Logo Passei Direto
Buscar
Material

Prévia do material em texto

Copyright 2018 by Kálamos Editora
Todos os direitos para esta edição à Kálamos Editora
Capa, Edição, Diagramação e Produção:
Kálamos Editora
Gerência Executiva: Kevin Fernandes
Revisão: Debora Larissa Rempel
Belo Horizonte: Kálamos Editora, 2018
1.Teologia  2.Evangelho  3.Eclesiologia 4. Literatura
Brasileira 5. Livros Eletrônicos
 
Reservados todos os direitos autorais desta produção.
Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida por fotocópia,
microfilme, processo fotomecânico ou eletrônico sem a permissão
expressa da Editora e do autor.
Todas as citações bíblicas foram extraídas da ACF 2007 (Almeida
Corrigida e Fiel) publicada pela S.B.T.B. (Sociedade Bíblica Trinitariana
do Brasil)
 
www.kalamoseditora.com                 
kalamoseditora@gmail.com
http://www.kalamoseditora.com/
mailto:kalamoseditora@gmail.com
Publicado no Brasil
2018
 
 
 
 
 
A DISTRAÇÃO
DO PECADO
 
 
 
Um estudo sobre a igreja, com base
na Carta de Judas
Jorge F. Isah
 
Sumário
AGRADECIMENTOS
PRÓLOGO
INTRODUÇÃO
Preâmbulo
Autoria, data e destinatários
Conteúdo e Propósito
PARTE UM
SAUDAÇÃO
Servir Como o Senhor
A Santidade Outorgada
O Amor Que Preserva
PARTE DOIS
DEFESA DA FÉ
Exortação Necessária
Fé Regenerada
A Fé dos Incrédulos Contra a Verdadeira Fé
PARTE TRÊS
LOBOS ENTRE OVELHAS
A Guerra Dentro Da Igreja
Mais do que uma predestinação vislumbrada
PARTE QUATRO
A SEMENTE DA DISTRAÇÃO
A Centralidade da Igreja: Cristo
Incredulidade do Crente
A Distração do Pecado
Abandonando o Serviço
PARTE CINCO
A POMPA DO TRAIDOR
O Nexo da Impiedade
A Realidade do Pecado
A Disputa pelo Corpo
A Arma dos Ignorantes
PARTE SEIS
TRÊS MESTRES FALSOS
Inércia Espiritual
No Caminho de Caim
A Recompensa de Balaão
A Incoerência de Coré
PARTE SETE
A INFECÇÃO DO CORPO
O Labirinto do Eterno Cativeiro
Na Roda dos Escarnecedores
O Silêncio Mórbido das Sepulturas Tangíveis
Proselitismo das Trevas
PARTE OITO
A JUSTIÇA INQUIETANTE
A Parousia de Enoque
Princípio Geral da Revelação
“Argumentum ad Divinum Enrustidus”
O Suicídio Espiritual
PARTE NOVE
A MARCA DA MALDADE
Dr. Jekyll e Mr. Hyde
Novos e Velhos Fariseus
Tempos Difíceis
PARTE DEZ
NÃO À AUTOFILIA
Servos Inúteis
A Obra de Deus na Santificação
O Funeral do Homem Natural
Autofilia
Soldados na Guerra Virtuosa
PARTE ONZE
PRESERVADOS EM CRISTO
Feitos à Imagem do Filho
A Restauração Prometida
Graça Comum: o vento que não sopra
Dele, e por Ele, e para Ele
Aos meus pais,
Waldemar e Terezinha,
aos quais tudo devo, conforme a providência
santa e amorosa de Deus
AGRADECIMENTOS
Não seria justo deixar de agradecer a algumas pessoas
que foram de suma importância para a conclusão deste
livro:
Ao Tiago Knox, tutor do site “Internautas Cristãos”, e
amigo de longa data, a quem sou grato pelo constante
estímulo, sempre me impulsionando ao aperfeiçoamento da
escrita, seja com críticas oportunas ou desafios necessários
para o amadurecimento e a divulgação dos meus textos.
Ao João Weronka, tutor do site “NAPEC – Apologética
Cristã”, a quem tenho o prazer da amizade, que mui
generosamente tem publicado e distribuído vários dos meus
textos.
A Debora Larissa Reimpel, a quem sou grato pela
dedicação, profissionalismo e gentileza (não nesta ordem,
necessariamente) em revisar e contribuir para a melhoria
do texto através de sugestões pontuais e necessárias.
Ao Raul Loyola Roman, cujo interesse em meus textos
tem-no levado a traduzi-los e publicá-los em espanhol.
Ao Ranieri Menezes, cujas dicas preciosas e pacientes me
ajudaram a compor a parte gráfica do livro.
A eles, o meu muito obrigado! Sou-lhes devedor.
Cristo os abençoe!
PRÓLOGO
O embrião para a realização deste livro foram as aulas
ministradas na Escola Dominical do Tabernáculo Batista
Bíblico, e, durante quase um ano, analisamos cada um dos
versos da carta de Judas, sobre os quais nos debruçamos e
meditamos com o objetivo de nos dobrarmos à verdade de
suas poucas páginas. No princípio, inadvertidamente,
cogitei uma análise em quatro ou seis aulas, no máximo,
mas a riqueza e a profundidade do texto levaram-nos a
dispender oito vezes mais o prazo inicialmente estimado.
Em uma série de estudos, fomos impulsionados a
compreender a gravidade do momento vivido pela igreja de
Cristo à época do epistológrafo, crise pela qual a igreja
passa, na atualidade, em proporções talvez maiores, já que
grande parte dos inimigos de Cristo encontram-se dentro
dela, como o joio aguardando para ser arrancado. Os
exemplos bíblicos servem-nos como alerta, exortação e
repreensão, para rechaçarmos os constantes ataques
inimigos, não nos entregando às suas artimanhas açuladas,
preservando a sã doutrina, o temor e reverência a Deus,
apegando-nos à verdade, repelindo a incitação desonesta à
rebeldia, à contemporização com o pecado e ao cultivo do
mal.
Portanto não espere um livro onde você se perderá em
meio as dúvidas; não escrevi nada novo, mas repeti o que a
igreja tem defendido por séculos; não espere afagos e
adulações, porque Judas, como emissário de Cristo, exortou
a igreja com asserção, como prova do verdadeiro amor,
límpido e vigoroso, não dando lugar à lisonja interesseira;
levando incautos a confundir o bem com o mal, o certo e o
errado, descristianizando mentes e corações para depois
abandoná-los na miséria absoluta, levando-os ao servilismo
e penúria da alma, aprisionada nas correntes diabólicas.
Pelo contrário, este livro é cristocêntrico, não trata de um
Deus genérico, impessoal e distante do homem, mas do
Deus encarnado, pessoal, cuja honra e glória satisfaz mais
ao Pai e ao Espírito, as demais pessoas da Trindade, do que
o louvor dispensado a elas mesmas.
Não espere, também, um discurso liberal, heterodoxo,
antropocêntrico, no qual o homem é a “estrela”, enquanto
Cristo é um mero coadjuvante, um nome a agregar
distração. Se nada for aproveitado nesta obra, oro para que
ao menos o leitor compreenda a excelência de Cristo, sua
sublime majestade, completa divindade, completa
humanidade, esplendor e glória, num grau de superioridade
mais que elevada, somente possível para quem, como ele,
compartilha a deidade
em unidade com o Pai e o Espírito Santo; isto é chamado
de Cristocentrismo[1]. Se nada mais ficar, que fique isso; do
contrário, este livro não terá significado, nem propósito.
Não espere nada bombástico, original, em uma busca
doentia pelo ineditismo, o qual leva muitos autores e livros
para além do limite permitido pela sã doutrina, cruzando
perigosamente a linha divisória entre o santo e o profano,
entre o bíblico e o pagão, entre o louvável e o desprezível.
Não tive a menor pretensão de ser inovador, mas de apenas
ordenar as ideias e tudo apreendido em minha caminhada
com os santos, a fim de, através de Judas, alertar a igreja
quanto às várias investidas dos inimigos no intento de
solapar, de tornar ineficiente a igreja, fazendo-a um
apêndice mais higiênico da podridão mundana; controlando-
a com suas acusações, inverdades e coerção, num esquema
de manipulação visando a fazê-la um arremedo de si
mesma e de secularizá-la a todo custo e sob todos os
aspectos da (des)ordenação da civilização moderna. Em um
século controlado pela ideologia e pelo combate à verdade;
onde o anticristianismo é a faceta mais perversa e injusta
da capitulação do bem.
Tentei escrever de forma simples, sem rebuscar ou
empreender um trabalho hermético, sem qualquer
pretensão de construir uma obra acadêmica, mas de
disponibilizar a qualquer um o texto com vistas a edificar e
exortar a igreja, muitas vezes perdida entre o secularismo
institucionalizado e um apego a uma tradição mais formal
que espiritual, mais moralista que moral, mais centrada nas
concepções humanas do que na verdade, na essência da fé,
o próprio Deus. Busquei passar uma imagem clara daquilo
que me propus a fazer, mesmo que, em alguns momentos,
não tenha a convicção de tê-lo alcançado, no que espero
contar com a compreensãoSeguindo este pensamento, existe uma
lista de expressões tão fúteis quanto incoerentes, quanto
mentirosas, culminando no sentido de que se é possível
caminhar em amor com alguém que transita no erro sem
apontar-lhe o erro, ou pior, fazendo “vista grossa” ao
engano, como se ele não existisse ou fosse irrelevante, de
forma que o arrependimento não seja uma necessidade,
mas uma opção. Afinal, como os lábios de muitos
proclamam, onde o pecado é proficiente, abunda a graça (a
velha heresia antinominiana[23]).
O amor, por si só, é inclusivo. Posso amar uma pessoa
ainda que ela não me ame e posso ser amado por alguém
sem que eu o ame. Porém, a verdade é exclusiva, porque
não se juntará ao erro ou engano, mas o revelará, a expor-
lhe o falso caminho. Por isso, Satanás se empenhou em
destruir a verdade no coração do homem. Desde o Éden, o
seu trabalho incessante é com o objetivo de desqualificar,
relativizar e descontextualizar a verdade, a ponto de ela ser
desfigurada, descaracterizada e, por fim, anulada como um
princípio espiritual, racional e moral, sendo removida e
substituída pela carnalidade, a irracionalidade e pela má-fé
ardilosamente tramada. Logo o mundo não quer saber de
absoluto, nem de verdade, pois, onde ela estiver, a fraude
ficará evidenciada, será denunciada e desmascarada,
enquanto a mentira se torna a opção mais servil, favorável
e multifacetária aos intentos do seu autor.
Biblicamente o que é o amor?... Segundo Paulo:
“O amor seja não fingido. Aborrecei o mal e apegai-vos
ao bem. Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor
fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros” (Rm
12.9-10) ... "O amor... não folga com a injustiça, mas folga
com a verdade” (1Co 13.6).
Segundo Cristo:
“Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem
ao Pai, senão por mim.(...) Aquele que tem os meus
mandamentos e os guarda esse é o que me ama (...)” (Jo
14.6, 21).
Segundo João:
“O amor é este: que andemos segundo os seus
mandamentos. Este é o mandamento, como já desde o
princípio ouvistes, que andeis nele" (2 Jo 1.6).
Antes de definir o amor como os dicionários fazem, a
Bíblia revela-o na manifestação dos atos divinos. Mais do
que explicar, ela o demonstra. Mais do que classificá-lo, ela
o exprimiu, não somente por palavras, mas por atitudes. Em
vez de ser um simples postulado, ela o comprova
factualmente, sendo a prova maior que Deus entregou o seu
Filho Amado por amor dos eleitos. Da mesma forma, a vida
cristã não se resume a um emaranhado de teorias
desconectadas da realidade, estando voltada para a prática
muito mais do que para as especulações. Não que a teoria
ou doutrina sejam irrelevantes, não é isto. Sem uma base
doutrinária sólida e biblicamente fundamentada, a vida
cristã se revestirá de múltiplos subjetivismos e qualquer um
fará o que lhe der “na telha”, segundo aquilo que julgar
melhor. Mas esse julgamento em nada terá a ver com a
verdade, logo, não é objetivo, nem santo, nem justo, pois
não procede de Deus. A verdade não admite metades, nem
tons cinzas, nem possibilidades, nem pode ser amoldada ou
ter a sua ordem transigida. Como disse várias vezes, em
outros escritos, conversas e discussões, não há muros onde
subir e no qual se encontre a verdade. Ela é única,
monopolizadora, polarizadora, opondo-se e suprimindo toda
a mentira.
Cristo é a verdade, “e conhecereis a verdade, e a
verdade vos libertará” (Jo 8.32) de todo engano, do pecado,
que é a mentira impossível de alguém poder, de alguma
forma, opor-se a Deus impunemente, de que a
desobediência não será castigada, de que pouco importa a
maneira como Deus é servido, desde que a pessoa o faça
piedosamente, ainda que essa piedade signifique um erro
em si mesma, quando ela se disfarça de devoção, cujos fins,
porém, ainda que aparentemente bíblicos, não são
justificados nem se enquadram nos padrões determinados
pelo próprio Deus.
Há uma expressão, “pia fraude”, que indica exatamente
uma mentira ou engano para um fim piedoso. Portanto, o
padrão de obediência a Deus não está na piedade, mas na
verdade que levará à piedade. Qualquer forma de amor será
vazia se não estiver firmada na verdade. Posso dizer que
amo uma pessoa vendo-a caminhar seguramente para o
inferno, sem admoestá-la quanto ao caminho que a levará
para a condenação? Posso dizer que a amo e ainda assim
não me sentir incomodado por seus pecados, nem sua
atitude contrária à vontade divina? Isso sempre indicará que
não estou na verdade, nem ela em mim, pois, se estivesse,
não me conformaria com a hipótese de alguém afrontar
deliberadamente a santidade divina com a sua dissolução.
Se não me importo com o pecado alheio, não no sentido de
ser um guardião ou vigia do próximo, como uma espécie de
zelador da moral) é bem provável que também não me
importe com o pecado, nem com o Deus que abomina o
pecado e o pecador, e, quiçá, não me abalam nem mesmo
os meus próprios pecados. Então, o pseudoamor não
passará de um artifício para justificar a omissão e o conluio
com o pecado alheio (o que significa pecar em conjunto com
o outro pecador), sendo que o crente condescendente não
passará de um traidor, um escândalo para tudo o que é
categoricamente santo. O amor implicará no desejo de ver
as pessoas andarem na verdade, amando-as, arrependendo-
se dos próprios pecados, odiando-os com o que há de mais
puro em seu íntimo, assim como Cristo (Hb 1.9),
reconciliando-se e tendo comunhão íntima com o Espírito de
Deus.
Tentar justificar qualquer atitude ou postura com base
naquilo que não é bíblico é uma tentativa de sustentá-lo
através do engano. A mente humana é prodigiosa em se
autovalidar e o que muitos de nós têm feito é exatamente
isso, dar chancela a algo que não procede da vontade de
Deus, mas unicamente tem por significado nos justificar
diante de nós mesmos e, de certa forma, diante da Igreja e
de Deus. Usar o argumento de que tal procedimento não
está proibido expressamente na Escritura não quer dizer
que ele seja autorizado. Nós ainda não nos acostumamos
completamente com a subserviência, o sujeitar-se ao nosso
Senhor, e queremos propagar uma liberdade que não
temos. Onde está escrito que o escravo tem alguma
liberdade? Cristo nos comprou com o seu sangue para nos
libertar do pecado e da maldição do inferno, para
habitarmos o seu Reino de glória e para que tivéssemos
uma íntima comunhão com ele. No entanto, em momento
algum ouve-se ou lê que temos liberdade para fazer isso ou
aquilo à revelia da Escritura. Iremos respeitar seus
ensinamentos, a menos que não a consideremos nossa
regra de fé e vida; a menos que a desprezemos, não a
julgando como a fidedigna palavra de Deus; a menos que
falemos da boca para fora, porque não recebemos o amor
da verdade para a salvação (2Ts 2.10); a menos que o nosso
coração esteja tão arraigado às coisas do mundo que a
melhor das atitudes é a negligência e a desobediência.
Seria isso uma prova de amor ou de desamor? Não seria o
mesmo que buscar justiça na injustiça? Cristo em Belial?
Fidelidade na infidelidade? Deus entre os ídolos? (2Co 6.14-
16). Ou, para ser mais claro ainda, verdade na mentira?
Contudo, conforme Tiago 1.16-18, fomos gerados pela
palavra da verdade, para não errarmos; porque “toda a boa
dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai
das luzes, em quem não há mudança nem sombra de
variação” (v. 17).
Entretanto, julgamos que Deus é mutável, e se é, não se
importará em que alteremos um pouquinho aqui e acolá o
que nos revelou expressamente, ou mesmo aquilo que está
implícito, mas que pode ser entendido como a sua
manifesta vontade. Algo definitivamente reprovável é
quando se quer adaptar a Escritura, o padrão máximo e
perfeito da vontade divina, ao padrão mínimo e sedicioso da
vontade humana. Em nome das possíveis brechas que
acreditam haver na Bíblia (outra corrupção de suas
mentes), querem preencher as supostas lacunas com o que
de mais desonesto e mesquinho podem gerar.
E gritama plenos pulmões: “Amor! Amor! Amor!”[24],
como um mantra, uma senha a revelar-lhes o tesouro
oculto, enquanto o verdadeiro amor será manifestado na
obediência a quem se ama, na forma em que o serve, em
como se sujeitará e o honrará. Palavras como edificar,
crescer, santificar e glorificar, só significarão alguma coisa
se estiverem em acordo com a obediência, não uma mera
convicção mental de ser a coisa certa a se fazer, mas a
atitude de, regaçando as mangas, fazê-lo. Sem a
obediência, ou seja, um profundo desejo de se render por
completo a Cristo, não importa quantas vezes se repita a
palavra “amor”, serão apenas expressões “ao léu” que, de
fato, nada representam, não têm sentido, nem penetraram
as profundezas da alma.
Sem o menor pudor, de uma forma maligna, tem-se
abandonado qualquer disposição de obediência à Palavra,
denunciando o desprezo, envolvendo muitos em uma falácia
espiritual que se camufla como amorosa, piedosa, e se
afirma mentirosamente verdadeira, quando há muito se tem
especializado no mais sórdido padrão de desobediência, ao
passo que a verdade[25] tornou-se um mero e irrelevante
detalhe, onde dizem os modernos antiortodoxos, a única
coisa valiosa é o amor; mas não seria essa uma forma dos
homens deterem a verdade pela injustiça? (Rm 1.18).
Infelizmente, vivemos em um mundo de sensações,
numa busca desesperada pela exaltação dos sentidos e dos
prazeres, esquecendo-nos de que não há infalibilidade
neles, e, como todo o nosso ser, estão sujeitos e
contaminados pelo pecado. Há uma ideia erroneamente
difundida de que tão somente os sentidos seriam a verdade,
e qualquer coisa, por mais estúpida e bizarra, acabaria
revestida da áurea de sabedoria e santidade, quando não
passam, em sua maioria, de demonstrações, movimentos
espasmódicos, daquilo que somos: homens e mulheres
caídos e separados de Deus. Há de se ter muito cuidado,
prudência, para não se fazer do sensacionalismo uma
doutrina e, mais do que isso, uma prática testada e
comprovada de que a experimentação sensorial é a
consciência única do próprio Espírito de Deus na vida dos
cristãos. Isto é misticismo, paganismo; da mesma forma que
arrepios, soluços e lágrimas não provam o amor, porém, o
sacrifício, este sim, prova-o. (E quem se sacrificou mais para
demonstrá-lo do que Cristo?)
O salmista escreveu:
“A tua palavra é a verdade desde o princípio, e cada um
dos teus juízos dura para sempre... A tua palavra é muito
pura, portanto, o teu servo a ama” (Sl 119.160, 140).
O amor, como Paulo diz, é o maior de todos os dons. Usá-
lo como escudo para a desobediência, além de desamor e
hipocrisia, é pecado. O amor verdadeiro não é inimigo da
verdade, nem a verdade inimiga do amor. Eles se
complementam; são manifestados na obediência a quem se
ama, na forma em que o serve, em como se sujeitará e o
honrará. Palavras como edificar, crescer, santificar e
glorificar são indissociáveis, não andam separadas. Quem
espera ou acredita na desagregação entre o amor e a
verdade é o crédulo no impossível: crer que o Evangelho é
uma farsa!
Porém, aquele que está na verdade não teme nem
precisa temer o amor, porque o amor perfeito lança fora
todo o temor (1Jo 4.18); “de sorte que o cumprimento da lei
é o amor” (Rm 13.10).
PARTE DOIS
DEFESA DA FÉ
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
"Amados,
procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca
da
salvação comum, tive por necessidade escrever-vos,
e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos
santos".
Exortação Necessária
Agora entramos propriamente no motivo principal da
epístola, na qual Judas, chamando-nos de amados, disse
que procurou escrevê-la com toda a diligência, no sentido
de que foi compelido, sob as ordens superiores de Cristo, a
redigir essa carta, como uma necessidade da qual não
poderia esquivar-se nem prescindir, acrescentando que o
faria com aplicação, com o zelo que as coisas urgentes
merecem.
Mas, qual é a sua urgência?
Antes de responder à questão, há um significado especial
na expressão “amados”, pois, como disse anteriormente, o
amor é confundido muitas vezes com aceitação e
concordância, ou algum tipo de inclusão, na qual a pessoa
sente-se amada por participar de um círculo ou grupo, de
estar inserida em algo, seja um clube, uma confraria, uma
igreja, uma mesa de jogos, qualquer ambiente onde se
integre; neste sentido, amar seria reconhecer na outra
pessoa as virtudes ou vícios que as tornam familiares,
pertencentes a uma mesma classe de pessoas com desejos,
ambições ou práticas comuns, nas quais se agradam. Pode-
se amar aquela pessoa, mas, no geral, esse amor será uma
representação de si mesmo, ao ver-se no outro, implicando
em um tipo de autoamor durável enquanto as similaridades,
os pontos em comum, permanecerem harmônicos, podendo
mesmo chegar ao ódio e a aversão completa, caso os
pontos de interseção diminuam e as discrepâncias
aumentem. Amar uma pessoa seria também chancelar seu
caráter, suas decisões, atitudes e imperfeições, como algo
inerente à sua índole, assim como o são as suas virtudes.
Contudo, isso está equivocado, uma vez que o amor não
pressupõe necessariamente a corroboração da pessoa, no
sentido de se amar validando o comportamento ou atitudes.
Quando alguém diz: “Quem me ama, ama assim como
sou!”, parece estar proferindo uma máxima acomodada ao
senso comum e que, via de regra, tenta glamurizar os erros
e enganos, fazendo-os parecer dignos e enlevados, de tal
modo que, como parte da essência humana, devem ser
vistos em pé de igualdade com tudo aquilo desejável e
correto. De fato, colocando o amor numa perspectiva divina,
vemos que Deus, ao olhar para nós, não viu senão pecado e
depravação, inimizade e afronta, porém, mesmo assim, nos
amou, amou à perfeição. Por isso, como prova desse amor,
resgatou-nos pelo sangue de Cristo, para que um dia
sejamos como ele, perfeito, virtuoso, imaculado. Deus nos
amou na eternidade, vendo, ao mesmo tempo, o que fomos,
somos e seremos; vendo o seu trabalho produzir homens e
mulheres santos, abandonando-se a si mesmos para
assumirem o bem de que não dispunham, como uma dádiva
oferecida e conquistada na perfeição do amor divino e
recebida em gratidão.
A pós-modernidade[26] assegura uma moral variável,
adaptável e transigível garantida pelo foro íntimo, onde
nada é absoluto, onde “verdades” contradizentes e opostas
transitam livremente no mesmo ambiente, sem o juízo
moral, sem a lógica, sem regras definidas além da falaciosa
e incoerente afirmativa pós-moderna: a de não haver
verdade! Nesse conjunto sofístico, tudo pode ser verdade,
tudo pode ser mentira, tudo pode ser certo e tudo pode ser
errado; tudo pode ser tudo e pode ser nada ao mesmo
tempo. O simples fato de se afirmar qualquer uma destas
proposições, em si mesmo, torna-a um engodo,
autocontestável em suas primícias, cuja aparente sabedoria
encerra, em seu cerne, a asserção de se saber falsa,
camuflada por rebuscamento, afetação e uma técnica
deformada, onde o seu encanto está exatamente na sua
incompreensibilidade, na sua incoerência, e na ardilosa
capacidade de iludir.
Esse equívoco também está presente em boa parte da
igreja contemporânea, absorvido sutilmente pelos
movimentos liberais, antinomistas e ecumênicos[27].
Sobrepuseram essa moral aos fundamentos bíblicos e
eclesiásticos a ponto de o amar estar alijado da exortação,
repreensão ou correção, tornando-se uma prática farisaica,
anticristã, opressora e ditatorial quando não for
completamente transigente, inclusive com os pecados e
equívocos. Ninguém tem nada a ver com a vida do outro,
então, recusa-se qualquer tentativa, por menor que seja, de
levá-lo à consciência e ao convencimento do pecado, ao
arrependimento, à restauração e a retomar os princípios
verdadeiramente bíblicos, cujos ensinamentos
prevaleceram por séculos em toda a igreja (apesar de os
hereges, esporadicamente, mas não menos
insistentemente, obstarem a sã doutrina). Desta forma,o
zelo e o amor com o Corpo de Cristo foram obliterados
violentamente nos últimos séculos pelos inimigos da fé,
utilizando-se da falsa piedade e amor para lançarem os
incautos em um lamaçal de dúvidas onde a única certeza
será a complacência divina ante a criatura obstinadamente
rebelde e confusa, independente e autossuficiente em si
mesma, sem necessitar do conselho, exortação e auxílio na
cura da sua alma enfermiça.
Aos olhos do cristão pós-moderno ou liberal, a leitura da
carta de Judas, (cujo amor verdadeiro levou-o a admoestar,
conclamar, alertar e corrigir a igreja contra os falsos
ensinamentos, os falsos mestres, a apostasia e o engodo),
torna-se por demais estranha e somente será justificada em
um ambiente primitivo, como à época em que foi escrita.
Esse cristão enxergará nela uma forma de se discutir a
questão naqueles tempos, mas nunca hoje, visto haver uma
lacuna de milênios entre as duas culturas. Novamente a
“modernidade” apelará para uma compreensão primária do
homem, na concepção de Judas, e de que, se tivesse vivido
em nossos dias, certamente não escreveria a sua carta
como a escreveu, nos moldes em que a escreveu. No
entanto, o erro está em considerar a alma do homem
primitivo inferior ou desigual em relação ao homem
moderno, como se os desejos, pecados e a inimizade com
Deus fossem uma prerrogativa exclusiva daquele tempo e
não estivessem ainda mais arraigadas na consciência e no
íntimo da humanidade em nossos dias. Se analisarmos
detidamente as práticas antiquadas com as atuais,
constataremos uma piora significativa na atividade do
homem moderno, não apenas na inferioridade e crueldade
mais evidentes, mas também em maquinar, bárbara e
insanamente, os pecados mais hediondos como se fossem
algo natural e do qual a humanidade não pode se esquivar.
Práticas defendidas no ambiente secular, mas que
ganharam a aprovação também no ambiente eclesiástico,
como o aborto, a pedofilia, o homossexualismo, o adultério,
divórcio, entre outras, ganham a cada dia a aprovação de
um número maior de pessoas seduzidas pelo discurso
liberal, esquerdista e vergonhoso, assumindo ares de
naturalidade[28]. Em suma, o discurso disseminado de
repressão ao “intrometido”, apregoando que “ninguém tem
nada a ver com a minha vida, e devo satisfação apenas a
Deus”, é o completo desejo autônomo do homem de se ver
livre de qualquer obstáculo a fim de consumar o seu
pecado. No final, nem mesmo se deve satisfação a Deus
pelos atos praticados, pois não estará ele disposto a
perdoar tudo e todos, indistintamente?
Essa noção traz embutida em seu bojo muito mais do
que uma divergência temporal ou cultural, mas a negação
de que a Bíblia seja um livro inerrante e infalível, quanto
mais uma obra de autoria sobrenatural e de inspiração
divina, resumindo-se, o seu relato a um simples conselho
moral e pessoal dentro de um esquema ou modelo
eclesiástico ultrapassado, antiquado e até mesmo
desnecessário, em nossos dias, o qual pode ser reconhecido
e aceito ou não, sem significar danos maiores ao rebelde.
Portanto, com a intenção de inocentar o homem, o pós-
moderno ou liberal condena a Bíblia como falsa, ao menos
no que ela tem de mais importante: ser a fidedigna palavra
de Deus.
Apelando para uma interpretação “científica” dos textos,
estando suas mentes cativas a premissas materialistas,
céticas e humanistas, esses estudiosos leem as Sagradas
Escrituras com as lentes diminutas da incredulidade e do
racionalismo. Alegam serem racionais quando apenas estão
racionalizando com base na aplicação de uma metodologia
capaz de corroborar suas premissas e usam um método que
produza e valide os resultados previamente desejados.
Além de verem Deus fora da realidade, como se o mundo
fosse uma bolha e ele a observasse, arvoram-se ao direito
de julgá-lo, em sua soberba e arrogância, como se a
realidade da Escritura não fosse muito maior do que eles,
sendo ela a julgá-los e condená-los, e não o contrário. Nisto,
esquecem-se de que é o Senhor de todas as coisas, do
tempo e da história, o Deus ativo, providente, interventor e
que, em sua onipresença, está em todo o lugar, ativamente
sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder[29]
(Hb 1.3). Simplesmente negam-se a reconhecer a realidade
e a verdade, tentando assumir o lugar divino, sendo meras
criaturas, estupidamente tolas na busca de significado em si
mesmas, nos seus feitos ou em seus pares, aos seus
próprios olhos.
A pós-modernidade e o liberalismo travestem-se de
piedosos, amorosos e fraternais, para escoarem todo o
egoísmo, a arrogância, a presunção e a rebeldia, a fim de
levarem tolos e néscios para uma viagem sem volta ao
inferno, que, por sinal, muitos deles dizem ser alegórico,
ficcional, apenas uma expressão da moralidade
ultrapassada e tirânica da tradição judaico-cristã. Por
conseguinte, não ouviriam o conselho e a correção de Judas,
tendo em vista os seus escritos serem apenas pessoais, um
ponto de vista entre tantos, nada havendo neles de
sobrenatural e divino. Para eles, divino é apenas o que se
encontra no coração do homem, bem como sua sinceridade
em manifestá-lo, não importando muito o seu teor, mesmo
procedendo-se de modo enganosa e ruidosamente maligno.
Jamais reconheceriam no autor o amor, o zelo e o desejo de
que a igreja permanecesse no caminho estabelecido por
Cristo e os apóstolos, desprezando a máxima de que Deus,
como o Pai bondoso e misericordioso, “corrige o que ama, e
açoita a qualquer que recebe por filho” (Hb 12.6), levando-
me à conclusão de que os opositores desta verdade são
filhos bastardos, não amados pelo Senhor, mas alvos diretos
da sua ira.
Por isso, o verso três da epístola de Judas inicia-se com a
expressão “amados”, algo que aquece o coração e nos dá
confiança de ouvi-lo e atentar para a sua exortação e
conselho, pois, como “servo de Jesus Cristo”, tem em si o
amor, a sabedoria e o Espírito do Mestre.
É quase inimaginável, no contexto contemporâneo de
pensamento[30], algo semelhante aos ensinos de Judas ser
reconhecido como bíblico e necessário à saúde espiritual
dos cristãos. No “vale tudo” evangélico é “cada um por si e
deus por todos”, não havendo lugar para auxílio,
sustentação, conforto e piedade focados na verdade, na
realidade, e não nos “achismos” ou “duplas-realidades”[31],
onde quanto menores os princípios e fundamentos, mais a
alma definha-se e afasta-se de Deus, enquanto o estulto
defensor considera-se firme, afundando na areia movediça
da sua própria deificação. Pois eles não seguem a Cristo,
nem aos seus mandamentos, mas apenas a si próprios e ao
evangelho caquético gerado em seus corações, no qual não
existe amor, seja a outros como a si, já que o amor não
subsiste fora da verdade, e a verdade, sendo absoluta,
suprime qualquer forma de desamor, pois nela há apenas o
amor verdadeiro e santo, o qual é Jesus Cristo e o seu
evangelho.
Outro grave problema nessa questão é a dissociação ou
descontinuidade entre Cristo e suas palavras. Muitos
apegam-se à figura de Jesus, mas não do Jesus bíblico e
somente conhecível nas Escrituras (o conjunto de 66 livros
testamentários), mas de um Cristo genérico, inidentificável,
surreal e místico, a ponto de escolherem, sem qualquer
critério crível, os textos sagrados adaptáveis aos seus
conceitos, excluindo-se arbitrariamente o que não lhes
convém. Nega-se, portanto, toda a verdade em detrimento
de alguma verdade (não passando de uma inverdade) para
validar um ideal anticristão, antibíblico, e que não passa de
um arremedo religioso a acomodar a alma no pecado e na
farsa. Há uma disposição irracional e centrada nas
sensações, nos sentimentos absurdos a moldarem
convicções, frutos da confiança em si próprio. Este,
certamente, é o maior de todos os erros, pois o cristão
verdadeiro não confia em si, sabe sê-lo enganoso e põe a
sua fé em Cristo e no seu evangelho, não em outro
evangelho, ao qual Paulo chama de anátema, mesmo se o
seu enviado sefizesse em anjo de luz.
Assusta-me quando ouço “cristãos” afirmando não
acreditarem na Bíblia, mas apenas nas palavras de Jesus.
Coço a cabeça e pergunto:
- Mas como saber se as palavras de Jesus, escritas, e nas
quais você acredita, foram ditas por ele mesmo, se você
não crê na veracidade integral da Escritura?
Eles fazem cara de espanto, pensam um pouco, e dizem:
- Porque tenho fé de que elas foram realmente ditas por
ele.
- Ah, então o seu problema é fé, uma fé pequena que o
faz crer apenas em algumas frases, contidas no mesmo livro
que você descrê, mas que, maravilhosa e
sobrenaturalmente, estão em perfeita harmonia com tudo o
que nele está escrito
Tento demonstrar que não faz sentido, não há lógica em
não se crer no todo, mas acreditar em uma de suas partes,
porque se o todo é falso ou não é completamente
verdadeiro, como acreditar em partes pinçadas do todo e
torna-las verdadeiras? Ou o todo é completamente
confiável, ou nenhuma parte dele é; pois, nem mesmo a fé
no Jesus que dizem crer é verdadeira, posto estar em
flagrante contradição com o livro que o revela. Entretanto,
se apegam a uma fé titubeante e irracional, que lhes
formata a alma e os leva a crer apenas e tão somente
naquilo em que o seu julgamento pessoal advoga como
verdadeiro, tornando-se juiz de algo infinitamente superior e
incompreensível, em sua sobrenaturalidade, muito além do
que a mente poderia estabelecer por si mesma.
Então, pergunto:
- Baseado em qual autoridade você pode julgar o que é
verdadeiro ou não na Bíblia?
Alguns apontam os teólogos críticos, os teólogos liberais,
ou, simplesmente, o seu próprio entendimento da questão.
Inquiro-o, novamente:
- Quem o investiu dessa autoridade?
Normalmente alegam serem eles acadêmicos,
pesquisadores e estudiosos idôneos e isentos, remetendo
aos seus diplomas, títulos e honrarias, e um sem-número de
outros apelos à figura de credibilidade. Desprezam a
coerência e unidade bíblicas, os testemunhos dos apóstolos,
dos pais primitivos, de historiadores, e da própria Igreja.
Acham que tudo isso não passa de uma conspiração para
criar um mito religioso de que a Bíblia seria a palavra fiel de
Deus, mas não sendo nada além de um livro escrito por
homens incultos e primitivos, que se expressavam de
maneira rudimentar, refletindo o seu contexto cultural. Na
verdade, acreditam naquilo que não podem crer
racionalmente, mas que somente é possível crer sem razão
ou fundamento, consequência de uma mente incoerente,
desconectada da realidade espiritual; a expressão emanada
do ser caído e sob os efeitos noéticos[32] do pecado. No fim
das contas, acabam por levarem-se muito a sério; como já
disse, fazem-se juízes de Deus e tratam de cavar um buraco
cada vez mais profundo em direção ao abismo interior e à
escravidão exterior.
Fé Regenerada
O autor escreve com diligência acerca da salvação comum,
mas o que viria a ser a salvação comum? Uma salvação
reles, ordinária, partilhada e disponível a todos? Ou estaria
a falar de algo específico, exclusivo?
Há de se notar que a carta foi escrita para a Igreja e não
tem como objetivo comunicar-se com os de fora, ainda que
a Bíblia o faça de maneira extemporânea, mas sabendo sê-
la redigida para os cristãos, os eleitos. Alguém pode dizer
ser um erro limitar a extensão da Palavra, mas é o próprio
Deus quem o faz, no sentido mais intenso e amplo daquilo
entregue, dirigido ao Corpo de Cristo, e, por sê-lo, excluem-
se automaticamente aqueles não pertencentes ao Corpo,
operando sem que a vontade destes seja manifesta. Há
uma confusão entre o agir divino e humano, como se aquele
dependesse deste e a vontade de Deus estivesse sujeita à
nossa; porém, com certeza o iníquo não deseja pertencer ao
Corpo, e a sua volição, aprisionada pelo pecado, mantém-no
atrelado à sua natureza de forma inescapável, em contínuo
estado de oposição ao Criador, mas em conformidade com a
vontade do Criador, que não o quer partícipe da Igreja,
colocando as coisas em seu devido lugar: se Deus não quer,
não há quem queira; se ele não agir, não há quem o faça
em seu lugar; portanto, o homem somente abandonará a
sua condição de inimigo se Deus achegar-se a ele,
demovendo-o da sua aversão, restabelecendo a ordem na
alma, tirando-lhe a venda a fim de ver a verdade, somente
possível na luz; do contrário, haverá apenas trevas, trevas e
mais trevas, onde o homem não pode ver nada, nem
mesmo reconhecer a si próprio.
Logo o autor não pode falar de algo comum a todos, e
sim algo que não é compartilhado pela maioria das pessoas.
Seu foco é dirigido aos “amados”, escrevendo-lhes porque,
como Igreja, todos nós somos participantes da mesma
salvação especial, não como uma possibilidade, mas como
uma realidade inexpugnável, uma certeza infalível, pelo
mérito exclusivo de Cristo ao sacrificar-se na cruz,
resgatando-nos da perdição e reconciliando-nos com Deus.
Podemos concluir que ele trata da salvação comum a si
mesmo e que também é compartilhada pelos eleitos,
aqueles por quem o Senhor morreu, comprando-os pelo seu
próprio sangue (At 20.28), ressaltando o caráter exclusivista
e direcionado não a uma assistência indefinida, vaga, mas a
um corpo identificado pelas marcas produzidas pelo Espírito,
capaz de transformar a mente natural em espiritual: a
mente de Cristo (1Co 2.16).
Há um quê de lembrança nesse verso, como se Judas
estivesse dizendo à igreja:
“Olha, alguns de vocês se esqueceram do que são, do
motivo pelo qual se reúnem e de qual é o objetivo das suas
vidas. Vocês são salvos e compartilham comigo da mesma
salvação dada aos santos e não podem esquecer-se de que,
por isso, Cristo encarnou-se; o Deus vivo e eterno fez-se
homem, vivendo como um comum (ainda que este
“comum” seja infinitamente superior a todos os séculos de
vida da humanidade inteira), para que fosse injustiçado e
condenado à morte, pagando em definitivo todos os nossos
pecados, sem o qual não teríamos uma comunhão com o
seu Espírito, e nada nos restaria além de sermos entregues
à própria sorte, uma sorte desafortunada, trágica e
miserável. É triste ter de relembrá-los disto, mas alegra-me
poder fazê-lo, renovando-lhes as forças para continuarem a
luta neste mundo, sabendo que as suas coroas estão
reservadas para o dia glorioso do Senhor”.
Pode-se alegar o caráter especulativo da minha
interpretação, mas, pergunto: por que o autor teria de
ressaltar algo que estava vivo na mente e coração dos
irmãos? É óbvio o caráter futurista da exortação, ou seja,
estava destinada também aos cristãos que haveriam de
nascer, para aqueles que ainda não conheciam a fé, mas a
teriam. É um argumento válido; mas diante da urgência do
autor, penso que ele está imbuído da missão de admoestar
a Igreja naquele momento crítico, em que ela sofria ataques
constantes de fora, mas sofria também ataques vindos do
seu próprio seio, dos agentes inimigos postados ali pelo
diabo. Algo havia se perdido nesse ínterim e, certamente,
ele estava a reavivar na alma daqueles irmãos esquecidos o
que se perdera de alguma maneira pela negligência, pelo
sofrimento, pelas perseguições... Apontando para a falsa
piedade que tomava o lugar da devoção e da contrição
ensinadas por Jesus e os apóstolos. Também está a
encorajar ainda mais aqueles que, como soldados valorosos
e diligentes, permaneceram firmes na fé e não se afastaram
de suas prerrogativas, pelo contrário, eram os guardiões da
sã doutrina diante da ofensiva covarde do inimigo, com o
fim de subverter o Evangelho. Como se dissesse:
“A vocês que permaneceram firmes e não arredaram o
pé da fé dada aos santos, digo-lhes para continuarem
assim, intrépidos e fiéis defensores do Evangelho,
rejeitando toda heresia, todos os falsos mestres, ensinando
aos mais fracos o caminho da verdade”.
Referindo-se ao resgate, ao fato de Deus haver nos
tomado para si, salvando-nos de nós mesmos, de nossa
natureza caída  e de nossas concupiscências, o autor faz
lembrar à Igreja o porquê deela estar reunida em torno de
Cristo, de forma que todos os que foram chamados e
santificados participam da mesma salvação, do mesmo
objetivo de servi-lo, honrá-lo e glorificá-lo... Sendo também
chamados para compartilhar a mesma santidade do Senhor.
Em segundo lugar, Judas “exorta”[33] cada um de nós ao
dever de reter, batalhar, lutar e contender pela fé contra as
armadilhas, ciladas e investidas de Satanás e seu bando,
num esforço corajoso e diligente para derrotá-los. Note-se
que a fé não é dada em conta-gotas, nem pode ser
adquirida em progressão, nem é fruto de um construto
individual, mas ela é dada gratuitamente, uma cessão
generosa de Deus para os seus filhos, para que saibam o
seu verdadeiro fim e objetivo, o de guerrear pela sã doutrina
e por uma vida santa, em semelhança ao legado de Cristo
deixado para os seus coerdeiros. Assim, a promessa é a de
nunca fracassarem, se souberem como defender
firmemente aquilo que lhes foi dado uma vez, uma única
vez, e do qual são guardiões e proclamadores: a fé cristã!
Quero atentar para dois aspectos da fé dada aos santos e
apontadas na carta. O primeiro, é de que Judas pode estar
se referindo à fé salvadora, aquela fé que faz o eleito crer
na obra de Cristo consumada na cruz, e pela qual reconhece
a sua pecaminosidade, bem como a necessidade de
sujeição e reconciliação com Deus, sem a qual não há
redenção. Esta fé lhe é dada uma única vez, para sempre,
não como muitos afirmam equivocadamente: na
possibilidade de perdê-la e alcançá-la de maneira
intermitente, dependendo da disposição humana de estar
com fé ou abandoná-la; isso a transformaria em mérito do
homem, no sentido de que a obra divina de salvação
necessitaria, impreterivelmente, da chancela humana, da
sua asserção, sem a qual todo o sacrifício do Senhor seria
nulo e ineficaz. “Dada uma vez aos santos” não deixa
dúvidas da sua absoluta eficácia em manter o salvo em uma
permanente condição e estado de salvação. Ela é um dom
divino, como Paulo diz em Efésios 2.8-9:
“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não
vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que
ninguém se glorie”.
Aspectos da santificação humana presentes em um
homem resgatado do pecado, mas ainda assim pecando,
não cabem ser analisados neste momento. Contudo, um
estudo do leitor sobre o assunto poderá ajudá-lo a entender
a diferença entre uma salvação eterna, posta pelo amor
eternamente divino (e jamais condicionada à vontade do
homem), e uma vida de aparentes altos e baixos do cristão.
Digo “aparente” porque, no plano divino, tudo na vida do
crente colabora para o seu bem, mesmo uma queda, até
mesmo muitos pecados, pois a promessa infalível do Senhor
resultará no homem redimido semelhante ao homem
eterno, Cristo[34]. Tais altos e baixos em nada prejudicarão a
sua salvação, concedida e sob os efeitos santos, e perfeitos,
e graciosos de Deus, e não do homem imperfeito.
O segundo ponto em relação à fé, nesta carta, remete-
nos ao corpo de doutrinas e ensinamentos recebidos pela
Igreja, através da revelação especial[35]. Não que a doutrina
fosse mudando com o decorrer dos tempos; porém, como
nos foi apresentada em desenvolvimento contínuo, durante
os séculos, conceitos antes não muito evidentes, e até
mesmo imperceptíveis, foram solidificando-se, apresentados
em detalhamento, ganhando cada vez mais consistência.
Nesse sentido, as heresias tiveram um papel importante,
pois, por meio delas, certos aspectos difíceis na Escritura
ganharam nitidez, foram explicados, delineados, em
harmonia com o testemunho majoritário dos santos desde
os primórdios até hoje. O papel da Igreja foi o de
pormenorizar as doutrinas presentes no Cânon de maneira
sistemática, estruturando-as a fim de que o ensino e o
estudo se tornassem organizados e mais eficientes.
Claramente, esta foi uma necessidade dos cristãos, dada a
profundidade e requinte do texto sagrado; o que não
impediu muitos de nós de passarem à margem ou
desapercebidos da vasta rede de instruções apresentadas
pelas Escrituras, dificultando as suas aplicações práticas.
Entretanto, todo esse esforço patrocinado pelo Espírito,
utilizando-se da instrumentalização humana, serviu para
aproximar-nos da luz, e, desta forma, as trevas foram
obliteradas, reveladas, tais como são, servindo de auxílio,
artefato, para o combate às falsas doutrinas. Algumas delas,
travestidas de sabedoria e piedade, arregimentaram muitos
para as suas fileiras, e poderiam ter um papel ainda mais
destrutivo se não houvesse Deus providenciado revelá-las,
garantindo a sanidade da Igreja, preservando-a. Outras, de
tão estúpidas e mal elaboradas, intriga-me como, ainda
hoje, conseguem adeptos e defensores e alcançam
influência nefasta e diabólica no seio de comunidades
erguidas como castelos de areia.
Seria impossível conceber arma melhor e mais letal para
combater as heresias, nesse contexto, do que a própria
Escritura. A sã doutrina é o conhecimento dirigido por Deus
da sua palavra para a instrução e santificação. Homens
santos debruçaram-se sobre ela, retirando o antídoto
necessário para manter saudável a Igreja. A resposta para o
mal e seus agentes encontra-se no Evangelho, como o
Senhor deixou-nos manifesto ao enfrentar o diabo no
deserto (Lc 4.1-13), rechaçando-o, ao vencer as tentações,
e pondo-o a correr. As mesmas tentações são lançadas
sobre cada um dos crentes, dia após dia, afligindo-os e
tirando-lhes a paz, especialmente quando se cai,
ocasionando o pecado, diferentemente de Cristo, que, como
Deus encarnado, manteve firme a sua humanidade,
estabelecida na santidade que o manteve separado do
pecado, e afugentou o maligno igual a um rato miserável
(Tg 4.7).
Certa vez, o pastor da minha igreja contou-nos o
depoimento de uma atriz, que afirmou considerar o seu
dom, de interpretar, um ato de fé, porque, segundo ela, não
se sabia de onde ele provinha; você simplesmente o tinha.
Não é interessante, independentemente de professar ou
não uma crença, que a atriz usasse a razão da fé para
comparar, remetendo-a a uma outra razão, do ser, da vida,
da sua profissão?
O pastor considerou-a (e também a considero) uma boa
explicação para os dons que muitos têm e não sabem como
surgiram. Ressalto apenas que o dom sem aplicação não
passa de um tesouro que nunca foi encontrado ou uma
oportunidade negligenciada. Qualquer dom, e não precisa
ser artístico, deve ser exercido e aprimorado como uma
forma de reverência e agradecimento ao seu doador, Deus.
Em especial, trata-se de uma boa explicação para nós,
crentes, pois nos sentimos muitas vezes quase obrigados a
colocar a fé em alguém, ou fazer esse alguém crer, na base
da força, na marra. O profeta já alertava:
“Não por força nem por violência, mas sim pelo meu
Espírito, diz o Senhor dos Exércitos.” (Zc 4.6)
  
