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DESENVOLVIMENTO AFETIVO E INTELECTUAL DA CRIANÇA edição B. GOLSE Professeur de pédopsychiatrie à la faculté Cochin - Port-Royal - Paris V Psychiatre des hôpitaux Responsable de l'Unité de Psychiatrie Infantile de l'Hôpital Saint-Vincent-de-Paul (Paris) COM A COLABORAÇÃO DE H. A. Bizor, 1. DOMANGE, I. FUNCK, M. KLAHR, M. LIBERMAN, PH MEFFRE, MILLOT, M. M.C. TRECA VITERBO TRADUÇÃO: Maria Lúcia Homem SUPERVISÃO E REVISÃO TÉCNICA DESTA EDIÇÃO: Maria Helena M. Ferreira Médica psiquiatra. G628d Golse, B. o desenvolvimento afetivo e intelectual da crian- B. Golse; trad. Maria Homem 3.ed. - Porto Alegre : ArtMed, 1. Psicologia infantil - CDU Catalogação na publicação: Mônica Ballejo Canto CRB 10/1023 ARTMED ISBN 85-7307-448-5 PORTO 1998compromisso: o processo de identificação ao objeto libidinal; a incorporação destas te o primeiro ano, há privação afetiva parcial, aparece a depressão anaclitica, e priva- proibições no Ego, agora e operante, o bebê exprime assim sua agressivi- ção completa, o hospitalismo de prognóstico dade face a face com a mãe (identificação com o agressor de Anna Spitz esco- mais o termo de identificação com o A mãe, proibindo uma ação ao bebê num momento onde emergindo da passividade, está possuído de um montan- BIBLIOGRAFIA te importante de atividade, impõe-lhe uma um desprazer. "Isto provoca um investimento agressivo proveniente do SPITZ De la naissance à la parole, ed Presses Universitaires de France, Paris, SPITZ R.A. Le Non et le Oui, Presses Universitaires de France, Paris, 1976 A identificação com o agressor é um processo seletivo, já que a mãe coloca uma SPITZ du moi Edições Complexe, Bruxelas, proibição que envolve três fatores: o gesto e/ou a palavra, o pensamento consciente e o afeto. Ora, se o bebê incorpora o gesto, não se faz o mesmo com o pensamento pois, nesta idade, ela não pode ainda compreender as razões ou as motiva- ções do No campo do afeto, o bebê só percebe o que Spitz chama de afeto "Você Melanie não está a meu favor, você está contra Identificando-se com o agressor, a criança apropria-se do gesto com o afeto "con- (1882-1960) Quando a criança dá a este gesto um conteúdo ideacional que possui um sentido 1. ELEMENTOS BIOGRÁFICOS para a convivência, este sacudir de cabeça é o "sinal do terceiro organizador psiqui- Nascida em Viena em 1882, ela morre em Londres, em 1960 com 78 anos de Isto implica que o funcionamento do psiquismo conforma-se ao de idade. Ela é, certamente, uma das maiores figuras da psicanálise depois de Freud. Seu destino foi o de chocar, mesmo aos psicanalistas, sua obra foi intensamente criticada e É um conflito entre o Ego e o objeto que incita ao Não, uma instância superegói- provocou polêmicas. ca ainda não intervém, pois a criança encontra-se numa fase anterior ao estabeleci- Em 30 de março de 1882, nasceu Melanie Reizes. Seu pai tinha mais de 50 anos. mento do Superego. Ele tinha casado em segundas passado dos 40 anos, com Libusa Deutsch terceiro organizador que se revela aos 15 meses, indica que o bebê, pelo gesto então com a idade de 25 anos. Quatro crianças vieram desta união, Emilie, a mais do maneio da cabeça, chegou a "concretizar a abstração de uma recusa ou de uma velha, nascida em 1876, Emmanuel nascido em 1877, Sidonie nascida em 1878 e denegação". enfim Melanie, a caçula. Sr. Reizes fez seus estudos de Medicina bastante tarde e Não, não existindo no inconsciente (Freud, 1925), "faz da negação uma cria- em condições dificeis. Fruto de um meio judeu ortodoxo, ele dedicou-se inicialmente ção do Ego colocada a serviço da função de a estudos religiosos, tornando-se rabino. Aos 37 anos, ele rompe com sua família e Isto significa discriminação consciente e o início do processo "não" retoma os estudos médicos. Este espírito independente será admirado por Melanie é ao mesmo tempo o primeiro conceito abstrato adquirido pelo bebê e sua primeira Klein e pode explicar que ela mesma levará por diante seus trabalhos com tenacidade, expressão por meio de semânticos de uma comunicação à distância por men- a despeito de violentas críticas levantadas por suas idéias sagens intencionais e Ela foi profundamente marcada por suas relações com Sidonie e em seguida com dominio pelo bebê do "não" é o sinal da formação do terceiro organizador Os dois morreram muito Sidonie, pouco tempo antes de sua mor- é o início da comunicação verbal, marcada então durante o segundo ano do inicia a pequena Melanie (então com a idade de 5 anos) na leitura, escrita e cálculo. bebê por um de obstinação Este acontecimento foi muito dificil para Melanie e a marcará por muito É o Spitz instituiu a apresentação do que ele chama uma "psicologia psicanalítica do primeiro dos lutos que marcarão a existência de Melanie Klein e pode-se pensar que primeiro ano" baseado nos dados fornecidos por uma observação das relações obje- influenciaram seus trabalhos sobre a posição depressiva, o luto e a melancolia. Na do bebê com sua mãe. adolescência, foi seu irmão Emmanuel quem a ajudou a passar nos exames quando ela Esta observação permitiu-lhe fazer descobertas essenciais sobre os fenômenos decidiu que iria para a universidade estudar Mas seu pai morre (ela tem 18 patológicos da infância, ligados aos distúrbios da relação diádica mãe-bebê quando anos), deixando seu lar bastante prejudicado e, em 1902, seu irmão que ela tanto ama- esta é qualitativa ou quando há "um distúrbio" nas relações objetais, surgem o que Spitz denomina de afecções psicotóxicas, tais como o coma do a cólica do terceiro mês, o eczema infantil quando, duran- KLAHR, psicóloga 62 B. GOLSE DESENVOLVIMENTO AFETIVO E INTELECTUAL DA CRIANÇA / 63va, morre com a idade de 25 anos. "A morte de seu irmão e de sua contribuiram caçula Enrich, com a idade de 13 Alguns anos mais tarde, sua filha Mellita, muito para os traços depressivos que marcaram a