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Capítulo 3 0 Ambientalismo e a Abordagem Behaviorista Contextualização Observe a história em quadrinhos a seguir e repare na diferença de estímulos para cada personagem. FRANJUCA RECEBE A BOLA, NUM LINDO PUXOU PASSE DO MEIO DE CAMPO. PRA PERNA ESQUERDA E VOCE VIU, VOCE VIU? AVANCA PRA DEQUENA CRAQUE AVANCA CLARO QUE EU VI! ESQUERDA QUE FRANJA DA HORA! Embora ambos tenham observado os mesmos estímulos, podemos perceber que os processos de atenção variam de pessoa para pessoa e são sempre seletivos, ou seja, dependem das contingências de reforço, que pode ser positivo ou negativo. Em outras palavras, você percebe que um mesmo contexto pode ser percebido de forma diferente pelas pessoas e é totalmente dependente da subjetividade humana, mesmo diante da mesma situação? Cenas como essa se repetem diariamente em nossos cotidianos, em diferentes con- textos, com diferentes estímulos, proporcionando diferentes respostas. Pode-se então, que o comportamento humano, além de ser influenciado pelos estímulos pro- venientes do meio externo, é também resultado dos processos de privação ou sacia- ção a que os indivíduos estão submetidos? Seria então o comportamento influenciado,0 AMBIENTALISMO E A ABORDAGEM BEHAVIORISTA 33 sobretudo, pelas características provenientes do meio e resultante dos estímulos dele provenientes? Você está correto se respondeu que sim. Agora pense sobre o questionamento a seguir. Você já pensou? Como reforçar ou extinguir um comportamento indesejado? Comportamentos indesejados deixam de existir quando a punição para os mesmos é aplicada? Comportamentos desejados devem ser reforçados com recompensas que se tradu- zem em reforços positivos? Como fazer isso? Responder a esse questionamento não é simples, pois essa pergunta contém concei- tos que você ainda estudará ao longo deste capítulo. Esses e outros questionamentos são característicos da abordagem ambientalista, que busca explicações objetivas para o comportamento humano. É sobre isso que você estu- dará neste capítulo. Conceitos para entender a prática O que faz com que alguém preste mais atenção em um aspecto do que em outro? Na visão ambientalista (visão inspirada na epistemologia empirista e positivista, que concebe a origem do conhecimento como proveniente apenas da experiência, negando a existência de princípios puramente racionais), a atenção de uma pessoa é função das aprendizagens que realizou ao longo da sua vida, em contato com estímulos que refor- çaram ou puniram seus comportamentos anteriores. A aprendizagem, nessa perspectiva, é entendida como processo pelo qual o comportamento é modificado como resultado da experiência. Não é do interesse dos ambientalistas estudar pensamento, os desejos, a fan- tasia, raciocínio, sentimento e outras características não observáveis do ser humano, pois estes são objetos de estudos relacionados à corrente de pensamento racionalista, ao qual os ambientalistas se Com base nesses pressupostos, buscando uma Psicologia que seguisse a meto- dologia objetiva das ciências naturais, derivada do empirismo, cuja ênfase estava na experiência sensorial como fonte de conhecimento, surge o pensamento behavio- rista, também conhecido por abordagem comportamentalista.34 CAPÍTULO 3 Behaviorismo, ou Comportamentalismo, explica a aprendizagem, entre outros aspectos, como um sistema de respostas comportamentais a estímulos físicos. Os psicólogos que trabalham dentro desse paradigma estão interessados no efeito do reforço, da prática e da motivação externa sobre uma rede de associações e compor- tamentos aprendidos. Nesse enfoque, o comportamento humano é o eixo que move a aprendizagem que é resultante de determinados estímulos provenientes do meio externo. Burrhus Frederic Skinner é o principal teórico dessa corrente. Para esse autor, a apren- dizagem pode ser definida como uma troca observável e permanente de comportamentos e o ensino depende de contingências de reforço que permitem acelerar a De maneira geral e breve, na corrente behaviorista não são enfatizadas as ticas cognitivas dos indivíduos que aprendem, mas as