Complementando, o pastor disse que nenhum de nós
tem esse poder e, como Judas escreveu, a fé é uma dádiva,
algo que somente Deus pode dar aos santos, e não pode ser
compartilhada, como algo a ser incutido, em alguém, por
mim. A única forma de compartilhamos a fé é vivendo
aquilo que acreditamos e que a Bíblia nos revela como a
vontade divina, porém nada disso acontece sem o Espírito
manifestar-se, reestruturando a mente, fazendo-a amar a
verdade e entregar-se a ela. É necessário que o raciocínio
pecaminoso se renda à razão, à santidade, para a fé
estabelecer-se como verdade factual e indissociável da vida
cristã.
Mesmo sendo muitas vezes bombardeados pelo
ambiente em que vivemos, o mundo caído, pelo diabo, ou
por nossas fraquezas, ao final teremos sempre a certeza de
a nossa fé ser real, palpável, pela sua veracidade e eficácia,
pela transformação, o novo nascimento, operada pelo
Espírito a capacitar-nos à fé. Como algo maravilhoso e uma
bênção ao crente, ela nos é dada somente uma vez. Isso
nada tem a ver com o estereótipo, quase uma superstição,
de que a fé pode ser conquistada e também perdida e até
readquirida,em um front de vitória e derrota onde a
primeira “fé”[36] não quer dizer muito, e a segunda significa
bastante e tudo pode-se arruinar em uma fração de
segundos, de uma hora para outra, podendo-se lançar tudo
por terra, sem haver uma reviravolta possível e iminente,
nos minutos finais.
Esse tipo de fé não gera a certeza, nem faz o homem
reconhecer a sua dependência do Senhor, mas acaba por
colocar em suas mãos o destino de sua vida, no sentido
mais grandiosamente espiritual (como uma pretensão, não
uma realidade). Desse modo, seres imperfeitos e volúveis
têm uma direção insegura e uma sina garantida: terminar
entrando fatalmente no portal do Inferno, se depender,
mesmo que em algum aspecto, da sua disposição ao bem,
ao santo, à amizade sincera com Deus. Nota-se essa
impossibilidade na vontade humana de buscar a
reconciliação com Deus e de manter-se intacto na condição
de pureza, necessária para a salvação. Assim como o etíope
não pode mudar a sua pele, nem o leopardo tirar as suas
manchas, o homem não pode ir a Deus se, primeiro, ele não
for até o homem. Este só pode ir a Deus pelo poder de Deus
(Jr 13.23).
O autor está apenas confirmando e reiterando o escrito
no verso 1, demostrando uma unidade de pensamento e
propósito em sua carta, pois lá está escrito:
“Aos chamados, santificados em Deus Pai, e conservados
por Jesus Cristo”.
A fé dada aos santos tem o selo de garantia da Trindade,
sendo que a não citação ao Espírito pode ser inferida pelo
simples fato de que a santificação é sua obra. Mediante a
fé, mesmo com nossas fraquezas, inconstâncias e dúvidas,
temos a segurança de não ser possível perder a salvação,
uma vez que nos é dada.
Alguém pode alegar o fato de muitas pessoas dizerem-se
crentes, abandonarem a fé e voltarem ao mundo, como
justificativa para a fé estar atrelada à volição do homem.
Acontece de haver na igreja ovelhas e bodes, crentes
verdadeiros e nominais, joio e trigo, e, assim, Pedro os
descreveu ao abandonarem a sua fé, citando um antigo
provérbio:
“O cão voltou ao seu próprio vômito, e a porca lavada ao
espojadouro de lama” (2Pe 2.22).
Ora, o cão e a porca não são ovelhas, eles têm uma
natureza, e mantiveram-na, voltando para as suas origens,
em conformidade com aquilo que não podiam deixar de ser
e fazer, a fonte das suas satisfações, da necessidade
imprescindível de suas existências e natureza intransigível:
o cão ao vômito e a porca à lama.
Uma pessoa que se diz crente, mesmo durante muitos
anos, e então abandona a fé, “desviando-se”, age tal qual o
cão e a porca voltando ao que sempre foi e nunca pode
deixar de ser; porque é, e não pode ser aquilo que não é,
sem Deus mudar-lhe a natureza. De outra forma, continuará
o mesmo, a despeito dos lacinhos, penduricalhos e enfeites
colocados pelo seu “senhor”.
Por algum tempo, a porca pode até se manter limpa, mas
bastará uma poça de lama, ou um charco, para ela se
refestelar no limo e se deliciar na sua sujeira.
A Fé dos Incrédulos Contra a Verdadeira
Fé
Em contrapartida, há um número crescente e cada vez
mais poderoso e influente, (na perspectiva do apoio
financeiro e midiático massivo), de pessoas e entidades
empenhadas no combate à fé. De maneira genérica,
querem um mundo sem religião, extirpando qualquer traço
de sacralidade e sobrenaturalidade. O foco principal, quase
sempre, é o Cristianismo e a sua alegada, e nunca provada,
hostilidade. Não basta serem ateus e blasfemarem contra
Deus, para eles existe uma cruzada não santa, quase
messiânica, de um mundo melhor, mais amoroso, mais
pacífico, isento de espiritualidade. Alguns dos gurus desse
ideal “angélico” nos são apresentados em todo o seu ódio,
virulência e ataques infundados à fé cristã: Dawkins, Rosset,
Freud, Nietzsche, Darwin, e Karl Marx. As origens modernas
do ateísmo estão especialmente fincadas no darwinismo e
no marxismo, como explicação “cientifica e racional” para o
ideal de um mundo sem Deus. 
Há uma legião de celebridades menos votadas e
igualmente adeptas do pensamento antirreligioso a
reproduzirem um discurso “descolado”, aparentemente
intelectual, mas centralizado no mais paupérrimo
conhecimento, ou melhor, na quase total ignorância, ao
menos acerca dos aspectos fundamentais da religiosidade,
moral, ética e as relações sociais. Não poucos deles se
aventuram a críticas violentas e injustas baseadas em uma
leitura e interpretação equivocadas e superficiais dos textos
bíblicos[37], se é que são lidos. Na maioria das vezes, o erro
é primário: toma-se um trecho ou versículo fora do contexto
para sustentar uma ideia que nunca esteve no texto,
justificando tão somente o estereótipo enraizado em suas
mentes de que aquilo seria verdadeiro e precisaria se
confirmar a qualquer custo, mesmo que seja ao preço da
honestidade intelectual. Não é raro ver livros e artigos
apontando as contradições bíblicas, como uma maneira de
se provar a sua não sobrenaturalidade.
Qualquer estudioso honesto perceberá, no primeiro
momento, que a suposta contradição não tem nada de
contradição; tão somente é a desconexão da mentalidade
ateia da verdade, necessitando-se de várias mentiras para
tentar encobri-la. Uma tarefa não muito difícil, bastando
unir, em uma mesma proposta, a grosseria mental, o
subterfúgio, o escárnio, o ódio e a acusação ardilosa,
suficientes para enlaçar e convencer mentes pouco
rigorosas e flébeis, alimentadas com o próprio veneno, a
buscarem uma ordem superior na desordem interior,
negando a sublimidade divina pela efemeridade desconexa
da alma enfermiça. 
Sempre entendi que um darwinista baseia todas as suas
convicções e conceitos não na ciência, muito menos na
comprovação científica ou empirismo, mas na falsa
premissa da não existência de Deus, a qual é, quer queiram
ou não, uma crença, um tipo de fé, já que o ceticismo é
também uma convicção baseada em um axioma
equivocado, resultando em uma conclusão traiçoeira,
mesmo dentro de uma lógica correta.
A movê-los, não o conhecimento científico, nem as
descobertas que “poderiam” apontar para a não existência
de Deus; pelo contrário, eles direcionam e acomodam a
ciência dentro do seu escopo filosófico, o qual se evidencia
metodologicamente corrompido pela forma como o
manipulam, burlam, e gerenciam as informações a fim de se
ratificar a premissa da não existência de Deus[38]. É
evidente o reducionismo de todo o pensamento ateísta
apenas ao crivo da ciência, como se o homem fosse dotado
apenas de inteligência, e não houvesse outros elementos
formadores do seu ser. Inteligência nem sempre está
diretamente relacionada com razão, e conhecimento nem
sempre se relaciona com compreensão. Ou seja, é
necessário muito mais esforço para que eles possam,
honestamente, negar a Deus, mas pela impossibilidade,
resignam-se apenas ao que consideram razoável.
A ciência torna-se apenas o veículo para a corroboração
da crença na descrença, uma refém entre sequestradores; o
meio pelo qual eles dão vazão aos seus pressupostos
através da falsa ideia de que estão à procura da razão e da
verdade. É quando a ciência se torna um meio de
propagação doutrinária, desconsiderando que, a despeito de
o seu apelo pseudorracional querer excluir a fé, na verdade,
eles estão arraigados na fé. É o discurso panfletário
idealizando-se antipanfletário, como se fosse possível
condenar o proselitismo religioso utilizando-se do
proselitismo não religioso para difundir o materialismo, uma
nova religião tão ou mais radical como nenhuma outra foi.
No frigir dos ovos, eles são pegos na mesma armadilha que
imaginam denunciar, provando que o homem é
essencialmente um ser transcendente, que vai muito além
do simples conhecimento. A necessidade de se ultrapassar
os próprios limites, no caso dos ateístas, transforma-se na
corrida atrás do próprio rabo. Um rabo imaginário, que para
eles é real.
No fundo, o cético faz da ciência, e de si mesmo, a sua
“deusa”; esse é o elemento forjador da cosmovisão
materialista,trocar o Deus verdadeiro por um ídolo. Então,
ao rejeitarem o Criador, simplesmente o substituem por
suas criaturas (sim, a ciência não é criação humana, mas
parte da criação divina, assim como o homem).
Paulo nos alerta a tomarmos cuidado com esse tipo de
pessoa, cujo discurso é a insanidade em estado bruto e cujo
raciocínio é um disparate esmerilhado pela confusão,
ininteligível:
“Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos... Pois mudaram
a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais
a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente.
Amém” (Rm 1.22, 25).
Na verdade, este trecho da Escritura explica muito bem o
que acontece atualmente: o homem se entregando à
pregação, ao discurso em favor do autonomismo, exclui o
teocentrismo para, em seu lugar, erguer altares
antropocêntricos.
Em suas argumentações e sofismas, os crédulos ateus
utilizam-se do fato de a ciência não ser neutra para
contaminá-la com sua filosofia naturalista e assim dizer que
agem em neutralidade. Parecendo racionais são levianos e
forçam até a exaustão o rótulo de inconsistentes, místicos e
preconceituosos para com os demais crédulos (sendo que
os cristãos são os seus alvos preferidos), quando suas
concepções estão viciadas na origem, nos princípios que as
originaram, sem um fundamento sério, sem um exame
criterioso, quase sempre tendo como ponto de partida
argumentos com base na rejeição natural a tudo que se
refere a Deus e ao seu governo, sem o menor pudor de
advogarem uma metodologia dirigida ao fim objetivado, e
na satisfação do espírito litigante e antirreligioso.
Verdadeiramente, os materialistas/naturalistas não estão
a serviço da ciência, mas servem-se dela para atingir seus
propósitos; usam-na como “ambiente” para disseminar e
estabelecer seus dogmas. Em sua maioria são tão
fundamentalistas como os fundamentalistas que atacam e
execram, pois não estão dispostos ao diálogo, mas à
doutrinação mais agressiva que se possa estabelecer e
exercitar. Esta começa pelo pressuposto de desqualificar e
rejeitar qualquer premissa que não seja igual a “Deus não
existe” (não que haja algum benefício em dialogar com eles,
pois se encontram de tal maneira presos em seu círculo
vicioso que a menor hipótese de liberdade intelectual lhes
parece pior do que o ferrolho a prender-lhes pés e mãos).
Afinal, quem é mais crédulo? O crente ou o ateu?
Interessante notar como o “novo ateísmo”[39] proclama-
se o último reduto da liberdade do homem de todas as
formas de opressão religiosa, utilizando-se do
direcionamento explícito ao materialismo filosófico, como
única e última opção de independência. Ou seja, prega-se
uma "libertação", mas essa libertação somente existirá se o
liberto tornar-se um ateu. Não é deveras paradoxal?
Apelando para o espectro da liberdade, querem subjugá-
la, aprisioná-la nas grades, dentro dos limites de um
sistema, mesmo que o desejo alheio seja o de se manter
fora desse recinto? Quer dizer que, para ser livre, o homem
somente o será se a liberdade o levar ao âmago do
ateísmo? E até onde será possível ir em defesa dessa
“liberdade”? Como reagirão diante daqueles que se
recusarem a aceitá-la? Será que os neoateístas não estarão
revivendo tudo aquilo que dizem combater, mas que é bem
possível repetir em nome da sua fé? Ao final, o que teremos
serão homens enjaulados, sem sequer uma réstia de luz.
Esse método se assemelha, ou melhor, é idêntico ao
discurso marxista. Ao livrar o homem do capitalismo e da
opressão do indivíduo (ainda que visto como classe, grupo
ou associação), fatalmente a única opção passaria a ser o
comunismo. O homem é livre para escolher o comunismo, e
tão somente ele; e, chegando lá, estará invariavelmente
aprisionado ao sistema, sem nenhuma chance de volta ou
outra opção de escolha. A menos que se autoimploda por
ineficiência ou fragilidade, como a história é pródiga em
revelar, por sua própria inexequibilidade, o homem nunca
será liberto, mas um prisioneiro, em um claustro sem
sequer possuir janelas com grades, mas muros e paredes
impermeáveis à luminosidade. Quando muito, poderá
respirar através das frestas, recebendo uma ração suficiente
para não morrer em definitivo. Em nada é diferente da
liberdade que bois e porcos têm no “corredor da morte”,
quando em direção ao matadouro. Não há escolha nem
salvação. Essa é a liberdade do ateísmo e do marxismo....
Mais uma mentira escandalosa, em que o homem está
preso pela suposta liberdade de querer se manter livre de
uma prisão.
Toda essa trama se parece, em muito, com o relato do
Éden. Adão e Eva eram livres, podiam fazer o que
quisessem, onde quisessem, sem infringir nenhuma lei ou
norma. A exceção era não comer da árvore do bem e do
mal. Surge então a serpente, com sua lábia, com seus
argumentos falaciosos, distorcendo a verdade e colocando
diante do casal uma realidade somente possível em suas
mentes ingênuas, mas cobiçosas. Estava instalado no
mundo o espírito revolucionário, aquele mesmo que
defende a quebra da ordem em nome do caos, da
autoridade legal em nome da tirania postiça, da liberdade
em escravidão, e transforma a verdade em entulhos, lixões
de mentiras.
O que não lhes fazia falta, nem lhes era necessário, a
partir do discurso enganoso da alimária – ardiloso, mas
irracional –, desejaram ter e ser muito além do que tinham e
eram, quando podiam ter tudo e eram a obra-prima da
Criação. A sedução pelo objeto proibido, aquele fruto que
assumira uma aparência aprazível e desejável, sendo que
até então não lhes aguçara a cobiça, somente foi possível
pelo palavrório astuto, capaz de persuadi-los, entregando-os
à desobediência, à ambição irreal, a uma fantasia. Assim,
Adão e Eva se viram aprisionados em sua própria vontade.
Havia um único desejo na serpente, fazer com que eles
fossem enredados em seu discurso e convencidos a
pecarem, rebelando-se contra a única ordem divina que os
manteria sob os auspícios da graça. No fim das contas, o
casal entregou a sua resolução à vontade da serpente,
tornando-a cativa ao desejo alheio, como se fosse o seu
próprio anseio. A liberdade anelada, ser igual a Deus, se
tornou a prisão mais penosa de se perder o prêmio ilusório e
receber o castigo genuíno. Ao invés de subir aos céus,
desceram aos umbrais da miséria humana.
É o que advoga, por exemplo, Richard Dawkins[40], ao
propor o mesmo tipo de libertação delirante: aprisionar o
homem na sua vontade irresistível de fugir da realidade e
abraçar uma disposição insana que, dados os contornos
beligerantes e raivosos, constitui-se em uma iminente
tragédia, primeiramente individual, para depois se abrigar
entre os seus pares, cauterizados pelo sentido de revolução,
e manter-se enclausurada pelo entorpecimento.
Tal qual as seitas, que têm como uma das características
marcantes a salvação e verdade apenas para quem está
nelas, o materialismo/ateísmo apela para o fim da
intransigência religiosa, cujo antídoto é a... intransigência
antirreligiosa. Então, se abrirão as portas da liberdade para
aqueles iluminados entregues ao espírito “messiânico” de
salvar o mundo, as pessoas e a civilização do sobrenatural.
Pois é o seu caráter extraordinário que impede o homem de
trilhar os seus próprios caminhos, de traçar os seus
destinos, de se ver livre de toda uma tradição e cultura
centrada na divindade, no seu governo e dependência. Urge
voltar à simplicidade, mas ela se resume ao retorno à
vulgaridade, ao ordinário, como se uma flor murcha atolada
no esterco pudesse exalar o aroma de frescor e vivacidade
perdidos, não o cheiro sufocante de corrupção. Estando-se
sob as ordens de Cristo, não se pode ser livre. É preciso
destituí-lo, tirar-lhe o cetro, arrancá-lo do trono, depô-lo a
todo custo.
No entanto, a qual liberdade apelam? À liberdade de se
sujeitarem à vontade de terem a vontade cativa a outro
senhor? Dirão que o próprio indivíduo está a defini-la, a
cotejá-la e, por fim, abraçá-la, como a chave a abrir o
cadeadoque lhe soltará as correntes. Porém, mesmo
havendo cadeado e correntes presas a ele, tão somente
possui uma chave inútil sem fechadura que lhe sirva.
Não é somente isso. A questão vai muito além de uma
simples argumentação, um jogo de ideias, mas traz em seu
âmago o aflorar de todo tipo de perversidade e destruição
possíveis à civilização judaico-cristã, a formadora do
Ocidente ou da civilização tal qual a conhecíamos (visto que
ela está se perdendo, ao menos, nos últimos dois séculos).
Através de técnicas aparentes de evolução científica,
enquanto se retrocede e se volta aos períodos mais
bárbaros e pagãos da história do mundo, o ser do homem é
reduzido a uma combinação binária, onde todas as virtudes
e vícios são colocados em um único compartimento e
rotulados por algo aparentemente moral e enlevado: o bem
comum. Relembremos, porém, que todos os aspectos da
humanidade foram contaminados e corrompidos pelo
pecado. Sendo assim, a ideia de bem comum tem se
tornado algo relativo e sujeito ao escrutínio ideológico,
justificando até mesmo o massacre de pessoas em nome de
um “bem comum”, menos para aquele malfadado grupo de
pessoas, assim como a constante inversão de valores, a
ponto de o foco central da discussão ser deslocado,
dependendo do viés ideológico, para locais periféricos e
pouco importantes. Nesse sentido, aquele grupo afetado
não teve direito a nenhum benefício ou licitude, porque
sobre eles pairava algo considerado ainda maior, tornando
as suas vidas irrelevantes e suas mortes necessárias.
Se a moral e ética estão diretamente ligados à
preservação da vida humana, incluindo-se, nesse caso, o
sentido de justiça, qualquer tentativa de relativizá-los e não
entendê-los como provenientes de Deus, significará a perda
do próprio sentido de humanidade e justiça, estando todos
entregues ao espírito mais diabolicamente destrutivo, o qual
é a perda da própria humanidade. Afastando-nos do Criador
e sua Lei, afastamo-nos da verdade e tornamo-nos presas
fáceis para a maior de todas as mentiras e delírios: o
homem é senhor de si mesmo, e ao tomar para si algo que
não lhe pertence, usurpando-o do verdadeiro detentor,
alimenta a fantasia de alçar os céus e dominá-lo.
No redil das disputas em que a mente se torna o campo
a ser conquistado, as áreas mais viciosas e usadas à
exaustão para moldar o pensamento e a mentalidade
moderna não são a filosofia, a política ou a teologia, mas a
psicologia e, em especial, a pedagogia. Se já não é
suficiente transformar o adulto em um animal, capaz de
dedicar-se, com empenho, aos instintos mais degradantes e
vis da alma, ensina-se, desde a mais tenra idade, a capitular
a mente ainda não formada e em transição da criança,
tornando-a, no futuro, uma bomba-relógio prestes a explodir
ou um artefato “bovinista” a alimentar os seus prazeres até
a morte, não importando se a sua ou de outrem.
Quando a cultura atual destina boa parte do seu tempo,
esforço e dinheiro em insuflar o homem na satisfação dos
prazeres mais tolos, em nome de uma excitação, euforia, ou
o que comumente se chama de “adrenalina” (por sinal, tudo
hoje praticamente se resume a isso: alguns momentos de
êxtase e insanidade), pode-se perceber uma volta ao
homem primitivo, ao qual, por questão de sobrevivência,
era necessário passar por perigos e ameaças, nunca por
prazer. Com raras exceções, eles sempre as evitavam, ainda
que soubessem reais e possíveis de ocorrerem em sua vida
ou a qualquer momento.
Hoje o perigo é uma diversão. Colocar a vida em risco
desnecessário se tornou mais uma forma de banalização da
existência e o atestado de como o individualismo, aliado à
ideia de autonomia, tornou o homem estúpido e
autodestrutivo, por um pouco de comoção e pânico
infundado. Os parques de diversões e temáticos
demonstram que o homem moderno apenas trocou o
Coliseu, os duelos medievais, circos e caçadas por algo
mais, digamos, controlado, mas não menos mórbido.
Podemos incluir os rachas e cavalos de pau entre carros e
motos, sexo compulsivo e degradante, drogas, bebidas,
entre outros, como a supérflua submissão do ser ao
preenchimento de um vazio calamitoso pelo prazer
paliativo, cuja fonte verdadeira e única, capaz de ocupar
plenamente e satisfazer essa necessidade, é apenas Deus.
Como essas formas de substituição apenas atenuam
momentaneamente a ausência divina por meio de um ídolo,
as exigências da alma levam cada vez mais o homem a um
grau de risco e perigo ainda maiores, culminando em um
estado de dependência, de servidão, praticamente sem
volta. Preso ao seu cativeiro interior, ele espera a libertação
naquilo que o aprisiona e subjuga.
Em linhas gerais, o padrão atual é o mesmo iniciado no
Éden e repetido exaustivamente no decorrer da história: a
agitação dos ânimos, para fora da vontade de Deus, resulta
em perturbação da alma e na desordem funcional, onde a
“imago dei” é substituída pela corrupção humana, iniciada
no coração e concretizada em suas ações maléficas, fruto
da vontade entregue à consciência ou natureza perdida.
A busca pela emoção, pelo arroubo irracional, tem
permeado a vida, inclusive de crentes, e é estimulada desde
a mais tenra idade. Crianças não querem tocar piano, ouvir
e ler os clássicos, jogar xadrez, brincar de laboratório e
oficina mecânica ou fazer coisas do gênero; ao mesmo
tempo que lhes aguçava a criatividade, colocava-os em
contato direto com a realidade a se pronunciar em alguns
anos. Antes de prepararem os seus filhos para a
maturidade, os pais ou tutores acabam por descer ao nível
mental e emocional dos pimpolhos, como uma forma de
autoproteção, visto que eles próprios são infantis e dados às
reações intempestivas, marcadas pela paixão ardorosa de
não se comprometerem com a construção do caráter dos
filhos, além de pouco preocupados em levá-los à
consciência de si, do próximo e do mundo. É mais fácil
torná-los “Rambos infantis”[41] ou maricas, ambos entregues
à displicência e lassidão pela falta de responsabilidade, por
temor ou por inaptidão em manejá-la corretamente.
A sexualização das crianças é apenas um passo a mais
na descida do homem ao abismo de sua alma tenebrosa, a
mesma que transformou, do ponto de vista comercial e
midiático, a beleza em um amontoado de carne a ser
engolida e exposta como um presunto na vitrine. Não há
diferença, podendo-se escolher a mais gorda ou magra,
tudo se resumindo a uma questão de gosto ou apetite.
Alguém pode argumentar que sempre houve a
exploração sexual, seja de mulheres, homens ou crianças. E
é verdade. Na história, em várias ou quase todas as
civilizações, a depravação humana levou alguns não
somente a desejar, mas a vivê-la intensamente e por todos
os meios. Porém, a maioria das pessoas não se entregou a
ela, antes a reprovaram, e, em muitos casos, combateram-
na. A diferença entre os tempos está no fato de, hoje, existir
um movimento incitando as pessoas às práticas mais
degradantes, não somente o apoio, a validação mental, mas
o treinamento para a sua aplicação e massificação, como
uma necessária integração da nova sociedade em
construção, com o fim evidente de se libertar da “opressão
tradicional”, representada pelos valores defendidos pelo
judaísmo-cristianismo. Somente assim, criando-se uma nova
“humanidade”, segundos os moldes ideológicos e
antinaturais, se alcançará o direito à plena capacidade de se
dispor de si e dos outros, como alguns querem, fazendo
valer o velho lema adâmico de que tudo é válido para a
satisfação da vontade, e, ao satisfazê-la, se é livre. Poucos,
contudo, percebem que o eu não é apenas a vontade, nem
ela o completo eu, mas uma limitação na qual o restrito
assume ares de plenitude, sem que a alma se satisfaça,
entregue a um permanente estado de frustração.
Nem todos reconhecem isso; então, a maioria se entrega
a um constante “salto no escuro”, que pode ser tanto uma
religião, um partido político, associação, profissão, hobby,
ou qualquer outra das muitasformas de fetiche a sustentar
a alma em um estado de miséria existencial. É mais uma
das muitas formas de distração do pecado, ao fazer-se
importante e necessário para desviar os holofotes para si e
receber uma glória usurpada por meio da capacidade de
levar o homem à abstração, ao não reconhecimento de si,
da sua real condição, do próximo, e, acima de tudo, de
Deus.
A manipulação começa quando se estabelece, em
primeiro lugar, a condição de vítima, de injustiçado, de
oprimido, de segregado, de explorado, e outros jargões
incutidos insistentemente pela mídia, escolas, livros,
universidades, sindicatos, ONGs, e “tutti quanti” o
liberalismo e o marxismo conseguirem ocupar,
monopolizando o discurso com o seu linguajar distópico.
Uma sociedade onde os erros e pecados do passado são
vislumbrados, no presente, como virtudes, tem muito a
dizer do caráter individual dos seus cidadãos, ao
sentenciarem por ignomínia a moral e enaltecerem a
perversão como honrosa; o mal se tornando em bem, e o
bem em mal, explicando a incapacidade da maioria de
entender a realidade, ao enveredar por uma busca
quixotesca de negar a todo custo a verdade. E, se ela não
existe, como se faz primordial para vindicar a panfletagem
ideológica, o bem, o mal, o certo, o errado, o lícito e o ilícito
serão apenas faces de uma mesma moeda, dependendo de
quem as olha e para qual lado são lançadas. Tudo passa a
ser permitido, em um ápice de egoísmo, narcisismo e
megalomania emporcalhada pela independência: a tão
sonhada autonomia que iludiu o homem, desde os
primórdios, a cogitar-se livre de Deus.
Deus é o obstáculo a impedir o homem de colocar em
prática toda a sua maldade interior. Negá-lo é condição
essencial para a alma enferma se “libertar”, aprisionando a
consciência, o espírito, que reivindicarão a alma como
companheira de cela, muito antes de ela se dar conta de
que a aparente autossuficiência era outra armadilha para
uma reclusão ainda mais dolorosa, mais limitadora, e o
círculo se fecha... de onde se começou não se sai.
As ciências humanas tentam, a todo custo, fazer o
homem acreditar em um sonho autonômico, quando está a
perscrutar o pior dos seus pesadelos. Nenhum homem é
livre de Deus, nem pode sê-lo, mas a inimizade é tamanha
(uma obsessão a corroer a alma), que mesmo se Deus
aparecesse, frente a frente, ele não o reconheceria, como
não reconheceu a Cristo, porque significaria a ruína do seu
desejo, do seu prazer, da autoidolatria[42] construída como
um castelo de cartas, a soçobrar diante do vento mais
tênue.
Portanto, faz-se necessário criar um novo modelo social,
no qual o homem seja o centro, e o iluminismo se
encarregou de fazê-lo, o liberalismo tratou de vesti-lo e
adorná-lo, enquanto o marxismo desnudou-o, aprisionando-
o em nome do coletivo, na sua própria nudez. Se antes
havia o apelo do indivíduo, agora existe o apelo da massa,
inidentificável, anônima, a rosnar como bestas diante do
osso.
O modelo desejado para a sociedade é o marxismo,
mesmo em suas variantes; o mesmo implementado na
extinta URSS, por Lenin e Stalin; na China, por Mao; em
Cuba, por Fidel e Che Guevara; no Camboja, por Pol Pot; e
em tantos outros lugares, é o mesmo ideal maquinado pelo
ateísmo moderno: para aniquilar a ideia de Deus é preciso
exterminar o homem como imagem divina, ao não permitir
que ele reflita, raciocine, mas tenha seus pensamentos
reduzidos a um padrão de indiferença, onde todos estarão
confinados ao modelo unificado de comportamento e
expressão: a submissão cega ao instinto assassino.
Milhões de pessoas sentiram na pele a ideologia de Karl
Marx, o controle do Estado sobre a sociedade e o indivíduo,
a impossibilidade de se “escapar” com vida desse sistema a
não ser rendendo-se incondicionalmente, sendo controlado
por completo pelas forças de “libertação”, fazendo do
homem uma simples máquina a serviço da vontade
burocrática e doentia dos tiranos. Isso é fruto de um
irracionalismo voluntário, da falta de discernimento
analítico, o aniquilamento do senso crítico, da razão,
tornando homens em manadas de idiotas, bestas servis,
verdugos obstinados, mentirosos contumazes e covardes,
na ilusão de, ao agirem assim, estarem militando um grau
de independência somente reconhecível em seus cérebros
obtusados pela insanidade, esquizofrenia e a perda
completa do sentido de realidade e verdade, levando-os a
uma moral relativa, posta em suas mentes sob controle, no
qual o instinto próprio de sobrevivência se perdeu em meio
ao discurso coletivista e politicamente correto de
autonomia, quando, nem mesmo os escravos sujeitavam-se
à prisão, fugindo sempre que pudessem.
Reclamam, debocham dos cristãos, ovelhas do Senhor;
sem perceberem, aplicam-se em si mesmos o veneno que
julgam aplicarmos em nós, posto servimos de bom grado,
alegres e ordeiros ao Deus todo sábio, perfeito, santo e
bom, enquanto eles se sujeitam às mentes mais perversas,
doentias e asquerosas que existem. Cauterizados, a ponto
de desejarem e acostumarem-se tanto com o mal que,
quando alguém lhes faz o bem, revoltam-se indignados,
creditando nesse bem o mal, enquanto se deleitam na
aflição da própria carne e alma.
O Estado não serve, precisa ser servido em sua
voracidade perversa; o Estado não admite Deus, mas quer
se fazer um; o Estado não pretende ter cidadãos, mas
escravos; não aceita nada menos do que o seu ideal
maníaco de onipotência e onipresença por intermédio das
massas. Da mesma forma, o “gene egoísta” é a nova
desculpa para que o Estado controle, domine e subjugue o
homem. E a desculpa é sempre a mesma escandalosa
mentira: assim é melhor!... Assim se constrói uma
sociedade justa!... Assim o homem vê, enfim, a sua
liberdade!... Mas, para quem?
Não muito distante desses, a loucura do neoateísmo
simplesmente revive conceitos experimentados e
fracassados à exaustão, como se fossem novidade, e torna-
se essencialmente aquilo que diz combater. Será que os
novos ateus pretendem reescrever a História ou ficarão
apenas na idade média, em especial no período negro da
inquisição? Se o falso cristianismo existe e é injusto, há,
contudo, o verdadeiro cristianismo, o qual é justo. Mas o
que dizer do marxismo? Que nada mais é do que o
materialismo levado às últimas consequências? O
naturalismo em sua expressão mais virulenta e odiosa? Em
qual lugar, onde foram instalados, houve justiça? Ele apenas
promoveu e ainda promove a injustiça em sua sanha
compulsiva, em sua máxima descrença de Deus e dos
valores cristãos. Ateísmo e marxismo são irmãos siameses a
serviço do mesmo senhor: o diabo! Que não é muito
original, mas vem pregando a mesma peça, desde o
princípio, sem deixar de ser eficiente. Parece que o homem
não aprende com os seus próprios erros e insiste em
cometê-los repetidamente para provar a sua própria
incapacidade de compreender e aprimorar-se. Ele acaba por
entregar a sua consciência e honra, abdicando da graça
divina, por um prato de lentilhas, tal qual fez Esaú
vendendo a sua primogenitura para Jacó (Gn 25.24-34).
E como tal, não prescinde a fé, mas vive por ela...
equivocadamente, diga-se de passagem, posta num ídolo
de barro. No caso de Esaú, o desejo saciado, mas a alma
afligida; no caso do homem moderno, o desejo é a repetição
constante dos apetites insaciáveis, da compulsão
desmedida, da desordem interior, que ao negar a fonte de
água viva, Cristo, em seu desespero, cava poços profundos
em terreno árido, sem que o seu coração se satisfaça, mas
se mantenha sedento.  
O objetivo das ideologias, sejam darwinistas, marxistas
ou outra qualquer, não é provar a verdade ou a realidade
das coisas   (embora tentem fazê-lo dissimuladamente, em
contraste aos pós-modernistas), muito menos trazer alívio
para a alma, conhecimento de fato ou um estilo de vida
melhor, saudável e honesto em si mesmo, mas apresentar
um sofisma a fim de manter o homem distanciado da
verdade, confirmando-se, assim, cada vez mais a
hostilidade a Deus.Na verdade, hostilidade chega a ser um
eufemismo, dado o ódio frívolo e injustificado do homem
natural ao Criador. Se o amor é a consequência natural do
conhecimento, e o conhecimento não pode ser obtido pela
simples rejeição, pela negação, como consequência de uma
série de formulações precipitadas, fruto do caráter
empantufado, o afastamento da pessoa ou objeto a se
conhecer, torna-se evidente que o ódio, como desejo, é
fruto do não-conhecimento, o conhecimento imperfeito, ou
a ignorância em relação à pessoa ou objeto.
Com isto, não estou dizendo que todo ódio, raiva ou ira
tem como pressuposto o desconhecimento, mas que,
mesmo para se odiar é preciso haver um tipo de intimidade,
se não for no trato, ao menos quanto aos atos e
informações necessárias a fim de se formar um juízo
correto, e não se entregar as conjecturas, a presumir de
alguém aquilo que esse alguém não é. O ódio, como um
simples desejo (e me parece ser esse o ponto central dos
ateus e antirreligiosos), é o reflexo direto da imperfeição
humana, incapaz de amar, de entregar-se ao conhecimento
verdadeiro, para abandonar-se ao embuste, a uma imagem
especulada, um delírio sofístico, onde uma ideia subsiste
apenas pelo desejo e não pelo conhecimento, que é o
verdadeiro desejo de travar intimidade, averiguando,
distinguindo, honesta e diligentemente, o âmbito de tudo o
que envolve essa relação.
É impossível ao homem justificar o seu ódio a Deus a
partir do ser divino, pois este lhe é estranho, incógnito, visto
que Deus se deu a conhecer a quem quis, e somente
através do seu Filho Jesus[43]. Por isso, toda a campanha
impetrada pelos homens tem como base a própria
ignorância como justificativa (não como argumento, mas
como fato), pois o conhecimento de Deus somente pode
levar ao desejo lícito, e ao fato concreto, de amá-lo assim
como ele ama. Deus ama a quem conhece na intimidade,
que parte, ou provém, dele para os seus amados; e é um
amor tão absolutamente divino que se torna impossível não
o amar. Não um amor idílico, irreal, mas factual e vivo. E aos
que não o amam, pois não o conhecem, resta-lhes apenas o
desejo cobiçoso de rejeitar o Deus verdadeiro e em seu
lugar erguer um ídolo. Em linhas gerais, a idolatria é a
impossibilidade de se conhecer a Deus e estabelecer com
ele uma relação pessoal, essencial, cuja característica é
requerida pelas qualidades divinas, e não os nossos
supostos predicados. Como Agostinho de Hipona definiu
precisamente, o mal é a ausência do bem, e sendo Deus
todo o bem, é a ausência de Deus; e se há em nós algo de
bom, esse bem procede de Deus. Portanto, o amor ao Deus
absoluto somente pode existir se o homem negar o falso
amor (como um simples desejo) e entregar-se ao verdadeiro
amor, aquele revelado na encarnação, vida, morte e
ressurreição do Filho. Ele é o único capaz de atrair e
desnudar o amor trinitário. Se ele não o fizer, ninguém pode
fazê-lo. Mas ele o faz, revelando-se àqueles que são amados
de Deus; por isso, não se recusou a descer da sua glória,
rebaixando-se em amor e por amor dos seus escolhidos.
É esse o amor real, não um mero sentimento ou desejo,
mas a efetiva, nítida e real concepção do amor verdadeiro.
Se o homem não o experimenta nem o conhece, resta-lhe
apenas o desgosto; então o ataque é despropositado,
insolente, desmensurado. O que me leva a pensar em outro
ponto: por que a intransigência e obstinação inimiga à
Deus, persiste e acentua-se em muitos, de forma que,
mesmo passados anos, o ódio persistente não arrefece, nem
se dispersa?
É preciso, primeiro, falar novamente da Queda. Foi ali, no
Éden, que o homem deixou-se entregar ao seu desejo, um
desejo perverso de ser como Deus, rebelando-se,
transgredindo a sua lei. Nesse momento, Adão e Eva
abandonaram a perfeição criada por Deus para entregarem-
se à imperfeição, negando a verdade e realidade pelo
desejo, que mesmo sendo irreal, levou-os à dura realidade
de inimizade e separação de Deus, ou seja, a morte
espiritual, mas também física. O homem estava condenado
por seu próprio capricho, pelo desejo intangível de ser o que
não era, não se contentando com o que era, e
transformando-se em arremedo de si mesmo. Ao cobiçar o
que lhe era proibido, a satisfação do desejo trouxe-lhe
apenas vergonha, medo e morte, o que pode ser notado na
sequência de desculpas esfarrapadas que o casal deu a
Deus como tentativa de justificar o pecado, a
desobediência, e o desejo injusto. O homem deixou de ser o
que era, para se tornar o que não era, fazendo-se a antítese
do que fora; trocando a amizade pela inimizade, o favor
pelo dano, a certeza pela insegurança, a ordem pelo caos, a
vida pela morte.
O homem não pode, por seus próprios meios, voltar ao
que era, à perfeição do momento em que as mãos do Oleiro
o delineou. O homem só poderia ser ainda mais aquilo que o
desejo, como uma maldição, estabelecera por castigo,
punição, para o pecado. Cada vez mais, à medida em que
as gerações se sucediam, especializava-se no apuro da
perversão, da malignidade, do desprezo e oposição odiosa a
Deus. O homem, por si mesmo, estava condenado a uma
vida de destruição, tragédias, e o destino de caminhar até
as profundezas da corrupção. Não havia esperança, nem
conforto, nem alívio nele, somente o alastramento da dor,
das feridas, produzindo maldade sobre maldade, aflição e
angústia em uma existência permeada pela incapacidade
de voltar a si, ao que fora um dia; ao ponto de essa volta
sequer ser cogitada; não mais se lembrava do favor, da
graça, da benignidade, e da responsabilidade com a qual
Deus cuidava do homem. Ele se viu cada vez mais
abandonado em si mesmo, e por si mesmo, sendo um fardo,
uma desgraça sem reparação.
O homem não podia viver para si ou por si; então, quanto
mais distante daquele homem criado à imagem divina,
tanto maior o desejo de aniquilar o Imago Dei em si, quanto
mais autossuficiente e independente se considerava, tanto
mais abandonava o conselho divino em favor da sua falsa
sabedoria, quanto mais distante da ordem dada e mais
próximo da desordem almejada, tanto mais ingrato e tolo,
quanto mais fora de si, do homem criado à semelhança de
Deus, mais odiosa e repulsiva parecia-lhe voltar ao homem
perfeito. A verdade concreta do homem insuficiente sem
Deus trouxe à tona, pelo desejo mítico, a realidade de que o
mal fizera morada no homem e de que a sua alma estava
completamente entregue a um desejo perverso de
autonomia, o pesadelo da autojustificação sem que
houvesse a menor chance de reparação. Fatalmente
condenado, o homem estrebuchava em seus últimos
estertores de vida. O desejo, como uma mentira na qual se
fiou, afastava-o da verdade que não produziu, mas que lhe
cairia sobre a cabeça, como uma sentença definitiva de
morte. O castigo eterno não presumido, aproximava-se à
galope, a despeito da obstinada rebeldia de negá-lo, assim
como negou a si no passado, e o fazia novamente agora.
Foi Thomas Mann quem disse a seguinte frase: “Para
quem está fora de si nada parece mais detestável do que
retornar a si mesmo”[44]. Ainda que ele não esteja se
referindo à questão ora apontada, ao menos de maneira
explícita, pode muito bem nos servir de analogia, quando
confrontamos o homem perfeito, Jesus Cristo, o segundo
Adão, com o próprio Adão e a raça humana. O homem sem
a manifestação do poder do Espírito em sua vida é apenas
um teimoso, envolvido em sua própria teimosia de odiar e
ter aversão ao Homem perfeito que também é o Deus
perfeito (e por ter a absoluta perfeição). Assim, o homem
natural e caído satisfaz-se no desejo alcançado da
imperfeição.
Ao não desejar o que deveria, ele nega, pelo próprio
desejo, a autonomia que diz ter, revelando o escravo que é,
servo do pecado, sujeito a ele como o mais submisso dos
criados. Por isso, o cético se atreve a empreender a sua
cruzada “anti-Deus”, onde não existe apenas a inimizade
contra o Criador, mas a ferocidade arrogante de não
reconhecer a própria destruição.do leitor. De maneira geral, foi
um misto de gozo e angústia intentar o exercício de trazer à
luz o que existia apenas em esboços e linhas mal
delineadas.
Entretanto, devo ressaltar que nem todo o material,
constante nestas páginas, é exclusivo das lições
apresentadas no T.B.B.; há uma boa parte de trechos
escritos “a posteriori”, alguns pensamentos “a priori”, e
reflexões complementares acrescentadas ao corpo inicial, à
medida que a obra tomava forma, como consequência
necessária da sua redação; proveniente, em caráter único,
das minhas considerações sobre os diversos temas
propostos, não existindo qualquer comprometimento da
liderança e membros do T.B.B. nas conclusões e no produto
final apresentado, sendo, portanto, de minha inteira
responsabilidade o que se vos apresenta.
Contudo, não poderia deixar de agradecer a cada um dos
contribuintes e corresponsáveis diretos no arremate desta
obra, não necessariamente no que se encontra expresso,
mas através das participações frequentes nas aulas, em
conversas ocasionais e indicações de textos e obras. Seria
injusto se, em especial, não creditasse ao pastor Luiz Carlos
Tibúrcio, irmão e amigo, o estímulo necessário para
desenvolver este plano, ao convencer-me, sete anos atrás,
a aceitar a incumbência de tornar-me professor. Com ele,
também, tenho aprendido muito, ainda que algumas coisas
me sejam incompreensíveis no momento, por conta de
minhas próprias deficiências, ressaltando a sua paciência
insistente em não abandonar-me; e, ainda, ao amor e
auxílio fraternal da igreja, sem os quais não se alcança
qualquer conhecimento espiritual, nem experiencial, da
autêntica vida cristã, somente possíveis no corpo local, pela
união promovida por Cristo, de fazer para si um povo e de
levá-lo à comunhão íntima com seu Santo Espírito. Como
sempre digo, não há divergências, nem algum problema,
que não seja dissolvido pelo amor do Senhor, o qual nos une
e nos mantém unidos.
É com grande alegria que entrego estas páginas ao leitor.
Durante mais um ano, após o término letivo, estive
envolvido com este projeto de agrupar, acrescentar e burilar
os esboços servidos de aulas; algo por completo inusitado
para mim, havendo um determinado momento no qual
considerei quase impossível concluí-lo, dada a insatisfação
com uma ou outra parte do texto, mas que, pelo favor
divino, foi possível chegar a termo, e um desejo, por fim,
realizado. Vê-lo, agora finalizado, é a demonstração da
graça e bondade divina para comigo.
Oro, do fundo do meu coração, para o Senhor utilizar
este instrumento na edificação da sua santa igreja, e para a
sua honra, porque “nele vivemos, e nos movemos, e
existimos”[2]; e a Cristo seja dado todo o louvor e glória,
eternamente!
"Se obedecemos a Deus desobedecemos a nós
mesmos; e é no desobedecer a nós mesmos que está a
dificuldade de obedecer a Deus."
(Herman Melville, Moby Dick)
INTRODUÇÃO
Preâmbulo
Esta carta não recebe, entre a maioria dos cristãos, a
devida atenção e o reconhecimento a que faz jus e que
deveríamos consagrar. Muitos a leem superficial e
rapidamente; talvez pela ideia de que, sendo o seu tamanho
limitado (apenas 25 versos), não contenha algo de
importante e profundo, ou uma doutrina bem elaborada,
como se observa nas cartas paulinas. Nestas, temos uma
riqueza doutrinária exposta de maneira ampla e detalhada,
levando-nos a investigar seu conteúdo com muito mais
disposição e empenho, escrutinando-as meticulosamente,
saboreando sua sabedoria e profundidade em cada verso.
Em contrapartida, quase negligenciamos as poucas linhas
de Judas, quando não as tratamos com falta de apreço em
nossos estudos, meditações e pregações, intensificando
ainda mais, no cristão, o desleixo. Abre-se, assim, uma
lacuna nas Escrituras na qual silenciamos a voz de Deus,
impedindo-o de falar-nos através desse escrito.
 
