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TEOLOGIA 
SISTEMÁTICA I
Professor Dr. Hermisten Maia Pereira Da Costa
Professor Me. Roney De Carvalho Luiz
GRADUAÇÃO
Unicesumar
C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação 
a Distância; COSTA, Hermisten Maia Pereira da; LUIZ, Roney de 
Carvalho. 
Teologia Sistemática I. Hermisten Maia Pereira da Costa; 
Roney de Carvalho Luiz. 
Maringá-Pr.: UniCesumar, 2018. Reimpresso em 2023.
375 p.
“Graduação - EaD”.
1. Teologia. 2. Sistemática. 3. Doutrina. 4. EaD. I. Título.
ISBN 978-85-459-0264-5
CDD - 22 ed. 240
CIP - NBR 12899 - AACR/2
Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário 
João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828
Impresso por:
Reitor
Wilson de Matos Silva
Vice-Reitor
Wilson de Matos Silva Filho
Pró-Reitor Executivo de EAD
William Victor Kendrick de Matos Silva
Pró-Reitor de Ensino de EAD
Janes Fidélis Tomelin
Presidente da Mantenedora
Cláudio Ferdinandi
NEAD - Núcleo de Educação a Distância
Diretoria Executiva
Chrystiano Minco�
James Prestes
Tiago Stachon 
Diretoria de Graduação e Pós-graduação 
Kátia Coelho
Diretoria de Permanência 
Leonardo Spaine
Diretoria de Design Educacional
Débora Leite
Head de Produção de Conteúdos
Celso Luiz Braga de Souza Filho
Head de Curadoria e Inovação
Jorge Luiz Vargas Prudencio de Barros Pires
Gerência de Produção de Conteúdo
Diogo Ribeiro Garcia
Gerência de Projetos Especiais
Daniel Fuverki Hey
Gerência de Processos Acadêmicos
Taessa Penha Shiraishi Vieira
Gerência de Curadoria
Giovana Costa Alfredo
Supervisão do Núcleo de Produção 
de Materiais
Nádila Toledo
Supervisão Operacional de Ensino
Luiz Arthur Sanglard
Coordenador de Conteúdo
Roney De Carvalho Luiz
Qualidade Editorial e Textual
Daniel F. Hey, Hellyery Agda
Iconografia
Amanda Peçanha dos Santos
Ana Carolina Martins Prado
Projeto Gráfico
Jaime de Marchi Junior
José Jhonny Coelho
Editoração
Thomas Hudson Costa
Victor Augusto Thomazini
Arte Capa
Arthur Cantareli Silva
Revisão Textual
Ana Caroline de Abreu, Daniela Ferreira dos Santos
Yara Dias Martins, Viviane Favaro Notari
Ilustração
Luís Ricardo Pereira Almeida Prado Oliveira 
Viver e trabalhar em uma sociedade global é um 
grande desafio para todos os cidadãos. A busca 
por tecnologia, informação, conhecimento de 
qualidade, novas habilidades para liderança e so-
lução de problemas com eficiência tornou-se uma 
questão de sobrevivência no mundo do trabalho.
Cada um de nós tem uma grande responsabilida-
de: as escolhas que fizermos por nós e pelos nos-
sos farão grande diferença no futuro.
Com essa visão, o Centro Universitário Cesumar 
assume o compromisso de democratizar o conhe-
cimento por meio de alta tecnologia e contribuir 
para o futuro dos brasileiros.
No cumprimento de sua missão – “promover a 
educação de qualidade nas diferentes áreas do 
conhecimento, formando profissionais cidadãos 
que contribuam para o desenvolvimento de uma 
sociedade justa e solidária” –, o Centro Universi-
tário Cesumar busca a integração do ensino-pes-
quisa-extensão com as demandas institucionais 
e sociais; a realização de uma prática acadêmica 
que contribua para o desenvolvimento da consci-
ência social e política e, por fim, a democratização 
do conhecimento acadêmico com a articulação e 
a integração com a sociedade.
Diante disso, o Centro Universitário Cesumar al-
meja ser reconhecido como uma instituição uni-
versitária de referência regional e nacional pela 
qualidade e compromisso do corpo docente; 
aquisição de competências institucionais para 
o desenvolvimento de linhas de pesquisa; con-
solidação da extensão universitária; qualidade 
da oferta dos ensinos presencial e a distância; 
bem-estar e satisfação da comunidade interna; 
qualidade da gestão acadêmica e administrati-
va; compromisso social de inclusão; processos de 
cooperação e parceria com o mundo do trabalho, 
como também pelo compromisso e relaciona-
mento permanente com os egressos, incentivan-
do a educação continuada.
Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está 
iniciando um processo de transformação, pois quan-
do investimos em nossa formação, seja ela pessoal 
ou profissional, nos transformamos e, consequente-
mente, transformamos também a sociedade na qual 
estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando 
oportunidades e/ou estabelecendo mudanças capa-
zes de alcançar um nível de desenvolvimento compa-
tível com os desafios que surgem no mundo contem-
porâneo. 
O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de 
Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo 
este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens 
se educam juntos, na transformação do mundo”.
Os materiais produzidos oferecem linguagem dialó-
gica e encontram-se integrados à proposta pedagó-
gica, contribuindo no processo educacional, comple-
mentando sua formação profissional, desenvolvendo 
competências e habilidades, e aplicando conceitos 
teóricos em situação de realidade, de maneira a inse-
ri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais 
têm como principal objetivo “provocar uma aproxi-
mação entre você e o conteúdo”, desta forma possi-
bilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos 
conhecimentos necessários para a sua formação pes-
soal e profissional.
Portanto, nossa distância nesse processo de cres-
cimento e construção do conhecimento deve ser 
apenas geográfica. Utilize os diversos recursos peda-
gógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possi-
bilita. Ou seja, acesse regularmente o AVA – Ambiente 
Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e en-
quetes, assista às aulas ao vivo e participe das discus-
sões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de 
professores e tutores que se encontra disponível para 
sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de 
aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranqui-
lidade e segurança sua trajetória acadêmica.
Professor Dr. Hermisten Maia Pereira Da Costa
Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie 
(1993), graduação em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de 
Minas Gerais (1983), graduação em Teologia - Seminário Presbiteriano do Sul 
(1979). Possui as seguintes especializações lato senso feitas na Universidade 
Presbiteriana Mackenzie: Educação (1994); Didática do Ensino Superior 
(1993); Administração com Ênfase em Recursos Humanos (1993); Estudos 
de Problemas Brasileiros (1992). Especialização em História do século XX no 
Brasil pela FAI (1995); Mestrado em Ciências da Religião pela Universidade 
Metodista de São Paulo (1999) e Doutorado em Ciências da Religião pela 
Universidade Metodista de São Paulo (2003). Atualmente, é professor do 
Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição; professor do Centro 
Universitário de Maringá e Professor Adjunto II da Universidade Presbiteriana 
Mackenzie. Sendo professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação 
em Ciências da Religião, professor visitante no Centro de Pós-Graduação 
Andrew Jumper, São Paulo; professor visitante no Seminário Teológico 
Presbiteriano Rev. Manuel Ibáñez Guzmán, Santiago, Chile. 
Professor Me. Roney De Carvalho Luiz
Possui graduação em Teologia pelo Centro Universitário de Maringá (2006) e 
mestrado em Teologia, pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (2012), 
contemplado com bolsa de estudos pela Coordenação de Aperfeiçoamento 
de Pessoal de Nível Superior (Capes). Graduando no curso de licenciatura em 
História. Atualmente, é coordenador e professor do curso de bacharelado em 
teologia EaD - UniCesumar; professor convidado no curso de pós graduação 
lato sensu em teologia bíblica na PUC-PR. Atua, principalmente, na teologia 
bíblica.
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SEJA BEM-VINDO(A)!
Caro(a) aluno(a), seja bem-vindo(a)! Preparamos este material com a intenção de apre-
sentar a você uma exposição teórica dos princípios e conceitos introdutórios e básicos 
da teologia sistemática. Esse material é apenas um lúmen para quem quer ser iluminado 
pelo saber teológico. Fazer teologia é uma arte, portanto, deve-se estudar e assimilar 
teoricamenteEscritura”.85 
E que “só quando Deus irradia em nós a luz de seu Espírito é que a Palavra logra 
produzir algum efeito”.86 Portanto, “o conhecimento de todas as ciências não 
passa de fumaça quando separada da ciência celestial de Cristo”.87 Desse modo, 
“o homem que mais progride na piedade é também o melhor discípulo de Cristo, 
e o único homem que deve ser tido na conta de genuíno teólogo é aquele que 
pode edificar a consciência humana no temor de Deus”.88
Ao longo da História, diversos teólogos têm insistido nesse ponto. O lute-
rano Davi Chyträus (1530-1600) – aluno de Melanchthon (1497-1560) – resumiu 
bem esse espírito, quando escreveu, em 1581, “demonstramos ser cristãos e teó-
logos muito mais através da fé, da vida santa e do amor a Deus e ao próximo, do 
que através da astúcia e das sutilezas das polêmicas”.89 Ele também costumava 
repetir aos seus alunos durante o ano “o estudo da teologia não deve ser condu-
zido através da rixa e disputa, mas pela prática da piedade”.90
83 Consultar referência. 
84 Consultar referência.
85 Consultar referência.
86 Consultar referência.
87 Consultar referência.
88 Consultar referência.
89 Consultar referência. 
90 Consultar referência. 
INTRODUÇÃO A TEOLOGIA
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rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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A Teologia – que a muitos faz estremecer de reverência ou de espanto –91, na 
forma que estamos analisando, tem o sentido de procura bíblica pelos fundamen-
tos da evangelização, não uma teorização ou especulação92 que venha satisfazer 
o nosso intelecto. Na realidade, a especulação, ainda que tenha muitos adeptos, 
tende a nos afastar da verdade, da pureza do Evangelho.93 A profundidade teo-
lógica está aliada ao conhecimento experimental94 de Deus em Cristo (Jr 9.24; 
Os 6.3; Mt 11.27; Jo 14.6,9; 2Pe 3.18) e, como disse J.I. Packer, “conhecer a Deus 
é um relacionamento capaz de fazer vibrar o coração do homem”.95 
Se quisermos ser considerados mestres cristãos, devemos ser fiéis à ver-
dade bíblica. A infidelidade, ao contrário do que possa parecer em um primeiro 
momento, não consiste apenas em acrescentar ensinamentos estranhos à Palavra, 
mas, também, omitir e, talvez de forma mais sutil, nos contentarmos com ame-
nidades, sem expor com clareza, fidelidade e profundidade a Palavra de Deus. 
Fidelidade exige o silêncio reverente diante do mistério e a ousadia edificante 
diante do estudo do revelado; ambas as atitudes nos previnem da especulação 
91 Quanto à estupefação que a palavra “teologia” causa, por exemplo: THIELICKE, H. Recomendações 
aos Jovens Teólogos e Pastores. São Paulo: Sepal, 1990, 69p.; HORDERN, W. Teologia Protestante ao 
Alcance de Todos. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1974, p. 11ss. 
92 Se a especulação indevida é um mal; devemos observar também, que mal semelhante é negligenciar 
o estudo daquilo que Deus nos revelou em Sua Palavra. Calvino (1509-1564) nos advertiu quanto a 
isto, dizendo: “As cousas que o Senhor deixou recônditas em secreto não perscrutemos, as que pôs a 
descoberto não negligenciemos, para que não sejamos condenados ou de excessiva curiosidade, de uma 
parte, ou de ingratidão, de outra” (As Institutas, III.21.4). Alhures, ele observa que a sabedoria consiste 
em reconhecer os nossos limites. “Nem nos envergonhemos em até este ponto submeter o entendimento 
à sabedoria imensa de Deus, que em Seus muitos arcanos sucumba. Pois, dessas cousas que nem é 
dado, nem é lícito saber, douta é a ignorância, a avidez de conhecimento, uma espécie de loucura” (As 
Institutas, III.23.8).
 Calvino orientou-nos pastoralmente, dizendo: “...Que esta seja a nossa regra sacra: não procurar saber 
nada mais senão o que a Escritura nos ensina. Onde o Senhor fecha seus próprios lábios, que nós 
igualmente impeçamos nossas mentes de avançar sequer um passo a mais” (CALVINO, J. Exposição de 
Romanos. (Rm 9.14), p. 330). 
 “Aqueles que inquirem curiosamente acerca de tudo, e que jamais ficam satisfeitos, podem com justiça ser 
chamados ‘questionadores’. Em suma, as coisas mantidas em elevada estima pelos eruditos da Sorbonne 
são aqui condenadas pelo apóstolo. Porquanto toda a teologia dos papistas nada é senão um labirinto de 
questões” (CALVINO, J. As Pastorais. (Tt 3.9) p. 355).
 Do mesmo modo, diz Agostinho: “Ignoremos de boa mente aquilo que Deus não quis que soubéssemos” 
(AGOSTINHO, Comentário aos Salmos. São Paulo: Paulus, (Patrística, 9/1), 1998, v. 1, (Sl 6), p. 60).
93 “O fútil ensino dos sofistas, erguendo-se em airosas especulações e sutilezas, não só obscurecem a 
simplicidade da doutrina genuína com suas implicações, mas também a oprimem e a fazem desprezível, 
já que o mundo quase sempre se deixa levar pela aparência externa” (CALVINO, J., As Pastorais. (1Tm 
6.20), p. 186).
94 Somente aquele que conhece experimentalmente a Deus pode confiar no Seu poder e descansar nas Suas 
Promessas. Vejam-se: PACKER, J. I. O Conhecimento de Deus, São Paulo: Mundo Cristão, 1980, p. 9-35.
95 Consultar referência.
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pecaminosa e da ingratidão para com o que Deus nos tem concedido na Escritura. 
Calvino nos instrui dizendo que “as cousas que o Senhor deixou recônditas em 
secreto não perscrutemos, as que pôs a descoberto não negligenciemos, para 
que não sejamos condenados ou de excessiva curiosidade, de uma parte, ou de 
ingratidão, de outra”.96
Isso não significa que todos nós conseguimos compreender perfeita e exaus-
tivamente a Palavra, mas aponta para a responsabilidade que temos de, pela 
graça, crescer no conhecimento de Jesus Cristo que nos advém pela Escritura 
(2Pe 3.18). O ensino da Palavra é um privilégio altamente responsabilizador. 
Deus, por graça, tem se valido de Seus servos para a transmissão de Sua mensa-
gem. Somos embaixadores cuja responsabilidade é sermos integralmente fiéis à 
mensagem do Rei. Não somos autores da mensagem; ela não nos pertence. No 
entanto somos arautos e embaixadores comissionados pelo Senhor a quem deve-
mos representar com integridade e responsabilidade (Mt 10.5-7,16,40; 2Co 5.20; 
1Ts 2.13).97 Com conhecimento de causa, em 1956, Lloyd-Jones (1899-1981), 
lamentava que “muitíssimas vezes os ministros cristãos não têm sido senão uma 
espécie de Capelão da Corte, declarando vagas generalidades”.98 
Como pregadores e mestres, é necessário que não nos contentemos em guiar 
as pessoas apenas pelo sopé da montanha da glória de Deus; “torne-se um alpi-
nista nos rochedos íngremes da majestade de Deus”, aconselha Piper.99 
Podemos estar tão preocupados com as nossas teorias que transformamos 
a Palavra em apenas um elemento convalidador do que pensamos. Deste modo, 
também nos tornamos infiéis ao Senhor da Palavra. É extremamente perigoso 
pensarmos autonomamente e fazermos de Deus um ventríloquo que, com voz 
estranha, diga o que queremos. Deus e a Sua Palavra não se adéquam a este papel. 
A fidelidade doutrinária parte do desejo de conhecer a Palavra e expô-la em sua 
profundidade, abrangência e simplicidade; nada mais, nada menos. 
O apóstolo Paulo tinha consciência de que a sua mensagem era pura e sim-
plesmente “todo o desígnio de Deus” (At 20.27).
96 CALVINO, J., As Institutas, III.21.4.
97 Consultar referência.
98 Consultar referência.
99 Consultar referência.
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O ministério pastoral envolve o anúncio perseverante da Palavra (At 
20.20,24,27,31). “A tarefa dos mestres consiste em preservar e propagar as sãs 
doutrinas para que a pureza da religião permaneça na Igreja”.100
b) Servir como elemento norteador para o pregador na exposição da Palavra 
e defesa de nossa fé
“O cristão (...) jamais pode olhar a verdade com apatia ou desdém. Pelo 
contrário, ele prezae valoriza a verdade como reflexo do próprio Deus” 
‒ William L. Craig.101
“Não devemos cometer o erro de fazer da evangelização uma inimiga 
da teologia e do discipulado um inimigo da erudição edificante” ‒ John 
Piper.102 
“Ainda que a apologética e o evangelismo sejam conceitos diferentes, 
não podem existir isolados um do outro. (...) Somos chamados a ser 
apologistas e evangelistas. Confrontar o erro é proclamar a verdade e 
vice-versa” ‒ Nathan Busenitz.103
A nossa fé é sempre um transpirar de nossa teologia. A teologia é uma sistema-
tização do revelado na Palavra, a fim de tornar mais compreensível a plenitude 
da revelação. A teologia, portanto, nada tem a dizer além da Escritura. Ela não 
a substitui nem a completa, antes, deve ser a sua serva.104 A teologia brota den-
tro da intimidade da fé daqueles que cultuam a Deus e comprometem-se com a 
edificação da igreja. Desse modo, devemos entender que “a teologia robusta, em 
vez de obstruir a prática do ministério, enriquece-o, visto que a prática do minis-
tério aprimora e aumenta a apreciação de alguém pela teologia”.105
100 Acentua MacArthur: “Toda a tarefa do ministro fiel gira em torno da Palavra de Deus – guardá-la, 
estudá-la e proclamá-la” (MACARTHUR, J. F. Com Vergonha do Evangelho, São José dos Campos, SP.: 
Fiel, 1997, p. 29).
101 Consultar referência.
102 Consultar referência.
103 BUSENITZ, N. A Palavra da Verdade em um mundo de erro: Fundamentos da apologética Cristã: In: 
MACARTHUR, J. et al. Evangelismo: compartilhando o Evangelho com fidelidade, São José dos Campos, 
SP.: Editora Fiel, 2012, p. 66,67.
104 “A doutrina está sempre subordinada às Escrituras é sempre sua serva, nunca mestra” (MCGRATH, A. 
Teologia para Amadores, São Paulo: Mundo Cristão, 2008, p. 32).
105 Consultar referência.
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A Teologia Sistemática funciona como boias (ou se preferirem, faróis) que ser-
vem para guiar, sinalizar e orientar o pregador na elaboração do seu sermão.106 A 
Palavra de Deus é um todo orgânico que se harmoniza, todavia essa compreensão 
só será possível por intermédio do seu estudo sistemático. O estudo da Teologia 
Sistemática – aliado, obviamente, à leitura e meditação das Escrituras –, ajuda-nos 
nesse processo de conhecimento global: a harmonia da revelação de Deus está pre-
sente em todas as páginas da Bíblia. Por isso, o pregador terá melhores condições 
de entender o texto que servirá de base para o seu sermão, recorrendo à exegese, 
à história bíblica e à Teologia Bíblica e Sistemática, tendo uma visão mais clara do 
que as Escrituras nos ensinam a respeito daquele passo sagrado. Chapell define 
exegese como “o processo mediante o qual os pregadores descobrem as definições 
e as distinções gramaticais das palavras num texto”.107 MacArthur enfatiza: “nin-
guém tem o direito de ser um teólogo se não for um exegeta”.108
A Confissão de Westminster (1647), conforme vimos, expressa bem esse 
conceito ao dizer, no capítulo 1, seção 9: 
a regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; por-
tanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de 
qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), 
esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que 
falem mais claramente (Mt 4.5-7; 12.1-7).
No século XX, C.S. Lewis (1898-1963), em mais uma de suas ficções, cria um 
personagem demoníaco (1941) que, por meio de cartas infernais (ou seriam 
celestiais?) ensinando ao demônio mais jovem como solapar com sutileza a 
igreja, termina por nos mostrar algumas estratégias de Satanás. Segue uma delas:
106 Fiquei satisfeito ao ler em Barth, advertência semelhante: “Os dogmas são como bóias, postes 
indicadores que assinalam a boa direção. Não é preciso fazer uma exposição dos dogmas nem expor 
seu conteúdo teológico, senão deixar-se guiar por eles” (BARTH, K. La Proclamacion del Evangelio, 
Salamanca: Ediciones Sigueme, 1969, p. 87).
107 Consultar referência.
108 MACARTHUR JUNIOR, J. F. Princípios para uma Cosmovisão bíblica: uma mensagem exclusivista 
para um mundo pluralista, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003, p. 50. “Se não nos propusermos a ser 
estudantes de língua e literatura além de teologia, sempre seremos limitados na capacidade de ‘manejar 
bem a palavra da verdade’.” (KÖSTENBERGER, A. J.; PATTERSON, R. D. Convite à interpretação 
bíblica: A tríade hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 2015, p. 580). “Não haverá um pregador 
verdadeiro, se tudo o que ele disser não estiver fundamentado em exatidão exegética. Pecamos quando 
pregamos aquilo que achamos que as Escrituras afirmam, e não pregamos o seu verdadeiro significado. 
Também pecamos quando pregamos os pensamentos que a Palavra desperta em nosso intelecto e não 
aquilo que a Palavra realmente declara. Um arauto é um traidor, se não transmite exatamente o que o Rei 
diz” (OLYOTT, S. Pregação pura e simples, São José dos Campos, SP.: Fiel, © 2010, 2012, p. 29).
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Ora, se conseguirmos fazer com que os homens fiquem a formular per-
guntas assim: ‘isto está em consonância com as tendências gerais dos 
movimentos contemporâneos? É progressista, ou revolucionário? Obe-
dece à marcha da História?’ então os levamos a negligenciar as questões 
efetivamente relevantes. E o caso é que as perguntas que assim insisti-
rem em formular são irrespondíveis; visto que não conhecem nada do 
futuro e o que o futuro haverá de ser dependerá muitíssimo, exatamen-
te, daquelas preferências a propósito das quais buscam socorro do fu-
turo. Como consequência, enquanto suas mentes ficam assim a zumbir 
nesse verdadeiro vácuo, temos nossa melhor oportunidade de até imis-
cuir-nos para forçá-los à ação correspondente aos nossos propósitos. 
A obra já realizada neste sentido é enorme. (LEWIS, 1964, p. 160-161).
O propósito da pregação cristã não pode ser simplesmente debater por deba-
ter, ou vencer o seu adversário.109 Talvez haja aqui algo de sutilmente ardiloso e 
diabólico. Toda pregação visa conduzir o homem a Cristo, o Deus-Encarnado. 
Sabemos de nossas limitações aqui. Podemos e devemos pregar a Palavra em 
sua inteireza, com fidelidade, sinceridade e real interesse. Contudo a conversão 
é obra do Espírito de Deus. Faremos bem em nos ater à nossa esfera confiada 
por graça a nós (1Co 9.16; Ef 3.8). Calvino, com a lucidez que lhe é própria, já 
nos advertiu em mais de um lugar:
Gostaria que isso fosse levado em conta por aqueles que estão sempre 
com a língua bem afiada, procurando polemizar em cada questão e so-
fismar em torno de uma única palavra ou sílaba. Mas eles são impulsio-
nados pela ambição, a qual, como sei de experiência pessoal com alguns 
deles, às vezes é uma doença quase fatal. O que o apóstolo diz acerca da 
subversão daqueles que ouvem é plenamente comprovado pela observa-
ção diária. É natural que em meio às contendas percamos nossa apreen-
são da verdade, e Satanás faz mal uso das controvérsias como pretexto 
para subverter e destruir nossa fé (CALVINO, 1998, p. 233).
Portanto, devemos nos preparar para apresentar, quando necessário, uma defesa de 
nossa fé. Devemos saber em quem e porque cremos. A Palavra de Deus é o fundamento 
de nossa fé e da apresentação do Evangelho. A instrução de Paulo é fundamental: 
“tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus” 
(Ef 6.17). Não podemos ir para guerra desarmados, ou com armas inadequadas resul-
tantes da ignorância de quem são nossos adversários e qual o propósito dessa luta.
109 Consultar referência.
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Assim, “quando a apologética é biblicamente aplicada, o evangelismo é fortale-
cido”.110 Não podemos defender a causa de Deus sem nos valermos do ensino, 
correção, disciplina e método do próprio Deus, tendo sempre diante de nós, o 
propósito de Deus. A apologética contempla também, em seus objetivos, con-
duzir o homem, em sua agonia e desespero resultantes de seu afastamento de 
Deus, à reconciliação com o seu Senhor por meio de Jesus Cristo. Isso é somente 
pela graça de Deus (2Co 5.18-6.3). Sem a graça todo o nosso labor será em vão. 
O nosso labor não se opõe à oração nem esta exclui aquele.111
Francis Schaeffer (2002, p. 261) é enfático:
...a apologética, como eu encaro, não deve ser de forma alguma separa-
da da evangelização. De fato, eu me pergunto se a ‘apologética’ que não 
leva as pessoas até Cristo como salvador, e depois para o viver sob o 
senhorio de Cristo, na verdade pode ser considerada apologética cristã.
A apologética, além de defesa da fé, tem também um sentido de proclamação, 
de testemunho de sua fé e esperança. Paulo, na prisão, diz aos filipenses: “...vos 
trago no coração, seja nas minhas algemas, seja na defesa (a)pologi/a)112 e con-
firmação (bebai/wsij)113 do evangelho...” (Fp 1.7/Fp 1.16). Pedro escreve aos 
irmãos das igrejas da Dispersão dizendo que eles deveriam estar “...sempre pre-
parados (e)/toimoj)114 para responder (a)pologi/a) a todo aquele que vos pedir 
razão da esperança que há em vós” (1Pe 3.15).
Paulo, no final de sua vida, não deu um “salto no escuro”, antes declarou a 
sua inabalável confiança no Deus que conhecia e pelo qual dedicou a sua vida: 
110 Consultar referência.
111 Consultar referência.
112 * At 22.1; 25.16; 1Co 9.3; 2Co 7.11; Fp 1.7,16; 2Tm 4.16; 1Pe.3.15. O verbo a)pologe/omai é empregado 
da mesma forma, sendo utilizado somente por Lucas e Paulo (* Lc 12.11; 21.14; At 19.33; 24.10; 25.8; 
26.1,2,24; Rm 2.15; 2Co 12.19. As palavras tinham um emprego jurídico (2Tm 4.16). É célebre a passagem 
na qual Sócrates (469-399 a.C.), alega não ter apresentado uma apologia (a)pologi/a) em sua defesa 
diante dos juízes porque o seu demônio se opôs (Veja: XENOFONTE, Ditos e Feitos Memoráveis de 
Sócrates, São Paulo: Abril Cultural, 1972, (Os Pensadores, v. 2), IV.8.5, p. 163). Compare a declaração 
de Sócrates com outra que faz a respeito da influência do demônio em sua vida (PLATÃO, Defesa de 
Sócrates, São Paulo: Abril Cultural, 1972, (Os Pensadores, v. 2), 31 c-d, p. 22).
113 A ideia da palavra é de solidez, indicando um firme fundamento. Ela tem o sentido aqui de apresentar 
as evidências confirmadoras do Evangelho. Bebai/wsij (*Fp 1.7; Hb 6.16). Ver também: Be/baioj (* 
Rm 4.16; 2Co 1.7; Hb 2.2; 3.6,14; 6.19; 9.17; 2Pe 1.10,19) e Bebaio/w (*Mc 16.20; Rm 15.8; 1Co 1.6,8; 2Co 
1.21; Cl 2.7; Hb 2.3; 13.9).
114 Tendo o sentido de pronto, apercebido, atento. A igreja deve estar pronta, preparada para toda boa obra 
(Tt 3.1). A nossa salvação está pronta, preparada para manifestar-se no último dia (1Pe 1.5). 
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“...porque sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guar-
dar o meu depósito até aquele Dia” (2Tm 1.12). Paulo não fala de hipóteses ou 
teorias, afirma sim a sua firme certeza na verdade de Deus.
6Quanto a mim, estou sendo já oferecido por libação, e o tempo da 
minha partida é chegado. 7 Combati o bom combate, completei a car-
reira, guardei a fé. 8 Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual 
o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas 
também a todos quantos amam a sua vinda” (2Tm 4.6-8). 
Em uma sociedade pragmática e imediatista, em que o verdadeiro é o que fun-
ciona e me proporciona mais conforto e sucesso, já não existe interesse pela 
verdade. Ela tornou-se irrelevante.115 No entanto a busca da verdade pela verdade 
é uma característica fundamental da Igreja. Já que cabe à Igreja o privilégio de 
proclamar a Palavra, ela tem de compreender as Escrituras para anunciá-la com 
fidelidade e vivenciá-la para proclamar com autoridade. Por isso, a Igreja é cha-
mada de “coluna e baluarte da verdade”, porque a ela foram confiados os oráculos 
de Deus (Rm 3.2/1Tm 3.15). A Igreja como baluarte da verdade está amparada 
no fundamento que consiste na obra de Deus realizada por intermédio de Cristo 
(Mt 16.18/Ef 2.20).116 “Escrevo-te estas coisas, esperando ir ver-te em breve; para 
que, se eu tardar, fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus, que é 
a igreja do Deus vivo, coluna (stu=loj)117 e baluarte (* e(drai/wma) da verdade 
(a)lh/qeia)” (1Tm 3.14-15).
Deus Se dignou em preservar a verdade por meio da Igreja. Quando a Igreja 
falha nesse propósito, ainda que a verdade não seja abalada em sua essência, ela 
se torna fragilizada em sua exposição e aceitação.
A igreja enfrenta, aqui, dois perigos evidentes:
a. A “barganha” com o mundo. Na pretensão de ser ouvida de forma impac-
tante, negocia os seus valores por meio da assimilação dos valores seculares. 
Na adoção dessa prática, a igreja perde totalmente a sua relevância como 
voz profética de Deus para a sua geração. 
115 Consultar referência.
116 Consultar referência. 
117 * Gl 2.9; 1Tm 3.15; Ap 3.12; 10.1.
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b. A “privatização” da fé: a minha religião e nada mais. Criamos, aqui, uma 
espécie de tribalismo religioso, em que cultivamos a nossa fé intramuros 
e nada temos a ver com o que se passa “lá fora”, exceto, quem sabe, por 
meio da internet ou televisão.
A igreja é chamada a atuar do mundo. Essa atuação engloba uma agenda que 
envolva uma mudança de perspectiva em nossa relação familiar, profissional, 
social, econômica, política e religiosa. A relevância da verdade sustentada pela 
igreja deve se manifestar em todas as esferas.
A Igreja tem, portanto, a grande responsabilidade de estudar a Palavra, pro-
clamá-la e vivenciá-la. A Igreja é o meio de demonstração dessa verdade (Ef 
3.8-11). A nossa responsabilidade primeira é com a verdade de Deus.118
Lembrando-nos sempre de que “conhecer a Deus pela fé, portanto, é o alvo 
da apologética”.119
c) Evangelização “plena” 
O Evangelho deve ser proclamado em sua inteireza a todos os homens e ao homem 
todo; a teologia oferece solidez na transmissão dessa verdade, mostrando Quem 
é Deus e a real necessidade do homem. 
Tudo o que as Escrituras dizem a respeito do homem, e particularmen-
te tudo o que elas dizem sobre a salvação do homem, é afinal de contas 
para glória de Deus. Nossa teologia está centralizada em Deus porque 
nossa vida está centrada em Deus.120
Billy Graham, em 1974, no Congresso de Lausanne, na Suíça, afirmou cor-
retamente: “se há uma coisa que a história da Igreja nos deveria ensinar, é a 
importância de um evangelismo teológico derivado das Escrituras”.121
118 Consultar referência.
119 Consultar referência.
120 Consultar referência.
121 Consultar referência.
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A pregação não é dirigida apenas à emoção, mas também à mente; ela pre-
cisa ser entendida, por isso, a mensagem deve ser apresentada de forma clara e 
objetiva – sem que, com isso, estejamos esquecendo que a conversão é obra do 
Espírito –, visando atingir os nossos ouvintes: “o propagador do evangelho deve, 
por conseguinte, ter um alcance inteligente do significado do evangelho e deve 
estar em condições de dar uma afirmação inteligente acerca do mesmo”.122 A ope-
ração do Espírito não elimina nem atenua a nossa responsabilidade de proclamar 
a Palavra com seriedade, esforçando-nos por fazê-lo da melhor forma possível 
conforme os parâmetros bíblicos. Quando pregamos o Evangelho e quando o 
ouvimos,a nossa razão não deve nem pode ser esquecida. “Submissão e uso da 
razão, eis em que consiste o cristianismo”.123 “...é só quando compreendemos 
as doutrinas com as nossas mentes que podemos viver verdadeiramente a vida 
cristã e desfrutá-la, como é o seu propósito para nós”.124
O Evangelho deve ser pregado em sua amplitude; é nossa responsabilidade 
anunciar “todo o desígnio de Deus”, nada ocultando, nada omitindo. A Palavra 
de Deus nos foi dada para que a conheçamos e a pratiquemos, portanto, ela deve 
ser publicada por meio do ensino e da pregação. A Teologia Sistemática auxi-
lia-nos nessa tarefa, fornece-nos uma perspectiva abrangente do ensino bíblico 
a respeito de Deus e de Sua Glória, bem como da natureza humana,125 de suas 
necessidades e como Deus em Sua misericórdia pode satisfazê-las. O Evangelho 
pleno consiste na pregação integral da Palavra. 
O Evangelho não consiste no anúncio de ‘algumas partes’ da Bíblia, mas 
sim de todo o ‘Conselho’ de Deus revelado nas Escrituras (Vejam-se: 
Gl 1.8,9,11). O conteúdo da mensagem cristã deve ser nada mais, nada 
menos do que toda a vontade revelada de Deus (Dt 29.29).126
122 Consultar referência. 
123 Consultar referência.
124 LLOYD-JONES, D. M. As Insondáveis Riquezas de Cristo, p. 41. “A emoção é uma parte vital 
da fé cristã; entretanto o emocionalismo não. O diabo sempre tenta fazer com que nós reajamos 
exageradamente” (LLOYD-JONES, D. M. O Combate Cristão, p. 140). 
125 “Quando Deus, o Espírito Santo, mostra a um homem o que ele realmente é, esse se vê repugnante. 
Nem mesmo cobras venenosas ou sapos asquerosos são tão repulsivos para o homem quanto o homem 
deve ser para Deus. A semelhança de Deus, que outrora esteve nos seres humanos, quase não pode 
mais ser vista” (SPURGEON, C. H. Sermões Sobre a Salvação. São Paulo: Publicações Evangélicas 
Selecionadas, 1992, p. 40-41).
126 Consultar referência.
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Charles H. Spurgeon (1982, p. 94), nas suas preleções às sextas-feiras à tarde, 
ensinou aos seus alunos:
Não se deve reter nenhuma verdade. A doutrina retida, tão detestá-
vel na boca dos jesuítas, não é nem um pouco menos abjeta quando 
adotada por protestantes (...). Os pronunciamentos característicos do 
calvinismo têm sua aplicação na vida diária e na experiência comum, e 
se vocês sustentarem essas ideias, ou as que lhes são opostas, não têm 
licença para ocultar as suas crenças. Em nove de dez casos, a reticência 
cautelosa é traição covarde. A melhor política é não ser político nunca, 
mas proclamar cada átomo de verdade na medida em que Deus lhe 
tenha ensinado (...). Toda a verdade revelada em proporção harmônica, 
deve constituir o seu tema. 
d) Para a elaboração, propagação e defesa da verdade
Uma das razões fundamentais da existência da Dogmática é a preservação da fé 
cristã contra as heresias que assolam a igreja. “É a deteriorização da doutrina que 
conduz a formação da ideia e sistematização do dogma”.127 Partindo diretamente 
das Escrituras, “o dogmático começa por ocupar-se dos dogmas incorporados 
na confissão de sua Igreja e procura ordená-los em um sistema completo”.128 
À teologia não cabe a tarefa de dizer o que as Escrituras não dizem, sob pena 
de deixar de ser uma genuína teologia, antes ela se propõe a pensar sobre as 
Escrituras,129 no afã de elaborar uma sistematização que reflita a complexidade 
e abrangência da totalidade da revelação de Deus (Rm 3.2/1Tm 3.15). Essa tarefa 
exigirá de nós sempre um trabalho árduo e sério, comprometido com a nossa 
fidelidade a Deus. Tomás de Aquino (1225-1274) observou com propriedade: 
“Ninguém pode entregar-se à pesquisa da verdade divina sem muito trabalho e 
diligência. Este trabalho, muito poucos estão dispostos a assumi-lo por amor à 
ciência, embora Deus tenha colocado este desejo no mais profundo do coração 
humano” (AQUINO, p. 67).
127 Consultar referência.
128 Consultar referência.
129 Não nos esqueçamos que o “pensar” teológico envolve uma nova categoria – só possível ao 
regenerado –, que é “pensar de maneira espiritual”; e esse “pensar”, tem como elemento controlador a 
oração. (Sl 119.18/1Co 2.11-16). 
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Em um segundo momento, como foi o caso da Reforma Protestante, a 
Dogmática pode ter o sentido de resgatar a pureza dos ensinamentos bíblicos a 
fim de purificar a mensagem que tem sido transmitida ao longo dos séculos.130 
Notemos, portanto, que a Teologia tem um compromisso com a edificação da 
Igreja (Ef 4.11-16). A Igreja é enriquecida espiritualmente com os ensinamentos 
da Palavra, os quais cabe à teologia organizar. “A teologia é o sustento da vida 
cristã”. Ela “alicerça a vivência cristã”.131 Portanto, vale a pena citar a observação 
de Barth (1886-1968) “o pregador (...) com toda modéstia e seriedade, deve tra-
balhar, lutar para apresentar corretamente a Palavra, sabendo perfeitamente que 
o recte docere só pode ser realizado pelo Espírito Santo”.132
Herman Bavinck (1854-1921 apud ZYLSTRA, p.7), em sua aula inaugural 
em Amsterdã, sobre Religião e Teologia, disse:
religião, o temor de Deus, deve ser o elemento que inspira e anima a in-
vestigação teológica. Isso deve marcar a cadência da ciência. O teólogo 
é uma pessoa que se esforça para falar sobre Deus porque ele fala fora 
de Deus e por meio de Deus. Professar a teologia é fazer um trabalho 
santo. É realizar uma ministração sacerdotal na casa do Senhor. Isso 
é por si mesmo um serviço de culto, uma consagração da mente e do 
coração em honra ao Seu nome.
O apóstolo Paulo diz “toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, 
(didaskali/a = “instrução”) para a repreensão, para a correção, para a educa-
ção na justiça” (2Tm 3.16). Entre outras coisas, isso significa que o nosso pensar 
teológico deverá estar sempre conectado com a fidelidade à Escritura e com o 
ensino da Palavra; esse aspecto realça a nossa responsabilidade como intérpre-
tes e pregadores da Palavra. Por outro lado, há, aqui, um grande conforto, que 
nem sempre temos nos dado conta que não precisamos – nem nos foi requerido 
–, “desculpar” ou “justificar” Deus e a Sua Palavra.133 
130 Consultar referência.
131 Consultar referência. 
132 Consultar referência.
133 Calvino afirma que: “Contra os ímpios, que com destemor falam mal de Deus abertamente, o Senhor 
se defende suficientemente com a Sua justiça, sem que Lhe sirvamos de advogados” (CALVINO, J. As 
Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, v. 3, (III.8), p. 49). Na 
sequência, entretanto, ele nos mostra como Deus nos fornece argumentos racionais para fazer calar as 
suas maldades e injustiças.
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De fato, há sempre o perigo de nossa teologia se transformar em um cerce-
amento das Escrituras, como se pretendêssemos delimitar de forma policiada 
a Deus, um velhinho caduco que já não diz coisa-com-coisa e, por isso, precisa 
ser atenuado em sua Revelação. Calvino, biblicamente, tinha uma compreensão 
bem diferente. Poderíamos citar vários de seus textos que comprovam a nossa 
afirmação, no entanto basta-nos o que destacamos a seguir. Diz ele “a Escritura 
é a escola do Espírito Santo, na qual, como nada é omitido não só necessário, 
mas também proveitoso de conhecer-se, assim também nada é ensinado senão 
o que convenha saber”. (João Calvino, As Institutas, III.21.3).
Não há o que selecionar ou cortar “toda Escritura é (...) útil o para ensino”. 
Algumas vezes, tenho a impressão de que diante de “questões embaraçosas” tais 
como a “condenação de todos os homens inocentes que morreremsem conhe-
cer a Cristo”, a “eleição de uns para a salvação em detrimento de outros”, “o quase 
silêncio dos evangelhos sobre os trinta primeiros anos de Cristo”, e semelhan-
tes, ficamos como que procurando uma justificativa para O Soberano agir desta 
ou daquela forma, buscamos uma maneira de tornar Deus apetecível à mente e 
aos valores modernos e “pós-modernos”. Como cristãos, devemos aprender, se 
ainda não o fizemos, a nos calar diante do silêncio de Deus, sabendo que o som 
da nossa voz petulante e “lógica”134 – em tais circunstâncias –, por si só seria uma 
“heresia”.135 Diante da vontade de Deus – que é a causa final de todos os Seus 
atos –, temos que manter um reverente silêncio, reconhecendo que Ele assim 
age, porque foi do Seu agrado; conforme o Seu santo, sábio e bondoso querer 
Isto nos basta! (Sl 115.3;135.6; Dn 4.35; Ef 1.11). O que nos compete é procu-
rar entender, por meio do estudo e da oração, o que Deus quer nos ensinar em 
“toda a Escritura” e em cada parte da Escritura.136
134 A lógica dirigida pelo espírito de submissão a Deus, sempre será útil; caso contrário, esqueçamo-la. 
No entanto, devemos ter em que mente que “não podemos prender Deus na prisão da lógica humana” 
(HOEKEMA, A. Salvos pela Graça. São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 86).
135 Consultar referência.
136 Spurgeon (1834-1892) salientou: “Não se deve reter nenhuma doutrina. A doutrina retida, tão 
detestável na boca dos jesuítas, não é nem um pouco menos abjeta quando adotada por protestantes” 
(SPURGEON, C. H. Lições aos Meus Alunos. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1982, v. 2, 
p. 94). “O ensino saudável é a melhor proteção contra as heresias que assolam à direita e à esquerda entre 
nós” (SPURGEON, C. H. Lições aos Meus Alunos. v. 2, p. 89).
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Lembremo-nos de que Deus não precisa ser justificado, explicado ou racionali-
zado. Ele ultrapassa em muito a nossa capacidade de percepção (Jó 11.7; Is 40.18, 28; 
45.15; Rm 11.33-36),137 um Deus plenamente explicado seria um “deus” humanizado, 
à altura da nossa “razão” humana e preso à cosmovisão contemporânea. Em cada 
época, esse “deus” seria compreendido de uma forma, de acordo com a percepção e 
valores hodiernos.138 Nesse caso, a Teologia se transformaria em antropologia.139 A 
Teologia não tem nem pode ter esta pretensão – de justificar Deus –; ela apenas O 
descreve conforme Ele Se revelou em atos e palavras nas Escrituras, buscando per-
manentemente a Sua iluminação para a compreensão da Sua Palavra.140 
A teologia reformada sustenta que Deus pode ser conhecido, mas que 
ao homem é impossível ter um exaustivo e perfeito conhecimento de 
Deus (...). Ter esse conhecimento de Deus seria equivalente a compre-
endê-lo, e isso está completamente fora de questão “Finitum non possit 
capere infinitum”.141
“O propósito divino não é satisfazer nossa curiosidade, e, sim, ministrar-nos ins-
trução proveitosa. Longe com todas as especulações que não produzem nenhuma 
edificação”.142 O “proveitoso”, tem a ver com o objetivo de Deus para o Seu povo 
que tenha uma vida piedosa e santa; seja maduro (perfeito).143 Por isso, conclui 
que, “é quase impossível exagerar o volume de prejuízo causado pela pregação 
hipócrita, cujo único alvo é a ostentação e o espetáculo vazio”.144
137 “...o Criador é incompreensível para as Suas criaturas. Um Deus que pudesse ser exaustivamente 
compreendido por nós, cuja revelação sobre Si mesmo não nos apresentasse qualquer mistério, seria 
um Deus segundo a imagem do homem e, portanto, um Deus imaginário, e nunca o Deus da Bíblia” 
(PACKER, J. I. Evangelização e Soberania de Deus, p. 20). 
138 Farley acentua com propriedade que “Um Deus que não fosse inefável, que fosse inteiramente 
conhecido como um objeto, uma coisa ou um dado, não seria o Deus da Escritura” (FARLEY, B. W. A 
Providência de Deus na Perspectiva Reformada: In: MCKIM, D. K. ed. Grandes Temas da Tradição 
Reformada, São Paulo: Pendão Real, 1999, p. 74).
139 Consultar referência.
140 “Visto que somos seres finitos e não podemos enxergar o todo da realidade de uma vez, nossa 
perspectiva da realidade é necessariamente limitada por nossa finitude” (GEISLER, N.; BOCCHINO, P. 
Fundamentos Inabaláveis: resposta aos maiores questionamentos contemporâneos sobre a fé cristã, São 
Paulo: Vida Nova, 2003, p. 50). 
141 Do mesmo modo, enfatiza Schaeffer (1912-1984): “A comunicação entre Deus e o homem é verdadeira, 
o que não significa que ela seja exaustiva. Esta é uma importante diferença e precisa sempre ser mantida 
em mente. Para conhecer qualquer coisa que seja, de forma exaustiva, teríamos que ser infinitos, como 
Deus é. Mesmo no céu não seremos assim” (SCHAEFFER, F. A. O Deus que Intervém, São Paulo: Cultura 
Cristã, 2002, p. 151).
142 Consultar referência. 
143 Consultar referência.
144 Consultar referência.
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Muitas pessoas querem saber do seu futuro, o que as aguarda, se serão bem 
sucedidas em seus projetos etc., buscando, para isso, orientação em cartas de 
baralho, jogo de búzios, em mapas astrais, por meio da necromancia, revela-
ções sobrenaturais e “caixinhas de promessa”. Todavia Paulo está dizendo que 
a Palavra de Deus é útil para o nosso ensino; não para fazer previsões ou para 
ficar entregue aos nossos casuísmos interpretativos ou para satisfazer as nossas 
curiosidades pecaminosas. Ela é útil para o ensino. Deus quer nos falar por inter-
médio da Sua Palavra. A questão é: queremos nós ouvi-lo? Estamos preparados 
para isso? Temos priorizado em nossa vida o ouvir a voz de Deus? Como teólo-
gos, temos nos preocupado com isso, ou simplesmente buscamos, na Palavra, a 
convalidação das nossas hipóteses já dogmatizadas pelas nossas paixões?
Com demasiada frequência, nós procuramos, na Palavra, apenas uma con-
firmação de nossos intentos, de nossos propósitos (2Tm 4.3-4); queremos apenas 
que ela nos diga o que desejamos ouvir. Contudo a observação de Paulo perma-
nece. Toda a Escritura é proveitosa para o ensino, “pois tudo quanto outrora foi 
escrito, para o nosso ensino (didaskali/a) foi escrito...” (Rm 15.4). Precisamos 
ter a “santa modéstia” de deixar que as Escrituras corrijam a nossa teologia e a 
nossa prática.
A Palavra de Deus nos ensina preventivamente. Cabe aos Ministros de Deus 
ensiná-la fielmente, para que a Igreja seja aperfeiçoada em santidade e, assim, “...
não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro, e levados ao 
redor por todo vento de doutrina (didaskali/a), pela artimanha (kubei/a)145 
dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (Ef 4.14). Calvino enfatiza 
que “Deus nos deu sua Palavra na qual, quando fincamos bem as raízes, perma-
necemos inamovíveis; os homens, porém, fazendo uso de suas invenções, nos 
extraviam em todas as direções”.146 
145 kubei/a (só ocorre aqui em todo o Novo Testamento), palavra que vem de ku/boj, astúcia, dolo, 
que, passando pelo latim, cubus, chegou a nossa língua como cubos, dados. Significa a habilidade para 
manipular os dados, usando de truques para iludir e persuadir. Paulo emprega a palavra figuradamente 
para se referir ao homem que usa de todos os seus truques para enganar, dar pistas erradas e driblar; 
revelando aqui a habilidade de um jogador profissional sem escrúpulos, que obviamente quer levar 
vantagem a qualquer preço.
