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Copyright 1995 by Gius. Laterza & Figli Título original em italiano: Storia della pedagogia. Os capítulos 2 e 3 e os parágrafos 2, 3 e 4 do capítulo 4 da terceira parte (A época moderna) do presente volume foram escritos por Giuseppe Trebisacce. 1999 da tradução brasileira: Fundação Editora da UNESP (FEU) Praça da Sé, 108 01001-900 - São Paulo - SP Tel.: (0xx-11) 3242-7171 Fax: (0xx-11) 3242-7172 www.editoraunesp.com.br feu@editora.unesp.br Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Cambi, Franco História da pedagogia / Franco Cambi; tradução de Álvaro Lorencini. - São Paulo: Fundação Editora da UNESP (FEU), 1999 - (Encyclopaideia) Título original: Storia della pedagogia Bibliografia. ISBN 85-7139-260-9 1. Educação - - 2. - 3. Pedagogia - História. I. Título. II. Série. 99-3733 CDD-370.9 Índices para catálogo sistemático 1. Educação: História 370.9 2. Pedagogia: História 3709 BIBLIOTECA CENTRAL UNIPLAC Tipo de Aquisição COMPRA Adquirido de Data A quisição 12/12/19 Preço Editora afiliada: Data Registro 12/12/19 Asociación de Editoriales Universitarias Associação Brasileira de de America Latina Caribe Editoras UniversitáriasINTRODUÇÃO 1 DA HISTÓRIA DA PEDAGOGIA À HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Ao longo dos últimos 25 anos operou-se uma profunda transforma- ção metodológica na pesquisa histórico-educativa, levando a uma radical mudança de orientação: da "história da pedagogia" passou-se à "história da educação". Como e por que ocorreu tal mudança? Para responder a essa pergunta é necessário fazer outra, preliminar a ela: o que era a história da pedagogia cujo foi decretado pelos últimos decênios? Como e por quem era exercida? E para quem? A história da pedagogia no sentido próprio nasceu entre os séculos XVIII e XIX e desenvolveu-se no decorrer deste último como pesquisa elaborada por pessoas ligadas à escola, empenhadas na organização de uma instituição cada vez mais central na sociedade moderna (para for- mar técnicos e para formar cidadãos), preocupadas, portanto, em su- blinhar os aspectos mais atuais da educação-instrução e as ideias mestras que haviam guiado seu desenvolvimento histórico. A história da peda- gogia nascia como uma história ideologicamente orientada, que valori- zava a continuidade dos princípios e dos ideais, convergia sobre a con-22 FRANCO CAMBI HISTÓRIA DA PEDAGOGIA 23 temporaneidade e construía próprio passado de modo orgânico e cidia necessariamente com a da filosofia. E, na escola gentiliana, alunos e linear, pondo particular acento sobre os ideais e a teoria, representada colaboradores de Gentile vieram desenvolvendo histórias da pedagogia em sobretudo pela filosofia. Tratava-se de uma história persuasiva, por um total simbiose com a filosofia, oferecendo uma imagem bastante redutiva lado, e teoreticista, por outro, sempre muito distante dos processos edu- desse saber, com uma escansão temporal totalmente abstrata e artificial, cativos reais, referentes às diversas sociedades, diferenciados por clas- marcada apenas pela sucessão das ideias. Essa maneira de fazer história da ses sociais, sexo e idade; distante das instituições em que se desenvol- pedagogia permaneceu durante muito tempo como "via áurea" dos estudos viam (a família, a escola, a oficina artesanal e, em seguida, a fábrica, mas histórico-pedagógicos, confirmada até mesmo fora da tradição idealista, também seminário ou exército etc.); distante das práticas de educa- como ocorre no espiritualismo (com Stefanini, por exemplo) e no próprio ção ou de instrução, das contribuições das ciências, sobretudo humanas, neocriticismo (pense-se em Banfi e no seu Sommario de 1931). para conhecimento dos processos formativos (em primeiro lugar, psi- Já desde o segundo pós-guerra, porém, difundiam-se novas orien- cologia e sociologia). Tal história devia difundir entre os docentes que tações historiográficas, também no campo pedagógico, e, ao mesmo tem- não eram seus destinatários uma ideia de educação desenvolvida em po, entravam em crise alguns pressupostos daquele modo tradicional torno dos próprios princípios ideais (mais que das práticas) e, através de fazer história da pedagogia. Iniciava-se assim um longo processo que destes, das ideologias que os inspiravam. De tal modo que havia histórias levou à substituição da história da pedagogia pela mais rica, complexa e da pedagogia com forte influência filosófica, marcadas segundo as diversas articulada história da educação, que só em anos recentes aparece defini- orientações da filosofia (ou positivista ou idealista ou espiritualista) e ca- tivamente constituída como modelo-guia da pesquisa histórica em educação pazes de veicular para os docentes um princípio ideal, que se apresentava e pedagogia. ainda como convalidado pela própria história universal (ou epocal: antiga, Primeiramente, a pedagogia perdia a sua exclusiva (ou quase) conota- medieval ou moderna) da pedagogia. ção filosófica e revelava-se constituída pelo encontro de diversas ciências É bem verdade que, especialmente nos estudos mais setoriais, mais e, portanto, como um saber interdisciplinar que entrelaçava a sua história particulares, esta ótica está sendo, de certo modo, reposta em discussão, com a de outros saberes, sobretudo as diversas ciências humanas de que dando espaço também a aspectos mais concretos, mais praxistas, mais é tributária e síntese. Depois, a pedagogia também se prestava a um pa- contingentes da pedagogia, deixando transparecer, além da história das pel cada vez mais central na vida social: formar indivíduo socializado e ideias pedagógicas, também as vivas problemáticas da educação nas diver- operar essa formação através de múltiplas vias institucionais e múltiplas sas sociedades. Entretanto, trabalho histórico-pedagógico predominante, técnicas (voltadas ora para corpo, ora para imaginário, ora para o em quase toda a Europa e nos EUA (como provam algumas obras publicadas intelecto, ora para manual), disseminadas no corpo social. E ainda: entre a segunda metade do século XIX e a Segunda Guerra Mundial em fazer história em qualquer âmbito caracterizava-se sobretudo como a vários países, desde a obra de Compayré na França até a de Leser ou, ainda, construção de uma história total, capaz de colher os diversos aspectos da de Jaeger na Alemanha, até a de Cubberley e de Dexter nos EUA), perma- vida social e dos vários momentos históricos, fazendo a história das ideias necia ancorado num estudo das ideias e sua sucessão histórica delineada perder toda exclusividade e predomínio também no âmbito da história apenas pelas filosofias. da cultura. As ideias são apenas um momento da história da cultura, que Na Itália, porém, essa atitude teorético-filosófica sobre a pesquisa implica também a presença de práticas, de instituições, de ideologias ou histórico-pedagógica atingiu a sua realização mais coerente e mais extrema de crenças. Assim, a metodologia histórica sofre por sua vez uma trans- com idealismo de Gentile, nos primeiros anos do século XIX. Se, como formação radical: articula-se segundo muitos âmbitos de pesquisa, aco- afirmava Gentile, a pedagogia é a teoria da autoafirmação do espírito, ela lhe uma multiplicidade de fontes, organiza-se em setores especializados, devia dissolver-se e sem resíduo na filosofia; ou seja, sua história coin- e cada vez mais especializados, de modo a dar vida a subsetores de pes-24 FRANCO CAMBI HISTÓRIA DA PEDAGOGIA 25 quisa doravante reconhecidos e reconhecíveis pela autonomia de objetos história e desenvolver sua pesquisa científica, conduzida segundo princípios e métodos que os marca, bem como pela tradição de pesquisa que os metodológicos profundamente renovados. Pelo menos quatro orientações: une. Assim, aparecem cada vez com maior clareza na pesquisa histórico- 1. O marxismo; 2. a pesquisa dos Annales e a história total; 3. a contribuição -educativa a história das teorias e a das instituições escolares e formativas, da psicanálise para a pesquisa histórica; 4. estruturalismo e as pesquisas a história da didática ou do costume educativo, da infância e das mulheres quantitativas. ou do imaginário (adulto, juvenil ou infantil). O marxismo trouxe à luz no que diz respeito aos eventos históricos Desde os anos 50, e cada vez mais nitidamente desde os anos 60 e 70, e às suas matrizes supraestruturais (sobretudo políticas) papel da desenvolveu-se assim um modo radicalmente novo de fazer história de estrutura econômico-social e incitou a estudar as complexas mediações eventos pedagógico-educativos, que rompeu com modelo teoreticista, que ligam economia e política, política e cultura, cultura e sociedade. As unitário e "continuísta" do passado, fortemente ideológico, para dar vida investigações de Gramsci neste campo foram exemplares e influencia- a uma pesquisa mais problemática e pluralista, bastante articulada e dife- ram profundamente a pesquisa histórica, e não apenas na Itália. Para renciada que considerada no seu conjunto pode ser definida como os pesquisadores marxistas, a história aparece como luta de classes e história da educação, tomando a noção de educação seja como conjunto de ideologias, que se articulam em torno de sistemas de produção e que de práticas sociais seja como feixe de saberes. Desde a metade dos anos visam à hegemonia histórica, influenciando cada âmbito da vida social, 70, a passagem da história da pedagogia para uma mais rica e orgânica da família ao Estado e à cultura. A pesquisa histórica torna-se investi- história da educação tornou-se explícita, insistente e consciente, afir- gação complexa, atenta às genealogias profundas dos vários fenômenos mando-se como uma virada decidida e decisiva. E não se tratou de uma (sobretudo econômico-sociais), jogada através do entrelaçamento de muitos simples mudança de rótulo; pelo contrário: tratou-se de uma verdadeira saberes e pronta a colher conflitos e contradições, hegemonias e oposi- e legítima revolução historiográfica que redesenhou todo domínio his- ções. Também a escola dos Annales (uma revista nascida na França em tórico da educação e todo arsenal da sua pesquisa. Esquematizando, 1929 e que teve um papel fundamental na renovação da pesquisa histó- podemos dizer: passou-se de um modo fechado de fazer história em edu- rica, além de uma notoriedade realmente mundial) se inspirou no mar- cação e pedagogia para um modo aberto, consciente da riqueza/complexi- xismo, trazendo à luz as permanências ou estruturas referentes aos "acon- dade do seu campo de pesquisa e da variedade/articulação de métodos tecimentos", mas enriqueceu e matizou sua lição ao introduzir estudo e instrumentos que devem ser usados para desenvolver de modo ade- de estruturas (ou infraestruturas) não só econômicas, como a mentali- quado próprio trabalho. dade, tendo em vista uma história por inteiro, que leve em conta todos os Por outro lado, a transformação amadureceu em estreita simbiose fatores e aspectos de um momento ou de um evento histórico. Os Annales com toda uma mudança historiográfica, que no curso de alguns decênios sublinharam, assim, pluralismo da pesquisa histórica e jogo complexo produziu uma nova imagem do "fazer história", nascida em torno daque- das muitas perspectivas que acabam por constituí-la, relacionando-a com las que podem ser definidas como as três revoluções historiográficas do as diversas ciências sociais. pós-guerra. Quanto à psicanálise, foi sobretudo a área americana que, através da "psico-história", afirmou sua aplicação à pesquisa histórica. A psico-história é estudo das mentalidades coletivas e individuais, legíveis, porém, de 2 TRÊS REVOLUÇÕES EM HISTORIOGRAFIA modo