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14 AT UA LI DA D ES D O M ER CA D O F IN AN CE IR O cartões, os estabelecimentos afiliados, as bandeiras (Visa, Mastercard etc.) e as instituições financeiras. Eventual- mente, para, entre outras razões, contornar as dificuldades legais e fiscais envolvidas na cobrança das taxas de juros do parcelamento das vendas a prazo através do cartão, as administradoras estão se transformando em instituições financeiras (...). (Ressaltou-se) Ainda, são oportunas as lições do professor Alcio Ma- noel de Sousa Figueiredo: Da interpretação conjunta dos arts. 17 e 18, da Lei 4.595/1964, art. 1º da Lei 7.492/1986, somente são con- sideradas instituições financeiras as empresas públicas ou privadas que efetuem captação de recursos financeiros em moeda corrente, o que não ocorre no contrato de cartão de crédito entre a administradora e o consumidor, haja vis- ta que a relação jurídica entre consumidor e emissora do cartão de crédito consiste na prestação de serviços, para a aquisição de produtos e serviços no mercado de consumo. (...) Da simples análise das operações econômicas entre a emissora do cartão de crédito e o titular do cartão (consu- midor), não se verifica qualquer atividade de captação ou intermediação de recursos no mercado financeiro. A busca de recursos para o pagamento das notas de compras em poder dos fornecedores credenciados não possui qualquer relação jurídica com o contrato de adesão e prestação de serviços que originou as notas de compras efetuadas pelo consumidor (...). Convém destacar, ademais, que os ensinamentos doutrinários de Waldirio Bulgarelli corroboram a argu- mentação aqui desenvolvida, porquanto evidenciam que o cartão de crédito envolve um complexo de operações e que a ora denominada administradora em sentido estri- to, quando atua como mandatária de seus clientes, firma, em nome deles, contratos de abertura de crédito com instituições financeiras. Assim, afirma o autor que “o cartão de crédito é um negócio jurídico complexo, verdadeira ‘operação polifa- cética”, que envolve contrato de adesão entre o titular por si, ou pela sociedade emissora como sua mandatária, e a instituição financeira, um contrato de abertura de crédito (ou de financiamento em geral, quais sejam as condições, como por exemplo o chamado credit revolving); (...). Desta forma, é difícil de aceitar o papel da sociedade emissora, senão como um providencial intermediário em favor do fornecedor e da instituição financeira. No trecho, o doutrinador não diz que a emissora rea- liza intermediação financeira; apenas menciona que ela faz (mera) intermediação de operação, que beneficia a instituição financeira (pessoa jurídica distinta). Em outra passagem da mesma obra, ele deixa clara a distinção en- tre a sociedade emissora do cartão (em sentido estrito) e a instituição financeira, verbis: A sociedade emite o cartão em favor do titular, que dele poderá utilizar-se junto à rede de fornecedores, presa por um contrato com a sociedade emissora; o titular auto- riza ainda a sociedade emissora a contrair financiamento com os bancos, em seu nome, o que lhe permitirá saldar as contas, em prazo e condições determinados pelos mesmos bancos. (Ressaltou-se) No mesmo sentido, Waldo Fazzio Júnior esclarece que “a diferença entre os cartões de crédito bancários e não bancários reside na natureza da instituição emissora” e que a distinção adquire relevância quando se contemplam as relações entre usuários e as sociedades administradoras de cartões. Quando a empresa emissora do cartão não é uma instituição bancária, e em caso de parcelamento do saldo devedor pelo usuário, o contrato já contém estipu- lação autorizando à administradora valer-se da cláusula- -mandato. (Ressaltou-se) Saliente-se que o Superior Tribunal de Justiça, em vários julgados, reconhece a distinção entre as ativida- des desempenhadas por administradoras de cartões de crédito em sentido estrito e aquelas desenvolvidas por instituições financeiras. Nessa linha, cumpre trazer à baila trechos do voto condutor do acórdão prolatado no julgamento do Recurso Especial nº 473.627/RS, em que se discutiu a viabilidade de ajuizamento de ação de prestação de contas com o ob- jetivo de verificar a exatidão e a legitimidade dos valores cobrados por administradora de cartão de crédito: (...) Os contratos que disciplinam o financiamento parcial das compras do consumidor através de cartão de crédito contêm cláusula segundo a qual a administradora deverá obter, no mercado financeiro, recursos para o par- celamento das compras, o que faz em nome do consumi- dor, como sua procuradora. (...) A natureza jurídica desta cláusula é a de contrato (acessório) de mandato, inserido no contrato (principal) de cartão de crédito firmado entre recorrente e recorrida. Por meio desse mandato, a administradora de cartões de crédito é constituída mandatária para praticar ato no inte- resse do titular do cartão de crédito, qual seja, o de saldar o seu débito no vencimento com recursos captados em seu nome. (...) Ademais, não é crível que a administradora não consi- ga comprovar o valor das despesas efetuadas junto a insti- tuições financeiras e que são repassadas ao titular, depois de serem somadas à remuneração cobrada por ela, a título de custo de financiamento e demais encargos, se os res- pectivos débitos são lançados à conta do usuário do cartão em valor determinado pela própria administradora. Des- tarte, o interesse do mandante é patente, haja vista que, segundo jurisprudência do STJ, esse “tem o direito de saber como a mandatária está cumprindo com a sua obrigação, que deve ser a de preservar o interesse da mandante e ce- lebrar contratos mais favoráveis à pessoa que representa.” (RESP 457.391/RS, Rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar, DJ de 16.12.2002). Cumpre salientar que o art. 1º, § 1º, inciso VI, da Lei Complementar nº 105/01 não justifica a classificação das administradoras de cartões de crédito como instituições financeiras, porquanto nesse dispositivo está dito, de for- ma peremptória, que aquelas empresas são consideradas instituições financeiras tão somente para os efeitos da referida Lei Complementar. É o que demonstra o pro- nunciamento do saudoso Min. Carlos Alberto Menezes Direito no julgamento do Recurso Especial nº 466.784/RS (Terceira Turma, DJ de 25/8/2003), in verbis: Entendo, tal e qual o Acórdão recorrido, que as admi- nistradoras de cartão de crédito não são instituições fi- nanceiras, como destaquei em voto no REsp nº 399.353/ RS, antes mencionado, pedindo vênia para reproduzir o trecho que se segue, verbis: