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consumidorconsumidor comportamento comportamento dodo fabiano caxito fabiano caxito ISBN 978-65-5821-118-1 9 786558 211181 Código Logístico I000582 Comportamento do consumidor Fabiano Caxito IESDE BRASIL 2022 Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br © 2022 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito do autor e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Golden Sikorka/Shutterstock - TatiVovchenko/Shutterstock - elenabsl/Shutterstock - TarikVision/Shutterstock - Macrovector/Shutterstock - Ketmut/Shutterstock CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ C377c Caxito, Fabiano Comportamento do consumidor / Fabiano Caxito. - 1. ed. - Curitiba [PR] : IESDE, 2022. 124 p. : il. Inclui bibliografia ISBN 978-65-5821-118-1 1. Marketing. 2. Comportamento do consumidor. 3. Consumidores - Atitudes. I. Título. 22-76083 CDD: 658.8342 CDU: 366.1 Fabiano Caxito Mestre em Administração Estratégica pela Universidade Nove de Julho (Uninove). MBA em Recursos Humanos pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Pós-graduado nos seguintes cursos: Business Intelligence, Big Data e Analytics, pela Universidade Anhanguera; Língua Portuguesa: redação e oratória, pela Universidade São Francisco; e Filosofia, pela Universidade Estácio de Sá. É pós-graduado, também, em Educação Corporativa, Educação Financeira, Tecnologias e Educação a Distância, Antropologia, Sociologia Política e Urbana e Coaching pela Faculdade UniBF. Graduado em Administração Financeira pela Universidade Cidade de São Paulo (Unicid). Atuou nas áreas comerciais, de logística e de recrutamento e seleção, bem como no treinamento e desenvolvimento em diversas empresas de distribuição e venda de bebidas. Foi coordenador de cursos de pós-graduação lato sensu. Atualmente, é professor universitário e influenciador digital. Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! SUMÁRIO 1 Evolução do comportamento do consumidor 9 1.1 Fundamentos do comportamento do consumidor 10 1.2 Fatores culturais, sociais, pessoais e psicológicos 16 1.3 Papéis no processo de consumo 21 1.4 Sociedade de consumo 24 1.5 Influências sobre o processo de compra 27 2 Processo de decisão do consumidor 35 2.1 Etapas do processo de decisão de compra 36 2.2 Processo de percepção e o consumo 38 2.3 Atividades mentais e emocionais do consumo 43 2.4 Variáveis do comportamento do consumidor 47 2.5 Decisão de compra física e virtual 50 3 Pesquisa e análises sobre o consumidor 54 3.1 Uso da pesquisa no marketing 55 3.2 Métricas usadas no consumo digital 60 3.3 Coleta e análise de dados qualitativos e quantitativos 64 3.4 Mensuração de resultados no Marketing Digital 68 3.5 Big Data, mídias digitais e Social Marketing Analytics 71 4 Netnografia 77 4.1 Comportamento do consumidor em canais digitais 78 4.2 Hábitos de uso de canais digitais 82 4.3 Interação e engajamento no ambiente digital 86 4.4 Iconologia e símbolos nas redes sociais 88 4.5 Arquétipos e perfis de comportamento do consumidor 90 4.6 Ciberespaço, cibercultura, tribalismo e ativismo 94 5 Jornada e experiência do cliente 100 5.1 Era do consumidor 101 5.2 Segmentação dos consumidores digitais 106 5.3 Mapeamento da jornada do consumidor 109 5.4 Gestão da jornada do consumidor 113 5.6 Customer experience, user experience, brand experience 116 Resolução das atividades 121 Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! O consumo de bens e serviços tem um papel central na sociedade contemporânea. Além de ser um dos fatores responsáveis pelo crescimento econômico global e um dos motores do desenvolvimento tecnológico, pois as empresas buscam lançar continuamente novos produtos e serviços para atender às necessidades e demandas de seus clientes, o consumo passou a ser uma forma de expressão tanto do indivíduo quanto dos grupos sociais, bem como um elemento de reconhecimento do status social do indivíduo na sociedade. O Capítulo 1 apresenta os conceitos básicos sobre o consumo e descreve os processos de compras realizados por empresas e pessoas. O impacto das influências externas, que incluem fatores culturais e sociais, e dos fatores pessoais e psicológicos dos indivíduos sobre o consumo, bem como os diversos papéis que os indivíduos representam durante um processo de compras também são abordados. Apesar de sua importância, o excesso de consumo, chamado de consumismo, também traz diversos desafios para a sociedade contemporânea, como os impactos ambientais e a saúde mental dos clientes, que passam a consumir de modo compulsivo. O segundo capítulo aborda o impacto do desenvolvimento tecnológico sobre as relações que se estabelecem entre fornecedores e consumidores. O rápido desenvolvimento das tecnologias da informação e da comunicação, como a internet e as redes sociais mudou completamente a forma como os consumidores desenvolvem seu processo de consumo, desde a identificação de necessidades e desejos, passando pela busca de informações, decisão de compra e avaliação pós-compra. Em todos esses momentos, as informações a que o consumidor tem acesso e as opiniões de outras pessoas nas redes sociais influenciam as suas decisões. Ainda no capítulo, será feita uma comparação entre os processos de compra tradicional e de compra on-line. Conhecer o consumidor, seus desejos e necessidades, opiniões e formas de pensar sempre foi importante para que APRESENTAÇÃOVídeo 8 Comportamento do consumidor as empresas possam desenvolver suas atividades. Porém, no contexto da transformação digital, a coleta, organização e análise de informações sobre o consumidor se tornam ainda mais centrais. No Capítulo 3, o tema central é conhecer e entender as estratégias e ações colocadas em prática pela empresa em sua estratégia de marketing, desde o desenvolvimento dos produtos até o acompanhamento das opiniões dos consumidores após o consumo. O capítulo aborda a pesquisa de marketing, ferramenta fundamental para que a empresa possa conhecer seus clientes. Os impactos da transformação digital sobre a forma que as empresas realizam a coleta de informações sobre o consumidor, os indicadores utilizados na atuação no ambiente virtual e as ações de marketing digital também são discutidas, bem como os conceitos fundamentais para se entender o ambiente virtual, como o Big Data e as ferramentas de marketing analytics e social media analytics. As profundas mudanças observadas na sociedade, com o advento da tecnologia da informação, da internet e das redes sociais, levam as empresas a buscar novas formas de compreender os processos de decisão de compras de seus clientes. O tema do quarto capítulo é a netnografia, estudo dos impactos da tecnologia sobre a forma como os indivíduos se comportam em sociedade, é uma das ferramentas utilizadas pelas empresas para compreender seus clientes. O uso de canais digitais pela empresa, tanto para coletar dados sobre seus clientes quanto para criar canaisconsumista na sociedade atual. Revista Interfaces Científicas-Humanas e Sociais, v. 1, n. 1, p. 53-62, 2012. Disponível em: https://periodicos.set.edu.br/humanas/ article/view/164/95. Acesso em: 1º dez. 2021. OLIVEIRA, A. S. Transição demográfica, transição epidemiológica e envelhecimento populacional no Brasil. 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A primeira parte do capítulo apresenta as diversas etapas e os diferentes tipos de processos de consumo e discute os impactos da internet e das redes sociais sobre essas etapas, especialmente sobre a identificação de necessidades e a criação de desejos de consumo. A busca por informações internas e das diversas fontes externas, que são fundamentais tanto para o processo de percepção do consumidor quanto para as decisões de consumo, é abordada na segunda parte deste capítulo. Já o impacto das emoções e das estruturas psicológicas do indivíduo sobre o processo de compra, notadamente durante a análise das alternativas e decisão de consumo, é o tema da terceira parte. A quarta parte tem como objetivo abordar as variáveis internas e externas que influenciam a decisão do consumidor, destacando a forma como o processo de decisão de compras tem sido impactado pelas redes sociais e pelo e-commerce, tanto do ponto de vista do consumidor quanto do ponto de vista das empresas, que precisam se reinventar para atuar nesse novo ambiente concorrencial. Por fim, a última parte deste capítulo apresenta uma comparação entre os processos de compra tradicional, que se desenvolve nos varejos físicos, com os processos de compra digitais, representados pelas lojas virtuais e e-commerce. 36 Comportamento do consumidor 2.1 Etapas do processo de decisão de compra Vídeo Blackwell, Miniard e Engel (2011) identificam diversas etapas que compõem o processo de compras, que se inicia com a identificação de uma necessidade ou um desejo; a busca de informações sobre os diversos bens, produtos, experiências ou serviços que podem atender à esta necessidade ou desejo; seguida da tomada de decisão de compra com base na análise das informações coletadas; a efetivação da com- pra; o uso ou consumo do bem; a comparação entre a expectativa e a realidade de consumo; e, por fim, o descarte do bem. O processo de compra de um produto, serviço ou experiência se inicia por meio da percepção de uma necessidade ou um desejo, que Blackwell, Miniard e Engel (2011) definem como a consideração de que existe uma diferença entre o estado, ou a situação desejada pelo indivíduo, e a situação atual, que gera uma insatisfação, dando início ao processo de busca por uma solução, geralmente obtida por meio da compra ou uso de um bem ou serviço. De modo semelhante, Solomon (2016) afirma que aidentificação de um problema a ser resolvido, uma necessidade a ser atendida, ou um desejo a ser satisfeito, é o gatilho que dispara o processo de consumo. Para Schiffman e Kanuk (2009), o processo de compra pode ser mais simples ou mais complexo, dependendo do nível de envolvimento do consumidor com o produto, serviço, ou a urgência da necessidade. Situações cotidianas ou urgentes levam a processos rápidos e imediatos. Já necessidades ou desejos que envolvem decisões de longo prazo e alto investimento de tempo, dinheiro, ou qualquer outro tipo de recurso, dão origem a processos longos de compra, nos quais cada uma das fases exige tempo e dedicação. Para explicar um processo de compra simples, Garcia et al. (2017) usam como exemplo um consumidor que, ao dirigir seu veículo, percebe que o combustível está acabando e busca um posto de abastecimento. É um processo quase automático, em que, muitas vezes, o consumidor toma decisões de maneira mecânica e inconsciente. Porém, se esse mesmo consumidor sente a necessidade ou o desejo de comprar um novo automóvel, inicia, por conta disso, um processo complexo Conhecer as etapas do processo de decisão de compra e como cada uma delas pode ser influencia- da por fatores internos e externos. Objetivo de aprendizagem Pense nas últimas com- pras que você realizou. Tome como exemplo a última vez na qual você, estando fora de casa, sentiu fome ou sede, e comprou um alimento ou bebida para saciar sua necessidade. Como foi o processo? Ao sentir fome, você fez uma pesquisa de produtos e comparou di- versos fornecedores? Ou simplesmente parou no primeiro bar ou lanchone- te e comprou um lanche ou um salgado? Agora pense na decisão que você tomou ao se matricular neste curso. Você realizou pesquisas para definir qual escola escolher? Buscou infor- mações de ex-alunos ou comentários em sites e redes sociais? Buscou in- formações junto a órgãos de ensino? Comparou diversas universidades antes de escolher? Anote suas respostas, compare os dois processos e identifique as principais diferenças. Desafio Ka sp ar s Gr in va ld s/ Sh ut te rs to ck de busca de informações, comparação de alternativas, e uma decisão que levará em consideração diversas variáveis diferentes, como características técnicas, preço, forma de pagamento, garantia, marca do veículo e design. Em uma sociedade que incentiva o consumo, em que a posse e o uso de bens são enxergados, segundo Mowen e Minor (2008), como símbolo de status, e as marcas representam valores e estilos de vida tidos como ideais, os indivíduos são levados a desejar novos produ- tos, experiências e serviços, mesmo que os bens já possuídos atendam plenamente suas necessidades. Nesse sentido, a internet e, em especial, as redes sociais, desempenham um papel cada vez mais importante na criação de desejos, modas, tendências e movimentos que incentivam o consumo e a compra de bens, produtos, serviços e experiências. Segundo Brito e Freitas (2019, p. 116), “o processo de engajamento e a interação dos usuários no ambiente online dão base para entendimento do comportamento dos consumidores na era de redes sociais. Logo, é possível dizer que as redes sociais afetam os consumidores ao mesmo tempo em que também são afetadas por eles”. Como destacam os autores, a interação é uma via de mão dupla, ou seja, da mesma forma que a empresa incentiva o engajamento dos consumidores, ela também é influenciada pelas informações compartilhadas pelos clientes. O processo de compra de um imóvel é extremamen- te complexo e longo, por envolver uma das com- pras mais caras e mais importantes que uma pessoa faz em sua vida. O artigo, do site LinkedIn, Ainda há muita casa a ser construída, muito imóvel a ser vendido e muito crédito imobiliário a ser concedido, discute diversas variáveis externas, como aspectos econômicos, sociais, demográficos e culturais, que influenciam o processo de compra de um imóvel ao criar nas pessoas a percepção de necessidade e desejo pe- los produtos imobiliários. Disponível em: https://www. linkedin.com/pulse/o-que-aprendi- bradesco-ainda-h%C3%A1-muita- casa-ser-muito-im%C3%B3vel- caxito/?published=t. Acesso em 25 jan. 2022. Leitura Processo de decisão do consumidorProcesso de decisão do consumidor 3737 https://www.linkedin.com/pulse/o-que-aprendi-bradesco-ainda-h%C3%A1-muita-casa-ser-muito-im%C3%B3vel-caxito/?published=t https://www.linkedin.com/pulse/o-que-aprendi-bradesco-ainda-h%C3%A1-muita-casa-ser-muito-im%C3%B3vel-caxito/?published=t https://www.linkedin.com/pulse/o-que-aprendi-bradesco-ainda-h%C3%A1-muita-casa-ser-muito-im%C3%B3vel-caxito/?published=t https://www.linkedin.com/pulse/o-que-aprendi-bradesco-ainda-h%C3%A1-muita-casa-ser-muito-im%C3%B3vel-caxito/?published=t https://www.linkedin.com/pulse/o-que-aprendi-bradesco-ainda-h%C3%A1-muita-casa-ser-muito-im%C3%B3vel-caxito/?published=t 38 Comportamento do consumidor Garcia et al. (2017) realizaram uma pesquisa sobre o processo de compras dos consumidores e identificaram alguns impactos do uso da internet e das redes sociais em todas as etapas indicadas por Blackwell, Miniard e Engel (2011). Na etapa do reconhecimento da necessidade ou do desejo, a pesquisa mostra que as imagens de produtos, experiências e consumo de serviços, divulgadas em sites, vídeos, em especial, nas redes sociais, geram um forte estímulo que cria desejos, mesmo que, segundo Garcia et al. (2017), não haja uma necessidade real e aparente que leve ao consumo. Os autores destacam que o consumo de moda, cosméticos, eletrônicos, bebidas, comidas e experiências, como viagens, são algumas das categorias nas quais os entrevistados consideram sentir maior influência da internet sobre suas decisões de consumo. O artigo Em busca de “likes”: a influência das mídias sociais no comportamento do consumidor no consumo de viagens, dos autores Francisco W. C. Brito e Ana Augusta F. de Freitas, publicado em 2019, na revista internacional Turismo y Patrimonio Cultural, mostra o impacto dos influenciadores digitais e das redes sociais sobre o consumo de experiências de turismo do artigo, que busca entender o impacto das postagens de fotos e vídeos de viagens e eventos turísticos em redes sociais sobre a criação do desejo de consumo nos seguidores dos perfis de influenciadores digitais. Também discute como os feedback obtidos por meio da quantidade de visualizações, comentários e curtidas nas publicações direcionam as decisões sobre o tipo de conteúdo postado pelos influenciadores. Acesso em: 25 jan. 2022. https://riull.ull.es/xmlui/bitstream/handle/915/12398/PS_17_1_2019_08.pdf?sequence=1&isAllowed=y Artigo As diversas categorias identificadas na pesquisa mostram que a internet influencia tanto as decisões de consumo de cotidiano, como alimentação e vestuário, quanto o consumo de produtos, serviços e experiências que envolvem decisões mais complexas, como viagens e compra de bens duráveis. 2.2 Processo de percepção e consumo Vídeo Ao perceber que o consumo de um produto, serviço ou experiência pode resolver um problema, atender a uma necessidade ou realizar um desejo, o consumidor inicia o processo de busca por informações que vão basear suas escolhas e decisões de consumo. https://riull.ull.es/xmlui/bitstream/handle/915/12398/PS_17_1_2019_08.pdf?sequence=1&isAllowed=y Processo de decisão do consumidor 39 Assim como as redes sociais influenciam a etapa do reconhecimento da necessidade e criação do desejo de consumo, elas também influenciam a etapa da busca da informação e a percepção do consumidor quanto à escolha da melhor solução de compra. Blackwell, Miniard e Engel (2011) explicam que a etapa da busca por informação envolve tanto informações internas, que o indivíduo já as possui com base em experiências anteriores e conhecimentos preestabelecidos, quanto informações externas, recebidas por meio da publicidade, dos amigos, da exposição de produtosem lojas, de informações dadas por vendedores, de especialistas e, cada vez mais, recebidas pela internet, em sites, redes sociais e, especialmente, influenciadores digitais. A busca por informações externas, segundo Mowen e Minor (2008), pode ocorrer de maneira orientada e organizada, a partir de uma necessidade, um desejo identificado ou, também, de maneira contínua, quando se trata de um tema ou assunto sobre o qual o consumidor se interessa. Um consumidor pode ter interesse no consumo de vinhos e, por esse motivo, busca constantemente informações sobre o tema em cursos, palestras, livros, programas, vídeos e sites, sem que isso tenha relação direta a um processo de compra. Por outro lado, pode ser impactado por uma comunicação publicitária de uma empresa apresentando um novo produto que gere um desejo de consumo, e buscar informações específicas para adquirir esse produto, como preço, formas de pagamentos e locais de compra. ar ty wa y/ Sh ut te rs to ck Mowen e Minor (2008) destacam que, em geral, no primeiro momento da etapa de busca por informações, o consumidor acessa suas informações internas, como fatos que já conhece sobre o bem, experiências anteriores de compra ou conhecimentos que já possui. Caso o consumidor já tenha um elevado conhecimento ou muitas experiências sobre a forma de atender a sua necessidade ou ao seu desejo, pode tomar a decisão de compra apenas a partir das informações internas, como quando tem preferência por uma determinada marca, ou já conhece um determinado prestador de serviço com o qual já teve experiências satisfatórias. Nesse caso, a decisão de compra é praticamente automática, sem a necessidade de buscar novas informações ou realizar análises ou comparações. Entender como ocorre o processo interno de percepção das necessi- dades e dos desejos em cada etapa do processo de consumo. Objetivo de aprendizagem 40 Comportamento do consumidor A busca por informações externas ocorre quando o consumidor considera que não dispõe de todas as informações que necessita para tomar a decisão de compras. Kotler e Keller (2019) explicam que a busca intencional de informações pode ser dividida em quatro diferentes tipos de fontes, como apresentado a seguir. FONTES PESSOAIS: Família, amigos, conhecidos FONTES COMERCIAIS: Propagandas, publicidade, vendedores, exposição de produtos, embalagens FONTES PÚBLICAS: Meios de comunicação, internet, redes sociais FONTES EXPERIMENTAIS: Manuseio, teste do produto ku ro ks ta /S hu tte rs to ck da vo od a/ Sh ut te rs to ck lin ea r_ de si gn / Sh ut te rs to ck Al ex an de r R ya bi nt se v/ Sh ut te rs to ck Figura 1 Fontes de informação no processo de compras Fonte: Elaborada pelo autor com base em Kotler; Keller, 2019. As fontes pessoais são representadas pelas pessoas da família, dos amigos e dos conhecidos a quem o consumidor pede informações, opiniões ou dicas. As fontes comerciais incluem as propagandas e mensagens publici- tárias desenvolvidas pela empresa fornecedora do bem ou do serviço, pe- los vendedores, pela exposição de produtos nas lojas e nas embalagens. Já as fontes públicas envolvem os meios de comunicação, como televisão, imprensa, internet, redes sociais, ou seja, qualquer fonte que forneça informações sobre os produtos e os serviços. Por fim, as fontes experimentais estão relacionadas ao manuseio ou ao teste do produto ou do serviço, como os test drives oferecidos Processo de decisão do consumidor 41 pelas empresas de automóveis, as aulas-teste oferecidas por escolas e academias de ginástica ou as amostras grátis de produtos. Na prática Escolha uma compra importante que tenha realizado no último ano, pode ser um produto, serviço ou experiência. Primeiro, identifique as informações internas que você já tinha sobre o produto e as marcas. Como você obteve essa informação? Foi com base em uma experiência anterior ou você já se interessava pelo assunto? Em seguida, analise também sua busca por informações externas. Liste quais foram as fontes que você buscou (opinião de amigos, pesquisas em sites ou visita a lojas físicas). Qual foi a influência de cada uma dessas fontes sobre sua decisão final no processo de compra? Informação Fonte Impacto sobre a decisão final Informação interna Informação externa No processo tradicional de compra, que ocorre fora do ambiente digital, a etapa da busca por informação é, muitas vezes, restringida pela disponibilidade de recursos dos quais o consumidor dispõe para identificar as informações necessárias. Um consumidor que busque comparar os preços de um pro- duto entre os diversos fornecedores disponíveis, precisará visitar fisicamente diversas lojas, o que demanda, além de tem- po, outros recursos, como o dinheiro necessário para se deslocar entre os pontos de venda. Mesmo que considere não ter coletado todas as informações necessárias para tomar a decisão, o consumidor pode decidir encerrar a etapa da busca de informações por considerar que novas infor- mações podem não justificar o uso dos recursos. ar ty wa y/ Sh ut te rs to ck Blackwell, Miniard e Engel (2011) destacam o impacto da inter- net e das redes sociais sobre a etapa de busca da informação, devi- do à facilidade com que o consumidor pode acessar a uma grande 42 Comportamento do consumidor quantidade de informações, opiniões de outros consumidores e de influenciadores especializados em testar e comparar produtos. Na pesquisa realizada por Garcia et al. (2017), os autores identificaram que a facilidade de acesso e a grande quantidade de informações disponíveis tanto facilita a busca por informações quanto torna mais complexa a tomada de decisão, pois ao mesmo tempo que possibilita que o consumidor possa conhecer e comparar informações, o excesso de informações, muitas vezes conflitantes, advindas de diferentes fontes, aumenta a insegurança e gera ansiedade no consumidor. Algumas das pessoas que responderam à pesquisa relatam sentir a sensação que, mesmo com muitas informações, sempre é possível ter acesso a mais de uma opinião ou ponto de vista, o que pode tornar demorado o processo de busca e escolha da melhor opção ou, até mesmo, levar à desistência da compra. Outra questão levantada na pesquisa está relacionada à confiabilidade das informações a que o consumidor tem acesso. Nesse sentido, Brito e Freitas (2019) analisam o papel dos influenciadores digitais, que apesar de poderem ser classificados como uma fonte pública, no modelo de tipos de fontes de informações de Kotler e Keller (2019), eles são muitas vezes considerados pelos consumidores como uma fonte pessoal, na qual confiam. Sh lya ho va Yu lia /S hu tte rs to ck O que você prefere? Chá Café Por outro lado, como destacam Brito e Freitas (2019), a decisão dos influenciadores sobre o que postar e que tipo de informação disponibilizar muitas vezes é influenciada pela resposta obtida dos seguidores nas postagens anteriores, o que pode levar o influenciador Assista a um dos mais aclamados documentários lançados no início da década de 2020: O dilema das redes. Esse docu- mentário mostra a forma como as redes sociais e as empresas que dominam o tráfego de informações na internet usam os dados sobre pesquisas, hábitos de consumo, interesses e relacionamentos inter- pessoais do consumidor para gerar desejos e influenciar as decisões de consumo dos usuários. O documentário – dispo- nível na plataforma de streaming Netflix – discute aspectos relacionados às mudanças sociais e com- portamentais e questões éticas relativas ao uso de dados pessoais pelas empresas. Direção: Jeff Orlowski. EUA: Netflix, 2020. Documentário Processo de decisão do consumidor 43 a postar informações para obter mais comentários e curtidas, e não por que elas representam realmente sua opinião. 2.3 Atividades mentais e emocionais doconsumo Vídeo Após coletar informações com o objetivo de tomar decisões de consumo, o consumidor inicia o processo de análise e comparação das diversas alternativas de produtos, serviços e experiências que podem ajudá-lo a satisfazer suas necessidades e desejos. As crenças, as emoções, as experiências, as atitudes, as expectativas e o estado emocional no momento, segundo Mowen e Minor (2008), exercem um importante papel durante o processo de análise das informações internas e externas coletadas pelo consumidor. Já Kotler e Keller (2019) destacam que a experiência e aprendizagem também são aspectos internos do indivíduo que estão presentes no momento da análise das informações no processo de compra. Blackwell, Miniard e Engel (2011) dão o nome de conjunto de consideração ao apanhado de informações e de experiências que o consumidor avalia ao decidir pela compra de um produto ou serviço. Para os autores, o con- sumidor pode adotar duas diferentes posturas: ou confia apenas em suas experiências anteriores e não leva em consideração as novas informações; ou constrói uma nova avaliação e cria novas expectativas com base nas informações coletadas tanto a partir de suas vivências quanto de fontes externas. O consumidor, de acordo com Solomon (2016), diante da grande quantidade de possibilidades de produtos e serviços concorrentes, di- vide as informações que possui sobre os diversos produtos em três diferentes conjuntos. O conjunto evocado inclui produtos, marcas, empresas e soluções que já são conhecidas pelo consumidor, seja por experiências próprias ou por conhecimentos adquiridos durante a etapa da busca por informações, que o consumidor considera que esses itens podem ser opções válidas. O conjunto inerte inclui alternativas que o consumidor conhece, mas que não considera que sejam relevantes, ou que não são adequadas às suas necessidades e condições. Identificar as atividades mentais e emocionais envolvidas nas etapas do processo de decisão de compras. Objetivo de aprendizagem 44 Comportamento do consumidor O conjunto inepto reúne as alternativas de produtos, serviços e experiências que o consumidor nem considera em seu processo de avaliação por estarem fora dos padrões estabelecidos por ele. Um consumidor que busca comprar um novo computador, que possa levar consigo em seus compromissos profissionais, pode considerar diversas marcas e modelos de laptops, em uma determinada faixa de preço, que ele identificou em seu processo de busca de informação. Esse é seu conjunto evocado. ar ty wa y/ Sh ut te rs to ck O consumidor pode considerar que o equipamento de uma marca específica é muito caro e que ele não tem condições de adquiri-lo, mesmo que tenha esse desejo. Assim, essa opção faz parte de seu conjunto inerte. Já as diversas opções de computadores do tipo desktop são consideradas inadequadas pelo consumidor, por não poderem ser carregadas facilmente em seus deslocamentos profissionais, não atendem as suas necessidades e, portanto, são colocadas no conjunto inepto. Na prática Analise a última compra de um produto ou serviço de alto valor que você reali- zou, como um aparelho eletrônico, um eletrodoméstico, um automóvel, imóvel, viagem ou a compra deste curso. Primeiro, identifique os produtos e marcas que você considerou em seu conjunto evocado, em seguida, analise o moti- vo pelo qual essas marcas ou esses produtos poderiam ter sido escolhidos para atender sua necessidade ou seu desejo. Por fim, identifique as marcas e produtos que você considera que estavam em seu conjunto inerte. Explique o porquê elas não representavam opções reais e válidas em seu processo de compra. Por fim, quais marcas e produtos podem ser classificados como seu conjunto inepto? Analise o motivo de ter descartado essas opções. Marca/produto Motivo Conjunto evocado Conjunto inerte Conjunto inepto Processo de decisão do consumidor 45 Para melhor entendimento desse processo, é importante retomar os conceitos de necessidades e desejos, no contexto do marketing. Como destacam Kotler e Keller (2019), enquanto as necessidades estão ligadas a aspectos fisiológicos e psicológicos relacionados a estados naturais do indivíduo, como se alimentar e fazer parte de uma família ou grupo social no qual se sinta seguro, os desejos estão relacionados a aspectos sociais, influenciados pelos valores, pelas crenças, pelos símbolos e pelos padrões estabelecidos pelo grupo social do qual o indivíduo faz ou deseja fazer parte. Porém, como destacam Belch e Belch (2014), na sociedade contemporânea, é extremamente difícil, ou até mesmo impossível, o consumidor distinguir entre uma necessidade e um desejo, pois para que ele possa ser reconhecido como participante de um determinado grupo social, ele precisa possuir ou utilizar produtos e serviços que são considerados como símbolos de participação ou de status dentro do grupo. Assim, as empresas estão constantemente desenvolvendo novos produtos e novos modelos, incluindo inovações tecnológicas e criando modas e tendências que levam o indivíduo a consumir intensamente, transformando desejos em necessidades. Hoyer e Macinnis (2017) afirmam que o processo de tomada de decisão de consumo é influenciado pelos ambientes cultural e social nos quais o consumidor está inserido, mas o comportamento de consumo do indivíduo é construído com base em sua estrutura psicológica, que envolve suas crenças, suas motivações, suas expe- riências e seus processos de aprendizado, atenção, percepção, com- preensão e decisão. Para os autores, os processos psicológicos que se estabelecem durante o processo de análise de informações e decisão de compra são fundamentais para que o indivíduo tome a decisão de consumo. O estado emocional do indivíduo também é impactado pelo ambiente sociocultural no qual está inserido. A busca pela aceitação social, pela participação no grupo social e o desejo pelos símbolos de status, destacados por Belch e Belch (2014), criam ainda mais pressão psicológica sobre o indivíduo, que passa a acreditar que o consumo pode diminuir a pressão social e trazer satisfação emocional. Melo, Alcoforado e Guedes (2017) demonstram a relação entre as emoções, o estado emocional do consumidor e o consumo ao identificar O documentário Cultura do desperdício: por uma sociedade mais consciente, mostra a cultura do consumo excessivo e do desperdício, presente na sociedade contemporâ- nea, apresenta grandes desafios tanto para os consumidores – que se sentem cada vez mais pressionados a consumir, mesmo que não tenham condições financeiras para isso – quanto para a própria sociedade e para o meio ambiente, que tem se aproximado de seus limites de sustenta- bilidade. O documentário entrevista pesquisadores, economistas, ativistas políticos, ambientais e de direitos sociais, discute os impactos do consumo nas mais diversas áreas da sociedade e levanta questões fundamentais a serem pensadas pelos profissionais que atuam no mercado de consumo. Produção: Conteúdos Diversos. São Paulo: Banco de Alimentos, 2017. Disponível em: https://www. youtube.com/watch?v=EDBEDtGH- 8k. Acesso em: 28 jan. 2022. Documentário https://www.youtube.com/watch?v=EDBEDtGH-8k https://www.youtube.com/watch?v=EDBEDtGH-8k https://www.youtube.com/watch?v=EDBEDtGH-8k 46 Comportamento do consumidor que pessoas diagnosticadas com depressão têm mais tendência a se tornarem consumidores compulsivos. Segundo os autores (2017, p. 4) “a depressão também está relacionada a aspectos do consumo. [...] com indivíduos que possuem um perfil de consumidores compulsivos. A compra compulsiva foi associada à sintomatologia depressiva elevada”. As empresas utilizam de modo intenso as emoções em suas comu- nicações e ações de marketing, na tentativa de estabelecer relações afetivas com o consumidor, tornando-o fiel à marca e aos produtos. Para Hoyere Macinnis (2017), mais do que despertar a necessidade ou desejo do consumidor, a empresa precisa motivá-lo a iniciar o processo de compra. A motivação pode ter como origem tanto fatores internos quanto fatores externos ao indivíduo. Tadeucci (2011) explica que as motivações internas estão ligadas aos desejos, às necessidades e às emoções positivas, como amor e alegria, ou negativas, como ansiedade ou raiva, que dão origem a uma ação. Já as motivações externas surgem a partir da relação do indivíduo com o meio social no qual convive e estão relacionadas aos seus conhecimentos, aos seus valores e às suas crenças. Segundo Mowen e Minor (2008), o nível de envolvimento emocional no processo de compra depende do tipo de produto ou serviço que está sendo adquirido. Nas compras cotidianas, que são realizadas frequentemente, o processo de compras tende a ter baixo envolvimento emocional. A compra pode ser decidida, muitas vezes, por critérios práticos e objetivos, como o preço ou a disponibilidade do produto. Como exemplo, a compra de um produto de limpeza para a casa é normalmente feita de modo automático, com base em uma rápida comparação de preços e de tamanhos de embalagem, sem grande envolvimento das emoções. Por outro lado, em outras categorias de produtos e serviços, há um grande envolvimento emocional. Uma viagem de férias envolve não apenas a pesquisa do melhor preço de um hotel ou de um restaurante, mas uma série de expectativas, desejos e sonhos que influenciam a escolha de cada experiência. A pesquisa de Garcia et al. (2017) mostra que os diversos tipos de mídias utilizadas nas redes sociais atingem os consumidores de diferentes modos. Segundo os autores (2017, p. 247), as imagens e vídeos expostos no ambiente virtual atraem mais atenção que textos No livro O jeito Disney de encantar os clientes: Do atendimento excepcional ao nunca parar de crescer e acreditar, percebemos que a construção de emoções e de memórias é a principal ferramenta da Disney para criar uma relação afetiva e de fidelidade com os seus clientes. A magia dos parques temáticos Disney não é mero acaso, cada detalhe da estrutura e dos processos de aten- dimento é pensado para manter a magia, ou seja, a sensação de encanta- mento que gera a ligação emocional. O livro é baseado no treinamento desenvolvido pelo Disney Institute, instituição de educação e ensino que a empresa desenvolveu para treinar tanto sua própria equipe quanto oferecer desenvolvimento para outras empresas. São Paulo: Benvirá, 2012. Livro Processo de decisão do consumidor 47 e mensagens, pois “as imagens despertam nosso imaginário, vídeos mexem com o nosso emocional, e textos, mesmo bem escritos, têm que chamar muita atenção para superar uma imagem”. Os resultados obtidos na pesquisa de Garcia et al. (2017) mostram a influência dos fatores psicológicos, tais como a motivação, o processo de aprendizagem e os mecanismos de percepção, na decisão de compra. Já a internet e as redes sociais representam fatores externos que influenciam o reconhecimento de necessidades e criação de desejos, o que reforça a influência dos fatores sociais na decisão de compra, como grupos de referência, família, papéis sociais e status. 