personalidade de Melanie Klein" casada com o dr. Schmideberg (ambos médicos e analistas) instalam-se igualmente [11]. Casa-se em 1903, aos 21 anos. Ela abandona a Medicina a favor da Arte e da em Londres (1932) filho Hans segue os passos do pai, torna-se engenheiro e História e vai acompanhar seu marido Arthur Stephen Klein, engenheiro, nas suas continua em Mas morre num acidente na montanha, em 1933. "Este con- Este tinha-lhe sido apresentado pelo seu tribuiu para acordar a dor de todos os precedentes, especialmente a de sua irmã e de Ela cria seus três filhos, Mellita, que nasce em 1904, Hans em 1907 e Erich em seu irmão, e provavelmente reforçar a atenção que ela dava ao luto e à depressão. "[11] 1914. Em toda sua vida, Melanie Klein arrepende-se de não ter podido estudar Medi- Pode-se notar que a sua comunicação "Contribuição ao Estudo da Psicogênese dos cina, ela pensava que se ela tivesse tido o suas idéias teriam podido ser reconhe- Estados Maniaco-Depressivos" data de 1934, ano que se seguiu à morte de seu cidas mais Ela teve relações bastante dificeis com sua filha Mellita, que tomará uma posi- o encontro de Melanie Klein com a se deu, sem dúvida, devido a ção contra ela junto com Edward Glover, quando este a acusará, em 1935, "de não ser vários Os lutos sucessivos que ela tinha que integrar, sua vocação intelectual analítica" e argumentando que ela não era médica, contestando-lhe o direito de falar frustrada na sua juventude, a morte de seu pai que a obrigou a abondonar seus estudos da psicose (Mellita fazia análise com Glover). na falta de meios financeiros e também aos rigores da condição feminina no mundo A escola inglesa se verá fortemente influenciada pela doutrina Seu onde ela se desenvolveu, no fim do século XIX. livro sobre a de crianças é lançado em 1932, primeira formulação de seu Em 1914, a mãe de Melanie Klein Ela mostra-se, neste momento, muito sistema teórico. Seu pensamento evoluirá, sendo 1934 um ano marcado por um redire- deprimida e é, sem dúvida, o que a levou a fazer análise com Sandor Ferenczi, princi- cionamento em função da descoberta da posição depressiva. A partir de 1952, Mela- pal de Freud, do qual ela já tinha lido os Ferenczi a estimu- nie Klein reorganiza o conjunto de suas concepções. la no seu interesse pela psicanálise de crianças: "Ele fez tudo que estava ao seu alcan- Uma oposição já tinha se manifestado entre ela e Anna Freud no continente. ce para apoiar (seus) primeiros esforços neste sentido. a ele (que cla) deve sua ini- Freud, sua família e numerosos psicanalistas vieram instalar-se em Londres, fugindo ciação na profissão de do nazismo. A controvérsia entre as duas mulheres tornou-se o centro da atividade Em 1919, ela apresenta seu primeiro trabalho à Sociedade Hungara de Psicaná- da Sociedade Britânica de Psicanálise. Após a II Guerra Mundial, a oposi- lise: "O Desenvolvimento de uma Criança". A qualidade deste artigo valeu-lhe tor- ção é mantida entre o grupo de kleinianos e aqueles que diziam ser os adeptos da nar-se membro dessa sociedade. No artigo relata a educação sexual de uma criança. ortodoxia freudiana. Pode-se pensar que se trata de Erich, seu segundo filho, então com a idade de 4-5 A obra de Melanie Klein foi, durante muito tempo, mal conhecida nos países de anos. Ela lhe dá o pseudônimo de Fritz [7]. lingua francesa. Depois, a convite de Karl Abraham, em 1921, ela parte para Berlim onde conti- nua suas pesquisas e seus trabalhos. É por meio da análise de crianças que cla vai implantar sua "técnica do jogo", que será um elemento essencial de sua teoria e 2. METODOLOGIA fundamento de suas descobertas futuras. Mesmo Abraham estava convencido da importância da contribuição de Melanie Antes de abordar a obra de Melanie Klein, é importante apreender-se a técnica, Klein à psicanálise e das perspectivas que ela abria. Em 1924, durante I Congresso já que, em psicanálise, técnica e teoria estão ligadas. Freud não elaborou toda a cami- de Analistas Alemães, ele declara: "O futuro da psicanálise reside na técnica do jogo". nhada do bebê e todo o seu funcionamento desde a sua origem. Ele descobriu Na mesma época ela retoma a análise com Abraham que será interrompida pela morte no adulto o bebê reconstruido, e Klein o que já estava na criança, ou seja, deste em de janeiro de Ela considerava-se sua aluna e, apesar dessa morte o Ela vai reconstituir a vida interior, a partir de análise de crianças muito jovens prematura, ela estava determinada a levar a diante a obra de seu mestre. Ela tomará o (aproximadamente 3-4 anos), retomando assim os passos de Freud, que tinha elabora- conceito de introjecção de Ferenczi, mas foi o trabalho de Abraham sobre a melanco- do a sua teoria a partir da análise de adultos. Mas, numa primeira tentativa, podemos lia que exerceu maior influência sobre ela. Após sua morte, a vida em Berlim torna-se examinar a técnica adotada por Melanie Klein, que difere daquela de Freud quanto à dificil para Melanie Klein. Ele não estava mais lá para apoiar seus trabalhos e ela forma. Mesmo o termo análise será contestado, principalmente por parte de Anna devia os conflitos e controvérsias com Anna A Sociedade Psicanalítica Freud à Klein, sendo que cla se ocupava igualmente de crianças. de Berlim, em sua maioria, seguia esta e considerava que a obra de Melanie Klein não Melanie Klein vai utilizar jogo", modo de expressão natural e privilegiado da era ortodoxa. criança. Ela não é a única a ter tido esta idéia na época. Para forjar seus primeiros Em 1926, ela instala-se em Londres onde deveria viver até a sua morte. E Jones, conceitos, ela vai teorizar sobre o que se passa entre ela e a criança, considerando o amigo dedicado de Freud, a tinha convidado para fazer palestras. Ela traz seu filho jogo no tratamento como o equivalente de associações verbais que o adulto produz em 64 / B. GOLSE AFETIVO INTELECTUAL DA