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Tradução por Francielly da Fonseca Costa Capítulo 4 - Estado, aparelho de Estado e poder político. In: OSORIO, Jaime. Estado, reproducción del capital y lucha de clases. La unidad económico/política del capital. México: UNAM, 2014. P. 62-77. Lembrem-se das questões orientadoras do fórum: 1. Qual é a definição de estado para o autor? 2. Por que o estado no modo de produção capitalista se apresenta conforme seu contrário? 4. Estado, aparelho de Estado e poder político Nesta exposição faremos uma distinção entre Estado e aparelho de Estado e destacaremos esta distinção para o estudo do poder político nas sociedades capitalistas. Estado Chamamos de Estado a condensação das relações sociais de poder, de dominação e daquelas que compõem uma comunidade, prevalecentes em uma sociedade. Estas relações sociais estendem-se por toda a organização social, mas, no entanto, apresentam níveis particulares de condensação e intensidade. Comentemos essas modalidades de relações sociais que compõem o Estado: Relações de dominação e poder: na sociedade existem múltiplas relações e formas de poder, entre elas: pai/filho; homem/mulher; confessor/penitente; médico/paciente; professor/alunos, classes dominantes/classes dominadas. Quando nos referimos às relações que definem o Estado, falamos particularmente das relações de poder e de dominação presentes entre as classes sociais. Nessa perspectiva, destacamos que o poder político é a capacidade de determinadas classes sociais realizarem seus interesses e projetos, em detrimento ou contra os interesses e projetos de outras classes. Ou, dito de outra forma, o poder político é a capacidade de determinadas classes sociais organizarem a vida em comum de acordo com os seus interesses e projetos, relegando ou rejeitando os projetos e interesses de outras classes. Falamos do Estado como uma condensação dessas relações e desse poder político. O Estado é, neste sentido, o centro do poder político. No entanto, estas relações de poder e dominação estendem-se por todos os espaços da vida social e podem ser apresentadas como uma teia de aranha, com redes que se estendem a todas as áreas da vida em comum, localizadas por sua vez nos sujeitos, o que define as suas ações e operações. Nessa rede de raios e tecidos, assim como na teia de aranha, existem núcleos de maior densidade e concentração. O Estado não é, portanto, uma simples rede homogênea de poder na sociedade. Apresenta condensações de relações diferenciadas de poder e de dominação, o que implica que nem tudo o que afeta os raios e tecidos tem as mesmas consequências em termos de afetar as condensações do poder político e do Estado. Este é talvez o erro fundamental das abordagens que apelam ao alargamento das fissuras em qualquer atividade da vida social[footnoteRef:1], o que supõe uma espécie de homogeneidade das relações e redes de poder e dominação que cobrem e atravessam a organização social. [1: Ver Holloway [2011], Agrietar el capitalismo, Buenos Aires, Herramienta Ediciones.] Considerar o poder político, como relação entre classes sociais, implica estabelecer uma clara diferença com as demais formas e relações de poder existentes na vida social. Isso não significa ignorar que as relações professor/aluno, pai/filho, homem/mulher, por exemplo, não se reconfiguram numa sociedade em que prevalecem as relações de classe. Mas elas, como tais, não são relações de classe, pelo que mesmo na sociedade capitalista a sua transformação tem um papel menos relevante numa lógica de ruptura do poder político e da sociedade. Relacionamentos que constroem comunidade É importante destacar que embora exista exploração e dominação na sociedade, o Estado é um elemento ativo na criação de comunidade. Isto implica compreender a presença e a recriação das relações comunitárias a partir do Estado, sem a necessidade de abandonar as relações de poder e de dominação das classes dominantes. A vida em comum é atravessada por relações marcadas por costumes sociais, valores morais e religiosos que vão além das práticas dos membros da sociedade e que unem a vida em sociedade. Essa rede de relações constitui um ethos social que vai além dos costumes, normas e valores individuais. A ideia central subjacente a eles é que constituímos uma comunidade. O Estado capitalista condensa o imaginário de comunidade e funciona como uma recriação das relações comunitárias, de que fazemos parte do mesmo barco, de que caminhamos na mesma direção e de que alcançaremos objetivos comuns. Que as leis e projetos vigentes não são bons apenas para alguns, mas são bons para toda a sociedade. A partir das relações comunitárias, o Estado funciona como o principal órgão que esconde e vela a violência