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Conteudista: Prof.ª Dra. Giovana Massarotto Revisão Textual: Pérola Damasceno Objetivo da Unidade: Identi�car constituintes e analisar líquido cefalorraquidiano, sinovial e líquidos serosos. Material Teórico Material Complementar Referências Líquido Cefalorraquidiano, Líquido Sinovial e Líquidos Cavitários –Pleural, Peritoneal e Pericárdico Líquido Cefalorraquidiano O líquido cefalorraquidiano (LCS, LCR ou líquor) é produzido no cérebro e circula entre as membranas aracnoide e pia-máter. Tem função principal de revestir e lubri�car o cérebro, desempenha papel nutritivo, além de ser fundamental para amortecimento contra lesões, evitando que o encéfalo bata na parte interna do crânio (Figura 1). O líquor é composto por 70% de água, sódio e outros nutrientes produzidos pelas células do plexo; o percentual restante é formado por células ependimais de revestimento dos ventrículos e do espaço cerebral/subaracnoide. A análise do líquor é indicada quando há suspeita de neoplasia maligna de Sistema Nervoso Central (SNC), meningite, hemorragia subaracnóidea, encefalite, esclerose múltipla e neurossí�lis. 1 / 3 Material Teórico Figura 1 – Anatomia em que está Compreendido o Líquido Cefalorraquidiano Fonte: Adaptada de VIEIRA, 2021 Coleta do Líquido Cefalorraquidiano A coleta é realizada por punção lombar, no espaço subaracnóideo entre as vértebras L3 e L4. Para punção, o paciente deve estar sentado ou em decúbito lateral, se a punção por suboccipital, deve permanecer sentado ou em decúbito dorsal. A punção suboccipital deve ser realizada por pro�ssional capacitado por exigir maior segurança técnica a �m de evitar lesão do tronco cerebral. É bastante empregada, uma vez que se apresenta menos dolorosa e é mais simples, diminuindo o risco de perda de material. Inicialmente, para a coleta deve-se higienizar o local da punção e aplicar anestesia local. Durante a punção é avaliada a pressão do LCR com um manômetro graduado ligado à seringa. A coleta é realizada sob condições de pressão normal. O material coletado deve ser distribuído em 3 a 4 tubos estéreis, dependendo da solicitação médica, totalizando um volume, para adultos, de 10 a 20mL de LCR. O primeiro tubo é destinado a exames bioquímicos e imunológicos; o segundo exame, microbiológico; o terceiro, contagens celulares e diferenciais; enquanto que o quarto tubo deve ser obtido se houver necessidade da realização de exames para avaliação de presença de células malignas. O processamento das amostras deve ocorrer em, no máximo, 1 hora após a coleta. Amostras destinadas à microbiologia não podem ser refrigeradas para não comprometer a sobrevivência dos microrganismos mais fastidiosos. Parâmetros da Análise do Líquido Cefalorraquidiano Importante! Se a amostra do tubo 1 estiver hemorrágica devido a uma punção traumática, não deverá ser utilizada para análise de proteínas. A amostra contida no tubo 1 jamais deve ser destinada ao exame microbiológico, pois pode estar contaminada com bactérias presentes na pele. Avaliação macroscópica, avaliação microscópica de contagem e tipo celular e análises química, microbiológica, imunológica e molecular são os principais parâmetros para avaliação do líquor. Analise Macroscópica É avaliada a cor e aspecto do líquor que, em condições normais, é límpido, incolor e tem viscosidade semelhante à água (Figura 2). Porém, em condições patológicas, pode apresentar- se turvo e purulento, devido à presença de células sanguíneas, microrganismos ou resíduos proteicos. Figura 2 – Cor e Aspecto do Líquor em Condições Normais Fonte: Wikimedia Commons Em situações de hemorragia subaracnóidea ou punção espinhal traumática, o líquor costuma apresentar coloração rosa-avermelhada. Após a centrifugação da amostra, a coloração varia de rosa-claro ao amarelo no sobrenadante. Essa coloração é denominada xantocrômica e pode ser devido à presença de bilirrubina, caroteno e melanina. A Figura 3 apresenta as diferentes colorações que podem ser observadas na amostra de líquor. Figura 3 – Comparação do aspecto do líquor entre: (a) líquor normal, (b) líquor vermelho por hemorragia