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W BA 11 89 _V 1. 0 TÓPICOS FUNDAMENTAIS EM COSMETOLOGIA 2 Mariana Prado Bravo São Paulo Platos Soluções Educacionais S.A 2022 TÓPICOS FUNDAMENTAIS EM COSMETOLOGIA 1ª edição 3 2022 Platos Soluções Educacionais S.A Alameda Santos, n° 960 – Cerqueira César CEP: 01418-002— São Paulo — SP Homepage: https://www.platosedu.com.br/ Head de Platos Soluções Educacionais S.A Silvia Rodrigues Cima Bizatto Conselho Acadêmico Alessandra Cristina Fahl Ana Carolina Gulelmo Staut Camila Braga de Oliveira Higa Camila Turchetti Bacan Gabiatti Giani Vendramel de Oliveira Gislaine Denisale Ferreira Henrique Salustiano Silva Mariana Gerardi Mello Nirse Ruscheinsky Breternitz Priscila Pereira Silva Coordenador Camila Braga de Oliveira Higa Revisor Claudia Stoeglehner Sahd Editorial Beatriz Meloni Montefusco Carolina Yaly Márcia Regina Silva Paola Andressa Machado Leal Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)_____________________________________________________________________________ Bravo, Mariana Prado Tópicos fundamentais em cosmetologia / Mariana Prado Bravo. – São Paulo: Platos Soluções Educacionais S.A., 2022. 32 p. ISBN 978-65-5356-220-2 1. Estética. 2. Cosmetologia. 3. Facial e corporal. I. Título. 3. Técnicas de speaking, listening e writing. I. Título. CDD 646.72 _____________________________________________________________________________ Evelyn Moraes – CRB: 010289/O B826t © 2022 por Platos Soluções Educacionais S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Platos Soluções Educacionais S.A. https://www.platosedu.com.br/ 4 SUMÁRIO Apresentação da disciplina __________________________________ 05 Fundamentos da cosmetologia ______________________________ 07 Composição da formulação cosmética _______________________ 18 Permeabilidade cosmética ___________________________________ 31 Nomenclaturas e toxicologia cosmética ______________________ 44 TÓPICOS FUNDAMENTAIS EM COSMETOLOGIA 5 Apresentação da disciplina A expectativa de vida das pessoas vem aumentando na medida que novas ações e tecnologias são empregadas na área de saúde e bem- estar. Pensando nisso, veremos sobre a cosmetologia que trata de uma ampla variedade de produtos desde ações simples, como um hidratante, até funções complexas, como os dermocosméticos, que protegem e modificam aspectos da bioquímica cutânea, e agregam nesse processo do envelhecer de maneira saudável e ativa. A disciplina Tópicos fundamentais em cosmetologia aborda os conhecimentos sobre os aspectos fundamentais que envolvem o setor e toda a indústria cosmetológica, de forma simples, clara e ilustrativa, para que seja possível extrair de todo esse raciocínio lógico e teórico os conceitos práticos aplicados à rotina profissional de estética. O mercado da cosmetologia tem passado por diversas modificações em um ritmo muito acelerado, proporcionando maior acesso à informação para os consumidores, deixando-os cada vez mais exigentes. Somado a isso, as legislações ambientais e animais tem pressionado o setor para que os fabricantes façam testes com resultados que comprovem de maneira clara a eficácia dos produtos. Por esse motivo, conhecer o cosmético na sua totalidade proporciona um olhar aguçado para esse setor que tanto cresce, fornecendo dados técnicos e científicos para que o olhar crítico seja aplicado na compra, desenvolvimento ou mesmo no uso de produtos. Os diversos temas trabalhados na disciplina trazem conteúdos que vão desde a composição do cosmético, com suas misturas e ingredientes, até os aspectos legislativos empregados na formulação e 6 comercialização desses produtos, garantindo a ampla visão de todo esse setor e fornecendo respaldo na compreensão dessa ciência. Vamos conhecer esse mercado incrível da cosmetologia! Bons estudos! 7 Fundamentos da cosmetologia Autoria: Mariana Prado Bravo Leitura crítica: Claudia Stoeglehner Sahd Objetivos • Conhecer os conceitos da cosmetologia e área de atuação. • Compreender os critérios da rotulagem e embalagens cosméticas. • Verificar o risco sanitário e as normativas cosméticas. 8 1. Fundamentos da cosmetologia A cosmetologia é considerada um dos grandes pilares que sustenta o profissional de estética, pois toda a evolução industrial e tecnológica permite aliar o potencial das substâncias ativas na modificação de diversos aspectos que afetam o organismo, em especial a pele. Para isso, é fundamental o conhecimento que envolve a história e a legislação empregada na fabricação e uso dos cosméticos, garantindo ao profissional a informação necessária de segurança para uso desse recurso tão importante. Para que um cosmético seja disponibilizado ao público consumidor, é preciso garantir, além de uma formulação estável, baixos riscos sanitários. A legislação brasileira exige dos fabricantes uma série de regras e padronizações na rotulagem, embalagem e disponibilização desses produtos, a fim de garantir as informações necessárias aos consumidores. No Brasil, quem regulamenta todos os processos envolvendo os cosméticos é a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, e esse conjunto de normas e regras que devem ser seguidos pelos fabricantes são encontrados nas Resoluções de Diretoria Colegiada, a RDC. A partir disso, conheceremos um pouco mais sobre a legislação e os diversos aspectos envolvendo os cosméticos. 1.1 A chegada da estética no Brasil A história da estética, no Brasil, começou com uma menina potiguar, ou seja, nascida no Rio Grande do Norte, de pais franceses, chamada Anne Marie Klotz. Após passar uma temporada na França, Anne desembarcou no Brasil, em 1951, trazendo consigo diversos conhecimentos estéticos, e foi então que começou a trabalhar no Rio de Janeiro, atendendo em seu próprio apartamento. Em pouco tempo, as sessões de estética ficaram tão conhecidas, que o local já não comportava mais o volume de clientes que estavam à procura de se embelezar. Anne Marie encontrou 9 na dificuldade uma oportunidade de crescer e criou seu instituto, chamado France-Bel, melhorando seu espaço físico e atendendo as necessidades de todos, conforme mostra a Figura 1. Nessa época, os equipamentos e cosméticos que ela utilizava eram trazidos diretamente da França, pois não existiam produtos equivalentes no Brasil que poderiam proporcionar os mesmos resultados. Foi a partir dessa escassez, que Anne Marie identificou uma nova oportunidade, a de criar sua própria linha de cosméticos. Figura 1 – Anne Marie Klotz Fonte: https://blog.rentalmed.com.br/anne-marie-klotz/. Acesso em: 23 jun. 2022. A história passou e, atualmente, os cosméticos são acessíveis e podem ser encontrados facilmente nas prateleiras de lojas cosméticas e farmácias. O principal objetivo dos cosméticos é auxiliar na manutenção da saúde e contribuir para o bem-estar e, por isso, houve a necessidade da criação de leis, decretos, portarias e resoluções da legislação sanitária que organizem as diretrizes de maneira adequada na seleção de matérias-primas, produção, embalagem, distribuição e comercialização, padronizando a qualidade e determinando as condições de controle e fiscalização desses produtos. 10 1.2 Definição de cosmético, cosmetologia e legislação aplicada A cosmetologia é a ciência que estuda o cosmético em todas as suas etapas, desde o início de sua produção, com a seleção de matérias- primas, considerando as compatibilidades químicas, até a etapa final de distribuição, comercialização e marketing, além de participar também de pesquisa de novas tecnologias, controle de qualidade e garantia de que a legislação seja cumprida junto aos órgãos competentes. A Anvisaé o órgão que regulamenta a legislação cosmética e junto com a Câmara Técnica de Cosméticos (CATEC), visa garantir a eficácia e segurança dos produtos além de regulamentar normas dentro do processo de produção e registro. A classificação de cosmético pode ser encontrada na RDC n. 211, de 14 de julho de 2005, que diz: Os produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes são preparações constituídas por substâncias naturais ou sintéticas, de uso externo nas diversas partes do corpo humano, pele, sistema capilar, unhas, lábios, órgãos genitais externos, dentes e membranas mucosas da cavidade oral, com o objetivo exclusivo ou principal de limpá-los, perfumá-los, alterar sua aparência e ou corrigir odores corporais e ou protegê-los ou mantê-los em bom estado. (BRASIL, 2005, p. 4) Apesar da definição trazer o local de uso cosmético como externo, os aliméticos e nutricosméticos não se enquadram nessa classificação. Com relação a legislação cosmética, é categorizada por assunto e, assim, permite o controle de qualidade no registro, autorização e comercialização de produtos. As categorias da legislação são: 11 • Registro de produtos. • Notificação de produtos. • Importação de produtos. • Autorização de funcionamento. • Legislação geral. • Resoluções mercosul. O Quadro 1 traz os assuntos abordados nas principais RDCs, que fazem parte da produção e comercialização do cosmético. Esse material é importante sempre que houver alguma dúvida, para que profissionais possam recorrer as informações, garantindo a segurança na produção e utilização de substâncias. Quadro 1–Referências legais que envolvem a legislação cosmética Resolução Assunto RDC 211/05. Definição, classificação, requisitos técnicos espe- cíficos e rotulagem. RDC 343/05. Procedimento para notificação de produtos cos- méticos. RDC 215/05. Lista restritiva. RDC 47/06. Lista de filtros solares UV. RDC 162/01. Lista de conservantes. RDC 48/06. Lista de substâncias proibidas. RDC 237/02. Protetores solares. RDC 38/01. Produtos infantis. Lei n. 6360/76 e Decreto n. 79094/77. Registro de produtos e autorização de funciona- mento de empresas. Fonte: adaptado de Matos (2014, p. 38). 12 1.3 Embalagem e rotulagem cosmética A Anvisa também define normativas com relação a embalagem e rotulagem cosmética, contidas na RDC 07/2015. O produto pode conter duas embalagens e as informações do rótulo podem ser divididas nessas embalagens. A embalagem que fica diretamente em contato com o produto, é chamada de primária; já a embalagem que visa armazenar a embalagem primária, geralmente, uma caixa, é chamada de secundária, como consta na Figura 2. A embalagem secundária não é obrigatória e seu uso fica a critério do fabricante, no entanto, por uma padronização da Anvisa, quando não houver embalagem secundária, todas as informações obrigatórias do rótulo devem estar contidas na embalagem primária. Figura 2–Embalagem primária, que corresponde ao frasco, e secundária, que corresponde a caixa Fonte: Umesh Chandra/ iStock.com. Com relação a rotulagem do produto, também existe uma padronização de informações que deve ser mencionada conforme mostra o Quadro 2. Quando a embalagem primária é muito pequena e o espaço do rótulo não é suficiente para a descrição de todos os componentes obrigatórios, 13 a Anvisa permite o uso de folhetos anexo. O Quadro 2 apresenta todas as informações de rotulagem, bem como quais informações podem estar na embalagem primária e secundária. Um ponto de atenção é que, muitas vezes, ao utilizar um cosmético com duas embalagens, a secundária é rapidamente descartada pelo consumidor, não permitindo que o mesmo recorra a informações importantes, como o prazo de validade, por isso, o ideal seria manter essa embalagem guardada até o fim do uso desse produto. Quadro 2–Normas de rotulagem obrigatória Informação Embalagem primária Embalagem secundária Nome do produto. Marca e grupo. X X Modo de uso. X X Restrições de uso e advertências. X X Lote. X Número do registro. X Prazo de validade. X Conteúdo. X País de origem. X Informações do fabricante. X Rotulagem específica. X Composição INCI name. X Fonte: adaptado de MATOS (2014, p. 37). Além das informações obrigatórias na rotulagem, alguns termos podem ser usados a fim de assegurar e informar sobre algumas características específicas dos produtos, são eles: produto infantil; produtos para 14 peles sensíveis; hipoalergênicos; alergênico, clinicamente testado; dermatologicamente testado, oftalmologicamente testado; não comedogênico, não acnegênico. Os ingredientes que fazem parte da composição do cosmético também devem estar presentes na rotulagem. Atualmente, existem incontáveis substâncias que podem ser utilizadas e, para facilitar a padronização, essa composição química deve ser descrita em uma nomenclatura internacional chamada de Internactional Nomenclature of Cosmetics Ingredientes (INCI name), a fim de viabilizar a informação ao leitor de qualquer lugar do mundo, independente do nome comercial da substância. Os ingredientes da composição são descritos na ordem de maior e menor quantidade, é possível observar que, na maioria dos produtos, a água é o primeiro ingrediente da lista. 1.4 Risco sanitário O fabricante de um cosmético é inteiramente responsável em promover para seus consumidores garantias de segurança em condições de normalidade ou que sejam razoavelmente previsíveis em seus produtos disponibilizados no mercado, e, por essa razão, os cosméticos precisam ser classificados de acordo com seu grau de risco. Essa classificação indica a chance de ocorrer qualquer efeito indesejado com o uso do produto, levando em consideração fatores como a composição, a finalidade de uso, regiões de aplicação e cuidados gerais que devem ser tomados. Exemplificando, quando um sabonete entra em contato com os olhos, quais riscos esse produto pode oferecer? Mesmo quando um despigmentante permanece em contato prolongado com a pele, a quais riscos esse consumidor estará exposto? 15 Entendendo a necessidade de proteção ao consumidor, a Anvisa classificou os cosméticos em: Grau I, indicando risco mínimo; Grau II, indicando risco máximo ou potencial. De acordo com a RDC 7/2015, Anexo II, a definição de produto Grau I é: Definição Produtos Grau 1: são produtos de higiene pessoal, cosméticos que se caracterizam por possuírem propriedades básicas ou elementares, cuja comprovação não seja inicialmente necessária e não requeiram informações detalhadas quanto ao seu modo de usar e suas restrições de uso, devido às características intrínsecas do produto. (BRASIL, 2015, p. 6) Encontram-se, nessa classificação, produtos com propriedades simples e básicas, que não precisam de comprovação de eficácia e rótulos detalhados. De maneira geral, esses produtos são aqueles que não possuem uma função específica de tratamento, como os sabonetes, cremes hidratantes, perfumes e maquiagens em geral. Esses produtos devem ser notificados à Anvisa, por meio de um formulário eletrônico, antes de serem disponibilizados ao consumidor. A lista completa de produtos, que se enquadram nessa classificação, pode ser encontrada na RDC 7/2015. Já os produtos classificados em Grau II, segundo a RDC 7/2015, são definidos como: Definição Produtos Grau 2: são produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes, que possuem indicações específicas, cujas características exigem comprovação de segurança e/ou eficácia, bem como informações e cuidados, modo e restrições de uso. (BRASIL, 2015, p. 6) Já o Grau II, indica risco potencial, e os produtos que se enquadram nessa classificação são aqueles que possuem ações específicas, como exemplos: os fotoprotetores, que visam proteger a pele da queimadura solar; os produtos antiacne, que visam evitar o aparecimento de novas lesões acneicas; os produtos antienvelhecimento, que conterão 16 substâncias que retardam o envelhecimento; os xampus anticaspa, que visam evitaro ressecamento do couro cabeludo, dando origem a caspa, entre outros. Esses produtos precisam ser registrados na Anvisa, além de passar por testes de segurança e eficácia, atestando seu funcionamento. A lista completa de produtos que se enquadram nessa classificação pode ser encontrada na RDC 7/2015. Um destaque para os produtos dessa classificação é que precisam passar por diversos testes, afirmando sua eficácia e segurança, além de conter informações detalhadas no rótulo quanto ao modo de uso e restrições. Considerando que as empresas e formuladores são responsáveis pela comercialização de um produto cosmético seguro, a qualidade das substâncias e técnicas empregadas, que evitam causar qualquer dano ao usuário, são primordiais. Por isso, conhecer detalhes das matérias-primas, manter sempre um intervalo seguro entre o risco de uso do produto, além de passar informações claras no rótulo quanto ao modo de uso e seguir as boas práticas de fabricação e controle, tornam-se indispensáveis. Com relação aos riscos que esse produto pode fornecer, alguns critérios de avaliação são utilizados para validação do uso do produto, como as condições de uso, seja de aplicação regular e prolongada ou ocasional; as áreas de contato, sejam áreas externas ou mucosas; e se existe algum risco em sua inalação ou ingestão. O produto cosmético deve apresentar segurança e a concentração de substâncias da formulação deve ser adequada a margem de segurança, evitando efeito sistêmico adverso e, por isso, consideram-se três tipos de riscos potenciais que devem ser avaliados por meio de testes: teste do potencial efeito sistêmico, indicando o grau de toxicidade e o teste de mutagenicidade das substâncias; estudo do potencial efeito alergênico, com teste de alergenicidade; estudo do potencial de risco irritativo, com análise da irritação da pele, mucosas ou região ocular. 