146 Consultar referência.
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Por isso, Paulo enfatiza a responsabilidade de Timóteo e Tito – como de 
todos os Ministros de Deus –, de meditar, preservar e ensinar a sã doutrina (1Tm 
4.6,13,16; Tt 1.9; 2.1,7), pois diz ele: 
...haverá tempo (kairo/j)147 em que não suportarão(a)ne/xomai)148 a 
sã doutrina (didaskali/a); pelo contrário, cercar-se-ão de mestres, 
segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvi-
dos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas” 
(mu=qoj = lenda, mito) 149 (2Tm 4.3-4).
Pode soar estranho, mas, ao que parece, a gravidade do ensino bíblico juntamente 
com a seriedade de suas reivindicações fazem com que o homem não queira saber 
dele, preferindo uma mensagem mais light, que, quando muito, mexa com seus 
músculos, mas não com a sua mente e coração. Para muitas pessoas, a religião 
ocupa um lugar reservado às crianças, às mulheres, aos pobres, aos velhos ou 
quando a medicina confessa a sua impotência. Nessa brecha, a religião pode ter 
alguma importância em que peço ou encomendo algumas orações. O homem 
longe de Deus e avesso a Sua Palavra, quando possível, fabrica e molda seus mes-
tres e domestica os outros.
Na mesma linha de raciocínio, o escritor de Hebreus pede aos seus leitores 
que suportem aquela exortação que fizera; em outras palavras, pede que suportem 
a “sã doutrina”, “rogo-vos ainda, irmãos, que suporteis (a)ne/xomai) a presente 
palavra de exortação; tanto mais quanto vos escrevi resumidamente” (Hb 13.22).
147 A ideia da palavra é de “oportunidade”, “tempo certo”, “tempo favorável” etc. (Veja: Mt 24.45; Mc 12.2; 
Lc 20.10; Jo 7.6,8; At 24.25; Gl 6.10; Cl 4.5; Hb 11.15). Ela enfatiza mais o conteúdo do tempo. Esse termo, 
que ocorre 85 vezes no NT, é mais comumente traduzido por “tempo”, surgindo, então, algumas variantes, 
indicando a ideia de oportunidade. Assim temos (Almeida Revista e Atualizada): Tempo e tempos: Mt 8.29; 
11.25; 12.1; 13.30; 14.1; Lc 21.24; At 3.20; 17.26; “Devidos tempos”: Mt 21.41; “Tempo determinado”: Ap 11.18; 
“Momento oportuno”: Lc 4.13; “Tempo oportuno”: Hb 9.10; 1Pe 5.6; Oportunidade: Lc 19.44; Gl 6.10; Cl 4.5; 
Hb 11.15; Devido tempo: Lc 20.10; Presente: Mc 10.30; Lc 18.30; “Circunstâncias oportunas”: 1Pe 1.11; Algum 
tempo: Lc 8.13; Hora: Lc 8.13; 21.8; Época: Lc 12.56; At 1.7; 1Ts 5.1 (Xro/nwn kai\ tw=n kairw=n); 1Tm 6.15; 
Hb 9.9; Ocasião: Lc 13.1; 2Ts 2.6; 1Pe 4.17; Estações: At 14.17; Vagar: At 24.25; Avançado: Hb 11.11. 
148 A)ne/xomai aparece 15 vezes no Novo Testamento, sendo traduzida por: “Sofrer” (Mt 17.17 = Mc 9.19; 
Lc 9.41); “atender” (At 18.14); “suportar” (1Co 4.12; 2Co 11.1; Ef 4.2; Cl 3.13; 2Ts 1.4; 2Tm 4.3; Hb 13.22); 
“tolerar” (2Co 11.4,19,20). Na LXX este verbo não ocorre. No entanto a)))ne/xw é empregada umas 11 vezes, 
sendo traduzida por: conter (Is 42.14; 64.12); carregar (Is 46.4), deter (Is 63.15) e reter (Am 4.7; Ag 1.10). 
Originalmente, a palavra estava associada à ideia de manter-se ereto, erguido; daí o sentido de suportar de 
“cabeça erguida”. 
149 “Se porventura desejarmos conservar a fé em sua integridade, temos de aprender com toda prudência a 
refrear nossos sentidos para não nos entregarmos a invencionices estranhas. Pois assim que a pessoa passa a dar 
atenção às fábulas, ela perde também a integridade de sua fé” (CALVINO, J. As Pastorais, (Tt 1.14), p. 320). 
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Por sua vez, não devemos “suportar” os falsos mestres com seus ensinos 
enganosos. Paulo receia isso pelos coríntios. Logo eles que eram tão críticos em 
relação a Paulo e tão tolerantes para com o ensino enganoso, que se constituía 
em um “evangelho” estranho e oposto ao ensinado pelo Apóstolo. Notemos que 
os falsos mestres não apresentavam uma imagem de Jesus corrompida, porém 
tentavam distorcer os seus ensinamentos,
mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua as-
túcia, assim também seja corrompida a vossa mente e se aparte da 
simplicidade e pureza devidas a Cristo. Se, na verdade, vindo alguém, 
prega outro (a)/lloj) Jesus que não temos pregado, ou se aceitais espíri-
to diferente (e(/teroj) que não tendes recebido, ou evangelho diferente 
(e(/teroj) que não tendes abraçado, a esse, de boa mente (kalw=j), o 
tolerais (a)ne/xomai) (2Co 11.3-4). 
À frente, Paulo acusa os coríntios de estarem alegremente (“boa mente” h(de/wj),150 
com satisfação e deleite, “tolerando” os insensatos, “porque, sendo vós sensatos, de 
boa mente tolerais (a)ne/xomai) os insensatos” (2Co 11.19).
Somente quando a Igreja se dispõe a aprender com discernimento a Palavra, 
ela pode de fato ter lucidez para interpretar corretamente os outros ensinos. 
Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos alguns 
apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos 
(didaskali/a) de demônios, pela hipocrisia dos que falam mentiras, 
e que têm cauterizada a própria consciência (1Tm 4.1-2). 
Toda a Escritura é útil para o ensino. Queremos aprender com Deus? Desejamos 
fazer a vontade de Deus? Estamos dispostos, de fato, a ouvir a Sua voz? Observe 
bem, estamos dizendo a Sua voz; a voz de Deus, não a nossa. Se a sua resposta for 
não, confesso não ter argumentos para convencê-lo da oportunidade que você está 
deixando escapar, contudo o que posso reafirmar, é que Deus Se revelou na Sua 
Palavra, para que possamos ser conduzidos a Cristo, aprendendo dEle a respeito de 
Si mesmo, de nós e do significado de todas as coisas. Portanto, Ele deseja nos ensinar. 
150 h)de/wj * Mc 6.20; 12.37; 2Co 11.19. A palavra é proveniente de h(donh/, “deleite”, “prazer” (*Lc 8.14; Tt 
3.3; Tg 4.1,3; 2Pe 2.13). h(donh/, de onde vem o termo “hedonista”, é sempre usada negativamente no Novo 
Testamento (Ver: BEYREUTHER, E. Desejo: In: BROWN, C. ed. ger. O Novo Dicionário Internacional 
de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 1, p. 606-608; In: STÄHLIN, G. 
h)donh/: In: KITTEL, G.; FRIEDRICH, G. eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand 
Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983, v. 2, p. 909-926).
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A teologia deve estar sempre a esse serviço aprender e ensinar. A teologia não é 
algo acabado e feito, ela está sempre a caminho, buscando uma compreensão mais 
exaustiva e fiel da Revelação. Quanto aos teólogos, enquanto não aprendermos a 
aprender, não poderemos ser teólogos! O teólogo tem paixão por ensinar, mas a 
sua paixão primeira e prioritária deve ser a de ouvir a voz de Deus nas Escrituras. 
Nenhum homem será sempre um bom mestre se não revelar-se pes-
soalmente educável e sempre disposto a aprender; e ninguém satisfará 
àquele que se acha por demais imbuído da plenitude e lucidez de seu 
conhecimento, que crê que nada lucraria ouvindo a outrem.151
Outro ponto que devemos destacar é que, à Igreja, cabe a responsabilidade de 
propagar o Evangelho e defendê-lo contra as heresias e a imoralidade. Uma visão 
defeituosa da doutrina bíblica levará necessariamente a equívocos na estrutura 
e ensino da Igreja bem como no seu aspecto ético. O cristianismo não é ape-
nas um ensino moral,152 todavia tem implicações naquilo que cremos, na forma 
como encaramos a realidade e, consequentemente, nos nossos valores morais. 
“Uma religião sem doutrina seria uma religião sem significado. E tal religião não 
poderia ser propagada nem defendida”.153 Toda doutrina ensinada nas Escrituras 
tem relação com outras doutrinas, e essas têm implicações direta com a nossa 
ética. Por isso, cada doutrina deve ser vista dentro de uma perspectiva abran-
gente das Escrituras e, ao mesmo tempo, deve vir acompanhada da questão 
pessoal e intransferível – e, por isso mesmo, de extrema relevância o que devo 
fazer? A genuína teologia conduz à piedade. A Teologia Sistemática, partindo 
da Palavra, esforça-se por elaborar um sistema doutrinário que reflita a própria 
organicidade das Escrituras, apresentando-o de forma coerente e organizado, 
proporcionando elementos para o ensino do Evangelho e a defesa da Fé (Fp 
1.7,16; 2.16;2Tm 2.15/1Pe 3.15).
A Igreja é uma comunidade constituída por todos aqueles que, pelo dom 
da fé, atenderam ao convite gracioso de Deus feito por intermédio da Palavra. 
151 Consultar referência.
152 “Se o cristianismo é apenas um ensino moral, um ensino ético, é tão inútil como todos os demais. Está 
provado que o caminho ‘cristão’ é inútil toda vez que o reduzem a esse nível” (LLOYD-JONES, D. M. O 
Combate Cristão, p. 31).
153 Consultar referência.
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Esse convite envolveu o nosso arrependimento e fé, o abandono ao pecado e um 
caminhar seguro em direção a Deus, confiando unicamente nas Suas Promessas.
Desde a Reforma, a “genuína pregação do Evangelho” tem sido identificada 
como uma das marcas da Igreja. Desse modo, a pregação não é algo que a Igreja 
possa optar entre fazer ou não fazer. Por outro lado, devemos enfatizar que a pro-
clamação não é simplesmente a missão da Igreja,é mais do que isso: a pregação é 
essencial a sua própria existência. Por isso, a Igreja, desejosa de fazer a vontade 
de Deus, cumpre de forma natural aquilo que caracteriza o seu ser, que diz res-
peito à razão da sua existência. Desse modo, a Igreja vive na concretização do 
propósito de Deus, anunciando as virtudes de Deus, o Evangelho da graça, para 
que, por meio da Palavra, Deus cumpra todo o Seu propósito de justiça e mise-
ricórdia em todos os homens.
A Igreja se revela no ato proclamador. Ela não é a mensagem, porém, na sua 
existência, ela demonstra o poder daquilo que testemunha, visto ser a Igreja o 
monumento da Graça e Misericórdia de Deus, constituído a partir da Palavra 
Criadora de Deus. É justamente por isso que “a pregação é uma tarefa que somente 
ela pode realizar”.154 
A Teologia Sistemática tem também um compromisso com a elaboração, 
preservação e proclamação da sã doutrina, por isso, ela deve esforçar-se por 
preservar o ensino de todo desígnio de Deus (At 20.27) conforme revelado nas 
Escrituras. “Onde a teologia sistemática é menosprezada, abundam numerosas 
seitas e falsos cultos”.155 
e) Fé salvadora
A revelação é o outro lado da fé. Esta como resultado daquela – por obra do 
Espírito –, precisa ser articulada como exercício reflexivo de sua percepção. A 
teologia é a articulação sistematizada da fé enquanto conhecimento da Revelação 
de Deus. Isto significa que a genuína teologia derivada das Escrituras, só pode ser 
formulada por homens crentes, homens falhos e pecadores, contudo, que foram 
regenerados por Deus (Tt 3.5/Rm 6.14; 1Jo 1.8). A academia sem a fé não ela-
bora teologia! A teologia brota dentro da intimidade da fé.
154 Consultar referência. 
155 Consultar referência. 
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f) Resultante das inferências diretas e indiretas das Escrituras
O estudo e o ensino da doutrina são evidentes nas Escrituras, principalmente 
no Novo Testamento (Mt 13.52; Jo 5.39; Ef 4.11; Cl 1.27; 1Tm 3.2,15; 1Tm 3.2; 
2Tm 2.15; 4.2; Tt 1.1,9). O Cristianismo tem a sua doutrina baseada em fatos 
históricos, os quais sendo retirados anulam o sentido da doutrina cristã (1Co 
15.1-4). O Cristianismo é uma religião de história. Ele se fundamentou na pes-
soa de Cristo, o Deus-encarnado. O Cristianismo é o próprio Cristo.
Queremos realçar que, apesar de toda tentativa de imparcialidade no estudo 
e interpretação da Revelação, buscando, sempre, respeitar os pontos de vista con-
fessionais,156 as obras de Teologia Sistemática sempre refletirão o pensamento de 
uma comunidade confessional. No entanto a nossa atitude deve ser caracterizada 
por uma tentativa de compreensão de cada sistema, ainda que não concordemos 
com ele. A Teologia Sistemática busca um entendimento mais profundo de todo 
o desígnio de Deus revelado, portanto, ela se vale de todos os recursos legítimos 
para uma melhor compreensão da Revelação. Desse modo, a Teologia não pode ser 
simplesmente uma apologia da fé, mas sim uma compreensão da Palavra de Deus 
dentro de um quadro de referência que se julga proveniente da mesma Escritura.
O luterano Gustaf Aulén (1879-1978) observa que, a teologia sistemática só 
pode ser confessional na medida em que o elemento também confessional contri-
bui para a compreensão e percepção do que é essencialmente cristão (...). No que 
tange ao confessionalismo, portanto, o trabalho da teologia sistemática envolve 
contínuo auto-exame, algo muito diverso de toda autossuficiência confessional 
ingênua. A teologia não busca expressões denominacionais do cristianismo, mas 
sim o próprio cristianismo autêntico; não reconhece expressões denominacio-
nais, a não ser que estas deem provas de serem genuinamente cristãs.157
Nessa observação, deve ser ressaltada que a expressão “denominacional do 
cristianismo”, na verdade, nada mais é do que o resultado da convicção de que 
aquela proposição tornou-se denominacional, por ser bíblica, não o inverso. 
Notemos que não estamos dizendo que toda proposição de um sistema teológico 
seja bíblica, mas sim que toda proposição pressupõe ser genuinamente bíblica, 
portanto, a sua formulação e ensino.
156 Consultar referência.
157 Consultar referência.
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As observações de Bavinck (2012, p. 44) são contundentes e responsabilizadoras:
A tarefa imperativa do teólogo dogmático é pensar os pensamentos de 
Deus de acordo com ele e estabelecer sua unidade. Sua tarefa não ter-
mina até que ele tenha absorvido mentalmente essa unidade e a tenha 
demonstrado em uma dogmática. Sendo assim, ele não vai à revela-
ção de Deus com um sistema pronto para, da melhor forma que puder, 
forçar o conteúdo da revelação a encaixar-se dentro dele. Pelo contrá-
rio, até mesmo em seu sistema, a única responsabilidade do teólogo 
é pensar os pensamentos de Deus de acordo com ele e reproduzir a 
unidade que está objetivamente presente nos pensamentos de Deus e 
foi registrada para o olhar da fé na Escritura. Essa unidade que existe 
no conhecimento de Deus contido na revelação não está aberta a dú-
vidas: recusar-se a reconhecê-la seria cair no ceticismo, na negação da 
unidade de Deus.
g) O caráter “teantrópico” da Teologia
Quando usamos o designativo teantrópico para a teologia, estamos aludindo ao 
fato de que ela não é a “Palavra de Deus”; por outro lado, estamos também dizendo, 
que ela não é meramente a “palavra do homem”. Qualquer exclusividade aqui 
negaria a essencialidade da teologia. Se a teologia pretendesse reivindicar para 
si a condição de Palavra de Deus, deixaria de ser teologia, para ser a revelação 
de Deus para o homem. Da mesma forma, se ela fosse olhada apenas como uma 
construção humana, “palavra do homem”, perderia a sua dimensão do eterno, do 
revelado; tornar-se-ia apenas em mais uma “teogonia”, “cosmogonia”; uma fábula 
humana à procura de sua credibilidade que, por sinal, encontraria sempre ouvi-
dos atentos (Cf. 2Tm 4. 3,4). “Teologia fabulosa” é uma contradição de termos.
No entanto, na genuína teologia, temos como ponto de partida a revelação 
de Deus nas Escrituras, matéria sobre a qual trabalha sistematicamente o teó-
logo, buscando, pelo Espírito, a compreensão do revelado para a sua reflexão, 
ensino e prática. Ela não é necessariamente verdadeira, entretanto faz parte da sua 
essência a busca sistemática da verdade, do conhecimento tal qual nos foi dado 
na Escritura. Desse modo, a teologia deve ser a expressão da mente e do cora-
ção iluminados por Deus na compreensão exegética e verbalização da Escritura. 
Portanto, na teologia como na pregação, usamos os recursos de que dispomos e 
que podem e devem ser aperfeiçoados, a fim de falar a Palavrade Deus a nossa 
geração, esmerando-se sempre pela fidelidade ao Autor da Palavra.
INTRODUÇÃO A TEOLOGIA
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Paul Tillich (1886-1965), ainda que não seguindo uma linha teológica evan-
gélica, caracteriza bem a questão da teologia, ao falar da sua tarefa:
A tarefa da teologia é mediação, mediação entre o critério eterno da 
verdade manifesto na figura de Jesus, o Cristo, e as experiências mu-
táveis dos indivíduos e dos grupos, suas variadas questões e suas cate-
gorias de percepção da realidade. Quando se rejeita a tarefa mediadora 
da teologia, rejeita-se a própria teologia; pois o termo ‘teo-logia’ pres-
supõe, em si, uma mediação, a saber, entre o mistério, que é theos, e a 
compreensão, que é logos (TILLICH, 1992, p. 15).158
Conforme temos insistido, a Teologia é uma reflexão159 interpretativa e siste-
matizada da Palavra de Deus. A sua fidedignidade estará sempre no mesmo 
nível da sua fidelidade à Escritura.160 A teologia como ciência não cria fatos.161 
A relevância de nossa formulação não dependerá de sua “beleza”, “populari-
dade” ou “significado para o homem moderno”, mas sim na sua conformação às 
Escrituras. O mérito de toda teologia está no seu apego incondicional e irrestrito 
à Revelação; a melhor interpretação é a que expressa o sentido do texto à luz de 
toda a Escritura,162 ou seja, em conexão com toda a verdade revelada. Nada há 
mais edificante e prático do que a Verdade de Deus!163 
158 Notemos que “as experiências mutáveis dos indivíduos e dos grupos” não se constituem no nosso ponto 
de partida teológico, antes, são desafios para os quais o teólogo deve buscar nas Escrituras a resposta.
159 O conceito da “Teologia” como “reflexão” é comum entre teólogos, mesmo de quadro de referência 
diferentes. O teólogo católico alemão Heinrich Fries (1911-1998), define a teologia como “scientia fidei” 
(“ciência da fé”) e “reflexão sistemática sobre a revelação” (FRIES, H. Teologia: In: FRIES, H. ed. Dicionário 
de Teologia, v. 5, p. 300,302). O presbiteriano John H. Leith conceitua: “Teologia cristã é reflexão crítica 
sobre Deus, sobre a existência humana, sobre a natureza do universo e sobre a própria fé à luz da revelação 
de Deus registradas nas Escrituras e, especialmente, personificada em Jesus Cristo, que é, para a comunidade 
cristã, a revelação final, isto é, a revelação definitiva, o critério para todas as outras revelações” (LEITH, J. H. 
A Tradição Reformada: uma maneira de ser a comunidade cristã, p. 140). 
160 Calvino dedicou o seu Comentário de Romanos (1539) a Simon Grynaeus (1493-1540), com quem 
discutira alguns anos antes sobre a melhor maneira de interpretar as Escrituras. Segundo Calvino, ambos 
concluíram que “a lúcida brevidade (“perspicua brevitas”) constituía a peculiar virtude de um bom intérprete. 
Visto que quase a única tarefa do intérprete é penetrar fundo a mente do escritor a quem deseja interpretar, 
o mesmo erra seu alvo, ou, no mínimo, ultrapassa seus limites, se leva seus leitores para além do significado 
original do autor” (CALVINO, J. Exposição de Romanos, Dedicatória, p. 19). Anos mais tarde (1546), 
escreveria: “... não aprecio as interpretações que são mais engenhosas do que sadias” (CALVINO, J. Exposição 
de 1 Coríntios, (1Co 15.29), p. 472. Veja: também: CALVINO, J., Exposição de Romanos, (Rm 10.18), p. 376; 
CALVINO, J. Gálatas, São Paulo: Paracletos, 1998, (Gl 4.22-25), p. 138-144). 
161 Consultar referência. 
162 “Quão importante é dar-nos conta do perigo de começar com uma teoria e impô-la às Escrituras! (...). 
Temos que ser cuidadosos quando estudamos as Escrituras para não suceder que elaboremos um sistema 
de doutrina baseado num texto ou numa compreensão errônea de um texto” (D. Martyn Lloyd-Jones, As 
Insondáveis Riquezas de Cristo, p. 43). Damião Berge, um estudioso de Heráclito, descreveu a função do 
intérprete, que, pode nos ser útil aqui. Diz o autor: “Interpretar é apreender o sentido depositado nas palavras 
do autor; é retirá-lo de sua reclusão e pô-lo, gradativamente, ao alcance do leitor, processo esse que, em geral, 
culmina num ensaio de tradução tão verbal como acessível” (Berge, D. O Logos Heraclítico: Introdução ao 
Estudo dos Fragmentos, Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1969, p. 63). 
163 Stott coloca a questão nestes termos: “...nada coloca o coração em fogo como a verdade” (STOTT, J. R. W. 
Cristianismo Equilibrado, Rio de Janeiro: CPAD., 1982, p. 62).
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A Teologia Reformada é uma reflexão baseada na Palavra em submissão ao 
Espírito, buscando sempre uma compreensão exata do que Deus revelou e inspirou 
pelo Espírito e que agora nos ilumina pelo mesmo Espírito (Ef 1.15-21/Sl 119.18).
Para os Reformados o valor da teologia estará sempre subordinado à sua fideli-
dade bíblica. Por isso é que se reafirma que, a Teologia ou é Bíblica ou não é Teologia.164 
Não julgamos a Bíblia, antes, é Ela que deve julgar a veracidade do nosso sistema: o 
Espírito falando, por intermédio da Palavra, é o fogo depurador da genuína Teologia.165 
A nossa doutrina estará de pé ou cairá na medida em que for ou não bíblica.166 A viva-
cidade da Teologia Reformada está em sua preocupação em ser fiel às Escrituras.167 
Com isso, ela confessa a sua limitação. A ciência reflete o grau de apreensão de sua 
época, envolvendo seus pressupostos e instrumentos disponíveis. A teologia, por-
tanto, permanece sempre aberta às Escrituras para um conhecimento mais completo 
da Revelação de Deus. Aliás, uma teologia que se fechasse para as Escrituras dei-
xaria de ser teologia, ficaria necrosada, morreria. Portanto, o que permanece para 
nós, constituindo-se no critério último, é “O Espírito Santo falando na Escritura”.168
O teólogo Reformado Geerhardus Vos (1862-1949), assim conceitua: “toda 
genuína Teologia Cristã é necessariamente Teologia Bíblica porque aparte da 
Revelação Geral, a Escritura constitui o único material com o qual a ciência Teológica 
pode tratar”.169
164 Michel, O. escreveu: “toda teologia genuína é a batalha contra o teologismo, a teorização, e contra a 
tentativa de substituir o motivo genuinamente bíblico e histórico por uma transformação filosófica (...). 
Atualmente desejamos cada vez mais ouvir a nós mesmos, enquanto a Bíblia nos convidaria a ouvir a 
palavra pura” (apud BLAUW, J. A Natureza Missionária da Igreja, São Paulo: ASTE., 1966, p. 105).
165 Corretamente declarou Lloyd-Jones (1899-1981): “O Espírito Santo é o poder atuante na Igreja, e o 
Espírito Santo jamais honrará coisa alguma senão a Sua Palavra. Foi o Espírito Santo quem nos deu esta 
Palavra. Ele é o seu Autor. Não é dos homens! Tampouco a Bíblia é produto da ‘carne’ e do ‘sangue’ (...). O 
Espírito não honrará nada, senão Sua Palavra. Portanto, se não crermos e não aceitarmos sua Palavra, ou se 
de algum modo nos desviarmos dela, não teremos direito de esperar a bênção do Espírito Santo. O Espírito 
Santo honrará a verdade, e não honrará outra coisa. Seja o que for que fizermos, se não honrarmos esta 
verdade, Ele não nos honrará” (Lloyd-Jones, D. M. O Combate Cristão, p. 103).
166 Após redigir essas linhas, li o teólogo batista, Erickson, dizendo que a teologia sistemática não é baseada sobre 
a teologia bíblica; ela é teologia bíblica. “Nosso objetivo é uma teologia bíblica sistemática”; é ter uma teologia 
bíblica “pura” (Erickson, M. J. Christian Theology, 8. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker, 1991, p. 25).
167 Harrison acentuou que, “a importância da Reforma para a crítica bíblica, não esteve tanto na preocupação 
com os processos históricos ou literários envolvidos na formulação do cânon bíblico, senão em sua insistência 
contínua na primazia do singelo sentido gramatical do texto por direito próprio, independente de todainterpretação feita pela autoridade eclesiástica” (Harrison, R. K. Introduccion al Antiguo Testamento, 
Jenison, Michigan: T.E.L.L., 1990, v. 1, p. 7-8). 
168 Confissão de Westminster, I.10. 
169 VOS, G. Biblical Theology: Old and New Testament, Grand Rapids, Michigan: WM. B. Eerdmans 
Publishing Co., 1985 (reprinted), “Preface”, p. v. Lloyd-Jones (1889-1981), nos adverte quanto ao perigo de 
transformarmos a teologia em algo etéreo: “O grande perigo é tornar a teologia um tema abstrato, teórico, 
acadêmico. Ela jamais poderá ser isso, porque é conhecimento de Deus” (LLOYD-JONES, D. M. Uma 
Escola Protestante Evangélica In: Discernindo os Tempos, p. 389). 
INTRODUÇÃO A TEOLOGIA
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O teólogo (Theo-lógos) é aquele que transmite a Palavra de Deus (papel 
ativo) e, ao mesmo tempo, é aquele que a recebe (papel passivo). A genuína 
teologia será sempre a “logia” a respeito de Deus que se origina na “logia” do 
próprio Deus. Sem essa relação contínua e vital, não há teologia. Portanto, o 
seu esforço caracterizar-se-á sempre por uma conexão coerente entre o ouvir e 
o falar, conforme o registro inspirado das Sagradas Escrituras. Esse ouvir estará 
sempre conectado aos recursos que Deus nos tem concedido para a interpreta-
ção da Sua Revelação, e o falar, estará comprometido com os “oráculos de Deus” 
(1Pe 4.11). Portanto, como vimos, “o fim de um teólogo não pode ser deleitar o 
ouvido, senão confirmar as consciências ensinando a verdade e o que é certo e 
proveitoso”.170 Por isso, o fim da teologia não pode ser simplesmente o de dizer 
coisas agradáveis aos homens, mas sim o de anunciar toda a verdade de Deus 
revelada, conforme nos foi dado conhecer, reconhecendo, nessa formulação e 
proclamação, o aspecto divino e o humano da teologia.
170 CALVINO, J. As Institutas, I.14.4.
“Não creias que te baste a leitura sem a unção, a especulação sem a devoção, 
a investigação sem a admiração, a atenção sem a alegria, a atividade sem a 
piedade, a ciência sem a caridade, a inteligência sem a humildade, estudo 
sem a graça divina, a pesquisa sem a sabedoria que vem de Deus.” 
Fonte: Boaventura (OT 16, n. 32, p. 139).
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nesta unidade, estudamos a compreensão do tema e do objeto do método cien-
tífico de se estudar a teologia, passando pelas diferentes abordagens e grandes 
áreas de estudos teológicos. Aprendemos que é necessário conhecer os pressu-
postos e o método do saber teológico.
Estabelecemos a importância de conhecer e estudar a genuína teologia, tendo 
como ponto de partida a revelação de Deus nas Escrituras, matéria sobre a qual 
trabalha sistematicamente o teólogo, buscando, pelo Espírito, a compreensão 
do revelado para a sua reflexão, ensino e prática. Ela não é necessariamente ver-
dadeira, entretanto faz parte da sua essência a busca sistemática da verdade, do 
conhecimento tal qual nos foi dado na Escritura.
Finalmente, na ótica da teologia cristã reformada, aprendemos a necessi-
dade e tarefa natural da inteligência humana e a relação sistematizada da verdade 
como elemento norteador e desenvolvedor da piedade.
1. Retomando a definição de teologia como sendo o estudo da Revelação Pessoal 
de Deus, conforme registrada nas Escrituras Sagradas, em forma de esboço, des-
creva, de acordo com a unidade estudada, como podemos indicar os pressupos-
tos da teologia cristã.
63 
Dirijo-me a você, caro jovem, você que está começando o estudo da teologia. Para mim, 
você representa a teologia do futuro, de modo que, dirigindo-me a você, é como se eu 
falasse ao teólogo do III Milénio, que está às portas. Quero dirigir-me também a quem, 
mesmo não sendo jovem de idade, se interessa pelas coisas da fé, ainda que de modo 
informal.
Permita-me apresentar-lhe aqui uma espécie de decálogo. São dez leis para estudar 
bem teologia. “Leis” talvez seja uma palavra forte demais. Falemos então em “conselhos”.
Premissa: “Teologizar é preciso…”
Antes de começar, quero que você esteja bem convencido da importância e mesmo da 
necessidade de estudar teologia. Enfatizar que vale a pena gastar os dias a aprofundar 
o mistério de Deus, o que não deixa, aliás, de redundar em benefício próprio e de todo 
o povo.
É a muitos títulos que a teologia é necessária. Vejo pelo menos cinco instâncias dife-
rentes que solicitam o estudo da teologia: a fé, o mundo, a vida, a época de hoje e a 
realidade social.
1. A fé pede teologia. É, em primeiro lugar, a própria fé que, por sua dinâmica interna, 
busca compreender o que crê. Todo “crente” verdadeiro é também, e a seu modo, 
um “teólogo”. Pois, a teologia é precisamente “a fé que deseja entender”, como a de-
finiu magistralmente Sto. Anselmo. Sem o estudo, a fé facilmente cai na cegueira do 
irracionalismo e da superstição, ou na miopia da superficialidade e do sincretismo.
2. O mundo que existe pede teologia. A própria criação é um grito inarticulado por 
um Criador. A teologia nada mais faz senão recolher esse grito e articulá-lo racional-
mente. E se você incluir na ideia de mundo o curso histórico, inclusive os eventos 
da Revelação, então a razão é interpelada no máximo de sua potência. Ela, que se 
interroga sobre tudo, não pode se esquivar de perguntas como: Que querem nos 
dizer os “enviados de Deus”, especialmente Jesus de Nazaré?
3. A vida pede teologia. Nós, os viventes, buscamos inelutavelmente o sentido último e 
radical das coisas. Por que a existência, a dor, a culpa, a morte? Como responder ade-
quadamente a essas questões fundamentais e perenes sem recorrer a alguma teologia?
4. Nossa época pede teologia. A cultura moderna é essencialmente reflexiva: não 
se contenta apenas com o recurso à tradição, mas pergunta sempre pelo porquê 
de tudo. Mesmo a chamada razão pós-modema, embora prefira o “discurso fraco”, 
ela também precisa ser submetida a discernimento. Mais: as questões atuais com 
que a fé se vê confrontada são tão complexas que exigem reflexão elaborara da e 
rigorosa. Pense somente nas questões que põe hoje a economia (neoliberalismo, 
mercado, globalização, tecnologia, etc.); ou as que colocam as ciências modernas, 
como a biologia (clonagem, inseminação e gestação humanas em meios artificiais), 
a cosmologia (origem e fim do cosmos, leis constitutivas do universo, a hipótese de 
outros mundos habitados, etc.), a ecologia e poderíamos continuar.
5. A realidade social em que vivemos pede teologia. Qual é a missão dos cristãos fren-
te aos grandes desafios sociais de hoje? Para confrontar seriamente a fé com esses 
desafios é preciso botar a razão teológica para funcionar. Sobretudo nós, no Sul do 
mundo, queremos saber como a fé pode ser fermento de libertação para a massa 
de excluídos do sistema social. Agora, se você incluir na realidade social a cultura, 
então surgem outras perguntas, tipicamente teológicas, como: Que sinais de Deus 
estão presentes nessa ou naquela cultura? Como inculturar aí as linguagens e as 
práticas cristãs?
1. Bem, meu caro amigo, parece-me que ficou claro porque é necessário e mesmo 
urgente fazer hoje teologia. Escute agora como proceder no estudo dessa ciên-
cia. Passo agora aos dez conselhos de que falei acima.
2. Antes de falar de Deus, ponha-se de joelhos e fale com Deus.
3. Nunca perca de vista o tema central da teologia: o mistério de Deus.
4. Seja a Sagrada Escritura o principal texto de referência de sua teologia.
5. Sua teologia deve permanecer vitalmente ligada à Comunidade de Fé: a Igreja.
6. Mantenha sempre viva a consciência da pobreza da linguagem humana frente 
ao Mistério. 
7. Tenha paixão pelo conhecimento de Deus e das coisas de Deus.
8. Faça uma teologia que esteja a serviço do Povo de Deus.
9. Que sua teologia leve sempre em conta a realidade do povo.
10. Não esqueça de desdobrara dimensão sócio-libertadora da fé.
11. Faça teologia com o ouvido aberto a quem sofre.
Fonte: Boff (1999, p. 78s).
Material Complementar
MATERIAL COMPLEMENTAR
Antologia Teológica
Ferreira, Julio Andrade (org.)
Editora: Novo Século - Ed. Cristã
Sinopse: O Brasil, por um bom tempo, fi cou carente de obras na 
área acadêmica da teologia, pois muitos textos de grandes autores 
ainda não foram publicados em nossa terra. O renomado professor 
Júlio Andrade Ferreira oferece uma coletânea de textos dos maiores 
teólogos do século XX, acerca dos principais temas doutrinários. A 
longa experiência acadêmica do organizador dessa publicação 
garante uma apresentação didática, que conduz, com segurança, 
o leitor em meio às discussões mais intrincadas.
Comentário: Esta Antologia é uma grande ajuda para estudantes de teologia de todas as idades. Ela 
contém seleções de alguns dos maiores nomes da teologia, tratando de cada assunto doutrinário. 
Este material foi selecionado e organizado didaticamente pelo professor de teologia brasileira Júlio 
de Andrade Ferreira.
Lutero
Após quase ser atingido por um raio, Martim Lutero (Joseph 
Fiennes) acredita ter recebido um chamado. Ele se junta ao 
monastério, mas logo fi ca atormentado com as práticas adotadas 
pela Igreja Católica na época. Após pregar em uma igreja suas 
95 teses, Lutero passa a ser perseguido. Pressionado para que 
se redima publicamente, Lutero se recusa a negar suas teses 
e desafi a a Igreja Católica a provar que elas estejam erradas e 
contradigam o que prega a Bíblia. Excomungado, Lutero foge e 
inicia sua batalha para mostrar que seus ideais estão corretos e 
que eles permitem o acesso de todas as pessoas a Deus.
Comentário: Esse fi lme, fi nanciado pela Thrivent Financial for 
Lutherans, uma organização sem fi ns lucrativos que busca apoiar 
iniciativas que promovam o Luteranismo, retrata, de maneira 
romanceada, a trajetória de Martim Lutero, o grande inspirador da 
reforma protestante que ocorreu no século XVI. Lutero sempre alimentou o desejo de ser padre e 
se tornou doutor em teologia, mas a sua profunda religiosidade tomou caminhos revolucionários 
que confrontaram diretamente a Igreja Romana, então, o poder absoluto daquela época.
APRESENTAÇÃO: o blog “Voltemos ao Evangelho” nasceu com o grandioso intuito de proclamar 
as Boas Novas, chamando os cristãos para voltarem à centralidade da glória de Deus, na face de 
Cristo, e ao fundamento das Escrituras. 
Disponível em: . Acesso em: 28 jan. 2016.
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Professor Dr. Hermisten Maia Pereira Da Costa
Professor Me. Roney De Carvalho Luiz
O DEUS QUE SE REVELA
Objetivos de Aprendizagem
 ■ Compreender que Deus se revela de maneira especial através de Sua 
Palavra.
 ■ Entender o conceito de Inspiração e o valor da tradição.
 ■ Estabelecer a importância de conhecer os principais catecismos 
protestantes.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
 ■ Deus como Autor de todo conhecimento
 ■ A criação como Revelação de Deus
 ■ A fé como conhecimento
 ■ A necessidade das Escrituras 
 ■ As Escrituras, os Credos e a Reforma Protestante
INTRODUÇÃO
Trataremos, nesta segunda unidade, de um dos principais ensinos teológicos 
reformados: a revelação de Deus. A Bíblia parte do pressuposto da existência 
de Deus. “Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de 
eternidade a eternidade, tu és Deus”, escreveu Moisés (Sl 90.2). Este, por reve-
lação direta de Deus, registra de forma inspirada (2Pe 1.20-21), narrando os 
atos criadores de Deus, sem se preocupar em falar com mais detalhes a respeito 
Daquele que, mediante a Sua Palavra, faz com que do nada surja a vida, criando 
o universo, estabelecendo suas leis próprias e avaliando a Sua criação como boa. 
Moisés apenas apresenta o Deus Todo-Poderoso exercitando o Seu poder de 
forma criadora, segundo o Seu eterno propósito. Deus existe; este é o fato pres-
suposto em toda a narrativa da Criação. Deus cria segundo a Sua Palavra, e isso 
nos enche de admiração e reverente temor: a Palavra de Deus é o verbo criador 
que manifesta a determinação e o poder de Deus (Gn 1.1,26,27; Sl 33.6,9; Jo 1.1-
3; Hb 11.3), o Qual criou as coisas com sabedoria (Pv 3.19).
Nesta unidade de estudo, propomos o pensar sobre essas características 
da revelação, inspiração e iluminação para se conhecer a Deus, perpassando, a 
seguir, com os principais catecismos da tradição cristã protestante.
O Deus que se Revela
A Bíblia parte do pressuposto da existência de Deus. “Antes que os montes nas-
cessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus”, 
escreveu Moisés (Sl 90.2). Moisés, por revelação direta de Deus, registra de forma 
inspirada (2 Pe 1.20-21), narrando os atos criadores de Deus, sem se preocupar em 
falar com mais detalhes a respeito Daquele que, mediante a Sua Palavra, faz com 
que, do nada, surja a vida, criando o universo, estabelecendo suas leis próprias e 
avaliando a Sua criação como boa. Moisés apenas apresenta o Deus Todo-Poderoso 
exercitando o Seu poder de forma criadora, segundo o Seu eterno propósito. Deus 
existe, este é o fato pressuposto em toda a narrativa da Criação. Deus cria segundo 
a Sua Palavra e isto nos enche de admiração e reverente temor: a Palavra de Deus 
é o verbo criador que manifesta a determinação e o poder de Deus (Gn 1.1,26,27; 
Sl 33.6,9; Jo 1.1-3; Hb 11.3), o Qual criou as coisas com sabedoria (Pv 3.19).
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O DEUS QUE SE REVELA
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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DEUS COMO AUTOR DE TODO CONHECIMENTO 
Deus como fonte de todo conhecimento tem, naturalmente, a consciência total 
da perfeição e amplitude do Seu conhecimento. Ele Se conhece perfeitamente, 
tendo ciência de toda a Sua perfeição: “em si mesmo Ele é sujeito e objeto de todo 
conhecimento”.171 Somente Deus possui um conhecimento perfeito, arquetípo 
de si mesmo. Qualquer tipo de conhecimento parte de Deus, que é a sua fonte 
inesgotável, portanto, podemos concluir daí algumas coisas: 1) Deus é o princí-
pium essendi de todo conhecimento, inclusive o científico; logo, 2) toda verdade 
é proveniente de Deus, porque “todas as coisas procedem de Deus”,172 assim, não 
pode haver contradição em Deus mesmo; 3) A ciência e a fé não se contradizem, 
o mesmo doador da fé (Ef 2.8) é o criador das verdades científicas, logo, quando 
ambas parecem contraditórias, é porque ou há uma compreensão errada da fé, ou 
a ciência não é ciência, está laborando em erro. Por isso, é preciso que haja humil-
dade de ambas as partes: do teólogo na interpretação da Palavra de Deus, sempre 
em submissão ao Espírito de Deus, sem cair em um dogmatismo ingênuo, nem 
em um relativismo dogmático, que corre sempre atrás dos modismos científicos e 
filosóficos para adaptar a Teologia. É preciso que nós, teólogos, entendamos que 
trabalhar com a teologia não significa dizer sempre coisas novas; embora reconhe-
çamos “as situações novas que ameaçam a salvação dos homens”173 para as quais 
devemos buscar na Palavra a resposta. Por outro lado, precisamos entender que 
a Palavra de Deus é mais rica do que qualquer dogma, portanto, o nosso sistema 
doutrinário, por melhor que seja – e eu estou convencido de que é –, não pode ser 
mais rico do que a Palavra de Deus, como bem observou Berkouwer (1903-1996): 
“porventura a Escritura não é mais rica do que qualquer pronunciamento eclesiás-
tico, por mais excelente e atento ao Verbo divino que este possa ser?”.174 Por isso, o 
critério último de análise, será sempre “O Espírito Santo falando na Escritura”.175 
171 Consultar referência. 
172 CALVINO, J. As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (Tt 1.12), p. 318. “...Se o Senhor nos quis deste 
modo ajudados pela obra eas próprias normas da prática teológica. Em seguida, é preciso imitar o 
modo como os artesãos, que são os teólogos, praticam seu ofício. Finalmente, aprende-
-se exercendo, por conta própria, a arte teológica. Por isso, Tomás de Aquino descrevia 
que o ato teológico é o fervor da fé da pessoa que ama a verdade que crê e que procura 
encontrar razões para seu amor. A estrutura do livro se explica por seu caráter didático 
e metodológico, por isso as atividades que propomos em cada unidade vão te direcio-
nar, mas lembre-se: é um investimento que necessita tempo e esforço, porém, antes de 
tudo, fé e amor, uma vez que seu conteúdo é desafiador. Você está preparado(a)? Vamos 
encarar esse desafio juntos?
Este material está dividido em cinco unidades:
A unidade I, “Introdução à Teologia Sistemática”, abordará a definição do conceito, uma 
divisão didática para se estudar a teologia e os pressupostos, o método e a tarefa da te-
ologia sistemática. A unidade II, chamada “O Deus que se revela”, irá fornecer a você co-
nhecimentos dogmáticos sobre a revelação especial de Deus no transcorrer da história, 
tanto por meio das Escrituras, quanto da tradição da Igreja cristã e de seus pensadores. A 
unidade III, intitulada “A doutrina da Trindade”, fornecerá um panorama histórico da defi-
nição e formulação bíblico-doutrinária da Trindade. A unidade IV, intitulada “A soberania 
de Deus”, abordará a importância do poder soberano e gracioso de Deus na salvação e 
restauração de seu povo. Por fim, a unidade V tratará das características da pessoa e obra 
de Cristo, nessa unidade, será enfatizado o centro da fé cristã, ou seja, a divindade e a 
humanidade do Senhor Jesus, o Cristo.
Este livro tem como objetivos fornecer subsídios teóricos sobre alguns dos principais ca-
pítulos da teologia sistemática. Ele foi desenvolvido para responder a razão da fé cristã 
e sedimentar, de forma simples e objetiva, a prática da fé na vivência e no labor ministe-
rial. Um grande abraço e um ótimo curso!
Professor Roney de Carvalho Luiz
APRESENTAÇÃO
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I
SUMÁRIO
09
UNIDADE I
INTRODUÇÃO A TEOLOGIA SISTEMÁTICA
15 Introdução
16 Definição 
18 Divisão da Teologia 
21 Pressupostos e Método da Teologia 
29 Necessidade e Tarefa da Teologia Sistemática 
61 Considerações Finais 
UNIDADE II
O DEUS QUE SE REVELA
69 Introdução
70 Deus como Autor de Todo Conhecimento 
71 A Criação Como Revelação de Deus 
74 A Compatibilidade da Revelação com a Razão Humana 
76 A Revelação Especial de Deus 
80 A Fé como Conhecimento 
84 A Necessidade das Escrituras 
87 A Inspiração das Escrituras 
105 As Escrituras, os Credos e a Reforma Protestante 
124 Considerações Finais 
SUMÁRIO
UNIDADE III
A DOUTRINA DA TRINDADE
133 Introdução
134 Definição da Doutrina 
140 A Formulação Doutrinária: os Credos da Igreja a Busca de uma 
Compreensão Bíblica
148 Fundamentos Bíblicos da Doutrina 
153 A Trindade e a Nossa Salvação 
157 A Trindade e as Nossas Orações 
164 Considerações Finais 
UNIDADE IV
A SOBERANIA DE DEUS
173 Introdução
177 A Liberdade Soberana de Deus 
186 O Poder Soberano de Deus na Criação 
232 O Poder Soberano e Gracioso de Deus na Salvação e Restauração de seu 
Povo
242 Considerações Finais 
SUMÁRIO
11
UNIDADE V
A PESSOA E A OBRA DE CRISTO
249 Introdução
250 Fé no Senhor Jesus: Verdadeiro Deus 
258 Fé no Senhor Jesus: Verdadeiro Homem 
270 Fé no Senhor Jesus: Uma Única Pessoa 
281 Fé no Senhor Jesus: O Único Senhor 
294 Jesus e a Ressurreição 
313 O Sacerdócio de Cristo 
326 A Ascensão de Jesus Cristo 
333 Considerações Finais 
337 CONCLUSÃO
339 REFERÊNCIAS
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Professor Dr. Hermisten Maia Pereira Da Costa
Professor Me. Roney De Carvalho Luiz
INTRODUÇÃO A TEOLOGIA
SISTEMÁTICA
Objetivos de Aprendizagem
 ■ Compreender o conceito e os tipos de estudos teológicos.
 ■ Conceituar os pressupostos e método da Teologia Sistemática.
 ■ Estabelecer a importância de conhecer e estudar a Teologia 
Sistemática.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
 ■ Definição
 ■ Divisão da teologia
 ■ Pressupostos e método da teologia
 ■ Necessidade e tarefa da teologia sistemática
INTRODUÇÃO
Olá, seja bem vindo(a)! Trataremos, nesta primeira unidade, de introduzirmos 
você ao campo do saber teológico. Quando perguntamos “o que é teologia?”, o 
mais comum é a resposta baseada nas raízes gregas do termo theos, que significa 
Deus, mais logos, estudo, razão, tratado, que, resumindo, seria dizer que teologia 
é a disciplina que estuda Deus. Porém, quando reduzimos a disciplina a, apenas, 
esse entendimento gramatical, dizemos, mas não explicamos muito, pois se faz 
necessário pensar também que toda disciplina para ser estudada necessita de 
um método, com um tema e objeto de estudo.
Levando isso ao campo da teologia, vemos que não basta dizer que “é a dis-
ciplina que estuda Deus”, mas que, além disso, é necessário considerar quem é 
esse Deus que é estudado e como o conhecemos. Todavia já podemos adian-
tar, nesta introdução, que conhecemos a Deus por sua revelação, que é de suma 
importância para a teologia.
No entanto, antes de nos adiantarmos, iniciaremos nesta unidade os tipos 
diferentes, mas que se complementam, de se abordar a teologia. Além, é claro, 
de conceituar os pressupostos e método da Teologia Sistemática e estabelecer a 
importância de conhecer e estudar a Teologia Sistemática, considerando a uni-
dade de toda a Escritura, é o estudo sistematizado da Revelação Especial de Deus, 
conforme registrada nas Escrituras Sagradas, buscando uma compreensão real e 
harmônica de “todo o desígnio de Deus” por meio de suas relações intrínsecas e 
extrínsecas, realçando a sua relevância para a vida do povo de Deus.