recente, (c) líquor xantocrômico por hemorragia antiga e (d) líquor por punção traumática Fonte: Adaptada de VIEIRA, 2021 Análise Microscópica Na análise microscópica do líquor é realizada a contagem de células em câmera manual. Os equipamentos automatizados não têm linearidade para a contagem, devido à baixa precisão quando a contagem de células é pequena, e a diferenciação dos tipos celulares em esfregaços corados. O valor de referência para adultos em um LCR normal é de 0 a 5 leucócitos por microlitro. Além de leucócitos, no líquor podem ser visualizadas células ependimais e células tumorais; hemácias são frequentemente observadas em situações de punção traumática. O líquor normal pode conter um pequeno número de linfócitos, monócitos e neutró�los. Nos casos de meningite bacteriana observamos a presença de neutró�los; já os linfócitos predominam na meningite viral, tuberculosa ou fúngica. O aumento no número de leucócitos no líquor é chamado de pleocitose e pode ser neutrofílica ou linfocítica (Figura 4). Importante! Cerca de 20% das punções lombares são traumáticas. É importante a diferenciação cuidadosa entre punção traumática e hemorragia. Quando não há variação no grau de sangue entre os tubos coletados é provável que seja uma hemorragia subaracnoide. Figura 4 – (a) Pleocitose Neutrofílica; (b) Pleocitose Linfocítica Fonte: Adaptada de LEITE, 2019 Os plasmócitos podem ser visualizados em condições in�amatórias, já os eosinó�los estão aumentados em infecções do líquor por parasitas, fungos ou em reações alérgicas, enquanto que os monócitos são raramente encontrados. Os macrófagos são encontrados em situações hemorrágicas juntamente com hemácias fagocitadas, hemácias digeridas e hemossiderina e podem ser úteis em determinar o momento em que a hemorragia ocorreu. No Quadro 1 podemos observar algumas características do líquor que podem auxiliar para identi�car o momento em que a hemorragia ocorreu. Quadro 1 – Alterações Celulares Presentes no Líquor após Hemorragia Tempo após Hemorragia Células Presentes 2 a 24 Horas Hémácias, Neutró�los, Linfócitos, Monócitos e Macrófagos Tempo após Hemorragia Células Presentes 12 a 48 Horas Linfócitos, Macrófagos e Eritrofagocitose (Macrófagos com Hemácias Englobadas) 2 a 4 Dias Eritrofagocitose, Macrófagos Vacuolados (digestão de hemácias) e Siderófagos (macrófagos com ferro armazenado) 1 a 8 Semanas Siderófagos e Macrófagos contendo cristais de Hematina Fonte: Adaptado de VIEIRA, 2021 Análise Bioquímica Diversas doenças estão associadas à concentração de proteínas especí�cas do líquido cefalorraquidiano, como pode ser visto no Quadro 2. Quadro 2 – Proteínas e Doenças do Sistema Nervoso Central Proteína Principais Doenças/Distúrbios Alfa2-macroglobulina Hemorragia subdural, meningite bacteriana Proteínas beta-amiloide e τ Doença de Alzheimer Proteína Principais Doenças/Distúrbios Beta2-microglobulina Leucemia/linfoma e síndrome de Behçet Proteína C reativa Meningite bacteriana e viral Fibronectina Leucemia Linfoblástica, aids e meningite Meta-hemoglobina Hemorragia subaracnóidea/subdural branda Proteína básica de mielina Esclerose Múltipla, tumores e outros Proteína 14-3-3 Doença de Creutzfeldt-Jakob Transferrina Vazamento de LCE (otorreia e rinorreia) Fonte: Adaptado de VIEIRA, 2021 Glicose é um parâmetro importante a ser dosado no líquor, encontrando-se aumentada na hiperglicemia e na punção traumática. Já, níveis reduzidos de glicose são observados em infecções do SNC, pois tanto os leucócitos como os microrganismos consomem glicose. No LCR, o lactato está associado à hipóxia de tecidos do SNC em consequência de infarto cerebral, trauma encefálico, isquemia/arteriosclerose cerebral, hemorragia intracraniana, edema cerebral, hipotensão, meningite, pressão parcial de oxigênio arterial reduzida e hidrocefalia. Líquido Sinovial Constituição do Líquido Sinovial O líquido sinovial está presente nas articulações e tem o intuito de lubri�car e oferecer um meio com nutrientes para absorção do impacto dos movimentos do corpo. O metabolismo das células articulares e o in�uxo das proteínas plasmáticas in�uenciam a sua composição. Devido à