17 O profissional que usa o cosmético como um auxiliar de seu trabalho, precisa compreender todos os fatores que envolvem esse setor, em especial a legislação desses produtos. A partir do estudo das normativas cosméticas, é possível entender as leis que regem esse setor, assim como verificar se embalagem e rótulo são adequadas e contém todas as informações pertinentes ao consumidor, indicando o grau de risco desse produto, quais são as substâncias ativas contidas nele, a composição completa, desde as substâncias em maior e menor quantidade e a disponibilização de informações de maneira simplificada ao público consumidor. Essa leitura também visa respaldar o profissional com o acesso às diversas resoluções, que trazem de maneira detalhada todos os setores que envolvem a produção e comercialização dos cosméticos. Referências BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Guia para Avaliação de Segurança de Produtos Cosméticos. 2. ed. Brasília, 2012. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/cosmeticos/ manuais-e-guias/guia-para-avaliacao-de-seguranca-de-produtos-cosmeticos.pdf/ view. Acesso em: 23 jun. 2022. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada–RDC n. 07, de 10 de fevereiro de 2015. Brasília, 2015. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2015/ rdc0007_10_02_2015.pdf. Acesso em: 23 jun. 2022. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução– RDC n. 211, de 14 de julho de 2005. Disponível em: http://www.cvs.saude.sp.gov. br/zip/U_RDC-ANVISA-211_140705.pdf. Acesso em: 23 jun. 2022. MATOS. S.P. Cosmetologia aplicada. São Paulo: Érica, 2014. REBELLO, T. Guia de produtos cosméticos. 12. ed. São Paulo: Senac São Paulo, 2019. RENTALMED. Disponível em: https://blog.rentalmed.com.br/anne-marie-klotz/. Acesso em: 23 jun. 2022. TANIKAWA. C. Cosmetologia e estética. Londrina: Editora e distribuidora educacional S.A, 2015. 18 Composição da formulação cosmética Autoria: Mariana Prado Bravo Leitura crítica: Claudia Stoeglehner Sahd Objetivos • Conhecer a composição cosmética e suas classificações. • Compreender a função dos ingredientes. • Entender como os veículos vetoriais influenciam na permeação cutânea. 19 1. Formulação cosmética Os cosméticos são produtos cuja composição pode conter matérias- primas naturais ou sintéticas e essas preparações visam ser aplicadas na pele com o objetivo de perfumar, higienizar ou mesmo alterar a aparência do local, sendo ajustadas para a aplicação e finalidade desejada. Ao observar um cosmético na prateleira de uma farmácia, nem se imagina o número de etapas e a complexidade na mistura de componentes para obter aquela formulação homogênea e estável. O desenvolvimento de um cosmético demanda planejamento, conhecimento, e cada formulação pode promover uma ação específica na pele, ou seja, ao comprar ou indicar um produto cosmético, é preciso analisar as características da composição, a finalidade do produto e a região em que será aplicado. Diversos critérios são levados em consideração pelos formuladores antes de utilizar uma determinada matéria-prima em uma composição, como a disponibilidade dessa substância, vida útil, condições de processamento, toxicidade, riscos ambientais, além do impacto financeiro que causará do custo final desse produto. Os componentes que dão vida a um cosmético são divididos em quatro categorias, sendo: ativos, aditivos, produtos de correção ou ajustamento e veículos. 1.1 Ativo Os ativos ou princípios ativos, como também são chamados, são substâncias naturais ou sintéticas que atuam na formulação, promovendo a ação final a que esse produto se destina, ou seja, é a substância com efeito mais acentuado, que promove mudanças na região de aplicação. Essas substâncias são utilizadas de maneira 20 controlada, evitando possíveis efeitos colaterais, além de sensibilizações ou reações alérgicas. Considerando as substâncias naturais, são extraídas diretamente da natureza, podendo ser de origem animal, vegetal, mineral ou sintetizados por micro-organismos. Já as substâncias sintéticas, são imitações das substâncias naturais, porém, produzidas em laboratório. Vale ressaltar que, muitas vezes, as moléculas sintéticas são mais potentes que as naturais, alcançando melhores resultados, além de preservar o meio ambiente e ter vantagens com relação a estabilidade e preço. Um fator relevante, quando se trata de princípios ativos, é a biodisponibilidade dessas substâncias, ou seja, a velocidade e a extensão de absorção, além da sua capacidade de participar de reações biológicas do organismo, como a lipólise, lipogênese, melanogênese, reparação tecidual, entre tantas outras. As substâncias com essa capacidade são fundamentais para a eficácia de um cosmético. A quantidade de substâncias disponíveis é tão grande que fica difícil de conhecer todas, no entanto, ao entrar em contato com os produtos, é possível observar e memorizar as mais usuais, lembrando que um cosmético dificilmente conterá apenas um princípio ativo, mas diversos ingredientes, que, combinados, atuarão nas diversas causas que levam ao aparecimento da disfunção estética a que o produto é destinado. 1.2 Aditivo Os aditivos são substâncias contidas na formulação dos produtos que auxiliam no aumento do tempo de vida útil, além de possibilitar trabalhar o marketing desse produto. Faz parte dessa classificação, os corantes e pigmentos, fragrâncias e os conservantes. Vamos entender cada uma dessas classificações. 21 Corantes e pigmentos: o pigmento é uma substância que absorve e reflete a luz em um determinado comprimento de onda, podem ser de fontes naturais ou sintéticas e determinam a cor que esse produto terá, dando uma característica de marketing a esse cosmético. É só imaginar que um hidratante corporal de morango, além de cheiro de morango, também pode ter a cor rosada, valorizando as características sensoriais desse produto. Ao analisar a formulação, ospigmentos utilizados são representados pela sigla CI, que significa colour index, seguida de uma numeração. Essa sigla é utilizada como meio de padronização universal das cores. Fragrâncias: as essências podem ser sintéticas ou naturais, sendo extraídas de flores, folhas, frutas, sementes, madeiras e cascas de árvores, e sua função é impressionar as vias olfativas. Vale ressaltar que, assim como os pigmentos, essas substâncias são os principais alérgenos em cosméticos, ou seja, podem sensibilizar o organismo, induzindo o aparecimento de reações alérgicas. Os produtos hipoalergênicos evitam o uso dessas substâncias, garantindo maior segurança para pessoas sensíveis. Conservantes: visando conservar a formulação, assegurando o prazo de validade, essas substâncias destroem, neutralizam, impedem ou controlam a ação dos micro-organismos, além disso, também evitam a oxidação das substâncias que fazem parte da formulação, os ingredientes que fazem parte dessa classificação são os agentes bactericidas, biocidas, fungicidas e antioxidantes. Ao serem utilizados no cosmético, devem apresentar propriedades como serem atóxicos e eficazes em baixas concentrações, além de possuir resistência a luz e ao calor, e não reagir negativamente com os demais ingredientes da formulação. 22 1.3 Produtos de correção Como o próprio nome diz, essas matérias-primas são capazes de atuar corrigindo ou ajustando algum aspecto da formulação e são divididos em: corretores de pH, emolientes, emulsionantes, espessantes, sequestrantes ou quelantes, solubilizantes e umectantes. Abordaremos cada um deles. Corretores de pH: para que um cosmético seja bem aceito pela pele, um dos fatores determinantes para essa ação é o pH, que necessita ser o mais aproximado possível do pH fisiológico da região de aplicação. Os corretores de pH visam realizar esse ajuste na formulação, alguns componentes ácidos são utilizados para acidificar a formulação, como é o caso do ácido lático, ascórbico e o cítrico, enquanto o hidróxido de alumínio ou borato de sódio são utilizados para alcalinizar a formulação. Emolientes: tem a propriedade de melhorar o ressecamento da pele e dos cabelos, além de fornecer um toque úmido a formulação com aspecto aquoso. Emulsionantes: também chamados de tensoativos ou surfactantes, visam reduzir a tensão superficial da água e outros líquidos, permitindo a mistura de substâncias aquosas e oleosas, com a formação de micelas, dando origem às emulsões. As moléculas dos emulsionantes possuem uma estrutura com grupos polares, tendo afinidade pela água, e os grupos apolares, tendo afinidade pelo óleo, como é apresentado na Figura 1. Essas estruturas são capazes de se associar, formando as micelas conforme apresentado na Figura 2. 