crítico, inspirando-se apenas nos mecanismos que identificam pensamento freudiano (inconsciente, repressão, conflito do eu etc.). Neste Foi através da ação conjunta de muitas orientações historiográficas âmbito, dirigiu-se a atenção em particular sobre a família, na sua dimensão que se chegou a determinar a transformação no modo de entender a espiritual e no seu papel de conexão nas diversas sociedades. As inves-26 FRANCO CAMBI HISTÓRIA DA PEDAGOGIA 27 tigações de Erikson sobre jovem Lutero ou de De Mause sobre a his- histórico e ler sua estrutura e seu devenir, mas se realiza em torno de múl- tória da infância ou ainda de Loewenburg sobre nazismo são exemplares tiplas metodologias, diferenciadas por objetos, por processos cognitivos, desta orientação de pesquisa e manifestam recurso ao estudo dos me- por instrumentos lógicos, de modo a fazer ressaltar pluralismo das canismos de formação, seja para indivíduo seja para os grupos, individua- abordagens e sua especificidade. Doravante, estamos longe da prática lizando um âmbito em que sociedade e mentalidade acabam por interagir do historicismo à maneira de Croce e de Gramsci, que se desenvolvia em intimamente. torno de um modelo; ao contrário, reconhecemo-nos num tipo de traba- Enfim, estruturalismo (pense-se em Foucault) e a história quantita- lho histórico que se desenvolve em muitas histórias e segundo muitos mé- tiva (utilizada amplamente por Le Roy Ladurie) puseram acento sobre todos, desde a "história estrutural", econômica, social, "das mentalidades", aquilo que é impessoal na história, sobre as estruturas que regulam os até a dos eventos, a local, a oral-vivida, a psico-história, a etno-história, a comportamentos individuais em profundidade (sejam instituições ou história do cotidiano etc.: são todos âmbitos diferentes de pesquisa que mentalidades) e as leram como variáveis quantitativas, sujeitas a análises reclamam métodos ad hoc e uma reflexão metodológica que exalte suas sociais, a reconstruções estatísticas. A história da sexualidade de Foucault autonomias e sua variedade, além das e convergências na ou a história do tempo de Ladurie, apesar das profundíssimas diferenças, "história total". A historiografia atual perdeu, portanto, a certeza do mé- têm alguns pontos em comum, como recurso às permanências e à sua todo, assumindo a dos métodos e dando vida a uma intensa dialética função genética no âmbito da produção dos fenômenos históricos. E são metodológica, a que se remetem os historiadores mais atentos dos últimos permanências objetivas, quer pertençam à história da cultura ou à his- decênios, de Braudel a Ariès, de Stone a Le Goff, de Duby a Vilar, de tória social, profundamente ligadas à natureza ou àquilo que aparece como Veyne a Koselleck. A história se fez pluralista e implicou uma transfor- tal aos olhos dos homens. mação dos métodos que pusesse em relevo seu complexo jogo recíproco, No cruzamento dessas diversas posições (além de outras: como a etno- feito de autonomia e de integração, e sua gestão reflexiva (metametodo- -história, por exemplo) realizaram-se as três revoluções cruciais da his- lógica: reflexão em torno dos métodos, do seu estatato, da sua função, da toriografia contemporânea. A primeira referiu-se aos métodos e afir- sua riqueza e variedade). mou sua liberalização e seu radical pluralismo. A segunda tratou do tem- po, dando vida a uma visão pluralista e dialética do tempo histórico. A terceira voltou-se para os documentos, ampliando esta noção, articulan- A REVOLUÇÃO DO TEMPO do-a e desenvolvendo uma nova percepção das fontes e uma nova orga- nização dos arquivos. Dessas três revoluções, amadureceu uma imagem Foi particularmente Braudel quem pôs às claras este processo de re- crítica da história, que trouxe à luz pluralismo das abordagens e a com- visão da temporalidade histórica, mostrando como tempo histórico é plexidade de sua fisionomia, assim como a dialética do tipo de pesquisa diferente daquele, artificial, dos relógios ou do tempo, vivido, das práxis que vem investigá-la. cotidianas. Diferente, antes de mais nada, porque plural, poliestruturado, problemático e jamais Diferente, depois, porque liga- do ao ponto de vista, à intencionalidade que guia seu uso e sua estru- A REVOLUÇÃO DOS MÉTODOS turação. Três, diz Braudel, são os tempos da história (e do histórico): dos acontecimentos (ou eventos), próximo do vivido e do cronológico; Foi uma revolução profunda e radical que trouxe à luz sobretudo seu um tempo fracionado e ligado ao caleidoscópio daquilo que acontece, pluralismo. O "fazer história" não está ligado a um processo único (do variegado e meio no limite medido pelo instante, que é o tempo da tipo narrativo-explicativo) capaz de enfrentar todo tipo de fenômeno história-narração; depois, da curta duração (ou conjunturas, instituições28 FRANCO CAMBI HISTÓRIA DA PEDAGOGIA 29 etc.) ou das permanências relativas, ligado a estruturas políticas, sociais estruturas da história, fazendo-nos ainda, e melhor dos eventos às ou culturais, que está por debaixo dos acontecimentos e os coordena e estruturas, às temporalidades profundas da história. sustenta; nesse tempo, agem os Estados, as culturas, as sociedades e ele As três revoluções redesenharam radicalmente a nossa consciência próprio pertence à história-explicação, à história-ciência; por fim, da historiográfica, como testemunham as obras metodológicas dos grandes longa (ou longuíssima) duração, geográfico, econômico e antropológico, historiadores contemporâneos, desde os dos Annales e os ligados a Past and que colhe as permanências profundas, as estruturas quase invariantes e Present (uma célebre revista histórica inglesa, atenta à etnografia e à história se ativa na história-interpretação ou social), até os teóricos mais sensíveis à exigência de uma renovação histo- São três temporalidades