institucional vigente. As ideias de igualdade e liberdade recriadas pelo Estado capitalista desempenham um papel fundamental no imaginário comunitário. Cada cabeça é um voto, não é só reconstituir a ideia de igualdade. É acima de tudo recriação do imaginário comunitário. O mesmo acontece com a ideia de homens livres no mercado que vendem força de trabalho. Numa sociedade fraturada desde os seus alicerces pelos processos de exploração e dominação, a comunidade que pode ser estabelecida nada mais é do que uma comunidade ilusória, como aponta Marx. Isso se mostra, por exemplo, nas grandes comemorações que acontecem pela vitória do time de futebol, nas quais as pessoas convivem e agem priorizando a comunidade, para que, passado o evento, todos retornem ao seu bairro, ao seu mundo, onde predominam as relações sociais que determinam e separam os indivíduos. O Estado como entidade superior à sociedade O Estado é a condensação das relações de poder e de dominação de classe que expressa interesses particulares, os dos agrupamentos humanos dominantes, mas que como Estado mostra esses interesses e projetos como pertencentes a toda a sociedade. Além disso, o Estado capitalista não se coloca apenas como um árbitro, que resolve disputas e conflitos entre os membros da sociedade, o que o coloca de alguma forma no centro da sociedade. O Estado capitalista apresenta-se como uma instância acima da sociedade, como um protetor dedicado à busca do bem comum. O que permite que o Estado apareça como o oposto do que é? A primeira coisa a notar é que o Estado capitalista é o primeiro Estado que deve esconder a dominação e a exploração na sociedade. Nem o senhor nem o traficante de escravos têm necessidade de esconder isso. Eles o exercem aberta e diretamente sobre vassalos, servos e escravos. Mas o capital não pode fazê-lo. As suas promessas de criar um mundo de homens livres e iguais impedem-nos de o fazer. Isto exprime-se nas mediações económicas e políticas prevalecentes, que impedem que a exploração e a dominação fiquem à vista. Pelo contrário, o capital manifesta-se escondendo-se como dominação e exploração. A ruptura entre economia e política no mundo do capital desempenha um papel proeminente neste processo, pela “necessária presença como não-económica do político para que o económico possa ser apresentado como o não-político[footnoteRef:2]”. A constituição de cada um dimensão como esfera autónoma e rompidas as relações que os constituem, o mercado na economia, o Estado/contrato e a democracia/cidadão na política tornar-se-ão os territórios onde prevalecem a liberdade no mercado e a igualdade na política[footnoteRef:3]. [2: Na síntese indicada por Ávalos. Ver o seu escrito “La escisión de la vida política em la era del valor que se valoriza”, en Ávalos y Hirsch [2007], La política del capital, México, uam-Xochimilco, p. 57.] [3: Desenvolvemos o tema no capítulo “A ruptura entre economia e política no mundo do capital”, incluído neste livro.] Desta forma, o capital rompe a unidade comum, mas ao mesmo tempo a sutura, recriando o Estado como uma entidade para todos, como a autoridade que protege e promove o bem comum. Desta forma, o Estado surge acima da sociedade e das divisões que a atravessam. O Estado é a única instituição da sociedade burguesa que tem a capacidade de garantir que os interessesde alguns sejam apresentados como projetos de toda a sociedade. Nem a Igreja, nem os partidos políticos, nem qualquer outra instituição têm essa capacidade. Por isso é tão relevante, e por isso é tão importante deter o poder do Estado. Os interesses sociais formados como Estado são fortalecidos com uma força que parece não ter paralelo nos processos da vida social. Só há um processo que lhe é comparável: as revoluções sociais, como portadoras do poder de classe constituinte e, portanto, de um novo Estado. Aparelho de Estado O aparelho de Estado é a “objetificação”, a expressão como “coisas”, das relações sociais de poder e dominação, e das relações que permitem a construção da comunidade. Mas o aparelho de Estado é a “reificação” do Estado. Portanto, enquanto as relações sociais que chamamos de Estado não forem modificadas, o aparelho de Estado atuará no sentido dessas relações de poder e de dominação. Como “coisas” o dispositivo possui três componentes centrais: a) Um conjunto de instituições, articuladas e hierárquicas. Pensemos nas instituições dos três poderes do governo. No Executivo: presidência, secretarias ou ministérios, Forças Armadas, polícia, presídios, Banco Central etc. No Poder Legislativo: Câmara de Senadores e Deputados, Parlamento. No Poder Judiciário, tribunais, Supremo Tribunal de Justiça, ministérios públicos. b) Um conjunto de leis: Constituição, regulamentos etc. c) Pessoal