2.4 Variáveis do comportamento do consumidor Vídeo A importância do consumo na economia e na sociedade não é um fenômeno recente. De acordo com Maximiano (2014), os ganhos de produtividade – obtidos no processo produtivo a partir da Revolução Industrial, ocorrida no século XVIII – com o surgimento das fábricas e o uso das máquinas a vapor e, também, a partir da implantação dos conceitos da administração científica – desenvolvidos por Frederick Taylor, como a divisão do trabalho e a linha de produção, na transição entre os séculos XIX e XX –, causaram grandes impactos na forma de organização da sociedade e da economia. A compra, o uso e o descarte de bens de consumo passou a ter um papel central no desenvolvimento econômico mundial e, cada vez mais, passou a definir as formas de relacionamento estabelecidos nos grupos sociais. Porém, segundo Kotler e Keller (2019), a partir das décadas finais do século XX e, principalmente, nas primeiras décadas do século XXI, com o desenvolvimento das tecnologias da informação e da comunicação, em especial a internet, o consumo passou a ter um papel central na sociedade contemporânea. Diversos são os fatores que influenciam o consumidor em suas decisões de consumo. Tendo como ponto central as etapas do processo de compras desenvolvido por Blackwell, Miniard e Engel (2011), apresentado no quadro central da Figura 2, Kerin et al. (2011) explicam as diversas influências internas e externas que impactam a decisão do consumidor. Compreender como as va- riáveis internas e externas influenciam o compor- tamento do consumidor durante a compra e o consumo. Objetivo de aprendizagem 48 Comportamento do consumidor Influências situacionais Tarefa de compra, entorno social, entorno físico, efeitos temporais, estados antecedentes Influências do composto de marketing Produto, preço, promoção, distribuição Processo de decisão de compra do consumidor Reconhecimento do problema Busca de informações Avaliação de alternativa Decisão de compra Comportamento pós-compra Influências psicológicas Motivação, personalidades, percepção, aprendizagem, valores, crenças e atitudes, estilo de vida Influências socioculturais Influência pessoal, grupos de referência, famílias, cultura, subcultura Figura 2 Processo de decisão de compra do consumidor e suas principais influências Fonte: Adaptada de Kerin; et al., 2011, p. 120. Como exemplo do impacto das mídias digitais sobre o consumo, centenas de canais de vídeos no YouTube, com milhões de inscritos, dedicam-se a um tipo de conteúdo relacionado ao consumo dos mais variados tipos de bens: os unboxings vídeos, que segundo Sato (2016, p. 1): são conteúdos de In- ternet produzidos pelos usuários das redes sociais digi- tais que registram o momento da aber- tura de embalagens de produtos que foram adquiridos por eles. Trata-se da gravação em vídeo da ação de desempacotamento do O vídeo A responsabilidade do influenciador digital é uma entrevista com duas importantes influenciado- ras digitais, as jornalistas Gabriela Prioli e Mari Pal- ma. Junto a elas, o filósofo Leandro Karnal discute a responsabilidade dos influenciadores digitais na criação de uma sociedade que valoriza o consumo e estabelece padrões de beleza e sucesso, muitas vezes inalcançá- veis. A entrevista levanta diversos questionamentos importantes para quem busca entender o impacto das redes sociais sobre o comportamento do consumidor Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=qCGuxhJlOkA&t=725s. Acesso em: 25 jan. 2022. Vídeo Andrebuand/Shutterstock https://www.youtube.com/watch?v=qCGuxhJlOkA&t=725s https://www.youtube.com/watch?v=qCGuxhJlOkA&t=725s https://www.youtube.com/watch?v=qCGuxhJlOkA&t=725s Processo de decisão do consumidor 49 bem por parte do comprador, que mostra e narra o processo, sempre de forma pessoal. Os produtos podem ter sido comprados pelo apresentador ou en- viados pelos fabricantes, como forma de divulgação do lançamento de novos produtos. Para se ter uma proporção do interesse gerado por esse tipo de conteúdo, um dos maiores canais desse tipo, Unboxing The- rapy, contava, em 2021, com mais de 18 milhões de inscritos e mais de 4 bilhões de visualização em seus vídeos. Esse tipo de conteúdo é muito utilizado por empresas de brinquedos e artigos infantis para gerar o desejo de consumo em crianças, pois as ações publicitárias tradicionais, como a propaganda, são proibidas em diversos países, inclusive no Brasil. O artigo A influência dos vídeos Unboxing da LOL Surprise Dolls na cultura do consumo infantil, de Jullie Sammur, apresentado no 5º Simpósio Internacional do Congresso Internacional Comunicação e Consumo (Comunicon),em 2018, mostra que, mais do que simplesmente um conteúdo desenvolvido pelos apresentadores dos canais, os unboxing vídeos de brinquedos e produtos direcionados ao público infantil se tornaram uma parte importante da estratégia de marketing das empresas. A autora destaca que as crianças, por não terem um arsenal de conhecimentos e experiências amplo, são mais suscetíveis a serem influenciadas por esse tipo de conteúdo. Acesso em: 25 jan. 2022. http://anais-comunicon.espm.br/GTs/GTGRAD/GT12/GTGRADUACAO_SAMMUR.pdf Artigo Como explica Las Casas (2017), a tecnologia da informação traz impactos em todas as etapas do processo de compras ao: • criar novas necessidades e desejos por meio da divulgação de novos produtos, demonstrados e exibidos por influenciadores digitais; • possibilitar o acesso a informações, em sites, blogs e canais que apresentam produtos, serviços e experiências; • facilitar o processo de compra, por meio das lojas virtuais e do e-commerce; • possibilitar que os consumidores possam compartilhar suas experiências de consumo e pós-compra em blogs, fóruns e sites de reclamação. As tecnologias da informação e da comunicação, em especial a internet e as redes sociais, são ferramentas importantes para que a Conheça mais sobre unboxing vídeos em alguns dos principais canais des- te tipo de conteúdo: • Unboxing therapy: tem como foco a apresentação de produtos eletrônicos. Disponível em: https://www. youtube.com/c/unboxtherapy/ featured. Acesso em: 25 jan. 2022. • Ryan’s World: apresen- tado por uma criança, é focado em brinquedos e produtos infantis Disponível em: https://www. youtube.com/channel/ UChGJGhZ9SOOHvBB0Y4DOO_w. Acesso em: 25 jan. 2022. Vídeo Analise uma compra im- portante que você tenha realizado no último ano e responda as seguintes perguntas: • Você sofreu a influência de sites, blogs, vídeos, fóruns ou redes sociais? • Em que etapa do pro- cesso de compra estas influências puderam ser notadas? • Como as informações e estímulos influenciaram a sua decisão de compra? Desafio http://anais-comunicon.espm.br/GTs/GTGRAD/GT12/GTGRADUACAO_SAMMUR.pdf https://www.youtube.com/c/unboxtherapy/featured https://www.youtube.com/c/unboxtherapy/featured https://www.youtube.com/c/unboxtherapy/featured https://www.youtube.com/channel/UChGJGhZ9SOOHvBB0Y4DOO_w https://www.youtube.com/channel/UChGJGhZ9SOOHvBB0Y4DOO_w https://www.youtube.com/channel/UChGJGhZ9SOOHvBB0Y4DOO_w 50 Comportamento do consumidor empresa entenda cada vez mais profundamente o seu consumidor, colocando em prática seu planejamento estratégico. 2.5 Decisão de compra física e virtual Vídeo Val (2017) define mercado como o local, físico ou virtual, no qual produtos, serviços ou experiências são comercializados, por meio da compra, venda ou troca. Os mercados chamados de tradicionais são aqueles nos quais esse processo de compra e venda ocorre em ambientes físicos, como lojas, feiras e shopping centers, nos quais há a interação física entre o comprador e o vendedor, sejam eles pessoas ou empresas. Já o mercado virtual é composto por empresas que comercializam seus produtos por meio de sites, e-commerce, marketplaces 1 Marketplace é um tipo de site que reúne diversos vendedores, como uma espécie de shopping center virtual. Para as pequenas empresas que buscam comercializar seus produtos pela inter- net, é uma solução que não exige investimentos na construção de sites e estruturas comerciais. Para o consumidor, apresenta a vantagem de encontrar vários forne- cedores em um só local virtual. 1 ou canais de venda, sem necessariamente contar com um ponto de venda físico, em que a interação entre vendedores e compradores se dá por meio de ferramentas e tecnologias de informação e comunicação, com o bem po- dendo ser disponibilizado em um local específico para que o consumidor retire, ou esse produto ser entregue diretamente no endereço do comprador. A possibilidade de realizar transações comerciais de compra e venda por meio digital transformou profundamente a relação entre as empresas e os consumidores. Segundo Kotler, Kartajaya e Setiawan (2017), a internet e as redes sociais deslocaram o poder da relação de consumo, antes concentrado nas mãos das empresas, para o consumidor, que passou a ter mais voz e mais capacidade de influenciar as condições do processo de compra. Segundo os autores (2017, p. 20): Dada a conectividade em que vivemos atualmente, o peso da conformidade social está aumentando de forma generalizada. Os consumidores se importam cada vez mais com as opiniões dos outros. Eles também compartilham suas opiniões e com- pilam enormes acervos de avaliações. Juntos, pintam o próprio quadro de empresas e marcas, que muitas vezes é bem diferente da imagem que as empresas e marcas pretendem projetar. Por outro lado, as empresas, em especial aquelas que já nasceram no contexto do ambiente virtual, apresentam estruturas mais enxutas, com uso mais racional dos espaços e com menos uso de mão de obra, diminuindo os custos administrativos e de processo, e aumentando as margens financeiras das empresas. Entender as semelhanças e diferenças dos proces- sos de decisão de compra física e virtual. Objetivo de aprendizagem Processo de decisão do consumidor 51 Uma característica marcante do comércio virtual é a grande quantidade de informações sobre cada uma das etapas do processo de decisão de consumo que as empresas conseguem coletar e utilizar em suas estratégias e decisões de marketing. O impacto das tecnologias sobre o processo de compras traz desafios tanto para os consumidores quanto para as empresas. Do lado da empresa, como aponta Almeida (2018), é necessário modificar constantemente seu composto de marketing. Quanto às formas de distribuição de seus produtos, a empresa precisa oferecer canais de venda digitais e entregas rápidas, sem renunciar aos canais de venda tradicionais, como lojas e varejos, disponibilizando seu produto no momento e no local no qual o consumidor deseja realizar a compra. Quanto ao preço e às ferramentas que possibilitam a comparação de ofertas e condições de venda de diversas empresas, é necessário buscar constantemente a melhoria dos processos de produção e comercialização, de modo a diminuir os custos e a manter a competitividade frente a concorrência. Com relação aos produtos, serviços e experiências oferecidas pela empresa, há a constante necessidade de incluir inovações tecnológicas e lançar novos modelos e versões. Entre os componentes do mix de marketing, a promoção, que envolve a publicidade e propaganda, é o que mais tem sofrido transformações. As empresas precisam desenvolver, segundo Almeida (2018), novas formas de comunicação, apoderando-se de novas mídias e adaptando sua comunicação ao ambiente da internet e das redes sociais. Do lado do consumidor, os desafios estão presentes nas mais diversas etapas do processo de compras. Na etapa inicial, na qual ocorre a identificação de necessidades e desejos, o consumidor precisa resistir aos impulsos de consumo que são, muitas vezes, causados pelo excesso de exposição às ações de comunicação de marketing das empresas, escondidas em postagens dos influenciadores digitais, que vendem a imagem de uma vida de felicidade ligada ao consumo excessivo. Nas etapas da busca por informações e da avaliação das alternativas, o desafio para o consumidor é saber escolher, dentre uma infinidade de dados, dicas, opiniões e críticas, quais são as informações relevantes para o seu processo de escolha. Já na etapa da efetivação da compra, o consumidor lida com a escolha entre os diversos canais e condições de cada fornecedor, seja Considerado o mais influente autor e pesqui- sador do marketing, Philip Kotler é autor de alguns dos mais importantes livros sobre o tema. No livro Marketing 5.0, Kotler discute os impactos do desenvolvimento tecnológico e da internet sobre o comportamen- todo consumidor, de maneira simples e direta que possibilita o enten- dimento de conceitos complexos mesmo por leitores que não tenham profundo conhecimento sobre marketing. O livro discute temas atuais, como a importância da experiência do cliente, o uso de tecnologias como big data, Internet das coi- sas e inteligência artificial no processo de marketing e a postura social, política e ambientalmente res- ponsável das empresas. KOTLER, P.; KARTAJAYA, H.; SETIAWAN, I. Rio de Janeiro: Sextante, 2021. Livro 52 Comportamento do consumidor ele uma loja física ou virtual, tendo que levar em consideração uma grande quantidade de opções. Por fim, no momento da avaliação pós-compra, o consumidor precisa saber usar os canais oferecidos pelas empresas, pelas redes sociais e por sites especializados, para compartilhar suas experiências e opiniões, de modo a poder ajudar outros consumidores em seu processo de escolha. CONSIDERAÇÕES FINAIS Apesar da importância do consumo para a sociedade e para a economia não ser algo novo, assim como o estudo do comportamento do consumidor durante o processo de decisão de consumo já ser estudado há décadas, a tecnologia da informação e da comunicação têm causado profundas modificações e constantes alterações na forma como consumidores e empresas relacionam entre si. Entender o impacto dessas mudanças e a forma como o consumidor se comporta na sociedade contemporânea é fundamental para as empresas que buscam concorrer em um mercado cada vez mais disputado. ATIVIDADES Atividade 1 Explique a diferença entre processos de compra simples e complexos. Atividade 2 Durante a etapa da busca por informações, o consumidor acessa tanto informações internas quanto externas. Explique os tipos de fontes de informações externas que podem ser acessadas durante a etapa da busca por informações durante um processo de compra. Atividade 3 Ao realizar a análise das alternativas de compra, o consumidor divide os produtos ou serviços em três diferentes conjuntos. Explique cada um deles. Processo de decisão do consumidor 53 REFERÊNCIAS ALMEIDA, P. Marketing contemporâneo. São Paulo: Fontes, 2018. BELCH, G. BELCH, M. Propaganda e promoção: uma perspectiva de comunicação integrada de marketing. Porto Alegre: AMGH, 2014. BLACKWELL, R. D.; MINIARD, P. W.; ENGEL, J. F. Comportamento do consumidor. São Paulo: Cengage Learning, 2011. BRITO, F. W. C.; FREITAS, A. A. F. D. 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A pesquisa de marketing, que abordaremos na primeira parte deste capítulo, tem um papel fundamental como ferramenta que possibilita às empresas conhecer as demandas, dúvidas, opiniões, sentimentos e valo- res de seus clientes. Na segunda parte do capítulo, trataremos da transformação digital, que tem modificado de maneira profunda a forma como as empresas se organizam, realizam suas tarefas, relacionam-se com seus consumidores e o processo de busca de informação, tomada de decisão de consumo e escolhas no processo de compra do consumidor. Além disso, discuti- remos as principais métricas utilizadas na gestão da relação da empresa com seus clientes. Na terceira parte, trabalharemos os conceitos relacionados à estrutu- ração e ao tratamento de dados de pesquisa, como a diferenciação entre dados quantitativos e qualitativos, bem como a forma de coleta e uso de cada um dos tipos de informações geradas por meio desses dados. Em seguida, apresentaremos indicadores utilizados pelas empresas na gestão de estratégia de atuação no ambiente virtual, considerando a impor- tância do marketing digital, que trouxe uma nova forma de relacionamento entre consumidores e empresas – o cliente passou a ter voz e opinião ao criar e compartilhar conteúdos sobre empresas, marcas, produtos e serviços. Por fim, vamos discorrer na quinta parte do capítulo sobre conceitos fun- damentais do ambiente da internet, como o Big Data e as ferramentas de marketing analytics e social media analytics. Pesquisa e análises sobre o consumidor 55 3.1 Uso da pesquisa no marketing Vídeo O marketing tem passado por grandes transformações nas últimas décadas, tanto graças ao desenvolvimento das tecnologias da informa- ção e da comunicação quanto a mudanças sociais e comportamentais pelas quais a humanidade passa. Preocupações com o meio ambiente, com a inclusão social e com os direitos humanos são apenas alguns dos exemplos de questões so- ciais que têm grande impacto sobre as estratégias de marketing das empresas. Considerado um dos mais importantes autores a abordar o marketing, Philip Kotler apresenta,em seu livro Marketing 4.0, a evo- lução do marketing em etapas (KOTLER; KARTAJAYA; SETIAWAN, 2017), vejamos: MARKETING 1.0 CENTRADO NO PRODUTO W in W in a rtl ab /S hu tte rs to ck Objetivo: • vender produtos Forças propulsoras: • Revolução Industrial Como as organizações enxergam o mercado: • compradores de massa com necessidades específicas Conceito-chave de marketing: • desenvolvimento do produto Proposição de valor: • funcional Diretrizes de marketing da empresa: • especificação do produto Interação com os consumidores: • transação do tipo um para um Compreender a impor- tância do uso da pesquisa sobre o comportamento do consumidor e as estra- tégias de marketing. Objetivo de aprendizagem 56 Comportamento do consumidor MARKETING 2.0 CENTRADO NO CONSUMIDOR Objetivo: • satisfazer os clientes e fidelidade à marca Forças propulsoras: • tecnologia da informação Como as organizações enxergam o mercado: • consumidores mais inteligentes, dotados de coração e mente Conceito-chave de marketing: • diferenciação Proposição de valor: • funcional e emocional Diretrizes de marketing da empresa: • posicionamento da empresa e do produto Interação com os consumidores: • relacionamento um para um RD _P ro du ct io n/ Sh ut te rs to ck MARKETING 3.0 CENTRADO NOS VALORES Objetivo: • fazer do mundo um lugar melhor Forças propulsoras: • conexão dos consumidores (novas tecnologias) Como as organizações enxergam o mercado: • ser humano pleno, com coração, mente e espírito Conceito-chave de marketing: • valores Proposição de valor: • funcional, emocional e espiritual Diretrizes de marketing da empresa: • missão, visão e valores da empresa Interação com os consumidores: • colaboração um para muitos m yb oy s. m e/ Sh ut te rs to ck Pesquisa e análises sobre o consumidor 57 MARKETING 4.0 CENTRADA NO HUMANO Objetivo: • consumidores interagindo com os produtos Forças propulsoras: • era digital (ubiquidade) Como as organizações enxergam o mercado: • conversações entre pessoas conduzidas em uma voz humana Conceito-chave de marketing: • proposição de valor e personalidade Proposição de valor: • funcional, emocional, espiritual e afetivo Diretrizes de marketing da empresa: • campos humanitários Interação com os consumidores: • conversas pessoais com os clientes Ah m et M is irl ig ul /S hu tte rs to ck Os impactos da tecnologia trouxeram uma mudança do posicio- namento tradicional do marketing, que era voltado para o desenvol- vimento do produto para uma visão mais centrada no consumidor, característica do conceito do marketing 2.0. Já as mudanças comportamentais da sociedade, como a preocupação com o meio ambiente e os direitos humanos, trazem outra mudança de foco do marketing, que passa a ser direcionado para uma atuação mais consciente e responsável da empresa – representada em seus valores e seu posicionamento de marca. Esse momen- to é chamado pelos autores de marketing 3.0. As práticas de responsabilidade social corporativa e de responsabilidade ambiental são exemplos de estratégias empresariais adequadas a esse momento do marketing. Com o crescimento acelerado das redes sociais e dos espaços de comunicação, como blogs, fóruns e aplicativos de mensagens, os con- sumidores passaram a pressionar as empresas a adotar uma postura So le ilC /S hu tte rs to ck mais ética e responsável e intensificaram o relacionamento com outros consumidores e grupos sociais, o que fortalece a posição do consumi- dor no relacionamento com as empresas. Esse momento é chamado de marketing 4.0 por Kotler, Kartajaya e Setiawan (2021), em que a voz do consumidor passa a ser cada vez mais importante e a interação en- tre os consumidores faz com que as empresas e marcas estejam cons- tantemente sob a vigilância e a avaliação da sociedade. Apesar de as figuras apresentadas mostrarem a evolução até o con- ceito do marketing 4.0, Kotler, Kartajaya e Setiawan (2021) afirmam que o marketing continua em constante evolução e, por isso, desenvolve- ram o conceito do marketing 5.0. Relacionando as características desse momento com as figuras, o marketing 5.0 objetiva humanizar o relacionamento da empresa com seus consumidores, tendo como força propulsora o desenvolvimento de tecnologias, como a internet das coisas, Big Data e a inteligência arti- ficial combinadas com o fator humano para atrair a atenção, conquistar e fidelizar os clientes. As empresas passam a enxergar o mercado com base nas particularidades de cada consumidor. O conceito-chave é o uso de dados e informações sobre cada uma das etapas do processo de compras e sobre os valores, as posturas e as crenças do con- sumidor tendo como diretriz de marketing o conhecimento e o relacionamento de longo prazo com o consumidor. A proposição de valor é funcional, emocional, espiritual, afetiva e individualizada. Além disso, a interação com o consumidor ocorre in- Os principais concei- tos discutidos no livro Marketing 4.0: mudança do tradicional para o digital, de Kotler, Setiawan e Kartajaya, são apresen- tados resumidamente no vídeo Marketing 4.0 – Phillip Kotler | T2#005, publicado pelo canal de ResumoCast. Esse material é fundamental para entender o impacto da internet e das redes sociais sobre os padrões de consumo e o comportamento do consumidor. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=1gB21PG5oEo. Acesso em: 15 fev. 2022. Vídeo Jirapong M anustrong /Shutterstock 5858 Comportamento do consumidorComportamento do consumidor https://www.youtube.com/watch?v=1gB21PG5oEo https://www.youtube.com/watch?v=1gB21PG5oEo https://www.youtube.com/watch?v=1gB21PG5oEo Pesquisa e análises sobre o consumidor 59 dividualmente, de acordo com os dados que a empresa coleta, trata e analisa sobre cada indivíduo. Nesse contexto, a pesquisa de marketing tem um papel fundamen- tal para que a empresa possa compreender seus clientes e desenvolver estratégias individualizadas. É importante entender e diferenciar dois conceitos: o termo pesquisa em marketing é usado para se referir à pesquisa acadêmica sobre o desenvolvi- mento de teorias e modelos e definir conceitos usados no estudo científico do marketing. Com base na pesquisa em marketing, são identificados e criados conhecimentos que serão publicados em artigos científicos e livros para serem ensinados em escolas de marketing e administração. Já o termo pesquisa de marketing é uma estratégia utilizada pelas empresas para entender as relações de consumo, como seus consumidores pensam e quais as influências externas podem ser utilizadas para definir estratégias para conquistar e fidelizar clientes. Em um ambiente onde os consumidores interagem com as empre- sas e entre si, é nas redes sociais que os interesses de consumo po- dem ser rastreados por ferramentas de busca, visitas a sites, aplicativos comparadores de preço e discussões em blogs e fóruns. A empresa precisa conhecer tanto os conceitos de pesquisa de marketing quanto as ferramentas e tecnologias que podem ser usadas para coletar e ana- lisar dados (como o Big Data); tecnologias que possibilitam a persona- lização do atendimento ao cliente de acordo com suas características, como a inteligência artificial; e até mesmo produzir produtos customi- zados para cada cliente, como a indústria 4.0. Vejamos algumas dessas ferramentas: • Big Data: é o processo e as ferramentas que são utilizadas para lidar com grande quantidade de dados coletados de diversas fontes diferentes e vários formatos, como textos, áudios, vídeos, conversas e interações, que possibilitam capturar, organizar e analisar os dados e transformá-los em informação útil para a to- mada de decisão. • Inteligência artificial: sistemas inteligentes construídos com base na maneira como o cérebro humano aprende e toma decisões. • Indústria 4.0: sistema de gestão de processos produtivos com base na integração de tecnologias comoa Internet das Coisas (IoT) e equipamentos robotizados que se autogerenciam de 60 Comportamento do consumidor modo a produzir produtos customizados, mantendo as vanta- gens de custo e produtividade da produção em massa. • Internet das Coisas: tecnologia da informação e da comunica- ção inserida em objetos de uso cotidiano, como eletrodomésti- cos, eletroeletrônicos, roupas ou relógios, que permite a coleta e transmissão de dados sobre a forma e as condições que afetam o uso do objeto. Segundo Oliveira (2012), a pesquisa de marketing possibilita trans- formar dados em estratégias e ações a serem implantadas pela em- presa. Por isso, deve levar em consideração tanto as características pessoais do consumidor quanto o macroambiente e o microambiente onde está inserido. O macroambiente é composto pela economia, legislação, mercado de trabalho, questões demográficas e cultura da sociedade na qual o consu- midor vive. Já o microambiente envolve as relações pessoais do consumi- dor, os concorrentes e as outras empresas que atuam no mesmo mercado. Com relação às características pessoais do consumidor, a pesquisa de marketing pode ser usada para identificar hábitos de consumo, estilo de vida, percepções de necessidades e desejos, relacionamentos, acesso e uso de ferramentas digitais, comportamento em redes sociais, crenças e valores que podem influenciar os padrões de consumo. Palmer (2007) aponta que as pesquisas de marketing possibilitam à empresa tomar decisões mais acertadas, diminuir o risco de adotar estratégias equivocadas e acompanhar a implantação dos planos es- tratégicos para, por meio das informações coletadas, redirecionar, caso seja necessário, seu relacionamento com o consumidor. 3.2 Métricas usadas no consumo digital Vídeo As empresas, os governos e a sociedade passam por uma grande transformação digital, na qual a informação passa a ter um papel cen- tral na economia, nos negócios, na educação e na forma como se orga- nizam os relacionamentos entre pessoas e instituições. De acordo com Weiss (2019), nesse novo contexto, conhecido como sociedade da informação, os modelos de negócios e as estra- tégias tradicionais desenvolvidas pelas empresas podem não ser Conhecer os processos de monitoramento e as métricas utilizadas para compreender o compor- tamento de consumo digital. Objetivo de aprendizagem Pesquisa e análises sobre o consumidor 61 adequadas aos novos desafios que se colocam e às novas oportuni- dades que surgem. A transformação digital pode ser conceituada como mudanças cau- sadas pelas tecnologias da informação e da comunicação, na forma como a informação é produzida, organizada, distribuída, disponibiliza- da e utilizada nos mais diversos contextos. Principal instrumento da transformação digital, a internet era res- trita a usos profissionais e acadêmicos em sua origem. Porém, como apontam Montargil, Fátima e Ruiz (2019), devido ao crescimento do acesso por meio de dispositivos móveis, atualmente a internet é uti- lizada com a mesma intensidade nos contextos profissionais, esco- lares e pessoais, tornando-se tão presente no cotidiano das pessoas que modificou hábitos, comportamentos e formas de relacionamentos pessoais, profissionais e sociais. Um ponto central da sociedade da informação é a coleta massiva e intensa de dados sobre todo tipo de interação digital realizada por indivíduos, empresas e instituições. Esses dados não são apenas cole- tados e registrados, mas também organizados, analisados, entendidos e transformados em informações e conhecimentos, que são utilizados pelas empresas para compreender as mudanças sociais, econômicas, culturais, comportamentais e psicológicas dos indivíduos e redirecio- nar as estratégias para se atingir os objetivos organizacionais. Neves (2017) destaca que a tecnologia da informação e da comu- nicação também tem um papel fundamental na disseminação e no compartilhamento dos conhecimentos e transforma tanto as relações entre pessoas e empresas quanto a própria forma que o trabalho e os negócios se organizam. Por outro lado, a transformação digital faz com que o indivíduo precise desenvolver novas competências e habilidades 1 Como a capacidade de aprender continuamente, a competência de usar as ferramentas digitais para realizar atividades edu- cacionais e profissionais e o conhecimento sobre as diversas tecnologias que são utilizadas no cotidiano. 