necessárias para compreender a história, mas que riográfica também em educação, como Léon, como Vial ou Laslett, como não se confundem, alternando-se e encaixando-se uma na outra, com suas os italianos Fornaca ou Cives, Ravaglioli ou Bellerate. diferenças e suas 3 AS MUITAS HISTÓRIAS EDUCATIVAS A REVOLUÇÃO DOS DOCUMENTOS A história da educação é, hoje, um repositório de muitas histórias, Foi muito recentemente que a noção de "documento" sofreu uma dialeticamente interligadas e interagentes, reunidas pelo objeto complexo renovação radical, ampliando-se para classes inéditas e pondo do- "educação", embora colocado sob óticas diversas e diferenciadas na sua cumento não mais como monumento, mas como efeito da interpretação. fenomenologia. Não só: também os métodos (as óticas, por assim dizer) Escreveu Le Goff: "A revolução documental tende também a promover têm características preliminarmente diferenciadas, de maneira a dar a cada uma nova unidade de informação: em lugar do fato que conduz ao acon- âmbito de investigação a sua autonomia/especificidade, a reconhecê-lo como tecimento e a uma história linear, a uma memória progressiva, ela privi- um "território" da investigação histórica. legia O dado, que leva à série e a uma história descontínua. Tornam-se Se tivéssemos que caracterizar (de maneira aproximada) as diversas necessários novos arquivos em que primeiro lugar é ocupado pelo corpus, histórias (e seus objetos, seus métodos), poderíamos indicar como âm- a fita magnética. A memória coletiva se valoriza, se organiza em patrimô- bitos dotados de autonomia, de setorialidade e de tradição de pesquisa, nio cultural. O novo documento é armazenado e manejado nos bancos de das teorias, das instituições, das políticas, depois âmbito (mais amplo dados" (Storia e memoria, 1982, p.449). Esse é um primeiro aspecto. De- e difuso) da história social (entendida como história do costume e de al- pois, há o pluralismo tipológico dos documentos, que leva a uma gumas figuras sociais, como história das culturas e das mentalidades) e liberalização máxima e a um uso dialético dos vários tipos de documento. por fim âmbito do imaginário (na educação e pela educação), talvez ainda Há a abertura dos arquivos para documentos marginais (até ontem) ou frágil no seu desenvolvimento, mas em via de afirmação. ignorados, para documentos novos ou mais bem usados (como ocorre No âmbito das teorias são, sobretudo, as filosofias, as visões do mun- com os do imaginário) e há a prática da interpretação como produtora do e as ciências que orientam a pesquisa. Trata-se, como fazia a história de ulteriores documentos novos no momento em que se desenvolve da pedagogia elaborada pela pesquisa tradicional, de sondar as con- enriquecimento documental (pense-se na história oral). Em suma: assis- tribuições que a reflexão filosófica, em particular (dada a longuíssima timos, há alguns decênios, ao fim do documento entendido como classe simbiose que ligou filosofia e pedagogia), trouxe à elaboração pedagó- de documentos oficiais e relacionados com a historiografia tradicional, gica, a estreita colaboração que ocorreu entre os dois saberes, a função para dar espaço a novas séries documentais, mesmo incompletas, mesmo crítica e projetiva exercida pelas filosofias da educação, através da cons- já interpretadas, mas que dilatam nosso conhecimento dos eventos e das trução de modelos e a indicação de ideais. Assim, por meio de uma co-30 FRANCO CAMBI HISTÓRIA DA PEDAGOGIA 31 nexão de autores e de textos, de elaborações ligadas às correntes, de e a da "vida interna" da escola, com suas regras, seus rituais, seus deli- filiações de ideias e de modelos delineou-se uma história do pensamento neamentos ligados à iniciação à vida social) e que, portanto, acabam por pedagógico que em evidência, porém, seu vértice, aspecto mais constituir um mapa complexo de campos de pesquisa, articulados em alto e mais luminoso, o da construção racional e orgânica, reflexa e coe- torno de metodologias bastante diversas (ora quantitativas e seriais, ora rente. Ao lado desta vertente filosófica, vieram dispor-se, como formas narrativas e qualitativas, até limite do vivido próprio da história oral e de teorização pedagógica, as ideologias (religiosas, políticas, culturais) e de outras técnicas de investigação, como a memorialística, as epistolares as ciências, que se juntaram às filosofias para redesenhar e enriquecer/ etc.), e a serem usadas de maneira entrelaçada para restituir aos âmbitos matizar terreno da teorização pedagógica na história. Na Idade Mo- institucionais seja a sua relevância sociológica, seja a sua determinação derna, sobretudo, tanto as ideologias quanto as ciências delinearam-se histórica e vivida. cada vez mais como fatores centrais da elaboração teórica das pedago- Um âmbito também específico e fundamental é das políticas educa- gias, dada a sua de um lado, com classes e grupos sociais, tivas, escolares, formativo-profissionais que se coloca em estreita simbiose com grupos de governo, com sistemas de controle do social; de outro, com a história dos Estados e dos movimentos políticos, das estruturas com processos cognitivos voltados para domínio do real e a descoberta administrativas das várias sociedades etc. Os objetos de investigação são, de seus fundamentos em qualquer âmbito, incluindo dos comporta- neste caso, os projetos coletivos de conformação ou de alfabetização, mentos humanos. Neste processo de enriquecimento das teorias peda- ou outro, que correspondem a um plano preciso e tendem a provocar gógicas como objeto de pesquisa histórica, os métodos também vêm se efeitos desejados no comportamento social, a tornar mais compacta e desenvolvendo: da análise conceitual da filosofia, do seu teoreticismo homogênea a vida social. Sobretudo na modernidade, as políticas edu- (especialmente