um requisito de grande importância para a existência do ato administrativo. São poderes específicos atribuídos a um determinado agente público para exercício de certas atividades. A competência caracteriza-se por alguns aspectos, como a irrenunciabilidade (não se pode renunciar a ela, apenas delegar ou avocar, que são coisas diferentes), a inderrogabilidade (casos de competência exclusiva), a improrrogabilidade (só se pode realizar atos quando houver previsão de poder para tal) e a imprescritibilidade. No que tange aos aspectos marcantes do elemento competência, cabe aduzir: 1) A competência se refere, na verdade, ao sujeito, a quem é atribuída a competência para a prática do ato – no direito brasileiro, quem tem capacidade para a prática de atos administrativos são as pessoas públicas políticas (União, Estados, Municípios e Distrito Federal), sendo suas funções distribuídas entre órgãos administrativos e, respectivamente entre seus agentes (pessoas físicas) – essa competência é distribuída na Constituição e nas Leis; 2) decorre sempre da lei, não podendoconvalidação, ou quando a situação gerada não estiver protegida por normas ou princípios que lhe garantam a existência (e o da segurança jurídica reclama, em determinados casos, esta providência) (CÂMARA, 2008, p. 142). Esse instituto ainda é objeto de uma polêmica. Questiona-se se a convalidação constitui um dever ou uma faculdade. Sobre isso, argumenta Di Pietro (2007, p. 232): Vale dizer que a convalidação aparece como faculdade da administração, portanto, como ato discricionário, somente possível quando os atos inválidos não acarretem lesão ao interesse público nem prejuízo a terceiros; em caso contrário, tem-se que entender que a administração está obrigada a anular o ato, ao invés de convalidá-lo. No que se refere à convalidação, faz-se oportuno citar a jurisprudência a seguir: Se não se nega à Administração a faculdade de anular seus próprios atos, não se há de fazer disso, o reino do arbítrio. (STF – RE 108.182/Min. Oscar Corrêa). A regra enunciada no verbete nº 473 da Súmula do STF deve ser entendida com algum temperamento: no atual estágio do direito brasileiro, a Administração pode declarar a nulidade de seus próprios atos, desde que, além de ilegais, eles tenham causado lesão ao Estado, sejam insuscetíveis de convalidação e não tenham servido de fundamento a ato posterior praticado em outro plano de competência. (STJ– RMS 407/Humberto) (REsp nº 300116, rel. min. Humberto Gomes, 1ª Turma, DJ 25/2/2002, p. 222). 2.2 Características: imperatividade, presunção de legitimidade, auto executoriedade O atributo da imperatividade do ato administrativo significa que este se dirige aos destinatários independentemente de sua vontade ou anuência. É uma imposição da administração aos particulares. Isso decorre do denominado poder extroverso, o qual gera deveres a particulares de forma unilateral. Há cogência a fim de atender ao interesse público. Cabe ressaltar que uma exceção seriam os atos enunciativos. José dos Santos Carvalho Filho (2012, p. 120) aduz: Imperatividade, ou coercibilidade, significa que os atos administrativos são cogentes, obrigando a todos quantos se encontrem em seu círculo de incidência (ainda que o objetivo a ser por ele alcançado contrarie interesses privados), na verdade, o único Alvo da Administração Pública é o interesse público. Figura–Atributos Do Ato Administrativo–imperatividade Fonte:elaborada pela autora(2022). A presunção de legitimidade relaciona-se ao fato de que a administração pública, representando o Estado, tem posição diferenciada do particular. A legitimidade é presumida em prol do alcance do interesse público. Compreende-se inicialmente que os atos administrativos nascem sem vícios, de acordo com normas legais, e prontos para produzir efeitos. Figura – Atributo do ato administrativo – presunção de legitimidade Fonte: elaborada pela autora (2022). Historicamente, a legitimidade precedeu a legalidade e, por vezes, a legitimidade foi ilegal e a legalidade foi ilegítima, numa evolução secular, ora paralela, ora divergente e ora convergente, conforme as épocas e as sociedades, até que se fez sentir uma novíssima necessidade social: a de conciliá-las, pela submissão de todos os processos político sao Direito. Com a consciência desse fundamental interesse foi possível estruturar-se uma organização política submetida simultaneamente à lei – o Estado de Direito –e ao interesse social prevalecente – o Estado Democrático – fundidos no conceito constitucionalizado do Estado Democrático de Direito (MOREIRA NETO, 1998, p. 13). Auto executoriedade significa que o ato se executa por si só, não precisa de autorização para que isso ocorra. Não é necessária a interferência do Poder Judiciário, apesar de estar sujeito a controle judicial a posteriori quando o particular for afetado de forma negativa e imprópria. Figura – Atributo do ato administrativo – auto executoriedade A exigibilidade integra o conceito da auto executoriedade, já que, quando um comportamento ou dever é exigido, há coerção, por meio de aplicação de penalidade, em caso de não cumprimento. Essa característica denomina-se coerção indireta e exigibilidade de coerção direta. Cretella Júnior (1999, p. 553) analisa: A segurança das pessoas e das coisas é elemento básico das condições universais, fato absolutamente indispensável para o natural desenvolvimento da personalidade humana. Proclamada inviolável pelo direito, não fica, porém, livre de forças exteriores, pessoais e impessoais, que ameaçam a todo instante a paz física e espiritual dos indivíduos. Tais ameaças que se originem em perigo contra o qual a personalidade oferece, primeiro, a própria força particular, em seguida, a força organizada do meio social, pelo motivo muito simples de que a ameaça dirigida a uma pessoa constitui ameaça indireta a toda a coletividade, precisam ser coibidas. 