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Copyright 2018 by Kálamos Editora Todos os direitos para esta edição à Kálamos Editora Capa, Edição, Diagramação e Produção: Kálamos Editora Gerência Executiva: Kevin Fernandes Revisão: Debora Larissa Rempel Belo Horizonte: Kálamos Editora, 2018 1.Teologia 2.Evangelho 3.Eclesiologia 4. Literatura Brasileira 5. Livros Eletrônicos Reservados todos os direitos autorais desta produção. Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida por fotocópia, microfilme, processo fotomecânico ou eletrônico sem a permissão expressa da Editora e do autor. Todas as citações bíblicas foram extraídas da ACF 2007 (Almeida Corrigida e Fiel) publicada pela S.B.T.B. (Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil) www.kalamoseditora.com kalamoseditora@gmail.com http://www.kalamoseditora.com/ mailto:kalamoseditora@gmail.com Publicado no Brasil 2018 A DISTRAÇÃO DO PECADO Um estudo sobre a igreja, com base na Carta de Judas Jorge F. Isah Sumário AGRADECIMENTOS PRÓLOGO INTRODUÇÃO Preâmbulo Autoria, data e destinatários Conteúdo e Propósito PARTE UM SAUDAÇÃO Servir Como o Senhor A Santidade Outorgada O Amor Que Preserva PARTE DOIS DEFESA DA FÉ Exortação Necessária Fé Regenerada A Fé dos Incrédulos Contra a Verdadeira Fé PARTE TRÊS LOBOS ENTRE OVELHAS A Guerra Dentro Da Igreja Mais do que uma predestinação vislumbrada PARTE QUATRO A SEMENTE DA DISTRAÇÃO A Centralidade da Igreja: Cristo Incredulidade do Crente A Distração do Pecado Abandonando o Serviço PARTE CINCO A POMPA DO TRAIDOR O Nexo da Impiedade A Realidade do Pecado A Disputa pelo Corpo A Arma dos Ignorantes PARTE SEIS TRÊS MESTRES FALSOS Inércia Espiritual No Caminho de Caim A Recompensa de Balaão A Incoerência de Coré PARTE SETE A INFECÇÃO DO CORPO O Labirinto do Eterno Cativeiro Na Roda dos Escarnecedores O Silêncio Mórbido das Sepulturas Tangíveis Proselitismo das Trevas PARTE OITO A JUSTIÇA INQUIETANTE A Parousia de Enoque Princípio Geral da Revelação “Argumentum ad Divinum Enrustidus” O Suicídio Espiritual PARTE NOVE A MARCA DA MALDADE Dr. Jekyll e Mr. Hyde Novos e Velhos Fariseus Tempos Difíceis PARTE DEZ NÃO À AUTOFILIA Servos Inúteis A Obra de Deus na Santificação O Funeral do Homem Natural Autofilia Soldados na Guerra Virtuosa PARTE ONZE PRESERVADOS EM CRISTO Feitos à Imagem do Filho A Restauração Prometida Graça Comum: o vento que não sopra Dele, e por Ele, e para Ele Aos meus pais, Waldemar e Terezinha, aos quais tudo devo, conforme a providência santa e amorosa de Deus AGRADECIMENTOS Não seria justo deixar de agradecer a algumas pessoas que foram de suma importância para a conclusão deste livro: Ao Tiago Knox, tutor do site “Internautas Cristãos”, e amigo de longa data, a quem sou grato pelo constante estímulo, sempre me impulsionando ao aperfeiçoamento da escrita, seja com críticas oportunas ou desafios necessários para o amadurecimento e a divulgação dos meus textos. Ao João Weronka, tutor do site “NAPEC – Apologética Cristã”, a quem tenho o prazer da amizade, que mui generosamente tem publicado e distribuído vários dos meus textos. A Debora Larissa Reimpel, a quem sou grato pela dedicação, profissionalismo e gentileza (não nesta ordem, necessariamente) em revisar e contribuir para a melhoria do texto através de sugestões pontuais e necessárias. Ao Raul Loyola Roman, cujo interesse em meus textos tem-no levado a traduzi-los e publicá-los em espanhol. Ao Ranieri Menezes, cujas dicas preciosas e pacientes me ajudaram a compor a parte gráfica do livro. A eles, o meu muito obrigado! Sou-lhes devedor. Cristo os abençoe! PRÓLOGO O embrião para a realização deste livro foram as aulas ministradas na Escola Dominical do Tabernáculo Batista Bíblico, e, durante quase um ano, analisamos cada um dos versos da carta de Judas, sobre os quais nos debruçamos e meditamos com o objetivo de nos dobrarmos à verdade de suas poucas páginas. No princípio, inadvertidamente, cogitei uma análise em quatro ou seis aulas, no máximo, mas a riqueza e a profundidade do texto levaram-nos a dispender oito vezes mais o prazo inicialmente estimado. Em uma série de estudos, fomos impulsionados a compreender a gravidade do momento vivido pela igreja de Cristo à época do epistológrafo, crise pela qual a igreja passa, na atualidade, em proporções talvez maiores, já que grande parte dos inimigos de Cristo encontram-se dentro dela, como o joio aguardando para ser arrancado. Os exemplos bíblicos servem-nos como alerta, exortação e repreensão, para rechaçarmos os constantes ataques inimigos, não nos entregando às suas artimanhas açuladas, preservando a sã doutrina, o temor e reverência a Deus, apegando-nos à verdade, repelindo a incitação desonesta à rebeldia, à contemporização com o pecado e ao cultivo do mal. Portanto não espere um livro onde você se perderá em meio as dúvidas; não escrevi nada novo, mas repeti o que a igreja tem defendido por séculos; não espere afagos e adulações, porque Judas, como emissário de Cristo, exortou a igreja com asserção, como prova do verdadeiro amor, límpido e vigoroso, não dando lugar à lisonja interesseira; levando incautos a confundir o bem com o mal, o certo e o errado, descristianizando mentes e corações para depois abandoná-los na miséria absoluta, levando-os ao servilismo e penúria da alma, aprisionada nas correntes diabólicas. Pelo contrário, este livro é cristocêntrico, não trata de um Deus genérico, impessoal e distante do homem, mas do Deus encarnado, pessoal, cuja honra e glória satisfaz mais ao Pai e ao Espírito, as demais pessoas da Trindade, do que o louvor dispensado a elas mesmas. Não espere, também, um discurso liberal, heterodoxo, antropocêntrico, no qual o homem é a “estrela”, enquanto Cristo é um mero coadjuvante, um nome a agregar distração. Se nada for aproveitado nesta obra, oro para que ao menos o leitor compreenda a excelência de Cristo, sua sublime majestade, completa divindade, completa humanidade, esplendor e glória, num grau de superioridade mais que elevada, somente possível para quem, como ele, compartilha a deidade em unidade com o Pai e o Espírito Santo; isto é chamado de Cristocentrismo[1]. Se nada mais ficar, que fique isso; do contrário, este livro não terá significado, nem propósito. Não espere nada bombástico, original, em uma busca doentia pelo ineditismo, o qual leva muitos autores e livros para além do limite permitido pela sã doutrina, cruzando perigosamente a linha divisória entre o santo e o profano, entre o bíblico e o pagão, entre o louvável e o desprezível. Não tive a menor pretensão de ser inovador, mas de apenas ordenar as ideias e tudo apreendido em minha caminhada com os santos, a fim de, através de Judas, alertar a igreja quanto às várias investidas dos inimigos no intento de solapar, de tornar ineficiente a igreja, fazendo-a um apêndice mais higiênico da podridão mundana; controlando- a com suas acusações, inverdades e coerção, num esquema de manipulação visando a fazê-la um arremedo de si mesma e de secularizá-la a todo custo e sob todos os aspectos da (des)ordenação da civilização moderna. Em um século controlado pela ideologia e pelo combate à verdade; onde o anticristianismo é a faceta mais perversa e injusta da capitulação do bem. Tentei escrever de forma simples, sem rebuscar ou empreender um trabalho hermético, sem qualquer pretensão de construir uma obra acadêmica, mas de disponibilizar a qualquer um o texto com vistas a edificar e exortar a igreja, muitas vezes perdida entre o secularismo institucionalizado e um apego a uma tradição mais formal que espiritual, mais moralista que moral, mais centrada nas concepções humanas do que na verdade, na essência da fé, o próprio Deus. Busquei passar uma imagem clara daquilo que me propus a fazer, mesmo que, em alguns momentos, não tenha a convicção de tê-lo alcançado, no que espero contar com a compreensãoSeguindo este pensamento, existe uma lista de expressões tão fúteis quanto incoerentes, quanto mentirosas, culminando no sentido de que se é possível caminhar em amor com alguém que transita no erro sem apontar-lhe o erro, ou pior, fazendo “vista grossa” ao engano, como se ele não existisse ou fosse irrelevante, de forma que o arrependimento não seja uma necessidade, mas uma opção. Afinal, como os lábios de muitos proclamam, onde o pecado é proficiente, abunda a graça (a velha heresia antinominiana[23]). O amor, por si só, é inclusivo. Posso amar uma pessoa ainda que ela não me ame e posso ser amado por alguém sem que eu o ame. Porém, a verdade é exclusiva, porque não se juntará ao erro ou engano, mas o revelará, a expor- lhe o falso caminho. Por isso, Satanás se empenhou em destruir a verdade no coração do homem. Desde o Éden, o seu trabalho incessante é com o objetivo de desqualificar, relativizar e descontextualizar a verdade, a ponto de ela ser desfigurada, descaracterizada e, por fim, anulada como um princípio espiritual, racional e moral, sendo removida e substituída pela carnalidade, a irracionalidade e pela má-fé ardilosamente tramada. Logo o mundo não quer saber de absoluto, nem de verdade, pois, onde ela estiver, a fraude ficará evidenciada, será denunciada e desmascarada, enquanto a mentira se torna a opção mais servil, favorável e multifacetária aos intentos do seu autor. Biblicamente o que é o amor?... Segundo Paulo: “O amor seja não fingido. Aborrecei o mal e apegai-vos ao bem. Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros” (Rm 12.9-10) ... "O amor... não folga com a injustiça, mas folga com a verdade” (1Co 13.6). Segundo Cristo: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.(...) Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama (...)” (Jo 14.6, 21). Segundo João: “O amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este é o mandamento, como já desde o princípio ouvistes, que andeis nele" (2 Jo 1.6). Antes de definir o amor como os dicionários fazem, a Bíblia revela-o na manifestação dos atos divinos. Mais do que explicar, ela o demonstra. Mais do que classificá-lo, ela o exprimiu, não somente por palavras, mas por atitudes. Em vez de ser um simples postulado, ela o comprova factualmente, sendo a prova maior que Deus entregou o seu Filho Amado por amor dos eleitos. Da mesma forma, a vida cristã não se resume a um emaranhado de teorias desconectadas da realidade, estando voltada para a prática muito mais do que para as especulações. Não que a teoria ou doutrina sejam irrelevantes, não é isto. Sem uma base doutrinária sólida e biblicamente fundamentada, a vida cristã se revestirá de múltiplos subjetivismos e qualquer um fará o que lhe der “na telha”, segundo aquilo que julgar melhor. Mas esse julgamento em nada terá a ver com a verdade, logo, não é objetivo, nem santo, nem justo, pois não procede de Deus. A verdade não admite metades, nem tons cinzas, nem possibilidades, nem pode ser amoldada ou ter a sua ordem transigida. Como disse várias vezes, em outros escritos, conversas e discussões, não há muros onde subir e no qual se encontre a verdade. Ela é única, monopolizadora, polarizadora, opondo-se e suprimindo toda a mentira. Cristo é a verdade, “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.32) de todo engano, do pecado, que é a mentira impossível de alguém poder, de alguma forma, opor-se a Deus impunemente, de que a desobediência não será castigada, de que pouco importa a maneira como Deus é servido, desde que a pessoa o faça piedosamente, ainda que essa piedade signifique um erro em si mesma, quando ela se disfarça de devoção, cujos fins, porém, ainda que aparentemente bíblicos, não são justificados nem se enquadram nos padrões determinados pelo próprio Deus. Há uma expressão, “pia fraude”, que indica exatamente uma mentira ou engano para um fim piedoso. Portanto, o padrão de obediência a Deus não está na piedade, mas na verdade que levará à piedade. Qualquer forma de amor será vazia se não estiver firmada na verdade. Posso dizer que amo uma pessoa vendo-a caminhar seguramente para o inferno, sem admoestá-la quanto ao caminho que a levará para a condenação? Posso dizer que a amo e ainda assim não me sentir incomodado por seus pecados, nem sua atitude contrária à vontade divina? Isso sempre indicará que não estou na verdade, nem ela em mim, pois, se estivesse, não me conformaria com a hipótese de alguém afrontar deliberadamente a santidade divina com a sua dissolução. Se não me importo com o pecado alheio, não no sentido de ser um guardião ou vigia do próximo, como uma espécie de zelador da moral) é bem provável que também não me importe com o pecado, nem com o Deus que abomina o pecado e o pecador, e, quiçá, não me abalam nem mesmo os meus próprios pecados. Então, o pseudoamor não passará de um artifício para justificar a omissão e o conluio com o pecado alheio (o que significa pecar em conjunto com o outro pecador), sendo que o crente condescendente não passará de um traidor, um escândalo para tudo o que é categoricamente santo. O amor implicará no desejo de ver as pessoas andarem na verdade, amando-as, arrependendo- se dos próprios pecados, odiando-os com o que há de mais puro em seu íntimo, assim como Cristo (Hb 1.9), reconciliando-se e tendo comunhão íntima com o Espírito de Deus. Tentar justificar qualquer atitude ou postura com base naquilo que não é bíblico é uma tentativa de sustentá-lo através do engano. A mente humana é prodigiosa em se autovalidar e o que muitos de nós têm feito é exatamente isso, dar chancela a algo que não procede da vontade de Deus, mas unicamente tem por significado nos justificar diante de nós mesmos e, de certa forma, diante da Igreja e de Deus. Usar o argumento de que tal procedimento não está proibido expressamente na Escritura não quer dizer que ele seja autorizado. Nós ainda não nos acostumamos completamente com a subserviência, o sujeitar-se ao nosso Senhor, e queremos propagar uma liberdade que não temos. Onde está escrito que o escravo tem alguma liberdade? Cristo nos comprou com o seu sangue para nos libertar do pecado e da maldição do inferno, para habitarmos o seu Reino de glória e para que tivéssemos uma íntima comunhão com ele. No entanto, em momento algum ouve-se ou lê que temos liberdade para fazer isso ou aquilo à revelia da Escritura. Iremos respeitar seus ensinamentos, a menos que não a consideremos nossa regra de fé e vida; a menos que a desprezemos, não a julgando como a fidedigna palavra de Deus; a menos que falemos da boca para fora, porque não recebemos o amor da verdade para a salvação (2Ts 2.10); a menos que o nosso coração esteja tão arraigado às coisas do mundo que a melhor das atitudes é a negligência e a desobediência. Seria isso uma prova de amor ou de desamor? Não seria o mesmo que buscar justiça na injustiça? Cristo em Belial? Fidelidade na infidelidade? Deus entre os ídolos? (2Co 6.14- 16). Ou, para ser mais claro ainda, verdade na mentira? Contudo, conforme Tiago 1.16-18, fomos gerados pela palavra da verdade, para não errarmos; porque “toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” (v. 17). Entretanto, julgamos que Deus é mutável, e se é, não se importará em que alteremos um pouquinho aqui e acolá o que nos revelou expressamente, ou mesmo aquilo que está implícito, mas que pode ser entendido como a sua manifesta vontade. Algo definitivamente reprovável é quando se quer adaptar a Escritura, o padrão máximo e perfeito da vontade divina, ao padrão mínimo e sedicioso da vontade humana. Em nome das possíveis brechas que acreditam haver na Bíblia (outra corrupção de suas mentes), querem preencher as supostas lacunas com o que de mais desonesto e mesquinho podem gerar. E gritama plenos pulmões: “Amor! Amor! Amor!”[24], como um mantra, uma senha a revelar-lhes o tesouro oculto, enquanto o verdadeiro amor será manifestado na obediência a quem se ama, na forma em que o serve, em como se sujeitará e o honrará. Palavras como edificar, crescer, santificar e glorificar, só significarão alguma coisa se estiverem em acordo com a obediência, não uma mera convicção mental de ser a coisa certa a se fazer, mas a atitude de, regaçando as mangas, fazê-lo. Sem a obediência, ou seja, um profundo desejo de se render por completo a Cristo, não importa quantas vezes se repita a palavra “amor”, serão apenas expressões “ao léu” que, de fato, nada representam, não têm sentido, nem penetraram as profundezas da alma. Sem o menor pudor, de uma forma maligna, tem-se abandonado qualquer disposição de obediência à Palavra, denunciando o desprezo, envolvendo muitos em uma falácia espiritual que se camufla como amorosa, piedosa, e se afirma mentirosamente verdadeira, quando há muito se tem especializado no mais sórdido padrão de desobediência, ao passo que a verdade[25] tornou-se um mero e irrelevante detalhe, onde dizem os modernos antiortodoxos, a única coisa valiosa é o amor; mas não seria essa uma forma dos homens deterem a verdade pela injustiça? (Rm 1.18). Infelizmente, vivemos em um mundo de sensações, numa busca desesperada pela exaltação dos sentidos e dos prazeres, esquecendo-nos de que não há infalibilidade neles, e, como todo o nosso ser, estão sujeitos e contaminados pelo pecado. Há uma ideia erroneamente difundida de que tão somente os sentidos seriam a verdade, e qualquer coisa, por mais estúpida e bizarra, acabaria revestida da áurea de sabedoria e santidade, quando não passam, em sua maioria, de demonstrações, movimentos espasmódicos, daquilo que somos: homens e mulheres caídos e separados de Deus. Há de se ter muito cuidado, prudência, para não se fazer do sensacionalismo uma doutrina e, mais do que isso, uma prática testada e comprovada de que a experimentação sensorial é a consciência única do próprio Espírito de Deus na vida dos cristãos. Isto é misticismo, paganismo; da mesma forma que arrepios, soluços e lágrimas não provam o amor, porém, o sacrifício, este sim, prova-o. (E quem se sacrificou mais para demonstrá-lo do que Cristo?) O salmista escreveu: “A tua palavra é a verdade desde o princípio, e cada um dos teus juízos dura para sempre... A tua palavra é muito pura, portanto, o teu servo a ama” (Sl 119.160, 140). O amor, como Paulo diz, é o maior de todos os dons. Usá- lo como escudo para a desobediência, além de desamor e hipocrisia, é pecado. O amor verdadeiro não é inimigo da verdade, nem a verdade inimiga do amor. Eles se complementam; são manifestados na obediência a quem se ama, na forma em que o serve, em como se sujeitará e o honrará. Palavras como edificar, crescer, santificar e glorificar são indissociáveis, não andam separadas. Quem espera ou acredita na desagregação entre o amor e a verdade é o crédulo no impossível: crer que o Evangelho é uma farsa! Porém, aquele que está na verdade não teme nem precisa temer o amor, porque o amor perfeito lança fora todo o temor (1Jo 4.18); “de sorte que o cumprimento da lei é o amor” (Rm 13.10). PARTE DOIS DEFESA DA FÉ "Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos". Exortação Necessária Agora entramos propriamente no motivo principal da epístola, na qual Judas, chamando-nos de amados, disse que procurou escrevê-la com toda a diligência, no sentido de que foi compelido, sob as ordens superiores de Cristo, a redigir essa carta, como uma necessidade da qual não poderia esquivar-se nem prescindir, acrescentando que o faria com aplicação, com o zelo que as coisas urgentes merecem. Mas, qual é a sua urgência? Antes de responder à questão, há um significado especial na expressão “amados”, pois, como disse anteriormente, o amor é confundido muitas vezes com aceitação e concordância, ou algum tipo de inclusão, na qual a pessoa sente-se amada por participar de um círculo ou grupo, de estar inserida em algo, seja um clube, uma confraria, uma igreja, uma mesa de jogos, qualquer ambiente onde se integre; neste sentido, amar seria reconhecer na outra pessoa as virtudes ou vícios que as tornam familiares, pertencentes a uma mesma classe de pessoas com desejos, ambições ou práticas comuns, nas quais se agradam. Pode- se amar aquela pessoa, mas, no geral, esse amor será uma representação de si mesmo, ao ver-se no outro, implicando em um tipo de autoamor durável enquanto as similaridades, os pontos em comum, permanecerem harmônicos, podendo mesmo chegar ao ódio e a aversão completa, caso os pontos de interseção diminuam e as discrepâncias aumentem. Amar uma pessoa seria também chancelar seu caráter, suas decisões, atitudes e imperfeições, como algo inerente à sua índole, assim como o são as suas virtudes. Contudo, isso está equivocado, uma vez que o amor não pressupõe necessariamente a corroboração da pessoa, no sentido de se amar validando o comportamento ou atitudes. Quando alguém diz: “Quem me ama, ama assim como sou!”, parece estar proferindo uma máxima acomodada ao senso comum e que, via de regra, tenta glamurizar os erros e enganos, fazendo-os parecer dignos e enlevados, de tal modo que, como parte da essência humana, devem ser vistos em pé de igualdade com tudo aquilo desejável e correto. De fato, colocando o amor numa perspectiva divina, vemos que Deus, ao olhar para nós, não viu senão pecado e depravação, inimizade e afronta, porém, mesmo assim, nos amou, amou à perfeição. Por isso, como prova desse amor, resgatou-nos pelo sangue de Cristo, para que um dia sejamos como ele, perfeito, virtuoso, imaculado. Deus nos amou na eternidade, vendo, ao mesmo tempo, o que fomos, somos e seremos; vendo o seu trabalho produzir homens e mulheres santos, abandonando-se a si mesmos para assumirem o bem de que não dispunham, como uma dádiva oferecida e conquistada na perfeição do amor divino e recebida em gratidão. A pós-modernidade[26] assegura uma moral variável, adaptável e transigível garantida pelo foro íntimo, onde nada é absoluto, onde “verdades” contradizentes e opostas transitam livremente no mesmo ambiente, sem o juízo moral, sem a lógica, sem regras definidas além da falaciosa e incoerente afirmativa pós-moderna: a de não haver verdade! Nesse conjunto sofístico, tudo pode ser verdade, tudo pode ser mentira, tudo pode ser certo e tudo pode ser errado; tudo pode ser tudo e pode ser nada ao mesmo tempo. O simples fato de se afirmar qualquer uma destas proposições, em si mesmo, torna-a um engodo, autocontestável em suas primícias, cuja aparente sabedoria encerra, em seu cerne, a asserção de se saber falsa, camuflada por rebuscamento, afetação e uma técnica deformada, onde o seu encanto está exatamente na sua incompreensibilidade, na sua incoerência, e na ardilosa capacidade de iludir. Esse equívoco também está presente em boa parte da igreja contemporânea, absorvido sutilmente pelos movimentos liberais, antinomistas e ecumênicos[27]. Sobrepuseram essa moral aos fundamentos bíblicos e eclesiásticos a ponto de o amar estar alijado da exortação, repreensão ou correção, tornando-se uma prática farisaica, anticristã, opressora e ditatorial quando não for completamente transigente, inclusive com os pecados e equívocos. Ninguém tem nada a ver com a vida do outro, então, recusa-se qualquer tentativa, por menor que seja, de levá-lo à consciência e ao convencimento do pecado, ao arrependimento, à restauração e a retomar os princípios verdadeiramente bíblicos, cujos ensinamentos prevaleceram por séculos em toda a igreja (apesar de os hereges, esporadicamente, mas não menos insistentemente, obstarem a sã doutrina). Desta forma,o zelo e o amor com o Corpo de Cristo foram obliterados violentamente nos últimos séculos pelos inimigos da fé, utilizando-se da falsa piedade e amor para lançarem os incautos em um lamaçal de dúvidas onde a única certeza será a complacência divina ante a criatura obstinadamente rebelde e confusa, independente e autossuficiente em si mesma, sem necessitar do conselho, exortação e auxílio na cura da sua alma enfermiça. Aos olhos do cristão pós-moderno ou liberal, a leitura da carta de Judas, (cujo amor verdadeiro levou-o a admoestar, conclamar, alertar e corrigir a igreja contra os falsos ensinamentos, os falsos mestres, a apostasia e o engodo), torna-se por demais estranha e somente será justificada em um ambiente primitivo, como à época em que foi escrita. Esse cristão enxergará nela uma forma de se discutir a questão naqueles tempos, mas nunca hoje, visto haver uma lacuna de milênios entre as duas culturas. Novamente a “modernidade” apelará para uma compreensão primária do homem, na concepção de Judas, e de que, se tivesse vivido em nossos dias, certamente não escreveria a sua carta como a escreveu, nos moldes em que a escreveu. No entanto, o erro está em considerar a alma do homem primitivo inferior ou desigual em relação ao homem moderno, como se os desejos, pecados e a inimizade com Deus fossem uma prerrogativa exclusiva daquele tempo e não estivessem ainda mais arraigadas na consciência e no íntimo da humanidade em nossos dias. Se analisarmos detidamente as práticas antiquadas com as atuais, constataremos uma piora significativa na atividade do homem moderno, não apenas na inferioridade e crueldade mais evidentes, mas também em maquinar, bárbara e insanamente, os pecados mais hediondos como se fossem algo natural e do qual a humanidade não pode se esquivar. Práticas defendidas no ambiente secular, mas que ganharam a aprovação também no ambiente eclesiástico, como o aborto, a pedofilia, o homossexualismo, o adultério, divórcio, entre outras, ganham a cada dia a aprovação de um número maior de pessoas seduzidas pelo discurso liberal, esquerdista e vergonhoso, assumindo ares de naturalidade[28]. Em suma, o discurso disseminado de repressão ao “intrometido”, apregoando que “ninguém tem nada a ver com a minha vida, e devo satisfação apenas a Deus”, é o completo desejo autônomo do homem de se ver livre de qualquer obstáculo a fim de consumar o seu pecado. No final, nem mesmo se deve satisfação a Deus pelos atos praticados, pois não estará ele disposto a perdoar tudo e todos, indistintamente? Essa noção traz embutida em seu bojo muito mais do que uma divergência temporal ou cultural, mas a negação de que a Bíblia seja um livro inerrante e infalível, quanto mais uma obra de autoria sobrenatural e de inspiração divina, resumindo-se, o seu relato a um simples conselho moral e pessoal dentro de um esquema ou modelo eclesiástico ultrapassado, antiquado e até mesmo desnecessário, em nossos dias, o qual pode ser reconhecido e aceito ou não, sem significar danos maiores ao rebelde. Portanto, com a intenção de inocentar o homem, o pós- moderno ou liberal condena a Bíblia como falsa, ao menos no que ela tem de mais importante: ser a fidedigna palavra de Deus. Apelando para uma interpretação “científica” dos textos, estando suas mentes cativas a premissas materialistas, céticas e humanistas, esses estudiosos leem as Sagradas Escrituras com as lentes diminutas da incredulidade e do racionalismo. Alegam serem racionais quando apenas estão racionalizando com base na aplicação de uma metodologia capaz de corroborar suas premissas e usam um método que produza e valide os resultados previamente desejados. Além de verem Deus fora da realidade, como se o mundo fosse uma bolha e ele a observasse, arvoram-se ao direito de julgá-lo, em sua soberba e arrogância, como se a realidade da Escritura não fosse muito maior do que eles, sendo ela a julgá-los e condená-los, e não o contrário. Nisto, esquecem-se de que é o Senhor de todas as coisas, do tempo e da história, o Deus ativo, providente, interventor e que, em sua onipresença, está em todo o lugar, ativamente sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder[29] (Hb 1.3). Simplesmente negam-se a reconhecer a realidade e a verdade, tentando assumir o lugar divino, sendo meras criaturas, estupidamente tolas na busca de significado em si mesmas, nos seus feitos ou em seus pares, aos seus próprios olhos. A pós-modernidade e o liberalismo travestem-se de piedosos, amorosos e fraternais, para escoarem todo o egoísmo, a arrogância, a presunção e a rebeldia, a fim de levarem tolos e néscios para uma viagem sem volta ao inferno, que, por sinal, muitos deles dizem ser alegórico, ficcional, apenas uma expressão da moralidade ultrapassada e tirânica da tradição judaico-cristã. Por conseguinte, não ouviriam o conselho e a correção de Judas, tendo em vista os seus escritos serem apenas pessoais, um ponto de vista entre tantos, nada havendo neles de sobrenatural e divino. Para eles, divino é apenas o que se encontra no coração do homem, bem como sua sinceridade em manifestá-lo, não importando muito o seu teor, mesmo procedendo-se de modo enganosa e ruidosamente maligno. Jamais reconheceriam no autor o amor, o zelo e o desejo de que a igreja permanecesse no caminho estabelecido por Cristo e os apóstolos, desprezando a máxima de que Deus, como o Pai bondoso e misericordioso, “corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho” (Hb 12.6), levando- me à conclusão de que os opositores desta verdade são filhos bastardos, não amados pelo Senhor, mas alvos diretos da sua ira. Por isso, o verso três da epístola de Judas inicia-se com a expressão “amados”, algo que aquece o coração e nos dá confiança de ouvi-lo e atentar para a sua exortação e conselho, pois, como “servo de Jesus Cristo”, tem em si o amor, a sabedoria e o Espírito do Mestre. É quase inimaginável, no contexto contemporâneo de pensamento[30], algo semelhante aos ensinos de Judas ser reconhecido como bíblico e necessário à saúde espiritual dos cristãos. No “vale tudo” evangélico é “cada um por si e deus por todos”, não havendo lugar para auxílio, sustentação, conforto e piedade focados na verdade, na realidade, e não nos “achismos” ou “duplas-realidades”[31], onde quanto menores os princípios e fundamentos, mais a alma definha-se e afasta-se de Deus, enquanto o estulto defensor considera-se firme, afundando na areia movediça da sua própria deificação. Pois eles não seguem a Cristo, nem aos seus mandamentos, mas apenas a si próprios e ao evangelho caquético gerado em seus corações, no qual não existe amor, seja a outros como a si, já que o amor não subsiste fora da verdade, e a verdade, sendo absoluta, suprime qualquer forma de desamor, pois nela há apenas o amor verdadeiro e santo, o qual é Jesus Cristo e o seu evangelho. Outro grave problema nessa questão é a dissociação ou descontinuidade entre Cristo e suas palavras. Muitos apegam-se à figura de Jesus, mas não do Jesus bíblico e somente conhecível nas Escrituras (o conjunto de 66 livros testamentários), mas de um Cristo genérico, inidentificável, surreal e místico, a ponto de escolherem, sem qualquer critério crível, os textos sagrados adaptáveis aos seus conceitos, excluindo-se arbitrariamente o que não lhes convém. Nega-se, portanto, toda a verdade em detrimento de alguma verdade (não passando de uma inverdade) para validar um ideal anticristão, antibíblico, e que não passa de um arremedo religioso a acomodar a alma no pecado e na farsa. Há uma disposição irracional e centrada nas sensações, nos sentimentos absurdos a moldarem convicções, frutos da confiança em si próprio. Este, certamente, é o maior de todos os erros, pois o cristão verdadeiro não confia em si, sabe sê-lo enganoso e põe a sua fé em Cristo e no seu evangelho, não em outro evangelho, ao qual Paulo chama de anátema, mesmo se o seu enviado sefizesse em anjo de luz. Assusta-me quando ouço “cristãos” afirmando não acreditarem na Bíblia, mas apenas nas palavras de Jesus. Coço a cabeça e pergunto: - Mas como saber se as palavras de Jesus, escritas, e nas quais você acredita, foram ditas por ele mesmo, se você não crê na veracidade integral da Escritura? Eles fazem cara de espanto, pensam um pouco, e dizem: - Porque tenho fé de que elas foram realmente ditas por ele. - Ah, então o seu problema é fé, uma fé pequena que o faz crer apenas em algumas frases, contidas no mesmo livro que você descrê, mas que, maravilhosa e sobrenaturalmente, estão em perfeita harmonia com tudo o que nele está escrito Tento demonstrar que não faz sentido, não há lógica em não se crer no todo, mas acreditar em uma de suas partes, porque se o todo é falso ou não é completamente verdadeiro, como acreditar em partes pinçadas do todo e torna-las verdadeiras? Ou o todo é completamente confiável, ou nenhuma parte dele é; pois, nem mesmo a fé no Jesus que dizem crer é verdadeira, posto estar em flagrante contradição com o livro que o revela. Entretanto, se apegam a uma fé titubeante e irracional, que lhes formata a alma e os leva a crer apenas e tão somente naquilo em que o seu julgamento pessoal advoga como verdadeiro, tornando-se juiz de algo infinitamente superior e incompreensível, em sua sobrenaturalidade, muito além do que a mente poderia estabelecer por si mesma. Então, pergunto: - Baseado em qual autoridade você pode julgar o que é verdadeiro ou não na Bíblia? Alguns apontam os teólogos críticos, os teólogos liberais, ou, simplesmente, o seu próprio entendimento da questão. Inquiro-o, novamente: - Quem o investiu dessa autoridade? Normalmente alegam serem eles acadêmicos, pesquisadores e estudiosos idôneos e isentos, remetendo aos seus diplomas, títulos e honrarias, e um sem-número de outros apelos à figura de credibilidade. Desprezam a coerência e unidade bíblicas, os testemunhos dos apóstolos, dos pais primitivos, de historiadores, e da própria Igreja. Acham que tudo isso não passa de uma conspiração para criar um mito religioso de que a Bíblia seria a palavra fiel de Deus, mas não sendo nada além de um livro escrito por homens incultos e primitivos, que se expressavam de maneira rudimentar, refletindo o seu contexto cultural. Na verdade, acreditam naquilo que não podem crer racionalmente, mas que somente é possível crer sem razão ou fundamento, consequência de uma mente incoerente, desconectada da realidade espiritual; a expressão emanada do ser caído e sob os efeitos noéticos[32] do pecado. No fim das contas, acabam por levarem-se muito a sério; como já disse, fazem-se juízes de Deus e tratam de cavar um buraco cada vez mais profundo em direção ao abismo interior e à escravidão exterior. Fé Regenerada O autor escreve com diligência acerca da salvação comum, mas o que viria a ser a salvação comum? Uma salvação reles, ordinária, partilhada e disponível a todos? Ou estaria a falar de algo específico, exclusivo? Há de se notar que a carta foi escrita para a Igreja e não tem como objetivo comunicar-se com os de fora, ainda que a Bíblia o faça de maneira extemporânea, mas sabendo sê- la redigida para os cristãos, os eleitos. Alguém pode dizer ser um erro limitar a extensão da Palavra, mas é o próprio Deus quem o faz, no sentido mais intenso e amplo daquilo entregue, dirigido ao Corpo de Cristo, e, por sê-lo, excluem- se automaticamente aqueles não pertencentes ao Corpo, operando sem que a vontade destes seja manifesta. Há uma confusão entre o agir divino e humano, como se aquele dependesse deste e a vontade de Deus estivesse sujeita à nossa; porém, com certeza o iníquo não deseja pertencer ao Corpo, e a sua volição, aprisionada pelo pecado, mantém-no atrelado à sua natureza de forma inescapável, em contínuo estado de oposição ao Criador, mas em conformidade com a vontade do Criador, que não o quer partícipe da Igreja, colocando as coisas em seu devido lugar: se Deus não quer, não há quem queira; se ele não agir, não há quem o faça em seu lugar; portanto, o homem somente abandonará a sua condição de inimigo se Deus achegar-se a ele, demovendo-o da sua aversão, restabelecendo a ordem na alma, tirando-lhe a venda a fim de ver a verdade, somente possível na luz; do contrário, haverá apenas trevas, trevas e mais trevas, onde o homem não pode ver nada, nem mesmo reconhecer a si próprio. Logo o autor não pode falar de algo comum a todos, e sim algo que não é compartilhado pela maioria das pessoas. Seu foco é dirigido aos “amados”, escrevendo-lhes porque, como Igreja, todos nós somos participantes da mesma salvação especial, não como uma possibilidade, mas como uma realidade inexpugnável, uma certeza infalível, pelo mérito exclusivo de Cristo ao sacrificar-se na cruz, resgatando-nos da perdição e reconciliando-nos com Deus. Podemos concluir que ele trata da salvação comum a si mesmo e que também é compartilhada pelos eleitos, aqueles por quem o Senhor morreu, comprando-os pelo seu próprio sangue (At 20.28), ressaltando o caráter exclusivista e direcionado não a uma assistência indefinida, vaga, mas a um corpo identificado pelas marcas produzidas pelo Espírito, capaz de transformar a mente natural em espiritual: a mente de Cristo (1Co 2.16). Há um quê de lembrança nesse verso, como se Judas estivesse dizendo à igreja: “Olha, alguns de vocês se esqueceram do que são, do motivo pelo qual se reúnem e de qual é o objetivo das suas vidas. Vocês são salvos e compartilham comigo da mesma salvação dada aos santos e não podem esquecer-se de que, por isso, Cristo encarnou-se; o Deus vivo e eterno fez-se homem, vivendo como um comum (ainda que este “comum” seja infinitamente superior a todos os séculos de vida da humanidade inteira), para que fosse injustiçado e condenado à morte, pagando em definitivo todos os nossos pecados, sem o qual não teríamos uma comunhão com o seu Espírito, e nada nos restaria além de sermos entregues à própria sorte, uma sorte desafortunada, trágica e miserável. É triste ter de relembrá-los disto, mas alegra-me poder fazê-lo, renovando-lhes as forças para continuarem a luta neste mundo, sabendo que as suas coroas estão reservadas para o dia glorioso do Senhor”. Pode-se alegar o caráter especulativo da minha interpretação, mas, pergunto: por que o autor teria de ressaltar algo que estava vivo na mente e coração dos irmãos? É óbvio o caráter futurista da exortação, ou seja, estava destinada também aos cristãos que haveriam de nascer, para aqueles que ainda não conheciam a fé, mas a teriam. É um argumento válido; mas diante da urgência do autor, penso que ele está imbuído da missão de admoestar a Igreja naquele momento crítico, em que ela sofria ataques constantes de fora, mas sofria também ataques vindos do seu próprio seio, dos agentes inimigos postados ali pelo diabo. Algo havia se perdido nesse ínterim e, certamente, ele estava a reavivar na alma daqueles irmãos esquecidos o que se perdera de alguma maneira pela negligência, pelo sofrimento, pelas perseguições... Apontando para a falsa piedade que tomava o lugar da devoção e da contrição ensinadas por Jesus e os apóstolos. Também está a encorajar ainda mais aqueles que, como soldados valorosos e diligentes, permaneceram firmes na fé e não se afastaram de suas prerrogativas, pelo contrário, eram os guardiões da sã doutrina diante da ofensiva covarde do inimigo, com o fim de subverter o Evangelho. Como se dissesse: “A vocês que permaneceram firmes e não arredaram o pé da fé dada aos santos, digo-lhes para continuarem assim, intrépidos e fiéis defensores do Evangelho, rejeitando toda heresia, todos os falsos mestres, ensinando aos mais fracos o caminho da verdade”. Referindo-se ao resgate, ao fato de Deus haver nos tomado para si, salvando-nos de nós mesmos, de nossa natureza caída e de nossas concupiscências, o autor faz lembrar à Igreja o porquê deela estar reunida em torno de Cristo, de forma que todos os que foram chamados e santificados participam da mesma salvação, do mesmo objetivo de servi-lo, honrá-lo e glorificá-lo... Sendo também chamados para compartilhar a mesma santidade do Senhor. Em segundo lugar, Judas “exorta”[33] cada um de nós ao dever de reter, batalhar, lutar e contender pela fé contra as armadilhas, ciladas e investidas de Satanás e seu bando, num esforço corajoso e diligente para derrotá-los. Note-se que a fé não é dada em conta-gotas, nem pode ser adquirida em progressão, nem é fruto de um construto individual, mas ela é dada gratuitamente, uma cessão generosa de Deus para os seus filhos, para que saibam o seu verdadeiro fim e objetivo, o de guerrear pela sã doutrina e por uma vida santa, em semelhança ao legado de Cristo deixado para os seus coerdeiros. Assim, a promessa é a de nunca fracassarem, se souberem como defender firmemente aquilo que lhes foi dado uma vez, uma única vez, e do qual são guardiões e proclamadores: a fé cristã! Quero atentar para dois aspectos da fé dada aos santos e apontadas na carta. O primeiro, é de que Judas pode estar se referindo à fé salvadora, aquela fé que faz o eleito crer na obra de Cristo consumada na cruz, e pela qual reconhece a sua pecaminosidade, bem como a necessidade de sujeição e reconciliação com Deus, sem a qual não há redenção. Esta fé lhe é dada uma única vez, para sempre, não como muitos afirmam equivocadamente: na possibilidade de perdê-la e alcançá-la de maneira intermitente, dependendo da disposição humana de estar com fé ou abandoná-la; isso a transformaria em mérito do homem, no sentido de que a obra divina de salvação necessitaria, impreterivelmente, da chancela humana, da sua asserção, sem a qual todo o sacrifício do Senhor seria nulo e ineficaz. “Dada uma vez aos santos” não deixa dúvidas da sua absoluta eficácia em manter o salvo em uma permanente condição e estado de salvação. Ela é um dom divino, como Paulo diz em Efésios 2.8-9: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie”. Aspectos da santificação humana presentes em um homem resgatado do pecado, mas ainda assim pecando, não cabem ser analisados neste momento. Contudo, um estudo do leitor sobre o assunto poderá ajudá-lo a entender a diferença entre uma salvação eterna, posta pelo amor eternamente divino (e jamais condicionada à vontade do homem), e uma vida de aparentes altos e baixos do cristão. Digo “aparente” porque, no plano divino, tudo na vida do crente colabora para o seu bem, mesmo uma queda, até mesmo muitos pecados, pois a promessa infalível do Senhor resultará no homem redimido semelhante ao homem eterno, Cristo[34]. Tais altos e baixos em nada prejudicarão a sua salvação, concedida e sob os efeitos santos, e perfeitos, e graciosos de Deus, e não do homem imperfeito. O segundo ponto em relação à fé, nesta carta, remete- nos ao corpo de doutrinas e ensinamentos recebidos pela Igreja, através da revelação especial[35]. Não que a doutrina fosse mudando com o decorrer dos tempos; porém, como nos foi apresentada em desenvolvimento contínuo, durante os séculos, conceitos antes não muito evidentes, e até mesmo imperceptíveis, foram solidificando-se, apresentados em detalhamento, ganhando cada vez mais consistência. Nesse sentido, as heresias tiveram um papel importante, pois, por meio delas, certos aspectos difíceis na Escritura ganharam nitidez, foram explicados, delineados, em harmonia com o testemunho majoritário dos santos desde os primórdios até hoje. O papel da Igreja foi o de pormenorizar as doutrinas presentes no Cânon de maneira sistemática, estruturando-as a fim de que o ensino e o estudo se tornassem organizados e mais eficientes. Claramente, esta foi uma necessidade dos cristãos, dada a profundidade e requinte do texto sagrado; o que não impediu muitos de nós de passarem à margem ou desapercebidos da vasta rede de instruções apresentadas pelas Escrituras, dificultando as suas aplicações práticas. Entretanto, todo esse esforço patrocinado pelo Espírito, utilizando-se da instrumentalização humana, serviu para aproximar-nos da luz, e, desta forma, as trevas foram obliteradas, reveladas, tais como são, servindo de auxílio, artefato, para o combate às falsas doutrinas. Algumas delas, travestidas de sabedoria e piedade, arregimentaram muitos para as suas fileiras, e poderiam ter um papel ainda mais destrutivo se não houvesse Deus providenciado revelá-las, garantindo a sanidade da Igreja, preservando-a. Outras, de tão estúpidas e mal elaboradas, intriga-me como, ainda hoje, conseguem adeptos e defensores e alcançam influência nefasta e diabólica no seio de comunidades erguidas como castelos de areia. Seria impossível conceber arma melhor e mais letal para combater as heresias, nesse contexto, do que a própria Escritura. A sã doutrina é o conhecimento dirigido por Deus da sua palavra para a instrução e santificação. Homens santos debruçaram-se sobre ela, retirando o antídoto necessário para manter saudável a Igreja. A resposta para o mal e seus agentes encontra-se no Evangelho, como o Senhor deixou-nos manifesto ao enfrentar o diabo no deserto (Lc 4.1-13), rechaçando-o, ao vencer as tentações, e pondo-o a correr. As mesmas tentações são lançadas sobre cada um dos crentes, dia após dia, afligindo-os e tirando-lhes a paz, especialmente quando se cai, ocasionando o pecado, diferentemente de Cristo, que, como Deus encarnado, manteve firme a sua humanidade, estabelecida na santidade que o manteve separado do pecado, e afugentou o maligno igual a um rato miserável (Tg 4.7). Certa vez, o pastor da minha igreja contou-nos o depoimento de uma atriz, que afirmou considerar o seu dom, de interpretar, um ato de fé, porque, segundo ela, não se sabia de onde ele provinha; você simplesmente o tinha. Não é interessante, independentemente de professar ou não uma crença, que a atriz usasse a razão da fé para comparar, remetendo-a a uma outra razão, do ser, da vida, da sua profissão? O pastor considerou-a (e também a considero) uma boa explicação para os dons que muitos têm e não sabem como surgiram. Ressalto apenas que o dom sem aplicação não passa de um tesouro que nunca foi encontrado ou uma oportunidade negligenciada. Qualquer dom, e não precisa ser artístico, deve ser exercido e aprimorado como uma forma de reverência e agradecimento ao seu doador, Deus. Em especial, trata-se de uma boa explicação para nós, crentes, pois nos sentimos muitas vezes quase obrigados a colocar a fé em alguém, ou fazer esse alguém crer, na base da força, na marra. O profeta já alertava: “Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos.” (Zc 4.6) Complementando, o pastor disse que nenhum de nós tem esse poder e, como Judas escreveu, a fé é uma dádiva, algo que somente Deus pode dar aos santos, e não pode ser compartilhada, como algo a ser incutido, em alguém, por mim. A única forma de compartilhamos a fé é vivendo aquilo que acreditamos e que a Bíblia nos revela como a vontade divina, porém nada disso acontece sem o Espírito manifestar-se, reestruturando a mente, fazendo-a amar a verdade e entregar-se a ela. É necessário que o raciocínio pecaminoso se renda à razão, à santidade, para a fé estabelecer-se como verdade factual e indissociável da vida cristã. Mesmo sendo muitas vezes bombardeados pelo ambiente em que vivemos, o mundo caído, pelo diabo, ou por nossas fraquezas, ao final teremos sempre a certeza de a nossa fé ser real, palpável, pela sua veracidade e eficácia, pela transformação, o novo nascimento, operada pelo Espírito a capacitar-nos à fé. Como algo maravilhoso e uma bênção ao crente, ela nos é dada somente uma vez. Isso nada tem a ver com o estereótipo, quase uma superstição, de que a fé pode ser conquistada e também perdida e até readquirida,em um front de vitória e derrota onde a primeira “fé”[36] não quer dizer muito, e a segunda significa bastante e tudo pode-se arruinar em uma fração de segundos, de uma hora para outra, podendo-se lançar tudo por terra, sem haver uma reviravolta possível e iminente, nos minutos finais. Esse tipo de fé não gera a certeza, nem faz o homem reconhecer a sua dependência do Senhor, mas acaba por colocar em suas mãos o destino de sua vida, no sentido mais grandiosamente espiritual (como uma pretensão, não uma realidade). Desse modo, seres imperfeitos e volúveis têm uma direção insegura e uma sina garantida: terminar entrando fatalmente no portal do Inferno, se depender, mesmo que em algum aspecto, da sua disposição ao bem, ao santo, à amizade sincera com Deus. Nota-se essa impossibilidade na vontade humana de buscar a reconciliação com Deus e de manter-se intacto na condição de pureza, necessária para a salvação. Assim como o etíope não pode mudar a sua pele, nem o leopardo tirar as suas manchas, o homem não pode ir a Deus se, primeiro, ele não for até o homem. Este só pode ir a Deus pelo poder de Deus (Jr 13.23). O autor está apenas confirmando e reiterando o escrito no verso 1, demostrando uma unidade de pensamento e propósito em sua carta, pois lá está escrito: “Aos chamados, santificados em Deus Pai, e conservados por Jesus Cristo”. A fé dada aos santos tem o selo de garantia da Trindade, sendo que a não citação ao Espírito pode ser inferida pelo simples fato de que a santificação é sua obra. Mediante a fé, mesmo com nossas fraquezas, inconstâncias e dúvidas, temos a segurança de não ser possível perder a salvação, uma vez que nos é dada. Alguém pode alegar o fato de muitas pessoas dizerem-se crentes, abandonarem a fé e voltarem ao mundo, como justificativa para a fé estar atrelada à volição do homem. Acontece de haver na igreja ovelhas e bodes, crentes verdadeiros e nominais, joio e trigo, e, assim, Pedro os descreveu ao abandonarem a sua fé, citando um antigo provérbio: “O cão voltou ao seu próprio vômito, e a porca lavada ao espojadouro de lama” (2Pe 2.22). Ora, o cão e a porca não são ovelhas, eles têm uma natureza, e mantiveram-na, voltando para as suas origens, em conformidade com aquilo que não podiam deixar de ser e fazer, a fonte das suas satisfações, da necessidade imprescindível de suas existências e natureza intransigível: o cão ao vômito e a porca à lama. Uma pessoa que se diz crente, mesmo durante muitos anos, e então abandona a fé, “desviando-se”, age tal qual o cão e a porca voltando ao que sempre foi e nunca pode deixar de ser; porque é, e não pode ser aquilo que não é, sem Deus mudar-lhe a natureza. De outra forma, continuará o mesmo, a despeito dos lacinhos, penduricalhos e enfeites colocados pelo seu “senhor”. Por algum tempo, a porca pode até se manter limpa, mas bastará uma poça de lama, ou um charco, para ela se refestelar no limo e se deliciar na sua sujeira. A Fé dos Incrédulos Contra a Verdadeira Fé Em contrapartida, há um número crescente e cada vez mais poderoso e influente, (na perspectiva do apoio financeiro e midiático massivo), de pessoas e entidades empenhadas no combate à fé. De maneira genérica, querem um mundo sem religião, extirpando qualquer traço de sacralidade e sobrenaturalidade. O foco principal, quase sempre, é o Cristianismo e a sua alegada, e nunca provada, hostilidade. Não basta serem ateus e blasfemarem contra Deus, para eles existe uma cruzada não santa, quase messiânica, de um mundo melhor, mais amoroso, mais pacífico, isento de espiritualidade. Alguns dos gurus desse ideal “angélico” nos são apresentados em todo o seu ódio, virulência e ataques infundados à fé cristã: Dawkins, Rosset, Freud, Nietzsche, Darwin, e Karl Marx. As origens modernas do ateísmo estão especialmente fincadas no darwinismo e no marxismo, como explicação “cientifica e racional” para o ideal de um mundo sem Deus. Há uma legião de celebridades menos votadas e igualmente adeptas do pensamento antirreligioso a reproduzirem um discurso “descolado”, aparentemente intelectual, mas centralizado no mais paupérrimo conhecimento, ou melhor, na quase total ignorância, ao menos acerca dos aspectos fundamentais da religiosidade, moral, ética e as relações sociais. Não poucos deles se aventuram a críticas violentas e injustas baseadas em uma leitura e interpretação equivocadas e superficiais dos textos bíblicos[37], se é que são lidos. Na maioria das vezes, o erro é primário: toma-se um trecho ou versículo fora do contexto para sustentar uma ideia que nunca esteve no texto, justificando tão somente o estereótipo enraizado em suas mentes de que aquilo seria verdadeiro e precisaria se confirmar a qualquer custo, mesmo que seja ao preço da honestidade intelectual. Não é raro ver livros e artigos apontando as contradições bíblicas, como uma maneira de se provar a sua não sobrenaturalidade. Qualquer estudioso honesto perceberá, no primeiro momento, que a suposta contradição não tem nada de contradição; tão somente é a desconexão da mentalidade ateia da verdade, necessitando-se de várias mentiras para tentar encobri-la. Uma tarefa não muito difícil, bastando unir, em uma mesma proposta, a grosseria mental, o subterfúgio, o escárnio, o ódio e a acusação ardilosa, suficientes para enlaçar e convencer mentes pouco rigorosas e flébeis, alimentadas com o próprio veneno, a buscarem uma ordem superior na desordem interior, negando a sublimidade divina pela efemeridade desconexa da alma enfermiça. Sempre entendi que um darwinista baseia todas as suas convicções e conceitos não na ciência, muito menos na comprovação científica ou empirismo, mas na falsa premissa da não existência de Deus, a qual é, quer queiram ou não, uma crença, um tipo de fé, já que o ceticismo é também uma convicção baseada em um axioma equivocado, resultando em uma conclusão traiçoeira, mesmo dentro de uma lógica correta. A movê-los, não o conhecimento científico, nem as descobertas que “poderiam” apontar para a não existência de Deus; pelo contrário, eles direcionam e acomodam a ciência dentro do seu escopo filosófico, o qual se evidencia metodologicamente corrompido pela forma como o manipulam, burlam, e gerenciam as informações a fim de se ratificar a premissa da não existência de Deus[38]. É evidente o reducionismo de todo o pensamento ateísta apenas ao crivo da ciência, como se o homem fosse dotado apenas de inteligência, e não houvesse outros elementos formadores do seu ser. Inteligência nem sempre está diretamente relacionada com razão, e conhecimento nem sempre se relaciona com compreensão. Ou seja, é necessário muito mais esforço para que eles possam, honestamente, negar a Deus, mas pela impossibilidade, resignam-se apenas ao que consideram razoável. A ciência torna-se apenas o veículo para a corroboração da crença na descrença, uma refém entre sequestradores; o meio pelo qual eles dão vazão aos seus pressupostos através da falsa ideia de que estão à procura da razão e da verdade. É quando a ciência se torna um meio de propagação doutrinária, desconsiderando que, a despeito de o seu apelo pseudorracional querer excluir a fé, na verdade, eles estão arraigados na fé. É o discurso panfletário idealizando-se antipanfletário, como se fosse possível condenar o proselitismo religioso utilizando-se do proselitismo não religioso para difundir o materialismo, uma nova religião tão ou mais radical como nenhuma outra foi. No frigir dos ovos, eles são pegos na mesma armadilha que imaginam denunciar, provando que o homem é essencialmente um ser transcendente, que vai muito além do simples conhecimento. A necessidade de se ultrapassar os próprios limites, no caso dos ateístas, transforma-se na corrida atrás do próprio rabo. Um rabo imaginário, que para eles é real. No fundo, o cético faz da ciência, e de si mesmo, a sua “deusa”; esse é o elemento forjador da cosmovisão materialista,trocar o Deus verdadeiro por um ídolo. Então, ao rejeitarem o Criador, simplesmente o substituem por suas criaturas (sim, a ciência não é criação humana, mas parte da criação divina, assim como o homem). Paulo nos alerta a tomarmos cuidado com esse tipo de pessoa, cujo discurso é a insanidade em estado bruto e cujo raciocínio é um disparate esmerilhado pela confusão, ininteligível: “Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos... Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém” (Rm 1.22, 25). Na verdade, este trecho da Escritura explica muito bem o que acontece atualmente: o homem se entregando à pregação, ao discurso em favor do autonomismo, exclui o teocentrismo para, em seu lugar, erguer altares antropocêntricos. Em suas argumentações e sofismas, os crédulos ateus utilizam-se do fato de a ciência não ser neutra para contaminá-la com sua filosofia naturalista e assim dizer que agem em neutralidade. Parecendo racionais são levianos e forçam até a exaustão o rótulo de inconsistentes, místicos e preconceituosos para com os demais crédulos (sendo que os cristãos são os seus alvos preferidos), quando suas concepções estão viciadas na origem, nos princípios que as originaram, sem um fundamento sério, sem um exame criterioso, quase sempre tendo como ponto de partida argumentos com base na rejeição natural a tudo que se refere a Deus e ao seu governo, sem o menor pudor de advogarem uma metodologia dirigida ao fim objetivado, e na satisfação do espírito litigante e antirreligioso. Verdadeiramente, os materialistas/naturalistas não estão a serviço da ciência, mas servem-se dela para atingir seus propósitos; usam-na como “ambiente” para disseminar e estabelecer seus dogmas. Em sua maioria são tão fundamentalistas como os fundamentalistas que atacam e execram, pois não estão dispostos ao diálogo, mas à doutrinação mais agressiva que se possa estabelecer e exercitar. Esta começa pelo pressuposto de desqualificar e rejeitar qualquer premissa que não seja igual a “Deus não existe” (não que haja algum benefício em dialogar com eles, pois se encontram de tal maneira presos em seu círculo vicioso que a menor hipótese de liberdade intelectual lhes parece pior do que o ferrolho a prender-lhes pés e mãos). Afinal, quem é mais crédulo? O crente ou o ateu? Interessante notar como o “novo ateísmo”[39] proclama- se o último reduto da liberdade do homem de todas as formas de opressão religiosa, utilizando-se do direcionamento explícito ao materialismo filosófico, como única e última opção de independência. Ou seja, prega-se uma "libertação", mas essa libertação somente existirá se o liberto tornar-se um ateu. Não é deveras paradoxal? Apelando para o espectro da liberdade, querem subjugá- la, aprisioná-la nas grades, dentro dos limites de um sistema, mesmo que o desejo alheio seja o de se manter fora desse recinto? Quer dizer que, para ser livre, o homem somente o será se a liberdade o levar ao âmago do ateísmo? E até onde será possível ir em defesa dessa “liberdade”? Como reagirão diante daqueles que se recusarem a aceitá-la? Será que os neoateístas não estarão revivendo tudo aquilo que dizem combater, mas que é bem possível repetir em nome da sua fé? Ao final, o que teremos serão homens enjaulados, sem sequer uma réstia de luz. Esse método se assemelha, ou melhor, é idêntico ao discurso marxista. Ao livrar o homem do capitalismo e da opressão do indivíduo (ainda que visto como classe, grupo ou associação), fatalmente a única opção passaria a ser o comunismo. O homem é livre para escolher o comunismo, e tão somente ele; e, chegando lá, estará invariavelmente aprisionado ao sistema, sem nenhuma chance de volta ou outra opção de escolha. A menos que se autoimploda por ineficiência ou fragilidade, como a história é pródiga em revelar, por sua própria inexequibilidade, o homem nunca será liberto, mas um prisioneiro, em um claustro sem sequer possuir janelas com grades, mas muros e paredes impermeáveis à luminosidade. Quando muito, poderá respirar através das frestas, recebendo uma ração suficiente para não morrer em definitivo. Em nada é diferente da liberdade que bois e porcos têm no “corredor da morte”, quando em direção ao matadouro. Não há escolha nem salvação. Essa é a liberdade do ateísmo e do marxismo.... Mais uma mentira escandalosa, em que o homem está preso pela suposta liberdade de querer se manter livre de uma prisão. Toda essa trama se parece, em muito, com o relato do Éden. Adão e Eva eram livres, podiam fazer o que quisessem, onde quisessem, sem infringir nenhuma lei ou norma. A exceção era não comer da árvore do bem e do mal. Surge então a serpente, com sua lábia, com seus argumentos falaciosos, distorcendo a verdade e colocando diante do casal uma realidade somente possível em suas mentes ingênuas, mas cobiçosas. Estava instalado no mundo o espírito revolucionário, aquele mesmo que defende a quebra da ordem em nome do caos, da autoridade legal em nome da tirania postiça, da liberdade em escravidão, e transforma a verdade em entulhos, lixões de mentiras. O que não lhes fazia falta, nem lhes era necessário, a partir do discurso enganoso da alimária – ardiloso, mas irracional –, desejaram ter e ser muito além do que tinham e eram, quando podiam ter tudo e eram a obra-prima da Criação. A sedução pelo objeto proibido, aquele fruto que assumira uma aparência aprazível e desejável, sendo que até então não lhes aguçara a cobiça, somente foi possível pelo palavrório astuto, capaz de persuadi-los, entregando-os à desobediência, à ambição irreal, a uma fantasia. Assim, Adão e Eva se viram aprisionados em sua própria vontade. Havia um único desejo na serpente, fazer com que eles fossem enredados em seu discurso e convencidos a pecarem, rebelando-se contra a única ordem divina que os manteria sob os auspícios da graça. No fim das contas, o casal entregou a sua resolução à vontade da serpente, tornando-a cativa ao desejo alheio, como se fosse o seu próprio anseio. A liberdade anelada, ser igual a Deus, se tornou a prisão mais penosa de se perder o prêmio ilusório e receber o castigo genuíno. Ao invés de subir aos céus, desceram aos umbrais da miséria humana. É o que advoga, por exemplo, Richard Dawkins[40], ao propor o mesmo tipo de libertação delirante: aprisionar o homem na sua vontade irresistível de fugir da realidade e abraçar uma disposição insana que, dados os contornos beligerantes e raivosos, constitui-se em uma iminente tragédia, primeiramente individual, para depois se abrigar entre os seus pares, cauterizados pelo sentido de revolução, e manter-se enclausurada pelo entorpecimento. Tal qual as seitas, que têm como uma das características marcantes a salvação e verdade apenas para quem está nelas, o materialismo/ateísmo apela para o fim da intransigência religiosa, cujo antídoto é a... intransigência antirreligiosa. Então, se abrirão as portas da liberdade para aqueles iluminados entregues ao espírito “messiânico” de salvar o mundo, as pessoas e a civilização do sobrenatural. Pois é o seu caráter extraordinário que impede o homem de trilhar os seus próprios caminhos, de traçar os seus destinos, de se ver livre de toda uma tradição e cultura centrada na divindade, no seu governo e dependência. Urge voltar à simplicidade, mas ela se resume ao retorno à vulgaridade, ao ordinário, como se uma flor murcha atolada no esterco pudesse exalar o aroma de frescor e vivacidade perdidos, não o cheiro sufocante de corrupção. Estando-se sob as ordens de Cristo, não se pode ser livre. É preciso destituí-lo, tirar-lhe o cetro, arrancá-lo do trono, depô-lo a todo custo. No entanto, a qual liberdade apelam? À liberdade de se sujeitarem à vontade de terem a vontade cativa a outro senhor? Dirão que o próprio indivíduo está a defini-la, a cotejá-la e, por fim, abraçá-la, como a chave a abrir o cadeadoque lhe soltará as correntes. Porém, mesmo havendo cadeado e correntes presas a ele, tão somente possui uma chave inútil sem fechadura que lhe sirva. Não é somente isso. A questão vai muito além de uma simples argumentação, um jogo de ideias, mas traz em seu âmago o aflorar de todo tipo de perversidade e destruição possíveis à civilização judaico-cristã, a formadora do Ocidente ou da civilização tal qual a conhecíamos (visto que ela está se perdendo, ao menos, nos últimos dois séculos). Através de técnicas aparentes de evolução científica, enquanto se retrocede e se volta aos períodos mais bárbaros e pagãos da história do mundo, o ser do homem é reduzido a uma combinação binária, onde todas as virtudes e vícios são colocados em um único compartimento e rotulados por algo aparentemente moral e enlevado: o bem comum. Relembremos, porém, que todos os aspectos da humanidade foram contaminados e corrompidos pelo pecado. Sendo assim, a ideia de bem comum tem se tornado algo relativo e sujeito ao escrutínio ideológico, justificando até mesmo o massacre de pessoas em nome de um “bem comum”, menos para aquele malfadado grupo de pessoas, assim como a constante inversão de valores, a ponto de o foco central da discussão ser deslocado, dependendo do viés ideológico, para locais periféricos e pouco importantes. Nesse sentido, aquele grupo afetado não teve direito a nenhum benefício ou licitude, porque sobre eles pairava algo considerado ainda maior, tornando as suas vidas irrelevantes e suas mortes necessárias. Se a moral e ética estão diretamente ligados à preservação da vida humana, incluindo-se, nesse caso, o sentido de justiça, qualquer tentativa de relativizá-los e não entendê-los como provenientes de Deus, significará a perda do próprio sentido de humanidade e justiça, estando todos entregues ao espírito mais diabolicamente destrutivo, o qual é a perda da própria humanidade. Afastando-nos do Criador e sua Lei, afastamo-nos da verdade e tornamo-nos presas fáceis para a maior de todas as mentiras e delírios: o homem é senhor de si mesmo, e ao tomar para si algo que não lhe pertence, usurpando-o do verdadeiro detentor, alimenta a fantasia de alçar os céus e dominá-lo. No redil das disputas em que a mente se torna o campo a ser conquistado, as áreas mais viciosas e usadas à exaustão para moldar o pensamento e a mentalidade moderna não são a filosofia, a política ou a teologia, mas a psicologia e, em especial, a pedagogia. Se já não é suficiente transformar o adulto em um animal, capaz de dedicar-se, com empenho, aos instintos mais degradantes e vis da alma, ensina-se, desde a mais tenra idade, a capitular a mente ainda não formada e em transição da criança, tornando-a, no futuro, uma bomba-relógio prestes a explodir ou um artefato “bovinista” a alimentar os seus prazeres até a morte, não importando se a sua ou de outrem. Quando a cultura atual destina boa parte do seu tempo, esforço e dinheiro em insuflar o homem na satisfação dos prazeres mais tolos, em nome de uma excitação, euforia, ou o que comumente se chama de “adrenalina” (por sinal, tudo hoje praticamente se resume a isso: alguns momentos de êxtase e insanidade), pode-se perceber uma volta ao homem primitivo, ao qual, por questão de sobrevivência, era necessário passar por perigos e ameaças, nunca por prazer. Com raras exceções, eles sempre as evitavam, ainda que soubessem reais e possíveis de ocorrerem em sua vida ou a qualquer momento. Hoje o perigo é uma diversão. Colocar a vida em risco desnecessário se tornou mais uma forma de banalização da existência e o atestado de como o individualismo, aliado à ideia de autonomia, tornou o homem estúpido e autodestrutivo, por um pouco de comoção e pânico infundado. Os parques de diversões e temáticos demonstram que o homem moderno apenas trocou o Coliseu, os duelos medievais, circos e caçadas por algo mais, digamos, controlado, mas não menos mórbido. Podemos incluir os rachas e cavalos de pau entre carros e motos, sexo compulsivo e degradante, drogas, bebidas, entre outros, como a supérflua submissão do ser ao preenchimento de um vazio calamitoso pelo prazer paliativo, cuja fonte verdadeira e única, capaz de ocupar plenamente e satisfazer essa necessidade, é apenas Deus. Como essas formas de substituição apenas atenuam momentaneamente a ausência divina por meio de um ídolo, as exigências da alma levam cada vez mais o homem a um grau de risco e perigo ainda maiores, culminando em um estado de dependência, de servidão, praticamente sem volta. Preso ao seu cativeiro interior, ele espera a libertação naquilo que o aprisiona e subjuga. Em linhas gerais, o padrão atual é o mesmo iniciado no Éden e repetido exaustivamente no decorrer da história: a agitação dos ânimos, para fora da vontade de Deus, resulta em perturbação da alma e na desordem funcional, onde a “imago dei” é substituída pela corrupção humana, iniciada no coração e concretizada em suas ações maléficas, fruto da vontade entregue à consciência ou natureza perdida. A busca pela emoção, pelo arroubo irracional, tem permeado a vida, inclusive de crentes, e é estimulada desde a mais tenra idade. Crianças não querem tocar piano, ouvir e ler os clássicos, jogar xadrez, brincar de laboratório e oficina mecânica ou fazer coisas do gênero; ao mesmo tempo que lhes aguçava a criatividade, colocava-os em contato direto com a realidade a se pronunciar em alguns anos. Antes de prepararem os seus filhos para a maturidade, os pais ou tutores acabam por descer ao nível mental e emocional dos pimpolhos, como uma forma de autoproteção, visto que eles próprios são infantis e dados às reações intempestivas, marcadas pela paixão ardorosa de não se comprometerem com a construção do caráter dos filhos, além de pouco preocupados em levá-los à consciência de si, do próximo e do mundo. É mais fácil torná-los “Rambos infantis”[41] ou maricas, ambos entregues à displicência e lassidão pela falta de responsabilidade, por temor ou por inaptidão em manejá-la corretamente. A sexualização das crianças é apenas um passo a mais na descida do homem ao abismo de sua alma tenebrosa, a mesma que transformou, do ponto de vista comercial e midiático, a beleza em um amontoado de carne a ser engolida e exposta como um presunto na vitrine. Não há diferença, podendo-se escolher a mais gorda ou magra, tudo se resumindo a uma questão de gosto ou apetite. Alguém pode argumentar que sempre houve a exploração sexual, seja de mulheres, homens ou crianças. E é verdade. Na história, em várias ou quase todas as civilizações, a depravação humana levou alguns não somente a desejar, mas a vivê-la intensamente e por todos os meios. Porém, a maioria das pessoas não se entregou a ela, antes a reprovaram, e, em muitos casos, combateram- na. A diferença entre os tempos está no fato de, hoje, existir um movimento incitando as pessoas às práticas mais degradantes, não somente o apoio, a validação mental, mas o treinamento para a sua aplicação e massificação, como uma necessária integração da nova sociedade em construção, com o fim evidente de se libertar da “opressão tradicional”, representada pelos valores defendidos pelo judaísmo-cristianismo. Somente assim, criando-se uma nova “humanidade”, segundos os moldes ideológicos e antinaturais, se alcançará o direito à plena capacidade de se dispor de si e dos outros, como alguns querem, fazendo valer o velho lema adâmico de que tudo é válido para a satisfação da vontade, e, ao satisfazê-la, se é livre. Poucos, contudo, percebem que o eu não é apenas a vontade, nem ela o completo eu, mas uma limitação na qual o restrito assume ares de plenitude, sem que a alma se satisfaça, entregue a um permanente estado de frustração. Nem todos reconhecem isso; então, a maioria se entrega a um constante “salto no escuro”, que pode ser tanto uma religião, um partido político, associação, profissão, hobby, ou qualquer outra das muitasformas de fetiche a sustentar a alma em um estado de miséria existencial. É mais uma das muitas formas de distração do pecado, ao fazer-se importante e necessário para desviar os holofotes para si e receber uma glória usurpada por meio da capacidade de levar o homem à abstração, ao não reconhecimento de si, da sua real condição, do próximo, e, acima de tudo, de Deus. A manipulação começa quando se estabelece, em primeiro lugar, a condição de vítima, de injustiçado, de oprimido, de segregado, de explorado, e outros jargões incutidos insistentemente pela mídia, escolas, livros, universidades, sindicatos, ONGs, e “tutti quanti” o liberalismo e o marxismo conseguirem ocupar, monopolizando o discurso com o seu linguajar distópico. Uma sociedade onde os erros e pecados do passado são vislumbrados, no presente, como virtudes, tem muito a dizer do caráter individual dos seus cidadãos, ao sentenciarem por ignomínia a moral e enaltecerem a perversão como honrosa; o mal se tornando em bem, e o bem em mal, explicando a incapacidade da maioria de entender a realidade, ao enveredar por uma busca quixotesca de negar a todo custo a verdade. E, se ela não existe, como se faz primordial para vindicar a panfletagem ideológica, o bem, o mal, o certo, o errado, o lícito e o ilícito serão apenas faces de uma mesma moeda, dependendo de quem as olha e para qual lado são lançadas. Tudo passa a ser permitido, em um ápice de egoísmo, narcisismo e megalomania emporcalhada pela independência: a tão sonhada autonomia que iludiu o homem, desde os primórdios, a cogitar-se livre de Deus. Deus é o obstáculo a impedir o homem de colocar em prática toda a sua maldade interior. Negá-lo é condição essencial para a alma enferma se “libertar”, aprisionando a consciência, o espírito, que reivindicarão a alma como companheira de cela, muito antes de ela se dar conta de que a aparente autossuficiência era outra armadilha para uma reclusão ainda mais dolorosa, mais limitadora, e o círculo se fecha... de onde se começou não se sai. As ciências humanas tentam, a todo custo, fazer o homem acreditar em um sonho autonômico, quando está a perscrutar o pior dos seus pesadelos. Nenhum homem é livre de Deus, nem pode sê-lo, mas a inimizade é tamanha (uma obsessão a corroer a alma), que mesmo se Deus aparecesse, frente a frente, ele não o reconheceria, como não reconheceu a Cristo, porque significaria a ruína do seu desejo, do seu prazer, da autoidolatria[42] construída como um castelo de cartas, a soçobrar diante do vento mais tênue. Portanto, faz-se necessário criar um novo modelo social, no qual o homem seja o centro, e o iluminismo se encarregou de fazê-lo, o liberalismo tratou de vesti-lo e adorná-lo, enquanto o marxismo desnudou-o, aprisionando- o em nome do coletivo, na sua própria nudez. Se antes havia o apelo do indivíduo, agora existe o apelo da massa, inidentificável, anônima, a rosnar como bestas diante do osso. O modelo desejado para a sociedade é o marxismo, mesmo em suas variantes; o mesmo implementado na extinta URSS, por Lenin e Stalin; na China, por Mao; em Cuba, por Fidel e Che Guevara; no Camboja, por Pol Pot; e em tantos outros lugares, é o mesmo ideal maquinado pelo ateísmo moderno: para aniquilar a ideia de Deus é preciso exterminar o homem como imagem divina, ao não permitir que ele reflita, raciocine, mas tenha seus pensamentos reduzidos a um padrão de indiferença, onde todos estarão confinados ao modelo unificado de comportamento e expressão: a submissão cega ao instinto assassino. Milhões de pessoas sentiram na pele a ideologia de Karl Marx, o controle do Estado sobre a sociedade e o indivíduo, a impossibilidade de se “escapar” com vida desse sistema a não ser rendendo-se incondicionalmente, sendo controlado por completo pelas forças de “libertação”, fazendo do homem uma simples máquina a serviço da vontade burocrática e doentia dos tiranos. Isso é fruto de um irracionalismo voluntário, da falta de discernimento analítico, o aniquilamento do senso crítico, da razão, tornando homens em manadas de idiotas, bestas servis, verdugos obstinados, mentirosos contumazes e covardes, na ilusão de, ao agirem assim, estarem militando um grau de independência somente reconhecível em seus cérebros obtusados pela insanidade, esquizofrenia e a perda completa do sentido de realidade e verdade, levando-os a uma moral relativa, posta em suas mentes sob controle, no qual o instinto próprio de sobrevivência se perdeu em meio ao discurso coletivista e politicamente correto de autonomia, quando, nem mesmo os escravos sujeitavam-se à prisão, fugindo sempre que pudessem. Reclamam, debocham dos cristãos, ovelhas do Senhor; sem perceberem, aplicam-se em si mesmos o veneno que julgam aplicarmos em nós, posto servimos de bom grado, alegres e ordeiros ao Deus todo sábio, perfeito, santo e bom, enquanto eles se sujeitam às mentes mais perversas, doentias e asquerosas que existem. Cauterizados, a ponto de desejarem e acostumarem-se tanto com o mal que, quando alguém lhes faz o bem, revoltam-se indignados, creditando nesse bem o mal, enquanto se deleitam na aflição da própria carne e alma. O Estado não serve, precisa ser servido em sua voracidade perversa; o Estado não admite Deus, mas quer se fazer um; o Estado não pretende ter cidadãos, mas escravos; não aceita nada menos do que o seu ideal maníaco de onipotência e onipresença por intermédio das massas. Da mesma forma, o “gene egoísta” é a nova desculpa para que o Estado controle, domine e subjugue o homem. E a desculpa é sempre a mesma escandalosa mentira: assim é melhor!... Assim se constrói uma sociedade justa!... Assim o homem vê, enfim, a sua liberdade!... Mas, para quem? Não muito distante desses, a loucura do neoateísmo simplesmente revive conceitos experimentados e fracassados à exaustão, como se fossem novidade, e torna- se essencialmente aquilo que diz combater. Será que os novos ateus pretendem reescrever a História ou ficarão apenas na idade média, em especial no período negro da inquisição? Se o falso cristianismo existe e é injusto, há, contudo, o verdadeiro cristianismo, o qual é justo. Mas o que dizer do marxismo? Que nada mais é do que o materialismo levado às últimas consequências? O naturalismo em sua expressão mais virulenta e odiosa? Em qual lugar, onde foram instalados, houve justiça? Ele apenas promoveu e ainda promove a injustiça em sua sanha compulsiva, em sua máxima descrença de Deus e dos valores cristãos. Ateísmo e marxismo são irmãos siameses a serviço do mesmo senhor: o diabo! Que não é muito original, mas vem pregando a mesma peça, desde o princípio, sem deixar de ser eficiente. Parece que o homem não aprende com os seus próprios erros e insiste em cometê-los repetidamente para provar a sua própria incapacidade de compreender e aprimorar-se. Ele acaba por entregar a sua consciência e honra, abdicando da graça divina, por um prato de lentilhas, tal qual fez Esaú vendendo a sua primogenitura para Jacó (Gn 25.24-34). E como tal, não prescinde a fé, mas vive por ela... equivocadamente, diga-se de passagem, posta num ídolo de barro. No caso de Esaú, o desejo saciado, mas a alma afligida; no caso do homem moderno, o desejo é a repetição constante dos apetites insaciáveis, da compulsão desmedida, da desordem interior, que ao negar a fonte de água viva, Cristo, em seu desespero, cava poços profundos em terreno árido, sem que o seu coração se satisfaça, mas se mantenha sedento. O objetivo das ideologias, sejam darwinistas, marxistas ou outra qualquer, não é provar a verdade ou a realidade das coisas (embora tentem fazê-lo dissimuladamente, em contraste aos pós-modernistas), muito menos trazer alívio para a alma, conhecimento de fato ou um estilo de vida melhor, saudável e honesto em si mesmo, mas apresentar um sofisma a fim de manter o homem distanciado da verdade, confirmando-se, assim, cada vez mais a hostilidade a Deus.Na verdade, hostilidade chega a ser um eufemismo, dado o ódio frívolo e injustificado do homem natural ao Criador. Se o amor é a consequência natural do conhecimento, e o conhecimento não pode ser obtido pela simples rejeição, pela negação, como consequência de uma série de formulações precipitadas, fruto do caráter empantufado, o afastamento da pessoa ou objeto a se conhecer, torna-se evidente que o ódio, como desejo, é fruto do não-conhecimento, o conhecimento imperfeito, ou a ignorância em relação à pessoa ou objeto. Com isto, não estou dizendo que todo ódio, raiva ou ira tem como pressuposto o desconhecimento, mas que, mesmo para se odiar é preciso haver um tipo de intimidade, se não for no trato, ao menos quanto aos atos e informações necessárias a fim de se formar um juízo correto, e não se entregar as conjecturas, a presumir de alguém aquilo que esse alguém não é. O ódio, como um simples desejo (e me parece ser esse o ponto central dos ateus e antirreligiosos), é o reflexo direto da imperfeição humana, incapaz de amar, de entregar-se ao conhecimento verdadeiro, para abandonar-se ao embuste, a uma imagem especulada, um delírio sofístico, onde uma ideia subsiste apenas pelo desejo e não pelo conhecimento, que é o verdadeiro desejo de travar intimidade, averiguando, distinguindo, honesta e diligentemente, o âmbito de tudo o que envolve essa relação. É impossível ao homem justificar o seu ódio a Deus a partir do ser divino, pois este lhe é estranho, incógnito, visto que Deus se deu a conhecer a quem quis, e somente através do seu Filho Jesus[43]. Por isso, toda a campanha impetrada pelos homens tem como base a própria ignorância como justificativa (não como argumento, mas como fato), pois o conhecimento de Deus somente pode levar ao desejo lícito, e ao fato concreto, de amá-lo assim como ele ama. Deus ama a quem conhece na intimidade, que parte, ou provém, dele para os seus amados; e é um amor tão absolutamente divino que se torna impossível não o amar. Não um amor idílico, irreal, mas factual e vivo. E aos que não o amam, pois não o conhecem, resta-lhes apenas o desejo cobiçoso de rejeitar o Deus verdadeiro e em seu lugar erguer um ídolo. Em linhas gerais, a idolatria é a impossibilidade de se conhecer a Deus e estabelecer com ele uma relação pessoal, essencial, cuja característica é requerida pelas qualidades divinas, e não os nossos supostos predicados. Como Agostinho de Hipona definiu precisamente, o mal é a ausência do bem, e sendo Deus todo o bem, é a ausência de Deus; e se há em nós algo de bom, esse bem procede de Deus. Portanto, o amor ao Deus absoluto somente pode existir se o homem negar o falso amor (como um simples desejo) e entregar-se ao verdadeiro amor, aquele revelado na encarnação, vida, morte e ressurreição do Filho. Ele é o único capaz de atrair e desnudar o amor trinitário. Se ele não o fizer, ninguém pode fazê-lo. Mas ele o faz, revelando-se àqueles que são amados de Deus; por isso, não se recusou a descer da sua glória, rebaixando-se em amor e por amor dos seus escolhidos. É esse o amor real, não um mero sentimento ou desejo, mas a efetiva, nítida e real concepção do amor verdadeiro. Se o homem não o experimenta nem o conhece, resta-lhe apenas o desgosto; então o ataque é despropositado, insolente, desmensurado. O que me leva a pensar em outro ponto: por que a intransigência e obstinação inimiga à Deus, persiste e acentua-se em muitos, de forma que, mesmo passados anos, o ódio persistente não arrefece, nem se dispersa? É preciso, primeiro, falar novamente da Queda. Foi ali, no Éden, que o homem deixou-se entregar ao seu desejo, um desejo perverso de ser como Deus, rebelando-se, transgredindo a sua lei. Nesse momento, Adão e Eva abandonaram a perfeição criada por Deus para entregarem- se à imperfeição, negando a verdade e realidade pelo desejo, que mesmo sendo irreal, levou-os à dura realidade de inimizade e separação de Deus, ou seja, a morte espiritual, mas também física. O homem estava condenado por seu próprio capricho, pelo desejo intangível de ser o que não era, não se contentando com o que era, e transformando-se em arremedo de si mesmo. Ao cobiçar o que lhe era proibido, a satisfação do desejo trouxe-lhe apenas vergonha, medo e morte, o que pode ser notado na sequência de desculpas esfarrapadas que o casal deu a Deus como tentativa de justificar o pecado, a desobediência, e o desejo injusto. O homem deixou de ser o que era, para se tornar o que não era, fazendo-se a antítese do que fora; trocando a amizade pela inimizade, o favor pelo dano, a certeza pela insegurança, a ordem pelo caos, a vida pela morte. O homem não pode, por seus próprios meios, voltar ao que era, à perfeição do momento em que as mãos do Oleiro o delineou. O homem só poderia ser ainda mais aquilo que o desejo, como uma maldição, estabelecera por castigo, punição, para o pecado. Cada vez mais, à medida em que as gerações se sucediam, especializava-se no apuro da perversão, da malignidade, do desprezo e oposição odiosa a Deus. O homem, por si mesmo, estava condenado a uma vida de destruição, tragédias, e o destino de caminhar até as profundezas da corrupção. Não havia esperança, nem conforto, nem alívio nele, somente o alastramento da dor, das feridas, produzindo maldade sobre maldade, aflição e angústia em uma existência permeada pela incapacidade de voltar a si, ao que fora um dia; ao ponto de essa volta sequer ser cogitada; não mais se lembrava do favor, da graça, da benignidade, e da responsabilidade com a qual Deus cuidava do homem. Ele se viu cada vez mais abandonado em si mesmo, e por si mesmo, sendo um fardo, uma desgraça sem reparação. O homem não podia viver para si ou por si; então, quanto mais distante daquele homem criado à imagem divina, tanto maior o desejo de aniquilar o Imago Dei em si, quanto mais autossuficiente e independente se considerava, tanto mais abandonava o conselho divino em favor da sua falsa sabedoria, quanto mais distante da ordem dada e mais próximo da desordem almejada, tanto mais ingrato e tolo, quanto mais fora de si, do homem criado à semelhança de Deus, mais odiosa e repulsiva parecia-lhe voltar ao homem perfeito. A verdade concreta do homem insuficiente sem Deus trouxe à tona, pelo desejo mítico, a realidade de que o mal fizera morada no homem e de que a sua alma estava completamente entregue a um desejo perverso de autonomia, o pesadelo da autojustificação sem que houvesse a menor chance de reparação. Fatalmente condenado, o homem estrebuchava em seus últimos estertores de vida. O desejo, como uma mentira na qual se fiou, afastava-o da verdade que não produziu, mas que lhe cairia sobre a cabeça, como uma sentença definitiva de morte. O castigo eterno não presumido, aproximava-se à galope, a despeito da obstinada rebeldia de negá-lo, assim como negou a si no passado, e o fazia novamente agora. Foi Thomas Mann quem disse a seguinte frase: “Para quem está fora de si nada parece mais detestável do que retornar a si mesmo”[44]. Ainda que ele não esteja se referindo à questão ora apontada, ao menos de maneira explícita, pode muito bem nos servir de analogia, quando confrontamos o homem perfeito, Jesus Cristo, o segundo Adão, com o próprio Adão e a raça humana. O homem sem a manifestação do poder do Espírito em sua vida é apenas um teimoso, envolvido em sua própria teimosia de odiar e ter aversão ao Homem perfeito que também é o Deus perfeito (e por ter a absoluta perfeição). Assim, o homem natural e caído satisfaz-se no desejo alcançado da imperfeição. Ao não desejar o que deveria, ele nega, pelo próprio desejo, a autonomia que diz ter, revelando o escravo que é, servo do pecado, sujeito a ele como o mais submisso dos criados. Por isso, o cético se atreve a empreender a sua cruzada “anti-Deus”, onde não existe apenas a inimizade contra o Criador, mas a ferocidade arrogante de não reconhecer a própria destruição.do leitor. De maneira geral, foi um misto de gozo e angústia intentar o exercício de trazer à luz o que existia apenas em esboços e linhas mal delineadas. Entretanto, devo ressaltar que nem todo o material, constante nestas páginas, é exclusivo das lições apresentadas no T.B.B.; há uma boa parte de trechos escritos “a posteriori”, alguns pensamentos “a priori”, e reflexões complementares acrescentadas ao corpo inicial, à medida que a obra tomava forma, como consequência necessária da sua redação; proveniente, em caráter único, das minhas considerações sobre os diversos temas propostos, não existindo qualquer comprometimento da liderança e membros do T.B.B. nas conclusões e no produto final apresentado, sendo, portanto, de minha inteira responsabilidade o que se vos apresenta. Contudo, não poderia deixar de agradecer a cada um dos contribuintes e corresponsáveis diretos no arremate desta obra, não necessariamente no que se encontra expresso, mas através das participações frequentes nas aulas, em conversas ocasionais e indicações de textos e obras. Seria injusto se, em especial, não creditasse ao pastor Luiz Carlos Tibúrcio, irmão e amigo, o estímulo necessário para desenvolver este plano, ao convencer-me, sete anos atrás, a aceitar a incumbência de tornar-me professor. Com ele, também, tenho aprendido muito, ainda que algumas coisas me sejam incompreensíveis no momento, por conta de minhas próprias deficiências, ressaltando a sua paciência insistente em não abandonar-me; e, ainda, ao amor e auxílio fraternal da igreja, sem os quais não se alcança qualquer conhecimento espiritual, nem experiencial, da autêntica vida cristã, somente possíveis no corpo local, pela união promovida por Cristo, de fazer para si um povo e de levá-lo à comunhão íntima com seu Santo Espírito. Como sempre digo, não há divergências, nem algum problema, que não seja dissolvido pelo amor do Senhor, o qual nos une e nos mantém unidos. É com grande alegria que entrego estas páginas ao leitor. Durante mais um ano, após o término letivo, estive envolvido com este projeto de agrupar, acrescentar e burilar os esboços servidos de aulas; algo por completo inusitado para mim, havendo um determinado momento no qual considerei quase impossível concluí-lo, dada a insatisfação com uma ou outra parte do texto, mas que, pelo favor divino, foi possível chegar a termo, e um desejo, por fim, realizado. Vê-lo, agora finalizado, é a demonstração da graça e bondade divina para comigo. Oro, do fundo do meu coração, para o Senhor utilizar este instrumento na edificação da sua santa igreja, e para a sua honra, porque “nele vivemos, e nos movemos, e existimos”[2]; e a Cristo seja dado todo o louvor e glória, eternamente! "Se obedecemos a Deus desobedecemos a nós mesmos; e é no desobedecer a nós mesmos que está a dificuldade de obedecer a Deus." (Herman Melville, Moby Dick) INTRODUÇÃO Preâmbulo Esta carta não recebe, entre a maioria dos cristãos, a devida atenção e o reconhecimento a que faz jus e que deveríamos consagrar. Muitos a leem superficial e rapidamente; talvez pela ideia de que, sendo o seu tamanho limitado (apenas 25 versos), não contenha algo de importante e profundo, ou uma doutrina bem elaborada, como se observa nas cartas paulinas. Nestas, temos uma riqueza doutrinária exposta de maneira ampla e detalhada, levando-nos a investigar seu conteúdo com muito mais disposição e empenho, escrutinando-as meticulosamente, saboreando sua sabedoria e profundidade em cada verso. Em contrapartida, quase negligenciamos as poucas linhas de Judas, quando não as tratamos com falta de apreço em nossos estudos, meditações e pregações, intensificando ainda mais, no cristão, o desleixo. Abre-se, assim, uma lacuna nas Escrituras na qual silenciamos a voz de Deus, impedindo-o de falar-nos através desse escrito. Talvez o motivo seja o fato de ela ter sido uma das últimas cartas a integrar-se ao Cânon Sagrado, sendo alvo de alguma disputa nos primórdios do Cristianismo. Talvez, ainda, porque Judas se utilizou de fontes apócrifas no texto, o que não significa, necessariamente, inverdade, porque em nada contradiz e diverge da unidade sobrenatural da Escritura Sagrada. Pode ainda ser que a máxima “tamanho não é documento” seja desprezada ao deparar-se com ela e muitos considerem a carta sem relevância para os dias atuais, fato a demonstrar, no mínimo, um desconhecimento monstruoso do quanto Deus pode revelar aos seus filhos em escassas linhas, que, no entanto, exalam o perfume bom e fundamental do Evangelho de Cristo. Certo é o fato de que nada disso retirar o seu caráter divinamente inspirado, a sua conformidade e a unidade com os demais livros canônicos; antes, ela torna-se um documento precioso e indispensável da história Cristã e da revelação especial, ao abordar pontos importantíssimos e caros à fé, alguns deles negligenciados em nossos dias, figurando como objeto de desprezo dos obstinados e tolos, os impostores da fé. À medida que se lê, medita, e analisa-a com diligência, deparamo-nos com a riqueza daquilo revelado por Deus ao seu povo, por intermédio de Judas. Escrita de forma objetiva e direta, ainda assim podemos compará-la a um verdadeiro tratado apologético, se não procedermos de forma negligente e inconveniente em relação à sua mensagem; uma mensagem cuja intensidade e profundeza encontra-se na exortação e alerta à igreja sobre a necessidade de desvelo e vigilância para com a sã doutrina. Reputar-lhe o seu devido valor é essencial para o saudável exercício da verdade, e “a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos”[3]. Nela não há nada que divirja ou contradiga algo dito e descrito na Palavra de Deus, tornando-a legítima, verdadeira e confiável integrante do Cânon sagrado. Principalmente em seu aspecto firmemente exortativo e apologético, na defesa da fé e no combate aos falsos mestres e doutrinas, a carta revela o perigo real dos servos de Satanás que, ardilosamente, se infiltravam na igreja a fim de compeli-la a sujeitar-se aos desejos do seu “mestre”: perverter a graça e causar divisões entre os irmãos. Então, Judas, conclama e desafia-os a batalhar pela fé, servindo ao único Senhor e Mestre, Jesus Cristo; resguardando e protegendo-se, como “ekklésía”, dos ataques heréticos promovidos pelos apóstatas que rejeitavam o Filho em princípios e na prática. Autoria, data e destinatários O autor, que dá nome à carta, provavelmente é o irmão de Tiago, o primeiro bispo de Jerusalém, cuja citação, sem uma especificação detida, indica certamente ser “Tiago, irmão do Senhor”. Somente este Tiago poderia ser citado sem a necessidade de acréscimos à sua identidade, visto possuir uma relevância ímpar na Igreja Primitiva. Desta forma, Judas configura-se como o meio-irmão do Senhor Jesus, filho de José e Maria (Mt 13.55; Mc 6.3) que, até antes da sua ressurreição, como os demais irmãos, não acreditava em Jesus como o Cristo, o unigênito Filho de Deus. Pode-se afirmar que, pelo fato de Judas ter negado a Cristo, enquanto este realizava o seu ministério terreno, achou por bem não se colocar como o seu meio-irmão; em atitude humilde, não reivindicou o parentesco com o Senhor. Porém, alguns apontarão o contrário, pois, ao revelar-se irmão de Tiago, indiretamente reclama para si o parentesco com o Senhor, inferência com a qual não concordo, visto ser-lhe mais prático, caso quisesse realmente reivindicá-lo, fazê-lo sem que houvesse qualquer dolo ou culpa. Entretanto, notadamente temos a sua preferência ou predileção por ser reconhecido como “servo de Jesus Cristo”, de novo revelando a sua reverência e submissão ao Senhor. Apesar de ser um nome comum entre os judeus, cuja raiz vem do Hebraico “Yada”, variante de Judá, significando “dar graças, louvor, elogio, glória a Deus”, este Judas distingue- se de muitos outros citados no Novo Testamento, como o Tadeu ou Lebeu (Mt 10.3), o qual era apóstolo, umComo uma nuvem opaca a envolver seus olhos, diz odiar o que é incapaz de crer, para entregar-se ao desejo de não crer, ou conhecer, e odiar como a afirmação da própria ignorância. E se esse homem está a navegar em um mar de muitas possibilidades, põe a sua segurança em um barco sem velas, motor, quilha ou timão; está à deriva, e ainda se considerará o senhor do seu destino. Se a graça de Cristo não o encontrar e o socorrer, não lhe restará outra coisa a desejar além de mais ódio, contra todos, contra tudo, até mesmo contra si (o ódio implícito que o faz entregar-se ao desejo explícito de rejeitar e negar a realidade divina). No final, o ódio lhe bastará para fugir da obrigação de encontrar-se naquele que é tudo, e pelo qual vivemos, nos movemos e existimos. O desejo jaz nesse homem, obrigando-o a renunciar a qualquer possibilidade de se tornar em o homem santo e perfeito, e a não cuidar de si. E os subterfúgios que utilizará apenas o farão não reconhecer o crime, mas não o impede de ser condenado como criminoso. A campanha impetrada não tem contornos sutis, ainda que possa surgir dissimuladamente sob o rótulo de “autoridade”, “academicismo” ou “erudição”. Torna-se evidente, porém, que o seu combate à religião nada mais é do que uma disputa contra o Criador (que, em seus delírios, acreditam possível), um ataque direto ao Deus pessoal, Senhor de todas as coisas, soberano e todo- poderoso. Assim, erigem um outro “deus” na forma do racionalismo, da ciência, dos ETs ou qualquer outra coisa que indique a superioridade humana diante de um mundo inexplicável e sem sentido, caso Deus estivesse realmente morto, como eles querem e apregoam. Na sua essência, estão excessivamente obcecados pela finitude, aparência e o formalismo, em detrimento ao infinito, espiritual e sobrenatural, cujas marcas fazem-se presentes não apenas no atual século, mas nos passados e vindouros. Contra a mentira e a impostura, o crente é chamado a batalhar pela fé, não pela morte e erradicação dos ateus, céticos ou relativistas e marxistas, mas para mostrar a superioridade do Cristianismo, não como um “balaio de gatos” ou um guarda-chuvas onde qualquer um, minimamente conhecedor ou mesmo ignorante das Escrituras, possa abrigar-se em comodidade, em nome de um pluralismo que faz apenas desconsertar, confundir e diluir quanto à verdade, fazendo da fé algo impessoal, descartável, passiva, estagnada. Não![45] O Cristianismo bíblico não é, e nunca foi, um lugar aprazível, idílico, no sentido de ser aceito sem resistência espiritual e, muitas vezes, também física. Como Jesus disse: “Tenho-vos dito estas coisas para que vos não escandalizeis. Expulsar-vos-ão das sinagogas; vem mesmo a hora em que qualquer que vos matar cuidará fazer um serviço a Deus. E isto vos farão, porque não conheceram ao Pai nem a mim... Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (Jo 16.1-3, 33). Pois, onde está o nosso inimigo? Se não o vemos, seja por estar camuflado ou fingindo-se amigo? Contra quem lutaremos se não podemos identificá-lo, reconhecendo, ao contrário, que todos são nossos amigos? Se Cristo veio para revelar as trevas e destruí-las com a sua luz, por que dizemos ver, ao nosso redor, uma bruma na qual não distinguimos um palmo à frente do nariz? Se não somos perseguidos, nem escorraçados, ou presos e condenados por nossa fé, é sinal de que somos aceitos pelo mundo, ou o mundo está fazendo-se de tolerante e amigo para impedir- nos de combater o bom combate e guardar a fé? (2Tm 4.7). À frente analisarei mais detidamente essa questão. PARTE TRÊS LOBOS ENTRE OVELHAS "Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo" A Guerra Dentro Da Igreja O autor revela-nos então o motivo do seu chamado a batalhar pela fé, porque introduziram-se no seio da igreja homens ímpios, profanadores e detratores dos ensinamentos de Cristo. Satanás tem muitas formas de afligir os crentes, de perturbá-los a fim de demovê-los da fé. Felizmente, como o autor disse outrora, estamos guardados e protegidos por Cristo, o que, contudo, não impede o inimigo de atentar contra nós. E uma das maneiras mais sutis e perspicazes com as quais ele se investe contra os santos é a de introduzir entre as ovelhas do Senhor seus agentes, os lobos e bodes cruéis, que buscarão a todo custo dispersar e transtornar o rebanho, sem piedade e sem poupá-lo (At 20.29). Atentemos para o alerta de Cristo quanto à vigilância e prudência, ao designar-nos como seus mensageiros no mundo: "Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas" (Mt 10.16). Havia uma preocupação com os seus servos e o modo como reagiriam quando postos diante das iminentes vicissitudes em decorrência de uma vida cristã fiel e empregada na propagação do Reino, ou quando confrontados pela incredulidade, perversidade e doentia oposição dos inimigos. O que aconteceria ao serem injustamente acusados, injuriados, perseguidos, açoitados, encarcerados e mortos por causa do evangelho e ao professarem o nome do Santo? Naquele momento, em que a Palavra era primeiramente pregada e alcançava as trevas dissipando-as com a sua luz ofuscante, o cuidado era de que, primeiro, os discípulos não fossem pegos de surpresa e soubessem o que haveria de lhes acontecer. No caso de Judas, o alerta referia-se ao cuidado e zelo para com aqueles que adentravam a igreja com o nítido desejo (ainda que dissimulado, velado), de destruí-la; pois, se antes a guerra era no mundo, com aqueles que odiavam e queriam destruir a igreja com suas perseguições, prisões, execuções, mentiras e infâmias, agora o combate ganhava um novo espaço. Precisamente, ocorria dentro da igreja, não mais por aqueles que odiavam o Corpo de Cristo, mas por aqueles que se fingiam, e diziam, ser um dos seus integrantes, afirmando amá-lo, mas querendo transtornar-lhe os sentidos, num regresso ao mundo perdido, à consciência perdida e distante de Deus. Não queriam outra coisa a não ser extinguir a chama do Espírito, fazer os cristãos voltarem ao que eram, às práticas abomináveis do paganismo, subvertendo a ordem interior em direção ao caos moral, ético, abdicando dos direitos recebidos por Cristo e sua pregação, negando os deveres igualmente recebidos. Se, por um lado, havia uma excessiva espiritualização deflagrada pelo gnosticismo e um afrouxamento do caráter, por outro lado, exigia-se o cumprimento legal de práticas antigas e abolidas pelo Senhor, o farisaísmo, como sombras dissipadas pela luz. Em meio a esse redemoinho de ideias e propósitos, encontramos a igreja no centro das ações, sendo alvejada por todos os lados. Se antes os atos maléficos eram facilmente identificáveis através dos algozes e a face do inimigo podia ser vista com nitidez, em sua provocação e crueldade explícitas, nesse momento, as heresias e apostasias eram sutilmente plantadas, com ares de piedade e até mesmo de serviço a Deus. No entanto, os inimigos de Cristo negavam a eficácia da Palavra[46], porque nunca poderiam chegar ao conhecimento da verdade, posto viverem em corrupção de entendimento, reprovados quanto à fé, e no intuito de desestabilizar o rebanho, dispersam-no, para destruí-lo mais rapidamente (2Tm 3.5,7,8). O inimigo, que anteriormente não se camuflava, mas fazia questão de mostrar os seus verdadeiros intentos, agora estava disfarçado de ovelha, introduzira-se entre os santos, dissimulando os seus infames empreendimentos com o fim de afastá-los do único capaz de protegê-los, o Bom Pastor (Jo 10). Se antes a batalha era no campo do inimigo, agora ela se dava dentro da igreja. Se antes era exterior, agora era interior. Por isso o autorfalou de homens ímpios que converteram em dissolução a graça de Deus, negando-o. Ora, subentende-se que aquele que anula a graça divina nega a Deus, pois não é possível reverenciá-lo negando a sua eficácia. De outra forma, se tomarmos a expressão “Graça” por evangelho, não é possível ao homem que despreza, transtorna e corrompe a palavra de Deus tornar-se um adorador ou súdito. Se existe desprezo à doutrina revelada especialmente, não há de se reconhecer o seu autor. O que muitos desavisados fazem é validar uma suposta fé verbalizada, a fim de camuflar a rebeldia e desprezo aos mandamentos e preceitos divinos. Como também nos foi dito pelo Senhor: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mt 15.8-9). E ainda, outra vez: “Se vocês me amam, obedecerão aos meus mandamentos” (Jo 14.15). Então, como posso negar as leis e não negar o seu autor? Como se pode afirmar o amor a Deus, rejeitando a sua palavra, e pretender cumpri-la? É possível descumprir os preceitos e honrar o seu criador?... Subsiste uma tentativa sutil de legitimar a mentira e a impostura, dizendo-se honrar aquele que as proíbe e odeia. Talvez, por isso, haja cada vez mais uma difusão da ideia de o crente não precisar da sã doutrina, de ela ser coisa de homens, bastando um espírito amoroso para se estar ligado a Deus (sendo o amor aqui o salvo-conduto para o desleixo, a indolência, a inépcia, o engano, a dissolução, o pecado, a heresia). Como nunca, tem-se intensificado o espírito na igreja de que os sentimentos e emoções são o norte pelo qual o crente deve se guiar, numa inversão de princípios absurda, na qual sinceridade e verdade se tornaram sinônimas. Quase nenhuma doutrina deve ser defendida e, quando muito, cabe a cada um saber em qual aspecto ela lhe é interessante ou não, deve ser descartada ou não, sempre moldada ao apelo ou desejo pessoal; em uma equação proporcional na qual, diminuindo o fervor e o estudo da Bíblia, aumenta-se o número de crentes fracos, inseguros, supersticiosos, moldados segundo os seus desejos e se tornando presas fáceis para as astúcias malignas. Quando a igreja despreza uma ordem direta do Senhor de que o evangelho deve ser proclamado e ensinado, fazendo-se discípulos (Mt 28.18-20), a proximidade com o mundo será mais intensa e menos distinguível. Por outro lado, há aqueles que, alcançando a liderança, sutilmente corrompem o evangelho, substituindo a exposição da palavra, o louvor verdadeiro, a reverência e temor necessários pela efusiva apelação a métodos estranhos e danosos, numa overdose de frases, músicas e ensinos com o nítido objetivo de afagar o ego, relativizar a realidade, dissuadir a consciência da verdade, mantendo o homem em estado de resignação, na quase satisfação (se fosse possível) quanto à sua condição pecaminosa e inimizade com Deus. Esta, em linhas gerais, é a grande capacidade da heresia de se reformular e se aproximar da verdade, fazendo com que as diferenças pareçam insignificantes – no fundo, tornam-se a mesma coisa, aos olhos ansiosos pela sedução –, acompanhada de um compêndio de justificativas insanas e perigosas, tornando- as ainda mais diabólicas. Se antes havia a doutrina bíblica, agora não existe mais, e o que não era doutrina bíblica transforma-se na própria maldade pelas bocas de seus defensores; acreditando ser possível redefinir as palavras do Senhor: “Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons” (Mt 7.17- 18). Nesta linha de raciocínio, seriam capazes de pular da Torre Eiffel em pelo e sair voando como pássaros. Porém, se apenas os morcegos, aves e insetos têm o dom natural de voar, é crível uma árvore má dar bons frutos? Pelo contrário, ela será cortada e lançada no fogo (Mt 7.19); porque é impossível, sem conversão, que o homem natural dê “frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus” (Fp 1.11). Não contente em ter o inferno, querem dividi-lo com o máximo de pessoas disponíveis e, num “jogo de cartas marcadas”, onde o blefe, a imitação, é a tônica das suas ações, promovem as obras da carne, em evidente intenção de iludir para enganar, as quais são: “Adultério, fornicação, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus” (Gl 5.19-21). Esquecem-se, porém, de que, “tudo o que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7). Creem plantar para outros a condenação, mas acabam por plantá-la a si mesmos, havendo uma difusão da cegueira tal que, tateando em trevas, estão certos de não exporem a própria escuridão. Assim, com o objetivo de combater a verdade, incitam, pregam e vivem a mentira, enquanto a verdade é desprezada, tornando-a antiquada e irrelevante. Infelizmente, esses falsos mestres penetram nas igrejas como crentes estabelecidos, autoridades, que, via de regra, são reconhecidas pelos seus feitos e ganham a atenção especial da comunidade cristã, de modo que seus ensinos espalham-se como erva daninha, alastrando os seus sistemas de heresias, através de uma rede de deslumbrados, estultos ou crédulos, empenhados em propagandear os objetivos importunos, nocivos e artificiosos, traindo a boa-fé e ingenuidade irrefletida da igreja, que tem como aliada inestimável a ignorância das Escrituras. Sutilmente a heresia contamina-as, pouco a pouco, tornando-a popular exatamente por ser “quase” a verdade e se amoldar perfidamente à natureza caída do homem (um misto de arrogância e autossuficiência capaz de implodir definitivamente a “imago dei” existente). O homem, por sua vez, é incapaz de vê-la, e mesmo os que a veem, por sua perspicácia, acabam por considerá-la inofensiva ou uma verdade recriada, uma espécie de “Frankenstein teológico”[47]. Para eles, existe a verdade sem Deus ou Deus sem a verdade; mas a verdade sem Deus não existe, nem Deus sem a verdade, porque a primeira não passa de abstração, a loucura máxima a que o homem pode atingir, enquanto a segunda é a blasfêmia em sua forma mais virulenta, a treva mais densa na qual o homem pode penetrar; porque a verdade, para ser real e não uma fantasia leviana, tem de provir de Deus, o qual é a única verdade (Jo 14.6). Para eles, a verdade não precisa ser defendida nem proclamada, mas escondida a sete chaves como um tesouro secreto do qual não se sabe o esconderijo nem se tem o mapa. Outros alegam o fato de ela ser dependente do veículo que a professa, ou seja, ela não existe em si mesma, mas a partir da concepção e interpretação das pessoas, podendo um mesmo fato ser verdadeiro para mim e falso para alguém ao meu lado. Porém, por que devo aceitar essa concepção, rendendo-me ao argumento do seu promotor, se, em favor de si mesma, ela não pode alegar nenhuma autenticidade, nenhuma razoabilidade? De que seja verdadeira? Se não existe a verdade e tudo pode ser moldado à minha intuição, como posso garantir que sou o que sou? Mesmo sendo um demente, considerando-me um cão ou uma palmeira, a despeito da minha incapacidade de reconhecer-me, ainda continuarei sendo o mesmo homem, vivendo o delírio de ser um animal irracional ou vegetal. Nada, a despeito dos meus esforços, me fará tornar-me qualquer um deles e aos olhos de todos continuarei pertencendo à espécie humana. Não há convenções que alterem isso, a menos que estejam desfocadas da realidade, contaminadas pelo próprio vício de não desejarem ser o que são. Torna-se compreensível a insistência moderna na relativização de tudo, pois, assim, pode-se viver com mais intensidade aquilo que se é e tenta-se negar: uma alma em profundo estado deagonia, de aniquilamento. Há uma aglutinação de forças empenhadas em mistificar, alegorizar, relativizando ou colocando certas passagens na categoria de ficção ou fantasia, para justificarem a própria rebeldia. Para isso, muitas vezes apelam para a polidez, para a razão, ludibriando o interlocutor e escondendo a sua intransigência, irracionalidade e descaramento, numa perseguição insistente com a finalidade de destruir a fé, trazendo para o seu círculo mais e mais filhos do diabo. Mas, graças a Deus por nos dar a sua revelação, a Bíblia, a qual é: “Divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (2Tm 3.16-17). Para eles, a igreja não precisa da verdade. Como Paulo diz, eles não suportarão a sã doutrina: “Mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (2Tm 4.3-4). Para que crer na verdade? Se pelo humanismo é possível acomodar o homem no redil das incertezas, incitá-lo ao pecado, à apostasia e ao nominalismo religioso? Para eles o que importa é a aparência, a reputação, o sucesso e a covardia de jamais admitir a cumplicidade com o mal, tolerando-o utilitariamente a fim de obter seus interesses pessoais, além de permitirem que todo tipo de heresia substitua os princípios fundamentais da fé. Afastam- se, assim, da revelação divina (não são precisas todas as heresias; uma ou duas, são o bastante, e o trabalho sujo estará feito) e da sua santidade prática. Pois o discurso, por mais eloquente e belo que seja, jamais surtirá os efeitos verdadeiros da sua pregação, não somente quanto ao ensino equivocado, vicioso, mas também quanto à sua realização e efeitos, não levando os perdidos e desgarrados a Deus, nem o glorificando. Para eles é fundamental abandonar a objetividade da Palavra e uma vida santa e substituí-las pela subjetividade, o egoísmo, o individualismo, o sentimentalismo e o hedonismo como filosofias de vida, onde a dissolução e a falsa liberdade os manterá em prisão, indo “de mal para pior, enganando e sendo enganados” (2Tm 3.13). Por quê? E qual a finalidade? Muitos falsos mestres não se esquivam de reescrever a palavra de Deus ao bel prazer, sempre com objetivos escusos: enriquecimento, poder, fama, ou a propagação de um “truque”. Sendo assim, ao diluírem a palavra de Deus a fim de torná-la aceitável aos descrentes, esses líderes buscam a aprovação dos homens negando a autoridade bíblica e tornando-a o mais agradável possível ao mundo. Com isso, rejeita-se toda a verdade colocando-a no rol dos mitos: Cristo, o Espírito Santo, a expiação vicária, a salvação, regeneração, santidade, e todo o conjunto de doutrinas cristãs (inclusive a Eclesiologia), pois a negação de qualquer um deles implicará na recusa inevitável do próprio Deus. Em nome da verdade, todo crente deve lutar contra a heresia e a fraude perpetradas por Satanás e seus discípulos (não digo que todos os erros são intencionais, por dolo; muitos são apenas culpados de aceitá-los e difundi- los); porque sempre teremos a segurança pela fé. Como ovelhas, ouvimos a voz do Bom Pastor, somos conhecidos dele e seguimo-lo, o qual nos dá a vida eterna, de modo que nunca haveremos de perecer e ninguém nos arrebatará de suas mãos (Jo 10.27-28). Esta é a mais indubitável e sublime verdade, da qual muitos duvidam, o que os leva a não querer ouvi-la, recusar-se a crer nela, com a simples alegação de que é um dogma. Entretanto, pense um pouco: se são estabelecidos antidogmas para negarem e anularem outros dogmas, o fato de haver um dogma, por si só, não o coloca na condição de falso, inventado ou distorcido. Para avaliar sua legitimidade, deve-se considerar se tem fundamento na palavra, se foi protegido pela Igreja no decorrer dos séculos e se está em harmonia com o Cânon. Se não reconhecermos como autoridade a Escritura Sagrada, sendo ela proveniente do Deus bíblico, qualquer tentativa de negação ou enfraquecimento do fundamento fará ruir todo o edifício. Em outras palavras, se Cristo não for o alicerce dessa casa, ela desabará por completo, não sobrando nada além de escombros, poeira e entulhos nos quais os hereges dizem-se firmados e estabelecidos. Somente Cristo pode nos libertar das ruinas, através do Evangelho. Sem ele, tudo é permitido, mas nada possível; sem ele, a condenação é certamente a mais pura verdade, a despeito de todas as negativas, suposições, dúvidas e imposições, em nome da exaltação humana e do rebaixamento divino, de um liberalismo intoxicado pelo ódio à verdade em detrimento dos princípios da ortodoxia e ortopraxia cristãs. A heresia é uma conversão; um trajeto natural e tortuoso, o caminho inverso pelo qual a igreja trilhará ao se afastar da verdade, ao opor-se ao Evangelho, desprezando Cristo, o qual revelou-lhe a própria desobediência: “O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem, e o homem mau, do mau tesouro do seu coração tira o mal, porque da abundância do seu coração fala a boca. E porque me chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo?” (Lc 6.45-46). Crer no evangelho, mas não o proclamar; crer em Cristo como Senhor e Salvador, mas não o obedecer; ver a igreja como uma extensão do mundo, colocando ambos em pé de igualdade; não se preocupar em dar bons frutos, nem com a conversão dos ímpios. Se seus pensamentos e ações são norteados por essas ideias e atitudes, cuidado! Abandone- as de imediato, rejeitando as mensagens tolas, psicológicas, de autoajuda, despropositadas, sentimentaloides. Renuncie à ideologia diabólica que o quer preso às armadilhas deste mundo, proclamando um reino superior quando se está nas profundezas abissais do inferno, mantendo-se perdido em si mesmo como um cão cego e epilético a perseguir o próprio rabo. Entregue-se à suave palavra de Deus e não faça pouco caso da sua consolação. Arrependa-se e ponha fim aos seus pecados e às suas iniquidades, praticando a justiça (Dn 4.27). Ouça o alerta: onde os princípios bíblicos encontram-se corrompidos e demolidos, não sobra mais o que destruir. Por fim, o autor aponta para algo que provavelmente já acontecia em sua época, a descrença na divindade de Cristo. Ao afirmar que negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo, fica evidente que essa era uma dúvida posta sem escrúpulos, de maneira atrevida, a fim de solapar as características distintivas da igreja, pelos inimigos em seu seio. Então, ele afirma a divindade do Filho, o domínio e o senhorio do Filho, para que os irmãos, abalados pelas dúvidas e em algum aspecto seduzidos pela heterodoxia, soubessem que ali estava algo fundamental, a pedra sólida da fé cristã, a pedra de esquina citada nas Escrituras de que Cristo é Deus, criador de todas as coisas e mantenedor de todas elas, Senhor de tudo e todos. Não havia porque duvidar, nem vacilar ou transigir com a maledicência dos impostores e sabotadores, rebeldes travestidos de servos, por isso, o chamado à defesa da fé verdadeira, cujo princípio essencial é Cristo, a Segunda Pessoa da Trindade Santa; logo, o Filho é Deus. Não entraremos nas várias heresias que tentam justificar a não divindade de Cristo; esse não é o ponto abordado por Judas. De forma direta e objetiva, ele alerta a igreja a não cair na perversão de negar a união do Filho com o Pai e o Espírito em essência, natureza e propósito, na qual a honra e glória destinadas ao Pai, também são do Filho, como do Espírito, pois os três são um (Jo 5.7)[48]. Não são três manifestações ou estados de uma única pessoa, mas três pessoas eternas, inseparáveis, porém distintas, sendo um único Deus. E a verdade é que, ao tencionarem “criar” um outro Cristo, não se aperceberam de que, acreditando terem algo, não tinham nada, pois ou Cristo é o Filho de Deus, sendo o próprioDeus, ou tudo o que imaginam dele, como um simples homem, mestre ou espírito elevado, se dissipa no ar como éter. Tendo apenas uma imagem do que a fé pequena, imperfeita e humana consegue vislumbrar, sem a sublimidade e o selo do Espírito, o qual negam, esses homens concebem o que desconhecem firmados em nada além de si mesmos e seus pensamentos. Fazem as deduções possíveis de mentes limitadas e conhecimento incompleto, as quais relutam obstinadas em reconhecer a verdade, por ser ela grandiosa e muitíssimo maior do que apreendem[49]. Contudo, a ideia da “supremacia” da razão é capaz de levar o homem ao pensamento mais reducionista e falível, ao primarismo de sujeitar à sua autoridade aquilo que, na verdade, é a autoridade sobre ele. Se for moldada aos particulares e restritos limites das suas almas, tal autoridade implicaria na inexistência da própria humanidade, da vida. Por outro lado, a mente, se submissa e cativa à Cristo, resultará na postura humilde de que não é ela o princípio e o fim de todas as coisas e de que não existe um tipo de fé inabalável no homem. Essa postura, mesmo a uma distância infinita, faz com que esses homens cheguem à conclusão de tudo se resumir ao tempo, e de que, havendo tempo, todas as coisas serão explicadas em seus mínimos detalhes. Para aqueles que negam a Palavra de Deus, não existem os efeitos noéticos do pecado. Tudo se resolverá, bastando ao homem a persistência logévola, ou evolução, de modo que ele acredita tenazmente na capacidade intelectual de levar tudo a cabo, na certeza de ter o conhecimento, o universo, e os mistérios a um toque dos dedos, como o balançar de uma varinha de condão. Ao se levarem muito a sério, não têm consciência da tênue linha na qual se equilibram e de qual queda iminente se avizinha: esta será uma queda sem volta, de onde não mais sairão, com tempo suficiente para aprenderem, de si mesmos, o que são, e como desprezaram e negaram aquele que é, e sempre foi, e será (Hb 13.8). O problema está na incapacidade de se compreender a dimensão infinita e eterna de Cristo, e, por conseguinte, da Trindade. Como as bases do liberalismo e do racionalismo sempre foram os limites da razão humana, e sendo ela limitada, imperfeita, além de estar sob a égide do pecado, torna-se muito fácil expurgar a verdade da Bíblia, bastando para isso falseá-la com ares de intelectualidade e academicismo; contudo, não disse o Senhor? “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve” (Mt 11.25-26) Independente da forma ou maneira como a mentira e a heresia arianista[50] penetrou naqueles tempos, subsistindo ainda hoje, para a desgraça e perdição de quem nela põe a sua fé, devemos rejeitá-la prontamente, como algo maligno e do qual devemos nos afastar, evitando a sua propagação e defesa entre os irmãos, pois esse foi o erro da igreja no passado: acolher, e conviver, passivamente os hereges. O próprio Ário, depois de sucessivamente condenado por suas blasfêmias, acabou sendo reabilitado por Constantino, a despeito da recusa com veemência de Atanásio, bispo de Alexandria, o qual se recusou a aceitá-lo na igreja, sem que se arrependesse. Entretanto, parte da igreja acabou sendo tolerante com ele e seus seguidores, havendo uma expansão da sua heresia, presente, na atualidade, em muitas igrejas ditas cristãs, como, por exemplo, os Testemunhas de Jeová, e outros grupos unitaristas (um movimento crescente entre os pentecostais também). Que nos sirva de lição a contemporização com o mal e a indigência espiritual, para não nos entregarmos à indolência, mas sermos vigilantes, verdadeiros soldados do exército do Senhor! Mais do que uma predestinação vislumbrada Outro fato relevante e que pode passar desapercebido diante do objetivo principal da exortação de Judas é que, após relatar que se introduziram alguns, ele escreve “que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios”. Mas, por que escreveu isto? Com qual objetivo? Este trecho não parece deslocar-se do restante do verso, como algo a acrescentar pouco ou nada? É inevitável observar que, para Deus, é impossível algo acontecer sem o seu consentimento, sem a sua vontade estar manifesta. Ele não pode ser pego de surpresa ou desprevenidamente por qualquer evento, sem saber, sem antevê-lo e preordená-lo. Não estou a defender a ideia de o Criador apenas vislumbrar, ver ao longe todos os fatos e processos históricos para, somente então, decretá-los ou predestiná-los, como é a visão da maioria dos cristãos. Deus não é assim, contra-atacando ou reagindo a uma ação prévia. Antes, ele é a causa primeira e última de todas as coisas, aquele pelo qual tudo se realiza ou, então, nada viria a se conceber. Ele não é um espectador, assistindo ao desenrolar cronológico com passividade, deixando que os personagens da história (toda a criação) agissem e interagissem como bem entendessem[51]. Não; porque dois dos seus atributos são a soberania e o todo-poder de ser o agente da história, o seu construtor, motivado exclusivamente pela sua vontade, além dos demais atributos, os quais se comunicam de forma inseparável em seu ser: a união de toda a sabedoria, toda a santidade, todo o amor e tudo o mais a constituir o caráter divino. Deus não vislumbra os acontecimentos como se algo houvesse lhe escapado ao controle, realizando-se à sua revelia, onde os fatos estariam à margem da sua vontade e poder, envolvendo-o caoticamente, como um bombeiro sem água diante de um incêndio. Sim, para muitos, Deus é um bombeiro a apagar os incêndios surgidos à sua revelia, como consequência natural da omissão ou incapacidade de guiar, de prover todas as coisas. Ao mesmo tempo que se apela para a sua completa soberania, defende-se também o fato de Deus “abrir mão” de alguns atributos a fim de favorecer a autonomia da vontade humana, o que é costumeiramente confundido com o famigerado e pouco compreendido “livre-arbítrio”. Do ponto de vista do senso comum, o livre-arbítrio é sinônimo de escolha ou volição, quando do ponto de vista metafísico ele antecederia essas etapas, caso existisse. Não há, ao meu ver, como equiparar o livre-arbítrio e a volição, pois enquanto aquele significa neutralidade ou um caráter isento de influências, esta somente surge a partir de um conjunto de elementos norteadores. Talvez, na raça humana, caso alguém tenha tido o livre- arbítrio, esse alguém seria Adão. Entretanto, mesmo ele não esteve debaixo da isenção ou neutralidade da vontade, posto estar sob o foco de duas coações ou influências: a divina, que lhe deu a lei ou norma de não comer do fruto da árvore do bem e do mal; e, por fim, a da serpente, que com a sua astúcia convenceu-o à desobediência. Sem as influências, sejam interiores ou exteriores, teríamos uma pessoa sob a égide do livre-arbítrio, que, no entanto, não poderia fazer qualquer tipo de escolha, exatamente por estar sob o estado de neutralidade, de indiferença a incapacitar-lhe qualquer decisão. Isso me leva a crer que nem mesmo Adão deteve o livre-arbítrio, posto que a sua vontade estava sempre sob algum tipo de influxo ou estímulo, a divina, a diabólica ou a natureza pecaminosa. Após a Queda, tudo se complicou ainda mais, pois estamos, desde o nascedouro, sob o domínio constante do pecado, de maneira que tanto o intelecto, como os sentidos e o caráter do homem encontram-se contaminados e corrompidos. O que muitos defendem é o fato de esse homem, imperfeito e tolo, estar na direção da história, de tal maneira que ele pode resistir, transigir e anular a vontade divina. Haverá um malabarismo semântico e filosófico para respaldar essa ideia estranha às Escrituras: a de o governo divino estar debaixo da autoridade humana, a ponto de, enquanto o homem é o incendiário, Deus não passar de um bombeiro ou salva-vidas. Não cabe, neste ponto,uma discussão ou exposição mais minuciosa sobre o assunto, porém muitos dos desvios da igreja e a perda da sua identidade com Cristo se devem ao ensimesmamento do homem, que tem de alcançar o status de independência até mesmo de Deus. Esta visão faz o Senhor parecer inepto, omisso ou desinteressado, negligente ou incapaz de cuidar de toda a sua obra, quando nos mínimos e mais insignificantes detalhes tudo está sujeito à sua ordem, à sua vontade soberana, e nem a menor partícula do universo surge, se desenvolve e age por algum princípio de autonomia. Antes, sustenta-se pelo poder daquele que tudo criou e pelo qual tudo subsiste (Hb 1.3). Como está escrito: “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma: temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo. Não se vendem dois passarinhos por um ceitil? E nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai.” (Mt 10.28-29) Ora, se nem um passarinho, por menor que seja, cai sem se manifestar de forma objetiva e direta a vontade divina, podemos dizer o mesmo daqueles homens iníquos a invadirem a igreja primitiva, intentando destruí-la? Estaria o Senhor agindo descuidada e levianamente? A ponto de ver frustrado o seu plano? Quanto a isso, o autor nega com vigor e veemência, pois eles haviam sido antes escritos para esse fim. Mas qual seria esse fim? Judas usa a expressão “juízo”, designando uma sentença, uma condenação, punição. Aqueles homens, antes determinados ou escolhidos para adentrarem a igreja e praticarem suas impiedades, também foram feitos réus antes mesmo de nascerem, antes de praticarem o mal inevitavelmente desejado. Na mente divina, há um nítido objetivo para estarem ali, ou um leque de objetivos a fim de cumprirem um propósito específico. Poderia citar, por exemplo, a finalidade de purificar, amadurecer e fortalecer a igreja contra combates ainda piores a serem enfrentados no futuro. O certo é haver Deus escolhido aqueles homens maus para fazerem uma determinada obra na igreja, com um fim definido, e, por terem-no realizado, seriam irremediavelmente condenados. O verso ressalta a soberania divina e o seu caráter cuidadoso para com a igreja, mesmo trazendo sobre ela lutas e sofrimentos, algo que não podemos aquilatar em detalhes por causa da nossa pequenez e incapacidade de alcançar perfeitamente a mente de Deus (como pode a mente limitada, imperfeita e pecaminosa do homem compreender totalmente a mente infinita, perfeita e santa do Senhor?). Podemos, contudo, aceitá-la como verdadeira, visto ser um dos pontos mais relatados nas Escrituras, revelando-nos um Senhor definido, necessário e de deliberada resolução; o Deus a mover todas as coisas para um fim, as quais não acontecem pela aleatoriedade ou casualidade, mas pela sua determinação ou conselho. Em outras palavras, o autor está a falar-nos de uma doutrina estigmatizada e demonizada pela maior parte da igreja na atualidade, a doutrina da predestinação. Deus predestinou a igreja a passar por essas provações, assim como predestinou aqueles homens iníquos para afligirem-na. Considero por bem ressaltar, mais uma vez, este ponto: a ação divina não é passiva. Não é como se Deus visse que o homem se salvaria, se santificaria, se esforçaria em entrar no Reino, o aceitaria e, então, somente então, Deus o predestinaria e elegeria. Que eleição é essa onde o eleito é quem se autopredestina? Onde o escolhido se escolhe e impõe a sua escolha por seus próprios méritos para aquele que o predestinou? O que vem primeiro: a predestinação ou o esforço do eleito em satisfazê-la e, por fim, vir a ser predestinado? Seria o mesmo que dizer: alguém se afogou antes de entrar na água. A predestinação, por mais que se queira distorcer o seu sentido, tem somente uma definição: Predestinar - (latim praedestino, -are)[52] 1. Eleger desde a eternidade (ex.: afirmou que Deus predestina os justos). 2. Destinar para grandes coisas ou para determinado fim. = eleger 3. Destinar com antecedência Predestinar é a atitude de destinar com antecedência, decidindo previamente, e não o ato de antever o que irá acontecer e então determinar que aconteça. Fica a pergunta: quem garantiu que o evento aconteceria? Deus? O homem? O acaso? Forças impessoais? Ou a cooperação mútua dessas forças? Seguindo essa lógica, se Deus viu o que iria acontecer como algo certo, uma vez que o previu, por que o determinaria, já que o fato é, em si mesmo, exequível e não dependeu da sua vontade ou decisão para ser observado? Nesse caso, Deus seria apenas um oráculo, o qual somente vislumbraria o acontecido, sem nenhum controle sobre ele. Pelo contrário, o fato previsto seria soberanamente livre, impedindo Deus de agir para mudá-lo, ainda que não fosse de seu agrado. Isso não levaria à conclusão de que esse “Deus” antes de ser pessoal é um “Deus” impessoal? E a predestinação, assim como a eleição, não passaria de uma piada sem graça, um chiste, que tornaria esse “Deus” uma mera testemunha a endossar forçosamente até mesmo o que lhe contrariaria? De forma que a sua soberania seria duvidosa, e tudo, desde a Criação, teria de ter outra explicação. Tudo, na verdade, não poderia vir da vontade desse “Deus”, mas de outra força, pois o que ele faz é consentir que cada evento ocorra como vislumbrado; assim, a sua vontade seria adequada a cada evento, de tal forma que eles permaneceriam imutáveis. A vontade dele se subordinaria à inexorável realização do ato antevisto, o que levaria à quebra de outro atributo divino: a imutabilidade, já que os fatos, em si, seriam imutáveis e Deus condicionaria ou flexibilizaria o seu governo segundo a realidade soberana da vontade humana. Esta seria a mesma vontade que dirigiria a história e levaria Deus apenas a validá-la, a endossá-la, como uma posse indevida de algo que não lhe pertencesse intrinsicamente, algo que pareceria seu e refletiria uma autoridade derivada. Por todos os lados, o que temos aqui não é o Deus bíblico, mas alguém impotente, escravo da visão; um “Deus” transitivo quando a revelação nos apresenta o Deus intransitivo, completo e perfeito em si mesmo. Sem contar o elemento “tempo”, no qual ele estaria preso ou condicionado.[53] Porém, alguém pode questionar: Por que Judas tocaria nesse ponto doutrinário sendo que o objetivo da sua carta é exortar a igreja a cuidar-se, a defender-se do ataque dos inimigos e falsos mestres? Sendo a predestinação uma doutrina rejeitada pelo que podemos chamar de “igreja moderna ou humanista” (ainda que seus postulados sejam bíblicos), quis chamar um pouco mais de atenção ao fato do autor citá-la, mesmo brevemente[54], já que não há, nas Escrituras Sagradas, nada irrelevante, despropositado ou supérfluo, que seja escrito e não deva ser examinado com a devida atenção. Trata-se do resumo da vontade divina expressa e entregue aos homens para o conhecimento e a oportunidade de sair da ignorância e trevas interiores e assemelhar-se ao homem perfeito, Cristo, o fim ao qual Deus destinará todo o seu povo. Como já foi dito, não há uma asserção, neste verso, de um trecho deslocado ou desprendido do cerne da ideia, mas uma unidade e complementação a todo o conjunto da epístola, tornando-a harmoniosa em seu conteúdo, sem que haja discrepância ou excesso. Logo, por que Judas nos fala daqueles homens ímpios, predestinados para o juízo, em meio ao alerta à igreja? Porque ele não quer deixar dúvidas quanto ao cuidado de Deus para com o seu povo, algo que sempre fez e continuará fazendo pelos séculos, nem quanto ao fato de o seu zelo para com a igreja ser consequência do extremado amor, diligente e fiel em preservá-la e sustenta- la. Nem mesmo as tribulações, sofrimentos e angústia perpetrados pelos inimigos serão entrave para a sua consagrada direção. A Igreja não está alheia ao seu desvelo, nem desfocada em seu propósito, no qual nada é ocasional ou fortuito. Nenhum evento pelo qual o corpo de Cristoserá acometido é desconhecido da sua vontade, pelo contrário, todos fazem parte da sua vontade. Por ela existem e por ela sobrevêm ou morrem. A igreja não será abandonada, aconteça o que acontecer! Deus não a despreza nem rejeita, antes a edifica, fortalece, sustenta, santifica, para que seja semelhante ao seu Filho Amado, permanecendo na fé e capacitada a realizar a obra que lhe foi destinada, obra exclusiva, somente realizável por ela, capaz de produzir os frutos necessários para a glória do Senhor. Judas não é um “abelhudo” a se intrometer indevidamente nas coisas de Deus; porém, para a sua glória e confiança da igreja, ressalta que as investidas dos lobos entre as ovelhas não são algo que Deus trabalhará contingentemente, como em um estado de emergência, assim como um bombeiro tenta apagar um incêndio[55], mas são e serão trabalhadas previdentemente, no sentido de ter se estabelecido pela sua autoridade, pela sua sabedoria e poder, segundo a sua vontade ativa e eficaz, para que os seus perfeitos e santos propósitos tornem-se realidade e ingressem na história. A vontade de Deus não é permissiva, como insistem alguns, supondo que Deus “permite” quase como se não pudesse impedir o ocorrido, como se o fato fosse maior do que ele. Ainda que as ações sejam realizadas pelos homens, em conformidade com as suas vontades[56], seja para o bem ou mal, seja ligada a Deus ou ao diabo, nenhuma delas aconteceria se, antes da fundação do mundo, o Senhor não as deliberasse segundo o seu plano ou decreto eterno[57] de fazê-las surgir do nada, levando-as à existência. Por isso, Deus lançou mesmo aqueles homens malditos (assim como muitos dos seus pares encontrados atualmente, no seio da igreja) na Igreja para provarem-na, ao passo que nos preservou da morte advinda dos lábios, pensamentos e atitudes dos infiéis. Eles queriam a ruína da igreja, transformando-a em outra coisa, muito distante do que sempre foi, mas o Senhor capacitou-os a resistir, assim como Elias e sete mil homens não se curvaram a Baal, nem seus lábios o beijaram, durante o reinado de Acabe e Jezabel (1Rs 19.18). Também ele mantém, em todas as épocas, seus homens, mulheres e crianças fiéis a Cristo, independente do avanço ou não da iniquidade e de os homens cruéis proliferarem no mundo, como prova do seu amor e esmero infinitos para com o seu povo, sempre! PARTE QUATRO A SEMENTE DA DISTRAÇÃO "Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu depois os que não creram; e aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia; assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno." A Centralidade da Igreja: Cristo O que o autor relata nestes versos? Qual o ponto principal ao qual chama a atenção? Ele nos lembra de fatos que aconteceram no passado e dos quais não devemos esquecer. Quais? Você, caro leitor, pode citar dois dos mais importantes, entre tantos? Darei um minuto para pensar... Antes de dar a sua resposta, gostaria de fazer uma ressalva: Judas diz, no verso 5, que a igreja deve se lembrar de algo e, com isso, ele não está dizendo que proferirá novidade, como muitos parecem querer em nossas igrejas ultimamente. As pessoas estão em constante busca pelo inesperado, pelo desconhecido, sem o qual a vida parece não ter sentido; em que o curso natural ou regular das coisas tem de ser quebrado, interrompido, a favor de algo muitas vezes letal e destrutivo. Essa visão “meio hedonista” (e suicida, em si mesma) de ligar novidade ao prazer, faz com as pessoas não tenham gozo nem alegria em ouvir o evangelho se ele não tiver algo a motivá-las, a mudar o curso regular da fé cristã (utilizando-se de parafernálias a alterar o seu sentido real tornando-a algo insólito, artificial e antagônico), de modo a deixa-las em um “clímax” ou surpreendê-las. Na verdade, não o ouvem porque ele não é pregado, em boa parte dos púlpitos, e o que fica é apenas a sensação de bem-estar, de conforto momentâneo diante de mais um entretenimento exibido com o objetivo de distrair e manter a assistência acomodada ao pecado, à inimizade com Deus, à rebeldia, conservando intocado o estado de guerra entre o Bem e o Mal, e, assim, se acomodando devidamente às fileiras malignas. É o que acontece nos cultos onde a assistência, em sua maioria, está sempre esperando o desconhecido, o exótico ou incomum, seja no louvor, na prática ou em qualquer outro momento, para sentir-se bem; numa espécie de sessão psicológica pública, na qual a assistência está disposta a encarar qualquer evento a fim de soltar-se, extravasar-se, um desabafar dos sentidos, algo exigido até mesmo dos mais introspectivos. É a chamada “catarse coletiva”, onde o frequentador da igreja busca, em algum sentido, libertação dos problemas, de si mesmo, da vida. Tudo isso contraria o Cristianismo bíblico, o qual defende exatamente o oposto, de que somente haverá liberdade para o homem se ele se entregar por completo a Cristo, entender-se a si como pecador, carente e necessitado da graça; desejar, então, servi-lo e adorá-lo segundo a sua vontade, abdicando daquilo que sempre buscou: a independência de Deus. Em boa parte das celebrações cristãs temos o estímulo à busca do próprio “eu”, de lançar para fora as emoções contidas e omitidas, um tipo de liberação interior dos sentimentos bloqueadas. Isso é psicologia barata, de botequim, ainda que, porventura, funcione e arraste multidões; mas não é o evangelho, nem o culto a Deus. Enquanto se provoca uma resposta comportamental, as pessoas continuam as mesmas, sem conversão, sem redenção, sem esperança além da autossatisfação. Muito menos se alcança a verdadeira reflexão e o verdadeiro autoconhecimento, necessário para a compreensão exata da realidade pessoal e divina, transcendendo a simples liberação de energia e emoções. Ao contrário da afirmação de que o homem é o que é, da impossibilidade de escapar da sua própria natureza, a qual deve ser aceita e reconhecida, o culto cristão sempre se voltou para a transformação, seja do homem carnal em espiritual, seja do pecador em santo, do condenado em absolvido, do escravo em liberto, do leviano em responsável. Entretanto, nada disso acontece se não houver morte, e não falo tão somente do sacrifício de Cristo, mas da morte definitiva do “eu”, o mesmo que tentam ressuscitar a todo custo, e que deve ser sepultado irremediavelmente para que a vida surja, em definitivo. Não se trata de uma liberdade na qual o homem deve esquecer-se de si mesmo por um instante, enquanto grita, chora, esperneia, ri, se sacode como um epilético, sendo um mero fôlego instantâneo, como o do náufrago, em meio a ondas altas e violentas, um pouco antes de se afogar em definitivo. Entretanto, a verdadeira liberdade está em obedecer e servir a Cristo, entregando-se a ele como escravo, e sendo tratado como filho amado, querido e abençoado, e não como um macaco de auditório ou circo. Por isso, há uma necessidade desse tipo de igreja, de estar sempre agradando a assistência, em constante “movimento”, substituindo o real pelo irreal, o certo pelo errado, o verdadeiro pelo falso, seja na absorção de modalidades seculares (teatro, danças, shows, variedades, etc.), nos modismos próprios da época ou no apego as tradições pagãs e anticristãs. Desse modo, está lançada a semente da distração, onde se aglutinam práticas e atividades com o intuito de dispersar ao invés de unir, levando cada um a acreditar na possibilidade de um “cristianismo self-service”, onde a forma de adoração, culto e relacionamento com Deus é estabelecida não por ele, mas pelo homem. É como se, investidode uma autoridade súbita, ele passasse a decidir as particularidades do culto a Deus, superior ao próprio Deus, utilizando-se do conceito falacioso dele se agradar com tudo e todos, bastando originar-se do coração ou da sinceridade, o suficiente para satisfazê-lo[58]. Um grande número de tragédias e equívocos é oriundo da sinceridade, como as guerras e governos que levaram milhares, senão milhões, à morte e sofrimento, por exemplo. Porém, se fossem realmente sinceros, entenderiam que todo o arsenal de “relevâncias” lançado na igreja tem por objetivo exaltar o homem e glorificá-lo, quando dizem fazê-lo a Deus. Entre outras coisas, são mentirosos e pérfidos, mais especialmente ao arremessarem sobre o incrédulo a ideia antibíblica de que tudo é possível e válido como forma de comprazer ao Senhor, não importando se há a sua aprovação explícita, e se a vontade do crente se contrapõe, em essência, à vontade divina, manifestada em sua palavra. Ainda que implicitamente (embora haja os que não se envergonham de proferi-lo), parecem dizer: “Olha, do mesmo jeito que você se diverte lá fora, pode divertir-se aqui também; não precisa mudar nada; viva como sempre viveu! Mas venha, porque Deus te ama, do jeito que você é!”. Ou, ainda, as pessoas são transferidas para um tipo de espetáculo em que as ações levem à comoção geral, por meio de práticas extintas ao final da era apostólica: o falar em línguas, as campanhas de milagres, expulsão e entrevistas com demônios, unções, etc.