no ponto em que era reduzida a um puro sistema de cativas se tornaram mais explícitas, já que mais dinâmicas, menos con- ideias), passou-se a uma análise mais contextual das teorias, relacionan- fundidas com a transmissão inconsciente da cultura, mais intencionais e do-as com social e político, recolocando-a no terreno da história de programáticas. Não só, mas também produzidas por múltiplos agentes: uma sociedade. investigações lógico-sistemáticas sucederam-se aná- pelo Estado e pela Igreja, também por partidos, por grupos sociais, cul- lises genealógicas e estruturais, capazes de fixar a profunda intersecção turais e profissionais etc. Deste pluralismo de projetos toma corpo um ou simetria entre atividade social e pensamento, entre teoria e sociedade. processo complexo, caracterizado por exclusões e interferências, mas que Um setor extremamente autônomo e organicamente desenvolvido é estrutura em profundidade os processos de socialização e de formação referente às instituições educativas, com a escola em primeiro lugar, dos indivíduos. mas que abrange também a família, "botequim" e depois a fábrica, as Quanto à história social, nos seus múltiplos aspectos como história associações e organizações dedicadas ao tempo livre (dos oradores aos das mulheres, história da infância, história do costume educativo etc. -, é grupos esportivos, especialmente na sociedade contemporânea, mas, para um setor de desenvolvimento recente, mas que se vai tornando cada vez primeiro aspecto, já na medieval). Trata-se de instituições às quais é mais central, ao se ligar à etno-história e à psico-história, mostrando a confiado um papel formativo preciso nos diversos tipos de sociedade e formação de mentalidades educativas, de valores pedagógicos, de prá- que devem ser pesquisadas com instrumentos quer sociológicos, quer ticas formativas que agem como modelos inconscientes (ou quase) no históricos tout court, quer, ainda, teóricos, que esclareçam a função articulada âmbito de uma sociedade, mas são sempre produtos históricos, efei- que elas têm nas sociedades, através de processos de análises ora con- tos de um processo sociocultural diacronicamente definido e definível. textualizantes, ora fortemente disciplinares. Estamos diante de âmbitos Os métodos que agem neste âmbito de pesquisa são por definição di- que, por sua vez, se articulam depois em outros subsetores (na história ferenciados, já que devem permitir alcance daqueles fenômenos ou da escola: a história dos docentes ou a da didática, a história legislativa eventos fugidios que na educação envolvem aspectos do inconsciente co-32 FRANCO CAMBI HISTÓRIA DA PEDAGOGIA 33 letivo ou práticas que lhe são muito próximas. São métodos que vão do um saber magmático, mas rico tanto de sugestões como de resultados estatístico ao narrativo, para cobrir a complexidade e a evanescência dos para conhecimento das sociedades na sua história. E trata-se de um "pa- fenômenos que procuram esclarecer. Do mesmo modo, as fontes devem radigma" (um modelo) de pesquisa histórica que é preciso compreender ampliar-se, até atingir fragmentário e ausente, dando VOZ a achados e explorar em toda a sua amplitude, variedade e complexidade. submersos e isolados, desafiando os próprios silêncios da documentação direta (como ocorre na história da infância, que trabalha sobre objetos que deixam testemunhos apenas indiretos). São histórias, porém, em fase 4 DESCONTINUIDADE NA PESQUISA de crescimento e de especialização, como ocorre com a das mulheres, E CONFLITO DE PROGRAMAS desenvolvida ora em chave teórica, ora institucional, ora social, ou como a da infância, que produz O melhor conhecimento de um ator social a O que emerge como característica estrutural da pesquisa histórico- criança e das ideologias que sobre ele se ativam e nos esclarecem sobre -educativa é, sobretudo, a sua descontinuidade interna: de objetos, de modelos e valores sociais, quer sejam difundidos ou não. O quadro da métodos, de âmbitos. Descontinuidade que se ativa sobre pluralismo história social, portanto, é hoje aberto e inquieto, problemático e in itinere, das frentes de pesquisa, mas também em cada uma delas sobre a mas bem delineado na importância a ser atribuída a seus objetos e na divergência (ou, pelo menos, heterogeneidade dos processos e das orien- riqueza e relevância de seus métodos. tações de pesquisa). Vejamos um exemplo. Tomemos a vertente das teo- Um setor, ao contrário, ainda pouco desenvolvido e que veio definir- rias: neste âmbito, há várias formas de teorização, a serem estudadas -se como uma fronteira da própria história social, porém mais autônomo com instrumentos diferentes, mas também segundo perspectivas (ou pro- pela sofisticação de seu objeto e mais complexo pela problemática de gramas de pesquisa) capazes de esclarecer essa sua disparidade, desenhar seus métodos, é o do imaginário. Trata-se de um setor já desenvolvido sua complexidade e assinalar essa diversidade das abordagens. Ao lado em outras frentes da investigação histórica, após as pesquisas pioneiras das filosofias, colocam-se as ideologias e as ciências, mas em cada um de Huizinga, de Ariès ou de Tenenti, no qual estão trabalhando inten- desses campos delineiam-se modalidades diversas de ler os eventos (as samente sobretudo os medievalistas, mas que tem um papel importante filosofias como saberes ou como como orientações de também nas pesquisas sobre Moderno e Contemporâneo (pense-se elite ou estilos cognitivos/existenciais também para as massas, pelo me- em Bazcko, em Mosse). Raríssima, porém, é a incidência no âmbito edu- nos para as massas cultas; as filosofias como conceitos e linguagens; como cativo. Entretanto, grande parte da educação desde os processos de elaboradoras de modelos antropológicos e/ou sociopolíticos), que dão aculturação até a formação das mentalidades