atividade osmótica das moléculas, o volume de líquido mantém-se constante. As células são denominadas sinoviócitos e são constituídas de ácido hialurônico e o proteoglicano. Observamos, na Figura 5, a localização do líquido sinovial nas articulações. Figura 5 – Localização do Líquido Sinovial em Articulação Fonte: Adaptada de VIEIRA, 2021 Coleta do Líquido Sinovial A coleta é realizada por meio da artrocentese, a denominação que recebe a punção articular. A principal indicação de coleta de líquido sinovial é na suspeita de artrite séptica, mas também utilizada para o diagnóstico da gota, da pseudogota e da doença de deposição de cálcio pirofosfato desidratado, conforme mostrado a seguir. Indicações para Aspiração Articular: Diagnóstico Sinovites Agudas: Sepse; Cristais: Urato Monossódico; Pirofosfato de Cálcio; Raros: Oxalato; Colesterol. Artropatias Crônicas: Cristais (Urato Monossódico, Pirosfosfato de Cálcio). Tratamento Comum: Para reduzir a pressão intra-articular; Injeção de Corticosteroide. Menos Comuns: Aspiração recorrentes por sepse; Lavagem com solução salina para artropatias resistentes. (Fonte: LEITE, 2019) A contagem de leucócitos é útil para distinguir a artrite in�amatória da não in�amatória. A remoção do líquido sinovial é indicada para alívio da pressão e diminui a concentração de células in�amatórias, citocinas e enzimas destrutivas nas articulações infectadas. Para o procedimento de coleta, uma agulha com o calibre adequado à articulação é conectada a seringa. O local da injeção é higienizado e é feita uma punção em duas etapas: primeiro, atravessando a pele e, a seguir, atravessando a cápsula articular. A própria seringa fechada e devidamente etiquetada adequadamente pode ser enviada ao laboratório para análise imediata ou alíquotas em tubos especí�cos podem ser feitas: tubo estéril heparinizado para os testes microbiológicos; um tubo heparinizado ou com ácido etilenodiamino tetra-acético para as contagens celulares; e um tubo sem anticoagulantes para os demais testes. O tubo sem anticoagulante deve ser centrifugado e o sobrenadante deve ser separado para não haver interferência dos elementos celulares nas dosagens bioquímicas. Na Figura 6 há indicação do local da coleta de líquido sinovial em joelho. Figura 6 – Posição da agulha para punção em joelho Fonte: Adaptada de VIEIRA, 2021 Análise do Líquido Sinovial Na análise do líquido sinovial devem ser considerados aspectos macroscópicos como turbidez e coloração, além da realização da análise citológica com contagem de células, veri�cação da presença de cristais e o cultivo microbiológico. Análises bioquímicas, como contagem de proteínas e de glicose, não têm grande aplicabilidade para o diagnóstico. Análises Macroscópicas O líquido sinovial, na sua condição normal, é incolor e tem aspecto límpido. Quando a cor for amarelada e o aspecto límpido, é indicativo de derrames não in�amatórios, mas se estiver amarelado e turvo pode indicar processo in�amatório; coloração esbranquiçada e aspecto turvo pode ser indicativo da presença de cristais, que são comuns no líquido sinovial; coloração avermelhada, castanha ou xantocrômica é associada à hemorragia articular. A viscosidade também é um parâmetro que pode ser avaliado: quando estiver reduzida é indicativo da presença de processos in�amatórios e pode apresentar coágulos quando o �brinogênio penetra na cápsula após danos na membrana sinovial ou após punções traumáticas. Contagem Celular A contagem celular é realizada em câmaras de contagem manual e também pode ser feita em equipamentos para realização de hemograma, porém, o equipamento deve possuir programação especí�ca para a contagem de líquidos. Você Sabia? Devido à presença de inclusões, pode ocorrer entupimento dos canais utilizados para a citometria de �uxo nos equipamentos Amostras com contagens elevadas de células nucleadas (superiores a 50.000/μL) devem ser diluídas e, para diluição, é recomendado o uso de solução salina. Os eritrócitos são contados normalmente. O valor normal para contagem de leucócitos é inferior a 200/μL, podendo apresentar contagem elevadas, superiores a 100.000/μL nos quadros