CRIANÇA / 65análise. "Pelo jogo, a criança traduz de um modo suas fantasias, seus dese- 3. A OBRA jos, suas experiências Fazendo isso, ela utiliza o mesmo modo de expressão arcaico e filogenético, a mesma linguagem, por assim dizer, que nos é familiar no A VIDA EMOCIONAL DO BEBÊ sonho; nós só podemos compreender esta linguagem se a abordarmos à luz dos ensi- namentos de Freud sobre o significado dos sonhos." [2] É então a partir de seu trabalho que Klein nos descreve a vida emocio- De posse desta técnica, ela vai voltar às fases mais arcaicas da vida do nal do Ela pouco se servirá da observação direta, mas não a exclui, "eu diria individuo, demonstrando a extrema precocidade dos processos. mesmo que uma observação mais estreita dos bebês, estimulada pelo conhecimento Esta compreensão da significação do jogo na criança é hoje coisa admitida, mas, crescente dos primeiros processos psiquicos que deriva da psicanálise de crianças na época, ela abria um campo novo na exploração do psiquismo infantil. pequenas, deveria fornecer com o tempo uma melhor compreensão da vida emocional Ao redor de 1915, Hermine von Hug Hellmutt recorreu ao jogo, ao desenho, do De fato, ela interessa-se sobretudo pela vida "fantasmática" da criança. técnicas melhor adaptadas à Ela publica seus casos de análise em 1921. Qua- Para a realidade do bebê será percebida pelo prisma deformante de suas fantasias. se ao mesmo tempo, Melanie Klein e Anna Freud interessam-se igualmente pelas Susan Isaacs definiu a fantasia kleiniana (ver página 201). Em seu artigo, ela nos terapias de crianças. A abordagem das duas mulheres difere consideravelmente e a especifica que todas as primeiras fantasias nascem de pulsões corporais estão intensa- controvérsia que as separa atinge seu ponto culminante no Colóquio sobre a Análise mente mescladas às sensações fisicas e aos de Crianças em 1927. Anna Freud, como Hug Hellmutt, sustenta que não podia haver Melanie Klein pensa que existe desde o nascimento um Ego primitivo, neurose de transferência nos seus jovens pacientes, pelo fato da realidade da depen- insuficiente coesão e que vai logo ser exposto à ansiedade suscitada pelo conflito dência aos pais ("A edição antiga não está ainda Na neurose de transfe- entre a pulsão de vida e a pulsão de morte, as quais vão corresponder às pulsões libi- rência, a pessoa reatualiza no analista, afetos e fantasias pertencentes ao passado: dinais de amor e as pulsões agressivas relações com seus pais, complexo de Edipo, etc., ou, a criança está ainda na sua neu- Apesar de dualidade Eros-Tanatos ter um papel de hipótese em Freud e de ser rose infantil. Isto não um obstáculo para Klein, já que no início ela pensava que a relativamente teórica, ela diretamente e de modo bem concreto o sistema análise podia servir para prevenir as inibições intelectuais. assim que ela descreve em seus primeiros trabalhos a influência da psicanálise no desenvolvimento de uma Esta coexistência, presente desde o nascimento, vai obrigar o Ego frágil do lac- criança, que não é outra senão seu último Neste artigo, ela mostra que o objetivo tente a gerar a ansiedade suscitada pelo conflito. Dois tipos de ansiedade vão se mani- procurado é o de desvendar o recalcado no que diz respeito à curiosidade sexual, que festar durante os primeiros meses da vida do bebê. Elas permanecerão ativas durante ela considera como a origem de todos os bloqueios à inteligência. Ela vai então tentar toda a vida do indivíduo e poderão ressurgir em caso de regressão. A maneira pela libertar a criança e lhe permitir a efetivação de sua de início, numa qual o Ego vai negociar com a ansiedade será o protótipo de sua capacidade de manter perspectiva profilática e educativa, que ela aborda o jogo na psicanálise. Mas a análise um certo entre as forças que se apresentam. De início, aparece a ansiedade de outras crianças lhe faz perder suas ilusões educativas, sendo que Anna Freud con- de perseguição ou paranóide e depois, a ansiedade tinua a pensar que a análise de crianças deve ser normativa a fim de reforçar o Supere- A estes tipos de ansiedade correspondem: Ela manterá esta As opiniões de Klein vão evoluir consideravelmente e, rapidamente, ela sente que os métodos educativos não têm seu lugar numa análise e A posição onde a ansiedade de perseguição é a mais ativa e que que, ao contrário, perturbam o processo Ela em 1927, numa exposi- predomina durante os 3-4 primeiros meses da vida, depois esta se torna menos pre- ção critica a Anna Freud "que uma verdadeira situação analítica só pode se estabele- cer por meios Diferença de técnica, como se pode ver, que se confunde com divergências teó- A posição depressiva o sucede, ansiedade de perda do objeto, ativa na segunda ricas. Anna Freud retoma, no conjunto, os conceitos de seu pai. Melanie Klein aborda metade do primeiro ano, mas que atinge seu ponto alto máximo ao redor dos 6 a psicanálise de crianças como a referência da teoria freudiana, mas ela vai rapida- para declinar a seguir. mente afirmar a sua originalidade e construir seu próprio sistema que fará dela "a Este conceito de posição aparece mais como um conceito estrutural do que cro- inventora da técnica do jogo e a teórica dos arcaismos nológico. termo "posição" remete a uma organização do Ego e descreve os fenôme- nos conjuntos: o estado do Ego, de desorganizado vai se desenvolvendo para sua unidade; a natureza das relações de objetos, parcial e depois total; Freud, Anna tratamento analitico de 3 ed Paris: a natureza da ansiedade, paranóide e depois depressiva; 66 B. GOLSE DESENVOLVIMENTO AFETIVO DA CRIANÇA / 67as defesas delas Pontalis sugere uma imagem para ilustrar todas estas atividades Trata-se de etapas normais, necessárias para a evolução de toda criança. "pode-se mesmo ao extremo conceber todo o funcionamento do inconsciente e até a constituição do no modo do corpo-boca que engole e