2.3 Mérito administrativo A administração pública emite atos administrativos a fim de realizar a sua função típica executiva. Eles são vinculados de acordo com as normas legais, ou seja, ocorrendo as hipóteses previstas, as normas são aplicadas, desenvolvendo-se o processo de subsunção. É uma adequação objetiva, sem subjetividade. Fernanda Marinela (2011, p. 121) esclarece: Na determinação dos elementos do ato administrativo, é relevante a análise quanto à liberdade para sua definição, identificando se tal elemento é vinculado ou discricionário. Para as hipóteses em que o elemento é vinculado, o administrador não tem liberdade. Terá que preencher o ato, segundo os ditames da lei, sem análise de conveniência e oportunidade. De outro lado, quando o elemento for discricionário, o administrador pode realizar um juízo de valor, avaliando a conveniência e a oportunidade do interesse público para a prática do ato. A vinculação ou a discricionariedade dos elementos do ato administrativo dependem do tipo de ato. Quando há espaço para discricionariedade, esta é expressa pelo contexto, sendo possível decidir pela melhor solução diante do caso concreto, mas isso também não pode exceder as disposições legais. A seguir, vemos um caso que envolve um juízo de valor (discricionariedade): O mérito administrativo é apontado quando há que se decidir sobre a conveniência e a oportunidade do ato administrativo. A decisão no ato discricionário é de livre escolha do administrador, não sendo alvo de anulação judicial, pois é legítima. Contudo, Marinela (2011, p. 134) destaca: Possibilidade de controle pelo Poder Judiciário. No que tange ao controle dos atos administrativos pelo Poder Judiciário, este é possível em qualquer tipo de ato, porém, no tocante à sua legalidade. Vale lembrar que tal análise deve ser feita em sentido amplo, abrangendo a análise das regras legais e normas constitucionais, incluindo todos os seus princípios. De outro lado, não se admite a análise da conveniência e oportunidade dos atos administrativos, ou seja, não se pode reapreciar o mérito dos atos discricionários. Nesse diapasão, encontram-se inúmeras orientações doutrinárias e jurisprudenciais. No atual cenário do ordenamento jurídico, reconhece- se a possibilidade de análise pelo Judiciário dos atos administrativos que não obedeçam à lei, bem como daqueles que ofendam princípios constitucionais, tais como: a moralidade, a eficiência, a razoabilidade, a proporcionalidade, além de outros. Dessa forma, o Poder Judiciário poderá, por vias tortas, atingir a conveniência e a oportunidade do ato administrativo discricionário, mas tão somente quando essa for incompatível com o ordenamento vigente, portanto, quando for ilegal. RECAPITULANDO Nesta unidade delimitamos os elementos fundamentais e a estrutura dos atos administrativos, afim de que possam ser validados no plano jurídico. Entre os requisitos do ato jurídico, explanamos sobre: A competência, por ser um requisito de gran de importância, poissão poderes específicos Atribuídos ao agente público; O objeto, que é usado para descrever circunstância existente ou como forma de manifestação de vontade do Estado por meio de sua administração; A forma do ato administrativo, que é como eles e apresenta dentro do meio jurídico; e O motivo, que pode ser relacionado à questão de fato ou de direito, e não pode ser confundido com motivação. Também foi discutida a finalidade do ato administrativo, elemento fundamental que deve estar atrelado ao interesse público. Momento também em que foi ressaltado que o ato administrativo pode ser alvo de anulação, caso sejam encontrados defeitos ou vícios insanáveis, podendo ainda esbarrar no instituto da convalidação, definido pelo art. 55 da Lei nº 9.784/1999 – Lei do Processo Administrativo (LPA). Por fim, estudamos as características do ato administrativo, entre elas a da imperatividade, da presunção de legitimidade e da autoexecutoriedade, e ainda abordamos o mérito administrativo, que deve ser apontado quando há que se decidir sobre a conveniência e a oportunidade do ato administrativo. UNIDADE 3 – FORMAÇÃO, EFEITOS E ESPÉCIES DOS ATOS ADMINISTRATIVOS 3. ASPECTOSGERAIS 3.1 Formação e efeitos Os atos administrativos precisam existir para ter validade e eficácia. Não há possibilidadede um ato inexistente produzir efeitos: esse é um requisito fundamental e primeiro. O ato tem que existir para que depois se analise sua validade e eficácia, pois antes isso seria inútil. Não cabe convalidação ou tentativa de torná-lo regular. O objeto é requisito para a existência do ato. Oswaldo Aranha Bandeira de Mello (1979, p. 599) esclarece: O ato administrativo, como ato jurídico, se diz perfeito quando esgotadas as operações necessárias para a sua existência jurídica. Portanto, depois de efetuadas todas as atividades constitutivas para determinação e declaração da vontade. Destarte, antes de completamente formado, de realizados todos os elementos da sua perfeição, inexiste sob o plano jurídico, não obstante efetuados os atos preparatórios e parte dos atos constitutivos. Só com a consecução do último momento da declaração de vontade se perfaz o ciclo da sua formação, e se tem por finalizado. Há certa divergência no que tange à análise do ato administrativo inexistente. Alguns estudiosos afirmam que, muito embora não exista como tal, pode existir materialmente como outra categoria. A validade é considerada quando o ato se encontra em conformidade com as disposições legais e tem todos os elementos necessários para sua formação e caracterização como ato administrativo. São pressupostos de validade o sujeito competente, a forma, a validade e o motivo. Em outros termos, a validez se apresenta como a conformidade entre o ato emitido e o ordenamento jurídico, é dizer, a coincidência entre a estrutura do ato e as normas jurídicas que precisam a conformação de dita estrutura. A eficácia, ao contrário, não é a conformidade entre ato e lei, senão a aptidão de um ato para produzir efeitos, isto é, a capacidade para realizar no mundo exterior os cometimentos que lhe são próprios SAIBA MAIS Os atos nulos são aqueles que não gozam da aptidão para a produção de efeitos jurídicos. [São, portanto, inválidos], significando que a decisão será também ineficaz. Porém, se o ato for anulável, produz efeitos até ao momento da sua anulação. No momento da sua anulação, há efeitos retroativos, afastando todos os efeitos produzidos desde o início. (JUAREZ, 1961, p.21). A eficácia do ato administrativo diz respeito à produção de seus efeitos. Significa que se encontra apto a