[59] Muitos líderes se especializaram no entretenimento, sabem pouco ou nada da Escritura, e em vez de utilizar o exíguo tempo que dispensam à pregação com a exposição do evangelho, gastam-no com piadas, causos, dramatizações, proselitismo ideológico e político, autopromoção e outras tantas coisas alheias à Bíblia, acabando por torná-la dispensável e ultrapassada, quando não completamente desconhecida. Há uma busca incessante das forças inimigas em diluir e, se possível, descaracterizar completamente o evangelho, fazendo qualquer coisa, por mais bizarra e grotesca, com o fim de adorná-lo, camuflá-lo, apresentando um produto falso e diluído, que insistem em auto intitulá-lo como “a palavra de Deus”, estando tão distantes dela, em seu conteúdo e verdade, que a própria alegação de sê-la é uma afronta e uma blasfêmia inominável. Alguns chegam ao cúmulo de apresentarem novas revelações, contraditórias e inimigas da verdade, como se fosse o Senhor falando hoje, e desmentindo o dito no passado, pela boca dos verdadeiros profetas. Se atentarmos para o fato de a maioria das heresias provirem de “novas” revelações ou profecias, como se Deus pudesse contradizer- se sem passar por mentiroso e enganador, haveria um cuidado da igreja com tudo aquilo que se apresenta utilizável e aplicável em nossos dias nos cultos e celebrações com a chancela eclesial. Tal postura descuidada é abarcada pela amplitude do leque de possibilidades contido em termos como “contextualização”, “relevância”, “cultura” ou “adaptação” que viabilizam e legitimam qualquer coisa ou modernidade na igreja, com a intenção abjeta de angariarem para si uma legião de néscios, ignorantes, e propagadores do mal, originada pela desobediência e inovação das normas estabelecidas por Deus, a ajudinha ou “forcinha” dada pelo homem ao projeto divino, como se fosse coautor, cogestor da sublime providência, numa pretenciosa ingerência, afirmando a necessidade de o Senhor ser auxiliado, em sua sabedoria e perfeição, pela estultice e imperfeição humanas. Ao apresentarem-se como “novos” profetas (alguns se autointitulam apóstolos modernos), esses homens, dissimuladamente, intentam colocar no Senhor a alcunha de mentiroso, néscio ou senil, porque um Deus mutante e adaptável em nenhuma hipótese é o Deus bíblico, o criador dos céus e terra, de toda a vida, da história e dos eventos que a compõem, a ponto de que, se um único fato ou incidente acontecesse alheio à sua vontade, ele não seria Deus; seria qualquer outra coisa menos Deus. A Bíblia não revela um Deus inconstante, indeciso e passivo; ao contrário, ela dá provas cabais do Deus imutável, constante, planejador de tudo quanto existe e ativo em realizá-lo. A exortação do autor de que não trará um fato novo, mas algo que seria repetido, posto já lhes ter sido dito várias vezes, e do qual deveriam saber, jamais esquecer, mostra que o Evangelho, mais do que uma busca desmedida pelo inusitado, é o firmar-se naquilo estabelecido e ensinado, reiterado, e do qual o cristão não se deve jamais afastar ou negligenciar, sob pena de faltar com a verdade. Ao aumentarem as linhas inimigas, na luta insana do ímpio contra Deus, revelam o quanto as novidades estão dissociadas do velho, puro e bom evangelho de Cristo. Alerto os defensores de uma igreja sempre em movimento, no sentido de ela se adaptar ou acompanhar aos novos tempos, moldando-se à cultura, costumes, leis, ideologias, cientificismo, ou qualquer outra vertente a anular a sua autoridade, autoridade investida pelo próprio Deus, de que a igreja deve se movimentar sempre na direção do evangelho, tendo-o como norte, foco, fundamento, e deixar de flertar com o inimigo, pois ao fazê- lo estará negando a sua essência, a sua própria natureza, num nítido caso de suicídio ou autodestruição. A seu favor alegarão produzirem frutos, tais como a socialização dos marginais, a educação de crianças, a profissionalização de jovens, a integração de “excluídos” e o sustento básico dos pobres; contudo, nada disto é o fundamento do evangelho, não podendo sobrepô-lo nem o substituir; se amamos e caminhamos na verdade, se tememos, amamos e ansiamos glorificar a Deus. Veja bem, o auxílio ao próximo não é algo a ser negligenciado pela igreja, pelo contrário, faz parte da sua missão amar e cuidar do semelhante, não porque é a coisa mais importante a se fazer, pois não é; a primeira, e a origem de todas as outras coisas, é o amor a Deus, seguido pelo amor ao próximo. Não se pode fazer o segundo sem o primeiro. Muitos grupos religiosos e não religiosos empenham-se no cuidado e sustento aos menos favorecidos, sem o menor interesse de servir a Deus, de honrá-lo, obedecê-lo e glorificá-lo, significando não se tratar de uma vara que produz frutos, mas infrutífera e pronta a ser cortada e lançada no fogo. A questão é de mérito, de modo que apelam para o próprio esforço, num empenho tolo de se auto justificarem diante do Senhor, quando ninguém pode fazê-lo, quando ninguém pode alegar de si mesmo: sou santo, sou bom, e mereço o seu reconhecimento![60]. Ah, tolo! Está apenas piorando a sua condição de réu, aumentando a sua pena ao mentir diante do supremo Juiz, tentando justificar-se quando a única defesa possível seria clamar por misericórdia, por perdão, pelos favores conquistados por Cristo, não por algo ou tudo que diz ter feito e não fez; diz ser merecedor, mas não é; em sua ignorância (lembre-se de que ela não pode ser usada como desculpa ou salvo-conduto), apenas cava cada vez mais fundo o seu acesso ao inferno. E ao acreditar na redenção de si para si mesmo, rejeita a única remissão possível e factível; despreza os méritos verdadeiros de quem os tem; nega a verdade bíblica de que a salvação procede apenas de Deus (Jn 2.9); fazendo-se, em seu íntimo, maior do que ele, ainda que diga mil vezes o contrário, pois seu coração o engana, suas atitudes o traem, sua incredulidade o condena. Assim como o Senhor falou acerca dos falsos profetas, aos que diziam terem feito isso e aquilo, e mais um pouco, em seu nome, será dito, naquele dia: “Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade.” (Mt 7.23) Porque não há outro fundamento a não ser Cristo; nem pedra, rocha, castelo ou fortaleza que não seja Cristo; nem verdade, nem caridade, nem intentos ou ações piedosas alheias a ele; pois ele é a pedra de esquina, a pedra rejeitada pelos edificadores (Mt 21.42), e nenhumevangelho que se diga autêntico pode dispensá-lo; por mais distinto e apreciável que seja, não passará de embuste, engodo, fraude, como muitos, durante a história, empenharam-se em defender e propagar na forma de heresias, certificando-se de gastar, até as últimas forças, o arsenal de contrassensos e blasfêmias, ideias divergentes daquelas entregues pelos profetas, apóstolos e Cristo, visando enfraquecer e destruir a Igreja. Sendo o corpo do Senhor, não uma mera instituição ou organização humana, ainda que muitas pertençam a ele, a igreja foi encarregada de zelar pela sã doutrina, conduzida pelo Espírito a ratificar a verdade e negar a mentira, a manter intacto aquilo que nos foi entregue por Deus, como fonte de sabedoria, santidade e instrução para toda a boa obra (2Tm 3.16-17). A caridade é como a cereja do bolo; o bolo não existe por causa dela; o confeiteiro pode adorná-lo com qualquer outra fruta, morango, framboesa, maçã, abacaxi, mas a cereja existe por causa do bolo. Assim a caridade (nada a ver com ações sociais movidas pelo Estado ou organizações paracristãs[61]) existe pelo evangelho, e não o contrário. Qualquer evangelho que se autodenomine “social” ou receba outra alcunha, seja anátema! Como Paulo, disse: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema... Porque se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo” (Gl 1.8-10). Resta-nos, portanto, não abandonar o ensino uma vez dado pelas mãos de Cristo e dos apóstolos; ao fazê-lo, incorreremos no mais alto grau de traição, tal qual os que, ouvindo a verdade, recusam-se a escutá-la, antes produzem transtornos e equívocos motivados pela negação, intentando plantar em seu lugar um artifício diabólico e nefasto, com o fim de levar muitos à destruição, à permanência em um estado de rejeição a Cristo e consequente agravamento da sua condição condenatória. À medida em que o tempo passa, cada vez mais se é contaminado pela distração produzida pelo pecado. Qualquer um a afirmar, em sã consciência, que o importante é Cristo e não a sua palavra (num antagonismo para lá de bizarro), alcançou o estado de indigência intelectual e espiritual, ao abraçar uma figura ambígua e irreal[62], como se os traços na personalidade do Senhor não fossem claramente notados na sua Palavra; como se o seu ministério fosse despropositado e inenarrável, e sua obra sem objetivos definidos e duvidosos. Se cada um pode interpretar a seu modo a pessoa de Cristo, sem atentar ao que falou e ensinou (diretamente; ou indiretamente pela boca dos profetas e apóstolos), temos um caso de esquizofrenia entre o autor da palavra, o objeto de ensino e a interpretação da mensagem. Se o autor é reconhecido como a fonte do ensino, sendo que este é evidente e público, de maneira que se manteve intacto mesmo depois de dois mil anos, a doença está naquele a interpretá-lo com suas próprias lentes e não com as lentes do Espírito; não distingue entre o real e o imaginário, entre o verdadeiro e o falso, entre a vida e a morte, entre Deus e o diabo. Afirmar que este é o estado natural do homem, o qual, como muitas religiões apregoam, passaria por uma “transição” espiritual dentro de um processo evolutivo, num arroubo de superioridade inalcançável pelo homem caído, em vez de amenizá-lo, condena-o definitivamente, fazendo-o réu de si mesmo e o promotor a dar provas de seus crimes. Logo, dentro do contexto da igreja, a exceção, acréscimo ou atenuação da sã doutrina resultará na descaracterização da Bíblia, e a criação de um outro evangelho, espúrio e maligno em sua imitação da verdade e dissimulação dos efeitos reais e eternos. “Quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto”, aponta para um evangelho simples, mas exaustivo, sem malabarismos ou pirotecnia linguística e estilística, resultando em aperfeiçoamento, fortalecimento e na confirmação de que somos verdadeiramente filhos de Deus[63]. A introdução de novas doutrinas, ou práticas alheias ao estabelecido, implicará em soberba daqueles que resistem a Deus, o qual os julgará sem misericórdia. Judas tem em mente lembrar aos irmãos algo ensinado e que, por arrogância, incúria ou açodamento, perdeu-se, em parte ou no todo, e faz-se necessário recordar, chamando- os novamente à verdade, ao evangelho, do qual muitos se afastaram, ao darem crédito a malícia e astúcia, abandonando a revelação para entregarem-se ao arremedo difundido por Satanás e seus servos de que a verdade é relativa e pode ser apropriada por cada mente e coração, segundo melhor lhe parece. Ele não dirá nada de novo, nada bombástico, nada inusitado, apenas o bom e velho evangelho de Cristo, pelo qual estamos presos, sendo libertados da indiferença produzida pelo pecado, para uma glória imorredoura e eterna, conscientes de que somente pela graça fomos alcançados, resgatados e despertos para a nossa condição de iníquos e merecedores de condenação, mas também para a realidade de santos, lavados no sangue de Cristo e reconciliados com Deus, inocentados pelos méritos do Salvador, e, por ele, aprazíveis e agradáveis ao Pai. Incredulidade do Crente Entretanto, voltemos à pergunta inicial: quais são os dois pontos mais importantes nos três versos citados?... Você descobriu? Penso haver pontos iguais, ou até mais importantes, dada a riqueza e profundidade das Escrituras, do que os apresentados por Judas. Contudo, eles parecem mais necessários; não somente naquele momento, mas como algo a jamais ser esquecido e desinteressado pela igreja, em todos os tempos, a fim de ela se manter espiritualmente forte e santa. Mais uma vez, ressalto que não havia novidade ou excentricismo nas linhas do autor, apenas o primordial para o caminhar firme dos santos nos passos de Cristo. Ele estava se certificando de que ela apreendesse, em definitivo, e de maneira corretiva, dois fundamentos aparentemente abandonados, o que a levava a não refletir, na prática, as orientações essenciais e auxiliadoras do evangelho, não acolhendo o socorro e a esperança indispensáveis, no momento em que sofria por meio das tribulações e pelo mal que ameaçava enraizar-se em seu seio: Primeiro, a incredulidade. Ele recorda que Deus libertou Israel do jugo egípcio, por meio de sinais maravilhosos como as dez pragas (Ex 7.10- 12,38); abriu as águas do Mar Vermelho a fim de salvá-los e condenar o exército de Faraó (Ex 14.13-22); deu-lhes a nuvem durante o dia e a coluna de fogo à noite guiando-os no deserto inóspito e traiçoeiro (Ex 13.21-22); alimentava-os com o maná caído dos céus todos os dias, sem que eles tivessem qualquer trabalho a não ser recolhê-lo (Ex 16.4-5), além de tantas outras coisas pelas quais os israelitas deveriam ser agradecidos e reconhecidos, alegrando-se no cuidado e favores recebidos do Senhor; a prova do seu amor e graça. Entretanto, em vez de glorificá-lo e reverenciá-lo pelo amor com que os agraciava, eles murmuraram e se rebelaram inúmeras vezes, querendo, inclusive, retornar à escravidão, voltar ao Egito (Nm 14.4), de onde os seus corações pareciam não ter saído, nem aquelas terras abandonado suas almas miseráveis; levando o Senhor a sentenciar que nenhum deles, após mais um ato de descrença e rebeldia em Jericó, veria a terra prometida; todos os que tivessem mais de vinte anos. Porém, a promessa seria estendida aos filhos deles e a Calebe e Josué, os únicos entre os adultos a verem-na (Nm 14.26-37; 26.64-65). Não há como negar o estado de idolatria do povo, o qual, ansioso por satisfazer os desejos da carne, estava disposto à sujeição e subserviência a um governo pagão e inimigo, a uma cultura flagrantemente oposta ao senhorio divino, onde Israel parecia mais adaptada, mais integrada, num típico caso de submissãopsicológica da alma, do agredido ao agressor, a famosa e cada vez mais frequente, nos tempos modernos, “Síndrome de Estocolmo”[64]. Nesse aspecto, nota-se o quão desejoso da escravidão está o homem; crendo-se livre em suas escolhas, entrega-se facilmente aos desejos mais pérfidos em nome do prazer, de uma mísera regalia, abrindo mão mesmo da verdadeira liberdade. Pois sim, o homem somente encontra-se livre em Cristo, a liberdade que o faz soltar-se das amarras do pecado, da morte, para uma vida santa e verdadeira naquele que se fez servo, por amor, mas é também Senhor, pelo mesmo amor. Israel, ou boa parte dele, não compreendeu o que estava em jogo, entregando-se de corpo e alma a um desejo iníquo, onde a sua vontade estava dominada, gerida, pela ingratidão, e a decisão de satisfazer-se na flagrante desobediência e afronta a Deus. Não tendo o conhecimento de Deus, se entregaram ao desejo abjeto de trocar a devida glória a ele em troca do antepasto egípcio (Rm 1.28). Rejeitando a liberdade recebida, não somente física, mas espiritual também, ansiavam pela satisfação de um desejo, os grilhões que os manteriam debaixo da vontade pagã e irremediável servidão a um senhor ilegítimo. Em outras palavras, o desejo de comerem as delícias inimigas estava recluso na volta à escravidão; o desejo israelita preso na vontade egípcia, tal qual a primogenitura de Esaú foi trocada por um prato de lentilhas (Gn 25.29-34). No fundo, é sempre a mesma coisa, troca-se as dádivas, os favores, o serviço a Deus, por um ídolo, um impostor a tomar o coração do homem e sujeita-lo até o ápice da destruição e morte. Cristo, ao contrário, nos mostrou a necessidade premente de o homem nutrir-se do verdadeiro alimento, aquele que vem dos céus e do qual ninguém pode prescindir se quiser manter-se saudável física e espiritualmente (Jo 4.34), ou seja, fazer a vontade de Deus. Ao negar a dieta celestial, eterna, perfeita e santa, em troca de uma refeição, ainda que suculenta, mas fugaz e pesarosa (sob os efeitos da idolatria e subserviência), das mãos dos egípcios, fica evidente o imediatismo, o desejo urgente de satisfazer a carne, sujeitando-se à sua vontade e entregando-se à esfera de escravidão e corrupção. Alguém pode dizer que estou a espiritualizar excessivamente uma questão simples de materialidade, e que faz parte da existência humana. Ressalto, contudo, que uma coisa é a necessidade natural de o homem comer, algo imprescindível para a sobrevivência, outra coisa é ele se entregar a ela como o próprio fundamento da existência. Ora, o homem vive por Deus e para Deus, não havendo vida, no sentido estrito e fundamental da palavra, sem ele. Sobreviver não é viver; para mim, é um estado de continuidade ou de conservação para a morte. Quando esta irremediavelmente acometer o sobrevivente, então ele não mais sobreviverá. Ainda que a sobrevida se confunda com a vida, dentro dos parâmetros confusos definidos pelo homem, do ponto de vista bíblico, a vida não pode jamais ser diluída na sobrevida, quando esta encontra-se no limiar da morte, e aquela está a uma distância segura, protegida e inalcançável. Cristo nos dá a vida além da morte física, nos garantindo a ressurreição para a existência plena e eterna em comunhão com o seu Espírito, onde a morte será definitivamente erradicada. Em contrapartida, quando o espírito se sujeita à vontade colocando valores subalternos como princípios elevados, esse espírito já está morto e somente pode produzir uma vontade mortífera, uma extensão de si mesmo a consolidar o estado irremediável de escravidão. Neste sentido, o espírito projeta no corpo o desejo inerente de servidão a um impostor, tornando-o um títere, uma projeção do aniquilamento interior; de forma que o corpo estará sujeito à alma, e esta condicionada ao corpo, num círculo vicioso onde a condição de aprisionamento parte de uma para a outra, e vice-versa. Em linhas gerais, o cativeiro está estabelecido; o desejo pecaminoso são as algemas a prender o homem por inteiro. Ele ainda tenta se iludir, criando um sofisma de que está no controle da vontade e de que a prisão não é mais do que o seu ânimo mais íntimo, acreditando estar sob o poder da sua autonomia, e de que os homens livres, soltos das amarras do pecado pelo sangue de Cristo, são os verdadeiros prisioneiros. Enquanto ele se acostuma a arrastar suas correntes em um exíguo espaço, o suficiente para ferir a si e aos outros até a morte, olha o caminhar distante do crente, em direção ao Senhor da sua vida, e grita fanfarrão: “Sou livre, independente, dono do meu nariz!”, brandindo o metal preso aos braços, odiando a liberdade que não tem, e fazendo de si mesmo um autorrecluso na escuridão do cárcere imperioso do pecado. Negar a liberdade que não se tem, negar o forçoso cativeiro, revela a impossibilidade de aquilatar, com eficiência e sinceridade e em verdade, a liberdade daquele que se entregou voluntariamente a Cristo, por ele é sustentado e mantido livre, e perscruta dia a dia o amor pelo qual os liames, as amarras, do pecado o mantinham enclausurado. Em contrapartida, a idolatria apenas sustém o homem na jaula do pecado, de onde não pode sair nem se libertar, se o amor e a graça de Cristo não estiverem sobre ele, e ele não for o alvo dos méritos daquele que é o único capaz de redimir o pecador. Acontece ser a idolatria uma consequência natural da incredulidade, onde esta fomenta aquela ao desviar o espírito do homem do único bem, Deus, na direção contrária, onde estão os ídolos. Ao distorcer o foco central da existência humana, a comunhão e o relacionamento com o Deus vivo e eterno, substituindo-o por formas diversas e corrompidas de culto e adoração a um impostor, ou impostores, temos os parâmetros ajustados com o Éden e a Queda, onde a disposição e a inclinação do homem para a farsa, o embuste, são representados por sua escolha, rejeitando unir-se ao santo e perfeito, e achegando-se obstinado ao corruptor, o destruidor da sua alma, em um relacionamento caótico e repugnante consigo mesmo e o mal a habitá-lo. A convergência de toda a sua doença é a aversão à verdade, o desprezo à realidade, e o cisma radical do espírito afligido com o Consolador; a alma em chamas, consumida pelo ódio inflamado contra Deus, o princípio de todo o movimento antivida, efêmero, mortal, no qual o homem é o gerador da sua própria destruição, ao esperar na construção do falso conciliar-se com o legítimo, estabelecendo a negação do divino e, por conseguinte, de si mesmo, onde a alma não existe à margem do Criador, mas sustenta-se na sua justiça, na correspondência direta aos delitos consumados. A descrença produz a idolatria, a manifestação do ódio contra Deus, acompanhada, porém, de uma tentativa de encontrar, de alguma maneira, o seu favor, através de uma simpatia, de afetividade, com os ídolos, os estereótipos. Nessas circunstâncias, o homem ignorando o conhecimento legítimo de Deus, entrega-se às concepções fundadas na hipocrisia da própria consciência, na habitual demonstração de uma religiosidade[65] (como virtude) ausente, quimérica. Ignorando a beleza, santidade e perfeição do eterno, onde o homem pode, somente nele, ser agraciado com os seus atributos (aqueles comunicáveis por Deus), os idólatras curvaram-se à degradação do temporal, no qual a própria condição humana de arruinar-se faz o seu esconderijo, imune à bondade e graça, sobrevivendo por suas maquinações ardilosas e diabruras. É a roda movendo- se sem sair do lugar, onde o homem anseia o belo, o eterno, o perfeito (mesmo sem conhecê-lo, mas por um anseio natural da alma) desprezando a essência enquanto satisfaz- se na forma, sem se dar conta de que nenhuma forma permanece, por mais bela que seja, posto que a essência é eterna, indo muito além daquilo visto pelos olhos mortais[66]. Paulo também nos chama a atenção quanto a atitude incrédula de Israel: “Não vos façais, pois, idólatras, comoalguns deles, conforme está escrito: O povo assentou-se a comer e a beber, e levantou-se para folgar. E não nos forniquemos, como alguns deles fornicaram; e caíram num dia vinte e três mil. E não tentemos a Cristo, como alguns deles também tentaram, e pereceram pelas serpentes. E não murmureis, como também alguns deles murmuraram, e pereceram pelo destruidor” (1Co 10.7-10). E o que vem a ser um incrédulo? Será apenas aquele que não acredita, não tem fé? Ou será aquele que, mesmo crendo em Deus como Criador e Todo-poderoso (teísta), não quer se submeter à sua autoridade e recusa-se a ser governado pela sua palavra? Como alguém pode se dizer crente ou filho de Deus se despreza seus preceitos e anda segundo a vontade da própria carne? Esse, ainda que frequente a igreja, participe dos seus trabalhos, e cumpra as regras exteriores a fim de ser visto como um cristão, buscando uma glória pessoal, mas interiormente rejeitando o evangelho, é mais do que um hipócrita, ele é um incrédulo, presunçoso em sua superioridade de que não precisa submeter-se a Deus, descumprindo a sua vontade. Em Romanos, Paulo nos diz que os homens: “Tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus... antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu” (Rm 1.21). O que temos aqui, e já foi dito, é que o homem rejeita a ideia do Deus Vivo e Verdadeiro e por isso cria para si outro deus ou deuses, de forma que o seu estado natural é de desobediência, de rebelião, de pecado. Sua mente e coração foram obscurecidos, levando-o a cogitar e afirmar insanamente que não há Deus ou que há muitos deuses, ou ainda que há outro deus; e assim o conhecimento inato e inerente ao homem é anulado, com o objetivo de não o glorificar. Não sem razão, a Bíblia chama o homem que vive à margem e à parte de Deus de ímpio. A palavra “ímpio” origina-se do latim “impius”, significando que esse homem é herege, incrédulo, que não respeita nem teme o poder e a autoridade divinos. Certamente o termo pode ser usado por qualquer religião para designar aquele que não a segue, que não se submete a determinada fé ou a professa. Mas como o nosso interesse é o bíblico, ela nos remete àquela pessoa que rejeita, despreza e peca contra o Deus santo, o Deus bíblico. Todo aquele que tem o seu prazer em si mesmo não busca a Deus, nem a sua justiça e o seu reino, é um ímpio ou incrédulo, como o salmista diz: “Pela altivez do seu rosto o ímpio não busca a Deus; todas as suas cogitações são que não há Deus” (Sl 10.4). O ímpio é o ateu prático, aquele a exercitar a sua incredulidade, ainda que ele creia na existência de um ser supremo e até mesmo o cultue acreditando fazê-lo em nome de Deus. Para o ímpio, incrédulo ou ateu prático, não há o Deus bíblico, há múltiplos e diferentes deuses, porém cada um, em si mesmo, é o reflexo do próprio homem, o que, em suma, configura-se uma autoidolatria, o adorar-se e ser autoridade sobre si próprio. A Escritura nos revela uma galeria de ímpios: os que cobiçam, mentem, roubam e matam, aqueles que maquinam o mal, por exemplo (Pv 6.14). No entanto, nenhum crime é pior do que o de rejeitar a Deus, desobedecê-lo, negando a sua palavra. Na verdade, todos os outros crimes, pensados e praticados, originam-se destes, os quais são o reflexo do afastamento e negação do homem, da sua recusa em reconhecer que há somente o Deus bíblico e de que ele é o Senhor ao qual todos devem glorificar e honrar. O pecado é o causador do afastamento do homem e o apartar-se dele é mantido pelo mesmo pecado, numa espécie de autoalimentação reversa, onde a natureza caída se alimenta do próprio pecado, enfraquecendo-se até a morte. Como um veneno, aplicado em pequenas doses, ele não mata imediatamente, definhando o indivíduo sem que ele perceba, até o instante em que, sem o antídoto (Cristo), chega-se ao fim derradeiro. Há um círculo vicioso em que um compele ao outro e o outro mantém aquele. O homem está divorciado de Deus por causa do pecado, da sua transgressão, e é ele que o conserva no mesmo estado, sem mudança. Por si mesmo é-lhe impossível achegar-se ao Senhor; é necessário que Deus se apiede, tenha misericórdia, e, então, somente então, ele se aproxima do homem, trazendo-o à sua comunhão. Novamente, com isso, não estou dizendo que não somos responsáveis pelo nosso afastamento, pelo distanciamento, por nos manter desligados dele. Em nossa natureza caída, queremos, ansiamos e buscamos manter a distância e andar vagueando à procura de outro deus, um impostor que satisfaça o desejo inerente da alma (ainda que em uma fração infinitesimal), pois, ao contrário de Deus, não é possível ao homem se satisfazer em si mesmo ou em outras formas de distração: ele precisa de Deus e, como todo pecador é idólatra, não encontrando o verdadeiro, tenciona contentar-se com uma cópia, o falso, o adulterado, ainda incapaz de satisfazê-lo, mas suficiente para iludi-lo com uma promessa jamais cumprida de que está a agraciá-lo. Acontece que esse deus jamais será hábil ou apto em produzir o gozo e a paz tanto ansiada. Somente Cristo pode gerar, na alma confusa, atormentada e agonizante, a paz verdadeira que o mundo, e nenhum “deus”, pode dar (Jo 14.27). Há um ditado que diz: nem tudo que reluz é ouro! Existem muitos metais que reluzem: prata, cobre, aço, etc., mas suas características são distintivas do ouro, o qual é particular em seus atributos, nos elementos que o constituem. Guardadas as devidas proporções, pois se trata de uma analogia e nenhuma analogia pode descrever fielmente a natureza divina, única, perfeita e incomparável, Deus não pode ser distintivo e múltiplo na variedade de deuses e cultos, na forma como os seus adoradores pressupõem. Ele não pode, ao mesmo tempo, ser um e outro, e ainda outro, assim como o ouro não pode ser nem prata nem cobre, ainda que eles estejam na categoria dos metais e compartilhem algumas características. Por isso, a mente humana sempre optou em criar vários deuses, a fim de que a sua inconstância e incoerência a satisfaçam em todos os detalhes, em suas superficialidades, sem tocar nos fundamentos, na essência caracterizada pela santidade e perfeição intrínsecas a Deus. Ela acaba por se satisfazer na exceção, naquilo que corrompe o sentido de humanidade, tornando esta antinatural, aberração, além de exibir a pecaminosidade e imperfeição do ídolo, o artifício de sustentar uma empatia entre a vontade e os anseios mais íntimos dos incrédulos, dos quais não pode se desvencilhar, e a natureza em desalinho com a verdade. Raramente a humanidade revela algo verdadeiro de Deus (ainda que o Imago Dei não tenha sido completamente apagado pela Queda), tornando-o cada vez mais desconhecido do homem e este cada vez mais ignorante de Deus. E, no que restou, haverá muito pouco dos atributos divinos, senão nada; o que subsiste é o culto, a adoração ao homem pelo homem (ainda que mascarada, sublimada); um deus feito à sua imagem e semelhança, com todos os desvios, com a marca da impiedade, da transgressão, tal qual Satanás almejou no céu junto com os seus anjos; tal qual Adão alcançou no Éden e conservamos até aquele grandioso momento em que Deus nos resgata da lama e do vômito para nos limpar, restaurando a amizade perdida e fazendo-nos parte integrante do seu povo. Toda religião que não professa a adoração ao Deus bíblico, ao único Deus, aquele que se autorrevela, sendo este o único meio pelo qual o homem pode conhecê-lo, não é religião. Ela não tem qualquer poder de religar o homem ao ser supremo. Pelo contrário, ela é a antirreligião, a abominação, a afronta ao Senhor, e somente pode carimbar o destino do homem para a viagem derradeira de horror e dor na eternidade. Encontramos outro importante elemento, o do ser Supremo. Não “seres supremos”, o que é impossível, posto haver apenas um. O próprio Senhor nos diz, repetindo o verso de Deuteronômio 6.4: “O primeiro de todos osdos doze, confirmado, implicitamente, por sua própria citação no verso 17, ao lembrar das palavras preditas pelos apóstolos, não se incluindo entre eles. Se fosse o apóstolo, não haveria por que não o dizer; e, não o fazendo, exclui-se essa possibilidade, de ser aquele chamado por Cristo para ser “pescador de homens”. Outra curiosidade é o fato de ser a carta mais apologética do Novo Testamento, combatendo a apostasia; e a levar o nome, também, daquele que resumiu, em si mesmo, todos os elementos possíveis de tornar-se no maior de todos os apóstatas, o traidor, Judas Iscariotes. É claro que não é possível qualquer referência séria à figura de Iscariotes como o autor dessa carta. Seria algo impossível palavras cheias de vida saírem da pena de um herege, de um falso profeta, ladrão, traidor e infiel. A epístola foi escrita para judeus e gentios convertidos ao Cristianismo, não havendo referência a uma igreja ou região específica, sendo o seu âmbito universal. Outrossim, foi escrita com o intuito de edificar e instruir toda a Igreja, ontem e sempre, na prudência, no zelo e na defesa da sã doutrina, no cuidado mútuo entre os irmãos, na busca incessante da santidade e da pureza eclesial, da qual todos os eleitos são participantes, membros ativos e efetivos pela escolha divina de tornar-nos unidos e inseparáveis do seu amor e graça, pelo qual Cristo padeceu, resgatando-nos e limpando-nos, apresentando-nos santos diante do seu trono eterno. Especula-se o fato de Judas tê-la escrito aos crentes da Ásia Menor ou da Palestina, mas as circunstâncias daqueles a quem a endereçou são desconhecidas, assim como sua data precisa. Por seu caráter apologético e semelhante à 2ª Carta de Pedro, especialmente o capítulo terceiro, pondera- se que ela seja posterior à morte do apóstolo e anterior à destruição de Jerusalém; baseando-se o autor parcialmente naquela epístola para escrevê-la, ainda que o estilo e a forma não sejam semelhantes. Portanto, infere-se a sua redação entre os anos 66 a 69 da era cristã. Conteúdo e Propósito Ao final da era apostólica[4], a igreja estava sob forte ataque do inimigo, o qual a combatia de dentro e não mais de fora (como ocorrera por intermédio das perseguições pelo Judaísmo e pelo Império Romano, ineficazes para a retração e erradicação do Cristianismo); conforme o Senhor apontou, na Parábola do Trigo e do Joio[5], haveria de acontecer: homens ímpios norteados por sua incredulidade, tentavam solapar a igreja em seus fundamentos, levando caos, depravação, contendas e trevas, no intuito de estabelecer o domínio da carne sobre o espírito, e, assim, desacreditar e blasfemar o nome de Cristo. Judas descreveu, em linhas gerais, o comportamento e o plano maligno a desenrolar-se, conclamando os verdadeiros crentes à luta, à batalha pela fé verdadeira e bíblica. Exortou-os a manterem-se firmes naquele que é a Rocha, Cristo, e não permitirem que se estabelecesse o reino do mal, da impiedade, da lascívia, das disputas no Corpo, alertando para o juízo a sobrevir sobre todos aqueles que ofendiam vergonhosamente o nome santo do Senhor. Urgia a necessidade de cada irmão zelar e lutar pela preservação dos ensinos de Cristo e dos apóstolos, os quais estavam sendo questionados pelos falsos mestres, incansáveis em causar tumulto em meio ao povo de Deus, numa tentativa desesperada de solapar a verdade substituindo-a pela mentira e práticas nitidamente afrontosas à sua majestade. Parecendo piedosos e sábios, como convém a todo impostor dissimulado, eles se infiltravam sorrateiramente na assembleia dos santos, alcançando, com o tempo, alguma proeminência na igreja, e, utilizando-se da paz e do amor fraternal, instalavam a dúvida, a guerra e uma disputa para prevalecerem como liderança espúria e danosa. Sempre houve exortação contra eles, seja da parte dos profetas, de Cristo, dos apóstolos, e não é sem razão que são identificados por uma série de analogias correspondentes à obra que realizavam; reconhecidamente eram inimigos da verdade e servos da mentira, sendo-lhes a alma descrita como maligna e em labor fervoroso ao seu senhor, o diabo: “animais irracionais”, “nuvens sem água”, “árvores murchas”, “estrelas errantes”... Desses, tanto mais hoje como outrora, devemos nos resguardar, apontá-los, afastá-los do convívio, como João, o chamado apóstolo do amor, sentenciou providencialmente: “Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho. Se alguém vem ter convosco, e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem tampouco o saudeis. Porque quem o saúda tem parte nas suas más obras” (2 Jo 1.9-11) Por isso, não há como fugir à leitura sempre cuidadosa e meticulosa desta mensagem, cujo conhecimento é indispensável a todo cristão, especialmente em nossos dias, quando o mal parece interminável, e o desejo de realizá-lo, uma compulsão, um fetiche moderno. Orientar-nos a enfrentar e derrubar as ameaças impostas pelas hostes inimigas, que laboram incessantemente para a destruição do Corpo, pelo qual Cristo morreu, é o cerne, o fundamento dessa carta. PARTE UM SAUDAÇÃO "Judas, servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago, aos chamados, santificados em Deus Pai, e conservados por Jesus Cristo: Misericórdia, e paz, e amor vos sejam multiplicados". Servir Como o Senhor Neste ponto, Judas se autodenomina “servo de Jesus Cristo”, o que, em si mesmo, garante-lhe duas particularidades: a de humildade e a de honra. Todos os que se designam “servos” reconhecem a sua condição de subserviência, de subordinação, de carentes da graça, misericórdia e bondade divinas. Ao fazê-lo, assumem encontrar-se em um estado de necessidade, de dependência constante ao seu Senhor, e de pertencê-lo, com o fim de ser-lhe útil, de desempenhar corretamente as funções por ele determinadas. Ainda que o próprio Senhor tenha dito que somos servos inúteis e não fazemos mais do que nos é ordenado fazer[6], estamos em constante e eterna serventia a Cristo, o qual é quem nos capacita a devotar-lhe os nossos préstimos, tanto no chamado como na regeneração, quanto no aperfeiçoamento, para que o seu nome seja exaltado, glorificado e bendito entre todos e por todos os lugares. Há, ainda, outra condição, a de honra por ser servo. Interessante o fato de no mundo (e não é uma visão apenas atual, mas uma visão que vem desde o Éden) o homem acreditar-se independente e autônomo de Deus. Mesmo não assumindo essa condição, no fundo, ele sempre tentou e sempre estará empenhado em alcançar um estado de “dono do seu nariz”, acabando por reforçar ainda mais a imaturidade e estupidez por onde caminhou e insistiu em trilhar. Ledo engano; pois a verdadeira liberdade está em servir, em cultuar[7] devidamente, e em gratidão, ao Deus misericordioso; cuja lembrança nos é apontada: "Sabeis que os que julgam ser príncipes dos gentios, deles se assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre eles; Mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser ser grande, será vosso serviçal; E qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos" (Mc 10.42-44). “Coisa louca”, dirá alguém. “Bobagem”, proferirá outro. Segundo o padrão mundano, guiado pelo individualismo e a vaidade, ambos estarão corretos, e um sem número de outras pessoas os acompanharão em suas sentenças, acreditando ser possível uma autonomia e independência de Deus. Ora, se para darmos um simples respiro é necessária sua providência, quanto mais para os assuntos complexos e intricados que vão de encontro à nossa natureza caída e dominada pelo pecado. Sendo o próprio pecado o motivo pelo qual clamamos e cremos erroneamente em um estado de independência do Criador, no qual podemos nos guiar apenas pelo vórtice da nossa (in)consciência. Realmente estranho ao mundo é o ato de servir, demandamentos é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Mc 12.29). E complementou a sua oração proferindo: “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3). Cristo não abre precedentes para que qualquer forma de adoração seja possível ou aceitável, nem para a possibilidade de todas as crenças serem abarcadas em um único significado e propósito. Não há como não rejeitar toda e qualquer adoração e culto que não seja dispensada ao Deus bíblico, segundo a sua própria vontade. Todo deus fora da Escritura é falso (pelo princípio de “deus” não ser Deus) e uma imagem distorcida daquilo que o próprio homem traz em si mesmo. Esse “deus” nada mais é do que o reflexo do homem; é ele olhando para si e, ao mesmo tempo, objetando usurpar o trono celeste e assumi-lo. Em seu delírio, presume que o ser finito, limitado e temporal possa ocupar o posto do ser infinito, perfeito, pleno e eterno. Se Deus é suficiente em si mesmo, autoexistente, livre e independente em si mesmo, não havendo a chance de existir dois iguais, já que, se um Deus existe desde a eternidade, não há lugar para outro, o que pensa estar fazendo o homem em sua incredulidade? Se não há como existirem dois seres perfeitos, eternos e suficientes no universo, como pode o homem almejar tal condição, sendo ele mesmo o oposto daquele que pensa combater? Deus é um, único; ele é real! Dizer que há muitos deuses é dizer que não há Deus nenhum. Dizer que existe um outro deus que supostamente se deu a conhecer sobrenaturalmente, também é não crer nele; é negá-lo. Dizer que todos os caminhos levam a Deus, é dizer que o errado é o certo, e o certo, errado, de modo que, na prática, o homem não tem aonde ir e a verdade não está nele, mas naquilo que pensamos dele. Mais uma vez, o homem quer fazer-se autoridade, inclusive sobre Deus, e a ideia do ecumenismo[67] e do universalismo[68] nada mais é do que o estratagema maligno de acomodar todos os homens e seus pecados numa única cumbuca e assim levar a humanidade à destruição. Mais do que isso, é pretender que Deus seja igualmente tolo, como tolo é aquele que se aventura em uma crença genérica e difusa, na qual o Senhor não passa de um deus lamuriante, a buscar ser aceito de qualquer maneira pelo homem. Onde o Deus pessoal nada mais é do que um observador estático e estanque, preso em uma redoma imposta pela suposta autonomia do homem, na qual esse deus é apenas um provedor da vida, não o seu mantenedor, e sem direito a dar pitacos ou gerir a sua Criação. Debaixo do guarda-chuvas chamado “deus”, pelo mundo, estão seguros da tempestade até mesmo aqueles que o negam veementes, como prova do seu amor leniente, e, quanto mais rebelde, mais esse deus se esforça em protegê-lo, em ampará-lo, sem que haja qualquer reciprocidade, sem que essa relação ultrapasse a forma unilateral, provavelmente a estender-se por toda a eternidade. Transferimos a ele a nossa doença, a nossa psicopatia, inclusive a ponto de não haver mais como distingui-lo de nós; como se fôssemos quem lhe dá a vida, quem o sustenta e alimenta, e não o contrário; significando que todos os deuses ou, mesmo o não ter nenhum deus, não passam de projeção humana, revelando o que o homem é e suas limitações. Com isso, estou a dizer que todas as crenças e religiões, todos os deuses e não deuses, todas as formas humanas de cultuar, partem do conhecimento que o homem tem de si mesmo ou da expectativa de quem ele seja para formatar um ídolo. Parte-se sempre do homem para deus, da autorrevelação humana para se definir o ser divino, o que é um gravíssimo erro, visto ele ser conhecido somente pelo que revelou de si, e não por nossas suposições. Não sendo nada mais do que capricho não buscar defini-lo, conhecê-lo, nos aspectos em que nos é possível fazê-lo à luz da Escritura, qualquer entendimento ou interpretação, fora do escopo revelacional das Escrituras, será apenas e tão somente a autocontemplação humana: o reflexo no espelho da alma. Tais pessoas podem ter certeza de que estão adorando um deus desconhecido, no qual não há uma personalidade definida, verdadeira e real. Ou, quando muito, adora-se um deus tão identificado com o homem, em sua corrupção e doença, que se acaba na confusão, no redemoinho de dúvidas, de não se saber quem ou o que sustenta e é sustentado, subsiste ou sucumbe, cultua ou é cultuado, preserva ou é preservado, gera a vida ou definha. Resta-nos perguntar: quem é Deus? Sabendo que apenas o espírito regenerado, em união com o Espírito regenerador, poderá ter a resposta correta (Dt 4.35-39; 1 Sm 2.2 e Is 44.6-8). A Distração do Pecado Portanto, a incredulidade, como descrita, ocorrida em meio a Israel, levou-o, como povo de Deus, a ser castigado e perecer, ao não reconhecer a honraria na qual eram favorecidos, quando Deus agiu livrando-os da escravidão, dando-lhes uma terra que mana leite e mel, salvando-os dos perigos, dos inimigos, cuidando deles como um pai mais que zeloso cuida dos seus filhos. Não é interessante como os sinais, por maiores, espetaculares e profícuos, mostram- se incapazes de produzir a fé genuína? Não é o que Judas parece dizer? Por mais estranho que pareça, no evangelicalismo moderno, são os sinais, ou, melhor, a necessidade deles, que levam o homem a crer, a ter fé. O pragmatismo[69] tem- se difundido tanto em nosso meio que tudo o que não se pode ver, tocar, apropriar-se e exibir não funciona, logo deve ser descartado. Vivemos a época em que o material dita o espiritual, de tal forma que a vida neste mundo tem de ser uma prévia do sucesso a ser alcançado na eternidade. O imediato vira infinito; o temporal, eterno; o carnal, espiritual; assim como a dúvida se torna certeza, a certeza de haver apenas dúvidas; a tolice, sabedoria; o não- bíblico ganha contornos bíblicos, a qualquer preço e por qualquer motivo, a fim de justificar os dogmas humanos a permear o discurso religioso e falsamente chamado de cristão. Há de se questionar: isso é o Evangelho, ou não passa de uma distorção do Evangelho, o antievangelho? A mensagem cristã travestida, corrompida, distorcida e rotulada pela mente humanista e seus valores decaídos como o pragmatismo, a pós-modernidade, o utilitarismo[70]? Basta um rápido “passeio” pelas igrejas para ficar evidente o culto utilitarista, cuja motivação está fincada, estabelecida, nas ações, na eficácia delas, no sentido prático em que a fé resultará em benefícios objetivos, em ações visíveis pelas quais se conhecerá a verdade. Em outras palavras, a verdade é conhecida somente se for útil naquele momento ao indivíduo; a verdade somente pode ser conhecida pela experiência, sem a qual não há o menor sentido (Empirismo), sendo que, quanto mais pessoas se beneficiarem, mais desejável é. A coisa funciona mais ou menos assim: o indivíduo vai à igreja para buscar duas coisas: a primeira, que Deus satisfaça os seus desejos; a segunda, que seja rápido em satisfazê-los. O seu valor supremo resume-se na capacidade de Deus suprir e proporcionar prazer ao homem e de evitar que ele sofra, sempre tendo como ponto de partida a fé do homem, aquela em que o vitorioso a exibirá como um troféu, uma medalha pendurada no pescoço, a refletir os seus feitos. Nada a ver com a fé que nos foi entregue por Deus (Ef 2.8) e que foi uma vez dada aos santos (Jd 3). Mas o que vem a ser fé? Segundo o Dicionário Priberam: (latim fides, -ei) s. f. 1. Adesão absoluta do espírito àquilo que se considera verdadeiro. 2. Fidelidade 3. Prova. 4. Crença. Segundo o Dicionário Michaelis: sf (lat fide) 1. Crença, crédito; convicção da existência de algum fato ou da veracidade de alguma asserção. 2. Crença nas doutrinas da religião cristã. 3. A primeira das três virtudes teologais. 4. Fidelidade a compromissos e promessas; confiança. E segundo a Bíblia? “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que seesperam, e a prova das coisas que não se veem” (Hb 11.1). As três definições não parecem harmônicas entre si? Paulo não está, de certa forma, corroborando a definição semântica que os linguistas atribuem à palavra fé? De que ela tem um valor pragmático-utilitarista, implicando na legitimidade dos cultos e da vida cristã praticados atualmente pelos evangélicos? Será...? O mesmo Paulo diz: “Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” (2Co 4.18). E agora, o que lhe parece? Ele prossegue: “Porque andamos por fé, e não por vista” (2Co 5.7). A questão está em muitos usarem “e a prova das coisas que se não veem” como a necessidade de a fé produzir resultados visíveis e materiais, de tal forma que se eles não aparecem, não há fé. Contudo, o que Paulo está a dizer é: a fé é a prova das coisas que não se veem, porque andamos pela fé, não por vista. A fé é a prova, o testemunho da vida cristã, e a vida cristã é a prova da nossa fé: Porque “todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas; mas vendo-as de longe, e crendo-as e abraçando-as, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra... em esperança fomos salvos. Ora a esperança que se vê não é esperança; porque o que alguém vê como também o esperará? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o esperamos” (Hb 11.13; Rm 8.24- 25). Pois bem, o ponto é: tenho fé para ver, ou tenho fé para não ver? Se não vir, não tenho fé, ou mesmo não vendo, mantenho intacta a minha fé? Há uma “velha onda” que diz: posso tudo naquele que me fortalece, distorcendo a mensagem bíblica a fim de atender aos interesses escusos do coração. Com isso, querem dizer que, se tenho fé suficiente, posso tudo. No entanto, há de se definir o que venha a ser fé suficiente; e muitos dirão que ela será suficiente dependendo daquilo que se quer e se alcança, ou seja, o tamanho do objeto, e consegui-lo é que definirá o tamanho da fé. Vejamos o verso em que se baseiam: “Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece” (Fp 4.13). Parece uma carta-branca dada por Deus para se ter o que quiser, bastando escrever o que mais for aprazível, agradável? Porém, o que nos fala Paulo um pouco antes? “Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade... todavia fizestes bem em tomar parte na minha aflição” (Fp 4.12, 14). Alguém se candidata a subir no púlpito e defender que posso todas as coisas em Cristo, mesmo que seja na fome e a padecer necessidade? Ou a estar abatido? Ou a participar da aflição alheia? Se fosse possível fazer todas as coisas, elas não estariam restritas apenas ao que se considera benéfico dentro do padrão humano? Riqueza, posses, poder... a solução de todos os problemas mediáticos não é o único item abarcado por “todas as coisas”, mas também o sofrimento, a tristeza, a dor, a injustiça, a pobreza, e tantos outros males. Paulo afirma claramente que Deus o sustentará em todas as situações, e de que ele viverá a fé cristã mesmo nas vicissitudes e reveses da vida. Mais do que isso, ele chega a se gloriar em suas fraquezas, porque o poder de Deus se aperfeiçoa nela, a fim de que habite nele o poder de Cristo (2Co 12.9). O que para muitos é sinal de fracasso, para Paulo é êxito, e assim deve ser para nós também. Devemos banir de nossas mentes o falso ensino de que a fé está atrelada ao sucesso, à riqueza, à cura, à prosperidade, como afirmam os positivistas. Com isso, não quero dizer que pessoas de sucesso, ricas, saudáveis e prósperas não têm fé; mas de que o padrão bíblico de fé está muito além daquilo que temos, tocamos ou somos. Ele está no próprio Deus, o qual nos capacita a ter a fé verdadeira; não uma crença tola; não uma certeza no que é tangível apenas; não em reverter materialmente, numa contrapartida, o que cremos. Isso faz de Deus um negociante, e da fé uma mercadoria; no entanto, muito pelo contrário, a fé sempre será uma relação de confiança em Deus por intermédio de Cristo e, principalmente, uma relação de dependência, de submissão, de reverência, de temor a ele; de reconhecimento da nossa frágil condição, de nossa miserabilidade e pecaminosidade diante dele, o Deus santo e perfeito; da necessidade da sua graça e misericórdia, sem a qual sequer viveríamos, mas seríamos consumidos (Lm 3.22). Portanto, não estou falando da fé como um conjunto de crenças, nem tratando do assentimento intelectual puramente, como uma ideia ou conceito decorrente do estudo ou cultura. Tampouco se trata da possibilidade do conhecimento divino a partir de evidências ou experiências emocionais e místicas, muito menos como a causa de resultados, ainda que proveitosos. A fé bíblica é a única capaz de fazer com que o homem reconheça o testemunho de Deus através das Escrituras, como o “autotestamento” divino, na certeza de que somente podem ser vistas e entendidas por aqueles a quem Deus abriu os olhos para verem, e os ouvidos para ouvirem, e a dar-lhes entendimento para que creiam, se convertam e sejam salvos (Jo 12.40). A fé é autenticada pelo próprio Deus, revelada pelo seu Espírito, que a concedeu para que pudéssemos conhecer o que nos é entregue gratuitamente por ele (1Co 2.10-13). Logo, Cristo é o autor e consumador da nossa fé (Hb 12.2). Sendo assim, se a tenho é porque me foi ofertada, como um presente necessário e infalível em seu princípio de levar-me à esperança e a certeza além da vista dos olhos, além do toque das mãos, além dos arrepios da pele ou das lágrimas a escorrerem pelo rosto. A fé pode nos trazer emoções, pois somos seres emocionais, mas jamais a emoção, seja ela qual for, significará a fé, apenas se manifestará em decorrência dela, sujeita a ela, uma consequência natural de que estamos tão cheios de fé que nem mesmo o nosso corpo pode se controlar. Não quero, contudo, dizer que a fé é incontrolável e todos sentirão uma explosão interior, de dentro para fora, mas afirmar o fato de não serem as sensações o mesmo que a fé, pois não são; ela precede os sentidos, e se eles se manifestam, nem sempre significará uma relação com ela, podendo ser apenas uma incitação ou devaneio carnal. Alguém pode dizer: Precisamos dos sinais para crer, assim como Cristo deu sinais para que o povo cresse. Sim. Em parte, é verdade, pois o Senhor fez muitos sinais para que acreditassem ser ele o Cristo: “Porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.31). Sem que houvesse sinais, o Evangelho não seria escrito. Sem o Evangelho, como crer? Sem a palavra, seria possível conhecer a Deus e ter vida? Há de se entender que a nossa dispensação é outra. Não mais Deus fala diretamente com o povo através dos profetas, nem os milagres são necessários para que creiamos. O Espírito é o orientador a instruir, ensinar e convencer-nos a partir do que está escrito: a Bíblia, porque “nós temos a mente de Cristo” (1Co 2.16). Nada mais é preciso, ainda que Deus esteja agindo, curando, santificando, salvando, segundo a sua providência, como sempre agiu na história, governando o universo. Precisamos da Palavra, do Espírito e da mente de Cristo, mais nada, e muito pouco de nós mesmos, para que a nossa fé seja autêntica; do contrário, não passará de uma muleta, incapaz de fazer-nos andar naturalmente, segundo a vontade divina. Após a ressurreição, Cristo apareceu aos apóstolos, menos um, Tomé. Diante do relato dos demais, os quais viram-no, ele, cético, proferiu: “Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o meu dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei” (Jo 20.25). Pouco tempo depois, o Senhor encontrou os seus, e Tomé estava entre eles. Cristo lhe disse:“Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente. E Tomé, respondeu e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu! Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem- aventurados os que não viram e creram” (Jo 20.27-29). Este relato não está na Bíblia à toa, sem um propósito, mas para que creiamos, mesmo sem os sinais, mesmo sem os milagres estrepitosos; porque a nossa própria vida já é um milagre, ainda mais se significar a eternidade ao lado do nosso Senhor[71]. Mas nada disso acontecerá se não formos resgatados das trevas pelo seu poder. Cristo fez inúmeros milagres, tais como ninguém mais fez e viu, mesmo assim eles foram insuficientes para salvar uma multidão de incrédulos. Mesmo vendo-os, seus corações permaneceram duros, inflexíveis, diante de tão gloriosa salvação. Por quê? Primeiro, os milagres não salvam. Segundo, os milagres não nos fazem crer em Cristo. Terceiro, os milagres tornam-nos inescusáveis diante de Deus, condenando a nossa incredulidade. Quarto, em muitos casos, o homem busca neles a sua glória, não a de Deus. Como Paulo escreveu: “Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos” (1Co 1.22-23). De nada adiantam os milagres e o conhecimento sem fé, tal como aconteceu com Israel após o cativeiro, tanto antes, no Egito, como depois, no deserto, onde Deus mostrou-lhes o seu poder e glória. Contudo, mais do que isso, ele lhes mostrou o seu cuidado, amor, o seu caráter único, algo que a maioria deles não foi capaz de ver, obscurecidos e cegados por si mesmos, por seus desejos, por suas vontades, dominados pelo pecado e pela aversão a Deus. De nada adianta pregar a Cristo crucificado sem fé, pois ele continuará indignando os que pedem milagres e os veem, mas não foram regenerados, não puderam conhecer a verdade, permanecendo insensatos e extravagantes os que buscam conhecimento sem serem transformados pelo Espírito. No entanto, aos que foram, bastará a pregação do Evangelho para, crendo, mesmo não vendo, amarem o Senhor, “alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas” (1Pe 1.9). Não esqueço jamais de dizer que a fé não é produzida pelo homem nem por sua vontade, mas por Deus, conforme Efésios 2.8. Não havendo fé, não existe o conhecimento de Deus e da sua vontade, restando apenas e tão somente uma rejeição natural ao Senhor originada na incredulidade, pela ausência da verdadeira e sobrenatural fé. Ao homem sem fé, a consequência é a destruição, assim como muitos, no Êxodo, foram aniquilados.... Sobre isso, falaremos um pouco mais à frente. Por fim, Judas fala da salvação de um povo, salvação esta da escravidão egípcia. Não podemos confundi-la com a salvação da alma, ainda que, como tipologia, se possa estabelecer um paralelo com Deus salvando uma nação da condenação eterna, sem problemas. É notório, para entender o trecho, reconhecermos o cuidado e providência de Deus para com os eleitos, a fim de serem resgatados da incredulidade, para terem fé, e serem salvos eternamente, a fim de formarem um só povo, aquele separado por Deus, na eternidade, para si. Abandonando o Serviço Assim, do mesmo modo, o autor nos lembra a respeito da queda dos anjos que, vivendo na glória de Deus, se rebelaram, abandonando o seu principado (entendido como sendo uma vocação ou ministério), desprezando a bondade divina, em flagrante recusa do bem em favor do mal a habitar o espírito deles. Por terem eles deixado a sua própria habitação, no sentido de que abandonaram os seus dons, postos e cargos nos quais foram instituídos por Deus, como soldados que desertaram do exército do seu país, a expulsão dos céus é algo inevitável. Não há como, diante do Deus santo e bom, dedicar-se à perfídia, à dissolução, à traição e ao abandono do seu serviço sem consequências drásticas. E, se aos anjos não foi perdoado o amotinamento, os quais são superiores a nós, o que estará reservado aos homens revoltosos? Receberão, como diz Pedro, o galardão da injustiça (2Pe 2:13)? Ou seja, o castigo por tamanha desobediência, insanidade e desdém? Portanto, o segundo ponto mais importante não pode ser outro senão... a justiça divina. Antes, gostaria de refletir um pouco sobre a questão da igreja contemporânea e a justiça da qual o corpo de Cristo é o seu guardião, neste mundo. Ainda que sujeita às imperfeições, ao pecado e ao erro, podemos concluir, categoricamente, que a igreja é aquela a demandar, a exigir e a encaminhar-se na direção da justiça, como um alvo a se atingir, um ideal a se perseguir e um princípio a se exercitar, porque a igreja tem sede e fome de justiça, posto ser bem-aventurada no Senhor (Mt 5.6). Todo cristão deve ter a convicção de que, em qualquer época e lugar do mundo, onde o Evangelho não se fizer presente, como a regra primeira e última de normatização das relações humanas (não apenas como um devaneio para a alma e poetas), ali encontraremos o que se pode chamar de idade e reino das trevas, sem a menor chance de sermos injustos, exagerados ou precipitados. Porém, o que vem acontecendo e se disseminando entre nós é exatamente o contrário, a possibilidade de se criar um paraíso terreno sem a necessidade de se aplicar a Lei e o Evangelho, antes promovendo a rejeição de ambos[72]. Como se o homem, em si mesmo, pudesse deter algo de bom, e seus valores e objetivos fossem mais justos e santos do que os valores divinos, os quais provém da única fonte capaz de gerá-los, Deus, visto ser ele, em essência, santo e justo. Estranha-me cristãos saírem, decidida e prontamente, em defesa de ideologias e métodos nitidamente antibíblicos, como se Deus pudesse, de uma hora para outra, renegar a si mesmo em favor do homem e sua estultícia. Bem, alguém poderia, num arroubo delirante, dizer que a encarnação do Verbo foi uma espécie de negação da divindade, mas eu direi a esse insano que não há como Deus negar-se a si mesmo, pois o perfeito jamais pode ser imperfeito ou deixar de ser perfeito (falo não de uma perfeição circunstancial ou derivada, mas da perfeição absoluta somente aplicável a Deus na essência do seu ser). Cristo encarnou-se exatamente por causa da sua perfeição, a fim de executar o plano perfeito, imutável e eterno traçado pela Trindade Santa, no qual se fez voluntário, dando a si mesmo por amor e justiça aos escolhidos. Porém esse não é o motivo específico deste livro, e a discussão pode se direcionar a outro lugar e momento, mas ainda assim faz-se necessária a ressalva. A questão está, de muitas formas e maneiras, em se tentar justificar o fato de a igreja estar em profunda aliança com o mundo (mesmo que não seja consumada, mas um flerte, isso em nada ameniza a situação), abandonando, como o fez em outras épocas, a aliança com Deus. Por que será? Alegar o estado temporário de imperfeição dos santos como justificativa não me parece prudente, nem mesmo chega a ser uma resposta. O ensimesmamento do homem parece-me muito mais próximo de uma resposta bíblica, a qual nos garante que não há um justo, nem um sequer, e que não há quem busque a Deus (Rm 3.10,12). É claro que não ignoro o convívio do joio e o trigo, mas por que o trigo se empenha em seguir o caminho infrutífero do joio? Faltam parâmetros que delineiem a vida cristã? Ou seja, o “manual de regra de vida”, o qual a maioria diz seguir, foi relegado a um plano inferior em relação à vontade humana, posicionada contrariamente e alinhada a algum tipo de aceitação pelo mundo, que pretende, conhecendo-se os seus reais intentos, destruir qualquer traço de fé cristã da face da terra. É como se cada um pudesse absorver o que quisesse e descartasse o que também quisesse com a mesma naturalidade com que se escolhe a cor de uma camisa ou o sabor de um sorvete, apelando apenas para o critério pessoal, algo subjetivo e de foro íntimo, contaminadopelo pecado. Há de se entender que a palavra lida, ouvida e proclamada, não é nossa, mas de Deus. E como tal, tem de ser observada, entendida e aplicada em sua integralidade, não como desejamos que ela seja, mas como ela é de verdade. O maior problema que se tem é o de se distinguir entre um trecho e outro da Escritura, a chamada contextualização (palavra a encher-me de arrepios, especialmente quando usada para fazer crer que o dito não é realmente o dito, e pode nem ter sido dito), e dizer ser esse pertinente e aquele não, para os tempos atuais. Assim, rejeitamos a Bíblia em sua unidade e plenitude, como a palavra para todos os homens em todos os tempos e lugares. Promove-se o seu fatiamento, a fim de se escolher aquilo a vir de encontro aos interesses pessoais, e descartar-se o que não se encaixa neles, a partir de uma exegese falha e uma interpretação distorcida e tendenciosa. Já disse que não é possível se ter uma fração do Evangelho; ou se tem o todo ou não se tem nada! Mas parece que muitos estão dispostos a conviver com uma ínfima parte dele, a ponto de se acreditar que a tem em completude e unidade, quando nem mesmo o que se tem pode ser chamado de engano, posto ser uma fraude retumbante em posição de inimizade com a verdade. Talvez este seja o maior de todos os equívocos: acreditar deter algo que não se tem. Portanto, até mesmo não ter nada pode ser mais benéfico, pois há a possibilidade de se ainda conhecer o todo, ao passo em que a ilusão de tê-lo afasta o homem de, efetivamente, obtê-lo. Contentar-se e se autojustificar com uma parte impede o compreender e desfrutar da verdade intacta transmitida por Deus de maneira definitiva em seus limites invariáveis. Como está escrito: “Olhai, pois, que façais como vos mandou o Senhor vosso Deus; não vos desviareis, nem para a direita nem para a esquerda” (Dt 5.32). Não há ziguezagues, desvios ou atalhos, nem mesmo paradas, mas um caminhar regular e linear à glória. O grande problema é a igreja manter o seu olhar focado no mundo com olhos cobiçosos, invejosos de ter o que ele tem; de desfrutar do que ele usufrui; de colaborar em erguer a cerca que separará definitivamente o homem de Deus, mantendo-o do lado de fora do Reino, ainda que ele possa vislumbrá-lo a distância, minimamente, e assim certificar-se de estar (in)seguro na periferia. Ali, a marginalidade espiritual se estrutura no caos e na imoralidade, na ilusão de ser o que não se é, tal como acariciar e embalar uma bomba-relógio programada para explodir em alguns segundos. Paulo nos diz: “Não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.1). Ora, o que vem a ser a boa, agradável e perfeita vontade de Deus, senão o Evangelho em sua totalidade? Não basta ouvi-lo. Não basta lê-lo. Nem o racionalizar. Decorá-lo. Ou espiritualizá-lo. Qualquer forma de reduzi-lo em sua abrangência apenas nos afastará da sua mensagem e dos efeitos capaz de produzir. Antes é necessário obedecer a ele, assim como o Senhor Jesus obedeceu ao Pai, demonstrando o seu amor por ele. Ilude-se quem acredita que qualquer tipo de amor é suficiente e significativo em si mesmo. Que qualquer ardor, emocionalismo ou contemplação seja suficiente para agradar ao Todo- Poderoso. Nada disto. O exemplo está naquilo que Cristo espera dos seus discípulos, como prova do amor deles por ele: “Se me amais, guardai os meus mandamentos... e aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama” (Jo 14.15, 21); Porque: “Quem não me ama não guarda as minhas palavras” (Jo 14.24). Isto é dito para a igreja, o povo de Deus, porque o mundo não pode conhecer o Espírito de verdade, nem pode recebê- lo, “porque não o vê, nem o conhece” (Jo 14.17). Muitos justificam a impiedade e injustiça do mundo em sua anormal naturalidade de ser ultrajante e insensato, visto não terem a palavra nem o Espírito da palavra para orientá-los, pois é-lhes impossível recebê-los e não os têm em si mesmos. Mas será isso? Ou não estaremos apenas dando os motivos para tanto uma como outra coisa se propagarem desenfreadamente, numa justificativa para a falta de temor dos cristãos? Não estaremos a regar e adubar o mal por considerá-lo inevitável e fora de controle? Não estaremos a nos condenar pelo descuido, por um espírito de acomodação e cinismo? Espírito pelo qual nos autodesculpamos por causa da nossa covardia e falta de discernimento? Desde quando o fato de se ser pecador é justificativa para se pecar? Seria o mesmo que um réu justificar o seu crime diante do juiz com o argumento, ou a falta dele, de ser criminoso. O criminoso não é autojustificado por sua condição de culpado, antes ela o denuncia e o condena. Com isso, participamos do sofrimento, da injustiça e da opressão que governos e a sociedade exercem sobre outros irmãos e até mesmo outros ímpios, o que nos torna, em algum grau, cúmplices do mal. Alguém pode dizer: devemos sofrer por amor ao próximo. Devemos amá-lo como Cristo ama o pecador. É verdade; porém Cristo não ama a todos os pecadores indiscriminadamente. Cristo não ama aquele que morrerá obstinado em seu pecado. Cristo não ama aquele que escarnece e se exibe acima da vontade de Deus, como se fosse maior do que Deus, levando uma vida distante da verdade até a sepultura. Cristo não ama os que jamais se arrependerão dos seus pecados. Muito menos os que se deliciam continuamente em praticá-los. Cristo, ao contrário, abomina-os e os lançará no tormento eterno, sem apelação. Cristo veio ao mundo para resgatar o seu povo, morreu por ele e por ele ressuscitou. Alegar um amor divino indistinto é apelar para a desordem de Deus que criou o mundo com propósitos claros e definidos, assim como os vasos da ira foram preparados para a perdição (Rm 9.22) e “até o ímpio para o dia do mal” (Pv 16.4). A visão de muitos, de um deus que criou vasos para a perdição e amou-os tanto que os lançará no inferno, onde serão atormentados eternamente, é simplesmente antibíblica e, posso dizer, tem o objetivo de nos tornar amigos de inimigos declarados, de tal forma que contemporizamos com o mal ao invés de aborrecê-lo, muitas vezes aliando-nos e entregando-nos de corpo e alma a ele. Querem criar um deus ambíguo, esquizofrênico, senil, frouxo, e que nada tem a ver com o Deus bíblico. Mas, à parte dessa questão, uma outra está a intrigar- me: pode um cristão apelar para o amor indiscriminado e incondicional ao pecador, mesmo que isso represente a perseguição e injustiça a outro semelhante (seja irmão ou não)? Quer dizer que devo ser misericordioso para com aquele que não tem misericórdia e assim ele desfrute livremente do seu pecado, exercendo-o sem limites? Chegando a utilizá-lo como uma forma de punir o justo? Veja bem, o ponto a se refletir é: é necessário ser misericordioso com quem não tem misericórdia, com aquele que persegue, com aquele que causa dano, com aquele que se exibe ostensivamente na promoção e incitação ao pecado? É inadmissível que isso sirva de justificativa para a ofensa, a improbidade e o despudor. Seria esse o padrão de justiça bíblica, levando-nos a amar o ímpio e permitir que ele permaneça um injusto? Qual deve ser a atitude diante de um ato de injustiça? Defender quem a promoveu? Ou acusá-lo e condená-lo segundo o reto padrão divino? Absolvê-lo pelo padrão humano? Quando se age assim, condena-se o justo e despreza-se a justiça, favorecendo o mal em detrimento do bem. Mas, sobretudo, permite-se agir injustamente com ambos, ao consentir um exercício livre da impiedade de um, privando o outro da liberdade de ser justo. Um adendo: A Bíblia diz que devemos amar aos nossos inimigos (Mt 5.44); da mesma forma que nos ordena a abençoar os que nos perseguem (Rm 12.14). Mas isto se refere especificamente a cada um de nós, como indivíduo, e não como coletivo. É um chamadoindividual para cada um agir assim quando o objeto de injustiça for a si mesmo, não o outro; ou seja, eu, Jorge, se sou perseguido, caluniado, odiado, devo amar quem me persegue, calunia e odeia, porém isso não quer dizer que devo proceder da mesma forma em relação a alguém que perseguido, caluniado e odiado, não detém dos meios para se defender. Antes devo denunciar o crime e o criminoso e sair em defesa do inocente. Sou chamado a me entregar à morte por Cristo, mas não posso nem devo aceitar e permitir que o outro seja morto, pois, agindo assim, estará evidenciado não o amor, mas o desamor ao próximo. O amor pode permitir que eu sofra a injustiça, mas jamais permitir que eu compactue com ela. São coisas distintas. Devo sofrer o dano, mas jamais omitir-me diante daquele lesado pela ação criminosa de um terceiro. Interessante é, normalmente, não aceitarmos o dano, mas querer impô-lo aos outros; somos rápidos em nos defender e negligentes quando se trata da defesa alheia. Devo entender que a minha ação em impedir o mal está compreendida na providência divina de utilizar a instrumentalização humana no sentido de fazer justiça. Alguém pode argumentar: mas, nessa disputa, você está tomando partido entre duas pessoas, as quais deve amar, sendo ambas o seu “próximo”. Nesse caso, você não está sendo injusto? Penso que não. A atitude de injustiça inicia- se com o criminoso, quem quebrou a lei e os princípios do evangelho, agindo em desacordo com a palavra de Deus. Ao defender a vítima posiciono-me em favor daquele que não desejou a desobediência, antes foi atacado por ela. A própria lei secular garante ao cidadão o direito de, não havendo autoridade constituída, sair em defesa da parte lesada e coibir a agressão, impedindo o criminoso de alcançar o seu intento. Outro ponto a se destacar é o fato de o amor ao ímpio não me impedir, em momento algum, de corrigi-lo. Isto deveria ser visto, corretamente, como prova de amor não somente ao criminoso, mas sobretudo ao inocente, para que ele não seja punido duas vezes: por quem cometeu o crime e por minha negligência ou omissão, ao não ser reparado no que perdeu. Fim do adendo. Ao se defender a “superioridade do homossexualismo”, por exemplo, defendem-na até que ponto? E se for legitimado, por força de lei, e ferir os princípios de liberdade de outro indivíduo, esse padrão de “justiça e moralidade” pode ser considerado bíblico e justo? Não é possível esse “direito” ampliar-se e estender-se aos assassinos, pedófilos, ladrões, estupradores, corruptos, fraudadores e blasfemadores? Ou se deve, ao contrário, empenhar esforços para que eles reconheçam seus pecados (e, conforme o caso, sofram a punição legal por eles) como uma maneira de denunciar o padrão imoral e antibíblico no qual vivem e aprimoram-se?[73]. Sendo exemplo para que outros não enveredem no erro e no crime? Não é assim que Deus demonstra o seu amor por nós, nos revelando, primeiramente, nossa impiedade? Levando-nos ao arrependimento? Por que temer que a lei seja esse instrumento de reparação ao injustiçado, a fim de se corrigir um dano, mas também o aio que levará o pecador a Cristo? Não é retirar a força do Evangelho? Diminuí-lo e agir claramente em desamor? E não é certo, ao agir assim, que uma pessoa conivente será acusada no tribunal de Cristo, por cooperar com o mal e se inserir no modelo ao qual o apóstolo se refere? “Os quais, conhecendo o juízo de Deus (que são dignos de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que as fazem” (Rm 1.32). Viver no mundo não nos torna parte dele; temos de ser separados de suas práticas e mesmo daqueles que a praticam sem pudor. Ao silenciarmo-nos, assentimos, ainda que exteriormente, com a prática do mal. É o suficiente para o ímpio ver reconhecida a sua legitimidade e permanecer na transgressão. O nosso silêncio é a resposta que eles não precisam ouvir para declararem moral o que Deus estabeleceu como imoral; pois, como o profeta adverte: “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo! Ai dos que são sábios a seus próprios olhos, e prudentes diante de si mesmos!” (Is 5.20- 21) É necessário que a nossa aversão, nojo e repulsa sejam evidenciados, não como uma mera postura a delimitar um espaço físico ou social, mas para o próprio bem daqueles que teimam em viver à margem da moral e ética cristãs e pelo bem daqueles que desejam sinceramente viver nelas e por elas. Agir assim parece ser pedir demais, num mundo em que o pecado é ostensivamente exposto como apenas outro padrão social; como se estivéssemos sem rumo, o ponteiro da bússola girando freneticamente em todas as direções. Esse padrão encontra-se presente em todos os segmentos, refletindo o caos que conduzirá as pessoas em suas relações cada vez mais destrutivas e insanas. Quando um ministro de Estado disse não haver problemas no fato de os filhos de um ex-presidente, que nada têm a ver com o corpo diplomático brasileiro, deterem credenciais diplomáticas e a sociedade fingiu não ver, ao passo que os cristãos fingem-se de cegos e muitos dentre nós ainda defendem esse falso argumento (que em si não é argumento, pois não há argumentação), paira no ar o cheiro pestilento e invasivo de podridão, de destruição, de iniquidade, que deixa tudo à sua volta exalando um mau cheiro intenso, doentio e agonizante. E ao se fazer vista grossa para atitudes aparentemente sem importância, apenas nos fará incapazes de perceber a condição de autorruína em que o indivíduo ou indivíduos encontram-se, apáticos em seu próprio aniquilamento. É essa indisposição à verdade que torna relevante a mentira, que nem mesmo está preocupada em dissimular-se, mas em se exibir cínica e provocante em sua obscenidade, como uma ferida purulenta que ninguém deseja curar. Isso é extremamente danoso para o mundo o qual, contudo, não se apercebe, em sua própria cegueira, do abismo, da queda livre em que se encontra. Mas quando percebemos a igreja, ou boa parte dela, se envolver cada vez mais com a patifaria e o descaramento, capaz de fazer enrubescer os piores e mais cruéis bucaneiros e corsários do passado, torna-se fácil notar o afastamento do homem na direção oposta à dos valores bíblicos e o modo como foram postos de lado. Deus tem sido esquecido e a sua palavra repudiada em favor das falsas “boas-novas” do príncipe deste mundo. A consequência disso é a igreja acabar por se encher de “apelos” humanistas e relativistas e de incredulidade (como se tudo isso fosse uma virtude e não uma desgraça), a ponto de o Evangelho estar morto para ela, enquanto ela, moribunda, aguarda a morte inapelavelmente justa e anunciada pelo próprio Evangelho; deixando-se abandonar em si mesma, exatamente por lutar contra aquilo que deveria ser a sua essência, o que a manteria viva, ativa: “Apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” (Ef 5.27). A mesma justiça à qual a igreja nominal estará sujeita se mostrou no castigo recebido pelos israelitas, fruto da sua ingratidão e revolta contra Deus. Muitos foram imediatamente destruídos, como Coré e sua tribo, os quais, achando-se parte do povo de Deus, não pertenciam a ele, e, por sua arrogante descrença sucumbiram. Eles se insurgiram contra Moisés, a ponto de este os chamar para conversar e eles se recusarem a atendê-lo. Não só isso: Coré ajuntou toda a congregação de Israel e foram contra Moisés e Arão (Nm 16.12-14;19). Encontramos nessa narrativa princípios evidentes de autoridade, contra os quais os incrédulos se insurgiram. Moisés, o profeta, o homem pelo qual o Senhor libertou Israel, liderando-o por sua ordem e vontade, foi rejeitado pelo povo, que assim rejeitou a Deus. Ora, quem instituiu-o como líder em Israel? O próprio Deus! Ao não o aceitarem como escolhido e legítimo líder,a rebelião de Coré e seus comparsas não foi simplesmente contra Moisés e seu irmão, mas contra a autoridade divina; culminando, em seguida, na imediata punição: a terra se abriu e os tragou; toda a tribo de Coré, seus bens e tudo o que possuíam desceram ao abismo, a terra os cobriu e morreram diante da congregação de Israel (Nm 16.31-33). Talvez a ordem dos fatos não seja precisamente essa, pois, ao rejeitarem a Deus, também o fizeram em relação à sua vontade e daqueles colocados como líderes do povo. Muitos esquecem-se de que Deus é justo e santo, apelando apenas para o atributo do amor como uma “boia salva-vidas” ou um salvo-conduto para manterem-se no pecado e na impiedade. Como o apóstolo exorta: “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará. Porque o que semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção; mas o que semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna” (Gl 6.7-8). A teimosia em rejeitar a palavra de Deus trará ao homem o mesmo fim ao qual os anjos rebeldes estão destinados: Deus reservou-lhes a escuridão e prisões eternas, que necessariamente não quer dizer que estejam presos, impossibilitados de agirem, mas que, em sua desobediência, não há neles luz, mas apenas trevas, e que estão eternamente presos e amarrados em sua soberba e tolice, ainda a lutar obstinadamente contra Deus e os seus filhos. Será que ainda esperam ganhar esta guerra? Seriam tolos o suficiente? Ou não conhecem que a palavra de Deus revela a sua derrota inexorável? (Hb 2.14). Se sabem ou não, o certo é que insistem em sua rebeldia, lutando incessantes a fim de destruir o reino de Deus. Por isso foi- lhes reservado o Inferno, lugar criado para Satanás e seus anjos, mas também para os homens ímpios e irreconciliáveis. E ainda nos é afirmado que o dia do Juízo os aguarda e que eles estão reservados para esse dia, o dia em que a justiça e a ira de Deus estarão eternamente sobre todos eles, anjos e homens caídos. Porém, qual é, pois, a causa ou motivo para a justa condenação e o fato de serem lançados na escuridão e em prisões eternas? Um único e suficiente motivo apresentado de várias formas, muitas visíveis, outras nem tanto, e algumas ocultas na intimidade: o pecado! Primeiro, a definição de pecado: “é tudo o que é contrário ao caráter de Deus. Como a glória de Deus é a revelação do seu caráter, o pecado é uma insuficiência do homem em relação à glória ou ao caráter de Deus (Rm 3.23)”[74]. Considero esta uma ótima definição do pecado, pois ela estabelece que ele é algo completamente exterior a Deus, cuja natureza não se opõe meramente ao pecado, como duas forças em disputa, mas o anula completamente. A santidade divina como antídoto é capaz de eliminá-lo, sem restar nada, de modo que sua deficiência é anulada por Deus em sua perfeição. O pecado poderia ser entendido como uma reação radical a Deus, à sua santidade, autoridade, essência e natureza, bondade e perfeição, justiça e graça, numa tentativa pífia de tomar o seu lugar, substituindo-o por elementos antagônicos, díspares e viciados, como se a falsificação pudesse, em algum momento, revestir-se da autenticidade do Autor Supremo, do legítimo Senhor de todas as coisas, a abalar-lhe o Reino e Trono, os quais são inatingíveis e inexpugnáveis, por serem o lugar eterno do Deus eterno. A natureza divina destrói e neutraliza qualquer investida do mal e do pecado, por serem estes a adulteração e a falsificação do bem, incapazes de assumirem o caráter próprio do original. Onde há ordem, é impossível a desordem. Onde há o bem, é impossível o mal. Onde há santidade, não há pecado. Onde há justiça, não há injustiça. Onde há vida, não há morte. Na origem, não existe incerteza. Na unidade, não há dispersão. No eterno, não há o efêmero. Por isso o pecado é a resistência ou a obstinação do homem em reconhecer a devida glória do Altíssimo. É possível que alguém avente a hipótese de eu estar me entregando ao dualismo, o que não é o caso. A Bíblia afirma que todas as coisas foram criadas por Deus, estabelecidas eternamente em seu Decreto, de tal forma que nada, absolutamente nada, surgiu à sua revelia; pois toda a criação, seja espiritual ou material, veio a existir do nada; não havia substância pré-existente a qual Deus tivesse utilizado para formar o universo. O que equivale a dizer que tanto o mal como o pecado não são autocriados ou originários de outra “força”, mas vieram à existência pela vontade decretiva de Deus, ainda que se manifestem pela sua ausência. Onde o necessário bem não está agindo, entrega o homem à sua própria natureza, o padrão natural de inimizade contra Deus, e o campo infértil para a proliferação do mal. Como Paulo resumiu apropriadamente: “Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si; Pois estes mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador” (Rm 1.24-25) Portanto, tudo, em seus mínimos e irrelevantes detalhes, está sujeito ao Criador, sem que pudesse existir alheio à sua deliberação; e aqui, como já disse, inclui-se o pecado, o mal, a Queda, etc.; sem nos esquecermos de que eles são antíteses ao ser divino. Infelizmente, nesta era pós-moderna, em que a sociedade é guiada pelo conceito relativista-materialista- cético (a descrença em relação à verdade, mas nunca em relação ao falso e adulterado), o homem é visto como um amontoado de genes e células e suas atitudes estão diretamente ligadas à combinação dos genes, hormônios e a interação deles com o meio natural e social em que se vive. Segundo esse padrão, o homem é resultado de agentes biológicos/hereditários, químicos e ambientais, explicando-se, assim, os seus atos, os quais são consequência direta desses fatores. Tal pensamento visa tirar do homem o senso moral e suprimir a Deus, o criador da Lei Moral, pela qual o homem se revela iníquo e culpado pelos seus pecados. Desta forma, está-se livre para praticar a dissolução e impiedade em completo estado de descaramento e cinismo, o “salvo-conduto” que o tornará inconsequente e irracional, tolo e imaturo, além de um fugitivo recorrente, na busca incessante de ocultar de si mesmo qualquer acusação ou denúncia de que suas ações são irresponsáveis, aspirando alcançar a supremacia suicida do desejo inconsequente, onde não há culpa nem a ideia de violação da santidade. Antes, trata-se de um ato construído pela ilusão de que não se é merecedor de punição, posto não haver nenhuma transgressão, sendo que as ações provenientes do corpo e da alma encontram respostas apenas no desejo, em si mesmo, como se ele fosse maior do que o próprio ser, do próprio homem, dissociado da sabedoria, da ordem, retidão e justiça e do verdadeiro significado de existência. O ceticismo aboliu a ideia do pecado como ato condenável e condenatório, não podendo ser julgado pela moral cristã, visto ser ao homem impossível lutar contra as “forças” bio-químico-sociais, às quais está exposto. Como os animais, o homem é refém do seu instinto, não podendo resistir-lhe; qualquer moral pré-estabelecida é um ataque direto à independência e autoridade do homem sobre si mesmo, não podendo ser considerada, e, se possível, é transferida a outra esfera social pelas vias ideológicas. Este conceito é o que considero de a “cara de pau” do pecador; porque, diferentemente dos animais, o homem possui uma alma imortal, a qual é capaz de conter e deter os seus impulsos pecaminosos (um reflexo do Imago dei). É claro que esta não é uma definição, mas uma dedução, e se aplica apenas àqueles que são regenerados pelo Espírito Santo, mas o objetivo principal é o de diferenciar o homem e sua mente do animal e seu instinto. Muitos podem dizer que o animal é por vezes mais racional que o homem em sua irracionalidade. Pode ser, talvez. Mas o fato é que a Bíblia indica os atos imorais humanos como pecados,por isso a necessidade da Lei Moral, a qual distingue nossos atos (e, por conseguinte, nós) das demais criaturas, impondo restrições ao mal, à depravação que existe em cada um, de forma a não permitir que nossas ações sejam excessivamente humanas (no sentido do homem pós- Queda), completamente identificadas com a natureza pecaminosa, mas reserve e resguarde características divinas, não perdidas totalmente, porém contaminadas pelo pecado. Neste sentido, a Lei Moral revela-nos a iniquidade e o transtorno moral ao qual estamos submetidos e cativos, no entanto, também aponta para a necessidade de freá-los, de contê-los, sem a qual o mundo se tornaria altamente destrutivo e inabitável. O lado verdadeiro da realidade humana é que ele somente poderá se conter e deter os seus impulsos pecaminosos pelo poder e pela graça de Deus, ao transformar o coração de pedra em coração de carne (Ez 36.26). Em outras palavras, Deus operará a conversão e o novo nascimento no homem caído (Jo 3.3), e, pelo poder de Cristo, o homem se torna justificado, redimido, absolvido dos seus pecados e feito santo. Se o homem tivesse se mantido puro e em santidade no Éden, como Deus o criou, à sua imagem e semelhança, não haveria o pecado, nem condenação. Não entro no mérito de como isso se daria, porque o “se” aqui tem a ideia de hipótese não realizável, uma conjectura, visto Deus agir no homem e na história conforme sua vontade decretada na eternidade. O mundo moderno vê o pecado e o mal como resultados naturais do que somos, algo irresistível e que somente poderá ser contido pelo senso coletivo de justiça e igualdade, os quais farão renascer a bondade e fraternidade individual. O meio para se obtê-los passará sempre por algum tipo de nivelamento comportamental, imposto à força e coercitivamente na pessoa indesejada; forças tão poderosas e dominadoras que anularão a individualidade em favor de um senso coletivo maior e almejável. É quando se apresenta o caráter ideológico de reconstrução e reengenharia social, numa tentativa de se construir um novo homem, passivo e completamente submisso aos ditames da nova sociedade, sob os auspícios do poder estatal. Para isso, é necessário o controle da mente, então a psicologia, a pedagogia e a sociologia se encarregarão de propagar e exigir um comportamento anti-humano e conectado a um “bem maior” a anular o sujeito em favor do objeto. Uma verdadeira antítese na qual o princípio do pecado é negado pela autonomia individual, mas essa autonomia tem de ser controlada pelo impulso coletivo de domínio para um fim comum. No final, se houver falhas, elas não serão imputadas à sociedade, que pode ser acusada formalmente, mas jamais na prática, e o indivíduo é quem carregará a culpa e a punição. Ou seja, criou-se um círculo vicioso e um verdadeiro “samba do crioulo doido” no qual o homem não tem, dentro desse escopo, a menor chance de escapar da destruição, da antinaturalidade forçada, o que o torna uma marionete, um joguete nas mãos de uma elite controladora e sob a égide ideológica dominante, que despreza e nega qualquer relação entre a humanidade e o Deus bíblico. Ela é o poder e a força e o deus! Exemplos não faltam. Um criminoso, aos olhos dos intelectuais modernos, em sua maioria, comete os crimes forçosamente por sua condição social ou econômica, pela injustiça ou desigualdade, de forma que a sua motivação não é intrínseca ao furto, roubo ou assassinato, mas exterior a ele, a ponto de o consumismo ou a sociedade consumista ser a causadora do mal gerado na alma. Logo, os crimes devem ser atenuados em suas consequências porque a culpa não é completamente do criminoso (em muitos casos nem deveria ser, pois ele não tem escolhas, é o que dizem) mas majoritariamente da sociedade. Com isso, cria-se uma generalização absurda, a de que os pobres são potencialmente criminosos e de que os ricos não o são, nem podem ser. A realidade, entretanto, nega-lhes as falácias, ao mostrar que os crimes acontecem em todas as esferas e não estão restritos a apenas um ou outro grupo social. O desejo de negação da verdade e a criação de um experimento social fictício encontra-se presente também no que chamam de “ideologia de gênero”. A psicologia moderna tenta, de todo jeito, garantir ao indivíduo o direito legítimo de não se ver como é, mas de o homem poder ser o que quiser, sendo que a sociedade não pode, em hipótese alguma, negar o que ele se tornou. No caso de doenças como a anorexia, por exemplo, quando uma pessoa com 32 quilos se vê, ao olhar-se no espelho, com 220 quilos, os psicólogos insistem em convencê-la de que a imagem vista não é a real e de que ela não é efetivamente “gorducha”. Há um claro chamado à realidade e uma oposição ao que o enfermo vê como sendo antinatural, uma discrepância obsessiva, provocada por angústia ou sofrimento mental. Em relação a um homem que não se vê como homem, mas como uma mulher, por outro lado, os mesmos “cientistas” convencem-no de que ele é uma mulher, ou pode sê-la, e de que a sociedade está equivocada em vê-lo como não sendo. Ela tem de participar, compreender e aceitar a sua doença como algo natural, vendo nele o que não é nem nunca será, por mais que se esforce em torná-lo genuíno. Dois pesos e duas medidas, onde a ciência deixou há muito de ser praticada para exercer uma militância ideológica esquizofrênica de imposição de conceitos artificiais e utópicos e insanos. No entanto, as Escrituras nos revelam que o mal e o pecado são consequências daquilo que nos tornamos ao nos rebelarmos contra Deus, ao rejeitar sua autoridade, supondo-nos capazes de ser como ele, apelando para uma independência impossível e ilusória, uma vez que o próprio ato de respirar independe da nossa vontade. Ao opor-se a Deus, deliberadamente o homem aliou-se ao mal, teve corrompida a sua natureza, fazendo-se antinatural, uma abominação, afastando-se da essência humana verdadeira que é dar graças e louvor ao doador de todas as coisas. À ingratidão humana soma-se o próprio desprezo a si mesmo; querendo exaltar-se, o homem rebaixa-se para muito além do conhecimento próprio e para muito aquém da mínima retribuição, em tenaz rebelião contra aquele de quem não pode prescindir; não reconhecendo de quem é dependente e de quem recebe o favor. Cristo veio restaurar o que se havia perdido, veio restaurar em nós a imagem de Deus que havia sido maculada e deteriorada no Éden. Por ele ser o homem perfeito, puro, santo e sem pecado, ao morrer na cruz do Calvário, substituiu-nos, pagando o preço da nossa desobediência, das nossas iniquidades. Assim, fomos regenerados, santificados, purificados e transformados novamente à imagem e semelhança de Deus. Não há como apelar para a relatividade do pecado; por ele estamos mortos para Deus; por ele virá a condenação eterna; por ele Cristo morreu na cruz... e, por ele, muitos serão justificados e salvos. Consequências reais e tangíveis de um único ato de amor, da entrega voluntária, do sofrimento e morte caridosos, que levou o Filho de Deus a encarnar-se, entregando a si mesmo por aqueles que antes o odiavam, mas que reconheceram, mesmo sem toda a compreensão, o sacrifício substitutivo, a absolvição completa de toda a ofensa realizada contra Deus. Isso se chama graça! E faz do homem novamente homem, ou muito próximo daquele criado do barro[75]. O mesmo não é possível em relação aos anjos caídos; para eles não existe a regeneração, tal qual é ao homem. Como e por quê, somente Deus o sabe segundo a sua santa vontade. Ao se rebelarem nos céus, Satanás e seus asseclas assinaram definitivamente a sua sentença condenatória, sem defesa, sem recursos, sem perdão. Afinal, o perdão compreende o arrependimento, que os anjos caídos são incapazes de ter, já que o Espírito Santo, o doar deste dom, não age neles, sendo-lhes reservada a escuridão. Algo peculiar é que, na escuridão, não se consegue ver; por ela, tropeçamos, caímos, e,até mesmo, pode-se morrer, dependendo de onde se está e para onde se cai. Ela é um lugar de trevas, onde não há sequer uma réstia de luz e, no caso dos anjos caídos, eles se tornaram para sempre escravos da escuridão. Uma escuridão não criada, mas buscada, ansiada, pela natureza amotinada, estando todos que se rebelam, por completo, sujeitos a ela. Essas trevas são tão densas, a envolvê-los implacavelmente que, inebriados pela vaidade, lutam como néscios contra Deus e seu Reino, gastando o seu tempo em aumentar, sobre si mesmos, a ira divina, ao insistirem e persistirem no labor funesto de combater a verdade, a vida, a razão, a santidade, a obediência e sujeição ao Senhor. Com isso, amontoam sobre si, cada vez mais, o juízo de Deus, o castigo como retribuição mais que merecida por sua arrogância, vaidade e soberba, ao se colocarem ostensivamente contra o Altíssimo, levando consigo uma multidão de estultos igualmente desobedientes, envoltos na mesma escuridão, dando cabo ao plano doentio de se autodestruírem, enganando-se a si mesmos, levando às últimas consequências as atitudes mais torpes como desagravo à soberania divina. Satanás e seus anjos foram os primeiros derrotados, julgados e condenados (Hb 2.14), servindo-nos, agora, de exemplo, a fim de despertar e suscitar temor ao coração impenitente, ao homem em contumaz perturbação da alma e que ainda não compreendeu o alcance da sua insubordinação. Ela aponta para a “escuridão e prisões eternas”, onde a insensatez tramada e posta em ação pelos rebeldes receberá o justo pagamento por sua ousadia negativa e obsessão doentia. Não podemos entender “prisões eternas” literalmente, como se Satanás e seus anjos pudessem ser enjaulados ou amarrados com correntes. Na verdade, o inferno foi criado para eles e nele habitarão por toda eternidade, recebendo a justa punição por seu motim. Contudo, entendo que a expressão significa o próprio estado de rebelião, de escuridão, em que seus espíritos se encontram, e de onde não podem jamais sair, pois ela foi- lhes reservada por Deus, da mesma forma que o Lago de Fogo lhes foi destinado. Assim como eles, o homem insubmisso, desafiador e impenitente (o qual tem o privilégio concedido por Deus de arrepender-se), sofrerá o castigo merecido quando “daquele grande dia”, sem a chance de escapar ou desviar-se das algemas a atá-lo em sua vontade desordenada, sendo lançado no lugar onde “o seu bicho não morre, e o fogo nunca se apaga” (Mc 9.44). Finalizando a exemplificação sobre a justiça divina, que se refere a um fato insistentemente replicado nas Escrituras, um alerta à cautela e prudência, para não se repetir conosco o juízo ao qual os habitantes de Sodoma e Gomorra atraíram com suas perversões e pecados, bem como as cidades circunvizinhas[76], reitero: Deus fez chover enxofre e fogo dos céus, destruindo-as (Gn 19.24-25). O sacrilégio delas era algo notório na região, e Deus colocou- as por exemplo, para que todos soubessem as consequências de uma vida dissoluta. Talvez, por isso, esse seja um fato relatado sucessivas vezes na Escritura, como um alerta de que o homem irreconciliável e rebelde sofrerá a pena eterna do juízo divino. Tal qual os habitantes daquelas cidades, qualquer um que se atreva a desconsiderar a advertência de viver uma existência santa, preferindo entregar-se à fornicação[77] (palavra que nos remete não apenas à prostituição carnal, mas também à idolatria como uma forma de prostituição espiritual, ao entregar a sua alma para um impostor, alguém que não é o legítimo doador e senhor dela, Cristo) e aos desejos da carne, encontrará o mesmo caminho. Não a destruição através de um fogo do céu (o que não está de todo descartado, já que o juízo pode sobrevir de várias maneiras neste mundo), mas pela separação eterna, inexorável, de Deus, significando a mais destrutiva e dolorosa forma de morte. A menção a “ido após outra carne” (Judas 7) refere-se àquele homem que não somente segue os desejos ilegítimos e afrontosos contra Deus, mas persiste no pecado, como uma provocação, a despeito de todas as advertências; cometendo-o como um desafio, um insulto; incitando-se a si mesmo contra Deus, em atitude deliberadamente contenciosa, tornando-se ainda mais detestável aos seus olhos. No íntimo da sua alma e coração, ele se recusa, como um revel, a qualquer obediência, desdenhando da autoridade divina e fazendo-se senhor de si mesmo. Seria, mais ou menos, como um soldado desertor que abandona o seu exército em meio a uma guerra. Naquele momento, ele nega a autoridade dos seus comandantes e a possível punição é-lhe indiferente, seja porque considera-se esperto o suficiente para escapar e não ser pego, seja por achar que as leis e o juiz não o enquadrarão ou o alcançarão. Em qualquer uma das situações ele é um teimoso, obstinado, em seu desejo de autonomia, possível somente no caso de não haver nenhuma autoridade. Porém, ele sabe que existe e tenta enganá-la, esquivar-se da sua responsabilidade, buscando em seu ato uma isenção, a anulação do seu dever, do compromisso. Ao contrário deste mundo, onde há chance de se safar da punição, das limitações e frouxidão da justiça humana, em relação a Deus isso é impossível, mas, muito mais do que isso, é intolerável ao Senhor santo e justo permitir uma mínima injustiça em sua magistratura, em seu governo. Esta é a advertência do apóstolo: “Indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniquidade; tribulação e angústia sobre toda a alma do homem que faz o mal... Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados” (Rm 2.8-9,12) Certamente nenhuma imagem que se relacione ao castigo eterno, por mais impressionante que seja, exprimiria a realidade do que aguarda as criaturas que perseveram na vergonhosa e infame inimizade com Deus, desafiando-o. PARTE CINCO A POMPA DO TRAIDOR “E, contudo, também estes, semelhantemente adormecidos, contaminam a sua carne, e rejeitam a dominação, e difamam as dignidades. Mas o Arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda. Estes, porém, dizem mal do que não sabem; e, naquilo que naturalmente conhecem, como animais irracionais se corrompem.” O Nexo da Impiedade Após o parêntese, nos versos 5 a 7, em que a igreja é lembrada da incredulidade de muitos e da justiça divina sobre eles, com o nítido objetivo de ressaltar o estado vil e sórdido no qual os falsos mestres encontravam-se, em sua condição de ceticismo e consequente alvos da justiça divina, de certa forma, chamando-os ao arrependimento, e, também, convocando irmãos, seduzidos por suas astúcias, a mudarem a intenção dos seus corações, contristando-os e voltando à verdade, ainda somos admoestados a não “dar guarita”, não se entregar aos seus apelos insanos. Isso significa não ceder ou ser engodado pelas falácias e artimanhas desses “velhacos”, antes rejeitando a elas e ao seu ensino espúrio, pois quem os recebesse, estaria trilhando um caminho diametralmente oposto ao da fé genuína, da graça, e do conhecimento de Cristo, equivalendo a rejeitá-lo tal qual um idólatra, pagão, tornando-se em um traidor no mesmo nível de apostasia dos falsos mestres, igualando-se na filiação espúria àqueles que têm por pai as trevas. Em tão poucos versos, soa estrepitoso o alerta de que o perigo é iminente e a atitude de condescendência, por mais insignificante e aparentemente inócua, representará um grande risco, pois um pouco de fermento pode, rapidamente, fazer com que toda a massa seja levedada (1Co 1.6). Como um abismo chama outro abismo, um erro necessitará de outro equívoco, e mais outro, para subsistir, para justificar-se, para estabelecer-se, culminando na corrupção de toda a sã doutrinae em sua explicita negação. Além de os seus defensores, ainda que alguém se considere “um mero simpatizante”, estarem sob o castigo, a ira divina, aqueles que não temeram a ameaça e deixaram-se conduzir por caminhos tortuosos, adentram a mais densa escuridão da alma e a separação inexorável de Deus. É possível que se voltem para a luz, mas como o apóstolo nos diz, poderiam aqueles iluminados uma vez serem novamente iluminados? A resposta é não! Como ele mesmo esclarece: “Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, E provaram a boa palavra de Deus, e os poderes do século futuro, E recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério” (Hb 6.4-6) No verso 8, ele retorna à exortação, voltando-se diretamente ao grupo de falsos profetas, indicando que eles se encontravam no mesmo estado de entorpecimento com o qual os incrédulos, os sodomitas e os anjos caídos se deparavam. A expressão “adormecidos” remete-nos à inconsciência, ao desconhecimento da realidade e à irresponsabilidade. Mas em relação a quê? Certamente, não estou a dizer que os seus atos eram inconscientes, no sentido de não saberem o que faziam, mas faziam-no porque sabiam sê-los afrontosos a Deus e vergonhosos à igreja. Não pelo fato de agirem inconscientemente, mas por terem uma consciência corrompida, arruinada e má, seus pensamentos e vontade dirigiram-se para o pecado obstinado, resistindo aos desígnios divinos, desprezando a igreja e os seus ensinamentos. O que desejavam, em seu íntimo, era destruir os irmãos, levando-os ao engano, tornando-os arredios à autoridade divina e eclesial, uma leva de insubmissos, orgulhosos e maldizentes. Eles não eram inocentes ou pobres coitados que não sabiam o que faziam; não, não eram! Como homens e mulheres infames, degradados moral e espiritualmente, caídos na fossa mais profunda e malcheirosa, entregues aos seus ventres, à sua carnalidade, ao pecado desenfreado e a todo o tipo de males que se possa imaginar, o que faria até mesmo o ímpio envergonhar-se de sua conduta, faltava-lhes o nexo da santidade. A imoralidade e perversão eram o único “cântico” a entoar em seus ouvidos contaminados, a única melodia fúnebre distinguível, embotando-lhes a alma, tal qual o viciado estupidifica-se nas drogas, envenenando-se, destruindo-se, mas não sem levar consigo a dor e o sofrimento aos mais íntimos, sejam parentes ou amigos, e, por vezes, desconhecidos, até em forma de roubos e assassinatos. Tiago nos adverte, em sua carta, que cada um é tentado por sua própria concupiscência, que trabalha na mente e, estando concebida, dá à luz o pecado, o qual, consumado, gera a morte (Tg 1.14-15). De igual forma, Judas nos fala do mesmo processo em que as mentes adormecidas contaminavam a sua carne e, sedadas, entorpecidas, entregavam-se às práticas mais abomináveis diante de Deus. Por estarem envoltos na estupidez, por serem cegos espirituais, por ouvirem apenas a voz da própria natureza (e os cochichos imorais do maligno), buscavam pecar sempre mais livremente, não se sujeitando a qualquer jugo ou autoridade, a não ser ao pecado que os tinha presos em rédeas curtas. Os seus destinos caminhariam no sentido de alcançar o mesmo resultado daqueles citados anteriormente: a perdição completa, a condenação irrevogável, o fim de sofrimento e abandono, debaixo da justiça e ira divinas. A reprimenda quanto ao cuidado com os falsos mestres perpassa toda a Bíblia, demonstrando o trabalho incessante e tenaz do inimigo em desvirtuar a verdade, levando o incauto à destruição. Um dos exemplos mais claros foi-nos dado pelos fariseus e escribas, homens de grande conhecimento escriturístico, mas que, seduzidos pelo orgulho e pela soberba, levaram a si mesmos, e boa parte do povo, à rejeição da palavra de Deus. Sendo assim, farei uma pequena análise do texto de João 10.22 a 42, averiguando uma forma muito comum de incredulidade, nos tempos do ministério de Cristo, em Israel, o qual complementarei na seção IX, deste livro, citando outras duas formas de ceticismo confundidas com a fé genuína. Vamos, primeiro, ao trecho já citado, transcrito por completo para facilitar a minha argumentação: “E em Jerusalém havia a festa da dedicação, e era inverno. E Jesus andava passeando no templo, no alpendre de Salomão. Rodearam-no, pois, os judeus, e disseram-lhe: Até quando terás a nossa alma suspensa? Se tu és o Cristo, dize-nos abertamente. Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo tenho dito, e não o credes. As obras que eu faço, em nome de meu Pai, essas testificam de mim. Mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho dito. As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço- as, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai. Eu e o Pai somos um. Os judeus pegaram então outra vez em pedras para o apedrejar. Respondeu-lhes Jesus: Tenho-vos mostrado muitas obras boas procedentes de meu Pai; por qual destas obras me apedrejais? Os judeus responderam, dizendo-lhe: Não te apedrejamos por alguma obra boa, mas pela blasfêmia; porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo. Respondeu-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Sois deuses? Pois, se chamou-os deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida, e a Escritura não pode ser anulada, àquele a quem o Pai santificou, e enviou ao mundo, vós dizeis: Blasfemas, porque disse: Sou Filho de Deus? Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis. Mas, se as faço, e não credes em mim, crede nas obras; para que conheçais e acrediteis que o Pai está em mim e eu nele. Procuravam, pois, prendê-lo outra vez, mas ele escapou-se de suas mãos, e retirou-se outra vez para além do Jordão, para o lugar onde João tinha primeiramente batizado; e ali ficou. E muitos iam ter com ele, e diziam: Na verdade João não fez sinal algum, mas tudo quanto João disse deste era verdade. E muitos ali creram nele.” Esta segunda seção do capítulo dez é a ratificação, o complemento de tudo apresentado na primeira seção, versos de 1 a 21. Mais uma vez, estamos diante da incredulidade dos judeus, os quais resistiam tenazes em negar a Cristo, como Messias e Deus, acercando-se dele, inquirindo-o, irreverentes e céticos (v. 24). A resposta do Senhor é direta, mostrando-lhes quão cegos estão diante de todos os prodígios que realizou, os quais testemunhavam a sua filiação com o Pai, não um mero homem de ideias e atitudes exorbitantes e insanas, mas o Filho de Deus, o Verbo encarnado, Senhor de tudo e de todos. A descrença dos seus inquiridores era fruto da arrogância a revelar a ruína de todo o sistema religioso judaico, e, por conseguinte, de seus espíritos acalentados pelo pecado e engano, no qual os seus olhos eram mantidos cerrados para a verdade, para a insondável revelação, tão distante de seus corações, expondo-lhes o profundo estado de perdição, de ignorância das coisas divinas. Na célere condenação em que trilhavam, imaginavam-se às portas do paraíso celestial, mas estavam diante de algo não compreensível no estado de incredulidade em que se encontravam. Diante disso, apontou-lhes o Senhor as suas reais condições: “Mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho dito” (v. 26). Não obstante, para o homem natural, a verdade jamais penetrará em seus ouvidos moucos e corações impenitentes, por mais que se lhe repita, desenhe e insista em fazê-lo perceber o abismo a separá-lo de uma vida agradável a Deus. A menos que o Espírito Santo aja regenerando, dando-lhes o novo nascimento, transformando o natural em espiritual, chamando-os à realidade (agora possível de ser vislumbrada, admirada ereconhecida), estarão aprisionados no pecado... As vendas são-lhes tiradas, tornando concebível o que antes era intolerável, permeado pela confusão, pela desordem da alma, de modo a se tornarem um fruto direto da graça e misericórdia de Deus[78]. Prova disso é o fato de Jesus, por diversas vezes, afirmar- lhes, com contundência, a sua divindade (Jo 5.36), assim como, também, a condenação iminente à qual estariam expostos, se não houvesse transformação (Jo 5.37-43). A consequência do ceticismo seria o juízo, este confirmando a incredulidade de pessoas que permaneceram duras, inflexíveis, recalcitrantes, na atitude de rejeição ao Filho, e, ao recusá-lo, negavam o próprio Deus[79]. Outro ponto é que, caso quisesse, Cristo poderia abrir- lhes os ouvidos, curar-lhes os corações e mentes, tornando- os ovelhas do seu aprisco. Mas por que não o fez? Porque não eram do seu rebanho: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço- as, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão” (v.27-28). Quão maravilhosa é a salvação! Como ela é plenamente de Deus, para que nenhuma carne se glorie e apenas ele seja exaltado! Como o Senhor é poderoso em misericórdia e graça para salvar e sustentar, preservando-as em santidade, a redenção de suas ovelhas. Ele as conhece. O Senhor não conhecerá as suas ovelhas, como se o tempo fosse a mola mestra na qual se dará a aplicação do seu amor eterno por elas, mas ele sempre as conheceu, muito antes de tudo vir a ser criado, de o seu plano infalível ser posto em prática. De modo perpétuo, não somente conheceu, mas também deu-lhes a vida eterna: “Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus” (Jo 17.9). Não é uma possibilidade, mas uma certeza, inexorável, não podendo ser alterada, anulada, ou extinta por qualquer força ou vontade, posto não haver força ou vontade superiores ou condicionadoras de Deus. Cristo não nos deu a possibilidade de sermos salvos, de virmos a ser salvos, num determinado momento em que quiséssemos, caso quiséssemos, ou de continuarmos perdidos, caso quiséssemos, porque sempre o queremos. Não há nada em nós capaz de mudar isso, o fato de haver em nossas entranhas o mais ardoroso desejo de mantermo-nos, para sempre, acorrentados ao desígnio de afastados de Deus, conservar sobre o pescoço o cepo da condenação. Não! Cristo nos salva e nos mantêm salvos; não por algum mérito humano, mas por sua única e exclusiva virtude, a qual resumiu: “Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (Jo 6.37). A obra é toda e por completo dele; nem uma mísera e infinitesimal virtude é alcançada pelo homem ou pode por ele ser advogada; não há nada nele, entretanto há tudo em Cristo. Por isso, o Senhor lançava-lhes em rosto a condenação de suas almas, a perdição eterna, a qual é definitiva também, não havendo possibilidade de se reverter, como alegam alguns insanos, seja pela purificação de muitos após a morte, algo impossível e antibíblico, seja pela absolvição de todos, neste mundo: “Aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo” (Hb 9.27). Ao assegurar a condição do eleito, não pelo esforço de muitos, mas de um apenas, através da graça, Cristo revelou a unidade entre o Pai e o Filho, de como são um (v.30), ambos garantindo a salvação. A segurança não poderia estar em outras mãos que não sejam as do Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo; ninguém, nem nada, nos arrebatará delas; ninguém pode substituir a salvação ou torná-la menos eficaz. Não é de se estranhar que, diante de tudo dito pelo Senhor à assistência judaica, os seus corações se endureceram ainda mais, não lhes sendo suficiente acusá-lo de blasfêmia, mas, como filhos do diabo, alimentavam o desejo infame de matá-lo (v.31-33). Tomaram de pedras para atirarem-nas, como fizeram outra vez (Jo 8.59). E por que chegaram a essa atitude? Os judeus, erroneamente, acreditavam que Jesus blasfemava contra Deus, ao fazer-se como Deus, garantindo, portanto, em cumprimento a Levítico 24.16, a punição de morte por apedrejamento. Ora, não foram eles mesmos a perguntar-lhe se era o Cristo ou não? Agora, após ouvirem a resposta afirmativa de que era, não se furtaram a empreender o plano acalentado de executá-lo[80]. Muitos dizem não haver Jesus jamais se proclamado Deus; fico a me perguntar se eles simplesmente não leram ou ignoraram as várias passagens bíblicas onde sua deidade é não somente confirmada, mas revelada, seja por sua proclamação, seja por seus feitos. No mínimo, podemos chamar os detratores de mentirosos e néscios grosseiros, mas eles se enquadrariam melhor na condição de usurpadores, de difamadores, de fraudadores da verdade, tão inimigos de Deus quanto o próprio Satanás. Iludem-se crendo ser ele simplesmente um iluminado, um mestre, um guru (algo que soa respeitoso nos lábios, mas trai a condição perversa, de gozo demoníaco, dos seus corações), dentre tantos outros assim reputados. À luz das Escrituras é fragrante e patente a sua condição de Deus Filho, possuindo todos os atributos do ser divino, não por imputação, como alguns tolos asseveram, mas em essência, por sua natureza, comunicada eternamente com o Pai e o Espírito. Não há como o homem com alma e espírito quebrantados fugir à realidade da sua condição divina: a onisciência, onipresença e onipotência; ele é justo (1Pe 3.18), santo (Hb 7.26), sem pecado (Hb 4.15)... Somente ele é capaz de dar-nos a salvação (Jn 2.9; At 4.12; Rm 1.16; 2Tm 2.10), entre outros atributos menos questionáveis por parte dos incrédulos, mas igualmente compartilhados pelas três pessoas da Trindade. Há, ainda, de se entender a condição encarnada do Senhor, cumprindo-se a profecia de Isaías 53, onde o Cristo é descrito como o “Servo Sofredor”, o qual veio realizar, fiel e em plenitude, a vontade do Pai (Jo 6.38), culminando com o seu sacrifício na cruz do Calvário e, três dias depois, a sua gloriosa ressurreição. Em resposta à acusação falsa de blasfemo, o Senhor devolveu-lhes, em rosto, o próprio ceticismo com o qual o acusavam, citando a lei: “‘Sois deuses’? (Sl 82.6); Pois, se a lei chamou deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida, e a Escritura não pode ser anulada, aquele a quem o Pai santificou, e enviou ao mundo, vós dizeis: Blasfemas, porque disse: Sou Filho de Deus?” (v.34-35). Uma pequena explicação sobre o significado do Salmo 82.6: ele nos remete não ao fato de a Escritura nos equiparar a deuses, no sentido de termos poderes ou funções divinas, sendo que essa interpretação resultaria em um grande equívoco. Não somos deuses, nem o seremos. A alusão é feita ao próprio Deus como o juiz supremo, cuja soberania está sobre tudo e todos, e que estabeleceu, designou, juízes, magistrados, no meio do povo de Israel, a fim de julgar com justiça os conflitos entre os homens (Dt 1.16-17). São, como Paulo afirmou, seus ministros para fazerem o bem e, se fizerem o bem, não poderão ser injustos. Ao contrário deles, Cristo admoesta os seus inquiridores quanto à sentença que desejam cumprir, ao acusá-lo, advertindo-os de que agem injustamente, pois aparentam cumprir a lei ao querer matá-lo com pedras, porém, descumprem-na ao julgá-lo sem equidade, pelo ódio injustificado, e o desejo maligno de condenar o inocente. Agindo assim, pecam contra o próprio Deus. Ora, se eles estavam sujeitos às decisões dos magistrados, chamados deuses, como poderiam acusar de blasfemo o Filho de Deus? Ao fazê-lo, incorrem em outra transgressão, pois não apenas negam a sua filiação, mas tencionam assassiná-lo. Como na parábola do homem e da vinha (Mt 21.33-46), na qual o herdeiro (uma tipificação do Cristo) foi morto pelos arrendadores (os incrédulos e inimigos de Deus), os fariseus e os sacerdotes estavam dispostos a cometerem a mesma barbaridade. Ao levarem-na a cabo, desprezavam ase sujeitar a Deus, à igreja, aos irmãos e ao próximo; culminando com uma certa oposição no seio da própria igreja, onde o caráter individualista e egoísta vem-se disseminando sem qualquer constrangimento dos seus advogados, nos últimos tempos. É comum vermos crentes dizendo-se servos de Cristo, mas parece-me que eles não entendem corretamente o significado do que dizem, ou o pronunciam apenas formalmente, como se fosse da “boca para fora”, sem ter o conceito e entendimento arraigado em seu coração. De maneira geral, temos pessoas se autodenominando “servos” sem jamais terem servido, sem jamais desejarem servir, numa flagrante contradição entre o dito e o não realizado, entre o que se diz ser, mas não é. Por isso, e mais especialmente pelo desconhecimento, muitos dissociam o termo “servo”[8] do seu sinônimo “escravo” (algo que ninguém deseja aplicar a si mesmo), como se o servir não chegasse ao ponto de deixar de ser ou fazer aquilo que não lhe seja dado ser e fazer. Escravo é aquele homem sem vontade, sem desejo próprio, vivendo especificamente para atender ao seu senhor. É quem dedica cem por cento do seu tempo, entregando cem por cento dos seus esforços; cem por cento da sua disposição; cem por cento de si mesmo; dispondo-se integralmente e com todos os recursos utilizáveis para satisfazer ao seu senhor. Não há lugar para nenhum tipo de vontade contrária à do seu dono[9]. No caso do crente, é viver em um estado de absoluta dependência e sujeição a Cristo, reconhecendo a sua autoridade, mas muito mais: ele é digno de exercê-la por tudo o que é; em contrapartida, não a reconhecer torna- nos ingratos e desrespeitosos, homens sem qualquer afeto, verdadeiros coletores de todas as ofertas e favores, mas negando desgraçadamente o doador. Também não se pode esquecer que é algo a se ansiar, a se querer, um desejo intenso de fazer-se prestimoso, pelo amor e sabedoria em reconhecer a dádiva de se tornar seu serviçal, em vez de deixar-se guiar pelo próprio julgamento corrupto e pecaminoso, levando a uma escravidão desonrosa naquilo capaz de destruir. Infelizmente vive-se em uma esfera longínqua da realidade cristã, de modo que resta tão somente envergonhar-se por permanecer assim, em um estado de autoengano: ao considerar-se aquilo que não se é, diante dos próprios olhos, e o fato de ser aquilo que Deus não quer, diante de seus olhos. Uma avaliação sincera de nossa vida pode nos expor a uma verdade ignorada e inaceitável, a de estarmos muito distantes do padrão assumido por Judas. Ele apresenta-nos uma dependência eterna, constante, necessária de Cristo, refletida na humildade de considerar-se como tal, servo, sendo essa humildade algo que desejamos manter afastado, pois queremos é reafirmar-nos, em todos os sentidos, seja como um bom marido, bom profissional, bom aluno... Não que isso seja errado, por favor, não confundam; acontece que desejamos o reconhecimento de ser bom quando não nos movemos na direção da bondade, não nos esforçamos em ser realmente aquilo que queremos ouvir; e, novamente, o rótulo precede as atitudes, ao menos em nossa mente diminuta e coração enganoso... Como seria ser um bom pai? Como seria ser um bom profissional? Não é quem serve? Por exemplo, um balconista, cujo atendimento é precário, tratando mal aos clientes, agindo de maneira desleixada e indiferente, como se fizesse um grande favor em cumprir com a sua obrigação; poderia ser considerado bom? Ele quer ser achado como tal, e se sente como tal, mas não se empenha em sê-lo, pelo contrário, o seu esforço está em evidenciar a sua inaptidão, o compromisso com o inadequado, levando-o, a efeito, ao fracasso. As pessoas muitas vezes querem um título sem fazerem jus a ele, sem merecê-lo, porque falta-lhes a humildade para servir e o entendimento necessário para mudar. Ao começar a sua carta intitulando-se “servo de Cristo”, Judas não parece se preocupar com a humilhação, nem se sentiu constrangido, tampouco demonstrou aborrecimento com a possibilidade de ser taxado como retrógrado ou estúpido, insignificante ou de ser tratado com desdém. Qual de nós se atreveria a escrever uma missiva ou e-mail, assim? Ou apresentar-se a alguém como, por exemplo, “Sou Jorge, servo de Cristo”? Ou ainda melhor, “Sou escravo de Cristo”? Alguém entre nós imaginaria isso possível? Não é melhor mantermo-nos distante dessa expressão, para evitarmos dissabores e inquietações, mantendo a nossa independência, afastados do embaraço de podermos ser confundidos como loucos, retrógrados, estultos? E o medo do rótulo afasta-nos ainda mais da prática, tornando-se substancialmente pior. A vida cristã não é simplesmente teoria, mas aplicação, prática, ação. Assim como Cristo dedicou o seu ministério ao ensino, ao transmitir a verdade, também se concentrou em demonstrá-la através da sua vida. Não há dissociação entre aquilo pregado pelo Senhor e aquilo por ele realizado. Havia uma unidade e harmonia entre o discurso e as atitudes. Ao negarmos a prática, sequer defendemos o ensino, e somos reputados como péssimos alunos, meninos rebeldes, de quem o Mestre se envergonha. Entretanto Judas não caiu na esparrela de se preocupar com uma suposta vergonha ou ofensa em se fazer servo, sentindo-se honrado com a sua condição. Ao mesmo tempo, considerou-se dependente e humilde em relação a Cristo, necessitando desesperadamente dele; e a sua condição é a de fazer a vontade do Mestre, abandonando o velho homem para ser aquilo que Cristo requeria dele, realizando a sua vontade, com o ânimo e o espírito enlevados, não por um suposto rebaixamento, mas pela glória da prestativa escravidão a Deus. A sua honra está exatamente em ser esse servo, não como alguém pego à força, conduzido com violência e obrigado contra a vontade; não como alguém conduzido a ferros ou iludido por algum interesse vão, mas convencido de nada melhor ser-lhe possível, e mais necessário, do que viver na submissão voluntária ao Senhor. A liberdade em Cristo representa precisamente isto: fazer a sua vontade, mas também querer, desejar, ansiar, por gratidão, fazê- la[10]. Esta vontade não se realiza pela coação, mas persuadida pelo amor; o amor com o qual Cristo buscou, resgatou, libertou o pecador cativo, trazendo-o até si, e tornando-o seu servo; mas muito mais ainda, unindo-o eternamente a Deus, fazendo-o um consigo mesmo. É por esse amor, e nada mais, que Judas foi feito servo de Jesus; e o faz querer continuar a sê-lo. Ele não está sendo obrigado a servi-lo, mas a agir assim em reconhecimento; porque é infinitamente melhor entregar a sua vida, viver na dependência e fazer-se útil, empregando todos os esforços em prol do Evangelho, como um escravo subitamente sábio reconhece o seu papel, em quem se tornou, e no que deixou de ser: um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu[11]. Servir é um conceito nitidamente cristão, e presente apenas no Cristianismo. Alguém pode interpelar com a alegação de haver “serviçais” em todas as religiões, aparentando uma fragilidade no meu argumento, contudo, digo, servem a quem ou a quê? Pode-se dizer que exista, fora do Cristianismo, um servir verdadeiro e submisso a Deus, não pelo que ele pode nos dar, mas pelo que é e já nos deu? Pode haver um servir que faça-nos negar a nós mesmos em favor da vontade soberana de Deus? Pode-se encontrar fiéis que sacrifiquem a sua vida em favor de outros? Não como um esforço pessoal em primeiro lugar, mas como uma retribuição pelo mérito divino de nos resgatar, limpar, transformar e restaurar, de transportar-nos da inimizade para a amizade consigo, e nos fazer filhos adotivos em Cristo. É possível? Penso que não. Isoladamente pode-se encontrar manifestações de bondade em outras religiões e mesmo fora delas, mas não como um preceito doutrinário, e com o viés correto entre a doutrina e o seu exercício. A verdade é que, por mais que outras religiões e filosofias se apropriem desse princípioautoridade suprema daquele a estabelecer os “deuses”, sendo o Unigênito do Pai, sendo um com ele, por toda a eternidade. Nesse ínterim, Cristo, de acusado, tornou-se juiz daqueles homens, ao apontar-lhes incisivamente os seus pecados; porque, como disse: “Quem me rejeitar a mim, e não receber as minhas palavras, já tem quem o julgue; a palavra que tenho pregado, essa o há de julgar no último dia” (Jo 12.48). A lei advogada pelos judeus, com o fim de acusá-lo, era a mesma a condená-los, a voltar-se contra eles; ao alegarem buscar a justiça, agiam segundo os seus corações impenitentes, distorcendo a verdade com o propósito de alcançar os seus perversos e ímpios intentos, rejeitando o Santo, Perfeito e Justo Deus. Os judeus eram testemunhas oculares das obras que Cristo realizou e por intermédio delas deveriam reconhecer que o Pai está no Filho, e o Filho no Pai, numa prova cabal da unidade divina, da divindade e sobrenaturalidade do ser de Cristo (v.38-39), e de que ninguém, a não ser ele, poderia realizar as obras de Deus. No entanto, em sua rebelião exasperante, procuravam matá-lo a todo custo. A obstinação dos seus corações em agir iniquamente confirmava a sentença de Marcos 4.12: “Para que, vendo, vejam, e não percebam; e, ouvindo, ouçam, e não entendam; para que não se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados”. Em João 12.40, Jesus citou Isaías 6.10, revelando a impossibilidade humana de alcançar a Deus, face a sua corrupção natural: “Cegou-lhes os olhos, e endureceu-lhes o coração, a fim de que não vejam com os olhos, e compreendam no coração, e se convertam, e eu os cure. Isaías disse isto quando viu a sua glória e falou dele (de Cristo)” – grifo meu. A soberania de Deus sujeita a si todas as coisas, segundo o seu santo e perfeito decreto, pelo qual, através da providência, tudo veio a ser, a existir, do nada. É possível algo escapar-lhe ou realizar-se alheio à sua vontade? Não lhe é tudo que há nos céus, na terra, nas esferas físicas e espirituais, submisso? Sujeito ao seu conselho e propósito? Os judeus, como muitos hoje em dia (não somente judeus, mas a massa humana quase unânime), estavam cegos, surdos e em profundas trevas. Inflexíveis em seus pecados, insistentes em sua rebeldia, trazendo sobre si a ira vindoura e a condenação eterna ao inferno, não descansaram enquanto não mataram o Justo. Porém, aqueles aos quais o Filho revelou o Pai, entregues pelo Pai ao Filho[81], esses creram no Filho (v. 42), receberam a salvação e participarão da glória eterna, dada pelo Senhor, assim como recebida do Pai. Se há alguém, o único, a revelar a face divina aos homens, este é Cristo, pois: “Ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11.27) Como Pedro disse: “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e para que venham assim os tempos do refrigério pela presença do Senhor” (At 3.19) Porque é chegado o Reino dos Céus (Mt 3.2), e quem tem olhos para ver, veja e creia, ao contrário daqueles acometidos pelo ceticismo, cujas almas navegam as águas turvas e bravias da oposição e descrença a Deus[82]. A Realidade do Pecado Notável é o episódio de incredulidade do Faraó, nos tempos de Moisés, quando Israel estava tomada pela escravidão e cativa dos egípcios. Posteriormente, o próprio Israel se viu envolto na incredulidade, a qual fez perecer muitas almas no deserto. Contudo, vou me ater à narração sobre Faraó, e deixar a incredulidade do povo de Deus para outra oportunidade, se assim o Senhor quiser. Primeiro, devo fazer uma ressalva: durante muito tempo, entendi a atuação divina quase como a de um manipulador, alguém que controlava as suas criaturas ao seu bel-prazer, sem que essas mesmas criaturas pudessem fazer nada a não ser obedecê-lo, mesmo em sua rebelião. Hoje, contudo, depois de meditar bastante sobre a questão, não é possível entender o homem como uma marionete nas mãos de Deus, o que pode me trazer a desaprovação de muitos, e a incompreensão de outros, diante da minha posição anterior, de um ferrenho apologista do determinismo bíblico[83], agora feito em um vacilante compatibilista[84], ou outra alcunha que, porventura, queiram me impingir. Apesar de ter o seu coração endurecido por Deus, Faraó também queria endurecê-lo ou, ao menos, viu no endurecimento uma acolhida para a sua atitude pecaminosa, como se ele deitasse em uma cama de pregos e se refestelasse. Não há, na verdade, uma colaboração do homem com Deus, não no sentido de o homem fazê-lo independente da vontade divina, de alterar o decreto eterno[85] ou acrescentar dados ou circunstâncias não abarcadas no plano divino; porém, não há como não reconhecer o fato de o homem querer, desejar, ansiar e laborar, com intensidade para a causa do pecado, da inimizade com o Criador. Ainda não entendo bem como a coisa funciona, nem sei se entenderei, mas, de alguma maneira inexplicável (ao menos, no momento), Deus endureceu ativamente o coração de Faraó que, contudo, ansiou endurecer-se também. Observem que se tratava-se da sua vontade, não do livre-arbítrio; não façam confusão, por favor. O endurecimento do seu coração foi uma ação humana, ordenado pela vontade divina, na qual o homem teve manifesta a liberdade da sua vontade, de fazer e produzir aquilo que desejava, ao qual estava inclinado por sua natureza. Não utilizo, em momento algum, o termo liberdade no sentido de independência ou autonomismo de Deus, mas trato-o como uma ação livre dentro de uma vontade cativa, sujeita à sua coação, ao impulsioná-la para produzir aquilo que a vontade aprisionada tenciona e almeja, satisfazer à carnalidade, sem qualquer alternativa a não ser fazê-lo. Ao pecar, como consequência do endurecimento divino, ele alegrou-se e sentiu o prazer que todo pecado traz ao pecador, ainda que momentâneo, sem nenhum arrependimento ou retração da sua transgressão. Por experiência própria ao pecar, sinto-me alegre, ainda que por ínfimos segundos, vindo logo o arrependimento e a certeza de tê-lo cometido primeira e essencialmente contra Deus. Logo, não há como não me alegrar, nem pecar, se minha vontade, naquele momento, não estivesse sob a volição, a determinação do pecado a subjugá-la, direcionando-a para o fim proposto de transgredir contra o bem supremo, Deus. Isso não tem nada a ver com o compatibilismo, do qual podem me acusar, e o determinismo, do qual me considerarão traidor, pouco me importando o rótulo, mas com a realidade pela qual sou responsável quando peco, usufruindo da graça quando não peco, mas sabendo que, seja no pecado ou na resistência ao pecado, não há casualidade, contingência ou aleatoriedade em relação a Deus. De maneira maravilhosa, sei que todos os meus atos foram decretados na eternidade e que o seu cumprimento se dá segundo a providência divina, mesmo sabendo que o mal não desejado é o que faço, assim como o bem ansiado nem sempre se realiza. Porém, nada disso acontece sem a certeza de estar Deus, segundo o seu santo e perfeito propósito, fazendo com que todas as coisas colaborem para o meu bem, segundo o seu santo e perfeito propósito (Rm 8.28). Afastando-me das explicações e voltando ao Faraó, não há como não reconhecer a realidade do pecado como algo desejado e desejável na sua vida e de qualquer pecador. Trata-se de uma realidade inexplicável, por mais que se gastem palavras, na qual Deus planeja e executa, enquanto a vontade humana não é violentada ou constrangida, mas acomodada em sua própria realização. É o norte apontado pelo trecho de Êxodo 7.3-5, onde o Senhor diz: “Eu, porém, endurecerei o coração de Faraó, e multiplicarei na terra do Egito os meus sinais e as minhas maravilhas. Faraó, pois, não vos ouvirá; e eu porei minha mão sobre o Egito, e tirarei meus exércitos, meu povo, os filhos de Israel, da terra do Egito, com grandes juízos. Então os egípcios saberão que eu sou o Senhor, quando estendera minha mão sobre o Egito, e tirar os filhos de Israel do meio deles”. Ouvi muitas declarações sobre estes versículos. Algumas, patéticas. Outras, nem tanto. Mas, de certa forma, há sempre uma disposição em não imputar a Deus o endurecimento do coração de Faraó; como se isso fosse uma afronta ou algo impossível. Não é, contudo, o que os versos revelam, nem o que a Bíblia afirma. Farei uma crítica rápida a dois conceitos, entre os mais aceitos pelos cristãos, que se apresentam inofensivos, mas são altamente danosos para o conhecimento divino, sugerindo um “deus” não apenas alheio às Escrituras, mas que se opõe flagrantemente a ela, e com o qual não podemos concordar, pelo fato de não ser ele o Deus revelado, providente, interveniente e soberano, pelo qual o mundo e a história são guiados, conservados e o servem. CONCEITO UM Há os que não afirmam o endurecimento, mas o pré- conhecimento divino de que Faraó se endureceria, num ato livre, de uma liberdade alheia e autônoma a Deus. Ora, o pré-conhecimento é conhecer de antemão, ser íntimo, mas a ideia defendida por esse conceito é de antevisão, de um olhar no futuro, em uma fração de tempo, e o vislumbre de algo a acontecer. Neste caso, Deus seria um vidente, um oráculo, a esfregar a sua bola de cristal e predizer um ato ou fato sem qualquer envolvimento ou ingerência, em um tipo de isenção a denunciar a sua omissão, no mínimo, e a sua incapacidade e debilidade, no máximo. Não há como, nesse caso, imputar a Deus algum tipo de mentira ou engano, ou a falsa declaração revelada, porque suas palavras são textuais, imperativas: “Eu, porém, endurecerei o coração de Faraó”. O agente não é o monarca egípcio, mas Deus. O verbo é transitivo direto, demonstrando uma ação objetiva e deliberada do sujeito, Deus. O coração de Faraó sofre a ação de endurecimento, não havendo nada referente a auto endurecimento; Faraó é passivo diante da preordenação divina, sem escolhas, nem opções, diante do agir de Deus. Com isso, alguém pode dizer: “Se Faraó não podia resistir à vontade suprema, logo não pode lhe ser imputado nenhum pecado, pois não havia como ele sair da ‘arapuca’ montada por Deus. Então, no dizer do próprio Senhor, foi ele quem ‘forçou’ Faraó ao pecado, levando-o ao endurecimento e a rejeitar as ofertas de Moisés”. Parece um labirinto, onde se está perdido e as chances de encontrar a saída diminuem pouco a pouco. Não há como desprezar a complexidade da situação, a qual muitos, de maneira reducionista, tentam explicar, olhando-a tão de perto que têm o foco comprometido, distorcido, não enxergando com a devida clareza, incapazes de alcançar a realidade pela imagem sem nitidez. Muitos teólogos avançam por esse caminho sem perceberem que estão a correr em um terreno irregular e sem reconhecerem os sucessivos tombos durante o trajeto. Alguns calvinistas (como eu, no passado), tratavam Deus como um déspota, um tirano, que não somente fazia a sua vontade, mas a impunha forçosamente sobre suas criaturas. Nesse caso, alegar ser dele a autoria divina do mal e do pecado, era a arma dos detratores do determinismo ou calvinismo extremado. Por outro lado, qualquer entendimento que não resguarde a soberania divina, sua imutabilidade, seu decreto, sua providência, enfim, sua natureza e ação ativa na Criação, será como afastar-se de Deus e dos eventos, mantendo-se a uma distância impossível de ver com transparência e nitidez. Assim, o argumento pecará pela insuficiência, pelo esvaziamento tal de Deus, sobrando apenas um arremedo, ininteligível, ou um estereótipo de quem ele verdadeiramente é. A maioria se coloca tão confortavelmente nesse quadro, ao preservar por todos os meios a autonomia humana, em um grau de independência incompatível com a Bíblia e a ideia de um Deus pessoal e Todo-poderoso, que a verdade não parece assombrá-los, nem tirá-los da comodidade sem embaraços com os seus pares. Em ambos os casos, acontece a distorção, a imagem divina sendo inadequadamente explicada a partir de homens cuja visão é refrativa. Muitas coisas não podem ser explicadas, por maior esforço empreendido na solução, bastando, ao crente, render-se à verdade revelada. Em muitas situações, é melhor não tentar explicar, mas aceitar pura e inexoravelmente a verdade, a qual é possível ser apreendida, contudo, nem sempre elucidada. Sei que faz parte da natureza humana detalhar a realidade e analisá-la, entretanto, nem sempre será possível. Há coisas diante das quais devemos apenas nos curvar humildemente, admitindo-as, pelo seu próprio grau de superioridade em relação à nossa inferioridade ou ignorância. A revelação nos assegura duas verdades: Deus é soberano e nada acontece alheio à sua vontade, antes ela se manifesta em tudo, em todos, sempre. A outra é a de ser o homem responsável por seus atos, não podendo, jamais, ser inocentado por um delito cometido. Duas verdades aparentemente antagônicas, o chamado paradoxo ou antinomia, que, na verdade, não passa de outra construção humana, no campo da lógica, para tentar explicar eventos inexplicáveis, sobrenaturais. Alguns apontarão para a deficiência do paradoxo, e o fato de Deus não ser um Deus de paradoxos, mas um Deus lógico; no entanto, em que medida o homem pode aquilatar a lógica divina? A partir da sua própria lógica? Se o homem é um miserável, e pobre, e nu, incapaz de respirar por si mesmo, de abrir os olhos por si mesmo, como pode advogar uma lógica divina a partir da lógica humana? Outro ainda dirá: “Deus não mente!”. No que está coberto de razão. Retrucarei, contudo, onde há mentira? Quer dizer que, ao não compreendermos suficientemente a verdade, não encontrando uma solução adequada, por nossa exclusiva incapacidade, Deus então está a mentir? A Escritura está a mentir? Ou, é preferível, nesse caso, se criar uma resposta falaciosa e em flagrante oposição ao que foi revelado, a fim de se pôr termo à questão? Mesmo que a resposta esteja a anos-luz da verdade? E se esteja a construir um outro “Deus”? A partir de uma solução que satisfaça apenas à insignificância e o orgulho humanos? Quando se chega à conclusão de que Deus é o autor do mal e do pecado, em um arroubo extremo de defender a sua soberania, enquanto um outro afirma que Deus não tem nada a ver com determinado evento, temos dois polos antagônicos e díspares a revelar um mesmo problema: a (in)competência do homem na razão e elucidação dos enigmas e mistérios feitos ocultos por Deus e uma tentativa infrutífera de desvendá-los. Não estou a dizer que Deus nos ocultou o que revelou, mas nem tudo revelado foi-nos explicado; como homens de fé, deveríamos apenas reconhecer os enigmas como verdadeiros, posto provirem da boca divina, não sendo mais nada necessário para acolhê-los. Este é um grande problema: diante de um dilema insolúvel, ao invés de aceitá-lo, gasta-se energia e tempo com explicações que não o justificam, criando um degrau ou degraus frágeis, facilmente quebráveis, em uma escada instável, pronta a ruir, que não sustenta a si mesma nem à ideia que tenta amparar[86]. Ao tentar uma explicação fora da explicação de Deus, o homem acaba por tomar sobre si a áurea de intérprete divino, de autoridade, sobre algo dado por fé, e a ser aceito pela fé, não podendo ser rejeitado pela fé; mas, em algum momento, sentiu-se, por uma falha cognitiva, a necessidade de racionalizar algo que está além da possibilidade humana de compreender todos os desígnios divinos e explicá-los. Acaba-se por provar o alto grau de estultice da mente, capaz de nos afastar mais e mais da verdade, na medida em que damos importância exagerada às ilações, aos raciocínios supostamente válidos, quando legítima é apenas a palavra de Deus, entregue por ele mesmo, para orientação, guia e conhecimento da verdade, e não a dissecação de uma mensagem morta, por um legista semimorto. Compreenda essa analogia levando em consideração que o homem regenerado, ainda que vivopara Deus, guarda alguns aspectos do velho homem, sob os efeitos noéticos do pecado e da Queda, aos quais ainda não está completamente imune, e, por isso, deve ser prudente ao analisar formas tão superiores, muito além da sua capacidade de compreensão, quanto mais de “autópsia”. Não me estenderei mais sobre o tema, no momento, desejando debruçar-me sobre ele em um futuro próximo, e em outro lugar, se assim o Senhor o quiser. Deixo, entretanto, como advertência geral, a todos os sabichões de plantão: cuidado! Pois eu mesmo me vejo, olhando para trás, um homem soberbo e presunçoso, capaz de proferir barbaridades contra o Altíssimo, em nome dele mesmo, mas falando apenas por mim. Graças a ele, temos o perdão, e nossa ignorância não é levada em conta[87]. Contudo, tem- se de parar e refletir nas complexidades e consequências, não apenas para nós, em nossa relação com o Senhor, mas com os outros, expostos à nossa loucura e vaidade. Voltando à análise inicial, ocorreu de haver uma defesa intransigente ao famigerado livre-arbítrio, como a solução para o dilema da incredulidade do Faraó. Mesmo diante de todos os portentosos feitos de Deus, pelas mãos de Moisés, o seu endurecimento (o cético é um insensível, por natureza) tem de ser pela vontade livre de Faraó, não se admitindo outra resposta. Mas como aconteceria, nos termos em que Deus nos apresenta o fato? Estaria ele escondendo algo? Ou estar-se-ia a ler além do escrito e não revelado? Pesquei essa pérola da ilogicidade e irracionalidade bíblicas, em um estudo sobre o assunto: “Deus nos vê ontem, hoje e amanhã; logo, ele sabe que caminhos tomará. Contudo, ele se autolimita para que nós exerçamos integralmente nosso livre-arbítrio. Nós nos predestinamos, quando aceitamos ou recusamos seu convite”[88] (grifos meus). Não se tem muito o que comentar, a não ser o fato do autor exprimir-se com uma sucessão de conceitos equivocados e antibíblicos, com noções alheias à fé cristã, baseando-se, mais uma vez, na crença da superioridade da razão, que se mostra, especificamente nesse caso, em uma prova de irracionalidade, e, mais do que isso, de uma espiritualidade capenga e vacilante, reflexo da incredulidade, a mesma a destronar e aniquilar Faraó do Egito. Não são apenas contraditórias e incoerentes as considerações desse teólogo, antes é a rejeição à verdade, envergando uma indumentária cristã, mas despindo-se da essência e realidade intrínsecas a ela, de forma a permanecer nu quando se imagina vestido. O simples conceito de “autolimitação divina” é suficiente para arrolar como blasfemo todo o dito, fazendo ruir, igual a um castelo de areia, a sua pretensão à onisciência, em nível tal que se julga capacitado a escrutinar a mente divina. É interessante notar que, no Éden, enquanto Adão e Eva contentaram-se em obedecer à ordem divina, cujo motivo não lhes foi explicado, nada lhes foi dito, nem houve qualquer contestação do casal, nada lhes aconteceu. Porém, ao enveredarem-se pelas trilhas tortuosas da imaginação, ao crerem na capacidade de por si mesmos decifrarem os motivos divinos para impor-lhes uma ordem (usando a mesma razão falível e capenga que dá a muitos a certeza de serem esquadrinhadores da mente do Criador), a coisa desandou; e não é preciso repetir as consequências advindas. Sem contar o absurdo da afirmação: “Nós nos predestinamos, quando aceitamos ou recusamos seu convite”, implicando em uma autopredestinação, na qual, como o teólogo diz, “nós nos predestinamos”, significando pontualmente que toda a obra de eleição, salvação e regeneração se dá a partir da escolha humana e em seus próprios méritos, negando a ação divina, rejeitando a palavra revelada e interpretando miserável e criminosamente o texto bíblico; o que mais me chamou a atenção, e de certa forma, o mais engraçado, para não dizer trágico, é o referido teólogo estar a explicar exatamente o trecho de Êxodos 7.3-5; no qual, em algum momento, ele encontra referências apontando para a autolimitação divina. Para o livre-arbítrio humano. Para um convite divino. Para a aceitação ou recusa do homem como prevalente à vontade soberanamente divina. Deus, por acaso, disse: “Como vi que Faraó endurecerá o seu coração, vou endurecê-lo (sic), e assim multiplicarei os meus sinais e as minhas maravilhas sobre a terra do Egito”? Afinal, os sinais e as maravilhas são de Deus ou das obras humanas que ele vê, não como algo distante e provável pelas vistas, mas conhecido e realizado por sua vontade? E, como crer que o Deus bíblico pode, diante do que vê, escolher seus caminhos? Quem afinal manda no pedaço? A criatura ou o Criador? Deus não é dono do seu nariz? Ou as atitudes humanas implicarão na decisão divina? Uma decisão subserviente e limitada à própria restrição humana? À própria imperfeição? Sendo o homem tolo, e todos o são em relação a Deus e suas realizações, é possível imaginá-lo detentor dos atributos de sabedoria, prudência e moralidade correta, suficientes para reconhecer a verdade enquanto está dominado, controlado, por sua natureza caída e pecaminosa? Ao homem natural[89], aquele não alcançado pela graça, não lhe é permitido, pois é-lhe impossível a escolha de aproximar-se do Criador quando o seu coração milita insistente e loucamente a favor da transgressão, movido pelo sentimento de ódio a Deus, em direção contrária à sua vontade santa e perfeita. Ora, todos os seres estão condicionados à sua natureza. Uma cobra não voa, ainda que possa pular de um galho de árvore ao de outra árvore, imitando um voo; um peixe não voa, ainda que possa elevar-se acima das águas, imitando um voo; uma toupeira não voa, e nem pode imitar um voo; então, o homem caído, contaminado pelo pecado até o reduto mais desconhecido da alma, cuja existência, por meio de seus pensamentos, atitudes e decisões, opõe-se deliberadamente contra Deus, poderia decidir a favor da verdade? A favor de tudo aquilo a causar-lhe repulsa? Como poderia o Senhor valer-se das decisões desse homem para traçar o seu plano? Seria o mesmo que dar funções a um chimpanzé epilético de projetar um edifício e entregar os seus rabiscos desconexos a um engenheiro para dar cabo da obra. O engenheiro, no mínimo, se rirá dos planos do símio. Da mesma forma, imagino Deus rindo-se da pretensão humana de imaginá-lo guiado pela demência e insensatez do homem. O Cosmos já teria se autoimplodido, se não fosse por sua intervenção direta e ativa, que não somente sustenta tudo e todos, mas também chama os eleitos à verdade, capacitando-os a reconhecerem-na, amarem-na e devotarem-se a viver por ela. Ninguém se aproxima de Cristo, confessando-o como Senhor e Salvador, desejando tê-lo a guiar os seus passos, se não tiver a sua natureza transformada de natural para espiritual; seria o mesmo que dar asas aos peixes e toupeiras, alterando-lhes o design do corpo, a fim de alcançarem os ares. É assim que Deus faz com o homem, mudando-lhe o coração de pedra em carne, habilitando-o a reconhecer a verdade e vivê-la. De outra maneira, seria impossível pelo próprio esforço humano alcançá-lo. Não há capacidade nem elementos que pudessem movê-lo do seu impulso pecaminoso. Essa obra é exclusiva de Deus, por meio do Espírito, regenerando e transformando a mente do homem na mente de Cristo. Do contrário, em última instância, se manifestaria a fragilidade, vulnerabilidade, inconsistência e servilismo de Deus, que manteria, sabe-se lá por quê (e o amor não é a resposta, cara-pálida!), sua vontade completamente subjugada à vontade do homem. Esse homem, no fim das contas, é que se faz poderoso, pela debilidade divina, numa nítida inversão de papéis. O resumo da tragédia é: Deus deixou de ser Deus... Contudo, onde lemos que isso aconteceu? É possível Deus não ser Deus? Negar a si mesmo? Ainda que queira? E, por que quereria? Para que fôssemos livres? Mas, livres de quê ou quem? De Deus? Pode alguém ser livre de Deus? Se pode, essealguém é maior do que Deus. E, então, Deus finalmente deixará de ser o que é, para ser o que não é, o que nunca foi e nunca será! Parece, no entanto, que há um labor, um estado de persistência humana, seja por ignorância ou violento rancor, de reputá-lo com algo que não é, existindo apenas na mente senil e falseante do homem em querer desnudá-lo e explicá-lo a partir de si mesmo, e não da própria revelação divina. Todas essas possibilidades são nada mais, nada menos do que o apogeu da estúpida e vergonhosa dissimulação, na qual dizem amá-lo e reverenciá-lo, quando o transformam em intruso, em um impostor, em seu próprio Reino. Porém, não sendo a realidade, não passando de uma ilusão, visando guardar o homem em si e para si, em um distanciamento perigoso da verdade, subjugado ao autoengano, às diretrizes traçadas pelo coração libertino, a afirmação: “eu sou de Deus”, ou “eu amo a Cristo”, nada mais é do que honrá-lo com os lábios, enquanto o coração está tão distante que o objeto do seu amor é um sofisma, a idealização ou projeção de si mesmo. Nada disso é real, seja o seu “Deus” ou os seus sentimentos, mas apenas uma acomodação do delírio aos anseios do homem natural, sendo este a causa da farsa, que alimenta e sustenta a perturbação da alma, em um círculo vicioso e interminável; se Deus não o interromper por derradeiro. No final, para concluir seus delírios, o teólogo afirmou: “Não devemos endurecer o coração para Deus. O convite bíblico é outro: você, que hoje está ouvindo a voz de Deus, não endureça o seu coração (Hb 3.8)”. Não que ele esteja errado em dizê-lo. A Bíblia nos exorta a não endurecer o coração! O verso 7, de Hebreus 3, diz: “Se ouvirdes hoje a sua voz, não endureçais os vossos corações, como na provação, no dia da tentação no deserto”. É preciso, primeiro, ouvir a voz de Deus. Então, pergunto, quem está apto a ouvi-la? O incrédulo ou o crente? O homem natural ou o espiritual? O eleito ou o réprobo? O santo ou o ímpio? Como ficam passagens que dizem acerca de Deus cegar o homem? De forma que, vendo, não vejam, ouvindo, não ouçam, para não terem o entendimento?