condições externas que favorecem ou não a aprendizagem. Nesse tipo de abordagem, fundamental é a programação, em pequenos passos, de eventos que conduzam diretamente aos resultados. A orientação behaviorista considera o homem um organismo governado por estímulos fornecidos pelo ambiente externo, que pode ser manipulado por meio de adequado controle de estímulos ambientais. Além disso, as leis que governam o homem são, primordialmente, iguais às leis universais que governam todos os fenômenos naturais. Skinner estabeleceu e desenvolveu uma ciência do comportamento, que chamou de "Análise Experimental do Comportamento", e a Filosofia dessa ciência, a que chamou Behaviorismo Radical, que infelizmente tem sido muito mal entendida, por associarem o pensamento de Skinner ao behaviorista clássico John B. Watson (1878-1958). Ao contrário do que se postula, Skinner não aceitou uma Psicologia E-R (estímulo- resposta) porque ela não explica os comportamentos complexos. Uma explicação mais completa do comportamento precisa considerar as consequências do comportamento, e Skinner enfatizou a função seletiva das consequências do meio sobre o comportamento. Claro que alguns pressupostos de Skinner foram desenvolvidos a partir de estudos pré- vios, inclusive por ele criticados, como a teoria do condicionamento clássico de Pavlov e o condicionamento operante de Thorndike. Compreendê-los é fundamental para se enten- der a raiz do pensamento desse autor. Pavlov e o condicionamento clássico O termo condicionamento está ligado a um dos nomes mais famosos da Psicologia: Pavlov. 11 Gaonac'h & Golder (1995).E A ABORDAGEM BEHAVIORISTA 35 condicionamento clássico focaliza a aprendizagem de respostas emocionais e involuntárias como medo, taquicardia, salivação ou sudorese, que são, às chamadas de reativas porque são respostas automáticas a estímulos. processo de condicionamento clássico, seres humanos e animais podem ser para reagir de maneira involuntária a um determinado estímulo que antes não tinha nenhum efeito ou um efeito muito diferente sobre eles. O estímulo vem evocar, ou produzir, a resposta automática. Você já pensou? Imagine que você oferece a um um biscoito e, antes disso, toca uma campai- Você acha que o cão seria capaz de, depois de alguns dias repetindo a mesma situação, esperar por um biscoito ao ouvir a campainha? E os seres humanos, será que é possível condicionar o comportamento deles? Pavlov descobriu um fenômeno básico por um simples acidente. Ele estudava o sistema digestivo de cães. Estava tentando determinar quanto tempo um cão levava secretar sucos digestivos após ter sido alimentado, mas verificou que os interva- eram constantes. A princípio os cães salivavam enquanto eram alimentados. Começavam a salivar assim que viam à comida. Pavlov descobriu que os cães associa- a presença do cientista à comida e percebeu que eles começavam a salivar apenas a presença deste. A partir dessa descoberta, Pavlov decidiu fazer um desvio de experiências e examinar melhor essa ocorrência inesperada. Dando sequência ao seu experimento, começou soando um diapasão e registrando a do animal. Naturalmente, não havia salivação. Então ele alimentava o cão. Após diapasão inúmeras vezes e em seguida oferecer alimento, ele descobriu que podia o a salivar apenas soando o diapasão. Pavlov passou então a exibir novos e verificou a confirmação de suas hipóteses, ou seja, a cada estímulo uma res- No exemplo citado, assim que começou a soar o diapasão e o não apresentava isto é, não salivava, ele definiu que o som era um estímulo neutro, pois não associado a nenhum tipo de resposta. A comida, nesse caso, era um estímulo (2001).CAPÍTULO 3 36 não e a salivação natural do animal, já que não estava associada a nenhum tipo de estímulo, era a resposta não Após Pavlov ter repetido várias vezes experimento, começou a salivar quando ouvia o som do diapasão, mas antes de receber o alimento. Agora o som se tornou um estímulo e a salivação do animal, uma resposta Além desses experimentos, Pavlov também identificou outros tipos de condiciona- mento clássico, a que denominou generalização (responder da mesma