Prévia do material em texto
FISIOLOGIA REPRODUTIVA OVINA Bernardo G. Gasperin & João Francisco C. de Oliveira A fêmea ovina, quanto à ciclicidade, pode ser classificada como poliéstrica estacional ou contínua, dependendo do fotoperíodo. Em regiões temperadas a sazonalidade é mais marcante que na zona tropical, na qual as ovelhas tendem a ciclar o ano inteiro. Nas condições de criação do Rio Grande do Sul (subtropical), a estação reprodutiva preferencial é definida entre fevereiro a julho (dias curtos). Em geral, raças laneiras apresentam estações sexuais mais longas em comparação às de carne. Os carneiros não possuem uma estação de monta restrita, mas a diminuição da luminosidade estimula a secreção de FSH, LH e testosterona, tornando-os mais férteis durante a estação de monta (maior perímetro escrotal e libido). A puberdade da ovelha ocorre entre 6 a 9 meses de idade, sendo que há raças mais precoces (Finnsheep; 3 a 4 meses de idade) e outras mais tardias (Merino e outras raças de lã fina), havendo grande influência do nível nutricional (necessitam atingir 50 a 70% do peso vivo adulto). No macho, a puberdade está associada com um marcante aumento da secreção de testosterona, espermatogênese e comportamento de monta. A cópula com ejaculação de espermatozóides viáveis ocorre a partir dos 4 a 6 meses de idade, quando atingem 40 a 60% do peso vivo adulto de sua raça. O contato de carneiros virgens com ovelhas cíclicas acelera a maturidade sexual. Durante o período de ciclicidade, as fêmeas apresentam cios em intervalos variando entre 14 a 21 dias (moda 17). A duração do cio é de 24 a 36 horas (nas raças de lã é mais longo) e precede a ovulação de um a três folículos ou de um número ainda maior em raças mais prolíferas (mais de 5 ovulações em ovelhas Merino homozigotas para o gene Booroola). O corpo lúteo formado após a ovulação (dia 0 do ciclo) permanece durante 14 dias, exceto nos casos em que a luteólise é bloqueada pelo reconhecimento materno da gestação (11˚ a 15˚ dia do ciclo). O estro da ovelha é pouco evidente pelo fato desta espécie não apresentar comportamento homossexual, sendo de difícil detecção na ausência de carneiros ou rufiões. A vulva pode estar edemaciada e em algumas fêmeas pode ser observado um corrimento mucoso. Quanto à anatomia do trato reprodutivo, uma particularidade da ovelha é a grande sinuosidade da cérvix, o que dificulta a inseminação transcervical. A gestação dura 150 dias, sendo um pouco mais curta em raças de alta prolificidade e mais longa em raças laneiras. A progesterona necessária para a manutenção da gestação é proveniente do corpo lúteo, durante o primeiro trimestre, sendo que depois deste período passa a ser proveniente da placenta. Fisiologia ovariana Ao nascimento, a cordeira já possui todos os estádios foliculares no ovário, sendo que o “estoque” de células germinativas se encontra na forma de folículos primordiais. Folículos que iniciam o crescimento são denominados “comprometidos”, pois não mais retornam ao estádio primordial, sendo destinados à ovulação ou atresia. Folículos sensíveis a gonadotrofinas são assim denominados, pois crescem mesmo em níveis baixos de FSH e LH. Quanto mais avançado o estádio do desenvolvimento folicular, maior a dependência de gonadotrofinas para a manutenção das taxas de crescimento. Apenas uma minoria dos folículos recrutados atinge o tamanho pré-ovulatório, estádio no qual a dependência passa a ser principalmente de LH. O FSH apresenta maior ligação com as ondas foliculares, o que é demonstrado pelo aumento da sua concentração circulante simultâneo ao início de uma onda, quando são recrutados folículos antrais pequenos (emergência folicular). Os níveis de FSH começam a diminuir após a emergência e então alguns folículos da onda cessam o crescimento e entram em atresia (subordinados) enquanto que um ou mais são selecionados e continuam crescendo (dominantes). Os dominantes são responsáveis pela alta produção de estradiol e inibina que resultam em diminuição de FSH, impedindo o