infecciosos. Contagem Diferencial Para realização da contagem diferencial, o material deve ser, inicialmente, centrifugado em citocentrífuga para melhor preservação da morfologia celular e, posteriormente, é feito o esfregaço. Os neutró�los estão aumentados em quadros in�amatórios como a gota, pseudogota e artrite reumatoide, podendo exceder em 50% do valor de normal. Na artrite aguda bacteriana podem chegar a um valor 75% superior ao limite de referência. Podem ser encontrados neutró�los, quando em número aumentado, que contenham bactérias fagocitadas, cristais ou gotículas de gordura. Os linfócitos aparecem em número aumentado no líquido sinovial de pacientes com artrite reumatoide ou infecções crônicas. Os monócitos e os macrófagos são as células que aparecem em maior número no líquido sinovial normal, representando 65% das contagens celulares. A monocitose pode ocorrer em artrites virais e na artrite reativa. Os corpos lipídicos, que formam a cruz de malta sob a luz polarizada, estão associados à resposta leucocitária e podem gerar contagens falsamente aumentadas de leucócitos nos contadores automatizados. automatizados. É possível realizar previamente um tratamento com hialuronidase, enzima que lisa o ácido hialurônico, diminuindo a viscosidade. Cristais Os cristais encontrados no líquido sinovial podem indicar a causa da artrite e sua identi�cação é importante, sendo os desequilíbrios metabólitos e diminuição da excreção renal as causas da formação de cristais. Os cristais mais comuns no líquido sinovial são os de urato monossódico (UM) (ácido úrico), presentes na gota, e os de pirofosfato de cálcio (CPP), encontrados na pseudogota. As principais causas da gota são problemas no metabolismo das purinas. Aumento no consumo de alimentos ricos em purinas, álcool e frutose, e diminuição da excreção renal de ácido úrico estão associados ao desenvolvimento da doença. Os cristais de CPP são encontrados na artrite degenerativa, artrite por hipomagnesemia, hemocromatose, hiperparatireoidismo e hipotireoidismo. Cristais de hidroxiapatita (fosfato de cálcio) ocorrem em casos de degeneração articular calci�cada; cristais de colesterol estão presentes em in�amações crônicas; os de corticosteroides, após in�ltração articular; e os de oxalato de cálcio, em pacientes dialisados. Na Tabela 1, estão resumidas as principais características dos cristais mais comumente encontrados. Importante! Não confundir cristais com artefatos provindos de talco das luvas, os anticoagulantes precipitados, poeira e os riscos na lâmina ou na lamínula. Tabela 1 – Características dos Principais Cristais Encontrados no Líquido Sinovial Fonte: Adaptada de VIEIRA, 2021 A avaliação dos cristais é realizada, incialmente, a fresco, entre lâmina e lamínula, em microscopia óptica convencional. Já para identi�cação, é necessário microscópio com luz polarizada. Líquido Ascítico ou Peritoneal O estudo do líquido ascítico é de fundamental importância por ser tratar de um dos principais líquidos serosos encontrados no corpo humano. A cavidade peritoneal, que �ca no abdômen do corpo humano, é recoberta pela membrana peritoneal, é composta por �broblastos, matriz extracelular, capilares sanguíneos e células mesoteliais. O líquido ascítico está presente na cavidade abdominal em uma pequena quantidade a �m de evitar o atrito entre as membranas. A ocorrência de derrame ascítico sempre está relacionada a uma doença base e é considerado um fator de risco para o paciente, onde há criticidade do quadro patológico envolvido. Doenças hepáticas, como a cirrose, são as principais causadoras e, em frequência menor, encontramos a insu�ciência cardíaca, nefropatias, doenças pancreáticas, tuberculose, peritonites bacterianas e neoplasias malignas, principalmente de mama e ovário. Análise Macroscópica A análise do líquido ascítico é realizada para detecção de situações in�amatórias, infecciosas, sangramentos ou neoplasias na cavidade abdominal. De forma ideal, devem ser coletados três tubos por paciente: um tubo contendo anticoagulante (heparina) para análise citológica; um segundo tubo sem anticoagulante para as análises físicas, bioquímicas