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INTRODUÇÃO A TEOLOGIA
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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DEFINIÇÃO
Podemos definir operacionalmente a teologia como o estudo sistemático da 
Revelação Especial de Deus, conforme registrada na Escritura Sagrada tendo 
como fim último o glorificar a Deus por intermédio do Seu conhecimento, apli-
cação e obediência à Sua Palavra. “O alvo final da reflexão teológica é que Deus 
seja glorificado na vida dos que creem, pela maneira em que vivem e por aquilo 
que fazem”.1 Frame colocou o valor prático da teologia nos seguintes termos:
As nossas teologias nem sequer constituem a melhor formulação da 
verdade para o povo para todos os tempos e lugares; a Escritura é isso. 
As nossas teologias são meras tentativas de ajudar pessoas, geralmente 
e em tempos e lugares específicos, a fazerem melhor uso da Escritura 
(FRAME, J. M., 2010, p. 97).
Contudo deve ser observado que conhecer a Deus é o alvo maior. Os demais resul-
tados, ainda que relevantes, são secundários.2 “O tema e o conteúdo da teologia 
é a Revelação de Deus”.3 O fundamento é a Palavra, o foco é Jesus Cristo, o Deus 
encarnado. Dessa concepção, subentende-se, seguindo a linha de Kuyper,4 que:
a. A Teologia nunca é “arquetípica”, mas sim “éctipica”;5 ela não é gerada 
pelo esforço de nossa observação de Deus, mas sim o resultado da reve-
lação soberana e pessoal de Deus. Uma “Teologia Arquetípica” – se é 
que podemos falar desse modo –, pertence somente a Deus, porque 
somente Ele Se conhece perfeitamente tendo, inclusive, ciência completa 
do seu conhecimento perfeito. Por isso, como temos insistido em outros 
trabalhos, a Teologia sempre será o efeito da ação reveladora, inspira-
dora e iluminadora de Deus por meio do Espírito; a Teologia nunca é a 
causa primeira; sempre é o efeito da ação primeira de Deus em revelar-se.
1 Consultar referência.
2 Consultar referência.
3 Consultar referência.
4 Consultar referência.
5 “Éctipo” é uma palavra de derivação grega, “e)/ktupoj”ministério dos ímpios na física, na dialética, na matemática e nas demais 
áreas do saber, façamos uso destas, para que não soframos o justo castigo de nossa displicência, se 
negligenciarmos as dádivas de Deus nelas graciosamente oferecidas.” (CALVINO, J. As Institutas, II.2.16).
173 Consultar referência.
174 Consultar referência. 
175 Consultar referência. 
A Criação Como Revelação de Deus
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O mundo do conhecimento pertence a Deus, pois Ele é o Seu autor e revela-
dor; logo, todo e qualquer conhecimento científico que o homem tenha é parte do 
conhecimento de Deus expresso na Sua criação. Dessa forma, podemos dizer que 
não existe conhecimento fora de Deus. Quando, então, nos referimos ao conhe-
cimento que podemos ter do próprio Deus, do Seu caráter e majestade, temos de 
reafirmar a verdade bíblica de que esse conhecimento provém do próprio Deus. 
Somente quando há fé na conexão orgânica do Universo, haverá tam-
bém a possibilidade para a ciência subir da investigação empírica dos 
fenômenos especiais para o geral, e do geral para a lei que governa aci-
ma dele, e desta lei para o princípio que domina sobre tudo.176
O teólogo sabe que a Teologia é uma busca humana por compreender e sistema-
tizar a revelação; e como humanos que somos, podemos nos enganar. A teologia, 
portanto, está, de certa forma, sempre a caminho, em busca de uma compreen-
são mais exaustiva das Escrituras. Entretanto, como em todas as demais ciências, 
nós Reformados, temos nossos pressupostos; o nosso é que a Bíblia é o regis-
tro inspirado e inerrante da Palavra de Deus. Disso não abrimos mão. Estamos 
convencidos que uma visão relapsa da Palavra determina o fracasso teológico e 
espiritual da Igreja. 
A CRIAÇÃO COMO REVELAÇÃO DE DEUS
Deus, como causa primeira de todo o conhecimento, proporciona ao homem, por 
meio da Sua criação, a Natureza, a oportunidade e responsabilidade de conhecer 
a realidade do mundo físico. No entanto é bom que se diga que esse conheci-
mento não é completo nem absolutamente claro, visto que o pecado pôs seu selo 
sobre a criação, obscurecendo o entendimento do homem, e a própria Natureza 
perdeu parte da sua eloquência primeva. 
176 Consultar referência. 
O DEUS QUE SE REVELA
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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Contudo, ainda hoje, a natureza é um espelho no qual se refletem as gló-
rias de Deus. Sem embargo, por causa do pecado, pode-se dizer que este 
espelho está deformado. Como é bem sabido, um espelho côncavo reflete 
as coisas de uma forma grotesca e distinta de como realmente são.177
A História, a Natureza e o homem, como parte dessa, refletem algo do Seu Criador; 
“o homem, por haver sido criado à imagem de Deus, nos revela muito sobre o ser 
do Criador”178 (Sl 139.14). Por isso, os homens são indesculpáveis (Rm 1.19,20).
Deus expressa o Seu pensamento e a Sua vontade no mundo, na Criação, 
envolvendo o homem com a manifestação visível da Sua glória, a qual é pro-
clamada, apesar do pecado, de forma facunda nas obras da Criação (Sl 19.1; At 
14.17; Rm 1.19,20). Calvino (1509-1564) acentua que, 
a aparência do céu e da terra compele até mesmo os ímpios a reconhe-
cerem que algum criador existe (...). Certamente que a religião nem 
sempre teria florescido entre todos os povos, se porventura as mentes 
humanas não se persuadissem de que Deus é o Criador do mundo.179
Deus, o mundo e o homem são as três realidades com as quais toda a ciência 
e toda filosofia se ocupam.180 Pois bem, se Deus não tivesse primeiramente, de 
forma livre e soberana Se revelado (Sl 115.3; Rm 11.33-36) – concedendo, ao 
homem, o universo como meio externo de conhecimento, o qual funciona com 
as suas leis próprias e regulares –, toda e qualquer ciência seria impossível. O 
mundo, inclusive o homem, é o grande laboratório de todas as ciências. Só que 
quem “construiu” esse laboratório foi Deus, deixando, ao homem, a responsa-
bilidade de estudá-lo, descobrindo os “enigmas” que estão por trás das leis que 
funcionam de acordo com as prescrições do Seu Criador. Não pensemos, con-
tudo, que Deus criou o mundo apenas para satisfazer a curiosidade humana; 
Deus o fez como testemunho da Sua glória: “a grande finalidade da criação foi 
a manifestação da glória de Deus”181. Deus, ainda hoje, não deixou de dar tes-
temunho da Sua existência e bondoso cuidado para com o homem (At 14.17). 
Deus está ativo, preservando a Sua criação para o fim proposto por Ele mesmo. 
177 Consultar referência.
178 Consultar referência. 
179 Consultar referência. 
180 Consultar referência.
181 Consultar referência.
A Criação Como Revelação de Deus
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“Deus não é mero espectador do universo que Ele criou; Ele está presente e ativo 
em todas as partes, como o fundamento que sustenta tudo e o poder que governa 
tudo o que existe.”182 A Bíblia atesta esse fato amplamente. (Vd. Ne 9.6; At 17.28; 
Ef 4.6; Cl 1.17; Hb 1.3).183 Deus faz todas as coisas “conforme o conselho da Sua 
vontade” (Ef 1.11/Sl 115.3). 
O homem natural pode não saber disso, pode não aceitar e até combater tal 
“absurdo”, entretanto o que o homem pode fazer contra a verdade? (2Co 13.8). 
O que são os argumentos que tentam negar a existência de Deus, senão fruto de 
uma falsa interpretação da Revelação Geral de Deus? Calvino (1509-1564), dis-
correndo sobre a revelação de Deus na Natureza, diz: 
em toda a arquitetura de seu universo, Deus nos imprimiu uma clara 
evidência de sua eterna sabedoria, munificência e poder; e embora em 
sua própria natureza nos seja ele invisível, em certa medida se nos faz 
visível em suas obras. O mundo, portanto, é com razão chamado o es-
pelho da divindade, não porque haja nele suficiente clareza para que 
os homens alcancem perfeito conhecimento de Deus, só pela contem-
plação do mundo, mas porque ele se faz conhecer aos incrédulos de tal 
maneira que tira deles qualquer chance de justificarem sua ignorância. 
(...) O mundo foi fundado com esse propósito, a saber: para que servis-
se de palco à glória divina.184 
“...este mundo é semelhante a um teatro no qual o Senhor exibe diante de nós 
um surpreendente espetáculo de sua glória.”185 Ele entende que “o princípio da 
religião” que é implantado nos homens é uma das evidências da sua “preemi-
nente e celestial sabedoria”.186 Em outro lugar, observando que “no coração de 
todos jaz gravado o senso da divindade”,187 argumenta que a tentativa humana 
de negar a Deus nada mais é do que uma revelação do “senso de divindade que, 
tão ardentemente, desejariam extinto”.188 Conclui que é impossível haver verda-
deiro ateísmo.
182 Consultar referência. 
183 Consultar referência. 
184 Consultar referência. 
185 Consultar referência. 
186 Consultar referência.
187 Consultar referência. 
188 Consultar referência.
O DEUS QUE SE REVELA
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IIU N I D A D E74
Sem a ação primeira de Deus, não haveria ciência. Graças a Deus porque 
Ele registrou de forma mui santa e sábia as Suas leis (físicas, químicas, termo-
dinâmicas, etc.) “no grande livro do mundo”.189 É preciso, porém, que não nos 
detenhamos apenas aí, para que não fiquemos com a menor parte, pois o que disse 
Blaise Pascal (1623-1662), apesar do exagero de ênfase, tem o seu lugar: “o Deus 
dos cristãos não consiste num Deus simplesmente autor de verdades geométri-
cas e da ordem dos elementos; essa é a porção dos pagãos e dos epicuristas.”190
Dentro de tudo o que foi colocado, surge, de forma natural, a pergunta: e o 
homem pode entender essa revelação? Pode o homem, como intérprete que é, 
reconhecer a mensagem unívoca do grande “locutor”, que é Deus? Creio que a 
Ciência,nos seus avanços e retrocessos – diferentemente da concepção de Comte 
a respeito da ciência –, com conexões aqui e ali, tem respondido a essas ques-
tões. Passemos, agora, à resposta formal dessas indagações.
A COMPATIBILIDADE DA REVELAÇÃO COM A RAZÃO 
HUMANA
Partindo do princípio de que a Revelação de Deus tem por objetivo mostrar o Seu 
Autor: Deus é o substantivo da Sua Revelação. Não teria nenhum valor a Revelação 
objetiva de Deus se não houvesse concomitantemente uma potencialidade de 
recepção subjetiva para ela, pois, assim, seria uma revelação que não se desco-
briria, não se tornaria acessível. Seria o equivalente a um intérprete verter para o 
inglês as palavras de um orador alemão para um auditório que só entende o por-
tuguês. Perguntaríamos: o interprete traduziu o que o orador disse? Responderia 
o interlocutor: Sim. Voltaríamos à questão: então, ele revelou o conteúdo da men-
sagem? A resposta seria óbvia: não. Ele traduziu, mas ninguém o entendeu, pois o 
seu idioma não é o nosso nem temos condições de aprendê-lo agora.
189 Consultar referência.
190 Consultar referência.
A Compatibilidade da Revelação com a Razão Humana
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Deus Se revela sabendo que há a possibilidade de ser entendido, pois Ele 
mesmo criou o homem e o dotou dessa capacidade. Entretanto a não compreensão 
do homem não inutiliza o valor da Revelação de Deus. Ela é o que é independen-
temente da apreensão humana. O pecado corrompeu o intelecto, a vontade e a 
faculdade moral do ser humano; ele está morto espiritualmente, sendo escravo 
do pecado (Gn 6.5; 8.21; Jo 8.34,43-44; Rm 3.23; 6.6,23; Ef 2.1; Cl 1.13; 2.13). A 
depravação total é justamente isso: a contaminação de todas as nossas faculda-
des pelo pecado. Ainda que o homem não seja absolutamente mau – não é tão 
mau quanto poderia − é extensivamente mau; todo o seu ser está contaminado 
pelo pecado. Como decorrência disso, o homem tornou-se positivamente mau 
(Gn 6.5; 8.21; Mt 7.11). Ainda assim, o pecado não destruiu a possibilidade da 
percepção. 
O conhecimento humano consiste sempre em uma relação lógica entre sujeito 
e objeto, visto que o sujeito só é sujeito para o objeto e, por sua vez, o objeto só 
o é para um sujeito, assim, a revelação objetiva reclama alguém e, esse alguém 
(objeto) só o é, enquanto recebe de forma adequada a revelação.
A razão, como parte da criação divina, é o instrumento de que dispomos, 
pela graça de Deus, para descobrir a Sabedoria divina no mundo que nos rodeia 
e, portanto, é o principium cognoscendi internum da ciência. Entendemos que o 
conhecimento também se dá pela experiência, no entanto cremos que o espírito 
humano traz consigo certas categorias que lhe são inerentes, as quais não podem 
ser apreendidas pela experiência. A experiência pode ser a fonte de quase todo 
o conhecimento, mas não é necessariamente do conhecimento todo.
Concluindo este tópico, reafirmamos que Deus criou o homem a Sua ima-
gem e semelhança (Gn 1.27), dotando-o de capacidade para receber e interpretar 
as impressões da Sua revelação que são demonstradas por meio do universo, da 
Sua Criação (Sl 19.1; At 14.17). Toda a Criação de Deus foi realizada de forma 
sábia e soberana (Sl 115.3; Pv 3.19: Ef 1.11).
O DEUS QUE SE REVELA
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IIU N I D A D E76
A REVELAÇÃO ESPECIAL DE DEUS
O conhecimento que Deus deseja que tenhamos Dele está revelado nas Escrituras. 
Como já vimos, originalmente, Deus se revelou na Criação, no Éden só havia um 
livro: o livro da Natureza (Gn 3.17-19), e, como parte do castigo pelo pecado, o 
homem perdeu o discernimento espiritual para poder ver a glória de Deus mani-
festa na criação (Sl 19.1; Rm 1.18-23). A Revelação Geral que fora adequada para 
as necessidades do homem no Éden – embora saibamos que ali também se deu a 
Revelação Especial (Gn 2.15-17,19,22; 3.8ss) –, tornou-se, agora, incompleta e ine-
ficiente para conduzir o homem a um relacionamento pessoal e consciente com 
Deus. A observação de Calvino (1509-1564) parece-nos importante aqui: “nossa 
ruína se deve imputar à depravação de nossa natureza... em sua condição original, 
para que não lancemos a acusação contra o próprio Deus, autor dessa natureza.”191
A Bíblia ou Revelação Especial tornou-se necessária por causa do pecado. 
Por meio da História, Deus separou e preparou homens para que registrassem 
de forma exata e infalível os Seus desígnios, sendo a Palavra de Deus escrita, 
dentre outras coisas, “o corretivo às ideias disformes que pode dar-nos a natu-
reza em seu estado caído.”192 Por isso, só se considera adequada a revelação de 
Deus contida na Bíblia, somente por meio das Escrituras o homem pode ter um 
conhecimento de Deus livre de superstições.193 
A constatação da Revelação de Deus gera em nós dois sentimentos: humil-
dade e alegria. Humildade por sabermos que tudo o que temos e sabemos provém 
de Deus (Jo 15.5; 1Co 4.7; 2Co 3.5). Alegria, por ter acesso à Revelação de Deus 
que é a verdade. Tais sentimentos, acompanhados do estudo da Palavra, devem 
conduzir-nos à adoração (Mt 4.10; Hb 13.15; 1Pe 2.9). A Bíblia foi-nos confiada 
a fim de que, mediante a iluminação do Espírito Santo, sejamos conduzidos a 
Jesus Cristo (Jo 5.39/Lc 24.27,44), sendo Ele mesmo Quem nos leva ao Pai (Jo 
14.6-15; 1Tm 2.5; 1Pe 3.18) e nos dá vida abundante (Jo 10.10; Cl 3.4). A Bíblia 
foi registrada para que cumpramos os seus preceitos, dados pelo próprio Deus 
191 Consultar referência.
192 Consultar referência.
193 Consultar referência. 
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(Dt 29.29; Js 1.8; 2Tm 3.15, 16; Tg 1.22); ela foi-nos concedida para que conhe-
çamos o Seu Autor e, conhecendo-O, O adoremos, e, adorando-O, mais O 
conheçamos (Os 6.3; 2Pe 3.18).194 A revelação nos foi dada com esse propósito 
e devemos usá-la com essa finalidade”.195
A Igreja, como resultado da ação de Deus por meio da Palavra, manifesta tais 
comportamentos, tendo ciência de que a meditação que faz na Palavra, guiada 
pelo Espírito, é uma tentativa de interpretá-la, a fim de proclamar e ensinar em 
uma linguagem humana196 a verdade que ela tem recebido pela graça de Deus. 
“A verdade é idêntica à graça” (Jo 1.17).197
A Teologia Reformada, recebendo a Bíblia como de fato é: a inerrante e 
autêntica Palavra de Deus, reconhece ser Ela a causa eficiente e instrumental da 
Teologia, sendo Deus o Seu autor, a causa final. A Teologia busca sempre a gló-
ria de Deus, como objetivo máximo e final, e esse objetivo é alcançado sempre 
em sua fidelidade à Revelação. Portanto, embora admitindo a infalibilidade da 
Revelação Geral, só consideramos a Revelação Especial como fonte da Teologia. 
Dessa forma, a tentativa de reconhecer a Revelação Geral como fonte secundá-
ria da Teologia está fora de cogitação, visto que, para que isso aconteça, teríamos 
de interpretá-la de acordo com a luz da Escritura e podemos observar também 
que, qualquer tentativa de se criar uma fonte secundária ou terciária de teolo-
gia (os catecismos, por exemplo) implica em admitir que a Bíblia precisa de um 
complemento, logo, ela é incompleta ou insuficiente.
Como já demonstramos biblicamente, cremos que a Revelação Geral tem o 
seu valor ilustrativo, porém ela em nada acrescenta à Revelação Especial e aquela 
só pode ser entendida corretamente por aquele que, mediante a iluminação do 
Espírito Santo, entende a Revelação Especial. Para esse homem, a Revelação Geral 
se constitui em uma “republicação”, ainda que não cronológica, das verdades con-
tidas nas Escrituras, no entanto essa “republicação” não é complementar nem 
transforma vida. E o que a Natureza trata de forma estrita e apenas indicativa, a 
Escritura fala de formaampla e demonstrativa.
194 Consultar referência. 
195 Consultar referência.
196 Consultar referência.
197 Consultar referência.
O DEUS QUE SE REVELA
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
IIU N I D A D E78
Por outro lado, Kuyper (1837-1920)198 nos chama a atenção para o fato de 
que não devemos considerar a Revelação Especial ou a Escritura como fonte da 
Teologia (“fons theologiae”), tendo em vista que o termo “fonte” no estudo cien-
tífico tem um significado mui definido. Em geral, denota uma área de estudo 
sobre a qual, o homem, como agente ativo, faz uma triagem para a sua pesquisa, 
como na Botânica, Zoologia e História. Nesse caso, o objeto de estudo é pas-
sivo; o homem é quem é ativo, debruçando-se sobre o fenômeno para extrair do 
objeto o conhecimento desejado. Assim sendo, usando o termo nesse sentido, 
tem-se a impressão, de que o homem, como agente ativo, pode se colocar sobre 
as Escrituras, para descobrir ou tirar dela o conhecimento de Deus, que ali está 
passivamente esperando o seu descobridor. Sabemos que isso não é verdade. 
Deus se revela ao homem e, mais uma vez, ativamente fornece os meios para a 
compreensão dessa revelação: o Espírito Santo. A Teologia, como vimos, é sem-
pre o efeito da ação reveladora, inspiradora e iluminadora de Deus por meio do 
Espírito. Por isso, falar de Teologia Americana, Européia ou da América Latina 
se constitui, no mínimo, em uma ignorância bíblica: ou a Teologia é Bíblica ou 
não é Teologia; surja em que continente for, em que movimento for, em que 
regime político for. Brunner (1889-1966) corretamente enfatiza: “a dogmática 
que está sob uma obrigação apenas para com a Verdade deve se proteger contra 
todo regionalismo nacional ou continental, pelo qual o ponto de vista Europeu, 
o Inglês ou o Americano seria mais importante do que é na verdade.”199 Deus 
não se deixa invadir pela razão humana ou mesmo pela fé. Ele se dá a conhe-
cer livre, fidedigna e explicitamente; Deus se revela a Si mesmo como Senhor e 
“Senhorio significa liberdade”.200 “Quanto mais conhecemos Deus, mais compre-
endemos e sentimos que Seu ministério é inescrutável”201 A “douta ignorância” 
faz parte essencial da genuína teologia bíblica. O conhecimento de nossa limi-
tação não é inato, antes, é precedido pela revelação. Sem a revelação de Deus, 
não há teísmo, ateísmo nem agnosticismo. É no encontro com Deus que toma-
mos conhecimento de nossas limitações.
198 Consultar referência.
199 Consultar referência. 
200 Consultar referência.
201 Consultar referência.
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Sem a revelação, o homem passaria toda a sua vida e estaria na eternidade 
sem o menor conhecimento de Deus. Por mais engenhosos que fossem os seus 
métodos, por mais sistemáticas que fossem as suas pesquisas, por mais que 
evoluísse a ciência, homem nunca conseguiria chegar a Deus ou mesmo a sua 
ideia: ignoraria eternamente a própria ignorância. E Deus continuaria sendo o 
que sempre foi: o Senhor! Todavia, graças a Deus, porque Ele soberanamente Se 
Revelou a Si mesmo, para que possamos conhecê-Lo e render-Lhe toda a glória 
que somente a Ele é devida. Em Cristo, nós somos confrontados com o clímax 
e plenitude da revelação de Deus (Jo 14.9-11; 10.30; Cl 1.19; 2.9; Hb 1.1-4). “No 
Filho, temos a revelação última de Deus. Da mesma forma como é verdade que 
quem viu o Filho viu o Pai, também é verdade que quem não viu o Filho, não 
viu o Pai.”202 Jesus Cristo é a medida da revelação.
A Teologia Reformada reconhece a centralidade real de Deus em todas as 
coisas, tendo como alvo principal, não o tão decantado bem-estar humano – que 
por certo tem a sua relevância –, mas a glória de Deus, sabendo que as demais 
coisas serão acrescentadas (Mt 6.33; Ef 1.11-12). Infelizmente, ao longo da his-
tória, as “teologias” que deveriam ser relativas à Revelação, têm sido relativas 
ao homem, tornando-se assim, antropologias.203 O Iluminismo, que gerou o 
“Liberalismo Teológico”, – e esse pode ser definido como o esforço de interpre-
tar, reformular e explicar a fé cristã dentro de uma perspectiva iluminista –, foi 
o grande fomentador desta nova abordagem. Dentro dessa perspectiva, só pode 
ser considerado genuíno o “credo” que se ajuste aos critérios racionais vigentes.204 
Para os reformados, entretanto, é a Palavra de Deus que deve dirigir toda a 
abordagem e interpretação teológica, bem como de toda a realidade: O Espírito 
através da Palavra é Quem deve guiar à correta interpretação da Revelação. Na 
Escritura tem-se o padrão e apelo final.
202 Consultar referência.
203 Consultar referência. 
204 Consultar referência. 
O DEUS QUE SE REVELA
Reprodução proibida. A
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IIU N I D A D E80
A FÉ COMO CONHECIMENTO
A razão, mesmo estigmatizada pelo pecado, que se mostra tão eficaz nas coi-
sas naturais, perde-se diante do mistério de Deus revelado em Cristo e também 
diante da Revelação geral na Natureza: “as mentes humanas são cegas a essa luz, 
a qual resplandece em todas as coisas criadas, até que sejam iluminadas pelo 
Espírito de Deus e comecem a compreender, pela fé, que jamais poderão enten-
dê-lo de outra forma.”205 A graça, portanto, antecede à fé e ao conhecimento.
A graça de Deus é eminentemente socializante, isso porque não há um 
homem sequer que dela não necessite e, mesmo sem saber, dela não participe. 
Todos, sem exceção, somos devedores à graça de Deus – aquele favor imere-
cido da parte de Deus para com os pecadores. O nosso Deus é “o Deus de toda 
graça” (1Pe 5.10). Bem-aventurados são todos aqueles que vivem como súditos 
do Reino da Graça de Deus. A graça de Deus é a tônica da Sua relação com o Seu 
povo. Tudo que temos, somos e seremos é pela graça (1Co 15.10). A riqueza da 
graça de Deus se manifesta de modo superabundante em nós (2Co 9.14; Ef 1.7; 
2.7), todavia ela não foi manifestada em toda a sua plenitude, por isso, aguarda-
mos o regresso triunfante de Jesus Cristo, quando Ele mesmo revelará a graça de 
forma mais completa (1Pe 1.13), concluindo a nossa salvação (Fp 1.6/1Pe 1.3-5).
Estou inteiramente de acordo com Packer, quando ele diz que “conhecer a 
Deus é uma questão de graça.”206 O conteúdo do conhecimento como a sua pos-
sibilidade estão em Deus, que livre e soberanamente Se revela e oferece a nós 
pecadores, de forma graciosa por meio da Sua Palavra. Somente pela graça da 
autorrevelação de Deus é que podemos nos relacionar com Deus. O “conhe-
cimento” intelectual e abstrato de um Deus distante, se possível fosse fora da 
Revelação Geral, o que não é, não redundaria em relacionamento afetivo e de 
confiança. Nós podemos conhecer a Deus subjetivamente porque Ele Se deu a 
conhecer objetivamente em Sua Palavra e, plenamente, dentro do Seu propó-
sito, em Cristo Jesus, o Deus encarnado. (Cl 1.19; 2.9).
205 Consultar referência.
206 Consultar referência.
A Fé como Conhecimento
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A Revelação de Deus não indica necessariamente a apreensão subjetiva por parte 
do homem, contudo, para que haja uma satisfação em termos de objetivo, faz-se 
necessário que o homem, a quem Deus dirige especialmente a Sua revelação, tenha, 
ao menos potencialmente, condições de apreendê-la. A revelação de Deus exige uma 
resposta. Como poderá o homem captar essa revelação e responder de forma satis-
fatória? Em outras palavras: qual seria o principium cognoscendi internum?
O nome cristão, aprendido na Bíblia para essa resposta, é fé. Assim como a 
revelação, a fé é resultado da graça salvadora de Deus (At 15.11; 18.27; Ef 2.8; Fp 
1.29), por isso, a totalidade do conhecimento que podemos ter, repousa na graça 
de Deus. Daí que, por melhores quesejam os argumentos que possamos alinhar 
para explicar a nossa fé, não conseguimos o nosso intento. Não que a fé seja irracio-
nal, como sugeriram Kierkegaard (1813-1855) e Miguel de Unamuno (1864-1936), 
entre tantos outros; o que ocorre é que a fé não pode ser limitada pelos cânones da 
razão; ela é suprarracional, apesar de caminhar durante algum tempo lado a lado 
com a razão, ela, agora, acompanhada da esperança, lança-se ao infinito (1Co 15.19; 
Hb 1.1). A fé não é irracional, ela respalda-se em Deus e na Sua promessa. Foi isso 
que fez Abraão, conforme escreve Paulo: “não duvidou da promessa de Deus, por 
incredulidade; mas, pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus, estando plenamente 
convicto de que ele era poderoso para cumprir o que prometera” (Rm 4.20,21). 
A fé exige conhecimento da Palavra de Deus. A fé é uma relação de confiança, 
como acreditar em alguém que não conhecemos? A fé consiste no conhecimento 
do Pai e do Filho pelo testemunho do Espírito (Jo 17.3/Jo 15.26; 16.13-14). “A fé 
não consiste na ignorância, mas no conhecimento; e este conhecimento há de 
ser não somente de Deus, mas também de Sua divina vontade.”207 É impossível 
crer e nos relacionar pessoalmente com um Deus desconhecido.
A fé é gerada em nós pelo Espírito por meio da Palavra (Rm 10.17); ela é a 
boa obra do Espírito Santo em nós, que age fundamentado em uma realidade 
histórica irrefutável: a obra de Cristo no Calvário. “A fé verdadeira é aquela que 
ouve a Palavra de Deus e descansa em Sua promessa.”208 A Palavra e a fé só pode-
rão ser entendidas mediante a aceitação da graça de Deus, onde tudo começa. 
207 Consultar referência.
208 Consultar referência.
O DEUS QUE SE REVELA
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
IIU N I D A D E82
Temos a graça pela obra de Cristo, para que, pela graça, possamos conhecer a 
Deus e, assim, possamos saber “qual a esperança do seu chamamento, qual a 
riqueza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia do seu poder; 
o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e fazendo-o sen-
tar a sua direita nos lugares celestiais” (Ef 1.18-20), vivendo, a partir daí, pela 
graça e para a glória de Deus (1Co 10.31).
É somente pela graça, mediante a fé, que podemos nos apropriar da Revelação 
com atos e palavras feita por Deus. Somente a fé, como efeito da graça, nos faz 
perceber a Revelação, abrindo os nossos olhos para a Palavra de Deus (Sl 119.18; 
Ef 1.15-18). Desse modo, Deus nos ilumina para que possamos entender a Sua 
Revelação nas Escrituras.
A Revelação antecede à fé (Rm 10.17; Gl 3.3,5). Pela Revelação, mediante 
a iluminação do Espírito, o homem é subjugado por Deus, respondendo posi-
tivamente com fé. A resposta do homem é apenas uma evidência da eleição de 
Deus (Jo 15.16; At 3.16; 15.11; 16.14; 18.27; Ef 2.8; Fp 2.12,13). Deus Se revela, 
fala por meio da Palavra regenerando o pecador, concedendo-lhe fé para que, 
agora salvo pela graça, ande nas boas obras preparadas por Deus de antemão 
para nós (Cf. Ef. 2.10).
Entretanto, no nosso relacionamento com Deus, deparamo-nos com um 
paradoxo: quanto mais conhecemos a Deus, temos, por um lado, um maior dis-
cernimento de nossa pecaminosidade e, por outro, uma maior consciência da 
insondabilidade e infinitude de Deus. Paulo, escrevendo aos romanos, após falar 
de um assunto difícil, exulta: 
ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria, como do conhecimento 
de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis os 
seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? ou quem foi 
o seu conselheiro? Ou quem primeiro lhe deu a ele para que lhe venha 
a ser restituído? Porque dele e por meio dele e para ele são todas as 
cousas. A ele pois, a glória eternamente. Amém (Rm 11.33-36).
É importante ressaltar que não conhecemos tudo a respeito de Deus e da 
Sua Palavra, mas devemos ter por certo, que o limite da fé está circunscrito 
pelos parâmetros das Escrituras (Dt 29.29), ou seja, não podemos crer além 
do que Deus nos revelou na Bíblia. Fazer isso não é ter fé, mas sim especu-
lar sobre os mistérios de Deus. A Palavra deve ser sempre o guia da nossa fé. 
A Fé como Conhecimento
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“Nossa fé não tem que estar fundamentada no que nós tenhamos pensado por 
nós mesmos, senão no que foi prometido por Deus.”209 Por isso, devemos estar 
atentos à Palavra de Deus, para entendê-la e praticá-la (Js 1.8; Sl 119.97; Fp 3.15; 
Tg 1.22-25).
Por outro lado, devemos enfatizar que, pelo fato do nosso conhecimento 
a respeito de Deus ser limitado, isso não significa que o que conhecemos aqui 
será corrigido pelo que conheceremos na eternidade, como se a revelação de 
Deus contida na Palavra fosse imprecisa. Não é. Entendemos que, o pouco que 
podemos conhecer do Deus infinito é fidedigno, pois o nosso conhecimento res-
palda-se na Sua Palavra e cremos que a Bíblia é o registro infalível e inerrante 
da Palavra de Deus (2Tm 3.16; 2Pe 1.20,21). Assim, apesar de não podermos 
conhecer tudo a respeito de Deus – o finito não pode conter o infinito –, o que 
conhecemos por meio da Palavra é a verdade; não toda a verdade, mas parte da 
verdade que está em harmonia com o todo. Fazendo uma analogia, podemos 
dizer que, pelo fato de colocarmos a água do mar em um recipiente, ela não deixa 
de ser do mar, porém o perigo está em dizer que, ali, dentro do recipiente está 
todo o mar. Portanto, reafirmamos: o que a Bíblia diz é uma verdade essencial a 
respeito de Deus, nela, temos tudo o que Deus deseja que saibamos nesta vida 
a Seu respeito. No entanto precisamos avaliar sempre o nosso conhecimento 
para que não corramos o risco de tornar a nossa “percepção da verdade”, toda 
e única verdade. Todos nós, por melhor que seja a nossa percepção espiritual e 
teológica, temos, ainda, uma “nuvenzinha de ignorância”.210 Agora, ainda vemos 
obscuramente (1 Co 13.12).
Cito aqui a penetrante consideração de Schaeffer (1981, p. 143):
A comunicação que Deus tem com o homem é verdadeira, mas isto não 
significa que seja exaustiva. Esta é uma distinção importante que pre-
cisamos sempre ter em mente. Para conhecer qualquer coisa exaustiva-
mente, precisaríamos ser infinitos, como Deus. Mesmo na vida eterna 
não seremos assim. 
209 Consultar referência.
210 Consultar referência.
O DEUS QUE SE REVELA
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IIU N I D A D E84
A tentativa humana por encontrar Deus aparte de Jesus Cristo, conforme é nos 
dado a conhecer nas Escrituras, termina em naturalismo, ateísmo ou deísmo, 
que nada mais são do que formas de paganismo. A religiosidade descompromis-
sada como resultado da carência de Deus, não direcionada pela Palavra, termina 
em superstição e idolatria que, entre outros males, pode, em determinadas cir-
cunstâncias, dar a sensação de satisfação para a angustiante carência de Deus, 
no entanto esse remendo humano torna a situação do homem ainda pior, por-
que, na realidade, ele consciente ou inconscientemente está se enganando e, desse 
modo, enquanto adota um paliativo espiritual, abandona a procura sincera pela 
verdade e torna-se, geralmente, imune à genuína proclamação do Evangelho de 
Cristo. Somente o genuíno conhecimento de Cristo nos conduz a Deus e nos 
liberta das cadeias do pecado. “Como as trevas são dispersas pelos raios furti-
vos do sol, assim todas as invenções e erros perversivos se desvanecem diante 
desse conhecimento de Deus.”211 
A NECESSIDADE DAS ESCRITURAS
NECESSIDADE PRIMÁRIA
A necessidade primária para o registro da Bíblia foi o pecado do homem. No 
Éden, só havia um livro: o livro da natureza; todavia, com o pecado humano, a 
natureza também sofreu as consequências, ficando obscurecida, perdendo parte 
da sua eloquência primeva em apontar para o Seu Criador (Gn 3.17-19)212 e, 
como parte docastigo pelo pecado, o homem perdeu o discernimento espiri-
tual para poder ver a glória de Deus manifesta na criação (Sl 19.1; Rm 1.18-23). 
A Revelação Geral que fora adequada para as necessidades do homem no Éden – 
embora saibamos que ali também se deu a Revelação Especial (Gn 2.15-17,19,22; 
211 Consultar referência.
212 Consultar referência.
A Necessidade das Escrituras
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3.8ss) –, tornou-se, agora, incompleta e ineficiente213 para conduzir o homem a 
um relacionamento pessoal e consciente com Deus,214 pois: “Lembremo-nos de 
que nossa ruína se deve imputar à depravação de nossa natureza.”215
Por meio da História, Deus separou e preparou homens para que registras-
sem de forma exata e infalível os Seus desígnios, sendo a Palavra de Deus escrita, 
dentre outras coisas, “o corretivo às ideias disformes que pode dar-nos a natu-
reza em seu estado caído.”216
Dessa forma, a Bíblia tem um caráter instrumental e temporário, embora que 
os seus efeitos e as suas verdades sejam eternos. O que estamos querendo dizer 
é que, na eternidade, não haverá mais a Bíblia; apenas teremos a visão ampla e 
experimental daquilo para o qual ela apontava: A vitória do Cordeiro!
NECESSIDADE CONSEQUENTE
Como consequência lógica do argumento anterior, podemos observar que a Bíblia 
foi escrita para registrar de forma cabal e inerrante a vontade de Deus referente 
ao aqui e agora e ao lá e depois, evitando assim, os desvios naturais, fruto do 
pecado humano. Por isso, só se considera adequada à revelação de Deus contida 
na Bíblia; somente através das Escrituras, o homem pode ter um conhecimento 
de Deus livre de superstições. 
Calvino (1509-1564) compreendendo bem este fato escreveu:
Com efeito, se refletimos quão acentuada é a tendência da mente hu-
mana para com o esquecimento de Deus, quão grande a proclividade 
para com toda sorte de erro, quão pronunciado o gosto de a cada ins-
tante forjar novas e fantasiosas religiões, poder-se-á perceber quão 
necessária haja sido tal autenticação escrita da celeste doutrina, para 
que não deperecesse pelo olvido, ou se dissipasse pelo erro, ou fosse da 
petulância dos homens corrompida. J. Calvino, As Institutas, I.6.3. (Vd. 
Confissão de Westminster, I.1). 
213 Vd. WARFIELD, B. B. Revelation and Inspiration: In: The Works of Benjamin B. Warfield, 
Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1981, p. 7ss. A revelação Geral é “tênue e obscura para 
a humanidade pecadora, e mesmo para a humanidade redimida.” (GRONINGEN, G. V. Revelação 
Messiânica no Velho Testamento, p. 64).
214 Consultar referência.
215 Consultar referência.
216 Consultar referência.
O DEUS QUE SE REVELA
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IIU N I D A D E86
A Bíblia como Palavra inspirada e inerrante de Deus, dá ao homem a resposta 
adequada às necessidades espirituais de que tanto carece, apontando para Jesus 
Cristo (Jo 5.39) e para o poder de Deus. Nas Escrituras encontramos a esperança 
da vida preparada, realizada e consumada pelo Deus Triúno (Rm 15.4; 1 Jo 5.13).
A Bíblia não foi registrada apenas para o nosso deleite espiritual; mas para 
que cumpramos os seus preceitos, dados pelo próprio Deus (Dt 29.29; Js 1.8; 2 
Tm 3.15,16; Tg 1.22); a Bíblia também não nos foi dada para satisfazer a nossa 
curiosidade pecaminosa (Dt 29.29), que em geral ocasiona especulações esd-
rúxulas e facções;217 Ela foi-nos concedida para que conheçamos o Seu Autor 
e, O conhecendo O adoremos e, O adorando, mais O conheçamos (Os 6.3; 2 
Pe 3.18).218 A Bíblia foi-nos confiada a fim de que, mediante a iluminação do 
Espírito Santo,219 sejamos conduzidos a Jesus Cristo (Jo 5.39/Lc 24.27,44), sendo 
Ele mesmo Quem nos leva ao Pai (Jo 14.6-15; 1Tm 2.5; 1Pe 3.18) e nos dá vida 
abundante (Jo 10.10; Cl 3.4). Por isso, “ao estudarmos Deus, devemos procurar 
ser conduzidos a Ele.”.220 
217 Calvino combateu as especulações com veemência; em diversos lugares ele escreveu sobre o assunto; 
como exemplo, cito: “Porque são mui poucos entre a ingente multidão de homens que existe no mundo 
os que pretendem saber qual é o caminho para ir ao céu; porém todos desejam antes do tempo conhecer 
o que é que se faz nele.” (As Institutas, III.25.11; Vd. também I.5.9). “’A Escritura é proveitosa.’ Segue-
se daqui que é errôneo usá-la de forma inaproveitável. Ao dar-nos as Escrituras, o Senhor não pretendia 
satisfazer nossa curiosidade, nem alimentar nossa ânsia por ostentação, nem tampouco deparar-nos 
uma chance para invenções místicas e palavreado tolo; sua intenção, ao contrário, era fazer-nos o bem. E 
assim, o uso correto da Escritura deve guiar-nos sempre ao que é proveitoso.” (Calvino, J. As Pastorais, 
São Paulo: Paracletos, 1998, (2Tm 3.16), p. 263). “As cousas que o Senhor deixou recônditas em secreto 
não perscrutemos, as que pôs a descoberto não negligenciemos, para que não sejamos condenados ou de 
excessiva curiosidade, de uma parte, ou de ingratidão, de outra.” (As Institutas, III.21.4).
“Nem nos envergonhemos em até este ponto submeter o entendimento à sabedoria imensa de Deus, que 
em Seus muitos arcanos sucumba. Pois, dessas cousas que nem é dado, nem é lícito saber, douta é a 
ignorância, a avidez de conhecimento, uma espécie de loucura.” (As Institutas, III.23.8).
218 Consultar referência.
219 Calvino observou que: “Só quando Deus irradia em nós a luz de seu Espírito é que a Palavra logra 
produzir algum efeito. Daí a vocação interna, que só é eficaz no eleito e apropriada para ele, distingue-se 
da voz externa dos homens.” (Calvino, J., Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997, (10.16), 
p. 374). A vocação eficaz do eleito, “não consiste somente na pregação da Palavra, senão também na 
iluminação do Espírito Santo.” (CALVINO, J. As Institutas, III.24.2).
220 Consultar referência.
A Inspiração das Escrituras
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A INSPIRAÇÃO DAS ESCRITURAS
O QUE INSPIRAÇÃO NÃO É
A. Mecânica ou Ditada
Inspiração não significa que os escritores receberam o conteúdo de seus escritos, 
por ditado divino. Se assim fosse, significaria que eles foram apenas os secretá-
rios, amanuenses de Deus, que copiavam pura e simplesmente o que lhes fora 
ditado221; logo, não haveria estilos diferentes na Bíblia, o que, como sabemos, há. 
O estilo, nesse caso, seria do Espírito Santo. Um dos textos que indicam o contrá-
rio, é 2Pe 3.15,16, quando Pedro faz alusão à maneira própria de Paulo escrever.
B. Iluminação
A Inspiração não consiste apenas numa intensificação da ação do Espírito Santo 
sobre os escritores, de tal forma que eles puderam ter um grau mais elevado de 
percepção espiritual. Se a inspiração fosse apenas isto, cairíamos num subjeti-
vismo extremamente perigoso, pois, nesse caso, a veracidade dos textos bíblicos 
dependeria da apreensão de cada “iluminado” para que pudesse registrar o que 
percebera. Consequentemente, não poderíamos considerar a Bíblia como o regis-
tro inerrante da Palavra de Deus, visto que a Bíblia apenas conteria a Palavra que 
foi apreendida, captada... Este conceito contraria o ensino das Escrituras (Vd. Jo 
10.35; At 4.25,26; 6.2), que afirma que Deus fala através dos Seus servos, sendo 
o seu registro, a Palavra de Deus, a qual não pode ser anulada.
C. Intuição
Inspiração não significa que os escritores foram inspirados da mesma forma 
que os grandes autores da literatura, inventores, cientistas, músicos etc.222 
221 Notemos que não haveria nenhum problema em copiar o “ditado” divino; o que estamos dizendo é que 
a Bíblia não nos ensina isso. 
222 Richardson, que sustenta tal posição, diz: “a inspiração dos livros da Bíblia não nos força a aceitar 
que foram produzidosou escritos de qualquer maneira genericamente diferente daquela por que se 
escreveram outros grandes livros cristãos, como, por exemplo, A Imitação de Cristo ou O Peregrino. A 
inspiração do Espírito Santo, no sentido em que o apóstolo Paulo disse ter a direção do Espírito, não 
cessou quando foram escritos todos os livros do Novo Testamento, ou quando se estabeleceu finalmente o 
cânon do Novo Testamento. Há uma boa porção da literatura cristã que vai do século segundo ao século 
vinte, que pode com muita propriedade ser tida como inspirada pelo Espírito Santo, precisamente no 
mesmo sentido formal que julgamos inspirados os livros da Bíblia.” (RICHARDSON, A. Apologética 
Cristã, 2ª ed. Rio de Janeiro, JUERP, 1978. p. 167). 
O DEUS QUE SE REVELA
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Se assim fosse, a Bíblia poderia até ser um belíssimo livro, todavia apenas um 
livro humano, criado pela genialidade humana e, por mais belo e extraordiná-
rio que fosse, seria falível, cheio de erros, preceitos antiquados e o pior de tudo: 
não nos conduziria a Deus (Jo 5.39).
D. Parcial ou Fracional
Inspiração não significa que os autores tiveram apenas uma inspiração parcial quanto 
a alguns assuntos da Bíblia. Os defensores desta idéia entendem que doutrinaria-
mente a Bíblia contém a Palavra de Deus (embora não haja unanimidade quanto à 
aceitação desta ou daquela doutrina); contudo, ela contém erros de história, crono-
logia, arqueologia, geografia, etc. A idéia mais comum, é a de que a Bíblia só teria 
autoridade em matérias morais e espirituais. Este conceito traz em seu bojo a pres-
suposição consciente ou inconsciente de que a Bíblia tem uma “inerrância limitada”, 
restrita aos assuntos morais e espirituais.223 Todavia, Paulo diz que “Toda Escritura 
é inspirada por Deus...” (2Tm 3.16). O labor humano em tentar separar – como se 
existisse o que separar –, o que é “inspirado” do que “não é inspirado”, se constitui 
em algo nocivo e temerário, visto que o homem arroga a si a condição de superior à 
Palavra, colocando-se sobre a Bíblia para julgá-la, com critérios subjetivos, estabele-
cendo um “Cânon dentro do Cânon”, rejeitando o próprio testemunho das Escrituras. 
E. Mental
Inspiração não significa que os autores secundários tiveram apenas os seus pen-
samentos inspirados, mas não as palavras de seus registros. Se isso fosse assim, os 
pensamentos seriam verdadeiros, contudo o registro desses pensamentos pode-
ria e, de fato, conteria erros. Ora, essa concepção é extravagante, uma vez que 
admite a possibilidade de Deus inspirar o pensamento humano sem palavras. 
Não é justamente em palavras que nós pensamos, ainda que a sua expressão possa 
ser pictórica? Além do mais, a Bíblia nos ensina que Deus dá as palavras para 
serem registradas (Cf. Ex 24.4; 34.27; Is 30.8; Jr 1.9; 36.2; Hc 2.2; Ap 21.5). A ins-
piração termina não nas ideias, mas no registro final das Escrituras (2Tm 3.16).
223 Sproul apresenta, de forma clara e objetiva, alguns desvios decorrentes da aceitação da “inerrância 
limitada”. (SPROUL, R. C. Sola Scriptura: Crucial ao Evangelicalismo: In: BOICE, J. M. ed. O Alicerce da 
Autoridade Bíblica, p. 134-138. A interpretação católica romana, a partir do Concílio Vaticano II (1962-
1965), corresponde a este conceito. Conforme já vimos, o Concílio declarou: “Deve-se professar que os 
livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus em vista da nossa salvação 
quis fosse consignada nas Sagradas Escrituras.” (Compêndio do Vaticano II, II.3.11. § 179, p. 129).
A Inspiração das Escrituras
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O QUE ENTENDEMOS POR INSPIRAÇÃO
A. Considerações Gramaticais
A palavra “inspiração” não ocorre no Novo Testamento. Ela só aparece uma 
única vez no Antigo Testamento: “mas ninguém diz: onde está Deus que me fez, 
que inspira canções de louvor durante a noite” (Jó 35.10) (ARA).224 No Novo 
Testamento, a palavra é decorrente de uma tradução interpretativa do Texto de 
2Tm 3.16, que diz: “toda Escritura é inspirada por Deus...”. A expressão “ins-
pirada por Deus” provém de um único termo grego, Qeo/pneustoj, que só 
ocorre aqui. (Não aparece na LXX). Todavia a tradução que temos (Almeida, 
Revista e Atualizada) segue aqui a Vulgata que traduz “Divinitus Inspirata”.225
A palavra Qeo/pneustoj não significa “ins-pirado”, mas sim “ex-pirado”, 
ou seja, ao invés de soprado para dentro, soprado para fora. Esse adjetivo, comenta 
Colin Brown, 
não significa qualquer modo específico de inspiração, tal qual alguma for-
ma de ditado divino. Nem sequer dá a entender a suspensão das faculda-
des cognitivas normais dos autores humanos. Do outro lado, realmente 
quer dizer algo bem diferente da inspiração poética. É um erro omitir o 
elemento divino no termo, transmitido por theo (The New English Bible 
faz assim, ao traduzir a frase; ‘toda escritura inspirada’).226 É claro que a ex-
pressão não dá a entender que algumas escrituras são inspiradas, enquanto 
outras não são. Todas as Sagradas Escrituras expressam a mente de Deus; 
fazem assim, no entanto, com o alvo da sua operação prática na vida.227 
O que Paulo quer dizer é que toda a Escritura Sagrada é soprada, exalada por 
Deus. Se tomarmos a palavra apenas no sentido passivo, diremos que “Deus, em 
sua revelação, é soprado pelas páginas das Escrituras”. Desse modo, podemos 
dizer que Deus é o Autor e o Conteúdo das Escrituras. 