23 Figura 1 – Estrutura dos tensoativos Fonte: Galembeck; Csordas (2011, p. 25). Figura 2 – Micelas Fonte: Oliveira et al. (2004, p. 132). Espessantes: esses compostos atuam no ajuste da viscosidade da formulação e auxiliam a função do emulsionante, mantendo a formulação estável. Cosméticos mais fluídos possuem baixas doses de espessantes, enquanto produtos mais cremosos possuem maior quantidade de espessantes. Sequestrantes ou quelantes de íons: fazem sinergismo com os antioxidantes, removendo os íons indesejados da formulação. Alguns íons 24 metálicos, como ferro, cobre e níquel, podem reagir com outras substâncias da composição, causando alterações na cor e na textura do produto e, por isso, precisam ser imobilizados. Um dos componentes mais comuns para essa função é o EDTA (ácido etilenodiamino-tetracético). Já os antioxidantes, combaterão a oxidação de substâncias que oxidam especialmente em contato com a luz, além de proteger alguns compostos, como as vitaminas, pigmentos e essências. Os compostos mais comuns utilizados com essa propriedade são os tocoferóis, o ácido cítrico, o ácido ascórbico e o BHT (butilhidroxitolueno). Solubilizantes: são substâncias utilizadas para dissolver outras matérias- primas, antes de serem adicionadas a formulação, evitando a formação de grumos residuais. Umectantes: diferente dos emolientes, uma característica marcante dos umectantes é a hidroscopia, essas substâncias são capazes de atrair e absorver água, inclusive do meio ambiente, além de reter essa umidade na formulação e manter a superfície de aplicação umedecida. 1.4 Veículos Os veículos, como o próprio nome indica, são compostos capazes de transportar ou carregar as demais substâncias da composição cosmética, também conhecidos por excipiente, e se caracterizam por ser a base da formulação, como a água, óleo, álcool, gel, propilenoglicol, serum, pó, emulsão, gel ou suspensão. Essas substâncias precisam apresentar compatibilidade pelos demais ingredientes da formulação, além de estabilidade para que a ação do produto não seja comprometida. Para a escolha do veículo que será utilizado, é necessário levar em consideração o local de aplicação desse produto, garantindo eficácia, além de boa sensação ao ser aplicado. A sensação que um cosmético pode promover é fundamental para que esse produto seja bem aceito pelos 25 consumidores, uma vez que se o consumidor não se sentir bem com a aplicação desse produto, dificilmente dará continuidade ao seu uso. Comentaremos sobre alguns deles. Emulsão: essa composição acontece por meio da mistura de dois líquidos imiscíveis, como a água e o óleo, por meio de um tensoativo. As emulsões possuem uma fase dispersa e um meio dispersante e, a partir disso, é possível obter formulações com aspecto mais aquoso, quando a água é o dispersante, e formulações com aspecto mais oleoso, quando o óleo é o meio dispersante, formando, assim, produtos com diferentes aspectos. Ao analisar a Figura 2, que representa a formação de micelas, é possível identificar essa diferença. A primeira imagem representa uma fase interna aquosa (dispersa) e uma fase externa oleosa (dispersante), dando origem à emulsão água em óleo A/O; a segunda imagem apresenta uma emulsão óleo em água O/A, ou seja, o óleo fica disperso na água, que é o dispersante. As emulsões O/A/, por apresentarem um teor oleoso menor, possuem um aspecto mais agradável e, por isso, são comumente utilizados para produtos faciais. Jáá os produtos que demandam maior espalhabilidade, como os hidratantes corporais ou mesmo os cremes de massagem, requerem uma emulsão O/A. Gel: é um sistema semissólido, com características coloidais e aspecto gelatino. É constituído pela dispersão de partículas pequenas em um veículo líquido, formando uma suspensão. Os agentes mais comuns na formação do gel são os polímeros, gomas e os carbômeros, que, dispersos em água, promovem viscosidade a preparação. Dependendo da matéria- prima utilizada, os géis podem conter toque mais seco ou mais pegajoso. São mais utilizados em produtos para peles oleosas. Propilenoglicol: apresenta-se como um fluído viscoso, incolor e inodoro, que pode ser misturado com a água e possui propriedades higroscópicas, consegue facilitar a permeação de substâncias por ter tamanho molecular pequeno e alto poder solubilizante. 26 1.5 Veículos vetoriais A pele atua como barreira, protegendo o organismo contra agentes externos e, por isso, os cosméticos precisam driblar essa função. Atualmente, existem veículos específicos que conseguem carregar os princípios ativos da formulação até regiões mais profundas da pele, esses veículos são chamados de vetoriais, os mais comuns são os lipossomas, nanosferas e silanóis. Lipossomas: os lipossomas são pequenas vesículas formadas de uma ou mais bicamadas fosfolipídicas, sendo que sua parte interna consegue carregar os princípios ativos, como mostra a Figura 3. Figura 3 – Fosfolipídeo. Fonte: https://pt.khanacademy.org/science/biology/membranes-and-transport/the-plasma- membrane/a/structure-of-the-plasma-membrane#:~:text=Um%20fosfolip%C3%ADdio%20 %C3%A9%20um%20lip%C3%ADdio,de%20camada%20dupla%20de%20fosfolip%C3%ADdio. Acessoem: 23 jun. 2022. 27 Um dos principais componentes da membrana plasmática celular são os fosfolipídeos, conforme pode ser observado na Figura 4, como os lipossomas apresentam biocompatibilidade, ou seja, possuem estrutura similar, podem ser facilmente absorvidos pelo organismo. A Figura 5 indica como é a estrutura de um lipossoma, onde as bicamadas de fosfolipídios criam um espaço interno, podendo carregar o princípio ativo. Figura 4 – Membrana plasmática Fonte: ttsz/ iStock.com. Figura 5 – Lipossoma Fonte: Matos (2014, p. 48). 28 Nanosferas: as nanosferas são esferas minúsculas e porosas, capazes de liberar gradualmente os princípios ativos que, quando são carregados em seu interior, recebem a nomenclatura de nanocápsulas, proporcionando uma dispersão mais uniforme por toda a região de aplicação. A diferença entre nanoesferas e nanocápsulas é apresentada na Figura 6. Figura 6 – Nanopartículas Fonte: Schaffazick et al. (2003, p. 276). A diferença entre nanocápsulas e nanoesferas está na sua composição e organização estrutural, como a parede polimérica e a matriz polimérica. As nanocápsulas possuem um invólucro polimérico, que fica ao redor do núcleo oleoso, e o ativo pode estar dissolvido nesse núcleo ou aderido à parede polimérica. Já as nanoesferas, não possuem óleo em sua composição, sem a presença de um núcleo diferenciado. Silanóis: esses veículos são altamente permeáveis porque são compostos a base de silício orgânico. O silício é um dos principais oligoelementos na composição dos organismos vivos, sendo responsável por manter a integridade da matrix extracelular, auxiliar na reestruturação da derme, além de aumentar a permeação dos princípios ativos. O silício também contribui para a síntese proteica, sendo um grande auxiliar na formação da molécula de colágeno, e também atua como antioxidante. A Figura 7 indica como é a estrutura dessa molécula. 29 Figura 7 – Cadeia de silanóis. Fonte: Matos (2014, p. 50). Conforme observado ao longo desta leitura, é possível identificar os diversos aspectos que compõem a formulação cosmética e sua complexidade. Um cosmético deve ser muito bem planejado para que possa atingir sua máxima eficácia, com segurança e estabilidade ao consumidor. Referências GALEMBECK, F.; CSORDAS, Y. Cosméticos: a química da beleza. Araçatuba: UniSalesiano, 2011. Disponível em: https://fisiosale.com.br/ assets/9no%C3%A7%C3%B5es-de-cosmetologia-2210.pdf. Acesso em: 23 jun. 2022. KHAN ACADEMY. Disponível em: www.khanacademy.org/science/biology/intro-to- biology/science-of-biology/a/the-science-of-biology. Acesso em: 23 jun. 2022. MATOS. S. P. Cosmetologia aplicada. São Paulo: Érica, 2014. OLIVEIRA, A. C. C. Recursos cosméticos aplicados à estética. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A, 2017. OLIVEIRA, A. G. de et al. Microemulsões: estrutura e aplicações como sistema de liberação de fármacos. Quimica Nova, v. 27, n. 1, p. 131-138. Araraquara: UNESP, 2004. Disponível em: http://hdl.handle.net/11449/67604. Acesso em: 23 jun. 2022. http://hdl.handle.net/11449/67604 30 REBELLO, T. Guia de produtos cosméticos. 12. ed. São Paulo: Senac São Paulo, 2019. SCHAFFAZICK, S. R. et al. Caracterização e estabilidade físicoquímica de sistemas poliméricos nanoparticulados para administração de fármacos. Química Nova, v. 26, n. 5, p. 726-737. Araraquara: UNESP, 2003. 31 Permeabilidade cosmética Autoria: Mariana Prado Bravo Leitura crítica: Claudia Stoeglehner Sahd Objetivos • Compreender sobre a função de barreira cutânea da pele. • Conhecer as vias de permeação cosmética. • Entender o mecanismo de ação dos facilitadores de permeação. 