[90] Como compreender a afirmação do Senhor sobre Tiro e Sidom, de que, caso vissem os milagres realizados em Betsaida e Corazim, se converteriam, e, portanto, a palavra não lhes foi pregada a fim de não se arrependerem? (Lc 10.13-15). Cristo não realizou qualquer milagre nessas regiões, e assim o povo não “pôde” se converter. Cristo não fez milagres, mesmo sabendo que, caso os fizesse, veriam, se converteriam; ao passo que preferiu pregar e operar milagres em outros lugares, sabendo que neles não haveria conversões. Se Cristo viu, como uma antevisão, a conversão de Betsaida e Corazim, caso o evangelho fosse pregado e milagres realizados, por que não respeitou o livre-arbítrio dos seus moradores, salvando-os? Já que lhe era possível antever a reação daqueles homens e mulheres diante da pregação do evangelho, e se lhes era por desejo intrínseco aceitá-lo como Senhor e Salvador, por que ele se recusou a operar milagres e leva-los à conversão, “limitando-se” em seu desejo e vontade a fim de que prevalecesse o livre- arbítrio daquelas cidades? Não é essa a ideia de muitos a respeito da predestinação e eleição? De ser a visão, no futuro, do homem futuro, o ocasionador ou causador da eleição e predestinação, por parte de Deus? Nos casos de Betsaida e Corazim não lhes bastou a antevisão; outro fator implicou em suas condenações, e está muito distante de ser a “vontade livre” dos seus habitantes. Pois bem, isso não pode ser somente presciência. Parece que sim, mas não é; pois Cristo “viu” que em Tiro e Sidom se converteriam almas caso operasse nelas os milagres, mas não os fez, a despeito da presciência, não respeitando em nada o suposto livre-arbítrio daqueles homens. A questão está afeita ao poder de Deus, de condenar tanto uma como outra cidade, não segundo eventuais respostas positivas do homem, mas exclusivamente por sua vontade decretiva e eletiva de lançar a sua graça e misericórdia sobre aqueles que amou eternamente, e somente sobre eles. Naquelas, por não operar ali os milagres que os levariam à conversão, mesmo considerando que eles teriam olhos para ver, elegeu-as à condenação; e, nestas, por operar milagres e cegar-lhes os olhos, a fim de não verem e não se converterem. Os réprobos irão ao inferno porque Deus estabeleceu que eles iriam; da mesma forma, os eleitos não irão porque Deus determinou que não fossem[91]. Novamente, a ideia favorecida, o livre-arbítrio, está acorrentada aos desígnios divinos, não sendo, portanto, livre em nenhum aspecto. CONCEITO DOIS Muitos calvinistas, comumente, respondem à questão da seguinte forma: pela graça comum, Deus restringiu o homem de tal forma que ele não agirá segundo a sua natureza, não dando vazão completa à sua pecaminosidade. No caso do Faraó, especificamente, aconteceu de Deus “retirar” a sua restrição, expondo-o, por inteiro, à sua condição miserável, a ponto de endurecer o próprio coração, em um furor obstinado e doentio de combater a Deus. Desta forma, Faraó se viu livre para agir como queria, na máxima capacidade de iniquidade possível em sua natureza. É como se a maldade estivesse ativada à potência máxima, sem nenhum redutor ou freio, o seu coração trabalhando enlouquecido, a todo vapor, na ânsia por uma vitória impossível, levando-o a uma sequência de atitudes inconsequentes e desastrosas, culminando em malefícios para si e seu povo. Não vejo muita diferença no conceito de Deus determinar o fato e retirar aquilo que ele mesmo restringiu, para a realização de determinado evento; isto se chama Providência, mas adquiriu, atualmente, a alcunha de “Graça Comum”[92]. De qualquer maneira, o fato ocorrerá segundo o plano de Deus, segundo a sua vontade, e qualquer outra nomenclatura utilizada para explicar algo cujo significado já existe, mesmo com o intuito de complementá-la, não passará de uma má utilização do termo, sua inadequação ou, em muitos casos, a descaracterização da revelação pela multiplicidade de significados a esvaziar-lhe o sentido, dissipando-o em sua veracidade. No final, o importante é manter-se a simplicidade, sem se desviar da verdade, uma vez que a sobreposição de noções resultará na deturpação da sua finalidade. Exemplificando, seria o mesmo que um construtor colocar um telhado sobreposto a outro telhado, e fazê-lo novamente, num gasto desnecessário, inútil, e que comprometerá toda a estrutura da casa, o seu fundamento, podendo levá-la a ruir. Assim acontece com a idealização de novos termos, substituindo outros já existentes, que acabam por desfigurar o termo original, tirando-lhe a eficácia, desbotando-o. É, em linhas gerais, o problema da utilização da expressão “Graça Comum”, um subterfúgio e um esquema mais danoso que benéfico ao conhecimento divino, subsistindo paralelamente ao conceito milenar da Providência, mas com um componente ilusório, o de revelar o amor de Deus por todos os homens, indistintamente, ainda que nem todos sejam alvos da sua verdadeira Graça e a maioria se contentará em sofrer, no inferno, a punição por sua rebeldia, na forma da ira suprema e eterna do Criador sobre as suas cabeças. Em qualquer situação, seja na natureza de Faraó, seja na restrição a Faraó, seja na não restrição a Faraó, Deus está agindo ativa e positivamente para que o monarca realize, efetiva e infalivelmente, aquilo estabelecido por ele próprio, na eternidade. A ideia de anular ou diminuir a restrição a Faraó apenas favorece o pensamento do agente livre, mas que, entretanto, está preso e acorrentado ao final planejado por Deus. Em linhas gerais, dizer que Faraó agiu segundo a sua natureza, de que teve suspensa a barreira que o impedia de pecar, em nada ajuda na questão. Ela é apenas um malabarismo, com a tola premissa de que o Senhor precisaria ser isentado de endurecer-lhe o coração, quando ele mesmoafirma, por mais de dez vezes, tê-lo endurecido, a fim de, através dele, o seu nome ser glorificado e tudo antes determinado se cumprir, em seus mínimos detalhes e de forma inevitável. Ao não mais restringir o mal na vida de Faraó (se é que havia restrição, segundo o critério da graça comum), Deus impeliu-o a agir segundo a sua vontade. Então, o próprio ato de restringir não seria uma forma de Deus demonstrar a sua soberania e vontade expressas na vida de suas criaturas? Afinal, o Senhor não restringiu a liberdade de Faraó? Implicando em dizer que os pecados cometidos por Faraó foram controlados pelo Soberano, de uma forma ou de outra, seja na restrição, seja na não restrição, para o monarca egípcio realizar exatamente todo o plano estabelecido por Deus; não havendo chances de não o fazer, e, ao fazê-lo, cumprindo o fixado e estabelecido no decreto eterno. No caso de Faraó, a não restrição foi específica para ele resistir em seu desejo obstinado de não libertar o povo de Israel. Não se pode esquecer de que havia um desejo sincero no monarca egípcio: ele não era uma marionete ou robô nas mãos divinas, mas a sua vontade estava em harmonia com a sua natureza réproba, de fazer o mal acima de tudo, e, especialmente, de afrontar ao Soberano com a sua desobediência belicosa e deliberada; as vezes travestida pela dissimulação; evidente nas decisões sumárias de operar contra a sua própria palavra, desdizendo-se, não levando-a a termo, não cumprindo o compromisso assumido diante de Moisés e Arão, mas também diante de Deus. A não restrição não teve nenhum outro efeito, apenas o de dirigir e “forçar” Faraó[93] a resistir cada vez mais aos sinais do poderia divino. Do ponto de vista prático, a não restrição nada mais é do que Deus conduzindo Faraó a se rebelar, pecar e realizar exatamente o plano traçado, em obediência, mesmo na insurreição. Faraó, em sua natureza depravada, tinha latente, em seu íntimo, o desejo de chegar aonde chegou; de mobilizar a si e ao seu reino, no cumprimento do intentado pelo seu coração; de alcançar, por todos os meios, o seu plano de afronta a Deus, declarando uma guerra insana contra o Todo-Poderoso, onde a libertação de Israel era apenas o mote, o estopim, a dar vazão aos seus caprichos e recalcitrante disposição ofensiva. Pouco importa dizer se Deus levou-o a pecar e praticar o mal ou o fez ao retirar a sua mão e “liberá-lo” a resistir, pecar e praticar o mal. O resultado é sempre o mesmo: Deus no controle de todas as coisas, mesmo do pecado e do mal[94]. Deus no controle de todas as coisas, quer sejam pensamentos ou ações. Deus no controle de todas as coisas, quer seja no endurecimento do coração ou não; quer seja em mantê-lo como pedra ou transformá-lo em carne. A síntese é Deus ordenando tudo no universo, por sua soberania, e o homem obedecendo-o, inapelável e inexoravelmente. Como está escrito: “Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido” (Jó 42.2). CONCLUSÃO Não há pecado algum em o homem buscar conhecer e entender a vontade divina e a sua realização histórica. Faz parte do amadurecimento cristão, se não estiver reduzida ao campo da curiosidade ou orgulho intelectual, tornando- se, nesse caso, um pecado grave. Deus não pode ser dissecado ou autopsiado por nenhum homem; suas verdades devem ser aceitas, mesmo que ele se mantenha indecifrável, mesmo que perdurem os dilemas impossíveis, e vá muito além da nossa compreensão e razão[95]. Por outro lado, somos levados a criar soluções onde elas não se apresentam e a buscar socorro em disciplinas e matérias onde as dificuldades não se equacionam nem diminuem. Várias ciências podem nos ajudar a descrever melhor aquilo que Deus revelou, como a filosofia, a física, a linguística e a retórica, por exemplo. No entanto, elas são incapazes de solucionar aquilo que Deus revelou como sentença, porém, manteve ocultos a explicação ou o sentido[96]. Por maior que seja o desafio, por mais méritos que tenha o estudioso, por mais visível e lógico que se apresente o desfecho, o que não foi revelado permanecerá como mistério e qualquer conclusão não passará de investigação incerta e arriscada, de tentativa frustrada de entendê-lo, mas não incapaz de transtorná-lo e gerar sérios e danosos problemas. Como o próprio Senhor nos diz: “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor. Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos.” (Is 55.8-9) Por essas e outras, muitos fatos, na Escritura, são interpretados por meio de contorcionismos mentais e malabarismos retóricos; uma maneira de turvar a água límpida através de subjetivismos, de empolação, de redundâncias e empáfia, quando a Bíblia é objetiva ao afirmar, reafirmar e confirmar, ser Deus imutável (Tg 1.17), perfeito (Dt 18.13), santo (1Pe 1.16), soberano (Cl 1.16-17) e Senhor de todas as coisas e sobre todos (Sl 10.16). Quer o homem aceite, ou não. A Disputa pelo Corpo Entramos, agora, em um ponto altamente discutido, sobre o qual paira uma série de dúvidas, e consequente alvo de disputas nos primórdios da igreja. A primeira refere-se ao fato de esse incidente ser considerado apócrifo e, portanto, a carta de Judas não deveria ser levada a sério, nem teria autoridade divina, estando dissociada e infiltrada, como um corpo estranho, ao Cânon Sagrado. Tolice, pois o documento em nada fere a sã doutrina, não a confunde, minimiza ou contradiz, não havendo inconsistência, mas estando em concorde sintonia com toda a palavra revelada pelos profetas, por Cristo e pelos apóstolos. Como o autor nos diz, ele não veio trazer algo inédito, mas “lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto” (v.5), daquilo ensinado exaustivamente pelos santos de Deus, em todos os tempos. Uma característica das heresias, dos falsos profetas e seus livros apócrifos é a proclamação de algo exclusivo, insólito e moderno, completamente divergente dos ensinamentos antigos, sem que haja qualquer conexão ou unidade de princípios, esquivando-se da simplicidade e fidelidade das doutrinas dos demais livros, ainda que realizem um esforço árduo em fazer a heresia parecer-se com a verdade, através de mecanismos de associação ou dissociação, manipulação do texto sagrado, reedição da história, individualismo ou unilateralismo doutrinário e outros subterfúgios sutis, porém diabólicos. Outra questão abordada é o porquê de Satanás disputar o corpo de Moisés. Muitos diriam ser algo sem sentido, figurativo e especulativo, visto o relato basear-se em um livro apócrifo, o de Enoque. Contudo, não me parece algo irrazoável, antes o contrário. Senão, vejamos: 1) Sabemos que Moisés foi enterrado pelo Senhor, não havendo evidências de onde pudesse estar a sua sepultura. O Senhor queria, apenas ele e mais ninguém, que nenhum outro soubesse onde estava depositado os restos mortais do profeta. Por isso, pediu-lhe para subir sozinho ao monte, de forma a não haver testemunhas. É possível Moisés ter sido arrebatado para céu, assim como Enoque e Elias; porém a Escritura não assevera essa hipótese, apressando-se em afirmar o destino do seu corpo, cuja morte se deu na terra de Moabe, onde foi sepultado, em um vale, em frente de Bete-Peor (Dt 34.5-6). Estas coordenadas, apresentadas pelo próprio Deus, em sua palavra, são evidências do fim que levou o corpo de Moisés, não restando dúvidas. Alguém pode contestar a informação, alegando: Quem o enterrou? Primeiro, não há provas de ter sido enterrado, visto não ser encontrada a sua sepultura. Segundo, o Senhor pode agir de várias maneiras, como, por exemplo, arrebatar a Elias. Então, por que não poderia tê-lo colocado em uma sepultura ele mesmo? Poderia também tê-lo queimado ou utilizado outra maneira de dar-lhe um fim. Fatoé não ter sido revelado as condições e o método pelos quais se deu o seu sepultamento e parto do princípio de que tenha ocorrido, para fins de continuidade do texto. Ninguém sabe, entretanto, o lugar da sua sepultura, nem os antigos nem as gerações futuras, apesar de ser plausível imaginarmos os seus concidadãos empreenderem varreduras na área, a fim de localizar o seu lugar de repouso, e muitos outros, posteriormente, empenharam-se nas buscas, sem obter qualquer êxito. 2) Satanás, conhecendo a idolatria do povo de Israel, “disputava” o corpo de Moisés para dar-lhe um funeral adequado e público, de maneira que a localização da sua cova seria facilmente identificada, levando multidões de fiéis a dirigirem-se ao local para venerarem o seu ídolo. É corrente o expediente do inimigo de propiciar, em todos os séculos, artifícios com corpos (tumbas e múmias de santos são motivos para peregrinações, romarias e visitações), imagens (representação de corpos com o fim de se cultuar um santo), ou mesmo relíquias, como objetos utilizados pelos santos e que são também alvos, matérias de culto, de veneração e, supostamente, causadores diretos de milagres. Em todos esses casos, Satanás realiza a sua obra principal: desviar o homem do verdadeiro Deus e escravizá-lo por meio de sua astúcia, satisfazendo a insensatez e rebeldia humanas. Utilizando a distração do pecado para afastá-lo da verdade, leva-o cada vez mais para longe da verdade e aproxima-o cada vez mais da idolatria, cujo princípio é o da falsificação do real, ao se ter, por objeto de culto, de adoração, um ídolo, o qual nada mais é do que uma fantasmagoria, uma cópia deficiente e malograda, a deformação alcançável pelo homem por sua própria limitação de vislumbrar o sublime, o sobrenatural. Por conseguinte, ele se contenta com a caricatura, o arremedo, a projeção das suas próprias deficiências, do seu pecado e limitações em algo ainda mais absurdo, contra a razão da fé cristã, mas a ganhar ares de encantamento, de fulgor, quando não passa da síntese de nossas misérias e loucura. Se Cristo veio nos libertar do jugo do pecado e da inimizade com Deus, essas atividades religiosas, aprendidas do paganismo, transportam o suposto cristão para um tipo de prisão especial, na qual ele pode até vislumbrar a liberdade (como por uma janela), mas jamais a experimentará. Em meio a uma profusão de ídolos, é-lhe incapaz distinguir o Deus verdadeiro, cuja natureza e personalidade imiscui-se na corrupção geral do culto prestado ao não Deus, como se fosse Deus; fruto do amor excessivo do homem a si mesmo, à sua natureza, contaminando-o com a forma mais virulenta e letal de adulteração, ao imaginar e conceber algo fictício como se fosse real. Como essa pseudorrealidade precisa ser tangível, constrói para si imagens, esculturas e lhes dá “vida” por meio da inconsciência e rejeição ao verdadeiro Deus. 3) Logo, o anjo Miguel contendeu-se com o diabo. Creio que essa disputa se deu pelo fato de o próprio diabo não saber a localização da sepultura de Moisés. Pode ser que ele soubesse, mas Deus o impediu de utilizá-la para os seus propósitos. São conjecturas, mas, certamente, o fato de Judas relatá-lo em sua carta demonstra o caráter verídico e factual do incidente. Algo ainda mais importante do que a disputa, foi o não dito de Miguel a Satanás. É sugestiva a exaltação do texto a algo não proferido pelo anjo, revelando uma forma de conduta prudente e sábia, a qual não devemos negligenciar, para não incorrer em pecado. É possível observar, nas redes sociais, em artigos, vídeos, e em outros meios de comunicação, quão imprudentes e temerários se tornaram os lábios do cristão. Não é difícil encontrar teólogos, pastores e leigos projetando, em seus interlocutores, diretos e indiretos, acusações e ofensas nada apropriadas para alguém reconhecido publicamente como “servo de Cristo”. Se o anjo, do alto da sua batalha contra o inimigo não se atreveu a fazê-lo, com qual direito se arvora em detrator um crente?[97] Certamente, provocado pelas ofensas e disparates proferidos pelo diabo, o anjo “não ousou pronunciar juízo de maldição”, e há de se ressaltar ser isso deveras significativo para a igreja, ainda mais hoje, quando todos parecem prontos, equipados, para atacar com unhas e dentes os detratores. Esta é a acepção da palavra “Satanás”, significando “o acusador”; aquele sempre pronto a levantar falso testemunho ou a incriminar, tal qual fez com o justo Jó, tencionando com nitidez a destruição, esmagar o rival sem piedade, humilhá-lo, e levá-lo a blasfemar contra Deus. Acontece estarem muitos, dentre os que não se consideram como tal, na condição de representantes do maligno, de servi-lo dócil e generosamente em sua raiva e ódio condenatórios, quando dizem fazê-lo em nome de Deus. Entretanto, não reconhecem a gravidade de suas ações, cujas atitudes os remetem diretamente às práticas diabólicas, a um tipo de “ministério” infernal. Proferir juízo é algo muito delicado. A palavra juízo, no sentido bíblico, significa uma capacidade ou faculdade de decidir corretamente entre o que é certo e o errado. O Senhor nos ordena a não julgar segundo as aparências, mas segundo a reta justiça (Jo 7.24); logo, o julgamento não é impeditivo para o cristão, pois o próprio Jesus nos diz como deve se realizar, de que forma deve ser conduzido e baseado em quais fundamentos não se torna um pecado, mas uma necessidade revestida do caráter santo: apontar, ou conduzir, para a justiça! Então, o que há de errado em se proferir um juízo? A capacidade de julgar é algo que todos deveriam ter, no sentido de distinguir o certo do errado, o bom do mal, o justo do injusto, o moral do imoral, e assim por diante. É uma faculdade legítima e não há pecado quando realizada corretamente. O vício está na própria confusão das categorias, onde o certo se torna errado, o errado, certo, o bem se torna mal e o mal, bem, como apontou o profeta (Is. 5.10). A questão à qual os crentes devem ser cautelosos, diz respeito quanto ao proferir uma sentença. E o que vem a ser isso? Por exemplo, nos são mostrados dois trechos nas Escrituras: o primeiro está em Lucas 21, no qual os ricos lançavam suas ofertas na arca do tesouro, enquanto uma pobre viúva deitava duas moedas no gazofilácio, as únicas de que dispunha. Alguém, vendo aquela cena, poderia julgar pela aparência: os ricos sinalizariam ser mais zelosos e fiéis ao darem mais dinheiro, sendo que entregavam uma parte do muito que tinham. Em contrapartida, ao verem a viúva recolher à caixa duas simples moedas (talvez de ínfimo valor), era possível julgá-la de maneira contrária, criticando-a pelo pouco dado, sinal de não ser zelosa, mas mesquinha, e de ter pouca fé. Aqui há muitas aparências. Várias maneiras de se chegar a uma conclusão a partir de um conhecimento insuficiente, precário, capaz de obliterar o entendimento, levando-se a inferir uma sentença equivocada pela incapacidade de se ver com clareza e profundidade, não indo muito além da superfície. Desconhecendo-se, por completo, as várias camadas ocultas pelo exterior (muitas vezes disfarces, camuflagens), as quais não podemos averiguar com exatidão. Neste caso, somente Deus pode proferir a sentença; pois somente ele tem acesso irrestrito ao coração, e somente ele é capaz de saber as suas reais intenções; pois ele sonda tudo e todos, conhecendo-nos como somos, algo improvável para nós mesmos, capazes de acertar no geral, mas de enganarmo-nos em vários aspectos particulares e relevantes, ignorando as verdadeiras intenções do próximo e os inalcançáveis propósitos de Deus. Então, foi à conclusão precisa, somente possível pelo Verbo encarnado, que ele chegou: “Em verdade vos digo que lançou mais do que todos, esta pobre viúva; porque todos aqueles deitaram para as ofertas de Deus do que lhes sobeja; mas esta, da sua pobreza, deitou todo o sustento que tinha” (Lc 21.3-4). O segundoexemplo encontra-se em Lucas 18.9-14. A parábola fala de dois homens que subiram ao templo para orar; um era publicano, e o outro, um fariseu. O texto diz o seguinte: “O fariseu, em pé, orava no íntimo: ‘Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens: ladrões, corruptos, adúlteros; nem mesmo como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho’”. Enquanto o publicano ficava à distância. Ele nem ousava olhar para o céu, mas batendo no peito, dizia: “‘Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador’. Eu digo que este homem, e não o outro, foi para casa justificado diante de Deus. Pois quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado" (v.11-14). Qualquer um a chegar ao templo, naquele momento, diria estar aquele publicano irremediavelmente condenado, de forma a não alcançar o perdão, não lhe sendo digno sequer permanecer naquele local. Pela sua própria atividade e condição, pela maneira como oprimia o povo, extorquindo-o através da prática abusiva de cobrar absurdos, na forma de impostos e taxas (ainda que os romanos não considerassem essa prática criminosa), era visto pelo povo como um pecador incorrigível, digno e merecedor da condenação eterna, um daqueles impossíveis de escapar do inferno, estando-lhe assegurado o juízo e uma estadia atribulada e prolongada junto aos demônios. Para todos os efeitos, e diante de todo o povo, um publicano não era melhor que um traidor, além de alvo do ódio, proporcional ao seu crime. Em contrapartida, o fariseu era visto com contornos benévolos: um homem respeitável, doutor da lei, alguém merecedor dos favores divinos, cuja vida era devotada ao serviço e obediência a Deus. Como já dito, as aparências enganam e nos levam a equívocos, muitas vezes. É o ensino desta parábola. Somente Deus pode ler o coração dos homens e encontrar nele os motivos para proferir o juízo correto. O que para nós está na superfície, muito toscamente roçado por nossos sentidos e intelecto, Cristo, em sua perfeição e santidade, consegue sondar nas camadas mais profundas da nossa alma, nos lugares mais improváveis e inatingíveis, porque ele sonda e conhece tudo, nada fugindo-lhe, pois, como diz o salmista, até mesmo “de longe entendes o meu pensamento” (Sl 139.2). O fariseu, em seu orgulho e presunção, não revelou qualquer arrependimento, não se humilhou nem implorou o perdão, antes considerava-se bom o suficiente para estar ali, diante de Deus, como um exibicionista mostra-se diante da plateia, ou um ator, no palco, tem a atenção da plateia. Ainda por cima, proferiu uma sentença contra o publicano, atentando somente para as aparências (utilizando-se das armas prediletas do injusto). Via a si mesmo como digno de apresentar-se “face a face” com Deus, esquecendo-se de que ninguém pode fazer isso sem sucumbir à sua ambição. Também pela aparência, considerava o publicano desprezível e sua simples presença no templo como algo indecoroso, profanatório; sua condição e natureza de ofício desabonava-o, sobretudo de comparecer diante do Senhor. Pode até mesmo ter pensado que a atitude dele de estar no local santo, na casa de Deus, tinha motivos inescrupulosos e ultrajantes, uma maneira de insultar e escarnecer a Deus. Esse, definitivamente, não era o seu lugar! Em vez de se preocupar com o estado do outro, auferindo-lhe virtudes ou vícios, o publicano cingiu-se a si mesmo de vergonha, de opróbio, reconhecendo-se um pecador, carente de graça e misericórdia divinas. Como o Senhor alertou-nos: “Porém muitos primeiros serão derradeiros, e muitos derradeiros serão primeiros” (Mc 10.31) E, “Eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores, ao arrependimento.” (Lc 5.32) Estes dois exemplos, revelam a não autorização de se avaliar a fé e o zelo a partir das aparências, algo somente possível de ser medido por Deus. Contudo, alguém pode dizer: “posso aquilatar a fé e o zelo de alguém pelos frutos, pois a Bíblia nos diz que pelos frutos conhecereis a árvore” (Mt 7.15-20), o que é verdade. Mas nem sempre os frutos de um crente podem ser visíveis o suficiente para serem aferidos por nós. Há frutos que o seu próprio autor desconhece, os quais somente podem ser vistos pelo Senhor. Se alguém comete um ato reprovável, deve-se exortá-lo e chamá-lo ao arrependimento pelo pecado cometido, mas jamais se pode condená-lo, no sentido de equipará-lo a um incrédulo, considerando-o um ímpio ou não-salvo, ou de pensar que queimará, irremediável, no fogo eterno. Isso é proferir uma sentença ou, como Judas nos diz, pronunciar juízo, o qual implica em o homem fazer- se Deus, tomando para si prerrogativas divinas, que não está autorizado ou capacitado a exercer. Darei, ainda, mais um exemplo, pois o julgamento é uma das doutrinas menos compreendida e aceita na igreja, especialmente nos dias atuais onde o individualismo, a autossuficiência, o narcisismo e a prepotência imperam mesmo entre os cristãos. Isso constitui um insulto à natureza humana, capaz de manter o pecado em seu estado intocado de destrutibilidade, de doença incurável; na atitude deliberada e persistente de insurreição, de afronta ao Altíssimo; em uma condição de arrependimento incompreensível. Cristo, em Mateus 7.1-6, combate exatamente a hipocrisia daquele que tem uma trave no olho, mas está preocupado em tirar o cisco do olho alheio. Seria o mesmo que apontar o dedo para um irmão, acusando-o de pecado, enquanto se vive no mesmo pecado; como se estivesse enrodilhado em um furacão a exortar alguém quão destrutivo pode ser manter-se ali, enquanto não faz nada para libertar-se. Primeiro, é preciso livrar-se do seu pecado (a trave) para depois exortar alguém ao arrependimento (o cisco); de outra forma, além de cometer um ato de hipocrisia, condenável e injustificável, não há, no íntimo, o desejo de abandonar o vício, permanecendo-se no estado de degradação espiritual. Essa atitude é deveras moralista e deve ser combatida dentro da igreja com a força necessária à sua expurgação. De forma alguma, Cristo proíbe o julgamento, pois ele mesmo nos exorta a observar os frutos para se saber a procedência da árvore, ou seja, discernir, avaliar, medir. Estas palavras são sinônimas de julgar, e ninguém parece ter problema com elas, visto todo homem fazê-lo o tempo todo. A questão é: estamos aptos a julgar corretamente? Segundo as Escrituras? Somos chamados à prudência e diligência, a afastar-nos do pecado, do engano, e aproximarmo-nos da santidade e bondade, vivendo uma vida na qual sejamos luz em meio às trevas. Infelizmente, há uma boa dose de melindre neste mundo, onde alguns termos e expressões são capazes de fazer aflorar a irracionalidade e a teimosia em muitas pessoas, pois eles mexem exatamente com a parte “negra” da alma, à qual estamos apegados, enraizados. Afeiçoados a ela como a um troféu, exibimo-la sem o menor pudor, considerando prova de sabedoria, quando não passa da mais vergonhosa impostura. Há um termo, criado por escritores distópicos[98], chamado “novilíngua”, onde aqueles interessados em destruir a tradição judaico-cristã, o alicerce da civilização ocidental, especializaram-se na corrupção dos termos e do seu sentido, dando-lhe uma outra conotação, adulterando- lhe o nexo, numa reconstrução arbitrária, doentia, subvertendo o seu significado com o fim claro de confundir, de fomentar o caos. Visando construir um mundo fantasioso de perfeição, contemplado apenas pelo ideal, e jamais concretizado, pois não passa de ilusão ideológica, quiseram fazer da ilusão um “messias”, um salvador, e assim destituir do trono o Deus vivo. Nesse caso, nem a igreja está livre da ação malévola dos inimigos de Cristo, os quais têm se infiltrado com sagacidade em seus limites, trazendo consigo a mesma desordem da alma que os norteia, redefinindo o bem em mal, e este, naquele. Se nos é dado o dom ou capacidade de distinguir, de estabelecer conveniente diferença entreas coisas e pessoas, por que raios não se pode julgar, visto ser a mesma coisa? Qual o problema com a expressão? Há uma carga de potencial distúrbio do espírito, a incomodar, ocasionando a sua rejeição? Ao meu ver, o julgamento no qual ninguém está autorizado a aventurar-se é o de proferir uma sentença, uma pena, um castigo a alguém, condenando-o ao Inferno. Isto está muito além da capacidade humana, não sendo uma prerrogativa humana, mas um simulacro da realidade, no qual o homem pensa em assumir a condição de um deus, portando-se indevidamente, numa tentativa frustrada de deter o poder divino, mediante o uso da injustiça. O caráter dessa punição, sendo eterna, somente pode ser sentenciado pelo eterno, infinito e onisciente, no caso, o Juiz supremo, o único capaz de sondar os corações e operar a salvação nos eleitos, condenando os réprobos. Ao homem, em sua efemeridade, cabe-lhe julgar as coisas temporais; assim como há diversos graus de castigos: os aplicados pelos pais aos filhos, pelos professores aos alunos, pelos magistrados aos criminosos, em que o julgamento não é somente uma possibilidade, mas é imprescindível, sendo que, sem ele, a subversão à lei e a autoridade seriam incontroláveis, tornando o mundo um rematado caos. Uma pessoa a viver na impiedade pode, pelo poder de Deus, ser resgatada da condenação mesmo tendo cometido pecados hediondos, pois Deus pode salvar o pior dos pecadores, enquanto o melhor dos homens não pode se salvar. É possível a qualquer um de nós surpreendermo-nos, na eternidade, com o vislumbre e comunhão entre pessoas julgadas, como se já estivessem condenadas e já fossem tidas como inevitáveis garantidoras de uma vaga no Inferno. Com elas teremos uma união santa, compartilhando o mesmo louvor e adoração ao único Deus e Senhor, cuja glória é eterna e inviolável, porque essa é a sua vontade e por ela operou com amor, graça e misericórdia. Há de se entender que, por conta da Queda e da natureza pecaminosa, o julgamento humano é falho e fadado à injustiça, exatamente por sermos imperfeitos, volúveis e sofrermos as consequências noéticas da transgressão, nublando e distorcendo a percepção da verdade. Contudo, a Escritura nos revela o que é o pecado (pela Lei Moral) e a necessidade de exortar o irmão que está em pecado, sendo isso delineado pela Escritura e confirmado pelo Espírito, cujas marcas imprimiu em nossos corações. Essa atuação ou ação nunca deve caber a um indivíduo apenas, mas é uma prerrogativa dada por Cristo à Igreja, onde as regras bíblicas claras vão norteá-la a disciplinar um irmão enredado e que persistir no pecado, apesar das várias advertências e apelos com o intuito de levá-lo ao arrependimento. Pedro afirmou que o julgamento deveria começar pela igreja (1Pe 4.17); e Paulo perguntou aos Coríntios se não havia ninguém sábio entre eles para julgar os problemas entre os irmãos, ao invés de deixar as decisões nas mãos de árbitros injustos (1Co 6.5). Portanto, Cristo está combatendo, com veemência, a hipocrisia e não o juízo, o qual é instrumento do crente para avaliar todas as coisas, não somente as ligadas ao mundo, mas também as relacionadas à própria igreja, como guardião da sua identidade de noiva do Senhor, defendendo a todo custo a santidade, a pureza doutrinária, o temor a Deus[99]. Ou seja: todos os princípios bíblicos que nos foram entregues e todo o relacionamento com o Criador devem ser pautados por discernimento, sabedoria, avaliação e juízo, em assentir-se com o bem e a verdade, repudiando o mal e a mentira. O julgamento não é uma condenação humana, mas a condenação bíblica; aos rebeldes ela revelará o seu pecado e a sua punição. De qualquer forma, é um assunto complexo, de modo que reafirmo o que disse: Em Mateus 7.1-6, Cristo combate a hipocrisia e o julgamento como uma sentença condenatória acerca da salvação (se fulano é salvo ou não, não nos compete cogitar). Há irmãos que entendem a afirmação de Jesus como uma censura a todo tipo de julgamento, de maneira a não haver “brechas” nem exceções em sua ordenação. Por exemplo, não nos compete dizer, acerca desse ou daquele homem, se ele é ladrão, bandido, mentiroso, e por aí afora, pois estaríamos infringindo a ordem do Senhor, sendo esta uma forma de julgamento, de sentença. Não concordo com esse conceito, pois, se assim fosse, não haveria uma série de advertências quanto aos falsos profetas (muitos deles nominados por toda a Bíblia), pois eles se enquadrariam no critério de estarem sendo julgados. Se o julgamento é proibido, condenar a atitude maligna dos fraudadores da fé estaria vedado e uma grande parte dos versos relacionados a eles não deveria estar no texto sagrado, estando em contradição com a sentença proferida por Cristo. Mas não é isso o que acontece, graças a Deus! Chamar alguém, um comprovado ladrão, de gatuno, ou um fulano, declarado mentiroso, de enganador, não é ser injusto, mas identificar a pessoa subjugada pelo pecado, visando chama-la à realidade, mostrando a sua condição de transgressor da lei e de inimigo de Deus e, também, protegendo inocentes de uma eventual ação, no futuro, desses meliantes. O pecado não tem vontade própria e não se realiza por si mesmo, como se fosse uma entidade, uma manifestação espontânea de uma força autônoma e independente do homem. O pecado somente se efetivará, tornando-se real, se germinar e crescer na alma, gerando atitudes condenadas e reprovadas pela Escritura. É claro, estou a falar de pecados como uma atitude, uma ação pensada, maquinada e colocada em prática por um indivíduo. Não estou falando do pecado como uma natureza herdada pelo homem, uma condição inerente à nossa essência pós-Éden, mas consequência oriunda dela, na qual todos os homens, sem exceção, são pecadores e condenáveis aos olhos divinos. Nesse aspecto, seria redundante eu apontar para esse ou aquele homem e dizer: “você é um pecador”; pois seria o mesmo que dizer: “você é humano”, ou, “você é mortal”. No que se refere ao arrependimento, ninguém o fará se não tiver consciência do seu pecado específico e se não houver uma censura, de terceiros, a denunciar-lhe o vício. O objetivo sempre será o de levá-lo, primeiramente, à contrição, à dor profunda pela ofensa cometida contra Deus, e, em segundo lugar, contra si mesmo e o próximo. Esse é o papel da igreja, como corpo, e do crente, como membro do corpo: denunciar tudo o que atente contra a santidade e a verdade. No entanto, reitero duas coisas: a primeira, que esse juízo está ligado à questão do discernimento, a conhecer a diferença entre as pessoas, entre as coisas, de maneira a não se misturar com nada que se oponha à fé bíblica. Ou seja, a aplicação precisa se dar estritamente dentro do âmago bíblico, uma relação na qual não existem tons cinzas, mas apenas preto no branco. Aplicar conceitos psicológicos, pedagógicos ou relacionados com a área comportamental acarretará na sua insuficiência. Alguém poderá dizer que a minha visão é excessivamente pragmática quanto à aplicação do princípio de julgamento cristão (bem como em tudo na vida cristã), mas entendo que as regras estabelecidas por Deus são eficientes em si mesmas e não carecem de acréscimos, de complementação, em especial se formuladas por homens, muitos deles antirreligiosos ou inimigos declarados dos fundamentos da nossa fé. Se Deus nos deu saber como agir, o que pode ser melhor para a igreja do que obedecê-lo? Por que se faz necessário o emprego de técnicas ou processos paliativos, complementares ou substitutivos, aos preceitos divinos? Em que a “sabedoria” humana pode suplantar ou agregar algo à sabedoria de Deus? Ou a “perfeição” humana apurar a perfeição de Deus? E a nossa “santidade” corrigir o Santo? Estamos no mundo, participamos do mundo, interagimos com ele, mas a luz vem de Cristo e não de Belial. Sendo assim, ao passo que Deus aplica a correção e disciplina temporal e momentânea para com os santos,ele reserva ira eterna contra os ímpios. O salmista nos exorta à separação; se não de direito, que seja de fato: “Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores” (Sl 1.1). Os princípios nos foram dados pelo Senhor; qualquer alteração, por menor que seja, significará no descrédito da sua vontade como de si mesmo. Negando-se um, nega-se o todo, e não há como defender a fidelidade a Deus se não se defende a sua palavra. Não há como dizer conhecer a Deus se não se conhece a sua palavra. Não há como dizer servi-lo se o serviço não tem por prerrogativa cumprir a sua vontade. Qualquer explicação, portanto, fora dos parâmetros traçados e revelados por Deus será inútil, ineficaz e dará mostras da falta de relacionamento ou comunhão com ele. As ciências podem explicar muitas coisas (ainda que de forma limitada e nem sempre verdadeira), mas jamais poderão se interpor entre o Senhor e seus servos, entre o Noivo e a sua prometida esposa; seria um abelhudo a dar pitacos onde não é chamado, do qual nada entende e conhece. Segundo, ao fazermos esse tipo de julgamento, não se pode compreendê-lo como um ato de vingança, de hostilidade ou de mera represália a quem o cometeu, mas com a nítida intenção de levá-lo ao arrependimento, a reconciliar-se com Deus. Qualquer atitude do cristão em sentido contrário a estes dois pontos significará o abandono da piedade e o amor fraternal. Assim, ele agirá como um justiceiro, enquadrando-se na séria advertência de Mateus: a de vir a ser julgado assim como ele mesmo sentencia o próximo, sem a equidade cristã, sem a reta justiça, agravada pela explícita desobediência ao Mestre. Quanto ao caminhar na fé, dada uma vez aos santos, todos os crentes têm o dever de zelar pela pureza da igreja, conforme nos é dado saber, pelo Senhor: “E, se não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano” (Mt 18.17)[100]. E, por Paulo: “Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for fornicador, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais. Porque, que tenho eu em julgar também os que estão de fora? Não julgais vós os que estão dentro? Mas Deus julga os que estão de fora. Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo” (1Co 5.11-13)[101]. Como se vê, o ato de julgar é necessário e biblicamente válido, mas sempre à luz da Revelação, e não da mente que arrogantemente se autovalida e se envaidece e ensoberbece pelos valores seculares, pelas suposições ou outros instrumentos alheios à palavra, que podem levar a se proferir sentenças injustas, negando os verdadeiros princípios. Imprescindível, nesse caso, é a santificação; sem ela age-se pela carne, como inquisidores ou moralistas[102], e não em amor e fidelidade à verdade, tanto para com Deus, quanto para com a Igreja e o próximo. O objetivo nunca deve ser o de condenar, mas o de ser instrumento divino para trazer o pecador à santidade, à reconciliação com Deus e os santos, em uma atitude reparatória, tirando- o das trevas e trazendo-o à luz; sem que isso nos exima de aplicar a disciplina, os princípios bíblicos da correção (como consequência do juízo bíblico), a fim de não se contaminar o Corpo. Para muitos, a advertência do próprio Senhor é negada ou desprezada em favor da preservação de uma dignidade humana exigida, mas nunca praticada ou ansiada, porque ela o seria se voltasse para a santidade. O mundo, como o conhecemos, exalta a necessidade de justiça, de equiparação e igualdade entre todos os homens, em uma busca alucinada pela nobreza ou valor, quando o caminho traçado é diametralmente oposto: dando-se vazão aos instintos mais sórdidos, aos desejos mais torpes, às ações mais vis, onde o pecador se deleita em sua própria enfermidade mortal, ele se rebaixa ainda mais em seu estado de desonra. Não é difícil presenciar a maneira repulsiva como muitos cristãos se sentem insultados quando se repete o dito por Deus, como se fosse uma ofensa, um disparate a tudo o que o homem pensa e idealiza de si ainda que sem nada a ver com a seu comportamento, caráter ou atitude. Deus castiga e pune ao que ama! “Ainda não resististes até ao sangue, combatendo contra o pecado. E já vos esquecestes da exortação que argumenta convosco como filhos: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor, e não desmaies quando por ele fores repreendido; porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho. Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija? Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos” (Hb 12.4- 8) Parece, seguindo essa teologia pessoal, que inexiste o desejo sincero de serem filhos, havendo antes uma comparação à condição de bastardos, espécie de autovalidação desse estado. Com o propósito de deterem uma relação ilegítima com Deus, uma ligação baseada na impureza, da qual ele se opõe e se afasta, rejeitando-a, tecem uma intimidade forjada, não sincera, com o Criador. O único testemunho possível é o orgulho de serem postos de maneira tão apreciada e desejada, que Deus não se negaria a reconhecê-los, muito menos de aceitá-los, curvando-se inevitável ao apelo de suas criaturas, para delas ter reconhecimento. Por isso a atitude de julgar aqueles que vivem placidamente em seus pecados, como bastardos, é considerada pelo mundo inadmissível e condenável, sendo que, na verdade, é uma condição inaceitável enquanto a vivem por absoluto, na profundidade interior.[103] O julgamento, a exortação e o conselho se transformam na forma mais virulenta de malevolência e aversão, uma posição retrógrada e primitiva não mais tolerável pela modernidade. Em contrapartida, o consentimento com o pecado revela uma alma civilizada, e se negar o pecado, o será ainda mais. Outro ponto, citado por Cristo, refere-se a: “com o juízo que julgares sereis julgados”, um alerta para a não vaidade e o não se encher de soberba. Ao aplicar-se equivocadamente essa norma, o resultado será um julgamento hipócrita, aquele no qual o seu proponente tem em vista acusar no outro o que ele mesmo faz, mas não quer que os outros saibam que faz. Em outras palavras, é a camuflagem perfeita para aparentar uma santidade que não tem, escondendo a pecaminosidade arraigada à alma. O hipócrita, via de regra, é incapaz de reconhecer em si mesmo o pecado, mas é ligeiro em apontá-lo no seu semelhante, com vistas a desviar a atenção de si e lançá-la ao próximo. É a tática de acobertamento, dissimulatória, em que a acusação é a defesa imediata a afugentar a própria condenação. Entre outros, visa tirar o foco do hipócrita e transferi-lo ao outro, com o nítido objetivo de esconder os seus pecados através da exposição dos pecados alheios, num tipo de “máscara” da condição libertina que se pretende esconder à incriminação alheia, quando a culpa deveria cair, primeiro, sobre o acusador, na forma de confissão e arrependimento. Segundo os seus critérios perversos, ele não está sujeito à dura e inflexível vara do Juiz supremo. Pelo contrário, encontra em si as condições para fazer-se juiz. Estando em pecado, pela hipocrisia do julgamento, peca ainda outra vez ao assumir as prerrogativas exclusivas de Deus, fazendo-se como ele, e invocando-se para si “a medida que medires”; ignorando receber a sentença na proporção do pecado cometido, o qual será mensurado apenas e tão somente por Deus. Ao se fazer de Deus, usando do privilégio que somente ele tem, assumiu para si a conformidade da sentença, na relação correta entre o pecado cometido e a punição correspondente, sofrendo os agravos da sua atitude pela máxima sentenciada por Cristo: na “medida que medires sereis medido”. No entanto, o delator não está nem um poucointeressado em retratar-se, perante Deus e a Igreja, permanecendo, deliberadamente, envolto em seus pecados, acalentando-os como a filhos queridos, e nutrindo-os com a sua falsa religiosidade e moralismo. A evidenciada intenção de não arrependimento e não regeneração leva-o a querer os olhares de todos voltados para o alvo do seu julgamento. Assim, aos olhos humanos, ele se reveste de uma santidade que não possui, afagando e alimentando dois dos pecados mais comuns e usuais no homem: a autoidolatria e a vaidade, sem que eu saiba dizer qual é causa e qual a consequência, parecendo ambas tão entrelaçadas e intrínsecas à alma que, muitas vezes, passam desapercebidas. Entretanto, ao contrário da transparência, ele se delicia na vergonhosa perversão, sequer se dando conta disso, posto ter a mente enevoada por densas trevas. Não foi à toa que Jesus condenou, com tanta veemência e assertividade, os fariseus, sacerdotes e escribas, por representarem tudo de mais maligno e destrutivo a entrar na igreja, com suas fingidas devoções, falsa moralidade e o culto a si mesmos, tentando, a todo custo, não deixar entrar no Reino aqueles que estavam entrando. Em Mateus 23, ele proclama, em alto e bom som, as atitudes deles e os seus destinos finais. Há pessoas que veem, na proclamação do Senhor, uma prova de amor, entendendo existir, na reprovação aos líderes judeus, efeitos positivos capazes de levá-los à correção dos seus caminhos tortuosos. A meu ver, não consigo vislumbrá-lo amando-os, sobretudo se atentarmos para a severidade e energia com as quais os reprovou. Ao chamá-los de “raças de víboras”, “sepulcros caiados”, “condutores de cegos”, “hipócritas”, “assassinos” (“a uns deles matareis e crucificareis; e a outros deles açoitareis nas vossas sinagogas e os perseguireis de cidade em cidade”), parece-me nítida a declaração de condenação, de juízo, a pairar sobre as cabeças deles[104]. Senão, qual a razão de proclamar: “Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno?” (v. 33). Não parece evidente Cristo estar proferindo um julgamento contra os fariseus e escribas, ainda que, dentre eles, um ou outro (como Nicodemos, p.ex.) fosse exortado ao arrependimento, afastando-se daquelas práticas e reconhecendo a verdade em suas palavras? Na maioria das vezes, a reação dos fariseus foi a de maquinar, engendrar planos para prenderem e matarem-no, revelando a disposição maligna de empreenderem uma cruzada contra o Santo, fazendo jus à sentença ajuizada por ele. Não vejo de outra forma. Não consigo perceber complacência ou tolerância na sua confrontação. Também não há sinais de contrição dos líderes; pelo contrário, confirma-se, em seus corações, o intento de levar a cabo o assassinato, a destruição de Jesus, para levarem-no ao tribunal romano ou judeu, desviando o foco de seus pecados e impudência com alegações torpes e injuriosas de que ele era filho do diabo e blasfemava contra Deus. A prova de que suas naturezas se opunham à verdade e à vida foi que eles levaram à cabo suas ameaças, mentindo, caluniando, prendendo e matando o Justo, o Santo, o Filho de Deus. Fizeram jus à condição de réus de juízo, sendo, por ela, condenados. Por fim, Miguel, mesmo disputando com Satanás, segundo as ordens de Deus, “não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele, mas disse: O Senhor te repreenda”. Sabendo que ele era seu inimigo, de Deus e dos santos; sabendo de sua malignidade e os danos capaz de produzir, caso pudesse usar a morte de Moisés a seu favor, o anjo ainda assim não se considerou capaz ou “no direito” de amaldiçoá-lo, resignando-se em fazê-lo. Ele sabia quais eram as intenções do inimigo, sabia que este deveria ser derrotado. A disputa na qual fora introduzido tinha um objetivo escuso e nefasto, sendo reprovável em todos os aspectos; porém, não lhe cabia, mesmo fazendo o julgamento correto, distinguindo ser prioritário não lhe entregar o corpo de Moisés, proferir uma sentença condenatória ao seu oponente. Repetindo o trecho de Zacarias 3.2, pôs fim à contenda, deixando o impedimento, refreio ou censura, a cargo de Deus. Miguel não estendeu a querela, nem se aperfeiçoou nela, nem a tornou em uma luta pessoal, pelos motivos errados, mas por estar a serviço do grande “Eu Sou”. Ao lidar, litigando, com um ente sabidamente condenado, entendeu que não lhe cabia qualquer sentença e que ela pertencia, em exclusividade, e por méritos naturais, a Deus, na alçada própria da sua soberania, como essência ou necessária prerrogativa da sua natureza. Do mesmo modo, isso foi reconhecido por Paulo, ao dizer: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor" (Rm 12.19). O anjo não se atreveu a fazer aquilo que não estava em sua alçada, fora dos limites da sua competência, ainda que, porventura, quisesse, porque esse não era o seu papel, nem a incumbência dada. Algo inglório seria assumir uma prerrogativa exclusiva de Deus, numa tentativa de tomar- lhe o lugar à força, nos mesmos moldes empreendidos por seu adversário. Certamente, ele se lembrou da rebelião no céu, quando Satanás e os seus comparsas caíram, sendo expulsos pelo mesmo motivo: desejar assumir o trono divino, destituindo-o, caso houvesse, nessa tentativa, alguma possibilidade de êxito. Satanás se enganou no próprio pecado, iludido com a ideia de que recebera “poderes” suficientes para considerar-se vitorioso, em meio à mais flagrante de todas as derrotas. Essa é uma das marcas vigorosas do pecado: fazer-nos crer fortes enquanto caímos impotentes, sem qualquer força para nos reerguermos, incapazes de redimirmos a nós mesmos. Por isso o Arcanjo, temendo ofender ao seu Senhor, abriu mão de proferir uma condenação ao réu dos réus. Em sua reverência e temor (no sentido já explicado, em páginas anteriores), mesmo sabendo da sentença e punição dos demônios; mesmo estando investido da autoridade divina, humildemente entregou-se nas mãos de Deus, deixando a vingança, o “troco”, para o supremo Juiz, único capaz de punir a ofensa diabólica à sua autoridade e santidade, na medida exata do delito praticado contra si. Este é outro exemplo dado por Miguel, o de se submeter integralmente aos desígnios e à vontade divina, sabendo que se está melhor, mais protegido, sob a sua guarda, do que em qualquer outra condição, e, como tal, todas as atitudes e ações, dos anjos e homens eleitos, devem também estar em sua dependência, em obediência. Quão subordinadas e filiais são as nossas vidas a Deus, no sentido de que, sem ele, não existiríamos, nem viveríamos, ou teríamos o mais cobiçado e invejado relacionamento, a comunhão verdadeira e santa, a satisfazer-nos e encher-nos de gozo imensurável. Os réprobos apenas se darão conta da própria infelicidade e tormento, muito além do castigo físico e da ira divina oprimindo-lhes a alma, quando da irremediável separação ou morte eterna, privando-os da mais sublime, perfeita e desejada união com o Criador. Sendo assim, a nossa vontade também deve estar à disposição da Majestade, tal qual os nossos pensamentos e ações; e não há nada a nos alegrar mais, nem mais justo, duradouro e santo, incomparável e infinitamente maior do que todos os tesouros do mundo, como provou-o Cristo, rejeitando as ofertas e favores terrenos oferecidos pelo diabo, no deserto, em favor da comunhão perene com Deus. A Arma dos Ignorantes No verso seguinte, temos a afirmação: “Estes, porém, dizem mal do que não sabem”, revelando a completa ignorância dos homens em relação à verdade, à realidade, e, sobretudo, ao conhecimento divino, que, em última análise, é a verdade e a realidade, em seus aspectos mais absolutos, santos e eternos. São tolos a acusar e proferir sentenças sobre o que não conhecem, o que lhes está encoberto e que acusam pelo desvio de caráter, pela noção de estranhamento, de incapacidade inerente à própria naturezacristão, elas o fazem de maneira defeituosa ou indevida (pois, para nós, o servir significa não a honra e o reconhecimento pessoal, mas a glória de Deus); elas tropeçam no egoísmo, no orgulho e na ignorância, ou em alguma outra motivação, segredada no íntimo ou declaradamente pecaminosa. Alguém pode questionar: “Quer dizer que o cristão é perfeito? E só há perfeição no Cristianismo?”