maneira a estímu- los semelhantes), discriminação (responder de forma diferente a estímulos semelhantes mas não idênticos) e extinção (desaparecimento gradual de uma resposta aprendida). Para refletir! Ao analisar os experimentos de Pavlov e o contexto educacional na atualidade, você identificaria ainda hoje a existência de processos de condicionamentos dos nossos alunos, como por exemplo a partir de premiações, reforços, estímulos? Qual sua opi- nião ao se deparar com escolas que se utilizam desses métodos? O pensamento de Pavlov foi determinante para que Thorndike e, posteriormente, Skinner formulassem a teoria do condicionamento operante. 0 condicionamento operante O condicionamento clássico estudou as resposta involuntárias do comportamento, como salivação, medo, sudorese, entre outras reações sobre as quais não temos controle absoluto. Porém nem todas as respostas do organismo são automáticas e Emitimos comportamentos voluntários, agimos ativamente sobre ambiente e, con- sequentemente, produzimos uma série de consequências no mesmo. Tais ações, que emitimos de forma deliberada, podem ser chamadas de operantes. Nessa perspectiva teórica, processo de condicionamento não é iniciado pelo próprio organismo que se comporta, mas depende da atuação do ambiente sobre ele. Tanto as pessoas como os animais podem aprender através dele, mas é um processo lento e trabalhoso. Edward Lee Thorndike e, posteriormente, Skinner desempenharam importantes papéis no desenvolvimento do conceito de condicionamento operante. 13 Estímulo que não produz automaticamente uma resposta emocional ou fisiológica. 14 Resposta emocional ou fisiológica que ocorre naturalmente. 15 Estímulo que evoca uma resposta emocional ou fisiológica após o condicionamento. 16 Resposta aprendida a um estímulo anteriormente neutro.0 AMBIENTALISMO E A ABORDAGEM BEHAVIORISTA 37 Thorndike Edward Lee Thorndike (1874-1949) fez inúmeros estudos sobre aprendizagem. Ele inves- tigou a capacidade de peixes, pintinhos, gatos, macacos e cães para aprender, obser- vando que, diante de uma dada situação, animal apresentava múltiplas respostas. A disposição do organismo os levava ora à resolução do problema, ora à acomodação, e após sucessivos ensaios eles tendiam a eliminar os movimentos inúteis, dando respostas diferentes perante situações semelhantes. Com base em experimentos feitos com animais desde 1898, e depois com seres humanos, Thorndike elaborou suas célebres leis da aprendizagem, que foram revistas por ele mesmo e ampliadas por volta de 1930. Levando em conta que a aprendizagem humana depende da maturação do indivíduo, da motivação, do exercício e dos efeitos das próprias resoluções de problemas, Thorndike conclui existirem as seguintes leis da aprendizagem: Lei do efeito: quando as conexões nervosas E-R (estímulo-resposta) satisfazem uma necessidade, a força da coesão é aumentada. O sucesso reforça as conexões nervosas, e insucesso as enfraquece. Lei do exercício: quando diante de uma situação indivíduo dá certas respostas, os estímulos da situação e as respostas se tornam mais vinculados ao exercício. > Lei da preparação: quando uma conexão nervosa está preparada para agir, a passagem do influxo nervoso satisfaz. A não passagem desagrada. Lei da multiplicidade das respostas: não encontrando uma resposta correta rapidamente diante de uma situação nova, indivíduo varia suas respostas, até encontrar uma resposta bem-sucedida. Lei das atitudes: a resposta a um determinado estímulo não depende apenas do estímulo em si, mas também da condição interna do indivíduo que responde. Lei da atividade seletiva: a capacidade que aprendiz tem de selecionar, dentre os elementos de uma situação, aqueles que permitirão um ajustamento melhor. Lei da analogia: quando se encontra diante de uma situação nova, para a qual não aprendeu ainda uma resposta, indivíduo tende a reagir com uma resposta dada anteriormente a uma situação semelhante. A teoria conexionista de Thorndike procura explicar os hábitos do homem como produto de conexões nervosas. Ele estabelece a base para condicionamento ope- rante, mas Skinner (1953) é considerado