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DISTÚRBIOS ÁCIDO-BÁSICOS P R O F . R I C A R D O L E A L Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Distúrbios Ácido-Básicos 2NEFROLOGIA PROF. RICARDO LEAL APRESENTAÇÃO: Olá, Estrategista! Sou o professor Ricardo Leal, do time da Nefrologia, e estarei junto a você durante este resumo estratégico importantíssimo, que trata sobre os distúrbios acidobásicos. Aqui, focaremos em entender a origem, as causas, repercussões clínicas e eventual manejo dessas condições tão frequentes na nossa prática médica e nas provas. É importante ressaltar que o diagnóstico dos distúrbios é assunto para outro material: análise da gasometria arterial. Recomendo que você comece por aqui mesmo, o que facilita bastante o entendimento. Tudo pronto? Vamos juntos! @estrategiamed /estrategiamed Estratégia MED t.me/estrategiamed @estrategiamed @ricardolealsb https://www.instagram.com/estrategiamed/ https://www.facebook.com/estrategiamed1 https://www.youtube.com/channel/UCyNuIBnEwzsgA05XK1P6Dmw https://t.me/estrategiamed https://t.me/estrategiamed https://www.tiktok.com/@estrategiamed https://www.instagram.com/ricardolealsb Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 3 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA SUMÁRIO 1.0 INTRODUÇÃO AOS DISTÚRBIOS DO EQUILÍBRIO ACIDOBÁSICO 5 1.1 DEFININDO UM ÁCIDO E UMA BASE 5 1.2 POTENCIAL DE HIDROGÊNIO: O “PH” 5 1.3 A EQUAÇÃO DE HENDERSON-HASSELBALCH 7 1.4 DISTÚRBIOS PRIMÁRIOS DO EQUILÍBRIO ACIDOBÁSICO 8 2.0 ACIDOSE METABÓLICA 9 2.1 DEFINIÇÃO 9 2.2 CLASSIFICAÇÃO E ÂNION GAP 9 2.3 CAUSAS 11 2.3.1 ACIDOSE METABÓLICA COM ÂNION GAP ELEVADO 11 2.3.1.1 ACIDOSE LÁTICA 11 2.3.1.2 CETOACIDOSES 11 2.3.1.3 INSUFICIÊNCIA RENAL 12 2.3.1.4 INTOXICAÇÕES EXÓGENAS 12 2.3.2 ACIDOSE METABÓLICA COM ÂNION GAP NORMAL (HIPERCLORÊMICA) 13 2.3.2.1 PERDAS INTESTINAIS 13 2.3.2.2 PERDAS RENAIS: ACIDOSES TUBULARES RENAIS 13 2.3.2.3 URETEROSSIGMOIDOSTOMIA 16 2.3.2.4 OUTRAS CAUSAS DE ACIDOSE METABÓLICA HIPERCLORÊMICA 16 2.4 CONSEQUÊNCIAS CLÍNICAS E FISIOLÓGICAS DA ACIDOSE METABÓLICA 16 2.5 TRATAMENTO 18 2.5.1 ACIDOSE METABÓLICA AGUDA 18 2.5.2 ACIDOSE METABÓLICA CRÔNICA 19 Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 4 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA 3.0 ALCALOSE METABÓLICA 20 3.1 DEFINIÇÃO 20 3.2 ASPECTOS FISIOLÓGICOS DA ALCALOSE METABÓLICA 20 3.3 CLASSIFICAÇÃO 20 3.3.1 HIPOVOLÊMICAS 20 3.3.1.1 CAUSAS RENAIS 21 3.3.1.2 CAUSAS EXTRARRENAIS 22 3.3.2 NORMO / HIPERVOLÊMICAS 22 3.3.2.1 CAUSAS RENAIS 22 3.3.2.2 CAUSAS EXTRARRENAIS 23 3.4 REPERCUSSÕES CLÍNICAS 25 3.5 TRATAMENTO 25 4.0 ACIDOSE RESPIRATÓRIA 26 4.1 DEFINIÇÃO 26 4.2 CAUSAS 26 4.3 QUADRO CLÍNICO 27 4.4 TRATAMENTO 27 5.0 ALCALOSE RESPIRATÓRIA 28 5.1 DEFINIÇÃO 28 5.2 CAUSAS 28 5.3 QUADRO CLÍNICO 28 5.4 TRATAMENTO 28 6.0 LISTA DE QUESTÕES 29 8.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS 30 7.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 30 Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 5 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA CAPÍTULO 1.0 INTRODUÇÃO AOS DISTÚRBIOS DO EQUILÍBRIO ACIDOBÁSICO Vamos a alguns conceitos fundamentais antes de entrarmos a fundo nos distúrbios! 1.1 DEFININDO UM ÁCIDO E UMA BASE Ácido é uma substância que apresenta a particularidade de doar um H+ (próton). HCl D H+ + Cl– O ácido clorídrico (HCl) está presente em abundância na secreção gástrica - quando numa solução, se dissocia em H+ e Cl-. Como o HCl apresenta a característica de liberar H+, ele é chamado de ácido. Base é uma substância que apresenta a característica de receber um próton H+ em sua molécula. HCO3- + H+ D H2CO3 O bicarbonato (HCO3-) reage com o H+ e forma o H2CO3 (ácido carbônico). Como recebeu o H+, o bicarbonato é denominado de base. 1.2 POTENCIAL DE HIDROGÊNIO: O “PH” O pH, ou potencial de hidrogênio, é um termo utilizado para avaliar uma solução quanto a sua acidez, alcalinidade ou neutralidade química. Os valores normais de pH sérico são entre 7,35 e 7,45. Veja a seguir uma tabela com conceitos essenciais que permeiam o pH. Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 6 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA Conceitos fundamentais sobre o equilíbrio acidobásico Acidemia Excesso de H+ no compartimento extracelular. Traduz-se laboratorialmente em um pH 7,45 Acidose Processo metabólico (queda de bicarbonato) ou respiratório (aumento de PCO2) que leva à redução do pH Alcalose Processo metabólico (aumento do bicarbonato) ou respiratório (queda na PCO2) que leva ao aumento do pH A manutenção do pH na sua estreita faixa de normalidade é fundamental para a ação adequada de várias enzimas e processos celulares. Para isso, o organismo humano conta com três aliados fundamentais: • Pulmões No organismo, a metabolização dos carboidratos leva à formação de CO2 e H2O. O CO2 formado leva à formação do H2CO3, que se dissocia, aumentando a concentração de H+ no organismo e resultando em acidose. Vamos analisar a figura a seguir: Influência dos rins, pulmões e sistemas-tampão no controle da sobrecarga de ácidos do organismo. Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 7 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA Os pulmões apresentam grande importância para o controle do pH do organismo pela sua capacidade de manejar o CO2 (seja por retenção ou aumento da eliminação). • Rins A metabolização de proteínas, gorduras e aminoácidos leva à formação diária de 1mEq/kg de ácidos fixos. Como falamos, o CO2 é eliminado pelos pulmões. Os ácidos fixos, por sua vez, apresentam uma eliminação renal. • Sistemas-tampão Um sistema-tampão nada mais é do que um sistema formado entre duas substâncias para evitar grandes variações da concentração de H+. Vamos conhecer os principais. • Extracelular: bicarbonato » O bicarbonato é o principal tampão do organismo, ligando-se ao H+ e levando à formação de H2O + CO2. • Intracelular: hemoglobina e fosfato » O tampão intracelular tem uma importância enorme para a relação entre os níveis séricos de potássio e o pH sanguíneo. Em casos de acidose, para o H+ entrar nas células e ser tamponado, o potássio tem que sair. Nas alcaloses, o contrário ocorre: o H+ sai da célula e o potássio entra. » Temos, assim, uma relação importante: acidoses normalmente cursam com hipercalemia. As alcaloses, por sua vez, podem levar e ser perpetuadas por uma hipocalemia. • Ossos » O tampão ósseo é mais importante no contexto de uma acidose metabólica de longa data. Pacientes com esse distúrbio podem ter mais calciúria, nefrolitíase e nefrocalcinose (calcificação do parênquima renal). O bicarbonato é o principal tampão do nosso organismo! 1.3 A EQUAÇÃO DE HENDERSON-HASSELBALCH O pH nada mais é do que uma forma matemática logarítmica de expressar a concentração de H+. A concentração de H+ nos fluidos extracelulares é de cerca de 40nmol/L. Para não precisarmos trabalhar com valores muito baixos, foi definido que a concentração de H+ seria expressa por meio do pH. A representação matemática é demonstrada a seguir: Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 8 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA Esqueça por um momento os números dessa equação. Peço apenas que faça a seguinte associação: Para o pH subir (alcalemia), temos que ter uma alcalose, isto é, aumento no HCO3 - ou uma queda na pCO2; Para o pH cair (acidemia), temos que ter uma acidose, isto é, queda no HCO3 - ou um aumento na pCO2. 