1 , que se fazem necessárias para utilizar as tecnologias em seu cotidiano pessoal e profissional. A internet também se tornou um espaço no qual, segundo Neves (2017), os grupos sociais, culturais, étnicos e raciais se posicionam e buscam espaço para defender suas crenças, valores, histórias e de- mandas, o que faz com que a sociedade se torne mais plural e inclusiva. O livro Transformação digital: repensando o seu negócio para a era digital, escrito por David L. Rogers, um dos maiores especialistas mundiais sobre o tema das trans- formações digitais, aborda os principais pontos que as empresas precisam considerar para conseguir adaptar seus negócios ao ambiente digital. ROGERS, D. L. São Paulo: Autêntica Business, 2017. Livro 62 Comportamento do consumidor O espaço digital, composto de redes sociais, mecanismos de buscas, blogs, sites de vídeos e base de conhecimentos, tornou-se a principal fonte na busca de conhecimento e de informação, possibilitando aos indivíduos tanto aprender com as experiências e vivências de outros quanto compartilhar seus próprios conhecimentos. No contexto do marketing e do consumo, Rogers (2017) destaca que o desenvolvimento tecnológico levou ao surgimento de novos modelos de negócios, tecnologias disruptivas e inovações de produtos e servi- ços, que substituem tecnologias anteriores e modificam completamen- te o panorama do mercado. Kotler, Kartajaya e Setiawan (2021) mostram que, nas últimas dé- cadas, a área do marketing passou por profundas transformações e que, no contexto da sociedade da informação, o marketing também se modificou, abraçando a tecnologia. Surge o marketing digital, tam- bém conhecido como marketing on-line ou eletrônico, que é definido por Madeira, Neves e Jesus (2020, p. 104) como: uma especialização que reúne ações de comunicação que usam meios digitais e eletrônicos de distribuição de conteúdo — prin- cipalmente internet e redes de telefonia celular — como canais para aumentar e aprimorar o relacionamento com seus clientes (CRM), por meio de suas campanhas publicitárias (divulgação) e vendas (comercialização) de produtos e serviços, aproveitando- -se das características destes meios digitais, como viralização, interconexão, instantaneidade, capilaridade, alcance, personali- zação etc. Por permitir maior personalização do atendimento e até mesmo das características dos produtos e dos serviços, o marketing digital apresenta resultados efetivos e mais significativos do que as estraté- gias tradicionais do marketing. Como toda ação estratégica ou ferramentas utilizadas pela empresa para atingir os seus objetivos, os gestores precisam acompanhar o uso dos recursos e os resultados obtidos pela implantação do marketing estratégico. Por isso, é fundamental que se definam instrumentos e indicadores que possam ser usados para mensurar os impactos do uso do marketing digital sobre os resultados da empresa. Se por um lado a trans- formação digital e as tecnologias da informação trazem grandes benefícios para as empresas – que podem entender melhor seus clientes – e para os consumidores, que têm acesso às informações, comparações e avaliações sobre produtos, experiên- cias e serviços; por outro, pode trazer um grande risco: a falta de priva- cidade sobre os dados e hábitos de consumo, comportamentos, crenças e valores do indivíduo. O documentário Privacidade Hackeada aborda a forma como diversas empre- sas de tecnologia, que oferecem serviços como redes sociais, ferramentas de busca e aplicativos capturame organizam milhões de dados e infor- mações de cada usuário e comercializam esse conhecimento para outras empresas que querem vender seus produtos para os consumidores. Direção: Pedro Kos. EUA: Netflix, 2019. Documentário Pesquisa e análises sobre o consumidor 63 Para que se possa aprofundar a discussão sobre o processo de ges- tão de indicadores, é fundamental conhecer alguns conceitos básicos: • O objetivo é aquilo que se busca alcançar mais amplamente. Define em que lugar ou posição do mercado a empresa ou uma pessoa deseja estar em algum ponto do futuro. • A meta é a tradução do objetivo em termos quantitativos e de prazo. Ela transforma o objetivo, que pode ser considerado um sonho, em algo notadamente definido. • Os Key Performance Indicators, ou KPI, (termo que pode ser tra- duzido como indicador-chave de desempenho) são instrumentos usados para medir e gerenciar as ações, iniciativas e processos realizados e identificar se as metas estão sendo alcançadas. • A métrica é uma característica, evento ou resultado relaciona- do às metas e aos KPI, que pode ser medida constantemente e que indica a tendência ou a direção que os resultados obtidos apresentam. Exemplo Uma pessoa pode definir como objetivo formar-se em um curso superior. Esse objetivo está relacionado ao desejo de realização pessoal e à necessidade de se preparar para novas oportunidades de carreira. Assim, define a meta de se formar em uma graduação pela moda- lidade Ensino a distância, no período de quatro anos. Como indicadores-chave de seu desempenho, define que quer obter uma nota média de avaliação acima de 90% dos pontos, em todas as disciplinas e ter presença superior a 85% em todas as atividades escolares que com- põem o curso. Para atingir os resultados desejados nesses indicadores, define as métricas “notas nos trabalhos”, “notas nas avaliações” e “presen- ça na atividade”. ar ty wa y/ Sh ut te rs to ck An el A lij ag ic /S hu tte rs to ck A Figura 1 mostra como esses conceitos se relacionam: 64 Comportamento do consumidor M ac on /S hu tte rs to ck Bl ue F lo ur is he s /S hu tte rs to ck le tic e/ Sh ut te rs to ck Pr an ch /S hu tte rs to ck Figura 1 Conceitos relacionados à gestão do desempenho Objetivo Concluir um curso superior. Meta Graduação Ensino a distância, em quatro anos. KPI Nota média, acima de 90%. Presença superior a 85%. Métricas Notas nos trabalhos; notas nas avaliações; presença na atividade. Fonte: Elaborada pelo autor. O marketing digital utiliza as tecnologias da informação e da comuni- cação tanto na coleta de informações que podem orientar o desenvolvi- mento de inovações e alterações nos produtos da empresa quanto na comunicação e comercialização dos produtos, serviços e experiências ofe- recidos pela empresa para seus clientes e consumidores atuais ou futuros. 3.3 Coleta e análise de dados qualitativos e quantitativos Vídeo Os dados e as informações coletadas nas interações ocorridas entre a empresa e seus consumidores, clientes, potenciais clientes, opinião pública, sociedade e outras organizações e instituições representam um importante recurso para compreender e gerar conhecimento sobre o comportamento do consumidor e direcionar as ações estratégicas da empresa. Por isso, é fundamental entender alguns dos conceitos relacionados à criação de conhecimento, o primeiro é o dado, que, segundo Caxito (2021, p. 9): pode ser definido como qualquer sequência de símbolos que possa ser qualificada ou quantificada. Um número, uma medição realizada por um instrumento, um texto, uma fotografia, um de- senho ou uma figura (como um símbolo ou uma placa), sons, ruí- dos, imagens, vídeos ou animações são exemplos de dados que podem ser coletados, organizados, separados e individualizados. Entender como ocorre a coleta e a análise de dados qualitativos e quantitativos gerados com base nos processos de consumo. Objetivo de aprendizagem Pesquisa e análises sobre o consumidor 65 Com a coleta, organização, classificação e análise de dados, é cons- truído o segundo conceito, as informações, que podem ser utilizadas pela empresa para entender o consumidor e seus processos de com- pras. No contexto da internet e das redes sociais, conforme Ribeiro, Franco e Soares (2018), a informação está relacionada à forma como os indivíduos e os diversos grupos sociais compreendem como a socieda- de se organiza e como se estabelecem as relações econômicas, sociais, políticas, comunitárias e pessoais. O conhecimento é o terceiro conceito relacionado à gestão da in- formação, que, segundo Cunha e Cavalcanti (2008), se constrói a partir dos dados e informações coletados pelas ferramentas e metodologias estatísticas, somados à experiência e à vivência que cada pessoa que participa da análise das informações construiu ao longo de sua vida. De acordo com Cunha e Cavalcanti (2008, p. 101), o conhecimento é a forma mais valiosa e importante da informação, sendo “valiosa precisa- mente porque alguém deu à informação um contexto, um significado uma interpretação; alguém refletiu sobre o conhecimento, acrescentou sua própria sabedoria, considerou suas implicações mais amplas”. O que a empresa coleta sobre o comportamento de consumo de seus clientes são dados, como pesquisa sobre o preço de um produto, visita a uma página do site, interação com uma postagem em determi- nada rede social e avaliação realizada por um cliente em um fórum de discussão sobre produtos. Os dados coletados podem apresentar diferentes características. Alguns podem ser medidos, comparados com escalas ou padrões, mensurados de maneira numérica e, por isso, possibilitam o uso de fórmulas matemáticas e estatística em sua análise, bem como a cons- trução de séries históricas que podem indicar tendências ao longo do tempo. Santos et al. (2018) os chamam de dados quantitativos. Exemplo O indicador de desempenho Custo por Clique, utilizado na gestão das ações de marketing digital, é um indicador mensurado com base em dados quantitativos: tendo os dados quantitativos referentes ao valor investido em anúncios virtuais e à quantidade de cliques nos anúncios, é possível, por meio de uma fórmula matemática, calcular o resultado do indicador. ar ty wa y/ Sh ut te rs to ck 66 Comportamento do consumidor O outro tipo de dado que pode ser coletado nas interações com os consumidores são os dados qualitativos, que envolvem avaliações sub- jetivas, opiniões ou juízos de valor feitas pelo cliente. Avaliação de satisfação do cliente, realizada após o atendimento, ou uma opinião registrada em um fórum ou em comentários realizados em uma postagem da empresa nas redes sociais. ar ty wa y/ Sh ut te rs to ck Exemplo Um exemplo de indicador qualitativo utilizado na gestão do relacio- namento com o cliente é o Net Promoter Score (NPS), que, para Duarte e Mascena (2021), é um indicador que analisa o nível de satisfação do cliente em sua experiência de compra. O NPS possibilita identificar a fidelidade do cliente, ao comparar a quantidade de consumidores que, ao final de sua jornada de compra, indicaria a empresa a outros con- sumidores e a quantidade de consumidores que se sente insatisfeito e adotam uma postura crítica em relação ao fornecedor. Para identificar o nível de satisfação do cliente, é realizada a seguinte pergunta: • Em uma escala de 0 a 10, que valor você escolheria para reco- mendar essa marca/produto/serviço para um colega ou amigo? Apesar de representar um indicador qualitativo, pois fundamenta-se na percepção de satisfação do consumidor em relação ao processo de compras, o NPS é apresentado como um indicador quantitativo. Para isso, o consumidor registra sua percepção e opinião em uma escala do tipo Likert, que segundo Feijó, Vicente e Petri (2020, p. 31): é comumente usada para fornecer uma série de respostas a uma pergunta. As categorias de respostas nesta escala têm umde comunicação com os consumidores são abordados, com destaque para a nova forma que comunicação entre empresa e cliente se organiza, não mais como um monólogo comandado pela empresa, mas sim como um diálogo no qual o consumidor tem um papel fundamental. As características sociais do consumo, a importância dos grupos sociais e a cibercultura também são temas abordados neste capítulo. Por fim, o último capítulo discute o conceito da era do consumidor, que está no centro das estratégias de marketing das empresas e mostra como o consumidor participa de maneira ativa de todas as etapas de criação, desenvolvimento, lançamento, comunicação, divulgação e avaliação de marcas, produtos e serviços. A segmentação de clientes e a jornada do consumidor em cada uma das etapas do processo de consumo serão discutidas, bem como costomer experience, user experience e brand experience, relacionados às estratégias da empresa para criar um relacionamento de confiança e fidelização de seus clientes. Ao final da leitura, espera-se que o aluno esteja apto a entender como o consumidor se comporta durante sua jornada de consumo e como as empresas podem usar suas estratégias e ações para conquistar e fidelizar seus clientes. Evolução do comportamento do consumidor 9 1 Evolução do comportamento do consumidor O consumo de bens e serviços tem um papel central no mundo con- temporâneo, tanto pela importância econômica do consumo – que está na base do modelo econômico capitalista – quanto pela influência do con- sumo na estrutura da sociedade. Na primeira parte deste capítulo, serão discutidos os conceitos bási- cos sobre o consumo, como ocorre o processo de compras realizado por empresas e pessoas e a importância de se conhecer a forma como os consumidores se comportam durante esse processo. Os fatores culturais e sociais, que representam as influências exter- nas, bem como os fatores pessoais e psicológicos, que representam as influências internas dos indivíduos, influenciam de modos diferentes, mas com igual importância, as decisões de consumo tomadas pelas pessoas em seu cotidiano. Esse será o tema abordado na Seção 1.2, que também discutirá como diversas áreas do conhecimento buscam entender as re- lações de consumo. Na Seção 1.3, o foco será os diversos papéis que os indivíduos re- presentam durante um processo de compra, em que serão apresenta- dos exemplos práticos. A centralidade do consumo na sociedade atual e as implicações positivas e negativas do consumo serão abordadas na Seção 1.4, que aprofundará a discussão sobre o consumismo, que causa excessos prejudiciais tanto para os indivíduos quanto para a sociedade como um todo. As influências externas sobre o indivíduo, que podem levar ao extremo do consumismo compulsivo e à adoção de estratégias moralmente repro- váveis por parte das empresas, serão o tema da Seção 1.5. 10 Comportamento do consumidor 1.1 Fundamentos do comportamento do consumidor Vídeo Para que uma empresa possa atingir seus objetivos, segundo Diniz (2018), ela precisa realizar uma série de atividades que podem incluir a produção de bens físicos, conhecidos como produtos, ou a prestação de serviços, os processos de comercialização e distribuição dos produtos e serviços por ela fabricados ou a intermediação do processo comercial desenvolvido por outras empresas, com o objetivo de gerar valor e ob- ter lucro que possa remunerar o capital investido. Seja qual for a área na qual a empresa atua, a concretização do valor construído pela empresa ocorre no momento que seus produtos ou serviços são adquiridos por um consumidor. Segundo o Código de De- fesa do Consumidor (BRASIL, 2017): “consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatá- rio final. Parágrafo único. Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas, ainda que indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo”. Dada a centralidade da figura do consumidor na motivação para a existência de uma empresa, já que, como mostram Kotler e Keller (2019), seus objetivos de criação de valor só se concretizam em sua relação com seus clientes e os consumidores de seus produtos e serviços, a busca pelo entendimento de como o consumidor se comporta em seu processo de compra e uso de um produto ou serviço é um tema bas- tante estudado na ciência da administração. Diversos autores apresentam definições do termo comportamento do consumidor. Para Blackwell, Miniard e Engel (2011), o comportamen- to do consumidor está relacionado ao processo de tomada de decisão de compra e à ação de adquirir e usar os produtos e serviços que o consumidor necessita ou deseja. Já Mowen e Minor (2008) direcionam o foco para os processos de troca ocorridos entre compradores e ven- dedores, além de ampliar o objeto do consumo mais do que produtos e serviços, incluindo experiências e ideias. Entender os conceitos sobre o comportamen- to do consumidor nos processos tradicionais de consumo físico e no ambiente digital. Objetivo de aprendizagem Evolução do comportamento do consumidor 11 Figura 1 Divisão de foco para o processo de troca dw ph ot os /S hu tte rs to ck M at ej K as te lic /S hu tte rs to ck Um show pode ser considerado uma experiência de consumo, e uma palestra pode ser classificada como a comercialização de ideias. Solomon (2016) concorda com as ideias dos autores e correlaciona o comportamento do consumidor com a sequência de ações e decisões tomadas por pessoas ou grupos ao escolher, adquirir, utilizar e descartar bens físicos ou serviços, assim como experiências e ideias, com a finali- dade de satisfazer às suas necessidades e atender aos seus desejos. A definição de Solomon (2016) é muito próxima à de Kotler e Keller (2019), que destacam os conceitos de necessidades e desejos no processo de consumo. Os autores explicam que as necessidades estão relacionadas à satisfação de condições básicas de vida do indivíduo. O conceito das necessidades humanas tem origem em estudos da das áreas da antropologia e da psicologia. A Pirâmide das necessidades humanas, desenvolvida por Abraham Maslow (1908-1970), psicólogo americano, é uma das mais conhecidas teorias que aborda o conceito de necessidades. Apresentada no livro A theory of human motivation, lançado origi- nalmente em 1943 (MASLOW, 2014), e bastante utilizada na ciência da administração como base de estudos sobre o comportamento do con- sumidor, a pirâmide de Maslow classifica as necessidades humanas em cinco diferentes níveis. A Figura 2 mostra a organização desses níveis de necessidade, segundo Maslow. 12 Comportamento do consumidor Figura 2 Pirâmide das necessidades de Maslow Al ek sa nd r B ry lia ev /S hu tte rs to ck Fonte: Caxito, 2020, p. 28. Realização pessoal: moralidade, criatividade, espontanei- dade, solução de problemas, ausência de preconceito e aceitação dos fatos. Estima: autoestima, confiança, conquista, respeito dos outros e respeito aos outros. Segurança: segurança do corpo, do emprego, de recursos, da moralidade, da família, da saúde e da propriedade. Fisiologia: respiração, comida, água, sexo, sono, homeosta- se e excreção. Amor/relacionamento: amizade, família e intimidade sexual. Como mostra a Figura 2, as necessidades fisiológicas, como a de alimentar-se e dormir, estão na base da pirâmide. O próximo nível de necessidade é a segurança, relacionada à manutenção das condições básicas para a sobrevivência. Caxito (2020) usa um bebê como exemplo desse nível de necessidade, pois alimentar-se, dormir, fazer as neces- sidades fisiológicas e sentir-se seguro nos braços dos pais basta para que o bebê esteja satisfeito. O ser humano é um ser social e, por isso, precisa conviver em so- ciedade. Assim, as necessidades intermediárias da pirâmide de Maslow estão relacionadas a aspectos sociais, como a necessidade de desen- volver relacionamentos pessoais, participar, ser aceito e estimado pelograu de concordância, geralmente em cinco níveis, frequentemente usadas desde “discordo totalmente” até o “concordo totalmen- te”. Ou seja, ao invés de responder apenas “sim” ou “não” a uma pergunta, é dada uma nota a partir da escala, especificando o quanto o respondente concorda ou discorda daquela afirmação. Os consumidores que avaliam o atendimento com notas entre 9 e 10 pontos são considerados promotores da empresa ou da marca. No- tas entre 7 e 8 pontos são consideradas neutras. Os clientes que ava- A série documental A era dos dados: a ciência por trás de tudo apresenta como as ferramentas e tecnologias digitais, em especial as apoiadas na internet, possibilitam às empresas coletar não apenas dados das ações e interações realizadas por seus clientes no ambiente virtual. Com a dissemina- ção das redes sociais, das tecnologias de rastrea- mento do posicionamento dos aparelhos eletrônicos e principalmente com o imenso crescimento do uso de celulares e smartphones que acom- panham os indivíduos a cada momento do dia e a cada atividade realizada, é possível acompanhar o cliente em todos os momentos de sua vida. Direção: Kishi Bashi. EUA: Netflix, 2020. Série Pesquisa e análises sobre o consumidor 67 liam o atendimento com notas de 0 a 6 pontos são considerados como detratores da marca, pois não indicarão ou recomendarão a empresa a seus contatos. A NPS é calculada pela seguinte fórmula: NPS: % de clientes promotores - % de clientes detratores Exemplo Uma empresa realiza a pesquisa com 100 clientes e registra os se- guintes valores: 71 clientes registraram notas 9 e 10 (promotores), 8 clientes registraram notas 7 e 8 (neutros) e 21 clientes registraram notas de 0 a 6 pontos (detratores). O NPS dessa empresa é: NPS: 71% (promotores) – 21% (detratores) = 50% ar ty wa y/ Sh ut te rs to ck Após calcular o NPS obtido pela empresa por meio das avaliações realizadas por seus clientes e consumidores, o resultado é comparado com a escala mostrada na Figura 2, que apresenta a classificação das empresas de acordo com o valor NPS. Kv ec to r/ sh ut te rs to ck Fonte: Elaborada pelo autor. Figura 2 Classificação NPS Entre -1 e -100 Zona crítica Experiência aquém da expectativa do cliente. Tomar medidas urgentes e eficientes. Entre 0 e 49 Zona de melhoria Indica que o cliente não gostou de seus produtos. A empresa é ineficiente. Entre 50 e 74 Zona de qualidade Boa experiência para os clientes, apresentam fa- lhas. Reavaliar o processo de atendimento. Entre 75 e 100 Zona de excelência Proporciona grandes ex- periências para os con- sumidores. Indicadores quantitativos e qualitativos possibilitam identificar dife- rentes aspectos do comportamento do consumidor e do processo de decisão de compra. Na pesquisa de marketing, esses indicadores são utilizados de maneira conjunta para que a empresa possa desenvolver um conhecimento amplo e diversificado sobre seus clientes e consumi- dores, bem como sobre cada etapa do processo de compras. 68 Comportamento do consumidor 3.4 Mensuração de resultados no Marketing Digital Vídeo O uso de indicadores de desempenho é uma prática bastante utilizada na gestão empresarial. De acordo com Caxito (2020), os in- dicadores podem ser relacionados aos objetivos e metas definidos no planejamento estratégico da empresa ou a padrões e valores de referência, que podem ser tanto internos (como resultados obti- dos em períodos anteriores ou em condições semelhantes) quanto externos, como resultados de outras empresas concorrentes, peso percentual da participação da empresa sobre o total de vendas do mercado no qual atua ou a indicadores macroeconômicos, como taxa de inflação, evolução do produto interno bruto (PIB) do país no período considerado ou outros indicadores sociais e estatísticas oficiais. No contexto do marketing digital, Todor (2016) aponta que os indicadores de desempenho estão relacionados à atração de con- sumidores para as páginas, sites, blogs e redes sociais da empresa, identificação dos usuários que fazem parte do perfil de consumi- dores da empresa e à conversão desse tráfego de usuários em ne- gócios efetivos. O autor cita alguns tipos de indicadores que podem ser utili- zados para medir esses resultados, como indicadores de tráfego nas páginas, porcentagem de visitantes que são transformados em potenciais clientes (conceito conhecido como leads), alcance das publicações, ou seja, quantas pessoas são impactadas pelas posta- gens, em sites, blogs e redes sociais, posicionamento da empresa nas ferramentas de busca da internet, quantidade de usuários que acessam os anúncios pagos da empresa, entre outros possíveis indicadores. Araujo (2018) apresenta, no Quadro 1, alguns exemplos de indi- cadores utilizados na gestão de campanhas em redes sociais. Conhecer as ferramentas e os indicadores usados na mensuração dos resultados no Marketing Digital. Objetivo de aprendizagem Pesquisa e análises sobre o consumidor 69 Quadro 1 Métricas de mídias sociais e indicadores-chave de performance considerados na análise Métrica de mídia social Indicador-chave de performance Descrição Visibilidade Número atual de fãs Quantitativo atual do número de seguidores que a página apresenta. Influência Número de crescimento mé- dio de fãs Crescimento médio do número de seguidores no período analisado. Engajamento % índice de engajamento % interações em postagens Número total de interações O valor de engajamento dos fãs com a página é calculado pela quantidade média de reactions e comentários por dia, dividido pelo número de fãs. Valor médio de reactions, comentários e compartilhamen- tos por fã para todas as postagens. Valor total de interações (soma das reactions, comentários e compartilhamentos). Reputação % índice de desempenho O índice de desempenho da página (page performance index) é uma combinação do valor de índice de engaja- mento e do crescimento do número de fãs da página. É um indicador da força geral de uma página no Facebook. Fonte: Araujo, 2018, p. 12. Como o marketing digital é um campo de atuação em constante evolução, no qual novas ferramentas, tecnologias e formas de intera- ção são criadas em ritmo acelerado, os indicadores de gestão relacio- nados ao comportamento do consumidor utilizados pelas empresas também passam por transformações. O Quadro 2 mostra alguns dos indicadores de marketing digital de uso mais consolidado. Quadro 2 Indicadores de marketing digital INDICADOR USO EXEMPLO FÓRMULA DE CÁLCULO Custo por aquisição Mostra quantos novos clien- tes são conquistados, em relação ao investimento rea- lizado. R$500,00 de investimento em mídia digital conquistou uma venda para novos clientes de R$2.000,00. CPA: R$ 500,00/R$ 2.000,00 = R$ 0,25 Leads Conquista de um potencial cliente para a empresa. Com uma ação de marketing di- gital, 20 pessoas acessaram pela primeira vez a página da empre- sa e disponibilizaram os dados de contato. (Continua) 70 Comportamento do consumidor INDICADOR USO EXEMPLO FÓRMULA DE CÁLCULO Custo por clique Medir o valor investido pela empresa em anúncios digi- tais (como Google Ads ou Facebook Ads) para atrair consumidores interessados em seus produtos ou servi- ços. R$1.000,00 de investimento em mídia digital trouxe 2.000 cliques no anúncio. CPC: R$ 1.000,00/2.000 = R$ 0,50 por clique Taxa de conversão Mostrar a relação entre a quantidade de consumido- res que foram impactados por uma ação de marketing digital e quantos efetiva- mente tomaram uma ação que pode levar a um negó- cio futuro. 400 consumidores acessaram uma página da empresa desen- volvida para coletar dados de contato, como nome e telefone. 50 pessoas preencheram os da- dos. TX Conversão: 50/400 = 0,125 Taxa de cli- ques Mostra a relação entre a quantidade de vezes que um anúncio digital foi exi- bido em determinada pla- taforma e a quantidade de cliques realizados peloscon- sumidores. Anúncio foi publicado 5 vezes em uma semana e recebeu 120 cliques. Tx de cliques: 120/5= 24 cli- ques por veiculação Origem do tráfego Indica quais são os canais e investimentos de marketing digital mais efetivos, dentro da estratégia da empresa. Identifica o caminho pelo qual o consumidor chega até as páginas da empresa. A página de conversão da empre- sa recebeu 100 visitas em uma semana, com 10 sendo realiza- das a partir de um anúncio no Instagram, 30 a partir de uma postagem com dicas de uso do produto, feita no Facebook, 5 a partir de um vídeo postado no YouTube e 55 a partir de um link patrocinado na ferramenta de busca do Google. No exemplo, a maior parte do tráfego tem como ori- gem o anúncio patrocina- do, seguido pela postagem no Facebook. A empresa pode direcionar seus inves- timentos para esses canais. Fonte: Elaborado pelo autor. Araujo (2018) dá o nome de marketing científico digital ao uso con- junto de conhecimento de marketing e ferramentas estatísticas que possibilitam mensurar a relação entre os esforços de marketing, prin- cipalmente os investimentos e as ações de marketing digital, como anúncios, postagens, conteúdos e presença nas redes sociais, e os re- sultados obtidos na atração, conversão e fidelização do cliente. Pesquisa e análises sobre o consumidor 71 3.5 Big Data, mídias digitais e Social Marketing Analytics Vídeo Com o desenvolvimento acelerado das tecnologias da informação e da comunicação nas últimas décadas, as empresas passaram a ter acesso a uma enorme quantidade de informações sobre seus consu- midores, sobre a sociedade e sobre a forma como se organizam as de- cisões de compra e o comportamento do consumidor. No entanto, a quantidade de dados e informações disponíveis é tão grande e os dados se apresentam de maneiras tão variadas, que o pró- prio processo de coleta, organização e análise se torna um grande de- safio. O termo Big Data, segundo Erl, Khattak e Buhler (2016), descreve tanto essa grande quantidade de dados disponíveis quanto os siste- mas, as ferramentas e as tecnologias necessárias para lidar com esses dados de modo rápido e eficiente, para que a empresa possa explorar todas as oportunidades que se apresentam no mercado. O grande desafio de lidar com o Big Data está relacionado à multi- plicidade e à variedade de formatos, tipos, credibilidade e à própria ve- locidade com que os dados são gerados. A Figura 3 mostra uma série de características apresentadas pelos dados coletados e tratados pelos sistemas e ferramentas que se fundamentam no conceito do Big Data. Figura 3 Os 7 Vs do Big Data Volume Valor Veracidade Visualização Variedade Velocidade Variabilidade bu ffa lo bo y / sh ut te rs to ck Fonte: Adaptada de Caxito, 2021, p. 13. 7 Vs do Big Data Conhecer os conceitos de Big Data, o uso das mídias digitais e as ferramentas de análise de dados gerados em plataformas e redes sociais. Objetivo de aprendizagem Para Araujo (2018), o marketing digital possibilita às empresas cons- truir e estabelecer uma presença da marca no ambiente on-line, ofe- recer conteúdo relevante, que engaje e crie relações de confiança e de fidelidade com seus clientes, e responder a demandas, dúvidas e questionamentos de seus consumidores e da sociedade. 