do Estado com cargos superiores. Em relação ao aparelho de Estado, é importante destacar uma particularidade do capitalismo. Nele a burguesia, classe detentora do poder, delega a administração do aparelho de Estado nas mãos de setores sociais de outras classes. Isto faz parte dos mecanismos para garantir a dominação de classe e afeta a presença do Estado como entidade acima da sociedade. São excepcionais os casos em que figuras provenientes diretamente da classe dominante ocupam posições no aparelho, como Berlusconi em Itália, Piñera no Chile ou os Bushes nos Estados Unidos. Por ocuparem os mais altos cargos na administração do aparelho de Estado, é importante destacar esse segmento da sociedade, que chamamos de classe dominante. Este grupo desempenha tarefas de comando político, limitadas, porém, às relações de poder e domínio vigentes no Estado. Quanto mais elevada for a posição dentro do aparelho de Estado e do sistema de dominação em geral, maiores serão os compromissos que este exige, implicando os interesses de classe que prevalecem no Estado. Não estamos, portanto, perante uma administração com compartimentos vazios de conotação política. A noção de classes dominantes permite-nos fazer uma distinção relevante entre as classes sociais que detêm o poder político e os setores (classe dominante) que administram o aparelho de Estado. Neste hiato entre o Estado e o aparelho de Estado reside a possibilidade teórica de figuras de esquerda como Salvador Allende, Evo Morales ou Hugo Chávez chegarem ao aparelho de Estado. E é este hiato que nos permite compreender os dilemas enfrentados pelos governos “progressistas”, ou aqueles que procuram o socialismo. Tais governos são enclaves no meio de um pântano institucional, de leis e de formas de gestão da política, que respondem a outros interesses de classe. Relações de comando/obediência e legitimidade do comando As relações de comando/obediência operam no aparelho de Estado: instituições nas quais uns comandam e outros obedecem. O que torna possível que um determinado comando encontre obediência? Weber pergunta. O relevante sobre o problema é que o poder não é apenas coerção. Procura também exercer o poder com o acordo dos dominados. Mas estas questões não devem ser analisadas de forma dicotómica: isto ou aquilo. O exercício do poder pela coerção não implica que o consenso entre os setores dominados não seja procurado ou não exista: Pinochet sempre teve uma base social que o apoiou. Há uma população dominada no México que concordou com o regresso do PRI nas eleições de 2012. E não estou a falar dos pobres que foram manipulados e comprados para obter o seu voto. No exercício do poder por consenso também existe coerção. Dizem-nos: você pode escolher, mas dentro deste campo de jogo, com estas regras e com estas opções, não outras. Nada que esteja fora das opções que oferecemos para você escolher. Caso contrário, torna-se fora da lei. Ou seu voto é inútil. Violência institucional operando. Um poder coercitivo operando. Weber distingue três tipos de dominação: • Dominação tradicional: o governante é obedecido pela força das tradições e costumes. Governo dos mais velhos em algumas comunidades; a reis ou rainhas que vêm de uma linhagem antiga definida como especial. • Dominação carismática: quem manda é obedecido porque são reconhecidas qualidades excepcionais: é santo, faz milagres, sua vida é exemplar (Jesus). Ele é o mais corajoso, o mais corajoso, arrisca a vida como testemunho da sua verdade (Che, Emiliano Zapata); Ele é um líder, um estrategista que nos conduziu à vitória e venceu (Churchill, De Gaulle, Fidel, Ho Chi Min, Mao Tse-tung). • Dominação legal racional: é obedecida porque aqueles que passaram a comandar o aparelho de Estado e se tornaram a classe dominante, respeitaram as regras e leis para esse fim. Um presidente, nas democracias modernas, cumpre os requisitos para exercer o poder, vence eleições cumprindo as leis etc. Estes modos ou tipos de dominação são historicamente mistos e apresentam combinações: Obama no início apareceu como um líder jurídico carismático e racional. Legitimidade é o reconhecimento por parte de quem obedece de que quem manda tem o direito de fazê-lo. Quando isso acontecer diremos que o comando é legítimo. E diremos que é um comando legal, porque também respeita as leis. Duas questões centrais na análise política Na análise política existem duas questões centrais: a primeira: quem detém o poder? A segunda: como você exercita isso? Vamos ver aonde cada um deles nos leva. Quem(s) detém o poder? Embora as classes dominantes constituam um conglomerado heterogéneo (classes, fracções e sectores que exploram e dominam), isto significa que muitos projetos económicos/políticos/sociais existem