Talvez o motivo seja o fato de ela ter sido uma das
últimas cartas a integrar-se ao Cânon Sagrado, sendo alvo
de alguma disputa nos primórdios do Cristianismo. Talvez,
ainda, porque Judas se utilizou de fontes apócrifas no texto,
o que não significa, necessariamente, inverdade, porque em
nada contradiz e diverge da unidade sobrenatural da
Escritura Sagrada. Pode ainda ser que a máxima “tamanho
não é documento” seja desprezada ao deparar-se com ela e
muitos considerem a carta sem relevância para os dias
atuais, fato a demonstrar, no mínimo, um desconhecimento
monstruoso do quanto Deus pode revelar aos seus filhos em
escassas linhas, que, no entanto, exalam o perfume bom e
fundamental do Evangelho de Cristo.
Certo é o fato de que nada disso retirar o seu caráter
divinamente inspirado, a sua conformidade e a unidade com
os demais livros canônicos; antes, ela torna-se um
documento precioso e indispensável da história Cristã e da
revelação especial, ao abordar pontos importantíssimos e
caros à fé, alguns deles negligenciados em nossos dias,
figurando como objeto de desprezo dos obstinados e tolos,
os impostores da fé.
À medida que se lê, medita, e analisa-a com diligência,
deparamo-nos com a riqueza daquilo revelado por Deus ao
seu povo, por intermédio de Judas.
Escrita de forma objetiva e direta, ainda assim podemos
compará-la a um verdadeiro tratado apologético, se não
procedermos de forma negligente e inconveniente em
relação à sua mensagem; uma mensagem cuja intensidade
e profundeza encontra-se na exortação e alerta à igreja
sobre a necessidade de desvelo e vigilância para com a sã
doutrina. Reputar-lhe o seu devido valor é essencial para o
saudável exercício da verdade, e “a batalhar pela fé que
uma vez foi dada aos santos”[3].
Nela não há nada que divirja ou contradiga algo dito e
descrito na Palavra de Deus, tornando-a legítima,
verdadeira e confiável integrante do Cânon sagrado.
Principalmente em seu aspecto firmemente exortativo e
apologético, na defesa da fé e no combate aos falsos
mestres e doutrinas, a carta revela o perigo real dos servos
de Satanás que, ardilosamente, se infiltravam na igreja a
fim de compeli-la a sujeitar-se aos desejos do seu “mestre”:
perverter a graça e causar divisões entre os irmãos. Então,
Judas, conclama e desafia-os a batalhar pela fé, servindo ao
único Senhor e Mestre, Jesus Cristo; resguardando e
protegendo-se, como “ekklésía”, dos ataques heréticos
promovidos pelos apóstatas que rejeitavam o Filho em
princípios e na prática.
Autoria, data e destinatários
O autor, que dá nome à carta, provavelmente é o irmão de
Tiago, o primeiro bispo de Jerusalém, cuja citação, sem uma
especificação detida, indica certamente ser “Tiago, irmão do
Senhor”. Somente este Tiago poderia ser citado sem a
necessidade de acréscimos à sua identidade, visto possuir
uma relevância ímpar na Igreja Primitiva. Desta forma, Judas
configura-se como o meio-irmão do Senhor Jesus, filho de
José e Maria (Mt 13.55; Mc 6.3) que, até antes da sua
ressurreição, como os demais irmãos, não acreditava em
Jesus como o Cristo, o unigênito Filho de Deus.
Pode-se afirmar que, pelo fato de Judas ter negado a
Cristo, enquanto este realizava o seu ministério terreno,
achou por bem não se colocar como o seu meio-irmão; em
atitude humilde, não reivindicou o parentesco com o Senhor.
Porém, alguns apontarão o contrário, pois, ao revelar-se
irmão de Tiago, indiretamente reclama para si o parentesco
com o Senhor, inferência com a qual não concordo, visto
ser-lhe mais prático, caso quisesse realmente reivindicá-lo,
fazê-lo sem que houvesse qualquer dolo ou culpa.
Entretanto, notadamente temos a sua preferência ou
predileção por ser reconhecido como “servo de Jesus
Cristo”, de novo revelando a sua reverência e submissão ao
Senhor.
Apesar de ser um nome comum entre os judeus, cuja raiz
vem do Hebraico “Yada”, variante de Judá, significando “dar
graças, louvor, elogio, glória a Deus”, este Judas distingue-
se de muitos outros citados no Novo Testamento, como o
Tadeu ou Lebeu (Mt 10.3), o qual era apóstolo, umComo uma nuvem opaca a
envolver seus olhos, diz odiar o que é incapaz de crer, para
entregar-se ao desejo de não crer, ou conhecer, e odiar
como a afirmação da própria ignorância. E se esse homem
está a navegar em um mar de muitas possibilidades, põe a
sua segurança em um barco sem velas, motor, quilha ou
timão; está à deriva, e ainda se considerará o senhor do seu
destino. Se a graça de Cristo não o encontrar e o socorrer,
não lhe restará outra coisa a desejar além de mais ódio,
contra todos, contra tudo, até mesmo contra si (o ódio
implícito que o faz entregar-se ao desejo explícito de rejeitar
e negar a realidade divina). No final, o ódio lhe bastará para
fugir da obrigação de encontrar-se naquele que é tudo, e
pelo qual vivemos, nos movemos e existimos. O desejo jaz
nesse homem, obrigando-o a renunciar a qualquer
possibilidade de se tornar em o homem santo e perfeito, e a
não cuidar de si. E os subterfúgios que utilizará apenas o
farão não reconhecer o crime, mas não o impede de ser
condenado como criminoso.
A campanha impetrada não tem contornos sutis, ainda
que possa surgir dissimuladamente sob o rótulo de
“autoridade”, “academicismo” ou “erudição”.
Torna-se evidente, porém, que o seu combate à religião
nada mais é do que uma disputa contra o Criador (que, em
seus delírios, acreditam possível), um ataque direto ao Deus
pessoal, Senhor de todas as coisas, soberano e todo-
poderoso. Assim, erigem um outro “deus” na forma do
racionalismo, da ciência, dos ETs ou qualquer outra coisa
que indique a superioridade humana diante de um mundo
inexplicável e sem sentido, caso Deus estivesse realmente
morto, como eles querem e apregoam. Na sua essência,
estão excessivamente obcecados pela finitude, aparência e
o formalismo, em detrimento ao infinito, espiritual e
sobrenatural, cujas marcas fazem-se presentes não apenas
no atual século, mas nos passados e vindouros.
Contra a mentira e a impostura, o crente é chamado a
batalhar pela fé, não pela morte e erradicação dos ateus,
céticos ou relativistas e marxistas, mas para mostrar a
superioridade do Cristianismo, não como um “balaio de
gatos” ou um guarda-chuvas onde qualquer um,
minimamente conhecedor ou mesmo ignorante das
Escrituras, possa abrigar-se em comodidade, em nome de
um pluralismo que faz apenas desconsertar, confundir e
diluir quanto à verdade, fazendo da fé algo impessoal,
descartável, passiva, estagnada. Não![45] O Cristianismo
bíblico não é, e nunca foi, um lugar aprazível, idílico, no
sentido de ser aceito sem resistência espiritual e, muitas
vezes, também física.
Como Jesus disse:
“Tenho-vos dito estas coisas para que vos não
escandalizeis. Expulsar-vos-ão das sinagogas; vem mesmo a
hora em que qualquer que vos matar cuidará fazer um
serviço a Deus. E isto vos farão, porque não conheceram ao
Pai nem a mim... Tenho-vos dito isto, para que em mim
tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom
ânimo, eu venci o mundo” (Jo 16.1-3, 33).
Pois, onde está o nosso inimigo? Se não o vemos, seja
por estar camuflado ou fingindo-se amigo? Contra quem
lutaremos se não podemos identificá-lo, reconhecendo, ao
contrário, que todos são nossos amigos? Se Cristo veio para
revelar as trevas e destruí-las com a sua luz, por que
dizemos ver, ao nosso redor, uma bruma na qual não
distinguimos um palmo à frente do nariz? Se não somos
perseguidos, nem escorraçados, ou presos e condenados
por nossa fé, é sinal de que somos aceitos pelo mundo, ou o
mundo está fazendo-se de tolerante e amigo para impedir-
nos de combater o bom combate e guardar a fé? (2Tm 4.7).
À frente analisarei mais detidamente essa questão.
PARTE TRÊS
LOBOS ENTRE OVELHAS
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
"Porque se introduziram alguns, que já antes estavam
escritos para este mesmo juízo, homens ímpios,
que convertem em dissolução a
graça de Deus, e negam a Deus,
único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo"
A Guerra Dentro Da Igreja
O autor revela-nos então o motivo do seu chamado a
batalhar pela fé, porque introduziram-se no seio da igreja
homens ímpios, profanadores e detratores dos
ensinamentos de Cristo. Satanás tem muitas formas de
afligir os crentes, de perturbá-los a fim de demovê-los da fé.
Felizmente, como o autor disse outrora, estamos guardados
e protegidos por Cristo, o que, contudo, não impede o
inimigo de atentar contra nós. E uma das maneiras mais
sutis e perspicazes com as quais ele se investe contra os
santos é a de introduzir entre as ovelhas do Senhor seus
agentes, os lobos e bodes cruéis, que buscarão a todo custo
dispersar e transtornar o rebanho, sem piedade e sem
poupá-lo (At 20.29).
Atentemos para o alerta de Cristo quanto à vigilância e
prudência, ao designar-nos como seus mensageiros no
mundo:
"Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos;
portanto, sede prudentes como as serpentes e simples
como as pombas" (Mt 10.16).
Havia uma preocupação com os seus servos e o modo
como reagiriam quando postos diante das iminentes
vicissitudes em decorrência de uma vida cristã fiel e
empregada na propagação do Reino, ou quando
confrontados pela incredulidade, perversidade e doentia
oposição dos inimigos. O que aconteceria ao serem
injustamente acusados, injuriados, perseguidos, açoitados,
encarcerados e mortos por causa do evangelho e ao
professarem o nome do Santo?
Naquele momento, em que a Palavra era primeiramente
pregada e alcançava as trevas dissipando-as com a sua luz
ofuscante, o cuidado era de que, primeiro, os discípulos não
fossem pegos de surpresa e soubessem o que haveria de
lhes acontecer.  No caso de Judas, o alerta referia-se ao
cuidado e zelo para com aqueles que adentravam a igreja
com o nítido desejo (ainda que dissimulado, velado), de
destruí-la; pois, se antes a guerra era no mundo, com
aqueles que odiavam e queriam destruir a igreja com suas
perseguições, prisões, execuções, mentiras e infâmias,
agora o combate ganhava um novo espaço. Precisamente,
ocorria dentro da igreja, não mais por aqueles que odiavam
o Corpo de Cristo, mas por aqueles que se fingiam, e
diziam, ser um dos seus integrantes, afirmando amá-lo, mas
querendo transtornar-lhe os sentidos, num regresso ao
mundo perdido, à consciência perdida e distante de Deus.
Não queriam outra coisa a não ser extinguir a chama do
Espírito, fazer os cristãos voltarem ao que eram, às práticas
abomináveis do paganismo, subvertendo a ordem interior
em direção ao caos moral, ético, abdicando dos direitos
recebidos por Cristo e sua pregação, negando os deveres
igualmente recebidos. Se, por um lado, havia uma excessiva
espiritualização deflagrada pelo gnosticismo e um
afrouxamento do caráter, por outro lado, exigia-se o
cumprimento legal de práticas antigas e abolidas pelo
Senhor, o farisaísmo, como sombras dissipadas pela luz. Em
meio a esse redemoinho de ideias e propósitos,
encontramos a igreja no centro das ações, sendo alvejada
por todos os lados.
Se antes os atos maléficos eram facilmente identificáveis
através dos algozes e a face do inimigo podia ser vista com
nitidez, em sua provocação e crueldade explícitas, nesse
momento, as heresias e apostasias eram sutilmente
plantadas, com ares de piedade e até mesmo de serviço a
Deus. No entanto, os inimigos de Cristo negavam a eficácia
da Palavra[46], porque nunca poderiam chegar ao
conhecimento da verdade, posto viverem em corrupção de
entendimento, reprovados quanto à fé, e no intuito de
desestabilizar o rebanho, dispersam-no, para destruí-lo mais
rapidamente (2Tm 3.5,7,8).
O inimigo, que anteriormente não se camuflava, mas
fazia questão de mostrar os seus verdadeiros intentos,
agora estava disfarçado de ovelha, introduzira-se entre os
santos, dissimulando os seus infames empreendimentos
com o fim de afastá-los do único capaz de protegê-los, o
Bom Pastor (Jo 10). Se antes a batalha era no campo do
inimigo, agora ela se dava dentro da igreja. Se antes era
exterior, agora era interior. Por isso o autorfalou de homens
ímpios que converteram em dissolução a graça de Deus,
negando-o. Ora, subentende-se que aquele que anula a
graça divina nega a Deus, pois não é possível reverenciá-lo
negando a sua eficácia. De outra forma, se tomarmos a
expressão “Graça” por evangelho, não é possível ao homem
que despreza, transtorna e corrompe a palavra de Deus
tornar-se um adorador ou súdito. Se existe desprezo à
doutrina revelada especialmente, não há de se reconhecer o
seu autor. O que muitos desavisados fazem é validar uma
suposta fé verbalizada, a fim de camuflar a rebeldia e
desprezo aos mandamentos e preceitos divinos.
Como também nos foi dito pelo Senhor:
“Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração
está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando
doutrinas que são preceitos de homens” (Mt 15.8-9).
E ainda, outra vez:
“Se vocês me amam, obedecerão aos meus
mandamentos” (Jo 14.15).
Então, como posso negar as leis e não negar o seu autor?
Como se pode afirmar o amor a Deus, rejeitando a sua
palavra, e pretender cumpri-la? É possível descumprir os
preceitos e honrar o seu criador?... Subsiste uma tentativa
sutil de legitimar a mentira e a impostura, dizendo-se
honrar aquele que as proíbe e odeia.
Talvez, por isso, haja cada vez mais uma difusão da ideia
de o crente não precisar da sã doutrina, de ela ser coisa de
homens, bastando um espírito amoroso para se estar ligado
a Deus (sendo o amor aqui o salvo-conduto para o desleixo,
a indolência, a inépcia, o engano, a dissolução, o pecado, a
heresia). Como nunca, tem-se intensificado o espírito na
igreja de que os sentimentos e emoções são o norte pelo
qual o crente deve se guiar, numa inversão de princípios
absurda, na qual sinceridade e verdade se tornaram
sinônimas. Quase nenhuma doutrina deve ser defendida e,
quando muito, cabe a cada um saber em qual aspecto ela
lhe é interessante ou não, deve ser descartada ou não,
sempre moldada ao apelo ou desejo pessoal; em uma
equação proporcional na qual, diminuindo o fervor e o
estudo da Bíblia, aumenta-se o número de crentes fracos,
inseguros, supersticiosos, moldados segundo os seus
desejos e se tornando presas fáceis para as astúcias
malignas. Quando a igreja despreza uma ordem direta do
Senhor de que o evangelho deve ser proclamado e
ensinado, fazendo-se discípulos (Mt 28.18-20), a
proximidade com o mundo será mais intensa e menos
distinguível.
Por outro lado, há aqueles que, alcançando a liderança,
sutilmente corrompem o evangelho, substituindo a
exposição da palavra, o louvor verdadeiro, a reverência e
temor necessários pela efusiva apelação a métodos
estranhos e danosos, numa overdose de frases, músicas e
ensinos com o nítido objetivo de afagar o ego, relativizar a
realidade, dissuadir a consciência da verdade, mantendo o
homem em estado de resignação, na quase satisfação (se
fosse possível) quanto à sua condição pecaminosa e
inimizade com Deus. Esta, em linhas gerais, é a grande
capacidade da heresia de se reformular e se aproximar da
verdade, fazendo com que as diferenças pareçam
insignificantes – no fundo, tornam-se a mesma coisa, aos
olhos ansiosos pela sedução –, acompanhada de um
compêndio de justificativas insanas e perigosas, tornando-
as ainda mais diabólicas. Se antes havia a doutrina bíblica,
agora não existe mais, e o que não era doutrina bíblica
transforma-se na própria maldade pelas bocas de seus
defensores; acreditando ser possível redefinir as palavras do
Senhor:
“Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a
árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar
maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons” (Mt 7.17-
18).
Nesta linha de raciocínio, seriam capazes de pular da
Torre Eiffel em pelo e sair voando como pássaros. Porém, se
apenas os morcegos, aves e insetos têm o dom natural de
voar, é crível uma árvore má dar bons frutos? Pelo contrário,
ela será cortada e lançada no fogo (Mt 7.19); porque é
impossível, sem conversão, que o homem natural dê “frutos
de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de
Deus” (Fp 1.11).
Não contente em ter o inferno, querem dividi-lo com o
máximo de pessoas disponíveis e, num “jogo de cartas
marcadas”, onde o blefe, a imitação, é a tônica das suas
ações, promovem as obras da carne, em evidente intenção
de iludir para enganar, as quais são:
“Adultério, fornicação, impureza, lascívia, idolatria,
feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas,
dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices,
glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais
vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem
tais coisas não herdarão o reino de Deus” (Gl 5.19-21).
Esquecem-se, porém, de que, “tudo o que o homem
semear, isso também ceifará” (Gl 6.7). Creem plantar para
outros a condenação, mas acabam por plantá-la a si
mesmos, havendo uma difusão da cegueira tal que,
tateando em trevas, estão certos de não exporem a própria
escuridão.
Assim, com o objetivo de combater a verdade, incitam,
pregam e vivem a mentira, enquanto a verdade é
desprezada, tornando-a antiquada e irrelevante.
Infelizmente, esses falsos mestres penetram nas igrejas
como crentes estabelecidos, autoridades, que, via de regra,
são reconhecidas pelos seus feitos e ganham a atenção
especial da comunidade cristã, de modo que seus ensinos
espalham-se como erva daninha, alastrando os seus
sistemas de heresias, através de uma rede de
deslumbrados, estultos ou crédulos, empenhados em
propagandear os objetivos importunos, nocivos e
artificiosos, traindo a boa-fé e ingenuidade irrefletida da
igreja, que tem como aliada inestimável a ignorância das
Escrituras.
Sutilmente a heresia contamina-as, pouco a pouco,
tornando-a popular exatamente por ser “quase” a verdade e
se amoldar perfidamente à natureza caída do homem (um
misto de arrogância e autossuficiência capaz de implodir
definitivamente a “imago dei” existente). O homem, por sua
vez, é incapaz de vê-la, e mesmo os que a veem, por sua
perspicácia, acabam por considerá-la inofensiva ou uma
verdade recriada, uma espécie de “Frankenstein
teológico”[47].
Para eles, existe a verdade sem Deus ou Deus sem a
verdade; mas a verdade sem Deus não existe, nem Deus
sem a verdade, porque a primeira não passa de abstração,
a loucura máxima a que o homem pode atingir, enquanto a
segunda é a blasfêmia em sua forma mais virulenta, a treva
mais densa na qual o homem pode penetrar; porque a
verdade, para ser real e não uma fantasia leviana, tem de
provir de Deus, o qual é a única verdade (Jo 14.6).
Para eles, a verdade não precisa ser defendida nem
proclamada, mas escondida a sete chaves como um tesouro
secreto do qual não se sabe o esconderijo nem se tem o
mapa. Outros alegam o fato de ela ser dependente do
veículo que a professa, ou seja, ela não existe em si mesma,
mas a partir da concepção e interpretação das pessoas,
podendo um mesmo fato ser verdadeiro para mim e falso
para alguém ao meu lado. Porém, por que devo aceitar essa
concepção, rendendo-me ao argumento do seu promotor,
se, em favor de si mesma, ela não pode alegar nenhuma
autenticidade, nenhuma razoabilidade? De que seja
verdadeira? Se não existe a verdade e tudo pode ser
moldado à minha intuição, como posso garantir que sou o
que sou? Mesmo sendo um demente, considerando-me um
cão ou uma palmeira, a despeito da minha incapacidade de
reconhecer-me, ainda continuarei sendo o mesmo homem,
vivendo o delírio de ser um animal irracional ou vegetal.
Nada, a despeito dos meus esforços, me fará tornar-me
qualquer um deles e aos olhos de todos continuarei
pertencendo à espécie humana. Não há convenções que
alterem isso, a menos que estejam desfocadas da realidade,
contaminadas pelo próprio vício de não desejarem ser o que
são.
Torna-se compreensível a insistência moderna na
relativização de tudo, pois, assim, pode-se viver com mais
intensidade aquilo que se é e tenta-se negar: uma alma em
profundo estado deagonia, de aniquilamento.
Há uma aglutinação de forças empenhadas em mistificar,
alegorizar, relativizando ou colocando certas passagens na
categoria de ficção ou fantasia, para justificarem a própria
rebeldia. Para isso, muitas vezes apelam para a polidez,
para a razão, ludibriando o interlocutor e escondendo a sua
intransigência, irracionalidade e descaramento, numa
perseguição insistente com a finalidade de destruir a fé,
trazendo para o seu círculo mais e mais filhos do diabo.
Mas, graças a Deus por nos dar a sua revelação, a Bíblia, a
qual é:
“Divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para
redarguir, para corrigir, para instruir em justiça; para que o
homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído
para toda a boa obra” (2Tm 3.16-17).
Para eles, a igreja não precisa da verdade. Como Paulo
diz, eles não suportarão a sã doutrina:
“Mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si
doutores conforme as suas próprias concupiscências; e
desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (2Tm
4.3-4).
Para que crer na verdade? Se pelo humanismo é possível
acomodar o homem no redil das incertezas, incitá-lo ao
pecado, à apostasia e ao nominalismo religioso?
Para eles o que importa é a aparência, a reputação, o
sucesso e a covardia de jamais admitir a cumplicidade com
o mal, tolerando-o utilitariamente a fim de obter seus
interesses pessoais, além de permitirem que todo tipo de
heresia substitua os princípios fundamentais da fé. Afastam-
se, assim, da revelação divina (não são precisas todas as
heresias; uma ou duas, são o bastante, e o trabalho sujo
estará feito) e da sua santidade prática. Pois o discurso, por
mais eloquente e belo que seja, jamais surtirá os efeitos
verdadeiros da sua pregação, não somente quanto ao
ensino equivocado, vicioso, mas também quanto à sua
realização e efeitos, não levando os perdidos e desgarrados
a Deus, nem o glorificando.
Para eles é fundamental abandonar a objetividade da
Palavra e uma vida santa e substituí-las pela subjetividade,
o egoísmo, o individualismo, o sentimentalismo e o
hedonismo como filosofias de vida, onde a dissolução e a
falsa liberdade os manterá em prisão, indo “de mal para
pior, enganando e sendo enganados” (2Tm 3.13).
Por quê? E qual a finalidade?
Muitos falsos mestres não se esquivam de reescrever a
palavra de Deus ao bel prazer, sempre com objetivos
escusos: enriquecimento, poder, fama, ou a propagação de
um “truque”. Sendo assim, ao diluírem a palavra de Deus a
fim de torná-la aceitável aos descrentes, esses líderes
buscam a aprovação dos homens negando a autoridade
bíblica e tornando-a o mais agradável possível ao mundo.
Com isso, rejeita-se toda a verdade colocando-a no rol dos
mitos: Cristo, o Espírito Santo, a expiação vicária, a
salvação, regeneração, santidade, e todo o conjunto de
doutrinas cristãs (inclusive a Eclesiologia), pois a negação
de qualquer um deles implicará na recusa inevitável do
próprio Deus.
Em nome da verdade, todo crente deve lutar contra a
heresia e a fraude perpetradas por Satanás e seus
discípulos (não digo que todos os erros são intencionais, por
dolo; muitos são apenas culpados de aceitá-los e difundi-
los); porque sempre teremos a segurança pela fé. Como
ovelhas, ouvimos a voz do Bom Pastor, somos conhecidos
dele e seguimo-lo, o qual nos dá a vida eterna, de modo que
nunca haveremos de perecer e ninguém nos arrebatará de
suas mãos (Jo 10.27-28). Esta é a mais indubitável e
sublime verdade, da qual muitos duvidam, o que os leva a
não querer ouvi-la, recusar-se a crer nela, com a simples
alegação de que é um dogma. Entretanto, pense um pouco:
se são estabelecidos antidogmas para negarem e anularem
outros dogmas, o fato de haver um dogma, por si só, não o
coloca na condição de falso, inventado ou distorcido. Para
avaliar sua legitimidade, deve-se considerar se tem
fundamento na palavra, se foi protegido pela Igreja no
decorrer dos séculos e se está em harmonia com o Cânon.
Se não reconhecermos como autoridade a Escritura
Sagrada, sendo ela proveniente do Deus bíblico, qualquer
tentativa de negação ou enfraquecimento do fundamento
fará ruir todo o edifício. Em outras palavras, se Cristo não
for o alicerce dessa casa, ela desabará por completo, não
sobrando nada além de escombros, poeira e entulhos nos
quais os hereges dizem-se firmados e estabelecidos.
Somente Cristo pode nos libertar das ruinas, através do
Evangelho. Sem ele, tudo é permitido, mas nada possível;
sem ele, a condenação é certamente a mais pura verdade,
a despeito de todas as negativas, suposições, dúvidas e
imposições, em nome da exaltação humana e do
rebaixamento divino, de um liberalismo intoxicado pelo ódio
à verdade em detrimento dos princípios da ortodoxia e
ortopraxia cristãs.
A heresia é uma conversão; um trajeto natural e
tortuoso, o caminho inverso pelo qual a igreja trilhará ao se
afastar da verdade, ao opor-se ao Evangelho, desprezando
Cristo, o qual revelou-lhe a própria desobediência:
“O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o
bem, e o homem mau, do mau tesouro do seu coração tira o
mal, porque da abundância do seu coração fala a boca. E
porque me chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu
digo?” (Lc 6.45-46).
Crer no evangelho, mas não o proclamar; crer em Cristo
como Senhor e Salvador, mas não o obedecer; ver a igreja
como uma extensão do mundo, colocando ambos em pé de
igualdade; não se preocupar em dar bons frutos, nem com a
conversão dos ímpios. Se seus pensamentos e ações são
norteados por essas ideias e atitudes, cuidado! Abandone-
as de imediato, rejeitando as mensagens tolas, psicológicas,
de autoajuda, despropositadas, sentimentaloides. Renuncie
à ideologia diabólica que o quer preso às armadilhas deste
mundo, proclamando um reino superior quando se está nas
profundezas abissais do inferno, mantendo-se perdido em si
mesmo como um cão cego e epilético a perseguir o próprio
rabo. Entregue-se à suave palavra de Deus e não faça
pouco caso da sua consolação. Arrependa-se e ponha fim
aos seus pecados e às suas iniquidades, praticando a justiça
(Dn 4.27).
Ouça o alerta: onde os princípios bíblicos encontram-se
corrompidos e demolidos, não sobra mais o que destruir.
Por fim, o autor aponta para algo que provavelmente já
acontecia em sua época, a descrença na divindade de
Cristo. Ao afirmar que negam a Deus, único dominador e
Senhor nosso, Jesus Cristo, fica evidente que essa era uma
dúvida posta sem escrúpulos, de maneira atrevida, a fim de
solapar as características distintivas da igreja, pelos
inimigos em seu seio.
Então, ele afirma a divindade do Filho, o domínio e o
senhorio do Filho, para que os irmãos, abalados pelas
dúvidas e em algum aspecto seduzidos pela heterodoxia,
soubessem que ali estava algo fundamental, a pedra sólida
da fé cristã, a pedra de esquina citada nas Escrituras de que
Cristo é Deus, criador de todas as coisas e mantenedor de
todas elas, Senhor de tudo e todos. Não havia porque
duvidar, nem vacilar ou transigir com a maledicência dos
impostores e sabotadores, rebeldes travestidos de servos,
por isso, o chamado à defesa da fé verdadeira, cujo
princípio essencial é Cristo, a Segunda Pessoa da Trindade
Santa; logo, o Filho é Deus.
Não entraremos nas várias heresias que tentam justificar
a não divindade de Cristo; esse não é o ponto abordado por
Judas. De forma direta e objetiva, ele alerta a igreja a não
cair na perversão de negar a união do Filho com o Pai e o
Espírito em essência, natureza e propósito, na qual a honra
e glória destinadas ao Pai, também são do Filho, como do
Espírito, pois os três são um (Jo 5.7)[48]. Não são três
manifestações ou estados de uma única pessoa, mas três
pessoas eternas, inseparáveis, porém distintas, sendo um
único Deus. E a verdade é que, ao tencionarem “criar” um
outro Cristo, não se aperceberam de que, acreditando terem
algo, não tinham nada, pois ou Cristo é o Filho de Deus,
sendo o próprioDeus, ou tudo o que imaginam dele, como
um simples homem, mestre ou espírito elevado, se dissipa
no ar como éter.
Tendo apenas uma imagem do que a fé pequena,
imperfeita e humana consegue vislumbrar, sem a
sublimidade e o selo do Espírito, o qual negam, esses
homens concebem o que desconhecem firmados em nada
além de si mesmos e seus pensamentos. Fazem as
deduções possíveis de mentes limitadas e conhecimento
incompleto, as quais relutam obstinadas em reconhecer a
verdade, por ser ela grandiosa e muitíssimo maior do que
apreendem[49]. Contudo, a ideia da “supremacia” da razão é
capaz de levar o homem ao pensamento mais reducionista
e falível, ao primarismo de sujeitar à sua autoridade aquilo
que, na verdade, é a autoridade sobre ele. Se for moldada
aos particulares e restritos limites das suas almas, tal
autoridade implicaria na inexistência da própria
humanidade, da vida. Por outro lado, a mente, se submissa
e cativa à Cristo, resultará na postura humilde de que não é
ela o princípio e o fim de todas as coisas e de que não
existe um tipo de fé inabalável no homem. Essa postura,
mesmo a uma distância infinita, faz com que esses homens
cheguem à conclusão de tudo se resumir ao tempo, e de
que, havendo tempo, todas as coisas serão explicadas em
seus mínimos detalhes.
Para aqueles que negam a Palavra de Deus, não existem
os efeitos noéticos do pecado. Tudo se resolverá, bastando
ao homem a persistência logévola, ou evolução, de modo
que ele acredita tenazmente na capacidade intelectual de
levar tudo a cabo, na certeza de ter o conhecimento, o
universo, e os mistérios a um toque dos dedos, como o
balançar de uma varinha de condão. Ao se levarem muito a
sério, não têm consciência da tênue linha na qual se
equilibram e de qual queda iminente se avizinha: esta será
uma queda sem volta, de onde não mais sairão, com tempo
suficiente para aprenderem, de si mesmos, o que são, e
como desprezaram e negaram aquele que é, e sempre foi, e
será (Hb 13.8). 
O problema está na incapacidade de se compreender a
dimensão infinita e eterna de Cristo, e, por conseguinte, da
Trindade. Como as bases do liberalismo e do racionalismo
sempre foram os limites da razão humana, e sendo ela
limitada, imperfeita, além de estar sob a égide do pecado,
torna-se muito fácil expurgar a verdade da Bíblia, bastando
para isso falseá-la com ares de intelectualidade e
academicismo; contudo, não disse o Senhor?
“Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que
ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as
revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te
aprouve” (Mt 11.25-26)
  
Independente da forma ou maneira como a mentira e a
heresia arianista[50] penetrou naqueles tempos, subsistindo
ainda hoje, para a desgraça e perdição de quem nela põe a
sua fé, devemos rejeitá-la prontamente, como algo maligno
e do qual devemos nos afastar, evitando a sua propagação
e defesa entre os irmãos, pois esse foi o erro da igreja no
passado: acolher, e conviver, passivamente os hereges. O
próprio Ário, depois de sucessivamente condenado por suas
blasfêmias, acabou sendo reabilitado por Constantino, a
despeito da recusa com veemência de Atanásio, bispo de
Alexandria, o qual se recusou a aceitá-lo na igreja, sem que
se arrependesse. Entretanto, parte da igreja acabou sendo
tolerante com ele e seus seguidores, havendo uma
expansão da sua heresia, presente, na atualidade, em
muitas igrejas ditas cristãs, como, por exemplo, os
Testemunhas de Jeová, e outros grupos unitaristas (um
movimento crescente entre os pentecostais também).
Que nos sirva de lição a contemporização com o mal e a
indigência espiritual, para não nos entregarmos à
indolência, mas sermos vigilantes, verdadeiros soldados do
exército do Senhor!
Mais do que uma predestinação
vislumbrada
Outro fato relevante e que pode passar desapercebido
diante do objetivo principal da exortação de Judas é que,
após relatar que se introduziram alguns, ele escreve “que já
antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens
ímpios”.
Mas, por que escreveu isto? Com qual objetivo? Este
trecho não parece deslocar-se do restante do verso, como
algo a acrescentar pouco ou nada?
É inevitável observar que, para Deus, é impossível algo
acontecer sem o seu consentimento, sem a sua vontade
estar manifesta. Ele não pode ser pego de surpresa ou
desprevenidamente por qualquer evento, sem saber, sem
antevê-lo e preordená-lo. Não estou a defender a ideia de o
Criador apenas vislumbrar, ver ao longe todos os fatos e
processos históricos para, somente então, decretá-los ou
predestiná-los, como é a visão da maioria dos cristãos. Deus
não é assim, contra-atacando ou reagindo a uma ação
prévia. Antes, ele é a causa primeira e última de todas as
coisas, aquele pelo qual tudo se realiza ou, então, nada viria
a se conceber. Ele não é um espectador, assistindo ao
desenrolar cronológico com passividade, deixando que os
personagens da história (toda a criação) agissem e
interagissem como bem entendessem[51]. Não; porque dois
dos seus atributos são a soberania e o todo-poder de ser o
agente da história, o seu construtor, motivado
exclusivamente pela sua vontade, além dos demais
atributos, os quais se comunicam de forma inseparável em
seu ser: a união de toda a sabedoria, toda a santidade, todo
o amor e tudo o mais a constituir o caráter divino.
Deus não vislumbra os acontecimentos como se algo
houvesse lhe escapado ao controle, realizando-se à sua
revelia, onde os fatos estariam à margem da sua vontade e
poder, envolvendo-o caoticamente, como um bombeiro sem
água diante de um incêndio. Sim, para muitos, Deus é um
bombeiro a apagar os incêndios surgidos à sua revelia,
como consequência natural da omissão ou incapacidade de
guiar, de prover todas as coisas. Ao mesmo tempo que se
apela para a sua completa soberania, defende-se também o
fato de Deus “abrir mão” de alguns atributos a fim de
favorecer a autonomia da vontade humana, o que é
costumeiramente confundido com o famigerado e pouco
compreendido “livre-arbítrio”. Do ponto de vista do senso
comum, o livre-arbítrio é sinônimo de escolha ou volição,
quando do ponto de vista metafísico ele antecederia essas
etapas, caso existisse. Não há, ao meu ver, como equiparar
o livre-arbítrio e a volição, pois enquanto aquele significa
neutralidade ou um caráter isento de influências, esta
somente surge a partir de um conjunto de elementos
norteadores.
Talvez, na raça humana, caso alguém tenha tido o livre-
arbítrio, esse alguém seria Adão. Entretanto, mesmo ele não
esteve debaixo da isenção ou neutralidade da vontade,
posto estar sob o foco de duas coações ou influências: a
divina, que lhe deu a lei ou norma de não comer do fruto da
árvore do bem e do mal; e, por fim, a da serpente, que com
a sua astúcia convenceu-o à desobediência. Sem as
influências, sejam interiores ou exteriores, teríamos uma
pessoa sob a égide do livre-arbítrio, que, no entanto, não
poderia fazer qualquer tipo de escolha, exatamente por
estar sob o estado de neutralidade, de indiferença a
incapacitar-lhe qualquer decisão. Isso me leva a crer que
nem mesmo Adão deteve o livre-arbítrio, posto que a sua
vontade estava sempre sob algum tipo de influxo ou
estímulo, a divina, a diabólica ou a natureza pecaminosa.
Após a Queda, tudo se complicou ainda mais, pois
estamos, desde o nascedouro, sob o domínio constante do
pecado, de maneira que tanto o intelecto, como os sentidos
e o caráter do homem encontram-se contaminados e
corrompidos. O que muitos defendem é o fato de esse
homem, imperfeito e tolo, estar na direção da história, de
tal maneira que ele pode resistir, transigir e anular a
vontade divina. Haverá um malabarismo semântico e
filosófico para respaldar essa ideia estranha às Escrituras: a
de o governo divino estar debaixo da autoridade humana, a
ponto de, enquanto o homem é o incendiário, Deus não
passar de um bombeiro ou salva-vidas. Não cabe, neste
ponto,uma discussão ou exposição mais minuciosa sobre o
assunto, porém muitos dos desvios da igreja e a perda da
sua identidade com Cristo se devem ao ensimesmamento
do homem, que tem de alcançar o status de independência
até mesmo de Deus.
Esta visão faz o Senhor parecer inepto, omisso ou
desinteressado, negligente ou incapaz de cuidar de toda a
sua obra, quando nos mínimos e mais insignificantes
detalhes tudo está sujeito à sua ordem, à sua vontade
soberana, e nem a menor partícula do universo surge, se
desenvolve e age por algum princípio de autonomia. Antes,
sustenta-se pelo poder daquele que tudo criou e pelo qual
tudo subsiste (Hb 1.3). Como está escrito:
“E não temais os que matam o corpo e não podem matar
a alma: temei antes aquele que pode fazer perecer no
inferno a alma e o corpo. Não se vendem dois passarinhos
por um ceitil? E nenhum deles cairá em terra sem a vontade
de vosso Pai.” (Mt 10.28-29)
Ora, se nem um passarinho, por menor que seja, cai sem
se manifestar de forma objetiva e direta a vontade divina,
podemos dizer o mesmo daqueles homens iníquos a
invadirem a igreja primitiva, intentando destruí-la? Estaria o
Senhor agindo descuidada e levianamente? A ponto de ver
frustrado o seu plano? Quanto a isso, o autor nega com
vigor e veemência, pois eles haviam sido antes escritos
para esse fim.
Mas qual seria esse fim?
Judas usa a expressão “juízo”, designando uma sentença,
uma condenação, punição. Aqueles homens, antes
determinados ou escolhidos para adentrarem a igreja e
praticarem suas impiedades, também foram feitos réus
antes mesmo de nascerem, antes de praticarem o mal
inevitavelmente desejado. Na mente divina, há um nítido
objetivo para estarem ali, ou um leque de objetivos a fim de
cumprirem um propósito específico. Poderia citar, por
exemplo, a finalidade de purificar, amadurecer e fortalecer a
igreja contra combates ainda piores a serem enfrentados no
futuro. O certo é haver Deus escolhido aqueles homens
maus para fazerem uma determinada obra na igreja, com
um fim definido, e, por terem-no realizado, seriam
irremediavelmente condenados.
O verso ressalta a soberania divina e o seu caráter
cuidadoso para com a igreja, mesmo trazendo sobre ela
lutas e sofrimentos, algo que não podemos aquilatar em
detalhes por causa da nossa pequenez e incapacidade de
alcançar perfeitamente a mente de Deus (como pode a
mente limitada, imperfeita e pecaminosa do homem
compreender totalmente a mente infinita, perfeita e santa
do Senhor?). Podemos, contudo, aceitá-la como verdadeira,
visto ser um dos pontos mais relatados nas Escrituras,
revelando-nos um Senhor definido, necessário e de
deliberada resolução; o Deus a mover todas as coisas para
um fim, as quais não acontecem pela aleatoriedade ou
casualidade, mas pela sua determinação ou conselho. Em
outras palavras, o autor está a falar-nos de uma doutrina
estigmatizada e demonizada pela maior parte da igreja na
atualidade, a doutrina da predestinação. Deus predestinou a
igreja a passar por essas provações, assim como
predestinou aqueles homens iníquos para afligirem-na.
Considero por bem ressaltar, mais uma vez, este ponto:
a ação divina não é passiva. Não é como se Deus visse que
o homem se salvaria, se santificaria, se esforçaria em entrar
no Reino, o aceitaria e, então, somente então, Deus o
predestinaria e elegeria. Que eleição é essa onde o eleito é
quem se autopredestina? Onde o escolhido se escolhe e
impõe a sua escolha por seus próprios méritos para aquele
que o predestinou? O que vem primeiro: a predestinação ou
o esforço do eleito em satisfazê-la e, por fim, vir a ser
predestinado? Seria o mesmo que dizer: alguém se afogou
antes de entrar na água.
A predestinação, por mais que se queira distorcer o seu
sentido, tem somente uma definição:
Predestinar - (latim praedestino, -are)[52]
1.  Eleger desde a eternidade (ex.:  afirmou que Deus
predestina os justos).
 