32 1. Barreira cutânea A pele que reveste todo o organismo humano possui funções variadas e importantes, sendo uma delas a proteção contra agentes externos. É considerada o maior órgão do corpo, sendo dividida em duas principais camadas, conhecidas como: epiderme, a mais superficial; e a derme, camada subjacente. A pele funciona como uma barreira semipermeável, permitindo a passagem seletivamente de substâncias, uma vez que o estrato córneo atua como uma barreira difusional, e tanto a anatomia como a bioquímica dessa região influenciam nos aspectos de permeabilidade. Estudos têm revelado que o estrato córneo possui uma resistência elétrica a permação e, quando comparado aos demais estratos, sua resistência é consideravelmente maior. Além disso, a pele possui aspectos bioquímicos particulares, como a mistura de cerca de 55% de água, 19% de proteínas e 19% de lipídeos, formando um filme protetor com aspectos aquosos e oleosos. Podemos dizer que a pele atua na regulação do transporte de água para fora e dentro do corpo, permitindo, assim, a absorção de pequenas moléculas com aspecto lipofílico e com peso molecular reduzido. Partindo desse princípio natural de seletividade da pele, é possível reconhecer que substâncias que apresentam tais características conseguem atuar de maneira desejada, apresentando maiores chances de permeação. Os filamentos de queratina que são ricos em água, permitem que ocorra a passagem de substâncias, sendo que essa tem afinidade pela água, os lipídeos que estão entre os filamentos de queratina possibilitam a passagem de substâncias que possuem afinidade com a gordura e, por essa razão, é que uma pele hidratada permite uma melhor passagem de ativos hidrossolúveis. 33 Com relação às nomenclaturas, ainda não existe um consenso entre os diversos autores, mas, de maneira geral, podemos dizer que o termo penetração se refere às substâncias que conseguem alcançar a camada mais superficial, a epiderme. Os produtos que se enquadram nessa classificação são os cosméticos mais simples, sem atuação específica. Já o termo permeação, refere-se às substâncias que conseguem alcançar regiões mais profundas da pele, como a camada dérmica. Os dermocosméticos se enquadram nesse objetivo e classificação, já o termo absorção se refere aos ativos que atingem regiões ainda mais profundas, como a corrente sanguínea atuando na rede sistêmica. Nessas categorias, estão os medicamentos. As substâncias são classificadas em três tipos, de acordo com sua capacidade de permeação, sendo permeáveis, semipermeáveis e impermeáveis. As substâncias com características impermeáveis são aquelas que apresentam estrutura e peso molecular maior, como é o caso das proteínas, carboidratos e eletrólitos, que são os minerais que fazem parte do organismo. As proteínas e os carboidratos possuem baixa lipossolubilidade e apresentam tamanho molecular muito grande, dificultando sua passagem pela camada córnea. Os processos de hidrólise que visam diminuir o tamanho da molécula e a ionização, minimizam esses efeitos negativos; já os eletrólitos, conseguem passagem quando ionizáveis. As substâncias consideradas semipermeáveis apresentam uma capacidade intermediária de permeação, incluindo os aminoácidos, glicose, nucleotídeos, íons, vitamina D e E, hormônios, anestésicos, resorcina e hidroquinona. As substâncias permeáveis incluem os gases, moléculas com tamanho menor que 0,8 nanômetros, etanol, substâncias hidro e lipossolúveis de baixo peso molecular. 34 2. Vias de permeação Existem algumas vias pelas quais os ativos conseguem permear o organismo, divididas em duas: transepidérmica e via anexos cutâneos. Transepidérmica: a via transepidérmica pode ser dividida em intercelular e intracelular ou transcelular. Na permeação de substância via intercelular, o produto desvia das células e utiliza os espaços vazios existentes entre elas para passagem. Atualmente, essa via é considerada uma das principais, pois o produto não encontra barreiras ou obstáculos ao longo de seu trajeto, diferente da via intracelular, em que o produto consegue atravessar pelo meio das células, um processo mais lento, que enfrenta mais resistência e se torna mais difícil. Essas vias de permeação são apresentadas na Figura 1. Levando em consideração a extensão da pele,a via transepidérmica é considerada uma das mais importantes. Figura 1 – Via transepidérmica Fonte: Matos (2014, p. 53). 35 Via anexos cutâneos ou transanexial: nessa via de permeação, o produto usará os orifícios dos anexos cutâneos como porta de entrada. O folículo piloso é um dos principais canais de entrada, pois sua parte inferior não é quaratinizada, fazendo com que a função barreira seja menor em relação a camada córnea. Essa via de entrada também pode ser chamada de transfolicular, se aplicada às glândulas sudoríparas conforme indicado na Figura 2. Apesar dessa via de permeação ser pequena, uma vez que os folículos e glândulas sudoríparas ocupam em torno de 1% da área da pele, não pode ser deixada de lado, pois pode apresentar papel importante por meio do uso de algumas técnicas que atuam na liberação transdérmica. Figura 2 – Via anexos cutâneos Fonte: Matos (2014, p. 53). 3. Fatores que interferem na permeação de substâncias Existem alguns fatores que podem influenciar na permeação do cosmético, dificutando ou favorecendo sua entrada. Esses fatores são divididos em três categorias: biológicos, fisiológicos e cosmetológicos. 36 Dentre os fatores biológicos, podemos citar a espessura da epiderme como um agente dificultador da permeação, quanto mais espesso e queratinizado for o tecido, mais resistência apresenta. A região anatômica também pode influenciar, já que mucosas, regiões com mais vascularização e mais anexos cutâneos podem favorecer a permeação. A idade é outro fator biológico relevante, pois, apesar da espessura da pele diminuir com o passar dos anos, o que favoreceria a permeação, a redução do teor hídrico da pele também diminui, dificultando, assim, a permeação. Com relação aos fatores fisiológicos, um dos principais e mais conhecidos é a hiperemia causada pelo aumento do fluxo sanguíneo superficial, melhorando, assim, a permeabilidade cutânea. Ainda temos alguns fatores, como a hidratação, já que peles mais hidratadas são mais permeáveis e, além disso, o teor oleoso do tecido também deve ser levado em consideração, pois os diversos tipos de pele apresentam características diferentes de permeabilidade. As peles oleosas ou acneicas têm seus folículos obstruídos pelo óleo, dificultando a entrada do produto via trananexial. Com relação aos fatores cosmetológicos, podemos citar o tamanho da molécula ativa, uma vez que moléculas menores apresentam maior permeação. A concentração dessas matérias-primas também é relevante, quanto maior for a concentração, maior será também a permeação. A solubilidade dos produtos deve sempre ser muito bem analisada, pois como a pele é composta por uma mistura de água e lipídeos, onde o teor aquoso é bem maior que o oleoso, emulsões com maior volume de água são mais favoráveis a permeação. Substâncias que ficam dispostas sobre a pele por mais tempo também apresentam maior permeabilidade, além do pH do produto, que quanto mais alcalino, melhor o potencial de permeação, além dos veículos que quando vetoriais conseguem atingir regiões mais profundas da pele. 37 4. Facilitadores da permeação Visando contornar a função da barreira da pele, foi necessário o desenvolvimento de novas tecnologias, permitindo, assim, uma permeação mais eficiente por meio de dois métodos facilitadores de permeação, os passivos e ativos. Os métodos passivos são aqueles que procuram melhorar os aspectos da formulação para que a pele aceite melhor as substâncias ativas, enquanto os métodos ativos são aqueles que necessitam de força motriz, ou seja, algum agente que consegue impulsionar ou movimentar essas substâncias para que permeiem o tecido. Veremos sobre esses dois métodos. 4.1 Métodos passivos Promotores químicos: os promotores químicos visam reduzir a resistência da pele de maneira temporária e reversível, melhorando o transporte de substâncias. São compostos considerados baratos e fáceis de serem utilizados na formulação. Além de serem atóxicos, não irritantes e não alergênicos. Seus mecanismos de ação são diversos e o principal desafio, no seu uso, é a não irritação cutânea, pois quanto maior é a profundidade de atuação, maior desorganização causará no tecido, interagindo com os queratinócitos, podendo causar reações no local, como edema, eritema ou mesmo dermatites. Abaixo, segue o Quadro 1, com algumas substâncias utilizadas com essas propriedades. Quadro 1 – Promotores químicos Promotor químico Exemplos Mecanismo Ação Água. – Aumento na hidra- tação da camada córnea. Aumento do fluxo trans- dérmico. 