responsável pelo desenvolvimento desse conceito.CAPÍTULO 3 38 Skinner Burrhus Frederic Skinner nasceu em 20 de março de 1904 em Susquehanna, no estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Sem apresentar muito sucesso como escritor e jornalista, doutorou-se em Psicologia pela Universidade de Para muitos Skinner é o psicólogo mais importante do século XX, mas também o mais mal interpretado. As pessoas erroneamente confundem com a psicologia S-R de Watson, a psicologia do condicionamento respondente, devido aos seus experimentos com ratos no início de sua carreira. Indevidamente, ele é associado à ideia de que os seres humanos apenas reagem a estímulos do meio ambiente e são condicionáveis como os animais, esquecendo-se de ver que Skinner defendia que o homem é um ser em constante desenvolvimento, que modifica o ambiente e é por ele modificado. E por acreditar nisso, já que o condicionamento clássico não explica como os comportamentos operantes são adquiridos, Skinner encontrou aí o objeto de sua pesquisa. Ele dizia que, se pudéssemos observar cuidadosamente comportamento humano, de um ponto de vista objetivo, e chegar a compreendê-lo pelo que ele é, poderíamos ser capazes de adotar um curso mais sensato de ação. Referia-se a uma ciência do comportamento, e à necessidade de estabelecer esse equilíbrio. Estamos interessados nas causas do comportamento humano. Queremos saber por que os homens se comportam da maneira como o fazem. Qualquer condição ou evento que tenha algum efeito demonstrável sobre o comportamento deve ser con- siderado. Descobrindo e analisando entre essas causas poderemos prever o compor- tamento; poderemos controlar o comportamento, na medida em que o possamos manipular (B.F. Skinner, 1998). Skinner, ao explicar sua visão de ciência, acreditava que, "desde que as condições relevantes possam ser alteradas, ou de algum modo controladas, futuro pode ser manipulado". Afirmava que uso de métodos da ciência, no campo dos assuntos humanos, pressupõe que comportamento é ordenado e determinado, sendo pos- sível esperar que o que o homem faz é o resultado de condições que podem ser especificadas e que, uma vez determinadas, podem antecipar, e até certo ponto, determinar as ações. Para ele, o homem é um agente livre, cujo comportamento é o produto não de condições antecedentes específicas, mas de mudanças interiores espontâneas.0 AMBIENTALISMO E A ABORDAGEM BEHAVIORISTA 39 Você já pensou? De que maneira pode o comportamento de um indivíduo (ou de grupos de indiví- duos) ser previsto e controlado? Com que se parecem as leis do comportamento? Que concepção geral emerge a respeito do organismo humano como um sistema em comportamento? Essas eram questões que Skinner levantava, entendendo que somente quando fos- sem respondidas se poderiam considerar as implicações de uma ciência do comporta- mento humano. Para respondê-las, ele começou com a crença de que os princípios do condiciona- mento clássico respondem por apenas uma porção dos comportamentos aprendidos, porém muitos comportamentos são operantes e não reativos, ou seja, não são respostas reflexas, involuntárias, e sim voluntárias. Para Skinner, o ambiente afeta organismo de várias maneiras que não podem ser convenientemente classificadas como "estímulos", e, mesmo no campo da estimu- lação, apenas uma parte das forças que agem sobre o organismo elicia respostas de modo invariável à ação reflexa. Nos pressupostos skinnerianos, é clara a mensagem de que as pessoas aprendem por meio dos efeitos de suas respostas deliberadas. Para ele, os efeitos de consequências, após uma ação, podem servir como reforço ou como punição. O reforço positivo e negativo fortalece uma resposta, enquanto a punição diminui ou suprime o comporta- mento. Skinner pressupõe que uma resposta fica fortalecida ou debilitada devido à presença ou à retirada de determinadas consequências. Se fica fortalecida, os processos recebem o nome de reforço positivo ou negativo; se fica debilitada, os processos recebem os nomes de castigo por representação e/ou retirada. Se a resposta fica debilitada ou desa- parece pela ausência de