2.  Destinar para grandes coisas ou para determinado
fim. = eleger
3. Destinar com antecedência
Predestinar é a atitude de destinar com antecedência,
decidindo previamente, e não o ato de antever o que irá
acontecer e então determinar que aconteça. Fica a
pergunta: quem garantiu que o evento aconteceria? Deus?
O homem? O acaso? Forças impessoais? Ou a cooperação
mútua dessas forças?
Seguindo essa lógica, se Deus viu o que iria acontecer
como algo certo, uma vez que o previu, por que o
determinaria, já que o fato é, em si mesmo, exequível e não
dependeu da sua vontade ou decisão para ser observado?
Nesse caso, Deus seria apenas um oráculo, o qual somente
vislumbraria o acontecido, sem nenhum controle sobre ele.
Pelo contrário, o fato previsto seria soberanamente livre,
impedindo Deus de agir para mudá-lo, ainda que não fosse
de seu agrado. Isso não levaria à conclusão de que esse
“Deus” antes de ser pessoal é um “Deus” impessoal? E a
predestinação, assim como a eleição, não passaria de uma
piada sem graça, um chiste, que tornaria esse “Deus” uma
mera testemunha a endossar forçosamente até mesmo o
que lhe contrariaria? De forma que a sua soberania seria
duvidosa, e tudo, desde a Criação, teria de ter outra
explicação. Tudo, na verdade, não poderia vir da vontade
desse “Deus”, mas de outra força, pois o que ele faz é
consentir que cada evento ocorra como vislumbrado; assim,
a sua vontade seria adequada a cada evento, de tal forma
que eles permaneceriam imutáveis. A vontade dele se
subordinaria à inexorável realização do ato antevisto, o que
levaria à quebra de outro atributo divino: a imutabilidade, já
que os fatos, em si, seriam imutáveis e Deus condicionaria
ou flexibilizaria o seu governo segundo a realidade soberana
da vontade humana. Esta seria a mesma vontade que
dirigiria a história e levaria Deus apenas a validá-la, a
endossá-la, como uma posse indevida de algo que não lhe
pertencesse intrinsicamente, algo que pareceria seu e
refletiria uma autoridade derivada.
Por todos os lados, o que temos aqui não é o Deus
bíblico, mas alguém impotente, escravo da visão; um
“Deus” transitivo quando a revelação nos apresenta o Deus
intransitivo, completo e perfeito em si mesmo. Sem contar o
elemento “tempo”, no qual ele estaria preso ou
condicionado.[53]
Porém, alguém pode questionar: Por que Judas tocaria
nesse ponto doutrinário sendo que o objetivo da sua carta é
exortar a igreja a cuidar-se, a defender-se do ataque dos
inimigos e falsos mestres?
Sendo a predestinação uma doutrina rejeitada pelo que
podemos chamar de “igreja moderna ou humanista” (ainda
que seus postulados sejam bíblicos), quis chamar um pouco
mais de atenção ao fato do autor citá-la, mesmo
brevemente[54], já que não há, nas Escrituras Sagradas,
nada irrelevante, despropositado ou supérfluo, que seja
escrito e não deva ser examinado com a devida atenção.
Trata-se do resumo da vontade divina expressa e entregue
aos homens para o conhecimento e a oportunidade de sair
da ignorância e trevas interiores e assemelhar-se ao homem
perfeito, Cristo, o fim ao qual Deus destinará todo o seu
povo.
Como já foi dito, não há uma asserção, neste verso, de
um trecho deslocado ou desprendido do cerne da ideia, mas
uma unidade e complementação a todo o conjunto da
epístola, tornando-a harmoniosa em seu conteúdo, sem que
haja discrepância ou excesso. Logo, por que Judas nos fala
daqueles homens ímpios, predestinados para o juízo, em
meio ao alerta à igreja? Porque ele não quer deixar dúvidas
quanto ao cuidado de Deus para com o seu povo, algo que
sempre fez e continuará fazendo pelos séculos, nem quanto
ao fato de o seu zelo para com a igreja ser consequência do
extremado amor, diligente e fiel em preservá-la e sustenta-
la. Nem mesmo as tribulações, sofrimentos e angústia
perpetrados pelos inimigos serão entrave para a sua
consagrada direção. A Igreja não está alheia ao seu desvelo,
nem desfocada em seu propósito, no qual nada é ocasional
ou fortuito. Nenhum evento pelo qual o corpo de Cristoserá
acometido é desconhecido da sua vontade, pelo contrário,
todos fazem parte da sua vontade. Por ela existem e por ela
sobrevêm ou morrem.
A igreja não será abandonada, aconteça o que
acontecer! Deus não a despreza nem rejeita, antes a
edifica, fortalece, sustenta, santifica, para que seja
semelhante ao seu Filho Amado, permanecendo na fé e
capacitada a realizar a obra que lhe foi destinada, obra
exclusiva, somente realizável por ela, capaz de produzir os
frutos necessários para a glória do Senhor.
Judas não é um “abelhudo” a se intrometer
indevidamente nas coisas de Deus; porém, para a sua glória
e confiança da igreja, ressalta que as investidas dos lobos
entre as ovelhas não são algo que Deus trabalhará
contingentemente, como em um estado de emergência,
assim como um bombeiro tenta apagar um incêndio[55], mas
são e serão trabalhadas previdentemente, no sentido de ter
se estabelecido pela sua autoridade, pela sua sabedoria e
poder, segundo a sua vontade ativa e eficaz, para que os
seus perfeitos e santos propósitos tornem-se realidade e
ingressem na história.
A vontade de Deus não é permissiva, como insistem
alguns, supondo que Deus “permite” quase como se não
pudesse impedir o ocorrido, como se o fato fosse maior do
que ele. Ainda que as ações sejam realizadas pelos homens,
em conformidade com as suas vontades[56], seja para o bem
ou mal, seja ligada a Deus ou ao diabo, nenhuma delas
aconteceria se, antes da fundação do mundo, o Senhor não
as deliberasse segundo o seu plano ou decreto eterno[57] de
fazê-las surgir do nada, levando-as à existência. Por isso,
Deus lançou mesmo aqueles homens malditos (assim como
muitos dos seus pares encontrados atualmente, no seio da
igreja) na Igreja para provarem-na, ao passo que nos
preservou da morte advinda dos lábios, pensamentos e
atitudes dos infiéis. Eles queriam a ruína da igreja,
transformando-a em outra coisa, muito distante do que
sempre foi, mas o Senhor capacitou-os a resistir, assim
como Elias e sete mil homens não se curvaram a Baal, nem
seus lábios o beijaram, durante o reinado de Acabe e
Jezabel (1Rs 19.18). Também ele mantém, em todas as
épocas, seus homens, mulheres e crianças fiéis a Cristo,
independente do avanço ou não da iniquidade e de os
homens cruéis proliferarem no mundo, como prova do seu
amor e esmero infinitos para com o seu povo, sempre!
PARTE QUATRO
A SEMENTE DA DISTRAÇÃO
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
"Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube
isto, que,
havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do
Egito,
destruiu depois os que não creram; e aos anjos que não
guardaram o seu principado,
mas deixaram a sua própria habitação,
reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo
daquele grande dia; 
assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades
circunvizinhas, que,
havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido
após outra carne,
foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo
eterno."
A Centralidade da Igreja: Cristo
O que o autor relata nestes versos? Qual o ponto principal
ao qual chama a atenção? Ele nos lembra de fatos que
aconteceram no passado e dos quais não devemos
esquecer. Quais? Você, caro leitor, pode citar dois dos mais
importantes, entre tantos? Darei um minuto para pensar...
Antes de dar a sua resposta, gostaria de fazer uma
ressalva: Judas diz, no verso 5, que a igreja deve se lembrar
de algo e, com isso, ele não está dizendo que proferirá
novidade, como muitos parecem querer em nossas igrejas
ultimamente. As pessoas estão em constante busca pelo
inesperado, pelo desconhecido, sem o qual a vida parece
não ter sentido; em que o curso natural ou regular das
coisas tem de ser quebrado, interrompido, a favor de algo
muitas vezes letal e destrutivo. Essa visão “meio hedonista”
(e suicida, em si mesma) de ligar novidade ao prazer, faz
com as pessoas não tenham gozo nem alegria em ouvir o
evangelho se ele não tiver algo a motivá-las, a mudar o
curso regular da fé cristã (utilizando-se de parafernálias a
alterar o seu sentido real tornando-a algo insólito, artificial e
antagônico), de modo a deixa-las em um “clímax” ou
surpreendê-las. Na verdade, não o ouvem porque ele não é
pregado, em boa parte dos púlpitos, e o que fica é apenas a
sensação de bem-estar, de conforto momentâneo diante de
mais um entretenimento exibido com o objetivo de distrair e
manter a assistência acomodada ao pecado, à inimizade
com Deus, à rebeldia, conservando intocado o estado de
guerra entre o Bem e o Mal, e, assim, se acomodando
devidamente às fileiras malignas.
É o que acontece nos cultos onde a assistência, em sua
maioria, está sempre esperando o desconhecido, o exótico
ou incomum, seja no louvor, na prática ou em qualquer
outro momento, para sentir-se bem; numa espécie de
sessão psicológica pública, na qual a assistência está
disposta a encarar qualquer evento a fim de soltar-se,
extravasar-se, um desabafar dos sentidos, algo exigido até
mesmo dos mais introspectivos. É a chamada “catarse
coletiva”, onde o frequentador da igreja busca, em algum
sentido, libertação dos problemas, de si mesmo, da vida.
Tudo isso contraria o Cristianismo bíblico, o qual defende
exatamente o oposto, de que somente haverá liberdade
para o homem se ele se entregar por completo a Cristo,
entender-se a si como pecador, carente e necessitado da
graça; desejar, então, servi-lo e adorá-lo segundo a sua
vontade, abdicando daquilo que sempre buscou: a
independência de Deus.
Em boa parte das celebrações cristãs temos o estímulo à
busca do próprio “eu”, de lançar para fora as emoções
contidas e omitidas, um tipo de liberação interior dos
sentimentos bloqueadas. Isso é psicologia barata, de
botequim, ainda que, porventura, funcione e arraste
multidões; mas não é o evangelho, nem o culto a Deus.
Enquanto se provoca uma resposta comportamental, as
pessoas continuam as mesmas, sem conversão, sem
redenção, sem esperança além da autossatisfação. Muito
menos se alcança a verdadeira reflexão e o verdadeiro
autoconhecimento, necessário para a compreensão exata
da realidade pessoal e divina, transcendendo a simples
liberação de energia e emoções. Ao contrário da afirmação
de que o homem é o que é, da impossibilidade de escapar
da sua própria natureza, a qual deve ser aceita e
reconhecida, o culto cristão sempre se voltou para a
transformação, seja do homem carnal em espiritual, seja do
pecador em santo, do condenado em absolvido, do escravo
em liberto, do leviano em responsável. Entretanto, nada
disso acontece se não houver morte, e não falo tão somente
do sacrifício de Cristo, mas da morte definitiva do “eu”, o
mesmo que tentam ressuscitar a todo custo, e que deve ser
sepultado irremediavelmente para que a vida surja, em
definitivo.
Não se trata de uma liberdade na qual o homem deve
esquecer-se de si mesmo por um instante, enquanto grita,
chora, esperneia, ri, se sacode como um epilético, sendo um
mero fôlego instantâneo, como o do náufrago, em meio a
ondas altas e violentas, um pouco antes de se afogar em
definitivo. Entretanto, a verdadeira liberdade está em
obedecer e servir a Cristo, entregando-se a ele como
escravo, e sendo tratado como filho amado, querido e
abençoado, e não como um macaco de auditório ou circo.
Por isso, há uma necessidade desse tipo de igreja, de
estar sempre agradando a assistência, em constante
“movimento”, substituindo o real pelo irreal, o certo pelo
errado, o verdadeiro pelo falso, seja na absorção de
modalidades seculares (teatro, danças, shows, variedades,
etc.), nos modismos próprios da época ou no apego as
tradições pagãs e anticristãs. Desse modo, está lançada a
semente da distração, onde se aglutinam práticas e
atividades com o intuito de dispersar ao invés de unir,
levando cada um a acreditar na possibilidade de um
“cristianismo self-service”, onde a forma de adoração, culto
e relacionamento com Deus é estabelecida não por ele, mas
pelo homem. É como se, investidode uma autoridade
súbita, ele passasse a decidir as particularidades do culto a
Deus, superior ao próprio Deus, utilizando-se do conceito
falacioso dele se agradar com tudo e todos, bastando
originar-se do coração ou da sinceridade, o suficiente para
satisfazê-lo[58].
Um grande número de tragédias e equívocos é oriundo
da sinceridade, como as guerras e governos que levaram
milhares, senão milhões, à morte e sofrimento, por
exemplo. Porém, se fossem realmente sinceros,
entenderiam que todo o arsenal de “relevâncias” lançado na
igreja tem por objetivo exaltar o homem e glorificá-lo,
quando dizem fazê-lo a Deus. Entre outras coisas, são
mentirosos e pérfidos, mais especialmente ao
arremessarem sobre o incrédulo a ideia antibíblica de que
tudo é possível e válido como forma de comprazer ao
Senhor, não importando se há a sua aprovação explícita, e
se a vontade do crente se contrapõe, em essência, à
vontade divina, manifestada em sua palavra. Ainda que
implicitamente (embora haja os que não se envergonham
de proferi-lo), parecem dizer: “Olha, do mesmo jeito que
você se diverte lá fora, pode divertir-se aqui também; não
precisa mudar nada; viva como sempre viveu! Mas venha,
porque Deus te ama, do jeito que você é!”. Ou, ainda, as
pessoas são transferidas para um tipo de espetáculo em
que as ações levem à comoção geral, por meio de práticas
extintas ao final da era apostólica: o falar em línguas, as
campanhas de milagres, expulsão e entrevistas com
demônios, unções, etc.[59]
Muitos líderes se especializaram no entretenimento,
sabem pouco ou nada da Escritura, e em vez de utilizar o
exíguo tempo que dispensam à pregação com a exposição
do evangelho, gastam-no com piadas, causos,
dramatizações, proselitismo ideológico e político,
autopromoção e outras tantas coisas alheias à Bíblia,
acabando por torná-la dispensável e ultrapassada, quando
não completamente desconhecida. Há uma busca
incessante das forças inimigas em diluir e, se possível,
descaracterizar completamente o evangelho, fazendo
qualquer coisa, por mais bizarra e grotesca, com o fim de
adorná-lo, camuflá-lo, apresentando um produto falso e
diluído, que insistem em auto intitulá-lo como “a palavra de
Deus”, estando tão distantes dela, em seu conteúdo e
verdade, que a própria alegação de sê-la é uma afronta e
uma blasfêmia inominável.
Alguns chegam ao cúmulo de apresentarem novas
revelações, contraditórias e inimigas da verdade, como se
fosse o Senhor falando hoje, e desmentindo o dito no
passado, pela boca dos verdadeiros profetas. Se atentarmos
para o fato de a maioria das heresias provirem de “novas”
revelações ou profecias, como se Deus pudesse contradizer-
se sem passar por mentiroso e enganador, haveria um
cuidado da igreja com tudo aquilo que se apresenta
utilizável e aplicável em nossos dias nos cultos e
celebrações com a chancela eclesial. Tal postura descuidada
é abarcada pela amplitude do leque de possibilidades
contido em termos como “contextualização”, “relevância”,
“cultura” ou “adaptação” que viabilizam e legitimam
qualquer coisa ou modernidade na igreja, com a intenção
abjeta de angariarem para si uma legião de néscios,
ignorantes, e propagadores do mal, originada pela
desobediência e inovação das normas estabelecidas por
Deus, a ajudinha ou “forcinha” dada pelo homem ao projeto
divino, como se fosse coautor, cogestor da sublime
providência, numa pretenciosa ingerência, afirmando a
necessidade de o Senhor ser auxiliado, em sua sabedoria e
perfeição, pela estultice e imperfeição humanas.
Ao apresentarem-se como “novos” profetas (alguns se
autointitulam apóstolos modernos), esses homens,
dissimuladamente, intentam colocar no Senhor a alcunha de
mentiroso, néscio ou senil, porque um Deus mutante e
adaptável em nenhuma hipótese é o Deus bíblico, o criador
dos céus e terra, de toda a vida, da história e dos eventos
que a compõem, a ponto de que, se um único fato ou
incidente acontecesse alheio à sua vontade, ele não seria
Deus; seria qualquer outra coisa menos Deus. A Bíblia não
revela um Deus inconstante, indeciso e passivo; ao
contrário, ela dá provas cabais do Deus imutável, constante,
planejador de tudo quanto existe e ativo em realizá-lo. 
A exortação do autor de que não trará um fato novo, mas
algo que seria repetido, posto já lhes ter sido dito várias
vezes, e do qual deveriam saber, jamais esquecer, mostra
que o Evangelho, mais do que uma busca desmedida pelo
inusitado, é o firmar-se naquilo estabelecido e ensinado,
reiterado, e do qual o cristão não se deve jamais afastar ou
negligenciar, sob pena de faltar com a verdade. Ao
aumentarem as linhas inimigas, na luta insana do ímpio
contra Deus, revelam o quanto as novidades estão
dissociadas do velho, puro e bom evangelho de Cristo.
Alerto os defensores de uma igreja sempre em
movimento, no sentido de ela se adaptar ou acompanhar
aos novos tempos, moldando-se à cultura, costumes, leis,
ideologias, cientificismo, ou qualquer outra vertente a
anular a sua autoridade, autoridade investida pelo próprio
Deus, de que a igreja deve se movimentar sempre na
direção do evangelho, tendo-o como norte, foco,
fundamento, e deixar de flertar com o inimigo, pois ao fazê-
lo estará negando a sua essência, a sua própria natureza,
num nítido caso de suicídio ou autodestruição. A seu favor
alegarão produzirem frutos, tais como a socialização dos
marginais, a educação de crianças, a profissionalização de
jovens, a integração de “excluídos” e o sustento básico dos
pobres; contudo, nada disto é o fundamento do evangelho,
não podendo sobrepô-lo nem o substituir; se amamos e
caminhamos na verdade, se tememos, amamos e ansiamos
glorificar a Deus.
Veja bem, o auxílio ao próximo não é algo a ser
negligenciado pela igreja, pelo contrário, faz parte da sua
missão amar e cuidar do semelhante, não porque é a coisa
mais importante a se fazer, pois não é; a primeira, e a
origem de todas as outras coisas, é o amor a Deus, seguido
pelo amor ao próximo. Não se pode fazer o segundo sem o
primeiro. Muitos grupos religiosos e não religiosos
empenham-se no cuidado e sustento aos menos
favorecidos, sem o menor interesse de servir a Deus, de
honrá-lo, obedecê-lo e glorificá-lo, significando não se tratar
de uma vara que produz frutos, mas infrutífera e pronta a
ser cortada e lançada no fogo.
A questão é de mérito, de modo que apelam para o
próprio esforço, num empenho tolo de se auto justificarem
diante do Senhor, quando ninguém pode fazê-lo, quando
ninguém pode alegar de si mesmo: sou santo, sou bom, e
mereço o seu reconhecimento![60]. Ah, tolo! Está apenas
piorando a sua condição de réu, aumentando a sua pena ao
mentir diante do supremo Juiz, tentando justificar-se quando
a única defesa possível seria clamar por misericórdia, por
perdão, pelos favores conquistados por Cristo, não por algo
ou tudo que diz ter feito e não fez; diz ser merecedor, mas
não é; em sua ignorância (lembre-se de que ela não pode
ser usada como desculpa ou salvo-conduto), apenas cava
cada vez mais fundo o seu acesso ao inferno. E ao acreditar
na redenção de si para si mesmo, rejeita a única remissão
possível e factível; despreza os méritos verdadeiros de
quem os tem; nega a verdade bíblica de que a salvação
procede apenas de Deus (Jn 2.9); fazendo-se, em seu
íntimo, maior do que ele, ainda que diga mil vezes o
contrário, pois seu coração o engana, suas atitudes o traem,
sua incredulidade o condena. Assim como o Senhor falou
acerca dos falsos profetas, aos que diziam terem feito isso e
aquilo, e mais um pouco, em seu nome, será dito, naquele
dia:
“Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que
praticais a iniquidade.” (Mt 7.23)
Porque não há outro fundamento a não ser Cristo; nem
pedra, rocha, castelo ou fortaleza que não seja Cristo; nem
verdade, nem caridade, nem intentos ou ações piedosas
alheias a ele; pois ele é a pedra de esquina, a pedra
rejeitada pelos edificadores (Mt 21.42), e nenhumevangelho que se diga autêntico pode dispensá-lo; por mais
distinto e apreciável que seja, não passará de embuste,
engodo, fraude, como muitos, durante a história,
empenharam-se em defender e propagar na forma de
heresias, certificando-se de gastar, até as últimas forças, o
arsenal de contrassensos e blasfêmias, ideias divergentes
daquelas entregues pelos profetas, apóstolos e Cristo,
visando enfraquecer e destruir a Igreja. Sendo o corpo do
Senhor, não uma mera instituição ou organização humana,
ainda que muitas pertençam a ele, a igreja foi encarregada
de zelar pela sã doutrina, conduzida pelo Espírito a ratificar
a verdade e negar a mentira, a manter intacto aquilo que
nos foi entregue por Deus, como fonte de sabedoria,
santidade e instrução para toda a boa obra (2Tm 3.16-17). 
A caridade é como a cereja do bolo; o bolo não existe por
causa dela; o confeiteiro pode adorná-lo com qualquer outra
fruta, morango, framboesa, maçã, abacaxi, mas a cereja
existe por causa do bolo. Assim a caridade (nada a ver com
ações sociais movidas pelo Estado ou organizações
paracristãs[61]) existe pelo evangelho, e não o contrário.
Qualquer evangelho que se autodenomine “social” ou
receba outra alcunha, seja anátema! Como Paulo, disse:
“Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos
anuncie outro evangelho além do que já vos tenho
anunciado, seja anátema. Assim, como já vo-lo dissemos,
agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar
outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema...
Porque se estivesse ainda agradando aos homens, não seria
servo de Cristo” (Gl 1.8-10).
Resta-nos, portanto, não abandonar o ensino uma vez
dado pelas mãos de Cristo e dos apóstolos; ao fazê-lo,
incorreremos no mais alto grau de traição, tal qual os que,
ouvindo a verdade, recusam-se a escutá-la, antes produzem
transtornos e equívocos motivados pela negação,
intentando plantar em seu lugar um artifício diabólico e
nefasto, com o fim de levar muitos à destruição, à
permanência em um estado de rejeição a Cristo e
consequente agravamento da sua condição condenatória. À
medida em que o tempo passa, cada vez mais se é
contaminado pela distração produzida pelo pecado.
Qualquer um a afirmar, em sã consciência, que o
importante é Cristo e não a sua palavra (num antagonismo
para lá de bizarro), alcançou o estado de indigência
intelectual e espiritual, ao abraçar uma figura ambígua e
irreal[62], como se os traços na personalidade do Senhor não
fossem claramente notados na sua Palavra; como se o seu
ministério fosse despropositado e inenarrável, e sua obra
sem objetivos definidos e duvidosos. Se cada um pode
interpretar a seu modo a pessoa de Cristo, sem atentar ao
que falou e ensinou (diretamente; ou indiretamente pela
boca dos profetas e apóstolos), temos um caso de
esquizofrenia entre o autor da palavra, o objeto de ensino e
a interpretação da mensagem.
Se o autor é reconhecido como a fonte do ensino, sendo
que este é evidente e público, de maneira que se manteve
intacto mesmo depois de dois mil anos, a doença está
naquele a interpretá-lo com suas próprias lentes e não com
as lentes do Espírito; não distingue entre o real e o
imaginário, entre o verdadeiro e o falso, entre a vida e a
morte, entre Deus e o diabo. Afirmar que este é o estado
natural do homem, o qual, como muitas religiões apregoam,
passaria por uma “transição” espiritual dentro de um
processo evolutivo, num arroubo de superioridade
inalcançável pelo homem caído, em vez de amenizá-lo,
condena-o definitivamente, fazendo-o réu de si mesmo e o
promotor a dar provas de seus crimes. Logo, dentro do
contexto da igreja, a exceção, acréscimo ou atenuação da
sã doutrina resultará na descaracterização da Bíblia, e a
criação de um outro evangelho, espúrio e maligno em sua
imitação da verdade e dissimulação dos efeitos reais e
eternos.
“Quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube
isto”, aponta para um evangelho simples, mas exaustivo,
sem malabarismos ou pirotecnia linguística e estilística,
resultando em aperfeiçoamento, fortalecimento e na
confirmação de que somos verdadeiramente filhos de
Deus[63]. A introdução de novas doutrinas, ou práticas
alheias ao estabelecido, implicará em soberba daqueles que
resistem a Deus, o qual os julgará sem misericórdia.
Judas tem em mente lembrar aos irmãos algo ensinado e
que, por arrogância, incúria ou açodamento, perdeu-se, em
parte ou no todo, e faz-se necessário recordar, chamando-
os novamente à verdade, ao evangelho, do qual muitos se
afastaram, ao darem crédito a malícia e astúcia,
abandonando a revelação para entregarem-se ao arremedo
difundido por Satanás e seus servos de que a verdade é
relativa e pode ser apropriada por cada mente e coração,
segundo melhor lhe parece.
Ele não dirá nada de novo, nada bombástico, nada
inusitado, apenas o bom e velho evangelho de Cristo, pelo
qual estamos presos, sendo libertados da indiferença
produzida pelo pecado, para uma glória imorredoura e
eterna, conscientes de que somente pela graça fomos
alcançados, resgatados e despertos para a nossa condição
de iníquos e merecedores de condenação, mas também
para a realidade de santos, lavados no sangue de Cristo e
reconciliados com Deus, inocentados pelos méritos do
Salvador, e, por ele, aprazíveis e agradáveis ao Pai.
Incredulidade do Crente
Entretanto, voltemos à pergunta inicial: quais são os dois
pontos mais importantes nos três versos citados?... Você
descobriu?
Penso haver pontos iguais, ou até mais importantes,
dada a riqueza e profundidade das Escrituras, do que os
apresentados por Judas. Contudo, eles parecem mais
necessários; não somente naquele momento, mas como
algo a jamais ser esquecido e desinteressado pela igreja,
em todos os tempos, a fim de ela se manter espiritualmente
forte e santa. Mais uma vez, ressalto que não havia
novidade ou excentricismo nas linhas do autor, apenas o
primordial para o caminhar firme dos santos nos passos de
Cristo. Ele estava se certificando de que ela apreendesse,
em definitivo, e de maneira corretiva, dois fundamentos
aparentemente abandonados, o que a levava a não refletir,
na prática, as orientações essenciais e auxiliadoras do
evangelho, não acolhendo o socorro e a esperança
indispensáveis, no momento em que sofria por meio das
tribulações e pelo mal que ameaçava enraizar-se em seu
seio:
Primeiro, a incredulidade.
Ele recorda que Deus libertou Israel do jugo egípcio, por
meio de sinais maravilhosos como as dez pragas (Ex 7.10-
12,38); abriu as águas do Mar Vermelho a fim de salvá-los e
condenar o exército de Faraó (Ex 14.13-22); deu-lhes a
nuvem durante o dia e a coluna de fogo à noite guiando-os
no deserto inóspito e traiçoeiro (Ex 13.21-22); alimentava-os
com o maná caído dos céus todos os dias, sem que eles
tivessem qualquer trabalho a não ser recolhê-lo (Ex 16.4-5),
além de tantas outras coisas pelas quais os israelitas
deveriam ser agradecidos e reconhecidos, alegrando-se no
cuidado e favores recebidos do Senhor; a prova do seu amor
e graça. Entretanto, em vez de glorificá-lo e reverenciá-lo
pelo amor com que os agraciava, eles murmuraram e se
rebelaram inúmeras vezes, querendo, inclusive, retornar à
escravidão, voltar ao Egito (Nm 14.4), de onde os seus
corações pareciam não ter saído, nem aquelas terras
abandonado suas almas miseráveis; levando o Senhor a
sentenciar que nenhum deles, após mais um ato de
descrença e rebeldia em Jericó, veria a terra prometida;
todos os que tivessem mais de vinte anos. Porém, a
promessa seria estendida aos filhos deles e a Calebe e
Josué, os únicos entre os adultos a verem-na (Nm 14.26-37;
26.64-65).
Não há como negar o estado de idolatria do povo, o qual,
ansioso por satisfazer os desejos da carne, estava disposto
à sujeição e subserviência a um governo pagão e inimigo, a
uma cultura flagrantemente oposta ao senhorio divino, onde
Israel parecia mais adaptada, mais integrada, num típico
caso de submissãopsicológica da alma, do agredido ao
agressor, a famosa e cada vez mais frequente, nos tempos
modernos, “Síndrome de Estocolmo”[64]. Nesse aspecto,
nota-se o quão desejoso da escravidão está o homem;
crendo-se livre em suas escolhas, entrega-se facilmente aos
desejos mais pérfidos em nome do prazer, de uma mísera
regalia, abrindo mão mesmo da verdadeira liberdade. Pois
sim, o homem somente encontra-se livre em Cristo, a
liberdade que o faz soltar-se das amarras do pecado, da
morte, para uma vida santa e verdadeira naquele que se fez
servo, por amor, mas é também Senhor, pelo mesmo amor.
Israel, ou boa parte dele, não compreendeu o que estava
em jogo, entregando-se de corpo e alma a um desejo
iníquo, onde a sua vontade estava dominada, gerida, pela
ingratidão, e a decisão de satisfazer-se na flagrante
desobediência e afronta a Deus. Não tendo o conhecimento
de Deus, se entregaram ao desejo abjeto de trocar a devida
glória a ele em troca do antepasto egípcio (Rm 1.28).
Rejeitando a liberdade recebida, não somente física, mas
espiritual também, ansiavam pela satisfação de um desejo,
os grilhões que os manteriam debaixo da vontade pagã e
irremediável servidão a um senhor ilegítimo. Em outras
palavras, o desejo de comerem as delícias inimigas estava
recluso na volta à escravidão; o desejo israelita preso na
vontade egípcia, tal qual a primogenitura de Esaú foi
trocada por um prato de lentilhas (Gn 25.29-34). No fundo,
é sempre a mesma coisa, troca-se as dádivas, os favores, o
serviço a Deus, por um ídolo, um impostor a tomar o
coração do homem e sujeita-lo até o ápice da destruição e
morte.
Cristo, ao contrário, nos mostrou a necessidade
premente de o homem nutrir-se do verdadeiro alimento,
aquele que vem dos céus e do qual ninguém pode
prescindir se quiser manter-se saudável física e
espiritualmente (Jo 4.34), ou seja, fazer a vontade de Deus.
Ao negar a dieta celestial, eterna, perfeita e santa, em troca
de uma refeição, ainda que suculenta, mas fugaz e pesarosa
(sob os efeitos da idolatria e subserviência), das mãos dos
egípcios, fica evidente o imediatismo, o desejo urgente de
satisfazer a carne, sujeitando-se à sua vontade e
entregando-se à esfera de escravidão e corrupção. Alguém
pode dizer que estou a espiritualizar excessivamente uma
questão simples de materialidade, e que faz parte da
existência humana. Ressalto, contudo, que uma coisa é a
necessidade natural de o homem comer, algo
imprescindível para a sobrevivência, outra coisa é ele se
entregar a ela como o próprio fundamento da existência.
Ora, o homem vive por Deus e para Deus, não havendo
vida, no sentido estrito e fundamental da palavra, sem ele.
Sobreviver não é viver; para mim, é um estado de
continuidade ou de conservação para a morte. Quando esta
irremediavelmente acometer o sobrevivente, então ele não
mais sobreviverá. Ainda que a sobrevida se confunda com a
vida, dentro dos parâmetros confusos definidos pelo
homem, do ponto de vista bíblico, a vida não pode jamais
ser diluída na sobrevida, quando esta encontra-se no limiar
da morte, e aquela está a uma distância segura, protegida e
inalcançável.
Cristo nos dá a vida além da morte física, nos garantindo
a ressurreição para a existência plena e eterna em
comunhão com o seu Espírito, onde a morte será
definitivamente erradicada. Em contrapartida, quando o
espírito se sujeita à vontade colocando valores subalternos
como princípios elevados, esse espírito já está morto e
somente pode produzir uma vontade mortífera, uma
extensão de si mesmo a consolidar o estado irremediável de
escravidão. Neste sentido, o espírito projeta no corpo o
desejo inerente de servidão a um impostor, tornando-o um
títere, uma projeção do aniquilamento interior; de forma
que o corpo estará sujeito à alma, e esta condicionada ao
corpo, num círculo vicioso onde a condição de
aprisionamento parte de uma para a outra, e vice-versa. Em
linhas gerais, o cativeiro está estabelecido; o desejo
pecaminoso são as algemas a prender o homem por inteiro.
Ele ainda tenta se iludir, criando um sofisma de que está no
controle da vontade e de que a prisão não é mais do que o
seu ânimo mais íntimo, acreditando estar sob o poder da
sua autonomia, e de que os homens livres, soltos das
amarras do pecado pelo sangue de Cristo, são os
verdadeiros prisioneiros. Enquanto ele se acostuma a
arrastar suas correntes em um exíguo espaço, o suficiente
para ferir a si e aos outros até a morte, olha o caminhar
distante do crente, em direção ao Senhor da sua vida, e
grita fanfarrão: “Sou livre, independente, dono do meu
nariz!”, brandindo o metal preso aos braços, odiando a
liberdade que não tem, e fazendo de si mesmo um
autorrecluso na escuridão do cárcere imperioso do pecado.
Negar a liberdade que não se tem, negar o forçoso cativeiro,
revela a impossibilidade de aquilatar, com eficiência e
sinceridade e em verdade, a liberdade daquele que se
entregou voluntariamente a Cristo, por ele é sustentado e
mantido livre, e perscruta dia a dia o amor pelo qual os
liames, as amarras, do pecado o mantinham enclausurado.
Em contrapartida, a idolatria apenas sustém o homem na
jaula do pecado, de onde não pode sair nem se libertar, se o
amor e a graça de Cristo não estiverem sobre ele, e ele não
for o alvo dos méritos daquele que é o único capaz de
redimir o pecador.
Acontece ser a idolatria uma consequência natural da
incredulidade, onde esta fomenta aquela ao desviar o
espírito do homem do único bem, Deus, na direção
contrária, onde estão os ídolos. Ao distorcer o foco central
da existência humana, a comunhão e o relacionamento com
o Deus vivo e eterno, substituindo-o por formas diversas e
corrompidas de culto e adoração a um impostor, ou
impostores, temos os parâmetros ajustados com o Éden e a
Queda, onde a disposição e a inclinação do homem para a
farsa, o embuste, são representados por sua escolha,
rejeitando unir-se ao santo e perfeito, e achegando-se
obstinado ao corruptor, o destruidor da sua alma, em um
relacionamento caótico e repugnante consigo mesmo e o
mal a habitá-lo. 
A convergência de toda a sua doença é a aversão à
verdade, o desprezo à realidade, e o cisma radical do
espírito afligido com o Consolador; a alma em chamas,
consumida pelo ódio inflamado contra Deus, o princípio de
todo o movimento antivida, efêmero, mortal, no qual o
homem é o gerador da sua própria destruição, ao esperar
na construção do falso conciliar-se com o legítimo,
estabelecendo a negação do divino e, por conseguinte, de si
mesmo, onde a alma não existe à margem do Criador, mas
sustenta-se na sua justiça, na correspondência direta aos
delitos consumados.
A descrença produz a idolatria, a manifestação do ódio
contra Deus, acompanhada, porém, de uma tentativa de
encontrar, de alguma maneira, o seu favor, através de uma
simpatia, de afetividade, com os ídolos, os estereótipos.
Nessas circunstâncias, o homem ignorando o conhecimento
legítimo de Deus, entrega-se às concepções fundadas na
hipocrisia da própria consciência, na habitual demonstração
de uma religiosidade[65] (como virtude) ausente, quimérica.
Ignorando a beleza, santidade e perfeição do eterno,
onde o homem pode, somente nele, ser agraciado com os
seus atributos (aqueles comunicáveis por Deus), os
idólatras curvaram-se à degradação do temporal, no qual a
própria condição humana de arruinar-se faz o seu
esconderijo, imune à bondade e graça, sobrevivendo por
suas maquinações ardilosas e diabruras. É a roda movendo-
se sem sair do lugar, onde o homem anseia o belo, o eterno,
o perfeito (mesmo sem conhecê-lo, mas por um anseio
natural da alma) desprezando a essência enquanto satisfaz-
se na forma, sem se dar conta de que nenhuma forma
permanece, por mais bela que seja, posto que a essência é
eterna, indo muito além daquilo visto pelos olhos
mortais[66].
Paulo também nos chama a atenção quanto a atitude
incrédula de Israel:
“Não vos façais, pois, idólatras, comoalguns deles,
conforme está escrito: O povo assentou-se a comer e a
beber, e levantou-se para folgar. E não nos forniquemos,
como alguns deles fornicaram; e caíram num dia vinte e
três mil. E não tentemos a Cristo, como alguns deles
também tentaram, e pereceram pelas serpentes. E não
murmureis, como também alguns deles murmuraram, e
pereceram pelo destruidor” (1Co 10.7-10).
E o que vem a ser um incrédulo? Será apenas aquele que
não acredita, não tem fé? Ou será aquele que, mesmo
crendo em Deus como Criador e Todo-poderoso (teísta), não
quer se submeter à sua autoridade e recusa-se a ser
governado pela sua palavra? Como alguém pode se dizer
crente ou filho de Deus se despreza seus preceitos e anda
segundo a vontade da própria carne? Esse, ainda que
frequente a igreja, participe dos seus trabalhos, e cumpra
as regras exteriores a fim de ser visto como um cristão,
buscando uma glória pessoal, mas interiormente rejeitando
o evangelho, é mais do que um hipócrita, ele é um
incrédulo, presunçoso em sua superioridade de que não
precisa submeter-se a Deus, descumprindo a sua vontade.
Em Romanos, Paulo nos diz que os homens: 
“Tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como
Deus... antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu
coração insensato se obscureceu” (Rm 1.21).
O que temos aqui, e já foi dito, é que o homem rejeita a
ideia do Deus Vivo e Verdadeiro e por isso cria para si outro
deus ou deuses, de forma que o seu estado natural é de
desobediência, de rebelião, de pecado. Sua mente e
coração foram obscurecidos, levando-o a cogitar e afirmar
insanamente que não há Deus ou que há muitos deuses, ou
ainda que há outro deus; e assim o conhecimento inato e
inerente ao homem é anulado, com o objetivo de não o
glorificar. Não sem razão, a Bíblia chama o homem que vive
à margem e à parte de Deus de ímpio. A palavra “ímpio”
origina-se do latim “impius”, significando que esse homem
é herege, incrédulo, que não respeita nem teme o poder e a
autoridade divinos. Certamente o termo pode ser usado por
qualquer religião para designar aquele que não a segue,
que não se submete a determinada fé ou a professa. Mas
como o nosso interesse é o bíblico, ela nos remete àquela
pessoa que rejeita, despreza e peca contra o Deus santo, o
Deus bíblico. Todo aquele que tem o seu prazer em si
mesmo não busca a Deus, nem a sua justiça e o seu reino, é
um ímpio ou incrédulo, como o salmista diz: 
“Pela altivez do seu rosto o ímpio não busca a Deus;
todas as suas cogitações são que não há Deus” (Sl 10.4).
O ímpio é o ateu prático, aquele a exercitar a sua
incredulidade, ainda que ele creia na existência de um ser
supremo e até mesmo o cultue acreditando fazê-lo em
nome de Deus. Para o ímpio, incrédulo ou ateu prático, não
há o Deus bíblico, há múltiplos e diferentes deuses, porém
cada um, em si mesmo, é o reflexo do próprio homem, o
que, em suma, configura-se uma autoidolatria, o adorar-se e
ser autoridade sobre si próprio.
A Escritura nos revela uma galeria de ímpios: os que
cobiçam, mentem, roubam e matam, aqueles que
maquinam o mal, por exemplo  (Pv 6.14). No entanto,
nenhum crime é pior do que o de rejeitar a Deus,
desobedecê-lo, negando a sua palavra. Na verdade, todos
os outros crimes, pensados e praticados, originam-se
destes, os quais são o reflexo do afastamento e negação do
homem, da sua recusa em reconhecer que há somente o
Deus bíblico e de que ele é o Senhor ao qual todos devem
glorificar e honrar. O pecado é o causador do afastamento
do homem e o apartar-se dele é mantido pelo mesmo
pecado, numa espécie de autoalimentação reversa, onde a
natureza caída se alimenta do próprio pecado,
enfraquecendo-se até a morte. Como um veneno, aplicado
em pequenas doses, ele não mata imediatamente,
definhando o indivíduo sem que ele perceba, até o instante
em que, sem o antídoto (Cristo), chega-se ao fim derradeiro.
Há um círculo vicioso em que um compele ao outro e o
outro mantém aquele.
O homem está divorciado de Deus por causa do pecado,
da sua transgressão, e é ele que o conserva no mesmo
estado, sem mudança. Por si mesmo é-lhe impossível
achegar-se ao Senhor; é necessário que Deus se apiede,
tenha misericórdia, e, então, somente então, ele se
aproxima do homem, trazendo-o à sua comunhão.
Novamente, com isso, não estou dizendo que não somos
responsáveis pelo nosso afastamento, pelo distanciamento,
por nos manter desligados dele. Em nossa natureza caída,
queremos, ansiamos e buscamos manter a distância e
andar vagueando à procura de outro deus, um impostor que
satisfaça o desejo inerente da alma (ainda que em uma
fração infinitesimal), pois, ao contrário de Deus, não é
possível ao homem se satisfazer em si mesmo ou em outras
formas de distração: ele precisa de Deus e, como todo
pecador é idólatra, não encontrando o verdadeiro, tenciona
contentar-se com uma cópia, o falso, o adulterado, ainda
incapaz de satisfazê-lo, mas suficiente para iludi-lo com
uma promessa jamais cumprida de que está a agraciá-lo.
Acontece que esse deus jamais será hábil ou apto em
produzir o gozo e a paz tanto ansiada. Somente Cristo pode
gerar, na alma confusa, atormentada e agonizante, a paz
verdadeira que o mundo, e nenhum “deus”, pode dar (Jo
14.27).
Há um ditado que diz: nem tudo que reluz é ouro!
Existem muitos metais que reluzem: prata, cobre, aço, etc.,
mas suas características são distintivas do ouro, o qual é
particular em seus atributos, nos elementos que o
constituem. Guardadas as devidas proporções, pois se trata
de uma analogia e nenhuma analogia pode descrever
fielmente a natureza divina, única, perfeita e incomparável,
Deus não pode ser distintivo e múltiplo na variedade de
deuses e cultos, na forma como os seus adoradores
pressupõem. Ele não pode, ao mesmo tempo, ser um e
outro, e ainda outro, assim como o ouro não pode ser nem
prata nem cobre, ainda que eles estejam na categoria dos
metais e compartilhem algumas características. Por isso, a
mente humana sempre optou em criar vários deuses, a fim
de que a sua inconstância e incoerência a satisfaçam em
todos os detalhes, em suas superficialidades, sem tocar nos
fundamentos, na essência caracterizada pela santidade e
perfeição intrínsecas a Deus. Ela acaba por se satisfazer na
exceção, naquilo que corrompe o sentido de humanidade,
tornando esta antinatural, aberração, além de exibir a
pecaminosidade e imperfeição do ídolo, o artifício de
sustentar uma empatia entre a vontade e os anseios mais
íntimos dos incrédulos, dos quais não pode se desvencilhar,
e a natureza em desalinho com a verdade.
Raramente a humanidade revela algo verdadeiro de
Deus (ainda que o Imago Dei não tenha sido
completamente apagado pela Queda), tornando-o cada vez
mais desconhecido do homem e este cada vez mais
ignorante de Deus. E, no que restou, haverá muito pouco
dos atributos divinos, senão nada; o que subsiste é o culto,
a adoração ao homem pelo homem (ainda que mascarada,
sublimada); um deus feito à sua imagem e semelhança,
com todos os desvios, com a marca da impiedade, da
transgressão, tal qual Satanás almejou no céu junto com os
seus anjos; tal qual Adão alcançou no Éden e conservamos
até aquele grandioso momento em que Deus nos resgata da
lama e do vômito para nos limpar, restaurando a amizade
perdida e fazendo-nos parte integrante do seu povo.
Toda religião que não professa a adoração ao Deus
bíblico, ao único Deus, aquele que se autorrevela, sendo
este o único meio pelo qual o homem pode conhecê-lo, não
é religião. Ela não tem qualquer poder de religar o homem
ao ser supremo. Pelo contrário, ela é a antirreligião, a
abominação, a afronta ao Senhor, e somente pode carimbar
o destino do homem para a viagem derradeira de horror e
dor na eternidade.
Encontramos outro importante elemento, o do ser
Supremo. Não “seres supremos”, o que é impossível, posto
haver apenas um. O próprio Senhor nos diz, repetindo o
verso de Deuteronômio 6.4: 
“O primeiro de todos osdos doze,
confirmado, implicitamente, por sua própria citação no
verso 17, ao lembrar das palavras preditas pelos apóstolos,
não se incluindo entre eles. Se fosse o apóstolo, não haveria
por que não o dizer; e, não o fazendo, exclui-se essa
possibilidade, de ser aquele chamado por Cristo para ser
“pescador de homens”.
Outra curiosidade é o fato de ser a carta mais
apologética do Novo Testamento, combatendo a apostasia;
e a levar o nome, também, daquele que resumiu, em si
mesmo, todos os elementos possíveis de tornar-se no maior
de todos os apóstatas, o traidor, Judas Iscariotes. É claro
que não é possível qualquer referência séria à figura de
Iscariotes como o autor dessa carta. Seria algo impossível
palavras cheias de vida saírem da pena de um herege, de
um falso profeta, ladrão, traidor e infiel.
A epístola foi escrita para judeus e gentios convertidos
ao Cristianismo, não havendo referência a uma igreja ou
região específica, sendo o seu âmbito universal. Outrossim,
foi escrita com o intuito de edificar e instruir toda a Igreja,
ontem e sempre, na prudência, no zelo e na defesa da sã
doutrina, no cuidado mútuo entre os irmãos, na busca
incessante da santidade e da pureza eclesial, da qual todos
os eleitos são participantes, membros ativos e efetivos pela
escolha divina de tornar-nos unidos e inseparáveis do seu
amor e graça, pelo qual Cristo padeceu, resgatando-nos e
limpando-nos, apresentando-nos santos diante do seu trono
eterno.
Especula-se o fato de Judas tê-la escrito aos crentes da
Ásia Menor ou da Palestina, mas as circunstâncias daqueles
a quem a endereçou são desconhecidas, assim como sua
data precisa. Por seu caráter apologético e semelhante à 2ª
Carta de Pedro, especialmente o capítulo terceiro, pondera-
se que ela seja posterior à morte do apóstolo e anterior à
destruição de Jerusalém; baseando-se o autor parcialmente
naquela epístola para escrevê-la, ainda que o estilo e a
forma não sejam semelhantes. Portanto, infere-se a sua
redação entre os anos 66 a 69 da era cristã.
Conteúdo e Propósito
Ao final da era apostólica[4], a igreja estava sob forte
ataque do inimigo, o qual a combatia de dentro e não mais
de fora (como ocorrera por intermédio das perseguições
pelo Judaísmo e pelo Império Romano, ineficazes para a
retração e erradicação do Cristianismo); conforme o Senhor
apontou, na Parábola do Trigo e do Joio[5], haveria de
acontecer: homens ímpios norteados por sua incredulidade,
tentavam solapar a igreja em seus fundamentos, levando
caos, depravação, contendas e trevas, no intuito de
estabelecer o domínio da carne sobre o espírito, e, assim,
desacreditar e blasfemar o nome de Cristo.
Judas descreveu, em linhas gerais, o comportamento e o
plano maligno a desenrolar-se, conclamando os verdadeiros
crentes à luta, à batalha pela fé verdadeira e bíblica.
Exortou-os a manterem-se firmes naquele que é a Rocha,
Cristo, e não permitirem que se estabelecesse o reino do
mal, da impiedade, da lascívia, das disputas no Corpo,
alertando para o juízo a sobrevir sobre todos aqueles que
ofendiam vergonhosamente o nome santo do Senhor.
Urgia a necessidade de cada irmão zelar e lutar pela
preservação dos ensinos de Cristo e dos apóstolos, os quais
estavam sendo questionados pelos falsos mestres,
incansáveis em causar tumulto em meio ao povo de Deus,
numa tentativa desesperada de solapar a verdade
substituindo-a pela mentira e práticas nitidamente
afrontosas à sua majestade. Parecendo piedosos e sábios,
como convém a todo impostor dissimulado, eles se
infiltravam sorrateiramente na assembleia dos santos,
alcançando, com o tempo, alguma proeminência na igreja,
e, utilizando-se da paz e do amor fraternal, instalavam a
dúvida, a guerra e uma disputa para prevalecerem como
liderança espúria e danosa.
Sempre houve exortação contra eles, seja da parte dos
profetas, de Cristo, dos apóstolos, e não é sem razão que
são identificados por uma série de analogias
correspondentes à obra que realizavam; reconhecidamente
eram inimigos da verdade e servos da mentira, sendo-lhes a
alma descrita como maligna e em labor fervoroso ao seu
senhor, o diabo: “animais irracionais”, “nuvens sem água”,
“árvores murchas”, “estrelas errantes”... Desses, tanto mais
hoje como outrora, devemos nos resguardar, apontá-los,
afastá-los do convívio, como João, o chamado apóstolo do
amor, sentenciou providencialmente:
“Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina
de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de
Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho.
 Se alguém vem ter convosco, e não traz esta doutrina, não
o recebais em casa, nem tampouco o saudeis.
 Porque quem o saúda tem parte nas suas más obras” (2 Jo
1.9-11)
  
Por isso, não há como fugir à leitura sempre cuidadosa e
meticulosa desta mensagem, cujo conhecimento é
indispensável a todo cristão, especialmente em nossos dias,
quando o mal parece interminável, e o desejo de realizá-lo,
uma compulsão, um fetiche moderno. Orientar-nos a
enfrentar e derrubar as ameaças impostas pelas hostes
inimigas, que laboram incessantemente para a destruição
do Corpo, pelo qual Cristo morreu, é o cerne, o fundamento
dessa carta.
PARTE UM
SAUDAÇÃO
 
 
 
 
 
 
 