vomita, que determina os limites do fora e do A POSIÇÃO ESQUIZOPARANÓIDE Mas fatores externos e reais vão alimentar igualmente estas A fome, a falta do objeto bom vão ser vividas como um ataque pelos objetos A É em 1946 que Melanie apresenta seu artigo "Notas sobre alguns mecanismos seio gratificante vão contrapor estes sentimentos e permitem ao Ego se recompor. [6] à Sociedade Britânica de Depois de haver pesquisado Os termos "bom" e "mau" não devem ser tomados como qualitativos intrinsecos sobre a posição depressiva, ela vai tentar nos esclarecer sobre todos os primeiros mo- do objeto, mas como marcando a satisfação ou a "seio" que gratifica é mentos da vida psiquica do Quando ela estava começando a elaborar sua amado, e sentido como bom, e o seio que frustra é odiado e sentido como concepção da posição depressiva, "os problemas da fase precedente chamaram nova- Durante todo este periodo e às custas de boas experiências vividas, o Ego vai mente a (sua) atenção"[6]. poder se recompor, integrar-se, unificar-se. No desenvolvimento afetivo normal, isto Com efeito, como nota Hanna Segal, é em 1935, em "Uma Contribuição ao Es- é, quando os elementos libidinais predominam, o Ego adquire confiança no objeto tudo da Psicogênese dos Estados Maniaco-Depressivos" que ela estabelece uma liga- bom. Se por razões externas e/ou internas as forças destrutivas superam o objeto bom, ção direta entre a clivagem e as relações de objetos parciais e declara de maneira clara os mecanismos de defesa podem não ser suficientes para lidar com a Ego "que as relações de objetos parciais, a clivagem e a ansiedade de perseguição perten- é então invadido e sua última defesa é sua própria cein à A imagem da "ameba" que se mantém em vida com os processos de incorpora- Klein coloca a hipótese de um Ego rudimentar desde o nascimento que vai, para ção e de expulsão, que Freud nos "Ensaios de Psicanálise" aplica-se muito se defender contra o conflito nascido na luta entre as pulsões, "projetar", para o exte- bem para descrever a formação do kleiniano. rior, a pulsão de morte. Ao mesmo tempo, uma parte da pulsão de vida é igualmente Esta curta exposição da teoria kleiniana sobre a posição po- projetada para criar um "objeto Ego se cinde então em uma parte libidinal e deria fazer crer que um lactente é submetido constantemente a forças Um em uma parte destrutiva e vai se ligar ao objeto parcial "seio" da Em contrapar- bebê "normal" não passa a maior parte de seu tempo num estado de E se tida, Ego vai "introjetar" o objeto ideal, fazendo uma parte de si identificar- todos os bebês têm momentos de ansiedade, o mais frequentemente, em circunstân- se com este; ele pode também receber, por outro lado, a parte ruim e destrutiva, vivida cias favoráveis, é que eles durmam calmamente e tenham prazeres reais ou como rios. Os processos psiquicos que são o núcleo da posição fazem Ego, por este balanceamento cinde o objeto seio e vai parte do desenvolvimento normal do individuo e da maneira pela qual a criança tiver estabelecer uma dupla relação: boa e má, atravessado este periodo dependerá da sua capacidade de enfrentar as etapas se- A clivagem é um dos primeiros mecanismos de defesa utilizado pelo Ego contra guintes. a ansiedade e que, paradoxalmente, vai lhe permitir se organizar. A projeção que deri- va da pulsão de morte e a introjeção do objeto bom estão igualmente a serviço deste objetivo primitivo. A POSIÇÃO DEPRESSIVA Intervêm igualmente mecanismos maniacos que permitem ao lactente defender- se contra a A "idealização do objeto bom" lhe dá a possibilidade, em certos Todos estes movimentos descritos acima vão ao Ego do lactente se inte- momentos, de formar em si a imagem de um seio ideal, onipresente e inesgotável e pode assim, progressivamente, perceber o exterior como algo diferente de si (nostalgia do estado pré-natal), de ter um controle "onipotente" sobre ele. o "sejo mesmo. Um movimento paralelo opera-se face a face ao objeto, o que conduz o bebê bom" satisfaria então, de maneira alucinatória, desejo "voraz" da criança. Neste a ter relações, não mais com objetos parciais, mas com um "objeto Nesta mecanismo, a cisão permite isolar o objeto mau cuja existência é negada. "Um outro fase, a criança vai ser capaz de reconhecer o objeto "inteiro" e não mais recomposi- mecanismo de defesa tem sua origem na projeção original da pulsão de morte; é um ção. Estes processos de integração do Ego e de recomposição do objeto vem acompa- mecanismo muito importante nesta fase de desenvolvimento, a saber a "identificação nhados de uma maturação fisiológica. Este período que sucede a posição esquizo- Aqui, as partes do "self" (ver página 183) e dos objetos internos são deslo- paranóide, Klein qualifica de "posição depressiva" Por Porque diferen- cadas e projetadas no objeto externo, o qual se torna então um "conjunto de partes temente do que se passava precedentemente, onde a ansiedade de perseguição recaia projetadas, que o controlam e ao qual elas se identificam"[10] Este mecanismo per- na anulação do Ego, surge uma ansiedade depressiva, ein relação ao objeto ou sobre- siste e até mesmo se intensifica quando a mãe é percebida como objeto total. tudo de perda do objeto. 