consequências, o processo recebe o nome de extinção. A noção de reforço é talvez sua mais potente formulação teórica. Os processos de reforço são aqueles em que um determinado tipo de resposta aumenta a probabilidade de ela ocorrer novamente no futuro.40 CAPÍTULO 3 Para Skinner o reforço pode ser negativo quando também aumenta a probabili- dade de aparição de uma resposta, mas que ocorre pela retirada de consequências. Em outras palavras, se uma resposta tem como efeito o desaparecimento de uma consequência aversiva, sua frequência aumenta. Assim, as pessoas aprendem que há comportamentos que devem evitar ou dos quais devem escapar. O princípio do reforço pode ser relacionado com a tendência que temos de produzir ações benéficas è grati- ficantes, evitando ações prejudiciais a nossa espécie. O castigo, termo muito utilizado por Skinner, não se refere à intenção de castigar, no sentido tradicional da palavra, mas sim a uma redução da probabilidade futura de uma resposta específica, como resultado da aparição imediata de um estímulo contingente a essa resposta. Pode-se dizer também que é a retirada da estimulação gratificante. Na teoria behaviorista de Skinner estão presentes também os conceitos de discrimi- nação e generalização, porém diferentes da maneira como foram apresentados por Thorndike. São processos de aprendizagem de comportamentos novos. Nessas situa- ções, as pessoas aprendem a emitir determinadas respostas na presença de componen- tes específicos de seu ambiente, e não de outros. Em outras palavras, são processos de aprendizagem que vinculam a atividade, de forma diferenciada, a aspectos relevantes do meio, de tal maneira que a própria ativi- dade adquire significado. Precisamente esses aspectos relevantes do ambiente são os estímulos discriminativos, que, uma vez consolidado o processo de discriminação, terão um forte poder de evocar certas respostas. A teoria de Skinner avança para formulações mais complexas, mas que não são objeto de discussão neste livro. importante do estudo desse autor é a contribuição que ele nos traz para o contexto das práticas pedagógicas. Por muitos anos os princípios behavioristas foram aplicados na educação, e con- tinuam sendo até hoje. Porém, você verá, na sequência deste capítulo, algumas das principais críticas tecidas a essa corrente de pensamento, e, no próximo capítulo, a con- tribuição da corrente cognitivista que "questionou o Behaviorismo". Antes de prosseguir, porém, é importante salientar que as correntes de pensamento de base empirista e ambientalista incluem também teóricos como Albert Bandura, Rosenthal, Watson, além dos clássicos já citados anteriormente, como Hume, Locke e James. Por ora, e sem esquecer de citar esses vários autores, coloca-se a ênfase sobre como se dá a aplicação do Behaviorismo skinneriano na educação.AMBIENTALISMO E A ABORDAGEM BEHAVIORISTA 41 A intervenção behaviorista na prática docente Considerar os pressupostos behavioristas na educação significa entendê-la como um processo que pode ser programado, definindo-se objetivos de aprendizagem e verifi- cando se eles foram atingidos ou não. Nessa perspectiva, a educação é pensada a partir do pré-planejamento de um cur- rículo escolar em que os conteúdos são vistos como um corpo finito de conhecimentos predeterminados, muitas vezes divididos numa ordem lógica e sequencial, variando da mais simples à mais complexa. De acordo com os princípios behavioristas, um bom professor é aquele que prepara e realiza contingências eficientes de reforço seletivo e deliberado, cujo efeito é mudar as respostas existentes no repertório do aprendiz. Assim, a corrente behaviorista sugere que os professores utilizem a instrução pro- gramada como ambiente de ensino, ou seja, onde o aluno deve aprender uma série de etapas, desenhadas para alcançar certos objetivos, todos conduzidos pelos ensinamen- tos do professor. Nessa premissa, caberá ao aluno observar, escutar as explicações do professor, ou envolver-se em experiências, atividades ou sessões práticas, cujo retorno resultará sempre em aprendizagem. Ademais, aprendizes serão vistos como agentes que