crescimento de uma nova onda. A alta concentração de progesterona na fase luteínica mantém baixa a freqüência de secreção de LH, fazendo com que os dominantes presentes nesta fase não ovulem devido à produção insuficiente de estradiol para induzir um pico de LH. A pulsatilidade aumentada do LH é necessária para a diferenciação final do folículo dominante, indução do pico de gonadotrofina, ovulação e luteinizaçao. Sazonalidade Estresse, nutrição, ferormônios e principalmente o fotoperíodo influenciam a função reprodutiva. O efeito do fotoperíodo sobre a função ovariana é explicado pela variação sazonal do feed back negativo exercido pelo estradiol sobre o hipotálamo, o que determina os períodos de ciclicidade e anestro na ovelha. Durante o anestro (dias longos), o estradiol suprime a freqüência dos pulsos de GnRH e LH, inibindo a liberação de LH, o que não ocorre durante a estação reprodutiva (dias curtos). A luminosidade percebida pela retina resulta em um sinal neural que é transmitido via núcleos supraquiasmático, paraventricular e gânglio cervical superior para a glândula pineal, a qual transforma o sinal neural em um sinal endócrino: a liberação de melatonina no soro e líquido cérebroespinhal. A melatonina é produzida somente durante a noite, portanto sua liberação é maior quanto menor a luminosidade dos dias. Altos níveis de melatonina são necessários para que o estradiol não exerça efeito inibitório sobre o hipotálamo, permitindo a ciclicidade. Durante a estação reprodutiva, a progesterona é o principal inibidor dos pulsos de GnRH. Quando a concentração de progesterona diminui (luteólise), ocorre aumento da freqüência de pulsos de GnRH e LH, estimulando a produção folicular de estradiol, o que induz um pico de LH, permitindo a ovulação. Na transição para o anestro, o sistema inibitório neuronal ativado pela maior luminosidade faz com que o estradiol passe a ser o principal inibidor da freqüência de pulsos de GnRH. Conseqüentemente, após a regressão do último corpo lúteo, não ocorre aumento da freqüência de GnRH e LH. Sem o aumento da liberação de LH não há pico pré-ovulatório de estradiol para induzir o pico de LH e manifestação de estro, o que determina o anestro. Enquanto os neurônios inibitórios mantiverem baixa a freqüência de pulsos de LH, as ovelhas permanecerão em anestro. Quando a atividade do sistema inibitório neuronal diminui, na ausência de progesterona, a freqüência de LH aumenta e estimula o pico de estradiol, o qual estimula o pico de LH, possibilitando a primeira ovulação da estação reprodutiva. Manipulação do ciclo estral Fêmeas em anestro podem ser induzidas a ciclar através do efeito macho, progestágenos ou implantes de melatonina. A sincronização se aplica a fêmeas cíclicas, as quais se deseja obter uma sincronia da manifestação do cio. Também é possível alterar a taxa ovulatória das fêmeas obtendo-se maior número de partos múltiplos através de incremento nutricional ou suplementação de gonadotrofinas. Efeito macho No período de transição do anestro para a estação de monta pode-se induzir a ovulação em ovelhas através do contato com o macho. Para que isso ocorra, as fêmeas devem ser separadas dos machos por no mínimo 15 dias antes da introdução dos mesmos. As ovulações ocorrem 24 a 60 horas após o contato, o que é desencadeado por estímulos visuais (presença física do macho) e pelos ferormômios que atravessam o olfato, atingem o tálamo, hipotálamo e determinam a liberação de LH pela hipófise anterior (aumentam os pulsos e concentração média de LH). O corpo lúteo (CL) resultante pode ter atividade normal, resultando em manifestação de cio 19 a 21 dias pós exposição, ou pode ser hipofuncional, resultando em novo pico de LH 7 dias após. Este método é eficaz, resultando em indução e sincronização de estros quando empregadoum mês antes do início da estação reprodutiva. Se empregado durante a estação, não se observa sincronia de cios. A exposição das fêmeas a rufiões 30 dias antes do início da estação reflete apenas em maior