38 Álcoois. Etanol, pentanol, ál- cool benzílico, álcool láurico, propilenogli- col, glicerol. Extração de lipídeos ou proteínas. Entumescimento da ca- mada córnea, melhora na partição do fármaco, melhora na solubilidade da formulação. Ácidos graxos. Ácido oleico, ácido linoleico, ácido valérico e ácido láurico. Partição entre as ca- madas lipídicas. Desorganização da ca- mada lipídica, melhoria da partição do fármaco na camada córnea, for- mação de complexo lipí- dico com o fármaco. Aminas. Dietanolamina, trie- tanolamina. Partição entre as ca- madas lipídicas. Melhoria da partição do fármaco na camada cór- nea. Amidas. Azona, dimetilace- tamida, pirrolidona, ureia. Partição entre as ca- madas lipídicas. Desorganização da ca- mada lipídica, melhoria da partição do fármaco na camada córnea. Ésteres. Miristato de isopro- pila. Partição entre as ca- madas lipídicas. Desorganização da ca- mada lipídica, melhoria da partição do fármaco na camada córnea. Hidrocarbonetos. Alcanos, esqualeno. Partição entre as ca- madas lipídicas. Desorganização da ca- mada lipídica, melhoria da partição do fármaco na camada córnea. Tensoativos. Laureato de sódio, gemini. Quebra da tensão superficial. Atividade depende do equilíbrio hidrofílico/ lipofílico, carga e compri- mento da cauda lipídica. Terpenos, terpenói- des e óleos essen- ciais. – – Ação depende das carac- terísticas físico-químicas de cada um e principal- mente de sua lipofilia. Sulfóxidos. Dimetilsulfóxido. Solvente. Melhoria da partição do fármaco na camada cór- nea. 39 Fosfolipídeos. Estruturas micelares ou vesiculares. Fundição com as camadas lipídicas da camada córnea. Desorganização da ca- mada córnea, melhoria da partição do fármaco na camada córnea. Ciclodextrinas. – Formação de com- plexos de inclusão com fármacos hidro- fóbicos. Aumento do coeficiente de partição dos fárma- cos hidrofóbicos e sua solubilidade na camada córnea. Fonte: adaptado de Soares et al. (2015, p. 3-5). Supersaturação: como o próprio termo indica, essa estratégia visa aumentar a concentração de substâncias ao ponto que do solvente não conseguir realizar toda a solubilização do ativo, ou seja, saturando essa formulação, graças a atividade termodinâmica química, é possível aumentar os níveis de permeação. Pró-fármacos: essa estratégia consiste em aumentar a lipofilicidade de algumas substâncias, favorecendo, assim, sua permeação através de ésteres e carbonatos, no entanto, isso proporciona um aumento do peso molecular da substância, o que indica uma limitação. Transportadores coloidais: também conhecidos como veículos vetoriais, são utilizados visando aumentar a permeação transdérmica, além de melhorar a solubilização das substâncias utilizadas e apresentarem melhor interação com a pele. 4.2 Métodos ativos Os métodos ativos consistem em técnicas e equipamentos que podem induzir a movimentação de íons e moléculas, empurrando essas substâncias para dentro da pele ou mesmo técnicas que diminuem a espessura cutânea ou abrem canais de permeabilidade. O Quadro 2 apresenta esses diversos métodos. 40 Quadro 2 – Agentes de força motriz Método ativo Princípio Mecanismo Estratégia Vantagem Desvantagem Iontoforese por eletrorrepul- são. Aplicação de uma cor- rente elétri- ca de baixa intensidade. Repulsão de moléculas do fár- maco, carregadas por um eletrodo demesma polari- dade, que a força a entrar na pele. Difusão de moléculas carregadas eletricamen- te. Velocidade de liberação do fár- maco é depen- dente da corren- te aplicada, ou seja, a liberação pode ser contro- lada. Valor máximo da corrente aplicada, limi- tada pela irri- tação e dor. Iontoforese por eletroosmose. Aplicação de uma cor- rente elétri- ca de baixa intensidade. Origina um fluxo de solvente do ânodo para o cá- todo. Difusão de moléculas neutras. Velocidade de liberação do fár- maco é depen- dente da corren- te aplicada, ou seja, a liberação pode ser contro- lada. Valor máximo da corrente aplicada, limi- tada pela irri- tação e dor. Eletroporação. Aplicação de uma corren- te elétrica em pulsos de duração reduzida. Aumentar a per- meabilidade da pele, através da abertura de po- ros aquosos de forma reversível. Aumento da difusão ou eletroforese, dependendo das proprie- dades da mo- lécula. Combinada com outras técnicas, tem provado au- mentar sua eficá- cia e segurança. Depende de uma definição das proprie- dades físico- -químicas da molécula para correta admi- nistração da corrente elé- trica. Sonoforese (ou fonoforese). Energia de ultrassons aplicadas à pele. Promove aumen- to da permeabi- lidade da pele e seu aquecimen- to, provocando aumento na flui- dez dos lipídeos. Provoca cavitação, formando bolhas de gás que crescem e, depois, estouram, provocando pequenas cavidades na camada cór- nea. Potencial de apli- cação de vacinas, hormônios e anestésicos. 41 Microagulhas. Agulhas de dimen- sões muito reduzidas, suficien- temente longas para penetrar as camadas superiores da epider- me, mas curtas para alcançar os terminais nervosos da pele. Criação de micro- canais para ultra- passar a camada córnea. Microagu- lhas sólidas (fármaco reveste a agulha) ou microagulhas perfuradas (interior va- zio, auxilian- do a difusão da formula- ção). Não induz a dor ou sangramento. Não há risco de micro-organis- mos atravessa- rem a epiderme viável. Somente as microagulhas têm que ser este- rilizadas. Injeção sem auxílio de agu- lhas. Administra- ção de partí- culas sólidas e líquidas a alta veloci- dade. Princípio ativo disparado a altas velocidades, atra- vés da camada córnea. Melhor adesão terapêutica por parte dos pacien- tes, pois é menos dolorosa. Microder- moabrasão. Utilização de cristais abrasivos na superfície da camada córnea. Microcristais atingem a su- perfície cutânea, levando ao dano mecânico (esfo- liação). Usado para fins cosméti- cos, aumenta a permeabili- dade da pele. Aspecto da pele, geralmente, é melhorado com a renovação da camada córnea. Ablação térmi- ca. Aplicação de altas tempe- raturas na pele, pela utilização de energia térmica, du- rante curtos intervalos de tempo. Formação de microcanais na camada córnea quando ocorre a rápida vaporiza- ção de água na sua superfície. Moléculas penetram nas camadas inferiores da pele pelos microcanais formados. Devido à alta temperatura ter sido aplica- da (frações de segundo), não propaga o calor para as camadas mais profundas da pele. 42 Ablação por ra- diofrequência. Aplicação de ondas de radio- frequência (100 a 500 Hz), pro- vocando a vibração dos eletrodos na superfície da pele e um con- sequente aquecimen- to localiza- do. Formação de microcanais na camada córnea, quando ocorre a rápida vaporiza- ção de água na sua superfície. Moléculas penetram nas camadas inferiores da pele pelos microcanais formados. Devido à alta temperatura ter sido aplica- da (frações de segundo), não propaga o calor para as camadas mais profundas da pele. Microporação por laser. Aplicação de laser so- bre a pele. Formação de microcanais na camada córnea, quando ocorre a rápida vaporiza- ção de água na sua superfície. Moléculas penetram nas camadas inferiores da pele pelos microcanais formados. Devido à alta temperatura ter sido aplica- da (frações de segundo), não propaga o calor para as camadas mais profundas da pele. Possibilidade de hiperpig- mentação na zona de aplica- ção e elevados custos. Fonte: adaptado de Soares et al. (2015, p. 6 -8). Uma vez que o uso do cosmético é frequente pelo profissional de estética, compreender os artifícios utilizados para melhorar sua permeação é fundamental, especialmente por meio dos métodos ativos, com o uso de equipamentos e técnicas que permitem driblar a função barreira da pele, proporcionando resultados mais eficazes nos diversos procedimentos estéticos. Referências DELTREGGIA, D. C. et al. A nanotecnologia como estratégia para permeação cutânea de fármacos. Revista Saúde em foco, n.11, p. 812-824. Indaiatuba: Centro Universitário Max Planck, 2019. Disponível em: https://portal.unisepe. 43 com.br/unifia/wp-content/uploads/sites/10001/2019/09/074_A-Nanotecnologia- como-estrat%C3%A9gica-para-permea%C3%A7%C3%A3o-cut%C3%A2nea-de- f%C3%A1rmacos.pdf. Acesso em: 23 jun. 2022. MATOS. S.P. Cosmetologia aplicada. São Paulo: Érica, 2014. SOARES, M. et al. Permeação cutânea: desafios e oportunidades. Revista de ciências farmacêuticas básica aplicada, v. 36, n. 3, p. 337-348. Araraquara: UNESP, 2015. Disponível em: https://rcfba.fcfar.unesp.br/index.php/ojs/article/ download/21/20. Acesso em: 23 jun. 2022. 