necessitam de motivação externa e de reforço, que pode variar entre positivo e negativo. Na prática behaviorista, os educadores elaboram um currículo bem estruturado, sequenciado, determinando como eles abordarão, motivarão, reforçarão e avaliarão os alunos. O aprendiz é testado para ver onde ele se encaixa no contínuo desse currículo, e espera-se dele que progrida de uma forma quantitativamente contínua, contando que sejam fornecidos uma comunicação clara e o reforço apropriado. O progresso dos aprendizes é avaliado medindo-se resultados observáveis comportamentos em tarefas Embora tenham sido tecidas inúmeras críticas ao Behaviorismo, e muitas delas por má compreensão de seus pressupostos, a teoria de Skinner deve ser entendida como uma teoria psicológica sobre a aprendizagem que dá lugar primordial à ação. De fato, o condicionamento operante no qual se inspira o ensino programado skinneriano parte do comportamento do sujeito e reforça sistematicamente aquele desejado. Dessa forma, para que haja aprendizagem, todas as atividades do sujeito devem ser 17 Fosnot (1998). 18 La Taille (1990).42 CAPÍTULO 3 Para compreender adequadamente as ideias de Skinner é necessário identificar que os princípios básicos do são que: > Um indivíduo aprende ou modifica seu modo de atuar observando as consequên- cias dos seus atos. > As consequências que fortalecem a probabilidade de repetição de uma ação deno- minam-se reforço. Quanto mais imediato é o reforço da conduta desejada, tanto mais provável será a repetição dessa conduta. Quanto mais frequentemente se produza o reforço, tanto mais provável será que o estudante continue a realizar associações. > A ausência ou inclusão do atraso do reforço aumenta o tempo que o aluno dedi- cará a uma tarefa sem receber mais reforços. A conduta de aprendizagem de um estudante pode desenvolver-se ou modelar-se gradualmente mediante o reforço diferencial, ou seja, reforçar as condutas que se devem repetir e evitar reforçar as indesejáveis. Além de tornar mais provável a repetição de uma ação, o reforço aumenta as atividades de um estudante, acelera seu ritmo e incrementa seu interesse por aprender. Pode-se dizer que esses são os efeitos de motivação do reforço. A conduta de um estudante pode converter-se em um padrão completo, mode- lando os elementos simples de tal padrão e combinando-os em uma sequência em cadeia. Em resumo, a teoria behaviorista oferece razões para crer que o material de apren- dizagem pode ser separado em componentes menores. Nessa forma, pode-se ensinar a um estudante que domine toda a matéria, reforçando ou não suas respostas em etapas sucessivas, sejam elas corretas ou incorretas. Os resultados práticos da aplicação desse modelo à são que: > Toda aprendizagem programada pode ser eficaz. > A aprendizagem programada pode reduzir os dos alunos na medida em que o material tenha sido provado ou ajustado. Um programa de aprendizagem pode nivelar as diferenças das capacidades dos estudantes. > O tempo de aprendizagem individual pode variar muito, por isso se sugere traba- em um ritmo próprio. 19,20 Galvis (1992).AMBIENTALISMO E A ABORDAGEM BEHAVIORISTA 43 A possibilidade de predizer o êxito individual pode diminuir devido ao fato de quem tarda a aprender possa esperar melhores resultados com materiais progra- mados do que com outros métodos de aprendizagem. A motivação da aprendizagem pode aumentar realmente devido ao fato de os alu- nos sentirem que têm êxito. Por outro lado, a antecipação de reforços (motivação extrínseca) pode servir de ignição ao motor do processo de aprendizagem. Pode-se então que a grande contribuição do pensamento behaviorista para a Educação é que, para os behavioristas, é importante planejar ensino, com a definição clara dos objetivos a serem alcançados, com a preparação do ambiente da aprendiza- gem e das sequências a serem seguidas até o alcance do objetivo, e com a definição dos mecanismos de reforço que serão utilizados. Uma das vantagens dos materiais de ensino programado, segundo essa abordagem, é a de que essa corrente se encarrega de proporcionar aos estudantes a informação básica sobre um dado