224 O verbo é traduzido da mesma forma em BJ. ARC e ACR traduzem mais literalmente, por “dá”
225 A expressão completa é: “Omnis Scriptura Divinitus Inspirata”.
226 De fato, assim lemos em The New English Bible: New Testament, Great Britain, Oxford University 
Press, 1961: “Every inspired scripture”. Mesmo equívoco comete ARC. Vd. uma boa discussão sobre 
este ponto In: BLUM, E. A. The Apostles’ of Scripture: In: GEISLER, N. L. ed. Inerrancy, Grand Rapids, 
Michigan: Zondervan Publishing House, 1980, p. 45ss.
227 BROWN, C. Escritura: In: BROWN, C. ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia 
do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, Vol. II, p. 103-104. Vd. A análise da questão 
In: Hoeksema, H. C. The Doctrine of Scripture, Grand Rapids, Michigan: Reformed Free Publishing 
Association, 1990, p. 40ss.
O DEUS QUE SE REVELA
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Benjamin B. Warfield (1851-1921), comentando o Texto de 2 Tm 3.16, diz:
Numa palavra, o que se declara nesta passagem fundamental é, sim-
plesmente, que as Escrituras são um produto divino, sem qualquer 
indicação da maneira como Deus operou para as produzir. Não se 
poderia escolher nenhuma outra expressão que afirmasse, com maior 
saliência, a produção divina das Escrituras, como esta o faz. (...) Paulo 
(...) afirma com toda a energia possível, que as Escrituras são o produto 
de uma operação especificamente divina (WARFIELD, 1967, p. 79).
Com isso, estamos dizendo que o Deus que Se revelou, esteve “expirando” os 
homens que Ele mesmo separou para registrarem essa revelação. A inspira-
ção bíblica garante que seja registrado de forma veraz aquilo que a inspiração 
profética fazia com respeito à palavra do profeta, para que ela correspondesse 
literalmente à mente de Deus. Em outras palavras: a Palavra escrita é tão fide-
digna quanto a Palavra falada pelos profetas; ambas foram inspiradas por Deus.
A Bíblia é o registro infalível da Palavra de Deus. Deus fez com que os Seus ser-
vos registrassem a Sua vontade mediante a Revelação, Inspiração e Iluminação do 
Espírito; desta forma, o Deus Triúno é o Autor das Escrituras, sendo a Inspiração 
mais propriamente atribuída ao Espírito. (Cf. 2Sm 23.2; Mt 22.43; At 1.16; 4.24-
26; 28.25; Hb 3.7-11; 9.6-8; 10.15-17; 1Pe 1.10-12/2Tm 3.16; 2Pe 1.20-21).
B. Definição de InspiraçãoPodemos definir a Inspiração como sendo a influência sobrenatural do Espírito 
de Deus sobre os homens separados por Ele mesmo, a fim de registrarem de 
forma inerrante e suficiente toda a vontade de Deus, constituindo este registro 
na única fonte e norma de todo o conhecimento cristão. 
Van Groningen (1995, p. 64-65) coloca a questão nestes termos:
O Espírito Santo habitou em certos homens, inspirou-os, e assim diri-
giu-os que eles, em plena consciência, expressaram-se na sua singular 
maneira pessoal. O Espírito capacitou homens a conhecer e expressar 
a verdade de Deus. Ele impediu-os de incluir qualquer coisa que fosse 
contrária a essa verdade de Deus. Ele também impediu-os de escrever 
coisas que não eram necessárias. Assim, homens escreveram como ho-
mens, mas, ao mesmo tempo, comunicaram a mensagem de Deus, não 
a do homem (Gerard Van Groningen. Revelação Messiânica no Velho 
Testamento, Campinas: Luz para o Caminho, 1995, p. 63). 
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Assim, cremos que a Inspiração foi Plenária, Dinâmica, Verbal e Sobrenatural: 
1. Plenária: porque toda a Escritura é plenamente expirada. De Gênesis ao 
Apocalipse, tudo o que foi registrado, o foi pela vontade de Deus (2 Tm 
3.16; 2Pe 1.20-21).
2. Dinâmica:228 porque Deus não anulou a personalidade dos escritores, por 
isso, inspirados por Deus, eles puderam usar de suas experiências, pes-
quisas, aptidões e manter o seu estilo (2Pe 3.15-16). Deus, na realidade, 
separou os seus servos antes deles nascerem e os preparou para desem-
penharem essa função (Is 49.1,5; Jr 1.5; Gl 1.15-16).229
3. Verbal: porque Deus se revelou por meio de Palavras e todas as pala-
vras dos autógrafos originais são Palavra de Deus (2Sm 23.2; Jr 1.9; Mt 
5.18; 1Co 2.13). Em Gl 3.16, é interessante observar que Paulo baseia 
o seu argumento em uma só palavra usada no original hebraico.230 
A inspiração se estende aos pensamentos bem como às palavras.231
228 A inspiração é também chamada de “orgânica”, porque a Escritura pode ser comparada em certo sentido a 
um organismo, onde há uma interação harmoniosa de forças. Deus preparou os Seus servos desde à eternidade, 
tornando-os “órgãos da inspiração”. (Vd. HOEKSEMA, H. C. The Doctrine of Scripture, p. 78ss).
229 Consultar referência.
230 Consultar referência.
231 TIl, C. V. An Introduction To Systematic Theology, Phillipsburg, New Jersey, Presbyterian and Reformed 
Publishing Co., 1974, p. 152. Seguindo essa linha de interpretação, a Formula Consensus Helvetica (1675) – 
também conhecida como “Símbolo Secundino”, “Formula Anti-Saumuriensis”, ou “Anti-Amyraldensis” devido 
ao combate à teologia de Moisés Amyraut (1596-1664) da escola de Saumur –, foi mais longe, declarando a 
infalibilidade das vogais hebraicas(*), que, diga-se, ainda não existiam nos tempos bíblicos (Sobre as “massoretas” 
que vocalizaram o Antigo Testamento Hebraico, Vd. ARCHER JUNIOR, G. L. Merece Confiança o Antigo 
Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1974, p. 65ss; R.N. Champlin, Manuscritos do Antigo Testamento e Massora: 
In: EBTF., IV, p. 64-65; 153). Diz a Formula no cânon II: “O Original Hebreu do Antigo Testamento que temos 
recebido da tradição da Igreja Judaica, a qual antigamente ‘foram confiados os oráculos de Deus’ (Rm 3.2), e 
retido até o presente dia, tanto em suas consoantes como em suas vogais – os pontos mesmos, ou pelo menos, a 
força dos pontos –, e tanto em sua substância como em suas palavras é inspirado divinamente, de modo que, junto 
com o Original do Novo Testamento, é a única e completa regra da nossa fé e vida, mediante cujo critério, como 
uma pedra de toque, devem ser postas à prova todas as versões que existem, tanto orientais como ocidentais, e 
se em algum ponto variam, devem ser colocadas em conformidade com a mesma”. (In: LEITH, J. H. ed. Creeds 
of the Churches, New York, Anchor Books, 1963, p. 310). Esta declaração teológica, que Hodge denomina de 
“a mais científica e completa de todas as Confissões Reformadas” (Hodge, A. A. Esboços de Theologia, Lisboa, 
Barata & Sanches, 1895, p. 113), foi elaborada em Zurique, pelo professor John Henry Heidegger, de Zurique 
(1633-1698); Rev. Lucas Gernler, de Basiléia (1625-1675) e pelo professor François Turretini, de Genebra (1623-
1687), o grande teólogo reformado, para quem a Bíblia é a única fonte da Teologia. Ela foi a última Confissão 
da Igreja Reformada Suíça, encerrando, assim, o período de “Credos Calvinistas”. Mesmo não estendendo 
sua autoridade além da Suíça, esta Fórmula é de grande valor para a história da teologia Protestante e para o 
fortalecimento da união entre os Reformados nos cantões suíços. ”Este Consensus foi significativo não somente 
para condenar a teologia Salmuriana, porém também pra unir os cantões evangélicos da Suiça na comum 
definição da fé reformada. Semelhante unidade foi necessária para o fortalecimento reformado da Suíça contra 
a Igreja Católica Romana.” (KLAUBER, M. I. The Helvetic Formula Consensus (1675): An Introduction and 
Translation: In: Trinity Journal, 11NS (1990), p. 107). (Vd. SCHAFF, P. The Creeds of Christendom, 6ª ed. 
Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Revised and Enlarged), (1931), Vol. I, p. 478-479; Hodge, A. 
A., Esboços de Theologia, p. 113; ROGERS, J. The Church Doctrine of Biblical Authority: In: ROGERS, J, ed. 
Biblical Authority, Waco, Texas, Word Books, 1977, p. 30-31).
 (*) Esta tese era sustentada por Johannes Buxtorf, pai (1564-1629) e filho (1599-1664), tendo esse exercido 
influência na Fórmula. (Vd. BERTHEAU, E. Buxtorf: In: SCHAFF, P. ed. Religious Encyclopaedia: or 
Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, Chicago, Funk Wagnalls, Publishers, 
1887 (Revised Edition), Vol. I, p. 351; Schaff, P. The Creeds of Christendom, Vol. I, p. 479-480; Tillich, P. 
História do Pensamento Cristão, São Paulo: ASTE, 1988, p. 256). 
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4. Sobrenatural: por ter sido originada em Deus e produzir efeitos sobre-
naturais, mediante a ação do Espírito Santo, em todos aqueles que creem 
em Cristo. (Jo 17.17; Rm 10.17; Cl 1.3-6; 1Pe 1.23). É por meio da Palavra 
que Deus gera os seus filhos espirituais.232 
C. O Papel dos Escritores Sagrados nos Seus Respectivos Registros
1. Papel Passivo
Eles foram inteiramente passivos no sentido de que não interferiram na ação 
de Deus em se revelar e, também, no fato de que não expressaram a sua natu-
reza pecaminosa. Os escritores foram apenas instrumentos humanos por meio 
dos quais Deus decretou registrar a Sua mensagem (2 Pe 1.21; 2 Tm 3.16). 
Eles falaram, todavia somente à medida que foram conduzidos pelo Espírito 
Santo. A Escritura não é maniqueísta: tendo de um lado a Palavra de Deus e, 
de outro, a palavra dos homens; nem é ela o produto de uma decisão humana 
e falível; é, antes, “exalada por Deus” em toda a sua extensão.233
2. Papel Ativo
Conforme já afirmamos anteriormente, Deus não anulou a personalidade 
dos escritores; caso contrário, na Bíblia haveria apenas um único e incon-
fundível estilo: o estilo do Espírito Santo. No entanto quer por meio dos 
Originais, quer por meio das traduções, é facilmente percebida a diferença 
entre os escritos de Moisés, Isaías, Amós etc. Da mesma forma, é percep-
tível de modo claro as características próprias dos escritos de Paulo e de 
João, bem como o de Mateus, Marcos e Lucas. Portanto, podemos afir-
mar que, de certa forma, cada Livro da Bíblia é fruto do estilo literário 
do seu autor humano (autor secundário).
Por isso, dentro da inspiração, há lugar para assuntos pessoais como, por 
exemplo, a Epístola de Paulo a Filemon e, também, há espaço para reco-
mendações e preocupações específicas (Cf. 1Tm 5.23;2Tm 4.13).
232 Consultar referência.
233 Consultar referência.
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Edwin Palmer (2009 p. 59-60), comentando este assunto, escreve:
Deus permitiu que o amor de Davi pela natureza brilhasse em seus 
Salmos, que o conhecimento que Paulo tinha da literatura pagã se ma-
nifestasse em suas cartas, que os conhecimentos médicos de Lucas ca-
racterizassem seus escritos, que a brusquidão de Marcos aparecesse em 
seu livro. Tanto é, que Paulo escreveu em uma forma lógica, João o fez 
numa forma mais mística. 
Essa compreensão harmoniza-se perfeitamente com a soberania de Deus. Ele 
decretou e controlou os eventos, proporcionando as condições para que os seus 
servos se tornassem “naturalmente” aptos para a tarefa que Deus lhes confia-
ria.234 Na doutrina da inspiração, vemos de forma nítida a providência de Deus, 
que revela o Seu governo sobre todas as coisas. 
Os escritores sagrados não foram obrigados a escrever nada que fosse con-
trário a sua vontade, nem Deus fez com que quem só soubesse o hebraico, tivesse 
de escrever em grego. Deus usou as suas aptidões “naturais” misteriosamente, 
de tal forma, que o produto final fosse o registro inerrante da Palavra de Deus e, 
ao mesmo tempo, houvesse a expressão da individualidade de cada escritor.235
A BÍBLIA DÁ TESTEMUNHO DA SUA INSPIRAÇÃO E INERRÂNCIA:
Conforme já indicamos de forma bastante resumida, a Bíblia autentica-se a si 
mesma como o registro inspirado e inerrante da revelação de Deus. Deus orde-
nou que a Sua palavra fosse escrita (Ex 17.14), sendo chamado este registro de 
“Livro do Senhor” (Is 34.16). Analisemos esse ponto com mais vagar, substancian-
do-o com alguns dos muitos textos bíblicos que fundamentam a nossa assertiva:
A. Os Profetas
1. Os profetas são descritos como aqueles por meio dos quais Deus fala (Ex 7.1; 
Dt 18.15,18; Jr 1.9; 7.1). O Profeta não criava nem adaptava a mensagem; 
a ele competia transmiti-la como havia recebido (Ex 4.30; Dt 4.2,5). O que 
se exige do Profeta é fidelidade. Martin-Achard, resume bem isso, dizendo:
234 Consultar referência.
235 Consultar referência.
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Na realidade, o profeta não tem por missão pregar uma ideologia nova, 
qualquer que seja ela, ele coloca novamente os seus contemporâneos 
diante da pessoa de Deus, ele situa Israel diante de Alguém e não diante 
de um ensinamento ou um ideal, ele deixa Javé e o seu povo face a face 
(Martin-Achard, 1970, p. 71. Vd. ARCHER JUNIOR, 1974, P. 333-337).
2. Os profetas tinham consciência de que foram chamados por Deus (1Sm 
3; Is 6; Jr 1; Ez 1-3). Receberam a mensagem da parte de Deus (Nm 23.5; 
Dt 18.18; Jr 1.9; 5.14), que era distinta dos seus próprios pensamentos 
(Nm 16.28; 24.13; 1Rs 12.33; Ne 6.8). Os falsos profetas eram acusados 
justamente de proferirem as suas próprias palavras e não as de Deus (Jr 
14.14; 23.16; 29.9; Ez 13.2,3,6).
3. Quando os profetas se dirigiam ao povo, diziam: “assim diz o Senhor...”, 
“Ouvi a Palavra do Senhor...”. “Veio a Palavra do Senhor” (Cf. Ez 31.1; 
Os 1.1; Jl 1.1; Am 1.3; 2.1; Ob 1.1; Mq 1.1; Jr 27.1; 30.1,4, etc.), isso indi-
cava a certeza que tinha de que Deus lhes dera a mensagem e os enviara 
(Cf. Jr 20.7-9; Ez 3.4ss, 17,22; 37.1; Am 3.8; Jn 1.2).
4. Um fato importante a favor da sinceridade dos profetas de Deus é que 
nem sempre eles entendiam a mensagem transmitida (Cf. Dn 12.8,9; 
Zc 1.9; 4.4; 1Pe 1.10,11).
B. Os Apóstolos
Os escritores do Novo Testamento reconheciam ser o Antigo Testamento a Palavra 
de Deus (Hb 1.1; 3.7), sendo a “Escritura” um registro fiel da história e da von-
tade de Deus (Rm 4.3; 9.17; Gl 3.8; 4.30).
Os Apóstolos falavam com a convicção de que estavam pregando e ensinando 
a Palavra inspirada de Deus, dirigidos pelo Espírito Santo (Vd. 1Co 2.4-13; 7.10; 
14.37; 2Co 13.2-3; Gl 1.6-9; Cl 4.16; 1Ts 2.13; 2Ts 3.14). Paulo e Pedro coloca-
vam os Escritos do Novo Testamento no mesmo nível do Antigo Testamento (Cf. 
1Tm 5.18/Dt 25.4; Lc 10.7; 2Pe 3.16). Paulo reconheceu os apóstolos e os pro-
fetas, no mesmo nível, como os fundamentos da Igreja, edificados sobre Jesus 
Cristo, a pedra angular (Ef. 2.20).
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C. Jesus Cristo
Jesus apelava para o Antigo Testamento, considerando-o como a expressão fiel 
do Conselho de Deus, sendo a verdade final e decisória. Deus é o Autor das 
Escrituras (Mt 4.4,7,10; 11.10; 15.4; 19.4; 21.16,42; 22.29; Mc 10.5-9; 12.10; 12.24; 
Lc 19.46; 24.25-27, 44-47; Jo 10.34).
D. Afirmações Diretas das Escrituras
O Novo Testamento declara enfaticamente que toda a Escritura, como Palavra 
de Deus, é inspirada, inerrante e infalível (Vd. Mt 5.18; Lc 16.17,29,31; Jo 10.35; 
At 1.16; 4.24-26; 28.25; Rm 15.4; 2Tm 3.16; Hb 1.1-2; 3.7-11; 10.15-17; 2Pe 1.20).
A Bíblia fornece argumentos racionais que demonstram a sua inspiração 
e inerrância, todavia os homens só poderão ter essa convicção mediante o tes-
temunho interno do Espírito Santo (Sl 119.18).236 Os discípulos de Cristo só 
entenderam as Escrituras, quando o próprio Jesus lhes abriu o entendimento (Lc 
24.45). A Escritura autentica-se a si mesma, e nós a recebemos pelo Espírito.237
A posição que sustentamos nesse ensaio consiste apenas em uma rendição 
incondicional às reivindicações Proféticas, Apostólicas e do próprio Cristo. Diante 
de um testemunho tão evidente, como poderia eu descartá-lo e seguir as opi-
niões fantasiosas de homens? O cristão sincero deve aprender, pelo Espírito de 
Deus, a subordinar a sua inteligência à sabedoria de Deus revelada nas Escrituras 
e guarda-la no coração a Palavra de Deus (Sl 119.11).238
236 Consultar referência.
237 Consultar referência.
238 Alhures escreve: “A Palavra de Deus deve ser guardada em nosso coração – o centro de nosso 
pensamento, emoções e decisões –, a fim de que todo o nosso procedimento, seja conforme os Preceitos 
de Deus. A Palavra de Deus meditada e guardada no coração, é preventiva contra o pecado: “Guardo no 
coração as tuas palavras, para não pecar contra ti.” (Sl 119.11) (Veja: Sl 37.31;119.2,57,69; Pv 2.10-12). O 
verbo “guardar” no salmo citado [}apfc (çãphan) = “esconder”, “ocultar”, “entesourar”, “armazenar”], tem o 
sentido de guardar com atenção, levando-o em consideração no seu agir (Vd. no sentido negativo: Sl 10.8; 
56.6; Pv 1.11,18) ; esconder alguém considerado precioso ou importante a ponto de arriscar a sua própria 
vida para poder ocultar (Ex 2.2-3; Js 2.4) – Deus também nos “esconde”, nos “protege” dos inimigos (Sl 
27.5; 31.19, 20; 83.3) –; ou algo precioso para alguém (Ct 7.13), tendo em vista sempre algum propósito. 
Portanto, guardar a Palavra no coração significa considera-la em todo o nosso ser, sendo ela a norteadora 
do nosso sentir, pensar, falar e agir; o lugar da Palavra deve ser sempre no cerne essencial do homem. 
A Palavra é guardada em nosso coração quando está presente continuamente, não meramente como 
um preceito exterior, mas sim, como um poder interno motivador que se opõe ao nosso pensar e agir 
egoísticos.” (COSTA, H. M. P. Santificação: A Vontade de Deus para o Seu Povo, São Paulo: 1995, p. 32-
33). 
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A “INSUFICIÊNCIA” DAS ESCRITURAS? 
Durante toda a história, a Palavra de Deus foi alvo dos mais diversos ataques, 
entre eles, o mais comum é a suposição de sua falibilidade. No entanto um ataque 
mais sutil que também permeou boa parte da história da Igreja é a concepção, 
ainda que muitas vezes velada, de que as Escrituras não são suficientes para nos 
dirigir e orientar.Melanchthon (1497-1560) e Lutero (1483-1546) depararam-se explicita-
mente com esse problema bem no início da Reforma Protestante. Por volta de 
1520, na pequena, porém, próspera e culta cidade alemã de Zwickau, quando sur-
giu um grupo de homens “iluminados” – chamados por Lutero de “profetas de 
Zwickau”239 –, que alegava ter revelações especiais vindas diretamente de Deus, 
entendendo ter sido chamado por Deus para “completar a Reforma”. A sua reli-
gião partia sempre de uma suposta revelação interior do Espírito. Acreditavam 
que o fim dos tempos estava próximo – os ímpios seriam exterminados – e que, 
por isso, não era necessário estudar teologia visto que o Espírito estaria inspi-
rando os pobres e ignorantes. Combatiam também o batismo infantil. Assim 
pensando, esses homens diziam: 
de que vale aderir assim tão estritamente à Bíblia? A Bíblia! Sempre a 
Bíblia! Poderá a Bíblia nos fazer sermão? Será suficiente para a nossa 
instrução? Se Deus tivesse tencionado ensinar-nos, por meio de um 
livro, não nos teria mandado do céu uma Bíblia? Somente pelo Espírito 
é que poderemos ser iluminados. O próprio Deus fala dentro de nós. 
Deus em pessoa nos revela aquilo que devemos fazer e aquilo que de-
vemos pregar.240
Um certo alfaiate, Nícolas Storck, escolheu doze apóstolos e setenta e dois discípulos, 
declarando que, finalmente, tinham sido devolvidos à Igreja os profetas e apóstolos.241
239 Os principais líderes eram: Nícolas Storck, Marcos Tomás e Marcos Stübner. Tomás Münzer (c. 1490-
1525) tornar-se-ia o mais famoso dos que foram influenciados por esse círculo, tendo mais tarde as suas 
idéias próprias, ainda que fiel aos mesmos princípios. (Vd. WILLIAMS, G. H. La Reforma Radical, 
México: Fondo de Cultura Económica, 1983, p. 66ss; DELUMEAU, J. O Nascimento e Afirmação da 
Reforma, São Paulo: Pioneira, 1989, p. 101). 
240 Consultar referência. 
241 Consultar referência. 
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Ele, acompanhado de Marcos Stübner e Marcos Tomás, foi a Wittenberg 
(27/12/1521) – que já enfrentava tumultos liderados por Andreas B. von Carlstadt 
(c. 1477-1541) e Gabriel Zwilling (c. 1487-1558) –, pregar o que considerava ser 
a verdadeira religião cristã, contribuindo grandemente para a agitação daquela 
cidade. Stübner, antigo aluno de Wittenberg, justamente por ter melhor preparo, 
foi comissionado a representá-los. Melanchthon que conversou com Stübner, 
interveio na questão, ainda que timidamente. Storck,242 mais inquieto, logo par-
tiu de Wittenberg; Stübner, no entanto permaneceu realizando ali um intenso e 
eficaz trabalho proselitista; “era um momento crítico na história do cristianis-
mo”.243 Comentando os problemas suscitados pelos “espiritualistas”, o historiador 
D’aubigné (1794-1872) conclui: “a Reforma tinha visto surgir do seu próprio seio 
um inimigo mais tremendo do que papas e imperadores. Ela estava à beira do 
abismo.”244 Daí ouvir-se em Wittenberg o clamor pelo auxílio de Lutero. E Lutero, 
consciente da necessidade de sua volta, abandonou a segurança de Warteburgo, 
retornando a Wittenberg245 a fim de colocar a cidade em ordem (1522), o que fez 
com firmeza e espírito pastoral.246 Mais tarde, Lutero escreveria: “onde, porém, 
não se anuncia a Palavra, ali a espiritualidade será deteriorada.”247
Não nos iludamos, essa forma de misticismo ainda está presente na Igreja e tem 
sido extremamente perniciosa para o povo de Deus, acarretando um desvio espi-
ritual e teológico, deslocando o “eixo hermenêutico” da Palavra para a experiência 
mística, afastando-nos, assim, da Palavra e, consequentemente, do Deus da Palavra.
242 Como resultado das supostas revelações diretas de Deus, Storck e seus companheiros sustentavam 
que “dentro de cinco a sete anos os turcos invadiriam a Alemanha e destruiriam os sacerdotes e todos os 
ímpios. Storck via-se como cabeça de uma nova igreja, designada por Deus para completar a Reforma 
que Martinho Lutero deixara inacabada.” [WEAVER, J. D. Profetas de Zwickau: In: ELWELL, W. A. ed. 
Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, Vol. III, p. 657]. 
243 Consultar referência. 
244 Consultar referência.
245 Justificando com o príncipe o motivo da sua volta, escreveu-lhe no dia de sua chegada a Wittenberg, 7 
de março de 1522: “Não são acaso os Wittemberguenses as minhas ovelhas? Não mas teria confiado Deus? 
E não deveria eu, se necessário, expor-me à morte por causa delas?” (apud D’AUBIGNÉ, J. H. M. História 
da Reforma do Décimo-Sexto Século, Vol. III, p. 83).
246 Lutero, iniciando no dia 09/3/1522, pregou oito dias consecutivos em Wittenberg. Vd. o seu primeiro 
sermão In: Lutero, M. Pelo Evangelho de Cristo: Obras selecionadas de momentos decisivos da Reforma, 
Porto Alegre/São Leopoldo, RS.: Concórdia Editora/Editora Sinodal, 1984, p. 153-161. Quanto aos 
detalhes da sua volta, Vd: D’AUBIGNÉ, J. H. M., História da Reforma do Décimo-Sexto Século, III, p. 
72ss.; ATKINSON, J. Lutero e o Nacimiento del Protestantismo, p. 254ss. 
247 Consultar referência.
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O trágico é que justamente aqueles que supõem desfrutarem de maior “intimi-
dade” com Deus são os que patrocinam o distanciamento da Palavra revelada de 
Deus. Davi enfatiza: “a intimidade do Senhor é para os que o temem, aos quais 
ele dará a conhecer a sua aliança” (Sl 25.14). Portanto, a nossa intimidade com 
Deus revela-se em nosso apego a Sua Palavra, a Sua aliança. Nesse texto, Calvino 
faz uma aplicação bastante contextualizada:
...é uma ímpia e danosa invenção tentar privar o povo comum das san-
tas escrituras, sob o pretexto de serem elas um mistério oculto, como se 
todos os que o temem de coração, seja qual for seu estado e condição 
em outros aspectos, não fossem expressamente chamados ao conheci-
mento da aliança de deus.248
Nós somos herdeiros dos princípios bíblicos da Reforma; para nós, como para 
os reformadores, a Palavra de Deus é a fonte autoritativa de Deus para o nosso 
pensar, crer, sentir e agir: a Palavra de Deus nos é suficiente. 
TRADIÇÃO & ESCRITURA?!
A. Novo Eixo Hermenêutico
Na Reforma, deu-se uma mudança de quadro de referência. O “eixo hermenêu-
tico” desloca-se da tradição da igreja para a compreensão pessoal da Palavra. 
Há aqui uma mudança de critério de verdade que determina toda a diferença. 
No entanto, conforme acentua Popkin, Lutero inicialmente confrontou a igreja 
dentro da perspectiva da própria tradição da igreja, somente mais tarde é que ele 
deu um passo crítico que foi negar a regra de fé da Igreja, apresentando 
um critério de conhecimento religioso totalmente diferente. Foi neste 
período que ele deixou de ser apenas mais um reformador atacando 
os abusos e a corrupção de uma burocracia decadente, para tornar-se 
o líder de uma revolta intelectual que viria a abalar os próprios funda-
mentos da civilização ocidental.249
248 Consultar referência.
249 Consultar referência.
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B. “Sola Scriptura” x Tradição?
A tradição nunca foi rejeitada pelo simples fato de ser tradição. Na própria 
Escritura, encontramos ênfase e crítica à tradição [para/dosij] (2Ts 2.15).250 A 
questão básica é: a que tradição estamos nos referindo? “Lutero e os reformadores 
não queriam dizer por Sola Scriptura que a Bíblia é a única autoridade da igreja. 
Pelo contrário, queriam dizer que a Bíblia é a única autoridade infalível dentro da 
Igreja.”251 A autoridade dos Credos (Apostólico, Nicéia, Calcedônia) era indiscuti-
velmente considerada pelos reformadores – tendo inclusive Lutero [O Catecismo 
Maior (1529) e O Catecismo Menor (1529)] e Calvino [Catecismode Genebra 
(1536/37 e1541/2) e Confissão Gaulesa (1559)] elaborado Catecismos para a 
Igreja –; contudo, somente as Escrituras são incondicionalmente autoritativas.
Quanto a nós, hoje, os Credos servem como desafio para que continuemos 
nossa caminhada na preservação da doutrina e na aplicação das verdades bíbli-
cas aos novos desafios de nossa geração, integrando-nos, assim, à nobre sucessão 
daqueles que amam a Deus e a Sua Palavra e que buscam entendê-la e aplicá-la, 
em submissão ao Espírito, à vida da Igreja. Uma tradição saudável tem compro-
misso com o passado na geração do futuro. Portanto, 
o conservadorismo criativo utiliza-se da tradição, não como autorida-
de final ou absoluta, mas como recurso importante colocado a nossa 
disposição pela providência de Deus, a fim de nos ajudar a entender o 
que a Escritura está nos dizendo sobre quem é Deus, quem somos nós, 
o que é o mundo ao nosso redor e o que fomos chamados para fazer 
aqui e agora.252
O Credo é uma resposta do homem à Palavra de Deus, sumariando os artigos 
essenciais da fé cristã. Dessa forma, eles pressupõem fé, mas não a geram. Essa 
é obra do Espírito Santo através da Palavra (Rm 10.17).
250 A tradição oral (para/dosij) [“transmissão”, “entrega”, “tradição”. A palavra é formada de “Para/” 
(“junto a”, “ao lado de”) & “Di/dwmi” (Conforme o contexto: “dar”, “trazer”, “conceder”, “causar”, “colocar”, 
etc.] consistia basicamente no que Jesus Cristo, os apóstolos e outros servos de Deus ensinavam por 
meio de seus sermões, orientações e comportamento.(1Co 11.2, 23-25; Gl 1.14; 2Ts 2.15; 3.6/Rm 6.17; 
16.17; 1Co 15.1-11; Fp 4.9; 1Ts 2.9, 13; 4.11,12). Nesses textos, evidenciam-se que a “tradição” recebida 
e ensinada amparava-se numa certeza quanto à sua origem divina. Portanto, as “tradições” mencionadas 
por Paulo distinguem-se daquelas inventadas e transmitidas pelos homens, as quais são recriminadas 
por Cristo, visto que estes ensinamentos anulavam a Palavra de Deus (Cf. Mt 15.2,3,6; Mc 7.3,5,8,9,13). A 
para/dosij é rejeitada todas as vezes que entra em choque com a Palavra de Deus. 
251 Consultar referência. 
252 Consultar referência.
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Os Credos baseiam-se na Palavra, porém não são a Palavra – nem jamais foi 
isso cogitado pelos seus formuladores; eles não podem substituir a Palavra de 
Deus; somente Ela gera vida pelo poder de Deus (1Pe 1.23; Tg 1.18).
Para nós, reformados, os Credos têm a sua autoridade decorrente da Palavra 
de Deus; em outras palavras, o seu valor não é intrínseco, mas sim, extrínseco: 
Eles são recebidos e cridos enquanto permanecem fiéis à Escritura; assim, a sua 
autoridade é relativa. 
Os Credos são somente uma aproximação e relativa exposição correta da 
verdade revelada. Dessa forma, podem ser modificados pelo progressivo conhe-
cimento da Bíblia a qual é infalível e inesgotável. Por isso, não devemos tomar 
os Credos como autoridade final para definir um ponto doutrinário: os limites 
de nossa reflexão teológica estão na Palavra, não nos Credos. Os Credos não 
estabelecem o limite de nossa fé, antes a norteia. A Palavra de Deus sempre será 
mais rica do que qualquer pronunciamento eclesiástico por melhor que seja ela-
borado e por mais fiel que seja às Escrituras. No entanto, como ressalta Packer, 
“na verdade a abordagem impiedosa seria tentar aprender de Deus como cava-
leiro solitário que orgulhosamente ou impacientemente virasse as costas para 
a igreja e sua herança: isso seria receita certeira para esquisitices sem fim!”.253
A Confissão de Westminster estabelece o paradigma que deve nos orientar:
O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser 
determinadas, e por quem serão examinados todos os decretos de con-
cílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de 
homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo, em cuja sentença nos 
devemos firmar, não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na 
Escritura. (Confissão de Westminster, capítulo I, seção 10).
6. A IGREJA SOB AS ESCRITURAS
Calvino sempre manifestou um alto apreço pelas Escrituras. Elas são “a 
Palavra pura de Deus”,254 a “Sagrada Palavra de Deus”,255 “Santa Palavra”,256 
253 Consultar referência.
254 Consultar referência.
255 Consultar referência.
256 Consultar referência.
A Inspiração das Escrituras
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“Palavra da verdade”,257 “Palavra de Vida”,258 Infalível,259 que tem “segura cre-
dibilidade”260: é íntegra.261 Por isso, ela é a “norma da fé”,262 “infalível norma de 
Sua sacra vontade”.263
Essa Palavra, portanto, antecede a Igreja: “se o fundamento da Igreja é a dou-
trina profética e apostólica, impõe-se a esta haver assistido certeza própria antes 
que aquela começasse a existir”.264 Assim, como decorrência lógica, não é a Igreja 
que autentica a Palavra por sua interpretação, como a igreja romana sustentou 
em diversas ocasiões; “um testemunho humano falível (como o da igreja) não 
pode moldar o fundamento da divina fé.”265 É a Bíblia que se autentica a si mesma 
como Palavra autoritativa de Deus, e é Ele mesmo Quem nos ilumina para que 
possamos interpretá-la corretamente (Sl 119.18). Por isso, o Espírito não pode 
ser separado da Palavra. Somente pela operação divina poderemos reconhe-
cer a Sua origem divina bem como compreendê-la salvadoramente. “A suprema 
prova da Escritura se estabelece reiteradamente da pessoa de Deus nela a falar.”266 
Portanto, a Igreja tentar subordinar a autoridade da Bíblia ao seu arbítrio consiste 
em uma “blasfêmia”: “É chocante blasfêmia afirmar que a Palavra de Deus é falí-
vel até que obtenha da parte dos homens uma certeza emprestada.”267 Em outro 
lugar: “...a Palavra do Senhor é semente frutífera por sua própria natureza.”268
Na Confissão Gaulesa (1559), redigida primariamente por Calvino (1509-1564), 
no Capítulo IV, diz: “nós sabemos que esses livros [das Escrituras] são canônicos, e 
a regra segura de nossa fé (Sl 19.9; 12.7), não tanto pelo comum acordo e consen-
timento da Igreja quanto pelo testemunho e persuasão interior do Espírito Santo” 
(CONFISSÃO de Westminster, I.6; CONFISSÃO Belga,1561, Art 5). 
257 Consultar referência.
258 Consultar referência.
259 Consultar referência.
260 Consultar referência.
261 Consultar referência.
262 Consultar referência.
263 Consultar referência.
264 Consultar referência.
265 Consultar referência.
266 Consultar referência.
267 Consultar referência. 
268 Consultar referência.
O DEUS QUE SE REVELA
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IIU N I D A D E102
Cabe a nós submeter o nosso juízo e entendimento à verdade de Deus con-
forme testemunhada pelo Espírito.269A Palavra de Deus direcionada ao homem 
revela a seriedade com que Deus nos trata: “sempre que o Senhor nos acerca com 
sua Palavra, Ele está tratando conosco da forma mais séria, com o fim de mover 
todos os nossos sentidos mais profundos. Portanto, não há parte de nossa alma 
que não receba sua influência.”270
A INSPIRAÇÃO E A EVANGELIZAÇÃO
No ato evangelizador da Igreja, ela prega a Palavra de Deus, conforme a ordem 
divina expressa nas Escrituras, fala da salvação eterna oferecida por Cristo, con-
forme as Escrituras, proclama as perfeições de Deus, conforme as Escrituras... 
Ora, se a Igreja não tem certeza da fidedignidade do que ensina, como, então, 
poderá testemunhar de forma honesta?
Uma Igreja que não aceite a inspiração e a inerrância bíblica, não poderá 
ser uma igreja missionária.271 Como poderemos pregar a Palavra se não estiver-
mos confiantes do sentido exato do que está sendo dito? Como evangelizar se 
nós mesmos não temos certeza se o que falamos procede da Palavra de Deus ou 
está embasado em uma falácia?
Billy Graham(cópia de um modelo, ou reflexo de um 
arquétipo), passando pelo latim “ectypus” (feito em relevo, saliente). “Éctipo” é o oposto a arquétipo (do 
grego, “a)rxe/tupoj” = “original”, “modelo”). Na filosofia, Berkeley (1685-1753) estabeleceu esta distinção 
no campo das ideias: “pois acaso não admito eu um duplo estado de coisas, a saber: um etípico, ou 
natural, ao passo que o outro é arquetípico e eterno? Aquele primeiro foi criado no tempo; e este segundo 
desde todo o sempre existiu no espírito de Deus” (BERKELEY, G. Três Diálogos entre Hilas e Filonous. 
São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 22), 1973, 3º Diálogo, p. 119). 
Definição
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“No princípio Deus...”, isso deve ser sempre considerado em todo e qualquer 
enfoque que dermos à realidade. Deus se revela e se interpreta por meio do 
Espírito; e é somente por intermédio dEle que poderemos ter um genuíno 
conhecimento de Deus. A teologia sempre é relativa: “relativa à revelação 
de Deus. Deus precede e o homem acompanha. Esse ato seguinte, este ser-
viço, são pensamentos humanos concernentes ao conhecimento de Deus”.6 
b. A Teologia não termina em conhecimento teórico e abstrato, antes, se ple-
nifica no conhecimento prático e existencial de Deus por intermédio da 
Sua Revelação nas Escrituras Sagradas, mediante a iluminação do Espírito. 
Conhecer a Deus é obedecer a Seus mandamentos. “A boa teologia deslo-
ca-se da cabeça até o coração e, finalmente, até a mão”.7 A genuína cristã é 
compreensível, transformadora e operante.8 Ela reflete a nossa confissão, 
conduz-nos à reflexão e tem implicações diretas em nossa ética.9 
O interesse puramente acadêmico pela teologia é incapaz de contribuir por si só 
para a solidificação da teologia e da fé da Igreja. A teologia é uma expressão de fé 
da igreja amparada na Escritura. Toda teologia é, portanto, apaixonada.10 Como 
falar de Deus e de Sua Palavra de forma “objetiva” e distante do seu “objeto”? A 
teologia é elaborada pelos crentes; o caminho da fé é o caminho da paixão. O 
teólogo sempre será um apaixonado.11 Aliás, adaptando Kierkegaard, diria que 
um teólogo sem paixão é um “tipo” medíocre.12 A teologia começa e continua na 
comunhão com Deus, um Deus transcendente e pessoal que se relaciona conosco. 
Por isso, a teologia não é um estudo a respeito de um Deus distante, antes, é a 
reflexão sobre o Deus com Quem nos relacionamos, perseveramos confiante-
mente em Suas promessas e O cultuamos em adoração e louvor.
6 Consultar referência.
7 Consultar referência. 
8 Consultar referência.
9 Consultar referência.
10 Consultar referência.
11 Li, posteriormente, a declaração de Kapic: “tal conhecimento (de Deus) não é meramente intelectual: é 
também apaixonado, e toca tanto o nosso entendimento quanto os nossos afetos” (KAPIC, Pequeno livro 
para novos teólogos, São Paulo: Cultura Cristã, 2014, p. 31).
12 A frase de Kierkegaard é: “o paradoxo é a paixão do pensamento, e o pensador sem um paradoxo é como 
o amante sem paixão, um tipo medíocre” (KIERKEGAARD, Migalhas Filosóficas, ou, Um bocadinho de 
Filosofia de João Clímacus, Petrópolis, RJ: Vozes, 1995, p. 61).
INTRODUÇÃO A TEOLOGIA
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“A teologia é serva da igreja”.13 Esse serviço será relevante se, antes, a teolo-
gia for serva da Palavra.14 A grande virtude de quem serve é ser encontrado fiel 
(1Co 4.2). O teólogo não pode ter outro propósito do que o glorificar a Deus 
por meio da compreensão fiel das Escrituras e no seu ensino ao povo de Deus. 
“A teologia é a reflexão sobre o Deus que os cristãos cultuam e adoram”.15 Por 
isso, o teólogo não é um transeunte em férias com uma agenda flexível e sem 
maiores compromissos, antes, podemos compará-lo a um peregrino em busca 
do melhor caminho que o conduza de forma mais adequada possível à glorifi-
cação do Nome de Deus por meio de seu conhecimento, ensino e obediência.
Quando falamos de Teologia Reformada, estamos nos referindo à Teologia 
proveniente da Reforma (Calvinista) em distinção à Teologia Luterana. O 
designativo Reformada é preferível ao Calvinista16 – ainda que a empreguemos 
indistintamente – considerando o fato de que a Teologia Reformada não é estri-
tamente proveniente de João Calvino (1509-1564).17
DIVISÃO DA TEOLOGIA
[...] no círculo das ciências, a teologia tem direito a um lugar de honra, não 
por causa das pessoas que pesquisam essa ciência, mas em virtude do objeto 
que ela pesquisa; ela é e continuará sendo – desde que esta expressão seja 
entendida corretamente – a rainha das ciências (BAVINCK, H., 2012, p. 53).
13 Consultar referência.
14 Consultar referência.
15 Consultar referência. 
16 A expressão “Calvinismo” foi introduzida, em 1552, pelo polemista luterano Joacquim Westphal (c. 1510-
1574), pastor em Hamburgo, para referir-se, em especial, aos conceitos teológicos de Calvino (Cf. MCGRATH, 
A. E. The Intellectual Origins of The European Reformation, Cambridge, Massachusetts: Blackwell 
Publishers, 1993, p. 6; COTTRET, B. Calvin: a Biography, Grand Rapids, Mi.: Eerdmans and Edinburgh: T & 
T Clark, 2000, p. 239). Na realidade, Calvino deplorou o uso do termo (1563) que ele considera empregado 
cruelmente por esses “zelotes frenéticos” (Cf. John Calvin, Commentaries on the Prophet Jeremiah, Grand 
Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin’s Commentaries, v. 9), 1996 (reprinted), (Carta Dedicatória do 
seu comentário do Livro de Jeremias), p. xxii). No entanto usamos o termo no sentido que permanece até os 
nossos dias, como designativo da teologia Reformada em contraste com a Luterana. (Veja: WARFIELD, B.B. 
Calvin and Calvinism, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House - The Work’s of Benjamin B. Warfield, 
2000 – Reprinted, v. 5, p. 353; W.S. Reid, Tradição Reformada: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-
Teológica da Igreja Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, v. 3, p. 562).
17 Consultar referência.
Divisão da Teologia
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A Teologia é, normalmente, dividida em quatro grandes áreas, ainda que não 
exclusivamente:
A. Teologia Exegética
É o estudo da linguagem bíblica – valendo-se da morfologia (estrutura da lin-
guagem), lexicografia (o significado das palavras) e sintaxe (funções das várias 
partes da oração) –, buscando uma compreensão clara e precisa do texto bíblico. 
A sua tarefa consiste em determinar de maneira mais precisa possível a mensa-
gem do texto bíblico considerando o seu contexto histórico.
Esta área envolve disciplinas tais como: Grego, Hebraico, Introdução e Análise 
Bíblica, Hermenêutica e Teologia Bíblica. O nome Teologia Bíblica é uma nomencla-
tura técnica que não deve nos conduzir à indução de que haja teologia não-bíblica. 
Como bem observou Vos (1862-1949): “toda genuína Teologia Cristã é neces-
sariamente Teologia Bíblica - porque à parte da Revelação Geral, a Escritura 
se constitui o único material com o qual a ciência Teológica pode tratar”.18 Por 
Teologia Bíblica, estamos indicando o ramo da Teologia que partindo da Revelação 
bíblica, organiza o seu material de forma histórica, conforme registrado nos diver-
sos livros da Bíblia considerando a revelação progressiva de Deus. Ela determina 
e enuncia os fatos das Escrituras.19 Esta disciplina ocupa um lugar intermediá-
rio entre a Exegese e a Teologia Sistemática,20 podendo ser o diálogo de ambas 
altamente producente e esclarecedor. Ainda que seus métodos possam ser distin-
tos, se elas se propuserem a ser coerentes com a plenitude de Revelação Bíblica, 
partirão de sua unidade revelacional. Prevalece aqui as ponderações de Carson:
Existe o perigo de sucumbir a um biblicismo descuidado que interpreta 
e traduz textos sem de fato(1974, p. 20), no Congresso de Lausanne, na Suíça, afirmou 
corretamente: “se há uma coisa que a história da Igreja nos deveria ensinar, é a 
importância de um evangelismo teológico derivado das Escrituras.” 
Nesse sentido, encontramos a convicção de Paulo, o grande missionário, de 
que a Palavra de Deus é fiel, por isso, ele a ensinava com autoridade (1Tm 1.15; 
4.9/2Tm 4.6-8).
269 Consultar referência. 
270 Consultar referência.
271 Não faço aqui nenhuma distinção entre “missão” e “evangelização” (Vd. KUIPER, R. B. Evangelização 
Teocêntrica, p. 1). Costa, que diz haver uma confusão entre os termos, assim os distingue: “Missão e 
evangelismo são, pois, dois lados da mesma moeda. A moeda é Deus (Sic) e Sua atividade redentora 
em favor de toda a humanidade. Evangelismo é o anúncio dessa obra; missão é o mandamento que nos 
compele a pôr em ação esse anúncio.” (COSTA, O. E. La Iglesia e Su Mision Evangelizadora, Buenos 
Aires: La Aurora, 1971, p. 27). O autor acrescenta, de forma acertada, que a distinção equivocada entre 
“missão” e “evangelização, tem levado a Igreja a ter uma visão unilateral de missão: ou apenas no exterior, 
esquecendo-se do seu âmbito local, ou apenas local em detrimento daquela. (Vd. Ibidem. p. 33ss). 
Nesse sentido, vejam-se as pertinentes observações de Francis A. Schaeffer (SCHAEFFER, F. A. Forma e 
Liberdade na Igreja: In: A Missão da Igreja no Mundo de Hoje, São Paulo/Belo Horizonte, MG. ABU/
Visão Mundial, 1982, p. 222). 
A Inspiração das Escrituras
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A grandiosidade da pregação consiste, basicamente, não nos recursos de retórica 
(os quais certamente devem ser buscados), mas em sua pureza, em sua fidelidade à 
Palavra.272 Como bem disse Charles H. Spurgeon (1834-1892), “se o que pregarem 
não for a verdade, Deus não estará aí.”273 Assim sendo, a pregação grandiosa é 
bíblica. Pois bem, se eu não creio na inspiração e inerrância da Bíblia, certamente, 
poderei ter consciência da biblicidade da minha pregação (basta que pregue o que 
está escrito), contudo como poderei ter certeza da veracidade daquilo que prego, 
visto que, nesse caso, ser bíblico não é a mesma coisa que ser inerrante e, por isso, 
verdadeiro? Se destruir os fundamentos, cai todo o edifício.
Creio que Satanás, objetivando esmorecer o ímpeto evangelístico da Igreja, tem 
usado deste artifício: minar a doutrina da inspiração e inerrância das Escrituras, 
a fim de que a Igreja perca a compreensão de sua própria natureza e, assim, subs-
titua a pregação evangélica por discursos éticos, políticos e filosóficos.274 Aliás, a 
Escritura sempre foi um dos alvos prediletos de Satanás (Vd. Gn 3.1-5; Mt 4.3,6,8,9; 
2Co 4.3,4). Entretanto a Igreja é chamada a proclamar com firmeza o Evangelho, 
conforme registrado na Bíblia e preservado pelo Espírito por meio dos séculos 
(2Tm 4.2). A Igreja prega o Evangelho, consciente de que Ele é o poder de Deus 
para a salvação do pecador (Rm 1.16), por isso, recusar o Evangelho significa rejei-
tar o próprio Deus que nos fala (1Ts 4.8). Calvino, comentando Rm 1.16, diz que 
aqueles que “se retraem de ouvir a Palavra proclamada estão premeditadamente 
rejeitando o poder de Deus e repelindo de si a mão divina que pode libertá-los”. 