produzir os efeitos para os quais foi criado. Em relação às etapas de formação e produção destes, é importante apresentar o pensamento de Bortoli (2003,p.152): A vigência de um ato administrativo é identificada como período de sua permanência no ordenamento jurídico, a sua dimensão temporal. O juízo de validade é utilizado para verificar se o ato administrativo atende às exigências legais formais contidas no ordenamento jurídico, considerando-se sua adequação aos comandos normativos previstos nas normas de patamar superior. A eficácia do ato administrativo vai ser observada a partir do momento que ele possa produzir os efeitos para os quais foi editado. Um ato administrativo pode ser revogado ou invalidado. Os efeitos produzidos são distintos. A revogação pode ser total ou parcial (ab-rogação ou derrogação), é feita de ofício e ocorre devido a um juízo de valor sobre a conveniência e a oportunidade do ato. Aqui, é importante compreender que os efeitos do ato de revogar são ex nunc, ou seja, não afeta nações completadas no passado, apenas as atuais, presentes. A revogação aplica-se aos atos discricionários em que há espaço de escolha da administração. Já a invalidação é apropriada quando o ato está desrespeitando ou é contrário às normas legais, gerando a extinção, com efeitos extunc, ou seja, impedem a continuidade dos efeitos e afastam aqueles já produzidos. 3.2 Espécies: decretos, resoluções, deliberações, instruções, circulares, portarias, ordens de serviço, provimentos, avisos, alvarás, ofícios, pareceres, certidões, atestados, declarações e despachos Os atos administrativos desdobram-se em diversas espécies, como atos normativos, ordinários, negociais e enunciativos. Os normativos podem ter como destinatários tanto a administração quanto os administrados. Enfatizam as normas existentes, sendo mandamentos dotados de impessoalidade. Os atos normativos dividem-se em decretos, regimentos, regulamentos, instruções normativas, resoluções e deliberações. Conforme Paulo e Alexandrino (2007, p. 583), os decretos costumam ser definidos como regras jurídicas gerais, abstratas e impessoais, editadas em função de uma lei, concernentes à atuação da Administração, possibilitando a fiel execução da lei a que se referem. A Constituição de 1988 expressamente prevê a edição de regulamentos de execução em seu art. 84, IV. Segundo esse dispositivo, compete privativamente ao Presidente da República expedir decretos e regulamentos para a fiel execução das leis. É interessante notar que o parágrafo único desse art. 84 enumera as competências passíveis de delegação pelo Presidente da República, não incluindo entre elas a expedição dos decretos ou regulamentos de execução. Regimentos são atos de direcionamento interno voltados para a ordenação dos órgãos por meio do atendimento a normas internas. Já os regulamentos são formas de complementar os decretos. Via de regra, estes estabelecem comandos gerais, e os regulamentos são utilizados para explicar e especificar a norma ainda mais, apresentando detalhes dela. A instrução normativa é um ato normativo dotado de maior especificidade, trazendo detalhes que devem ser condizentes com a lei e a Carta Maior. Auxilia no trabalho administrativo, pois traz parâmetros descritos por um superior hierárquico que devem ser seguidos no exercício da função e complementam outro ato. A Instrução Normativa pode ser definida como um ato puramente administrativo, uma norma complementar administrativa, tão somente. Esta tende a completar o que está em uma Portaria de um superior hierárquico, num Decreto Presidencial ou em uma Portaria Interministerial. Desta forma, a Instrução Normativa jamais poderá inovar o ordenamento jurídico. Assim, a Instrução Normativa nunca poderá passar colidir com Leis ou decretos, pois estes devem guardar consonância com as Leis (OLIVEIRA, 2016, p.2). A resolução diferencia-se pelo emissor. Quem a edita são autoridades superiores, como ministros, com exceção do chefe do Executivo, que só pode emitir decretos. Esse ato visa esclarecer circunstâncias da própria área. Já as deliberações apresentam duplo viés: podem ser normativas, quando gerais, ou decisórias, aplicadas à esfera individual. Outra espécie de atos administrativos são os ordinários. Sãodestinados aos servidores e aos funcionários da administração para fins de organização e disciplina. Orientam os servidores nas suas atribuições e são emitidos por um superior ao subordinado, obedecida a competência daquele. Nessa categoria, estariam enquadradas instruções, circulares, avisos, portarias, ordens de serviços, provimentos, ofícios e despachos. As instruções são comandos de chefes a seus subordinados na execução das suas atribuições, para uniformização e celeridade do serviço. Já as circulares são ordens dirigidas a um grupo de servidores no desenvolvimento de um serviço específico. Os avisos originam-se de uma autoridade como um ministro do Estado e tratam de circunstâncias próprias do ministério. Servem ainda para disseminar conhecimento acerca de determinado fato da atuação administrativa. As portarias são atos emanados de chefes aos seus subordinados que podem conter imposições gerais ou específicas. Trata-se de ato interno, não atingindo o particular. Por meio delas, iniciam-se sindicâncias e processos administrativos, e servem para a designação de servidores. As ordens de serviços são comandos diferenciados técnicos ou ainda de aspecto administrativo, que se dirigem aos executores de serviços públicos ou obras e dizem respeito à realização das atribuições deles. Os provimentos visam impedir que haja omissões ou desrespeito a normas legais. São emitidos por tribunais e corregedorias a fim de normatizar os serviços. Os ofícios são um meio de diálogo, de comunicação dentro da própria administração e entre esta e os particulares. Os despachos são decisões adotadas em processos ou requerimentos de um dos três Poderes. Os atos enunciativos são outra espécie de ato administrativo. Como o próprio nome diz, enunciam, atestam ou declaram determinada situação, relacionada ao particular ou à própria administração. Pareceres são originados de órgãos técnicos que expressam sua opinião acerca de determinado assunto. Podem ser vinculativos ou