68 B. GOLSE AFETIVO INTELECTUAL DA CRIANÇA 69Mil novecentos e trinta e quatro (1934) é ponto de virada na evolução do e o retorno da mãe. A repetição de experiências positivas é importante fator para pensamento de É em seu artigo "Contribuição ao Estudo da Psicogênese dos ajudar bebê a superar seu sentimento de perda e seu ressentimento. Tudo que Estados que ela introduz a noção de posição depressiva. A simboliza a ausência e a reaparição permite ao bebê integrar um sentimento de segu- ansiedade de perda de objeto que a caracteriza culmina ao redor dos 6 meses e perma- rança. início da motricidade vai igualmente ajudá-lo nesse sentido. fato de ele nece ativa durante a segunda metade do primeiro ano. Os mecanismos esquizóides engatinhar pelo chão e recuperar os objetos que recém perdeu, que ele encontra outros permanecem presentes, mas modificados e muito menos intensos. para os substituir, é uma tarefa no sentido da maturação psicológica. Cada progresso no Todos os progressos do bebê relacionados aos aspectos interno e externo vão desenvolvimento é utilizado pelo Ego como uma defesa contra a ansiedade depressiva. fazer sentir que as sensações são provenientes de um mesmo objeto, que ele sente J.M. Petot, em seu livro sobre Melanic Klein, chama a atenção que cla sempre agora como "separado" de si, fonte única do que é, ao mesmo tempo bom e mau. As fez das aptidões motoras (cuja aparição marca as etapas da constituição do Ego corpo- percepções não são provenientes mais de um "seio bom ou de um mau", mas ral), um reflexo, uma prova da capacidade do Ego à reparação, mecanismo centrado de um objeto total "mãe", soma do que é bom e mau. Para bebê, distinguir sua mãe na preocupação "com o Graças ao desenvolvimento locomotor, a criança vai como uma pessoa inteira, diferente de si, implica em reconhecer sua dependência em adquirir a possibilidade de regular sua distância do objeto. Petot diz que existe uma relação a ela. A criança vai experimentar sentimentos agressivos e sentimentos de verdadeira teoria kleiniana da marcha. amor em relação a ela. Ela é então vivida pelo lactente como sendo a fonte de suas As fantasias de reparação sustentam a maioria das atividades do jovem bebê. gratificações e de suas A ambivalência em relação ao objeto começa a se "Nós os encontramos em ação nas primeiras atividades de jogo e na base de satisfação manifestar. que o bebê obtém por seus sucessos os mais simples, como, por exemplo, colocar um A ansiedade de perda do objeto é alimentada por fantasias destruidoras do bebê cubo sobre o outro ou de cubo sobre uma pilha e depois fazê-la cair. Tudo (sua realidade que acredita ter danado e o objeto total. Segue-se isso deriva em parte da fantasia inconsciente de fazer uma certa reparação numa pes- então um intenso sentimento de culpa, primeira manifestação do Superego soa ou em várias pessoas que ele causou danos em suas fantasias. Inclusive, mesmo as A culpa para Freud tem sua origem no Complexo de e manifesta-se como performances ainda mais antigas do bebê, tais como brincar com os seus dedos, en- uma seqüela deste, sendo que para Klein a culpa surge bem cedo por haver destruído contrar alguma coisa que ela deixou de lado, ficar em pé, qualquer que seja o movi- o objeto amado. Esta apreensão do bebê com sua mãe é também afetada pela realidade mento voluntário, tudo isso eu acredito também está relacionado com as fantasias, nos externa. As ausências sendo vividas como desaparecimento total e as frustrações como quais o surgimento da reparação já é rechaço. treinamento do esfincteriano pode também dar lugar a fantasias de reparação Esta angústia de perder o objeto amado aumenta o desejo de tê-lo permanente- da mãe interna. controle de seus esfincteres vai permitir à criança constatar que ela mente dentro de si, mas a voracidade do bebê pode lhe fazer crer tê-lo devorado e pode controlar os perigos interiores e seus objetos internos. O desenvolvimento da destruído na "incorporação" oral, "já que, nesta fase de desenvolvimento, o fato de linguagem igualmente "é um grande progresso que traz a criança para mais perto das amar um objeto e de devorá-lo são inseparáveis. Quando a mãe desaparece, a criança pessoas que ela [6] pequena acredita que a comeu e a destruiu (seja por amor ou por ódio) e fica torturada Outros mecanismos de defesa estão em ação no momento da posição depressiva. de ansiedade tanto com sua sujeição a ela, quanto à mãe boa que o bebê não tem mais Como na ansiedade de perseguição, os métodos onipotentes do bebê são mantidos por tê-la numa certa medida: a a clivagem, a idealização e o controle dos objetos Um mecanismo de defesa aparece: é a "reparação", que vai permitir ao bebê internos e externos. Estes processos vão ser utilizados pelo Ego (cada vez mais orga- preservar, recriar, reparar o objeto. nizado) para neutralizar a depressiva e a culpa. Eles lhe permitem não ficar É a tendência à reparação. engolfado. Mas seus efeitos são limitados, já que eles não podem afastar definitiva- desenvolvimento e os jogos do bebê vão lhe superar esta ansiedade mente a situação de perda de objeto, sendo que "somente" uma verdadeira "reparação depressiva. Melanie Klein cita Freud a este respeito: o bebê muito pequeno não do objeto" e uma diminuição da agressividade poderão está pronto ainda para fazer uma distinção entre uma ausência passageira e uma perda As pulsões reparadoras vão permitir ao bebê dar um passo a mais na integração. definitiva. Cada vez que a presença da mãe lhe faz falta, ela comporta-se como se não Quando ele atinge período situado entre 3 e 6 meses e que ele enfrenta os conflitos, devesse nunca mais revê-la, e é somente após experiências repetidas que ele aprende a culpa e os efeitos inerentes à posição depressiva, sua capacidade de gerar a própria que tal ausência é seguida por um retorno garantido [2]. Ele notou que seu filho de 18 ansiedade já está determinada pelo seu desenvolvimento anterior. Isto é, pela maneira meses brincava com um jogo repetitivo, com um pequeno carretel, que ele fazia desa- que pôde nos primeiros 3-4 meses de sua vida tomar e estabelecer em si "o objeto parecer e reaparecer, acompanhado de sons (Fort da). Klein situa fenômeno bem bom". desejo e a capacidade de reconstituir o objeto bom interno e externo são a mais cedo do que jogo de "esconde-esconde" com o bebê simboliza a perda base da possibilidade do Ego de manter o amor através dos conflitos e das dificulda- 70 / B. GOLSE DESENVOLVIMENTO AFETIVO E INTELECTUAL DA CRIANÇA / 71Mil novecentos e trinta e quatro (1934) é