(CALVINO, J. Exposição de Romanos, (Rm 1.16), 1997, p. 58). A Igreja proclama 
a Palavra, não as suas opiniões a respeito da Palavra, consciente que Deus age por 
meio das Escrituras, produzindo frutos de vida eterna (Rm 10.8-17; 1Co 1.21; 
1Co 15.11; Cl 1.3-6; 1Ts 2.13-14). A Igreja por si só não produz vida, todavia ela 
recebeu a vida em Cristo (Jo 10.10), por meio da Sua Palavra vivificadora, desse 
modo, ela ensina a Palavra, para que pelo Espírito de Cristo, que atua mediante as 
Escrituras, os homens creiam e recebam vida abundante e eterna. 
272 Consultar referência.
273 SPURGEON, C. H. Firmes na Verdade, Lisboa, Edições Peregrino, 1990, p. 85. “O verdadeiro ministro 
de Cristo sabe que o verdadeiro valor de um sermão está, não em seu molde ou modo, mas na verdade 
que ele contém. Nada pode compensar a ausência de ensino; toda retórica do mundo é apenas o que 
a palha é para o trigo, em contraste com o evangelho da nossa salvação. Por mais belo que seja o cesto 
do semeador, é uma miserável zombaria, se estiver sem sementes.” (SPURGEON, A. Lições aos Meus 
Alunos. São Paulo: PES. 1982, Vol. II, p. 88).
274 Consultar referência.
O DEUS QUE SE REVELA
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IIU N I D A D E104
Podemos resumir o sistema arminiano e calvinista, da seguinte forma:
CINCO PONTOS DO ARMINIANISM
1) O homem nunca é de tal modo corrompido pelo pecado que não possa 
crer salvaticiamente no evangelho, uma vez que esse lhe seja apresentado.
2) O homem nunca é de tal modo controlado por Deus que não possa re-
jeitá-lo.
3) A eleição divina daqueles que serão salvos alicerçar-se sobre o fato da 
provisão divina de que eles haverão de crer, por sua própria deliberação.
4) A morte de Cristo não garantiu a salvação para ninguém, pois não garan-
tiu o dom da fé para ninguém (e nem mesmo existe tal dom); o que ela fez 
foi criar a possibilidade de salvação para todo aquele que crê.
5) Depende inteiramente dos crentes manterem-se em um estado de gra-
ça, conservando a sua fé; aqueles que falham nesse ponto, desviam-se e se 
perdem.
CINCO PONTOS DO CALVINISMO
1) O homem decaído, em seu estado natural, não tem capacidade alguma 
para crer no evangelho, tal como lhe falta toda a capacidade para dar crédi-
to à lei, a despeito de toda indução externa que sobre ele possa ser exercida.
2) A eleição de Deus é uma escolha gratuita, soberana e incondicional de 
pecadores, como pecadores, para que venham a ser redimidos por Cristo, 
para que venham a receber fé e para que sejam conduzidos à glória.
3) A obra remidora de Cristo teve como sua finalidade e alvo a salvação dos 
eleitos.
4) A Obra do Espírito Santo, ao conduzir os homens à fé, nunca deixa de 
atingir o seu objetivo.
5) Os crentes são guardados na fé na graça pelo poder inconquistável de 
Deus, até que eles cheguem à glória.
Fonte: Packer (1986, p. 6).
As Escrituras, os Credos e a Reforma Protestante
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105
AS ESCRITURAS, OS CREDOS E A REFORMA 
PROTESTANTE
IMPORTÂNCIA E OBJETIVO DOS CREDOS
Os Credos da Reforma são as Confissões de Fé e Catecismos que surgiram no 
período da Reforma ou por inspiração daquele movimento, refletindo uma teo-
logia semelhante.
O que foram os séculos 4º e 5º para a elaboração dos Credos, foram os sécu-
los 16 e 17 para a confecção das Confissões e Catecismos. A razão nos parece 
evidente: na Reforma, as Igrejas logo sentiram a necessidade de formalizar a sua 
fé, apresentando sua interpretação sobre diversos assuntos que as distinguia da 
igreja romana; com o passar do tempo, surgem outras denominações dentro da 
Reforma, que, discordavam entre si sobre alguns pontos, daí a necessidade de 
se estabelecer cada um por si os seus princípios doutrinários.
Calvino (1509-1564) já combatera a “fé implícita”275 – que era patente na teo-
logia católica – declarando que a nossa fé deve ser “explícita”. No entanto Calvino 
ressalta que devido ao fato de que nem tudo foi revelado por Deus, bem como 
a nossa ignorância e pequenez espiritual, muito do que cremos permanecerá 
nesta vida de forma implícita.
275 Que chama de “espectro papista”, que “separa a fé da Palavra de Deus”. (CALVINO, J. Exposição de 
Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997, [Rm 10.17], p. 375).
O DEUS QUE SE REVELA
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IIU N I D A D E106
Calvino depois de um extenso comentário, nos diz:
Certamente que não nego (de que ignorância somos cercados!)que 
muitas cousas nos sejam agora implícitas, e ainda o hajam de ser, até 
que, deposta a massa da carne, nos hajamos achegado mais perto à pre-
sença de Deus, cousas essas em que nada pareça mais conveniente que 
suspender julgamento, mas firmar o ânimo a manter a unidade com a 
Igreja.276 Com este pretexto, porém, adornar com o nome de fé à igno-
rância temperada com humildade, é o cúmulo do absurdo. Ora, a fé 
jaz no conhecimento de Deus e de Cristo (Jo 17.3), não na reverência 
à Igreja. (Calvino, João. As Institutas, III.I.3. (Vd. também III.2.5ss).
Pelas palavras de Calvino, podemos observar a necessidade latente do ensino e 
estudo constante da Palavra de Deus, a fim de que cada homem, sendo como é, 
responsável diante de Deus, tenha condições de se posicionar diante de Deus de 
forma consciente; a fé explícita é patenteada pela Igreja por meio do ensino da 
Palavra. Tillich (1986, p. 41), interpretando esse fato, diz:
Cada indivíduo deve ser capaz de confessar os próprios pecados, ex-
perimentar o significado do arrependimento, e se tornar certo de sua 
salvação em Cristo. Essa exigência gerava um problema no protestan-
tismo. Significava que todas as pessoas precisavam ter o mesmo co-
nhecimento básico das doutrinas fundamentais da fé cristã. No ensino 
dessas doutrinas não se emprega o mesmo método para o povo comum 
e para os candidatos às ordens, ou para os futuros professores de teolo-
gia, com a prática do latim e grego, da história da exegese e do pensa-
mento cristão. Como se pode ensinar a todos? Naturalmente, apenas se 
tornarmos o ensino extremamente simples. 
Essa necessidade determina o uso cada vez mais evidente da razão, a fim de 
apresentar, da forma mais razoável possível, a doutrina e, ao mesmo tempo, de 
forma simples. Eis dois marcos do ensino ortodoxo: amplitude e simplicidade. 
O ser humano é responsável diante de Deus; ele dará contas de si mesmo ao 
seu Criador, portanto, tendo oportunidade, ele precisa conhecer devidamente a 
Palavra de Deus em toda a sua plenitude revelada.
276 Foi com esse espírito que Calvino nos advertiu diversas vezes: “As cousas que o Senhor deixou recônditas 
em secreto não perscrutemos, as que pôs a descoberto não negligenciemos, para que não sejamos 
condenados ou de excessiva curiosidade, de uma parte, ou de ingratidão, de outra” (CALVINO, J. As 
Institutas. Campinas, SP; Luz para o Caminho/Casa Editora Presbiteriana, 1985-1989, III.21.4). “Nem nos 
envergonhemos em até este ponto submeter o entendimento à sabedoria imensa de Deus, que em Seus 
muitos arcanos sucumba. Pois, dessas cousas que nem é dado, nem é lícito saber, douta é a ignorância, a 
avidez de conhecimento, uma espécie de loucura.” (CALVINO, J. As Institutas. III.23.8). ”Que esta seja a 
nossa regra sacra: não procurar saber nada mais senão o que a Escritura nos ensina. Onde o Senhor fecha 
seus próprios lábios, que nós igualmente impeçamos nossas mentes de avançar sequer um passo a mais.” 
[CALVINO, J. Exposição de Romanos. São Paulo: Edições Paracletos, 1997, (Rm 9.14), p. 330]. 
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Essas declarações de fé precisavam ser, até certo ponto, completas, porém, ao 
mesmo tempo, simples para que o crente comum (não iniciado nas questões teo-
lógicas) pudesse entender o que estava sendo dito, confrontando esse ensinamento 
com a Palavra de Deus, tendo, assim, uma compreensão bíblica da sua fé. Em outras 
palavras, a fé não deveria ser apenas “implícita”, mas, sim, “explícita”. Nesse contexto 
e com objetivos eminentemente didáticos, surgem os Catecismos (Gr. Kathxe/w = 
“ensinar”, “instruir”, “informar”. Cf. Lc 1.4; At 18.25; 21.21,24; Rm 2.18; 1Co 14.19; 
Gl 6.6.), constituídos, ainda que não exclusivamente, com perguntas e respostas. 
Até o século XVI, a palavra “catecismo” não tivera sido usada nesse sentido.277 Os 
Catecismos visavam servir para instruir as crianças e os adultos; esse é o motivo que 
contribuiu decisivamente para a sua proliferação, sendo que a maioria deles jamais 
passou da forma manuscrita, visto que muitos pastores os elaboravam apenas para 
a sua congregação local, visando atender as suas necessidades doutrinárias.278
O primeiro trabalho a receber o título de “Catecismo”, foi o de Andreas 
Althamer (c. 1500), em 1528.279 Porém os mais influentes no século XVI foram 
os de Lutero (1483-1546): O Catecismo Maior (1529) e O Catecismo Menor 
(1529). No prefácio do Catecismo Menor, Lutero declara os motivos que o leva-
ram a redigir esse Catecismo e apresenta também sugestões de como ensiná-lo 
à Congregação. No decorrer dos sete capítulos, ele quase sempre inicia dizendo: 
“como o chefe de família deve ensiná-lo à sua casa”, “como o chefe de família deve 
ensiná-lo com toda a simplicidade à sua casa” e expressões similares. 
Transcreverei, apenas, o que Lutero disse a respeito das suas motivações:
A lamentável e mísera necessidade experimentada recentemente, 
quando também eu fui visitador,280 é que me obrigou e impulsionou a 
preparar este catecismo ou doutrina cristã nesta forma breve, simples 
e singela. Meu Deus, quanta miséria não vi! O homem comum sim-
plesmente não sabe nada da doutrina cristã, especialmente nas aldeias. 
E, infelizmente, muitos pastores são de todo incompetentes e incapazes 
para a obra do ensino. (...) Não sabem nem o Pai-Nosso, nem o Credo, 
nem os Dez Mandamentos. (LUTERO, 1983, p. 363).
277 Consultar referência. 
278 Daqui depreende-se que não foram somente eruditos que escreveram catecismos, mas também 
pastores, que estavam preocupados especificamente com a sua comunidade local (Vd. WRIGHT, D. 
F. Catechism: Donald K. McKim, ed. Encyclopedia of the Reformed Faith, Louisville, Kentucky: 
Westminster/John Knox Press, 1992, p. 60).
279 Consultar referência.
280 Lutero viajou pela Saxônia Eleitoral e por Meissen, entre 22/10/1528 e 09/01/1529.
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Mais tarde, Calvino (1509-1564) elaborou, em francês, durante o inverno de 
1536-1537, um Catecismo, não sendo constituído em forma de perguntas e 
respostas, escrito de modo que julgou acessível a toda Igreja. O seu objetivo 
era puramente didático. Essa obra foi intitulada: Instrução e Confissão de Fé, 
Segundo o Uso da Igreja de Genebra,281 sendo traduzida para o latim em 1538. 
Posteriormente, Calvino a reviu – tornando a sua teologia mais acessível aos seus 
destinatários: as crianças282 –, e a ampliou consideravelmente, mudando inclu-
sive a sua forma, passando, então, a ser constituída de perguntas e respostas, 
contendo 373 questões.283 Essa nova edição foi publicada entre o fim de 1541 e 
o início de 1542, tornando-se juntamente com a Instituição um sucesso edito-
rial. Em 1545,284 Calvino traduziu para o latim visando dar um alcance maior 
aos seus ensinamentos, contribuindo, desse modo, para a maior unidade entre 
as Igrejas Reformadas. A partir de 1561, esse Catecismo ganhou maior impor-
tância, visto que, desde então, todo ministro da Igreja deveria jurar fidelidade 
aos ensinamentos nele expressos e comprometer-se a ensiná-los.285
281 Esse Catecismo (Em português: Instrução na Fé, Goiânia: Logos Editora, 2003) consistiu num resumo 
da primeira edição das Institutas (1536). (Cf. LEITH, J. H. em prefácio à tradução da obra de Calvino e 
Paul T. Fuhrmann em “prefácio histórico” à mesma obra, Instruction in Faith (1537), Louisville, Kentucky: 
Westminster/John Knox Press, [1992], p. 10 e 16; Cf. LINDSAY, T. M. La Reforma y su Desarrollo Social, 
Barcelona: CLIE., (s.d.), p. 101; MCNEILL, J. T. The History and Character of Calvinism, New York: 
Oxford University Press, 1954, p. 140. Vd. também, p. 204). Esta foi a primeira “exposição sistemática do 
pensamento calvinista na língua francesa.” (FREUNDT JUNIOR, A. H. Catecismo de Genebra:In: ELWELL, 
W. A. ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, I, p. 246). 
 Consultar referência.
282 Consultar referência. 
283 Este Catecismo pode ser assim esboçado: 
 I - Fé (1-130).
 Introdução (1-18).
 Segue a exposição do Credo Apostólico, da seguinte forma:
 a) Deus Pai (19-29).
 b) Deus Filho (30-87).
 c) Deus Espírito Santo (88-91).
 d) A Igreja (92-130).
 II - Os Dez Mandamentos (131-232).
 III - A Oração (233-295) .
 IV - A Palavra e os Sacramentos (296-373).
 a) A Palavra e o Ministro (296-308).
 b) Os Sacramentos (309-373).
 - Definição e Significado (309-323).
 - Batismo (324-339).
 - Ceia do Senhor (340-373).
284 Consultar referência.
285 Consultar referência. 
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Quanto às Confissões, elas basicamente não foram feitas como um texto para 
a instrução na fé Cristã, já que essa era a função dos Catecismos.286 Elas poderiam 
ser produzidas por homens individualmente para o seu uso privado (A Segunda 
Confissão Helvética), por um Concílio de uma Igreja em particular (Cânones de 
Dort), por um indivíduo que age como representante de sua Igreja (Confissão 
de Augsburgo), por um grupo de teólogos convocados pelo Estado (Confissão 
de Westminster) ou escrita como uma defesa de sua fé em meio a uma terrível 
perseguição (A Confissão dos Valdenses) etc. Com isso, estamos dizendo, que 
não havia uma regra fixa para a elaboração de uma Confissão, os contextos eram 
variados e, apesar de haver motivações comuns a todas elas, existiam circuns-
tâncias especiais, que conduziam a determinadas ênfases, especialmente no que 
se refere às questões relativas ao governo e à igreja romana. 
Isso traz consigo o problema da unificação das Confissões. Por que não unifi-
cá-las? É uma pergunta pertinente. De fato, essa preocupação existiu. Por exemplo, 
em 1530, Carlos V, Imperador da Alemanha, convoca a Dieta de Augsburgo. 
Objetivo: unificação político-religiosa dos seus domínios. Daqui, saiu a Confissão 
de Augsburgo, redigida por Ph. Melanchthon (1497-1560), o “preceptor da 
Germânia”, com a aquiescência de Lutero (1483-1546), que fez um comentá-
rio ambíguo a respeito da sua leveza. Essa Confissão foi lida, em latim e alemão, 
pelo Chanceler Christian Beyer, da Saxônia Eleitoral, perante toda a Dieta, no dia 
25 de junho de 1530, às 15 horas. Mesmo o Imperador não a aceitando e proi-
bindo a sua divulgação, ela, em pouco tempo, foi propagada em toda Alemanha.
Calvino entende que a divergência em questões secundárias não deve servir 
de pretexto para a divisão da Igreja, afinal, todos, sem exceção, estão envoltos de 
“alguma nuvenzinha de ignorância”.
[...] são palavras do Apóstolo: ‘Todos quantos somos perfeitos sintamos o 
mesmo; se algo entendeis de maneira diferente, também isto vos haverá 
de revelar o Senhor’ [Fp 3.15]. Não está ele, porventura, a suficientemen-
te indicar que o dissentimento acerca destas cousas não assim necessárias 
não deve ser matéria de separação entre cristãos? Por certo que estará em 
primeira plana que em todas as cousas estejamos em acordo; mas, uma 
vez que ninguém há que não esteja envolto de alguma nuvenzinha de 
ignorância, impõe-se que ou nenhuma igreja deixemos, ou perdoemos o 
engano nessas cousas que possam ser ignoradas não somente inviolada a 
suma da religião, mas também aquém da perda da salvação.
286 Consultar referência.
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Mas, aqui, não quereria eu patrocinar a erros, sequer os mais diminu-
tos, de sorte que julgue devam ser fomentados, com agir com compla-
cência e ser-lhes conivente. Digo, porém, que não devemos por causa 
de quaisquer dissentimentozinhos abandonar irrefletidamente a Igreja, 
em que somente se retenha salva e ilibada essa doutrina, mercê da qual 
se mantém firme a incolumidade da piedade e conservado é o uso dos 
sacramentos instituído pelo Senhor. (J. Calvino, As Institutas, IV.1.12).
“Não vejo, porém, nenhuma razão por que uma igreja, por mais universal-
mente corrompida, desde que contenha uns poucos membros santos, não 
deva ser denominada, em honra desse remanescente, de santo povo de Deus.”
“Todavia, ainda quando a Igreja seja remissa em seu dever, não por isso será 
direito de cada um em particular a si pessoalmente assumir a decisão de se-
parar-se.”
Após argumentar contra aqueles que chamavam os reformados de hereges, res-
salta que a unidade cristã deve ser na Palavra:
Com efeito, também isto é de notar-se: que esta conjunção de amor 
assim depende da unidade de fé que lhe deva ser esta o início, o fim, 
a regra única, afinal. Lembremo-nos, portanto, quantas vezes se nos 
recomenda a unidade eclesiástica, isto ser requerido: que, enquanto 
nossas mentes têm o mesmo sentir em Cristo, também entre si conjun-
gidas nos hajam sido as vontades em mútua benevolência em Cristo. E, 
assim, Paulo, quando para com ela nos exorta, por fundamento assume 
haver um só Deus, uma só fé e um só batismo [Ef 4.5]. De fato, onde 
quer que nos ensina o Apóstolo a sentir o mesmo e a querer o mesmo, 
acrescenta imediatamente: em Cristo [Fp 2.1,5] ou: segundo Cristo 
[Rm 15.5], significando ser conluio de ímpios, não acordo de fiéis a 
unidade que se processa à parte da Palavra do Senhor.(J. Calvino, As 
Institutas, IV.2.5).287
287 CALVINO, J. As Institutas, IV.2.5. Calvino entendia que “onde os homens amam a disputa, estejamos 
plenamente certos de que Deus não está reinando ali.” [CALVINO, J. Exposição de 1 Coríntios, São 
Paulo: Edições Paracletos, 1996, (1Co 14.33), p. 436]. George comenta com acerto, que “Calvino não 
estava disposto a comprometer pontos essenciais em favor de uma paz falsa, mas ele tentou chamar a 
igreja de volta à verdadeira base de sua unidade em Jesus Cristo.” (George, T. Teologia dos Reformadores, 
São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 182-183).
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Para os irmãos refugiados em Wezel (Alemanha), que sofriam diversas pressões 
dos luteranos e sobreviviam em uma pequena Igreja Reformada, Calvino, em 
1554, os consola mostrando que, apesar dos grandes problemas pelos quais pas-
savam no mundo, Deus lhes havia concedido um lugar no qual poderiam adorar 
a Deus em liberdade. Também os desafia a não abandonarem a Igreja por peque-
nas divergências nas práticas cerimoniais, sendo tolerantes a fim de preservar a 
unidade. Contudo os exorta a jamais fazerem acordos em pontos doutrinários.288
Portanto mesmo desejando a paz e a concórdia, Calvino entendia que essa 
paz nunca poderia ser em detrimento da verdade, haja vista que, se assim fosse, 
essa dita paz seria maldita:
Naturalmente, há uma condição para entendermos a natureza desta paz, 
ou seja, a paz da qual a verdade de Deus é o vínculo. Pois se temos de lutar 
contra os ensinamentos da impiedade, mesmo se for necessário mover céu 
e terra, devemos, não obstante, perseverar na luta. Devemos, certamente, 
fazer que a nossa preocupação primária cuide para que a verdade de Deus 
seja mantida em qualquer controvérsia; porém, se os incrédulos resistirem, 
devemos terçar armas contra eles, e não devemos temer sermos respon-
sabilizados pelos distúrbios. Pois a paz, da qual a rebelião contra Deus é o 
emblema, é algo maldito; enquanto que as lutas, indispensáveis à defesa do 
reino de Cristo, são benditas. (Calvino, João. Exposição de 1 Coríntios, São 
Paulo: Edições Paracletos, 1996, (1Co 14.33), p. 437.
Em 20 de março de 1552, Thomas Cranmer (1489-1556)289 escreveu a Calvino 
– bem como a Melanchthon (1497-1560) e a Bullinger (1504-1575) –, convidan-
do-o para uma reunião em Palácio de Lambeth com o objetivode preparar um 
credo que fosse consensual para as Igrejas Reformadas.290 Cranmer tinha em vista 
também a realização do Concílio de Trento que estava em andamento, estando 
preocupado de modo especial com a questão da Ceia do Senhor.
288 Consultar referência. 
289 Arcebispo de Canterbury que, em 1549, havia elaborado o Livro de Oração Comum, no qual dava 
ênfase ao culto em inglês, à leitura da Palavra de Deus e, ao aspecto congregacional da adoração cristã. 
290 Cranmer, na carta a Calvino, diz: “Como nada mais tende a separar as Igrejas de Deus que as heresias 
e diferenças sobre as doutrinas de religião, assim nada mais eficazmente os une, e fortalece a obra de 
Cristo mais poderosamente, que a doutrina incorrupta do evangelho, e união em opiniões reconhecidas. 
Eu tenho freqüentemente desejado, e agora desejo que esses homens instruídos e piedosos que superam 
outros em erudição e julgamento, constituissem uma assembléia em um lugar conveniente, onde se 
realizasse uma consulta mútua, e comparando as suas opiniões, eles poderiam discutir todas as principais 
doutrinas da igreja.... Nossos adversários estão agora organizando o seu concílio em Trento, no qual 
eles podem estabelecer os seus erros. E devemos nós negligenciar convocar um sínodo piedoso que nos 
possibilite refutar os erros deles, e purificar e propagar a verdadeira doutrina?” [Thomas Cranmer to 
Calvin, “Letter,” John Calvin Collection, [CD-ROM], (ALBANY, OR: Ages Software, 1998), 16. 
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Calvino (abril de 1552), então, responde encorajando a Cranmer no seu 
objetivo. A certa altura diz: “...Estando os membros da Igreja divididos, o corpo 
sangra. Isso me preocupa tanto que, se pudesse fazer algo, eu não me recusaria 
a cruzar até dez mares, se necessário fosse, por essa causa.”291 
Todavia é importante que se diga que, em um primeiro momento, era impos-
sível qualquer tentativa nesse sentido, visto haver problemas geográficos, políticos, 
objetivos circunstanciais diferentes e mesmo problemas doutrinários. Contudo, 
já no século XVII, algum progresso desse teor é evidente, por meio de formu-
lações doutrinárias mais completas e, também, após passar o primeiro ardor 
apaixonado e exclusivista, ainda que surgissem novos debates teológicos nos 
séculos XVII e XVIII durante o período denominado de “Ortodoxia Protestante”.
Mesmo assim, as diferenças permaneceram sem, contudo, ferir pontos cru-
ciais da Reforma, tais como: a Bíblia como autoridade final; a Justificação pela 
graça mediante a fé; o Sacerdócio universal dos Santos; a Suficiência do sacri-
fício de Cristo para nos salvar etc. Assim, os Credos da Reforma tinham três 
objetivos específicos:
a. Evidenciar os fundamentos bíblicos de seus ensinos.
b. Demonstrar que as suas doutrinas estavam em acordo com os principais 
credos da Igreja (Apostólico, Niceno, Constantinopolitano).
c. Demarcar a sua posição teológica em relação à teologia romana e às demais 
correntes provenientes da Reforma.
As Confissões provenientes da Reforma (Séculos XVI e XVII) são divididas em 
dois grupos: Luteranas e Calvinistas (Reformadas). 
291 Consultar referência.
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PRINCIPAIS CATECISMOS E CONFISSÕES REFORMADOS: SUBSÍDIOS 
HISTÓRICOS
A. Confissão Gaulesa (1559)
A Confissão Gaulesa, que não é muito conhecida e difundida em nosso meio, 
exerceu grande influência doutrinária sobre outras Confissões Reformadas. Ela 
foi escrita por Calvino (1509-1564) e seu discípulo Antoine de la Roche Chandieu 
(De Chandieu) (1534-1591), provavelmente com a ajuda de Theodore Beza 
(1519-1605) e Pierre Viret (1511-1571). Inicialmente, tinha 35 capítulos. No 
Sínodo Geral de Paris (26-28/05/1559), que congregou representantes de mais 
de 60 igrejas, das mais de 100 que existiam na França – reunido secretamente –, 
tendo como moderador Fraçois de Morel, essa Confissão foi revista e ampliada 
em mais cinco capítulos, tendo um prefácio dedicado ao rei Francisco II (1560) e 
posteriormente, também foi apresentada por Beza a Carlos IX (1561). Calcula-se 
que à época, a França já possuía 400 mil protestantes292 ou, um sexto293 ou, um 
quarto da população,294 existindo em fins de 1561, mais de 670 igrejas calvinis-
tas erigidas em território francês.295 
Em 1571, tendo como moderador T. Beza (1519-1605), realizou-se o Sétimo 
Sínodo Nacional de La Rochelle. À ocasião, estavam presentes: a Rainha de 
Navarra, seu filho Henrique IV (1553-1610) e o Almirante Coligny (1519-1572), 
que viria ser morto durante “o massacre de São Bartolomeu”, 23-24/08/1572. 
Nesse Sínodo, a Confissão foi revisada, reafirmada e solenemente sancionada 
por Henrique IV, passando, desde então a ser também chamada de “Confissão 
de Rochelle”. A Confissão Gaulesa influenciou profundamente a Confissão Belga 
(1561) e a Confissão dos Valdenses (1655).
292 Consultar referência.
293 Consultar referência.
294 Consultar referência.
295 Consultar referência.
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B. Confissão Escocesa (1560)
Essa Confissão foi escrita sob a liderança de John Knox (1505-1572), em qua-
tro dias por seis homens que tinham como prenome “John”: Spottiswoode, 
Millock, Rowe, Douglas, Winram e Knox. A Confissão Escocesa foi adotada 
pelo Parlamento escocês, em 17 de agosto de 1560, sendo ratificada em 1567, 
quando o Parlamento a adotou por decreto. Em 1572, todos os Ministros tiveram 
de subscrevê-la. Ela permaneceu como Confissão Oficial da Igreja Reformada 
Escocesa até 1647, quando então, a Igreja adotou a Confissão de Westminster.
C. Confissão Belga (1561)
A Confissão Belga que se inspirou na Confissão Gaulesa (1559) foi escrita em 
francês, em 1561, por Guido (ou Guy, Wido) de Brès (1523-1567), com a ajuda 
de M. Modetus, Adrien de Saravia (1513-1613) – um dos primeiros protestan-
tes a advogar a ideia de missões estrangeiras e G. Wingen, sendo revisada por 
Francis Junius (1545-1602) e publicada a sua tradução em holandês em 1562. 
O pastor Guy de Brès escreveu uma carta de defesa aos magistrados. 
Lançou-a juntamente com um exemplar de sua recente “Confession de 
Foy” por sobre o muro do castelo de Doornick, para assim ser levado 
ao governador e ao rei. Se este jamais leu a confissão de fé, não se sabe, 
mas ela chegou a ocupar um lugar de suma importância na Igreja Re-
formada holandesa.296
Ela. juntamente com o Catecismo de Heidelberg (1563), foi aprovada no Sínodo 
de Antuérpia (1566), realizado secretamente no Sínodo de Ambères (após revi-
são) (1566), em Wessel (1568), e adotada pelo Sínodo Reformado de Emden 
(1571), pelo Sínodo Nacional de Dort (1574), Middelburg (1581) e, também, pelo 
grande Sínodo de Dort (29/4/1619), o qual a sujeitou a uma minuciosa revisão, 
comparando a tradução holandesa com o texto francês e latino. Ela foi tradu-
zida para o holandês (1562) e para o inglês (1768).
A Confissão Belga e o Catecismo de Heidelberg são os símbolos de fé das Igrejas 
Reformadas na Holanda e Bélgica, sendo também o padrão doutrinário da Igreja 
Reformada na América e na Igreja Evangélica Reformada Holandesa no Brasil.
296 SCHALKWIJK, F. L. Igreja e Estado no Brasil Holandês, (1630-1654), Recife, Pe.: FUNDARTE, 
(Coleção Pernambucana, 2ª Fase, Vol. 25), 1986, p. 27. Quanto à parte do teor da carta, Vd. FISHER, J. P. 
Historia de la Reforma. Barcelona: CLIE., (1984), p. 291.
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D. XXXIX Artigos da Igreja da Inglaterra (1563)
Em 1552, o Arcebispo de Cantebury, T. Cranmer (1489-1556),elaborou, juntamente 
com outros clérigos, Quarenta e Dois Artigos da Religião que foram, após uma 
minuciosa revisão feita no mesmo ano, publicados, em 1553, sob a autoridade do 
Rei da Inglaterra, Eduardo VI. Mais tarde, esses artigos foram revistos e reduzidos 
a 39 pelo Arcebispo de Cantebury, por Matthew Parker (1504-1575) e outros bis-
pos. Essa última revisão e redução foi ratificada pelas duas Casas de Convocação, 
sendo os Trinta e Nove Artigos publicados por autoridade do Rei em 1563.
Em 1571, tornou-se obrigatória a subscrição desses artigos por todos os 
Ministros ingleses. Os Trinta e Nove Artigos e o Livro de Oração Comum (1549) 
são os Símbolos de Fé da Igreja Anglicana e, com algumas alterações, da Igreja 
Episcopal Protestante dos Estados Unidos.
E. Catecismo de Heidelberg (1563)
Essa Confissão foi escrita por dois jovens teólogos: Caspar Olevianus (1536-c. 1587) 
– quem recebeu influência de Melanchton (1497-1560) e de Peter Martyr Vermigli 
(1500-1562) –, professor de teologia na Universidade de Heidelberg e Zacharias 
Ursinus (1534-1583), que fora aluno de Melanchton, em Wittenberg (1550-1557), 
bem como amigo de Calvino (1509-1564). Acusado de Criptocalvinismo (Calvinista 
disfarçado), foi para Zurique (1560), em que dirigiu o Collegium Sapientiae (1561). 
Posteriormente, exerceu o professorado de teologia em Heidelberg (1562-1568). 
Schaff (1819-1893) diz que “Olevianus foi inferior à Ursinus na erudição, porém 
foi superior no púlpito e no governo da igreja”.297
O Catecismo ficou pronto em janeiro de 1563, existindo um exemplar dessa 
primeira edição na Biblioteca Nacional de Viena, datado de 19/01/1563. Nesse 
mesmo ano, foram publicadas mais três edições, sendo a quarta considerada a 
mais completa e definitiva de todas. No prefácio da primeira edição, Frederico 
III, o “Piedoso” (1515-1576), estabeleceu três propósitos para esse Catecismo, 
a saber: Instrução catequética; um guia para pregação e uma forma confessio-
nal de unidade. Frederico III foi o primeiro príncipe alemão a adotar um Credo 
Reformado como distinto do Luterano.
297 SCHAFF, P. The Creeds of Christendom, 6ª ed. revised and enlarged, Grand Rapids, Michigan: Baker 
Book House, 1977, Vol. I, p. 534. McNeill diz a mesma coisa com outras palavras, Vd. MCNEILL, J. T. 
The History and Character of Calvinism, p. 270: “Ele (Olevianus) era dois anos mais jovem que Ursinus, 
mais eloqüente e menos erudito.”.
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O Catecismo de Heidelberg foi adotado por um Sínodo de Heidelberg 
(19/01/1563), sendo aceito também na Escócia, servindo de modo especial para 
o ensino das crianças (até à época da adoção dos Catecismos de Westminster - 
28/07/1648). O Sínodo de Dort também o aprovou. Heidelberg é o símbolo das 
Igrejas Reformadas da Alemanha, da Holanda, dos Estados Unidos e do Brasil.
Esse Catecismo tem como dois de seus pontos fortes o seu aspecto não polê-
mico – com exceção da pergunta 80 –, e o tom pastoral com o qual ele foi escrito, 
usando, muitas vezes, a primeira pessoa do singular, sendo as suas respostas uma 
declaração pessoal de fé, tendo as verdades teológicas uma aplicação bem direta 
às necessidades cotidianas do povo de Deus. 
Ele foi traduzido para todas as línguas da Europa e muitas Asiáticas, sendo 
amplamente usado. Devido a essa amplitude de traduções, Schaff (1819-1893) 
diz que Heidelberg “tem o dom pentecostal de línguas em um raro grau.”298
F. Segunda Confissão Helvética (1562-1566)
A Segunda Confissão Helvética foi primariamente elaborada em latim, em 1562, 
pelo amigo, discípulo e sucessor de Zuínglio (1484-1531), Henry Bullinger 
(1504-1575). Em 1564, quando a peste voltou a atacar em Zurique, Bullinger 
perdeu a esposa e as três filhas. Ele mesmo ficou doente, mas foi curado. Nesse 
ínterim, ele fez a revisão da Confissão de 1562 e, como uma espécie de testa-
mento espiritual, anexou-a ao seu testamento para ser entregue ao magistrado da 
cidade caso ele viesse a falecer. Essa confissão foi publicada, com algumas alte-
rações – aceitas por Bullinger –, em latim e alemão em 12 de março de 1566. 
298 SCHAFF, P. The Creeds of Christendom, Vol. I, p. 536. Há aqui um dado importante; como sabemos, 
os Holandeses estiveram no Brasil no período de 1630 a 1654; ainda que não fosse o âmbito religioso o seu 
principal trabalho, não deixaram de atuar também nessa área. Em 1656, Antônio Paraupaba pede socorro 
aos Estados Gerais em favor da nação indígena do Brasil que havia abraçado a religião Reformada; a 
certa altura diz: “Ajudem agora! A luz da Palavra de Deus será apagada por falta de pastores”. [apud 
SCHALKWIJK, F. L. Igreja e Estado no Brasil Holandês: 1630-1654, p. 312]. O trabalho dos holandeses 
na publicação de um Catecismo trilingue (holandês, português e tupi), intitulado: “Uma instrução simples 
e breve da Palavra de Deus nas línguas brasiliana, holandesa e portuguesa, confeccionada e editada por 
ordem e em nome da Convenção Elcesial Presbiterial no Brasil, com formulários para batismo e santa 
ceia acrescentados” –, não deixa de ser extremamente interessante, considerando as suas vicissitudes, já 
que o Presbitério de Amesterdã não o aprovara, não pelo que dissera, mas pelo que omitira, além de uma 
possível suspeita, certamente infundada, de algum viés arminiano. Na realidade, o seu autor, o Rev. David 
à Doreslaer com a ajuda do Rev. Vincentius J. Soler confessou ter problemas em expressar determinados 
conceitos teológicos em línguas bárbaras. O que ele desejava era fazer um resumo do Catecismo de 
Heidelberg (1563) adotado pela Igreja Reformada Holandesa. Assim, o Catecismo que tinha como alvo 
principal os índios evangelizados, foi impresso na Holanda, em 1641, chegando em Recife em 1642. Ao 
que parece, ele não teve grande utilidade devido aos debates provocados entre o Sínodo da Holanda 
e a Companhia das Índias Ocidentais. Schalkwijk, conclui: “Provavelmente, os catecismos ficaram 
empilhados em algum lugar, falados demais para serem usados, santos demais para serem queimados.” 
(SCHALKWIJK, F. L. Igreja e Estado no Brasil Holandês: 1630-1654, p.324).
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Ela foi traduzida para vários idiomas (inclusive o Árabe), tendo ampla aceitação 
em diversos países nos anos seguintes, sendo também adotada na Escócia (1566), 
na Hungria (1567), na França (1571), na Polônia (1578). Essa Confissão “veio 
a ser o elo de união para as igrejas calvinistas espalhadas por toda a Europa.”299
G. Cânones de Dort (1618-1619)
O Sínodo de Dort reuniu-se por autoridade dos Estados Gerais dos Países Baixos, 
em Dordrecht, Holanda, no período de 13/11/1618 a 9/5/1619, tendo 154 ses-
sões. O Sínodo foi constituído de 35 pastores, um grupo de presbíteros das 
igrejas holandesas, 5 catedráticos de teologia dos Países Baixos, 18 deputados 
dos Estados Gerais e 27 estrangeiros, de diversos países da Europa, tais como: 
Inglaterra, Alemanha, França e Suíça.
Dort rejeitou os cinco pontos apresentados pelos arminianos,300 conhecidos 
como os “Cinco Pontos do Arminianismo”. Os Cânones de Dort foram aceitos 
por todas as Igrejas Reformadas como expressão correta do sistema calvinista.301
H. Confissão e Catecismos de Westminster (1647-1648)
A Confissão de Westminster bem como os Catecismos Maior (1648) e Menor 
(1647) foram redigidos na Inglaterra, na Abadia de Westminster, conforme 
convocação do Parlamento Britânico. A Assembleia foi aberta no sábado, 1 
de julho de 1643, pregando o Dr. William Twisse (1575-1646) – que iria ser 
o moderador da Assembleia até a sua morte, em julho de 1646 –, baseando o 
seu sermão no texto de Jo 14.18, “não vos deixarei órfãos, voltarei para vós”. 
A Assembleia funcionou de 01/07/1643 até 22/02/1649,realizando 1163 ses-
sões regulares, sem contar as inúmeras reuniões de comissões e subcomissões.
299 Consultar referência.
300 Consultar referência.
301 Consultar referência.
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O objetivo primário dessa Assembleia era a revisão dos Trinta e Nove Artigos da 
Igreja da Inglaterra. Trabalharam na elaboração da Confissão 121 teólogos e 30 leigos 
nomeados pelo Parlamento, a saber: 20 da Casa dos Comuns e 10 da Casa dos Lordes 
(nomeação feita em 12/06/1643) e também 8 representantes escoceses, 4 pastores e 4 
presbíteros, “os melhores e mais preclaros homens que possuía”302 – sendo que dois deles 
nunca tomaram assento –, que, mesmo sem direito a voto, exerceram grande influência. 
Os principais debates dessa Assembleia não foram de ordem teológica, já que 
praticamente todos eram Calvinistas, mas sim no que se refere ao governo da 
Igreja. “Embora houvesse diversidade quanto à Eclesiologia, havia unidade 
quanto à Soteriologia”.303
Nesse particular, havia quatro partidos representados. Os Episcopais: James 
Ussher (1581-1656), Brownrigg, Westfield, Prideaux; Presbiterianos: T. Cartwright 
(1535-1603), Walter Travers (c. 1548-1635) etc.; Independentes: (Congregacionais), 
“Os cinco Irmãos Dissidentes”, conforme eram chamados, eram: Thomas Goodwin 
(1594-1665), Philip Nye (1596-1672), Jeremiah Burroughs (1599-1646), William 
Bridge (1600-1670), Sidrach Simpson; Erastianos: assim chamados por segui-
rem o pensamento do médico de Heidelberg, Thomas Erasto (1524-1583) – que 
defendia a supremacia do Estado sobre a Igreja –, Thomas Coleman, John Selden 
(1584-1654), Whitelocke, J. Lightfoot (1602-1675). Esses entendiam que o tra-
balho do pastor era basicamente o de ensino; o pastor é o mestre. Prevaleceu, 
no entanto, o sistema Presbiteriano de Governo. 
O Breve Catecismo foi elaborado para instruir as crianças; O Catecismo Maior, 
especialmente para a exposição no púlpito, ainda que não exclusivamente. Eles 
substituíram, em grande parte, os Catecismos e Confissões mais antigos adota-
dos pelas igrejas reformadas de fala inglesa. Apesar da teologia dos Catecismos 
e da Confissão de Westminster ser a mesma, sendo, por isso, sempre adotados 
os três, parece que os mais usados são o Catecismo Menor e a Confissão.
Esses Credos foram logo aprovados pela Assembleia Geral da Igreja da 
Escócia (Confissão - 27/08/1647-, Catecismos Maior e Menor - 28/07/1648), 
sendo esse ato homologado pelo Parlamento Escocês em 7 de fevereiro de 1749. 
302 Consultar referência.
303 Consultar referência.
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Eles tiveram e têm uma grande influência no mundo de fala inglesa, máxime 
entre os Presbiterianos – embora também tenham sido adotados por diversas 
igrejas batistas e congregacionais. No Brasil, esses Credos são adotados pela Igreja 
Presbiteriana do Brasil, Presbiteriana Independente e Presbiteriana Conservadora.
O USO DE CATECISMOS E CONFISSÕES REFORMADOS
A. Limites
Creio ter ficado evidente a relevância dos Credos Evangélicos no que se refere 
a sua formulação doutrinária. O ato de depreciar os Credos significa deixar de 
usufruir as contribuições dos servos de Deus no passado referentes à compre-
ensão bíblica; “é uma negação prática da direção que no passado deu o Espírito 
Santo à Igreja.”304
Por outro lado, os Credos têm o seu limite. O Credo é uma resposta do 
homem à Palavra de Deus, sumariando os artigos essenciais da fé cristã. Dessa 
forma, eles pressupõem fé,mas não a geram; essa é obra do Espírito Santo atra-
vés da Palavra (Rm 10.17).
Os Credos baseiam-se na Palavra, porém não são a Palavra – nem jamais foi 
isso cogitado pelos seus formuladores; eles não podem substituir a Palavra de 
Deus; somente ela gera vida pelo poder de Deus (1Pe 1.23; Tg 1.18).
Para os reformados, os Credos têm a sua autoridade decorrente da Palavra 
de Deus; em outras palavras, o seu valor não é intrínseco, mas sim extrínseco: 
eles são recebidos e cridos enquanto permanecem fiéis à Escritura, assim, a sua 
autoridade é relativa. Se isso é assim, alguém poderia insistir: “para que, então, 
os Credos se nós temos a Bíblia?”. O Dr. A. A. Hodge (1823-1886), apresenta 
uma observação relevante:
304 Berkhof, L. Introduccion a la Teologia Sistematica, p. 22. Stott coloca bem esta questão: “Desrespeitar 
a tradição e a teologia histórica é desrespeitar o Espírito Santo que tem ativamente iluminado a Igreja em 
todos os séculos.” (STOTT, J. R. W. A Cruz de Cristo. Miami: Editora Vida, 1991, p. 8).
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Todos os que estudam a Bíblia fazem isso necessariamente no próprio 
processo de compreender e coordenar o seu ensino; e pela linguagem 
de que os sérios estudantes da Bíblia se servem em suas orações e outros 
atos de culto, e na sua ordinária conversação religiosa, todos tornam ma-
nifesto que, de um ou outro modo, acharam nas Escrituras um sistema 
de fé tão completo como no caso de cada um deles lhe foi possível. Se 
os homens recusarem o auxílio oferecido pelas exposições de doutrinas 
elaboradas e definidas vagarosamente pela Igreja, cada um terá de fazer 
seu próprio credo, sem auxílio e confiando só na própria sabedoria. A 
questão real entre a Igreja e os impugnadores de credos humanos não é, 
como eles muitas vezes dizem, uma questão entre a Palavra de Deus e os 
credos dos homens, mas é questão entre a fé provada do corpo coletivo 
do povo de Deus e o juízo privado e a sabedoria não auxiliada do objetor 
individual. (Hodge, A.A. Esboços de Theologia, 1895, p. 99).
Os Credos são somente uma aproximação e relativa exposição correta da verdade 
revelada. Dessa forma, podem ser modificados pelo progressivo conhecimento 
da Bíblia, que é infalível e inesgotável. Por isso, não devemos tomar os Credos 
como autoridade final para definir um ponto doutrinário: os limites de nossa 
reflexão teológica estão na Palavra, não nos Credos. Os Credos não estabelecem 
o limite de nossa fé, antes, a norteia. A Palavra de Deus sempre será mais rica do 
que qualquer pronunciamento eclesiástico, por melhor que seja elaborado e por 
mais fiel que seja às Escrituras. A firmeza e vivacidade da Teologia Reformada 
estão justamente em basear o seu sistema em todo o desígnio de Deus, subme-
tendo-o ao próprio Deus que fala por meio da Sua Palavra.
A Confissão de Westminster, capítulo I, seção 10, diz:
O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser 
determinadas, e por quem serão examinados todos os decretos de con-
cílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de 
homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo, em cuja sentença nos 
devemos firmar, não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na 
Escritura. (Confissão de Westminster, capítulo I, seção 10, 1647).
B. Valor e importância
A ideia de Credos desagrada a muitas pessoas, porque os Credos pressupõem 
caminhos a serem seguidos; imaginam os Credos como um empobrecimento 
espiritual, um amordaçamento do Espírito. Dentro dessa perspectiva, a doutrina 
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tem pouco valor, o que importa, de fato, é a “vida cristã”, por isso, as ênfases de 
tais pessoas ou grupos nas “experiências” – que, via de regra, pretendem convali-
dar a Palavra – ou em um “evangelho” puramente ético-social. Todavia ambos os 
comportamentos, que revelam o mesmo equívoco, pecam por não compreende-
rem que a base de uma vida cristã autêntica é uma sólida doutrina vivenciada (Vd. 
1Tm 4.16). D. M. Lloyd-Jones(1899-1981), acentuou bem esse ponto, dizendo:
Toda a doutrina cristã visa levar, e foi destinada a levar a um bom resul-
tado prático. (...) A doutrina visa levar-nos a Deus, e a isso foi destinada. 
Seu propósito é ser prática (...) a nossa vida cristã nunca será rica, se 
não conhecermos e não aprendermos a doutrina.” (...) “Você não poderá 
ser santo, se não conhecer bem a doutrina. Doutrina é a ligação direta 
que leva à santidade. É somente quando compreendemos estas verdades 
fundamentais que podemos atender ao apelo lógico para a conduta e o 
comportamento agradáveis a Deus (LLOYD-JONES, 1992, p. 85-86).
Alinhemos, agora, alguns elementos que atestam a importância e o valor dos Credos:
1. Facilita a confissão pública de nossa fé.
2. Oferece-nos, de forma abreviada, o resultado de um processo cumula-
tivo da história, reunindo as melhores contribuições de diversos servos de 
Deus na compreensão da verdade. Em outro lugar, referindo-nos à ciência, 
enfatizamos que ela não tem pátria nem idade; não sendo privilégio de um 
povo, menos ainda de um indivíduo; todo cientista – usando a figura de 
João de Salisbury (c. 1110-1180)305 – equivale a um anão sobre os ombros 
de gigantes, valendo-se das contribuições de seus predecessores, a fim de 
poder enxergar um pouco além deles. Podemos aplicar essa figura à teo-
logia. Aliás, Packer já o fez, mais especificamente aplicando à tradição: 
A tradição nos permite ficar sobre os ombros de muitos gigantes que 
pensaram sobre a Bíblia antes de nós. Podemos concluir pelo consenso 
do maior e mais amplo corpo de pensadores cristãos, desde os primeiros 
Pais até o presente, como recurso valioso para compreender a Bíblia com 
responsabilidade. Contudo, tais interpretações (tradições) jamais serão 
finais; precisam sempre ser submetidas às Escrituras para mais revisão.306 
305 ABBAGNANO, N.; VISALBERGHI, A. Historia de la Pedagogía. Novena reimpresión, México: 
Fondo de Cultura Económica, 1990, p. 203. Parece que esta figura também foi empregada por outro 
teólogo medieval, “que morreu quase 300 anos antes de Lutero nascer...”, Pedro de Blois. (Cf. GEORGE, 
T. Teologia dos Reformadores, São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 23). Newton mais tarde, referindo-se a 
Kepler (1571-1630), Galileu (1564-1643) e Descartes (1596-1650), entre outros, também faria uso desta 
analogia. (Vd. ABBAGNANO, N.; VISALBERGHI, A. Historia de la Pedagogía, p. 280).