simultaneamente dentro das classes dominantes. Não pode haver um único projeto que resolva simultaneamente as necessidades diferenciadas de todas as capitais. O capitalismo é um sistema de competição, disputa, morte de capitais e fortalecimento de outros. Portanto, as questões que devemos nos colocar na análise concreta são: o projeto de quais capitais, ou de quais classes, frações ou setores, é aquele que se movimenta e organiza a vida em comum? O projeto de qual classe dominante, fração ou setor se tornou hegemônico? Qual deles prevaleceu na luta entre capitais como projeto de Estado? O facto de se impor como projeto de Estado permite-lhe deixar de ser simplesmente projeto de alguns grupos humanos, e poder apresentar-se como projeto de toda a sociedade. Isto implica que os projetos de alguns grupos dominantes são executados sem entusiasmo. E que os projetos de outros perdem e podem levar à liquidação social desses setores. O que estamos a resolver com estas questões é como se constitui então o bloco no poder: a forma particular como as diversas classes, frações e setores dominantes se articulam em função da força que conseguem para estabelecer os seus projetos, em situações históricas específicas. E dentro do bloco no poder, qual classe, fração ou setor, ou articulações entre estes, constitui a classe, fração ou setor que detém a hegemonia, ou seja, os projetos daqueles que prevalecem sobre os demais, articulam-nos e dão vida a marca que vem desses projetos. Tudo isto coloca os cientistas políticos diante da necessidade de conhecer e analisar a economia. Claro, uma economia política. De forma mais geral, tudo isto confronta-nos com a unidade da economia e da política, e com as barreiras estabelecidas pelas formações académicas disciplinares para alcançar uma compreensão da vida em sociedade. Como o poder é exercido? Esta questão remete-nospara as formas de governo ou formas de Estado. Não é a mesma coisa que certos projetos sejam impostos à sociedade através de eleições e votos, do que sejam impostos através de golpes de bastão ou de baionetas. Não é a mesma coisa que certos projetos avancem com parlamentos, liberdade de imprensa, direito de reunião, ou que ocorram sob uma ditadura que fecha parlamentos, sem liberdade de imprensa, sem direito de reunião. Se é de uma forma ou de outra depende da natureza destes projetos e das condições da luta de classes, dos níveis de confrontos na sociedade etc. As formas de governo não são uma questão decidida arbitrariamente: hoje somos democráticos; autoritário amanhã. Uma ou outra decisão é uma questão determinada pela natureza dos projetos hegemónicos e pelo nível dos confrontos sociais. O mesmo projeto hegemónico pode ser realizado sob diferentes formas de governo. Exemplo disso foram os projetos económicos centrais sob a ditadura militar no Chile, que continuaram após a saída de Pinochet, agora com governos civis eleitos democraticamente e com forças políticas opostas a Pinochet. Quais são as formas de governo ou Estado? • Para definir as formas de governo é necessário investigar uma ampla série de temas. Por exemplo, pergunte-se se os vários poderes do Estado moderno (Executivo, Legislativo, Judiciário) existem, se têm autonomia, se existe equilíbrio entre esses poderes, se se controlam entre si. • Se houver eleições, cadernos eleitorais fiáveis, respeito pelo voto. • Se houver Parlamento, partidos políticos, competição real, oposições reais. • Se houver um Poder Judiciário autônomo, aplicação de justiça, leis impessoais. • O lugar e o papel das Forças Armadas no quadro do Estado: se estão nos quartéis ou nas ruas, fazem o quê? Se forem deliberativos. • Existe liberdade de expressão? Diversidade de meios de comunicação? Jornais autônomos do Estado? Rádio e televisão autônomas? Nas mãos de quem estão estes meios de comunicação, grandes conglomerados multinacionais e nacionais? • Existe o direito de realizar marchas, de ocupar ruas e praças? Existem restrições? De que tipo? • São permitidos sindicatos independentes, existem sistemas empresariais diretamente ligados ao Estado, sistemas de clientes? • Existe separação entre Igreja e Estado? É uma separação real e eficaz? A Igreja intervém nas decisões públicas? de que maneira? • Organizações patronais. Peso no aparelho de Estado. Relações institucionais e não institucionais com a classe dominante, e com a classe política, ou seja, com todos aqueles que desempenham funções de representação. O Estado dependente Existem pelo menos dois processos de significativa relevância que determinam certas tendências e características do Estado nas sociedades dependentes. A primeira refere-se à questão da soberania. Dado que o sistema mundial capitalista é uma organização em que prevalecem os centros