facultativos. Certidões são cópias das informações contidas e registradas em um livro, declarando-as. Atestados são atos em que se retratam certas situações que, via de regra, são temporárias. SAIBA MAIS Os atos enunciativos podem ser representados pelo seguinte mnemônico: CAPA= Certidões, Atestados, Pareceres, Apostilas. São os atos pelos quais a Administração declara um fato preexistente, profere uma opinião ou emite um juízo devalor, sem que, por si só, produza consequências jurídicas. Por meio deles, a Administração Pública se limita a certificar ou atestar um fato (grifo nosso). Há ainda os denominados atos negociais, em que há certa integração ou concordância entre administração e particulares, afim de realizar negócio jurídico ou deferir direito. Classificam-se em licença, autorização, permissão, aprovação, admissão, homologação, dispensa, renúncia e visto. RECAPITULANDO Nesta unidade esclarecemos ao estudante, de forma específica, a formação, os efeitos e as espécies dos atos administrativos, bem como explanamos que, para que o ato administrativo exista, é necessário que tenha validade e eficácia, contudo, primeiro necessita existir, para que depois sejam analisados seus requisitos. Também abordamos que, entre os doutrinadores que lecionam sobre o tema aqui debatido, há certa divergência quanto à análise do ato administrativo inexistente, ou seja, para alguns, ainda que ele não exista, pode existir materialmente e em outra categoria, e não como ato administrativo em si. Também foi mostrado o fato de que o ato administrativo deve necessariamente estar em conformidade com as legislações vigentes e pertinentes, a fim de que seja considerado válido, e então será averiguada sua eficácia, se poderá produzir os efeitos almejados. Também foi estudado que o ato administrativo pode sim ser revogado ou até mesmo invalidado, contudo, os efeitos são distintos em cada um dos casos. Por fim, foram abordados os desdobramentos dos atos administrativos, podendo eles ser de várias espécies, como normativos e ordinários, entre outros. UNIDADE 4 – O PROCESSO ADMINISTRATIVO E ALGUNS ASPECTOS IMPORTANTES 4. PROCESSO ADMINISTRATIVO 4.1 Conceito de processo administrativo O processo administrativo tem previsão e parâmetros estabelecidos no texto constitucional, no art. 5º, LV: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...] LV – aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes. De acordo com o entendimento doutrinário, o processo administrativo pode ser descrito em sentido amplo na esfera da administração pública da seguinte forma: Processo administrativo, em sentido prático, amplo, é o conjunto de medidas jurídicas e materiais praticadas com certa ordem cronológica, necessárias ao registro dos atos da Administração Pública, ao controle do comportamento dos administrados e de seus servidores, a compatibilizar, no exercício do poder de polícia, os interesses público e privado, a punir seus servidores e terceiros, a resolver controvérsias administrativas e a outorgar direitos a terceiros (GASPARINI, 2005, p. 857). A Lei nº 9.784/1999 disciplina o processo administrativo na esfera da administração pública federal. As diretrizes básicas a serem seguidas no desenvolvimento desse processo encontram-se na referida norma, que se aplica tanto à administração pública direta quanto à indireta. A principal finalidade da edição dessa lei é atender ao interesse coletivo dos administrados. Essa norma aplica-se também à hipótese em que haja o exercício da função administrativa de forma atípica por outros Poderes (Judiciário e Legislativo). Além das disposições expressas na Lei nº 9.784/1999, que devem ser observadas no desenvolvimento do processo administrativo, existem princípios a serem obedecidos, como legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade e moralidade, entre outros. O art. 1º, § 2º, da Lei nº 9.784/1999 define as expressões “órgão”, “entidade” e “autoridade”, que serão importantes para o entendimento da norma: I. – órgão – a unidade de atuação integrante da estrutura da Administração direta e da estrutura da Administração indireta; II. – entidade – a unidade de atuação dotada de personalidade jurídica; III. – autoridade – o servidor ou agente público dotado de poder de decisão. 4.2 Requisitos e objetivos do processo administrativo Há requisitos fundamentais e imprescindíveis que devem ser seguidos no curso do processo administrativo. É importante citar os princípios em que este deve se basear, que são razoabilidade, proporcionalidade, aliados aos da legalidade, contraditório, ampla defesa e finalidade. O processo administrativo deve coadunar-se com as disposições legais e com os ditames do Direito vigente. [...] O poder discricionário deve ser exercido de maneira razoável. A pessoa dotada desse poder deve direcionar-se ao domínio da lei. Ela deve prestar atenção aos problemas que realmente precisa considerar, devendo excluir da sua avaliação problemas reputados irrelevantes. Se não forem obedecidas tais normas, as suas ações serão qualificadas como desarrazoadas e ilustrarão algo tão absurdo que nenhuma pessoa sensata poderia sonhar que tais ações fariam parte dos poderes da autoridade (COUTO, 2012, p. 26). Outro aspecto a ser obedecido é a finalidade, que deve ser o interesse coletivo, público, não o meramente individual. No que tange à competência, somente pode ocorrer renúncia quando expressa diretamente em lei. Os agentes públicos não podem ter posição de destaque. Os interesses deles nunca podem sobressair em relaçãoao interesse geral, coletivo, sendo afastada qualquer possibilidade de promoção pessoal. Nos procedimentos administrativos, qualquer que seja o objeto, observar-se-ão, entre outros requisitos de validade, a igualdade entre os administrados e o devido processo legal, especialmente quanto à exigência da publicidade, do contraditório, da ampla defesa e do despacho ou decisão motivados (MEDAUAR, 993, p.29). Na condução dos processos administrativos, a ética é um parâmetro a ser seguido. A boa-fé e a probidade devem ser a base deles. A publicidade é a regra nesses processos, mas há hipóteses em que se impede a divulgação pública. São aquelas em que é cabível o sigilo com respaldo constitucional. A