44 Nomenclaturas e toxicologia cosmética Autoria: Mariana Prado Bravo Leitura crítica: Claudia Stoeglehner Sahd Objetivos • Conhecer as diversas nomenclaturas cosméticas e suas diferenças. • Compreender os impactos da toxicologia cosmética. • Conhecer os cosméticos naturais, orgânicos e fitoterápicos. 45 1. Nomenclaturas cosméticas e diferentes meios de atuação A indústria cosmética é um mercado promissor, que, constantemente, apresenta crescimento. Junto a isso, as inovações e renovações dos produtos vem sendo necessárias graças ao público que, com a facilidade no acesso à informação, está cada vez mais exigente e requerendo produtos mais direcionados e eficazes. Ao longo dos anos, algumas nomenclaturas e designações foram surgindo, dando origem a produtos com funções mais direcionadas, como é o caso dos cosmecêuticos, nutracêuticos e nutricosméticos, e, por isso, compreender essas nomenclaturas e suas especificações é de suma importância ao profissional que tem relação direta com tais produtos. É importante ressaltar que a Agência Nacional de Vigilânia Sanitária (ANVISA), até o presente momento, não normatizou essas nomenclaturas e, por isso, ainda existe pouco estudo na esfera jurídica sobre essa temática, visto que tais produtos estão cada vez mais próximos dos medicamentos em termos funcionais, entretanto, esses produtos são comercializados como cosméticos e o profissional de estética precisa conhecê-los. Os cosmecêuticos, que também podem ser chamados de dermocosméticos, são produtos que surgem a partir da interseção das indústrias cosmetológicas e medicamentosas. Esse termo foi utilizado pela primeira vez por um dermatologista norte-americano, chamado Albert Kligman, para definir as substâncias que se encontram na faixa intermediária entre os medicamentos e os cosméticos, ou seja, esses produtos contêm, em sua formulação, princípios bioativos capazes de interagir de alguma forma com o organismo, participando ou alterando reações biológicas com propriedades terapêuticas, podendo alcançar regiões que vão além da epiderme. É possível afirmar que quando 46 comparado aos cosméticos, esses produtos conseguem maior interação com o organismo, mas quando comparado aos medicamentos, essas substâncias são utilizadas em menores concentrações. Os cosmecêuticos são produtos de uso tópico, que podem atuar nas diversas disfunções estéticas faciais e corporais, graças aos seus ativos biológicos, e muitos desses produtos já podem fazer parte de sua rotina semmesmo que você saiba, como é o caso dos cremes para tratamento específico, como para fibroedema gelóide, ou mesmo para acne, hipercromias e tantos outros. Os nutracêuticos e os nutricosméticos são produtos que podem ser facilmente confundidos, já que ambos são para administração oral, podendo ser apresentados em forma de pílulas, comprimidos ou líquidos, tratando o organismo de dentro para fora. A principal diferença entre eles é que os nutricosméticos são destinados a questões estéticas, enquanto os nutracêuticos abrangem aspectos gerais de saúde. Os nutricosméticos, também chamados de aliméticos, são compostos suplementares que possuem componentes para tratamento específico da pele, cabelos e unhas, são as chamadas pílulas da beleza e visam atuar no organismo complementando os tratamentos tópicos. Essa categoria de produtos tem sido cada vez mais aceita pelo público em geral e por mais que pareça um conceito novo, o primeiro nutricosmético foi desenvolvido por uma médica e nutricionista, chamada Marie Béjot, em 1985. A medicina integrativa tem apresentado conceitos interessantes no que tange aos nutrientes e componentes perdidos ao longo do processo de envelhecimento e, por essa razão, o conceito de nutrir a pele de dentro para fora está fazendo cada vez mais sentido. Diversas propostas são realizadas nas formulações de nutricosméticos, que vão desde o combate aos radicais livres, prevenindo o processo de envelhecimento, até a combinação de determinados nutrientes que visam influenciar na integridade da beleza. Esse mercado parte da interseção da indústria alimentícia e cosmética. 47 Os nutracêuticos são compostos considerados suplementos alimentares, que contém bioativos provenientes dos alimentos, proporcionando melhora no organismo como um todo e não somente com foco estético, como é o caso dos nutricosméticos. Essa classificação de produtos se enquadra no conceito de que o alimento pode curar o organismo, são os alimentos funcionais que nutrem e previnem o risco de doenças. Substâncias que se enquadram nessa categoria são os fitoesterois, probióticos, licopeno, resveratrol, ômega 3, catequina, colágeno, aminoácidos, entre tantas outras substâncias. A Figura 1 apresenta essas nomenclaturas e a interseção das indústrias cosmética, alimentícia e medicamentosa, dando origem a esses novos termos. Figura 1 – Interseção de indústrias Fonte: Nunes. (2016, p. 54). Essas novas categorias de produtos agregam ainda mais benefícios ao corpo e aos tratamentos de beleza, que podem ser conjugados. 48 2. Cosméticos naturais, orgânicos e fitocosméticos Os consumidores têm se mostrado cada dia mais preocupados e exigentes com aquilo que consomem. O mercado cosmético brasileiro é promissor e existem diversos nichos que podem ser explorados dentro desse ramo tão abrangente. Esse setor tem notado que uma parcela da população está disposta a adquirir produtos com características específicas e produtos mais exclusivos para a faixa etária, sexo, etnia e assim por diante. Pensando nisso, os cosméticos naturais, orgânicos e fitocosméticos têm encontrado uma boa parcelada da população que pretende cuidar de si mesmo sem abandonar seus valores, tendo preferência por substâncias mais naturais, não tóxicas e que não agridem o meio ambiente, por isso, conheceremos um pouco mais sobre esses produtos. A classificação de cosméticos naturais diz que essas formulações, obrigatoriamente, devem conter pelo menos 5% de matéria-prima orgânica certificada, ou seja, 100% naturais, enquanto os demais componentes da formulação não precisam apresentar essa mesma certificação. Esses produtos precisam conter detalhes específicos de rotulagem, destacando quais são os ingredientes certificados. Além disso, também pode apresentar o selo IBD Ingredientes Naturais, que representa uma certificação internacional de produtos naturais, conforme apresentado na Figura 2. Figura 2 – Selos de produtos naturais Fonte: IBD (2019, p. 13). 49 O Brasil é considerado um dos maiores produtores de orgânicos do mundo e os cosméticos, que se enquadram nessa classificação, são aqueles que devem conter pelo menos 70% de matérias-primas orgânicas certificadas. Esses produtos apresentam alto grau de afinidade com a pele, sendo menos irritativos, com menor probabilidade de alergias, além de apresentarem menores efeitos tóxicos. Sabendo desses benefícios, consumidores têm procurado cada vez mais esses produtos. Assim como nos produtos naturais, as matérias-primas certificadas devem ser destacadas no rótulo e podem conter os selos abaixo, conforme indicado na Figura 3, de acordo com o Sistema de Avaliação, podendo ser brasileiro (SISOrg) ou de acordo com os critérios NATRUE, produtos voltados para a exportação. Vale destacar que conseguir essas certificações demanda das empresas grande empenho e, por isso, esse não é um atributo apenas de marketing, as companhias que lutam por isso estão realmente engajadas com a sustentabilidade. Figura 3 – Selos de produtos orgânicos Fonte: IBD (2019, p. 13). Além dessas classificações, como parte dos fitocosméticos, encontram- se os produtos veganos, que são aqueles que não possuem matérias- primas provenientes dos animais. Além disso, também condenam os testes em animais e, por isso, utilizam o termo cruelty-free. A Figura 4 destaca a característica de cada um desses produtos. 