72 Comportamento do consumidor O volume descreve a enorme quantidade de dados gerados diaria- mente em milhões de interações nas redes sociais, ferramentas de busca, sites de compra, comentários, curtidas e avaliações realizadas pelos consumidores. A empresa precisa investir constantemente em equipamentos e sistemas que possibilitem acumular, organizar e anali- sar os dados. A variedade está ligada à diversidade de formatos nos quais os dados podem ser apresentados. Vídeos, posts, comentários, curtidas, fotos, relatórios, textos, áudios de chamadas, aplicativos de comunicação são usados pelas empresas e pelos consumidores. Lidar com essa diversi- dade de formatos e, principalmente, relacionar os dados e as informa- ções capturados em cada um deles exige, segundo Kaisler et al. (2019), o uso de tecnologias e conhecimentos de profissionais especializados na análise de informações. A internet apresenta, além da grande quantidade de dados gerados, muita velocidade na geração e no compartilhamento de informações. Nas redes sociais, um post pode gerar milhares de interações em al- guns minutos. Se um comentário negativo sobre a empresa não for prontamente respondido, pode se transformar, em pouco tempo, em um grande problema de imagem. Assim, a empresa precisa ter capaci- dade de lidar rapidamente com os dados e as informações. A veracidade dos dados e informações é uma das características mais discutidas do Big Data. O fenômeno das notícias falsas (fake news) traz problemas graves em contextos sociais, econômicos, políti- cos pessoais e profissionais. Empresas que são alvo desse tipo de notícia precisam lidar rapidamente com a situação, para evitar impacto sobre sua imagem e reputação. Precisam tam- bém garantir que os dados usados pelo marketing sejam confiáveis, para não gerar decisões equivocadas. Contudo, nem todos os dados e informações co- letados têm valor para os objetivos da empresa. Saber escolher os dados que precisam ser trabalhados é fundamen- tal para que os recursos tecnológicos e humanos sejam utilizados da forma mais eficiente. O valor se relaciona com a veracidade – pois um dado só tem valor se for real – e com a velocidade, visto que se a coleta e a análise foram demoradas, pode não ser possível utilizar a informa- ção gerada de maneira estratégica. O uso de indicadores de desempenho na gestão das mais diversas áreas e processos realizados nas empresas é o tema do livro Indicadores de Desempenho: Dos objetivos à ação — métodos para elaborar KPIs e obter resultados, que aborda a importância de definir os indicadores mais adequa- dos e que representem os fatores-chave que precisam ser colocados em prática para que os objetivos da empresa sejam alcançados com eficiência e eficácia. FRANCISCHINI, A. S. N.; FRANCISCHINI, P. G. Rio de Janeiro: Alta Books, 2018. Livro Hi lc h/ Sh ut te rs to ck O link a seguir apresenta uma reportagem feita so- bre um post que causou muita interação nas redes sociais. Disponível em: https://noticias. uol.com.br/internacional/ ultimas-noticias/2013/12/21/apos- postar-frase-racista-sobre-africa- executiva-inglesa-pede-desculpas. htm. Acesso em: 15 fev. 2022. Leitura https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2013/12/21/apos-postar-frase-racista-sobre-africa-executiva-inglesa-pede-desculpas.htm https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2013/12/21/apos-postar-frase-racista-sobre-africa-executiva-inglesa-pede-desculpas.htm https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2013/12/21/apos-postar-frase-racista-sobre-africa-executiva-inglesa-pede-desculpas.htm https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2013/12/21/apos-postar-frase-racista-sobre-africa-executiva-inglesa-pede-desculpas.htm https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2013/12/21/apos-postar-frase-racista-sobre-africa-executiva-inglesa-pede-desculpas.htm https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2013/12/21/apos-postar-frase-racista-sobre-africa-executiva-inglesa-pede-desculpas.htm Pesquisa e análises sobre o consumidor 73 O volume descreve a enorme quantidade de dados gerados diaria- mente em milhões de interações nas redes sociais, ferramentas de busca, sites de compra, comentários, curtidas e avaliações realizadas pelos consumidores. A empresa precisa investir constantemente em equipamentos e sistemas que possibilitem acumular, organizar e anali- sar os dados. A variedade está ligada à diversidade de formatos nos quais os dados podem ser apresentados. Vídeos, posts, comentários, curtidas, fotos, relatórios, textos, áudios de chamadas, aplicativos de comunicação são usadospelas empresas e pelos consumidores. Lidar com essa diversi- dade de formatos e, principalmente, relacionar os dados e as informa- ções capturados em cada um deles exige, segundo Kaisler et al. (2019), o uso de tecnologias e conhecimentos de profissionais especializados na análise de informações. A internet apresenta, além da grande quantidade de dados gerados, muita velocidade na geração e no compartilhamento de informações. Nas redes sociais, um post pode gerar milhares de interações em al- guns minutos. Se um comentário negativo sobre a empresa não for prontamente respondido, pode se transformar, em pouco tempo, em um grande problema de imagem. Assim, a empresa precisa ter capaci- dade de lidar rapidamente com os dados e as informações. A veracidade dos dados e informações é uma das características mais discutidas do Big Data. O fenômeno das notícias falsas (fake news) traz problemas graves em contextos sociais, econômicos, políti- cos pessoais e profissionais. Empresas que são alvo desse tipo de notícia precisam lidar rapidamente com a situação, para evitar impacto sobre sua imagem e reputação. Precisam tam- bém garantir que os dados usados pelo marketing sejam confiáveis, para não gerar decisões equivocadas. Contudo, nem todos os dados e informações co- letados têm valor para os objetivos da empresa. Saber escolher os dados que precisam ser trabalhados é fundamen- tal para que os recursos tecnológicos e humanos sejam utilizados da forma mais eficiente. O valor se relaciona com a veracidade – pois um dado só tem valor se for real – e com a velocidade, visto que se a coleta e a análise foram demoradas, pode não ser possível utilizar a informa- ção gerada de maneira estratégica. O uso de indicadores de desempenho na gestão das mais diversas áreas e processos realizados nas empresas é o tema do livro Indicadores de Desempenho: Dos objetivos à ação — métodos para elaborar KPIs e obter resultados, que aborda a importância de definir os indicadores mais adequa- dos e que representem os fatores-chave que precisam ser colocados em prática para que os objetivos da empresa sejam alcançados com eficiência e eficácia. FRANCISCHINI, A. S. N.; FRANCISCHINI, P. G. Rio de Janeiro: Alta Books, 2018. Livro Hi lc h/ Sh ut te rs to ck O link a seguir apresenta uma reportagem feita so- bre um post que causou muita interação nas redes sociais. Disponível em: https://noticias. uol.com.br/internacional/ ultimas-noticias/2013/12/21/apos- postar-frase-racista-sobre-africa- executiva-inglesa-pede-desculpas. htm. Acesso em: 15 fev. 2022. Leitura Outra característica dos dados no contexto do Big Data é a variabi- lidade. Alguns tipos de dados estão em constante modificação. Como exemplifica Caxito (2021, p. 27) “os dados meteorológicos, os dados de uma pesquisa de intenção de votos, a quantidade de visualizações de um vídeo ou de uma postagem ou os valores de ações listadas na bolsa de valores”. Em contrapartida, outros tipos de dados são mais estáveis e podem ser analisados mais profundamente, como mudanças demo- gráficas e econômicas. Por fim, as informações geradas com base nas análises dos dados precisam ser visualizadas com a mesma rapidez com que são criadas. Por isso, é fundamental utilizar ferramentas e tecnologias de Big Data que possibilitam a visualização das informações, como gráficos, painéis e dashboards. O uso cada vez mais intenso de dados de consumidores e clientes pelas empresas levanta questionamentos éticos e legais sobre o direito à privacidade das informações pessoais. Em diversos países do mundo, inclusive no Brasil, legislações têm sido desenvolvidas para proteger o direito à privacidade de dados pessoais. Conhecer os conceitos relacionados ao Big Data é fundamental para que a empresa possa definir suas estratégias com relação a que tipos e fontes de dados considerar, compreender a relação dos dados coleta- dos com seus objetivos e quais as ferramentas e metodologias utilizar no tratamento da informação. No contexto do Big Data, as mídias sociais têm um papel de desta- que, por representarem uma plataforma por meio da qual os consumi- dores tanto buscam informações quanto compartilham sentimentos, emoções, opiniões e avaliações. Conforme Dickey e Lewis (2012), al- gumas características diferenciam as mídias sociais das mídias tradicionais, como a televisão e a imprensa. Nas mídias sociais, o conteúdo é gerado, produzido, publicado, compartilhado e con- trolado pelos próprios usuários. As mídias sociais possibilitam que a interação entre a empresa e seus consumidores seja intensificada e apro- fundada, pois facilita a interação entre os clientes e usuários, que podem validar, discordar, confirmar ou criticar as informa- ções geradas pelas empresas. Assim, para conquistar credibilidade, as Com o objetivo de orga- nizar e controlar a forma como as empresas e orga- nizações coletam, organi- zam, armazenam, tratam, divulgam, publicam e co- mercializam informações pessoais dos cidadãos, foi promulgada, em 2018, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). A lei brasileira é conside- rada bastante avançada e completa em relação a legislações semelhantes de outros países. Para conhecer mais sobre a lei, os direitos e deveres de empresas e cidadãos, acesse o texto completo. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/_ ato2015-2018/2018/lei/l13709. htm. Acesso em: 15 fev. 2022. Leitura https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2013/12/21/apos-postar-frase-racista-sobre-africa-executiva-inglesa-pede-desculpas.htm https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2013/12/21/apos-postar-frase-racista-sobre-africa-executiva-inglesa-pede-desculpas.htm https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2013/12/21/apos-postar-frase-racista-sobre-africa-executiva-inglesa-pede-desculpas.htm https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2013/12/21/apos-postar-frase-racista-sobre-africa-executiva-inglesa-pede-desculpas.htm https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2013/12/21/apos-postar-frase-racista-sobre-africa-executiva-inglesa-pede-desculpas.htm https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2013/12/21/apos-postar-frase-racista-sobre-africa-executiva-inglesa-pede-desculpas.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13709.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13709.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13709.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13709.htm 74 Comportamento do consumidor empresas precisam compartilhar informações confiáveis e honestas sobre a qualidade de seus produtos e serviços. Apesar de poder utilizar as mídias sociais ativamente, por meio de propagandas e produção de conteúdo, a fim de atrair a atenção dos consumidores e participar do diálogo travado nas plataformas, não é a empresa que define e direciona a comunicação. Por isso, é fundamental que se utilizem ferramentas que possibili- tem às empresas monitorar o que se fala sobre suas marcas e produ- tos. O conceito de marketing analytics, segundo Rackley (2015), está relacionado às análises feitas pelas empresas com o objetivo de moni- torar e acompanhar tanto suas ações estratégicas realizadas nas redes sociais quanto as opiniões, postagens e comentários realizados pelos consumidores sobre seus produtos e marcas, com o objetivo de dire- cionar as ações e otimizar o uso dos investimentos e dos recursos de marketing de que a empresa dispõe. Já o conceito de social media analytics, conforme Gandomi e Haider (2015), foca a análise dos dados e informações que têm como origem espe- cificamente as redes sociais (como o Facebook, o Instagram e o LinkedIn) e as mídias sociais – blogs, YouTube, Twitter e podcasts, por exemplo. O uso do social media analytics é relevante porque, nesse tipo de canal, o conteúdo é predominantementegerado pelos próprios usuários, o que possibilita entender os sentimentos, as opiniões, as sensações e os comportamentos dos consumidores em relação à marca e aos produtos da empresa. CONSIDERAÇÕES FINAIS O comportamento de consumo tem passado por profundas modifi- cações, causadas principalmente pela grande transformação digital, que atinge a forma como governos, empresas, economia, sociedade e relacio- namentos se organizam. O marketing evolui com a tecnologia e com a sociedade para manter-se sempre atualizado e relevante no contexto empresarial. Assim, as ferra- mentas que possibilitam entender as mudanças constantes pelas quais a sociedade e os consumidores passam se tornam ainda mais relevantes na atuação do profissional de marketing, pois possibilitam conhecer as mudanças tecnológicas e entender como elas impactam a empresa e o comportamento do consumidor. Pesquisa e análises sobre o consumidor 75 ATIVIDADES Atividade 1 Explique as principais diferenças entre os conceitos de marketing 1.0, 2.0. 3.0 e 4.0. Atividade 2 O mundo vem passando por uma profunda transformação digital, que atinge as mais variadas áreas da sociedade e da vida dos indivíduos. Explique o conceito de transformação digital. Atividade 3 Diferencie os conceitos de objetivo, meta, KPI e métrica. REFERÊNCIAS ARAUJO, R. F. Marketing científico digital e métricas de mídias sociais: indicadores-chave de desempenho de periódicos no Facebook. Informação & Sociedade, v. 28, n. 1, 2018. 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Na primeira parte do capítulo, abordaremos as mudanças observadas no comportamento do consumidor com a adoção das tecnologias da in- formação e da comunicação nas diversas etapas do processo de tomada de decisão. Os hábitos e comportamentos dos consumidores nos canais digitais serão o tema da segunda parte, que abordará as estruturas e os processos que a empresa desenvolve para atender a um cliente cada vez mais informado e consciente de seu poder na relação de consumo. A comunicação de marketing deixa de ser um monólogo controlado pela empresa e passa a ser um diálogo mediado pelas comunidades que se organizam nas redes sociais, no qual a voz do consumidor é valorizada. A terceira parte do capítulo aborda como as empresas buscam incentivar a interação e o engajamento dos consumidores com seus produtos e marcas. A quarta parte tem como tema os símbolos de pertencimento e status e como eles passam a ter um valor ainda mais destacado em um ambien- te onde as relações são mediadas por imagens idealizadas e simbólicas, que criam desejos e padrõesa serem seguidos. Entender os comporta- mentos dos arquétipos presentes no inconsciente coletivo permite à em- presa direcionar seus esforços de comunicação no ambiente virtual, tema abordado na quinta parte do capítulo. Por fim, trataremos da criação de uma cibercultura. Ela surge a partir da cultura predominante na sociedade, mas a modifica e transforma por meio do ativismo digital e da criação de tribos, bolhas de opinião e grupos organizados virtualmente, trazendo impactos que vão além das relações de consumo e modificando profundamente a sociedade contemporânea. 4.1 Comportamento do consumidor em canais digitais Vídeo Estudar o comportamento do consumidor é um dos pontos funda- mentais das atividades desenvolvidas pela área de marketing de uma empresa. Como apresentam Blackwell, Miniard e Engel (2013), os con- sumidores são influenciados por diversos fatores, tanto internos (como questões psicológicas, valores e educação) quanto por fatores exter- nos, como economia, nível de emprego, inflação, legislações, cultura e sociedade na qual estão inseridos. Gouvêa, Oliveira e Nakagawa (2013) apontam que fatores internos – como a motivação, a percepção, os processos de aprendizagem e for- mação de memórias – e externos, principalmente a cultura e as tecno- logias disponíveis, exercem profunda influência no comportamento do consumidor. Entre os fatores externos que influenciam o comportamento do consumidor, as tecnologias de informação e comunicação têm ganha- do importância cada vez maior nas mais diversas etapas do processo de compra. Elas vão desde a percepção de necessidades e criação de desejos de consumo, passando pela busca por informação, decisão, efetivação da compra e avaliação pós-compra. Para Rosa, Casagranda e Spinelli (2017), a internet possibilitou uma nova forma de relacionamento de consumo e abriu um leque de opor- tunidades para a criação e o fortalecimento das relações entre consumi- dores e empresas, com benefícios para ambos. A transformação digital e a virtualização do processo de compra possibilitam à empresa entender melhor as necessidades, os desejos e os processos decisórios dos consu- midores, desenvolvendo, assim, estratégias e comunicações mais efetivas. Entender como o consu- midor se comporta no uso dos canais digitais, a partir de seus hábitos e manifestações no ambien- te virtual. Objetivo de aprendizagem fizkes/Shutterstock 7878 Comportamento do consumidorComportamento do consumidor Netnografia 79 Aspectos como idade, gênero, momento do ciclo de vida, profissão, cargo ocupado e local de residência são algumas das variáveis para identificar as preferências e comportamentos adotados pelos indivíduos durante o processo de compras. Para os autores, a internet e, principalmente, as redes sociais, intensificaram a importância dessas características, pois a compra e o con- sumo de bens passaram a ser públicos, compar- tilhados, exibidos, analisados e comparados nos espaços virtuais. Do ponto de vista do consumidor, ainda segundo Rosa, Casagranda e Spinelli (2017), a internet permi- te o acesso a informações mais profundas, confiáveis e isentas sobre os produtos, serviços e marcas das empresas, além de possibilitar a comparação de diversas ofertas de diferentes empresas com mais facilidade. Diversas são as tecnologias da informação e da comunicação que são usadas pelo consumidor em seu processo de compra, como redes sociais, sites de busca, comparadores de preços, blogs, plataformas de vídeo e fóruns de opinião e avaliação de produtos e serviços, como po- demos observar no Gráfico 1, que mostra os resultados apresentados de pesquisa realizada por Rosa, Casagranda e Spinelli (2017). Google: 50% Blogs e sites especializados 37% Amigos e familiares 10%Redes sociais 3% Gráfico 1 Fontes de busca de informação Fonte: Rosa, et al. (2017, p. 33). 13_Phunkod/Shutterstock 80 Comportamento do consumidor O gráfico mostra que, durante a etapa de buscas por informações que serão usadas no processo de decisão de compra, os consumidores usam mais intensamente os canais e as ferramentas digitais do que fontes de informação mais tradicionais, como a opinião de familiares e de amigos. Nesse contexto, as empresas precisam investir continuamente no de- senvolvimento e na incorporação de novas tecnologias que possibilitem a interação com seus consumidores. Menegatti et al. (2017) destacam que, quanto mais a empresa interage com seus consumidores nos mais diversos canais de comunicação no ambiente digital, maior é a confiança e a fidelidade do cliente com relação a seus produtos, serviços e marcas. Contudo, a transformação digital dos negócios não atinge apenas as formas de comunicação e de relacionamento entre empresa e clientes. A efetivação da compra também passou por uma grande modificação: as empresas passaram a oferecer diversos canais de atendimento para o cliente, que pode escolher a forma mais conveniente para realizar as compras em um momento específico. Por isso, muitas empresas passaram a adotar uma estratégia de distribuição multicanal. Segundo Morais e Sarquis (2018, p. 2), “uma das estratégias utilizadas no varejo é o uso de diversos canais, tais como: loja física, loja virtual, catálogo impresso, representantes de vendas, força de vendas, call center, entre outros canais, denomina- do marketing multicanal”. Além de aumentar os pontos de contato e melhorar o conhecimen- to da empresa a respeito dos padrões de consumo e os processos de decisão de compra, o uso de uma estratégia multicanal possibilita à empresa aumentar sua venda e suas margens porque, segundo os au- tores, o consumidor multicanal compra com maior frequência e é mais fiel à empresa. No entanto, a estratégia de distribuição multicanal também traz de- safios e riscos. O consumidor que utiliza os canais digitais consegue reunir mais informações e utilizar ferramentas e sites que comparam as condições comerciais de cada fornecedor, além de ter acesso a opi- niões, avaliações e análises realizadas por outros consumidores. Por isso, é fundamental que a empresa acompanhe e monitore constan- temente sua relação com o cliente para entender suas expectativas, dúvidas, reclamações e questionamentos. A Amazon é a maior empresa de varejo eletrô- nico do mundo. Uma das primeiras empresas de varejo nascidas totalmen- te no mundo virtual, o va- rejista, que começou sua trajetória comercializando livros e discos, se tornou uma empresa global, com milhares de diferentes produtos, e foi uma das responsáveis pelo cres- cimento do e-commerce em todo o mundo. O livro A loja de tudo conta a história da formação da empresa e discute as principais estratégias utilizadas durante seu crescimento. STONE, B. São Paulo: Intrínseca, 2014. Livro Netnografia 81 De acordo com Ribeiro et al. (2019), a estratégia multicanal repre- senta um avanço significativo em relação à forma de distribuição em apenas um canal, como as empresas que só utilizam o canal de lojas físicas para atender a seus clientes. No entanto, para os autores, cada canal atua de modo independente, com políticas comerciais e até pre- ços diferentes e sem a integração das informações coletadas em cada canal. Por esse motivo, as empresas têm buscado integrar as opera- ções dos diversos canais de distribuição e de relacionamento com os clientes, conceito chamado de estratégia omnichannel, que, segundo Ribeiro et al. (2019, p. 4): é uma evolução do conceito multicanal, é uma tendência que se baseia na convergência de todos os canais utilizados por uma empresa, integrando lojas físicas, virtuais e os clientes. Ela se re- fere ao gerenciamento sinérgico dos diversos canais disponíveis para o cliente, para que eleve o desempenho e traga uma nova experiência para o cliente em todos os canais. As formas de organização dos sistemas multicanal e omnichannel são apresentadas a seguir. MULTICANAL OMNICHANNEL Figura 1 Estrutura multicanal e omnichannelPi sc in e2 6/ Sh ut te rs to ck O consumidor está no centro da estratégia omnichannel, pois seu processo de compra transita entre o virtual e o físico. Um mesmo cliente pode identificar uma necessidade durante o uso de uma rede social, buscar informações sobre o produto ou serviços em uma fer- ramenta de pesquisa na internet, comparar preços em sites de di- versos varejistas, conhecer o produto em uma loja física e realizar a compra em um e-commerce. No vídeo Multicanal x Omnichannel, publicado pelo canal E-Commerce Brasil, Lodovico Brioschi, executivo da empresa AMARO, um varejista de roupas que nasceu no ambiente virtual, mas que passou a atuar também com lojas físicas, explica, com base na experiên- cia de sua empresa, a diferença entre os conceitos de multicanal e omnichannel, que tem o cliente como o centro das estratégias da empresa. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=BJoDOJt6aus. Acesso em: 11 fev. 2022. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=BJoDOJt6aus https://www.youtube.com/watch?v=BJoDOJt6aus https://www.youtube.com/watch?v=BJoDOJt6aus 4.2 Hábitos de uso de canais digitais Vídeo O uso de tecnologias da informação e comunicação no processo de decisão de compra empoderaram o consumidor em sua relação com as empresas. Se antes o cliente precisava confiar nas informações forneci- das e publicadas pelas empresas em suas comunicações de marketing – como na publicidade e na propaganda – e tinha poucas opções de fornecedores e baixa capacidade de comparação das diversas ofertas, com a internet ele passou a estar no centro do processo de decisão, com mais informações, mais ferramentas e com a possibilidade de ex- ternar suas opiniões e considerações sobre a empresa e seus produtos. Como destacam Kotler e Keller (2019), a internet possibilita ao con- sumidor expor suas insatisfações quanto ao produto e ao atendimento da empresa e elogiar ou indicar a empresa a outros consumidores. Para Totti (2016), as empresas passaram a atentar mais aos anseios e opiniões dos clientes, com o objetivo de desenvolver com eles rela- ções de confiança e fidelidade. Soares e Oliveira (2018) sintetizaram na Figura 2 diversos conceitos re- lacionados aos processos de decisão do consumidor no ambiente digital. Compreender os hábitos e comportamentos do consumidor de uso de canais digitais durante seu processo de compras. Objetivo de aprendizagem PROCESSO DE DECISÃO Características pessoais Idade, sexo, grupo étnico, educação, estilo de vida, características psicológicas, conhecimento, valores e personalidade. Sistema sob responsabilidade das empresas vendedoras Suporte logístico: pagamentos e entrega. Suporte técnico: projeto web e agentes inteligentes. Atendimento ao cliente: perguntas e respostas mais frequentes, (FAQs), e-mail, centrais de atendimento um a um. Estímulos Marketing: preço, promoção, produto e qualidade. Outros: econômicos, tecnológicos, políticos e culturais. Características ambientais Sociais e culturais da comunidade. Outras: jurídicas, institucionais, regulamentações e governamentais. Decisões dos compradores Comprar ou não comprar? O que comprar, onde (loja), quando e quanto gastar? Compras regulares. Figura 2 Processos de decisão do consumidor no ambiente digital Fonte: Soares; Oliveira, 2018, p. 11. Como mostra a Figura 2, a empresa precisa desenvolver uma estrutura de relacionamento e atendimento ao cliente que utiliza a internet nas diversas etapas do processo de compras. A presença digital da empresa no ambiente da internet vai além de apenas dis- ponibilizar sites e canais de comunicação para que os consumidores possam ser atendidos. A empresa precisa monitorar, de maneira ativa, o que é dito, publicado e compartilhado sobre seus produtos e marcas por clientes, influenciadores, concorrentes e sociedade. Segundo Klein, Guidi Neto e Tezza (2017, p. 209): um dos pontos fortes do monitoramento é fornecer uma grande quantidade de informação, oriunda de um diversificado número de fontes. O monitoramento trabalha como um radar, orientado para detectar e interpretar os sinais do ambiente. A pesquisa de opinião é um método consolidado para medir a percepção de uma população sobre determinado assunto, mas pode custar caro e levar tempo. 13 _P hu nk od /S hu tte rs to ck 8383 Comportamento do consumidorComportamento do consumidor Netnografia 83 PROCESSO DE DECISÃO Características pessoais Idade, sexo, grupo étnico, educação, estilo de vida, características psicológicas, conhecimento, valores e personalidade. Sistema sob responsabilidade das empresas vendedoras Suporte logístico: pagamentos e entrega. Suporte técnico: projeto web e agentes inteligentes. Atendimento ao cliente: perguntas e respostas mais frequentes, (FAQs), e-mail, centrais de atendimento um a um. Estímulos Marketing: preço, promoção, produto e qualidade. Outros: econômicos, tecnológicos, políticos e culturais. Características ambientais Sociais e culturais da comunidade. Outras: jurídicas, institucionais, regulamentações e governamentais. Decisões dos compradores Comprar ou não comprar? O que comprar, onde (loja), quando e quanto gastar? Compras regulares. Figura 2 Processos de decisão do consumidor no ambiente digital Fonte: Soares; Oliveira, 2018, p. 11. Como mostra a Figura 2, a empresa precisa desenvolver uma estrutura de relacionamento e atendimento ao cliente que utiliza a internet nas diversas etapas do processo de compras. A presença digital da empresa no ambiente da internet vai além de apenas dis- ponibilizar sites e canais de comunicação para que os consumidores possam ser atendidos. A empresa precisa monitorar, de maneira ativa, o que é dito, publicado e compartilhado sobre seus produtos e marcas por clientes, influenciadores, concorrentes e sociedade. Segundo Klein, Guidi Neto e Tezza (2017, p. 209): um dos pontos fortes do monitoramento é fornecer uma grande quantidade de informação, oriunda de um diversificado número de fontes. O monitoramento trabalha como um radar, orientado para detectar e interpretar os sinais do ambiente. A pesquisa de opinião é um método consolidado para medir a percepção de uma população sobre determinado assunto, mas pode custar caro e levar tempo. 13 _P hu nk od /S hu tte rs to ck 8383 Comportamento do consumidorComportamento do consumidor 84 Comportamento do consumidor O monitoramento ativo das diversas mídias utilizadas no ambiente virtual, como blogs, redes sociais, fóruns, podcasts e plataformas de vídeo, possibilita à empresa responder rapidamente quando há uma crítica ou uma insatisfação por parte de seus consumidores, bem como aproveitar as oportunidades que possam surgir para divulgar seus pro- dutos e marcas. Soares e Oliveira (2017) afirmam que, no ambiente virtual, o consu- midor precisa se sentir seguro para ter a confiança de que suas esco- lhas de consumo são as mais adequadas e oferecem a melhor relação entre custo e benefícios. A atuação da empresa no ambiente virtual deve transmitir credibilidade e alinhamento entre as comunicações realizadas e a forma como os consumidores avaliam a empresa. As au- toras apresentam diversas características do comportamento dos con- sumidores no ambiente virtual. Iri na S tre ln ik ov a/ Sh ut te rs to ck Fonte: Soares; Oliveira, 2018, p. 11. Figura 3 Características do consumidor do século XXI Quer se comunicar pelas redes sociais com as empresas com as quais se relaciona. Consumidor do século XXI Está mais atento à experiência com uma empresa. Se for negativa, não hesita em boicotar. Cada vez mais utiliza a internet para buscar opiniões. Prefere comprar em lojas on-line pelos menores preços e promoções. Prefere utilizar os aplicativos da empresa antes de entrar em contato pelo telefone. Deseja agilidade na resposta das empresas pelas mídias sociais. É fã de programas de fidelidade.Cada vez menos pede opinião sobre um produto para os vendedores de loja. Não gosta de anúncios em suas redes sociais. Utiliza smartphones para pesquisar e fazer compras. As características apontadas por Soares e Oliveira (2018) refletem os hábitos de consumo do consumidor no ambiente virtual. O consumidor Netnografia 85 confia mais nas postagens e conteúdos gerados por outros consumido- res do que nas comunicações desenvolvidas pela empresa, atitude que pode ser relacionada às seguintes características: cada vez mais, utiliza a internet para buscar opiniões; e cada vez menos pede opinião sobre um produto para os vendedores de loja. O consumidor quer ser ouvido pela empresa e demanda respostas rápidas e honestas, como mostram as características: prefere utilizar os aplicativos da empresa antes de entrar em contato pelo telefone; deseja agilidade na resposta das empresas pelas mídias sociais; e quer se comunicar pelas redes sociais com as empresas com as quais se relaciona. Porém, o consumidor não quer se sentir pressionado pela empresa ou invadido em sua privacidade, como mostra a característi- ca: não gosta de anúncios em suas redes sociais. Um hábito importante do consumidor é o uso das tecnologias da informação e da comunicação, como os sites de comparação de preços, na busca por informações sobre os preços e condições comerciais ofe- recidas pelas diversas empresas de determinado mercado. Esse hábito se relaciona às características: prefere comprar em lojas on-line pelos menores preços e promoções; e utiliza smartphones para pesquisar e fazer compras. Se a empresa consegue estabelecer um diálogo direto e confiável, o consumidor responde de maneira positiva e se torna um defensor fiel da marca, como mostra a característica: é fã de programas de fidelidade. No entanto, se percebe que os produtos, ou o atendimento, da em- presa não atendem às suas expectativas, o consumidor compartilha sua opinião negativa com os demais consumidores e, em casos extre- mos, pode se tornar um detrator da marca, como mostra a caracterís- tica: está mais atento à experiência com uma empresa. Se for negativa, não hesita em boicotar. Para lidar com um cliente mais informado e consciente de seus di- reitos e de seu poder na relação de consumo, as empresas precisam investir em ferramentas e processos que possam aumentar o seu co- nhecimento sobre os fatores que influenciam as decisões de consumo e sobre o processo de compras do consumidor. O documentário Vou te cancelei mostra com exemplos reais de artis- tas, políticos e pessoas públicas como ocorre o cancelamento e como lidar com a situação. O cancelamento é um fenômeno cada vez mais presente no ambiente vir- tual, no qual uma pessoa, instituição, empresa, marca ou produto passa a ser criticada na internet, gerando uma avalanche de denúncias, ofensas, ameaças e boicote. A cultura do cancelamen- to pode destruir a vida de uma pessoa e levar empresas à falência. Direção: Guilherme Melles; Gabriela Brigagão. Rio de Janeiro: GNT, 2021. Documentário Ga ud iL ab /S hu tte rs to ck ADD AMIGO COMPARTILHAR COMENTAR NOVA MENSAGEM CURTIR VIDA DE SOCIAL MEDIA 4.3 Interação e engajamento no ambiente digital Vídeo Durante as primeiras décadas de desenvolvimento das estratégias e ferramentas de marketing, as empresas tinham grande controle do processo de comunicação estabelecido com os seus clientes e consu- midores. A promoção, um dos elementos que fazem parte de um dos 4P´s do mix de marketing (KOTLER; KELLER, 2019), é composta de pu- blicidade e propaganda, formas de comunicação com características de um monólogo. Nesse contexto, a empresa direciona de modo estratégico as informa- ções que deseja que sejam compartilhadas, seja por meio de peças pu- blicitárias, seja pela divulgação de informações para a mídia e veículos de comunicação. A voz do consumidor, no marketing tradicional, era pouco relevante: suas opiniões, críticas ou avaliações não encontravam espaços de divulgação e, por isso, não influenciavam as decisões das empresas. A transformação digital modificou profundamente essa rela- ção entre empresas e clientes. Segundo Mesquita, Ruão e Andrade (2021, p. 87): o poder de acionar a comunicação foi transferido para as mãos dos interagentes e as organizações passam a ser vistas como um dos interlocutores entre os atores sociais, dividindo com os públi- cos a capacidade de publicar ou compartilhar informações, iniciar debates e influenciar nas construções simbólicas e representa- ções feitas sobre elas. Perceber como ocorrem as interações nos rela- cionamentos virtuais e o processo de engajamento no ambiente digital. Objetivo de aprendizagem 8686 Comportamento do consumidorComportamento do consumidor Netnografia 87 A comunicação entre a empresa e seus clientes e consumidores, no ambiente digital, deixa de ser um monólogo direcionado pela empresa, e passa a ser um diálogo no qual o consumidor participa ativamente na construção das informações. Para conquistar a confiança e o respeito dos consumidores, a fim de que eles considerem os produtos e as marcas da empresa em seu processo de decisão de consumo, é necessário estabelecer um relacionamento que possibilite a interação e o engajamento entre empresa e clientes. Recuero (2012) define a interação como a relação entre dois ou mais indivíduos ou partes que atuam de maneira conjunta, de modo que as decisões e ações tomadas por uma das partes afeta as decisões e ações da outra parte. Para que se estabeleça uma relação interativa, a comu- nicação deve ser aberta e direta, tendo como objetivo a compreensão das necessidades, desejos, anseios e dúvidas de cada parte. Castro e Libardi (2019) explicam que a interação entre empresas e consumidores pode ser estabelecida de duas formas: a interação reati- va e a interação mútua. Na interação reativa, as comunicações entre a empresa e o consumidor não se apresentam como um diálogo, mas como monólogos, em que não ocorrem trocas positivas e aprendiza- dos. A interação não gera um relacionamento profundo nem há o en- gajamento do consumidor com relação à empresa. Já na interação mútua os participantes da relação influenciam-se reciprocamente. A empresa influencia as decisões do consumidor ao disponibilizar informações sobre seus produtos e serviços, da mesma forma que é influenciada pelas avaliações, comentários e reclamações dos clientes. Nesse tipo de interação, a frequência e a constância dos processos de comunicação são fatores fundamentais para o aprofun- damento do relacionamento e o engajamento do consumidor. O engajamento é definido por Recuero (2012) como a construção de um relacionamento entre duas ou mais partes, no qual há um envolvi- mento legítimo entre a empresa e o consumidor. Quando o consumi- dor percebe que sua voz é ouvida pela empresa e estabelece com ela um diálogo produtivo, se torna mais confiante e propenso a consumir os produtos, serviços e marcas, além de se tornar um cliente fiel e, em muitos casos, um divulgador e defensor da empresa. Em 2004, o documentário Super Size Me repercutiu sobre as redes de fast food, ao mostrar os impactos dos alimentos industrializados sobre a saúde dos consumidores. Na segunda parte do do- cumentário, lançado em 2017, o diretor Morgan Spurlock criou uma rede de fast food, chamada Holy Chicken, que adota como estratégia de comu- nicação usar a sinceri- dade e a transparência das informações como forma de gerar interação e engajamento de seus consumidores. Direção: Morgan Spurlock. EUA: Snoot Entertainment, 2017. Documentário 88 Comportamento do consumidor Segundo Toaldo e Rodrigues (2015), as redes sociais representam a melhor forma de a empresa interagir com seus clientes e promover o engajamento, pois possibilita que se estabeleça um diálogo franco, no qual as postagens e informações disponibilizadas por ambos têm o mesmo espaço e a mesma relevância. Se por um ladoas redes sociais possibilitam à empresa conhecer seus consumidores e influenciar suas opiniões; por outro, podem representar um grande desafio de gestão para a área de marketing. Almeida et al. (2018) explicam que os consumidores se organizam em diversas comunidades nos grupos sociais, cada uma delas com opi- niões, posturas, sentimentos e valores diferentes. Assim, as ações de comunicação da empresa precisam ser direcio- nadas a cada um desses grupos, modificando, inclusive, linguagens di- ferentes, para garantir que ocorra a interação e que se desenvolva o engajamento. 