proporcionalidade deve ser aplicada no referido processo, sendo aparente quando se impõem de forma equilibrada tanto as obrigações quanto as sanções. Os fins e os meios devem estar em conformidade e não desproporcionais. Na tomada de decisão, devem ser expostos todos os pressupostos, tanto os de fato como os de direito. Não se pode ainda dispensar as formalidades previstas para o processo, já que são primordiais para a defesa dos direitos dos administrados. Cabe ressaltar que não podem impedir o entendimento destes, que devem ter certeza e segurança no procedimento a que estão se submetendo. Outras garantias devem estar disponíveis aos administrados, como as possibilidades de produzir provas e expor as alegações e os fatos que compreenderem necessários e relevantes ao processo. Há ainda a oportunidade de interpor recursos quando houver sanções aplicadas. Outro fato interessante a ser destacado como característica do processo administrativo é a vedação de cobrança de despesas processuais, salvo quando houver disposição em contrário expressa em lei. O processo administrativo pode se desenvolver tanto com a participação dos interessados (administrados) como por impulso oficial. A norma administrativa também se sujeita a interpretações, devendo ser sempre voltada para o benefício público e o melhor interesse coletivo. Dessa forma, nos casos em que houver novo entendimento (nova interpretação) acerca de uma situação anterior, veda-se a aplicação de forma retroativa. Esses critérios são alguns a serem observados, contudo, o rol não é exaustivo, podendo haver outros. O objetivo do processo administrativo é garantir um diálogo entre a administração e seus administrados, demonstrando a atuação administrativa com transparência, de modo a atender ao interesse geral destes. Em relação aos objetivos do processo administrativo, Medauar (1993, p.66-67) relaciona-o com a realização da justiça: O processo administrativo oferece possibilidade de atuação administrativa com justiça. Encontra-se mesmo a afirmação de que “o núcleo de todas as teorias clássicas do procedimento é a relação com a verdade ou com a verdadeira justiça como objetivo” [...]. O processo administrativo direciona-se à realização da justiça não só pelo contraditório e ampla defesa vistos do ângulo do indivíduo, mas também por propiciar o sopesamento dos vários interessesque envolvem uma situação. Ainda sobre o assunto, a autora enfatiza que a intenção que se esperava proporcionar com essa espécie de processo foi surpreendentemente ampliada, superando as expectativas de forma positiva: Se num primeiro momento da atenção doutrinária o processo administrativo significava meio de observância dos requisitos de validade do ato administrativo e garantia de respeito aos direitos dos indivíduos, seus objetivos foram se ampliando à medida que alteravam as funções do Estado e da Administração, as relações entre Estado e sociedade e as próprias concepções do Direito Administrativo[...]. Extrapolou-se o perfil do processo administrativo ligado somente à dimensão do ato administrativo em si, para chegar até a legitimação do poder; saiu-se da perspectiva interna para perspectivas sociais e políticas da processualidade administrativa [...]. As várias finalidades se apresentam cumulativas, sem se excluírem. Além do mais, formam um conjunto entrelaçado, com vínculos recíprocos, embora expostos de modo separado, por exigência de sistematização científica (MEDAUAR, 1993, p.62). 4.3 Espécies de processo administrativo Os processos administrativos dividem-se em processos de defesa e de participação, com base na sua finalidade. Nas hipóteses dos primeiros, objetiva-se fazer cumprir os direitos individuais dos administrados por meio de instrumentos e meios precisos. No caso dos processos de participação, no cenário político brasileiro, cabe ressaltar que a participação popular é “uma característica essencial do Estado de direito democrático, porque ela aproxima mais o particular da Administração, diminuindo ainda mais as barreiras entre o Estado e a sociedade” (DI PIETRO, 1993, p.32). O processo de participação permite que o administrado esteja inteirado e presente ativamente na condução da função administrativa. Como exemplos, podem ser citadas as audiências ou consultas públicas, consideradas um instituto de participação administrativa aberta a indivíduos e a grupos sociais determinados, visando à legitimidade da ação administrativa, formalmente disciplinada em lei, pela qual se exerce o direito de expor tendências, preferências e opções que possam conduzir o Poder Público a uma decisão de maior aceitação consensual (MOREIRA, 1992, p.129). As modalidades dos processos administrativos são as chamadas de gestão, expediente, restritivo de direitos, de outorga, controle e sancionatório. Os processos de expediente são mais simples, informais, ligados à rotina burocrática do órgão e não modificam direitos.Um exemplo seria aquele em que se requer a emissão da certidão. Os processos de gestão são mais complexos, já que são atos preparatórios para a consecução de um fim, para a tomada de decisão pela administração na sua gestão típica. Um exemplo seriam os atos prévios para a realização de concurso público. Os processos de outorga são aqueles em que há modificação de uma situação do administrado, quando a administração defere direito a este. Desenvolve-se com um rito peculiar que não envolve o contraditório por parte do requerente. Um exemplo seriam as concessões e as permissões de serviços públicos. Os processos administrativos restritivos de direitos são impositivos de obrigações, exigindo a realização ou não de certos atos. Os direitos, nesse caso, sofrem restrições. Alguns autores entendem que os processos administrativos sancionatórios se desdobram em processos de punição e administrativo disciplinar. No primeiro caso, há violação da lei por servidor, contratado ou administrado, e a punição é aplicada a partir da denúncia ou representação. Já no caso dos processos administrativos disciplinares, as sanções são aplicadas a servidores da administração. O processo administrativo disciplinar é o meio de apuração e punição de faltas graves dos servidores públicos e demais pessoas sujeitas ao regime