1.4 DISTÚRBIOS PRIMÁRIOS DO EQUILÍBRIO ACIDOBÁSICO Existem quatro possibilidades de distúrbios primários. Vamos observar a tabela a seguir. Distúrbios primários e sua origem Acidose metabólica Queda nos níveis de bicarbonato Alcalose metabólica Aumento nos níveis de bicarbonato Acidose respiratória Aumento da pCO2 Alcalose respiratória Queda da pCO2 Além dessas quatro situações, podem acontecer anormalidades em que estejam presentes alterações pulmonares e metabólicas simultaneamente; são o quechamamos de distúrbios mistos. Estudaremos os distúrbios mistos, duplos e triplos no resumo sobre análise da gasometria arterial. Estrategista, atenção! Vamos dar início a nosso estudo pela acidose metabólica, o distúrbio mais cobrado nas suas provas de Residência. Sugiro uma breve pausa, pois precisarei da sua máxima concentração no próximo tópico! Pegue seu café e me encontre lá! Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 9 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA CAPÍTULO 2.0 ACIDOSE METABÓLICA 2.1 DEFINIÇÃO A acidose metabólica é um processo patológico definido pela redução dos níveis séricos de bicarbonato (condição. Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 13 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA 2.3.2 ACIDOSE METABÓLICA COM ÂNION GAP NORMAL (HIPERCLORÊMICA) 2.3.2.1 PERDAS INTESTINAIS As secreções do trato intestinal que são produzidas abaixo do ângulo de Treitz são ricas em bicarbonato, sendo os principais exemplos a secreção intestinal e a pancreática. A diarreia cursa com perda de secreção intestinal e, consequentemente, bicarbonato nas fezes, levando a uma acidose metabólica com ânion gap normal. 2.3.2.2 PERDAS RENAIS: ACIDOSES TUBULARES RENAIS As acidoses tubulares renais (ATR) são causadas por defeitos na acidificação na urina (ou seja, prejuízo de eliminação de ácidos) ou uma redução da reabsorção do bicarbonato, levando a bicarbonatúria. Independentemente do caso, levam à acidose metabólica. Perceba que em nenhum momento eu citei acúmulo de algum ácido específico. As ATRs não cursam com aumento do ânion gap, sendo reconhecidas como causas de acidose metabólica hiperclorêmica ou de ânion gap normal. São geradas por defeitos em 3 segmentos dos túbulos renais, com causas específicas e características laboratoriais importantes. Vamos conhecê-las: ATR proximal ou tipo II O túbulo contorcido proximal (TCP) é responsável pela reabsorção de várias substâncias que passam no filtrado, como sódio, bicarbonato, aminoácidos, glicose e fosfato. Cerca de 80% do bicarbonato é reabsorvido no TCP (com ação crucial das anidrases carbônicas), sendo o restante nas porções mais distais do néfron. Veja a representação esquemática da célula tubular proximal a seguir: Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 14 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA Chamamos de acidose tubular proximal ou ATR II a redução da capacidade tubular de reabsorção do bicarbonato, o que leva a bicarbonatúria e acidose metabólica com ânion gap normal (hiperclorêmica). A disfunção completa do túbulo proximal leva a − além de ATR II − aminoacidúria, glicosúria e fosfatúria, condição que é denominada síndrome de Fanconi. As principais causas de ATR II estão resumidas na tabela a seguir, e em negrito estão as que mais caem na sua prova. Causas de acidose tubular renal tipo II Drogas: aminoglicosídeos; tenofovir; acetazolamida (diurético inibidor da anidrase carbônica) Disproteinemias: mieloma múltiplo Intoxicação por metais pesados: cobre; mercúrio; chumbo Acidose tubular tipo I ou distal A ATR tipo I acontece por uma incapacidade de acidificar a urina. É um défice de secreção do H+ no túbulo contorcido distal. Como não conseguimos secretar o hidrogênio, terminamos por desenvolver uma acidose metabólica com ânion gap normal. Cursa classicamente com pH urinário alcalino e hipocalemia. As principais causas de ATR I são síndrome de Sjögren, paraproteinemias e anfotericina B. Também podem ter causas genéticas. A ATR I é a principal causa de acidose metabólica crônica associada a distúrbios do metabolismo mineral e ósseo. Osteopenia, nefrolitíase e nefrocalcinose são associações comuns. Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 15 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA Acidose tubular tipo IV A acidose tubular renal tipo IV acontece devido a um défice de reabsorção de sódio no túbulo coletor. Sempre que tivermos menor reabsorção de sódio no coletor, temos menor secreção de H+. Além disso, a secreção tubular de potássio também diminui, pois a função normal do coletor é reabsorver sódio em troca de H+ ou potássio. Isso leva a uma característica peculiar: a ATR IV cursa com hipercalemia! As condições que cursam com ATR IV são secundárias principalmente à redução dos níveis circulantes ou bloqueio da ação da aldosterona. Diuréticos poupadores de potássio (como a espironolactona, muito usada na hepatologia e na cardiologia, por exemplo) e outras drogas como inibidores da enzima conversora de angiotensina (iECA) ou bloqueadores do receptor de angiotensina (BRA) também estão associados. A ATR IV é uma causa de acidose metabólica com ânion gap normal e hipercalemia! Vamos conferir um fluxograma com os caminhos diagnósticos e as principais causas de acidose metabólica: Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 16 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA Fique atento a este mnemônico que contempla as causas de acidose metabólica hiperclorêmica: o HARD-UP. Hiperalimentação (nutrição parenteral pode causar acidose metabólica AG normal) Acetazolamida Renal tubular acidosis Diarreia Ureterossigmoidostomia Pâncreas (secreções pancreáticas) Não entra no mnemônico, mas é muito importante que você não esqueça: soro fisiológico em excesso! 2.3.2.3 URETEROSSIGMOIDOSTOMIA Em algumas situações de reconstrução do trato urinário, em especial quando é realizada uma cistectomia, pode ser preciso fazer uma anastomose do ureter no sigmoide. Com essa anastomose, a urina entra em contato com a parede do intestino. Como a urina é rica em cloreto, ocorre uma reabsorção do cloreto em troca de aumento na eliminação de bicarbonato e de potássio, presentes na secreção intestinal. Com a perda de bicarbonato e ganho de cloreto, surge uma acidose metabólica com ânion gap normal ou hiperclorêmica. 2.3.2.4 OUTRAS CAUSAS DE ACIDOSE METABÓLICA HIPERCLORÊMICA Administração excessiva de solução fisiológica O soro fisiológico a 0,9% é uma solução cristaloide composta por 154mEq/L de sódio e 154mEq/L de cloreto (logo, vemos que não é tão fisiológico assim!). A sobrecarga de solução fisiológica pode levar a um estado de hipercloremia e, para que a eletroneutralidade se mantenha, o bicarbonato cai, levando a uma acidose metabólica com ânion gap normal. 2.4 CONSEQUÊNCIAS CLÍNICAS E FISIOLÓGICAS DA ACIDOSE METABÓLICA A acidose metabólica grave, principalmente quando cursa com acidemia grave e aguda, é reconhecida pelo ACLS como uma das causas metabólicas de parada cardiorrespiratória. Um dos efeitos conhecidos da acidemia grave é a interferência na resposta dos receptores adrenérgicos (alfa e beta) à ação das catecolaminas, podendo levar à disfunção miocárdica com défice de contratilidade, vasoplegia e consequente tendência à hipotensão arterial. Como tentativa de corrigir a acidose metabólica, um padrão respiratório de inspirações profundas, rápidas e sem pausas pode desenvolver-se, denominado respiração de Kussmaul, no intuito de eliminar mais CO2 e atenuar a queda do pH. Veja a figura a seguir. Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 17 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA Existe mais uma consequência da acidose metabólica que você precisa saber: o desvio da curva de dissociação da hemoglobina. Peço que preste bastante atenção na análise da figura a seguir, pois o tópico é frequente nas questões de prova sobre o tema. Relação entre a saturação de O2 na Hb, a pO2 e o pH sérico. Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 18 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA O pH desloca a curva de dissociação da hemoglobina para a direita. O que isso significa? Significa que a hemoglobina perde a afinidade pelo O2 na medida em que o ambiente se torna ácido. Como podemos observar isso? Podemos perceber que, para a mesma pO2, a saturação da hemoglobina cai na medida em que a curva se desloca para a direita. Vamos entender o motivo pelo qual esse deslocamento acontece. Como a causa de acidose metabólica é a acidose lática (má perfusão), com o objetivo de tentar atenuar a falta de oxigênio na periferia, a afinidade da hemoglobina pelo O2 é diminuída na medida em que o pH diminui. Ou seja, com menor afinidade da hemoglobina pelo O2, teríamos maior quantidade de O2 disponível para os tecidos. Já, nos casos de alcalose, a curva desloca-se para a esquerda. A afinidade da hemoglobina pelo O2 é aumentada, dificultando a liberação do O2 para os tecidos. Estrategista, preparei uma tabela para você com as principaiscomo vimos, é uma causa de acidose metabólica de ânion gap normal. Hiperaldosteronismo cursa com alcalose metabólica. Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 23 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA Síndrome de Cushing A síndrome de Cushing é a consequência clínico-laboratorial do excesso de hormônios glicocorticoides circulantes que, em altas doses e por tempo prolongado de exposição, também exercem ação mineralocorticoide. Com isso, temos um efeito semelhante ao que encontramos no hiperaldosteronismo. 3.3.2.2 CAUSAS EXTRARRENAIS Infusão de bicarbonato Infundir bicarbonato de sódio é a principal forma de administrar bases de maneira artificial em um paciente. É uma prática utilizada tanto em pronto-socorro quanto em terapia intensiva e medicina ambulatorial. A administração exagerada pode levar a uma alcalose metabólica. Hemotransfusão A relação entre a hemotransfusão e alcalose metabólica não está propriamente no ato da transfusão ou em características das hemácias, mas sim no anticoagulante utilizado para o preparo da terapia. As bolsas são anticoaguladas com citrato, uma substância que é metabolizada no fígado em bicarbonato. Em casos de grandes transfusões, pode haver acúmulo de citrato e consequentemente de bicarbonato no organismo, que provocará uma alcalose metabólica. Outras curiosidades sobre grandes hemotransfusões: as hemácias contêm bastante potássio, que é liberado para a bolsa; o citrato age como anticoagulante por quelar o cálcio; e as bolsas são condicionadas em baixas temperaturas. "Mas, o que isso quer dizer, professor?" Que grandes transfusões, além de alcalose metabólica, podem cursar com hipercalemia, hipocalcemia e hipotermia! Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 24 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA “Professor, estou achando difícil memorizar as causas de alcalose metabólica.” Está? Pois não memorize, APRENDA! A → Aldosterona (hiperaldosteronismo) P → Piloro acima (perda gástrica) R → Renovascular (uma causa de hiperaldosteronismo) E → ENaC (Cushing, Liddle) N → Nenhum volume (hipovolemia: alcaloses cloreto sensíveis) D → Diuréticos (alça e tiazídicos; Bartter e Gitelman) A → Alcalinizantes (bicarbonato, citrato, hemotransfusão) Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 25 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA 3.4 