. Não, e sim. Primeiro, o cristão não é perfeito; há nele uma dupla convivência, uma disputa entre a carne e o espírito, na qual o processo de santificação está em aprimoramento. Inevitavelmente ele derrapará, entregando-se à concupiscência, e, até mesmo, cairá em pecado. A questão é que o cristão possui algo distinto e com efeitos práticos quase nulos no não-cristão: o arrependimento! Não se pode confundir, e é preciso distinguir, entre o cristão nominal e aquele regenerado, nascido de novo. O cristão nominal pensa em conformidade com o senso comum e sua natureza caída[12], buscando, em si mesmo, uma autoexpiação, uma autocomiseração, onde o arrependimento é o salvo-conduto para a elevação da alma. Em si mesmo, acredita reter as forças necessárias para fazer do remorso um homem muito melhor diante dos próprios olhos, do mundo e de Deus; de forma que o arrependimento (um arremedo dele) é de si para si, exclusivamente por seus méritos, com o fim único de se autojustificar diante do próprio altar. Em uma só tacada ele se faz adorador e objeto de culto, sem a necessidade de sacrifícios reais, pois estão acomodados à sua personalidade, sendo ela, a do idólatra, que prevalecerá; um culto impostor a um falso deus, criado pelo orgulho, pela rebeldia, pela adulteração da verdade e realidade. Há um engano terrível nesta ideia e disposição; de fato, nada pode ser encontrado no Cristianismo a corroborá-la. O arrependimento, muito mais importante do que uma amostra de superioridade espiritual (considerá-lo assim apenas demonstra o quão baixo o sentido de “arrependido” encontra-se), é a oportunidade de voltar-nos humilhados para Deus, em contrição profunda, cientes de não sermos menos miseráveis que o mais miserável dos homens. Afinal, não há nada em nós a suscitar um reconhecimento, por menor que seja, já que todo o reconhecimento é do perdoador, Deus. Todo o mérito é dele; toda a honra é dele; todo louvor é a ele; e é por ele, somente por ele, que somos capacitados a achegar-nos em contrição, pedindo por sua misericórdia e graça, postura sem a qual nunca estaríamos, de fato, pesarosos e tristes com o pecado e a nossa condição desastrosa. Em segundo lugar, o Cristianismo é perfeito, pois somente nele a graça e a misericórdia e a bondade divina são manifestadas, no esplendor insuperável da entrega do Filho, santo, puro e imaculado, por homens pecadores, desonrados e imperfeitos. Em nenhuma outra religião Deus se fez homem, viveu como um simples mortal (ainda que em sua simplicidade houvesse o esplendor e a majestade divina), foi acusado, condenado, crucificado e morto por aqueles que amou eternamente, antes de o mundo ser mundo e de as coisas serem o que são. Por isso, outro ponto, a não ser esquecido nem descuidado, é que servir a Cristo traz consigo a mesma humildade e honra de sofrer com ele, pois o sofrimento é marca distinta do cristão. Àquela época havia, como ainda há, perseguições e mortes para os discípulos do Senhor; de forma que Paulo diz ser ele a levar na carne as marcas de Cristo[13], o qual, sendo justo, foi acusado e condenado e morto[14]. Ao se abrir mão do sofrimento, ou evitá-lo, não estamos em sintonia com o evangelho e suas proposições sábias a dizer-nos: "Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele" (Fp 1.29). Por fim, Judas também se faz conhecer como o irmão de Tiago, provavelmente porque, sendo um nome comum, poderia ser confundido ou relacionado a outros tantos “Judas” e, para evitar o equívoco, de ser confundido com um estranho à Igreja, descreveu o seu parentesco com o irmão mais famoso e proeminente, de quem já falamos. A Santidade Outorgada A carta é endereçada aos "santificados em Deus Pai", falando especificamente para crentes, para cristãos, aqueles que foram separados por e para Deus; não se destina a um público indistinto e geral, ainda que lhes possa ser proveitosa em aspectos formais do conhecimento e da prática de vida. Pode-lhes auxiliar nas relações humanas, como um freio para a iniquidade, estendendo-lhes perspectivas convencionais do conhecimento sobre Deus, a Igreja e o mal. Entretanto pouco ou nada lhe valerá em relação ao relacionamento sincero e verdadeiro com Deus e o seu povo se não houver a intermediação de Cristo, que com sua morte uniu pecadores definitivamente ao Criador, de maneira efetiva e insofismável. Quando muito, o ímpio terá uma vida melhor e mais sábia neste mundo, mas, em contrapartida, acumulará para si razões suficientes para ser condenado, pois mesmo em sua aparente piedade não houve frutos a indicar a ação direta do Espírito em santificá- lo. Pautado na Escritura, que nos alerta de forma veemente e implacável: sem santidade ninguém verá a Deus[15]. Contudo, para não atropelar a ordem dos assuntos abordados por Judas, deixaremos para meditar sobre este ponto específico mais à frente. Então, temos que a epístola se destinava, como indica todo o escopo bíblico, a falar à igreja e, ao contrário do senso comum, cujo pensamento toma a Escritura como um livro para todos os homens e de onde pode-se apreender verdades relativas e individuais (no sentido de que cada um pode construir a sua verdade independente do que o texto fala e explicita), os destinatários são os membros do Corpo de Cristo, os que foram santificados por Deus Pai, ou seja, os que foram trazidos de suas naturezas pecaminosas e caídas para viverem uma vida santa, nas pegadas do Mestre. Não há nenhuma alusão à autossantificação ou à mera possibilidade de sê-la, pois claramente o autor fala dos que foram santificados por Deus Pai, revelando que esta é uma obra exclusivamente divina, a qual Deus realiza tão somente aos que chamou; sem que haja a possibilidade, também, do autochamado, como comumente a maioria das pessoas acredita possível. Deus é quem chama e quem santifica a quem quer. É claro que isso nada tem a ver com a ordem dada à igreja para chamar a todos os homens, sem distinção, de entre todas as nações e povos, ao Evangelho. São coisas distintas. Há o chamado universal para que todos ouçam as boas novas[16], e esta é a missão da igreja, mas quanto aos que atenderão ao chamado geral, eles serão alguns, muitos, uma multidão, mas não serão todos os homens, pois essa é a evocação particular e específica de Deus, o cuidado de, no universo de pessoas reprováveis e odiosas, chamar e capacitar o eleito[17] a responder positiva e infalivelmente ao convite. Há um convite, mas não é um convite recusável (considerando-se que, diferente de uma festa de casamento, por exemplo, na qual podemos comparecer ou declinar, o chamado do Espírito é irrevogável), de modo que o eleito responde com efetivo gozo e decisão resoluta. Existe uma ideia popular, e muito em voga em nossos dias, de a Bíblia ser um livro que atinge todas as pessoas de uma mesma forma, mas isso não é verdade. Vemos pessoas que têm conhecimento das Escrituras, alguns são mestres, acadêmicos, eruditos, têm o hábito de lê-las, de estudá-las, mas acabam por apropriar-se do que lhes é interessante e descartam o que não é; relativizando muitas coisas, descrendo em outras, suspeitando, na maioria das vezes, porque não as têm como a palavra divina inerrante. Em suas mentes é impossível conceber Deus escrevendo a homens e mulheres (como prova do seu interesse e cuidado); afinal, por que o faria sendo Deus? Ou é inconcebível escrevê-las porque, em última instância, ele não existe, e o que se tem como Escrituras são apenas palavras e linguajar pensadohumana a dominá-los, afastando-os da sabedoria que vem dos céus, o que os leva a entregar-se alucinadamente à loucura incontrolada de se opor a tudo o que é divino. É muito comum encontrarmos pessoas opinando sobre aquilo de que pouco ou nada entendem, ou ignoram por completo. Há uma falsa ideia de que o homem pode se exprimir sobre qualquer coisa e está capacitado a fazê-lo ainda que desconheça o assunto, nunca o tenha estudado, nem meditado nele, fazendo crer na possibilidade de conhecimento se transmitir por osmose. Tão rapidamente e de pronto nos metemos nos assuntos mais complexos, como se o dominássemos à exaustão, como se houvesse um poder na mente, intrínseco ao homem, de igualar um palpiteiro e um estudioso meticuloso no mesmo patamar de idoneidade e compreensão. Praticamente todos, hoje em dia, estão dispostos a exporem suas sugestões independente de o assunto ser- lhes familiar ou inédito. Parece haver uma necessidade de autoafirmação na qual a ignorância é anulada pelo número de palavras articuladas, e não pelo seu significado. É comum observarmos pessoas discutindo temas complexos e singulares apenas utilizando-se do poder de intuição, como se o pressentimento, em si mesmo, suplantasse a autoridade para estabelecer e definir a realidade. Parece existir uma especialização, um tipo de generalização onde todos se presumem Ph.D. em “achismos”, em que a adequação de uma situação ou assunto é a única certeza, e, no fim, o único que importa. O simples fato de o palrador acreditar em seu discurso é o suficiente para ter credibilidade, mesmo incapaz de distinguir entre um pato e um avestruz[105]. Infelizmente, as mentes encontram-se tão intensamente obliteradas pelo pecado que a mais estúpida e desmiolada afirmação pode ser confundida com sabedoria, inteligência e razão. Vivemos tempos difíceis, nos quais a Queda e o consequente afastamento de Deus têm tornado o homem uma imitação grotesca de si mesmo. A degradação moral, intelectual e espiritual alcançou os níveis mais abissais jamais antes tocados pela humanidade e continua célere em direção ao fundo do poço. Então, falar asneiras, repeti- las e ganhar eco entre os seus pares ignorantes faz com que muitos creiam no impossível: serem uma nova estirpe de gênios e detentores da qualidade de criadores da verdade, tal a arrogância com a qual adulam a si mesmos; em um conhecimento inalcançável, posto não haver o sincero desejo de conhecer; em um rompimento total com a verdade, pois ela os denunciaria como falsários; em uma fuga da realidade, já que o vértice dos seus desejos é serem postuladores de um novo mundo, de uma nova realidade, onde serão aclamados como “deuses”, os “messias” da humanidade. O desconhecimento próprio e de outrem é a arma a mantê-los ativos na ignorância, como cultivadores de pragas, disseminadores de doenças, destruidores inatos e perseguidores ferozes dos seus opositores. Por isso, as sensações encontram-se tão em moda: são a razão e explicação para quase tudo, e quanto mais radicalmente explícita e bizarra, maior será a sua assistência, os seus seguidores, uma legião de inimigos da verdade. O Cristianismo bíblico, e somente ele (pois há muitas formas de “cristianismo” tão ao gosto do néscio), é capaz de causar uma comoção violenta e uma reação despropositada nos ignorantes, naqueles afeitos ao mal. Por desconhecerem-no, fazem conexões com tudo aquilo oposto e exterior à fé, como se fosse a sua essência, enganados pela afetação de que, ao detratarem a verdade anulam-na, impedindo outras pessoas de contemplá-la. Não se importam em averiguar seus ensinos, estudá-los, medi-los, na proporção adequada. Odiando a Deus e tudo o que provém dele, saem atirando à esmo, refletindo apenas e tão somente o seu ódio e compulsão pela mentira e a afrontosa calúnia. E, quanto mais insistem na impostura, mais afastam-se da verdade, cavando, sob os próprios pés, a fossa onde serão enterrados, esmagados pela futilidade e vanglória. Aquela máxima de “não conheço, não quero conhecer e tenho raiva de quem conhece”, cai-lhes como luva; uma desculpa emocional para a preguiça, a indolência, a apatia mental e espiritual. O salmista descreveu-os apropriadamente: “Disse o néscio no seu coração: não há Deus. Têm-se corrompido, fazem-se abomináveis em suas obras, não há ninguém que faça o bem” (Sl 14.1). E, no que naturalmente conhecem, comportam-se como animais, ou seja, o prazer santo é substituído pelo agrado do corpo, num desregramento impetuoso da carne em todas as formas doentias, psicóticas e imorais, a fim de corrompê- lo, como, por exemplo, o sexo desmedido, a glutonaria, a embriaguez e inúmeras outras maneiras de se comportar e agir sem qualquer moderação. Usam o que lhes é dado abusivamente; como ignorantes e irracionais, acabam condenando não somente o próprio corpo, mas também a alma. Sentem-se à semelhança dos sábios, os senhores da verdade, os mais astutos entre todos os sagazes, e não passam de animais irracionais controlados pela vontade, apetites e sentimentos desordenados, impuros e depravados. Se conhecessem a verdade, sujeitando-se a Cristo, guiar-se-iam por ele e refreariam os seus instintos pecaminosos, não se permitindo serem dominados, escravos, de sua própria vontade enferma, culminando, muitas vezes, em serem péssimos exemplos para os outros, instrumentos para a queda e derrocada alheia, no que se contentam. Sob a regência do comportamento indolente, incapaz de resistir às tentações e ao pecado, induzem aqueles tão ou mais fracos a vacilarem, aprisionados em um círculo vicioso onde corrompidos e corrompedores confundem-se em uma massa disforme, maligna e ofensiva à santidade divina. Acabam por desconhecer a afronta a si mesmos, não pelo que são, mas pelo que poderiam ser; já que, feitos à imagem de Deus, refletiriam a luz somente emanada por aqueles feitos templo do Espírito, os quais, por sua direção, almejam viver e guiar-se segundo a sua santa vontade, cumprindo o propósito máximo do homem de glorificar a Deus, em tudo, e para todo o sempre. PARTE SEIS TRÊS MESTRES FALSOS "Ai deles! Porque entraram pelo caminho de Caim, e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão, e pereceram na contradição de Coré." Inércia Espiritual A carta continua a descrever os falsos profetas que assolaram a igreja ao seu tempo, censurando-os com veemência; significando, para alguns, uma ênfase na proclamação de uma sentença. Não é o que faz. Conhecendo-os tão bem, sobretudo a obra que realizavam na igreja, com o objetivo de desagregá-la, corrompê-la e destruí-la, é natural serem comparados com outros exemplos de homens e mulheres na Escritura, insidiosos e pervertedores da verdade, seduzindo prosélitos para os seus ensinos falaciosos e sua causa diabólica, levando-os a se rebelarem contra a sã doutrina, contra a autoridade da Igreja, contra a revelação especial, contra Deus. Observe que, desde o início, há uma doutrina sã, correta, divinamente inspirada, a qual milhares de homens, durante séculos, seguiram e obedeceram, não sendo, àquele tempo, desprezada ou reformulada, como a mente carnal clama em afirmar[106]. O fato de haver uma acomodação da fé à cultura, de maneira que esta define aquela, ao menos em seus aspectos secundários, levando a um aprimoramento do secularismo dentro da igreja, criando uma multidão de lobos ávidos em perseguir e extirpar as ovelhas, é o ponto de enfraquecimento do Cristianismo, desbotando-o no que há de mais vívido, o amor à verdade, a qual é Cristo, e sua busca intransigente. A intenção é demonstrar, ou melhor, induzir a uma amostragem mentirosa, cujo objetivo é fomentar uma espécie de cristianismo mutável, adaptável, sem identidade e suscetível ao controle do mundo, de forma que nem mesmo os seus fundamentos sejam considerados intocáveis. Não é estranho, portanto, perceber um discurso falacioso entre as pessoas de mentee escrito por homens. Fica evidente que não são cristãos verdadeiros, assim como muitos ocupantes dos bancos de igrejas também não o são, pois, o Evangelho não produz, em si mesmos, a vida necessária para erguê-los das catacumbas espirituais. É fundamental perceber-se o estado de incredulidade, a forma de se apegarem tão fervorosamente à dúvida, ao ceticismo, como se elas resultassem em um tipo superior de pensamento, no qual a crença, ou a fé, significa algum tipo de barbarismo ou primitivismo mental. Contudo, esses mesmos detratores da fé, insensíveis ao postulado dos seus corações, alegando não a ter, e apegando-se a uma suposta incredulidade superlativa, esquecem-se de que a descrença, no final das contas, também é uma crença; em outras palavras, não se foge da fé negando-a, pois essa negação é um ato de fé, ainda que, digamos, muito mequetrefe; faltando apenas ao cético apresentar-se à verdade, reconhecendo-a, e dizer: “Sim, senhora!”[18]. Ao terem a Bíblia como um livro a revelar aspectos morais ou de costumes, mas nada além disto, é-lhes inconcebível reconhecer a sobrenaturalidade do texto, já que suas mentes se encontram em um nível tal de escravidão e letargia, os quais obliteram a visão, e a própria incompreensão não passa de um reflexo tardio das trevas a dominá-la. Desse modo, incorrem no grave equívoco e, posso dizer, pecado, de não o considerar infalível, inerrante e divinamente inspirado, pontos basilares da fé cristã. Este é o fundamento dos cristãos, crendo eles que a Escritura é a fidedigna palavra de Deus, o próprio Senhor falando especialmente com o seu povo; do contrário, qualquer forma de Cristianismo à margem da revelação especial é o estereótipo do modelo iniciado no Éden, onde a palavra de Deus foi subvertida, e a serpente, ao dizer que Deus não disse o que disse, implantou a dúvida e confusão no fraco coração de Eva, primeiro, e de Adão, em seguida. Muitas distorções apresentam-se na forma simples de construir-se ideias alheias à revelação especial, como, por exemplo, a de todos os homens serem filhos de Deus. A partir disso, constrói-se um castelo de areia onde conceitos enganosos são formulados no intuito de tornar possível a reconciliação e a salvação pelos méritos humanos, quando a realidade é diametralmente oposta, mas inalcançável para a alma natural, não regenerada. Mais à frente, explicarei melhor esse princípio, e veremos ser vedada a condição de se autorreconciliar, de se exercer um livre-arbítrio, no qual o homem é arbitrário apenas em manter a sua condição de pecador, de inimigo de Deus, perpetuando-se na transgressão. Logo, não há como entendermos esta carta como sendo destinada a todo o mundo, mas especificamente para a igreja do Senhor, pois Judas dirige-se aos “chamados, santificados em Deus Pai”; ou seja, apenas os invocados, os atraídos por ele são os destinatários desta epístola. E há um propósito de Deus no chamado: formar para si um povo escolhido antes da fundação do mundo, antes de tudo ser o que é. Paulo remete-nos também a este chamado: “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28) Ora, não há aqui qualquer possibilidade para o não- chamado, pois a obra a realizar é divina e não humana; então, como poderia o homem chamar a si mesmo? Quereria ele ser chamado? Ou entenderia o porquê de sê- lo? Alguns podem objetar o fato de a Bíblia ordenar, em várias passagens, a necessidade de o homem ir a Deus, a qual não é de todo equivocada, pois ele vai e tem de ir. O homem tem de ir a Deus, e isto é um fato; a questão é que isto somente se torna possível se ele for chamado e capacitado a ouvir a voz do Espírito e a obedecê-lo. Sem a capacitação divina, ninguém pode sequer ouvir o chamado, quanto mais responder a ele positivamente. Se existe alguma dúvida em relação “aos chamados”, acredito não haver nenhuma em relação aos “santificados”, os quais somente o são por Deus. Mais uma vez, deparamo- nos com a obra exclusivamente divina, tanto no chamado como na santificação. O mesmo erro pode ser formulado nesse ponto, onde muitos dirão: “Não diz a Escritura: Sede santos, como é santo o vosso pai que está no céu?”. Sim, é verdade, há uma ordem do Senhor para sermos santos, mas pergunto: quem, por si mesmo, pode sê-lo? Qualquer um, olhando para si próprio, para o seu íntimo, analisando seus pensamentos, seus atos, pode, em sã consciência, reconhecer em si a santidade, ou mesmo acreditar possível alcançá-la por seus meios? Informo-lhe, caso acredite nessa capacidade como algo intrínseco, ser completamente impossível, pois o homem, em sua natureza, insiste na desobediência, cultivando, quando muito, um conhecimento pífio do ser divino, e, na maioria das vezes, o seu entendimento será embaralhado, uma profusão de conceitos e enunciados distintivos do seu caráter sobrenatural. Se a igreja é formada pelos chamados por Deus, também será formada pelos santificados por Deus. Não há outra hipótese nem probabilidade. Como pecadores, controlados por nossa natureza iníqua, somos presas fáceis de nós mesmos, na ilusão de haver poder ou força suficiente para demover-nos, para libertar-nos de algo mais vigoroso que nós. Somente a ação do Espírito Santo, transformando mente e espírito, capacitando-nos a resistir e lutar contra a velha natureza, pode levar-nos à santidade. Trata-se de um processo iniciado na conversão, no reconhecimento da fraqueza, impossibilidade e incapacidade humanas e da necessidade urgente da realização, por Deus, da sua obra, levando-nos aos pés da cruz, a reconhecer Cristo como Senhor e Salvador, a colocarmo-nos em completa dependência do seu poder, sem a qual não podemos ser separados para Deus, e separados do mundo. Algumas pessoas argumentarão: “mas se Deus é quem chama e santifica, e não posso resistir ao chamado e à santificação, então somos robôs ou marionetes, sem vontade e capacidade de escolhas”. A estes, entregues a um reducionismo absurdo, digo: Você não é um robô nem marionete simplesmente pelo fato de Deus não impor a sua obra a “fórceps” ou pela força, por ser maior e mais forte; você é convencido pelo Espírito a aceitá-lo como suprema e infinitamente melhor do que qualquer outra coisa. Por isso, é necessária a ação do Espírito Santo, sendo ele o renovador, transformador, reparador da nossa mente, de maneira a termos os olhos abertos, a sabedoria ativada, para reconhecermos o estado de degradação, de pecaminosidade em que estamos, como inimigos de Deus, e de ver claramente o quanto nos ama, ao ponto de entregar- se a si mesmo na cruz, não apenas para salvar-nos, mas, também, reconciliar-nos consigo. O bem maior não é a salvação do Inferno, nem ser absolvido, não passando de consequência de algo muito mais superior, a quebra da inimizade e separação de Deus, e o eterno e constante viver em comunhão com o seu Espírito. De forma que eu quero esse amor, essa comunhão com Deus, não mais, por ser impossível, não menos, por não ser desejável; reconhecendo, no momento do chamado, o meu pecado, a minha ofensa, a minha rebeldia, e querendo abandonar tudo isto, ou seja, abandonar aquele velho homem, abandonar o que fui, para me tornar em um novo homem, um seguidor de Cristo, naquilo que ele quer e desejou na eternidade para mim. Então responderei ao chamado porque quero responder a ele também, não porque me é forçoso, mas por ser um deleite. O mesmo acontece com a santificação, pois se é Deus quem me santifica, em contrapartida também quero ser santo, e tenho de sê-lo, pelo poder divino, pela ação divina, pelo mover divino, mas jamais sem que o desejo de sê-lo esteja profunda e ansiosamente entranhado em meu ser. Existe o poder, a força de Deus convencendo-me a atender ao seu chamado e a ser santo e existe a minha disposição, a partir da transformação operada pelo Espírito em mim, de tornar-me emuma nova criatura, antes caída e servindo ao pecado, porém, levantada pelo poder de Deus, capaz de compreender, entender e responder positivamente ao convite e à ordem divina para ser santo. Logo, temos Deus agindo, mas também o homem respondendo, não de uma maneira estapafúrdia, desconectada da realidade e da verdade, mas retribuindo, agradecido, o favor impagável e imerecido. Ora, Paulo disse-nos: “Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.13) E aí está o milagre de não o rejeitar, o que fazíamos diuturnamente antes de sermos resgatados por Cristo, e, após sê-lo, tornou-se inevitável compreendermos a necessidade, a urgência de a sua vontade prevalecer sobre a nossa, não no sentido de ela ser anulada, mas de ela ser adequada à vontade suprema, perfeita, santa, e sob a qual nos colocamos a serviço. Se antes havia desalinho, agora subsiste a harmonia de propósitos, os quais são tanto de Deus como nossos. Não somos servos desgostosos, trabalhando a contragosto (ainda que eventualmente isso aconteça, por força do pecado em nós, tentando, como um defunto, levantar-se da tumba; e sendo vitorioso vez ou outra), mas o fazemos por uma obrigação imprescindível, pela impossibilidade de deixar de agir ou viver alheios e à margem da vontade de Deus. Olhando para trás, vendo o que éramos e, agora, o que somos, não há como retroceder, como abandonar o caminho no qual estamos postos; voltar seria como dar-nos, a nós mesmos, o atestado de ingratidão, de irresponsabilidade, estupidez, incapazes não somente de discernir, mas de julgar racionalmente. Guardadas as devidas proporções, seria o mesmo que um homem acometido de insuficiência cardíaca, necessitando de um transplante de coração, após recebê-lo e ter um novo sopro de vida, decidir voltar atrás e querer restituído o velho e condenado coração. Você iria querê-lo? Acho que não. Assim acontece com a regeneração, somos capacitados e habilitados a compreender a diferença do passado para o presente, de maneira a jamais querer aquele novamente. É como o soldado em tempo de paz: a menos que seja psicopata ou louco, jamais desejará voltar aos campos de batalha. Assim sendo, o homem natural não tem diante dos seus olhos a opção, a possibilidade de escolha, mas uma via apenas e, se o Espírito não operar nele, permanecerá nesse estado eternamente. Como os crentes estão em um processo de aprendizagem, caminham um pouco, tropeçam e caem, como uma criança aprendendo a andar, que dá um ou dois passinhos meio trôpegos e cai; dá mais um ou dois passinhos trôpegos e segura-se à parede, um objeto, ou alguém a sustentá-la (e esse alguém pode ser chamado de Senhor, a assisti-la), até que, de tanto tentar, de tanto experimentar e ser testada na arte de caminhar, ela andará com passos firmes, sem tropeçar, sem cair. Isso não exclui um eventual tropeço e queda, pois mesmo os adultos estão sujeitos a ela; mas se a criança não tentar, não começar com passos titubeantes, jamais conseguirá manter-se firme sobre os próprios pés. Da mesma forma, é a vida cristã; se não houver a tentativa, em primeiro lugar, para se ser um servo, também não o será. De nada adianta proclamar aos quatro cantos: “Eu sou escravo de Cristo!”, pois as palavras sem a prática, sem o exercício da servidão, não passam de um mero discurso retórico e vazio, como Tiago diz em sua carta (Tg 2.14-18). Não há a garantia do acerto na primeira vez, nem mesmo na segunda, mas é a execução, a atitude de colocar em ação aquilo para o qual se é chamado, ser santo, que resultará, dia após dia, no alcançar-se a medida da estatura completa de Cristo (Ef 4.13); clamando incessantemente a ele para capacitar, instruir e guardá-lo; então, essa semelhança tornar-se-á vívida e real, sendo algo almejado pelo crente como inerente à sua vontade, mas em conformidade com a vontade divina. Há uma acomodação, o restabelecimento da ordem e da conformidade entre aquilo almejado pelo novo homem e a vontade de Deus. Se não fui por demais confuso, definiria da seguinte forma: Deus opera em nós toda a sua deliberação, inexoravelmente, abrindo olhos, mente, coração e alma para compreendermos a sua boa e perfeita vontade, transformando-nos e persuadindo-nos, de maneira irresistível, ao ponto de não podermos rejeitá-la. A sua bondade e amor são tamanhos que qualquer possibilidade de rejeição em servi-lo significaria a incompreensão e, por conseguinte, uma mente fechada, presa, guiada e dominada pelo pecado; uma mente envolta em trevas onde a luz ainda não transpareceu. Essa é uma visão geral daquilo a ser realizado infalivelmente pelo Senhor em nós, contudo pequenos percalços acontecem no caminho. Somos forçados a parar algumas vezes, a perder algum tempo, até mesmo recuar um ou dois passos na estrada, a fim de retomarmos a trajetória devida e correta, mas nada impedirá a conclusão da boa obra de Deus iniciada e a estabelecer-se em nós (Fp 1.6). O Amor Que Preserva É ressaltado ainda, os destinatários serem aqueles "conservados por Jesus Cristo"; mas conservados em quê e do quê? As ideias de conservação e santificação estão muito próximas; podemos entendê-las como correlatas, como parte de um sistema, intrinsecamente ligadas e interrelacionadas. No Cristianismo é impossível dissociá-las, pois detém uma reciprocidade, como elementos de uma relação mútua. Sendo a santidade um estado, a sua manutenção deve-se à conservação resultante das dádivas do Senhor no momento do nosso resgate, ao sermos transportados do reino das trevas para o Reino da glória de Cristo. De uma maneira muito forte, Judas diz, em sua introdução, como somos sustentados por e em Deus; de como ele nos edifica, cuida, transforma e preserva, revelando toda a necessária dependência pela qual somos gratos, pois sem ela não viveríamos. Ora, os que são chamados e santificados não decaem da sua condição de eleitos e santos. Eles o são não por seus próprios méritos ou esforços, por qualquer obra humana, mas por Cristo, o qual é quem os conserva ou preserva em seu estado eterno de santidade. Todos estamos sob o seu cuidado e proteção, e foi a ele que o Pai nos entregou; ele que é o nosso guardião e assegurou-nos que: "Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia" (Jo 6.37-39). Torna-se premente, mais uma vez, o autor revelar à igreja a sua condição de sujeição e dependência extrema e necessária a Cristo, em uma ratificação da humildade à qual os servos também são chamados. Somos aqueles que, dados pelo Pai ao Filho, fomos “blindados”, selados, para uma vida eterna em comunhão e serviço a Deus. Importante notar que o Senhor nos conserva em qualquer situação, seja nos momentos bons ou ruins, seja na abastança ou penúria, no conforto ou aflição, nas honrarias e perseguições, na vida e na morte. Ele, o Rei Eterno, nos guarda e retém para si, mantendo-nos inexoravelmente ligados a ele, sem que haja esmorecimento, abandono ou abdicação de cuidado para com as suas ovelhas. Veja bem, no momento em que Judas escrevia a sua carta, a igreja já passava por perseguições, tanto pelo judaísmo como pelo governo romano, e a aflição, sofrimento, prisões e mortes pairavam como nuvens negras e assombrosas onde havia um único servo de Cristo. Nesse período, não houve arrefecimento nas investidas cruéis e injustas por parte dos inimigos de Deus, pelo contrário, quanto mais cristãos eram presos e mortos, mais a sanha diabólica pelo sangue inocente aumentava. Assim como fizeram com o Senhor, zombando, escarnecendo, injuriando, flagelando-o e, por final, assassinando-o, faziam com aqueles homens, mulheres e crianças que se negavam a rejeitaro seu Salvador, preferindo a morte e, assim, indo encontrar-se mais rapidamente com ele. Se atentarmos para a possibilidade real de salvarem seus bens, profissões, negócios e vidas, bastando para isso uma simples negação da sua fé, repudiando o senhorio de Cristo, prostrando-se e adorando a César e os deuses romanos diante das autoridades e tribunais da época, perguntamos: por que não o fizeram? Não se submeteram à recusa, que os livraria das punições? Mas, ao não admitirem fazê-lo, entendemos como o Senhor conservou-os, mantendo-lhes a fé e a esperança, mesmo diante de uma proposta aparentemente vantajosa e, aos olhos mundanos, impossível de ser desprezada: seria loucura recusá-la e perderem tudo o que tinham, inclusive a vida. O medo que Roma fazia sobrevir a eles, impondo-lhes ameaças de sofrimento, humilhação e morte caso não aceitassem seus termos, não foi suficiente para acuá-los, para demovê-los de sua fé de modo a negarem e abandonarem o seu libertador. Aqueles irmãos martirizados preferiram continuar firmes na Rocha, pois nela não estava somente a verdade, mas a esperança e a vida. Portanto, lembravam-se, nos momentos mais cruéis e angustiantes, das palavras de Paulo: “E em nada vos espanteis dos que resistem, o que para eles, na verdade, é indício de perdição, mas para vós de salvação, e isto de Deus. Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele, tendo o mesmo combate que já em mim tendes visto e agora ouvis estar em mim” (Fp 1.28-30). Ao contrário da falsa afirmação da teologia moderna, apregoando uma “vitória” social, financeira e ostensiva neste mundo (na verdade, a maioria das pessoas se curva ao discurso fácil e enganador, desprezando não só os alertas insistentes da Escritura, mas também a história da igreja; e, porque não, a vida do próprio Cristo, que se humilhou a ponto de se fazer maldição por nós), a Bíblia assegura-nos haver apenas uma única certeza para o cristão: a de padecer por Cristo. Antes, contudo, é preciso crer nele, mas não uma crença simplesmente intelectual ou mesmo sentimental, e sim algo sobrenatural, possível apenas pelo derramar do Espírito Santo, o qual nos convence do pecado e da necessidade desesperadora do Salvador[19]. E como não há salvação em nenhum outro nome além de Cristo (At 4.12), a única saída e caminho é entregarmo-nos à sua vontade, santa, eterna e perfeita, a fim de recebermos a graça e a honra de sofrer e suportar as adversidades por ele. Ah, mas alguém dirá: “Como há honra no sofrimento?” Ao qual responderei: Porque esse sofrimento vem repleto de alegria e gozo e esperança, sem as quais não passaria de uma mera aflição, algo possível a qualquer um, mas sem o componente diferencial e presente na vida de todo o crente: o júbilo. O exemplo de Estevão talvez seja o mais emblemático nas Escrituras, de que a alma humana, pela comunhão com o Espírito de Deus, pode ver e ir muito além da dor e da angústia (At 8.54-60). Não é incomum ouvir ou ler o testemunho de irmãos que, mesmo suportando as perseguições, doenças, e até mesmo a morte, não sucumbem a elas. Não fazem como a esposa de Jó que, ao encarar o estado deplorável em que se tornara a vida do seu marido, disse-lhe: “Ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa a Deus, e morre” (Jo 2.9) Hoje, neste exato momento, centenas e milhares de cristãos estão sob a mira dos dardos inflamados e venenosos do inimigo, acossados pelo mal. Seu “pecado”, aos olhos do mundo, é não negar o Senhor de suas vidas e manterem-se firmes no propósito de honrá-lo e glorificá-lo, seja na vida, seja na morte. Há um verdadeiro massacre de cristãos nos países muçulmanos, nos países comunistas, onde a única fé permitida é a de adorar um ídolo, seja um falso Deus ou o Estado. Nesses países, não há lugar para Cristo, e qualquer um que professe o seu nome é imediatamente reconhecido como criminoso e rebelde, podendo ter por certa a sua condenação. Crianças cristãs são arrematadas em leilões como escravas sexuais; jovens seguem igualmente o mesmo destino. Os homens, em sua grande maioria, são presos e executados; seus bens são expropriados; suas famílias desfeitas; suas vidas arruinadas em um redemoinho de impiedade. Tudo isso vaticinado com o selo de “justiça”, podendo ser religiosa ou social; um eufemismo moderno para a tirania e a barbárie, sob os auspícios condescendentes de um Ocidente moribundo e em ruína, que odeia a Deus e quer ver o Cristianismo erradicado da face da terra[20]. Ora, o Senhor alertou-nos também a respeito das investidas do inimigo para “tirar-nos” a fé, e muitos, naquele momento, tinham as suas palavras fixadas no coração: “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo... Portanto, qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus. Mas qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei também diante de meu Pai, que está nos céus” (Mt 10.28; 32-33). Neste momento, em várias partes do mundo, irmãos continuam sendo perseguidos, injuriados, expropriados, presos e mortos, sendo seu único crime o fato de professarem o amor e a servidão ao Senhor Jesus. Seja nos países islâmicos ou comunistas, cristãos são vistos como inimigos, como agentes perigosos, sem que nenhum deles tenha levantado sequer a voz para ofender seus algozes. Em um mundo cada vez mais distante de Deus, a depravação total do homem[21] (uma doutrina bíblica sistematicamente atacada pelo humanismo secular e religioso) evidencia-se em cada decisão e atitude de complacência e tolerância para com os malevolentes e violentos. Soma-se a isso uma irritante e inconcebível transigência com o mal, a injustiça, e ações traiçoeiras, onde os verdadeiros homens de paz são acusados de criarem conflitos, resultado de uma inversão desmedida de valores e uma desconexão intransigente da realidade. A insensibilidade do mundo é algo compreensível (Jo 16.33), ainda que reprovável e insustentável em todos os aspectos. No entanto, o fato de parte da igreja cristã não sofrer nem se comover com o flagelamento de milhares de irmãos torna a situação no mínimo estranha, incompreensível, a ponto de constituir desprezo, omissão pecaminosa, diante do flagelamento do povo de Deus pelas mãos de homens, governos e grupos anticristãos, diante dos quais impera um silêncio trágico e constrangedor. Muito desse processo é minimizado pelo discurso ideológico, no qual um grupo relevante, mesmo não sendo majoritário, prefere aliar-se aos nossos inimigos a defender a igreja perseguida mundo afora. Chega-se ao ponto da zombaria, do absurdo de se aceitar uma narrativa onde uma suposta justiça encontra-se atrelada a uma causa, um objetivo político e social, muito maior e defensável do que o martírio sem ruídos de crentes na história atual. Para esse grupo, impera a ignorância, ou a dissimulação, ou o delito flagrante, ao preferir assimilar e propagar o discurso ideológico marxista ou libertário de uma suposta luta pelo bem geral, a despeito de ela se especializar na tirania e despotismo particulares com os nossos irmãos, sem que haja qualquer acusação a não ser a de ser... cristão. Muitos chegam ao cúmulo de imputar aos cristãos a acusação de revolucionários, de opositores a determinado regime ou governo, quando o cristão, via de regra, deseja apenas falar de Cristo e sua palavra, cultuando-o livremente. Em sua maioria, não reivindicam nada do Estado, nem comida, quando estão com fome; nem casas, quando estão desabrigados; nem trabalhos, quando estão desempregados; nem a liberdade, quando presos; nem qualquer outro direito, quando muitos lhes são privados; nem a vida, quando as portas da morte se lhes abrem; a única coisa capaz de dissuadi-los à resistência é não proclamar o evangelho e vivê-lo. Porém, algo tão simples e inofensivo é tratado comoa maior de todas as rebeliões, como se os cristãos quisessem, com isso, tomar o poder institucional, ao não se sujeitarem ao laicismo estatal (o qual constitui uma proposta de neutralidade religiosa e social, mas que se empenha na mais ferrenha oposição ao Cristianismo, com vistas a destruí-lo e, se não tanto, debilitá-lo à inanição). Desse modo, perseguem, tolhem e tencionam impedi-los de professarem a sua fé, sob o pretexto de serem uma ameaça à ordem pública. O medo é o de não poderem dobrá-los por completo e assim não obterem o culto ao Estado, a servidão total, pois ao fazer-se “senhor”, o governo instaura-se como a única voz, autoridade. Sendo assim, não quer a atenção dos cidadãos dividida entre um senhor e outro, entre um princípio e outro, entre um desejo e outro, entre uma liberdade e outra, entre uma finalidade e outra, mas a dedicação integral do cidadão à sua causa, pouco importando se, para isso, o indivíduo tem de ser anulado, tendo a sua alma cooptada pela ideologia, pela incompreensão exterior forçosa ao interior. Inexplicavelmente, essa mentalidade relativa nas questões gerais e absolutista em relação aos cristãos, como sendo o entrave para a paz e a harmonia social, impulsiona outro inimigo do Cristianismo, o Islã, cuja aliança estranha se formaliza entre eles, no combate comum ao inimigo comum. As armas são as mesmas: perseguições, expropriações, torturas, mortes. Mesmo sendo dois “bicudos” (e bicudos não se beijam), eles sabem que a guerra entre eles para determinar quem é o mais cruel e bárbaro em seus fundamentos e ações só acontecerá após a ruína, a capitulação do Cristianismo. Enquanto o inimigo comum não for abatido, unirão suas forças para uma cruzada diabólica visando a sua erradicação. É repugnante perceber, então, o alinhamento de discursos entre cristãos progressistas com essas forças, uma espécie de tríplice aliança entre combatentes da fé verdadeira, sendo dois exteriores à igreja, o marxismo estatal e o Islã, e uma com sua artilharia voltada para dentro da igreja, os chamados crentes multiculturalistas e esquerdistas. Aqueles almejam a destruição imediata da igreja, por todos os meios de força disponíveis, enquanto esse tem a incumbência de fragilizar, minando-a, de dentro, para torná-la, em curto espaço de tempo, um ajuntamento inócuo, impedindo-a de ser luz no mundo, levando-a a prostração, de modo que se torne uma futura aliada da ideologia marxista. Se isso acontecer, não haverá mais volta, estará completamente subjugada pelo mal, e quão profundas serão suas trevas e condenação atraídas sobre si. Líderes e grupos com influência internacional omitem-se vergonhosamente, calando-se diante de uma agressão gratuita e covarde por parte de estados marxistas e islâmicos. Isso é uma vergonha, uma ofensa a Cristo e ao seu povo, por aqueles que se dizem discípulos, mas não trazem em si o caráter, amor e a santidade do Mestre ao qual proclamam servir, demonstrando apenas silêncio e impassibilidade. Contudo, graças a Deus pelo testemunho dos irmãos perseguidos em todos os tempos e no decorrer de toda a história, pois são aqueles sustentados e conservados pelo Senhor, os que naquele dia glorioso serão colocados à sua direita (Mt 25.33-40) e ouvirão da sua boca: “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (v.34). Tenhamos, pois, confirmada em nosso coração, qualquer que seja a situação a envolver-nos, mesmo tomados muitas vezes pelo pessimismo e a angustia, a promessa gloriosa de que o Cristo, o próprio Senhor, é quem se encarrega e encarregará de levar-nos incólumes à eternidade, sem manchas e graciosamente preservados no seu amor, pela exclusividade do seu ser, e em nada mais. Logo, qualquer tentativa de colocar no homem uma fração de mérito infinitesimal, como se por algum esforço (mesmo insignificante) pudéssemos colaborar nessa grandiosa obra de conservação, configura-se uma ofensa e tentativa de se tirar a glória da única pessoa que a detém: Cristo! Deve-se entender que essa obra é exclusiva e completamente dele, não havendo espaço para qualquer reivindicação humana. Alguns poderão inquirir: “Mas, por que então Deus nos exorta a manter-nos firmes para não perdermos a coroa?” (Ap. 3.11; ver Ap. 17.14). A resposta é simples: Deus usará de instrumentação e meios humanos para não abusarmos da graça. Como eleitos, devemos buscar a santidade e permanência na fé, mas sabendo que sem o favor de Cristo, ou seja, sem estarmos conservados nele, nada disso é possível. Antes, devemos nos humilhar e clamar a ele força e temperança a fim de evitarmos cair nas muitas ciladas armadas pelo inimigo de nossas almas. Se o que fazemos é bom e colabora para a nossa conservação, não devemos pensar mais acerca de nós do que nos convém (Rm 12.3), considerando que a razão para não nos perdermos está centralizada no Senhor, e por ele somos sustentados. No verso 2 da epístola de Judas, há a oração de que Deus multiplique aos seus a misericórdia, paz e amor, novamente, marcas visíveis e constantes naqueles filiados ao Pai por intermédio do Filho e algo a ser almejado: devemos aspirar e clamar com as mais santas ambições que, assim como ele, sejamos misericordiosos, pacificadores e amorosos. E, se somos conservados por Deus, esta realidade é exprimida ou proveniente do amor e da verdade de Cristo. Então, nada melhor do que uma análise relacionando amor à verdade, pois, no Cristianismo, um depende necessariamente do outro. Há uma relação intrínseca entre eles, sem a qual uma exposição bíblica não passará de um mero discurso ou artimanha retórica, cujo objetivo não é revelar um e outro, mas camuflá-los, escondendo-os, para não serem compreendidos, de modo que não sejam, na prática cristã, testemunhados. Portanto é importante definir os termos: Amor - 1. Sentimento que induz a obter ou a conservar a pessoa ou a coisa pela qual se sente afeição ou atração. 2. Paixão atrativa entre duas pessoas. 3. Afeição forte por outra pessoa. 4. O próprio ser que se ama. (Usado também no plural) Verdade - 1. Conformidade da ideia com o objeto, do dito com o feito, do discurso com a realidade. 2. Qualidade do que é verdadeiro; realidade; exatidão; coisa certa e verdadeira. 3. Por ext. Sinceridade, boa-fé. 4. Princípio certo; axioma.[22] Agora, pense um pouco: é possível haver amor sem verdade? A maioria certamente dirá que não. É impossível conciliar o amor em meio à mentira, a hipocrisia, ao engano, à dissimulação e falsa piedade. Do ponto de vista intelectual ou racional a resposta é bem mais fácil de obter; mas, e na prática? Será que vivemos a verdade quando dizemos andar em amor? Hoje em dia é muito comum se ouvir dizer: “Irmão, deixa de ser crítico, o importante é o amor!”. Ou: “Devemos amar os nossos irmãos ainda que estejam no erro!”. Ou ainda, “Deus amou o mundo, por que não podemos amá-lo também?”. E: “julgar é pecado!”. São frases aparentemente espirituais e piedosas, mas que denotam pouco ou nenhum entendimento quanto à gravidade do que acomete a igreja atual. A forma descuidada de se levar a vida cristã, como um estilo de vida igual a qualquer outro, podendo coexistir e interagir tranquilamente com as forças ansiosas por destruí- lo, simbolizam-se nas frases prontas e autoritativas dos opinadores de plantão, aqueles capazes de relativizar tudo menos a própria opinião. Como consequência, ouve-se uma série de justificativas para a contemporização com o pecado, por intermédio de uma placidez demoníaca, a fazê-los aceitar algo que é ultrajante ao homem, tornando-o escravo, tirando-lhe a liberdade, pois não há como fugir dos grilhões a mantê-lo inerte e acuado, especialmente porque é-lhe proposto, pelo seu feitor, acreditar não haver correntes, nem escravidão ou imobilidade, enquanto permanece-se estático delirando com algo intangível, o que implica em uma afronta ao Deus santo e perfeito.