um ponto de virada na evolução do e o retorno da A repetição de experiências positivas é importante fator para pensamento de É em seu artigo "Contribuição ao Estudo da Psicogênese dos ajudar bebê a superar seu sentimento de perda e seu ressentimento. Tudo o que Estados Maniaco-Depressivos" que ela introduz a noção de posição depressiva. A simboliza a ausência e a reaparição permite ao bebê integrar um sentimento de segu- ansiedade de perda de objeto que a caracteriza culmina ao redor dos 6 meses e perma- rança. início da motricidade vai igualmente ajudá-lo nesse sentido. fato de ele nece ativa durante a segunda metade do primeiro ano. Os mecanismos esquizóides engatinhar pelo chão e recuperar os objetos que recém perdeu, que ele encontra outros permanecein presentes, mas modificados e muito menos intensos. para os substituir, é uma tarefa no sentido da maturação Cada progresso no Todos os progressos do bebê relacionados aos aspectos interno e externo vão lhe desenvolvimento é utilizado pelo Ego como uma defesa contra a ansiedade depressiva. fazer sentir que as sensações são provenientes de um mesmo objeto, que ele sente J.M. Petot, em seu livro sobre Melanic Klein, chama a atenção que cla sempre agora como "separado" de si, fonte única do que é, ao mesmo tempo bom e mau. As fez das aptidões motoras (cuja aparição marca as etapas da constituição do Ego corpo- percepções não são provenientes mais de um "seio bom ou de um "seio mau", mas ral), um reflexo, uma prova da capacidade do Ego à reparação, mecanismo centrado de um objeto total "mãe", soma do que é bom e mau. Para o bebê, distinguir sua mãe na preocupação "com o Graças ao desenvolvimento locomotor, a criança vai como uma pessoa inteira, diferente de si, implica em reconhecer sua dependência em adquirir a possibilidade de regular sua distância do objeto. Petot diz que existe uma relação a ela. A criança vai experimentar sentimentos agressivos e sentimentos de verdadeira teoria kleiniana da marcha. amor em relação a ela. Ela é então vivida pelo lactente como sendo a fonte de suas As fantasias de reparação sustentam a maioria das atividades do jovem bebê. gratificações e de suas frustrações. A ambivalência em relação ao objeto começa a se "Nós os encontramos em ação nas primeiras atividades de jogo e na base de satisfação manifestar. que o bebê obtém por seus sucessos os mais simples, como, por exemplo, colocar um A ansiedade de perda do objeto é alimentada por fantasias destruidoras do bebê cubo sobre o outro ou de cubo sobre uma pilha e depois fazê-la cair. Tudo (sua realidade psiquica), que acredita ter danado e objeto total. Segue-se isso deriva em parte da fantasia de fazer uma certa reparação numa pes- então um intenso sentimento de culpa, primeira manifestação do Superego nascente. soa ou em várias pessoas que causou danos em suas fantasias. Inclusive, mesmo as A culpa para Freud tem sua origem no Complexo de e manifesta-se como performances ainda mais antigas do bebê, tais como brincar com os seus dedos, en- uma seqüela deste, sendo que para Klein a culpa surge bem cedo por haver destruído contrar alguma coisa que ela deixou de lado, ficar em pé, qualquer que seja o movi- o objeto amado. Esta apreensão do bebê com sua mãe é também afetada pela realidade mento voluntário, tudo isso eu acredito também está relacionado com as fantasias, nos externa. As ausências sendo vividas como desaparecimento total e as frustrações como quais o surgimento da reparação já é forte". o treinamento do esfincteriano pode também dar lugar a fantasias de reparação Esta angústia de perder o objeto amado aumenta o desejo de tê-lo permanente- da mãe interna. controle de seus esfincteres vai permitir à criança constatar que ela mente dentro de si, mas a voracidade do bebê pode lhe fazer crer tê-lo devorado e pode controlar os perigos interiores e seus objetos internos. O desenvolvimento da destruído na "incorporação" oral, "já que, nesta fase de desenvolvimento, o fato de linguagem igualmente "é um grande progresso que traz a criança para mais perto das amar um objeto e de devorá-lo são inseparáveis. Quando a mãe desaparece, a criança pessoas que ela ama".[6] pequena acredita que a comeu e a destruiu (seja por amor ou por ódio) e fica torturada Outros mecanismos de defesa estão em ação no momento da posição depressiva. de ansiedade tanto com sua sujeição a ela, quanto à mãe boa que o bebê não tem mais Como na ansiedade de perseguição, os métodos onipotentes do bebê são mantidos por tê-la numa certa medida: a a clivagem, a idealização e o controle dos objetos Um mecanismo de defesa aparece: é a "reparação", que vai permitir ao bebê internos e externos. Estes processos vão ser utilizados pelo Ego (cada vez mais orga- preservar, recriar, reparar o objeto. nizado) para neutralizar a angústia depressiva e a culpa. Eles lhe permitem não ficar É a tendência à reparação. engolfado. Mas seus efeitos são limitados, já que eles não podem afastar definitiva- desenvolvimento e os jogos do bebê vão lhe permitir superar esta ansiedade mente a situação de perda de objeto, sendo que "somente" uma verdadeira "reparação depressiva. Melanie Klein cita Freud a este respeito: bebê muito pequeno não do objeto" e uma diminuição da agressividade poderão fazê-lo. está pronto ainda para fazer uma distinção entre uma ausência passageira e uma perda As pulsões reparadoras vão permitir ao bebê dar um passo a mais na integração. definitiva. Cada vez que a presença da mãe lhe faz falta, cla comporta-se como se não Quando ele atinge período situado entre 3 e 6 meses e que ele enfrenta os conflitos, devesse nunca mais revê-la, e é somente após experiências repetidas que ele aprende a culpa e os efeitos inerentes à posição depressiva, sua capacidade de gerar a própria que tal ausência é seguida por um retorno garantido [2]. Ele notou que seu filho de 18 ansiedade já