306 Consultar referência. 
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3. É uma exigência natural da própria unidade da Igreja, que exige um acordo 
doutrinário (Ef 4.11-14; Fp 1.27; 1Co 1.10; Jd 3/Tt 3.10/Gl 1.8,9; 1Tm 6.3-5).
4. Visto que o cristianismo é um modo de vida fundamentado na doutrina, os 
Credos oferecem uma base sintetizada para o ensino das doutrinas bíblicas, 
facilitando a sua compreensão, a fim de que todos os crentes sejam habili-
tados para a obra de Deus. 
Não deixa de ser curioso o fato de Spener (1635-1705), o “fundador” do 
“Pietismo” – que se opunha ao “Escolasticismo Protestante” –, insistir com os 
pastores que ensinem às crianças e aos adultos, juntamente com as Escrituras, 
o Catecismo,307 visto ser esse fundamental para a sedimentação da fé.308
5. Preserva a doutrina bíblica das heresias surgidas no decorrer da história, 
revelando-se de grande utilidade, especialmente, nas questões controvertidas, 
dando-nos uma exposição sistemática e norteadora a respeito do assunto.
6. No que se refere à compreensão bíblica, permite distinguir as nossas 
Igrejas das demais.
7. Serve como elemento regulador do ensino ministrado na Igreja bem como 
de seu governo, disciplina e liturgia.
James Orr (1844-1913), na sua obra prima, O Progresso do Dogma, escrevendo 
sobre os “Credos da Reforma”, disse:
...a idade da Reforma se destacou por sua produtividade de credos. Fa-
remos bem se não menosprezarmos o ganho que resulta para nós destas 
criações do espírito do século XVI. Cometeremos grave equívoco se, se-
guindo uma tendência prevalecente [1897], nos permitirmos crer que 
são curiosidades arqueológicas. Estes credos não são produtos ressecados 
como o pó, senão que surgiram de uma fé viva, e encerram verdades que 
nenhuma Igreja pode abandonar sem certo detrimento de sua própria 
vida. São produtos clássicos de uma época que se comprazia em formu-
lar credos, com o qual quero dizer, uma época que possuía uma fé que é 
capaz de definir-se de modo inteligente, e pela qual está disposta a sofrer 
se for necessário – e que, portanto, não pode por menos que expressar-
-se em formas que não tenham validade permanente –. [...] Estes credos 
se têm mantido erguidos como testemunhos, inclusive em período de 
decaimento, às grandes doutrinas sobre as quais foram estabelecidas as 
Igrejas; têm servido como baluartes contra os assaltos e a desintegração; 
têm formado um núcleo de reunião e reafirmação em tempos de aviva-
mento; e talvez têm representado sempre com precisão substancial a fé 
viva da parte espiritual de seus membros... (JAMES, 1988, p. 226-227).
307 No caso, o Catecismo Menor de Lutero, 1529. Spener era luterano. 
308 Consultar referência.
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8. Serve como desafio para que continuemos nossa caminhada na preser-
vação da doutrina e na aplicação das verdades bíblicas aos novos desafios 
de nossa geração, integrando-nos, assim, à nobre sucessão daqueles que 
amam a Deus e a Sua Palavra e que buscam entendê-la e aplicá-la, em 
submissão ao Espírito, à vida da Igreja. Uma tradição saudável tem com-
promisso com o passado na geração do futuro.309 Portanto, 
o conservadorismo criativo utiliza-se da tradição, não como autoridade 
final ou absoluta, mas como recurso importante colocado à nossa dispo-
sição pela providência de Deus, a fim de nos ajudar a entender o que a 
Escritura está nos dizendo sobre quem é Deus, quem somos nós, o que é o 
mundo ao nosso redor, e o que fomos chamados para fazer aqui e agora.310 
O Antigo e o Novo Testamento usaram desse recurso para auxiliar os crentes na 
sua vida doutrinária e prática cristã, expressando também o que a Igreja cria. Creio 
que isso resume bem o nosso assunto. A Teologia Reformada honra a Palavra 
de Deus e os Credos da Igreja enquanto esses permanecerem fiéis à Escritura. 
309 “A tradição é o sangue da teologia. Separada da tradição a teologia é como uma flor cortada sem suas 
raízes e sem o solo, logo murcha na mão. Uma sã teologia nunca nasce de novo. Ao honrar a sã tradição, 
se assegura a continuidade teológica com o passado. Ao mesmo tempo a tradição cria a possibilidade 
de abrir novas portas para o futuro. Como diz o provérbio: ‘A tradição é o prólogo do futuro.’ Por isso, 
toda dogmática que se preze como tal, deve definir sua posição em uma ou outra tradição confessional.” 
(SPYKMAN, G. J. Teologia Reformacional: Um Nuevo Paradigma para Hacer la Dogmática, Jenison, 
MI.: The Evangelical Leitarature League, 1994, p. 5).
310 Consultar referência.
“A comunicação que Deus tem com o homem é verdadeira, mas isto não 
significa que seja exaustiva. Esta é uma distinção importante que precisa-
mos sempre ter em mente. Para conhecer qualquer coisa exaustivamente, 
precisaríamos ser infinitos, como Deus. Mesmo na vida eterna não seremos 
assim.”
Fonte: Schaeffer (1981, p. 143). 
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Tratamos, nesta segunda unidade, de um dos principais ensinos teológicos refor-
mados: a revelação de Deus. A Bíblia parte do pressuposto da existência de Deus. 
E que é a Bíblia que se autentica a si mesma como Palavra autoritativa de Deus e 
é Ele mesmo Quem nos ilumina para que possamos interpretá-la corretamente 
(Sl119.18). Por isso, o Espírito não pode ser separado da Palavra. Somente pela 
operação divina poderemos reconhecer a Sua origem divina bem como com-
preendê-La salvadoramente.
De forma abreviada, analisamos a tradição como o resultado de um pro-
cesso cumulativo da história, que reuniu as melhores contribuições de diversos 
servos de Deus na compreensão da verdade e compreender pelo consenso do 
maior e mais amplo corpo de pensadores cristãos, desde os primeiros pais até o 
presente, como recurso valioso para compreender a Bíblia com responsabilidade.
Nesta unidade de estudo ainda, pensamos sobre essas características da reve-
lação, inspiração e iluminação para se conhecer a Deus, perpassando os principais 
catecismos da tradição cristã protestante. Visto que o cristianismo é um modo 
de vida fundamentado na doutrina, os Credos oferecem uma base sintetizada 
para o ensino das doutrinas bíblicas, facilitando a sua compreensão, a fim de que 
todos os crentes sejam habilitados para a obra de Deus. 
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1. Partindo de nossos estudos nesta unidade, pesquise os pressupostos teológicos 
e a origem da tradição histórica de sua denominação religiosa.
Os Cinco Solas da Reforma
Sola Scriptura, Sola Christus, Sola Gratia, Sola Fide, Soli Deo Gloria
SOLA SCRIPTURA: A Erosão da Autoridade
Só a Escritura é a regra inerrante da vida da igreja, mas a igreja evangélica atual fez 
separação entre a Escritura e sua função oficial. Na prática, a igreja é guiada, por ve-
zes demais, pela cultura. Técnicas terapêuticas, estratégias de marketing, e o ritmo do 
mundo de entretenimento muitas vezes tem mais voz naquilo que a igreja quer, em 
como funciona, e no que oferece, do que a Palavra de Deus. Os pastores negligenciam 
a supervisão do culto, que lhes compete, inclusive o conteúdo doutrinário da música. À 
medida que a autoridade bíblica foi abandonada na prática, que suas verdades se en-
fraqueceram na consciência cristã, e que suas doutrinas perderam sua proeminência, a 
igreja foi cada vez mais esvaziada de sua integridade, autoridade moral e discernimento.
Em lugar de adaptar a fé cristã para satisfazer as necessidades sentidas dos consumido-
res, devemos proclamar a Lei como medida única da justiça verdadeira, e o evangelho 
como a única proclamação da verdade salvadora. A verdade bíblica é indispensável para 
a compreensão, o desvelo e a disciplina da igreja.
A Escritura deve nos levar além de nossas necessidades percebidas para nossas necessi-
dades reais, e libertar-nos do hábito de nos enxergar por meio das imagens sedutoras, 
clichês, promessas e prioridades da cultura massificada. É só à luz da verdade de Deus 
que nós nos entendemos corretamente e abrimos os olhos para a provisão de Deus para 
a nossa sociedade. A Bíblia, portanto, precisa ser ensinada e pregada na igreja. Os ser-
mões precisam ser exposições da Bíblia e de seus ensino, não a expressão de opinião ou 
de idéias da época. Não devemos aceitar menos do que aquilo que Deus nos tem dado.
A obra do Espírito Santo na experiência pessoal não pode ser desvinculada da Escritura. 
O Espírito não fala em formas que independem da Escritura. À parte da Escritura nunca 
teríamos conhecido a graça de Deus em Cristo. A Palavra bíblica, e não a experiência 
espiritual, é o teste da verdade.
Tese 1: Sola Scriptura
Reafirmamos a Escritura inerrante como fonte única de revelação divina escrita, única 
para constranger a consciência. A Bíblia sozinha ensina tudo o que é necessário para 
nossa salvação do pecado, e é o padrão pelo qual todo comportamento cristão deve ser 
avaliado.
Negamos que qualquer credo, concílio ou indivíduo possa constranger a consciência de 
um crente, que o Espírito Santo fale independentemente de, ou contrariando, o que está 
exposto na Bíblia, ou que a experiência pessoal possa ser veículo de revelação.
127 
SOLO CHRISTUS: A Erosão da Fé Centrada em Cristo
À medida que a fé evangélica se secularizou, seus interesses se confundiram com os da 
cultura. O resultado é uma perda de valores absolutos, um individualismo permissivo, a 
substituição da santidade pela integridade, do arrependimento pela recuperação, da ver-
dade pela intuição, da fé pelo sentimento, da providência pelo acaso e da esperança dura-
doura pela gratificação imediata. Cristo e sua cruz se deslocaram do centro de nossa visão.
Tese 2: Solus Christus
Reafirmamos que nossa salvação é realizada unicamente pela obra mediatória do Cristo 
histórico. Sua vida sem pecado e sua expiação por si só são suficientes para nossa justi-
ficação e reconciliação com o Pai.
Negamos que o evangelho esteja sendo pregado se a obra substitutiva de Cristo não 
estiver sendo declarada e a fé em Cristo e sua obra não estiver sendo invocada. 
SOLA GRATIA: A Erosão do Evangelho
A Confiança desmerecida na capacidade humana é um produto da natureza humana 
decaída. Esta falsa confiança enche hoje o mundo evangélico – desde o evangelho da 
auto-estima até o evangelho da saúde e da prosperidade, desde aqueles que já transfor-
maram o evangelho num produto vendável e os pecadores em consumidores e aqueles 
que tratam a fé cristã como verdadeira simplesmente porque funciona. Isso faz calar a 
doutrina da justificação, a despeito dos compromissos oficiais de nossas igrejas.
A graça de Deus em Cristo não só é necessária como é a única causa eficaz da salvação. 
Confessamos que os seres humanos nascem espiritualmente mortos e nem mesmo são 
capazes de cooperar com a graça regeneradora.
Tese 3: Sola Gratia
Reafirmamos que na salvação somos resgatados da ira de Deus unicamente pela sua 
graça. A obra sobrenatural do Espírito Santo é que nos leva a Cristo, soltando-nos de 
nossa servidão ao pecado e erguendo-nos da morte espiritual à vida espiritual.
Negamos que a salvação seja em qualquer sentido obra humana. Os métodos, técnicas 
ou estratégias humanas por si só não podem realizar essa transformação. A fé não é 
produzida pela nossa natureza não-regenerada. 
SOLA FIDE: A Erosão do Artigo Primordial
A justificação é somente pela graça, somente por intermédio da fé, somente por causa 
de Cristo. Este é o artigo pelo qual a igreja se sustenta ou cai. É um artigo muitas vezes 
ignorado, distorcido, ou por vezes até negado por líderes, estudiosos e pastores que 
professam ser evangélicos. Embora a natureza humana decaída sempre tenha recuado 
de professar sua necessidade da justiça imputada de Cristo, a modernidade alimenta 
as chamas desse descontentamento com o Evangelho bíblico. Já permitimos que esse 
descontentamento dite a natureza de nosso ministério e o conteúdo de nossa pregação.
Muitas pessoas ligadas ao movimento do crescimento da igreja acreditam que um en-
tendimento sociológico daqueles que vêm assistir aos cultos é tão importante para o 
êxito do evangelho como o é a verdade bíblica proclamada. Como resultado, as convic-
ções teológicas freqüentemente desaparecem, divorciadas do trabalho do ministério. A 
orientação publicitária de marketing em muitas igrejas leva isso mais adiante, apegando 
a distinção entre a Palavra bíblica e o mundo, roubando da cruz de Cristo a sua ofensa 
e reduzindo a fé cristã aos princípios e métodos que oferecem sucesso às empresas se-
culares.
Embora possam crer na teologia da cruz, esses movimentos a verdade estão esvazian-
do-a de seu conteúdo. Não existe evangelho a não ser o da substituição de Cristo em 
nosso lugar, pela qual Deus lhe imputou o nosso pecado e nos imputou a sua justiça. Por 
ele Ter levado sobre si a punição de nossa culpa, nós agora andamos na sua graça como 
aqueles que são para sempre perdoados, aceitos e adotados como filhos de Deus. Não 
há base para nossa aceitação diante de Deus a não ser na obra salvífica de Cristo; a base 
não é nosso patriotismo, devoção à igreja, ou probidade moral. O evangelho declara 
o que Deus fez por nós em Cristo. Não é sobre o que nós podemos fazer para alcançar 
Deus.
Tese 4: Sola Fide
Reafirmamos que a justificação é somente pela graça somente por intermédio da fé so-mente por causa de Cristo. Na justificação a retidão de Cristo nos é imputada como o 
único meio possível de satisfazer a perfeita justiça de Deus.
Negamos que a justificação se baseie em qualquer mérito que em nós possa ser achado, 
ou com base numa infusão da justiça de Cristo em nós; ou que uma instituição que rei-
vindique ser igreja mas negue ou condene sola fide possa ser reconhecida como igreja 
legítima. 
SOLI DEO GLORIA: A Erosão do Culto Centrado em Deus
Onde quer que, na igreja, se tenha perdido a autoridade da Bíblia, onde Cristo tenha 
sido colocado de lado, o evangelho tenha sido distorcido ou a fé pervertida, sempre 
foi por uma mesma razão. Nossos interesses substituíram os de Deus e nós estamos fa-
zendo o trabalho dele a nosso modo. A perda da centralidade de Deus na vida da igreja 
de hoje é comum e lamentável. É essa perda que nos permite transformar o culto em 
entretenimento, a pregação do evangelho em marketing, o crer em técnica, o ser bom 
em sentir-nos bem e a fidelidade em ser bem-sucedido. Como resultado, Deus, Cristo e 
a Bíblia vêm significando muito pouco para nós e têm um peso irrelevante sobre nós.
Deus não existe para satisfazer as ambições humanas, os desejos, os apetites de consu-
mo, ou nossos interesses espirituais particulares. Precisamos nos focalizar em Deus em 
nossa adoração, e não em satisfazer nossas próprias necessidades. Deus é soberano no 
culto, não nós. Nossa preocupação precisa estar no reino de Deus, não em nossos pró-
prios impérios, popularidade ou êxito.
129 
Tese 5: Soli Deo Gloria
Reafirmamos que, como a salvação é de Deus e realizada por Deus, ela é para a glória de 
Deus e devemos glorificá-lo sempre. Devemos viver nossa vida inteira perante a face de 
Deus, sob a autoridade de Deus, e para sua glória somente.
Negamos que possamos apropriadamente glorificar a Deus se nosso culto for confundi-
do com entretenimento, se negligenciarmos ou a Lei ou o Evangelho em nossa prega-
ção, ou se permitirmos que o afeiçoamento próprio, a auto-estima e a auto-realização se 
tornem opções alternativas ao evangelho.
Fonte: Declaração de Cambridge (online). 
Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/cinco_solas/cinco_solas_refor-
ma_erosao.htm . Acesso em: 11 de janeiro de 2016.
MATERIAL COMPLEMENTAR
O Deus que se Revela
Francis A. Schaeff er 
Editora: Cultura Cristã
Sinopse: Deus que se revela (no original, He is there 
and he is not silent) forma com a morte da razão e o 
Deus que intervém a trilogia clássica de Schaeff er. É o 
último da trilogia. Segundo o autor, “Este livro trata de 
como podemos vir a saber e como podemos saber que 
sabemos”. Assim, Schaeff er pondera que o pensamento 
moderno está fundalmentamente errado em suas 
posições quanto a como sabemos e o que sabemos. 
Contrastando com o silêncio e desespero do homem 
moderno, Schaeff er mostra que podemos de fato conhecer o Deus que intervém porque se 
revela.
Comentário: ”Qual será, a longo prazo, a importância de Francis Schaeff er? Tenho certeza de 
que não estarei errado ao saudar a Francis Schaeff er - que enxergou bem mais do que a maioria 
de nós e agonizou sobre a sua percepção bem mais intensamente do que nós - como um dos 
verdadeiramente grandes cristãos de meu tempo.” J. I. Packer 
Apresentação: Monergismo.com é um ministério baseado na Internet, de iniciativa 
exclusivamente pessoal e sem vínculos com qualquer igreja ou organização, com os seguintes 
objetivos de equipar os cristãos na verdade, disponibilizando os melhores artigos clássicos e as 
fontes da ortodoxia histórica. Isto é feito na esperança de que a Igreja abraçará, e redescobrirá as 
verdadeiras doutrinas bíblicas da fé histórica.
Disponível em: . Acesso em: 30 jan. 2016.
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Professor Dr. Hermisten Maia Pereira Da Costa
Professor Me. Roney De Carvalho Luiz
A DOUTRINA DA TRINDADE
Objetivos de Aprendizagem
 ■ Compreender a definição da doutrina trinitária.
 ■ Conhecer o panorama histórico sobre a teologia da Trindade.
 ■ Estabelecer a importância de conhecer os fundamentos bíblicos da 
teologia da Trindade.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
 ■ Definição da doutrina
 ■ A formulação doutrinária: os credos da igreja a busca de uma 
compreensão bíblica
 ■ Fundamentos bíblicos da doutrina
 ■ A Trindade e a nossa Salvação
 ■ A Trindade e as nossas orações
INTRODUÇÃO
Nesta terceira unidade de seu livro, trataremos sobre a doutrina cristã da Trindade. 
Tal doutrina é peculiar ao cristianismo. E enquanto doutrina bíblica está inti-
mamente ligada com a nossa humanidade, pois são as doutrinas bíblicas que 
determinam e pressupõem as experiências religiosas do povo de Deus.
Desde o início do cristianismo, encontramos fórmulas e frases que indicam 
o caráter Trino de Deus. Essa ideia clássica da doutrina trinitária explica que 
Deus tem “uma substância e três pessoas”. Ainda que essa fórmula não se encon-
tre explícita nas Escrituras, seu propósito é afirmar o que as Escrituras parecem 
dizer a respeito: que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são três – não é o mesmo 
– mas um só Deus.
Nessa unidade de estudo, propomos um aprofundamento nesse conceito da 
triunidade divina, observando de forma progressiva a construção dessa formu-
lação teológica e doutrinária no decorrer da história da igreja cristã.
Introdução
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A DOUTRINA DA TRINDADE
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IIIU N I D A D E134
DEFINIÇÃO DA DOUTRINA 
“Um único Deus é a Trindade.”
Décimo Primeiro Concílio de Toledo (675).311
Para expressar a verdade bíblica de que o Ser de Deus subsiste em três pessoas, a 
teologia cristã usa o termo Trindade, palavra essa que não se encontra na Bíblia, 
mas, sim, o seu ensinamento. A palavra Trindade é proveniente do latim trinitas, 
derivando-se do termo trinus (= triplo), ao que veio corresponder outro sinô-
nimo tríade, do grego tri/aj que significa um conjunto de três. 
Até onde sabemos Teófilo de Antioquia (c. 115-181) – em uma apologia a 
respeito do Cristianismo – foi possivelmente o primeiro a usar a palavra Trindade 
(tri/aj).312 Tertuliano (c. 155-220) foi o primeiro a usar o termo latino Trinitas313 
e, também, o primeiro a tentar sistematizar essa doutrina, ainda que o tenha feito 
de forma deficiente, subordinando o Filho e o Espírito ao Pai.314 
Em nosso estudo preferimos empregar a palavra Triunidade por acreditar 
que ela expressa melhor o ensinamento bíblico de que há um só Deus que sub-
siste em três pessoas.
É necessário enfatizar que quando nos aproximamos desse tema para estu-
dá-lo, temos de fazê-lo com reverente temor e humildade, reconhecendo a 
grandiosidade do assunto e a nossa limitação para entendê-lo de forma ade-
quada e explicá-lo de modo correto.
A palavra Triunidade traz em seu bojo quatro ideias fundamentais embasa-
das nas Escrituras, a saber:
1. O Pai é Deus;
2. O Filho é Deus;
3. O Espírito é Deus;
4. Esses três são um só Deus.315
311 Consultar referência da nota.
312 “Os três dias que precedem a criação dos luzeiros são símbolo da Trindade [...]”. Consultar referência da nota.
313 Tertuliano foi pródigo na criação de neologismos na língua latina. Para ver as estatísticas, consultar 
referência da nota.
314 Berkhof diz que “Tertuliano foi o primeiro a declarar claramente a tri-personalidade de Deus e a 
manter a unidade substancial das três Pessoas. Mas não chegou a exprimir de forma clara a doutrina da 
Trindade”. Consultar referência da nota.
315 Para uma classificação um pouco diferente consultar referência da nota.
Definição da Doutrina 
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Vejamos agora algumas definições e exposiçõesconfessionais desta doutrina:
“Confessamos e reconhecemos um só Deus [...]. Um em substância e, con-
tudo, distinto em três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo”. 316
“[...] Cremos e ensinamos que o mesmo Deus imenso, uno e indiviso é inse-
paravelmente e sem confusão, distinto em pessoa – Pai, Filho e Espírito 
Santo – e, assim como o Pai gerou o Filho desde a eternidade, o Filho foi 
gerado por inefável geração, e o Espírito Santo verdadeiramente procede 
de um e outro, desde a eternidade e deve ser com ambos adorados.”
“Assim, não há três deuses, mas três pessoas, consubstanciais, coeternas e 
coiguais, distintas quanto às hipóstases e quanto à ordem, tendo uma prece-
dência sobre a outra, mas sem qualquer desigualdade. Segundo a natureza 
ou essência, acham-se tão unidas que são um Deus, e a essência divina é 
comum ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo”. 317
“Na unidade da Divindade há três pessoas de uma mesma substância, 
poder e eternidade – Deus o Pai, Deus o Filho e Deus o Espírito Santo. O 
Pai não é de ninguém – não é nem gerado, nem procedente; o Filho é eter-
namente gerado do Pai; o Espírito Santo é eternamente procedente do Pai 
e do Filho”. 318
“As igrejas ensinam entre nós com magno consenso que o decreto do 
Concílio de Niceia sobre a unidade da essência divina e sobre as três pes-
soas é verdadeiro e deve ser crido sem qualquer dúvida. A saber, que há 
uma só essência divina, a qual é chamada Deus e é Deus, eterno, incor-
póreo, impartível, de incomensurável poder, sabedoria, bondade, criador 
e conservador de todas as coisas, visíveis e invisíveis. E, contudo, há três 
pessoas, da mesma essência e poder, e coeternas o Pai, o Filho e o Espírito 
Santo. E a palavra ‘pessoa’ usam-na no sentido em que a usaram, nessa ques-
tão, os escritores eclesiásticos, para significar não uma parte ou qualidade 
em outra coisa, mas aquilo que subsiste por si mesmo”. 319
316 A Confissão Escocesa (1560). Consultar referência da nota.
317 A Segunda Confissão Helvética (1562-1566). Consultar referência da nota.
318 Confissão de Westminster, Catecismo Maior de Westminster e Catecismo Menor de Westminster. 
Consultar referência da nota.
319 A Confissão de Augsburgo (1980). Consultar referência da nota.
A DOUTRINA DA TRINDADE
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
IIIU N I D A D E136
Conforme essa verdade e essa palavra de Deus, cremos em um só Deus, que é um 
único ser, em que há três pessoas o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Essas são, real-
mente e desde a eternidade, distintas conforme os atributos próprios de cada pessoa.
O Pai é a causa, a origem e o princípio de todas as coisas visíveis e invisí-
veis. O Filho é o verbo, a sabedoria e a imagem do Pai. O Espírito Santo, que 
procede do Pai e do Filho é a eterna força e o poder.
Essa distinção não significa que Deus está dividido em três. Pois a Sagrada 
Escritura ensina-nos que cada um desses três tem sua própria existência, dis-
tinta por seus atributos, de tal maneira, porém, que essas três pessoas são um só 
Deus. É claro, então, que o Pai não é o Filho e que o Filho não é o Pai; que, tam-
bém, o Espírito Santo não é o Pai ou o Filho.
Para Berkhof (1990, p.88-91),
Entretanto, essas Pessoas, assim distintas, não são divididas nem con-
fundidas entre si. Porque somente o Filho se tornou homem, não o 
Pai ou o Espírito Santo. O Pai jamais existiu sem seu Filho e sem seu 
Espírito Santo, pois todos os três têm igual eternidade, no mesmo ser. 
Não há primeiro nem último, pois todos os três são um só em verdade, 
em poder, em bondade e em misericórdia. 320
Essa doutrina pode se decompor nas seguintes proposições: 321
HÁ NO SER DIVINO UMA SÓ ESSÊNCIA INDIVISÍVEL 
No “Shemá” 322 (“ouve”), o “credo judeu”, 323 que consistia na leitura de Dt 6.4-9; 
11.13-21; Nm 15.37-41 e, possivelmente, Dt 26.5-9.324 O “Shemá” era repetido 
três vezes ao dia,325 sendo usado liturgicamente em Sinagoga.326 A instrução ini-
ciava com a afirmação de que há somente um Deus “Ouve, Israel, o SENHOR, 
nosso Deus, é o único SENHOR.” (Dt 6.4). 
320 Confissão Belga. Consultar referência da nota.
321 Esquema adaptado de Berkhof. Consultar referência da nota.
322 É a primeira palavra que aparece em Dt 6.4, derivada do verbo ((m$) (Shãma’), “ouvir”, envolvendo 
normalmente a ideia de ouvir com afeição, entender, obedecer. Consultar referência da nota.
323 Conforme expressão de Edersheim (1825-1889). Consultar referência da nota.
324 Consultar referência da nota.
325 Quanto ao emprego desta oração feita pelos judeus individualmente. Consultar referência da nota.
326 Consultar referência da nota.
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No Novo Testamento, Paulo instrui aos Efésios: 
Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados 
numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um 
só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por 
meio de todos e está em todos. (Ef 4.4-6). (Tg 2.19).
A compreensão da Igreja é de que não há diferença na essência de Deus. Deus é 
um ser simples, não composto. A afirmação da Igreja, conforme veremos abaixo, 
é de que há apenas uma essência na Trindade partilhada pelas três pessoas,327 
havendo distinção, mas não separação entre elas.328 A essência “é o fundamento 
de sua unidade comum, apesar da distinção em suas manifestações exteriores”. 329
A. NO SER DE DEUS HÁ TRÊS PESSOAS 
A Bíblia demonstra haver três pessoas na Trindade, entretanto, sabemos que o 
termo Pessoa é uma palavra imperfeita e, portanto, inadequada para retratar a 
mensagem bíblica. Naturalmente as palavras são limitadas330 para descrever o Ser 
de Deus. O nosso esforço é no sentido de utilizar os termos que melhor expri-
mem o ensinamento bíblico. 331
As Escrituras afirmam haver um só Deus, mas, que subsistem em três pes-
soas. Calvino (1509-1564) define Pessoa “Designo como pessoa, portanto, uma 
subsistência na essência de Deus que, enquanto relacionada com as outras, se 
distingue por uma propriedade incomunicável”. 332 
Adiante, acrescenta “Com efeito, em cada e qualquer das hipóstases a 
natureza inteira se compreende, com isto, que lhe subjaz, a cada uma, a sua 
propriedade específica. O Pai está todo no Filho, o Filho todo no Pai [...]” 333
327 “Pai, Filho e Espírito Santo, cada um possui toda a substância e todos os atributos da divindade. A 
pluralidade de Deus não é, portanto, pluralidade de essência, mas de distinções hipostáticas ou pessoais”. 
Consultar referência da nota.
328 Consultar referência da nota.
329 Consultar referência da nota.
330 “Tendo criado o homem para ser uma criatura sociável, Deus não só lhe inspirou o desejo e o colocou 
na necessidade de viver com os de sua espécie, mas lhe outorgou igualmente a faculdade de falar, 
faculdade que deveria constituir o grande instrumento e o laço comum desta sociedade. É daí que provêm 
as palavras, as quais servem para representar, e até para explicar as ideias”. Consultar referência da nota.
331 Consultar referência da nota.
332 Consultar referência da nota.
333 Consultar referência da nota.
A DOUTRINA DA TRINDADE
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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(Ver Mt 3.16-17; 4.1; Jo 1.1-3,18; 3.16; 5.20-22; 14.26; 15.26; 16.13-15).
Berkhof (1873-1957) comentando a primeira distinção feita por Calvino 
observa: 
Isso é perfeitamente permissível e pode proteger-nos de entendimen-
to errôneo, mas não deve levar-nos a perder de vista o fato de que as 
auto-distinções do Ser Divino implicam um ‘Eu’ e ‘Tu’ no Ser de Deus, 
que assumem relações pessoais uns para com os outros. (1990, p. 89). 
B. A ESSÊNCIA DE DEUS PERTENCE TOTALMENTE POR IGUAL A CADA 
UMA DAS TRÊS PESSOAS 
A essência divina não está dividida entre as três pessoas como se fossem modulares 
e independentes.buscar uma síntese que realmente preserve a 
fidelidade bíblica; por outro lado, há o risco de confiar nas fórmulas con-
fessionais sem que sejamos capazes de explicar com alguma profundida-
de como elas são frutos das reflexões acerca do que a Bíblia de fato diz.21
18 Consultar referência. 
19 Consultar referência.
20 Para uma visão sumária dos caminhos e descaminhos desta disciplina, veja: TAYLOR, W. Teologia 
Bíblica. In: MERRIL, C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 5, p. 
840-847; HASEL, G. F. Teologia do Antigo Testamento, Rio de Janeiro: JUERP. 1987, p. 9-26; HASEL, G. 
F. Teologia do Antigo Testamento, Rio de Janeiro: JUERP, 1988, p. 9-57
21 Consultar referência.
INTRODUÇÃO A TEOLOGIA
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rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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B. Teologia Histórica22
É o estudo da história do povo de Deus desde o Novo Testamento até os nos-
sos dias. Ela abrange a História da Igreja, História das Missões etc. “O estudo da 
história da igreja permite compreender a história em geral e a teologia em par-
ticular com maior profundidade”.23
C. Teologia Sistemática ou Dogmática
Conforme D.W. Simon já dissera no final do século XIX referindo-se à nomenclatura 
teologia sistemática,24 esta é uma “tautologia impertinente” visto que traz consigo a 
presunção de uma teologia não sistemática e de que haja outras disciplinas teológicas 
não metódicas.25 Estou convencido de que toda teologia é de algum modo sistemá-
tica; a forma de organizá-la é que vai determinar o tipo de sistematização. Com isso 
estamos admitindo a limitação do nome, não, contudo, ao ponto de pretender bani-
-lo. A nomenclatura “sistemática”, que pode parecer redundante, é proveniente do 
verbo grego sunista/w, que significa: organizar, coligar, congregar. Portanto, a desig-
nação de Teologia Sistemática é pertinente visto que ela se propõe a organizar em 
um sistema unificado os ensinamentos bíblicos.26 Creio que esta palavra de posicio-
namento seja necessária e suficiente dentro dos objetivos deste texto.
Podemos dizer que a Teologia Sistemática, considerando a unidade de toda a 
Escritura, é o estudo sistematizado da Revelação Especial de Deus conforme regis-
trada nas Escrituras Sagradas, buscando uma compreensão real e harmônica de 
“todo o desígnio de Deus” por meio de suas relações intrínsecas e extrínsecas, real-
çando a sua relevância para a vida do povo de Deus. Noutras palavras, sua função 
é tomar os fatos da Bíblia, “determinar sua relação entre si e com as outras ver-
dades cognatas, bem como vindicá-las e mostrar sua harmonia e consistência”.27
22 Uso essa nomenclatura de forma distinta da que é empregada normalmente para se referir ao estudo 
histórico das doutrinas cristãs, como estas foram compreendidas em diferentes períodos da história. (Por 
exemplo: MCGRATH, A. E. Teologia Sistemática, histórica e filosófica: Uma introdução à teologia 
cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 182-184). Entendo que essa abordagem deve fazer parte da 
própria Teologia Sistemática.
23 Consultar referência.
24 Nos círculos teológicos Luteranos e Reformados da Europa, prevaleceu o nome Dogmática. (Veja-
se: BAVINCK, H. Reformed Dogmatics. Volume 1: Prolegomena, Grand Rapids, Michigan: Baker 
Academic, 2003, p. 26-34).
25 Consultar referência. 
26 Consultar referência.
27 Consultar referência.
Pressupostos e Método da Teologia
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D. Teologia Prática
Trata da aplicação prática das doutrinas bíblicas à vida da Igreja, envolvendo a 
Homilética, Educação Cristã, Liturgia e a Teologia Pastoral. Podemos dizer que 
a Teologia Prática é o grande ponto de contato entre a Academia e a Igreja. Visto 
que toda a teologia é comprometida, o alvo de toda reflexão teológica é o culto a 
Deus e a edificação do povo de Deus, para que esse amadureça em sua fé e possa 
servi-Lo com maior integridade. Nós estudamos a respeito de Deus, por meio 
de Sua revelação, a fim de adorá-Lo em nossa obediência.
PRESSUPOSTOS E MÉTODO DA TEOLOGIA
Cosmovisões deveriam não apenas ser testadas em uma aula de filoso-
fia, mas também no laboratório da vida. Uma coisa é uma cosmovisão 
passar no teste teórico (razão e experiência); outra é passar no teste 
prático. As pessoas que professam uma cosmovisão podem viver con-
sistentemente em harmonia com o sistema que professam? Ou desco-
briremos que elas foram forçadas a viver segundo crenças emprestadas 
de sistemas concorrentes? Tal descoberta, eu acho, deveria, produzir 
mais do que embaraço.” (NASH, 2008, p. 29).
Nenhuma ciência vive sem pressupostos e a elaboração de um sistema que seja 
considerado como uma consequência lógica de sua definição prévia.
Hodge acertadamente afirma que
o verdadeiro método da teologia é, pois, o indutivo, o qual presume que 
a Bíblia contém todos os fatos ou verdades que formam o conteúdo da 
teologia, justamente como os fatos da natureza formam o conteúdo das 
ciências naturais.28 
Como fica demonstrado, a teologia traz consigo alguns pressupostos dos quais 
dependem a sua existência. Retomando a definição de teologia como sendo o 
estudo da Revelação Pessoal de Deus conforme registrada nas Escrituras Sagradas, 
em forma de esboço, podemos indicar os seguintes pressupostos:
28 Consultar referência.
INTRODUÇÃO A TEOLOGIA
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1. A existência de um Deus que se relaciona com a sua criação; Deus infi-
nito e pessoal: transcendente que se revela nas Escrituras. 
2. A realidade da suficiência de Sua revelação registrada nas Escrituras: 
Deus por Ele mesmo; Sujeito e Conteúdo da Revelação. “A comunica-
ção divina é a base fundamental da fé cristã”.29 A revelação de Deus é um 
exercício de Sua graça na qual Ele Se revela como Senhor e Servo sofre-
dor que resgata o Seu povo. 
3. A racionalidade humana, que se compatibiliza com a revelação condescen-
dente de Deus: Deus criou o homem com a possibilidade de conhecimento 
real, ainda que não exaustivo. 
Não podemos compreender plenamente a Deus em toda a sua gran-
deza, mas que há certos limites dentro dos quais os homens devem 
manter-se, embora Deus acomode a nossa tacanha capacidade toda 
declaração que faz de Si mesmo. Portanto, somente os estultos é que 
buscam conhecer a essência de Deus.30
4. A possibilidade do nosso conhecimento está determinada pela própria 
revelação. O limite de nosso conhecimento está delimitado pela Palavra. 
Calvino, como ninguém, explorou esse aspecto. Aconselha-nos: 
...que esta seja a nossa regra sacra: não procurar saber nada mais senão 
o que a Escritura nos ensina. Onde o Senhor fecha seus próprios lábios, 
que nós igualmente impeçamos nossas mentes de avançar sequer um 
passo a mais.31
5. A capacitação espiritual do homem regenerado para compreender as ver-
dades espirituais da Revelação (Sl 119.18;1Co 2.14-15) por meio da fé: 
A fé não é apenas uma espécie, mas a mais elevada espécie de conhe-
cimento. Ela nos fornece uma compreensão de realidades que para os 
sentidos apenas são inacessíveis, a saber, a existência de Deus, e pelo 
menos algumas das relações entre Deus e Sua criação.32 
29 LLOYD-JONES, D. M. O Combate Cristão. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 
24. “Ele não nos manda que subamos incontinenti aos céus, e, sim, perscrutando nossa debilidade, Ele 
mesmo desce até nós” (CALVINO, J. O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2 (Sl 42.1-3), 
p. 257). Veja: BAVINCK, H. Reformed Dogmatics. Volume 1: Prolegomena, Grand Rapids, Michigan: 
Baker Academic, 2003, p. 37-38). 
30 Consultar referência. 
31 CALVINO, J. Exposição de Romanos, (Rm 9.14), p. 330. Veja também: CALVINO, J. As Institutas, 
I.5.9; I.14.3-4; III.21.4; III.23.8; III.25.6 e 11; IV.17.36; Exposição de Hebreus, SãoDeus é plenamente as três pessoas com todas as suas perfeições, 
isso equivale, dizer que as Três Pessoas da Trindade têm a mesma essência - O 
Deus Pai é tanto Deus Filho como Deus Espírito Santo. Portanto, não há subordi-
nação de essência (ontológica), não há nenhuma diferença em dignidade pessoal. 
A única subordinação que podemos falar é da que se refere à ordem e à relação. 334
C. A IGREJA CONFESSA QUE A TRINDADE É UM MISTÉRIO QUE 
TRANSCENDE A COMPREENSÃO DO HOMEM 
A Trindade “é inteligível em algumas de suas relações e de seus modos de mani-
festação, mas é ininteligível em sua natureza essencial”. (BERKHOF, 1990, p. 91). 
As especulações sobre o assunto no decorrer da história geraram heresias como 
o triteísmo e o modalismo335 que ora negava a essência una de Deus, ora negava 
as distinções pessoais dentro da essência. 336 
334 Consultar referência da nota.
335 Termo introduzido por Adolf von Harnack (1851-1930) para descrever as heresias de Noetus, Práxeas e 
Sabélio. Consultar referência da nota.
336 Como acentua Berkhof, “Os numerosos esforços feitos para explicar o mistério foram especulativos, 
e não teológicos. Invariavelmente redundaram no desenvolvimento de conceitos triteístas ou modalistas 
de Deus, na negação ou da unidade da essência divina ou da realidade das distinções pessoais dentre da 
essência”. Consultar referência da nota.
Definição da Doutrina 
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É preciso que entendamos que não compete à Igreja explicar o mistério da 
Trindade, ela, partindo da Escritura, apenas o descreve de forma mais ou menos 
sistemática, formulando a doutrina de tal forma que evite os erros e as heresias.
Calvino, As Institutas, I.13.21, com a cautela costumeira diante do mistério 
nos adverte pastoralmente sobre o perigo da especulação indevida:
Aqui, mui certamente, se alguma vez, em qualquer parte, nos recônditos 
mistérios da Escritura, importa discorrer sobriamente e com muita mo-
deração, aplicada, ademais, muita cautela, para que, seja o pensamento, 
seja a língua, não avance além do ponto a que se estendam os limites 
da Palavra de Deus. Pois, como haja a mente humana, que ainda não 
pode estatuir ao certo de que natureza seja a massa do sol, que, entre-
tanto, diariamente com os olhos se vê, de à sua parca medida reduzir a 
imensurável essência de Deus? (...) Pelo infelicíssimo resultado de qual 
temeridade importa-nos ser advertidos, para que tenhamos o cuidado 
de aplicar-nos a esta questão com docilidade mais do que com sutileza, 
nem incutamos no espírito ou investigar a Deus em qualquer outra parte 
que em Sua Sagrada Palavra, ou a Seu respeito pensar qualquer cousa, a 
não ser que lhe vá à frente a Sua Palavra, ou falar que não o tomado dessa 
mesma Palavra. Ora, se a distinção que em uma só é única divindade 
subsiste de Pai, Filho e Espírito, posto que é difícil de apreender-se, causa 
a certos espíritos mais dificuldade e problema do que é justo, lembrar-se 
devem de que as mentes humanas penetram em um labirinto337 quando 
cedem à sua curiosidade e, destarte, por mais que não alcancem a altura 
do mistério, deixem-se reger dos oráculos celestes.338
337 Figura semelhante a Calvino empregou para falar a respeito da doutrina da Eleição. “[...] quando 
os homens quiserem fazer pesquisa sobre a predestinação, é preciso que se lembrem de entrar no 
santuário da sabedoria divina. Nesta questão, se a pessoa estiver cheia de si e se intrometer com excessiva 
autoconfiança e ousadia, jamais irá satisfazer a sua curiosidade. Entrará em um labirinto do qual nunca 
achará saída. Porque não é certo que as coisas que Deus quis manter ocultas e das quais Ele não concede 
pleno conhecimento sejam esquadrinhadas dessa forma pelos homens. Também não é certo sujeitar a 
sabedoria de Deus ao critério humano e pretender que este penetre a Sua infinidade eterna. Pois Ele quer 
que a Sua altíssima sabedoria seja mais adorada que compreendida (a fim de que seja admirada pelo que 
é). Os mistérios da vontade de Deus que Ele achou bom comunicar-nos, Ele nos testificou em Sua Palavra. 
Ora, Ele achou bom comunicar-nos tudo o que viu que era do nosso interesse e que nos seria proveitoso”. 
(As Institutas da Religião Cristã) “Aprendamos, pois, a evitar as inquirições concernentes a nosso Senhor, 
exceto até onde Ele nos revelou através da Escritura. Do contrário, entraremos em um labirinto do qual o 
escape não nos será fácil.” (Romanos). Consultar referência da nota.
338 Calvino combateu as especulações com veemência; em diversos lugares ele escreveu sobre o assunto. 
Como exemplo: “Porque são mui poucos entre a ingente multidão de homens que existe no mundo os 
que pretendem saber qual é o caminho para ir ao céu; porém todos desejam antes do tempo conhecer o 
que é que se faz nele.” (As Institutas, III.25.11; Veja-se. também I.5.9). “As cousas que o Senhor deixou 
recônditas em secreto não perscrutemos as que puseram a descoberto não negligenciemos, para que não 
sejamos condenados ou de excessiva curiosidade, de uma parte, ou de ingratidão, de outra.” (As Institutas, 
III.21.4). “Nem nos envergonhemos em até este ponto submeter o entendimento à sabedoria imensa de 
Deus, que em Seus muitos arcanos sucumba. Pois, dessas cousas que nem é dado, nem é lícito saber, douta 
é a ignorância, a avidez de conhecimento, uma espécie de loucura.” (As Institutas, III.23.8). Consultar 
referência da nota.
A DOUTRINA DA TRINDADE
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Santo Agostinho (354-430) conclui a sua monumental obra Da Trinitate – que se 
tornaria decisiva para toda formulação cristológica posterior – com uma humilde 
e reverente oração: “Senhor, único Deus, Deus Trindade, tudo o que disse de ti 
nestes livros, de ti vem. Reconheçam-no os teus, e se algo há de meu, perdoa-
-me e perdoem-me os teus. Amém”. (1994, p. 557).
A FORMULAÇÃO DOUTRINÁRIA: OS CREDOS DA 
IGREJA A BUSCA DE UMA COMPREENSÃO BÍBLICA
Kuyper (2010, p. 57) diz que: “Deus permitiu aos heréticos fustigarem sua Igreja 
exatamente para despertar a mente pelo conflito e para levá-la a buscar a Palavra 
de Deus.”. Já Santo Agostinho (1991, p. 143) diz que: “A ciência da definição, da 
divisão e da classificação, ainda que seja empregada muitas vezes para coisas fal-
sas, não é por si só falsa; nem foi instituída pelos homens, mas descoberta pela 
própria razão das coisas.”.
Definir, segundo o sentido etimológico339 é delimitar. A definição procura deter-
minar a compreensão da ideia,340 circunscrevendo a sua abrangência, indicando 
todos os seus elementos constitutivos. Como todo conceito possui um conteúdo, 
a definição nada mais é do que a determinação da natureza desse conteúdo.
Aristóteles (384-322 a.C.), compreendia a definição como consistindo “no 
gênero e nas diferenças; e se, por outro lado, não é um desses termos, evidente-
mente, será um acidente.” (1973, p. 17).
Do ponto de vista lógico, a ideia é igual a sua definição. A definição lógica 
consiste de fato em delimitar exatamente a compreensão de um objeto, ou, em 
outros termos, em dizer o que uma coisa é. Daí o princípio “A definição é a noção 
(ideia) desenvolvida e [...] a noção é a definição condensada”. 341 
339 As palavras gregas correspondentes são: o(/roj = “termo”, “limite” e o(rismo/j = “delimitação”, “acordo”, 
“tratado”. Consultar referência da nota.
340 É a “expansão do conceito essencial das coisas”. “Definição é uma oração que manifesta a natureza de 
uma coisa ou de um termo”. Consultar referência da nota.
341 Consultar referência da nota.
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A definição se propõe a nos fazer ver com maiorclareza o assunto do qual 
tratamos. A “indefinição” acarreta uma série de omissões e equívocos, justa-
mente, por não termos claro diante de nós o objeto do qual estamos tratando 
ou, em que sentido nos aproximou de cada ideia.
Condillac (1715-1780) assim expressou essa questão: “A necessidade de defi-
nir é apenas a necessidade de ver as coisas sobre as quais se quer raciocinar e, se 
fosse possível ver sem definir, as definições se tornariam inúteis”. (1973, p. 121). 342 
Como toda a Lógica, a definição respalda-se no Princípio de Contradição 
– “Nada pode simultaneamente ser e não ser”343 –, portanto, uma definição não 
pode ser contraditória com a própria essência do definido; antes, ela deve convir 
a todo o definido e somente a ele. Assim sendo, será possível substituir a defi-
nição pelo definido sem possibilidade de equívoco, caso contrário não haveria 
interesse na definição, tantas as confusões que ela provocaria.
A observação de Espinosa (1632-1677) nos orienta que “A verdadeira defini-
ção de cada coisa não envolve nem exprime senão a natureza da coisa definida.”344 
O princípio que deve nos nortear é que a definição deve primar pela essência, 
não pelos “acidentes” que normalmente são efêmeros e não indicam as qualida-
des intrínsecas do ser.345
Aristóteles (384-322 a.C.) está correto ao dizer “Uma definição é uma frase 
que significa a essência de uma coisa.”346 
O historiador Huizinga (1872-1945) apresenta-nos um bom princípio:
Uma boa definição deve ser concisa, ou seja, expor o conceito que se trata 
de definir com toda precisão e de um modo completo, no menor núme-
ro de palavras. A definição descreve o significado de uma determinada 
palavra, usada para designar um determinado fenômeno. Na definição 
deve ficar inscrito, incluído o fenômeno em sua totalidade. Permanecem-
-se fora dela partes essenciais do fenômeno, a definição não é boa. Por 
outro lado, uma definição não precisa entrar em detalhes. (1994, p. 87).
342 Consultar referência da nota.
343 Consultar referência da nota.
344 Consultar referência da nota.
345 Mesmo a “definição essencial” sendo a mais adequada, devemos ter em mente que de acordo com 
a abordagem que faremos de um assunto, o “essencial” pode não ser o mais importante; neste caso, 
propomos a “definição operacional” que seria aquela que nos daria os “elementos essenciais” para a nossa 
abordagem (operação), para o fim almejado. Consultar referência da nota.