"Judas, servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago,
aos chamados,
santificados em Deus Pai, e conservados por Jesus Cristo:
Misericórdia, e paz,
e amor vos sejam multiplicados".
Servir Como o Senhor
Neste ponto, Judas se autodenomina “servo de Jesus
Cristo”, o que, em si mesmo, garante-lhe duas
particularidades: a de humildade e a de honra. Todos os que
se designam “servos” reconhecem a sua condição de
subserviência, de subordinação, de carentes da graça,
misericórdia e bondade divinas. Ao fazê-lo, assumem
encontrar-se em um estado de necessidade, de
dependência constante ao seu Senhor, e de pertencê-lo,
com o fim de ser-lhe útil, de desempenhar corretamente as
funções por ele determinadas. Ainda que o próprio Senhor
tenha dito que somos servos inúteis e não fazemos mais do
que nos é ordenado fazer[6], estamos em constante e eterna
serventia a Cristo, o qual é quem nos capacita a devotar-lhe
os nossos préstimos, tanto no chamado como na
regeneração, quanto no aperfeiçoamento, para que o seu
nome seja exaltado, glorificado e bendito entre todos e por
todos os lugares.
Há, ainda, outra condição, a de honra por ser servo.
Interessante o fato de no mundo (e não é uma visão apenas
atual, mas uma visão que vem desde o Éden) o homem
acreditar-se independente e autônomo de Deus. Mesmo não
assumindo essa condição, no fundo, ele sempre tentou e
sempre estará empenhado em alcançar um estado de “dono
do seu nariz”, acabando por reforçar ainda mais a
imaturidade e estupidez por onde caminhou e insistiu em
trilhar. Ledo engano; pois a verdadeira liberdade está em
servir, em cultuar[7] devidamente, e em gratidão, ao Deus
misericordioso; cuja lembrança nos é apontada:
"Sabeis que os que julgam ser príncipes dos gentios,
deles se assenhoreiam, e os seus grandes usam de
autoridade sobre eles;
 Mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre
vós quiser ser grande, será vosso serviçal;
 E qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo
de todos" (Mc 10.42-44).
“Coisa louca”, dirá alguém. “Bobagem”, proferirá outro.
Segundo o padrão mundano, guiado pelo individualismo e a
vaidade, ambos estarão corretos, e um sem número de
outras pessoas os acompanharão em suas sentenças,
acreditando ser possível uma autonomia e independência
de Deus. Ora, se para darmos um simples respiro é
necessária sua providência, quanto mais para os assuntos
complexos e intricados que vão de encontro à nossa
natureza caída e dominada pelo pecado. Sendo o próprio
pecado o motivo pelo qual clamamos e cremos
erroneamente em um estado de independência do Criador,
no qual podemos nos guiar apenas pelo vórtice da nossa
(in)consciência.
Realmente estranho ao mundo é o ato de servir, demandamentos é: Ouve, Israel, o
Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Mc 12.29).
E complementou a sua oração proferindo: 
“E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por
único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste”
(Jo 17.3).
Cristo não abre precedentes para que qualquer forma de
adoração seja possível ou aceitável, nem para a
possibilidade de todas as crenças serem abarcadas em um
único significado e propósito. Não há como não rejeitar toda
e qualquer adoração e culto que não seja dispensada ao
Deus bíblico, segundo a sua própria vontade. Todo deus fora
da Escritura é falso (pelo princípio de “deus” não ser Deus)
e uma imagem distorcida daquilo que o próprio homem traz
em si mesmo. Esse “deus” nada mais é do que o reflexo do
homem; é ele olhando para si e, ao mesmo tempo,
objetando usurpar o trono celeste e assumi-lo. Em seu
delírio, presume que o ser finito, limitado e temporal possa
ocupar o posto do ser infinito, perfeito, pleno e eterno. Se
Deus é suficiente em si mesmo, autoexistente, livre e
independente em si mesmo, não havendo a chance de
existir dois iguais, já que, se um Deus existe desde a
eternidade, não há lugar para outro, o que pensa estar
fazendo o homem em sua incredulidade? Se não há como
existirem dois seres perfeitos, eternos e suficientes no
universo, como pode o homem almejar tal condição, sendo
ele mesmo o oposto daquele que pensa combater?
Deus é um, único; ele é real! Dizer que há muitos deuses
é dizer que não há Deus nenhum. Dizer que existe um outro
deus que supostamente se deu a conhecer
sobrenaturalmente, também é não crer nele; é negá-lo.
Dizer que todos os caminhos levam a Deus, é dizer que o
errado é o certo, e o certo, errado, de modo que, na prática,
o homem não tem aonde ir e a verdade não está nele, mas
naquilo que pensamos dele. Mais uma vez, o homem quer
fazer-se autoridade, inclusive sobre Deus, e a ideia do
ecumenismo[67] e do universalismo[68] nada mais é do que o
estratagema maligno de acomodar todos os homens e seus
pecados numa única cumbuca e assim levar a humanidade
à destruição. Mais do que isso, é pretender que Deus seja
igualmente tolo, como tolo é aquele que se aventura em
uma crença genérica e difusa, na qual o Senhor não passa
de um deus lamuriante, a buscar ser aceito de qualquer
maneira pelo homem. Onde o Deus pessoal nada mais é do
que um observador estático e estanque, preso em uma
redoma imposta pela suposta autonomia do homem, na
qual esse deus é apenas um provedor da vida, não o seu
mantenedor, e sem direito a dar pitacos ou gerir a sua
Criação. Debaixo do guarda-chuvas chamado “deus”, pelo
mundo, estão seguros da tempestade até mesmo aqueles
que o negam veementes, como prova do seu amor leniente,
e, quanto mais rebelde, mais esse deus se esforça em
protegê-lo, em ampará-lo, sem que haja qualquer
reciprocidade, sem que essa relação ultrapasse a forma
unilateral, provavelmente a estender-se por toda a
eternidade.
Transferimos a ele a nossa doença, a nossa psicopatia,
inclusive a ponto de não haver mais como distingui-lo de
nós; como se  fôssemos  quem lhe dá a vida, quem o
sustenta e alimenta, e não o contrário; significando que
todos os deuses ou, mesmo o não ter nenhum deus, não
passam de projeção humana, revelando o que o homem é e
suas limitações.
Com isso, estou a dizer que todas as crenças e religiões,
todos os deuses e não deuses, todas as formas humanas de
cultuar, partem do conhecimento que o homem tem de si
mesmo ou da expectativa de quem ele seja para formatar
um ídolo. Parte-se sempre do homem para deus, da
autorrevelação humana para se definir o ser divino, o que é
um gravíssimo erro, visto ele ser conhecido somente pelo
que revelou de si, e não por nossas suposições. Não sendo
nada mais do que capricho não buscar defini-lo, conhecê-lo,
nos aspectos em que nos é possível fazê-lo à luz da
Escritura, qualquer entendimento ou interpretação, fora do
escopo revelacional das Escrituras, será apenas e tão
somente a autocontemplação humana: o reflexo no espelho
da alma.
Tais pessoas podem ter certeza de que estão adorando
um deus desconhecido, no qual não há uma personalidade
definida, verdadeira e real. Ou, quando muito, adora-se um
deus tão identificado com o homem, em sua corrupção e
doença, que se acaba na confusão, no redemoinho de
dúvidas, de não se saber quem ou o que sustenta e é
sustentado, subsiste ou sucumbe, cultua ou é cultuado,
preserva ou é preservado, gera a vida ou definha.
Resta-nos perguntar: quem é Deus? Sabendo que apenas
o espírito regenerado, em união com o Espírito regenerador,
poderá ter a resposta correta (Dt 4.35-39; 1 Sm 2.2 e Is
44.6-8).
A Distração do Pecado
Portanto, a incredulidade, como descrita, ocorrida em meio
a Israel, levou-o, como povo de Deus, a ser castigado e
perecer, ao não reconhecer a honraria na qual eram
favorecidos, quando Deus agiu livrando-os da escravidão,
dando-lhes uma terra que mana leite e mel, salvando-os dos
perigos, dos inimigos, cuidando deles como um pai mais
que zeloso cuida dos seus filhos. Não é interessante como
os sinais, por maiores, espetaculares e profícuos, mostram-
se incapazes de produzir a fé genuína? Não é o que Judas
parece dizer?
Por mais estranho que pareça, no evangelicalismo
moderno, são os sinais, ou, melhor, a necessidade deles,
que levam o homem a crer, a ter fé. O pragmatismo[69] tem-
se difundido tanto em nosso meio que tudo o que não se
pode ver, tocar, apropriar-se e exibir não funciona, logo
deve ser descartado. Vivemos a época em que o material
dita o espiritual, de tal forma que a vida neste mundo tem
de ser uma prévia do sucesso a ser alcançado na
eternidade. O imediato vira infinito; o temporal, eterno; o
carnal, espiritual; assim como a dúvida se torna certeza, a
certeza de haver apenas dúvidas; a tolice, sabedoria; o não-
bíblico ganha contornos bíblicos, a qualquer preço e por
qualquer motivo, a fim de justificar os dogmas humanos a
permear o discurso religioso e falsamente chamado de
cristão. Há de se questionar: isso é o Evangelho, ou não
passa de uma distorção do Evangelho, o antievangelho? A
mensagem cristã travestida, corrompida, distorcida e
rotulada pela mente humanista e seus valores decaídos
como o pragmatismo, a pós-modernidade, o utilitarismo[70]?
Basta um rápido “passeio” pelas igrejas para ficar
evidente o  culto utilitarista,  cuja motivação está fincada,
estabelecida, nas ações, na eficácia delas, no sentido
prático em que a fé resultará em benefícios objetivos, em
ações visíveis pelas quais se conhecerá a verdade. Em
outras palavras, a verdade é conhecida somente se for útil
naquele momento ao indivíduo; a verdade somente pode
ser conhecida pela experiência, sem a qual não há o menor
sentido (Empirismo), sendo que, quanto mais pessoas se
beneficiarem, mais desejável é.
A coisa funciona mais ou menos assim: o indivíduo vai à
igreja para buscar duas coisas: a primeira, que Deus
satisfaça os seus desejos; a segunda, que seja rápido em
satisfazê-los. O seu valor supremo resume-se na capacidade
de Deus suprir e proporcionar prazer ao homem e de evitar
que ele sofra, sempre tendo como ponto de partida a fé do
homem, aquela em que o vitorioso a exibirá como um
troféu, uma medalha pendurada no pescoço, a refletir os
seus feitos. Nada a ver com a fé que nos foi entregue por
Deus (Ef 2.8) e que foi uma vez dada aos santos (Jd 3).
Mas o que vem a ser fé?
Segundo o Dicionário Priberam: (latim fides, -ei) s. f. 1.
Adesão absoluta do espírito àquilo que se considera
verdadeiro. 2. Fidelidade 3. Prova. 4. Crença.
Segundo o Dicionário Michaelis: sf  (lat fide)  1.  Crença,
crédito; convicção da existência de algum fato ou da
veracidade de alguma asserção. 2. Crença nas doutrinas da
religião cristã.  3.  A primeira das três virtudes
teologais.  4.  Fidelidade a compromissos e promessas;
confiança.
E segundo a Bíblia?
“Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que seesperam, e a prova das coisas que não se veem” (Hb 11.1).
As três definições não parecem harmônicas entre si?
Paulo não está, de certa forma, corroborando a definição
semântica que os  linguistas atribuem à palavra fé? De que
ela tem um valor  pragmático-utilitarista, implicando na
legitimidade dos cultos e da vida cristã praticados
atualmente pelos evangélicos? Será...? O mesmo Paulo diz: 
“Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas
que se não veem; porque as que se veem são temporais, e
as que se não veem são eternas” (2Co 4.18).
E agora, o que lhe parece? Ele prossegue: 
“Porque andamos por fé, e não por vista” (2Co 5.7).
A questão está em muitos usarem “e a prova das coisas
que se não veem” como a necessidade de a fé produzir
resultados visíveis e materiais, de tal forma que se eles não
aparecem, não há fé. Contudo, o que Paulo está a dizer é: a
fé é a prova das coisas que não se veem, porque andamos
pela fé, não por vista. A fé é a prova, o testemunho da vida
cristã, e a vida cristã é a prova da nossa fé:
Porque “todos estes morreram na fé, sem terem recebido
as promessas; mas vendo-as de longe, e crendo-as e
abraçando-as, confessaram que eram estrangeiros e
peregrinos na terra... em esperança fomos salvos. Ora a
esperança que se vê não é esperança; porque o que alguém
vê como também o esperará? Mas, se esperamos o que não
vemos, com paciência o esperamos” (Hb 11.13; Rm 8.24-
25).
Pois bem, o ponto é: tenho fé para ver, ou tenho fé para
não ver? Se não vir, não tenho fé, ou mesmo não vendo,
mantenho intacta a minha fé? Há uma “velha onda” que diz:
posso tudo naquele que me fortalece, distorcendo a
mensagem bíblica a fim de atender aos interesses escusos
do coração. Com isso, querem dizer que, se tenho fé
suficiente, posso tudo. No entanto, há de se definir o que
venha a ser fé suficiente; e muitos dirão que ela será
suficiente dependendo daquilo que se quer e se alcança, ou
seja, o tamanho do objeto, e consegui-lo é que definirá o
tamanho da fé. Vejamos o verso em que se baseiam: 
“Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece” (Fp
4.13).
Parece uma carta-branca dada por Deus para se ter o
que quiser, bastando escrever o que mais for aprazível,
agradável? Porém, o que nos fala Paulo um pouco antes? 
“Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em
toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto
a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como
a padecer necessidade... todavia fizestes bem em tomar
parte na minha aflição” (Fp 4.12, 14).
Alguém se candidata a subir no púlpito e defender que
posso todas as coisas em Cristo, mesmo que seja na fome e
a padecer necessidade? Ou a estar abatido? Ou a participar
da aflição alheia? Se fosse possível fazer todas as coisas,
elas não estariam restritas apenas ao que se considera
benéfico dentro do padrão humano?
Riqueza, posses, poder... a solução de todos os
problemas mediáticos  não é o único item abarcado
por “todas as coisas”, mas também o sofrimento, a tristeza,
a dor, a injustiça, a pobreza, e tantos outros males. Paulo
afirma claramente que Deus o sustentará em todas as
situações, e de que ele viverá a fé cristã mesmo nas
vicissitudes e reveses da vida. Mais do que isso, ele chega a
se gloriar em suas fraquezas, porque o poder de Deus se
aperfeiçoa nela, a fim de que habite nele o poder de
Cristo  (2Co 12.9). O que para muitos é sinal de fracasso,
para Paulo é êxito, e assim deve ser para nós também.
Devemos banir de nossas mentes o falso ensino de que a fé
está atrelada ao sucesso, à riqueza, à cura, à prosperidade,
como afirmam os positivistas. Com isso, não quero dizer que
pessoas de sucesso, ricas, saudáveis e prósperas não têm
fé; mas de que o padrão bíblico de fé está muito além
daquilo que temos, tocamos ou somos. Ele está no próprio
Deus, o qual nos capacita a ter a fé verdadeira; não uma
crença tola; não uma certeza no que é tangível apenas; não
em reverter materialmente, numa contrapartida, o que
cremos. Isso faz de Deus um negociante, e da fé uma
mercadoria; no entanto, muito pelo contrário, a fé sempre
será uma relação de confiança em Deus por intermédio de
Cristo e, principalmente, uma relação de dependência, de
submissão, de reverência, de temor a ele; de
reconhecimento da nossa frágil condição, de nossa
miserabilidade e pecaminosidade diante dele, o Deus santo
e perfeito; da necessidade da sua graça e misericórdia, sem
a qual sequer viveríamos, mas seríamos consumidos  (Lm
3.22).
Portanto, não estou falando da fé como um conjunto de
crenças, nem tratando do assentimento intelectual
puramente, como uma ideia ou conceito decorrente do
estudo ou cultura. Tampouco se trata da possibilidade do
conhecimento divino a partir de evidências ou experiências
emocionais e místicas, muito menos como a causa de
resultados, ainda que proveitosos. A fé bíblica é a única
capaz de fazer com que o homem reconheça o testemunho
de Deus através das Escrituras, como o “autotestamento”
divino, na certeza de que somente podem ser vistas e
entendidas por aqueles a quem Deus abriu os olhos para
verem, e os ouvidos para ouvirem, e a dar-lhes
entendimento para que creiam, se convertam e sejam
salvos  (Jo 12.40). A fé é autenticada pelo próprio Deus,
revelada pelo seu Espírito, que a concedeu para que
pudéssemos conhecer o que nos é entregue gratuitamente
por ele (1Co 2.10-13).
Logo, Cristo é o autor e consumador da nossa fé  (Hb
12.2). Sendo assim, se a tenho é porque me foi ofertada,
como um presente necessário e infalível em seu princípio de
levar-me à esperança e a certeza além da vista dos olhos,
além do toque das mãos, além dos arrepios da pele ou das
lágrimas a escorrerem pelo rosto. A fé pode nos trazer
emoções, pois somos seres emocionais, mas jamais a
emoção, seja ela qual for, significará a fé, apenas se
manifestará em decorrência dela, sujeita a ela, uma
consequência natural de que estamos tão cheios de fé que
nem mesmo o nosso corpo pode se controlar. Não quero,
contudo, dizer que a fé é incontrolável e todos sentirão uma
explosão interior, de dentro para fora, mas afirmar o fato de
não serem as sensações o mesmo que a fé, pois não são;
ela precede os sentidos, e se eles se manifestam, nem
sempre significará uma relação com ela, podendo ser
apenas uma incitação ou devaneio carnal.
Alguém pode dizer: Precisamos dos sinais para crer,
assim como Cristo deu sinais para que o povo cresse. Sim.
Em parte, é verdade, pois o Senhor fez muitos sinais para
que acreditassem ser ele o Cristo: 
“Porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o
Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em
seu nome” (Jo 20.31).
Sem que houvesse sinais, o Evangelho não seria escrito.
Sem o Evangelho, como crer? Sem a palavra, seria possível
conhecer a Deus e ter vida? Há de se entender que a nossa
dispensação é outra. Não mais Deus fala diretamente com o
povo através dos profetas, nem os milagres são necessários
para que creiamos. O Espírito é o orientador a instruir,
ensinar e convencer-nos a partir do que está escrito: a
Bíblia, porque  “nós temos a mente de Cristo”  (1Co 2.16).
Nada mais é preciso, ainda que Deus esteja agindo,
curando, santificando, salvando, segundo a sua providência,
como sempre agiu na história, governando o universo.
Precisamos da Palavra, do Espírito e da mente de Cristo,
mais nada, e muito pouco de nós mesmos, para que a nossa
fé seja autêntica; do contrário, não passará de uma muleta,
incapaz de fazer-nos andar naturalmente, segundo a
vontade divina.
Após a ressurreição, Cristo apareceu aos apóstolos,
menos um, Tomé. Diante do relato dos demais, os quais
viram-no, ele, cético, proferiu:
“Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não
puser o meu dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha
mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei” (Jo 20.25).
Pouco tempo depois, o Senhor encontrou os seus, e Tomé
estava entre eles. Cristo lhe disse:“Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a
tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas
crente. E Tomé, respondeu e disse-lhe: Senhor meu, e Deus
meu! Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-
aventurados os que não viram e creram” (Jo 20.27-29).
Este relato não está na Bíblia à toa, sem um propósito,
mas para que creiamos, mesmo sem os sinais, mesmo sem
os milagres estrepitosos; porque a nossa própria vida já é
um milagre, ainda mais se significar a eternidade ao lado do
nosso Senhor[71]. Mas nada disso acontecerá se não formos
resgatados das trevas pelo seu poder.
Cristo fez inúmeros milagres, tais como ninguém mais
fez e viu, mesmo assim eles foram insuficientes para salvar
uma multidão de incrédulos. Mesmo vendo-os, seus
corações permaneceram duros, inflexíveis, diante de tão
gloriosa salvação. Por quê? Primeiro, os milagres não
salvam. Segundo, os milagres não nos fazem crer em Cristo.
Terceiro, os milagres tornam-nos inescusáveis diante de
Deus, condenando a nossa incredulidade. Quarto, em
muitos casos, o homem busca neles a sua glória, não a de
Deus. Como Paulo escreveu: 
“Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam
sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é
escândalo para os judeus, e loucura para os gregos” (1Co
1.22-23).
De nada adiantam os milagres e o conhecimento sem fé,
tal como aconteceu com Israel após o cativeiro, tanto antes,
no Egito, como depois, no deserto, onde Deus mostrou-lhes
o seu poder e glória. Contudo, mais do que isso, ele lhes
mostrou o seu cuidado, amor, o seu caráter único, algo que
a maioria deles não foi capaz de ver, obscurecidos e
cegados por si mesmos, por seus desejos, por suas
vontades, dominados pelo pecado e pela aversão a Deus.
De nada adianta pregar a Cristo crucificado sem fé, pois ele
continuará indignando os que pedem milagres e os veem,
mas não foram regenerados, não puderam conhecer a
verdade, permanecendo insensatos e extravagantes os que
buscam conhecimento sem serem transformados pelo
Espírito. No entanto, aos que foram, bastará a pregação do
Evangelho para, crendo, mesmo não vendo, amarem o
Senhor,  “alcançando o fim da vossa fé, a salvação das
vossas almas” (1Pe 1.9). 
Não esqueço jamais de dizer que a fé não é produzida
pelo homem nem por sua vontade, mas por Deus, conforme
Efésios 2.8. Não havendo fé, não existe o conhecimento de
Deus e da sua vontade, restando apenas e tão somente
uma rejeição natural ao Senhor originada na incredulidade,
pela ausência da verdadeira e sobrenatural fé. Ao homem
sem fé, a consequência é a destruição, assim como muitos,
no Êxodo, foram aniquilados.... Sobre isso, falaremos um
pouco mais à frente.
Por fim, Judas fala da salvação de um povo, salvação
esta da escravidão egípcia. Não podemos confundi-la com a
salvação da alma, ainda que, como tipologia, se possa
estabelecer um paralelo com Deus salvando uma nação da
condenação eterna, sem problemas. É notório, para
entender o trecho, reconhecermos o cuidado e providência
de Deus para com os eleitos, a fim de serem resgatados da
incredulidade, para terem fé, e serem salvos eternamente, a
fim de formarem um só povo, aquele separado por Deus, na
eternidade, para si.
Abandonando o Serviço
Assim, do mesmo modo, o autor nos lembra a respeito da
queda dos anjos que, vivendo na glória de Deus, se
rebelaram, abandonando o seu principado (entendido como
sendo uma vocação ou ministério), desprezando a bondade
divina, em flagrante recusa do bem em favor do mal a
habitar o espírito deles.
Por terem eles deixado a sua própria habitação, no
sentido de que abandonaram os seus dons, postos e cargos
nos quais foram instituídos por Deus, como soldados que
desertaram do exército do seu país, a expulsão dos céus é
algo inevitável. Não há como, diante do Deus santo e bom,
dedicar-se à perfídia, à dissolução, à traição e ao abandono
do seu serviço sem consequências drásticas. E, se aos anjos
não foi perdoado o amotinamento, os quais são superiores a
nós, o que estará reservado aos homens revoltosos?
Receberão, como diz Pedro, o galardão da injustiça (2Pe
2:13)? Ou seja, o castigo por tamanha desobediência,
insanidade e desdém? Portanto, o segundo ponto mais
importante não pode ser outro senão... a justiça divina.
Antes, gostaria de refletir um pouco sobre a questão da
igreja contemporânea e a justiça da qual o corpo de Cristo é
o seu guardião, neste mundo. Ainda que sujeita às
imperfeições, ao pecado e ao erro, podemos concluir,
categoricamente, que a igreja é aquela a demandar, a exigir
e a encaminhar-se na direção da justiça, como um alvo a se
atingir, um ideal a se perseguir e um princípio a se
exercitar, porque a igreja tem sede e fome de justiça, posto
ser bem-aventurada no Senhor (Mt 5.6).
Todo cristão deve ter a convicção de que, em qualquer
época e lugar do mundo, onde o Evangelho não se fizer
presente, como a regra primeira e última de normatização
das relações humanas (não apenas como um devaneio para
a alma e poetas), ali encontraremos o que se pode chamar
de idade e reino das trevas, sem a menor chance de sermos
injustos, exagerados ou precipitados. Porém, o que vem
acontecendo e se disseminando entre nós é exatamente o
contrário, a possibilidade de se criar um paraíso terreno
sem a necessidade de se aplicar a Lei e o Evangelho, antes
promovendo a rejeição de ambos[72]. Como se o homem,
em si mesmo, pudesse deter algo de bom, e seus valores e
objetivos fossem mais justos e santos do que os valores
divinos, os quais provém da única fonte capaz de gerá-los,
Deus, visto ser ele, em essência, santo e justo.
Estranha-me cristãos saírem, decidida e prontamente,
em defesa de ideologias e métodos nitidamente
antibíblicos, como se Deus pudesse, de uma hora para
outra, renegar a si mesmo em favor do homem e sua
estultícia. Bem, alguém poderia, num arroubo delirante,
dizer que a encarnação do Verbo foi uma espécie de
negação da divindade, mas eu direi a esse insano que não
há como Deus negar-se a si mesmo, pois o perfeito jamais
pode ser imperfeito ou deixar de ser perfeito (falo não de
uma perfeição circunstancial ou derivada, mas da perfeição
absoluta somente aplicável a Deus na essência do seu ser).
Cristo encarnou-se exatamente por causa da sua perfeição,
a fim de executar o plano perfeito, imutável e eterno
traçado pela Trindade Santa, no qual se fez voluntário,
dando a si mesmo por amor e justiça aos escolhidos. Porém
esse não é o motivo específico deste livro, e a discussão
pode se direcionar a outro lugar e momento, mas ainda
assim faz-se necessária a ressalva.
A questão está, de muitas formas e maneiras, em se
tentar justificar o fato de a igreja estar em profunda aliança
com o mundo (mesmo que não seja consumada, mas um
flerte, isso em nada ameniza a situação), abandonando,
como o fez em outras épocas, a aliança com Deus. Por que
será?
Alegar o estado temporário de imperfeição dos santos
como justificativa não me parece prudente, nem mesmo
chega a ser uma resposta. O ensimesmamento do homem
parece-me muito mais próximo de uma resposta bíblica, a
qual nos garante que não há um justo, nem um sequer, e
que não há quem busque a Deus (Rm 3.10,12).  É claro que
não ignoro o convívio do joio e o trigo, mas por que o trigo
se empenha em seguir o caminho infrutífero do joio? Faltam
parâmetros que delineiem a vida cristã? Ou seja, o “manual
de regra de vida”, o qual a maioria diz seguir, foi relegado a
um plano inferior em relação à vontade humana,
posicionada contrariamente e alinhada a algum tipo de
aceitação pelo mundo, que pretende, conhecendo-se os
seus reais intentos, destruir qualquer traço de fé cristã da
face da terra. É como se cada um pudesse absorver o que
quisesse e descartasse o que também quisesse com a
mesma naturalidade com que se escolhe a cor de uma
camisa ou o sabor de um sorvete, apelando apenas para o
critério pessoal, algo subjetivo e de foro íntimo,
contaminadopelo pecado.
Há de se entender que a palavra lida, ouvida e
proclamada, não é nossa, mas de Deus. E como tal, tem de
ser observada, entendida e aplicada em sua integralidade,
não como desejamos que ela seja, mas como ela é de
verdade. O maior problema que se tem é o de se distinguir
entre um trecho e outro da Escritura, a chamada
contextualização (palavra a encher-me de arrepios,
especialmente quando usada para fazer crer que o dito não
é realmente o dito, e pode nem ter sido dito), e dizer ser
esse pertinente e aquele não, para os tempos atuais. Assim,
rejeitamos a Bíblia em sua unidade e plenitude, como a
palavra para todos os homens em todos os tempos e
lugares. Promove-se o seu fatiamento, a fim de se escolher
aquilo a vir de encontro aos interesses pessoais, e
descartar-se o que não se encaixa neles, a partir de uma
exegese falha e uma interpretação distorcida e tendenciosa.
Já disse que não é possível se ter uma fração do
Evangelho; ou se tem o todo ou não se tem nada! Mas
parece que muitos estão dispostos a conviver com uma
ínfima parte dele, a ponto de se acreditar que a tem em
completude  e unidade, quando nem mesmo o que se tem
pode ser chamado de engano, posto ser uma fraude
retumbante em posição de inimizade com a verdade. Talvez
este seja o maior de todos os equívocos: acreditar deter
algo que não se tem. Portanto, até mesmo não ter nada
pode ser mais benéfico, pois há a possibilidade de se ainda
conhecer o todo, ao passo em que a ilusão de tê-lo afasta o
homem de, efetivamente, obtê-lo. Contentar-se e se
autojustificar com uma parte impede o compreender e
desfrutar da verdade intacta transmitida por Deus de
maneira definitiva em seus limites invariáveis. Como está
escrito:
“Olhai, pois, que façais como vos mandou o Senhor
vosso Deus; não vos desviareis, nem para a direita nem
para a esquerda” (Dt 5.32).
Não há ziguezagues, desvios ou atalhos, nem mesmo
paradas, mas um caminhar regular e linear à glória.
O grande problema é a igreja manter o seu olhar focado
no mundo com olhos cobiçosos, invejosos de ter o que ele
tem; de desfrutar do que ele usufrui; de colaborar em
erguer a cerca que separará definitivamente o homem de
Deus, mantendo-o do lado de fora do Reino, ainda que ele
possa vislumbrá-lo a distância, minimamente, e assim
certificar-se de estar (in)seguro na periferia. Ali, a
marginalidade espiritual se estrutura no caos e na
imoralidade, na ilusão de ser o que não se é, tal como
acariciar e embalar uma bomba-relógio programada para
explodir em alguns segundos.
Paulo nos diz:
“Não sede conformados com este mundo, mas sede
transformados pela renovação do vosso entendimento, para
que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita
vontade de Deus” (Rm 12.1).
Ora, o que vem a ser a boa, agradável e perfeita vontade
de Deus, senão o Evangelho em sua totalidade? Não basta
ouvi-lo. Não basta lê-lo. Nem o racionalizar. Decorá-lo. Ou
espiritualizá-lo. Qualquer forma de reduzi-lo em sua
abrangência apenas nos afastará da sua mensagem e dos
efeitos capaz de produzir. Antes é necessário obedecer a
ele, assim como o Senhor Jesus obedeceu ao Pai,
demonstrando o seu amor por ele. Ilude-se quem acredita
que qualquer tipo de amor é suficiente e significativo em si
mesmo. Que qualquer ardor, emocionalismo ou
contemplação seja suficiente para agradar ao Todo-
Poderoso. Nada disto. O exemplo está naquilo que Cristo
espera dos seus discípulos, como prova do amor deles por
ele:
“Se me amais, guardai os meus mandamentos... e
aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é
o que me ama” (Jo 14.15, 21);
Porque:
“Quem não me ama não guarda as minhas palavras” (Jo
14.24).
Isto é dito para a igreja, o povo de Deus, porque o mundo
não pode conhecer o Espírito de verdade, nem pode recebê-
lo, “porque não o vê, nem o conhece” (Jo 14.17).
Muitos justificam a impiedade e injustiça do mundo em
sua anormal naturalidade de ser ultrajante e insensato,
visto não terem a palavra nem o Espírito da palavra para
orientá-los, pois é-lhes impossível recebê-los e não os têm
em si mesmos. Mas será isso? Ou não estaremos apenas
dando os motivos para tanto uma como outra coisa se
propagarem desenfreadamente, numa justificativa para a
falta de temor dos cristãos? Não estaremos a regar e adubar
o mal por considerá-lo inevitável e fora de controle? Não
estaremos a nos condenar pelo descuido, por um espírito de
acomodação e cinismo? Espírito pelo qual nos
autodesculpamos por causa da nossa covardia e falta de
discernimento? Desde quando o fato de se ser pecador é
justificativa para se pecar? Seria o mesmo que um réu
justificar o seu crime diante do juiz com o argumento, ou a
falta dele, de ser criminoso. O criminoso não é
autojustificado por sua condição de culpado, antes ela o
denuncia e o condena. Com isso, participamos do
sofrimento, da injustiça e da opressão que governos e a
sociedade exercem sobre outros irmãos e até mesmo outros
ímpios, o que nos torna, em algum grau, cúmplices do mal.
Alguém pode dizer: devemos sofrer por amor ao próximo.
Devemos amá-lo como Cristo ama o pecador. É verdade;
porém Cristo não ama a todos os pecadores
indiscriminadamente. Cristo não ama aquele que morrerá
obstinado em seu pecado. Cristo não ama aquele que
escarnece e se exibe acima da vontade de Deus, como se
fosse maior do que Deus, levando uma vida distante da
verdade até a sepultura. Cristo não ama os que jamais se
arrependerão dos seus pecados. Muito menos os que se
deliciam continuamente em praticá-los. Cristo, ao contrário,
abomina-os e os lançará no tormento eterno, sem apelação.
Cristo veio ao mundo para resgatar o seu povo, morreu por
ele e por ele ressuscitou. Alegar um amor divino indistinto é
apelar para a desordem de Deus que criou o mundo com
propósitos claros e definidos, assim como os vasos da ira
foram preparados para a perdição (Rm 9.22) e “até o ímpio
para o dia do mal” (Pv 16.4).
A visão de muitos, de um deus que criou vasos para a
perdição e amou-os tanto que os lançará no inferno, onde
serão atormentados eternamente, é simplesmente
antibíblica e, posso dizer, tem o objetivo de nos tornar
amigos de inimigos declarados, de tal forma que
contemporizamos com o mal ao invés de aborrecê-lo,
muitas vezes aliando-nos e entregando-nos de corpo e alma
a ele. Querem criar um deus ambíguo, esquizofrênico, senil,
frouxo, e que nada tem a ver com o Deus bíblico.
Mas, à parte dessa questão, uma outra está a intrigar-
me: pode um cristão apelar para o amor indiscriminado e
incondicional ao pecador, mesmo que isso represente a
perseguição e injustiça a outro semelhante (seja irmão ou
não)? Quer dizer que devo ser misericordioso para com
aquele que não tem misericórdia e assim ele desfrute
livremente do seu pecado, exercendo-o sem limites?
Chegando a utilizá-lo como uma forma de punir o justo?
Veja bem, o ponto a se refletir é: é necessário ser
misericordioso com quem não tem misericórdia, com aquele
que persegue, com aquele que causa dano, com aquele que
se exibe ostensivamente na promoção e incitação ao
pecado? É inadmissível que isso sirva de justificativa para a
ofensa, a improbidade e o despudor. Seria esse o padrão de
justiça bíblica, levando-nos a amar o ímpio e permitir que
ele permaneça um injusto? Qual deve ser a atitude diante
de um ato de injustiça? Defender quem a promoveu? Ou
acusá-lo e condená-lo segundo o reto padrão divino?
Absolvê-lo pelo padrão humano? Quando se age assim,
condena-se o justo e despreza-se a justiça, favorecendo o
mal em detrimento do bem. Mas, sobretudo, permite-se agir
injustamente com ambos, ao consentir um exercício livre da
impiedade de um, privando o outro da liberdade de ser
justo.
Um adendo:
A Bíblia diz que devemos amar aos nossos inimigos (Mt
5.44); da mesma forma que nos ordena a abençoar os que
nos perseguem (Rm 12.14). Mas isto se refere
especificamente a cada um de nós, como indivíduo, e não
como coletivo. É um chamadoindividual para cada um agir
assim quando o objeto de injustiça for a si mesmo, não o
outro; ou seja, eu, Jorge, se sou perseguido, caluniado,
odiado, devo amar quem me persegue, calunia e odeia,
porém isso não quer dizer que devo proceder da mesma
forma em relação a alguém que perseguido, caluniado e
odiado, não detém dos meios para se defender. Antes devo
denunciar o crime e o criminoso e sair em defesa do
inocente. Sou chamado a me entregar à morte por Cristo,
mas não posso nem devo aceitar e permitir que o outro seja
morto, pois, agindo assim, estará evidenciado não o amor,
mas o desamor ao próximo. O amor pode permitir que eu
sofra a injustiça, mas jamais permitir que eu compactue
com ela. São coisas distintas. Devo sofrer o dano, mas
jamais omitir-me diante daquele lesado pela ação criminosa
de um terceiro. Interessante é, normalmente, não
aceitarmos o dano, mas querer impô-lo aos outros; somos
rápidos em nos defender e negligentes quando se trata da
defesa alheia. Devo entender que a minha ação em impedir
o mal está compreendida na providência divina de utilizar a
instrumentalização humana no sentido de fazer justiça.
Alguém pode argumentar: mas, nessa disputa, você está
tomando partido entre duas pessoas, as quais deve amar,
sendo ambas o seu “próximo”. Nesse caso, você não está
sendo injusto? Penso que não. A atitude de injustiça inicia-
se com o criminoso, quem quebrou a lei e os princípios do
evangelho, agindo em desacordo com a palavra de Deus. Ao
defender a vítima posiciono-me em favor daquele que não
desejou a desobediência, antes foi atacado por ela. A
própria lei secular garante ao cidadão o direito de, não
havendo autoridade constituída, sair em defesa da parte
lesada e coibir a agressão, impedindo o criminoso de
alcançar o seu intento.
Outro ponto a se destacar é o fato de o amor ao ímpio
não me impedir, em momento algum, de corrigi-lo. Isto
deveria ser visto, corretamente, como prova de amor não
somente ao criminoso, mas sobretudo ao inocente, para que
ele não seja punido duas vezes: por quem cometeu o crime
e por minha negligência ou omissão, ao não ser reparado no
que perdeu.
Fim do adendo.
Ao se defender a “superioridade do homossexualismo”,
por exemplo, defendem-na até que ponto? E se for
legitimado, por força de lei, e ferir os princípios de liberdade
de outro indivíduo, esse padrão de “justiça e moralidade”
pode ser considerado bíblico e justo? Não é possível esse
“direito” ampliar-se e estender-se aos assassinos, pedófilos,
ladrões, estupradores, corruptos, fraudadores e
blasfemadores? Ou se deve, ao contrário, empenhar
esforços para que eles reconheçam seus pecados (e,
conforme o caso, sofram a punição legal por eles) como
uma maneira de denunciar o padrão imoral e antibíblico no
qual vivem e aprimoram-se?[73]. Sendo exemplo para que
outros não enveredem no erro e no crime? Não é assim que
Deus demonstra o seu amor por nós, nos revelando,
primeiramente, nossa impiedade? Levando-nos ao
arrependimento? Por que temer que a lei seja esse
instrumento de reparação ao injustiçado, a fim de se corrigir
um dano, mas também o aio que levará o pecador a Cristo?
Não é retirar a força do Evangelho? Diminuí-lo e agir
claramente em desamor? E não é certo, ao agir assim, que
uma pessoa conivente será acusada no tribunal de Cristo,
por cooperar com o mal e se inserir no modelo ao qual o
apóstolo se refere?
“Os quais, conhecendo o juízo de Deus (que são dignos
de morte os que tais coisas praticam), não somente as
fazem, mas também consentem aos que as fazem” (Rm
1.32).
Viver no mundo não nos torna parte dele; temos de ser
separados de suas práticas e mesmo daqueles que a
praticam sem pudor. Ao silenciarmo-nos, assentimos, ainda
que exteriormente, com a prática do mal. É o suficiente
para o ímpio ver reconhecida a sua legitimidade e
permanecer na transgressão. O nosso silêncio é a resposta
que eles não precisam ouvir para declararem moral o que
Deus estabeleceu como imoral; pois, como o profeta
adverte:
“Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que
fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo
doce, e do doce amargo! Ai dos que são sábios a seus
próprios olhos, e prudentes diante de si mesmos!”  (Is 5.20-
21)
É necessário que a nossa aversão, nojo e repulsa sejam
evidenciados, não como uma mera postura a delimitar um
espaço físico ou social, mas para o próprio bem daqueles
que teimam em viver à margem da moral e ética cristãs e
pelo bem daqueles que desejam sinceramente viver nelas e
por elas. Agir assim parece ser pedir demais, num mundo
em que o pecado é ostensivamente exposto como apenas
outro padrão social; como se estivéssemos sem rumo, o
ponteiro da bússola girando freneticamente em todas as
direções. Esse padrão encontra-se presente em todos os
segmentos, refletindo o caos que conduzirá as pessoas em
suas relações cada vez mais destrutivas e insanas.
Quando um ministro de Estado disse não haver
problemas no fato de os filhos de um ex-presidente, que
nada têm a ver com o corpo diplomático brasileiro, deterem
credenciais diplomáticas e a sociedade fingiu não ver, ao
passo que os cristãos fingem-se de cegos e muitos dentre
nós ainda defendem esse falso argumento (que em si não é
argumento, pois não há argumentação), paira no ar o cheiro
pestilento e invasivo de podridão, de destruição, de
iniquidade, que deixa tudo à sua volta exalando um mau
cheiro intenso, doentio e agonizante. E ao se fazer vista
grossa para atitudes aparentemente sem importância,
apenas nos fará incapazes de perceber a condição de
autorruína em que o indivíduo ou indivíduos encontram-se,
apáticos em seu próprio aniquilamento. É essa indisposição
à verdade que torna relevante a mentira, que nem mesmo
está preocupada em dissimular-se, mas em se exibir cínica
e provocante em sua obscenidade, como uma ferida
purulenta que ninguém deseja curar.
Isso é extremamente danoso para o mundo o qual,
contudo, não se apercebe, em sua própria cegueira, do
abismo, da queda livre em que se encontra. Mas quando
percebemos a igreja, ou boa parte dela, se envolver cada
vez mais com a patifaria e o descaramento, capaz de fazer
enrubescer os piores e mais cruéis bucaneiros e corsários
do passado, torna-se fácil notar o afastamento do homem
na direção oposta à dos valores bíblicos e o modo como
foram postos de lado. Deus tem sido esquecido e a sua
palavra repudiada em favor das falsas “boas-novas” do
príncipe deste mundo. A consequência disso é a igreja
acabar por se encher de “apelos” humanistas e relativistas
e de incredulidade (como se tudo isso fosse uma virtude e
não uma desgraça), a ponto de o Evangelho estar morto
para ela, enquanto ela, moribunda, aguarda a morte
inapelavelmente justa e anunciada pelo próprio Evangelho;
deixando-se abandonar em si mesma, exatamente por lutar
contra aquilo que deveria ser a sua essência, o que a
manteria viva, ativa:
“Apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem
ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” (Ef
5.27).
A mesma justiça à qual a igreja nominal estará sujeita se
mostrou no castigo recebido pelos israelitas, fruto da sua
ingratidão e revolta contra Deus. Muitos foram
imediatamente destruídos, como Coré e sua tribo, os quais,
achando-se parte do povo de Deus, não pertenciam a ele, e,
por sua arrogante descrença sucumbiram. Eles se
insurgiram contra Moisés, a ponto de este os chamar para
conversar e eles se recusarem a atendê-lo. Não só isso:
Coré ajuntou toda a congregação de Israel e foram contra
Moisés e Arão (Nm 16.12-14;19).
Encontramos nessa narrativa princípios evidentes de
autoridade, contra os quais os incrédulos se insurgiram.
Moisés, o profeta, o homem pelo qual o Senhor libertou
Israel, liderando-o por sua ordem e vontade, foi rejeitado
pelo povo, que assim rejeitou a Deus. Ora, quem instituiu-o
como líder em Israel? O próprio Deus! Ao não o aceitarem
como escolhido e legítimo líder,a rebelião de Coré e seus
comparsas não foi simplesmente contra Moisés e seu irmão,
mas contra a autoridade divina; culminando, em seguida, na
imediata punição: a terra se abriu e os tragou; toda a tribo
de Coré, seus bens e tudo o que possuíam desceram ao
abismo, a terra os cobriu e morreram diante da
congregação de Israel (Nm 16.31-33).
Talvez a ordem dos fatos não seja precisamente essa,
pois, ao rejeitarem a Deus, também o fizeram em relação à
sua vontade e daqueles colocados como líderes do povo.
Muitos esquecem-se de que Deus é justo e santo,
apelando apenas para o atributo do amor como uma “boia
salva-vidas” ou um salvo-conduto para manterem-se no
pecado e na impiedade. Como o apóstolo exorta:
“Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo
o que o homem semear, isso também ceifará. Porque o que
semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção; mas o
que semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna” (Gl
6.7-8).
A teimosia em rejeitar a palavra de Deus trará ao homem
o mesmo fim ao qual os anjos rebeldes estão destinados:
Deus reservou-lhes a escuridão e prisões eternas, que
necessariamente não quer dizer que estejam presos,
impossibilitados de agirem, mas que, em sua
desobediência, não há neles luz, mas apenas trevas, e que
estão eternamente presos e amarrados em sua soberba e
tolice, ainda a lutar obstinadamente contra Deus e os seus
filhos. Será que ainda esperam ganhar esta guerra? Seriam
tolos o suficiente? Ou não conhecem que a palavra de Deus
revela a sua derrota inexorável? (Hb 2.14). Se sabem ou
não, o certo é que insistem em sua rebeldia, lutando
incessantes a fim de destruir o reino de Deus. Por isso foi-
lhes reservado o Inferno, lugar criado para Satanás e seus
anjos, mas também para os homens ímpios e
irreconciliáveis. E ainda nos é afirmado que o dia do Juízo os
aguarda e que eles estão reservados para esse dia, o dia
em que a justiça e a ira de Deus estarão eternamente sobre
todos eles, anjos e homens caídos.
Porém, qual é, pois, a causa ou motivo para a justa
condenação e o fato de serem lançados na escuridão e em
prisões eternas?
Um único e suficiente motivo apresentado de várias
formas, muitas visíveis, outras nem tanto, e algumas
ocultas na intimidade: o pecado!
Primeiro, a definição de pecado: “é tudo o que é
contrário ao caráter de Deus. Como a glória de Deus é a
revelação do seu caráter, o pecado é uma insuficiência do
homem em relação à glória ou ao caráter de Deus (Rm
3.23)”[74].
Considero esta uma ótima definição do pecado, pois ela
estabelece que ele é algo completamente exterior a Deus,
cuja natureza não se opõe meramente ao pecado, como
duas forças em disputa, mas o anula completamente. A
santidade divina como antídoto é capaz de eliminá-lo, sem
restar nada, de modo que sua deficiência é anulada por
Deus em sua perfeição. O pecado poderia ser entendido
como uma reação radical a Deus, à sua santidade,
autoridade, essência e natureza, bondade e perfeição,
justiça e graça, numa tentativa pífia de tomar o seu lugar,
substituindo-o por elementos antagônicos, díspares e
viciados, como se a falsificação pudesse, em algum
momento, revestir-se da autenticidade do Autor Supremo,
do legítimo Senhor de todas as coisas, a abalar-lhe o Reino e
Trono, os quais são inatingíveis e inexpugnáveis, por serem
o lugar eterno do Deus eterno. A natureza divina destrói e
neutraliza qualquer investida do mal e do pecado, por
serem estes a adulteração e a falsificação do bem,
incapazes de assumirem o caráter próprio do original. Onde
há ordem, é impossível a desordem. Onde há o bem, é
impossível o mal. Onde há santidade, não há pecado. Onde
há justiça, não há injustiça. Onde há vida, não há morte. Na
origem, não existe incerteza. Na unidade, não há dispersão.
No eterno, não há o efêmero. Por isso o pecado é a
resistência ou a obstinação do homem em reconhecer a
devida glória do Altíssimo.
É possível que alguém avente a hipótese de eu estar me
entregando ao dualismo, o que não é o caso. A Bíblia afirma
que todas as coisas foram criadas por Deus, estabelecidas
eternamente em seu Decreto, de tal forma que nada,
absolutamente nada, surgiu à sua revelia; pois toda a
criação, seja espiritual ou material, veio a existir do nada;
não havia substância pré-existente a qual Deus tivesse
utilizado para formar o universo. O que equivale a dizer que
tanto o mal como o pecado não são autocriados ou
originários de outra “força”, mas vieram à existência pela
vontade decretiva de Deus, ainda que se manifestem pela
sua ausência. Onde o necessário bem não está agindo,
entrega o homem à sua própria natureza, o padrão natural
de inimizade contra Deus, e o campo infértil para a
proliferação do mal. Como Paulo resumiu apropriadamente:
“Deus os entregou às concupiscências de seus corações,
à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si; Pois
estes mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram
e serviram mais a criatura do que o Criador” (Rm 1.24-25)
  
Portanto, tudo, em seus mínimos e irrelevantes detalhes,
está sujeito ao Criador, sem que pudesse existir alheio à sua
deliberação; e aqui, como já disse, inclui-se o pecado, o mal,
a Queda, etc.; sem nos esquecermos de que eles são
antíteses ao ser divino.
Infelizmente, nesta era pós-moderna, em que a
sociedade é guiada pelo conceito relativista-materialista-
cético (a descrença em relação à verdade, mas nunca em
relação ao falso e adulterado), o homem é visto como um
amontoado de genes e células e suas atitudes estão
diretamente ligadas à combinação dos genes, hormônios e
a interação deles com o meio natural e social em que se
vive. Segundo esse padrão, o homem é resultado de
agentes biológicos/hereditários, químicos e ambientais,
explicando-se, assim, os seus atos, os quais são
consequência direta desses fatores. Tal pensamento visa
tirar do homem o senso moral e suprimir a Deus, o criador
da Lei Moral, pela qual o homem se revela iníquo e culpado
pelos seus pecados. Desta forma, está-se livre para praticar
a dissolução e impiedade em completo estado de
descaramento e cinismo, o “salvo-conduto” que o tornará
inconsequente e irracional, tolo e imaturo, além de um
fugitivo recorrente, na busca incessante de ocultar de si
mesmo qualquer acusação ou denúncia de que suas ações
são irresponsáveis, aspirando alcançar a supremacia suicida
do desejo inconsequente, onde não há culpa nem a ideia de
violação da santidade. Antes, trata-se de um ato construído
pela ilusão de que não se é merecedor de punição, posto
não haver nenhuma transgressão, sendo que as ações
provenientes do corpo e da alma encontram respostas
apenas no desejo, em si mesmo, como se ele fosse maior do
que o próprio ser, do próprio homem, dissociado da
sabedoria, da ordem, retidão e justiça e do verdadeiro
significado de existência.
O ceticismo aboliu a ideia do pecado como ato
condenável e condenatório, não podendo ser julgado pela
moral cristã, visto ser ao homem impossível lutar contra as
“forças” bio-químico-sociais, às quais está exposto. Como os
animais, o homem é refém do seu instinto, não podendo
resistir-lhe; qualquer moral pré-estabelecida é um ataque
direto à independência e autoridade do homem sobre si
mesmo, não podendo ser considerada, e, se possível, é
transferida a outra esfera social pelas vias ideológicas. Este
conceito é o que considero de a “cara de pau” do pecador;
porque, diferentemente dos animais, o homem possui uma
alma imortal, a qual é capaz de conter e deter os seus
impulsos pecaminosos (um reflexo do Imago dei). É claro
que esta não é uma definição, mas uma dedução, e se
aplica apenas àqueles que são regenerados pelo Espírito
Santo, mas o objetivo principal é o de diferenciar o homem
e sua mente do animal e seu instinto. Muitos podem dizer
que o animal é por vezes mais racional que o homem em
sua irracionalidade. Pode ser, talvez. Mas o fato é que a
Bíblia indica os atos imorais humanos como pecados,por
isso a necessidade da Lei Moral, a qual distingue nossos
atos (e, por conseguinte, nós) das demais criaturas,
impondo restrições ao mal, à depravação que existe em
cada um, de forma a não permitir que nossas ações sejam
excessivamente humanas (no sentido do homem pós-
Queda), completamente identificadas com a natureza
pecaminosa, mas reserve e resguarde características
divinas, não perdidas totalmente, porém contaminadas pelo
pecado. Neste sentido, a Lei Moral revela-nos a iniquidade e
o transtorno moral ao qual estamos submetidos e cativos,
no entanto, também aponta para a necessidade de freá-los,
de contê-los, sem a qual o mundo se tornaria altamente
destrutivo e inabitável.
O lado verdadeiro da realidade humana é que ele
somente poderá se conter e deter os seus impulsos
pecaminosos pelo poder e pela graça de Deus, ao
transformar o coração de pedra em coração de carne (Ez
36.26). Em outras palavras, Deus operará a conversão e o
novo nascimento no homem caído (Jo 3.3), e, pelo poder de
Cristo, o homem se torna justificado, redimido, absolvido
dos seus pecados e feito santo.
Se o homem tivesse se mantido puro e em santidade no
Éden, como Deus o criou, à sua imagem e semelhança, não
haveria o pecado, nem condenação. Não entro no mérito de
como isso se daria, porque o “se” aqui tem a ideia de
hipótese não realizável, uma conjectura, visto Deus agir no
homem e na história conforme sua vontade decretada na
eternidade.
O mundo moderno vê o pecado e o mal como resultados
naturais do que somos, algo irresistível e que somente
poderá ser contido pelo senso coletivo de justiça e
igualdade, os quais farão renascer a bondade e fraternidade
individual. O meio para se obtê-los passará sempre por
algum tipo de nivelamento comportamental, imposto à força
e coercitivamente na pessoa indesejada; forças tão
poderosas e dominadoras que anularão a individualidade
em favor de um senso coletivo maior e almejável. É quando
se apresenta o caráter ideológico de reconstrução e
reengenharia social, numa tentativa de se construir um
novo homem, passivo e completamente submisso aos
ditames da nova sociedade, sob os auspícios do poder
estatal. Para isso, é necessário o controle da mente, então a
psicologia, a pedagogia e a sociologia se encarregarão de
propagar e exigir um comportamento anti-humano e
conectado a um “bem maior” a anular o sujeito em favor do
objeto. Uma verdadeira antítese na qual o princípio do
pecado é negado pela autonomia individual, mas essa
autonomia tem de ser controlada pelo impulso coletivo de
domínio para um fim comum. No final, se houver falhas,
elas não serão imputadas à sociedade, que pode ser
acusada formalmente, mas jamais na prática, e o indivíduo
é quem carregará a culpa e a punição. Ou seja, criou-se um
círculo vicioso e um verdadeiro “samba do crioulo doido” no
qual o homem não tem, dentro desse escopo, a menor
chance de escapar da destruição, da antinaturalidade
forçada, o que o torna uma marionete, um joguete nas
mãos de uma elite controladora e sob a égide ideológica
dominante, que despreza e nega qualquer relação entre a
humanidade e o Deus bíblico. Ela é o poder e a força e o
deus!
Exemplos não faltam. Um criminoso, aos olhos dos
intelectuais modernos, em sua maioria, comete os crimes
forçosamente por sua condição social ou econômica, pela
injustiça ou desigualdade, de forma que a sua motivação
não é intrínseca ao furto, roubo ou assassinato, mas exterior
a ele, a ponto de o consumismo ou a sociedade consumista
ser a causadora do mal gerado na alma. Logo, os crimes
devem ser atenuados em suas consequências porque a
culpa não é completamente do criminoso (em muitos casos
nem deveria ser, pois ele não tem escolhas, é o que dizem)
mas majoritariamente da sociedade. Com isso, cria-se uma
generalização absurda, a de que os pobres são
potencialmente criminosos e de que os ricos não o são, nem
podem ser. A realidade, entretanto, nega-lhes as falácias, ao
mostrar que os crimes acontecem em todas as esferas e
não estão restritos a apenas um ou outro grupo social.
O desejo de negação da verdade e a criação de um
experimento social fictício encontra-se presente também no
que chamam de “ideologia de gênero”. A psicologia
moderna tenta, de todo jeito, garantir ao indivíduo o direito
legítimo de não se ver como é, mas de o homem poder ser
o que quiser, sendo que a sociedade não pode, em hipótese
alguma, negar o que ele se tornou. No caso de doenças
como a anorexia, por exemplo, quando uma pessoa com 32
quilos se vê, ao olhar-se no espelho, com 220 quilos, os
psicólogos insistem em convencê-la de que a imagem vista
não é a real e de que ela não é efetivamente “gorducha”.
Há um claro chamado à realidade e uma oposição ao que o
enfermo vê como sendo antinatural, uma discrepância
obsessiva, provocada por angústia ou sofrimento mental.
Em relação a um homem que não se vê como homem, mas
como uma mulher, por outro lado, os mesmos “cientistas”
convencem-no de que ele é uma mulher, ou pode sê-la, e de
que a sociedade está equivocada em vê-lo como não sendo.
Ela tem de participar, compreender e aceitar a sua doença
como algo natural, vendo nele o que não é nem nunca será,
por mais que se esforce em torná-lo genuíno. Dois pesos e
duas medidas, onde a ciência deixou há muito de ser
praticada para exercer uma militância ideológica
esquizofrênica de imposição de conceitos artificiais e
utópicos e insanos.
No entanto, as Escrituras nos revelam que o mal e o
pecado são consequências daquilo que nos tornamos ao nos
rebelarmos contra Deus, ao rejeitar sua autoridade,
supondo-nos capazes de ser como ele, apelando para uma
independência impossível e ilusória, uma vez que o próprio
ato de respirar independe da nossa vontade. Ao opor-se a
Deus, deliberadamente o homem aliou-se ao mal, teve
corrompida a sua natureza, fazendo-se antinatural, uma
abominação, afastando-se da essência humana verdadeira
que é dar graças e louvor ao doador de todas as coisas. À
ingratidão humana soma-se o próprio desprezo a si mesmo;
querendo exaltar-se, o homem rebaixa-se para muito além
do conhecimento próprio e para muito aquém da mínima
retribuição, em tenaz rebelião contra aquele de quem não
pode prescindir; não reconhecendo de quem é dependente
e de quem recebe o favor.
Cristo veio restaurar o que se havia perdido, veio
restaurar em nós a imagem de Deus que havia sido
maculada e deteriorada no Éden. Por ele ser o homem
perfeito, puro, santo e sem pecado, ao morrer na cruz do
Calvário, substituiu-nos, pagando o preço da nossa
desobediência, das nossas iniquidades. Assim, fomos
regenerados, santificados, purificados e transformados
novamente à imagem e semelhança de Deus.
Não há como apelar para a relatividade do pecado; por
ele estamos mortos para Deus; por ele virá a condenação
eterna; por ele Cristo morreu na cruz... e, por ele, muitos
serão justificados e salvos. Consequências reais e tangíveis
de um único ato de amor, da entrega voluntária, do
sofrimento e morte caridosos, que levou o Filho de Deus a
encarnar-se, entregando a si mesmo por aqueles que antes
o odiavam, mas que reconheceram, mesmo sem toda a
compreensão, o sacrifício substitutivo, a absolvição
completa de toda a ofensa realizada contra Deus. Isso se
chama graça! E faz do homem novamente homem, ou
muito próximo daquele criado do barro[75].
O mesmo não é possível em relação aos anjos caídos;
para eles não existe a regeneração, tal qual é ao homem.
Como e por quê, somente Deus o sabe segundo a sua santa
vontade. Ao se rebelarem nos céus, Satanás e seus asseclas
assinaram definitivamente a sua sentença condenatória,
sem defesa, sem recursos, sem perdão. Afinal, o perdão
compreende o arrependimento, que os anjos caídos são
incapazes de ter, já que o Espírito Santo, o doar deste dom,
não age neles, sendo-lhes reservada a escuridão. Algo
peculiar é que, na escuridão, não se consegue ver; por ela,
tropeçamos, caímos, e,até mesmo, pode-se morrer,
dependendo de onde se está e para onde se cai. Ela é um
lugar de trevas, onde não há sequer uma réstia de luz e, no
caso dos anjos caídos, eles se tornaram para sempre
escravos da escuridão. Uma escuridão não criada, mas
buscada, ansiada, pela natureza amotinada, estando todos
que se rebelam, por completo, sujeitos a ela. Essas trevas
são tão densas, a envolvê-los implacavelmente que,
inebriados pela vaidade, lutam como néscios contra Deus e
seu Reino, gastando o seu tempo em aumentar, sobre si
mesmos, a ira divina, ao insistirem e persistirem no labor
funesto de combater a verdade, a vida, a razão, a
santidade, a obediência e sujeição ao Senhor. Com isso,
amontoam sobre si, cada vez mais, o juízo de Deus, o
castigo como retribuição mais que merecida por sua
arrogância, vaidade e soberba, ao se colocarem
ostensivamente contra o Altíssimo, levando consigo uma
multidão de estultos igualmente desobedientes, envoltos na
mesma escuridão, dando cabo ao plano doentio de se
autodestruírem, enganando-se a si mesmos, levando às
últimas consequências as atitudes mais torpes como
desagravo à soberania divina.
Satanás e seus anjos foram os primeiros derrotados,
julgados e condenados (Hb 2.14), servindo-nos, agora, de
exemplo, a fim de despertar e suscitar temor ao coração
impenitente, ao homem em contumaz perturbação da alma
e que ainda não compreendeu o alcance da sua
insubordinação.
Ela aponta para a “escuridão e prisões eternas”, onde a
insensatez tramada e posta em ação pelos rebeldes
receberá o justo pagamento por sua ousadia negativa e
obsessão doentia. Não podemos entender “prisões eternas”
literalmente, como se Satanás e seus anjos pudessem ser
enjaulados ou amarrados com correntes. Na verdade, o
inferno foi criado para eles e nele habitarão por toda
eternidade, recebendo a justa punição por seu motim.
Contudo, entendo que a expressão significa o próprio estado
de rebelião, de escuridão, em que seus espíritos se
encontram, e de onde não podem jamais sair, pois ela foi-
lhes reservada por Deus, da mesma forma que o Lago de
Fogo lhes foi destinado.
Assim como eles, o homem insubmisso, desafiador e
impenitente (o qual tem o privilégio concedido por Deus de
arrepender-se), sofrerá o castigo merecido quando “daquele
grande dia”, sem a chance de escapar ou desviar-se das
algemas a atá-lo em sua vontade desordenada, sendo
lançado no lugar onde “o seu bicho não morre, e o fogo
nunca se apaga” (Mc 9.44).
Finalizando a exemplificação sobre a justiça divina, que
se refere a um fato insistentemente replicado nas
Escrituras, um alerta à cautela e prudência, para não se
repetir conosco o juízo ao qual os habitantes de Sodoma e
Gomorra atraíram com suas perversões e pecados, bem
como as cidades circunvizinhas[76], reitero: Deus fez chover
enxofre e fogo dos céus, destruindo-as (Gn 19.24-25). O
sacrilégio delas era algo notório na região, e Deus colocou-
as por exemplo, para que todos soubessem as
consequências de uma vida dissoluta. Talvez, por isso, esse
seja um fato relatado sucessivas vezes na Escritura, como
um alerta de que o homem irreconciliável e rebelde sofrerá
a pena eterna do juízo divino.
Tal qual os habitantes daquelas cidades, qualquer um
que se atreva a desconsiderar a advertência de viver uma
existência santa, preferindo entregar-se à fornicação[77]
(palavra que nos remete não apenas à prostituição carnal,
mas também à idolatria como uma forma de prostituição
espiritual, ao entregar a sua alma para um impostor,
alguém que não é o legítimo doador e senhor dela, Cristo) e
aos desejos da carne, encontrará o mesmo caminho. Não a
destruição através de um fogo do céu (o que não está de
todo descartado, já que o juízo pode sobrevir de várias
maneiras neste mundo), mas pela separação eterna,
inexorável, de Deus, significando a mais destrutiva e
dolorosa forma de morte.
A menção a “ido após outra carne” (Judas 7) refere-se
àquele homem que não somente segue os desejos
ilegítimos e afrontosos contra Deus, mas persiste no
pecado, como uma provocação, a despeito de todas as
advertências; cometendo-o como um desafio, um insulto;
incitando-se a si mesmo contra Deus, em atitude
deliberadamente contenciosa, tornando-se ainda mais
detestável aos seus olhos.
No íntimo da sua alma e coração, ele se recusa, como
um revel, a qualquer obediência, desdenhando da
autoridade divina e fazendo-se senhor de si mesmo. Seria,
mais ou menos, como um soldado desertor que abandona o
seu exército em meio a uma guerra. Naquele momento, ele
nega a autoridade dos seus comandantes e a possível
punição é-lhe indiferente, seja porque considera-se esperto
o suficiente para escapar e não ser pego, seja por achar que
as leis e o juiz não o enquadrarão ou o alcançarão. Em
qualquer uma das situações ele é um teimoso, obstinado,
em seu desejo de autonomia, possível somente no caso de
não haver nenhuma autoridade. Porém, ele sabe que existe
e tenta enganá-la, esquivar-se da sua responsabilidade,
buscando em seu ato uma isenção, a anulação do seu
dever, do compromisso. Ao contrário deste mundo, onde há
chance de se safar da punição, das limitações e frouxidão
da justiça humana, em relação a Deus isso é impossível,
mas, muito mais do que isso, é intolerável ao Senhor santo
e justo permitir uma mínima injustiça em sua magistratura,
em seu governo. Esta é a advertência do apóstolo:
“Indignação e a ira aos que são contenciosos,
desobedientes à verdade e obedientes à iniquidade;
tribulação e angústia sobre toda a alma do homem que faz
o mal... Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei
também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela
lei serão julgados” (Rm 2.8-9,12)
Certamente nenhuma imagem que se relacione ao
castigo eterno, por mais impressionante que seja, exprimiria
a realidade do que aguarda as criaturas que perseveram na
vergonhosa e infame inimizade com Deus, desafiando-o.
PARTE CINCO
A POMPA DO TRAIDOR
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“E, contudo, também estes, semelhantemente
adormecidos, contaminam a sua carne, e rejeitam a
dominação, e difamam as dignidades.
Mas o Arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo,
e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou
pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O
Senhor te repreenda. Estes, porém,
dizem mal do que não sabem; e, naquilo que
naturalmente conhecem,
como animais irracionais se corrompem.”
 
O Nexo da Impiedade
Após o parêntese, nos versos 5 a 7, em que a igreja é
lembrada da incredulidade de muitos e da justiça divina
sobre eles, com o nítido objetivo de ressaltar o estado vil e
sórdido no qual os falsos mestres encontravam-se, em sua
condição de ceticismo e consequente alvos da justiça
divina, de certa forma, chamando-os ao arrependimento, e,
também, convocando irmãos, seduzidos por suas astúcias, a
mudarem a intenção dos seus corações, contristando-os e
voltando à verdade, ainda somos admoestados a não “dar
guarita”, não se entregar aos seus apelos insanos. Isso
significa não ceder ou ser engodado pelas falácias e
artimanhas desses “velhacos”, antes rejeitando a elas e ao
seu ensino espúrio, pois quem os recebesse, estaria
trilhando um caminho diametralmente oposto ao da fé
genuína, da graça, e do conhecimento de Cristo,
equivalendo a rejeitá-lo tal qual um idólatra, pagão,
tornando-se em um traidor no mesmo nível de apostasia
dos falsos mestres, igualando-se na filiação espúria àqueles
que têm por pai as trevas.
Em tão poucos versos, soa estrepitoso o alerta de que o
perigo é iminente e a atitude de condescendência, por mais
insignificante e aparentemente inócua, representará um
grande risco, pois um pouco de fermento pode,
rapidamente, fazer com que toda a massa seja levedada
(1Co 1.6). Como um abismo chama outro abismo, um erro
necessitará de outro equívoco, e mais outro, para subsistir,
para justificar-se, para estabelecer-se, culminando na
corrupção de toda a sã doutrinae em sua explicita negação.
Além de os seus defensores, ainda que alguém se considere
“um mero simpatizante”, estarem sob o castigo, a ira
divina, aqueles que não temeram a ameaça e deixaram-se
conduzir por caminhos tortuosos, adentram a mais densa
escuridão da alma e a separação inexorável de Deus. É
possível que se voltem para a luz, mas como o apóstolo nos
diz, poderiam aqueles iluminados uma vez serem
novamente iluminados? A resposta é não! Como ele mesmo
esclarece:
“Porque é impossível que os que já uma vez foram
iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram
participantes do Espírito Santo,
 E provaram a boa palavra de Deus, e os poderes do século
futuro,
 E recaíram, sejam outra vez renovados para
arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo
crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério” (Hb
6.4-6)
  
No verso 8, ele retorna à exortação, voltando-se
diretamente ao grupo de falsos profetas, indicando que eles
se encontravam no mesmo estado de entorpecimento com
o qual os incrédulos, os sodomitas e os anjos caídos se
deparavam.
A expressão “adormecidos” remete-nos à inconsciência,
ao desconhecimento da realidade e à irresponsabilidade.
Mas em relação a quê?
Certamente, não estou a dizer que os seus atos eram
inconscientes, no sentido de não saberem o que faziam,
mas faziam-no porque sabiam sê-los afrontosos a Deus e
vergonhosos à igreja. Não pelo fato de agirem
inconscientemente, mas por terem uma consciência
corrompida, arruinada e má, seus pensamentos e vontade
dirigiram-se para o pecado obstinado, resistindo aos
desígnios divinos, desprezando a igreja e os seus
ensinamentos. O que desejavam, em seu íntimo, era
destruir os irmãos, levando-os ao engano, tornando-os
arredios à autoridade divina e eclesial, uma leva de
insubmissos, orgulhosos e maldizentes. Eles não eram
inocentes ou pobres coitados que não sabiam o que faziam;
não, não eram! Como homens e mulheres infames,
degradados moral e espiritualmente, caídos na fossa mais
profunda e malcheirosa, entregues aos seus ventres, à sua
carnalidade, ao pecado desenfreado e a todo o tipo de
males que se possa imaginar, o que faria até mesmo o
ímpio envergonhar-se de sua conduta, faltava-lhes o nexo
da santidade. A imoralidade e perversão eram o único
“cântico” a entoar em seus ouvidos contaminados, a única
melodia fúnebre distinguível, embotando-lhes a alma, tal
qual o viciado estupidifica-se nas drogas, envenenando-se,
destruindo-se, mas não sem levar consigo a dor e o
sofrimento aos mais íntimos, sejam parentes ou amigos, e,
por vezes, desconhecidos, até em forma de roubos e
assassinatos.
Tiago nos adverte, em sua carta, que cada um é tentado
por sua própria concupiscência, que trabalha na mente e,
estando concebida, dá à luz o pecado, o qual, consumado,
gera a morte (Tg 1.14-15).
De igual forma, Judas nos fala do mesmo processo em
que as mentes adormecidas contaminavam a sua carne e,
sedadas, entorpecidas, entregavam-se às práticas mais
abomináveis diante de Deus. Por estarem envoltos na
estupidez, por serem cegos espirituais, por ouvirem apenas
a voz da própria natureza (e os cochichos imorais do
maligno), buscavam pecar sempre mais livremente, não se
sujeitando a qualquer jugo ou autoridade, a não ser ao
pecado que os tinha presos em rédeas curtas. Os seus
destinos caminhariam no sentido de alcançar o mesmo
resultado daqueles citados anteriormente: a perdição
completa, a condenação irrevogável, o fim de sofrimento e
abandono, debaixo da justiça e ira divinas.
A reprimenda quanto ao cuidado com os falsos mestres
perpassa toda a Bíblia, demonstrando o trabalho incessante
e tenaz do inimigo em desvirtuar a verdade, levando o
incauto à destruição. Um dos exemplos mais claros foi-nos
dado pelos fariseus e escribas, homens de grande
conhecimento escriturístico, mas que, seduzidos pelo
orgulho e pela soberba, levaram a si mesmos, e boa parte
do povo, à rejeição da palavra de Deus. 
Sendo assim, farei uma pequena análise do texto de João
10.22 a 42, averiguando uma forma muito comum de
incredulidade, nos tempos do ministério de Cristo, em Israel,
o qual complementarei na seção IX, deste livro, citando
outras duas formas de ceticismo confundidas com a fé
genuína. Vamos, primeiro, ao trecho já citado, transcrito por
completo para facilitar a minha argumentação:
“E em Jerusalém havia a festa da dedicação, e era
inverno. E Jesus andava passeando no templo, no alpendre
de Salomão. Rodearam-no, pois, os judeus, e disseram-lhe:
Até quando terás a nossa alma suspensa? Se tu és o Cristo,
dize-nos abertamente. Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo tenho
dito, e não o credes. As obras que eu faço, em nome de
meu Pai, essas testificam de mim. Mas vós não credes
porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho
dito. As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-
as, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca
hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão.
Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém
pode arrebatá-las da mão de meu Pai. Eu e o Pai somos um.
Os judeus pegaram então outra vez em pedras para o
apedrejar. Respondeu-lhes Jesus: Tenho-vos mostrado
muitas obras boas procedentes de meu Pai; por qual destas
obras me apedrejais? Os judeus responderam, dizendo-lhe:
Não te apedrejamos por alguma obra boa, mas pela
blasfêmia; porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti
mesmo. Respondeu-lhes Jesus: Não está escrito na vossa
lei: Eu disse: Sois deuses? Pois, se chamou-os deuses
àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida, e a Escritura
não pode ser anulada, àquele a quem o Pai santificou, e
enviou ao mundo, vós dizeis: Blasfemas, porque disse: Sou
Filho de Deus?
 Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis. Mas, se
as faço, e não credes em mim, crede nas obras; para que
conheçais e acrediteis que o Pai está em mim e eu nele.
Procuravam, pois, prendê-lo outra vez, mas ele escapou-se
de suas mãos, e retirou-se outra vez para além do Jordão,
para o lugar onde João tinha primeiramente batizado; e ali
ficou. E muitos iam ter com ele, e diziam: Na verdade João
não fez sinal algum, mas tudo quanto João disse deste era
verdade. E muitos ali creram nele.”
  