funcional de determinados estabelecimentos da Administração. Tal processo baseia-se na supremacia especial que o Estado mantém sobre todos aqueles que se vincula a seus serviços ou atividades, definitivas ou transitoriamente, submetendo-se à sua disciplina. É um processo punitivo, mas com tais peculiaridades e tanta frequência na prática administrativa que merece destaque dentre seus congêneres, mesmo porque os estatutos dos servidores geralmente regulamentam a sua tramitação para cada órgão ou entidade estatal interessada. O processo administrativo disciplinar é sempre necessário para a imposição de pena de demissão, ao funcionário estável, tendo a jurisprudência entendido que também o é para o efetivo, ainda em estágio probatório. Para os demais servidores o ato demissório dependerá das exigências constantes do estatuto ou das normas especiais pertinentes, podendo a apuração de falta ser feita por meios sumários,desde que as segurada a defesa (MEIRELLES, 1994, p.96). Já nos processos administrativos de controle, são avaliados condutas e atos de forma fiscalizatória por controladorias internas, para análise de possíveis ilícitos. A partir deles, é possível desenvolver um processo disciplinar. 4.4 Fases do processo administrativo O processo administrativo é um instrumento do Poder Público para que este realize as atribuições previstas na Constituição Federal, podendo ser iniciado pelo servidor, pela administração ou por administrado. Uma situação em particular exige a formalização do processo administrativo de maneira obrigatória: quando importe a atuação da administração em uma restrição ao particular. A primeira fase do processo administrativo federal é a instauração. Isso pode ser feito pelo interessado ou ainda de ofício. Distingue-se do processo administrativo de caráter meramente disciplinar justamente por essa característica, já que este precisa de uma autoridade competente para o início. O requerimento inicial, via de regra,é realizado por escrito ou, de forma excepcional, verbal ou gestual, desde que descrito expressamente. Deve conter os seguintes requisitos: Direcionamento à autoridade competente; Identificação do requerente ou de seu representante; Indicação do domicílio do interessado, afim de que seja comunicado do trâmite; Exposição dos fatos, razões jurídicas e, a seguir, o pedido almejado; e Ao fim, a assinatura e a data. A administração pública não pode se recusar a receber os requerimentos que darão início ao processo administrativo. Apenas pode fazê-lo quando houver falhas no requerimento, que devem ser apontadas para que se providencie o suprimento. A administração pública deve buscar meios e instrumentos para facilitar o acesso e o desenvolvimento desses requerimentos por meio da disponibilização de formulários ou documentos de certo padrão. Se houver vários interessados em propor o mesmo requerimento com base nos mesmos fundamentos, ele pode ser elaborado em um único documento. O direito de petição é constitucionalmente protegido, portanto independente de quem deu início ao processo. Desenvolve-se por meio de impulso oficial devido ao princípio da oficialidade. Quanto à legitimidade, de acordo com o art. 9º da Lei nº9.784/1999, os interessados legitimados no processo administrativo seriam: pessoas físicas ou jurídicas que o iniciem como titulares de direitos ou interesses individuais ou no exercício do direito de representação; aqueles que, sem terem iniciado o processo, têm direitos ou interesses que possam ser afetados pela decisão a ser adotada; as organizações e associações representativas, no tocante a direitos e interesses coletivos; as pessoas ou as associações legalmente constituídas quanto a direitos ou interesses difusos. Tratando da competência, esta é irrenunciável, contudo, quando autorizado em lei, pode ser delegada ou avocada. Faz-se mister ressaltar que não podem se sujeitar a delegação atos decaráter normativo, decisões oriundas de processo administrativo e quando a matéria for de competência exclusiva. Tanto a delegação quanto seu encerramento devem gozar de publicidade. Além disso, o ato que a concede deverá ser específico quanto a poderes e limites. A avocação, concedida a órgão inferior hierarquicamente, também deve respeitar certos requisitos, como ser devidamente justificada, excepcional e temporária. Verificada a correta competência, há circunstâncias que também devem ser avaliadas, que são os casos de impedimento e suspeição. Servidores da administração são impedidos de participar nos seguintes casos: Aqueles que tenham interesse direto ou indireto na matéria objeto do processo; Aqueles que de alguma forma tenham participado do processo ou ainda familiares próximos até o terceiro grau. A participação pode ocorrer de várias formas, como representante auxiliar da justiça e como perito, entre outras; Quando houver alguma forma de disputa, seja na esfera judicial ou administrativa, com o sujeito/requerente do processo ou com seu cônjuge. A suspeição refere-se aos relacionamentos da autoridade como interessado, como quando há amizade íntima ou inimizade conhecida. Essa circunstância é estendida também aos cônjuges e familiares até o terceiro grau. A compreensão das normas acerca da forma, do tempo e do lugar dos atos processuais também é relevante. Em relação à forma, serão produzidos de acordo com o que a lei exigir, não havendo forma própria se não estiver expressa. Ela deverá ser escrita, com a exposição de data, local e assinatura da autoridade. A exigência de reconhecimento de firma só incide se não houver certeza da autenticidade. Em relação ao tempo, os atos processuais são realizados nos dias úteis, de acordo com o horário de funcionamento do órgão a que se dirigem. Na hipótese de um ato já ter sido iniciado e de sua interrupção ou não finalização poder acarretar dano ao interessado e ao próprio feito, poderá ser concluído ainda que passado o horário normal. O prazo geral para a prática de atos no processo administrativo será de cinco dias úteis, quando não houver uma disposição legal estabelecendo outro diferente ou em situações de força maior. O local da realização será o da sede do órgão a que o ato foi direcionado no requerimento. Caso algum ato deva ser realizado em