50 Figura 4 – Classificação dos produtos naturais, orgânicos e veganos Fonte: https://www.espacoeco.org.br/qual-e-a-diferenca-entre-cosmeticos-organicos- veganos-e-naturais/. Acesso em: 23 jun. 2022. Esses consumidores ecológicos são extremamente criteriosos na composição do produto, na qualidade das matérias-primas, além de todo o processo de produção e sustentabilidade, e, por isso, é importante destacar alguns ingredientes que são evitados em tais formulações listadas abaixo. Parabenos: os parabenos são usados em cosméticos devido sua ação conservante, são substâncias de baixo custo e estáveis, as matérias- primas mais comuns com essa finalidade são o metilparabeno, propilparabeno fenoxietanol e álcool benzílico. O grande problema no uso dos parabenos é que são irritativos para a pele, podendo levar ao aparecimento de sensibilizações e processos alérgicos além de mais alguns estudos terem demonstrado que os parabenos podem ter efeito cumulativo no organismo e acarretar problemas de saúde no sistema reprodutivo, imunológico, neurológico, e até causar o câncer de mama. https://www.espacoeco.org.br/qual-e-a-diferenca-entre-cosmeticos-organicos-veganos-e-naturais/ https://www.espacoeco.org.br/qual-e-a-diferenca-entre-cosmeticos-organicos-veganos-e-naturais/ 51 Petrolatos: são substâncias derivadas do petróleo, como a parafina, óleo mineral e a vaselina. Essas matérias-primas são usadas como emolientes e hidratantes nas formulações cosméticas, já que formam uma película sobre a pele, evitando a perda de água transepidérmica. Essas substâncias, além de aumentarem o risco de doenças, também podem ser contaminadas no processo de refinamento por componentes que podem ser cancerígenos. Sulfatos: os sulfatos ou surfactantes são tensoativos derivados do ácido sulfúrico e são utilizados na formulação para que haja a homogeneização da fórmula, além de atuarem como agentes de limpeza com a propriedade de fazer espuma. Esses produtos também são evitados em algumas formulações porque podem causar irritações da pele, desequilibrar a microbiota cutânea, além de causar impacto negativo no meio ambiente. Organismos geneticamente modificados ou GMO: nessa classificação se enquadram os transgênicos, além de fertilizantes químicos e produtos como agrotóxicos. Os cosméticos que são livres de GMO partem da agricultura orgânica garantindo assim uma substância limpa não prejudicial ao organismo e meio ambiente. Com esse forte apelo aos cosméticos verdes, clean beauty e eco-friendly, algumas outras terminologias e conceitos podem ser encontradosnesses produtos, conforme apresentado na Figura 5, sendo que as mais comuns se referem às embalagens biodegradáveis e sustentáveis, que são priorizadas reduzindo os impactos ambientais, evitando, assim, o descarte irregular das embalagens plásticas e a não realização de testes em animais ou cruelty-free, que, em português, significa livre de crueldade. Esses produtos passam por testes alternativos, evitando que os processos de segurança e eficácia sejam realizados em animais. Vale ressaltar que os produtos que carregam esse termo não envolvem animais em nenhuma de suas etapas de produção. 52 Figura 5 – Terminologias utilizadas nos cosméticos naturais e orgânicos Fonte: Alexey Blogoodf/ iStock.com. 3. Toxicologia cosmética A toxicologia é uma ciência que estuda os diversos efeitos nocivos causados ao organismo humano devido a possibilidade de interações químicas com as substâncias cosméticas. Paracelsus, em 1945, disse que todas as substâncias são venenos; não há nenhuma que não seja venenosa. A dose correta diferencia o veneno do remédio. Essa afirmação indica os princípios da toxicologia. Levando em consideração que o cosmético é composto por diversas substâncias químicas, é preciso entender os aspectos da toxicologia desses produtos. Nos últimos anos, o cosmético tem se tornado indispensável na rotina de cuidados e beleza de grande parte da população e, de maneira geral, esses produtos não são associados por 53 causar danos à saúde, no entanto, é preciso levar em consideração que o uso prolongado também se mantenha seguro e, por essa razão, é indispensável realizar pesquisas e estudos analisando possíveis efeitos indesejados. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) estabelece, na Resolução de Diretoria Colegiada n. 530, de 4 de agosto de 2021, a lista de substâncias proibidas no uso cosmético. Ainda que as matérias- primas dessa lista não sejam utilizadas, é preciso considerar a possível interação entre os demais componentes da formulação, graças a variedade de matérias-primas utilizadas e, ainda que em pequena quantidade, deve ser considerado o risco à saúde. A avaliação da toxicidade visa categorizar, toxicologicamente, as diversas substâncias utilizadas na composição do cosmético, considerando que toda substância pode ser um agente tóxico. Alguns fatores que determinam essas condições são a quantidade administrada e o tempo de exposição. Os diversos estudos que vem surgindo, com foco nesse tema, demonstram que a toxicidade pode ser dividida em aguda e crônica, onde a aguda é resultante de uma reação em um curto período de tempo e a crônica é resultante do uso repetido e diário de alguma substância. Os efeitos da toxicidade podem levar ao aparecimento de sensibilizações dérmicas, efeitos neurotóxicos, efeitos carcinogênicos, teratogênicos e mutagênicos. Os efeitos neurotóxicos são aqueles que levam ao aparecimento de reações indesejadas no sistema nervoso central ou mesmo nos nervos. Os efeitos carcinogênicos induzem a diferenciação celular de maneira descontrolada, provocando o aparecimento de câncer. Os agentes mutagênicos são aqueles que conseguem causar alterações no material genético das células e, com a multiplicação celular, essa mutação será replicada. Já os agentes teratogênicos, atuam da mesma maneira que 54 os mutagênicos, com a diferença que as anormalidades são notadas no desenvolvimento fetal. Além dos aspectos já citados, reações de sensibilizações e irritações também podem ser notados, além da alteração do folículo piloso, levando ao aparecimento de lesões acneicas ou, ainda, o tamponamento do folículo, favorecendo o aparecimento de comedões. Também é possível notar que algumas substâncias podem provocar lesões químicas na região de aplicação. Alguns métodos de avaliação são utilizados a fim de prever os possíveis efeitos adversos, como os ensaios in vitro e in vivo. Os estudos in vitro são procedimentos laboratoriais realizados diretamente nas células, visando a detecção de agentes tóxicos, no entanto, por se tratar de modelos isolados, cientistas afirmam que é impossível obter a mesma eficácia que os testes in vivo realizados diretamente em animais. Os estudos in vivo são aqueles realizados em animais, permitindo, assim, analisar os efeitos negativos que algumas substâncias podem conter em um organismo completo. Nesse ponto, algumas empresas e marcas se deparam com os valores éticos e morais contrários a isso. Os aspectos toxicológicos do cosmético precisam ser observados com atenção, visto que efeitos indesejados podem acontecer com seu uso. É importante preconizar a segurança, antes de tudo, e evitar que o consumidor seja exposto a fatores de risco. Ainda sobre essa temática, novos estudos devem surgir além de diversas novas descobertas. Nesta leitura, você pode conhecer um pouco mais sobre as diversas nomenclaturas cosméticas e como se enquadram cada uma dessas formulações. Levando em consideração o interesse e conhecimento da população como um todo, é provável que as inovações e renovações 55 sejam sempre constantes na busca de atender aos consumidores que estão cada vez mais exigentes. Referências IBD CERTIFICAÇÕES. Diretriz IBD Cosméticos. 6. ed., [s. l.], 2019. Disponível em: https://www.ibd.com.br/wp-content/uploads/2019/10/8_1_2_C_Diretrizes_IBD_ Cosmeticos_17102019_V.pdf. Acesso em: 23 jun. 2022. MATOS. S.P. Cosmetologia aplicada. São Paulo: Érica, 2014. MIRANDA, I. J. et al., Cosméticos orgânicos e naturais: análise do perfil dos profissionais atuantes em estabelecimentos comerciais e da rotulagem. Trabalho de conclusão de curso, Tecnologia em Cosmetologia e Estética). Santa Catarina: UNISUL, 2018. NUNES, M. N. Produtos cosméticos como objetos de fronteira. Tese de Doutorado em Sociologia Política. Santa Catarina: Universidade Federal de Santa Catarina, 2016. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/ handle/123456789/175865. Acesso em: 23 jun. 2022. SOUSA, V. A. et al. Toxicologia dos cosméticos: avaliação dos riscos que os produtos capilares trazem a saúde. Visão Acadêmica, v. 20, n.4. Curitiba, 2019. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/academica/article/download/69989/40447. Acesso em: 23 jun. 2022. https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/175865 https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/175865 56 BONS ESTUDOS! Sumário Apresentação da disciplina Fundamentos da cosmetologia Objetivos 1. Fundamentos da cosmetologia Referências Composição da formulação cosmética Objetivos 1. Formulação cosmética Referências Permeabilidade cosmética 1. Barreira cutânea 2. Vias de permeação 3. Fatores que interferem na permeação de substâncias 4. Facilitadores da permeação Referências Nomenclaturas e toxicologia cosmética Objetivos 1. Nomenclaturas cosméticas e diferentes meios de atuação 2. Cosméticos naturais, orgânicos e fitocosméticos 3. Toxicologia cosmética Referências