e imunológicas; e um tubo estéril para as análises microbiológicas. O exame inicia com avaliação da cor e turbidez da amostra. O líquido ascítico tem coloração levemente amarelada, límpido, estéril e viscoso, assemelhando-se ao soro humano. O volume de líquido presente na cavidade abdominal é de, aproximadamente, 50 mL. Diante de processos patológicas o líquido ascítico pode apresentar coloração avermelhada devido à presença de sangue; coloração xantocrômica pela presença de bilirrubina ou pela degradação de hemoglobina; e até mesmo esverdeada como indicativo de sepse ou de perfuração do trato gastrointestinal. O aspecto pode ser turvo, purulento ou leitoso. Nos laudos é comum fazer a diferenciação da cor e aspecto antes e após a centrifugação, uma vez que normalmente, quando há acidente de punção, após centrifugação, a amostra irá formar um “botão de hemácias” íntegras no fundo do tubo, que deve ser relatado na descrição, e o sobrenadante terá as características de incolor e límpido. Na ascite hemorrágica, haverá um sobrenadante de cor vermelha ou xantocrômica. Em situações patológicas, como em processo in�amatório ou infeccioso, o extravasamento de líquido é maior do que a capacidade de reabsorção pelos vasos linfáticos e ocorre acúmulo de líquido ascítico na cavidade abdominal, levando a um quadro chamado de ascite ou derrame peritoneal (Figura 7). Figura 7 – A primeira imagem demonstra a localização anatômica da membrana peritoneal; a segunda imagem demonstra o acúmulo de líquido ascítico na cavidade abdominal Fonte: Adaptada de VIEIRA, 2021 Na presença de derrame ascítico é realizada a paracentese, que é o procedimento de coleta do líquido acumulado. O paciente é anestesiado e colocado em decúbito lateral para ser realizada incisão com uma agulha calibre 22. Análise Bioquímica No líquido ascítico são analisadas proteínas totais, albumina e determinação do gradiente de albumina soro-ascite (GASA). Esse gradiente resulta de uma subtração entre o valor da dosagem de albumina no soro (albumina sérica) e o valor da dosagem de albumina no líquido, sendo importante para a avaliação da causa do derrame. A determinação de transudato ou exsudato é baseada nas características de aspecto, celularidade e dosagens bioquímicas da amostra. Os transudatos costumam ser límpidos, sem presença de coágulos, com contagem de células baixas (< 300/μL) e dosagens bioquímicas com valores iguais ou abaixo dos valores séricos. Já os exsudatos têm aspecto turvo, purulento ou coagulado, com celularidade elevada (>1000/μL) e altas concentrações bioquímicas. São solicitadas análises de glicose e lactato desidrogenase (LDH) e, menos frequentemente, dosagens de fosfatase alcalina, amilase, bilirrubina, colesterol e triglicerídeos, além de avaliação do pH dependendo da situação. Análise Citológica Na análise citológica do líquido ascítico, primeiramente é realizada a contagem global e, posteriormente, a contagem diferencial. Para contagem global é utilizada amostra não centrifugada e bem homogeneizada, sendo normalmente realizada em câmara de Neubauer, com auxílio de microscópio óptico. São quanti�cados eritrócitos, leucócitos, macrófagos e células mesoteliais. Caso haja um número elevado de células deve ser realizada diluição para contagem, mas dependendo do tipo celular, é utilizada uma área diferente da câmara para contagem. Ao �nal da contagem, o valor obtido deve ser transformado em microlitros (μL) utilizando um fator de conversão. A contagem diferencial é realizada quando há um número elevado de leucócitos. A amostra é centrifugada, preferencialmente em citocentrífuga, para maior concentração das células e, posteriormente, é feita a transferência do sedimento rico em células para uma lâmina. Após a secagem das células na lâmina, realiza-se uma coloração diferencial com May Grunwald- Giemsa seguida de contagem em microscópio óptico com objetiva de imersão (aumento de 1.000x), na qual são contadas 100 células, classi�cando e determinadas porgentagens: neutró�los, eosinó�los, basó�los, linfócitos e monócitos. Infecções bacterianas podem provocar alterações nas contagens celulares normais do líquido