Esta segunda seção do capítulo dez é a ratificação, o
complemento de tudo apresentado na primeira seção,
versos de 1 a 21. Mais uma vez, estamos diante da
incredulidade dos judeus, os quais resistiam tenazes em
negar a Cristo, como Messias e Deus, acercando-se dele,
inquirindo-o, irreverentes e céticos (v. 24). A resposta do
Senhor é direta, mostrando-lhes quão cegos estão diante de
todos os prodígios que realizou, os quais testemunhavam a
sua filiação com o Pai, não um mero homem de ideias e
atitudes exorbitantes e insanas, mas o Filho de Deus, o
Verbo encarnado, Senhor de tudo e de todos.
A descrença dos seus inquiridores era fruto da arrogância
a revelar a ruína de todo o sistema religioso judaico, e, por
conseguinte, de seus espíritos acalentados pelo pecado e
engano, no qual os seus olhos eram mantidos cerrados para
a verdade, para a insondável revelação, tão distante de
seus corações, expondo-lhes o profundo estado de perdição,
de ignorância das coisas divinas. Na célere condenação em
que trilhavam, imaginavam-se às portas do paraíso
celestial, mas estavam diante de algo não compreensível no
estado de incredulidade em que se encontravam. Diante
disso, apontou-lhes o Senhor as suas reais condições:
“Mas vós não credes porque não sois das minhas
ovelhas, como já vo-lo tenho dito” (v. 26).
Não obstante, para o homem natural, a verdade jamais
penetrará em seus ouvidos moucos e corações
impenitentes, por mais que se lhe repita, desenhe e insista
em fazê-lo perceber o abismo a separá-lo de uma vida
agradável a Deus. A menos que o Espírito Santo aja
regenerando, dando-lhes o novo nascimento, transformando
o natural em espiritual, chamando-os à realidade (agora
possível de ser vislumbrada, admirada ereconhecida),
estarão aprisionados no pecado... As vendas são-lhes
tiradas, tornando concebível o que antes era intolerável,
permeado pela confusão, pela desordem da alma, de modo
a se tornarem um fruto direto da graça e misericórdia de
Deus[78].
Prova disso é o fato de Jesus, por diversas vezes, afirmar-
lhes, com contundência, a sua divindade (Jo 5.36), assim
como, também, a condenação iminente à qual estariam
expostos, se não houvesse transformação (Jo 5.37-43). A
consequência do ceticismo seria o juízo, este confirmando a
incredulidade de pessoas que permaneceram duras,
inflexíveis, recalcitrantes, na atitude de rejeição ao Filho, e,
ao recusá-lo, negavam o próprio Deus[79].
Outro ponto é que, caso quisesse, Cristo poderia abrir-
lhes os ouvidos, curar-lhes os corações e mentes, tornando-
os ovelhas do seu aprisco. Mas por que não o fez?
Porque não eram do seu rebanho:
“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-
as, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca
hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão”
(v.27-28).
Quão maravilhosa é a salvação! Como ela é plenamente
de Deus, para que nenhuma carne se glorie e apenas ele
seja exaltado! Como o Senhor é poderoso em misericórdia e
graça para salvar e sustentar, preservando-as em
santidade, a redenção de suas ovelhas. Ele as conhece. O
Senhor não conhecerá as suas ovelhas, como se o tempo
fosse a mola mestra na qual se dará a aplicação do seu
amor eterno por elas, mas ele sempre as conheceu, muito
antes de tudo vir a ser criado, de o seu plano infalível ser
posto em prática. De modo perpétuo, não somente
conheceu, mas também deu-lhes a vida eterna:
“Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles
que me deste, porque são teus” (Jo 17.9).
Não é uma possibilidade, mas uma certeza, inexorável,
não podendo ser alterada, anulada, ou extinta por qualquer
força ou vontade, posto não haver força ou vontade
superiores ou condicionadoras de Deus. Cristo não nos deu
a possibilidade de sermos salvos, de virmos a ser salvos,
num determinado momento em que quiséssemos, caso
quiséssemos, ou de continuarmos perdidos, caso
quiséssemos, porque sempre o queremos. Não há nada em
nós capaz de mudar isso, o fato de haver em nossas
entranhas o mais ardoroso desejo de mantermo-nos, para
sempre, acorrentados ao desígnio de afastados de Deus,
conservar sobre o pescoço o cepo da condenação.
Não! Cristo nos salva e nos mantêm salvos; não por
algum mérito humano, mas por sua única e exclusiva
virtude, a qual resumiu:
“Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim
de maneira nenhuma o lançarei fora” (Jo 6.37).
A obra é toda e por completo dele; nem uma mísera e
infinitesimal virtude é alcançada pelo homem ou pode por
ele ser advogada; não há nada nele, entretanto há tudo em
Cristo. Por isso, o Senhor lançava-lhes em rosto a
condenação de suas almas, a perdição eterna, a qual é
definitiva também, não havendo possibilidade de se
reverter, como alegam alguns insanos, seja pela purificação
de muitos após a morte, algo impossível e antibíblico, seja
pela absolvição de todos, neste mundo:
“Aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo
depois disso o juízo” (Hb 9.27).
Ao assegurar a condição do eleito, não pelo esforço de
muitos, mas de um apenas, através da graça, Cristo revelou
a unidade entre o Pai e o Filho, de como são um (v.30),
ambos garantindo a salvação. A segurança não poderia
estar em outras mãos que não sejam as do Deus Pai, Deus
Filho e Deus Espírito Santo; ninguém, nem nada, nos
arrebatará delas; ninguém pode substituir a salvação ou
torná-la menos eficaz.
Não é de se estranhar que, diante de tudo dito pelo
Senhor à assistência judaica, os seus corações se
endureceram ainda mais, não lhes sendo suficiente acusá-lo
de blasfêmia, mas, como filhos do diabo, alimentavam o
desejo infame de matá-lo (v.31-33). Tomaram de pedras
para atirarem-nas, como fizeram outra vez (Jo 8.59). E por
que chegaram a essa atitude?
Os judeus, erroneamente, acreditavam que Jesus
blasfemava contra Deus, ao fazer-se como Deus,
garantindo, portanto, em cumprimento a Levítico 24.16, a
punição de morte por apedrejamento. Ora, não foram eles
mesmos a perguntar-lhe se era o Cristo ou não? Agora, após
ouvirem a resposta afirmativa de que era, não se furtaram a
empreender o plano acalentado de executá-lo[80].
Muitos dizem não haver Jesus jamais se proclamado
Deus; fico a me perguntar se eles simplesmente não leram
ou ignoraram as várias passagens bíblicas onde sua deidade
é não somente confirmada, mas revelada, seja por sua
proclamação, seja por seus feitos. No mínimo, podemos
chamar os detratores de mentirosos e néscios grosseiros,
mas eles se enquadrariam melhor na condição de
usurpadores, de difamadores, de fraudadores da verdade,
tão inimigos de Deus quanto o próprio Satanás.
Iludem-se crendo ser ele simplesmente um iluminado,
um mestre, um guru (algo que soa respeitoso nos lábios,
mas trai a condição perversa, de gozo demoníaco, dos seus
corações), dentre tantos outros assim reputados. À luz das
Escrituras é fragrante e patente a sua condição de Deus
Filho, possuindo todos os atributos do ser divino, não por
imputação, como alguns tolos asseveram, mas em essência,
por sua natureza, comunicada eternamente com o Pai e o
Espírito. Não há como o homem com alma e espírito
quebrantados fugir à realidade da sua condição divina: a
onisciência, onipresença e onipotência; ele é justo (1Pe
3.18), santo (Hb 7.26), sem pecado (Hb 4.15)... Somente ele
é capaz de dar-nos a salvação (Jn 2.9; At 4.12; Rm 1.16;
2Tm 2.10), entre outros atributos menos questionáveis por
parte dos incrédulos, mas igualmente compartilhados pelas
três pessoas da Trindade.
Há, ainda, de se entender a condição encarnada do
Senhor, cumprindo-se a profecia de Isaías 53, onde o Cristo
é descrito como o “Servo Sofredor”, o qual veio realizar, fiel
e em plenitude, a vontade do Pai (Jo 6.38), culminando com
o seu sacrifício na cruz do Calvário e, três dias depois, a sua
gloriosa ressurreição.
Em resposta à acusação falsa de blasfemo, o Senhor
devolveu-lhes, em rosto, o próprio ceticismo com o qual o
acusavam, citando a lei:
“‘Sois deuses’? (Sl 82.6); Pois, se a lei chamou deuses
àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida, e a Escritura
não pode ser anulada, aquele a quem o Pai santificou, e
enviou ao mundo, vós dizeis: Blasfemas, porque disse: Sou
Filho de Deus?” (v.34-35).
Uma pequena explicação sobre o significado do Salmo
82.6: ele nos remete não ao fato de a Escritura nos
equiparar a deuses, no sentido de termos poderes ou
funções divinas, sendo que essa interpretação resultaria em
um grande equívoco. Não somos deuses, nem o seremos. A
alusão é feita ao próprio Deus como o juiz supremo, cuja
soberania está sobre tudo e todos, e que estabeleceu,
designou, juízes, magistrados, no meio do povo de Israel, a
fim de julgar com justiça os conflitos entre os homens (Dt
1.16-17). São, como Paulo afirmou, seus ministros para
fazerem o bem e, se fizerem o bem, não poderão ser
injustos. Ao contrário deles, Cristo admoesta os seus
inquiridores quanto à sentença que desejam cumprir, ao
acusá-lo, advertindo-os de que agem injustamente, pois
aparentam cumprir a lei ao querer matá-lo com pedras,
porém, descumprem-na ao julgá-lo sem equidade, pelo ódio
injustificado, e o desejo maligno de condenar o inocente.
Agindo assim, pecam contra o próprio Deus. Ora, se eles
estavam sujeitos às decisões dos magistrados, chamados
deuses, como poderiam acusar de blasfemo o Filho de
Deus? Ao fazê-lo, incorrem em outra transgressão, pois não
apenas negam a sua filiação, mas tencionam assassiná-lo.
Como na parábola do homem e da vinha (Mt 21.33-46),
na qual o herdeiro (uma tipificação do Cristo) foi morto
pelos arrendadores (os incrédulos e inimigos de Deus), os
fariseus e os sacerdotes estavam dispostos a cometerem a
mesma barbaridade. Ao levarem-na a cabo, desprezavam ase
sujeitar a Deus, à igreja, aos irmãos e ao próximo;
culminando com uma certa oposição no seio da própria
igreja, onde o caráter individualista e egoísta vem-se
disseminando sem qualquer constrangimento dos seus
advogados, nos últimos tempos. É comum vermos crentes
dizendo-se servos de Cristo, mas parece-me que eles não
entendem corretamente o significado do que dizem, ou o
pronunciam apenas formalmente, como se fosse da “boca
para fora”, sem ter o conceito e entendimento arraigado em
seu coração. De maneira geral, temos pessoas se
autodenominando “servos” sem jamais terem servido, sem
jamais desejarem servir, numa flagrante contradição entre o
dito e o não realizado, entre o que se diz ser, mas não é. Por
isso, e mais especialmente pelo desconhecimento, muitos
dissociam o termo “servo”[8] do seu sinônimo “escravo”
(algo que ninguém deseja aplicar a si mesmo), como se o
servir não chegasse ao ponto de deixar de ser ou fazer
aquilo que não lhe seja dado ser e fazer. Escravo é aquele
homem sem vontade, sem desejo próprio, vivendo
especificamente para atender ao seu senhor. É quem dedica
cem por cento do seu tempo, entregando cem por cento dos
seus esforços; cem por cento da sua disposição; cem por
cento de si mesmo; dispondo-se integralmente e com todos
os recursos utilizáveis para satisfazer ao seu senhor. Não há
lugar para nenhum tipo de vontade contrária à do seu
dono[9]. No caso do crente, é viver em um estado de
absoluta dependência e sujeição a Cristo, reconhecendo a
sua autoridade, mas muito mais: ele é digno de exercê-la
por tudo o que é; em contrapartida, não a reconhecer torna-
nos ingratos e desrespeitosos, homens sem qualquer afeto,
verdadeiros coletores de todas as ofertas e favores, mas
negando desgraçadamente o doador.
Também não se pode esquecer que é algo a se ansiar, a
se querer, um desejo intenso de fazer-se prestimoso, pelo
amor e sabedoria em reconhecer a dádiva de se tornar seu
serviçal, em vez de deixar-se guiar pelo próprio julgamento
corrupto e pecaminoso, levando a uma escravidão
desonrosa naquilo capaz de destruir.
Infelizmente vive-se em uma esfera longínqua da
realidade cristã, de modo que resta tão somente
envergonhar-se por permanecer assim, em um estado de
autoengano: ao considerar-se aquilo que não se é, diante
dos próprios olhos, e o fato de ser aquilo que Deus não
quer, diante de seus olhos.
Uma avaliação sincera de nossa vida pode nos expor a
uma verdade ignorada e inaceitável, a de estarmos muito
distantes do padrão assumido por Judas. Ele apresenta-nos
uma dependência eterna, constante, necessária de Cristo,
refletida na humildade de considerar-se como tal, servo,
sendo essa humildade algo que desejamos manter afastado,
pois queremos é reafirmar-nos, em todos os sentidos, seja
como um bom marido, bom profissional, bom aluno... Não
que isso seja errado, por favor, não confundam; acontece
que desejamos o reconhecimento de ser bom quando não
nos movemos na direção da bondade, não nos esforçamos
em ser realmente aquilo que queremos ouvir; e, novamente,
o rótulo precede as atitudes, ao menos em nossa mente
diminuta e coração enganoso... Como seria ser um bom pai?
Como seria ser um bom profissional? Não é quem serve? Por
exemplo, um balconista, cujo atendimento é precário,
tratando mal aos clientes, agindo de maneira desleixada e
indiferente, como se fizesse um grande favor em cumprir
com a sua obrigação; poderia ser considerado bom? Ele
quer ser achado como tal, e se sente como tal, mas não se
empenha em sê-lo, pelo contrário, o seu esforço está em
evidenciar a sua inaptidão, o compromisso com o
inadequado, levando-o, a efeito, ao fracasso. As pessoas
muitas vezes querem um título sem fazerem jus a ele, sem
merecê-lo, porque falta-lhes a humildade para servir e o
entendimento necessário para mudar.
Ao começar a sua carta intitulando-se “servo de Cristo”,
Judas não parece se preocupar com a humilhação, nem se
sentiu constrangido, tampouco demonstrou aborrecimento
com a possibilidade de ser taxado como retrógrado ou
estúpido, insignificante ou de ser tratado com desdém. Qual
de nós se atreveria a escrever uma missiva ou e-mail,
assim? Ou apresentar-se a alguém como, por exemplo, “Sou
Jorge, servo de Cristo”? Ou ainda melhor, “Sou escravo de
Cristo”? Alguém entre nós imaginaria isso possível? Não é
melhor mantermo-nos distante dessa expressão, para
evitarmos dissabores e inquietações, mantendo a nossa
independência, afastados do embaraço de podermos ser
confundidos como loucos, retrógrados, estultos? E o medo
do rótulo afasta-nos ainda mais da prática, tornando-se
substancialmente pior. A vida cristã não é simplesmente
teoria, mas aplicação, prática, ação. Assim como Cristo
dedicou o seu ministério ao ensino, ao transmitir a verdade,
também se concentrou em demonstrá-la através da sua
vida. Não há dissociação entre aquilo pregado pelo Senhor e
aquilo por ele realizado. Havia uma unidade e harmonia
entre o discurso e as atitudes. Ao negarmos a prática,
sequer defendemos o ensino, e somos reputados como
péssimos alunos, meninos rebeldes, de quem o Mestre se
envergonha.
Entretanto Judas não caiu na esparrela de se preocupar
com uma suposta vergonha ou ofensa em se fazer servo,
sentindo-se honrado com a sua condição. Ao mesmo tempo,
considerou-se dependente e humilde em relação a Cristo,
necessitando desesperadamente dele; e a sua condição é a
de fazer a vontade do Mestre, abandonando o velho homem
para ser aquilo que Cristo requeria dele, realizando a sua
vontade, com o ânimo e o espírito enlevados, não por um
suposto rebaixamento, mas pela glória da prestativa
escravidão a Deus.
A sua honra está exatamente em ser esse servo, não
como alguém pego à força, conduzido com violência e
obrigado contra a vontade; não como alguém conduzido a
ferros ou iludido por algum interesse vão, mas convencido
de nada melhor ser-lhe possível, e mais necessário, do que
viver na submissão voluntária ao Senhor. A liberdade em
Cristo representa precisamente isto: fazer a sua vontade,
mas também querer, desejar, ansiar, por gratidão, fazê-
la[10]. Esta vontade não se realiza pela coação, mas
persuadida pelo amor; o amor com o qual Cristo buscou,
resgatou, libertou o pecador cativo, trazendo-o até si, e
tornando-o seu servo; mas muito mais ainda, unindo-o
eternamente a Deus, fazendo-o um consigo mesmo. É por
esse amor, e nada mais, que Judas foi feito servo de Jesus; e
o faz querer continuar a sê-lo. Ele não está sendo obrigado
a servi-lo, mas a agir assim em reconhecimento; porque é
infinitamente melhor entregar a sua vida, viver na
dependência e fazer-se útil, empregando todos os esforços
em prol do Evangelho, como um escravo subitamente sábio
reconhece o seu papel, em quem se tornou, e no que deixou
de ser: um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e
nu[11].
Servir é um conceito nitidamente cristão, e presente
apenas no Cristianismo. Alguém pode interpelar com a
alegação de haver “serviçais” em todas as religiões,
aparentando uma fragilidade no meu argumento, contudo,
digo, servem a quem ou a quê? Pode-se dizer que exista,
fora do Cristianismo, um servir verdadeiro e submisso a
Deus, não pelo que ele pode nos dar, mas pelo que é e já
nos deu? Pode haver um servir que faça-nos negar a nós
mesmos em favor da vontade soberana de Deus? Pode-se
encontrar fiéis que sacrifiquem a sua vida em favor de
outros? Não como um esforço pessoal em primeiro lugar,
mas como uma retribuição pelo mérito divino de nos
resgatar, limpar, transformar e restaurar, de transportar-nos
da inimizade para a amizade consigo, e nos fazer filhos
adotivos em Cristo. É possível? Penso que não.
Isoladamente pode-se encontrar manifestações de
bondade em outras religiões e mesmo fora delas, mas não
como um preceito doutrinário, e com o viés correto entre a
doutrina e o seu exercício. A verdade é que, por mais que
outras religiões e filosofias se apropriem desse princípioautoridade suprema daquele a estabelecer os “deuses”,
sendo o Unigênito do Pai, sendo um com ele, por toda a
eternidade.
Nesse ínterim, Cristo, de acusado, tornou-se juiz
daqueles homens, ao apontar-lhes incisivamente os seus
pecados; porque, como disse:
“Quem me rejeitar a mim, e não receber as minhas
palavras, já tem quem o julgue; a palavra que tenho
pregado, essa o há de julgar no último dia” (Jo 12.48).
A lei advogada pelos judeus, com o fim de acusá-lo, era a
mesma a condená-los, a voltar-se contra eles; ao alegarem
buscar a justiça, agiam segundo os seus corações
impenitentes, distorcendo a verdade com o propósito de
alcançar os seus perversos e ímpios intentos, rejeitando o
Santo, Perfeito e Justo Deus.
Os judeus eram testemunhas oculares das obras que
Cristo realizou e por intermédio delas deveriam reconhecer
que o Pai está no Filho, e o Filho no Pai, numa prova cabal
da unidade divina, da divindade e sobrenaturalidade do ser
de Cristo (v.38-39), e de que ninguém, a não ser ele,
poderia realizar as obras de Deus. No entanto, em sua
rebelião exasperante, procuravam matá-lo a todo custo. A
obstinação dos seus corações em agir iniquamente
confirmava a sentença de Marcos 4.12:
“Para que, vendo, vejam, e não percebam; e, ouvindo,
ouçam, e não entendam; para que não se convertam, e lhes
sejam perdoados os pecados”.
Em João 12.40, Jesus citou Isaías 6.10, revelando a
impossibilidade humana de alcançar a Deus, face a sua
corrupção natural:
“Cegou-lhes os olhos, e endureceu-lhes o coração, a fim
de que não vejam com os olhos, e compreendam no
coração, e se convertam, e eu os cure. Isaías disse isto
quando viu a sua glória e falou dele (de Cristo)” – grifo meu.
A soberania de Deus sujeita a si todas as coisas, segundo
o seu santo e perfeito decreto, pelo qual, através da
providência, tudo veio a ser, a existir, do nada. É possível
algo escapar-lhe ou realizar-se alheio à sua vontade? Não
lhe é tudo que há nos céus, na terra, nas esferas físicas e
espirituais, submisso? Sujeito ao seu conselho e propósito?
Os judeus, como muitos hoje em dia (não somente
judeus, mas a massa humana quase unânime), estavam
cegos, surdos e em profundas trevas. Inflexíveis em seus
pecados, insistentes em sua rebeldia, trazendo sobre si a ira
vindoura e a condenação eterna ao inferno, não
descansaram enquanto não mataram o Justo.
Porém, aqueles aos quais o Filho revelou o Pai, entregues
pelo Pai ao Filho[81], esses creram no Filho (v. 42),
receberam a salvação e participarão da glória eterna, dada
pelo Senhor, assim como recebida do Pai. Se há alguém, o
único, a revelar a face divina aos homens, este é Cristo,
pois:
“Ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem
o Filho o quiser revelar” (Mt 11.27)
Como Pedro disse:
“Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam
apagados os vossos pecados, e para que venham assim os
tempos do refrigério pela presença do Senhor” (At 3.19)
Porque é chegado o Reino dos Céus (Mt 3.2), e quem tem
olhos para ver, veja e creia, ao contrário daqueles
acometidos pelo ceticismo, cujas almas navegam as águas
turvas e bravias da oposição e descrença a Deus[82].
A Realidade do Pecado
Notável é o episódio de incredulidade do Faraó, nos tempos
de Moisés, quando Israel estava tomada pela escravidão e
cativa dos egípcios. Posteriormente, o próprio Israel se viu
envolto na incredulidade, a qual fez perecer muitas almas
no deserto. Contudo, vou me ater à narração sobre Faraó, e
deixar a incredulidade do povo de Deus para outra
oportunidade, se assim o Senhor quiser.
Primeiro, devo fazer uma ressalva: durante muito tempo,
entendi a atuação divina quase como a de um manipulador,
alguém que controlava as suas criaturas ao seu bel-prazer,
sem que essas mesmas criaturas pudessem fazer nada a
não ser obedecê-lo, mesmo em sua rebelião. Hoje, contudo,
depois de meditar bastante sobre a questão, não é possível
entender o homem como uma marionete nas mãos de
Deus, o que pode me trazer a desaprovação de muitos, e a
incompreensão de outros, diante da minha posição anterior,
de um ferrenho apologista do determinismo bíblico[83],
agora feito em um vacilante compatibilista[84], ou outra
alcunha que, porventura, queiram me impingir.
Apesar de ter o seu coração endurecido por Deus, Faraó
também queria endurecê-lo ou, ao menos, viu no
endurecimento uma acolhida para a sua atitude
pecaminosa, como se ele deitasse em uma cama de pregos
e se refestelasse. Não há, na verdade, uma colaboração do
homem com Deus, não no sentido de o homem fazê-lo
independente da vontade divina, de alterar o decreto
eterno[85] ou acrescentar dados ou circunstâncias não
abarcadas no plano divino; porém, não há como não
reconhecer o fato de o homem querer, desejar, ansiar e
laborar, com intensidade para a causa do pecado, da
inimizade com o Criador.
Ainda não entendo bem como a coisa funciona, nem sei
se entenderei, mas, de alguma maneira inexplicável (ao
menos, no momento), Deus endureceu ativamente o
coração de Faraó que, contudo, ansiou endurecer-se
também. Observem que se tratava-se da sua vontade, não
do livre-arbítrio; não façam confusão, por favor. O
endurecimento do seu coração foi uma ação humana,
ordenado pela vontade divina, na qual o homem teve
manifesta a liberdade da sua vontade, de fazer e produzir
aquilo que desejava, ao qual estava inclinado por sua
natureza. Não utilizo, em momento algum, o termo
liberdade no sentido de independência ou autonomismo de
Deus, mas trato-o como uma ação livre dentro de uma
vontade cativa, sujeita à sua coação, ao impulsioná-la para
produzir aquilo que a vontade aprisionada tenciona e
almeja, satisfazer à carnalidade, sem qualquer alternativa a
não ser fazê-lo.
Ao pecar, como consequência do endurecimento divino,
ele alegrou-se e sentiu o prazer que todo pecado traz ao
pecador, ainda que momentâneo, sem nenhum
arrependimento ou retração da sua transgressão. Por
experiência própria ao pecar, sinto-me alegre, ainda que por
ínfimos segundos, vindo logo o arrependimento e a certeza
de tê-lo cometido primeira e essencialmente contra Deus.
Logo, não há como não me alegrar, nem pecar, se minha
vontade, naquele momento, não estivesse sob a volição, a
determinação do pecado a subjugá-la, direcionando-a para
o fim proposto de transgredir contra o bem supremo, Deus.
Isso não tem nada a ver com o compatibilismo, do qual
podem me acusar, e o determinismo, do qual me
considerarão traidor, pouco me importando o rótulo, mas
com a realidade pela qual sou responsável quando peco,
usufruindo da graça quando não peco, mas sabendo que,
seja no pecado ou na resistência ao pecado, não há
casualidade, contingência ou aleatoriedade em relação a
Deus. De maneira maravilhosa, sei que todos os meus atos
foram decretados na eternidade e que o seu cumprimento
se dá segundo a providência divina, mesmo sabendo que o
mal não desejado é o que faço, assim como o bem ansiado
nem sempre se realiza. Porém, nada disso acontece sem a
certeza de estar Deus, segundo o seu santo e perfeito
propósito, fazendo com que todas as coisas colaborem para
o meu bem, segundo o seu santo e perfeito propósito (Rm
8.28).
Afastando-me das explicações e voltando ao Faraó, não
há como não reconhecer a realidade do pecado como algo
desejado e desejável na sua vida e de qualquer pecador.
Trata-se de uma realidade inexplicável, por mais que se
gastem palavras, na qual Deus planeja e executa, enquanto
a vontade humana não é violentada ou constrangida, mas
acomodada em sua própria realização.
É o norte apontado pelo trecho de Êxodo 7.3-5, onde o
Senhor diz:
“Eu, porém, endurecerei o coração de Faraó, e
multiplicarei na terra do Egito os meus sinais e as minhas
maravilhas. Faraó, pois, não vos ouvirá; e eu porei minha
mão sobre o Egito, e tirarei meus exércitos, meu povo, os
filhos de Israel, da terra do Egito, com grandes juízos. Então
os egípcios saberão que eu sou o Senhor, quando estendera minha mão sobre o Egito, e tirar os filhos de Israel do
meio deles”.
Ouvi muitas declarações sobre estes versículos.
Algumas, patéticas. Outras, nem tanto. Mas, de certa forma,
há sempre uma disposição em não imputar a Deus o
endurecimento do coração de Faraó; como se isso fosse
uma afronta ou algo impossível. Não é, contudo, o que os
versos revelam, nem o que a Bíblia afirma. Farei uma crítica
rápida a dois conceitos, entre os mais aceitos pelos cristãos,
que se apresentam inofensivos, mas são altamente danosos
para o conhecimento divino, sugerindo um “deus” não
apenas alheio às Escrituras, mas que se opõe
flagrantemente a ela, e com o qual não podemos concordar,
pelo fato de não ser ele o Deus revelado, providente,
interveniente e soberano, pelo qual o mundo e a história
são guiados, conservados e o servem.
CONCEITO UM
Há os que não afirmam o endurecimento, mas o pré-
conhecimento divino de que Faraó se endureceria, num ato
livre, de uma liberdade alheia e autônoma a Deus. Ora, o
pré-conhecimento é conhecer de antemão, ser íntimo, mas
a ideia defendida por esse conceito é de antevisão, de um
olhar no futuro, em uma fração de tempo, e o vislumbre de
algo a acontecer. Neste caso, Deus seria um vidente, um
oráculo, a esfregar a sua bola de cristal e predizer um ato
ou fato sem qualquer envolvimento ou ingerência, em um
tipo de isenção a denunciar a sua omissão, no mínimo, e a
sua incapacidade e debilidade, no máximo.
Não há como, nesse caso, imputar a Deus algum tipo de
mentira ou engano, ou a falsa declaração revelada, porque
suas palavras são textuais, imperativas:
“Eu, porém, endurecerei o coração de Faraó”.
O agente não é o monarca egípcio, mas Deus. O verbo é
transitivo direto, demonstrando uma ação objetiva e
deliberada do sujeito, Deus. O coração de Faraó sofre a ação
de endurecimento, não havendo nada referente a auto
endurecimento; Faraó é passivo diante da preordenação
divina, sem escolhas, nem opções, diante do agir de Deus.
Com isso, alguém pode dizer: “Se Faraó não podia resistir
à vontade suprema, logo não pode lhe ser imputado
nenhum pecado, pois não havia como ele sair da ‘arapuca’
montada por Deus. Então, no dizer do próprio Senhor, foi ele
quem ‘forçou’ Faraó ao pecado, levando-o ao
endurecimento e a rejeitar as ofertas de Moisés”.
Parece um labirinto, onde se está perdido e as chances
de encontrar a saída diminuem pouco a pouco. Não há
como desprezar a complexidade da situação, a qual muitos,
de maneira reducionista, tentam explicar, olhando-a tão de
perto que têm o foco comprometido, distorcido, não
enxergando com a devida clareza, incapazes de alcançar a
realidade pela imagem sem nitidez. Muitos teólogos
avançam por esse caminho sem perceberem que estão a
correr em um terreno irregular e sem reconhecerem os
sucessivos tombos durante o trajeto. Alguns calvinistas
(como eu, no passado), tratavam Deus como um déspota,
um tirano, que não somente fazia a sua vontade, mas a
impunha forçosamente sobre suas criaturas. Nesse caso,
alegar ser dele a autoria divina do mal e do pecado, era a
arma dos detratores do determinismo ou calvinismo
extremado.
Por outro lado, qualquer entendimento que não
resguarde a soberania divina, sua imutabilidade, seu
decreto, sua providência, enfim, sua natureza e ação ativa
na Criação, será como afastar-se de Deus e dos eventos,
mantendo-se a uma distância impossível de ver com
transparência e nitidez. Assim, o argumento pecará pela
insuficiência, pelo esvaziamento tal de Deus, sobrando
apenas um arremedo, ininteligível, ou um estereótipo de
quem ele verdadeiramente é. A maioria se coloca tão
confortavelmente nesse quadro, ao preservar por todos os
meios a autonomia humana, em um grau de independência
incompatível com a Bíblia e a ideia de um Deus pessoal e
Todo-poderoso, que a verdade não parece assombrá-los,
nem tirá-los da comodidade sem embaraços com os seus
pares.
Em ambos os casos, acontece a distorção, a imagem
divina sendo inadequadamente explicada a partir de
homens cuja visão é refrativa. Muitas coisas não podem ser
explicadas, por maior esforço empreendido na solução,
bastando, ao crente, render-se à verdade revelada. Em
muitas situações, é melhor não tentar explicar, mas aceitar
pura e inexoravelmente a verdade, a qual é possível ser
apreendida, contudo, nem sempre elucidada. Sei que faz
parte da natureza humana detalhar a realidade e analisá-la,
entretanto, nem sempre será possível. Há coisas diante das
quais devemos apenas nos curvar humildemente,
admitindo-as, pelo seu próprio grau de superioridade em
relação à nossa inferioridade ou ignorância.
A revelação nos assegura duas verdades: Deus é
soberano e nada acontece alheio à sua vontade, antes ela
se manifesta em tudo, em todos, sempre. A outra é a de ser
o homem responsável por seus atos, não podendo, jamais,
ser inocentado por um delito cometido. Duas verdades
aparentemente antagônicas, o chamado paradoxo ou
antinomia, que, na verdade, não passa de outra construção
humana, no campo da lógica, para tentar explicar eventos
inexplicáveis, sobrenaturais. Alguns apontarão para a
deficiência do paradoxo, e o fato de Deus não ser um Deus
de paradoxos, mas um Deus lógico; no entanto, em que
medida o homem pode aquilatar a lógica divina? A partir da
sua própria lógica? Se o homem é um miserável, e pobre, e
nu, incapaz de respirar por si mesmo, de abrir os olhos por
si mesmo, como pode advogar uma lógica divina a partir da
lógica humana?
Outro ainda dirá: “Deus não mente!”. No que está
coberto de razão. Retrucarei, contudo, onde há mentira?
Quer dizer que, ao não compreendermos suficientemente a
verdade, não encontrando uma solução adequada, por
nossa exclusiva incapacidade, Deus então está a mentir? A
Escritura está a mentir? Ou, é preferível, nesse caso, se
criar uma resposta falaciosa e em flagrante oposição ao que
foi revelado, a fim de se pôr termo à questão? Mesmo que a
resposta esteja a anos-luz da verdade? E se esteja a
construir um outro “Deus”? A partir de uma solução que
satisfaça apenas à insignificância e o orgulho humanos?
Quando se chega à conclusão de que Deus é o autor do
mal e do pecado, em um arroubo extremo de defender a
sua soberania, enquanto um outro afirma que Deus não tem
nada a ver com determinado evento, temos dois polos
antagônicos e díspares a revelar um mesmo problema: a
(in)competência do homem na razão e elucidação dos
enigmas e mistérios feitos ocultos por Deus e uma tentativa
infrutífera de desvendá-los.
Não estou a dizer que Deus nos ocultou o que revelou,
mas nem tudo revelado foi-nos explicado; como homens de
fé, deveríamos apenas reconhecer os enigmas como
verdadeiros, posto provirem da boca divina, não sendo mais
nada necessário para acolhê-los. Este é um grande
problema: diante de um dilema insolúvel, ao invés de
aceitá-lo, gasta-se energia e tempo com explicações que
não o justificam, criando um degrau ou degraus frágeis,
facilmente quebráveis, em uma escada instável, pronta a
ruir, que não sustenta a si mesma nem à ideia que tenta
amparar[86].
Ao tentar uma explicação fora da explicação de Deus, o
homem acaba por tomar sobre si a áurea de intérprete
divino, de autoridade, sobre algo dado por fé, e a ser aceito
pela fé, não podendo ser rejeitado pela fé; mas, em algum
momento, sentiu-se, por uma falha cognitiva, a necessidade
de racionalizar algo que está além da possibilidade humana
de compreender todos os desígnios divinos e explicá-los.
Acaba-se por provar o alto grau de estultice da mente,
capaz de nos afastar mais e mais da verdade, na medida
em que damos importância exagerada às ilações, aos
raciocínios supostamente válidos, quando legítima é apenas
a palavra de Deus, entregue por ele mesmo, para
orientação, guia e conhecimento da verdade, e não a
dissecação de uma mensagem morta, por um legista
semimorto. Compreenda essa analogia levando em
consideração que o homem regenerado, ainda que vivopara Deus, guarda alguns aspectos do velho homem, sob os
efeitos noéticos do pecado e da Queda, aos quais ainda não
está completamente imune, e, por isso, deve ser prudente
ao analisar formas tão superiores, muito além da sua
capacidade de compreensão, quanto mais de “autópsia”.
Não me estenderei mais sobre o tema, no momento,
desejando debruçar-me sobre ele em um futuro próximo, e
em outro lugar, se assim o Senhor o quiser. Deixo,
entretanto, como advertência geral, a todos os sabichões de
plantão: cuidado! Pois eu mesmo me vejo, olhando para
trás, um homem soberbo e presunçoso, capaz de proferir
barbaridades contra o Altíssimo, em nome dele mesmo, mas
falando apenas por mim. Graças a ele, temos o perdão, e
nossa ignorância não é levada em conta[87]. Contudo, tem-
se de parar e refletir nas complexidades e consequências,
não apenas para nós, em nossa relação com o Senhor, mas
com os outros, expostos à nossa loucura e vaidade.
Voltando à análise inicial, ocorreu de haver uma defesa
intransigente ao famigerado livre-arbítrio, como a solução
para o dilema da incredulidade do Faraó. Mesmo diante de
todos os portentosos feitos de Deus, pelas mãos de Moisés,
o seu endurecimento (o cético é um insensível, por
natureza) tem de ser pela vontade livre de Faraó, não se
admitindo outra resposta. Mas como aconteceria, nos
termos em que Deus nos apresenta o fato? Estaria ele
escondendo algo? Ou estar-se-ia a ler além do escrito e não
revelado?
Pesquei essa pérola da ilogicidade e irracionalidade
bíblicas, em um estudo sobre o assunto: “Deus nos vê
ontem, hoje e amanhã; logo, ele sabe que caminhos
tomará. Contudo, ele se autolimita para que nós exerçamos
integralmente nosso livre-arbítrio. Nós nos predestinamos,
quando aceitamos ou recusamos seu convite”[88] (grifos
meus).
Não se tem muito o que comentar, a não ser o fato do
autor exprimir-se com uma sucessão de conceitos
equivocados e antibíblicos, com noções alheias à fé cristã,
baseando-se, mais uma vez, na crença da superioridade da
razão, que se mostra, especificamente nesse caso, em uma
prova de irracionalidade, e, mais do que isso, de uma
espiritualidade capenga e vacilante, reflexo da
incredulidade, a mesma a destronar e aniquilar Faraó do
Egito.
Não são apenas contraditórias e incoerentes as
considerações desse teólogo, antes é a rejeição à verdade,
envergando uma indumentária cristã, mas despindo-se da
essência e realidade intrínsecas a ela, de forma a
permanecer nu quando se imagina vestido. O simples
conceito de “autolimitação divina” é suficiente para arrolar
como blasfemo todo o dito, fazendo ruir, igual a um castelo
de areia, a sua pretensão à onisciência, em nível tal que se
julga capacitado a escrutinar a mente divina. É interessante
notar que, no Éden, enquanto Adão e Eva contentaram-se
em obedecer à ordem divina, cujo motivo não lhes foi
explicado, nada lhes foi dito, nem houve qualquer
contestação do casal, nada lhes aconteceu. Porém, ao
enveredarem-se pelas trilhas tortuosas da imaginação, ao
crerem na capacidade de por si mesmos decifrarem os
motivos divinos para impor-lhes uma ordem (usando a
mesma razão falível e capenga que dá a muitos a certeza
de serem esquadrinhadores da mente do Criador), a coisa
desandou; e não é preciso repetir as consequências
advindas.
Sem contar o absurdo da afirmação: “Nós nos
predestinamos, quando aceitamos ou recusamos seu
convite”, implicando em uma autopredestinação, na qual,
como o teólogo diz, “nós nos predestinamos”, significando
pontualmente que toda a obra de eleição, salvação e
regeneração se dá a partir da escolha humana e em seus
próprios méritos, negando a ação divina, rejeitando a
palavra revelada e interpretando miserável e
criminosamente o texto bíblico; o que mais me chamou a
atenção, e de certa forma, o mais engraçado, para não dizer
trágico, é o referido teólogo estar a explicar exatamente o
trecho de Êxodos 7.3-5; no qual, em algum momento, ele
encontra referências apontando para a autolimitação divina.
Para o livre-arbítrio humano. Para um convite divino. Para a
aceitação ou recusa do homem como prevalente à vontade
soberanamente divina. Deus, por acaso, disse: “Como vi
que Faraó endurecerá o seu coração, vou endurecê-lo (sic),
e assim multiplicarei os meus sinais e as minhas maravilhas
sobre a terra do Egito”? 
Afinal, os sinais e as maravilhas são de Deus ou das
obras humanas que ele vê, não como algo distante e
provável pelas vistas, mas conhecido e realizado por sua
vontade? E, como crer que o Deus bíblico pode, diante do
que vê, escolher seus caminhos? Quem afinal manda no
pedaço? A criatura ou o Criador? Deus não é dono do seu
nariz? Ou as atitudes humanas implicarão na decisão
divina? Uma decisão subserviente e limitada à própria
restrição humana? À própria imperfeição?
Sendo o homem tolo, e todos o são em relação a Deus e
suas realizações, é possível imaginá-lo detentor dos
atributos de sabedoria, prudência e moralidade correta,
suficientes para reconhecer a verdade enquanto está
dominado, controlado, por sua natureza caída e
pecaminosa? Ao homem natural[89], aquele não alcançado
pela graça, não lhe é permitido, pois é-lhe impossível a
escolha de aproximar-se do Criador quando o seu coração
milita insistente e loucamente a favor da transgressão,
movido pelo sentimento de ódio a Deus, em direção
contrária à sua vontade santa e perfeita.
Ora, todos os seres estão condicionados à sua natureza.
Uma cobra não voa, ainda que possa pular de um galho de
árvore ao de outra árvore, imitando um voo; um peixe não
voa, ainda que possa elevar-se acima das águas, imitando
um voo; uma toupeira não voa, e nem pode imitar um voo;
então, o homem caído, contaminado pelo pecado até o
reduto mais desconhecido da alma, cuja existência, por
meio de seus pensamentos, atitudes e decisões, opõe-se
deliberadamente contra Deus, poderia decidir a favor da
verdade? A favor de tudo aquilo a causar-lhe repulsa? Como
poderia o Senhor valer-se das decisões desse homem para
traçar o seu plano? Seria o mesmo que dar funções a um
chimpanzé epilético de projetar um edifício e entregar os
seus rabiscos desconexos a um engenheiro para dar cabo
da obra. O engenheiro, no mínimo, se rirá dos planos do
símio.
Da mesma forma, imagino Deus rindo-se da pretensão
humana de imaginá-lo guiado pela demência e insensatez
do homem. O Cosmos já teria se autoimplodido, se não
fosse por sua intervenção direta e ativa, que não somente
sustenta tudo e todos, mas também chama os eleitos à
verdade, capacitando-os a reconhecerem-na, amarem-na e
devotarem-se a viver por ela. Ninguém se aproxima de
Cristo, confessando-o como Senhor e Salvador, desejando
tê-lo a guiar os seus passos, se não tiver a sua natureza
transformada de natural para espiritual; seria o mesmo que
dar asas aos peixes e toupeiras, alterando-lhes o design do
corpo, a fim de alcançarem os ares. É assim que Deus faz
com o homem, mudando-lhe o coração de pedra em carne,
habilitando-o a reconhecer a verdade e vivê-la. De outra
maneira, seria impossível pelo próprio esforço humano
alcançá-lo. Não há capacidade nem elementos que
pudessem movê-lo do seu impulso pecaminoso. Essa obra é
exclusiva de Deus, por meio do Espírito, regenerando e
transformando a mente do homem na mente de Cristo.
Do contrário, em última instância, se manifestaria a
fragilidade, vulnerabilidade, inconsistência e servilismo de
Deus, que manteria, sabe-se lá por quê (e o amor não é a
resposta, cara-pálida!), sua vontade completamente
subjugada à vontade do homem.
Esse homem, no fim das contas, é que se faz poderoso,
pela debilidade divina, numa nítida inversão de papéis. O
resumo da tragédia é: Deus deixou de ser Deus... Contudo,
onde lemos que isso aconteceu? É possível Deus não ser
Deus? Negar a si mesmo? Ainda que queira? E, por que
quereria? Para que fôssemos livres? Mas, livres de quê ou
quem? De Deus? Pode alguém ser livre de Deus? Se pode,
essealguém é maior do que Deus. E, então, Deus
finalmente deixará de ser o que é, para ser o que não é, o
que nunca foi e nunca será! Parece, no entanto, que há um
labor, um estado de persistência humana, seja por
ignorância ou violento rancor, de reputá-lo com algo que
não é, existindo apenas na mente senil e falseante do
homem em querer desnudá-lo e explicá-lo a partir de si
mesmo, e não da própria revelação divina.
Todas essas possibilidades são nada mais, nada menos
do que o apogeu da estúpida e vergonhosa dissimulação, na
qual dizem amá-lo e reverenciá-lo, quando o transformam
em intruso, em um impostor, em seu próprio Reino. Porém,
não sendo a realidade, não passando de uma ilusão,
visando guardar o homem em si e para si, em um
distanciamento perigoso da verdade, subjugado ao
autoengano, às diretrizes traçadas pelo coração libertino, a
afirmação: “eu sou de Deus”, ou “eu amo a Cristo”, nada
mais é do que honrá-lo com os lábios, enquanto o coração
está tão distante que o objeto do seu amor é um sofisma, a
idealização ou projeção de si mesmo.
Nada disso é real, seja o seu “Deus” ou os seus
sentimentos, mas apenas uma acomodação do delírio aos
anseios do homem natural, sendo este a causa da farsa,
que alimenta e sustenta a perturbação da alma, em um
círculo vicioso e interminável; se Deus não o interromper
por derradeiro.
No final, para concluir seus delírios, o teólogo afirmou:
“Não devemos endurecer o coração para Deus. O convite
bíblico é outro: você, que hoje está ouvindo a voz de Deus,
não endureça o seu coração (Hb 3.8)”.
Não que ele esteja errado em dizê-lo. A Bíblia nos exorta
a não endurecer o coração! O verso 7, de Hebreus 3, diz:
“Se ouvirdes hoje a sua voz, não endureçais os vossos
corações, como na provação, no dia da tentação no
deserto”.
É preciso, primeiro, ouvir a voz de Deus. Então, pergunto,
quem está apto a ouvi-la? O incrédulo ou o crente? O
homem natural ou o espiritual? O eleito ou o réprobo? O
santo ou o ímpio? Como ficam passagens que dizem acerca
de Deus cegar o homem? De forma que, vendo, não vejam,
ouvindo, não ouçam, para não terem o entendimento?[90]  
Como compreender a afirmação do Senhor sobre Tiro e
Sidom, de que, caso vissem os milagres realizados em
Betsaida e Corazim, se converteriam, e, portanto, a palavra
não lhes foi pregada a fim de não se arrependerem? (Lc
10.13-15). Cristo não realizou qualquer milagre nessas
regiões, e assim o povo não “pôde” se converter. Cristo não
fez milagres, mesmo sabendo que, caso os fizesse, veriam,
se converteriam; ao passo que preferiu pregar e operar
milagres em outros lugares, sabendo que neles não haveria
conversões.
Se Cristo viu, como uma antevisão, a conversão de
Betsaida e Corazim, caso o evangelho fosse pregado e
milagres realizados, por que não respeitou o livre-arbítrio
dos seus moradores, salvando-os? Já que lhe era possível
antever a reação daqueles homens e mulheres diante da
pregação do evangelho, e se lhes era por desejo intrínseco
aceitá-lo como Senhor e Salvador, por que ele se recusou a
operar milagres e leva-los à conversão, “limitando-se” em
seu desejo e vontade a fim de que prevalecesse o livre-
arbítrio daquelas cidades?
Não é essa a ideia de muitos a respeito da predestinação
e eleição? De ser a visão, no futuro, do homem futuro, o
ocasionador ou causador da eleição e predestinação, por
parte de Deus? Nos casos de Betsaida e Corazim não lhes
bastou a antevisão; outro fator implicou em suas
condenações, e está muito distante de ser a “vontade livre”
dos seus habitantes.
Pois bem, isso não pode ser somente presciência. Parece
que sim, mas não é; pois Cristo “viu” que em Tiro e Sidom
se converteriam almas caso operasse nelas os milagres,
mas não os fez, a despeito da presciência, não respeitando
em nada o suposto livre-arbítrio daqueles homens. A
questão está afeita ao poder de Deus, de condenar tanto
uma como outra cidade, não segundo eventuais respostas
positivas do homem, mas exclusivamente por sua vontade
decretiva e eletiva de lançar a sua graça e misericórdia
sobre aqueles que amou eternamente, e somente sobre
eles. Naquelas, por não operar ali os milagres que os
levariam à conversão, mesmo considerando que eles teriam
olhos para ver, elegeu-as à condenação; e, nestas, por
operar milagres e cegar-lhes os olhos, a fim de não verem e
não se converterem. Os réprobos irão ao inferno porque
Deus estabeleceu que eles iriam; da mesma forma, os
eleitos não irão porque Deus determinou que não
fossem[91].
Novamente, a ideia favorecida, o livre-arbítrio, está
acorrentada aos desígnios divinos, não sendo, portanto,
livre em nenhum aspecto.
CONCEITO DOIS
Muitos calvinistas, comumente, respondem à questão da
seguinte forma: pela graça comum, Deus restringiu o
homem de tal forma que ele não agirá segundo a sua
natureza, não dando vazão completa à sua pecaminosidade.
No caso do Faraó, especificamente, aconteceu de Deus
“retirar” a sua restrição, expondo-o, por inteiro, à sua
condição miserável, a ponto de endurecer o próprio
coração, em um furor obstinado e doentio de combater a
Deus. Desta forma, Faraó se viu livre para agir como queria,
na máxima capacidade de iniquidade possível em sua
natureza. É como se a maldade estivesse ativada à potência
máxima, sem nenhum redutor ou freio, o seu coração
trabalhando enlouquecido, a todo vapor, na ânsia por uma
vitória impossível, levando-o a uma sequência de atitudes
inconsequentes e desastrosas, culminando em malefícios
para si e seu povo.
Não vejo muita diferença no conceito de Deus determinar
o fato e retirar aquilo que ele mesmo restringiu, para a
realização de determinado evento; isto se chama
Providência, mas adquiriu, atualmente, a alcunha de “Graça
Comum”[92]. De qualquer maneira, o fato ocorrerá segundo
o plano de Deus, segundo a sua vontade, e qualquer outra
nomenclatura utilizada para explicar algo cujo significado já
existe, mesmo com o intuito de complementá-la, não
passará de uma má utilização do termo, sua inadequação
ou, em muitos casos, a descaracterização da revelação pela
multiplicidade de significados a esvaziar-lhe o sentido,
dissipando-o em sua veracidade. No final, o importante é
manter-se a simplicidade, sem se desviar da verdade, uma
vez que a sobreposição de noções resultará na deturpação
da sua finalidade.
Exemplificando, seria o mesmo que um construtor
colocar um telhado sobreposto a outro telhado, e fazê-lo
novamente, num gasto desnecessário, inútil, e que
comprometerá toda a estrutura da casa, o seu fundamento,
podendo levá-la a ruir. Assim acontece com a idealização de
novos termos, substituindo outros já existentes, que
acabam por desfigurar o termo original, tirando-lhe a
eficácia, desbotando-o. É, em linhas gerais, o problema da
utilização da expressão “Graça Comum”, um subterfúgio e
um esquema mais danoso que benéfico ao conhecimento
divino, subsistindo paralelamente ao conceito milenar da
Providência, mas com um componente ilusório, o de revelar
o amor de Deus por todos os homens, indistintamente,
ainda que nem todos sejam alvos da sua verdadeira Graça e
a maioria se contentará em sofrer, no inferno, a punição por
sua rebeldia, na forma da ira suprema e eterna do Criador
sobre as suas cabeças.
Em qualquer situação, seja na natureza de Faraó, seja na
restrição a Faraó, seja na não restrição a Faraó, Deus está
agindo ativa e positivamente para que o monarca realize,
efetiva e infalivelmente, aquilo estabelecido por ele próprio,
na eternidade. 
A ideia de anular ou diminuir a restrição a Faraó apenas
favorece o pensamento do agente livre, mas que,
entretanto, está preso e acorrentado ao final planejado por
Deus. Em linhas gerais, dizer que Faraó agiu segundo a sua
natureza, de que teve suspensa a barreira que o impedia de
pecar, em nada ajuda na questão. Ela é apenas um
malabarismo, com a tola premissa de que o Senhor
precisaria ser isentado de endurecer-lhe o coração, quando
ele mesmoafirma, por mais de dez vezes, tê-lo endurecido,
a fim de, através dele, o seu nome ser glorificado e tudo
antes determinado se cumprir, em seus mínimos detalhes e
de forma inevitável.
Ao não mais restringir o mal na vida de Faraó (se é que
havia restrição, segundo o critério da graça comum), Deus
impeliu-o a agir segundo a sua vontade. Então, o próprio ato
de restringir não seria uma forma de Deus demonstrar a sua
soberania e vontade expressas na vida de suas criaturas?
Afinal, o Senhor não restringiu a liberdade de Faraó?
Implicando em dizer que os pecados cometidos por Faraó
foram controlados pelo Soberano, de uma forma ou de
outra, seja na restrição, seja na não restrição, para o
monarca egípcio realizar exatamente todo o plano
estabelecido por Deus; não havendo chances de não o
fazer, e, ao fazê-lo, cumprindo o fixado e estabelecido no
decreto eterno.  
No caso de Faraó, a não restrição foi específica para ele
resistir em seu desejo obstinado de não libertar o povo de
Israel. Não se pode esquecer de que havia um desejo
sincero no monarca egípcio: ele não era uma marionete ou
robô nas mãos divinas, mas a sua vontade estava em
harmonia com a sua natureza réproba, de fazer o mal acima
de tudo, e, especialmente, de afrontar ao Soberano com a
sua desobediência belicosa e deliberada; as vezes
travestida pela dissimulação; evidente nas decisões
sumárias de operar contra a sua própria palavra,
desdizendo-se, não levando-a a termo, não cumprindo o
compromisso assumido diante de Moisés e Arão, mas
também diante de Deus.
A não restrição não teve nenhum outro efeito, apenas o
de dirigir e “forçar” Faraó[93] a resistir cada vez mais aos
sinais do poderia divino. Do ponto de vista prático, a não
restrição nada mais é do que Deus conduzindo Faraó a se
rebelar, pecar e realizar exatamente o plano traçado, em
obediência, mesmo na insurreição. Faraó, em sua natureza
depravada, tinha latente, em seu íntimo, o desejo de chegar
aonde chegou; de mobilizar a si e ao seu reino, no
cumprimento do intentado pelo seu coração; de alcançar,
por todos os meios, o seu plano de afronta a Deus,
declarando uma guerra insana contra o Todo-Poderoso, onde
a libertação de Israel era apenas o mote, o estopim, a dar
vazão aos seus caprichos e recalcitrante disposição
ofensiva.
Pouco importa dizer se Deus levou-o a pecar e praticar o
mal ou o fez ao retirar a sua mão e “liberá-lo”  a resistir,
pecar e praticar o mal. O resultado é sempre o mesmo:
Deus no controle de todas as coisas, mesmo do pecado e do
mal[94]. Deus no controle de todas as coisas, quer sejam
pensamentos ou ações. Deus no controle de todas as
coisas, quer seja no endurecimento do coração ou não; quer
seja em mantê-lo como pedra ou transformá-lo em carne. A
síntese é Deus ordenando tudo no universo, por sua
soberania, e o homem obedecendo-o, inapelável e
inexoravelmente. Como está escrito:
“Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus
propósitos pode ser impedido” (Jó 42.2).
CONCLUSÃO
Não há pecado algum em o homem buscar conhecer e
entender a vontade divina e a sua realização histórica. Faz
parte do amadurecimento cristão, se não estiver reduzida
ao campo da curiosidade ou orgulho intelectual, tornando-
se, nesse caso, um pecado grave. Deus não pode ser
dissecado ou autopsiado por nenhum homem; suas
verdades devem ser aceitas, mesmo que ele se mantenha
indecifrável, mesmo que perdurem os dilemas impossíveis,
e vá muito além da nossa compreensão e razão[95].
Por outro lado, somos levados a criar soluções onde elas
não se apresentam e a buscar socorro em disciplinas e
matérias onde as dificuldades não se equacionam nem
diminuem. Várias ciências podem nos ajudar a descrever
melhor aquilo que Deus revelou, como a filosofia, a física, a
linguística e a retórica, por exemplo. No entanto, elas são
incapazes de solucionar aquilo que Deus revelou como
sentença, porém, manteve ocultos a explicação ou o
sentido[96]. Por maior que seja o desafio, por mais méritos
que tenha o estudioso, por mais visível e lógico que se
apresente o desfecho, o que não foi revelado permanecerá
como mistério e qualquer conclusão não passará de
investigação incerta e arriscada, de tentativa frustrada de
entendê-lo, mas não incapaz de transtorná-lo e gerar sérios
e danosos problemas. Como o próprio Senhor nos diz:
“Porque os meus pensamentos não são os vossos
pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos,
diz o Senhor. Porque assim como os céus são mais altos do
que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que
os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do
que os vossos pensamentos.” (Is 55.8-9)
Por essas e outras, muitos fatos, na Escritura, são
interpretados por meio de contorcionismos mentais e
malabarismos retóricos; uma maneira de turvar a água
límpida através de subjetivismos, de empolação, de
redundâncias e empáfia, quando a Bíblia é objetiva ao
afirmar, reafirmar e confirmar, ser Deus imutável (Tg 1.17),
perfeito (Dt 18.13), santo (1Pe 1.16), soberano (Cl 1.16-17)
e Senhor de todas as coisas e sobre todos (Sl 10.16). 
Quer o homem aceite, ou não.
A Disputa pelo Corpo
Entramos, agora, em um ponto altamente discutido, sobre
o qual paira uma série de dúvidas, e consequente alvo de
disputas nos primórdios da igreja.
A primeira refere-se ao fato de esse incidente ser
considerado apócrifo e, portanto, a carta de Judas não
deveria ser levada a sério, nem teria autoridade divina,
estando dissociada e infiltrada, como um corpo estranho, ao
Cânon Sagrado. Tolice, pois o documento em nada fere a sã
doutrina, não a confunde, minimiza ou contradiz, não
havendo inconsistência, mas estando em concorde sintonia
com toda a palavra revelada pelos profetas, por Cristo e
pelos apóstolos. Como o autor nos diz, ele não veio trazer
algo inédito, mas “lembrar-vos, como a quem já uma vez
soube isto” (v.5), daquilo ensinado exaustivamente pelos
santos de Deus, em todos os tempos.
Uma característica das heresias, dos falsos profetas e
seus livros apócrifos é a proclamação de algo exclusivo,
insólito e moderno, completamente divergente dos
ensinamentos antigos, sem que haja qualquer conexão ou
unidade de princípios, esquivando-se da simplicidade e
fidelidade das doutrinas dos demais livros, ainda que
realizem um esforço árduo em fazer a heresia parecer-se
com a verdade, através de mecanismos de associação ou
dissociação, manipulação do texto sagrado, reedição da
história, individualismo ou unilateralismo doutrinário e
outros subterfúgios sutis, porém diabólicos.
Outra questão abordada é o porquê de Satanás disputar
o corpo de Moisés. Muitos diriam ser algo sem sentido,
figurativo e especulativo, visto o relato basear-se em um
livro apócrifo, o de Enoque. Contudo, não me parece algo
irrazoável, antes o contrário. Senão, vejamos:
1)    Sabemos que Moisés foi enterrado pelo Senhor, não
havendo evidências de onde pudesse estar a sua sepultura.
O Senhor queria, apenas ele e mais ninguém, que nenhum
outro soubesse onde estava depositado os restos mortais do
profeta. Por isso, pediu-lhe para subir sozinho ao monte, de
forma a não haver testemunhas.
É possível Moisés ter sido arrebatado para céu, assim
como Enoque e Elias; porém a Escritura não assevera essa
hipótese, apressando-se em afirmar o destino do seu corpo,
cuja morte se deu na terra de Moabe, onde foi sepultado,
em um vale, em frente de Bete-Peor (Dt 34.5-6). Estas
coordenadas, apresentadas pelo próprio Deus, em sua
palavra, são evidências do fim que levou o corpo de Moisés,
não restando dúvidas.
Alguém pode contestar a informação, alegando: Quem o
enterrou? Primeiro, não há provas de ter sido enterrado,
visto não ser encontrada a sua sepultura. Segundo, o
Senhor pode agir de várias maneiras, como, por exemplo,
arrebatar a Elias. Então, por que não poderia tê-lo colocado
em uma sepultura ele mesmo? Poderia também tê-lo
queimado ou utilizado outra maneira de dar-lhe um fim. Fatoé não ter sido revelado as condições e o método pelos quais
se deu o seu sepultamento e parto do princípio de que
tenha ocorrido, para fins de continuidade do texto.
Ninguém sabe, entretanto, o lugar da sua sepultura, nem
os antigos nem as gerações futuras, apesar de ser plausível
imaginarmos os seus concidadãos empreenderem
varreduras na área, a fim de localizar o seu lugar de
repouso, e muitos outros, posteriormente, empenharam-se
nas buscas, sem obter qualquer êxito.
2)    Satanás, conhecendo a idolatria do povo de Israel,
“disputava” o corpo de Moisés para dar-lhe um funeral
adequado e público, de maneira que a localização da sua
cova seria facilmente identificada, levando multidões de
fiéis a dirigirem-se ao local para venerarem o seu ídolo.
É corrente o expediente do inimigo de propiciar, em
todos os séculos, artifícios com corpos (tumbas e múmias
de santos são motivos para peregrinações, romarias e
visitações), imagens (representação de corpos com o fim de
se cultuar um santo), ou mesmo relíquias, como objetos
utilizados pelos santos e que são também alvos, matérias
de culto, de veneração e, supostamente, causadores diretos
de milagres. Em todos esses casos, Satanás realiza a sua
obra principal: desviar o homem do verdadeiro Deus e
escravizá-lo por meio de sua astúcia, satisfazendo a
insensatez e rebeldia humanas. Utilizando a distração do
pecado para afastá-lo da verdade, leva-o cada vez mais
para longe da verdade e aproxima-o cada vez mais da
idolatria, cujo princípio é o da falsificação do real, ao se ter,
por objeto de culto, de adoração, um ídolo, o qual nada
mais é do que uma fantasmagoria, uma cópia deficiente e
malograda, a deformação alcançável pelo homem por sua
própria limitação de vislumbrar o sublime, o sobrenatural.
Por conseguinte, ele se contenta com a caricatura, o
arremedo, a projeção das suas próprias deficiências, do seu
pecado e limitações em algo ainda mais absurdo, contra a
razão da fé cristã, mas a ganhar ares de encantamento, de
fulgor, quando não passa da síntese de nossas misérias e
loucura. 
Se Cristo veio nos libertar do jugo do pecado e da
inimizade com Deus, essas atividades religiosas, aprendidas
do paganismo, transportam o suposto cristão para um tipo
de prisão especial, na qual ele pode até vislumbrar a
liberdade (como por uma janela), mas jamais a
experimentará. Em meio a uma profusão de ídolos, é-lhe
incapaz distinguir o Deus verdadeiro, cuja natureza e
personalidade imiscui-se na corrupção geral do culto
prestado ao não Deus, como se fosse Deus; fruto do amor
excessivo do homem a si mesmo, à sua natureza,
contaminando-o com a forma mais virulenta e letal de
adulteração, ao imaginar e conceber algo fictício como se
fosse real. Como essa pseudorrealidade precisa ser tangível,
constrói para si imagens, esculturas e lhes dá “vida” por
meio da inconsciência e rejeição ao verdadeiro Deus.
3)   Logo, o anjo Miguel contendeu-se com o diabo.
Creio que essa disputa se deu pelo fato de o próprio
diabo não saber a localização da sepultura de Moisés. Pode
ser que ele soubesse, mas Deus o impediu de utilizá-la para
os seus propósitos. São conjecturas, mas, certamente, o
fato de Judas relatá-lo em sua carta demonstra o caráter
verídico e factual do incidente.
Algo ainda mais importante do que a disputa, foi o não
dito de Miguel a Satanás. É sugestiva a exaltação do texto a
algo não proferido pelo anjo, revelando uma forma de
conduta prudente e sábia, a qual não devemos negligenciar,
para não incorrer em pecado. É possível observar, nas redes
sociais, em artigos, vídeos, e em outros meios de
comunicação, quão imprudentes e temerários se tornaram
os lábios do cristão. Não é difícil encontrar teólogos,
pastores e leigos projetando, em seus interlocutores, diretos
e indiretos, acusações e ofensas nada apropriadas para
alguém reconhecido publicamente como “servo de Cristo”.
Se o anjo, do alto da sua batalha contra o inimigo não se
atreveu a fazê-lo, com qual direito se arvora em detrator um
crente?[97]
Certamente, provocado pelas ofensas e disparates
proferidos pelo diabo, o anjo “não ousou pronunciar juízo de
maldição”, e há de se ressaltar ser isso deveras significativo
para a igreja, ainda mais hoje, quando todos parecem
prontos, equipados, para atacar com unhas e dentes os
detratores. Esta é a acepção da palavra “Satanás”,
significando “o acusador”; aquele sempre pronto a levantar
falso testemunho ou a incriminar, tal qual fez com o justo Jó,
tencionando com nitidez a destruição, esmagar o rival sem
piedade, humilhá-lo, e levá-lo a blasfemar contra Deus.
Acontece estarem muitos, dentre os que não se consideram
como tal, na condição de representantes do maligno, de
servi-lo dócil e generosamente em sua raiva e ódio
condenatórios, quando dizem fazê-lo em nome de Deus.
Entretanto, não reconhecem a gravidade de suas ações,
cujas atitudes os remetem diretamente às práticas
diabólicas, a um tipo de “ministério” infernal.
Proferir juízo é algo muito delicado. A palavra juízo, no
sentido bíblico, significa uma capacidade ou faculdade de
decidir corretamente entre o que é certo e o errado. O
Senhor nos ordena a não julgar segundo as aparências, mas
segundo a reta justiça (Jo 7.24); logo, o julgamento não é
impeditivo para o cristão, pois o próprio Jesus nos diz como
deve se realizar, de que forma deve ser conduzido e
baseado em quais fundamentos não se torna um pecado,
mas uma necessidade revestida do caráter santo: apontar,
ou conduzir, para a justiça!
Então, o que há de errado em se proferir um juízo? A
capacidade de julgar é algo que todos deveriam ter, no
sentido de distinguir o certo do errado, o bom do mal, o
justo do injusto, o moral do imoral, e assim por diante. É
uma faculdade legítima e não há pecado quando realizada
corretamente. O vício está na própria confusão das
categorias, onde o certo se torna errado, o errado, certo, o
bem se torna mal e o mal, bem, como apontou o profeta (Is.
5.10). A questão à qual os crentes devem ser cautelosos, diz
respeito quanto ao proferir uma sentença. E o que vem a
ser isso?
Por exemplo, nos são mostrados dois trechos nas
Escrituras: o primeiro está em Lucas 21, no qual os ricos
lançavam suas ofertas na arca do tesouro, enquanto uma
pobre viúva deitava duas moedas no gazofilácio, as únicas
de que dispunha. Alguém, vendo aquela cena, poderia
julgar pela aparência: os ricos sinalizariam ser mais zelosos
e fiéis ao darem mais dinheiro, sendo que entregavam uma
parte do muito que tinham.
Em contrapartida, ao verem a viúva recolher à caixa
duas simples moedas (talvez de ínfimo valor), era possível
julgá-la de maneira contrária, criticando-a pelo pouco dado,
sinal de não ser zelosa, mas mesquinha, e de ter pouca fé.
Aqui há muitas aparências. Várias maneiras de se chegar a
uma conclusão a partir de um conhecimento insuficiente,
precário, capaz de obliterar o entendimento, levando-se a
inferir uma sentença equivocada pela incapacidade de se
ver com clareza e profundidade, não indo muito além da
superfície. Desconhecendo-se, por completo, as várias
camadas ocultas pelo exterior (muitas vezes disfarces,
camuflagens), as quais não podemos averiguar com
exatidão. Neste caso, somente Deus pode proferir a
sentença; pois somente ele tem acesso irrestrito ao
coração, e somente ele é capaz de saber as suas reais
intenções; pois ele sonda tudo e todos, conhecendo-nos
como somos, algo improvável para nós mesmos, capazes de
acertar no geral, mas de enganarmo-nos em vários
aspectos particulares e relevantes, ignorando as
verdadeiras intenções do próximo e os inalcançáveis
propósitos de Deus. Então, foi à conclusão precisa, somente
possível pelo Verbo encarnado, que ele chegou:
“Em verdade vos digo que lançou mais do que todos,
esta pobre viúva; porque todos aqueles deitaram para as
ofertas de Deus do que lhes sobeja; mas esta, da sua
pobreza, deitou todo o sustento que tinha” (Lc 21.3-4).
O segundoexemplo encontra-se em Lucas 18.9-14. A
parábola fala de dois homens que subiram ao templo para
orar; um era publicano, e o outro, um fariseu. O texto diz o
seguinte:
“O fariseu, em pé, orava no íntimo: ‘Deus, eu te
agradeço porque não sou como os outros homens: ladrões,
corruptos, adúlteros; nem mesmo como este publicano.
Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto
ganho’”.
Enquanto o publicano ficava à distância. Ele nem ousava
olhar para o céu, mas batendo no peito, dizia:
“‘Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador’. Eu
digo que este homem, e não o outro, foi para casa
justificado diante de Deus. Pois quem se exalta será
humilhado, e quem se humilha será exaltado" (v.11-14).
Qualquer um a chegar ao templo, naquele momento,
diria estar aquele publicano irremediavelmente condenado,
de forma a não alcançar o perdão, não lhe sendo digno
sequer permanecer naquele local. Pela sua própria atividade
e condição, pela maneira como oprimia o povo,
extorquindo-o através da prática abusiva de cobrar
absurdos, na forma de impostos e taxas (ainda que os
romanos não considerassem essa prática criminosa), era
visto pelo povo como um pecador incorrigível, digno e
merecedor da condenação eterna, um daqueles impossíveis
de escapar do inferno, estando-lhe assegurado o juízo e
uma estadia atribulada e prolongada junto aos demônios.
Para todos os efeitos, e diante de todo o povo, um publicano
não era melhor que um traidor, além de alvo do ódio,
proporcional ao seu crime.
Em contrapartida, o fariseu era visto com contornos
benévolos: um homem respeitável, doutor da lei, alguém
merecedor dos favores divinos, cuja vida era devotada ao
serviço e obediência a Deus. Como já dito, as aparências
enganam e nos levam a equívocos, muitas vezes. É o ensino
desta parábola. Somente Deus pode ler o coração dos
homens e encontrar nele os motivos para proferir o juízo
correto. O que para nós está na superfície, muito
toscamente roçado por nossos sentidos e intelecto, Cristo,
em sua perfeição e santidade, consegue sondar nas
camadas mais profundas da nossa alma, nos lugares mais
improváveis e inatingíveis, porque ele sonda e conhece
tudo, nada fugindo-lhe, pois, como diz o salmista, até
mesmo “de longe entendes o meu pensamento” (Sl 139.2).
O fariseu, em seu orgulho e presunção, não revelou
qualquer arrependimento, não se humilhou nem implorou o
perdão, antes considerava-se bom o suficiente para estar
ali, diante de Deus, como um exibicionista mostra-se diante
da plateia, ou um ator, no palco, tem a atenção da plateia.
Ainda por cima, proferiu uma sentença contra o publicano,
atentando somente para as aparências (utilizando-se das
armas prediletas do injusto). Via a si mesmo como digno de
apresentar-se “face a face” com Deus, esquecendo-se de
que ninguém pode fazer isso sem sucumbir à sua ambição.
Também pela aparência, considerava o publicano
desprezível e sua simples presença no templo como algo
indecoroso, profanatório; sua condição e natureza de ofício
desabonava-o, sobretudo de comparecer diante do Senhor.
Pode até mesmo ter pensado que a atitude dele de estar no
local santo, na casa de Deus, tinha motivos inescrupulosos e
ultrajantes, uma maneira de insultar e escarnecer a Deus.
Esse, definitivamente, não era o seu lugar!
Em vez de se preocupar com o estado do outro,
auferindo-lhe virtudes ou vícios, o publicano cingiu-se a si
mesmo de vergonha, de opróbio, reconhecendo-se um
pecador, carente de graça e misericórdia divinas. Como o
Senhor alertou-nos:
“Porém muitos primeiros serão derradeiros, e muitos
derradeiros serão primeiros” (Mc 10.31)
E,
“Eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores,
ao arrependimento.” (Lc 5.32)
  