imperialistas e as periferias dependentes, isto implica que o exercício da soberania é desigual dentro desse sistema. Nesta perspectiva, os estados dependentes são estados subsoberanos ou estados com soberania restrita. Isto não significa que o Estado dependente seja um Estado que carece de “alguma coisa” para ser pleno. O discurso liberal associa o Estado à soberania, da mesma forma que associa o Estado às decisões de todos os cidadãos. Mas tudo isto faz parte dos discursos mistificadores sobre o que é o Estado. A condição subsoberana do Estado na região nada mais é do que o outro lado da condição dependente da economia. Isto implica que estas economias estão sujeitas a muitas das suas ações pelas operações e decisões dos centros imperialistas. E é neste quadro que as classes dominantes locais encontram condições de vida e reprodução: subordinadas ao capital imperialista e aos seus projetos, que por sua vez reproduzem dependência e subordinação. Tudo isto exige que a construção de um Estado soberano passe por uma luta anti-imperialista, que não pode ser liderada pelas classes dominantes locais, devido à sua associação e imbricação com o capital imperialista, de modo que esta luta terá também uma conotação popular e anticapitalista, enquanto dentro do capitalismo a condição subordinada e dependente não encontrará saída. O segundo processo nas sociedades dependentes com determinantes estabelecidos no Estado refere-se à particularidade da exploração nestas sociedades, baseada na superexploração do trabalho; isto é, na violação estrutural e permanente do valor da força de trabalho ou, por outras palavras, na conversão de parte do fundo de consumo e de vida dos trabalhadores em fundo de acumulação de capital. Isto estabelece um piso particular para o desenvolvimento das classes sociais e das suas lutas e enfrentamentos. Imediatamente, implica o desenvolvimento de um capitalismo que exacerba os elementos da barbárie sobre os civilizacionais, alimentando permanentemente todos os recursos da luta de classes. Por outro lado, implica reduzir o campo das classes dominantes para estabelecer modalidades de dominação apoiadas em formas estáveis de consenso. Isto explica a fragilidade da democracia na nossa região, sempre ameaçada por processos que a distorcem e impedem o seu enraizamento e estabilidade, o que por sua vez alimenta o surgimento regular de tendências autoritárias na história regional. A superexploração implica também a ruptura permanente dos laços e tecidos sociais, o que dificulta a criação de bases para sustentar os imaginários comunitários, que permanecem suspensos em condições frágeis e facilmente fraturadas. Isto dá lugar a tendências desintegradoras, ou ao refúgio nas formas comunitárias dos povos e culturas ancestrais da região, como mecanismo de defesa e convivência. Finalmente, e mantendo consequências em todos os pontos que acabamos de mencionar, a superexploração é um tipo de exploração que só pode ser sustentada na existência de uma enorme superpopulação excedentária, com enormes contingentes humanos de desempregados, subempregados e de elevado pauperismo. Os tormentos da miséria da superpopulação inativa constituem o oposto dos tormentos do trabalho da população proletária ocupada e submetida aos regimes de superexploração. A multiplicação deste excedente populacional nas zonas rurais, bem como nas zonas urbanas, torna-o alvo de lutas sociais e políticas relevantes na região a partir de meados do século XX. Com a marcha do padrão de reprodução exportadora de especialização produtiva, e o agravamento da superexploração e o aumento do desemprego que ela exige, a sua presença social e política voltou a ganhar força na região, tanto como trabalhadores agrícolas como como camponeses, ambos igualmente empobrecidos, ou desapropriados de terras, ou atacados em suas terras devido ao surgimento da mineração em grande escala ou do agronegócio; como trabalhadores urbanos desempregados ou com empregos muito precários, todos jogados na pobreza e na miséria. Estado e sociedade civil Junto com o Estado, há uma série de instituições na modernidade capitalista – família, escola, igrejas, meios de comunicação – que cumprem tarefas importantes em termos de dominação, poder e construção comunitária. A sua particularidade reside no facto de que, sem serem instituições de dominação de classe ou de poder como tal, estas instituições funcionam como mecanismos de poder e dominação das classes dominantes. Dado o seu desenvolvimento na modernidade capitalista e considerando os seus modos de funcionamento, alguns autores acabam por integrá-los no próprio Estado e falam assim de “aparelhos ideológicos de Estado” ou de Estado “ampliado”. Deve-se considerar que desta forma se perdem