4.4 Iconologia e símbolos nas redes sociais Vídeo Para que possa se sentir incluído em um grupo social, os indivíduos buscam refletir os valores, as crenças e as representações da estrutu- ra de relacionamentos que se estabelece no grupo. Os grupos sociais utilizam formas simbólicas para identificar quem deles faz parte e qual a posição hierárquica de cada indivíduo na sua estrutura. Conforme Laureano (2020, p. 148), “a sociedade define metas e objetivos gera- dores de prestígio, como enriquecimento e poder, e por outro lado também apresenta os meios aceitos de se conquistar esses fins, como através da educação e do trabalho”. Conscientes de que as opiniões, os comportamentos e os hábitos de pessoas que ocupam posições de destaque influenciam as decisões de compra dos indivíduos que fazem parte ou buscam se integrar a determinado grupo social, as empresas buscam identificar pessoas que possam representar seus valores e posicionamentos diante dos segmentos de mercado que buscam atingir. Entender os símbolos de reconhecimento e status nas redes sociais e o impacto de seguidores, curtidas e comentários sobre o comportamento dos consumidores e das marcas. Objetivo de aprendizagem Netnografia 89 Om na rt/ Sh ut te rs to ck No contexto das redes sociais, os símbolos de status usados para definir a importância de um indivíduo na estrutura do grupo social podem ser definidos por alguns indicadores ligados à rede de relacio- namentos de que cada pessoa faz parte. Quantidade de seguidores, número de visualizações, curtidas e comentários em postagens e pu- blicações são, segundo Lira et al. (2017), alguns dos símbolos do status social no ambiente virtual. Entretanto, a busca pelo aumento dos resultados dos indicadores que representam símbolos de status leva alguns indivíduos a expor cada vez mais sua vida nas redes sociais. Estilos de vida radicais, con- sumo excessivo, padrões de beleza e estética irreais e comportamen- tos exagerados são alguns exemplos dos extremos apresentados nas redes sociais como sonhos de consumo a serem perseguidos. Para Silva et al. (2019, p. 14): o culto à imagem perfeita leva os indivíduos a terem uma distor- ção da própria vida e de si mesmos. O Instagram é caracterizado como um aplicativo nocivo, justamente por cultivar uma vida em imagens e propiciar uma realidade utópica, na qual tudo é mara- vilhoso e perfeito “basta ter força de vontade”. O aplicativo é um mundo fictício, que mexe com a saúde mental do usuário, propi- ciando um tempo ausente no mundo tangível e horas conectado. Incentivados pelo investimento das empresas, que direcionaram par- te significativa de suas verbas de marketing para as redes sociais, os in- fluenciadores digitais se tornaram porta-vozes e embaixadores de marcas e produtos no mundo virtual, com profundo impacto sobre o comporta- mento de compra dos consumidores. Para Amaral (2016), as redes sociais são um termômetro das mudanças pelas quais a sociedade passa, refle- tindo a centralidade do consumo e da busca por status social. A série Black Mirror discute os impactos da tecnologia sobre a sociedade. No episódio 1 (Nosedive) da terceira temporada, passado em um futuro próximo, cada pessoa recebe uma nota a partir de avaliações feitas pelas pessoas com as quais convive. Aqueles que conseguem uma alta avaliação, tornam-se referências e influenciam o comportamento do grupo. Já os que recebem baixa avaliação são margi- nalizados pela sociedade. A personagem principal torna sua busca por aumentar sua avaliação em uma obsessão, que a leva a perder tudo que conquistou. O episódio mostra como as redes sociais têm impactado negativamente a saúde mental das pessoas. Direção: Joe Wright. EUA: Netflix, 2016. Série 90 Comportamento do consumidor Silva et al. (2019) apontam que a busca para se adequar aos padrões idealizados e fantasiosos mostrados nas redes sociais afeta profunda- mente a saúde mental dos indivíduos, em especial crianças, adoles- centes e jovens, que tentam se enquadrar no grupo social a partir dos modelos representados pelos influenciadores. A comparação entre a imagem e os padrões de consumo real e a vida pretensamente perfeita das redes sociais traz angústia, ansiedade, sensação de inadequação e, em muitos casos, depressão. A partir de uma profunda revisão bibliográfica de dezenas de estudos de diversas áreas da ciência, como a psicologia, sociologia, administração, co- municação e medicina, o artigo Repercussões das redes sociais na imagem cor- poral de seus usuários: revisão integrativa, dos autores Silva, Japur e Penaforte, publicado na revista Psicologia: Teoria e Pesquisa, discute a percepção que as pessoas têm de sua própria imagem e corpo em relação aos padrões de beleza estabelecidos e propagados pelas redes sociais. O artigo mostra que as redes sociais podem ser nocivas tanto para a saúde física quanto mental dos indivíduos. Acesso em: 14 fev. 2022. https://www.scielo.br/j/ptp/a/YhYLPmGdBKmTdsZhk5kbYVJ/?format=pdf&lang=pt Artigo À medida que computadores e smartphones se tornam cada vez mais presentes no cotidiano pessoal e profissional, o mundo digital passou a ser visto como a parte mais importante da vida social dos indivíduos. Para Campos;Faria e Sartori (2020), impactados pela vida de sonho e os padrões de consumo exibidos pelos influenciadores di- gitais como porta de entrada para uma vida de felicidade e sucesso, os consumidores mudam seus comportamentos, práticas, ações e va- lores, bem como passam a perceber seus desejos de consumo como necessidades que precisam ser realizadas com urgência. 4.5 Arquétipos e perfis de comportamento do consumidor Vídeo A etnografia, segundo Marcon e Soriano-Sierra (2017), é uma área da antropologia que estuda a forma de organização e a cultura dos gru- pos sociais, com o objetivo de entender seus valores, formas de pensar, práticas cotidianas e modos de criação de conhecimento e cultura. No livro Hooked (engajado): como construir produtos e serviços formadores de hábitos, de Nir Eyal, temos como tema os processos psicológicos que levam ao engajamento do consumi- dor à determinada marca ou empresa. O autor desenvolveu um modelo de engajamento com base em quatro passos: gatilho, ação, investimento e recompensa. O modelo pode ser usado pelas empresas que buscam construir uma relação de interatividade e engajar e fidelizar seus clientes. EYAL, N. São Paulo: AlfaCon, 2020. Livro https://www.scielo.br/j/ptp/a/YhYLPmGdBKmTdsZhk5kbYVJ/?format=pdf&lang=pt Netnografia 91 Com o crescimento da importância da internet e do ambiente virtual nas formas de comportamento e na cultura da sociedade contemporâ- nea, os conceitos e as ferramentas da etnografia passaram a ser usados nos estudos e pesquisas que buscam compreender a cultura dos grupos sociais que se formam por meio das interações nas redes sociais. De acordo com Kozinets (2014), a netnografia objetiva compreender como as interações que ocorrem no ambiente virtual impactam a cul- tura de determinado grupo social e da sociedade como um todo, bem como a influência dessas interações sobre o comportamento, os valo- res, as crenças, as formas de pensar e de agir dos indivíduos. Para compreender a estrutura dos grupos sociais e entender como se constroem as relações entre as pessoas que deles fazem parte, uma das teorias utilizadasno contexto da netnografia é o estudo dos arqué- tipos, teoria desenvolvida originalmente por Carl Gustav Jung e apre- sentada em seu livro Os arquétipos e o inconsciente coletivo, publicado originalmente em 1959. Segundo Jung (2014), os arquétipos são mode- los ou tipos de comportamentos apresentados pelos indivíduos, que refletem os valores, as crenças e a cultura presentes no inconsciente coletivo de um grupo social. Os conceitos dos arquétipos propostos por Jung ultrapassaram os limites da psicologia e passaram a ser usados em diversas áreas do conhecimento, como a sociologia e a antropologia. Na administra- ção, a teoria dos arquétipos é bastante estudada na área da gestão de pessoas – no entendimento das relações sociais que se formam entre os membros de um grupo de trabalho – e no marketing. No estudo do comportamento dos consumidores, a teoria dos ar- quétipos ajuda no entendimento de como os papéis desempenhados pelos indivíduos em determinado grupo social podem influenciar os padrões de consumo e o processo de decisão de compra. No contexto das redes sociais, os comportamentos e as características de cada ar- quétipo podem ser usados para direcionar as ações de comunicação e os investimentos publicitários das empresas. Mark e Pearson (2003) relacionaram os 12 arquétipos propostos por Jung com os comportamentos apresentados pelos indivíduos em suas relações sociais e comportamentos de consumo e os dividiram em quatro grupos, de acordo com suas características, como mostra o Quadro 1. Conhecer os diversos arquétipos psicológicos e perfis de comportamento que os indivíduos adotam em sua vida digital. Objetivo de aprendizagem O livro Os arquétipos e o inconsciente coletivo mostra os conceitos dos arquétipos presentes na sociedade. Apesar de ser um conceito desenvolvi- do pela psicologia, essa teoria é bastante utilizada na área de marketing, tanto para compreen- der a forma como os indivíduos se comportam dentro de um grupo social quanto para estudar a forma como as marcas de produtos e serviços apresentam característi- cas que compõem uma personalidade, com base na qual a empresa cria uma relação social com seus consumidores. JUNG, C. G. Petrópolis: Vozes, 2014. Livro 92 Comportamento do consumidor Estabilidade/ controle Prestativo Criador Governante Maestria e risco Herói Fora da Lei Mago Independência e autorrealização Inocente Explorador Sábio Pertença/grupo Cara comum Amante Bobo da corte Fonte: Elaborado pelo autor com base em Mark; Pearson, 2003. Quadro 1 Matriz dos arquétipos Cada grupo é formado por três arquétipos que apresentam carac- terísticas próximas e buscam atingir diferentes objetivos por meio de seus comportamentos. O grupo que busca estabilidade social e contro- le sobre as relações sociais é composto pelos arquétipos prestativo, que tem uma postura altruísta e busca ajudar as outras pessoas do grupo; criador, que é um indivíduo criativo e artístico, que busca novas formas de expressar seus valores e comportamentos; e governante, que apresenta um comportamento de liderança e busca assumir pa- péis de destaque no grupo social. Já o grupo que tem como principais valores a independência e a autorrealização inclui os arquétipos inocente, que tem uma visão pura da sociedade e busca a felicidade nas coisas simples e na aceitação das regras sociais; explorador, que busca a aventura e a liberdade, não se conforma com limites e regras e quer vivenciar o máximo de experiên- cias, para fugir da acomodação e do tédio; e sábio, que busca aprender continuamente, busca conhecimento e autoconhecimento e não aceita a mentira, a ignorância e a falsidade. No grupo que busca a maestria e o risco, estão classificados os arqué- tipos do herói, que busca se destacar no grupo pelos seus feitos e sua coragem, é competitivo e gosta de demonstrar sua força e capacidade; o fora da lei é revolucionário, não concorda com os valores e as regras da sociedade e quer transformar o comportamento do grupo social por meio da rebeldia e da contestação; já o mago entende como as regras Netnografia 93 sociais funcionam e usa esse conhecimento para atingir seus objetivos e sonhos. É um visionário e tem entendimento de seus objetivos e valores. Por fim, o grupo que busca o pertencimento e a participação no grupo social é formado pelo arquétipo do cara comum, que busca se conectar e criar relações de confiança e reciprocidade com os demais membros do grupo, sem querer se destacar ou se sobressair na estru- tura social; o amante, que busca conquistar a confiança e a admiração das pessoas, tem medo da solidão e se preocupa com aspectos esté- ticos e padrões de beleza; e o bobo da corte, que se preocupa com o momento presente, busca a diversão, é carismático e engraçado. O Quadro 2 apresenta a relação entre os arquétipos, produtos, serviços e comportamentos no ambiente virtual. Quadro 2 Hábitos de consumo de cada arquétipo GRUPO Arquétipo Produtos, serviços e experiências Hábitos na internet PERTENÇA/ GRUPO Cara comum Produtos sem marca, conteúdos so- bre justiça social e produtos minima- listas. Blogs sobre simplicidade e minimalismo, canais e podcast sobre direitos humanos e justiça social. Amante Produtos de beleza, moda, cirurgia plástica e fitness. Canais de maquiagem, blogs de moda, per- fis de dicas fitness e vídeos sobre exercícios. Bobo da cor- te Eventos, shows, espetáculos de co- média e filmes. Canais de piadas e stand up comedy, perfis de pegadinhas e situações cômicas. MAESTRIA E RISCO Herói Histórias motivadoras, exemplos de heroísmo e filmes de heróis. Sites com histórias de superação, canais que abordam exemplos motivacionais, fó- runs de discussão e perfis sobre grandes realizadores. Fora da lei Moda, política, ideologias e teorias conspiratórias. Sites políticos, blogs, canais de teorias conspiratórias, podcasts e grupos de co- municação privadas. Mago Histórias de superação, espiritualida- de, religiosidade e eventos místicos. Sites religiosos, canais sobre espiritualida- de, blogs e fóruns sobre temas esotéricos. ESTABILIDADE/ CONTROLE Prestativo Filantropia, voluntariado e ações so- ciais. Sites de instituições filantrópicas, blogs, fóruns de discussão e perfis que abordam direitos humanos e sociais. Criador Cursos de criatividade, de design, aplicativos de arte digital, equipa- mentos e materiais artísticos. Sites de design, fóruns de compartilha- mento de imagens, rede sociais voltadas à criatividade e canais de arte. Governante Cursos de liderança, palestras e de- senvolvimento de carreira. Sites com dicas de liderança, perfis de coachs, vídeos motivacionais e perfis com dicas de motivação e carreira. (Continua) 94 Comportamento do consumidor A classificação dos arquétipos proposta por Mark e Pearson (2003) é uma ferramenta importante para direcionar os esforços das empresas para compreender e influenciar o comportamento dos consumidores. Ao analisar as características psicológicas, os comportamentos, as for- mas de pensar e o impacto das influências do grupo social sobre os padrões de consumo de cada arquétipo, a empresa pode direcionar suas ações, comunicações e investimentos de marketing. 4.6 Ciberespaço, cibercultura, tribalismo e ativismo Vídeo Jenkins (2015) aponta que vivemos um período histórico em que ocorre uma grande convergência entre diversas culturas diferentes, an- tes separadas geograficamente, mas que passaram a se conhecer, con- viver, compartilhar conhecimentos, valores e crenças ao mesmo tempo que geram embates e desalinhamentos entre as diferentes visões de mundo características de cada grupo social. Ao entrar em contato, essas culturas influenciam-se, modificam-se e evoluem. A cibercultura, conforme Lemos (2013), não é uma forma de cultura que ocorre apenas no ambiente virtual. Para o autor, a cultura contemporânea é a cibercultura, que surge por meio da convergência entre os hábitos, os valores,as crenças e os comportamentos da socie- dade e as tecnologias da informação e da comunicação. A internet e as redes sociais facilitam a comunicação e a formação de grupos que compartilham das mesmas ideias. Já o desenvolvimen- to dos smartphones e da internet de alta velocidade borrou os limites entre o mundo físico e o virtual, facilitando ainda mais a formação de grupos organizados em torno de crenças, valores e visões de mundo. Para Maffesoli (2014), o que diferencia os grupos que se formam no ambiente digital é a organização em torno de interesses comuns, e • Compreender como a cultura criada no am- biente virtual influencia a sociedade e a cultura. • Entender os conceitos de bolhas de opinião, tribos digitais, ativismo político e social e o comportamento dos indivíduos. Objetivos de aprendizagem INDEPEN- DÊNCIA E AUTORREALIZA- ÇÃO Inocente Saúde, espiritualidade e produtos naturais. Dicas de alimentação e blogs que abordam religião e espiritualidade. Explorador Viagens, aventuras e esportes radi- cais. Canais de viagens, sites de esportes radi- cais e canais de esportes e aventuras. Sábio Cursos, palestras e livros. Sites de informações e canais de opiniões. Fonte: Elaborado pelo autor. Netnografia 95 não por uma estrutura social ou geográfica estabelecida. O autor dá o nome de tribos a esses grupos organizados no ambiente virtual e afir- ma que, na cibercultura do mundo contemporâneo, vivemos o tempo das tribos, pela importância que esses grupos sociais passaram a ter nas mais diversas áreas da estrutura social, como a política, o consumo, a arte, o comportamento e a luta pelos direitos humanos. A própria forma como as redes sociais se organiza e os mecanismos que sites, ferramentas de busca e plataformas de conteúdo usam para escolher e sugerir conteúdos e relacionamentos favorece a formação de grupos que pensam de modo semelhante. De acordo com Ferreira e Rios (2017, p. 3): algoritmos que filtram as informações, numa tentativa de trazer ao usuário exatamente aquilo que ele procura [...] essa ferramen- ta analisa diversas variáveis para conseguir prever o comporta- mento dos membros da rede social. Ela analisa a frequência de curtidas, os assuntos mais clicados, os contatos com maior inte- ração, entre outros fatores. Ainda segundo Ferreira e Rios (2017), os algoritmos usados pelas redes sociais e sites fazem com que conteúdos que confirmam e refor- çam as crenças e os valores do indivíduo apareçam com mais destaque, assim como pessoas que pensam de modo semelhante são sugeridas como possíveis amigas. Por outro lado, opiniões divergentes, pontos de vista diversos e informações que contradizem às crenças do usuário são escondidos e se tornem invisíveis. Dois diferentes fenômenos surgem a partir desse processo de fil- tragem de opiniões e informações, segundo Ferreira e Rios (2017). O primeiro deles é o que os autores chamam de câmara de eco. Como as pessoas que fazem parte dos grupos formados no ambiente digital pensam de maneira semelhante, suas ideias, crenças e afirmações são recebidas pelos demais membros como confirmações e provas de que suas ideias são corretas. Esse fenômeno acontece de maneira acentuada nos grupos forma- dos em aplicativos de comunicação como WhatsApp ou Telegram, que são usados por grupos organizados para divulgar e confirmar ideolo- gias e crença. Estudo desenvolvido por Galhardi et al. (2020) sobre a A sociologia busca enten- der as mudanças pelas quais a sociedade passa no decorrer da história da civilização. Para os sociólogos, o mundo con- temporâneo apresenta uma grande oportunidade de observar na prática como o desenvolvimento tecnológico traz profun- das mudanças na forma como a sociedade e a cultura se organizam. No livro O tempo das tribos: o declínio do individua- lismo nas sociedades de massa, Maffesoli discute a transição de uma visão individualista e egocên- trica da sociedade para um momento no qual os grupos sociais, chama- dos pelo autor de tribos, passam a ser a forma de organização mais impor- tante da estrutura social. MAFFESOLI, M. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014. Livro 96 Comportamento do consumidor divulgação de notícias falsas em grupos de comunicação mostra que, durante a Pandemia global de Covid-19, trouxeram, desde 2020, um grande prejuízo à saúde pública, pois informações distorcidas sobre a doença e a vacinação compartilhadas eram usadas para confirmar e reforçar crenças equivocadas dos indivíduos. O segundo fenômeno que surge a partir das bolhas de opiniões, conforme Ferreira e Rios (2017), é a radicalização dos discursos dos grupos que acreditam em diferentes valores e crenças. Um dos princi- pais reflexos das redes sociais sobre os processos eleitorais de diversos países, inclusive no Brasil, a partir da segunda metade da década de 2010, foi a radicalização do discurso dos candidatos, que usam as bo- lhas de opinião e os grupos organizados nas redes sociais para ecoar e refletir seus discursos. Uma das características marcantes da cibercultura é a constante transformação e reorganização pelos quais a estrutura social passa. Se na relação entre empresas e consumidores a cibercultura possibilita aos clientes amplificar sua voz ao criar espaços nos quais pode opinar, avaliar, criticar ou elogiar empresas, marcas e produtos; no ambiente social, a cibercultura abriu espaços para que grupos representativos de visões políticas, ambientais, sociais e econômicas pudessem expor suas demandas e reunir forças para lutar por seus direitos e suas crenças. CONSIDERAÇÕES FINAIS O comportamento do consumidor e os padrões de interação entre empresas e seus clientes têm passado por profundas transformações nas últimas décadas, causadas pela transformação digital que impacta não só as relações de consumo, mas a própria organização da sociedade e a forma como pessoas, organizações e grupos sociais interagem, relacio- nam-se, influenciam-se e comportam-se. Entender como essas relações ocorrem e conhecer em profundidade seu consumidor possibilita à em- presa alinhar sua comunicação e desempenhar um papel ativo na cons- trução de uma relação de confiança e fidelidade com seus consumidores. O documentário Fake news: baseado em fatos reais é uma produção brasileira que analisa o impacto das redes sociais e das notícias falsas sobre os processos eleitorais de diversos países, como a eleição de Donald Trump e o referendo popular que definiu a saída do Reino Unido da Unidade Europeia, ambos no ano de 2016. O documentário faz uma profunda análise do impacto dos grupos organizados virtualmente, das bolhas de opinião e do uso de aplicativos de comunicação na divulga- ção de versões alteradas de fatos e de notícias falsas sobre os resultados das eleições. Direção: André Fran; Rodrigo Cebrian; Felipe Ufo. Brasil: GloboNews, 2017. Documentário Netnografia 97 ATIVIDADES Atividade 1 Explique as diferenças entre os conceitos de multicanal e omnichannel. Atividade 2 Entre as características do consumidor digital, quais estão relacio- nadas à sua necessidade de ser ouvido pela empresa e desejar respostas rápidas e honestas? Atividade 3 Comente os conceitos de interação e engajamento na relação entre empresas e seus consumidores. REFERÊNCIAS ALMEIDA, M. I. S. et al. Quem lidera sua opinião? Influência dos formadores de opinião digitais no engajamento. Revista de Administração Contemporânea, v. 22, p. 115-137, 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rac/a/MXTSzjGmKNbzM4DpxHcPRbK/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 11 fev. 2022. AMARAL, I. Redes sociais na internet: sociabilidades emergentes. Covilhã: LabCom – IFP, 2016. Disponível em: http://labcom.ubi.pt/book/286. Acesso em: 11 fev. 2022. BLACKWELL, R. D; MINIARD, P. W.; ENGEL, J. F. Comportamento do consumidor. São Paulo: Cengage Learning, 2013. CAMPOS, G. R.; FARIA, H. M. C.; SARTORI, I. D. Cultura da estética: o impacto do instagramgrupo. Por fim, o mais alto nível de necessidades definido na teoria de Maslow (2014) está relacionado à percepção do indivíduo de ter alcan- çado seus sonhos, sentir-se completo e realizado. A pirâmide de necessidades de Maslow, apesar de bastante utilizada na área do marketing, não é a única teoria a abordar as necessidades hu- manas. Max-Neef (2012) defende que as necessidades não estão ligadas apenas à satisfação de aspectos inerentes à vida humana em sociedade, mas também ao desenvolvimento do potencial do indivíduo. O autor lis- ta uma série de necessidades, como subsistência, proteção, afeto, en- tendimento, participação, ociosidade, criação, identidade e liberdade, e as relaciona com quatro condições ou satisfatores, elencados a seguir. Evolução do comportamento do consumidor 13 • Ser • Ter • Fazer • Estar A teoria de Max-Neef (2012) incorpora os conceitos de necessida- de e desejo em um mesmo quadro. As necessidades e os desejos são atendidas em três diferentes níveis: ru fat 42/Shutterstock m us mello w/Shutterstock m us mello w/Shutterstock o do próprio indivíduo; o do seu grupo social; o do meio ambiente cultural e social do qual faz parte. Nesse sentido, a teoria proposta pelo autor se relaciona com o con- ceito apresentado por Kotler e Keller (2019), para quem os desejos estão ligados a vontades que podem ser criadas por meio de fatores externos – cultura, sociedade, mídia ou pressão social, por exemplo. Os autores classificam cinco os tipos de necessidades ou desejos: os que são declarados abertamente pelo cliente e simbolizam o que este diz que quer; os reais são os desejos e as necessidades que o cliente realmente quer, mas não necessariamente declara; os não declarados são aqueles que o consumidor espera rece- ber, a partir da expectativa gerada pelas informações e experiên- cias anteriores a que tem acesso; o desejo por algo mais é a expectativa do cliente de ser surpreen- dido positivamente na sua decisão de consumo; os desejos secretos estão relacionados à imagem que o consu- midor quer projetar com sua compra. 14 Comportamento do consumidor Pense em um consumidor que deseja comprar um au- tomóvel. Seus desejos declarados podem ser comprar um veículo bonito, confiável e seguro. Já seu desejo real pode ser comprar um veículo barato, que ele consiga pagar e manter. Seus desejos e necessidades não declarados são baseados nas propagandas publicadas pela fábrica e nas avaliações sobre o veículo. Os não declarados podem ser exemplificados como a vontade de receber o veículo imediata- mente e ser bem atendido pelo vendedor; os desejos e as necessidades de algo a mais podem incluir um desconto ou um acessório que não está incluído no preço do veículo, mas que ele espera ganhar na negociação. Já os secretos podem ser representados pela vontade de ser reconhecido em seu meio social ou mesmo ser invejado por outras pessoas. ar ty wa y/ Sh ut te rs to ck Ph ot or oy al ty /S hu tte rs to ck Exemplo Mais do que necessidades, os tipos apresentados por Kotler e Keller (2019) estão relacionados a desejos, ou seja, condições que o indi- víduo quer atingir, mesmo que não precise. O marketing tem um papel fundamental na criação dos desejos, mas a necessidade de ser aceito, reconhecido e respeitado nos grupos sociais de que faz parte é inerente ao comportamento humano e, consequentemente, do comportamento do consumidor. Sukhdev (2013) acredita que desejar objetos e símbo- los de status e de diferenciação, bem como comparar-se com outras pessoas com as quais convive, faz parte da natureza do ser humano. Para que possa influenciar a decisão de compra do consumidor e levá-lo a escolher seu produto ou serviço, entender o seu comporta- mento é um ponto fundamental para a empresa que busca atingir os seus objetivos. Por outro lado, é uma tarefa complexa que envolve co- nhecimentos em diversas áreas do saber. Cada indivíduo é diferente e o processo de percepção de suas necessidades e de seus desejos, bem como os fatores que podem in- fluenciar suas decisões, são diversos e complexos. Um mesmo indiví- duo pode tomar decisões diferentes em momentos diversos de sua vida, devido a fatores internos e externos. Para Solomon (2016), o entendimento de como ocorrem os processos de compra e consumo e o contexto social, econômico, políti- co e tecnológico no qual ocorre é o foco dos estudos sobre o comporta- mento do consumidor. A psicologia é uma área do saber humano que ajuda no entendimento dos processos cognitivos que ocorrem no con- Por que um produto vende muito e se torna um sucesso, enquanto outro com características semelhantes fracassa? Por que algumas marcas constroem uma base fiel de fãs que compram seus produtos ou serviços, mesmo que sejam muito mais caros do que os concorrentes? Essas são algumas das questões que Martin Lindstrom aborda no livro A lógica do consumo – verdades e men- tiras sobre por que com- pramos. O livro se baseia em uma extensa pesquisa sobre neuromarketing de- senvolvida pelo autor, um dos mais respeitados es- pecialistas em marketing da atualidade. LINDSTROM, M. São Paulo: HarperCollins, 2018. Livro Evolução do comportamento do consumidor 15 texto do consumo. Magalhães, Lopes e Moretti (2017) apontam que a abordagem cognitivista do marketing, fundamentada na psicologia, en- cara o processo de consumo como uma sequência de passos tomados pelo consumidor quando busca atender a uma necessidade ou realizar um desejo. A figura a seguir apresenta as etapas desse processo. Figura 3 Estágios do processo de decisão de compra Fonte: Blackwell; Miniard; Engel, 2011, p. 178. Reconhecimento da necessidade Busca da informação Avaliação das alternativas de compra Compra Consumo Avaliação pós-consumo Descarte Como podemos perceber na Figura 3, a abordagem cognitivista é baseada na visão de que a decisão de consumo é um processo indi- vidual de aprendizado e análise de informações. Segundo Blackwell; Miniard e Engel (2011), o indivíduo identifica uma necessidade ou um desejo e, para satisfazê-la, busca informações sobre os produtos ou serviços que podem ser adquiridos. Após coletar muitas informações, o indivíduo as analisa com base em critérios pessoais e decide reali- zar a compra de determinado fornecedor. Após o consumo, há outro momento de análise e de comparação entre as expectativas criadas e a realidade vivida durante o consumo. Após ter a necessidade ou o desejo atendidos, há o descarte do produto ou do serviço. A abordagem cognitivista é bastante utilizada pelas empresas, pois possibilita identificar cada uma das etapas e agir de modo a influenciar a decisão do cliente. Na etapa do reconhecimento da necessidade, a empresa pode utilizar propa- gandas e publicidade para gerar desejo no consumidor. 