Estes dois exemplos, revelam a não autorização de se
avaliar a fé e o zelo a partir das aparências, algo somente
possível de ser medido por Deus. Contudo, alguém pode
dizer: “posso aquilatar a fé e o zelo de alguém pelos frutos,
pois a Bíblia nos diz que pelos frutos conhecereis a árvore”
(Mt 7.15-20), o que é verdade. Mas nem sempre os frutos de
um crente podem ser visíveis o suficiente para serem
aferidos por nós. Há frutos que o seu próprio autor
desconhece, os quais somente podem ser vistos pelo
Senhor. Se alguém comete um ato reprovável, deve-se
exortá-lo e chamá-lo ao arrependimento pelo pecado
cometido, mas jamais se pode condená-lo, no sentido de
equipará-lo a um incrédulo, considerando-o um ímpio ou
não-salvo, ou de pensar que queimará, irremediável, no
fogo eterno. Isso é proferir uma sentença ou, como Judas
nos diz, pronunciar juízo, o qual implica em o homem fazer-
se Deus, tomando para si prerrogativas divinas, que não
está autorizado ou capacitado a exercer.
Darei, ainda, mais um exemplo, pois o julgamento é uma
das doutrinas menos compreendida e aceita na igreja,
especialmente nos dias atuais onde o individualismo, a
autossuficiência, o narcisismo e a prepotência imperam
mesmo entre os cristãos. Isso constitui um insulto à
natureza humana, capaz de manter o pecado em seu
estado intocado de destrutibilidade, de doença incurável; na
atitude deliberada e persistente de insurreição, de afronta
ao Altíssimo; em uma condição de arrependimento
incompreensível.
Cristo, em Mateus 7.1-6, combate exatamente a
hipocrisia daquele que tem uma trave no olho, mas está
preocupado em tirar o cisco do olho alheio. Seria o mesmo
que apontar o dedo para um irmão, acusando-o de pecado,
enquanto se vive no mesmo pecado; como se estivesse
enrodilhado em um furacão a exortar alguém quão
destrutivo pode ser manter-se ali, enquanto não faz nada
para libertar-se. Primeiro, é preciso livrar-se do seu pecado
(a trave) para depois exortar alguém ao arrependimento (o
cisco); de outra forma, além de cometer um ato de
hipocrisia, condenável e injustificável, não há, no íntimo, o
desejo de abandonar o vício, permanecendo-se no estado
de degradação espiritual. Essa atitude é deveras moralista e
deve ser combatida dentro da igreja com a força necessária
à sua expurgação.
De forma alguma, Cristo proíbe o julgamento, pois ele
mesmo nos exorta a observar os frutos para se saber a
procedência da árvore, ou seja, discernir, avaliar, medir.
Estas palavras são sinônimas de julgar, e ninguém parece
ter problema com elas, visto todo homem fazê-lo o tempo
todo. A questão é: estamos aptos a julgar corretamente?
Segundo as Escrituras? Somos chamados à prudência e
diligência, a afastar-nos do pecado, do engano, e
aproximarmo-nos da santidade e bondade, vivendo uma
vida na qual sejamos luz em meio às trevas. Infelizmente,
há uma boa dose de melindre neste mundo, onde alguns
termos e expressões são capazes de fazer aflorar a
irracionalidade e a teimosia em muitas pessoas, pois eles
mexem exatamente com a parte “negra” da alma, à qual
estamos apegados, enraizados. Afeiçoados a ela como a um
troféu, exibimo-la sem o menor pudor, considerando prova
de sabedoria, quando não passa da mais vergonhosa
impostura.
Há um termo, criado por escritores distópicos[98],
chamado “novilíngua”, onde aqueles interessados em
destruir a tradição judaico-cristã, o alicerce da civilização
ocidental, especializaram-se na corrupção dos termos e do
seu sentido, dando-lhe uma outra conotação, adulterando-
lhe o nexo, numa reconstrução arbitrária, doentia,
subvertendo o seu significado com o fim claro de confundir,
de fomentar o caos. Visando construir um mundo fantasioso
de perfeição, contemplado apenas pelo ideal, e jamais
concretizado, pois não passa de ilusão ideológica, quiseram
fazer da ilusão um “messias”, um salvador, e assim destituir
do trono o Deus vivo.
Nesse caso, nem a igreja está livre da ação malévola dos
inimigos de Cristo, os quais têm se infiltrado com
sagacidade em seus limites, trazendo consigo a mesma
desordem da alma que os norteia, redefinindo o bem em
mal, e este, naquele. Se nos é dado o dom ou capacidade
de distinguir, de estabelecer conveniente diferença entreas
coisas e pessoas, por que raios não se pode julgar, visto ser
a mesma coisa? Qual o problema com a expressão? Há uma
carga de potencial distúrbio do espírito, a incomodar,
ocasionando a sua rejeição?
Ao meu ver, o julgamento no qual ninguém está
autorizado a aventurar-se é o de proferir uma sentença,
uma pena, um castigo a alguém, condenando-o ao Inferno.
Isto está muito além da capacidade humana, não sendo
uma prerrogativa humana, mas um simulacro da realidade,
no qual o homem pensa em assumir a condição de um
deus, portando-se indevidamente, numa tentativa frustrada
de deter o poder divino, mediante o uso da injustiça.
O caráter dessa punição, sendo eterna, somente pode
ser sentenciado pelo eterno, infinito e onisciente, no caso, o
Juiz supremo, o único capaz de sondar os corações e operar
a salvação nos eleitos, condenando os réprobos. Ao homem,
em sua efemeridade, cabe-lhe julgar as coisas temporais;
assim como há diversos graus de castigos: os aplicados
pelos pais aos filhos, pelos professores aos alunos, pelos
magistrados aos criminosos, em que o julgamento não é
somente uma possibilidade, mas é imprescindível, sendo
que, sem ele, a subversão à lei e a autoridade seriam
incontroláveis, tornando o mundo um rematado caos.
Uma pessoa a viver na impiedade pode, pelo poder de
Deus, ser resgatada da condenação mesmo tendo cometido
pecados hediondos, pois Deus pode salvar o pior dos
pecadores, enquanto o melhor dos homens não pode se
salvar.
É possível a qualquer um de nós surpreendermo-nos, na
eternidade, com o vislumbre e comunhão entre pessoas
julgadas, como se já estivessem condenadas e já fossem
tidas como inevitáveis garantidoras de uma vaga no Inferno.
Com elas teremos uma união santa, compartilhando o
mesmo louvor e adoração ao único Deus e Senhor, cuja
glória é eterna e inviolável, porque essa é a sua vontade e
por ela operou com amor, graça e misericórdia.
Há de se entender que, por conta da Queda e da
natureza pecaminosa, o julgamento humano é falho e
fadado à injustiça, exatamente por sermos imperfeitos,
volúveis e sofrermos as consequências noéticas da
transgressão, nublando e distorcendo a percepção da
verdade. Contudo, a Escritura nos revela o que é o pecado
(pela Lei Moral) e a necessidade de exortar o irmão que está
em pecado, sendo isso delineado pela Escritura e
confirmado pelo Espírito, cujas marcas imprimiu em nossos
corações. Essa atuação ou ação nunca deve caber a um
indivíduo apenas, mas é uma prerrogativa dada por Cristo à
Igreja, onde as regras bíblicas claras vão norteá-la a
disciplinar um irmão enredado e que persistir no pecado,
apesar das várias advertências e apelos com o intuito de
levá-lo ao arrependimento.
Pedro afirmou que o julgamento deveria começar pela
igreja (1Pe 4.17); e Paulo perguntou aos Coríntios se não
havia ninguém sábio entre eles para julgar os problemas
entre os irmãos, ao invés de deixar as decisões nas mãos de
árbitros injustos (1Co 6.5). Portanto, Cristo está
combatendo, com veemência, a hipocrisia e não o juízo, o
qual é instrumento do crente para avaliar todas as coisas,
não somente as ligadas ao mundo, mas também as
relacionadas à própria igreja, como guardião da sua
identidade de noiva do Senhor, defendendo a todo custo a
santidade, a pureza doutrinária, o temor a Deus[99]. Ou seja:
todos os princípios bíblicos que nos foram entregues e todo
o relacionamento com o Criador devem ser pautados por
discernimento, sabedoria, avaliação e juízo, em assentir-se
com o bem e a verdade, repudiando o mal e a mentira.
O julgamento não é uma condenação humana, mas a
condenação bíblica; aos rebeldes ela revelará o seu pecado
e a sua punição.
De qualquer forma, é um assunto complexo, de modo
que reafirmo o que disse: Em Mateus 7.1-6, Cristo combate
a hipocrisia e o julgamento como uma sentença
condenatória acerca da salvação (se fulano é salvo ou não,
não nos compete cogitar). Há irmãos que entendem a
afirmação de Jesus como uma censura a todo tipo de
julgamento, de maneira a não haver “brechas” nem
exceções em sua ordenação. Por exemplo, não nos compete
dizer, acerca desse ou daquele homem, se ele é ladrão,
bandido, mentiroso, e por aí afora, pois estaríamos
infringindo a ordem do Senhor, sendo esta uma forma de
julgamento, de sentença.
Não concordo com esse conceito, pois, se assim fosse,
não haveria uma série de advertências quanto aos falsos
profetas (muitos deles nominados por toda a Bíblia), pois
eles se enquadrariam no critério de estarem sendo julgados.
Se o julgamento é proibido, condenar a atitude maligna dos
fraudadores da fé estaria vedado e uma grande parte dos
versos relacionados a eles não deveria estar no texto
sagrado, estando em contradição com a sentença proferida
por Cristo. Mas não é isso o que acontece, graças a Deus!
Chamar alguém, um comprovado ladrão, de gatuno, ou um
fulano, declarado mentiroso, de enganador, não é ser
injusto, mas identificar a pessoa subjugada pelo pecado,
visando chama-la à realidade, mostrando a sua condição de
transgressor da lei e de inimigo de Deus e, também,
protegendo inocentes de uma eventual ação, no futuro,
desses meliantes.
O pecado não tem vontade própria e não se realiza por si
mesmo, como se fosse uma entidade, uma manifestação
espontânea de uma força autônoma e independente do
homem. O pecado somente se efetivará, tornando-se real,
se germinar e crescer na alma, gerando atitudes
condenadas e reprovadas pela Escritura. É claro, estou a
falar de pecados como uma atitude, uma ação pensada,
maquinada e colocada em prática por um indivíduo. Não
estou falando do pecado como uma natureza herdada pelo
homem, uma condição inerente à nossa essência pós-Éden,
mas consequência oriunda dela, na qual todos os homens,
sem exceção, são pecadores e condenáveis aos olhos
divinos. Nesse aspecto, seria redundante eu apontar para
esse ou aquele homem e dizer: “você é um pecador”; pois
seria o mesmo que dizer: “você é humano”, ou, “você é
mortal”. No que se refere ao arrependimento, ninguém o
fará se não tiver consciência do seu pecado específico e se
não houver uma censura, de terceiros, a denunciar-lhe o
vício.
O objetivo sempre será o de levá-lo, primeiramente, à
contrição, à dor profunda pela ofensa cometida contra Deus,
e, em segundo lugar, contra si mesmo e o próximo. Esse é o
papel da igreja, como corpo, e do crente, como membro do
corpo: denunciar tudo o que atente contra a santidade e a
verdade. No entanto, reitero duas coisas: a primeira, que
esse juízo está ligado à questão do discernimento, a
conhecer a diferença entre as pessoas, entre as coisas, de
maneira a não se misturar com nada que se oponha à fé
bíblica. Ou seja, a aplicação precisa se dar estritamente
dentro do âmago bíblico, uma relação na qual não existem
tons cinzas, mas apenas preto no branco. Aplicar conceitos
psicológicos, pedagógicos ou relacionados com a área
comportamental acarretará na sua insuficiência.
Alguém poderá dizer que a minha visão é
excessivamente pragmática quanto à aplicação do princípio
de julgamento cristão (bem como em tudo na vida cristã),
mas entendo que as regras estabelecidas por Deus são
eficientes em si mesmas e não carecem de acréscimos, de
complementação, em especial se formuladas por homens,
muitos deles antirreligiosos ou inimigos declarados dos
fundamentos da nossa fé. Se Deus nos deu saber como agir,
o que pode ser melhor para a igreja do que obedecê-lo? Por
que se faz necessário o emprego de técnicas ou processos
paliativos, complementares ou substitutivos, aos preceitos
divinos? Em que a “sabedoria” humana pode suplantar ou
agregar algo à sabedoria de Deus? Ou a “perfeição”
humana apurar a perfeição de Deus? E a nossa “santidade”
corrigir o Santo? Estamos no mundo, participamos do
mundo, interagimos com ele, mas a luz vem de Cristo e não
de Belial. Sendo assim, ao passo que Deus aplica a correção
e disciplina temporal e momentânea para com os santos,ele reserva ira eterna contra os ímpios.
O salmista nos exorta à separação; se não de direito, que
seja de fato:
“Bem-aventurado o homem que não anda segundo o
conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos
pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores” (Sl
1.1).
  
Os princípios nos foram dados pelo Senhor; qualquer
alteração, por menor que seja, significará no descrédito da
sua vontade como de si mesmo. Negando-se um, nega-se o
todo, e não há como defender a fidelidade a Deus se não se
defende a sua palavra. Não há como dizer conhecer a Deus
se não se conhece a sua palavra. Não há como dizer servi-lo
se o serviço não tem por prerrogativa cumprir a sua
vontade. Qualquer explicação, portanto, fora dos
parâmetros traçados e revelados por Deus será inútil,
ineficaz e dará mostras da falta de relacionamento ou
comunhão com ele. As ciências podem explicar muitas
coisas (ainda que de forma limitada e nem sempre
verdadeira), mas jamais poderão se interpor entre o Senhor
e seus servos, entre o Noivo e a sua prometida esposa; seria
um abelhudo a dar pitacos onde não é chamado, do qual
nada entende e conhece. 
Segundo, ao fazermos esse tipo de julgamento, não se
pode compreendê-lo como um ato de vingança, de
hostilidade ou de mera represália a quem o cometeu, mas
com a nítida intenção de levá-lo ao arrependimento, a
reconciliar-se com Deus. Qualquer atitude do cristão em
sentido contrário a estes dois pontos significará o abandono
da piedade e o amor fraternal. Assim, ele agirá como um
justiceiro, enquadrando-se na séria advertência de Mateus:
a de vir a ser julgado assim como ele mesmo sentencia o
próximo, sem a equidade cristã, sem a reta justiça,
agravada pela explícita desobediência ao Mestre.
Quanto ao caminhar na fé, dada uma vez aos santos,
todos os crentes têm o dever de zelar pela pureza da igreja,
conforme nos é dado saber, pelo Senhor:
“E, se não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não
escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano”
(Mt 18.17)[100].
E, por Paulo:
“Mas agora vos escrevi que não vos associeis com
aquele que, dizendo-se irmão, for fornicador, ou avarento,
ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o
tal nem ainda comais. Porque, que tenho eu em julgar
também os que estão de fora? Não julgais vós os que estão
dentro? Mas Deus julga os que estão de fora. Tirai, pois,
dentre vós a esse iníquo” (1Co 5.11-13)[101].
Como se vê, o ato de julgar é necessário e biblicamente
válido, mas sempre à luz da Revelação, e não da mente que
arrogantemente se autovalida e se envaidece e
ensoberbece pelos valores seculares, pelas suposições ou
outros instrumentos alheios à palavra, que podem levar a se
proferir sentenças injustas, negando os verdadeiros
princípios. Imprescindível, nesse caso, é a santificação; sem
ela age-se pela carne, como inquisidores ou moralistas[102],
e não em amor e fidelidade à verdade, tanto para com
Deus, quanto para com a Igreja e o próximo. O objetivo
nunca deve ser o de condenar, mas o de ser instrumento
divino para trazer o pecador à santidade, à reconciliação
com Deus e os santos, em uma atitude reparatória, tirando-
o das trevas e trazendo-o à luz; sem que isso nos exima de
aplicar a disciplina, os princípios bíblicos da correção (como
consequência do juízo bíblico), a fim de não se contaminar o
Corpo.
Para muitos, a advertência do próprio Senhor é negada
ou desprezada em favor da preservação de uma dignidade
humana exigida, mas nunca praticada ou ansiada, porque
ela o seria se voltasse para a santidade. O mundo, como o
conhecemos, exalta a necessidade de justiça, de
equiparação e igualdade entre todos os homens, em uma
busca alucinada pela nobreza ou valor, quando o caminho
traçado é diametralmente oposto: dando-se vazão aos
instintos mais sórdidos, aos desejos mais torpes, às ações
mais vis, onde o pecador se deleita em sua própria
enfermidade mortal, ele se rebaixa ainda mais em seu
estado de desonra.
Não é difícil presenciar a maneira repulsiva como muitos
cristãos se sentem insultados quando se repete o dito por
Deus, como se fosse uma ofensa, um disparate a tudo o que
o homem pensa e idealiza de si ainda que sem nada a ver
com a seu comportamento, caráter ou atitude. Deus castiga
e pune ao que ama!
“Ainda não resististes até ao sangue, combatendo contra
o pecado.
 E já vos esquecestes da exortação que argumenta convosco
como filhos: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor,
e não desmaies quando por ele fores repreendido; porque o
Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe
por filho. Se suportais a correção, Deus vos trata como
filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija?
 Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos
participantes, sois então bastardos, e não filhos” (Hb 12.4-
8)
  