local distinto, deverá ser dada ciência ao interessado. A comunicação dos atos também é relevante nos processos administrativos. Para a ciência da decisão ou de qualquer outro ato ou diligência, é imprescindível a intimação do interessado. No art.26, §1º, da Lei nº 9.784/1999, estão os elementos fundamentais que devem estar contidos na intimação: Identificação do intimado e nome do órgão ou entidade administrativa; Finalidade da intimação; data, hora e local em que deve comparecer; se o intimado deve comparecer pessoalmente, ou fazer-se representar; informação da continuidade do processo independentemente do seu comparecimento; indicação dos fatos e fundamentos legais pertinentes. As intimações podem ser realizadas por ciência no próprio processo, via correio com aviso de recebimento ou por telegrama. Outros meios úteis à concretização do ato também são permitidos. Cabe ressaltar que a ciência deve obedecer a uma antecedência mínima de três dias. Não sendo localizado o interessado, ocorrerá a intimação por publicação oficial. Intimação que não respeite preceitos legais será considerada nula. Não atender a uma intimação não importa necessariamente renunciar a um direito, tampouco que se esteja concordando que os fatos sejam verdadeiros. A intimação é importante para o interessado no processo administrativo, pois é o meio adequado de cientificá- lo de sanções, deveres ou restrições que podem ser modificativos do direito do requerente. As normas relativas à instrução no processo administrativo encontram-se dispostas nos arts. 29 a 47 da Lei nº 9.784/1999. Essa fase é fundamental para a correta tomada de decisão pela administração, já que todos os fatos e provas são verificados. A instrução desenvolve-se de ofício (princípio da oficialidade). As provas devem ser produzidas pela administração, contudo, também pode ser por meio da comprovação dos interessados. Os princípios do contraditório e da ampla defesa são substancialmente desenvolvidos nessa etapa do processo. Há a discussão dos elementos fáticos e jurídicos que formaram o convencimento da autoridade julgadora. Nessa fase, são juntados documentos, realizadas diligências e oitivas. Depois, abre-se espaço para as razões finais, objetivando encontrar a verdade processual. É interessante salientar que, se a matéria discutida for de interesse geral e não apenas individual, deverá haver abertura para consulta pública antes da decisão, desde que não cause prejuízo ao interessado. Poderá ainda haver audiências públicaspara debates e participação de outros administrados. Na busca da verdade processual, não se admite a prova ilícita. Verifica-se uma ampliação das formas de intervenção no processo administrativo devido à repercussão social de determinadas decisões, sendo a manifestação e a participação dos cidadãos importantes no ambiente democrático. Reuniões conjuntas entre entidades são possíveis quando for favorável e relevante para a tomada de decisão no processo. Ainda sobre a fase probatória, a Lei nº 9.784/1999 traz alguns artigos sobre o tema: Art. 36. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, sem prejuízo do dever atribuído ao órgão competente para a instrução e do disposto no art. 37 desta Lei. Art. 37. Quando o interessado declarar que fatos e dados estão registrados em documentos existentes na própria Administração responsável pelo processo ou em outro órgão administrativo, o órgão competente para a instrução proverá, de ofício, a obtenção dos documentos ou das respectivas cópias. Art. 38. O interessado poderá, na fase instrutória e antes da tomada da decisão, juntar documentos e pareceres, requerer diligências e perícias, bem como aduzir alegações referentes à matéria objeto do processo. § 1º Os elementos probatórios deverão ser considerados na motivação do relatório e da decisão. § 2º Somente poderão ser recusadas, mediante decisão fundamentada, as provas propostas pelos interessados quando sejam ilícitas, impertinentes, desnecessárias ou protelatórias. Quando as provas não puderem ser produzidas pela própria administração pública, haverá intimação daquele que deve fazê-lo ou do interessado para apresentá-las no prazo e na forma estabelecidos, podendo a administração suprir ou superar a omissão, exarando decisão. Situação a que se deve ter atenção é quando é requerido algum documento ou uma atuação probatória de relevância pela administração pública no prazo demarcado. Se o interessado não a apresentar, a consequência será o arquivamento do processo. No caso da necessidade de emissão de parecer por algum órgão, este terá o prazo de 15 dias para a elaboração. Maior prazo pode ser deferido, sujeito à apresentação de justificativa. Encerrada a fase instrutória, estabelece-se o prazo de 10 dias para que o interessado se manifeste. A administração pode adotar medidas acautelatórias se compreender que há risco na situação. Nem sempre o órgão que realiza a instrução é o mesmo que emite a decisão. Se forem diferentes, o primeiro deve aquele enviar relatório contendo as fases e os pedidos, bem como apresentar sugestão de decisão, que deve ser fundamentada. Assim, a autoridade competente poderá emitir devidamente sua decisão. A fase decisória é considerada imprescindível e um dever para administração, não podendo estas e abster de proferir uma solução aos requerimentos ou às reclamações que lhe são dirigidos. A decisão tem prazo para ser proferida, que é estabelecido em 30 dias. Não pode haver omissão ou adiamentos desnecessários ou imotivados nesse dever. Uma prorrogação é possível por igual período, contudo, deve ser esse pedido devidamente fundamentado. No art. 50 da Lei nº 9.784/1999, estabelece-se a imprescindibilidade de motivação de determinados atos administrativos em decorrência do princípio da publicidade. De acordo com o artigo, devem ser citados os fundamentos de fato e de direito dos atos que: neguem, limitem ou afetem direitos ou interesses; imponham ou agravem deveres, encargos ou sanções; decidam processos administrativos de concurso ou seleção pública; dispensem ou declarem a inexigibilidade de processo licitatório; decidam recursos administrativos; decorram de reexame de ofício; deixem de aplicar jurisprudência firmada sobre a questão ou discrepem