ascítico. Isso é devido à migração de leucócitos para o local da infecção, onde o aspecto do líquido ascítico torna-se purulento e haverá um predomínio de neutró�los na contagem diferencial de células nucleadas, diferentemente da sua condição normal, quando há uma baixa celularidade, com predomínio de linfócitos, monócitos e pequena quantidade de células mesoteliais. A presença de células neoplásicas é outra condição que altera a celularidade do líquido ascítico. Líquido Pleural Habitualmente, apenas uma pequena quantidade de líquido pleural (cerca de 10mL) está presente entre a pleura visceral e a parietal. Entretanto, o derrame pleural ocorre em várias condições clínicas e, quando recém-diagnosticado, deve ser avaliado para auxiliar o diagnóstico. Em geral, a análise do líquido pleural, em conjunto com o quadro clínico, os resultados dos exames de sangue e de imagem radiológica, permitem o diagnóstico da patologia (Figura 8). Figura 8 – Representação Grá�ca da Formação e da Reabsorção do Líquido Pleural Fonte: Adaptada de LECHNER et al. apud LEITE, 2019 O �ltrado microvascular é reabsorvido em parte pelas membranas das pleuras (A — seta tracejada), enquanto a outra parte do líquido intersticial atravessa para o espaço pleural por �uxo de volume, sendo denominado líquido pleural (B — seta azul). A drenagem do líquido ocorre via sistema linfático (C — seta azul). Alterações nesse processo podem levar ao derrame pleural, um acúmulo de líquido no espaço entre as pleuras. É importante fazer a diferenciação entre exsudato e transudato para o líquido pleural. Os exames que podem fazer essa diferenciação com melhor precisão é a relação entre proteína total no líquido pleural/soro e a concentração de desidrogenase láctica (DHL) comparada com o limite superior da DHL normal do soro. O exsudato é caracterizado por uma relação de proteínas totais no líquido pleural/soro >0,5 ou DHL no líquido pleural/soro >0,67. As causas mais comuns de transudatos estão relacionadas ao aumento da pressão hidrostática ou diminuição da pressão oncótica; raramente um transudato tem origem extravascular. Coleta do Líquido Pleural Para realização da coleta de líquido pleural (toracocentese), deve-se, inicialmente, con�rmar o local da punção por meio de exame clínico e exame de imagem. O paciente deve permanecer sentado com os braços e cabeça apoiados no travesseiro e com a mão ipsilateral ao derrame, apoiada sobre o ombro contralateral, conforme demonstrado na Figura 9. É realizada assepsia do local e anestesia para posterior coleta com cateter. Colhem-se 20mL em uma seringa para exames e esvazia-se todo o líquido contido no espaço pleural. Figura 9 – Posicionamento da Agulha na Borda Superior da Costela a Fim de Evitar o Feixe Vasculonervoso Fonte: Adaptado de NEVES, 2011 Exame Macroscópico É avaliada a cor, odor e aspecto do líquido pleural. Exame Citológico A contagem das células é útil na diferenciação entre exsudatos e transudatos. Os exsudatos costumam apresentar quantidade superior a 1.000 células nucleadas/μL e os transudatos, um nível bem menor de algumas centenas de células nucleadas/μL. Algumas situações patológicas elevam consideravelmente as contagens celulares para índices superiores a 10.000/μL, como em derrames parapneumônicos, pancreatite aguda, abscessos hepáticos subdiafragmáticos ou esplênicos e infarto esplênico; também podem estar presentes em infartos pulmonares, síndrome pós-lesão cardíaca e pleurite lúpica. Contagens superiores a 50.000/μL, em geral, ocorrem em derrames parapneumônicos e empiemas. Você Sabia? A complicação mais comum da toracocentese é o pneumotórax, presença de ar entre a pleura parietal e a pleura visceral. Outras possíveis complicações incluem tosse, dor, desencadeamento de re�exo vasovagal e hemotórax (sangue). Dependendo da fase em que a doença se encontra há presença de linhagens celulares distintas: na doença de fase aguda inicial encontramos mais neutró�los e, passados alguns dias, começamos a perceber o predomínio de células mononucleares, como macrófagos. Se o derrame pleural for persistente, os macrófagos são substituídos pelos linfócitos. Nos