tema e libera o professor para criar novas estratégias instrucionais, complementar o ensino com outros materiais e enriquecer as experiências dos alunos. Um exemplo concreto, e bem positivo, da aplicação da abordagem de Skinner à edu- cação é o da comunidade mexicana Los Horcones, e que está em pleno funcionamento atualmente. Em outubro de 1973, um grupo de sete pessoas, muitas das quais eram compor- tamentalistas, interessadas na prevenção e solução de problemas sociais, fundou a Comunidade Los Horcones (http://www.loshorcones.org), nos subúrbios da cidade de Hermosillo, capital do estado de Sonora, norte do México. O objetivo da comunidade foi de construir uma sociedade comunitária na qual cada pessoa pudesse desenvolver seu próprio potencial como indivíduo único e ajudar as outras pessoas a alcançá-los, aplicando a ciência do comportamento, também conhecida como análise do comportamento, de influência behaviorista. São aplicados princípios que na experiência de ensino têm mostrado resultados animadores. Eles consideram que uma aplicação apropriada da ciência em geral pode contribuir enormemente para a formação de uma sociedade comunitária humanista e que a ciência que mais necessita dessa empresa é a ciência do comportamento a Psicologia como ciência natural. "Condutologia" (conducta em espanhol quer dizer comportamento) foi termo empregado pela comunidade em Los Horcones, em 1974, para referir-se à ciência do 21 Ramos (1995).CAPÍTULO 3 44 comportamento. O objeto de estudo é a contingência, ou seja, a relação entre o com- portamento e os eventos do meio ambiente. A abordagem behaviorista é criticada por desconsiderar processo de construção do aluno, do seu conhecimento. As abordagens cognitivas, por sua vez, têm esse fator como a base de sustentação do processo de ensino-aprendizagem. Não existe uma cor- rente psicológica única, que centre os seus esforços em entender tanto os processos e as estruturas da mente como o comportamento humano propriamente dito. Nesse sentido, torna-se necessário apresentar aportes teóricos de outras correntes de pensamento, que buscam compreender como se processa fenômeno do ensino e aprendizagem, como é caso, por exemplo, das teorias cognitivas da aprendizagem, que você estudará no capítulo seguinte. Para debater Faça um exercício de memória e procure se lembrar de quando estava na primeira série do ensino fundamental. Você se lembra de quem foram seus professores? Que técnicas e recursos eram utilizados para favorecer o seu aprendizado? Quais deles eram eminen- temente behavioristas, e por quê? Faça essa discussão em pequenos grupos e depois explore com a sala as diferentes impressões de cada grupo. Intertextos Veja o Skinner: Modelagem. Disponível em:0 E A ABORDAGEM BEHAVIORISTA 45 Nele, Baum explica a base da análise do comportamento e sua aplicação aos pro- blemas humanos, fundamentando-se na premissa de que uma ciência do com- portamento é possível. Resumo executivo Dos conteúdos que você estudou neste capítulo, não esqueça que: Na visão ambientalista, a aprendizagem é entendida como o processo pelo qual o comportamento é modificado como resultado da experiência. O Behaviorismo explica a aprendizagem, entre outros aspectos, como um sistema de respostas comportamentais a estímulos físicos. O comportamento humano é o eixo que move a aprendizagem que é resultante de determinados estímulos provenientes do meio externo. Para B.F. Skinner, a aprendizagem pode ser definida como uma troca observável e permanente de comportamentos e o ensino depende de contingências de reforço que permitem acelerar a aprendizagem. Skinner estabeleceu e desenvolveu uma ciência do comportamento, a que chamou "Análise Experimental do Comportamento", e a filosofia dessa ciência, a que cha- mou Behaviorismo Radical. O termo condicionamento está ligado a um dos nomes mais famosos da Psicologia: Pavlov. Pelo processo de condicionamento clássico, seres humanos e animais podem ser treinados para reagir de maneira involuntária a um determinado estímulo que antes não tinha nenhum efeito ou um efeito muito diferente sobre eles. O estímulo vem para evocar, ou