Parece, seguindo essa teologia pessoal, que inexiste o
desejo sincero de serem filhos, havendo antes uma
comparação à condição de bastardos, espécie de
autovalidação desse estado. Com o propósito de deterem
uma relação ilegítima com Deus, uma ligação baseada na
impureza, da qual ele se opõe e se afasta, rejeitando-a,
tecem uma intimidade forjada, não sincera, com o Criador.
O único testemunho possível é o orgulho de serem postos
de maneira tão apreciada e desejada, que Deus não se
negaria a reconhecê-los, muito menos de aceitá-los,
curvando-se inevitável ao apelo de suas criaturas, para
delas ter reconhecimento. Por isso a atitude de julgar
aqueles que vivem placidamente em seus pecados, como
bastardos, é considerada pelo mundo inadmissível e
condenável, sendo que, na verdade, é uma condição
inaceitável enquanto a vivem por absoluto, na profundidade
interior.[103]
O julgamento, a exortação e o conselho se transformam
na forma mais virulenta de malevolência e aversão, uma
posição retrógrada e primitiva não mais tolerável pela
modernidade. Em contrapartida, o consentimento com o
pecado revela uma alma civilizada, e se negar o pecado, o
será ainda mais.
Outro ponto, citado por Cristo, refere-se a: “com o juízo
que julgares sereis julgados”, um alerta para a não vaidade
e o não se encher de soberba. Ao aplicar-se
equivocadamente essa norma, o resultado será um
julgamento hipócrita, aquele no qual o seu proponente tem
em vista acusar no outro o que ele mesmo faz, mas não
quer que os outros saibam que faz. Em outras palavras, é a
camuflagem perfeita para aparentar uma santidade que não
tem, escondendo a pecaminosidade arraigada à alma. O
hipócrita, via de regra, é incapaz de reconhecer em si
mesmo o pecado, mas é ligeiro em apontá-lo no seu
semelhante, com vistas a desviar a atenção de si e lançá-la
ao próximo. É a tática de acobertamento, dissimulatória, em
que a acusação é a defesa imediata a afugentar a própria
condenação. Entre outros, visa tirar o foco do hipócrita e
transferi-lo ao outro, com o nítido objetivo de esconder os
seus pecados através da exposição dos pecados alheios,
num tipo de “máscara” da condição libertina que se
pretende esconder à incriminação alheia, quando a culpa
deveria cair, primeiro, sobre o acusador, na forma de
confissão e arrependimento.
Segundo os seus critérios perversos, ele não está sujeito
à dura e inflexível vara do Juiz supremo. Pelo contrário,
encontra em si as condições para fazer-se juiz. Estando em
pecado, pela hipocrisia do julgamento, peca ainda outra vez
ao assumir as prerrogativas exclusivas de Deus, fazendo-se
como ele, e invocando-se para si “a medida que medires”;
ignorando receber a sentença na proporção do pecado
cometido, o qual será mensurado apenas e tão somente por
Deus. Ao se fazer de Deus, usando do privilégio que
somente ele tem, assumiu para si a conformidade da
sentença, na relação correta entre o pecado cometido e a
punição correspondente, sofrendo os agravos da sua atitude
pela máxima sentenciada por Cristo: na “medida que
medires sereis medido”.
No entanto, o delator não está nem um poucointeressado em retratar-se, perante Deus e a Igreja,
permanecendo, deliberadamente, envolto em seus pecados,
acalentando-os como a filhos queridos, e nutrindo-os com a
sua falsa religiosidade e moralismo.
A evidenciada intenção de não arrependimento e não
regeneração leva-o a querer os olhares de todos voltados
para o alvo do seu julgamento. Assim, aos olhos humanos,
ele se reveste de uma santidade que não possui, afagando
e alimentando dois dos pecados mais comuns e usuais no
homem: a autoidolatria e a vaidade, sem que eu saiba dizer
qual é causa e qual a consequência, parecendo ambas tão
entrelaçadas e intrínsecas à alma que, muitas vezes,
passam desapercebidas. Entretanto, ao contrário da
transparência, ele se delicia na vergonhosa perversão,
sequer se dando conta disso, posto ter a mente enevoada
por densas trevas. Não foi à toa que Jesus condenou, com
tanta veemência e assertividade, os fariseus, sacerdotes e
escribas, por representarem tudo de mais maligno e
destrutivo a entrar na igreja, com suas fingidas devoções,
falsa moralidade e o culto a si mesmos, tentando, a todo
custo, não deixar entrar no Reino aqueles que estavam
entrando. 
Em Mateus 23, ele proclama, em alto e bom som, as
atitudes deles e os seus destinos finais. Há pessoas que
veem, na proclamação do Senhor, uma prova de amor,
entendendo existir, na reprovação aos líderes judeus,
efeitos positivos capazes de levá-los à correção dos seus
caminhos tortuosos.
A meu ver, não consigo vislumbrá-lo amando-os,
sobretudo se atentarmos para a severidade e energia com
as quais os reprovou. Ao chamá-los de “raças de víboras”,
“sepulcros caiados”, “condutores de cegos”, “hipócritas”,
“assassinos” (“a uns deles matareis e crucificareis; e a
outros deles açoitareis nas vossas sinagogas e os
perseguireis de cidade em cidade”), parece-me nítida a
declaração de condenação, de juízo, a pairar sobre as
cabeças deles[104]. Senão, qual a razão de proclamar:
“Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da
condenação do inferno?” (v. 33).
Não parece evidente Cristo estar proferindo um
julgamento contra os fariseus e escribas, ainda que, dentre
eles, um ou outro (como Nicodemos, p.ex.) fosse exortado
ao arrependimento, afastando-se daquelas práticas e
reconhecendo a verdade em suas palavras?
Na maioria das vezes, a reação dos fariseus foi a de
maquinar, engendrar planos para prenderem e matarem-no,
revelando a disposição maligna de empreenderem uma
cruzada contra o Santo, fazendo jus à sentença ajuizada por
ele. Não vejo de outra forma. Não consigo perceber
complacência ou tolerância na sua confrontação. Também
não há sinais de contrição dos líderes; pelo contrário,
confirma-se, em seus corações, o intento de levar a cabo o
assassinato, a destruição de Jesus, para levarem-no ao
tribunal romano ou judeu, desviando o foco de seus pecados
e impudência com alegações torpes e injuriosas de que ele
era filho do diabo e blasfemava contra Deus. A prova de que
suas naturezas se opunham à verdade e à vida foi que eles
levaram à cabo suas ameaças, mentindo, caluniando,
prendendo e matando o Justo, o Santo, o Filho de Deus.
Fizeram jus à condição de réus de juízo, sendo, por ela,
condenados.
Por fim, Miguel, mesmo disputando com Satanás,
segundo as ordens de Deus, “não ousou pronunciar juízo de
maldição contra ele, mas disse: O Senhor te repreenda”.
Sabendo que ele era seu inimigo, de Deus e dos santos;
sabendo de sua malignidade e os danos capaz de produzir,
caso pudesse usar a morte de Moisés a seu favor, o anjo
ainda assim não se considerou capaz ou “no direito” de
amaldiçoá-lo, resignando-se em fazê-lo. Ele sabia quais
eram as intenções do inimigo, sabia que este deveria ser
derrotado. A disputa na qual fora introduzido tinha um
objetivo escuso e nefasto, sendo reprovável em todos os
aspectos; porém, não lhe cabia, mesmo fazendo o
julgamento correto, distinguindo ser prioritário não lhe
entregar o corpo de Moisés, proferir uma sentença
condenatória ao seu oponente.
Repetindo o trecho de Zacarias 3.2, pôs fim à contenda,
deixando o impedimento, refreio ou censura, a cargo de
Deus. Miguel não estendeu a querela, nem se aperfeiçoou
nela, nem a tornou em uma luta pessoal, pelos motivos
errados, mas por estar a serviço do grande “Eu Sou”. Ao
lidar, litigando, com um ente sabidamente condenado,
entendeu que não lhe cabia qualquer sentença e que ela
pertencia, em exclusividade, e por méritos naturais, a Deus,
na alçada própria da sua soberania, como essência ou
necessária prerrogativa da sua natureza. Do mesmo modo,
isso foi reconhecido por Paulo, ao dizer:
“Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar
à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu
recompensarei, diz o Senhor" (Rm 12.19).
O anjo não se atreveu a fazer aquilo que não estava em
sua alçada, fora dos limites da sua competência, ainda que,
porventura, quisesse, porque esse não era o seu papel, nem
a incumbência dada. Algo inglório seria assumir uma
prerrogativa exclusiva de Deus, numa tentativa de tomar-
lhe o lugar à força, nos mesmos moldes empreendidos por
seu adversário. Certamente, ele se lembrou da rebelião no
céu, quando Satanás e os seus comparsas caíram, sendo
expulsos pelo mesmo motivo: desejar assumir o trono
divino, destituindo-o, caso houvesse, nessa tentativa,
alguma possibilidade de êxito. Satanás se enganou no
próprio pecado, iludido com a ideia de que recebera
“poderes” suficientes para considerar-se vitorioso, em meio
à mais flagrante de todas as derrotas. Essa é uma das
marcas vigorosas do pecado: fazer-nos crer fortes enquanto
caímos impotentes, sem qualquer força para nos
reerguermos, incapazes de redimirmos a nós mesmos. Por
isso o Arcanjo, temendo ofender ao seu Senhor, abriu mão
de proferir uma condenação ao réu dos réus.
Em sua reverência e temor (no sentido já explicado, em
páginas anteriores), mesmo sabendo da sentença e punição
dos demônios; mesmo estando investido da autoridade
divina, humildemente entregou-se nas mãos de Deus,
deixando a vingança, o “troco”, para o supremo Juiz, único
capaz de punir a ofensa diabólica à sua autoridade e
santidade, na medida exata do delito praticado contra si.
Este é outro exemplo dado por Miguel, o de se submeter
integralmente aos desígnios e à vontade divina, sabendo
que se está melhor, mais protegido, sob a sua guarda, do
que em qualquer outra condição, e, como tal, todas as
atitudes e ações, dos anjos e homens eleitos, devem
também estar em sua dependência, em obediência. Quão
subordinadas e filiais são as nossas vidas a Deus, no sentido
de que, sem ele, não existiríamos, nem viveríamos, ou
teríamos o mais cobiçado e invejado relacionamento, a
comunhão verdadeira e santa, a satisfazer-nos e encher-nos
de gozo imensurável. Os réprobos apenas se darão conta da
própria infelicidade e tormento, muito além do castigo físico
e da ira divina oprimindo-lhes a alma, quando da
irremediável separação ou morte eterna, privando-os da
mais sublime, perfeita e desejada união com o Criador.
Sendo assim, a nossa vontade também deve estar à
disposição da Majestade, tal qual os nossos pensamentos e
ações; e não há nada a nos alegrar mais, nem mais justo,
duradouro e santo, incomparável e infinitamente maior do
que todos os tesouros do mundo, como provou-o Cristo,
rejeitando as ofertas e favores terrenos oferecidos pelo
diabo, no deserto, em favor da comunhão perene com Deus.
A Arma dos Ignorantes
No verso seguinte, temos a afirmação: “Estes, porém,
dizem mal do que não sabem”, revelando a completa
ignorância dos homens em relação à verdade, à realidade,
e, sobretudo, ao conhecimento divino, que, em última
análise, é a verdade e a realidade, em seus aspectos mais
absolutos, santos e eternos. São tolos a acusar e proferir
sentenças sobre o que não conhecem, o que lhes está
encoberto e que acusam pelo desvio de caráter, pela noção
de estranhamento, de incapacidade inerente à própria
naturezacristão, elas o fazem de maneira defeituosa ou indevida
(pois, para nós, o servir significa não a honra e o
reconhecimento pessoal, mas a glória de Deus); elas
tropeçam no egoísmo, no orgulho e na ignorância, ou em
alguma outra motivação, segredada no íntimo ou
declaradamente pecaminosa.
Alguém pode questionar: “Quer dizer que o cristão é
perfeito? E só há perfeição no Cristianismo?”. Não, e sim.
Primeiro, o cristão não é perfeito; há nele uma dupla
convivência, uma disputa entre a carne e o espírito, na qual
o processo de santificação está em aprimoramento.
Inevitavelmente ele derrapará, entregando-se à
concupiscência, e, até mesmo, cairá em pecado. A questão
é que o cristão possui algo distinto e com efeitos práticos
quase nulos no não-cristão: o arrependimento! Não se pode
confundir, e é preciso distinguir, entre o cristão nominal e
aquele regenerado, nascido de novo. O cristão nominal
pensa em conformidade com o senso comum e sua
natureza caída[12], buscando, em si mesmo, uma
autoexpiação, uma autocomiseração, onde o
arrependimento é o salvo-conduto para a elevação da alma.
Em si mesmo, acredita reter as forças necessárias para
fazer do remorso um homem muito melhor diante dos
próprios olhos, do mundo e de Deus; de forma que o
arrependimento (um arremedo dele) é de si para si,
exclusivamente por seus méritos, com o fim único de se
autojustificar diante do próprio altar. Em uma só tacada ele
se faz adorador e objeto de culto, sem a necessidade de
sacrifícios reais, pois estão acomodados à sua
personalidade, sendo ela, a do idólatra, que prevalecerá;
um culto impostor a um falso deus, criado pelo orgulho, pela
rebeldia, pela adulteração da verdade e realidade.
Há um engano terrível nesta ideia e disposição; de fato,
nada pode ser encontrado no Cristianismo a corroborá-la. O
arrependimento, muito mais importante do que uma
amostra de superioridade espiritual (considerá-lo assim
apenas demonstra o quão baixo o sentido de “arrependido”
encontra-se), é a oportunidade de voltar-nos humilhados
para Deus, em contrição profunda, cientes de não sermos
menos miseráveis que o mais miserável dos homens. Afinal,
não há nada em nós a suscitar um reconhecimento, por
menor que seja, já que todo o reconhecimento é do
perdoador, Deus. Todo o mérito é dele; toda a honra é dele;
todo louvor é a ele; e é por ele, somente por ele, que somos
capacitados a achegar-nos em contrição, pedindo por sua
misericórdia e graça, postura sem a qual nunca estaríamos,
de fato, pesarosos e tristes com o pecado e a nossa
condição desastrosa.
Em segundo lugar, o Cristianismo é perfeito, pois
somente nele a graça e a misericórdia e a bondade divina
são manifestadas, no esplendor insuperável da entrega do
Filho, santo, puro e imaculado, por homens pecadores,
desonrados e imperfeitos. Em nenhuma outra religião Deus
se fez homem, viveu como um simples mortal (ainda que
em sua simplicidade houvesse o esplendor e a majestade
divina), foi acusado, condenado, crucificado e morto por
aqueles que amou eternamente, antes de o mundo ser
mundo e de as coisas serem o que são. 
Por isso, outro ponto, a não ser esquecido nem
descuidado, é que servir a Cristo traz consigo a mesma
humildade e honra de sofrer com ele, pois o sofrimento é
marca distinta do cristão. Àquela época havia, como ainda
há, perseguições e mortes para os discípulos do Senhor; de
forma que Paulo diz ser ele a levar na carne as marcas de
Cristo[13], o qual, sendo justo, foi acusado e condenado e
morto[14]. Ao se abrir mão do sofrimento, ou evitá-lo, não
estamos em sintonia com o evangelho e suas proposições
sábias a dizer-nos:
"Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não
somente crer nele, como também padecer por ele" (Fp
1.29).
Por fim, Judas também se faz conhecer como o irmão de
Tiago, provavelmente porque, sendo um nome comum,
poderia ser confundido ou relacionado a outros tantos
“Judas” e, para evitar o equívoco, de ser confundido com
um estranho à Igreja, descreveu o seu parentesco com o
irmão mais famoso e proeminente, de quem já falamos.
A Santidade Outorgada
A carta é endereçada aos "santificados em Deus Pai",
falando especificamente para crentes, para cristãos,
aqueles que foram separados por e para Deus; não se
destina a um público indistinto e geral, ainda que lhes possa
ser proveitosa em aspectos formais do conhecimento e da
prática de vida. Pode-lhes auxiliar nas relações humanas,
como um freio para a iniquidade, estendendo-lhes
perspectivas convencionais do conhecimento sobre Deus, a
Igreja e o mal. Entretanto pouco ou nada lhe valerá em
relação ao relacionamento sincero e verdadeiro com Deus e
o seu povo se não houver a intermediação de Cristo, que
com sua morte uniu pecadores definitivamente ao Criador,
de maneira efetiva e insofismável. Quando muito, o ímpio
terá uma vida melhor e mais sábia neste mundo, mas, em
contrapartida, acumulará para si razões suficientes para ser
condenado, pois mesmo em sua aparente piedade não
houve frutos a indicar a ação direta do Espírito em santificá-
lo. Pautado na Escritura, que nos alerta de forma veemente
e implacável: sem santidade ninguém verá a Deus[15].
Contudo, para não atropelar a ordem dos assuntos
abordados por Judas, deixaremos para meditar sobre este
ponto específico mais à frente.
Então, temos que a epístola se destinava, como indica
todo o escopo bíblico, a falar à igreja e, ao contrário do
senso comum, cujo pensamento toma a Escritura como um
livro para todos os homens e de onde pode-se apreender
verdades relativas e individuais (no sentido de que cada um
pode construir a sua verdade independente do que o texto
fala e explicita), os destinatários são os membros do Corpo
de Cristo, os que foram santificados por Deus Pai, ou seja,
os que foram trazidos de suas naturezas pecaminosas e
caídas para viverem uma vida santa, nas pegadas do
Mestre. Não há nenhuma alusão à autossantificação ou à
mera possibilidade de sê-la, pois claramente o autor fala
dos que foram santificados por Deus Pai, revelando que esta
é uma obra exclusivamente divina, a qual Deus realiza tão
somente aos que chamou; sem que haja a possibilidade,
também, do autochamado, como comumente a maioria das
pessoas acredita possível.
Deus é quem chama e quem santifica a quem quer. É
claro que isso nada tem a ver com a ordem dada à igreja
para chamar a todos os homens, sem distinção, de entre
todas as nações e povos, ao Evangelho. São coisas distintas.
Há o chamado universal para que todos ouçam as boas
novas[16], e esta é a missão da igreja, mas quanto aos que
atenderão ao chamado geral, eles serão alguns, muitos,
uma multidão, mas não serão todos os homens, pois essa é
a evocação particular e específica de Deus, o cuidado de, no
universo de pessoas reprováveis e odiosas, chamar e
capacitar o eleito[17] a responder positiva e infalivelmente
ao convite. Há um convite, mas não é um convite recusável
(considerando-se que, diferente de uma festa de
casamento, por exemplo, na qual podemos comparecer ou
declinar, o chamado do Espírito é irrevogável), de modo que
o eleito responde com efetivo gozo e decisão resoluta.
Existe uma ideia popular, e muito em voga em nossos
dias, de a Bíblia ser um livro que atinge todas as pessoas de
uma mesma forma, mas isso não é verdade. Vemos pessoas
que têm conhecimento das Escrituras, alguns são mestres,
acadêmicos, eruditos, têm o hábito de lê-las, de estudá-las,
mas acabam por apropriar-se do que lhes é interessante e
descartam o que não é; relativizando muitas coisas,
descrendo em outras, suspeitando, na maioria das vezes,
porque não as têm como a palavra divina inerrante. Em
suas mentes é impossível conceber Deus escrevendo a
homens e mulheres (como prova do seu interesse e
cuidado); afinal, por que o faria sendo Deus? Ou é
inconcebível escrevê-las porque, em última instância, ele
não existe, e o que se tem como Escrituras são apenas
palavras e linguajar pensadohumana a dominá-los, afastando-os da sabedoria
que vem dos céus, o que os leva a entregar-se
alucinadamente à loucura incontrolada de se opor a tudo o
que é divino.
É muito comum encontrarmos pessoas opinando sobre
aquilo de que pouco ou nada entendem, ou ignoram por
completo. Há uma falsa ideia de que o homem pode se
exprimir sobre qualquer coisa e está capacitado a fazê-lo
ainda que desconheça o assunto, nunca o tenha estudado,
nem meditado nele, fazendo crer na possibilidade de
conhecimento se transmitir por osmose. Tão rapidamente e
de pronto nos metemos nos assuntos mais complexos,
como se o dominássemos à exaustão, como se houvesse
um poder na mente, intrínseco ao homem, de igualar um
palpiteiro e um estudioso meticuloso no mesmo patamar de
idoneidade e compreensão.
Praticamente todos, hoje em dia, estão dispostos a
exporem suas sugestões independente de o assunto ser-
lhes familiar ou inédito. Parece haver uma necessidade de
autoafirmação na qual a ignorância é anulada pelo número
de palavras articuladas, e não pelo seu significado. É
comum observarmos pessoas discutindo temas complexos e
singulares apenas utilizando-se do poder de intuição, como
se o pressentimento, em si mesmo, suplantasse a
autoridade para estabelecer e definir a realidade.
Parece existir uma especialização, um tipo de
generalização onde todos se presumem Ph.D. em
“achismos”, em que a adequação de uma situação ou
assunto é a única certeza, e, no fim, o único que importa. O
simples fato de o palrador acreditar em seu discurso é o
suficiente para ter credibilidade, mesmo incapaz de
distinguir entre um pato e um avestruz[105].
Infelizmente, as mentes encontram-se tão intensamente
obliteradas pelo pecado que a mais estúpida e desmiolada
afirmação pode ser confundida com sabedoria, inteligência
e razão. Vivemos tempos difíceis, nos quais a Queda e o
consequente afastamento de Deus têm tornado o homem
uma imitação grotesca de si mesmo. A degradação moral,
intelectual e espiritual alcançou os níveis mais abissais
jamais antes tocados pela humanidade e continua célere
em direção ao fundo do poço. Então, falar asneiras, repeti-
las e ganhar eco entre os seus pares ignorantes faz com que
muitos creiam no impossível: serem uma nova estirpe de
gênios e detentores da qualidade de criadores da verdade,
tal a arrogância com a qual adulam a si mesmos; em um
conhecimento inalcançável, posto não haver o sincero
desejo de conhecer; em um rompimento total com a
verdade, pois ela os denunciaria como falsários; em uma
fuga da realidade, já que o vértice dos seus desejos é serem
postuladores de um novo mundo, de uma nova realidade,
onde serão aclamados como “deuses”, os “messias” da
humanidade.
O desconhecimento próprio e de outrem é a arma a
mantê-los ativos na ignorância, como cultivadores de
pragas, disseminadores de doenças, destruidores inatos e
perseguidores ferozes dos seus opositores. Por isso, as
sensações encontram-se tão em moda: são a razão e
explicação para quase tudo, e quanto mais radicalmente
explícita e bizarra, maior será a sua assistência, os seus
seguidores, uma legião de inimigos da verdade.
O Cristianismo bíblico, e somente ele (pois há muitas
formas de “cristianismo” tão ao gosto do néscio), é capaz de
causar uma comoção violenta e uma reação despropositada
nos ignorantes, naqueles afeitos ao mal. Por
desconhecerem-no, fazem conexões com tudo aquilo oposto
e exterior à fé, como se fosse a sua essência, enganados
pela afetação de que, ao detratarem a verdade anulam-na,
impedindo outras pessoas de contemplá-la. Não se
importam em averiguar seus ensinos, estudá-los, medi-los,
na proporção adequada. Odiando a Deus e tudo o que
provém dele, saem atirando à esmo, refletindo apenas e tão
somente o seu ódio e compulsão pela mentira e a afrontosa
calúnia. E, quanto mais insistem na impostura, mais
afastam-se da verdade, cavando, sob os próprios pés, a
fossa onde serão enterrados, esmagados pela futilidade e
vanglória. Aquela máxima de “não conheço, não quero
conhecer e tenho raiva de quem conhece”, cai-lhes como
luva; uma desculpa emocional para a preguiça, a indolência,
a apatia mental e espiritual.
O salmista descreveu-os apropriadamente:
“Disse o néscio no seu coração: não há Deus. Têm-se
corrompido, fazem-se abomináveis em suas obras, não há
ninguém que faça o bem” (Sl 14.1).
E, no que naturalmente conhecem, comportam-se como
animais, ou seja, o prazer santo é substituído pelo agrado
do corpo, num desregramento impetuoso da carne em todas
as formas doentias, psicóticas e imorais, a fim de corrompê-
lo, como, por exemplo, o sexo desmedido, a glutonaria, a
embriaguez e inúmeras outras maneiras de se comportar e
agir sem qualquer moderação. Usam o que lhes é dado
abusivamente; como ignorantes e irracionais, acabam
condenando não somente o próprio corpo, mas também a
alma. Sentem-se à semelhança dos sábios, os senhores da
verdade, os mais astutos entre todos os sagazes, e não
passam de animais irracionais controlados pela vontade,
apetites e sentimentos desordenados, impuros e
depravados. Se conhecessem a verdade, sujeitando-se a
Cristo, guiar-se-iam por ele e refreariam os seus instintos
pecaminosos, não se permitindo serem dominados,
escravos, de sua própria vontade enferma, culminando,
muitas vezes, em serem péssimos exemplos para os outros,
instrumentos para a queda e derrocada alheia, no que se
contentam. Sob a regência do comportamento indolente,
incapaz de resistir às tentações e ao pecado, induzem
aqueles tão ou mais fracos a vacilarem, aprisionados em um
círculo vicioso onde corrompidos e corrompedores
confundem-se em uma massa disforme, maligna e ofensiva
à santidade divina. Acabam por desconhecer a afronta a si
mesmos, não pelo que são, mas pelo que poderiam ser; já
que, feitos à imagem de Deus, refletiriam a luz somente
emanada por aqueles feitos templo do Espírito, os quais, por
sua direção, almejam viver e guiar-se segundo a sua santa
vontade, cumprindo o propósito máximo do homem de
glorificar a Deus, em tudo, e para todo o sempre.
PARTE SEIS
TRÊS MESTRES FALSOS
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
"Ai deles!
Porque entraram pelo caminho de Caim,
e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão,
e pereceram na contradição de Coré."
Inércia Espiritual
A carta continua a descrever os falsos profetas que
assolaram a igreja ao seu tempo, censurando-os com
veemência; significando, para alguns, uma ênfase na
proclamação de uma sentença. Não é o que faz.
Conhecendo-os tão bem, sobretudo a obra que realizavam
na igreja, com o objetivo de desagregá-la, corrompê-la e
destruí-la, é natural serem comparados com outros
exemplos de homens e mulheres na Escritura, insidiosos e
pervertedores da verdade, seduzindo prosélitos para os
seus ensinos falaciosos e sua causa diabólica, levando-os a
se rebelarem contra a sã doutrina, contra a autoridade da
Igreja, contra a revelação especial, contra Deus.
Observe que, desde o início, há uma doutrina sã, correta,
divinamente inspirada, a qual milhares de homens, durante
séculos, seguiram e obedeceram, não sendo, àquele tempo,
desprezada ou reformulada, como a mente carnal clama em
afirmar[106]. O fato de haver uma acomodação da fé à
cultura, de maneira que esta define aquela, ao menos em
seus aspectos secundários, levando a um aprimoramento do
secularismo dentro da igreja, criando uma multidão de lobos
ávidos em perseguir e extirpar as ovelhas, é o ponto de
enfraquecimento do Cristianismo, desbotando-o no que há
de mais vívido, o amor à verdade, a qual é Cristo, e sua
busca intransigente. A intenção é demonstrar, ou melhor,
induzir a uma amostragem mentirosa, cujo objetivo é
fomentar uma espécie de cristianismo mutável, adaptável,
sem identidade e suscetível ao controle do mundo, de forma
que nem mesmo os seus fundamentos sejam considerados
intocáveis. Não é estranho, portanto, perceber um discurso
falacioso entre as pessoas de mentee escrito por homens. Fica
evidente que não são cristãos verdadeiros, assim como
muitos ocupantes dos bancos de igrejas também não o são,
pois, o Evangelho não produz, em si mesmos, a vida
necessária para erguê-los das catacumbas espirituais.
É fundamental perceber-se o estado de incredulidade, a
forma de se apegarem tão fervorosamente à dúvida, ao
ceticismo, como se elas resultassem em um tipo superior de
pensamento, no qual a crença, ou a fé, significa algum tipo
de barbarismo ou primitivismo mental. Contudo, esses
mesmos detratores da fé, insensíveis ao postulado dos seus
corações, alegando não a ter, e apegando-se a uma suposta
incredulidade superlativa, esquecem-se de que a descrença,
no final das contas, também é uma crença; em outras
palavras, não se foge da fé negando-a, pois essa negação é
um ato de fé, ainda que, digamos, muito mequetrefe;
faltando apenas ao cético apresentar-se à verdade,
reconhecendo-a, e dizer: “Sim, senhora!”[18].
Ao terem a Bíblia como um livro a revelar aspectos
morais ou de costumes, mas nada além disto, é-lhes
inconcebível reconhecer a sobrenaturalidade do texto, já
que suas mentes se encontram em um nível tal de
escravidão e letargia, os quais obliteram a visão, e a própria
incompreensão não passa de um reflexo tardio das trevas a
dominá-la. Desse modo, incorrem no grave equívoco e,
posso dizer, pecado, de não o considerar infalível, inerrante
e divinamente inspirado, pontos basilares da fé cristã. Este
é o fundamento dos cristãos, crendo eles que a Escritura é a
fidedigna palavra de Deus, o próprio Senhor falando
especialmente com o seu povo; do contrário, qualquer
forma de Cristianismo à margem da revelação especial é o
estereótipo do modelo iniciado no Éden, onde a palavra de
Deus foi subvertida, e a serpente, ao dizer que Deus não
disse o que disse, implantou a dúvida e confusão no fraco
coração de Eva, primeiro, e de Adão, em seguida.
Muitas distorções apresentam-se na forma simples de
construir-se ideias alheias à revelação especial, como, por
exemplo, a de todos os homens serem filhos de Deus. A
partir disso, constrói-se um castelo de areia onde conceitos
enganosos são formulados no intuito de tornar possível a
reconciliação e a salvação pelos méritos humanos, quando a
realidade é diametralmente oposta, mas inalcançável para a
alma natural, não regenerada. Mais à frente, explicarei
melhor esse princípio, e veremos ser vedada a condição de
se autorreconciliar, de se exercer um livre-arbítrio, no qual o
homem é arbitrário apenas em manter a sua condição de
pecador, de inimigo de Deus, perpetuando-se na
transgressão.
Logo, não há como entendermos esta carta como sendo
destinada a todo o mundo, mas especificamente para a
igreja do Senhor, pois Judas dirige-se aos “chamados,
santificados em Deus Pai”; ou seja, apenas os invocados, os
atraídos por ele são os destinatários desta epístola. E há um
propósito de Deus no chamado: formar para si um povo
escolhido antes da fundação do mundo, antes de tudo ser o
que é. Paulo remete-nos também a este chamado:
“E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente
para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são
chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28)
Ora, não há aqui qualquer possibilidade para o não-
chamado, pois a obra a realizar é divina e não humana;
então, como poderia o homem chamar a si mesmo?
Quereria ele ser chamado? Ou entenderia o porquê de sê-
lo?
Alguns podem objetar o fato de a Bíblia ordenar, em
várias passagens, a necessidade de o homem ir a Deus, a
qual não é de todo equivocada, pois ele vai e tem de ir. O
homem tem de ir a Deus, e isto é um fato; a questão é que
isto somente se torna possível se ele for chamado e
capacitado a ouvir a voz do Espírito e a obedecê-lo. Sem a
capacitação divina, ninguém pode sequer ouvir o chamado,
quanto mais responder a ele positivamente.
Se existe alguma dúvida em relação “aos chamados”,
acredito não haver nenhuma em relação aos “santificados”,
os quais somente o são por Deus. Mais uma vez, deparamo-
nos com a obra exclusivamente divina, tanto no chamado
como na santificação. O mesmo erro pode ser formulado
nesse ponto, onde muitos dirão: “Não diz a Escritura: Sede
santos, como é santo o vosso pai que está no céu?”. Sim, é
verdade, há uma ordem do Senhor para sermos santos, mas
pergunto: quem, por si mesmo, pode sê-lo? Qualquer um,
olhando para si próprio, para o seu íntimo, analisando seus
pensamentos, seus atos, pode, em sã consciência,
reconhecer em si a santidade, ou mesmo acreditar possível
alcançá-la por seus meios? Informo-lhe, caso acredite nessa
capacidade como algo intrínseco, ser completamente
impossível, pois o homem, em sua natureza, insiste na
desobediência, cultivando, quando muito, um conhecimento
pífio do ser divino, e, na maioria das vezes, o seu
entendimento será embaralhado, uma profusão de
conceitos e enunciados distintivos do seu caráter
sobrenatural.
Se a igreja é formada pelos chamados por Deus, também
será formada pelos santificados por Deus. Não há outra
hipótese nem probabilidade. Como pecadores, controlados
por nossa natureza iníqua, somos presas fáceis de nós
mesmos, na ilusão de haver poder ou força suficiente para
demover-nos, para libertar-nos de algo mais vigoroso que
nós. Somente a ação do Espírito Santo, transformando
mente e espírito, capacitando-nos a resistir e lutar contra a
velha natureza, pode levar-nos à santidade. Trata-se de um
processo iniciado na conversão, no reconhecimento da
fraqueza, impossibilidade e incapacidade humanas e da
necessidade urgente da realização, por Deus, da sua obra,
levando-nos aos pés da cruz, a reconhecer Cristo como
Senhor e Salvador, a colocarmo-nos em completa
dependência do seu poder, sem a qual não podemos ser
separados para Deus, e separados do mundo.
Algumas pessoas argumentarão: “mas se Deus é quem
chama e santifica, e não posso resistir ao chamado e à
santificação, então somos robôs ou marionetes, sem
vontade e capacidade de escolhas”. A estes, entregues a
um reducionismo absurdo, digo: Você não é um robô nem
marionete simplesmente pelo fato de Deus não impor a sua
obra a “fórceps” ou pela força, por ser maior e mais forte;
você é convencido pelo Espírito a aceitá-lo como suprema e
infinitamente melhor do que qualquer outra coisa. Por isso,
é necessária a ação do Espírito Santo, sendo ele o
renovador, transformador, reparador da nossa mente, de
maneira a termos os olhos abertos, a sabedoria ativada,
para reconhecermos o estado de degradação, de
pecaminosidade em que estamos, como inimigos de Deus, e
de ver claramente o quanto nos ama, ao ponto de entregar-
se a si mesmo na cruz, não apenas para salvar-nos, mas,
também, reconciliar-nos consigo. O bem maior não é a
salvação do Inferno, nem ser absolvido, não passando de
consequência de algo muito mais superior, a quebra da
inimizade e separação de Deus, e o eterno e constante viver
em comunhão com o seu Espírito. De forma que eu quero
esse amor, essa comunhão com Deus, não mais, por ser
impossível, não menos, por não ser desejável;
reconhecendo, no momento do chamado, o meu pecado, a
minha ofensa, a minha rebeldia, e querendo abandonar tudo
isto, ou seja, abandonar aquele velho homem, abandonar o
que fui, para me tornar em um novo homem, um seguidor
de Cristo, naquilo que ele quer e desejou na eternidade para
mim.
Então responderei ao chamado porque quero responder a
ele também, não porque me é forçoso, mas por ser um
deleite. O mesmo acontece com a santificação, pois se é
Deus quem me santifica, em contrapartida também quero
ser santo, e tenho de sê-lo, pelo poder divino, pela ação
divina, pelo mover divino, mas jamais sem que o desejo de
sê-lo esteja profunda e ansiosamente entranhado em meu
ser. Existe o poder, a força de Deus convencendo-me a
atender ao seu chamado e a ser santo e existe a minha
disposição, a partir da transformação operada pelo Espírito
em mim, de tornar-me emuma nova criatura, antes caída e
servindo ao pecado, porém, levantada pelo poder de Deus,
capaz de compreender, entender e responder positivamente
ao convite e à ordem divina para ser santo. Logo, temos
Deus agindo, mas também o homem respondendo, não de
uma maneira estapafúrdia, desconectada da realidade e da
verdade, mas retribuindo, agradecido, o favor impagável e
imerecido.
Ora, Paulo disse-nos:
“Deus é o que opera em vós tanto o querer como o
efetuar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.13)
E aí está o milagre de não o rejeitar, o que fazíamos
diuturnamente antes de sermos resgatados por Cristo, e,
após sê-lo, tornou-se inevitável compreendermos a
necessidade, a urgência de a sua vontade prevalecer sobre
a nossa, não no sentido de ela ser anulada, mas de ela ser
adequada à vontade suprema, perfeita, santa, e sob a qual
nos colocamos a serviço. Se antes havia desalinho, agora
subsiste a harmonia de propósitos, os quais são tanto de
Deus como nossos. Não somos servos desgostosos,
trabalhando a contragosto (ainda que eventualmente isso
aconteça, por força do pecado em nós, tentando, como um
defunto, levantar-se da tumba; e sendo vitorioso vez ou
outra), mas o fazemos por uma obrigação imprescindível,
pela impossibilidade de deixar de agir ou viver alheios e à
margem da vontade de Deus.
Olhando para trás, vendo o que éramos e, agora, o que
somos, não há como retroceder, como abandonar o
caminho no qual estamos postos; voltar seria como dar-nos,
a nós mesmos, o atestado de ingratidão, de
irresponsabilidade, estupidez, incapazes não somente de
discernir, mas de julgar racionalmente. Guardadas as
devidas proporções, seria o mesmo que um homem
acometido de insuficiência cardíaca, necessitando de um
transplante de coração, após recebê-lo e ter um novo sopro
de vida, decidir voltar atrás e querer restituído o velho e
condenado coração. Você iria querê-lo? Acho que não. Assim
acontece com a regeneração, somos capacitados e
habilitados a compreender a diferença do passado para o
presente, de maneira a jamais querer aquele novamente. É
como o soldado em tempo de paz: a menos que seja
psicopata ou louco, jamais desejará voltar aos campos de
batalha. Assim sendo, o homem natural não tem diante dos
seus olhos a opção, a possibilidade de escolha, mas uma via
apenas e, se o Espírito não operar nele, permanecerá nesse
estado eternamente.
Como os crentes estão em um processo de
aprendizagem, caminham um pouco, tropeçam e caem,
como uma criança aprendendo a andar,               que dá um
ou dois passinhos meio trôpegos e cai; dá mais um ou dois
passinhos trôpegos e segura-se à parede, um objeto, ou
alguém a sustentá-la (e esse alguém pode ser chamado de
Senhor, a assisti-la), até que, de tanto tentar, de tanto
experimentar e ser testada na arte de caminhar, ela andará
com passos firmes, sem tropeçar, sem cair. Isso não exclui
um eventual tropeço e queda, pois mesmo os adultos estão
sujeitos a ela; mas se a criança não tentar, não começar
com passos titubeantes, jamais conseguirá manter-se firme
sobre os próprios pés.
Da mesma forma, é a vida cristã; se não houver a
tentativa, em primeiro lugar, para se ser um servo, também
não o será. De nada adianta proclamar aos quatro cantos:
“Eu sou escravo de Cristo!”, pois as palavras sem a prática,
sem o exercício da servidão, não passam de um mero
discurso retórico e vazio, como Tiago diz em sua carta (Tg
2.14-18). Não há a garantia do acerto na primeira vez, nem
mesmo na segunda, mas é a execução, a atitude de colocar
em ação aquilo para o qual se é chamado, ser santo, que
resultará, dia após dia, no alcançar-se a medida da estatura
completa de Cristo (Ef 4.13); clamando incessantemente a
ele para capacitar, instruir e guardá-lo; então, essa
semelhança tornar-se-á vívida e real, sendo algo almejado
pelo crente como inerente à sua vontade, mas em
conformidade com a vontade divina. Há uma acomodação, o
restabelecimento da ordem e da conformidade entre aquilo
almejado pelo novo homem e a vontade de Deus.
Se não fui por demais confuso, definiria da seguinte
forma: Deus opera em nós toda a sua deliberação,
inexoravelmente, abrindo olhos, mente, coração e alma
para compreendermos a sua boa e perfeita vontade,
transformando-nos e persuadindo-nos, de maneira
irresistível, ao ponto de não podermos rejeitá-la. A sua
bondade e amor são tamanhos que qualquer possibilidade
de rejeição em servi-lo significaria a incompreensão e, por
conseguinte, uma mente fechada, presa, guiada e
dominada pelo pecado; uma mente envolta em trevas onde
a luz ainda não transpareceu. Essa é uma visão geral
daquilo a ser realizado infalivelmente pelo Senhor em nós,
contudo pequenos percalços acontecem no caminho. Somos
forçados a parar algumas vezes, a perder algum tempo, até
mesmo recuar um ou dois passos na estrada, a fim de
retomarmos a trajetória devida e correta, mas nada
impedirá a conclusão da boa obra de Deus iniciada e a
estabelecer-se em nós (Fp 1.6).
O Amor Que Preserva
É ressaltado ainda, os destinatários serem aqueles
"conservados por Jesus Cristo"; mas conservados em quê e
do quê?
As ideias de conservação e santificação estão muito
próximas; podemos entendê-las como correlatas, como
parte de um sistema, intrinsecamente ligadas e
interrelacionadas. No Cristianismo é impossível dissociá-las,
pois detém uma reciprocidade, como elementos de uma
relação mútua. Sendo a santidade um estado, a sua
manutenção deve-se à conservação resultante das dádivas
do Senhor no momento do nosso resgate, ao sermos
transportados do reino das trevas para o Reino da glória de
Cristo. De uma maneira muito forte, Judas diz, em sua
introdução, como somos sustentados por e em Deus; de
como ele nos edifica, cuida, transforma e preserva,
revelando toda a necessária dependência pela qual somos
gratos, pois sem ela não viveríamos.
Ora, os que são chamados e santificados não decaem da
sua condição de eleitos e santos. Eles o são não por seus
próprios méritos ou esforços, por qualquer obra humana,
mas por Cristo, o qual é quem os conserva ou preserva em
seu estado eterno de santidade. Todos estamos sob o seu
cuidado e proteção, e foi a ele que o Pai nos entregou; ele
que é o nosso guardião e assegurou-nos que:
"Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim
de maneira nenhuma o lançarei fora. Porque eu desci do
céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade
daquele que me enviou. E a vontade do Pai que me enviou é
esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca,
mas que o ressuscite no último dia" (Jo 6.37-39).
Torna-se premente, mais uma vez, o autor revelar à
igreja a sua condição de sujeição e dependência extrema e
necessária a Cristo, em uma ratificação da humildade à qual
os servos também são chamados. Somos aqueles que,
dados pelo Pai ao Filho, fomos “blindados”, selados, para
uma vida eterna em comunhão e serviço a Deus.
Importante notar que o Senhor nos conserva em
qualquer situação, seja nos momentos bons ou ruins, seja
na abastança ou penúria, no conforto ou aflição, nas
honrarias e perseguições, na vida e na morte. Ele, o Rei
Eterno, nos guarda e retém para si, mantendo-nos
inexoravelmente ligados a ele, sem que haja
esmorecimento, abandono ou abdicação de cuidado para
com as suas ovelhas.
Veja bem, no momento em que Judas escrevia a sua
carta, a igreja já passava por perseguições, tanto pelo
judaísmo como pelo governo romano, e a aflição,
sofrimento, prisões e mortes pairavam como nuvens negras
e assombrosas onde havia um único servo de Cristo. Nesse
período, não houve arrefecimento nas investidas cruéis e
injustas por parte dos inimigos de Deus, pelo contrário,
quanto mais cristãos eram presos e mortos, mais a sanha
diabólica pelo sangue inocente aumentava. Assim como
fizeram com o Senhor, zombando, escarnecendo, injuriando,
flagelando-o e, por final, assassinando-o, faziam com
aqueles homens, mulheres e crianças que se negavam a
rejeitaro seu Salvador, preferindo a morte e, assim, indo
encontrar-se mais rapidamente com ele.
Se atentarmos para a possibilidade real de salvarem seus
bens, profissões, negócios e vidas, bastando para isso uma
simples negação da sua fé, repudiando o senhorio de Cristo,
prostrando-se e adorando a César e os deuses romanos
diante das autoridades e tribunais da época, perguntamos:
por que não o fizeram? Não se submeteram à recusa, que
os livraria das punições? Mas, ao não admitirem fazê-lo,
entendemos como o Senhor conservou-os, mantendo-lhes a
fé e a esperança, mesmo diante de uma proposta
aparentemente vantajosa e, aos olhos mundanos,
impossível de ser desprezada: seria loucura recusá-la e
perderem tudo o que tinham, inclusive a vida. O medo que
Roma fazia sobrevir a eles, impondo-lhes ameaças de
sofrimento, humilhação e morte caso não aceitassem seus
termos, não foi suficiente para acuá-los, para demovê-los de
sua fé de modo a negarem e abandonarem o seu libertador.
Aqueles irmãos martirizados preferiram continuar firmes na
Rocha, pois nela não estava somente a verdade, mas a
esperança e a vida. Portanto, lembravam-se, nos momentos
mais cruéis e angustiantes, das palavras de Paulo:
“E em nada vos espanteis dos que resistem, o que para
eles, na verdade, é indício de perdição, mas para vós de
salvação, e isto de Deus. Porque a vós vos foi concedido,
em relação a Cristo, não somente crer nele, como também
padecer por ele, tendo o mesmo combate que já em mim
tendes visto e agora ouvis estar em mim” (Fp 1.28-30).
Ao contrário da falsa afirmação da teologia moderna,
apregoando uma “vitória” social, financeira e ostensiva
neste mundo (na verdade, a maioria das pessoas se curva
ao discurso fácil e enganador, desprezando não só os
alertas insistentes da Escritura, mas também a história da
igreja; e, porque não, a vida do próprio Cristo, que se
humilhou a ponto de se fazer maldição por nós), a Bíblia
assegura-nos haver apenas uma única certeza para o
cristão: a de padecer por Cristo. Antes, contudo, é preciso
crer nele, mas não uma crença simplesmente intelectual ou
mesmo sentimental, e sim algo sobrenatural, possível
apenas pelo derramar do Espírito Santo, o qual nos
convence do pecado e da necessidade desesperadora do
Salvador[19]. E como não há salvação em nenhum outro
nome além de Cristo (At 4.12), a única saída e caminho é
entregarmo-nos à sua vontade, santa, eterna e perfeita, a
fim de recebermos a graça e a honra de sofrer e suportar as
adversidades por ele.
Ah, mas alguém dirá: “Como há honra no sofrimento?”
Ao qual responderei: Porque esse sofrimento vem repleto
de alegria e gozo e esperança, sem as quais não passaria
de uma mera aflição, algo possível a qualquer um, mas sem
o componente diferencial e presente na vida de todo o
crente: o júbilo. O exemplo de Estevão talvez seja o mais
emblemático nas Escrituras, de que a alma humana, pela
comunhão com o Espírito de Deus, pode ver e ir muito além
da dor e da angústia (At 8.54-60).
Não é incomum ouvir ou ler o testemunho de irmãos que,
mesmo suportando as perseguições, doenças, e até mesmo
a morte, não sucumbem a elas. Não fazem como a esposa
de Jó que, ao encarar o estado deplorável em que se tornara
a vida do seu marido, disse-lhe:
“Ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa a Deus, e
morre” (Jo 2.9)
Hoje, neste exato momento, centenas e milhares de
cristãos estão sob a mira dos dardos inflamados e
venenosos do inimigo, acossados pelo mal. Seu “pecado”,
aos olhos do mundo, é não negar o Senhor de suas vidas e
manterem-se firmes no propósito de honrá-lo e glorificá-lo,
seja na vida, seja na morte. Há um verdadeiro massacre de
cristãos nos países muçulmanos, nos países comunistas,
onde a única fé permitida é a de adorar um ídolo, seja um
falso Deus ou o Estado. Nesses países, não há lugar para
Cristo, e qualquer um que professe o seu nome é
imediatamente reconhecido como criminoso e rebelde,
podendo ter por certa a sua condenação. Crianças cristãs
são arrematadas em leilões como escravas sexuais; jovens
seguem igualmente o mesmo destino. Os homens, em sua
grande maioria, são presos e executados; seus bens são
expropriados; suas famílias desfeitas; suas vidas arruinadas
em um redemoinho de impiedade. Tudo isso vaticinado com
o selo de “justiça”, podendo ser religiosa ou social; um
eufemismo moderno para a tirania e a barbárie, sob os
auspícios condescendentes de um Ocidente moribundo e
em ruína, que odeia a Deus e quer ver o Cristianismo
erradicado da face da terra[20]. 
Ora, o Senhor alertou-nos também a respeito das
investidas do inimigo para “tirar-nos” a fé, e muitos,
naquele momento, tinham as suas palavras fixadas no
coração:
 “E não temais os que matam o corpo e não podem
matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer
no inferno a alma e o corpo... Portanto, qualquer que me
confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de
meu Pai, que está nos céus. Mas qualquer que me negar
diante dos homens, eu o negarei também diante de meu
Pai, que está nos céus” (Mt 10.28; 32-33).
Neste momento, em várias partes do mundo, irmãos
continuam sendo perseguidos, injuriados, expropriados,
presos e mortos, sendo seu único crime o fato de
professarem o amor e a servidão ao Senhor Jesus. Seja nos
países islâmicos ou comunistas, cristãos são vistos como
inimigos, como agentes perigosos, sem que nenhum deles
tenha levantado sequer a voz para ofender seus algozes.
Em um mundo cada vez mais distante de Deus, a
depravação total do homem[21] (uma doutrina bíblica
sistematicamente atacada pelo humanismo secular e
religioso) evidencia-se em cada decisão e atitude de
complacência e tolerância para com os malevolentes e
violentos. Soma-se a isso uma irritante e inconcebível
transigência com o mal, a injustiça, e ações traiçoeiras,
onde os verdadeiros homens de paz são acusados de
criarem conflitos, resultado de uma inversão desmedida de
valores e uma desconexão intransigente da realidade. A
insensibilidade do mundo é algo compreensível (Jo 16.33),
ainda que reprovável e insustentável em todos os aspectos.
No entanto, o fato de parte da igreja cristã não sofrer nem
se comover com o flagelamento de milhares de irmãos
torna a situação no mínimo estranha, incompreensível, a
ponto de constituir desprezo, omissão pecaminosa, diante
do flagelamento do povo de Deus pelas mãos de homens,
governos e grupos anticristãos, diante dos quais impera um
silêncio trágico e constrangedor.
Muito desse processo é minimizado pelo discurso
ideológico, no qual um grupo relevante, mesmo não sendo
majoritário, prefere aliar-se aos nossos inimigos a defender
a igreja perseguida mundo afora. Chega-se ao ponto da
zombaria, do absurdo de se aceitar uma narrativa onde uma
suposta justiça encontra-se atrelada a uma causa, um
objetivo político e social, muito maior e defensável do que o
martírio sem ruídos de crentes na história atual. Para esse
grupo, impera a ignorância, ou a dissimulação, ou o delito
flagrante, ao preferir assimilar e propagar o discurso
ideológico marxista ou libertário de uma suposta luta pelo
bem geral, a despeito de ela se especializar na tirania e
despotismo particulares com os nossos irmãos, sem que
haja qualquer acusação a não ser a de ser... cristão.
Muitos chegam ao cúmulo de imputar aos cristãos a
acusação de revolucionários, de opositores a determinado
regime ou governo, quando o cristão, via de regra, deseja
apenas falar de Cristo e sua palavra, cultuando-o
livremente. Em sua maioria, não reivindicam nada do
Estado, nem comida, quando estão com fome; nem casas,
quando estão desabrigados; nem trabalhos, quando estão
desempregados; nem a liberdade, quando presos; nem
qualquer outro direito, quando muitos lhes são privados;
nem a vida, quando as portas da morte se lhes abrem; a
única coisa capaz de dissuadi-los à resistência é não
proclamar o evangelho e vivê-lo. Porém, algo tão simples e
inofensivo é tratado comoa maior de todas as rebeliões,
como se os cristãos quisessem, com isso, tomar o poder
institucional, ao não se sujeitarem ao laicismo estatal (o
qual constitui uma proposta de neutralidade religiosa e
social, mas que se empenha na mais ferrenha oposição ao
Cristianismo, com vistas a destruí-lo e, se não tanto,
debilitá-lo à inanição). Desse modo, perseguem, tolhem e
tencionam impedi-los de professarem a sua fé, sob o
pretexto de serem uma ameaça à ordem pública.
O medo é o de não poderem dobrá-los por completo e
assim não obterem o culto ao Estado, a servidão total, pois
ao fazer-se “senhor”, o governo instaura-se como a única
voz, autoridade. Sendo assim, não quer a atenção dos
cidadãos dividida entre um senhor e outro, entre um
princípio e outro, entre um desejo e outro, entre uma
liberdade e outra, entre uma finalidade e outra, mas a
dedicação integral do cidadão à sua causa, pouco
importando se, para isso, o indivíduo tem de ser anulado,
tendo a sua alma cooptada pela ideologia, pela
incompreensão exterior forçosa ao interior.
Inexplicavelmente, essa mentalidade relativa nas
questões gerais e absolutista em relação aos cristãos, como
sendo o entrave para a paz e a harmonia social, impulsiona
outro inimigo do Cristianismo, o Islã, cuja aliança estranha
se formaliza entre eles, no combate comum ao inimigo
comum. As armas são as mesmas: perseguições,
expropriações, torturas, mortes. Mesmo sendo dois
“bicudos” (e bicudos não se beijam), eles sabem que a
guerra entre eles para determinar quem é o mais cruel e
bárbaro em seus fundamentos e ações só acontecerá após a
ruína, a capitulação do Cristianismo. Enquanto o inimigo
comum não for abatido, unirão suas forças para uma
cruzada diabólica visando a sua erradicação. É repugnante
perceber, então, o alinhamento de discursos entre cristãos
progressistas com essas forças, uma espécie de tríplice
aliança entre combatentes da fé verdadeira, sendo dois
exteriores à igreja, o marxismo estatal e o Islã, e uma com
sua artilharia voltada para dentro da igreja, os chamados
crentes multiculturalistas e esquerdistas. Aqueles almejam a
destruição imediata da igreja, por todos os meios de força
disponíveis, enquanto esse tem a incumbência de fragilizar,
minando-a, de dentro, para torná-la, em curto espaço de
tempo, um ajuntamento inócuo, impedindo-a de ser luz no
mundo, levando-a a prostração, de modo que se torne uma
futura aliada da ideologia marxista. Se isso acontecer, não
haverá mais volta, estará completamente subjugada pelo
mal, e quão profundas serão suas trevas e condenação
atraídas sobre si.
Líderes e grupos com influência internacional omitem-se
vergonhosamente, calando-se diante de uma agressão
gratuita e covarde por parte de estados marxistas e
islâmicos. Isso é uma vergonha, uma ofensa a Cristo e ao
seu povo, por aqueles que se dizem discípulos, mas não
trazem em si o caráter, amor e a santidade do Mestre ao
qual proclamam servir, demonstrando apenas silêncio e
impassibilidade. Contudo, graças a Deus pelo testemunho
dos irmãos perseguidos em todos os tempos e no decorrer
de toda a história, pois são aqueles sustentados e
conservados pelo Senhor, os que naquele dia glorioso serão
colocados à sua direita (Mt 25.33-40) e ouvirão da sua boca:
“Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino
que vos está preparado desde a fundação do mundo” (v.34).
Tenhamos, pois, confirmada em nosso coração, qualquer
que seja a situação a envolver-nos, mesmo tomados muitas
vezes pelo pessimismo e a angustia, a promessa gloriosa de
que o Cristo, o próprio Senhor, é quem se encarrega e
encarregará de levar-nos incólumes à eternidade, sem
manchas e graciosamente preservados no seu amor, pela
exclusividade do seu ser, e em nada mais. Logo, qualquer
tentativa de colocar no homem uma fração de mérito
infinitesimal, como se por algum esforço (mesmo
insignificante) pudéssemos colaborar nessa grandiosa obra
de conservação, configura-se uma ofensa e tentativa de se
tirar a glória da única pessoa que a detém: Cristo! Deve-se
entender que essa obra é exclusiva e completamente dele,
não havendo espaço para qualquer reivindicação humana.
Alguns poderão inquirir: “Mas, por que então Deus nos
exorta a manter-nos firmes para não perdermos a coroa?”
(Ap. 3.11; ver Ap. 17.14).
A resposta é simples: Deus usará de instrumentação e
meios humanos para não abusarmos da graça. Como
eleitos, devemos buscar a santidade e permanência na fé,
mas sabendo que sem o favor de Cristo, ou seja, sem
estarmos conservados nele, nada disso é possível. Antes,
devemos nos humilhar e clamar a ele força e temperança a
fim de evitarmos cair nas muitas ciladas armadas pelo
inimigo de nossas almas. Se o que fazemos é bom e
colabora para a nossa conservação, não devemos pensar
mais acerca de nós do que nos convém (Rm 12.3),
considerando que a razão para não nos perdermos está
centralizada no Senhor, e por ele somos sustentados.
No verso 2 da epístola de Judas, há a oração de que Deus
multiplique aos seus a misericórdia, paz e amor,
novamente, marcas visíveis e constantes naqueles filiados
ao Pai por intermédio do Filho e algo a ser almejado:
devemos aspirar e clamar com as mais santas ambições
que, assim como ele, sejamos misericordiosos, pacificadores
e amorosos.
E, se somos conservados por Deus, esta realidade é
exprimida ou proveniente do amor e da verdade de Cristo.
Então, nada melhor do que uma análise relacionando amor
à verdade, pois, no Cristianismo, um depende
necessariamente do outro. Há uma relação intrínseca entre
eles, sem a qual uma exposição bíblica não passará de um
mero discurso ou artimanha retórica, cujo objetivo não é
revelar um e outro, mas camuflá-los, escondendo-os, para
não serem compreendidos, de modo que não sejam, na
prática cristã, testemunhados.
Portanto é importante definir os termos:
Amor - 1. Sentimento que induz a obter ou a conservar a
pessoa ou a coisa pela qual se sente afeição ou atração.
2. Paixão atrativa entre duas pessoas.
3. Afeição forte por outra pessoa.
4. O próprio ser que se ama. (Usado também no plural)
Verdade - 1. Conformidade da ideia com o objeto, do dito
com o feito, do discurso com a realidade.
2. Qualidade do que é verdadeiro; realidade; exatidão;
coisa certa e verdadeira.
3. Por ext. Sinceridade, boa-fé.
4. Princípio certo; axioma.[22]
Agora, pense um pouco: é possível haver amor sem
verdade?
A maioria certamente dirá que não. É impossível conciliar
o amor em meio à mentira, a hipocrisia, ao engano, à
dissimulação e falsa piedade. Do ponto de vista intelectual
ou racional a resposta é bem mais fácil de obter; mas, e na
prática? Será que vivemos a verdade quando dizemos andar
em amor?
Hoje em dia é muito comum se ouvir dizer: “Irmão, deixa
de ser crítico, o importante é o amor!”. Ou: “Devemos amar
os nossos irmãos ainda que estejam no erro!”. Ou ainda,
“Deus amou o mundo, por que não podemos amá-lo
também?”. E: “julgar é pecado!”. São frases aparentemente
espirituais e piedosas, mas que denotam pouco ou nenhum
entendimento quanto à gravidade do que acomete a igreja
atual. A forma descuidada de se levar a vida cristã, como
um estilo de vida igual a qualquer outro, podendo coexistir e
interagir tranquilamente com as forças ansiosas por destruí-
lo, simbolizam-se nas frases prontas e autoritativas dos
opinadores de plantão, aqueles capazes de relativizar tudo
menos a própria opinião.
Como consequência, ouve-se uma série de justificativas
para a contemporização com o pecado, por intermédio de
uma placidez demoníaca, a fazê-los aceitar algo que é
ultrajante ao homem, tornando-o escravo, tirando-lhe a
liberdade, pois não há como fugir dos grilhões a mantê-lo
inerte e acuado, especialmente porque é-lhe proposto, pelo
seu feitor, acreditar não haver correntes, nem escravidão ou
imobilidade, enquanto permanece-se estático delirando com
algo intangível, o que implica em uma afronta ao Deus
santo e perfeito.

Mais conteúdos dessa disciplina