de pareceres, laudos, propostas e relatórios oficiais; importem anulação, revogação, suspensão ou convalidação de ato administrativo. A motivação deve ser dotada de clareza,de modo a ser compreendida por todos de forma geral. Pode embasar- se em citar pareceres ou informações para enfatizar sua posição. Em caso de omissão, pode ser aplicada multa diária ao ente público ou ao agente público. Cabe ressaltar que pode haver desistência do requerido pelo interessado de maneira total ou parcial. Também pode haver, além disso, renúncia de direitos. Contudo, em caso de pluralidade de interessados, esta só alcançará aquele que a solicitar e não os outros. Mesmo que o interessado opte por desistência ou renúncia, o processo poderá prosseguir se a administração pública entender que há interesse público predominante no processo. Nesse diapasão, torna-se necessário também esclarecer os institutos da anulação, da revogação e da convalidação. A anulação é um instituto que se desenvolve quando se observa vício de legalidade e a administração se propõe a anular seu ato. Já a revogação relaciona-se com a conveniência ou a oportunidade do ato. Importa acrescer que há atos que apresentam defeitos que não causam prejuízo ou dano nem à administração, nem ao interesse público ou aos interessados. Assim, são considerados sanáveis, ou seja, são convalidados (convalidação). Voltando às fases do processo administrativo, cabe ressaltar que, das decisões proferidas,cabe interposição de recurso em relação ao mérito também à legalidade, decorrência do direito de petição e da ampla defesa. 1. os titulares de direitos e interesses forem parte no processo; 2. aqueles cujos direitos ou interesses forem indiretamente afetados pela decisão recorrida; 3. as organizações e associações representativas, no tocante a direitos e interesses coletivos; 4. os cidadãos ou associações, quanto a direitos ou interesses difusos. A primeira forma de recurso seria um pedido de reconsideração, o qual é dirigido à própria autoridade que emitiu a decisão. Se não for concedida, esta enviará o recurso a uma autoridade superior. O recurso de decisão administrativa perpassa por no máximo três instâncias prescinde de caução, salvo disposição em contrário. Noquetangeàlegitimidadeparaainterposiçãoderecursoadministrativo, o art.58 da Lei nº 9.784/1999 apresenta o rol de sujeitos legitimados a ingressar com ele. A partir da ciência da decisão, o prazo para interpor o recurso é de dez dias. Excepcionalmente, pode haver prorrogação, caso haja justificativa. A regra é que o recurso não tenha efeito suspensivo, a menos que haja risco de prejuízo de difícil reparação com a aplicação da decisão pela autoridade. A partir da Interposição, caberá à administração conhecer o recurso. Em Seguida, deve proceder às intimações, e será estabelecido um prazo de cinco dias para as manifestações. As únicas hipóteses em que o recurso não será conhecido são: • quando for interposto ultrapassado o prazo estabelecido; • se for interposto equivocadamente a outro órgão que não seja competente; • se for interposto por quem não seja interessado legitimado; e • quando não houver mais esferas às quais se possa recorrer, estando todas esgotadas. Princípios Sujeitos Ao Procedimento Além da Constituição Federal,inúmeras normas regem os processos administrativos. São também sustentáculos desse sistema princípios que colaboram para alcançar o fim público. O desrespeito a estes pode gerar invalidação do processo. Maria Sylvia Zanella Di Pietro (2014, p.66) enfatiza a relação existente entre o Direito Administrativo e os princípios: “Está informado por determinados princípios, alguns deles próprios também de outros ramos do direito público e outros deles específicos enquadrados como setoriais.” Figura–Princípios Fonte:elaborada pela autora(2022). A autora assevera a importância dos princípios dentro de um ramo como o Direito Administrativo, que não é codificado como outros: “Sempre representaram papel relevante [...], permitindo à Administração Pública e ao Judiciário estabelecer o necessário equilíbrio entre os direitosaspectos observados foram as espécies existentes. O processo administrativo foi descrito em seu tudo, assim como suas frases, minuciosamente. O estudo dos princípios também é um aspecto relevante que foi delineado. O processo administrativo disciplinar ainda foi um dos focos do estudo desta aula. GLOSSÁRIO Arbitrariedade Procedimento determinado pela vontade livre do agente, contrário à ordem jurídica. Abuso de autoridade. Common Law É um sistema jurídico utilizado em países de língua inglesa. Possui como principal característica ser baseado em precedentes criados a partir de casos jurídicos – e não em códigos. Por isso, o papel dos juízes e dos advogados é importante para o desenvolvimento desse sistema. Convalidação A convalidação, também denominada de sanatória, refere-se à correção da existência de um eventual vício em um ato administrativo. Só pode ocorrer caso não cause danos ou prejuízos a terceiros ou à própria administração. Possui efeitos retroativos. Ex Nunc Expressão em latim que indica os efeitos provenientes de um ato ou de uma decisão; significa que a decisão não retroage para alcançar atos já passados, valendo somente a partir então. Ex Tunc Expressão em latim que indica os efeitos provenientes de um ato ou de uma decisão; significa que os efeitos da decisão retroagem à data da decisão, alcançando o passado. Imprescritibilidade Caráter daquilo que não pode prescrever; qualidade daquilo cujo prazo de prescrição não tem efeito; característico que é imprescritível: a imprescritibilidade de crimes como o racismo. Probidade É a retidão das ações administrativas. Agir de forma reta e honesta não somente de acordo com as normas, como também de acordo com a ética (código de ética do servidor), dentro dos princípios de moralidade. Súmula Trata-se de pronunciamentos proferidos pelos Tribunais do nosso país, baseados em decisões reiteradas, que delimitam o entendimento e interpretação das leis sobre determinada matéria dada pelos nossos magistrados. É a “união” de várias decisões do mesmo Tribunal, com idêntica interpretação sobre o mesmo tema. Pode ser conceituada também como um resumo da decisão.