REPERCUSSÕES CLÍNICAS A alcalose metabólica, especialmente quando acompanhada de alcalemia (pH > 7,45), é deletéria e correlaciona-se com maior morbimortalidade. Um estudo observacional em pacientes cirúrgicos sugeriu uma mortalidade acima de 80% nos que apresentavam um pH > 7,6. As principais repercussões são metabólicas, respiratórias, hemodinâmicas e neurológicas. Preparei uma tabela para que você analise atentamente. Consequências da alcalemia grave Cardiovasculares Metabólicas Cerebrais Respiratórias Constrição arteriolar Hipocalemia Rebaixamento do nível de consciência Hipoventilação Predisposição a arritmias Hipocalcemia Redução do fluxo cere- bral Hipercapnia Angina Hipocalcemia Convulsões Hipóxia 3.5 TRATAMENTO O tratamento da alcalose metabólica passa pela identificação e correção da causa base (uso de diuréticos e vômitos, principalmente) e dos fatores que causam sua manutenção: hipovolemia, hipocalemia e hipocloremia. Caro Estrategista, parabéns por seguir firme até aqui. Sei que esse assunto é denso e exige muita concentração. A partir de agora, vamos finalizar nosso resumo com o estudo dos distúrbios respiratórios. Se achar melhor, faça uma pequena pausa para uma água. Preciso do seu foco nesta reta final! Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 26 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA CAPÍTULO 4.0 ACIDOSE RESPIRATÓRIA Existe um conceito importante sobre os distúrbios ventilatórios que você deve saber: a relação importante entre a pCO2 e a ventilação alveolar. A ventilação alveolar é o produto entre a frequência respiratória e volume corrente (velocidade e profundidade da respiração, respectivamente). É regulada por dois estímulos principais: os níveis de pCO2 e de pO2. Pacientes com ventilação alveolar reduzida retêm CO2, levando a um aumento da pCO2 e acidose respiratória. De modo contrário, o aumento da ventilação alveolar “lava” CO2, reduzindo a pCO2 e levando à alcalose respiratória! 4.1 DEFINIÇÃO A acidose respiratória é caracterizada primariamente por um aumento da pCO2. É dividida, conforme o tempo de instalação, em aguda ou crônica. 4.2 CAUSAS Geralmente, são distúrbios neuromusculares (miopatias, parede torácica, sistema nervoso central, intoxicações) ou doenças pulmonares, como asma e doença pulmonar obstrutiva crônica. Preparei uma tabela com importantes causas de acidose respiratória aguda e crônica. Em negrito, você encontra as principais para sua prova de Residência Médica. Acidose respiratória aguda Mecanismos Causas Alterações neuromusculares Lesão de tronco ou medula Síndrome de Guillain-Barré Miastenia gravis Drogas Obstrução de vias respiratórias Corpo estranho Edema de laringe Broncoespasmo grave Desordens toracopulmonares Tórax instável Pneumotórax Ventilação mecânica controlada Parâmetros inadequados Espaço morto aumentado Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 27 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA Acidose respiratória crônica Mecanismos Causas Anormalidades neuromusculares Paralisia diafragmática Síndrome de Pickwick (hipoventilação relacionada à obesidade) Desordens toracopulmonares Doença pulmonar obstrutiva crônica Cifoescoliose Doença pulmonar intersticial terminal 4.3 QUADRO CLÍNICO O quadro clínico da acidose respiratória é inespecífico. O aumento da pCO2 pode ocasionar confusão mental, tremores, flapping e até coma. Acidemias graves podem levar a arritmias, disfunção circulatória e óbito. Os sintomas neurológicos são mais proeminentes na acidose respiratória que na acidose metabólica pelo fato do pH do líquor alterar-se mais rapidamente frente a distúrbios respiratórios. 4.4 TRATAMENTO Não há terapia específica para a acidose respiratória. O tratamento é realizado por meio da correção da doença de base que levou ao distúrbio (broncodilatadores, drenagem de tórax, ventilação não invasiva, ventilação invasiva). Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 28 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA CAPÍTULO 5.0 ALCALOSE RESPIRATÓRIA 5.1 DEFINIÇÃO A alcalose respiratória é definida por uma queda primária no CO2, representada pela redução dos níveis séricos da pCO2. 5.2 CAUSAS Antes de irmos para uma tabela com as causas de alcalose respiratória, vamos entender o racional por trás: a hipóxia e o estímulo direto ao centro respiratório levam a um aumento da ventilação pulmonar e podem causar alcalose respiratória! Alcalose respiratória Mecanismos Causas Hipóxia Pneumonia Tromboembolismo pulmonar Insuficiência cardíaca Edema pulmonar Estímulo do centro respiratório Ansiedade Intoxicação por salicilato Acidente vascular cerebral 5.3 QUADRO CLÍNICO Os principais sintomas relacionados à alcalose respiratória ocorrem na sua forma aguda e correlacionam-se com a hiperexcitabilidade neurológica e a redução do fluxo sanguíneo cerebral. O aumento do pH sérico favorece a ligação do cálcio à albumina, reduzindo sua fração livre disponível e levando a uma hipocalcemia transitória. Alteração do nível de consciência, parestesias periorais e em extremidades podem deixar o quadro clínico indistinguível de uma hipocalcemia aguda. 5.4 TRATAMENTO Não há um tratamento específico para alcalose respiratória. A conduta terapêutica é voltada à doença de base. Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 29 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA Baixe na Google Play Baixe na App Store Aponte a câmera do seu celular para o QR Code ou busque na sua loja de apps. Baixe o app Estratégia MED Preparei uma lista exclusiva de questões com os temasdessa aula! Acesse nosso banco de questões e resolva uma lista elaborada por mim, pensada para a sua aprovação. Lembrando que você pode estudar online ou imprimir as listas sempre que quiser. Resolva questões pelo computador Copie o link abaixo e cole no seu navegador para acessar o site Resolva questões pelo app Aponte a câmera do seu celular para o QR Code abaixo e acesse o app https://estr.at/19t5 https://estr.at/19t5 Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 30 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA 1. Moura, L. R. R.; Alves, M. A. R.; Santos, D. R.; Pecoits Filho, R. Tratado de Nefrologia - 2018 2. Riella, Miguel Carlos. "Princípios de nefrologia e distúrbios hidroeletrolíticos." Princípios de nefrologia e distúrbios hidroeletrolíticos. 2018. 3. Feehally, J., Floege, J., Tonelli, M. and Johnson, R., 2019. Comprehensive Clinical Nephrology. 4. Soleimani, Manoocher, and Asghar Rastegar. "Pathophysiology of renal tubular acidosis: core curriculum 2016." American Journal of Kidney Diseases 68.3 (2016): 488-498. 5. Emmett, Michael. "Metabolic Alkalosis: A Brief Pathophysiologic Review." Clinical Journal of the American Society of Nephrology 15.12 (2020): 1848-1856. 6. Berend, Kenrick. "Diagnostic use of base excess in acid–base disorders." New England Journal of Medicine 378.15 (2018): 1419-1428. 7. Palmer, Biff F., and Deborah Joy Clegg. "The use of selected urine chemistries in the diagnosis of kidney disorders." Clinical Journal of the American Society of Nephrology 14.2 (2019): 306-316. 8. Jaber, Samir, et al. "Sodium bicarbonate therapy for patients with severe metabolic acidaemia in the intensive care unit (BICAR-ICU): a multicentre, open-label, randomised controlled, phase 3 trial." The Lancet 392.10141 (2018): 31-40. 9. Kraut, Jeffrey A., and Nicolaos E. Madias. "Lactic acidosis." New England Journal of Medicine 371.24 (2014): 2309-2319. 10. Kellum, John A. "Saline-induced hyperchloremic metabolic acidosis." Critical care medicine 30.1 (2002): 259-261. 