passa através do imagi- lugar a programas, a estilos de pesquisa que, depois, na sua complexa di- nário. Este deve ser estudado nas suas diversas formas aproveitando-se vergência, nos remetem os itinerários retalhados da história das teorias os resultados obtidos pelos historiadores da cultura e da mentalidade e pedagógicas. trazendo ulteriores afinamentos às suas pesquisas, no que diz respeito à Será que estamos diante de uma historiografia centrífuga, ou me- transmissão do imaginário e à sua difusão pedagógica. Já alguns clássicos lhor, totalmente descentralizada, que só cresce por linhas interrompi- da política da educação, como Gramsci, chamaram a atenção para essa das, por setores e fragmentos, sem "núcleo"? Estaríamos diante de uma fronteira (pense-se nas páginas sobre romance popular e sobre nacional- liberalização metodológica de significado quase anárquico, que permite -popular em geral), mas as pesquisas não foram organicamente retomadas todo tipo de abordagem e obscurece qualquer tentativa de reorganização e desenvolvidas. centralizada da pesquisa? Não estamos indo na direção de programas de A história da educação hoje é plural, articulada em muitos níveis, mais pesquisa autolegitimados e, portanto, incontroláveis objetivamente, mas "macro" ou mais "micro", que se relacionam e se entrecruzam para formar só através de um endêmico conflito entre perspectivas interpretativas?34 FRANCO CAMBI HISTÓRIA DA PEDAGOGIA 35 Ademais, o conflito das interpretações não acaba sendo o verdadeiro e Na pesquisa histórico-educativa existe ainda uma característica de mi- último modelo da pesquisa histórica, sublinhando sua dispersão e seu noridade historiográfica, de debilidade e de insegurança de iniciativa caráter hipotético, assim como a incomensurabilidade entre os diversos que pode ser corrigida por uma consciência metodológica mais viva, a programas de pesquisa, incidindo naqueles riscos ou erros imputados a ser exercida com maior constância e coerência, como também por uma toda epistemologia anárquica, como se reprochou ao filósofo/historiador vontade de superar aquela conotação ideológica que especialmente na da ciência Feyerabend? Sim e não. Pluralismo e conflitualidade, inde- Itália, pela contraposição já arcaica entre leigos e católicos bloqueia a cisão e incerteza são certamente características fundamentais do fazer audácia de desenvolver novas perspectivas de investigação, novos modelos história hoje, inclusive em educação; entretanto, não estamos diante de de pesquisa (ou mantendo-os um tanto marginalizados e ocultos). um resultado anárquico, mas radical e dialeticamente crítico. É justa- mente da integração dinâmica e atenta crítica) das diversas perspec- tivas de leitura que emerge a possibilidade de ler a história segundo a 5 ATIVAR A MEMÓRIA PARA COMPREENDER O PRESENTE verdade, deixando sempre espaço para aprofundamentos ulteriores, para aproximações, para um objeto complexo e fugidio, como é histórico, e "fazer história" exercido ainda nesta forma não ideológica, débil em particular histórico-educativo. e polimorfa representa um momento central da atividade cultural e Por meio destas múltiplas frentes de pesquisa, da liberalização dos dotado de uma função específica e essencial. A história é exercício da métodos e pluralismo das leituras, da coexistência, do conflito e do diá- memória realizado para compreender presente e para nele ler as pos- logo entre os diversos "programas de pesquisa" (ou orientações de pes- sibilidades do futuro, mesmo que seja de um futuro a construir, a esco- quisa relacionadas com objetos, com métodos, com cortes interpretativos lher, a tornar possível. Mas é justamente a atividade da a foca- coerentes e lineares, mas diferenciados entre si) consegue-se constituir o lização do passado que anima presente e condiciona, como também trabalho histórico orientado no sentido abrangente, ou seja, capaz de ler reconhecimento das suas possibilidades sufocadas ou distantes ou in- os processos históricos educativos, no caso sem comprimir sua com- terrompidas, e portanto das expectativas que se projetam do passado- plexidade e variedade constitutiva, mas elegendo-a como critério semântico -presente para o futuro, que estabelece horizonte de sentido de nossa da pesquisa histórica, portanto como estrutura de sentido (faz-se história ação, de nossas escolhas. A memória não é absolutamente o exercício de se, e somente se, se conseguir fazer reaparecer a complexidade dos even- uma fuga do presente nem uma justificação genealógica daquilo que é, e tos e suas agitadas inter-relações, seu perfil instável, múltiplo e, ao mesmo tampouco inventário mais ou menos sistemático dos monumentos de tempo, unitário). um passado encerrado e definitivo que se pretende reativar por inter- No campo histórico-educativo, se pluralismo dos níveis já é bem médio da nostalgia: não, é a imersão na fluidez do tempo e traçado de reconhecido (como salientamos no parágrafo anterior), por outro lado, seus múltiplos e também interrompidos itinerários, a recomposição conflito-diálogo a riqueza e variedade dos "programas de pesquisa" não de um desenho que, retrospectivamente, atua sobre hoje projetando-o resulta igualmente consolidado. Predominam ainda perspectivas de pes- para futuro, através da indicação de um sentido, de uma ordem ou de- quisas tradicionais (ideológicas, sobretudo) ou girando em torno de um sordem, de uma execução possível ou não. único eixo metodológico, às vezes um tanto banalmente narrativas, ao A memória torna-se assim a categoria portante do fazer história, com passo que seria necessário dar vida a um pluralismo mais intenso de lei- seus condicionamentos e suas amnésias, seus desvios e peso da tra- turas e de modelos, de maneira a realizar aquele confronto de interpre- dição, logo com seu trabalho não linear, sempre