16 Comportamento do consumidor AI W D/ Sh ut te rs to ck Na fase da busca por informação, pode disponibilizar sites, vídeos, manuais ou outros materiais que explicam o uso do produto ou as características do produto. No momento da avaliação das alternativas pré-compra, a empresa pode apre- sentar comparações entre seu produto ou serviço e o de empresas concorren- tes, apontando as vantagens e os benefícios. Na etapa da compra, os vendedores podem abordar o consumidor com ações, promoções ou descontos, com o objetivo de influenciar a tomada de decisão. Na etapa do consumo, a empresa pode disponibilizar treinamento ou dicas de uso. Já no momento da avaliação pós-compra, a empresa pode realizar pesquisas ou aproveitar o momento para aumentar a fidelidade do cliente com relação à marca. Por fim, pode orientar o consumidor a realizar o descarte de maneira ambientalmente segura do produto. Apesar de focar o processo interno de decisão do consumidor, a abordagem cognitivista também considera os fatores externos que po- dem influenciar a decisão. Porém, como destacado por Chiesa (2006), devemos considerar que esses elementos externos,na subjetividade feminina. Cadernos de Psicologia, v. 1, n. 2, 2020. Disponível em: https:// seer.uniacademia.edu.br/index.php/cadernospsicologia/article/view/2495. Acesso em: 23 fev. 2022. CASTRO, L.; LIBARDI, G. Os memes como linguagem para o engajamento entre marcas e consumidores na era digital: uma análise de postagens e comentários na página da OLX. Revista Iniciacom, v. 8, n. 1, 2019. Disponível em: http://www.portcom.intercom.org. br/revistas/index.php/iniciacom/article/view/2970/pdf. Acesso em: 11 fev. 2022. FERREIRA, A. V.; RIOS, J. R. A. C. Filtro bolha, câmara de eco e a formação de opiniões extremas. 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A primeira parte do capítulo tem como tema a era do consumidor, sendo ele colocado no centro das estratégias de marketing das empresas, participando de maneira ativa de todas as etapas de criação, desenvol- vimento, lançamento, comunicação, divulgação e avaliação de marcas, produtos e serviços. Para compreender melhor seu consumidor e dire- cionar suas estratégias, as empresas precisam entender profundamente os comportamentos, os valores, as crenças e as emoções que influenciam as decisões tomadas pelas pessoas durante seu processo de compras. A segmentação de clientes será abordada na segunda parte. Ao iniciar um processo de compra, o consumidor passa por diversas etapas, que incluem a percepção de uma necessidade ou de desejo de consumo, a busca por informações sobre empresas, marcas e canais de compra disponíveis, a tomada de decisão de compra e o uso ou consumo de produtos e serviços. A jornada do consumidor, que é formada por es- sas diversas etapas e passos, será discutida na terceira parte do capítulo. Já a gestão da jornada, que envolve as ações e estratégias desenvolvidas pela empresa para influenciar o comportamento do consumidor durante o processo de compra, é o tema da quarta parte do capítulo. A jornada pela qual passa o consumidor pode se iniciar muito antes da própria percepção da necessidade. Todas as informações, experiên- cias, vivências e emoções que o cliente tem sobre produtos, empresas e marcas são acessadas durante seu processo de compras. Na parte final do capítulo serão discutidos os conceitos de customer experience, user ex- perience e brand experience, relacionados às estratégias da empresa para criar um relacionamento de confiança e fidelizar seus clientes. Jornada e experiência do cliente 101 5.1 Era do consumidor O conceito de mix de marketing, também conhecido como os 4Ps do marketing (produto, preço, praça e promoção), representa a visão tradicional do marketing, pensada com base no ponto de vista da empresa. Segundo Costa et al. (2021), esse conceito foi desenvolvido na década de 1950 por Jerome McCarthy, tornando-se popular com os trabalhos de Philip Kotler. Como explicam Kotler, Kartajaya e Setiawan (2017), apesar de o marketing tradicional utilizar pesquisas de mercado para buscar in- formações sobre os clientes, as decisões sobre o que fazer (definir o produto e o preço) e como fazer (definir a distribuição e a promoção) são controladas pela empresa. No contexto da transformação digital, que revoluciona a forma de organização dos negócios, a visão do marketing precisa ser mo- dificada e passar a ser pensada com base no ponto de vista dos clientes, em uma relação de comunicação constante entre empresa e consumidores mediada pela tecnologia. Kotler, Kartajaya e Setia- wan (2017, p. 51–52) propõem a evolução do conceito dos 4Ps para o conceito de 4Cs: “em um mundo conectado, o conceito de mix de marketing evoluiu para acomodar mais participação do cliente. O mix de marketing (os 4Ps) deve ser redefinido como os 4Cs: co- criação (co-creation), moeda (currency), ativação comunitária (communal activation) e conversa (conversation).” O modelo dos 4Cs possibilita à empresa envolver seus clientes desde os primeiros estágios do de- senvolvimento de produtos e serviços e usar as redes estabelecidas pelos indivíduos nos processos de comunicação e divulgação das marcas da empresa, como podemos ver na Figura 1. Vídeo • Compreender o conceito da Era do consumidor, customer centricity e novos modelos de negó- cios digitais. • Compreender como a cultura orientada ao cliente impacta a forma de organização das empresas e o surgimen- to de novos modelos de negócios. Objetivos de aprendizagem Figura 1 Os 4Cs do marketing Su rfs Up /S hu tte rs to ck Cocriação Cliente Moeda Conversa Ativação comunitária Fonte: Elaborada pelo autor com base em Kotler; Kartajaya; Setiawan,2017. Bl an -k/ Sh utterstock br illi an tic on/Shutterstock br illi an tic on/Shutterstock mati us/Shutterstock Ci nd ere lla Desig n/Shutterstock 102 Comportamento do consumidor O conceito de cocriação foi proposto por Prahalad e Ramaswamy (2004), que apresentaram o modelo DART (diálogo, acesso, risco e transparência), o qual possibilita à empresa estabelecer um relacio- namento de parceria e confiança com seus clientes. A cocriação vai além do uso da pesquisa de opinião no processo de desenvolvimento dos produtos. Os clientes são convidados a fa- zer parte de todo o processo de conceituação e criação do produto, podendo também customizá-lo de acordo com suas necessidades específicas. A Figura 2 mostra os componentes do modelo DART, proposto por Prahalad e Ramaswamy (2004). Figura 2 Modelo DART Diálogo (dialogue) Cocriação de valor Avaliação de risco (risk-assessment) Transparência (transparency) Acesso (access) Fonte: Prahalad; Ramaswamy, 2004, p. 9. Um exemplo de empresa que usa o conceito da cocriação é a LEGO. Uma das mais conhecidas fabricantes de brinquedo do mun- do, a empresa dinamarquesa possibilita que qualquer de seus con- Jornada e experiência do cliente 103 sumidores desenvolvam novos modelos de brinquedos utilizando os blocos de montar produzidos pela empresa e submetam sua criação à empresa. Os kits de montagem aprovados pela empresa são então coloca- dos em um sistema de votação no qual os próprios clientes votam e escolhem os melhores modelos. Caso o kit seja escolhido na vota- ção, passa a ser produzido e comercializado pela empresa, e o clien- te que o desenvolveu ganha uma participação nos lucros da venda. O modelo DART de Prahalad e Ramaswamy (2004) pode ser re- lacionado também com o “C” do termo conversation (conversa), do modelo 4Cs de Kotler, Kartajaya e Setiawan (2017). O diálogo é esta- belecido por meio da interação da empresa com seus consumidores, com o objetivo de obter o engajamento e a geração de interesse em participar do processo de desenvolvimento de inovações. Já o acesso está relacionado às estruturas, às ferramentas, às tecnologias, aos conhecimentos, às informações e às análises que a empresa disponibiliza aos seus clientes e que podem colaborar com o processo de cocriação. O risco-benefício é o processo de análise realizado pela empresa para identificar ideias de produtos ou serviços, dentre as que foram propostas, que são capazes de trazer retornos dos investimentos necessários para sua produção e comercialização. Por fim, a transparência é a clareza com que as informações são compartilhadas entre clientes e empresa. O uso das metodologias de cocriação é facilitado pela utilização de ferramentas digitais, como as redes sociais, fóruns de discussão, plataformas de produ- ção e compartilhamento de conteúdo. No modelo 4Ps, a promoção, que envolve a publicidade e a pro- paganda, era uma comunicação unilateral com característica de mo- nólogo, em que a empresa transmitia suas informações aos clientes, mas era pouco aberta a receber e compreender as opiniões, consi- derações e avaliações de seus consumidores e do mercado. Em ge- ral, o cliente só era ouvido quando desejava fazer uma reclamação e não havia estruturas organizadas de atendimento ao cliente. No site da empresa LEGO é possível conhecer as ideias propostas pelos clientes, os quais competem entre si, que podem ser votadas pelos consumidores. Você pode acessar o site clicando no link a seguir. Disponível em: https://ideas.lego. com/. Acesso em: 28 jan. 2022. Site Um dos mais impor- tantes autores sobre marketing no Brasil, Las Casas, aborda no livro Cocriação de valor: conectando a empresa com os consumidores por meio das redes sociais e ferramentas colaborativas o conceito da cocriação, com exemplos práticos e conceitos adequados à realidade brasileira. Mostra também como as ferramentas digitais, como a internet e as redes sociais, possibilitam às empresas abrir canais de comunicação diretos com seus consumidores, facilitando a cocriação a partir das experiências reais de consumo. LAS CASAS, L. A. São Paulo: Atlas, 2014. Livro https://ideas.lego.com/ https://ideas.lego.com/ SE RS OL L/ Sh ut te rs to ck No ambiente digital, as redes sociais e as plataformas de produ- ção de conteúdo possibilitaram aos clientes expressar suas visões sobre produtos, marcas e empresas. O monólogo se transformou em um diálogo no qual os consumidores têm a capacidade de se organizar e criar comunidades que tanto podem criticar quanto de- fender e orientar as empresas na tomada de decisão e no desenvol- vimento de seus produtos. É nesse contexto que se encaixa o C do termo communal acti- vation (ativação comunitária). A empresa pode também identificar inovações e formas diferentes de uso de seus produtos praticadas por seus consumidores e divulgadas em plataformas de conteúdo e redes sociais. No modelo dos 4Ps, a precificação dos produtos e serviços é cal- culada com base nos custos de produção, distribuição e comerciali- zação e no valor percebido pelos clientes. Em geral, a precificação no modelo dos 4Ps é padronizada, ou seja, o preço do produto é defini- do para cada canal de distribuição, além de ser igual para todos os clientes que usam esse canal para realizar a compra. Já no modelo de 4Cs, o C, representado pelo termo currency (moeda), é baseado no conceito da precificação dinâmica, ou seja, os preços podem alterar de acordo com a demanda e as caracte- rísticas dos clientes. Esse tipo de precificação já é usado na área de serviços, como hotéis e passagens aéreas. Uma reserva feita com antecedência apresenta melhores preços do que a compra do servi- ço no momento da utilização. Um exemplo são as pla- taformas de avaliação de produtos e serviços, como a tripadvisor, site no qual os clientes podem comen- tar, compartilhar fotos e informações e avaliar ho- téis, restaurantes, eventos e outros serviços ligados ao turismo. As avaliações e os comentários são utilizados pelas empresas para melhorar seus serviços e propor novas ofertas aos consumidores. Disponível em: https://www. tripadvisor.com.br/#. Acesso em: 5 jan. 2022. Site 104104 Comportamento do consumidorComportamento do consumidor https://www.tripadvisor.com.br/# https://www.tripadvisor.com.br/# Na comercialização de produtos, a precificação dinâmica passou a ser possível com o desenvolvimento de tecnologias baseadas no con- ceito de big data, as quais coletam grande quantidade de informações sobre clientes, canais, concorrentes e alterações de demanda. No e-commerce, a precificação dinâmica possibilita às empresas capturar o máximo de valor que o cliente está disposto a pagar. O modelo dos 4Cs coloca o consumidor no centro das ações de mar- keting desenvolvidas pela empresa, o que, segundo Alt-Simmons (2016), faz a visão e o planejamento estratégico da empresa serem pensados com base no mercado, para depois se voltarem para as competências, os recursos, os processos e as atividade internas. A centralidade do consumidor nas relações de consumo é chamada customer centricity, o que, segundo Damázio, Soares e Shigaki (2020, p. 1), “é uma forma de gestão orientada para que se compreenda o que os clientes querem, como eles querem e como a empresa pode se organizar para melhor atender a essas necessidades, ser paga por isso e ainda lucrar”. Para Simon, Van Den Driest e Wilms (2016), colocar o cliente no centro da sua estratégia, mais do que simplesmente uma vantagem competitiva em relação a seus concorrentes, passa a ser uma condição funda- mental para que a empresa sobreviva no ambiente digital, no qual os consumidores exigem das empresas rapidez nas respostas e transparência de informações, para que se possa esta- belecer uma relação de sinceridade e confiança. ba tja ke t/S hu tte rs to ck Um exemplo do uso da precificação dinâmica é o preço das viagens nos aplicativos de transporte, como Ubere 99. O preço da viagem é calculado de acordo com a quanti- dade de clientes que buscam o serviço e com a quantidade de motoris- tas disponíveis em uma determinada região. O modelo de precificação da Uber é explicado no site da empresa. Disponível em: https://www.uber. com/br/pt-br/drive/driver-app/ how-surge-works/. Acesso em: 5 jan. 2022. Saiba mais Jornada e experiência do clienteJornada e experiência do cliente 105105 https://www.uber.com/br/pt-br/drive/driver-app/how-surge-works/ https://www.uber.com/br/pt-br/drive/driver-app/how-surge-works/ https://www.uber.com/br/pt-br/drive/driver-app/how-surge-works/ 106 Comportamento do consumidor 5.2 Segmentação dos consumidores digitais Vídeo Cada indivíduo é diferente e toma decisões de maneiras diversas em seu processo de consumo. Com o objetivo de tentar entender essas diferenças para direcionar suas ações de marketing, as em- presas buscam formas de agrupar seus clientes de acordo com as características que mais influenciam seu processo de compra. Kugler (2013) destaca que a empresa pode desenvolver produtos mais adequados a seus desejos e necessidades, alinhar a forma e o conteúdo de suas mensagens, escolher os melhores canais de distri- buição, desenvolver promoções mais efetivas e capturar mais valor nas transações realizadas quando entende as demandas específicas e o potencial de consumo dos diferentes consumidores. O autor define a segmentação de clientes como a metodologia composta de modelos, indicadores e métricas de gestão que possi- bilita à empresa identificar um grupo de características e comporta- mentos que podem ser usados para classificar e agrupar os clientes e orientar o desenvolvimento das estratégias, dos produtos, dos ser- viços e das experiências utilizadas para atrair e fidelizar os consumi- dores da empresa, de acordo com suas demandas e desejos. Já Rothbarth et al. (2021, p. 849) definem a segmentação como “uma maneira prática e objetiva de aumentar a precisão de ações de marketing e precificação das empresas, ao identificar grandes grupos de consumidores por meio de características comuns como poder de compra, preferências, localização, e atitudes”. O conceito de clusterização 1 é também usado como ferramenta de classificação dos clientes da empresa, sendo utilizado por empre- sas que atuam no ambiente digital. As tecnologias da informação, como ferramentas de big data, business analytics e social marketing analytics, possibilitam analisar uma enorme quantidade de dados sobre os hábitos dos consumidores e classificá-los em cluster, ou comunidades, para os quais a empresa direciona suas ações de marketing. Apesar do uso cada vez mais frequente de tecnologias de gestão da informação no contexto do marketing, muitas empresas ainda não aplicam os conceitos de segmentação dos clientes. Entender as formas de segmentação dos consumidores digitais e o uso da segmentação na estratégia das empresas. Objetivo de aprendizagem A clusterização é baseada na identificação de simila- ridades entre caracterís- ticas apresentadas pelos consumidores e clientes da empresa, com base na análise do histórico de informações e relaciona- mentos com cada cliente. 1 O vídeo O Netflix feito para você - como funciona o algo- ritmo?, do canal Um olho no frame, o outro no ato, apre- senta como a Netflix utiliza o conceito da clusterização como ferramenta para indi- car a seus clientes os filmes e as séries mais adequados a cada perfil. Com base nas pesquisas realizadas pelo cliente, filmes assistidos, tempo de acesso, dados cadastrais, culturais e regio- nais, o algoritmo (programa de computador que realiza uma série de cálculos com base nas informações cole- tadas sobre os clientes) da empresa cria comunidades de clientes com interesses parecidos e direciona suas comunicações e indicações. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=6qcMng9zIVU. Acesso em: 28 jan. 2022. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=6qcMng9zIVU https://www.youtube.com/watch?v=6qcMng9zIVU https://www.youtube.com/watch?v=6qcMng9zIVU Jornada e experiência do cliente 107 As estratégias de segmentação de clientes podem ser classificadas em diferentes estágios, segundo Kugler (2013), de acordo com o foco dado pela empresa na análise das informações dos consumidores. Cada estágio apresenta alguns fatores críticos que devem ser levados em consideração para que a implementação das estratégias de seg- mentação seja bem-sucedida. A Figura 3 mostra os diversos estágios apresentados pelo autor: Figura 3 Estágios da segmentação de clientes Estágio 1 Fo co d e an ál is e Fa to re s cr íti co s Marketing de massa • Carteiras. • Linhas de produtos. • Atendimento. • Vendas e margem. • Perfis de cliente. • One size fits all. • Características do cliente. • Operações. • Rastreamento. • Análise temporal do comportamento. • Produtos específicos. • Motivações do cliente. • Rastreamento • Alertas. • Ações preventivas. • Antecipação. • Resposta rápida. • Simulação e previsão. • Aperfeiçoamento de modelos mentais. • Definição de segmentos. • Campanhas por nichos. • Modelos mentais. • Balanceamento dos canais. • Produtos e nichos específicos. • Perfil sociodemo- gráfico. • Sazonalidade. • Ciclo de vida. • Contexto do seg- mento. • Agrupamento dos clientes. • Clusterização. • Ciclo de vida. • Contexto do seg- mento. • Agrupamento dos clientes. • Clusterização. • Ciclo de vida. • Contexto do seg- mento. • Agrupamento dos clientes. • Clusterização. Estágio 2 Análise de comportamento Programas de fidelização Marketing de precisão Marketing interativo Estágio 3 Estágio 4 Estágio 5 Fonte: Elaborada pelo autor com base em Kugler, 2013. Para que a empresa possa atuar e ser competitiva no ambiente di- gital, ela precisa apresentar características listadas no quarto e quinto estágio do modelo proposto pelo autor. Entender o modelo mental do consumidor em seu processo de compras é fundamental para que a empresa possa adequar tanto seus canais de distribuição quanto sua comunicação, para que assim possa participar do diálogo estabelecido entre os consumidores nas mídias digitais. 108 Comportamento do consumidor O monitoramento das informações, das opiniões, das considera- ções e dos comportamentos dos consumidores é necessário para que a empresa possa se antecipar aos movimentos do mercado e aprovei- tar as oportunidades. É possível apenas para as empresas que já atingi- ram o quinto estágio do modelo. Para as empresas que atuam no ambiente digital, a segmentação de clientes se torna cada vez mais uma ferramenta fundamental para entender um cliente em constante mudança, o qual faz parte de um mercado cada vez mais competitivo e de uma sociedade que passa por profundas transformações, tanto na forma como se organiza quanto principalmente como a informação e a comunicação são criadas e com- partilhadas entre empresas, consumidores e grupos sociais. 5.3 Mapeamento da jornada do consumidor Vídeo A jornada do consumidor pode ser entendida como uma meto- dologia para identificar e mapear as principais etapas do processo de compras do cliente e os pontos de contato da empresa com seus consumidores. Segundo Canfield, Gallon e Dalla Corte (2017), o conceito da jornada do cliente ou jornada do consumidor foi desenvolvido em artigo pu- blicado por Johns e Clark (1993), objetivando identificar como ocorre a relação de consumo a partir do ponto de vista do consumidor e de suas experiências. Vianna et al. (2013) conceituam a jornada do consumidor como uma ferramenta que permite visualizar a sequência de etapas pelas quais o consumidor passa em seu processo de decisão de compras, desde o momento em que identifica uma necessidade ou desejo, até a ava- liação da experiência após o uso ou consumo do produto ou serviço comprado. Os autores também apontam que a ferramenta é usada para iden- tificar os pontos de contato entre a empresa e o consumidorem cada uma dessas etapas do processo de compras. Aprender a realizar o ma- peamento da jornada do consumidor em diferentes segmentos de consumo. Objetivo de aprendizagem Jornada e experiência do cliente 109 Kotler, Kartajaya e Setiawan (2017) apontam que um dos primeiros modelos usados para descrever o caminho percorrido pelo consumi- dor durante o processo de decisão de compra é conhecido como AIDA. Ele é composto de quatro etapas: atenção, interesse, desejo e ação. Para os autores, apesar de ter representado um importante instrumen- to usado nos primórdios do marketing, o modelo AIDA pode ser conside- rado como um simples checklist, o qual é usado principalmente pela área de publicidade e propaganda para orientar a comunicação da empresa. Segundo o modelo, a empresa precisa atrair a atenção do consumi- dor, despertar seu interesse, criar desejo pelos seus produtos e servi- ços e levar o consumidor a tomar uma ação de compra. Porém, no ambiente digital, segundo Kotler, Kartajaya e Setiawan (2017), o modelo AIDA não é capaz de descrever toda a complexidade da jornada do consumidor, pois os consumidores estão conectados e compartilham experiências, vivências, opiniões e avaliações que in- fluenciam as decisões de outros consumidores. O ambiente virtual também possibilita ao consumidor acessar uma enorme quantidade de informações que acabam por tornar mais com- plexa a tomada de decisão. Assim, os autores propõem um modelo, ao qual dão o nome de 5As, composto de cinco estágios: assimilação, atração, arguição, ação e apologia, como pode ser observado a seguir. Quadro 1 Estágios do modelo 5As A1 A2 A3 A4 A5 Assimilação Atração Arguição Ação Apologia Co m po rt am en to d o co ns um id or Os consumidores são passivamente expostos a uma longa lista de marcas em função de experiên- cias passadas, comunicações de marketing e/ou defesa da marca por clientes. Os consumidores processam as mensagens às quais são expostos - criando assim uma memória de curto prazo ou ampliando a memória de longo prazo - e são atraí- dos somente para uma lista curta de marcas. Levados pela curiosi- dade, os consumi- dores pesquisam ativamente para obter informações adicionais dos amigos e da família, da mídia e/ou direto das marcas. Reforçados pelas informa- ções adicionais, os consumidores decidem comprar uma marca espe- cífica e interagem de maneira mais profunda por meio de processos de compra, consumo e/ou serviço. Com o tempo, os consumidores podem desenvol- ver uma sensação de forte fidelidade à marca, refletida em retenção, recompra e defesa da marca perante seus pares. (Continua) 110 Comportamento do consumidor A1 A2 A3 A4 A5 Assimilação Atração Arguição Ação Apologia Po ss ív ei s po nt os d e co nt at o co m o c on su m id or • Aprender sobre a marca com seus pares. • Ser exposto inadvertidamente à propaganda da marca. • Lembrar-se da experiência passada. • Ser atraído pelas marcas. • Criar um con- junto de marcas que serão levadas em consideração. • Pedir conselhos a amigos. • Pesquisar avaliações on-line do produto. • Contatar a central de atendimento. • Comparar preços e testar o produto nas lojas. • Comprar na loja física ou on-line. • Usar o produto pela primeira vez. • Reclamar de um problema. • Obter atendi- mento. • Continuar usando a marca. • Recomprar a marca. • Recomendar a marca aos outros. Im pr es sã o- ch av e do co ns um id or Eu sei Eu gosto Estou convencido Estou comprando Eu recomendo Fonte: Kotler; Kartajaya; Setiawan, 2017, p. 62. O estágio da assimilação é a porta de entrada do processo de per- cepção da necessidade ou desejo de consumo, momento no qual o consumidor é exposto, intencionalmente ou de maneira passiva, a co- municações de marketing, informações, depoimentos e comentários de outros consumidores sobre empresas, marcas, produtos e serviços. Se o cliente já possui alguma experiência anterior com a marca ou empresa, pode retomar essas informações e contextualizá-las em rela- ção às novas informações coletadas. O segundo momento do modelo é o estágio da atração, no qual as informações, opiniões e experiências coletadas no primeiro estágio são analisadas e se transformam em memórias ou impressões, as quais podem ser acessadas no momento em que o consumidor necessitar ou desejar o produto ou serviço oferecido pela empresa. Após o estágio da atração, o cliente pode se sentir curioso e querer mais informações para confirmar ou refutar suas impressões iniciais, aprofun- dando-se no processo de pesquisa de maneira ativa, utilizando tanto o ambiente virtual (fóruns, sites de avaliações e de comparação de produ- tos, postagens de influenciadores e canais oficiais da empresa) quanto sua Pr os to ck -s tu di o/ Sh ut te rs to ck rede de relações pessoais, como familiares e amigos; momento chamado, por Kotler, Kartajaya e Setiawan (2017), de estágio da arguição. Com base nas informações e análises realizadas no estágio da argui- ção, o consumidor pode decidir realizar a compra de um produto ou ser- viço. O estágio da ação envolve as decisões e as atividades relacionadas à efetivação da compra, incluindo a escolha do canal de marketing (on-line ou físico), o fornecedor, a forma de pagamento, entre outras condições. O estágio da ação envolve também o consumo ou uso do produto ou serviço, momento no qual o consumidor avaliará sua experiência de acor- do com a expectativa gerada nas fases anteriores. Além disso, esse estágio inclui as interações com a empresa não só durante o momento da compra e da entrega do produto como também durante o uso, caso seja necessá- rio utilizar canais de atendimento e suporte oferecidos pela empresa. Esse momento é crucial para a empresa, pois deve oferecer ao consumidor uma experiência positiva, garantindo sua satisfação com a decisão de compra. Porém, a jornada do consumidor não se encerra nesse momento. No ambiente digital, os consumidores querem compartilhar suas expe- riências com suas comunidades, amigos e seguidores, seja em fóruns, redes sociais, nos canais oficiais da empresa ou em sites de avaliações ou reclamações, momento chamado de estágio da apologia. Nesse momento, caso o cliente se sinta satisfeito com a experiência, pode se tornar um defensor ou um advogado da marca, defendendo-a de críticas, elogiando a experiência e orientando outros consumidores em seus próprios processos de compra. Pode também se tornar um cliente fiel, comprando novamente produtos e serviços da empresa. Jornada e experiência do clienteJornada e experiência do cliente 111111 Por outro lado, caso se sinta insatisfeito, pode se tornar um detrator da marca, produzindo conteúdos críticos, avaliando negativamente a empresa e influenciando outros consumidores a não considerarem a marca em seu processo de compra. Mapear a jornada do consumidor possibilita à empresa entender como agir e que ferramentas de marketing utilizar em cada estágio do processo. Assim, é fundamental que a empresa realize a gestão da jornada de cada consumidor e de suas interações em cada ponto de contato. 5.4 Gestão da jornada do consumidor Vídeo A jornada do consumidor não é controlada exclusivamente pela em- presa, tanto o conteúdo das comunicações quanto a forma e o local dos pontos de contato são definidos e gerenciados pelos consumidores e empresas de modo conjunto. Como afirmam Canfield, Gallon e Dalla Cor- te (2017, p. 3): “a jornada do consumidor é cocriada pelo cliente em expe- riências únicas, e diferentes elementos são projetados, cujo controle, às vezes, não está sob a organização (por exemplo, ambiente social).” Em cada um dos estágios do modelo 5As, de Kotler, Kartajaya e Setiawan (2017), as interações, comunicações e informações que in- fluenciam a decisão de compra do consumidor podem ter como ori- gem os canais oficiais da empresa, como a propaganda e a publicidade,e os conteúdos gerados por outros consumidores, sejam eles do círculo pessoal do cliente, influenciadores, produtores de conteúdo e partici- pantes de grupos de discussão ou de sites de avaliação. Gerenciar todas as informações que são geradas e compartilhadas no espaço público das redes e mídias sociais é um grande desafio que as empresas enfrentam no mundo contemporâneo. Assim, autores e estudiosos das transformações pelas quais passa o marketing em sua transição do ambiente físico para o virtual buscam desenvolver ferramentas específicas para a gestão da jornada do consumidor digital. Borges et al. (2014) indicam um modelo de gestão baseado em cinco etapas. O processo se inicia no que os autores chamam de análise do mundo experiencial do Compreender os pro- cessos, ferramentas e metodologias de gestão da jornada do consumi- dor e da experiência de consumo. Objetivo de aprendizagem Ta rik Vi si on /S hu tte rs to ck 112112 Comportamento do consumidorComportamento do consumidor Jornada e experiência do cliente 113 cliente, ou seja, o entendimento de seus valores, contexto social, cul- tura, estilo de vida, desejos, necessidades e alterações. A partir desse mapeamento, na segunda etapa, a empresa desenvolve um posiciona- mento estratégico que traduz as experiências e os valores que preten- de oferecer aos consumidores. A experiência que o consumidor terá com a marca é definida na ter- ceira etapa do modelo proposto pelos autores e inclui a definição das características estéticas e sensoriais que a marca pretende transmitir. A próxima etapa do modelo de Borges et al. (2014) é focada na defi- nição das estruturas utilizadas para realizar a interação da empresa com o cliente em cada momento e ponto de contato. Inclui a construção de sites, perfis em redes sociais, produção de conteúdo, canais de comuni- cação com o cliente e de atendimento a ele, além do estilo e da persona- lidade que serão utilizados pela empresa para isso. A companhia pode adotar uma comunicação mais formal e sé- ria com seus consumidores, caso essa seja a personalidade e o tipo de interação que ela pretende estabelecer, ou uma linguagem mais informal, divertida e amigável, caso busque construir uma relação ínti- ma com seus clientes. Assim, essa personalidade deve estar presente nas estruturas e canais de relacionamento oferecidos a seus clientes. Por fim, a empresa precisa se comprometer continuamente com a inovação, para que se mantenha sempre atualizada e alinhada às de- mandas dos consumidores. O artigo Identificação do diferente: os posts publicitários de Lu do Magazine Luiza, em perspectiva bakhtiniana, das autoras Gabriella Cristina Vaz Camargo e Renata Coelho Marchezan, publicado na revista Diálogos Pertinentes, v. 16, n. 1, em 2020. Mostra como em suas comunicações e interações com seus clientes a empresa Magazine Luiza definiu uma personalidade e uma linguagem moderna, amigável e simples, tendo como objetivo construir uma relação afetiva com seus consumidores. A personagem virtual Lu do Magalu, presente nas redes sociais e nos canais oficiais da empresa, é apresentada como uma influenciadora digital que fala diretamente com os consumidores. O artigo discute os principais aspectos da comunicação da empresa e mos- tra as oportunidades que as mídias digitais e redes sociais oferecem para que as empresas influenciem a jornada de compras do consumidor. Acesso em: 28 jan. 2022 https://publicacoes.unifran.br/index.php/dialogospertinentes/article/view/3650 Artigo O vídeo Cinco lições de design por Steve Jobs, do canal Clube do Design, mostra como os princí- pios de design norteiam a experiência ofereci- da pela Apple a seus consumidores. A empresa de tecnologia oferece uma experiência de con- sumo que é traduzida no design de seus produtos, com desenhos simples e minimalistas, nas embala- gens, na interface de seus programas, no design de suas lojas de varejo, nas suas campanhas publicitá- rias e até mesmo nas pa- lestras de seus executivos e eventos desenvolvidos pela empresa. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=X9DulegOcQk. Acesso em: 28 jan. 2022. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=X9DulegOcQkhttp:// https://www.youtube.com/watch?v=X9DulegOcQkhttp:// https://www.youtube.com/watch?v=X9DulegOcQkhttp:// 114 Comportamento do consumidor O desenvolvimento de novas tecnologias, canais, mídias e redes so- ciais faz com que o processo de gestão da jornada do consumidor es- teja em constante renovação. Segundo Borges et al. (2014), a empresa precisa se comprometer com a inovação contínua e buscar constan- temente oferecer novas experiências e formas de interação com seus clientes. Assim, o modelo de gestão proposto pelos autores precisa ser sempre reiniciado, objetivando identificar mudanças comportamen- tais, novas características e demandas de seus consumidores. Tokuno, Fatala e Simões (2009) destacam que o conceito da jornada do consumidor envolve tanto experiências estabelecidas no ambiente físico (visitas em lojas, test-drives e espaços de experimentação) como no ambiente virtual. Na jornada do consumidor digital, desenvolver e entre- gar experiências satisfatórias é, para os autores, ainda mais importante, devido à facilidade com que o cliente pode buscar informações, realizar comparações, analisar alternativas e tomar decisões de consumo. Para Kotler, Kartajaya e Setiawan (2017), a gestão da jornada do con- sumidor é importante porque os clientes não passam necessariamente por todas as fases do processo de decisão de compras. Tomando como base o modelo 5As, afirmam que um cliente pode decidir comprar um produto por indicação de um amigo ou de um influenciador digital, sem ter passado pela etapa da arguição, mesmo com a oferta de uma em- presa na etapa da assimilação e da atração não o atraindo. Para os autores: O novo caminho do consumidor não é necessariamente um funil fixo de clientes, e eles não passam necessariamente pelos cinco As. Assim, da assimilação à apologia, o caminho poderia se expandir ou se estreitar em termos do número de clientes pas- sando por cada estágio. O novo caminho do consumidor pode- ria também ser uma espiral, na qual os consumidores retornam a estágios anteriores, criando um ciclo de feedback. (KOTLER; KARTAJAYA; SETIAWAN, 2017) A gestão da jornada do consumidor permite à empresa oferecer ao seu cliente uma experiência que vai além da simples compra e do uso de seus produtos ou serviços. Uma jornada bem desenhada e correta- mente gerenciada é a base para a construção de um relacionamento de confiança e de fidelidade, condição fundamental para que a empresa possa garantir sua relevância no mercado digital. Jornada e experiência do cliente 115 5.5 Customer experience, user experience, brand experience Vídeo Mesmo que ele compre os produtos ou serviços de uma marca ape- nas uma vez, a experiência do consumidor não se resume apenas à transação comercial. O conceito de customer experience se refere a to- dos os pontos de contato, comunicação e trocas que ocorrem entre a empresa e seus consumidores, incluindo a compra e o uso dos produ- tos e serviços da empresa, mas não se restringindo a isso. No ambiente digital, a experiência do consumidor envolve também os contatos do cliente com as comunicações oficiais da empresa, mate- riais de publicidade, interfaces de relacionamento e atendimento, bem como os conteúdos gerados por terceiros que abordam experiências e opiniões sobre os produtos, serviços e marcas da empresa. Segundo Omura, Francisco e Mirapalheta (2020, p. 24): Customer experience é o valor criado no relacionamento cliente-empresa ao longo do tempo. É a jornada na qual o cliente vivencia a exposição da marca e experimenta o processo de aqui- sição, integração e implantação de produtos/serviços, para logo após perceber o valor inerente ao uso dos produtos/serviços contratados. As ações, decisões, opiniões e reações do cliente em relação à em- presa tambémfazem parte da construção do customer experience. Dois diferentes consumidores podem reagir de diversas maneiras às mesmas ações da empresa, construindo experiências totalmente antagônicas. Uma empresa pode definir um processo de atendimento no qual todos os clientes que entram em sua loja física serão imedia- tamente recebidos por um vendedor, que acompanhará o clien- te e demonstrará cada produto. Para alguns clientes, esse tipo de atendimento é considerado muito bom, e a experiência de consumo será considerada satisfatória. Outros clientes, porém, podem se sentir invadidos e pressionados em seu processo de decisão pela presença do vendedor. Assim, podem considerar a experiência de consumo estressante e ficarem insatisfeitos. Entender os conceitos re- lacionados à experiência do consumidor: customer experience, user experience e brand experience. Objetivo de aprendizagem 116 Comportamento do consumidor A experiência do consumidor é, portanto, única e exclusiva, e en- volve aspectos emocionais, psicológicos, culturais e comportamentais, bem como questões relacionadas ao padrão individual de busca de in- formação, tomada de decisão e implementação das ações de consumo. O ambiente digital possibilita que diversos pontos de contato di- ferentes sejam estabelecidos pela empresa. Nos canais oficiais, como site, perfis de redes sociais, canais de vídeo e propagandas, a empresa tem total controle sobre essas experiências. Porém, comunidades, in- fluenciadores e outros consumidores produzem informações que não são controladas, mas que precisam ser monitoradas e acompanhadas pela empresa. Por exemplo, conteúdos produzidos por consumidores e especialistas com avaliações de produtos e serviços são publicados em plataformas de vídeo, blogs e sites de avaliação. Para Venkatesan (2017), devido à complexidade da jornada do consumidor digital, as empresas precisam repensar toda a sua estra- tégia de posicionamento e de comunicação, com o objetivo de criar um relacionamento de confiança e estabelecer uma reputação no am- biente virtual que influencie de maneira positiva o comportamento do consumidor. Enquanto a customer experience é ampla e engloba todas as expe- riências do consumidor com a empresa – desde o momento inicial da jornada do consumidor, passando pelas etapas de pesquisa de infor- mações, tomada de decisão, efetivação da transação comercial, uso e posterior descarte do produto –, o conceito de user experience (expe- riência do usuário) se refere especificamente ao uso ou consumo dos produtos ou serviços oferecidos pela empresa. O termo, segundo Souza e Bertomeu (2015), foi criado por Don Norman, executivo da empresa Apple, na década de 1990, para descre- ver a interação entre o consumidor e um produto e serviço nas diversas etapas da jornada de consumo. Em um mercado no qual empresas e marcas competem com con- correntes que podem estar em qualquer lugar do mundo, oferecendo produtos e serviços físicos e digitais que atendem às necessidades e às demandas do consumidor, a experiência do usuário passa a ser um importante diferencial competitivo. Segundo os autores, “as empresas necessitam atender cada vez mais às exigências em relação à extrema Considerada uma das mais importantes em- presárias do Brasil, Luiza Trajano, do Magazine Luiza, no vídeo Luiza Helena Trajano, Experiên- cia do Consumidor | CX SUMMIT 2017, do canal Track, discute a impor- tância do atendimento na construção de uma experiência do consu- midor como forma de fidelizar os consumidores. Com sua forma simples e direta de comunicação, Luiza mostra como o atendimento é um dos pilares do sucesso de sua empresa. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=wwne9tr9MVc. Acesso em: 6 dez. 2021. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=wwne9tr9MVc https://www.youtube.com/watch?v=wwne9tr9MVc https://www.youtube.com/watch?v=wwne9tr9MVc Jornada e experiência do cliente 117 qualidade e satisfação que os produtos devem proporcionar aos seus compradores nas diversas etapas de experiência de consumo”. Mais do que apenas consumir um produto ou serviço, os consumi- dores estabelecem uma relação com as marcas estabelecidas pelas empresas. Segundo Brito et al. (2017,p. _20), as marcas representam valores, comportamentos e personalidades com os quais as pessoas constroem relações afetivas, de modo semelhante às relações que es- tabelecem com outras pessoas. Para os autores é possível: Entender o lado emocional e irracional do comportamento do consumidor, pela análise da experiência advinda de um conjun- to de interações entre a empresa e os seus consumidores. Essa visão “experiencial” caracteriza-se pelo fluxo de fantasias, senti- mentos e diversão associados ao processo de consumo, que, por sua vez, apresentava uma variedade de significados simbólicos, respostas hedônicas e elementos estéticos. O conceito de brand experience (experiência de marca) traduz a estratégia que as empresas utilizam para estabelecer essa relação pessoal com seus consumidores e clientes. Para Lindstrom (2017), as estratégias de brand experience não se resumem apenas a impulsionar uma determinada compra, mas também criam uma relação de confian- ça e interesse pela marca. Para o autor, a empresa deve criar diversos pontos de contato e experiências que possibilitem ao consumidor vi- venciar os valores e a personalidade da marca, pois cada interação gera conexões emocionais e psicológicas que poderão ser acessadas no fu- turo, quando o cliente estiver em um processo de decisão de compra. Enquanto a consumer experience envolve todos os pontos de contato entre a empresa e seus clientes no decorrer da jornada do consumo, e a user experience traduz a vivência do consumidor durante o uso do produto ou serviço, a brand experience engloba qualquer interação en- tre empresa e consumidor, mesmo aquelas que ocorrem fora do pro- cesso de decisão de uma compra específica. Anunciado como um dos mais exclusivos e luxuosos festivais de música do mundo, o Fyre Festival seria realizado em uma ilha no Caribe, com atrações famosas, acomodações luxuosas, alta gastronomia e uma experiência de luxo voltada para clientes de alto poder aquisitivo. Os pacotes que incluíam o voo até a ilha, acomo- dações e alimentação chegavam a custar US$100 mil. Porém, ao chegar à ilha, os clientes foram acomodados em barracas de camping, sem nenhuma estrutura de serviços e receberam sanduíches de queijo e tomate como refeição. O evento foi cancelado e gerou ações judiciais milionárias. O documen- tário mostra como a user experience dos clientes foi totalmente diferente do serviço comprado. Direção: Chris Smith. Produção: Netflix. EUA: 2019. Filme CONSIDERAÇÕES FINAIS As relações entre as empresas e seus consumidores passam por pro- fundas alterações, impactadas pelo uso das tecnologias da informação e da comunicação nas diversas etapas da jornada do consumidor. As rela- ções entre empresas e clientes não ocorrem apenas durante o processo de decisão de compra de um determinado produto ou serviço, mas em 118 Comportamento do consumidor todos os momentos em que ocorrem interações entre eles. Nesse con- texto, entender o comportamento do consumidor e as diversas etapas de sua jornada de compra é fator fundamental para o sucesso das estraté- gias de marketing das empresas. ATIVIDADES Atividade 1 Apresente as diferenças entre os conceitos dos 4Ps e dos 4Cs. Atividade 2 Explique o conceito de jornada do consumidor. Atividade 3 Os conceitos de customer experience, user experience e brand experience apresentam algumas diferenças. Explique cada um dos conceitos. REFERÊNCIAS ALT-SIMMONS, R. Book highlight: adjusting to a customer-centric landscape. Global Business & Organizational Excellence, v. 35, n. 2, p. 72-77, 2016. Disponível em: https://onlinelibrary. wiley.com/doi/abs/10.1002/joe.21657. Acesso em: 6 dez. 2021. BORGES, F. R. et al. Qualidade em serviços e gestão da experiência do clienteno comércio eletrônico. Revista Pensamento Contemporâneo em Administração, v. 8, p. 126-143, 2014. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/4417/441742853008.pdf. Acesso em: 6 dez. 2021. 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Com base no conceito da pirâmide das necessidades humanas, avalie as duas situações a seguir e classifique o tipo de necessidade que o indivíduo busca atender com suas decisões de consumo. a) Após trabalhar durante toda a parte da manhã, uma pessoa busca um restaurante para almoçar. Após analisar algumas opções, escolhe um restaurante mais barato, mas que parece ter uma comida saborosa. Explique a necessidade que ela busca atender. A necessidade que a pessoa busca atender é fisiológica, ou seja, saciar a sua fome. Essa necessidade está classificada no primeiro nível da pirâmide das necessidades humanas. b) Ao final do dia de trabalho, essa mesma pessoa é convidada pelo grupo de colegas de trabalho a ir até um restaurante próximo para fazer uma pequena confraternização. Mesmo não estando com fome, a pessoa decide ir ao encontro. Explique a necessidade que ela busca atender. Mesmo que a pessoa coma algo, a principal necessidade que ela busca atender é social, classificada no nível do amor/relacionamento da pirâmide das necessidades humanas. A pessoa quer se sentir parte do grupo social formado pelos seus colegas. 2. Analise a situação a seguir. Após ver determinada propaganda sobre um novo telefone celular, uma pessoa pergunta a um amigo, que já comprou o aparelho, como tem sido a experiência. O amigo faz uma boa avaliação do produto, mas mesmo assim a pessoa continua em dúvida. Por isso, assiste a alguns vídeos em um canal que faz avaliações de aparelhos eletrônicos. Então, a pessoa resolve adquirir o produto, mas como está atarefado, pede a seu filho para pesquisar sobre as melhores opções de preços e formas de pagamento e para comprar o produto. 120 Comportamento do consumidor Agora, identifique os papéis que cada um dos indivíduos desempenha nesse processo de compra. No exemplo dado, a pessoa exerce tanto o papel de iniciadora do processo de compra quanto de usuária do produto. O amigo a quem pede opiniões, assim como o canal no qual assiste vídeos sobre o produto desempenham o papel de influenciadores. Os papéis de decisor e comprador são exercidos pelo filho. 3. Explique o que é o valor simbólico de um bem. Alguns produtos, serviços e experiências apresentam um valor simbólico, ao proporcionar ao consumidor um reconhecimento dentro do grupo social. Um automóvel de luxo ou determinada roupa de uma marca reconhecida e desejada são exemplos de bens que têm um valor simbólico, pois representam que o indivíduo tem coisas que outras pessoas do grupo social desejam. O valor simbólico também pode estar ligadoa valores pessoais, como um objeto que simboliza uma conquista pessoal. 2 Processo de decisão do consumidor 1. Explique a diferença entre processos de compra simples e complexos. O nível de envolvimento do consumidor com o produto ou serviço, ou a urgência da necessidade a ser atendida levam a diferentes tipos de processos de compra. Os processos mais simples envolvem situações cotidianas ou urgentes que precisam ser solucionadas de maneira rápida e imediata, como o abastecimento de um veículo que está com baixo nível de combustível. Já os processos de compra mais complexos estão relacionados a necessidades ou desejos que envolvem decisões de longo prazo e alto investimento de tempo, dinheiro ou qualquer outro tipo de recurso, como a compra de um automóvel, um celular ou um imóvel. 2. Durante a etapa da busca por informações, o consumidor acessa tanto informações internas quanto externas. Explique os tipos de fontes de informações externas que podem ser acessadas durante a etapa da busca por informações durante um processo de compra. Quatro diferentes tipos de fontes de informação externas podem ser acessados pelo consumidor: [1] pessoas da família, amigos e conhecidos são fontes pessoais; [2] propagandas e mensagens publicitárias desenvolvidas pelas empresas representam as fontes comerciais; [3] as fontes públicas envolvem os meios de comunicação, Resolução das atividades 121 como televisão, imprensa, internet, redes sociais; [4] test drives, experimentos, testes e amostra grátis são fontes experimentais de informação. 3. Ao realizar a análise das alternativas de compra, o consumidor divide os produtos ou serviços em três diferentes conjuntos. Explique cada um deles. Os produtos, marcas, empresas e soluções consideradas pelo consumidor como opções válidas compõem o conjunto evocado. As alternativas que o consumidor não considera que sejam relevantes, ou que não são adequadas as suas necessidades e condições, fazem parte do conjunto inerte. Já conjunto inepto reúne as alternativas de produtos, serviços e experiências que o consumidor nem considera em seu processo de avaliação, por estarem fora dos padrões estabelecidos. 3 Pesquisa e análises sobre o consumidor 1. Explique as principais diferenças entre os conceitos de marketing 1.0, 2.0, 3.0 e 4.0. No marketing 1.0, o foco da empresa é voltado para o desenvolvimento do produto. Já o marketing 2.0 é marcado por uma visão mais centrada no consumidor. O marketing 3.0 surgiu a partir de mudanças comportamentais da sociedade, como a preocupação com o meio ambiente e os direitos humanos, o que exige das empresas uma atuação mais consciente e responsável. No marketing 4.0, a voz do consumidor passa a ser cada vez mais importante e a interação entre os consumidores faz com que as empresas e as marcas estejam constantemente sob a vigilância e a avaliação da sociedade. 2. O mundo vem passando por uma profunda transformação digital, que atinge as mais variadas áreas da sociedade e da vida dos indivíduos. Explique o conceito de transformação digital. Modelos de negócios, estratégias empresariais, forma de relacionamento, de produção e divulgação de conhecimento têm sido profundamente impactados pelo rápido desenvolvimento das tecnologias da informação. O termo transformação digital traduz as mudanças causadas pelas tecnologias da informação e da 122 Comportamento do consumidor comunicação na forma como a informação é produzida, organizada, distribuída, disponibilizada e utilizada nos mais diversos contextos. 3. Diferencie os conceitos de objetivo, meta, KPI e métrica. Para realizar a gestão das estratégias a serem colocadas em prática pela empresa, é preciso definir objetivos, ou seja, um posicionamento ou resultado que se busca alcançar no futuro, de maneira mais ampla. Os objetivos são transformados em metas ao se definir um tamanho e um prazo que determinará se o objetivo foi alcançado. Os Key Performance Indicators, ou KPI, são ferramentas e padrões para medir e gerenciar as ações, iniciativas e processos colocados em prática. Já as métricas são marcos ou valores definidos que podem ser constantemente medidos e acompanhados e que indicam a tendência ou a direção que os resultados obtidos apresentam. 4 Netnografia 1. Explique as diferenças entre os conceitos de multicanal e omnichannel. No conceito de multicanal, a empresa atua com diversos canais de marketing, mas cada canal atua de modo independente, com políticas comerciais e até preços diferentes e sem a integração das informações coletadas. Já o conceito de omnichannel se relaciona à convergência de todos os canais utilizados por uma empresa, integrando lojas físicas, virtuais e os clientes. O consumidor está no centro da estratégia omnichannel, pois seu processo de compra transita entre o virtual e o físico. 2. Entre as características do consumidor digital, quais estão relacionadas à sua necessidade de ser ouvido pela empresa e desejar respostas rápidas e honestas? O consumidor apresenta diversas características relacionadas ao uso de canais digitais. O consumidor digital busca estabelecer uma comunicação direta com a empresa, o que pode ser identificado nas características “prefere utilizar os aplicativos da empresa antes de entrar em contato pelo telefone”, “deseja agilidade na resposta das empresas pelas mídias sociais” e “quer se comunicar pelas redes sociais com as empresas com as quais se relaciona”. 3. Explique os conceitos de interação e engajamento na relação entre empresas e seus consumidores. Resolução das atividades 123 A interação é a construção de uma relação entre a empresa e seus consumidores, que atuam de maneira conjunta, fazendo com que as decisões e ações tomadas por uma das partes afete as decisões e ações da outra parte. Para que isso ocorra, a comunicação deve ser aberta e direta, objetivando a compreensão das necessidades, desejos, anseios e dúvidas de cada parte. Já o engajamento pode ser entendido como a construção de um relacionamento legítimo e profundo entre a empresa e o consumidor. 5 Jornada e experiência do cliente 1. Apresente as diferenças entre os conceitos dos 4Ps e dos 4Cs. Os 4 Ps do marketing (produto, preço, praça e promoção) representam a visão tradicional do marketing, pensada a partir do ponto de vista da empresa. Já os 4 Cs, conceito formado pelas palavras cocriação (co- creation), moeda (currency), ativação comunitária (communal activation) e conversa (conversation), é pensado a partir do ponto de vista dos clientes, em uma relação de comunicação constante entre empresa e consumidores. 2. Explique o conceito de jornada do consumidor. A jornada do consumidor é composta da sequência de etapas pelas quais o consumidor passa em seu processo de decisão de compras. Identifica também os pontos de contato entre a empresa e o consumidor em cada uma dessas etapas. 3. Os conceitos de customer experience, user experience e brand experience apresentam algumas diferenças. Explique cada um dos conceitos. Customer experience envolve todos os pontos de contato, comunicação e trocas que ocorrem entre a empresa e seus consumidores. O conceito de user experience se refere especificamente ao uso ou consumo dos produtos ou serviços oferecidos pela empresa. Brand experience é a estratégia que as empresas utilizam para estabelecer uma relação pessoal com seus consumidores e clientes, com objetivo de criar uma relação de confiança e interesse pela marca. 124 Comportamento do consumidor consumidorconsumidor comportamento comportamento dodo fabiano caxito fabiano caxito ISBN 978-65-5821-118-1 9 786558 211181 Código Logístico I000582 Página em branco Página em brancocomo a opinião de outras pessoas, as propagandas, a pressão social e questões econô- micas, são apenas disparadores dos processos internos de cognição e tomada de decisão. 1.2 Fatores culturais, sociais, pessoais e psicológicosVídeo O ser humano, segundo Lukács et al. (2012), é um ser social, e a sociedade passa por constantes mudanças e evoluções, causadas por fatores tecnológicos, comportamentais e sociais. Como aponta Cadoná (2020), as últimas décadas do século XX e as primeiras décadas do século XXI são marcadas por mudanças profundas na forma como a sociedade se organiza, causadas tanto pelo acelerado desenvolvimen- to tecnológico, em especial das tecnologias da informação e das co- municações, quanto por outros fatores sociais, econômicos e políticos. Compreender como a cul- tura, os grupos sociais, os relacionamentos pessoais e os aspectos psicológicos interferem no processo de compras. Objetivo de aprendizagem Evolução do comportamento do consumidor 17 Oliveira (2019) afirma que mudanças demográficas, observadas es- pecialmente nos países desenvolvidos ou em desenvolvimento, como o aumento da expectativa de vida e a diminuição da quantidade de filhos, mudaram a pirâmide etária de muitos países, com o envelheci- mento da população, o que causa mudanças nos padrões de trabalho e consumo. 1950 MUNDO População: 5.414.289.3831991 Masculino Feminino Gráfico 1 Comparativo da população mundial em 1991 Fonte: World..., 2021a. 6.2% 5.6% 5.0% 4.9% 4.7% 4.2% 3.7% 3.4% 2.7% 2.2% 2.0% 1.7% 1.5% 1.1% 0.7% 0.5% 0.2% 0.1% 0.1% 0.2% 0.4% 0.7% 0.9% 1.3% 1.5% 1.8% 2.0% 2.1% 2.7% 3.3% 3.6% 4.1% 4.5% 4.7% 4.8% 5.3% 5.8% 0.0% 0.0% 0.0% 0.0% 0.0% 0-4 5-9 10-14 15-19 20-24 25-29 30-34 35-39 40-44 45-40 50-54 55-59 60-64 65-69 70-74 75-79 40-84 85-89 90-94 95-99 100+ 10% 10%8% 8%6% 6%4% 4%2% 2%0% 5.414.289.383 População 1960 1970 1980 1990 2000 2010 2020 2030 2040 2050 2060 2070 2080 2090 1965 1975 1985 1995 2005 2015 2025 2035 2045 2055 2065 2075 2085 2095 2100 1955 18 Comportamento do consumidor Gráfico 2 Comparativo da população mundial em 2021 MUNDO População: 7,874,965,731 7,874,965,732 2021 Masculino Feminino População 0-4 10% 10%8% 8%6% 4.4% 4.2% 4.1% 4.0% 3.8% 3.7% 3.6% 3.8% 3.5% 3.1% 3.0% 2.9% 2.5% 2.1% 1950 1960 1970 1980 1990 2000 2010 2020 2030 2040 2050 2060 2070 2080 2090 1965 1975 1985 1995 2005 2015 2025 2035 2045 2055 2065 2075 2085 2095 2100 1955 1.8% 1.3% 0.9% 0.6% 0.4% 0.2% 4.4% 4.2% 4.1% 3.9% 3.9% 3.9% 3.6% 3.2% 3.1% 2.9% 2.5% 2.0% 1.7% 1.2% 0.7% 0.4% 0.2% 0.1% 0.0% 0.0% 0.0% 0.0% 6%4% 4%2% 2%0% 5-9 10-14 15-19 20-24 25-29 30-34 35-39 40-44 45-40 50-54 55-59 60-64 65-69 70-74 75-79 40-84 85-89 90-94 95-99 100+ Fonte: World..., 2021b. Questões econômicas, como a aceleração dos processos de globali- zação, com a migração das indústrias para países em desenvolvimento e a criação de grandes blocos econômicos, como a comunidade eco- nômica europeia, são apontadas por Cadoná (2020) como responsá- veis por mudanças na distribuição da riqueza e das oportunidades de trabalho, que ao mesmo tempo que incluiu milhões de pessoas na so- ciedade de consumo em países como a China, a Índia e o Brasil, levou Evolução do comportamento do consumidor 19 ainda mais pobreza e exclusão social para as parcelas mais pobres da população e para as regiões subdesenvolvidas. Todas essas mudanças, que já ocorriam há décadas, foram inten- sificadas e aceleradas, segundo Cassiolato, Falcón e Szapiro (2021), na transição entre a segunda e a terceira década do século XXI, com o ad- vento da Pandemia de Covid-19, que mudou as formas de organização do trabalho, da educação, do comércio e dos processos produtivos de maneira ainda não totalmente compreendida. Nesse contexto de profundas mudanças, é possível observar como os fatores externos impactam e influenciam o comportamento dos consumidores em seu processo de compra e nas decisões de consumo. Diversas são as áreas de conhecimento que se relacionam com os estudos sobre o comportamento do consumidor. Conforme Vieira, Mesquita e Costa (2019), as decisões de consumo e, consequentemen- te, o comportamento do consumidor apresentam um papel central nos estudos econômicos. Como destacam Garcia e Vasconcelos (2017), a economia é uma ciência que busca entender o comportamento huma- no durante os processos de decisão sobre o uso de seus recursos, na busca pela realização de suas necessidades. Nessa ciência, enquanto a macroeconomia busca entender as relações que se estabelecem entre os diversos agentes que colaboram para a criação de valor – para um indivíduo, uma empresa, uma cadeia de valor, um Estado ou para o mundo –, a microeconomia busca entender como ocorrem as escolhas e decisões pessoais. Já a psicologia, de acordo com Correia et al. (2017), olha o indivíduo para entender como os fatores pessoais (crenças, ciclo de vida, valores, educação etc.) influenciam cada uma das decisões tomadas pela pes- soa em seu cotidiano e como essas escolhas refletem suas característi- cas psicológicas e influenciam sua própria percepção como indivíduo e a relação com os outros. Outras ciências sociais, como a sociologia e a antropologia, também contribuem intensamente para o entendimento do comportamento do consumidor. A sociologia, segundo Hawkins, Mothersbaugh (2018), busca compreender como as escolhas dos indivíduos estão intrinsecamente liga- das ao grupo social e como as relações que se estabelecem dentro da so- ciedade – o papel ocupado pelo indivíduo, as crenças e os valores culturais, A Federação do Comércio do Estado de São Paulo desenvolveu um extenso estudo sobre as mudan- ças ocorridas no compor- tamento do consumidor durante o período da Pandemia de Covid-19; focou os impactos dessas mudanças sobre os padrões de consumo de produtos e serviços relacionados a diversas necessidades e desejos dos consumidores, como alimentação, educação e entretenimento. O estudo debate como algumas dessas mudanças são transitórias, enquanto outras parecem indicar o estabelecimento de novos comportamentos de consumo. Disponível em: https://lab. fecomercio.com.br/wp-content/ uploads/2020/09/ebook- transitorio_APROV_final.pdf. Acesso em: 1º dez. 2021. Saiba mais https://lab.fecomercio.com.br/wp-content/uploads/2020/09/ebook-transitorio_APROV_final.pdf https://lab.fecomercio.com.br/wp-content/uploads/2020/09/ebook-transitorio_APROV_final.pdf https://lab.fecomercio.com.br/wp-content/uploads/2020/09/ebook-transitorio_APROV_final.pdf https://lab.fecomercio.com.br/wp-content/uploads/2020/09/ebook-transitorio_APROV_final.pdf 20 Comportamento do consumidor por exemplo – podem alterar os padrões de consumo, bem como busca compreender o impacto do consumo sobre a sociedade como um todo. As diferenças e semelhanças entre as formas de culturas e subcul- turas é objeto de estudo da antropologia, que, segundo Carrera (2020), também busca entender como produtos, serviços e marcas represen- tam símbolos de posição e reconhecimento social. Já a filosofia discute as questões éticas e morais do consumo. O consumo, como pode-se concluir, não pode ser entendido apenas como uma transação comercial que ocorre entre empresas ou entre indivíduos. Para Demczuk (2021), envolve aspectos psicológicos, sociais e culturais que precisam ser profundamente estudados para serem de- vidamente entendidos. A cultura, conforme Fernandes, Carrara e Zilio (2017), pode ser en- tendida como os valores, símbolos, rituais e comportamentos que são transmitidos entre os membros de determinado grupo, que podem ser representados por objetivos, formas de relacionamento, tecnologias, conhecimentos, expressões artísticas, estilos de vida e formas de orga- nização do grupo social. Documentário O documentário Tribos urbanas mostra as diversas subculturas que compõem a cul- tura das grandes cidades brasileiras. Música, forma de se vestir, marcas, linguageme comportamentos são alguns dos valores e símbolos que marcam cada uma das tribos e são discutidos a partir da relação de consumo e de participação na sociedade ca- pitalista. Ao retratar a realidade das subculturas na sociedade brasileira, o documen- tário traça uma visão aprofundada da forma como os aspectos sociais influenciam as decisões dos indivíduos. Direção: Paulo Rosa. Brasil: Black Mídia, 2017. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=itZpa8fxBtc. Acesso em: 1º dez. 2021. A cultura de um povo ou sociedade não é estática: está sempre em evolução, seja pela relação que estabelece com outras culturas, seja pelo próprio desenvolvimento tecnológico e comportamental de seus membros. Araújo, Turano e Vieira (2019) salientam que a cultura geral de um povo é composta de diversas subculturas que representam os grupos que o compõem. Em uma sociedade em que o consumo de bens é considerado um símbolo de status e posição social, muitas pessoas têm se sentido cada vez mais pressionadas e infelizes. O movimento do minima- lismo propõe uma volta à vida simples, com a proposta de ter apenas aquilo que realmente necessita. O documen- tário Minimalismo: um documentário sobre as coisas importantes mostra a jornada de dois jovens que adotaram a filosofia minimalista e, após es- creverem um livro sobre o tema, viajam por vários países para ministrar palestras. Além disso, mostra que o excesso de consumo pode trazer muito mais problemas do que satisfação e que está na hora de a sociedade começar a repensar seus valores. Direção: Matt D’Avella; Ryan Nicodemus; Joshua Fields Millburn. EUA: Netflix, 2015. Documentário Evolução do comportamento do consumidor 21 Características como religião, afiliação política, estilos de vida, etnia, raça, gênero e idade podem ser usadas como fatores de identificação de grupos específicos que defendem suas próprias crenças e valores que influenciam a forma como se comportam e os símbolos de perten- cimento e reconhecimento específicos do grupo. O consumo de produ- tos, serviços e marcas que representam o que o grupo valoriza é uma forma de demonstrar a posição social dentro do grupo. 1.3 Papéis no processo de consumo Vídeo Durante o processo de compra e de consumo de bens e serviços, o indivíduo pode desempenhar diversos papéis, pois não necessaria- mente quem será o usuário final, ou seja, o consumidor do produto ou do serviço, é o responsável pelas etapas da compra. Blackwell, Miniard e Engel (2011) afirmam que o processo de decisão de compra é com- posto de diversas etapas, como: AI W D /M au la ga /S hu tte sr to ck Reconhecimento da necessidade Avaliação das alternativas pré- compra Consumo Descarte Busca por informação Compra Avaliação pós-compra Durante esse processo, segundo Blackwell, Miniard e Engel (2011), o indivíduo pode desempenhar um ou mais papéis, como veremos a seguir. O iniciador é a pessoa que identifica uma necessidade ou um desejo que precisa ser atendido com a aquisição de determinado produto ou serviço. No processo de compra apresentado por Blackwell, Miniard e Engel (2011), o iniciador é o responsável pela primeira etapa, o reco- nhecimento da necessidade. Identificar os papéis que o consumidor desempenha no processo de compras. Objetivo de aprendizagem 22 Comportamento do consumidor Pense em uma criança que deseja um novo console de videoga- me. Ao ser influenciada por uma propaganda ou por um amigo, a criança passa a desejar o produto. Porém, não tem condições de desempenhar todas as etapas do processo de compra. ar ty wa y/ Sh ut te rs to ck NL Ds n/ Sh ut te rs to ck HappyPictures/Shutterstock hanss/Shutterstock Exemplo O influenciador é uma pessoa que interfere no processo de com- pras, dando opiniões, disponibilizando informações ou estabelecendo critérios a serem cumpridos pelos produtos e serviços. Em um pro- cesso de compra de uma empresa, o influenciador pode ser a pessoa que define os padrões técnicos que nortearam a compra. No consumo realizado pelos indivíduos, esse papel pode ser exercido por um fami- liar, um amigo ou uma pessoa que transmite confiança e é reconhe- cida pelo seu conhecimento sobre o tema. Os influenciadores digitais exercem esse papel ao apresentarem as vantagens, os benefícios e as características dos produtos que anunciam. No modelo de Blackwell, Miniard e Engel (2011), o influenciador está relacionado à etapa da busca da informação e pode estar envolvido com a avaliação das alternativas de compra. Exemplo Na compra de um console de videogame, o influenciador pode ser um amigo da criança que já tenha comprado o produto, ou um influen- ciador digital que faça vídeos usando o console e mostrando os jogos disponíveis. ar ty wa y/ Sh ut te rs to ck Os papéis de decisor e de comprador, nas compras individuais e familiares, normalmente são desempenhados pela mesma pessoa e ocorrem de maneira simultânea. Geralmente, é realizado por quem efetuará os pagamentos relativos à compra. Já nas empresas, é possí- vel que os papéis sejam desempenhados por pessoas diferentes. Evolução do comportamento do consumidor 23 O decisor é o indivíduo que toma a decisão sobre qual produto ou serviço deve ser comprado, de acordo com os critérios estabelecidos. Na empresa, esse papel pode ser desempenhado pelo responsável pela área que utilizará o produto ou serviço. Já o comprador toma a decisão final sobre o processo de compra, que envolve a seleção do for- necedor, das condições de pagamento e demais detalhes necessários para a efetivação do processo de compra. Em uma empresa, esse papel normalmente é realizado por um comprador. O decisor é responsá- vel pela etapa da avaliação das alternativas de compra; e o comprador é o responsável pela efetivação da compra, no modelo de Blackwell, Miniard e Engel (2011). Exemplo Os decisores podem ser os pais ou os adultos responsáveis pela criança, que decidirão o momento adequado da compra, a forma de pagamento e a escolha do fornecedor. ar ty wa y/ Sh ut te rs to ck Por fim, o usuário é quem efetivamente vai utilizar o produto e, por- tanto, é responsável pelas etapas do consumo, avaliação pós-consumo e descarte no modelo de Blackwell, Miniard e Engel (2011). O usuário do console de videogame é a própria criança, que também desempenhou o papel de iniciador do processo. ar ty wa y/ Sh ut te rs to ck Exemplo Nas compras pessoais e familiares, é comum que as pessoas de- sempenhem mais do que um papel durante o processo de compra. Em alguns casos, todas as etapas estão sob a responsabilidade do mesmo indivíduo – por exemplo, uma pessoa adulta que decide com- prar um novo móvel para a sua casa. Nas empresas, em geral, os papéis são mais definidos e várias pessoas estão envolvidas em um processo de compras. Muitas comédias podem parecer, à primeira vista, filmes vazios e infantis, mas algumas trazem grandes reflexões sobre conceitos importantes da sociedade. O filme Um herói de brinquedo mostra um pai que promete ao filho um brinquedo como presente de Natal. A criança representa o iniciador e o usuário do produto; já os amigos do menino e a intensa campanha de publicidade da empresa fabricante do brinquedo desem- penham o papel de influenciadores. Ao pai, cabe o papel de decisor e comprador. Porém, às vésperas do Natal, não é uma tarefa simples conseguir o brinquedo desejado por todas as crianças. Direção: Brian Levant. EUA: Mark Radcliffe, 1996. Filme 24 Comportamento do consumidor 1.4 Sociedade de consumo Vídeo O modelo econômico capitalista é fundamentado na construção de valor a partir da transformação de recursos, como as matérias-primas, por meio do uso de conhecimento, tecnologia e mão de obra, em produ- tos e serviços que, segundo Carrera-Fernandez (2009), serão comerciali- zados com os mercados consumidores em troca de valores econômicos e financeiros. O consumo está no centro do modelo capitalistae é sua mola pro- pulsora. A constante busca pelo aumento da produtividade e a com- petição entre as empresas faz com que o modelo econômico precise apresentar crescimento constante do consumo para que as empresas e organizações possam atingir seus objetivos econômicos. O consumo pode ser entendido considerando diferentes pontos de vista, de acordo com Correia et al. (2017), a visão do marketing tem como base o conceito de que as pessoas compram e consomem pro- dutos e serviços que apresentam utilidade para atender às suas de- mandas, às suas necessidades e aos seus desejos. Nesse contexto, as escolhas dos consumidores são racionais e se compreende o indivíduo como capaz de entender perfeitamente quais são as suas necessidades mais urgentes para, assim, tomar decisões racionais sobre a escolha dos bens que precisa comprar. Do ponto de vista antropológico, as decisões de consumo não de- pendem apenas do indivíduo, mas de todo um contexto social criado tanto pelas empresas quanto pela própria forma de organização dos grupos sociais, que faz com que as pessoas sejam julgadas pela sua capacidade de consumir. A posição social e o reconhecimento do indi- víduo no grupo social estão ligados a seu poder de consumo. A essa pressão social que faz com que o indivíduo consuma desen- freadamente, o autor denomina consumismo. Para Nery, Menêses e Torres (2012, p. 57), “diferentemente de consumo, que é uma caracte- rística e uma ocupação dos seres humanos como indivíduos, o consu- mismo é um atributo da sociedade. Para isso, é preciso que as pessoas tenham a capacidade de querer, desejar, almejar”. Para Bauman (2008), um dos mais importantes filósofos contem- porâneos, o consumo passou a ser uma característica fundamental da sociedade, transformando os rituais de consumo em uma forma de Perceber como a socie- dade contemporânea é voltada para o consumo e como a pressão social influencia nas decisões dos consumidores. Objetivo de aprendizagem As empresas usam diversas estratégias para aumentar o desejo dos consumidores por novos produtos; estes são lançados com pequenas diferenças estéticas ou cores. O documentário Comprar, jogar fora, com- prar: a história secreta da obsolescência programada mostra a implementação dessa estratégia pelas empresas. Produção: Cosima Dannoritzer. Espanha/França: TVE / Arte, 2010. Documentário Evolução do comportamento do consumidor 25 convívio e de relacionamento humano. Essa característica pode ser ob- servada nos shoppings centers, templos modernos dedicados ao con- sumo, e nas redes sociais, nas quais os indivíduos que se dedicam ao consumismo são vistos como influenciadores, sendo seguidos e admi- rados por milhares de pessoas. Essa característica da sociedade leva a um ciclo vicioso no qual, se- gundo Leonard (2011), as pessoas se tornam cada vez mais viciadas em consumir muito além do que necessitam, e as empresas aumentam ainda mais sua produção, lançam constantemente novos produtos, li- nhas, marcas e tecnologias que são compradas, consumidas e descar- tadas cada vez mais rapidamente. Ainda de acordo com o autor, o consumismo é uma característica da sociedade contemporânea que foi desenvolvida de maneira organizada e estratégica pelas grandes organizações e Estados, a partir da segunda metade do século XX, como forma de garantir o crescimento econômi- co e o processo de industrialização e de globalização da economia. Apesar de Nery, Menêses e Torres (2012), Bauman (2008) e Leonard (2011) apontarem o consumismo como uma característica da sociedade e não do indivíduo, diversos autores acreditam que o con- ceito também está ligado a características dos indivíduos. Para Nery, Menêses e Torres (2012, p. 58), o consumismo compulsivo está rela- cionado a características psicológicas: “a compra compulsiva tem o ob- jetivo, mesmo que inconsciente, de satisfazer às necessidades físicas através da expressão de uma identidade pessoal, regular a ansiedade ou simplesmente satisfazer anseios relacionados a status social”. Nesse sentido, os compradores compulsivos podem ser considera- dos, segundo Nery, Menêses e Torres (2012), podem apresentar dis- túrbios psicológicos, que usam o consumismo como forma de obter validação social e satisfação pessoal, bem como reforçar sua autoesti- ma. Contudo, como apontam Tavares et al. (2008), o momento de sa- tisfação trazido pela efetivação da compra é rapidamente substituído pelo arrependimento e pela culpa, que podem evoluir rapidamente para processos depressivos. Silva e Brito (2020) apontam que o desenvolvimento tecnológico faz com que o consumismo se torne cada vez mais presente na so- ciedade. Para os autores, as redes sociais criam uma pressão social e O livro A história das coisas teve como origem uma palestra realiza- da pela autora, Annie Leonard, que apresenta de maneira divertida e didática os conceitos de consumismo e susten- tabilidade e mostra os impactos do excesso de produção e consumo sobre o meio ambiente e a sociedade. LEONARD, A. São Paulo: Zahar, 2011. Livro A palestra Story of Stuff (2007, versão oficial), publicada pelo canal The Story of Stuff Project, pode ser visualizada no link a seguir. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=9GorqroigqM. Acesso em: 2 dez. 2021. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=9GorqroigqM https://www.youtube.com/watch?v=9GorqroigqM https://www.youtube.com/watch?v=9GorqroigqM 1.5 Influências sobre o processo de compra Vídeo A abordagem comportamental é uma linha de análise psicológica bastante utilizada na análise do comportamento de consumo. A prin- cipal característica que a diferencia da abordagem cognitivista do marketing (apresentada na primeira parte deste capítulo) é a impor- tância dada à influência dos fatores externos durante o processo de decisão de consumo. A abordagem comportamental, segundo Kotler e Keller (2019), consi- dera o consumo um processo que é aprendido por meio das interações do indivíduo com a cultura, a sociedade e a tecnologia presentes no ambiente externo onde está inserido. A própria definição de marketing dada por Kotler e Keller (2019) leva em consideração a influência do ambiente. Para os autores, o marketing é um processo social, que en- volve indivíduos e empresas que buscam obter produtos, serviços e experiências que atendam às suas necessidades e aos seus desejos. Nesse contexto, o estudo do comportamento do consumidor preci- sa levar em consideração as influências externas a que o consumidor está sujeito. Esse ambiente externo é composto de diversos círculos de relacionamento; o primeiro deles é a família, que influencia o indivíduo ao desenvolver, por meio da educação, crenças, modos de pensar, va- lores e estilo de vida. Outra fonte de influência é o grupo social do qual o indivíduo faz parte, que pode ser representado pelos amigos, vizinhança, colegas de trabalho, profissionais de determinado mercado, pessoas que seguem a mesma religião ou professam as mesmas preferências esportivas, po- líticas ou culturais. O grupo social também inclui a classe social da qual o indivíduo faz parte e o estilo de vida adotado. A cultura, a subcultura e os valores da sociedade, em sentido mais amplo, também criam grande influência sobre as decisões do consumidor. Entender como o consu- midor é influenciado em seu processo de compra e como a classe social e o estilo de vida impactam os processos de consumo. Objetivo de aprendizagem Qual é a relação entre consumo e felicida- de? O documentário Happy discute a relação entre trabalho, dinheiro, consumo, satisfação e felicidade. Ao entrevistar pessoas de diversos países e de diferentes culturas, o documentário mostra que o consumo de bens e serviços não é um fator relevante para a sensação de felicidade. O documentário também mostra como o ambiente, a cultura e o grupo social no qual o indivíduo vive influenciam suas percep- ções sobre o valor dos bens de consumo. Produção: Roko Belic.EUA: Netflix, 2011. Documentário 2727 Comportamento do consumidorComportamento do consumidor M as te r1 30 5/ Sh ut te rs to ck um ambiente no qual as pessoas que têm capacidade de consumo são reconhecidas e admiradas, ao mesmo tempo que o desenvolvimento do comércio eletrônico (e-commerce) facilita o processo de busca de informação, comparação das alternativas e decisão de compra. O conceito social commerce, conforme Turchi (2012), une essas duas tecnologias, ou seja, o comércio eletrônico que usa as redes sociais como forma de gerar necessidade e desejo, oferecer informações e in- fluenciar no processo de decisão de compra dos consumidores. Silva e Brito (2020, p. 94) destacam que: é notório que as mídias sociais ampliaram, consideravelmente, a troca de informações, o que reflete diretamente no merca- do de consumo desenvolvido por meio delas. As redes sociais passaram a ser utilizadas como plataformas de interação para captar informações de seus usuários, que são utilizadas pelas empresas como estratégia de mercado para direcionar sua oferta de produtos e serviços, visando aumentar suas vendas. O consumo tem um papel fundamental no desenvolvimento eco- nômico, porém o consumismo traz grandes problemas tanto para os indivíduos quanto para a sociedade. Assim como milhares de jovens que são influen- ciadas diariamente por muitas propagandas e pessoas famosas, Becky Bloom se torna uma consumidora compulsiva. O filme Os delírios de consu- mo de Becky Bloom mostra a felicidade momentânea da compra, seguida do arrependimento e dos problemas financeiros e pessoais trazidos pelo excesso de gastos. Direção: P. J. Hogan. EUA: Jerry Bruckheimer, 2009. Filme 1.5 Influências sobre o processo de compra Vídeo A abordagem comportamental é uma linha de análise psicológica bastante utilizada na análise do comportamento de consumo. A prin- cipal característica que a diferencia da abordagem cognitivista do marketing (apresentada na primeira parte deste capítulo) é a impor- tância dada à influência dos fatores externos durante o processo de decisão de consumo. A abordagem comportamental, segundo Kotler e Keller (2019), consi- dera o consumo um processo que é aprendido por meio das interações do indivíduo com a cultura, a sociedade e a tecnologia presentes no ambiente externo onde está inserido. A própria definição de marketing dada por Kotler e Keller (2019) leva em consideração a influência do ambiente. Para os autores, o marketing é um processo social, que en- volve indivíduos e empresas que buscam obter produtos, serviços e experiências que atendam às suas necessidades e aos seus desejos. Nesse contexto, o estudo do comportamento do consumidor preci- sa levar em consideração as influências externas a que o consumidor está sujeito. Esse ambiente externo é composto de diversos círculos de relacionamento; o primeiro deles é a família, que influencia o indivíduo ao desenvolver, por meio da educação, crenças, modos de pensar, va- lores e estilo de vida. Outra fonte de influência é o grupo social do qual o indivíduo faz parte, que pode ser representado pelos amigos, vizinhança, colegas de trabalho, profissionais de determinado mercado, pessoas que seguem a mesma religião ou professam as mesmas preferências esportivas, po- líticas ou culturais. O grupo social também inclui a classe social da qual o indivíduo faz parte e o estilo de vida adotado. A cultura, a subcultura e os valores da sociedade, em sentido mais amplo, também criam grande influência sobre as decisões do consumidor. Entender como o consu- midor é influenciado em seu processo de compra e como a classe social e o estilo de vida impactam os processos de consumo. Objetivo de aprendizagem Qual é a relação entre consumo e felicida- de? O documentário Happy discute a relação entre trabalho, dinheiro, consumo, satisfação e felicidade. Ao entrevistar pessoas de diversos países e de diferentes culturas, o documentário mostra que o consumo de bens e serviços não é um fator relevante para a sensação de felicidade. O documentário também mostra como o ambiente, a cultura e o grupo social no qual o indivíduo vive influenciam suas percep- ções sobre o valor dos bens de consumo. Produção: Roko Belic. EUA: Netflix, 2011. Documentário 2727 Comportamento do consumidorComportamento do consumidor M as te r1 30 5/ Sh ut te rs to ck 28 Comportamento do consumidor Nas últimas décadas, o hábito de fumar passou de uma realidade socialmente aceita e, em alguns casos, incentivada, para uma característica indesejada e até mesmo considerada antissocial. No entanto, cada indivíduo sofre diferentes níveis de influência que podem impactar sua decisão de fumar, ou não. Caso seja cria- do em uma família na qual várias pessoas fumam, o indivíduo pode considerar o hábito como algo aceitável. Conviver em um grupo de amigos ou trabalhar em uma empresa que o hábito é comum, também pode levar o indivíduo a considerar o consumo do produto. Já a sociedade exerce grande pressão contra o hábito, traduzida in- clusive em legislações que proíbem o consumo do produto em ambientes públicos. A decisão final do indivíduo sobre consumir ou não o produto será influenciada por todos os diversos grupos do qual faz parte. autumnn/Shutterstock Em um mundo cada vez mais conectado pelas tecnologias de infor- mação e da comunicação, Vilaça (2018) aponta que as culturas locais es- tão em constante contato com outras culturas e com diferentes valores e conhecimentos. O amplo acesso à informação e a possibilidade de di- vulgação de ideias radicais nas redes sociais e nas plataformas de comu- nicação levaram a mudanças políticas observadas em diversos países. Os símbolos de pertencimento e de reconhecimento do indivíduo dentro do grupo social, segundo Feltes e Sanfelice (2020), também se modificam e ganham outros contornos e significados. Nesse contexto, o consumo desempenha um papel importante, por representar um sis- tema de valores e símbolos de status social, que são reconhecidos pe- los membros do grupo. A miscigenação cultural, ou seja, a mistura de diversas culturas que passam a conviver em um espaço social, conforme William (2019), foi intensificada pelo desenvolvimento tecnológico, em especial as tecno- logias da informação e da comunicação, com destaque para a internet e as redes sociais, que, ao mesmo tempo que facilitaram o acesso a informações e a experiências multiculturais, deram voz a grupos sociais e a culturas que não eram representadas nas mídias tradicionais. Solomon (2016) destaca que alguns pro- dutos, serviços e, principalmente, marcas No filme Amor por contra- to, uma família se muda para um bairro de classe social alta e aparenta ser a família perfeita. Em pouco tempo, eles come- çam a ser imitados pelos vizinhos, que querem usar os mesmos produ- tos e se portar de modo semelhante. Porém, eles não são uma família de verdade, e sim parte de um experimento de marketing: cada produto que usam, cada atividade que fazem são projetadas e desenvolvidas para gerar desejo e influenciar os vizinhos a comprar. O filme mostra como as pessoas são facilmente influenciáveis e como o consumo tem um papel simbólico na sociedade de consumo. Direção: Derrick Borte. EUA: Premiere Picture; Echo Lake Productions, 2009. Filme melita s/Shutterstock Evolução do comportamento do consumidor 29 têm um significado simbólico na sociedade. O valor simbólico, segun- do o autor, é em alguns casos mais determinante para a decisão de compra de um bem do que a sua própria utilidade funcional. O valor simbólico pode estar relacionado tanto ao reconhecimento obtido pelo indivíduo dentro do grupo, ao ter determinado produto, quanto à per- cepção do próprio indivíduo de que aquele produto ou marca repre- senta uma extensão ou uma representação de quem é. A relação entre o consumo e a divisão da sociedade em classes é um fator importante no entendimento docomportamento do consumidor. O perfil de consumo é influenciado por características sociais do indiví- duo, como sua ocupação ou profissão, seu nível de renda e patrimônio. O conceito de classe social, segundo Marinho (2017), está relaciona- do à forma de estruturação da sociedade e à posição que o indivíduo ocupa nessa estrutura. Para o autor, as pessoas tendem a manter re- lações pessoais de longo prazo com outras pessoas que apresentem a mesma situação econômica, cultural, educacional e de estilo de vida. Esse relacionamento se dá tanto nas questões materiais – por exem- plo, bens que têm, produtos e serviços que consomem e locais que fre- quentam – quanto em aspectos simbólicos, como os hábitos, a cultura e o estilo de vida que compartilham. De acordo com Bragaglia e Bastos (2017), o comportamento de con- sumo dos indivíduos que fazem parte de um extrato social apresenta características semelhantes que podem orientar as decisões estratégi- cas das empresas que buscam atingir esse determinado grupo. Porém, outros fatores devem ser levados em consideração. O estilo de vida, para Puls e Becker (2018), também tem grande im- pacto sobre o comportamento de consumo. O conceito de estilo de vida inclui diversos fatores, como idade, momento do ciclo de vida no qual o indivíduo se encontra, classe social, nível de escolaridade, condição financeira, crenças, gostos e preferências pessoais. Nas últimas décadas, o hábito de fumar passou de uma realidade socialmente aceita e, em alguns casos, incentivada, para uma característica indesejada e até mesmo considerada antissocial. No entanto, cada indivíduo sofre diferentes níveis de influência que podem impactar sua decisão de fumar, ou não. Caso seja cria- do em uma família na qual várias pessoas fumam, o indivíduo pode considerar o hábito como algo aceitável. Conviver em um grupo de amigos ou trabalhar em uma empresa que o hábito é comum, também pode levar o indivíduo a considerar o consumo do produto. Já a sociedade exerce grande pressão contra o hábito, traduzida in- clusive em legislações que proíbem o consumo do produto em ambientes públicos. A decisão final do indivíduo sobre consumir ou não o produto será influenciada por todos os diversos grupos do qual faz parte. autumnn/Shutterstock Em um mundo cada vez mais conectado pelas tecnologias de infor- mação e da comunicação, Vilaça (2018) aponta que as culturas locais es- tão em constante contato com outras culturas e com diferentes valores e conhecimentos. O amplo acesso à informação e a possibilidade de di- vulgação de ideias radicais nas redes sociais e nas plataformas de comu- nicação levaram a mudanças políticas observadas em diversos países. Os símbolos de pertencimento e de reconhecimento do indivíduo dentro do grupo social, segundo Feltes e Sanfelice (2020), também se modificam e ganham outros contornos e significados. Nesse contexto, o consumo desempenha um papel importante, por representar um sis- tema de valores e símbolos de status social, que são reconhecidos pe- los membros do grupo. A miscigenação cultural, ou seja, a mistura de diversas culturas que passam a conviver em um espaço social, conforme William (2019), foi intensificada pelo desenvolvimento tecnológico, em especial as tecno- logias da informação e da comunicação, com destaque para a internet e as redes sociais, que, ao mesmo tempo que facilitaram o acesso a informações e a experiências multiculturais, deram voz a grupos sociais e a culturas que não eram representadas nas mídias tradicionais. Solomon (2016) destaca que alguns pro- dutos, serviços e, principalmente, marcas No filme Amor por contra- to, uma família se muda para um bairro de classe social alta e aparenta ser a família perfeita. Em pouco tempo, eles come- çam a ser imitados pelos vizinhos, que querem usar os mesmos produ- tos e se portar de modo semelhante. Porém, eles não são uma família de verdade, e sim parte de um experimento de marketing: cada produto que usam, cada atividade que fazem são projetadas e desenvolvidas para gerar desejo e influenciar os vizinhos a comprar. O filme mostra como as pessoas são facilmente influenciáveis e como o consumo tem um papel simbólico na sociedade de consumo. Direção: Derrick Borte. EUA: Premiere Picture; Echo Lake Productions, 2009. Filme melita s/Shutterstock 30 Comportamento do consumidor Considere três pessoas que compartilham algumas características. Todos são jovens, com cerca de 25 anos, com formação universitária, com nível de renda semelhante. Entretanto, apresentam algumas caracte- rísticas diferentes. Quanto ao ciclo de vida, o primeiro indivíduo já é casado e tem um filho de 1 ano de idade. Os outros dois indivíduos são solteiros. O segundo indivíduo foi criado em uma família de classe social alta e sua família tem diversas residências em cidades turísticas, tanto na praia quanto no campo. Ainda, cul- tiva hábitos refinados, como a alta gastronomia e a participação em eventos culturais, como teatro, orquestras e museus. Já o terceiro desenvolveu o gos- to pela vida simples, gosta de acampar e segue a filosofia do minimalismo, que defende a posse de poucos bens e a vida simples. Gosta também de se alimentar de modo saudável e pratica exercícios. Como é possível observar, os três indivíduos apresentam estilos de vida bastante diferentes, que refletirão em seu comportamento de consumo. Enquanto o primeiro indivíduo provavelmente comprará muitos produtos e serviços relacionados ao filho, o segundo prova- velmente tem um comportamento de compra mais voltado ao consumo de experiências e de produtos de luxo. Por fim, o terceiro indivíduo provavelmente apresenta um baixo nível de consumo e direciona suas escolhas pelo im- pacto de seu consumo sobre o meio ambiente e a sociedade. ar ty wa y/ Sh ut te rs to ck ES B Pr of es si on al /S hu tte rs to ck Exemplo O exemplo mostra que a compreensão dos padrões de consumo deve levar em consideração as motivações, os desejos e as necessidades da pessoa, que é influenciada tanto por fatores internos quanto externos, pois o comportamento de consumo, que se inicia internamente, reflete o ambiente social e cultural no qual o indivíduo está inserido. O consumidor também sofre influências externas, que são delibe- radamente criadas pela publicidade e pela propaganda, com o objetivo de convencer o indivíduo a comprar cada vez mais, mesmo que não tenha a necessidade. Nesse contexto, o marketing das empresas tem o papel de criar desejos e, por meio de uma comunicação direcionada e massiva, convencer o consumidor a comprar. Tanto a abordagem cognitiva quanto a comportamental possibi- litam o entendimento de fatores importantes do comportamento do consumidor. A empresa, ao definir suas estratégias de marketing, Evolução do comportamento do consumidor 31 precisa levar em consideração tanto a influência de fatores internos – personalidade, crenças, valores e processos cognitivos do consumi- dor – quanto a forma como os fatores externos podem impactar as decisões de consumo. Alguns desses fatores externos estão sob o controle da empresa, como as características de seus produtos e serviços, sua comunicação, a construção de uma marca e o relacionamento que estabelece com seus clientes. Outros fatores (questão sociais, comportamentais, tec- nológicas, políticas, econômicas etc.) não podem ser controlados pela empresa, mas precisam ser compreendidos e usados para direcionar as estratégias adotadas. CONSIDERAÇÕES FINAIS Mais do que a simples troca econômica de produtos e serviços por va- lores econômicos, o consumo desempenha um papel central na socieda- de contemporânea e na vida das pessoas. O comportamento de compra dos consumidores, sejam eles pessoas, sejam empresas, são influencia- dos tanto por fatores internos (como questões pessoais e psicológicas) quanto por fatores externos, relacionados a questões sociais, tecnológi- cas, políticas,econômicas e culturais. O entendimento dos diversos con- ceitos e áreas de conhecimento que buscam explicar o comportamento do consumidor é cada vez mais importante, em um mundo que passa por transformações profundas em suas formas de organização da socieda- de e na forma como as empresas produzem, distribuem e comercializam seus produtos e serviços. ATIVIDADES Atividade 1 Com base no conceito da pirâmide das necessidades humanas, avalie as duas situações a seguir e classifique o tipo de necessida- de que o indivíduo busca atender com suas decisões de consumo. Após trabalhar durante toda a parte da manhã, uma pessoa busca um restaurante para almoçar. Após analisar algumas opções, esco- lhe um restaurante mais barato, mas que parece ter uma comida saborosa. Explique a necessidade que ela busca atender. Ao final do dia de trabalho, essa mesma pessoa é convidada pelo grupo de colegas de trabalho a ir até um restaurante próximo para fazer uma pequena confraternização. Mesmo não estando com fome, a pessoa decide ir ao encontro. Explique a necessidade que ela busca atender. 32 Comportamento do consumidor Atividade 2 Analise a situação a seguir. Após ver determinada propaganda sobre um novo telefone celular, uma pessoa pergunta a um amigo, que já comprou o aparelho, como tem sido a experiência. O amigo faz uma boa avaliação do produto, mas mesmo assim a pessoa continua em dúvida. Por isso, assiste a al- guns vídeos em um canal que faz avaliações de aparelhos eletrônicos. Então, a pessoa resolve adquirir o produto, mas como está atarefado, pede a seu filho para pesquisar sobre as melhores opções de preços e formas de pagamento e compre o produto. Agora, identifique os papéis que cada um dos indivíduos desempe- nha nesse processo de compra. Atividade 3 Explique o que é o valor simbólico de um bem. REFERÊNCIAS ARAÚJO, F. F.; TURANO, L. M.; VIEIRA, F. C. Subculturas religiosas de consumo: um estudo etnográfico de jovens católicos nas práticas dos exercícios espirituais. Consumer Behavior Review, v. 3, n. 2, p. 99-119, 2019. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/cbr/ article/download/242030/33872. Acesso em: 1º dez. 2021. BAUMAN, Z. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. BLACKWELL, R. D.; MINIARD, P. 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