está determinada pelo seu desenvolvimento anterior. Isto é, pela maneira meses brincava com um jogo repetitivo, com um pequeno carretel, que ele fazia desa- que pôde nos primeiros 3-4 meses de sua vida tomar estabelecer em si objeto parecer e reaparecer, acompanhado de sons (Fort da). Klein situa o fenômeno bem bom". desejo e a capacidade de reconstituir o objeto bom interno e externo são a mais cedo do que jogo de "esconde-esconde" com o bebê simboliza a perda base da possibilidade do Ego de manter o amor através dos conflitos e das dificulda- 70 / B. GOLSE DESENVOLVIMENTO AFETIVO E INTELECTUAL DA CRIANÇA / 71des. Eles são também a base de atividades criadoras e da sublimação que tem sua origem Segundo Freud, estamos ainda na fase oral. bebê atribui (por projeção) a seus no desejo do bebê de reconstituir e recriar o objeto. As atividades que visam à "repara- pais suas próprias Ela fantasiará seus pais trocando gratificações orais, mas ção" dissiparão as ansiedades da posição depressiva. A reaparição da depois de suas também uretrais, anais e depois genitais segundo a prevalência de suas próprias pul- ausências e amor e os cuidados contínuos que o bebê recebe de seu meio vão lhe permi- constatar que suas agressões fantasmáticas contra seus objetos são Esta situação faz nascer no bebê sentimentos de e de inveja, assim como pela repetição de perdas e de recuperações de ódio e da recriação pelo amor sentimentos agressivos. Nas suas fantasias, os pais são atacados por todos os meios de que o "objeto bom" é pouco a pouco assimilado no interior do Ego. que ele dispõe e ele pode imaginá-los Mas por introjeção, isto faz uma A propósito da reparação, Hanna Segal pensa "que se trata de uma outra coisa parte de seu mundo o bebê imagina que sua mãe apropriou-se do "pênis" do além de uma defesa, trata-se de um mecanismo importante para o desenvolvimento do pai pela incorporação oral. Pode-se reconhecer nesta fantasmática da mãe Ego e sua adaptação à Melanie Klein nos especifica que esta tendência com um pênis interno, o precursor do que será "a mulher As pulsões orais à reparação provém do instinto de predominam e é isto que conduz Klein à idéia de que o bebê imagina pênis interno Uma grande parte do desenvolvimento da primeira advém da posição no interior do corpo da depressiva, o qual é a elaboração. Melanie Klein liga estas perdas e restaurações a um No menino, o conflito edipiano instala-se desde que ele um ódio luto normal e aos mecanismos de defesa que ai se acoplam. pelo pênis de seu pai internalizado no corpo da mãe (homossexualidade) e depois num Mas o ato de reparação pode falhar e a situação de perda do objeto se estabelece segundo momento sua evolução o fará identificar-se com seu pai (heterossexualida- A tendência à reparação pode fracassar, se a pulsão de morte permanece mais de). forte do que a pulsão de vida e se o bebê é submetido a muitas experiências externas Na menina, o primeiro moyimento oral em relação ao pênis do pai abrirá a via reais e dolorosas. para a genitalidade, mas o de incorporação, estando ligado à identificação. Nós vimos acima como os mecanismos de reparação ao longo dos jogos da criança Opera-se um movimento em relação à mãe com o desejo de possuir o pênis incorpora- são o das atividades criadoras e da sublimação. Para conseguir isto, o bebê gasta do fantasiadamente pela uma parte de sua energia pulsional com objetos externos, jogos substitutos do objeto À medida que o desenvolvimento avança, o alvo genital dominante e Processo de sublimação, mas também início da "atividade "A fim a escolha entre os dois pais oscilará cada vez "Um sentido de realidade cres- de possuir o objeto, o bebê inibe parcialmente suas pulsões e as desloca para substitu- cente embute no lactente a percepção de seu sexo e lhe facilita uma parcial tos deste objeto, assim começa a formação dos Os processos de sublimação aos seus desejos homossexuais, assim como uma aceitação de seu próprio sexo. As- e de formação de estão intimamente ligados e ambos são a resolução de sim, em termos de genitalidade, um passo a mais é realizado em relação ao complexo conflitos e de ansiedade pertencentes à posição depressiva". Isto implica numa certa de Edipo clássico". Mas o inconsciente guardará sempre uma marca desta ao objetivo pulsional Para Freud, a sublimação é o resultado de um Melanie Klein logo, diferentemente de Freud, descobriu o Edipo arcaico nas deslocamento do alvo pulsional; os kleinianos acrescentam que este deslocamento só análises das meninas, sendo que ele, de fato, descobrira uma forma modificada e in- pode ser obtido por meio de um processo de luto. que se passa durante a posição completa do "A psicologia da mulher não foi beneficiada de pesquisas psica- depressiva é bem determinante na construção do mundo exterior do bebê, é neste na mesma medida que a do homem, como o foi na angústia de castração que momento que se constrói sua relação com este e com a realidade em geral. se descobriu de início a causa determinante das neuroses no homem, os psicana- listas seguiram muito naturalmente a mesina via na psicopatologia feminina" Melanie Klein, como mulher analista, interessou-se pelo desenvolvimento COMPLEXO DE ÉDIPO psicossexual da menina. Ela mesma, como lembra D. Anzieu, tendo conhecido um complexo de Edipo não somente precoce, mas no qual dominava uma ligação Um outro movimento opera-se durante a posição depressiva e dela faz parte edipiana inversa!! "Meu pai não me amava verdadeiramente e minha mãe não integrante, é o inicio do complexo de (ver página 199). Klein diverge ainda de amava verdadeiramente meu pai. Eu me lembro de ter subido nos seus joelhos e Freud neste assunto, já que ela situa as primeiras preocupações edipianas do bebê de ter sido repelida" neste momento, na segunda metade do primeiro "O pensamento kleiniano choca por sua complexidade e por suas contradições", Com