sub judice, sempre in- tações pelo qual se pode atingir a verdade: a aproximação de uma com- completo, mas sempre necessário. E exercer a memória, exercê-la criti- preensão dinâmica (aberta e policêntrica) dos eventos camente, sem fechamentos preliminares e condicionamentos castradores,36 FRANCO CAMBI HISTÓRIA DA PEDAGOGIA 37 significa mergulhar num trabalho de tipo hermenêutico: relacionado com Compreendendo minuciosamente aquele passado em cada uma de suas uma compreensão que age como regressão e como autenticação do sentido, formas. Inclusive nas formas educativas que constituem talvez trait através do uso dos instrumentos possíveis (todos) para fazer salientar estes d'union fundamental entre O passado e O presente: elas são O meio pelo percursos e estes desenhos. qual passado age no futuro através das sedimentações operadas sobre A memória aplicada ao passado histórico significa reconhecimento/ presente. apropriação de todas as formas de vida (estruturas sociais e culturais, de mentalidades etc., além das tipologias do sujeito humano, seus saberes, suas linguagens, seus sentimentos etc.) que povoam aquele passado; reconhecimento das suas identidades, suas condutas, suas contradições; 6 A HISTÓRIA QUE ESTÁ POR TRÁS: a reapropriação de seu estilo, de sua funcionalidade interna, de sua pos- A ANTIGUIDADE E A IDADE MÉDIA, sibilidade de desenvolvimento. Tudo isso com objetivo de repovoar A MODERNIDADE E A CONTEMPORANEIDADE aquele passado com muitas histórias entrelaçadas e em conflito e de res- tituir ao tempo histórico seu pluralismo de imagem e a sua proble- Por trás do nosso presente, como infraestrutura condicionante uni- maticidade. Com isso, entretanto, realiza-se também um distanciamento tária e dotada de sentido orgânico e permanente no tempo, opera a Mo- do puro presente e de sua rigidez, para relê-lo, porém, sobre fundo do dernidade. Por trás da Modernidade, coloca-se a Idade Média, e por qual ele emerge e, assim, relativizá-lo na auctoritas que lhe vem justamen- trás desta a Idade Antiga; e, antes ainda, O Mediterrâneo como encruzi- te do fato de ser presente (evidente e necessário, logo verdadeiro), re- lhada de culturas, Oriente como matriz de muitas formas culturais do considerado segundo perspectivas críticas que ponham em evidência suas Ocidente, a grande revolução do Neolítico e advento das sociedades alternativas e pobrezas, possibilidades e aberturas. Através do passado hidráulicas. A história é um organismo: O que está antes condiciona que criticamente revisitado, presente (também criticamente) se abre para vem depois; assim, a partir do presente, da Contemporaneidade e suas futuro, que se vê carregado dos impulsos não realizados do passado, mes- características, seus problemas, deve-se remontar para trás, bem para trás, mo mais distante ou mais marginalizado e sufocado. Em suma, além até limiar da civilização e reconstruir caminho complexo, não linear, de paixão pelas diversas formas de vida (pelo pluralismo do humano, articulado, colhendo, ao mesmo tempo, seu processo e seu sentido. O podemos dizer), a memória está sempre carregada de escatologia; carga processo feito de rupturas e de desvios, de inversões e de bloqueios, de que torna presente projetado para possível, para enriquecimento possibilidades não-maturadas e expectativas não realizadas; sentido refe- de sentido e para a finalização (mesmo que seja constantemente atualizada), rente ao ponto de vista de quem observa e, portanto, ligado à interpreta- isto é, aberto sobre si mesmo, problemático e envolvido na sua transforma- ção: nunca dado pelos "fatos", mas sempre construído nos e por meio dos ção, na sua sempre radical "fatos", precário e sub judice. Mas exercício da memória, se não desdenha absolutamente pas- A Antiguidade, também em pedagogia e em educação, consigna ao sado mais distante, e privilegia às vezes, justamente para fixar melhor Ocidente as suas estruturas mais profundas: a identidade da família, a a alteridade das formas de vida ou para ler as raízes mais antigas (e pro- organização do Estado, a instituição-escola, mitos educativos (nas fábulas, fundas) do presente e sobre este plano a atenção atual dos historia- por exemplo) e ritos de passagem (da infância, da adolescência), um rico dores se fixa sobretudo na Idade Média ou na Antiguidade deve inves- mostruário de modelos socioeducativos, que vão desde a pólis grega até a tigar em particular passado do qual presente é filho, do qual carrega res publica romana, características que se se entrecortam, se patrimônio genético e sobre qual deve reconstruir a própria auto- entrelaçam até formar riquíssimo tecido da educação ocidental. Além nomia e a própria abertura para possível e para a finalização. Como? disso, a Antiguidade produz a passagem, tanto em educação como em38 FRANCO CAMBI HISTÓRIA DA PEDAGOGIA 39 ética e até em gnoseologia, do ethos para a theoria, fazendo nascer a re- mações radicais em todos os campos, da economia à política, da cultura flexão autorregulada, universal e rigorosa, em torno dos processos à mentalidade, ao estilo de vida; permanente, já que age de maneira educativos, isto é, a pedagogia, articulando-a numa múltipla série de constante por muitos séculos; consciente também, como manifestam as modelos, também reunidos pelo ideal de paideia: de uma formação hu- oposições às práxis medievais de economistas, políticos, intelectuais etc. mana que é antes de tudo formação cultural e universalização (por in- Em segundo lugar, a Modernidade é uma época histórica com carac- termédio da cultura e do "cultivo" do sujeito que ela implica e produz) terísticas orgânicas e complexas que investem como veremos mais da individualidade. adiante a reorganização do poder ou dos saberes, fazendo-os assumir Com a revolução cristã opera-se uma radical revisão do processo e dos