346 Consultar referência da nota.
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Os Credos e Confissões foram necessários, como veremos, para apresentar as 
diretrizes teológicas da igreja conforme a sua compreensão bíblica.
ORIGEM E USO 
A palavra “Credo” é derivada do latim “credo”, que denota uma postura ativa 
de “eu creio”, uma confiança perene em Deus. Portanto, há na declaração cre-
dal um ato de adoração a Deus a quem damos crédito. Assim, os credos são 
antes de tudo uma confissão de gratidão à glória de Deus.347 No credo a Igreja 
declara a sua fé em Deus visto que somente Ele é absolutamente digno de crédi-
to.348 Curiosamente, em hebraico, confessar tem o sentido também de publicar, 
anunciar os feitos de Deus: Davi, por exemplo, usa a palavra em dois dos sal-
mos penitenciais:349 “Confesso (dg;n")(nagad) 350 a minha iniquidade; suporto 
tristeza por causa do meu pecado” (Sl 38.18). “Abre, Senhor, os meus lábios, e a 
minha boca manifestará (dg;n")(nagad) os teus louvores” (Sl 51.15). A confissão 
sincera é um ato de benevolência de Deus que inclina o nosso coração ao arre-
pendimento e à confissão. Quando, por graça, assim fazemos, rendemos graças 
a Deus pela sua justiça e por sua graça. “A ideia de ‘confissão’ era ambivalente, 
pois, ao reconhecer-se justo o julgamento, confessava-se o extravio e era dado a 
esta declaração um tom de louvor a Deus”.351
Ainda mais ilustrativas são duas outras palavras hebraicas tam-
bém traduzidas por confissão; ([dy) (yada`)352, “conhecer”, “pensar”, 
“reconhecer”, “discernir” e ([dy) (yadah)353, “confessar”, “dar graças”, “agradecer”.
347 Sugestivas observações de Thomas H. McDill no prefácio à obra: Paul T. Fuhrmann. Consultar 
referência da nota.
348 Consultar referência da nota.
349 Os Salmos classificados como Penitenciais são: 6, 32, 38, 51, 102, 130 e 143. Neles encontramos forte 
alento para o pecador perdoado. Consultar referência da nota.
350 O sentido básico é de “declarar”, “publicar”, “tornar conhecido”, “anunciar”, “manifestar” e “expor”. 
351 Consultar referência da nota.
352 Consultar referência da nota.
353 Consultar referência da nota.
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Ambas comportam vários significados literais e figurados. ([dy) (yadah) tem tam-
bém o sentido de “declarar”, “confirmar”, “homologar”. Isso independe do teor da 
declaração; podendo, portanto, ser uma confissão de fé ou de pecado354, envolvendo 
a ideia de reconhecimento, especialmente de louvor.355 Uma das ideias prepon-
derantes, é o de “confessar ou declarar a glória de Deus”356. É por isso que ([dy) 
(yadah) é traduzida muitas vezes por: a) Render graças: (Sl 7.17; 57.9; 107.1,8, 15, 
21,31; 118.19,21, 28, 29; 119.7); b) Dar graças (Sl 30.4,12; 35.18; 52.9; 106.47; Is 
12.1,4); c) Louvar (Sl 6.5; 9.1; 28.7; 30.9; 42.5,11; 43.4-5; 44.8; 45.17; 49.18; 54.6; 
67.3 (2 vezes); Is 25.1); d) Glorificar (Sl 18.49); e) Celebrar (Sl 33.2); f) Confessar 
(os pecados) (Lv 16.21; 1Rs 8.33,35; Ed 10.1; Ne 1.6; 9.2-3; Sl 32.5; Dn 9.4,20); 
g) Confessar (o nome de Deus) (2Cr 6.24,26). 
A Bíblia apresenta diversas confissões que consistem em expressões de 
fé, as quais eram ensinadas. Parece haver acordo entre os estudiosos no que 
diz respeito às evidências neotestamentárias referentes a um corpo doutriná-
rio específico, considerado como “depósito sagrado da parte de Deus”357. No 
Antigo Testamento, encontramos o “Shemá” 358 (“ouve”), o “credo judeu” 359, 
que consistia na leitura de Dt 6.4-9; 11.13-21; Nm 15.37-41 e, possivelmente, 
Dt 26.5-9.360 O “Shemá” era repetido três vezes ao dia361, sendo usado liturgi-
camente em Sinagoga362. No Novo Testamento deparamo-nos com abundante 
354 Consultar referência da nota.
355 Consultar referência da nota.
356 “Louvor é uma confissão ou afirmação de quem Deus é, do que faz.” (Alexander). “A ação de graças 
acompanha o louvor, pois quando alguém declara os atributos e obras de Deus, não pode deixar de 
ser agradecido por isso. O louvor conduz regularmente à ação de graças”. (Alexander). “No Antigo 
Testamento, a confissão frequentemente se reveste do caráter de louvor, quando o crente, agradecido, 
declara o que Deus fez pela redenção de Israel ou pela sua própria alma. [...] A confissão pode levar 
o crente a reconsagrar-se a Deus, a entoar-lhe hinos de louvor, a oferecer-lhe sacrifício de regozijo, e 
infunde no crente o desejo de falar aos outros sobre a misericórdia de Deus e de Identificar-se com os 
outros crentes na adoração ao Senhor”. (Torrance). Consultar referência da nota.
357 Consultar referência da nota.
358 É a primeira palavra que aparece em Dt 6.4, derivada do verbo (amf$) (Shãma’), “ouvir”, envolvendo 
normalmente a ideia de ouvir com afeição. Consultar referência da nota.
359 Consultar referência da nota.
360 Consultar referência da nota 
361 Quanto ao emprego desta oração feita pelos judeus individualmente. Consultar referência da nota.
362 Consultar referência da nota.
A DOUTRINA DA TRINDADE
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material que indica a existência de um corpo doutrinário fixo da igreja cristã. 
Temos referências às “tradições” (para/dosij) (2Ts 2.15), à “Doutrina dos após-
tolos” (At 2.42), à “palavrada vida” (Fp 2.16); à “forma (tu/pon = modelo) de 
doutrina” (Rm 6.17), à “Palavra” (Gl 6.6), à “Pregação” (Rm 16.25; 1 Co 1.21)363, 
à “fé evangélica” (Fp 1.27), à “fé” (Ef 4.5; Cl 2.6-7; 1Tm 6.20-21), às “sãs pala-
vras” (2Tm 1.13), ao “bom depósito” (2Tm 1.14/1Tm 6.20), à “sã doutrina” (2Tm 
4.3/1Tm 4.6; Tt 1.9), à “verdade” (Cl 1.5; 2Ts 2.13; 2Tm 2.18,25; 4.4), à “tradição 
(dos apóstolos)” (1Co 11.2;Cl 2.6; 1Ts 4.1; 2Ts 2.15), ao “Evangelho” (1Co 15.1; 
Gl 1.9), à “Confissão” (Hb 3.1; 4.14; 10.23), à “fé que uma vez por todas foi entre-
gue aos santos” (Jd 3/1Tm 1.19; Tt 1.13) e à “fé santíssima” (Jd 20).364
Outros textos parecem indicar as primeiras confissões da Igreja, tais como: 
“Jesus, o Cristo” (At 5.42); “Jesus Cristo é Senhor” (Fp 2.11/1 Co 12.3); “Senhor é 
Deus” (Jo 20.28); “Deus e Salvador Jesus Cristo” (At 2.13); “Senhor e Cristo” (At 
2.36); “Jesus Cristo Filho de Deus” (At 8.37; Mt 16.16; 1Jo 4.15), etc.365 Vejam-se 
também: Mt 28.19; 1Co 15.3-7; Fp 2.6-11; 1Co 11.23-27.
Os Credos em princípio não pretendem ser uma exposição exaustiva da fé, 
antes consistem em uma declaração de fé dos pontos considerados essenciais à 
existência da Igreja Cristã. Primitivamente, os Credos e Confissões eram empre-
gados principalmente da seguinte forma:
Doutrinariamente:
Serviam como ensino proposicional a respeito da fé cristã, ao mesmo tempo em 
que combatiam ênfases ou ensinamentos essencialmente errados366, resguardando, 
assim, a Igreja, de ensinamentos heréticos367 concedendo certa uniformidade de 
fé nos convertidos368. No segundo século, eles eram conhecidos como “regra de 
363 Consultar referência da nota.
364 Consultar referência da nota.
365 Consultar referência da nota.
366 Consultar referência da nota. 
367 Consultar referência da nota.
368 Consultar referência da nota.
A Formulação Doutrinária: os Credos da Igreja a Busca de uma Compreensão Bíblica
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fé”369.Os candidatos à Profissão de Fé estudavam a “doutrina” a fim de que pudes-
sem, na ocasião própria, declarar publicamente a sua fé de forma responsiva. 
Os Credos também tiveram outra utilidade: Devido o medo da persegui-
ção, ao invés deles serem escritos, eram memorizados370 e quando necessário, 
recitados como testemunho de sua fé. Dessa forma, os credos, assumiram papel 
fundamental na vida dos fiéis que têm a sua fé alimentada e fortalecida na decla-
ração da promessa na qual ele crê. Para tanto, a promessa é a mesma, a fé tem o 
mesmo fundamento, contudo, em situações diversas assumem contornos mais 
contundentes e relevantes.
369 Os “Pais da Igreja” e alguns Concílios usaram com certa frequência a expressão “cânon” que, via de 
regra visava distinguir os ensinamentos da Igreja cristã das heresias que surgiam. Abaixo, poderemos 
constatar, dentro da documentação disponível, alguns dos diversos e valiosos testemunhos dos Pais e 
Concílios da Igreja. Clemente (c. 30-100), bispo de Roma (91-100), por volta do ano 95 AD., deparou-se 
com uma grave dissensão na Igreja de Corinto, causada por alguns jovens que não estavam obedecendo 
aos presbíteros da Igreja. Clemente então, no mesmo ano, escreveu uma carta à Igreja, na qual ele os 
exorta à humildade e obediência, segundo o exemplo de Cristo, para que possam assim, chegar à unidade 
e paz. Estimulando a Igreja arrependida a uma caminhada segura em Cristo, diz: “Prossigamos para 
a gloriosa e venerável regra (kanw/n) de nossa tradição” (Clemente de Roma, Epístola aos Coríntios, 
I.7.2). Clemente de Alexandria (c. 150-c. 215), chamou a harmonia entre o Antigo e o Novo Testamento 
de “um cânon para a Igreja” (Clemente de Alexandria, The Stromata, VI.15. In: ANF., II, p. 506-511. 
(Veja-se também, VI.11; VII.16)). Ele também escreveu um livro contra os judaizantes, intitulado, 
“Cânon eclesiástico ou contra os judaizantes” (Eusebio de Cesarea, Historia Eclesiástica, VI.13.3. Irineu 
(c.120-202), chama o “credo batismal” – que deveria ser guardado sem nenhuma modificação no 
coração –, de “O cânon da verdade” (Irineu, Against Heresies, I.9.4. In: ANF., I, p. 330. Veja-se também, 
Against Heresies, I.10.1; III.4.1). Policarpo (c. 70-155), refere-se ao “Evangelho” como “cânon da fé” 
(Eusebio de Cesarea, Historia Eclesiástica, V.24.6). Entre os anos de 264 e 268, três Sínodos reuniram-
se sucessivamente em Antioquia, tendo como objetivo julgar a conduta e os ensinamentos de Paulo de 
Samosata, bispo de Antioquia desde 260. O último dos três sínodos (268) o condenou e o excomungou 
por “heterodoxia” (e(terodoci/an). A sua doutrina e conduta foram classificadas como sendo uma 
“apostasia do cânon” (“a)posta\j tou= kano/noj”) (Eusebio de Cesarea, Historia Eclesiástica, VII.30.6); ou 
seja, o abandono da fé ortodoxa. Como pudemos observar, o emprego da expressão “cânon” pelos Pais 
e Concílios da Igreja, tinha o sentido de um padrão aprendido e recebido como verdadeiro. Uma outra 
expressão usada e, pelo que deduzimos, tinha o mesmo significado, era: “regra de fé” (Cf. o uso feito por 
Tertuliano, Da Prescrição dos Hereges, 13. In: Cirilo Folch Gomes, (compilador). Antologia dos Santos 
Padres, 2. ed. (revista e ampliada), São Paulo: Paulinas, 1980. § 254, p. 162 e ANF., III, p. 249; Novaciano, 
Sobre a Trindade: In: Cirilo Folch Gomes, (compilador). Antologia dos Santos Padres, § 309, p. 201) e, 
“regra dos antigos” (Conforme uso de Basílio, Profissão de Fé: In: Cirilo Folch Gomes, (compilador). 
Antologia dos Santos Padres, § 365, p. 239). Em outras palavras, o “cânon eclesiástico” (kanw\n th=j e)
kklhsi/aj), quando não se referia aos Livros da Bíblia, significava a doutrina ortodoxa da Igreja, aquilo que 
a Igreja sustentava como verdade. (Para mais detalhes sobre este assunto, Veja-se: Hermisten M.P. Costa, 
A Inspiração e Inerência das Escrituras: Uma Perspectiva Reformada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 
1998). Consultar referência da nota.
370 Ambrósio de Milão (c. 334-397) escreveu: “Os santos apóstolos juntos fizeram um resumo da fé, a fim 
de que pudéssemos compreender brevemente o elenco de toda a nossa fé. A brevidade é necessária, para 
que ela seja sempre mantida na memória e na lembrança”. Consultar referência da nota.
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IIIU N I D A D E146
Liturgicamente:
a. Batismo: Os fiéis declaravam (no caso de serem adultos)371 responsiva-
mente a sua fé na ocasião do batismo372 (Veja em: At 8.37; Rm 10.9)373 e 
declaratoriamente374.
b. Santa Ceia: Na Eucaristia a Igreja declarava a sua fé por meio de hinos, 
orações e exclamações devocionais. (Veja em: 1Co 12.3; 16.22; Fp 2.5-11).
c. Culto: Ao que parece, a partir do quarto século, os credos passaram a ser 
usados nos cultos regulares, sendo recitados após a leitura das Escrituras.
Com o passar do tempo, os credos foram se tornando mais detalhados, isto por 
três motivos: 1) Devido à compreensão mais aprimorada das doutrinas bíblicas; 
2) Considerando o intenso crescimento da igreja (séc. III), instruir os neófitos 
para que esses não fossem facilmente conduzidos pelas heresias; 3) Devido à 
necessidade de, mediante o ensino cristão, combater as heresias375 que surgiam, 
marcadamente, relacionadas com a Pessoa de Cristo.376 Nesse contexto, são ela-
borados quatro Credos que são considerados os mais importantes dos cinco 
primeiros séculos que veremos no momento oportuno.
371 Consultar referência da nota.
372 Consultar referência da nota. 
373 Consultar referência da nota. 
374 Consultar referência da nota.
375 Consultar referência da nota. 
376 “A cristologia, como a maioria das doutrinas do Novo Testamento, foi retirada da bigorna da 
necessidade quando a igreja entrou em conflito com os ensinos errôneos”. Consultar referência da nota.
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Segue abaixo a transcrição do Credo Niceno (Primitivo) e do Credo Niceno-
-Constantinopolitano, como é usado hoje:
CREDO NICENO (325)
Cremos em um só DEUS, o Pai Todo Poderoso criador de todas as coisas vi-
síveis e invisíveis.
E em um só Senhor JESUS CRISTO, o Filho de Deus; gerado como o Unigêni-
to do Pai, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verda-
deiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial com o Pai, me-
diante o qual todas as coisas foram feitas, tanto as que estão no céu como 
as que estão na terra; o qual, por nós homens e por nossa salvação, desceu, 
encarnou-se e se fez homem e sofreu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu ao 
céu, e novamente virá para julgar os vivos e os mortos; 
E no ESPÍRITO SANTO. E quantos dizem “Houve tempo em que não era”; e 
“Antes de nascer, Ele não era”, ou que “Foi feito do que não existe”, bem como 
quantos alegam ser o Filho de Deus “de outra substância ou essência”, ou 
“feito”, ou “mutável”, ou “alternável”, a todos esses a Igreja católica e apostó-
lica anatematiza.
CREDO NICENO-CONSTANTINOPOLITANO (381)
Cremos em um só Deus, o Pai Todo Poderoso Criador [do céu e da terra], de 
todas as coisas, visíveis e invisíveis;
E em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho Unigênito de Deus, o gerado do Pai 
[antes de todos os séculos,] [Deus de Deus], Luz de Luz, Verdadeiro Deus 
de Verdadeiro Deus, gerado e não feito, da mesma substância que o Pai, 
por meio do qual todas as coisas vieram a ser; o qual, por nós, os homens, e 
pela nossa salvação desceu [dos céus] e se encarnou [do Espírito Santo e da 
Virgem Maria] e se fez homem [e foi por nós crucificado sob Pôncio Pilatos] 
e padeceu [e foi sepultado] e ressuscitou ao terceiro dia, [segundo as Escri-
turas,] e subiu aos céus [e está sentado à direita do Pai] e virá de novo, [com 
glória], a julgar vivos e mortos; [e do seu reino não haverá fim].
E no ESPÍRITO SANTO, o Senhor e Vivificador, o que procede do Pai e do 
Filho, o que juntamente com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, o que 
falou através dos profetas; e em uma só Igreja santa, católica e apostólica. 
Confessamos um só batismo para remissão dos pecados, esperamos a res-
surreição dos mortos e a vida do século vindouro. Amém.
Fonte: Textos litúrgicos dos Credos.
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IIIU N I D A D E148
FUNDAMENTOS BÍBLICOS DA DOUTRINA 
Onde o monoteísmo foi francamente reconhecido, isto é, no mundo 
cristão, ele ocupou de imediato uma posição central e se impôs como 
o princípio dos princípios. É a própria natureza dessa noção que exige 
isso, porque, se há um Deus, e só um, é sempre a Ele que se deve referir 
tudo o mais. (ÉTIENNE, 2006, p. 54).
Ainda que não encontremos no Antigo Testamento uma revelação completa da 
existência da Triunidade de Deus, não podemos menosprezar as evidências ali 
encontradas dessa verdade que, especialmente, olhadas à luz do Novo Testamento, 
adquirem maior eloquência e firmeza. Dentro da revelação progressiva de Deus, 
encontramos gradativamente o desvelar da ação trinitária de Deus. Os compo-
nentes revelados dentro do organismo da revelação conferem forte evidência da 
doutriana da Trindade. 377
NO ANTIGO TESTAMENTO 378 
Há Textos nos quais Deus fala de Si Mesmo no Plural 
Esses textos ainda que não sejam suficientes para “provar” a doutrina da Trindade, 
demonstram que Deus existe como um ser plural que não vive solitariamente. 379
 ■ Gênesis 1.26 – “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, con-
forme a nossa semelhança [...]”.380
 ■ Gênesis 3.22 - “Então, disse o SENHOR Deus: Eis que o homem se tor-
nou como um de nós [...]”. 
 ■ Gênesis 11.7 - “Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, 
para que um não entenda a linguagem de outro”.
 ■ Isaías 6.8 - “Depois disto, ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem envia-
rei, e quem há de ir por nós?”.
377 Consultar referência da nota. 
378 Neste tópico, segui de maneira bem próxima o esquema apresentado por Strong. Consultar a referência 
da nota.
379 Consultar referência da nota.
380 Consultar referência da nota.
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A Ênfase Tripla no nome ou Santidade de Deus
 ■ Números 6.24-26 - “24O SENHOR te abençoe e te guarde; 25 O SENHOR 
faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti; 26 O 
SENHOR sobre ti levante o rosto e te dê a paz.”.
 ■ Isaías 6.3 - “E clamavam uns aos outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o 
SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória”.
 ■ Isaías 33.22 - “Porque o SENHOR é o nosso juiz; o SENHOR é o nosso 
legislador; o SENHOR é o nosso Rei, ele nos salvará”.
 ■ Daniel 9.19 - “Ó Senhor, ouve; ó Senhor, perdoa; ó Senhor, atende-nos e 
age sem tardar; por amor de ti mesmo, ó Deus meu; porque a tua cidade 
e o teu povo são chamados pelo teu nome”.
O Nome Plural de Deus 
Alguns textos usam a forma plural para Deus (םיהלא) (‘ĕlôhîym). 
 ■ Gênesis 1.1 - “No princípio criou Deus (‘elohiym) os céus e a terra”.
 ■ Gênesis 20.13 - “Quando Deus (‘elohiym) me fez andar errante da casa de 
meu pai, eu disse a ela Este favor me farás em todo lugar em que entrar-
mos, dirás a meu respeito Ele é meu irmão”.
 ■ Gênesis 35.7 - “E edificou ali um altar e ao lugar chamou El-Betel; porque 
ali Deus (‘elohiym) se revelou quando fugia da presença de seu irmão”.
 ■ Isaías 54.5-6 - “5 Porque o teu Criador é o teu marido; o SENHOR (yehô-
vâh) dos Exércitos é o seu nome; e o Santo de Israel é o teu Redentor; ele é 
chamado o Deus (‘elohiym) de toda a terra. 6 Porque o SENHOR (yehô-
vâh) te chamou como a mulher desamparada e de espírito abatido; como 
a mulher da mocidade, que fora repudiada, diz o teu Deus (‘elohiym)”.
Deus faz uma distinção em Si mesmo
 ■ Gênesis 19.24 - “Então, fez o SENHOR chover enxofre e fogo, da parte 
do SENHOR, sobre Sodoma e Gomorra”.
 ■ Oséias 1.7 - “Porém da casa de Judá me compadecerei e os salvarei pelo 
SENHOR, seu Deus [...]”.
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IIIU N I D A D E150
Há Textos que falam de três Pessoas no Ser de Deus 
 ■ Isaías 48.16 - “Chegai-vos a mim e ouvi isto: Não falei em segredo desde 
o princípio; desde o tempo em que isso vem acontecendo, tenho estado lá. 
Agora, o SENHOR Deus me enviou a mim e o seu Espírito” – A impres-
são que se tem deste texto é da Segunda Pessoa da Trindade falando.
O Espírito de Deus é distinto de Deus 
 ■ Gênesis 1.1-2 - “No princípio, criou Deus os céus e a terra. 2A terra, 
porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e 
o Espírito de Deus pairava por sobre as águas”. 
 ■ Salmo 33.6 - “Os céus por sua (yehôvâh) palavra se fizeram, e, pelo sopro 
(ruah) de sua boca, o exército deles”.
 ■ Isaías 48.16 - “Chegai-vos a mim e ouvi isto: não falei em segredo desde 
o princípio; desde o tempo em que isso vem acontecendo, tenho estado 
lá. Agora, o SENHOR Deus me enviou a mim e o seu Espírito”.
 ■ Isaías 63.7-10 - “7Celebrarei as benignidades do SENHOR e os seus atos 
gloriosos, segundo tudo o que o SENHOR nos concedeu e segundo a 
grande bondade para com a casa de Israel, bondade que usou para com 
eles, segundo as suas misericórdias e segundo a multidão das suas benig-
nidades. 8 Porque ele dizia: Certamente, eles são meu povo, filhos que não 
mentirão; e assim ele se tornou o seu Salvador. 9 Em toda a angústia deles, 
ele foi angustiado, e o Anjo da sua presença os salvou; pelo seu amor e 
pela sua compaixão, ele os remiu; e os tomou e os conduziu todos os dias 
da antiguidade. 10 Mas eles foram rebeldes e contristaram o seu Espírito 
Santo, pelo que se lhes tornou em inimigo e ele mesmo pelejou contra eles”.■ Ageu 2.4-5 - “4Ora, pois, esforça-te, Zorobabel, diz o SENHOR, e esforça-
-te, Josué, filho de Jozadaque, sumo sacerdote, e esforça-te, todo o povo da 
terra, diz o SENHOR, e trabalhai; porque eu sou convosco, diz o SENHOR 
dos Exércitos. 5 Segundo a palavra da aliança que fiz convosco, quando 
saístes do Egito, o meu Espírito permanece no meio de vós; não temais.”
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Textos que se referem ao Anjo do Senhor
Gn 16.7-13. Nos versos 7, 9, 10 e 11, vemos a referência ao Anjo do Senhor 
(mal’âk) e, no verso 13, o Anjo é chamado Deus (yehôvâh). No texto de Gn 
18.1-19 encontramos no verso 2 referências a três homens; no verso 3 um deles 
é chamado de Senhor (‘ădônây) e Jeová (yehôvâh) no verso 13. No verso 25 Ele 
é chamado de juiz de toda terra e no 27 novamente é chamado de Senhor (‘ădô-
nây). No verso 14 o Anjo do Senhor fez uma distinção entre Si mesmo e Deus.
Quando esses homens partem para se encontrar com Ló, um deles perma-
neceu, indo apenas dois (Gn 18.22; 19.1). Em Êxodo 3.1-6, vemos a identificação 
do Anjo do Senhor como Deus “Vendo o SENHOR (yehovah) que ele se voltava 
para ver, Deus (‘elohiym), do meio da sarça, o chamou e disse: Moisés! Moisés! 
Ele respondeu: Eis-me aqui!” (Êx 3.4). Na sequência, o Anjo se identifica como 
o Deus de Abraão, Isaque e Jacó “Disse mais Eu sou o Deus (‘elohiym) de teu pai, 
o Deus (‘elohiym) de Abraão, o Deus (‘elohiym) de Isaque e o Deus (‘elohiym) de 
Jacó. Moisés escondeu o rosto, porque temeu olhar para Deus (‘elohiym)” (Êx 3.6).
Nesses e outros textos, podemos observar que o Anjo é identificado como 
Deus (Gn 22.11,16; 31.11,13); o Anjo é distinguido de Deus (Gn 16.9,13; 48.15,16) 
e, o Anjo aceita adoração devida somente a Deus (Êx 3.2; 4.5; Jz 13.20-22/Ap 
22.8-9). 381
Textos que Descrevem a Sabedoria e a Palavra Divina 
a. A Sabedoria é representada como distinta de Deus e coeterna com Ele 
Pv. 8.1/Mt 11.19; Lc 7.35; 11.49; Pv 8.22, 30, 31/ Pv 3.19; Hb 1, 2.
b. A Palavra de Deus é executiva de Sua vontade 
Sl 107.20; 119.89; 147.15-20; Is 55.10,11.
381 Consultar referência da nota.
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IIIU N I D A D E152
Textos que Descrevem o Messias 
a. É um com Jeová 
 ■ Isaías 9.6 - “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo 
está sobre os seus ombros; e o seu nome será Maravilhoso Conselheiro, 
Deus (לא) (‘êl) Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz”.
b. Ele é, em certo sentido, distinto de Jeová 
 ■ Salmo 45.6-7 - “O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; cetro de equi-
dade é o cetro do teu reino. 7Amas a justiça e odeias a iniquidade, por 
isso, Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria, como a nenhum 
dos teus companheiros”.
 ■ Malaquias 3.1 - “Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o 
caminho diante de mim; de repente, virá ao seu templo o Senhor, a quem 
vós buscais, o Anjo da Aliança, a quem vós desejais; eis que ele vem, diz 
o SENHOR dos Exércitos”. 
c. Ele é Filho de Jeová 
 ■ Salmo 2.7 - “Proclamarei o decreto do SENHOR Ele me disse Tu és meu 
Filho, eu, hoje, te gerei”.
 ■ Provérbios 30.4 - “Quem subiu ao céu e desceu? Quem encerrou os ventos 
nos seus punhos? Quem amarrou as águas na sua roupa? Quem estabele-
ceu todas as extremidades da terra? Qual é o seu nome, e qual é o nome 
de seu filho, se é que o sabes?”.
NO NOVO TESTAMENTO 
Nas páginas do Novo Testamento, a doutrina da Triunidade é apresentada de 
forma mais clara e completa, complementando aquilo que o Antigo Testamento 
apenas alude. O Novo Testamento esclarece e completa o que o Antigo já reve-
lara. A figura do eminente teólogo de Princeton, Warfield (1851-1921) é útil aqui: 
A Trindade e a Nossa Salvação 
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Podemos comparar o Velho Testamento com um salão ricamente mo-
bilado, mas muito mal iluminado; a introdução de luz nada lhe traz que 
nele não estivesse antes; mas apresenta mais, põe em relevo com maior 
nitidez muito do que mal se via anteriormente, ou mesmo não tivesse 
sido apercebido. O mistério da Trindade não é revelado no Velho Tes-
tamento; mas o mistério da Trindade está subentendido na revelação 
do Velho Testamento, e aqui e acolá é quase possível vê-lo. (1967, p. 
130-131).
De forma mais específica, podemos dizer que a salvação que era atribuída a Jeová 
no Antigo Testamento (Jó 19.25. Sl 9.14; 78.35; 106.21; Is 41.14; 43.3,11,14; 47.4), 
no Novo Testamento é atribuída ao Filho de Deus (Mt 1.21; Lc 1.76-79; 2.17; Jo 
4.42; At 5.3; Gl 3.13; 4.5; Fp 3.30).
No Antigo Testamento é Jeová quem mora no meio do Seu Povo e nos cora-
ções dos que o temem (Sl 74.2; 135.21; Is 8.18; 57.15; Ez 43.7-9; Jl 3.17,21; Zc 
2.10,11); no Novo Testamento é o Espírito quem habita na Igreja, tornando-a 
Seu templo (At 2.4; Rm 8.9,11; 1Co 3.16; 6.19; Gl 4.6). Além disso, há diversos 
textos que falam mais claramente das Pessoas da Trindade Mt 28.19; 1Co 12.4-
6; 2Co 13.13; Ef 4.4-6; 1Pe 1.1-2; Jd 20-22; Ap 1.4-5. 
A TRINDADE E A NOSSA SALVAÇÃO 
Para Palmer (2009, p. 14),
É uma grande bênção ter um Deus que não é uma Pessoa senão três. 
Constitui uma Trindade abundante. Porque não só um Pai que nos ama 
e cuida de nós, senão também um Cristo que trouxe salvação e inter-
cede por nós e um Espírito Santo que mora dentro de nós e aplica a 
salvação à nossa vida.
A DOUTRINA DA TRINDADE
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IIIU N I D A D E154
“É somente sob a direção do Espírito que tomamos posse de Cristo e de todos os 
seus benefícios” 382. O Espírito é chamado de “Espírito da Graça” (Hb 10.29/Zc 
12.10)383, porque é Ele quem aplica a graça de Deus aos pecadores eleitos, con-
duzindo-os progressivamente à conformação da imagem de Cristo. O Espírito 
é “comunicador da graça” 384. 
Esse ministério tem início, quando o Espírito nos leva a aceitar a mensa-
gem de perdão dos nossos pecados. O Espírito anuncia que chegou o tempo 
da salvação, o qual é caracterizado pelo perdão para todos aqueles que se arre-
pendem de seus pecados. Portanto, quando tratamos desse tópico, não estamos 
simplesmente especulando, antes, mostrando como esta doutrina (Trindade) 
está amparada nas Escrituras e como ela tem uma relação direta com a experi-
ência do cristão resultante da sua salvação em Cristo385. 
Sem as obras da Trindade, jamais seríamos salvos pela graça. A graça de 
Deus, que é personificada em Cristo, é apenas um lado das obras redentoras 
do Deus Triúno. Toda a Trindade está comprometida na salvação do Seu povo, 
tendo cada uma das Pessoas da Santíssima Trindade, conforme o Conselho tri-
nitário, um papel fundamental. 
A obra do Espírito é distinta da obra do Pai e do Filho, porém, não é inde-
pendente. A Trindade opera conjuntamente, tendo o mesmo propósito eterno 
a glória do próprio Deus por intermédio da salvação do Seu povo (Is 43.7/Ef 
1.6; 1Pe 2.9,10) 386. A Teologia Reformada, fiel aos ensinamentos das Escrituras, 
ensina esta verdade. Packer comentando esse ponto, disse:
Deus – O Jeová Triúno, Pai, Filho e Espírito Santo; três pessoas traba-
lhando em conjunto, em sabedoria, poder e amor soberanos, a fim de 
realizar a salvação de um povo escolhido. O Pai escolhendo, o Filho 
cumprindo a vontade do Pai de remir, o Espírito executando o propó-
sito do Pai e do Filho mediante a renovação do homem. (1986, p. 9) 387.
382 Consultar referência da nota.
383 Consultar referência da nota.
384 Consultar referência da nota.
385 Consultar referência da nota.
386 Consultar referência da nota.
387 Consultar referência da nota.
A Trindade e a Nossa Salvação 
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É precisamente isso que estamos dizendo, quando declaramos que a nossa sal-
vação é por Deus - O Deus Triúno - autor e o executor da nossa salvação; do 
princípio ao fim, a salvação é obra do Deus da graça. Paulo estimulando os fili-
penses, inspirado por Deus, fala de sua convicção inabalável “Estou plenamente 
certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia 
de Cristo Jesus” (Fp 1.6) 388. 
A Obra do Espírito torna efetivo em nós aquilo que Cristo realizou definitiva-
mente por nós. Podemos afirmar que sem as operações do Espírito, o Ministério 
Sacrificial de Cristo não teria valor objetivo para os homens, visto que os méri-
tos redentores e salvadores de Cristo não seriam comunicados aos pecadores389. 
Calvino (1509-1564) afirmou, corretamente, que é necessário que Cristo 
habite em nós para que compartilhe conosco o que recebeu do Pai. Ele conclui 
dizendo que “O Espírito Santo é o elo pelo qual Cristo nos vincula efetivamente a 
Si.” 390. Em outro lugar declara “Sabemos que nosso bem, nossa alegria e repouso 
é estar unido ao Filho de Deus” 391.
Cristo cumpriu perfeitamente as demandas da lei e adquiriu todas as bênçãos 
que envolvem a salvação. A Obra do Espírito consiste em aplicar os merecimen-
tos de Cristo aos pecadores, capacitando-os a receberem a Graça da salvação392. 
Somente através do Espírito “recebemos todos os bens e dons que nos são dados 
em Jesus Cristo”.393 É Ele quem derrama sobre nós, as bênçãos da graça, obtidas 
pela obra eficaz de Cristo. 
388 “A graça começa, continua e termina a obra da salvação no coração de uma pessoa.” (SPURGEON, 
1992, p. 45). “[...] Em sua inteireza a nossa salvação procede do Senhor. É sua realização. Ele mesmo 
apresenta Sua noiva a Si mesmo por que ninguém mais pode fazê-lo, ninguém mais é competente 
para fazê-lo. Somente Ele pode fazê-lo. Ele fez tudo por nós, do princípio ao fim, e concluirá a obra 
apresentando-nos a Si mesmo com toda esta glória aqui descrita.” (LLOYD-JONES, 1991, p. 137). Do 
mesmo modo acentua Murray (1993, p. 98): “A salvação é do Senhor, tanto em sua aplicação como em sua 
concepção e realização”. Consultar referência da nota.
389 A aplicação da redenção pelo Espírito Santo não pode, em nenhum sentido, ser transformada na 
aquisição da redenção, pois, embora o Espírito Santo receb a todas as coisas de Cristo, a aplicação nesse 
campo de operação é tão necessária e tão importante quanto à aquisição. (...) E, a esse respeito, a aquisição 
e a aplicação estão tão fortemente ligadas que a primeira não pode ser concebida nem existir sem a 
segunda e vice-versa”. (BAVINCK, 2012, p. 221). Consultar referência da nota.
390 Consultar referência da nota. 
391 Consultar referência da nota. 
392 “De fato a graça reina, mas uma graça reinante à parte da justiça não é apenas inverossímil, mas 
também inconcebível”. (MURRAY, ANO, p. 19). Consultar referência da nota.
393 Consultar referência da nota. 
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Dessa forma, podemos dizer que o Ministério soteriológico do Espírito se 
baseia nos feitos de Cristo e, que o Ministério Sacrificial de Cristo reclama a 
ação do Espírito (Jo 7.39/Jo 14.26; 16.13-14). Segundo Hodge (2001, p. 390), “A 
obra do Espírito na aplicação da redenção de Cristo é descrita como tão essen-
cial quanto à própria redenção”. 
Já Bruner diz que (2012, p. 179) “A condição prévia indispensável para a 
outorga do Espírito é a obra de Cristo”. A Palavra nos ensina que o Espírito Santo 
é o Espírito de Cristo (Gl 4.6; Fp 1.19), por isso, a presença do Espírito em nós, 
é a presença do Filho (Rm 8.9). Quando evangelizamos o fazemos confiantes de 
que Deus, pelo Espírito, aplicará os méritos de Cristo no coração do Seu povo. 
Portanto, aqui, está a nossa responsabilidade e o nosso conforto, conforme bem 
observou Graham (1982, p. 30):
O Espírito Santo é o grande comunicador do Evangelho, usando como 
instrumento pessoas comuns como nós. Mas é dele a obra. Assim, 
quando o Evangelho é fielmente proclamado, o Espírito Santo é quem 
o envia como dardo flamejante aos corações dos que foram prepara-
dos. 394
Portanto, desprezar esta doutrina bíblica equivaleria a perder o significado do 
Evangelho, sustentando uma fé indefinida e, por isso mesmo, superficial, não 
condizente com a plenitude da revelação bíblica.
Lembremo-nos “Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não 
permanece, não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem assim o Pai, 
como o Filho” (2Jo 9).
394 A consciência de que os “resultados” da Evangelização dependem do Deus soberano, traz como 
implicação a nossa ousada confiança em Deus, não em nossos métodos. (GRAHAM, 1982). Packer 
analisou bem este ponto, fazendo aplicações complementares: “Se esquecermos que a prerrogativa 
de Deus é produzir resultados quando o evangelho é pregado, acabaremos pensando que é nossa 
responsabilidade assegurá-los. E, se nos esquecermos de que somente Deus pode infundir fé, acabaremos 
pensando que a conversão, em última análise, depende não de Deus, mas de nós, e que o fator decisivo é 
a maneira como evangelizamos. E essa linha de pensamento, coerentemente seguida, nos fará desviar em 
muito.” (PACKER, 1990, p. 22). Consultar referência da nota.
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A TRINDADE E AS NOSSAS ORAÇÕES 
Segundo Calvino (2001, p.288), “Quando o Espírito nos testifica que somos filhos 
de Deus, ele, ao mesmo tempo, imprime esta confiança em nossos corações, para 
que ousemos invocar a Deus como nosso Pai”. O Espírito é quem nos ensina a 
orar como convém, ou seja, orar segundo a vontade de Deus. A oração é educa-
tiva, pois nos desafia a confiar nas promessas de Deus registradas na Sua Palavra 
e, assim, na medida em que confiamos, podemos amadurecer a nossa fé através 
do aprendizado experiencial, de que Deus cumpre fielmente as Suas promessas. 
Ainda Calvino diz que “Com a oração encontramos e desenterramos os 
tesouros que se mostram e descobrem à nossa fé pelo Evangelho”. Portanto, esse 
tesouro não pode ser negligenciado como se enterrado e oculto no solo. “Agora, 
quanto é necessário, e de quantas maneiras o exercício da oração é útil para nós, 
não se pode explicar satisfatoriamente com palavras”. 
Outro ponto relevante, é que a oração do Espírito é sempre por intermédio 
de Cristo, isso significa que quando oramos, o fazemos por iniciativa do Espírito, 
por meio de Cristo, no nome de Cristo, portanto, fazer tal oração significa har-
monizar a nossa vontade com a do Filho.
Para Pink (1977, p. 134) diz que ao
solicitar algo a Deus, em nome de Cristo, quer dizer solicitar-lhe algo 
em harmonia com a natureza de Cristo! Pedir algo em nome de Cristo, 
a Deus Pai, é como se o próprio Cristo estivesse formulando a petição. 
Só podemos pedir a Deus aquilo que Cristo pediria. Pedir em nome de 
Cristo, pois, significa deixar de lado nossa vontade própria, aceitando 
a vontade do Senhor!
O Espírito nos dirige para que não usemos o nome do Filho em vão porque 
somente Ele pode nos mostrar qual é a vontade de Deus e nos capacitar a acei-
tá-la com fé. Quando oramos no Espírito estamos confessando a nossa pequenez 
e, ao mesmo tempo, testemunhando a nossa fé na soberania de Deus.
“O Espírito constrói uma determinada atmosfera em torno de toda a oração 
autêntica, e dentro desse círculo próprio é que a oração vive e triunfa; fora dele, 
a oração é apenas uma formalidade morta”, comentou Spurgeon. (1987, p. 85).
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Agostinho (354-430), comentando o Salmo 102.2 – quando o salmista diz 
“... inclina-me os teusouvidos; no dia em que eu clamar; dá-te pressa em acudir-
-me” –, faz uma paráfrase “Escuta-me prontamente, pois peço aquilo que queres 
dar. Não peço como um homem terreno bens terrenos, mas já redimido do pri-
meiro cativeiro, desejo o reino dos céus”. (1998, p.12).
Paulo, discorrendo sobre a fraqueza humana, exemplifica na vida cristã no 
fato de nem ao menos sabermos orar como convém (Rm 8.26-27). Por isso, o 
Espírito que em nós habita nos auxilia em nossas orações, fazendo-nos pedir o 
que convém, capacitando-nos a rogar de acordo com a vontade de Deus. A ora-
ção eficaz é aquela que tem o Espírito como seu autor. Sem o auxílio do Espírito, 
jamais oraremos com discernimento. 
Calvino (1509-1564), analisando o fato de que pedimos tantas coisas erradas 
a Deus e que, se Ele nos concedesse o que solicitamos, traria muitos males sobre 
nós395, enfatiza “Não podemos nem sequer abrir a boca diante de Deus sem grande 
perigo para nós, a não ser que o Espírito Santo nos guie à forma devida de orar” 396.
 A oração genuína é sempre precedida do senso de necessidade e de uma fé 
autêntica nas promessas de Deus. Graças a Deus porque todos nós, em Cristo, 
temos o Espírito de oração (Zc 12.10), porque sem Ele jamais poderíamos orar 
de modo aceitável ao Pai. “A própria oração é uma forma de adoração”, segundo 
Sproul (1997, p. 187).
Por outro lado, o auxílio do Espírito não deve servir de pretexto para a nossa 
indolência e irresponsabilidade espiritual. Interpreta Calvino (As Institutas, III.1.1),
Aqui não se diz que, lançando o ofício da oração sobre o Espírito de 
Deus, podemos adormecer negligentes ou displicentes, como alguns se 
acostumaram a blasfemar, dizendo Devemos ficar à espera, sem nenhu-
ma preocupação, até que o Espírito chame a atenção da nossa mente, 
até então ocupada e distraída com outras coisas. Muito ao contrário, 
aqui somos induzidos a desejar e a implorar tal auxílio, com aversão e 
desgosto por nossa preguiça e displicência.397
395 Claraval (1090-1153), disse: “Não permitam que eu tenha tamanha miséria, pois dar a mim o que 
desejo, dar a mim o que meu coração almeja, é um dos mais terríveis julgamentos do mundo.” Consultar 
referência da nota.
396 Comentando o texto de Romanos 8.26, Calvino diz: “O Espírito, portanto, é Quem deve prescrever a 
forma de nossas orações”. (Calvino, 1997, p. 291). Consultar referência da nota.
397 Consultar referência da nota.
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E ainda nos exorta dizendo: “Quando nos sentirmos frios, e indispostos para 
orar, supliquemos logo ao Senhor que nos inflame com o fogo de seu Espírito, 
pelo qual sejamos dispostos e suficientes para orar como convém”398. Muitas 
vezes, estamos tão confusos diante das opções que temos, que não sabemos nem 
mesmo como apresentar os nossos desejos e as nossas dúvidas diante de Deus. 
Todavia o Espírito nos socorre. Ele “ora a nosso favor quando nós mesmos deve-
ríamos ter orado, porém não sabíamos para que orar”399.
Comentando o Salmo 91.12, diz que: “Nunca podemos aquilatar os sérios 
obstáculos que Satanás poria contra nossas orações não nos sustentasse Deus 
da maneira aqui descrita”400. Ele ilustra a sua tese:
Chamo tentação espiritual quando não somente somos açoitados e afli-
gidos em nossos corpos; senão quando o diabo opera de tal modo em 
nossos pensamentos que Deus se nos convertem em inimigo mortal, 
ao que já não podemos ter acesso, convencidos de que nunca mais terá 
misericórdia de nós. (CALVINO, J. As Institutas, III.1.1)401 
Precisamos, portanto, “Que o mesmo Deus nos ensine, conforme ao que Ele 
sabe que convém, e que Ele nos leve guiando como que pela mão, e que nós 
o sigamos. 402” (CALVINO, J. As Institutas, III.1.1). Orar como convém é orar 
segundo a vontade de Deus, colocando os nossos desejos em harmonia com o 
santo propósito de Deus403; isto só é possível pelo Espírito de Deus que se conhece 
perfeitamente (1Co 2.10-12)404. Assim, toda oração genuína é sob a orientação 
e direção do Espírito (Ef 6.18; Jd 20). 
398 Consultar referência da nota. 
399 Consultar referência da nota.
400 Consultar referência da nota. 
401 Sermon nº 1: El Carácter de Job. (CALVINO, 1988, p. 28). Consultar referência da nota.
402 Consultar referência da nota.
403 A oração não é um recurso conveniente para impormos a nossa vontade a Deus, ou para dobrar a 
Sua vontade à nossa, mas, sim, o meio prescrito de subordinar a nossa vontade a de Deus. É pela oração 
que buscamos a vontade de Deus, abraçamo-a e nos alinhamos com ela. Toda oração verdadeira é uma 
variação do tema, ‘Faça-se a tua vontade’.” (Stott,1982, p. 159). Consultar referência da nota. 
404 Leenhardt comenta: “Para orar ‘como convém’ é preciso orar ‘segundo a vontade de Deus’; isto, 
entretanto, não pode advir senão de Deus, Que só Se conhece. O mais é ação estéril.” (1969, p. 226). 
Consultar referência da nota.
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O Catecismo Maior de Westminster diz que:
Não sabendo nós o que havemos de pedir, como convém, o Espírito nos 
assiste em nossa fraqueza, habilitando-nos a saber por quem, pelo quê, 
e como devemos orar; operando e despertando em nossos corações 
(embora não em todas as pessoas, nem em todos os tempos, na mesma 
medida) aquelas apreensões, afetos e graças que são necessários para o 
bom cumprimento do dever. 405 
O Espírito ora conosco e por nós. Ele, juntamente com Cristo, em esferas dife-
rentes, intercede por nós, como contrasta Kuyper (1837-1920)406:
Cristo intercede por nós no céu, e o Espírito Santo na terra. Cristo 
nosso Santo Cabeça, estando ausente de nós, intercede fora de nós; o 
Espírito Santo nosso Consolador intercede em nosso próprio coração 
quando Ele o santifica como Seu templo. (1995, p. 670) 
A intercessão de Cristo respalda-se nos seus merecimentos, obtendo para os Seus 
eleitos, os frutos da Sua Obra expiatória (Rm 8.34; Hb 7.25; 1Jo 2.1). O Espírito 
intercede por nós considerando as nossas necessidades vitais e costumeiramente 
imperceptíveis aos nossos próprios olhos.
Calvino (1509-1564) observou que na oração, “a língua nem sempre é neces-
sária, mas a oração verdadeira não pode carecer de inteligência e de afeto de 
ânimo”407, a saber, 
“O primeiro, que sintamos nossa pobreza e miséria, e que este senti-
mento gere dor e angústia em nossos ânimos. O segundo, que esteja-
mos inflamados com um veemente e verdadeiro desejo de alcançar mi-
sericórdia de Deus, e que este desejo acenda em nós o ardor de orar.” 408 
Spener (1996, p.119), falando sobre a oração, segue uma linha semelhante “Não é 
suficiente que se ore exteriormente, com a boca, pois a oração verdadeira e mais 
necessária acontece no nosso ser interior, podendo expressar-se em palavras ou 
permanecer na alma, mas, de qualquer maneira, lá acha e encontra Deus.” 409
405 Consultar referência da nota.
406 Consultar referência da nota.
407 Para uma interpretação alternativa do texto de Romanos 8.26-27, consulte Grudem (1999, p. 916) que 
associa a passagem a “suspiros e gemidos inarticulados que nós mesmos emitimos em oração, que então o 
Espírito Santo transforma em intercessão efetiva diante do trono divino”. Consultar referência da nota.
408 Consultar referência da nota.
409 Consultar referência da nota. 
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O Espírito, que procede do Pai e do Filho, é quem nos guia em nossas ora-
ções, fazendo-nos orar corretamente ao Pai. De fato, Deus propiciou para nós 
todos os elementos fundamentais para a nossa santificação (2Pe 1.3); a ação do 
Espírito aponta nesta direção, indicando também, que as nossas orações são 
“imperfeitas, imaturase insuficientes”, por isso Ele nos auxilia, ensinando-nos 
a orar como convém. 