transudatos, os neutró�los geralmente representam menos de 5% das células e há predomínio de linfócitos em doenças de início insidioso, como doenças malignas, tuberculose, linfomas, pleurite reumatoide crônica, sarcoidose. Já nos exsudatos onde há predomínio de linfócitos é indicada a biópsia de pleura, podendo ser um forte indicativo da presença de tuberculose. Eosinó�los num percentual superior a 10% do número total de células são encontrados nos casos de pneumotórax e hemotórax, carcinomas, síndrome de Churg-Strauss, doenças por fungos e linfoma de Hodgkin. E os plasmócitos no mieloma múltiplo. Em casso de baso�lia superior a 10% considera-se comprometimento da pleura devido a leucemias, doenças parasitárias e embolia pulmonar. Exames Bioquímicos É realizada determinação do pH do líquido pleural, que deve ser medida no gasômetro, sendo importante para determinação de acidose, que está relacionada à presença de doenças. A determinação de amilase é realizada uma vez que o aumento de concentração de amilase no líquido pleural está associada com doenças pancreáticas, ruptura de esôfago e doenças malignas. E a dosagem de lipídios totais que estão aumentados no quilotórax, onde há vazamento da linfa do ducto torácico. O derrame de colesterol é indicativo de pleurite reumática ou tuberculose, onde as concentrações de triglicerídeos no líquido pleural são inferiores a 50mg/dL e a de colesterol superiores a 250mg/dL. Líquido Pericárdico O pericárdio contém duas camadas que são separadas por uma quantidade de líquido seroso, em uma quantidade em torno de 20 mL. A coleta deste material acontece quando o paciente apresenta tamponamento cardíaco ou pericardite purulenta. Em outras situações, deve ser criteriosamente avaliada. Coleta de Material Para coleta é necessário auxílio de �uoroscopia, ecocardiogra�a ou abordagem cirúrgica. Exames Laboratoriais É indicada análise bioquímica, incluindo desidrogenase láctica e glicose para determinação da concentração de proteínas. A dosagem de adenosina deaminase (ADA) é importante para diferenciação entre derrame pericárdico por tuberculose e causado por neoplasias, quando as concentrações de ADA são baixas e as de CEA (antígeno carcinoembriônico) elevadas. O exame citológico deve ser realizado quando houver suspeita de doenças malignas, já em doenças de origem bacteriana e reumatológica há um aumento na contagem de neutró�los. Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Livros Guia Ilustrado de Procedimentos Médicos O livro é um guia com fotogra�as sobre procedimentos médicos que incluem as coletas de líquor, líquido de ascite, pleural e sinovial. Fornece informações sobre como realizar a coleta de forma e�caz evitando erros comuns. MAYEAUX, E. J. Guia ilustrado de procedimentos médicos. Porto Alegre: Artmed, 2011. Vídeos 2 / 3 Material Complementar Toracocentese – Coleta de Líquido Pleural O vídeo orienta sobre os cuidados e passos para realização da coleta de líquido pleural. Leitura Biochemical Analysis of Pleural Fluid and Ascites Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Synovial Joints: Mechanobiology and Tissue Engineering of Articular Cartilage and Synovial Fluid Toracocentese https://research-repository.uwa.edu.au/en/publications/biochemical-analysis-of-pleural-fluid-and-ascites/fingerprints/ https://www.youtube.com/watch?v=Qh13JaPMXmA Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Ascite: Estado da Arte Baseado em Evidências Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE https://eprints.qut.edu.au/108957/ https://www.scielo.br/j/ramb/a/bhH9F9xSpJfDD9NXdTRg59L/ HAMMER, G. D.; MCPHEE, S. J. Fisiopatologia da doença: uma Introdução à medicina clínica. 7. ed. Porto Alegre: AMGH, 2016. LEITE, S. B.; CAVAGNOLLI, G.; VIEIRA, A. D. C. Fluidos biológicos. Grupo A, 2019. MUNDT, L. A.; SHANAHAN, K. Exame de urina e de �uidos corporais de Gra�. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2012. NEVES, A. P. Manual Roca Técnicas de Laboratório - Líquidos Biológicos. Grupo GEN, 2011. SOARES, J. L. M. F. et al. Métodos diagnósticos. Porto Alegre: Artmed, 2012. 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