as suas particularidades e as suas diferenças com o Estado, desintegrando a condensação particular de poder que o constitui e, portanto, obscurecendo e tornando difusa a luta pelo poder político[footnoteRef:4]. [4: Ver sobre o assunto capítulos IX e X de Osório [2004a]. (Osorio, Jaime [2004a], El Estado en el centro de la mundialización. La sociedad civil y el asunto del poder, México, Fondo deCultura Económica.)] Em primeiro lugar, e para realçar a sua diferença com o Estado, importa referir que no seio destas instituições é possível que surjam posições que discordam radicalmente do poder e da dominação prevalecentes, seja nos jornais, nas revistas, nas correntes de pensamento religioso, correntes teóricas dentro das instituições de ensino, etc., questão que não pode surgir no próprio Estado, quando muito no aparelho de Estado, mas apenas em meio a um acirramento da luta de classes. Aquelas instituições que preferimos descrever como parte da sociedade civil, juntamente com o Estado, formam um sistema de dominação, ou seja, uma densa rede de relações que procura criar corpos e sujeitos dóceis à dominação e à exploração. Ao mesmo tempo, os dominados acabam por interpretar o mundo segundo o ponto de vista dos dominadores, o que implica que os mecanismos de dominação sejam internalizados. Sobre democracia Existem pelo menos duas concepções principais de democracia: uma, a chamada democracia formal ou processual, que coloca elementos processuais no seu centro: eleições, competição eleitoral, partidos, justiça na concorrência, imprensa e meios de comunicação livres, registo de cidadãos, confiança contagem de votos etc. Não é ocioso apontar que esta ideia de democracia é a que mais se alinha com os projetos do capital. Por esta razão também é classificada como uma democracia liberal. Assenta numa concepção de indivíduo/cidadão e tem como substrato o individualismo. Esta democracia reconhece dois tipos de igualdade: perante a lei e as oportunidades. Assim, ele apontará sem constrangimento que todos os indivíduos são iguais perante a lei; e que todos os indivíduos tenham as mesmas oportunidades. Quando uma série de requisitos formais forem cumpridos nas áreas acima indicadas, essa sociedade será considerada democrática. E irá mais longe. Serão estabelecidas tabelas com indicadores ponderados para definir “a qualidade” da democracia. Assim, pode-se dizer que existem democracias democráticas, moderadamente democráticas e não tão democráticas. Para além da confusão criada, o que é relevante para estes estudos é que em qualquer caso o que existe são formas de democracia. E sobre a etimologia da palavra democracia: demos = povo, cracia = governo. Aqui a democracia pode ser distinguida como governo do povo, como governo pelo povo e como governo para o povo. A democracia liberal é definida como o governo do povo e pelo povo, o que significa que a maioria dos cidadãos é o povo, que vota e decide. Além disso, os resultados das eleições são uma decisão do povo e as eleições foram organizadas e monitorizadas pelo povo. Estes exercícios são realizados por cientistas políticos presos à sua disciplina, sem considerar o que acontece em outras esferas da vida social. Porque bastaria olhar para o que se passa hoje na economia, com a chamada flexibilização laboral, com o pagamento de salários de fome, com contratos de trabalho de meses ou sem contrato nenhum, com dias intermináveis, sem benefícios, nem segurança social ou seguro, médicos. E com a geração de uma enorme massa de desempregados e subempregados. Em suma, um reino em que reina o despotismo do capital livre. Se integrarmos isto com o facto de haver eleições e todos os outros critérios da democracia: poderíamos dizer em termos reais que vivemos em democracia? Poderíamos dizer que os cidadãos decidem? Se não for possível decidir pelo menos as condições básicas da existência social, isso significa que temos modalidades de participação política nas quais os cidadãos não podem decidir nada de substantivo sobre como a vida em comum é organizada. Talvez devêssemos perguntar-nos então: será que esta coisa chamada democracia funciona como democracia? E para quem? Outro significado fala de democracia substantiva. Esta concepção assenta numa ideia do homem como animal social. Somos chamados a viver socialmente em colaboração e de acordo com outros homens. Reconhecer-nos então como parte de uma comunidade, na qual o ser individual se reconcilia com a comunidade. Isto exige que a dor não seja institucionalizada: que se ponha fim à violência institucional e sistêmica. A igualdade social é então um componente central desta democracia. Não discorda dos procedimentos. Mas ele os considera apenas na medida em que não contradizem a igualdade social.