11. Jung, Boris, et al. "Diagnosis and management of metabolic acidosis: guidelines from a French expert panel." Annals of intensive care 9.1 (2019): 1-17. 12. Emmet, M., 2021. UpToDate. [online] Uptodate.com. Available at: [Accessed 15 May 2021]. CAPÍTULO CAPÍTULO 8.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS Caro aluno, gostaria de agradecer sua permanência comigo até o final. Aqui abordamos conceitos essenciais e as principais causas dos distúrbios acidobásicos, conhecimento que certamente o deixará um passo à frente em relação a seus concorrentes nas provas de Residência Médica. Aproveito para fazer a você um convite importantíssimo: não deixe de conferir nosso material sobre análise da gasometria arterial. Nele, você aprenderá a diagnosticar um ou mais distúrbios acidobásicos presentes em um determinado paciente ou caso clínico. A correlação entre o diagnóstico do distúrbio e suas possíveis causas é muito cobrada nas provas, o que torna o domínio dos dois materiais um instrumento fundamental para uma preparação adequada. Um forte abraço e até a próxima! 7.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 31 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA http://med.estrategia.comdessa aula! Acesse nosso banco de questões e resolva uma lista elaborada por mim, pensada para a sua aprovação. Lembrando que você pode estudar online ou imprimir as listas sempre que quiser. Resolva questões pelo computador Copie o link abaixo e cole no seu navegador para acessar o site Resolva questões pelo app Aponte a câmera do seu celular para o QR Code abaixo e acesse o app https://estr.at/19t5 https://estr.at/19t5 Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 30 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA 1. Moura, L. R. R.; Alves, M. A. R.; Santos, D. R.; Pecoits Filho, R. Tratado de Nefrologia - 2018 2. Riella, Miguel Carlos. "Princípios de nefrologia e distúrbios hidroeletrolíticos." Princípios de nefrologia e distúrbios hidroeletrolíticos. 2018. 3. Feehally, J., Floege, J., Tonelli, M. and Johnson, R., 2019. Comprehensive Clinical Nephrology. 4. Soleimani, Manoocher, and Asghar Rastegar. "Pathophysiology of renal tubular acidosis: core curriculum 2016." American Journal of Kidney Diseases 68.3 (2016): 488-498. 5. Emmett, Michael. "Metabolic Alkalosis: A Brief Pathophysiologic Review." Clinical Journal of the American Society of Nephrology 15.12 (2020): 1848-1856. 6. Berend, Kenrick. "Diagnostic use of base excess in acid–base disorders." New England Journal of Medicine 378.15 (2018): 1419-1428. 7. Palmer, Biff F., and Deborah Joy Clegg. "The use of selected urine chemistries in the diagnosis of kidney disorders." Clinical Journal of the American Society of Nephrology 14.2 (2019): 306-316. 8. Jaber, Samir, et al. "Sodium bicarbonate therapy for patients with severe metabolic acidaemia in the intensive care unit (BICAR-ICU): a multicentre, open-label, randomised controlled, phase 3 trial." The Lancet 392.10141 (2018): 31-40. 9. Kraut, Jeffrey A., and Nicolaos E. Madias. "Lactic acidosis." New England Journal of Medicine 371.24 (2014): 2309-2319. 10. Kellum, John A. "Saline-induced hyperchloremic metabolic acidosis." Critical care medicine 30.1 (2002): 259-261. 11. Jung, Boris, et al. 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A correlação entre o diagnóstico do distúrbio e suas possíveis causas é muito cobrada nas provas, o que torna o domínio dos dois materiais um instrumento fundamental para uma preparação adequada. Um forte abraço e até a próxima! 7.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Estratégia MED Prof. Ricardo Leal | Resumo estratégico | 2024 31 Distúrbios Ácido-BásicosNEFROLOGIA http://med.estrategia.com