sincronização de cios no início da estação. Implantes de melatonina Utilizados para induzir a ciclicidade em ovelhas em anestro, simulam o que ocorre durante o período reprodutivo, no qual os níveis de melatonina elevados não permitem que o estradiol iniba a liberação de GnRH pelo hipotálamo. Não disponíveis no Brasil, estes implantes permanecem 30 a 40 dias na ovelha antecipando a estação reprodutiva com atividade ovariana normal, porém, os animais podem se tornar refratários a este tratamento. Progestágenos Podem ser utilizados durante a estação reprodutiva ou um pouco antes do início da mesma (induzem a ciclicidade) apresentando uma excelente sincronia com boa taxa de fertilidade. Sua utilização deve estar acoplada ao uso de inseminação artificial e, no caso de monta natural, deve-se utilizar 10% de carneiros. A manifestação de estro ocorre durante as primeiras 96 horas após a retirada dos pessários. Progestágeno e gonadotrofina coriônica eqüina (eCG) A utilização de eCG fornece um aporte de LH permitindo o crescimento folicular final e a inseminação artificial em tempo fixo (IATF), quando suplementado no momento da retirada do pessário vaginal. Pode ser utilizado para indução/sincronização fora da estação reprodutiva, sendo necessárias 400 UI de eCG. Nestas condições (anestro) muitas fêmeas que não emprenharem não retornarão a ciclar e não se deve esperar aumento no número de partos múltiplos. Quando empregado durante a estação reprodutiva, pode-se reduzir a dose de eCG para 100 UI, o que possibilita a IATF e, se o objetivo for aumentar o número de partos múltiplos, a dose de eCG deve ser aumentada (400UI). Prostaglandinas Permitem concentrar o período de serviço e, conseqüentemente, a parição do rebanho. Para a utilização deste fármaco é imprescindível a presença de um corpo lúteo responsivo (entre dia 5 a 14), ou seja, as fêmeas devem estar ciclando para que se obtenha sincronia de cio. A luteólise que ocorre após a administração resulta em diminuição dos níveis de progesterona e, portanto, maior liberação de LH, permitindo o crescimento folicular final, culminando com a ovulação. Existem diversos protocolos de sincronização a base de prostaglandina, a maioria requer detecção de estro sendo desaconselhada a utilização dos protocolos de IATF que utilizam somente este fármaco. Incremento na taxa ovulatória Experimentalmente, uma restrição alimentar que resulte em diminuição de 25% do peso vivo durante meses não altera a secreção de LH e FSH em ovelhas ovariectomizadas. Somente uma restrição alimentar extrema suprime a secreção de gonadotrofinas através da inibição de GnRH. Em contraste, pequenas alterações nutricionais podem alterar a taxa ovulatória em ovelhas adultas. O aumento do escore corporal de magro para moderado ou de moderado para obeso aumenta a taxa ovulatória. Um aumento na ingestão de nutrientes mesmo sem modificação no escore corporal também. Os efeitos do incremento nutricional podem ser influenciados pela raça e ovelhas magras tendem a responder melhor. O maior número de folículos ovulatórios parece ser devido a uma diminuição na taxa de atresia. Os efeitos da nutrição na taxa ovulatória parecem resultantes de alterações na secreção de gonadotrofinas, pois não se observam alterações na responsividade ovariana. No caso de aumento abrupto na ingestão alimentar, a maior metabolização da progesterona diminui o efeito inibitório desse hormônio na secreção de gonadotrofinas. Bibliografia recomendada: KNOBIL, E. & NEILL, J.D. The physiology of reproduction. 2nd. Ed., Raven Press, New York, 1994. GONÇALVES, P. B. D. et al. Biotécnicas aplicadas à reprodução animal. 1ª ed., Varela, São Paulo, 2001. HAFEZ, E.S.E. & HAFEZ, B. Reprodução Animal. 7ª ed., Manole , São Paulo, 2004. EVANS, A. C. O. et al. Waves of Follicle Development During the Estrous Cycle in Sheep. Theriogenology, v. 53, p. 699-715, 2000. SOUZA, C. J. & MORAES, J. C. F. Manual de sincronização de cios em bovinos e ovinos. Documentos Embrapa Pecuária Sul, Bagé, v. 13, p. 1-75, 1998.