produzir, a resposta automática. Levando em conta que a aprendizagem humana depende da maturação do indi- víduo, da motivação, do exercício e dos efeitos das próprias resoluções de proble- mas, Thorndike conclui existirem diversas leis da aprendizagem. Skinner buscava a formulação de uma ciência do comportamento. Acreditava que, "desde que as condições relevantes possam ser alteradas, ou de algum modo con- troladas, o futuro pode ser A noção de reforço é talvez sua mais potente formulação teórica. Para Skinner o reforço pode ser negativo quando também aumenta a probabili- dade de aparição de uma resposta, mas que ocorre pela retirada de consequências. Conceitos como condicionamento operante, castigo, punição, descriminalização e generalização também estão presentes na teoria behaviorista de Skinner. A teoria de Skinner deve ser entendida como uma teoria psicológica sobre a apren- dizagem que dá um lugar primordial à ação.CAPÍTULO 3 46 > Existem grandes contribuições do pensamento behaviorista para a educação, e ainda hoje sua teoria é aplicada, mas os pressupostos de Skinner não devem ser mal interpretados. Teste seu conhecimento As questões a seguir são adaptadas de concursos públicos para que você possa desde já colocar em prática o que aprendeu com base numa situação real de teste de conhecimentos. 1. Na concepção behaviorista clássica, a motivação é colocada em perspectivas muito diferentes das demais teorias. A resposta ou reação do indivíduo, e, portanto, sua atividade em uma direção qualquer, é a. Da relação parental. b. Dos fatores hereditários. C. Do ambiente. d. Da ação estímulo e resposta condicionada. e. Da ação estímulo e resposta incondicionada. 2. Dentro dos princípios básicos da aprendizagem, na concepção behaviorista, pode- mos diferenciar condicionamento clássico do condicionamento operante sob três aspectos: a natureza dos estímulos, o tipo de resposta aprendida, a relação entre a resposta e o reforço. Assinale a alternativa a seguir que está a. A diferença mais importante é a relação entre o reforço e a resposta b. No condicionamento operante, o estímulo é uma situação duradoura que tem vários aspectos, apenas um dos quais é significativo para aprendizagem. C. No condicionamento clássico, a resposta, como estímulo, é específica. d. No condicionamento operante, o estímulo é um acontecimento específico. e. No paradigma operante, pode-se falar em reforçadores incondicionados (primá- rios) ou condicionados (secundários). O primeiro já possui propriedades reforça- doras, enquanto o segundo requer pareamento prévio com outros reforçadores para adquirir seus efeitos. 22 Questão adaptada de FCC MPE PE (2006). 23 Questão adaptada de ESAG, TJ MA (2005).0 AMBIENTALISMO E A ABORDAGEM BEHAVIORISTA 47 3. B.F. Skinner apontou que o comportamento operante é fortalecido ou enfraquecido pelos eventos que seguem a resposta e que, enquanto o comportamento respon- dente é controlado por seus antecedentes, o comportamento operante é controlado por:24 a. Processos autônomos. b. Suas consequências. C. Emoções do indivíduo. d. Pensamentos automáticos do indivíduo. e. Experiências subjetivas. 4. Segundo Skinner, em seu pensamento behaviorista, o comportamento humano pode ser explicado a partir da observação e da experimentação sistemática. Com seu conjunto de princípios, estruturou diversos termos específicos. Assinale a alternativa que apresenta o termo correspondente à seguinte definição: "é capaz de fortalecer uma reação quando esta remove algum estímulo a. Condicionamento operante. b. Reforço positivo. C. Reforço negativo. d. Condicionamento respondente. e. Punição. 5. B.F. Skinner definiu a personalidade a. O produto decorrente dos comportamentos espontâneos e recorrentes. b. Um conjunto de traços específicos de um indivíduo. C. O conjunto dos comportamentos reflexos e de estímulos respondentes. d. Uma coleção de padrões de comportamento. e. A estrutura subjacente à matriz de identidade do indivíduo. 24 Questão adaptada de FCC - TRE-RS Psicologia (2010). 25 Questão adaptada de ACEP - CE Psicologia (2010). 26 Questão adaptada de FCC TJ-SE - Psicologia (2009).