uma melhor percepção da realidade externa, mudanças são produzidas no porque M.Klein permaneceu até o fim da vida mutante e pronta a se colocar em ques- Ele começa a reconhecer as pessoas separadas, individuais e tendo relações tão quando a clínica entre elas; mas, sobretudo, ele descobre que existe um laço importante existe entre seu Sem dúvida é inútil insistir e está aqui um dos leitmotiv do pensamento klei- e sua mãe. niano sobre a extrema precocidade dos processos psiquicos do bebê, sobre a impor- 72 / B. GOLSE o DESENVOLVIMENTO AFETIVO E INTELECTUAL DA CRIANÇA 73tância da fantasia inconsciente, sobre Édipo e o Superego arcaico, a fase do apogeu [3] KLEIN M Essais de traduzido por M Paris, 1974 do sadismo e a posição depressiva que, em análise, determinam a neurose in- [4] KLEIN M Envie et gratitude, traduzido por V SMIRNOFE e colaboração de AGHION e DERRIDA, Gallimard, Tel. Paris, 1968 fantil clássica. Tem-se a impressão de que, para Klein, "tudo se passa antes dos 12 [5] KLEIN M. e J L'amour et la haine, traduzido por A ed., Payot, meses", sendo que, para Freud, o ponto nodal do desenvolvimento é complexo de Paris, Edipo ao redor dos 3-4 anos e que as manifestações de caráter pré-genital são regres- [6] KLEIN HEIMAN ISAACS S., Développements da la psychanalyse, a partir do complexo de Edipo. ed., traduzido por W. BARANGER, PUF, Paris, 1976 A busca do objeto é fundamental para Klein, auto-erotismo e o narcisismo [7] Melanie KLEIN, découvertes et premier Du- nod-Bordas, Paris, seriam vividos como uma transformação nas relações [8] PETOT Melanie KLEIN, le moi et le bon objet Paris, "A neurose infantil, tal como ela me parece, começa então no primeiro ano de [9] PONTALIS J-B Destins du cannibalisme p.5. Gallimard, Paris, 1972 vida, e chega ao seu termo quando, com do período de latência, a modificação [10] SEGAL Introduction à l'ouevre de Melanie Klein, traduzido por RIBEIRO-HAWE- das primeiras ansiedades foi Mas os fenômenos que ela nos descreve LKA, ed., PUF, Paris, passam-se sobretudo no primeiro ano. E depois? Talvez seja preciso distinguir dois SEGAL Klein: développement d'une pensée, traduzido por J. GOLDBERG e G. PUF, Paris, "O primeiro é o mais fundamental e corresponde ao segundo semestre do primeiro ano de Estabelece-se o mecanismo sobre o qual recai toda a defesa exitosa: a introjeção estável do objeto bom. o segundo, que se estende pelos quatro anos seguin- tes, compreende o conjunto de aptidões perceptivo-motoras e cognitivas (que aparecem Donald W. Winnicott* progressivamente) e a totalidade das experiências afetivas (e logo edipianas) da criança para a modificação qualitativa e quantitativa das ansiedades arcáicas e especificamente da (1896-1971) ansiedade depressiva [8]. Nós reencontramos, assim, com a teoria freudiana. Em psicopatologia, atualmente, a concepção kleiniana do desenvolvimento pode 1. ELEMENTOS BIOGRÁFICOS nos ajudar a ser mais precisos e a compreender melhor certos sintomas. Freud elaborou o aparelho psíquico a partir de várias concepções; Hanna Segal o grande renome da pessoa e obra de Winnicott em todos os países de influência nos assinala uma contribuição importante de Klein à concepção estrutural de psicanalítica explica-se pela riqueza e originalidade de sua compreensão do desenvol- Este descreve a interação entre o Ego, o Superego e o Id. A teoria das posições esqui- vimento da criança, em interação com o seu meio ambiente. Um mérito central movia zoparanóicas e depressiva vem ampliar seu ponto de vista. "Esta abordagem estrutural sua maneira de ser consigo mesmo e com os outros: o brinquedo, não no sentido de enriquecida fornece um instrumento de diagnóstico mais preciso. Permite jogo, jogo de sociedade, organizado por regras, mas sim no sentido de "atividade", uma diferenciação entre os processos psicóticos e os processos neuróticos, dando lu- isto é, todo ato que é uma de vida", uma expressão livre de si mesmo. "É gar aos estados-limite que estão entre os dois. "[11] ao brincar, e talvez somente quando ela brinca, que a criança ou adulto permanece Sobre a personalidade de Melanie Klein, deixaremos à Hanna Segal (cujos dois livre para se mostrar Esta noção de playing constituiu a base de sua rela- livros em demonstram muito bem a doutrina kleiniana) a anedota final. "Ela ção psicoterapêutica e um dos pontos-chave de sua teoria do era plena de vida e de Ela era muito desconcertante e podia se interes- Winnicott foi influenciado inclusive por Freud e seus em parti- sar por coisas as mais inesperadas. Um viticultor pergunta um dia a um colega cular por Melanie Klein, que lhe pareceu menos dogmática que os outros e que assu- de Melanie Klein se ele conhecia uma analista com este Assustado, o colega miu a supervisão de suas primeiras Ele se utilizou das intuições de cada e quer saber como ele a tinha conhecido e ele esclarece que Melanie Klein era célebre esboçou, ancorado em sua experiência uma verdadeira teoria do desenvolvi- nesta região da França por ser a mulher a ganhar concurso de degustação. mento, sobre a qual, até então, somente alguns alicerces tinham sido lançados. Quando esta história lhe é contada, Melanie Klein explica que seu pai era um conhe- Entretanto, sendo essencialmente "preso aos fatos", ele nunca adotou a teoria cedor e que ela havia seguido seus passos. "[11] por ela mesma; ele achava fundamental "partir de sua própria experiência e deixar as coisas serem o que A sua obra também apresenta-se sob a forma de exposições e conferências que tratain várias vezes do mesmo tema, mas desenvolvidas de modo BIBLIOGRAFIA diferente, de acordo com o público de especialistas ou leigo [14, 12]. [1] ABRAHAM e TOROK L'écorce et le noyau Aubier Flammarion, Paris, 1978 [2] KLEIN La psychanalyse des enfants, traduzido por J.B. 4a Paris, 1975 Isabelle clinica 74 / B. GOLSE DESENVOLVIMENTO AFETIVO E INTELECTUAL DA CRIANÇA / 75