conotações novas e específicas. Foi definida como a Idade das Revolu- princípios educativos: a paideia organiza-se agora em sentido religioso, ções, como tempo da emancipação, como a base histórica que depura transcendente, teológico, ancorando-se nos saberes da fé e no modelo da e legitima as diferenças: foi, sem dúvida, um arco plurissecular que co- pessoa do Cristo, sofredora mas profética, depositária de uma mensagem locou no centro problema da liberdade e seu acidentado caminho, caracterizada pela caridade e pela esperança; os processos educativos rea- também O pluralismo de formas de vida, de modelos sociais, de classes, lizam-se sobretudo dentro de instituições religiosas (mosteiros, catedrais de ideologias etc. No centro deste itinerário está 1789, ano da Revo- etc.) e são permeados de espírito cristão; toda a cultura escolar organiza- lução Francesa, que se como emblema (embora não seja absoluta- -se em torno da religião e de seus textos; mas, assim fazendo, toda a vida mente eixo) deste percurso de liberação dos modelos tradicionais de social se pedagogiza e opera segundo um único programa educativo, con- sociedade (ainda permeados de características medievais) e como recons- centrado em torno da mensagem religiosa cristã. A Idade Média inovará trução de uma sociedade nova, ao mesmo tempo mais livre e mais coesa. ab imis a tradição pedagógica e educativa, influenciando profundamente a Mas a Modernidade, em terceiro lugar, é também nascimento e de- própria Modernidade, que dela se separa e a ela se contrapõe polemica- senvolvimento de um sistema organizativo social que tem como eixo mente, mas incorporando instâncias relacionadas tanto com pensamento indivíduo, mas que alicia por meio de fortes por quanto com a práxis (a ótica metafísica de um lado, a práxis autoritária e parte da coletividade, dando vida a um "mundo moderno" em cujo cen- de domínio de outro, só para exemplificar). tro estão a eficiência no trabalho e controle social. E foram sobretudo A Modernidade delineia-se como o precedente mais imediato e Marx e Weber que sublinharam esses aspectos organizativos do moderno, interlocutor mais direto da nossa Contemporaneidade, sobre a qual de- como Kant, Hegel e Croce sublinharam os, acima lembrados, de liber- vemos fixar olhar, pois é esta que se trata de compreender: sem ig- dade e de inovação, de independência e de desenvolvimento criativo. norar, porém, que estudo do passado é também (e já dissemos) a Através destas características a ruptura, a liberdade, domínio capilar recuperação de vias interrompidas, de possibilidades bloqueadas, de toma corpo uma era organicamente compacta que chegou até hoje, itinerários desprezados, que devem ser compreendidos e afirmados e conferindo à nossa história contemporânea sua coesão e sua estrutura. indicados como alternativas possíveis não só do passado, mas também do Nem mesmo a chamada Pós-Modernidade alterou em profundidade es- presente, pelo menos como alternativas teóricas, percursos diferentes, ses sinais. Até a Complexidade, que é invocada como característica da integradores e corretores de um modelo. Pós-Modernidade, é estrutura da mesma Modernidade, da qual ela enfa- A Idade Moderna é um fenômeno complexo, definível de modo tiza pluralismo e a divergência, estreitamente ligados à liberdade e unívoco apenas por abstração, mas dotado de características homogê- à independência. neas e fortes, capazes de estruturar por muitos séculos os eventos histó- Todavia, para além de reconhecimentos gerais e um tanto genéricos ricos mais A Modernidade é, antes de tudo, uma ruptura em sobre as características da Modernidade, é oportuno mostrar concre- relação à Idade Média; uma ruptura vertical, já que implica transfor- tamente (ou momento por momento) sua organização na diacronia dos40 FRANCO CAMBI eventos, mergulhando na reconstrução atenta da Modernidade, neste caso pedagógica, tendo em conta também a separação que, geralmente, se faz entre Moderno e Contemporâneo, colocando o ponto de passagem no fim do século XVIII, entre a Revolução Industrial e a Revolução Francesa, as quais, atuando na economia e na política, animam toda a sociedade e a cultura, dando início a uma fase nova da Modernidade. Nova fase marcada pela centralidade das ideologias, pelas lutas sociais (de classes, de nações, de etnias), pelo desenvolvimento tecnológico e científico (que renovou saberes e modelos formativos), pelo crescimento da sociedade de massa e dos mass media (que introduziu uma revolução educativa: escolar, cur- ricular, disciplinar, como também perceptiva, cognitiva e ética) tendo como alvo o pensamento científico e o controle social, redefinindo radi- calmente os processos educativos (mais sociais e mais científicos) e seus objetivos, sublinhando suas saídas aporéticas: conformação e liberação, emancipação e controle, produtividade e livre formação humana. E des- ta condição aporética, às vezes até dramática, aberta a soluções diversas e a instâncias até opostas, partiu o trabalho pedagógico e educativo atual, do qual procede a pesquisa histórica e ao qual ela pretende de certo modo retornar. Já lembrava Croce: fazer história é sempre fazer história con- temporânea, mas podemos acrescentar -, para fazer história contem- porânea, temos de reler o presente sobre o fundo do passado e de um passado reconstruído à part entière, isto é, inteiramente, em todas as suas possibilidades e ramificações, até mesmo nos seus silêncios, nas repres- sofridas, nos seus atalhos interrompidos. Para colher não só as cau- sas diretas do presente, mas também aquele possível que está diante de nós; aquele diferente que perdemos e que pacientemente podemos es- perar recuperar, aquele novo, aquele "não ainda", do qual vivemos, ao mesmo tempo, a aurora e a expectativa.

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