Paulo fala que nós, os crentes em Cristo, recebemos o Espírito de ousada 
confiança em Deus, que nos leva, na certeza de nossa filiação divina, a clamar 
”Aba, Pai”. ”Porque não recebestes o espírito de escravidão para viverdes outra 
vez atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual cla-
mamos Aba, Pai” (Rm 8.15). O fato de Paulo usar a mesma expressão de Cristo 
para nós significa que, quando Jesus deu a Oração Dominical aos Seus discí-
pulos, também lhes deu autoridade para segui-lo em se dirigirem a Deus como 
‘abbã’, dando-lhes, assim, uma participação na sua condição de Filho. Somente 
pelo Espírito, poderemos nos dirigir a Deus dessa forma, como uma criança que 
se lança sem reservas nos braços do seu Pai amoroso. 
Quando oramos, sabemos que estamos falando com o nosso Pai. Dessa 
forma, a oração é uma prerrogativa dos que estão em Cristo. Somente os que 
estão em Cristo pela fé têm a Deus como o seu legítimo Pai (Jo 1.12; Rm 8.14-
17; Gl. 4.6; 1Jo 3.1-2). De onde se segue que esta oração Pai Nosso, apesar de 
não mencionar explicitamente o nome de Cristo, é feita no seu nome, visto que 
somos filhos de Deus – e é nessa condição que nos dirigimos a Deus – através 
de Cristo Jesus (Gl 3.26).
Portanto, quando oramos o Pai Nosso, sinceramente, na realidade estamos 
orando no nome de Jesus Cristo, pois, foi Ele mesmo quem nos ensinou a fazê-lo. 
Assim, devemos, pelo Espírito – nosso intercessor –, no nome de Jesus – nosso 
Mediador –, orar “Pai nosso que estás no céu [...]”. O Espírito que em nós habita 
e nos leva à oração testemunha em nós que somos filhos de Deus. “O próprio 
Espírito testifica (summarture/w) com o nosso espírito que somos filhos de 
Deus” (Rm 8.16); O Pai Nosso é a “Oração dos Filhos” 410.
410 Conforme expressão de Lloyd-Jones (1984, p. 358). A relação feita por Calvino entre a oração e a 
convicção de nossa filiação divina. (CALVINO, s/d, p. 279-280) 
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Orar ao Pai não significa simplesmente usar o seu nome, mas, sim, diri-
gir-nos de fato a Ele conforme os seus preceitos, em submissão à sua vontade. 
Uma oração francamente oposta aos ensinamentos de Jesus não pode ser con-
siderada de fato uma oração dirigida ao Pai, por mais que usemos e repitamos 
o nome de Jesus.
O problema, dentro do contexto vivido por Jesus, é que muitos dos judeus, 
na realidade, ofereciam as suas orações aos homens, mesmo usando o nome de 
Deus. Usar o nome de Deus não é garantia de estarmos nos dirigindo a Ele. Do 
mesmo modo, podemos estar tão preocupados com a forma de nossas orações 
que nos esquecemos do Pai. É a Ele que a nossa oração é destinada, portanto, 
cabe a Ele, que vê em secreto, julgá-la. A nossa oração não necessita ter publi-
cidade para que Deus a ouça. Ele vê em secreto e nos recompensa conforme o 
que vê. (Mt 6.6).
No Antigo Testamento, por intermédio de Isaías, Deus recrimina os judeus 
dizendo que eles sacrificavam simplesmente porque gostavam de fazê-lo, não por-
que quisessem agradá-lo. O ritual é que era prazeroso, não a satisfação de Deus:
Como estes escolheram os seus próprios caminhos, e a sua alma se de-
leita nas suas abominações, assim eu lhes escolherei o infortúnio e farei 
vir sobre eles o que eles temem; porque clamei e ninguém respondeu, 
falei, e não escutaram; mas fizeram o que era mau perante mim, e esco-
lheram aquilo em que eu não tinha prazer. (Is 66.3-4).
Bonhoeffer (1906-1945) comenta,
Uma criança aprende a falar porque seu pai fala com ela. Ela aprende 
a falar a língua paterna. Assim também nós aprendemos a falar com 
Deus, porque Deus falou e fala conosco. Pela palavra do Pai no céu seus 
filhos aprendem a comunicar-se com Ele. Ao repetir as próprias pala-
vras de Deus, começamos a orar a Ele. Não oramos com a linguagem 
errada e confusa de nosso coração, mas pela palavra clara e pura que 
Deus falou a nós por meio de Jesus Cristo, devemos falar com Deus, e 
Ele nos ouvirá. (1995, p. 12-13)411.
411 Consultar referência da nota.
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“Orar é exercitar a nossa confiança no Deus da Providência, sabendo que nada 
nos faltará, porque Ele é o nosso Pai” 412. A oração tem sempre uma conotação 
de submissão confiante. Portanto, orar ao Pai, significa sintonizar a nossa von-
tade com a dele; sabendo que Ele é santo e a sua vontade também o é (Mt 6.9,10).
A presença e direção do Espírito na vida do povo de Deus é uma realidade. 
Desconsiderar esse fato significa desprezar o registro bíblico e o testemunho do 
Espírito em nós (Rm 8.16). “A vida cristã é companheirismo com o Pai e com o 
Filho, Jesus Cristo, por meio do Espírito Santo” 413. O Espírito em nós é uma fonte 
de consolo e estímulo à perseverança e obediência devida a Deus. Consideremos 
esse fato – à luz da Palavra e da nossa experiência – em todos os nossos cami-
nhos, e o Espírito mesmo nos iluminará. 
412 Consultar referência da nota.
413 Consultar referência da nota. 
“A comunidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo significa o protótipo da 
comunidade humana sonhada pelos que querem melhorar a sociedade e 
assim construí-la para que seja à imagem e semelhança da Trindade”.
Fonte: Boff (1999, p.17).
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na terceira unidade tratou-se a respeito da doutrina cristã da Trindade e do con-
ceito de Credo, que denota uma postura ativa de uma confiança perene em Deus. 
Os Credos e Confissões foram necessários para apresentar as diretrizes teoló-
gicas da igreja conforme a sua compreensão bíblica. Estudamos que a Trindade 
opera conjuntamente, tendo o mesmo propósito eterno a glória do próprio Deus 
por intermédio da salvação do seu povo.
Portanto, desprezar essa doutrina bíblica equivaleria a perder o significado 
do Evangelho, sustentando uma fé indefinida e, por isso, mesmo superficial, não 
condizente com a plenitude da revelação bíblica. Compreendemos que nas pági-
nas do Novo Testamento a doutrina da Triunidade é apresentada de forma mais 
clara e completa, ampliando aquilo ao que o Antigo Testamento apenas alude. 
Nessa unidade de estudo, propusemos um aprofundamento nesse conceito 
da triunidade divina, observando que o Espírito de Deus é distinto de Deus de 
forma progressiva a construção dessa formulação teológica e doutrinária no 
decorrer da história da igreja cristã.
165 
1. Como analisar a sociedade e agir nela a partir da dimensão trinitária da fé 
eclesial?
2. Como relacionar com a Trindade o impulso comunitário na sociedade e na 
Igreja?
3. Como pensar a Trindade como mistério de inclusão?
PRINCIPAIS CREDOS DA IGREJA
A. Credo Apostólico
O credo dos apóstolos tem a sua origem no credo Romano Antigo, elaborando no se-
gundo século, tendo algumas declarações doutrinárias acrescentadas no decorrer dos 
primeiros séculos, chegando à sua forma como temos hoje, por volta do sétimo. Paul 
Tillich (1886-1965), comentando a primeira declaração de fé deste credo – “Creio em 
Deus pai todo-poderoso criador do céu e da terra” -, diz que “deveríamos pronunciar es-
sas palavras com grande reverência porque por meio dessa confissão, o cristianismo se 
separou da interpretação dualista da realidade presente no paganismo [...]. O primeiro 
artigo do credo é a grande muralha que o cristianismo ergueu contra o paganismo. Sem 
essa separação, a cristologia teria inevitavelmente se deteriorado em um tipo de gnos-
ticismo no qual o Cristo não seria mais do que um dos poderes cósmicos entre outros, 
embora, talvez, o maior deles”.
O Credo Apostólico era usado na preparação dos catecúmenos, professado durante o ba-
tismo,servindo também para a devoção privada dos cristãos. Posteriormente, passou a ser 
recitado com a Oração do Senhor no culto público. No nono século, ele foi sancionado pelo 
Imperador Carlos Magno para uso na Igreja e, o papa o incorporou à liturgia Romana. 
A Reforma valorizou esse Credo, sendo ele usado liturgicamente em muitas de nossas 
igrejas ainda na atualidade. A analogia feita por P. Schaff (1819-1893) parece resumir 
bem o significado desse Credo “Como a Oração do Senhor é a Oração das orações, o 
Decálogo a Lei das leis, também o Credo dos Apóstolos é o Credo dos credos”.
B. Credo Niceno-Constantinopolitano
O Credo Niceno primitivo foi elaborado no Primeiro Concílio Ecumênico de Nicéia 
(20/05/325), na Bitínia, no ano 325. Esse Concílio teve uma representação significativa 
(especialmente das igrejas do Oriente) 300 ou 318 bispos; cerca de 1/6 de todos os bis-
pos (estima-se a existência de 1800 bispos em toda a Igreja). O Concílio foi convocado 
e subvencionado pelo Imperador Constantino – quem presidiu a sessão inaugural, fa-
zendo um discurso sobre o perigo da dissensão dentro da Igreja, tendo também, ampla 
participação no decorrer do Concílio – visando tratar da questão Ariana que prejudicava 
a união da Igreja e, consequentemente, do Império. 
O Concílio, depois de amplo debate, declarou a igualdade essencial entre o Pai e o Filho. 
Os ensinamentos de Ário foram condenados e ele, foi deportado para o Ilírico. Posterior-
mente, o Concílio de Constantinopla (381), convocado pelo Imperador Teodósio I, – sendo 
presidido, inicialmente, por Melécio de Antioquia (310-381) –, constituído tradicionalmen-
te por 150 bispos, ampliou o Credo Niceno, daí o nome de Credo Niceno-Constantinopoli-
tano. Esse Credo “ampliado” foi lido e aprovado no Concílio de Calcedônia (451).
167 
C. O Credo de Calcedônia 
O Quarto Concílio Ecumênico foi realizado em Calcedônia, perto de Constantinopla 
(atual Istambul). Reunido de 8 a 31 de outubro de 451, contou com a presença de mais 
de 500 bispos e vários delegados papais, que como de costume o representavam. Nessa 
reunião, a já aludida “Carta Dogmática” ou “Tomo” redigida pelo bispo Leão I, o “Grande” 
de Roma (13/06/449), foi decisiva na elaboração de seu Credo.
Como vimos, Calcedônia ratificou o Credo de Nicéia (325) e o de Constantinopla (381). 
O seu objetivo era estabelecer uma unidade teológica na Igreja. A sua declaração teo-
lógica foi rascunhada em 22 de outubro, por uma comissão presidida por Anatólio de 
Constantinopla († 458), encontrando a sua redação final, possivelmente na 5ª Sessão, 
na quinta-feira, de 25 de outubro. Calcedônia rejeitou o Nestorianismo (duas pessoas e 
duas naturezas) e o Eutiquianismo (uma pessoa e uma natureza), afirmando que Jesus 
Cristo é uma Pessoa, sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem (uma pessoa e duas 
naturezas). “[...] Calcedônia pronunciou-se não só contra a separação como contra a fu-
são” das duas naturezas de Cristo. Todavia, a noção de mistério esteve presente nessa 
confissão, por isso, ela não tentou explicar o que as Escrituras não esclareciam.
Como já escrevemos em outro lugar, “Um decreto ou uma declaração teológica, por 
mais relevantes que sejam, não põe fim, imediatamente, a um sistema; a ortodoxia, por 
sua vez, não é criada através de pronunciamentos oficiais, embora saibamos que todos 
eles sejam necessários e relevantes para nortear a Igreja. Com isso, estamos apenas que-
rendo indicar que, do mesmo modo que Nicéia não colocou um ponto final na questão 
Trinitária, Calcedônia, não determinou o fim dos problemas Cristológicos. 
Como já indicamos, as heresias permaneceram em diversas regiões, especialmente na Igreja 
Oriental. Contudo, Calcedônia se constitui em um marco decisório na vida da Igreja, esta-
belecendo uma compreensão Cristológica que, se não é a final, é a que pôde ser alcançada, 
pelo Espírito, dentro da revelação. No entanto, a Palavra é a fonte de toda a genuína teologia, 
portanto, Calcedônia estabeleceu balizas, e graças a Deus por isso, devemos permanecer 
sempre atentos à Palavra de Deus, à luz da qual nós e a nossa teologia seremos julgados.
Hendriksen está essencialmente correto ao declarar “A relação entre as duas naturezas 
sempre permanecerá sendo um mistério muito além de nossa compreensão, mas, pro-
vavelmente nunca seja encontrada uma formulação melhor do que a que é encontrada 
no Símbolo de Calcedônia”.
D. Credo Atanasiano 
Também conhecido como “Symbolum Quicunque”, porque esta é a sua primeira palavra 
em latim “Quicunque vult salvus esse” (“Todo aquele que quiser ser salvo...”). Esse Credo 
que reflete a teologia dos quatro primeiros sínodos ecumênicos tem sentenças breves 
que são “artisticamente arranjadas e ritmicamente expressadas. Ele é um credo musical 
ou salmo dogmático.”
Segundo a tradição, ele teria sido escrito por Atanásio (295-373), Bispo de Alexandria 
(328-373), conhecido como “Pai da Ortodoxia”. Segundo a mesma tradição, Atanásio o 
elaborara durante o seu exílio em Roma, tendo-o oferecido ao papa Julius como sua 
confissão de fé. Todavia, essa tradição tem sido rejeitada por muitos estudiosos desde o 
século XVII, quando o holandês Gerhard Jan Vossius (1577-1649), apresentou em 1642, 
as suas conclusões que contrariavam a referida crença, o mesmo fazendo James Usher 
(1581-1656), em 1647. 
A teoria mais aceita hoje é a de que esse Credo foi escrito por volta do ano 500, no 
sul da Gália ou África do Norte ou, até mesmo em dois lugares e momentos diferentes. 
Apesar de várias hipóteses quanto à sua autoria (Ambrósio, Hilário de Arles, Virgílio de 
Tapsus, Vicente de Lérins, Paulinus de Aquileja, entre outros), ninguém conseguiu provar 
de modo incontestável a identidade do seu autor. A ênfase desse Credo é a defesa da 
Cristologia e da doutrina da Trindade conforme foram definidas nos Concílios de Ni-
céia (325), Constantinopla (381) e Calcedônia (451), refletindo visivelmente a teologia 
de Agostinho (354-430).
Fonte: o autor.
Material Complementar
MATERIAL COMPLEMENTAR
A Trindade e A Sociedade
Leonardo Boff 
Editora: Vozes
Sinopse: O mistério da Santíssima Trindade sempre 
fi cou distante da piedade dos fi éis, pois se acentuava 
tanto seu caráter de mistério que a grande maioria 
preferia fi car apenas com o conceito de um só Deus, 
onipotente, criador do céu e da Terra. Assim se 
perdia a singularidade da fé cristã em um Deus que 
é Trindade de Pessoas que se unem pela comunhão 
e pelo amor. O presente livro mostra como a 
comunhão e as relações eternas de inclusão entre o 
Pai, o Filho e o Espírito Santo podem inspirar relações 
sociais mais participativas, igualitárias e includentes. Cada pessoa na medida em que vive em 
comunhão com os outros participa da comunhão trinitária.
Comentário: Para Boff , o Deus cristão, o Deus da vida, sempre é a Trindade de Pessoas: a 
comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O conceito pericórese é colocado em intrínseca 
signifi cação com os conceitos bíblicos de comunhão, amor e vida, pois a interpenetração 
dinâmica entre as Pessoas da Trindade é o resultado do amor e da vida que constituem a essência 
da Trindade. A Trindade seria modelo e inspiração para a organização da sociedade e para as lutas 
por justiça e pela vida humana.
As Institutas
João Calvino
Editora: Cultura Cristã
Sinopse: Um dos tratados teológicos mais 
infl uentes da história do Cristianismo, Instituição 
da religião cristã é a obra máxima de Calvino, autor 
universalmente reconhecido e estudado - inclusive 
por Weber e Marx - como um dos pilares da Reforma 
Protestante. 
Comentário: O nome Institutas é uma tradução do 
título original em latim da obra, Institutio christianae 
religionis. Institutas quer dizer instrução, ensino. Um 
nome mais simples para a obra poderia ser Ensino Sobre o Cristianismo, aliás, título utilizado 
em um resumo da obra feito pelo teólogo J. P. Wiles. O nome Institutas, portanto, não é de 
forma alguma ligado a instituições de qualquer tipo, como o nome por vezes é erroneamentecompreendido e divulgado.
MATERIAL COMPLEMENTAR
Apresentação:
O artigo publicado com o título: LEONARDO BOFF E JOÃO CALVINO: DIFERENTES PERSPECTIVAS 
CONCERNENTES À SANTÍSSIMA TRINDADE tem como objetivo comparar o pensamento de dois 
teólogos, João Calvino e Leonardo Boff, acerca da doutrina da Trindade. Tendo sido formados por 
escolas diferentes e havendo um abismo de quase cinco séculos entre os dois, é considerável que 
tais pensadores apresentem concepções distintas acerca desse assunto.
LINK: Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/jcalvino/Boff-Calvino-Trindade_Daniel-
Leite.pdf
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Professor Dr. Hermisten Maia Pereira Da Costa
A SOBERANIA DE DEUS
Objetivos de Aprendizagem
 ■ Compreender o conceito teológico de soberania de Deus. 
 ■ Conceituar os pressupostos a respeito da liberdade de Deus 
manifestada em Sua graça.
 ■ Estabelecer o entendimento sobre Imagem e Semelhança, Pecado e 
Depravação total.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
 ■ A liberdade soberana de Deus
 ■ O poder soberano de Deus na Criação
 ■ O poder soberano e gracioso de Deus na Salvação e Restauração de 
seu povo
INTRODUÇÃO
Olá! Determinadas doutrinas bíblicas tornam-se bastante conhecidas em nosso 
meio. Elas passam a identificar determinado grupo ou denominação. Tornam-se 
emblemáticas. O ideal é que essa doutrina distintiva passe a ser crida não sim-
plesmente como uma premissa teológica, mas como uma realidade extraída das 
Escrituras, crida e vivenciada pelo povo de Deus.
Como veremos, a liberdade é um dos atributos da soberania. Deus é sobe-
rano e, por isso mesmo, é livre na manifestação da Sua graça. Aliás, esse conceito 
é fundamental à ideia bíblica de graça, pois, se a graça não fosse livre, não seria 
graça; graça que é obrigatória não é graça, é obrigação.
Veremos ainda que, apesar dessa Graça, o homem pecou. O pecado com-
prometeu de forma gravíssima todas as faculdades originais do ser humano, o 
homem não deixou de ser a imagem e semelhança de Deus – visto que isso impli-
caria em deixar de ser homem.
Terminaremos a unidade descrevendo que a nossa salvação é decorrente do 
Pacto da Graça, por meio do qual Deus confiou o Seu povo ao Seu Filho para 
que Este viesse entregar a Sua vida por ele. Cristo deu a Sua vida em favor de 
todos aqueles que o Pai Lhe confiara na eternidade. 
Portanto o nosso assunto nesta unidade é a soberania de Deus e a sua rela-
ção com a liberdade humana. Creio que todos nós cremos nessa verdade bíblica, 
mas quanto experimentamos isso em nossa vida? Vamos ao estudo.
Introdução
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A SOBERANIA DE DEUS
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O melhor é dizer que ambos são misteriosamente verdadeiros – Deus 
determina todas as coisas e os humanos têm liberdade. Podemos deixar 
aberto o enigma porque sabemos que existe uma resposta, mesmo que 
não consigamos racionalizá-la (EDGAR, 2000, p. 117).
Se nosso coração se encontra plenamente cativo à autorrevelação de 
Deus como o Criador, não mais podemos imaginar que exista uma 
zona neutra e segura fora do alcance de Deus (DOOYEWEERD, 2010, 
p. 258).
O crente que não vive confiante na soberania de Deus carecerá de Sua 
paz e será deixado no caos de um coração atormentado. Mas nossa 
constante confiança no Senhor nos permitirá agradecer-Lhe em meio 
às provações, porque temos a paz de Deus atuando para proteger nos-
sos corações (MACARTHUR, 2001, p. 30).
O homem, como ser paradoxal414 que é, tende a nutrir posições diferentes sobre 
o mesmo assunto, dependendo das circunstâncias que, amiúde, são de caráter 
passional. Posso, por exemplo, defender a supremacia da lei, até que eu mesmo 
a tenha quebrado. Do mesmo modo, posso sustentar determinados princípios 
liberais ou conservadores, desde que a minha família não esteja em jogo ou que 
outros interesses políticos não sejam afetados. Ou seja: tendemos a ser mais sub-
jetivos do que imaginamos ou estaríamos dispostos a admitir. Lamentavelmente, 
temos de admitir que somos mais dados a interesses do que a princípios. E o 
pior: o princípio é o meu interesse. Daí, o meu interesse ser o meu princípio de 
pensamento e ação.
Uma doutrina que facilmente é objeto de posicionamentos contraditórios 
é a soberania de Deus415. Gostamos de alardear a nossa liberdade, a nossa capa-
cidade de escolha e persuasão. Quando assim fazemos, falar em soberania de 
Deus parece diminuir um pouco nossa autoconfiança e suposta autonomia; desse 
modo, consideramos ser melhor deixá-la guardada em alguma gaveta para onde 
empurramos os papéis que não estão sendo utilizados e não sabemos bem o 
que fazer com eles. No entanto, quando percebemos que estamos sem recursos, 
sem perspectivas favoráveis, sem saber o que fazer, podemos, sem talvez nos dar 
conta, nos contentar com uma fé singela no cuidado de Deus e podemos, então, 
414 “O ser humano tende a ser paradoxal”. Consultar referência da nota.
415 Pink (1977, p. 19) lamenta: “Hoje, porém, mencionar a soberania de Deus em muitos ambientes, é falar 
uma língua desconhecida”. Consultar referência da nota.
As Escrituras, os Credos e a Reforma Protestante
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dizer para nós mesmos: “Deus é soberano, Ele sabe o que faz”; “nada acontece 
por acaso...”. Na verdade, nós mesmos, crentes em Cristo, com certa frequên-
cia, tendemos a adotar atitude semelhante. Calvino (1509-1564) capta bem isso 
ao dizer: “Mesmo os santos precisam sentir-se ameaçados por um total colapso 
das forças humanas, a fim de aprenderem, de suas próprias fraquezas, a depen-
der inteira e unicamente de Deus”416.
Mas, afinal, Deus é ou não soberano? Parece que esta é uma das doutrinas 
mais repudiadas pelo homem natural e, ao mesmo tempo, é a doutrina mais 
consoladora para todos nós que cremos em Cristo Jesus, especialmente nos 
momentos de aflição. Uma das grandes dificuldades dos homens em todos os 
tempos é deixar Deus ser Deus417; recebê-lo tal qual Ele Se revela, não cedendo 
à tentação de construí-lo dentro de nossos pressupostos culturais ou mesmo do 
nosso gosto pessoal418. Estamos dispostos a fabricar nossos deuses para que estes 
possam cobrir, preencher as brechas de nossa compreensão. 
Sendo assim, quando consigo dominar a realidade, já não preciso de Deus; 
quando não, invoco este meu deus para justificar as minhas crenças, expectati-
vas e, ao mesmo tempo, a minha falta de fé. Dentro dessa perspectiva, onde há 
ciência, não precisamos de Deus419, onde reina a ignorância, há um espaço para 
um ser transcendente, destituído de sua glória, é verdade, mas, assim mesmo, 
um “ser superior”. Aqui há o esquecimento proposital, de que o ateísmo é tam-
bém uma questão de fé420. Posso crer que Deus existe, como também crer que 
Ele não existe. Em ambos os casos, a fé é essencial.
No Antigo Testamento, os judeus, insensíveis aos seus próprios pecados, 
tomaram o aparente silêncio de Deus como uma aprovação tácita de seus erros, 
projetando em Deus o seu comportamento. Considerando que eles mesmos 
416 Consultar referência.
417 Consultar referência.
418 Consultar referência. 
419 Este otimismo secular foi sustentado primariamente por Nietzsche. Consultar referência da nota.
420 “O ateísmo é uma questão de fé tanto quanto o cristianismo” (MCGRATH, 2001, p. 23). “Portanto, 
os homens que rejeitam ou ignoram a Deus o fazem não porque a ciência ou a razão requeira que o 
façam, mas pura e simplesmente porque querem fazê-lo” (MORRIS, 1971, p. 16 apud KENNEDY, 1977, 
p. 33). “.... não vejo como é possível não acreditar em Deus e considerar que não se pode comprovar 
Sua existência, e depois a acreditar firmemente na inexistência de Deus,Paulo: Paracletos, 1997, 
(Hb 7.3,8), p. 177-178, 183; Exposição de 2 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1995, (2Co 12.4), p. 242,243; 
CALVINO, J. O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 51.5), p. 431-432; As Institutas da 
Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, v. 3, (III.8), p. 38.
32 Consultar referência. 
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Os pressupostos se constituem na janela (quadro de referência) por meio da qual 
vejo a realidade; o difícil é identificar a nossa janela, ainda que sem ela nada enxer-
guemos. Assim, falar sobre a nossa cosmovisão, além de ser difícil verbalizá-la, 
é paradoxalmente desnecessário. Parece que há um pacto involuntário de silên-
cio o qual aponta para um suposto conhecimento comum: todos nós sabemos 
a nossa cosmovisão. Desse modo, só falamos, se falamos e quando falamos de 
nossa cosmovisão, é para os outros, os estranhos, não iniciados em nossa forma 
de pensar. Sire resume bem isso: 
Uma cosmovisão é composta de um conjunto de pressuposições bási-
cas, mais ou menos consistentes umas com as outras, mais ou menos 
verdadeiras. Em geral, não costumam ser questionadas por nós mes-
mos, raramente ou nunca são mencionadas por nossos amigos, e são 
apenas lembradas quando somos desafiados por um estrangeiro de ou-
tro universo ideológico.33 
O fato que queremos destacar é que todos trabalham com os seus pressupos-
tos, explícitos ou não, plenamente conscientes deles ou apenas parcialmente. 
Schaeffer (1912-1984) coloca a questão nestes termos: 
Todas as pessoas têm seus pressupostos, e elas vão viver de modo mais 
coerente possível com estes pressupostos, mais até do que elas mesmas 
possam se dar conta. Por pressupostos entendemos a estrutura básica 
de como a pessoa encara a vida, a sua cosmovisão básica, o filtro atra-
vés do qual ela enxerga o mundo. Os pressupostos apoiam-se naquilo 
que a pessoa considera verdade acerca do que existe. Os pressupostos 
das pessoas funcionam como um filtro, pelo qual passa tudo o que elas 
lançam ao mundo exterior. Os seus pressupostos fornecem ainda a base 
para seus valores e, em consequência disto, a base para suas decisões.34 
33 Consultar referência.
34 SCHAEFFER, F. A. Como Viveremos? São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003, p. 11. McGregor 
Wright demonstra isso em sua obra quando parte para analisar os textos bíblicos que acredita serem o 
fundamento de sua posição. Escreve então: “...devemos todos orar para que o Espírito Santo sonde os 
nossos corações, em busca de indícios de que nossa exegese esteja sendo controlada por suposições e 
pressuposições das quais não estejamos plenamente cônscios, porque elas tendenciam nossa leitura da 
Palavra de Deus. Contudo a questão não é se podemos ser não-tendenciosos ou não, mas se estamos 
conscientes de nossas pressuposições. Realmente percebemos como elas nos afetam, e realmente estamos 
desejosos de ver essas pressuposições julgadas pelas Escrituras?” (R.K. McGregor Wright, A Soberania 
Banida: redenção para a cultura pós-moderna, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1998, p. 122).
INTRODUÇÃO A TEOLOGIA
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Silva argumenta com precisão que 
quer tenhamos ou não a intenção de fazê-lo, quer gostemos ou não, 
todos lemos o texto conforme interpretado por nossas pressuposições 
teológicas. Aliás, o argumento mais sério contra a ideia de que a exege-
se deve ser feita independente da teologia sistemática é que tal ponto de 
vista é irremediavelmente ingênuo. A mera possibilidade de entender 
qualquer coisa depende de nossas estruturas anteriores de interpreta-
ção. Se observarmos um fato que faz sentido para nós, é simplesmente 
porque conseguimos encaixá-lo dentro de um conjunto complexo de 
ideias que assimilamos anteriormente.35
São esses pressupostos que determinam a nossa maneira de ver e, portanto, agir 
no mundo.36 A nossa percepção e ação fundamentam-se em nossos pressupos-
tos os quais sãos reforçados, transformados, lapidados ou abandonados em prol 
de outros, conforme a nossa percepção dos “fatos”. A questão epistemológica 
antecede à práxis.
Descartes (1596-1650), após dizer que “o bom senso é a coisa do mundo 
melhor partilhada”, admite que “não é suficiente ter o espírito bom, o principal 
é aplicá-lo bem”.37 De fato, bom senso, a boa maneira de conduzir o pensamento 
na avaliação dos fatos, é indispensável, contudo, se ele for provido de um bom 
método, a possibilidade de obter êxito é bem maior.38
35 SILVA, M. Em Favor da Hermenêutica de Calvino: In: KAISER JUNIOR, W. C.; SILVA, M. Introdução à 
Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002, p. 255. De forma complementar, devemos 
também entender que: “Corretamente empregados, os padrões confessionais devem guiar, formatar 
e enriquecer nossa exegese; mal empregados, eles se divorciam dos textos bíblicos que os nutriram e 
desenvolveram” (= Carson, D. A. Jesus, o Filho de Deus: O título cristológico muitas vezes negligenciado, 
às vezes mal compreendido e atualmente questionad., São Paulo: Vida Nova, 2015, p. 81-82).
36 “Seria atenuar os fatos dizer que a cosmovisão ou visão de mundo é um tópico importante. Diria que 
compreender como são formadas as cosmovisões e como guiam os limitam o pensamento é o passo 
essencial para entender tudo o mais. Compreender isso é algo como tentar ver o cristalino do próprio 
olho. Em geral, não vemos nossa própria cosmovisão, mas vemos tudo olhando por ela. Em outras 
palavras, é a janela pela qual percebemos o mundo e determinamos, quase sempre subconscientemente, 
o que é real e importante, ou irreal e sem importância” (Johnson, P. E. no Prefácio à obra de Nancy. 
Pearcey, A Verdade Absoluta: Libertando o Cristianismo de Seu Cativeiro Cultural. Rio de Janeiro: Casa 
Publicadora das Assembleias de Deus, 2006, p. 11).
37 Consultar referência.
38 Lalande define “bom senso”, como a “faculdade de distinguir espontaneamente o verdadeiro do falso e de 
apreciar as coisas pelo seu justo valor” (Bom Senso: In: LALANDE, A. Vocabulário Técnico e Crítico da 
Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1993, p. 996a).
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Mas o que é um método? Esse termo é uma transliteração do grego me/qodoj, 
palavra formada por meta/ (“no meio de”, “no centro de”)39 e o(do/j (“caminho”). 
Em Aristóteles (384-322), a palavra tinha o sentido de “investigação”, sendo, por 
vezes, usada como sinônimo de “teoria” (qewri/a) e “ciência” (e)pisth/mh).40 
Etimologicamente, portanto, “método” é o emprego de um caminho, andar den-
tro e por meio dele. Podemos definir, operacionalmente, método como o conjunto 
de elementos e processos necessários a se obter determinado objetivo; é o cami-
nho para a consecução de um objetivo proposto. Lalande (1867-1963) acentua 
que etimologicamente a palavra significa “demanda” e, “por consequência, esforço 
para atingir um fim, investigação, estudo...”.41
Hodge, com simplicidade e clareza, afirma que “se uma pessoa adota um 
falso método, ela é semelhante a alguém que toma uma estrada errada que 
jamais a levará a seu destino”.42 Obviamente a Teologia, como todas as demais 
ciências, também tem os seus métodos, e isso é fundamental. Não existe neutra-
lidade metodológica, todo método carrega consigo seus pressupostos, portanto, 
os pressupostos, como também em qualquer outra ciência, são fatores determi-
nantes em sua pesquisa, na aproximação dos fatos.43 
Nash, com uma ênfase diversa, nos alerta: “a obtenção de maior consciência 
de nossa cosmovisão pessoal é uma das coisas mais importantes que podemos 
fazer, e compreender a cosmovisão de outros é algo essencialpensando poder prová-Lo” 
(ECO; MARTINI, 1999, p. 85). “Pode-se negar que a existência de Deus seja demonstrável. Não se pode 
demonstrar que Deus não existe” (LACOSTE, 2004, p. 204).
A SOBERANIA DE DEUS
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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procediam desse modo, pensavam que Deus fosse igual a eles. No entanto Deus, 
no momento próprio, exporia diante deles os seus delitos: “Tens feito estas coisas, 
e eu me calei; pensavas que eu era teu igual; mas eu te arguirei e porei tudo à tua 
vista” (Sl 50.21). Calvino (2002, p. 549) diz que o homem pretende usurpar o lugar 
de Deus: “Cada um faz de si mesmo um deus e virtualmente se adora, quando 
atribui a seu próprio poder o que Deus declara pertencer-lhe exclusivamente”.
De fato, os homens estão dispostos a reconhecer espontaneamente diversas 
virtudes em Deus: o seu amor, sua graça, bondade, perdão, tolerância, provisão 
etc. Agora, a sua soberania, jamais421. Pink (1886-1952) entende que “negar a 
soberania de Deus é entrar em um caminho que, seguindo até à sua conclusão 
lógica, leva a manifesto ateísmo”422. A nossa dificuldade está em reconhecer a 
Deus como o Senhor que reina423. A Palavra, por sua vez, nos desafia a aprender 
com Ela a respeito de Deus e de Seu Reino. O nosso Deus, entre tantas perfeições, 
é o Deus soberano, sem esse atributo, Deus não seria Deus: “Verdadeiramente 
reconhecer a soberania de Deus é, portanto, contemplar o próprio Deus sobe-
rano” (PINK, 1977, p. 138). 
No entanto Jó demonstra a dificuldade de nossa compreensão, ao indagar: 
“Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos! Que leve sussurro temos 
ouvido dele! Mas o trovão do seu poder, quem o entenderá?” (Jó 26.14). Mas o 
fato que faz parte amplamente da experiência cristã é que somente aquele que 
confia intensamente na soberania de Deus poderá encontrar a paz em meio às 
vicissitudes da vida424.
Como mais um ingrediente de cautela, devemos entender que o nosso conhe-
cimento a respeito de Deus é um “conhecimento-de-servo” delimitado pelo 
próprio Senhor, considerando, inclusive, o pecado humano. Em outras palavras: 
421 Kennedy diz precisamente isso: “O motivo por que tantas pessoas se opõem a essa doutrina 
(predestinação) é que elas querem um Deus que seja qualquer coisa, menos Deus. Talvez permitam-lhe 
ser algum psiquiatra cósmico, um pastor prestativo, um líder, um mestre, qualquer coisa, talvez... contanto 
que Ele não seja Deus. E isso por uma razão muito simples... elas mesmas querem ser Deus. Essa sempre 
foi a essência do pecado – o fato que o homem pretende ser Deus” (KENNEDY, 1981, p. 31).
422 Em outro lugar: “Os idólatras do lado de fora da cristandade fazem ‘deuses’ de madeira e de pedra, 
enquanto que os milhões de idólatras que existem dentro da cristandade fabricam um Deus extraído de 
suas mentes carnais. Na realidade, não passam de ateus, pois não existe alternativa possível senão a de um 
Deus absolutamente supremo, ou nenhum deus” (PINK, 1985, p. 28). “Defender a crença num ‘poder do 
alto’ nebuloso é balançar entre o ateísmo e um cristianismo total com suas exigências pessoais” (SPROUL, 
1986, p. 48).
423 Ver o sermão de Spurgeon sobre Mt 28.15, citado por Pink. Consultar referência da nota.
424 Consultar referência. 
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“É um conhecimento acerca de Deus como Senhor, e um conhecimento que está 
sujeito a Deus como Senhor”425. O nosso conhecimento nunca é autorreferente 
com validade própria e por iniciativa nossa426. “Visto que somos seres finitos e 
não podemos enxergar o todo da realidade de uma vez, nossa perspectiva da 
realidade é necessariamente limitada por nossa finitude”427.
Poder conhecer a Deus é sempre uma iniciativa de graça divina, mas nunca 
somos ou seremos o padrão de verdade, antes, precisamos sempre validar o 
nosso pensamento na Palavra, que é a verdade (Jo 17.17). Só pensamos verda-
deiramente quando pensamos à luz da Palavra. Por isso, conhecer a Deus é algo 
singular, porque somente Deus é soberano e somente a partir Dele podemos 
conhecê-lo. Conhecer a Deus em Sua soberania, portanto, é um dom da graça 
do soberano Deus. Esse conhecimento, por sua vez, nos liberta para que possa-
mos conhecer a nós mesmos e as demais coisas da realidade.
O nosso assunto é a soberania de Deus e a sua relação com a liberdade 
humana. Creio que todos nós cremos nessa verdade bíblica, mas quanto expe-
rimentamos isso em nossa vida? Vamos ao estudo.
A LIBERDADE SOBERANA DE DEUS
Uma das doutrinas fundamentais de toda Escritura Sagrada é a Soberania de 
Deus. “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso...”, esta tem sido a declaração feita 
pelos cristãos desde o século II, por meio do Credo Apostólico. A Igreja, ampa-
rada nas Escrituras, tem afirmado a sua fé no Deus Todo-Poderoso, Senhor de 
todas as coisas e que, ao mesmo tempo, é o nosso Pai Bondoso428.
425 Consultar referência.
426 A respeito de um comportamento oposto, escreveu Lloyd-Jones: “Não há maior obra-prima do diabo 
do que seu sucesso em persuadir as pessoas de que é seu conhecimento superior que as leva a rejeitar o 
cristianismo. Mas exatamente o oposto é que é verdadeiro. O diabo as mantém na ignorância porque, 
enquanto permanecerem nela, elas farão o que ele manda. A partir do momento em que recebem a luz – o 
Evangelho é chamado de ‘luz’ – elas veem o diabo e o abandonam” (LLOYD-JONES, 2004, p. 68).
427 Consultar referência.
428 Consultar referência.
A SOBERANIA DE DEUS
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Um dos aspectos fundamentais da soberania é a independência. Quando a 
nossa suposta independência depende de algo alheio ao nosso controle, percebe-
mos, então, que a nossa pretensa capacidade de decidir livremente está ameaçada 
ou sofre de limitações que podem ser bastante comprometedoras. Na realidade, 
somente em Deus há a autonomia total e absoluta. Spurgeon (1834-1892) enfa-
tiza corretamente: “Deus é independente de tudo e de todos. Ele age de acordo 
com Sua própria vontade. Quando Ele diz: ‘Eu farei’, o que quer que diga será 
feito. Deus é soberano, e Sua vontade, não a vontade do homem, será feita”429.
O poder de Deus é soberanamente livre. Ele não tem primariamente com-
promissos com terceiros. Em outras palavras: Deus é soberano em Si mesmo, a 
onipotência faz parte da sua essência. Por isso mesmo, para Ele não há impos-
síveis. Apesar de qualquer oposição, Ele executa o Seu plano430. Tudo o que Ele 
deseja, pode realizar (Mt 19.26; Jó 23.13)431. No entanto Deus não precisa exer-
citar o Seu poder para ser o que é.
Deus Se apresenta nas Escrituras como de fato é, o Deus Todo-Poderoso 
(Onipotente), com capacidade para fazer todas as coisas conforme a Sua von-
tade (Sl 115.3; 135.6; Is 46.10; Dn 4.35; Ef 1.11)432. Ele pode fazer tudo o que 
quer ou venha a querer, na forma e no tempo que determinar433. Deus também 
Se mostra coerente com as demais de Suas perfeições, ou seja, Deus exercita o 
Seu Poder em harmonia com todas as perfeições de Sua natureza (2Tm 2.13), a 
Sua vontade é eticamente determinada. O poder de Deus se harmoniza perfei-
tamente com a Sua vontade434. 
429 Consultar referência.
430 Consultar referência. 
431 Stott coloca nestes termos: “... A liberdade de Deus é perfeita, no sentido de que Ele é livre para fazer 
absolutamente qualquer coisa que Ele queira” (STOTT, 1997, p. 58).
432 “No céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe agrada” (Sl 115.3). “Tudo quanto aprouve ao SENHOR, 
ele o fez, nos céus e na terra, no mar e em todos os abismos” (Sl 135.6). “... O meu conselho permanecerá 
de pé, farei toda a minha vontade” (Is 46.10). “Todos os moradores da terra são por ele reputados em 
nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem 
lhe possapara o entendi-
mento que os torna distintos”.44
39 Este é o significado original da palavra, variando conforme a conjunção com outras (Veja: entre outras 
obras, DANA, H. E.; MANTEY, J. R. Manual de Gramatica del Nuevo Testamento Griego. Buenos Aires: 
Casa Bautista de Publicaciones, 1975, p. 104-105). Uma curiosidade bíblica: Paulo exorta aos efésios: 
“Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas (meqode/ia) do 
diabo” (Ef 6.11). Esta palavra envolve um “plano ou sistema deliberado”. Meqode/ia é da mesma raiz da 
nossa palavra “método”. As ciladas de Satanás visam nos induzir ao erro. Ele, portanto, atua de forma 
metódica, seguindo sempre um plano para obter êxito nos seus propósitos.
40 Consultar referência. 
41 Consultar referência.
42 Consultar referência.
43 Consultar referência.
44 Consultar referência.
INTRODUÇÃO A TEOLOGIA
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A nossa chave epistemológica é a Escritura, portanto, a nossa cosmovi-
são, partindo de uma perspectiva assim, nos conduzirá naturalmente de volta a 
Deus.45 A teologia sistemática “parte de cima”, fundamentando-se na Escritura, 
oferece-nos um escopo do que Deus deseja de nós e nos fala de qual o propósito 
de nossa existência em todas as suas esferas.46 A experiência humana, as con-
tribuições científicas e o ensino da igreja são avaliados à luz da Escritura que 
unicamente é a nossa regra de fé e, portanto, o fundamento de toda teologia.
A Teologia Reformada recebendo a Bíblia como de fato é: a inerrante e 
autêntica Palavra de Deus, reconhece ser Ela a causa eficiente e instrumental da 
Teologia, sendo Deus o Seu autor, a causa final. A teologia busca sempre a gló-
ria de Deus, como objetivo máximo e final; e esse objetivo é alcançado sempre 
em sua fidelidade à Revelação. Portanto, embora admitindo a infalibilidade da 
Revelação Geral, só consideramos a Revelação Especial como fonte da Teologia. 
Dessa forma, a tentativa de reconhecer a Revelação Geral como fonte secundá-
ria da Teologia está fora de cogitação, visto que, para que isso aconteça, teríamos 
de interpretá-la de acordo com a luz da Escritura, e podemos observar também 
que, qualquer tentativa de se criar uma fonte secundária ou terciária de teolo-
gia (os catecismos, por exemplo) implica em admitir que a Bíblia precisa de um 
complemento, logo é incompleta ou insuficiente. A Revelação Geral tem o seu 
valor ilustrativo, contudo, em nada acrescenta à Revelação Especial e aquela só 
pode ser entendida corretamente por aquele que, mediante a iluminação do 
Espírito Santo, entende a Revelação Especial. Para esse homem, a Revelação 
Geral se constitui em uma “republicação”, ainda que não cronológica, das ver-
dades contidas nas Escrituras, contudo essa “republicação” não é complementar 
nem transforma vida. E o que a natureza trata de forma estrita e apenas indica-
tiva, a Escritura fala de forma ampla e demonstrativa.
45 Consultar referência.
46 “A cosmovisão cristã tem coisas importantes a dizer sobre a totalidade da vida humana” (Ronald H. 
Nash, Questões Últimas da Vida: uma introdução à Filosofia, p. 19). 
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Edwin Palmer acentua:
Somente através da revelação o homem alcança o verdadeiro entendi-
mento das coisas. Pela revelação, Deus se manifesta ao homem e tam-
bém revela a verdadeira natureza dos seres que povoam o mundo, tanto 
a dos homens como a dos objetos naturais”[...] “É interessante advertir 
que inclusive a primeira revelação, a revelação geral, não se pode captar 
bem sem conhecer a revelação especial e sem o poder iluminador do 
Espírito na mente do homem. Isto se deve ao fato de que o homem é 
espiritualmente cego devido ao seu próprio pecado (PALMER, s/d, p. 
47-50).
Por outro lado, Abraham Kuyper (1837-1920), em seu livro Principles of Sacred 
Theology, nos chama a atenção para o fato de que não devemos considerar a 
Revelação Especial ou a Escritura como fonte da Teologia (“fons theologiae”), 
tendo em vista que o termo “fonte” no estudo científico tem um significado mui 
definido. Em geral, denota uma área de estudo sobre a qual, o homem como 
agente ativo faz uma triagem para a sua pesquisa, como na Botânica, Zoologia e 
História. Nesse caso, o objeto de estudo é passivo; o homem que é ativo, debruçan-
do-se sobre o fenômeno para extrair do objeto o conhecimento desejado. Assim 
sendo, usando o termo nesse sentido, tem-se a impressão de que o homem como 
agente ativo pode se colocar sobre as Escrituras para descobrir ou tirar dela o 
conhecimento de Deus, que ali está passivamente esperando o seu descobridor. 
Sabemos que isso não é verdade! Deus se revela ao homem e mais uma vez, ati-
vamente, fornece os meios para a compreensão desta revelação: o Espírito Santo. 
A Teologia, como vimos, é sempre o efeito da ação reveladora, inspiradora e ilu-
minadora de Deus por meio do Espírito. Por isso, falar de Teologia Americana, 
Europeia ou da América Latina se constitui, no mínimo, em uma ignorância 
bíblica: ou a Teologia é Bíblica ou não é Teologia; surja em que continente for, 
em que movimento for, em que regime político for. Brunner (1889-1966) cor-
retamente enfatiza: 
A dogmática que está sob uma obrigação apenas para com a Verda-
de deve se proteger contra todo regionalismo nacional ou continental, 
pelo qual o ponto de vista Europeu, o Inglês ou o Americano seria mais 
importante do que é na verdade.47
47 Consultar referência. 
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Deus não se deixa invadir pela razão humana ou mesmo pela fé; Ele se dá a conhe-
cer livre, fidedigna e explicitamente; Deus se revela a Si mesmo como Senhor e 
“Senhorio significa liberdade”.48 Quanto mais conhecemos Deus, mais compre-
endemos e sentimos que Seu ministério é inescrutável. A “douta ignorância” faz 
parte essencial da genuína teologia sistemática.49 O conhecimento de nossa limi-
tação não é inato; antes é precedido pela revelação. Sem a revelação de Deus não 
há teísmo, ateísmo nem agnosticismo. É no encontro com Deus que tomamos 
conhecimento de nossas limitações.
Sem a revelação, o homem passaria toda a sua vida e estaria na eternidade 
sem o menor conhecimento de Deus, por mais engenhosos que fossem os seus 
métodos, por mais sistemáticas que fossem as suas pesquisas, por mais que evo-
luísse a ciência. O homem nunca conseguiria chegar a Deus ou mesmo a sua 
ideia: ignoraria eternamente a própria ignorância! Entretanto Deus continuaria 
sendo o que sempre foi: o Senhor! “Ainda que o mundo inteiro fosse incrédulo, 
a verdade de Deus permaneceria inabalável e intocável” (João Calvino, Gálatas, 
São Paulo: Paracletos, 1998, (Gl 2.2), p. 48-49). Todavia graças a Deus, porque 
Ele soberanamente Se Revelou a Si mesmo, para que possamos conhecê-Lo e 
render-Lhe toda a glória que somente a Ele é devida. Em Cristo, nós somos con-
frontados com o clímax e plenitude da revelação de Deus (Jo 14.9-11; 10.30; Cl 
1.19; 2.9; Hb 1.1-4). “No Filho, temos a revelação última de Deus. Da mesma 
forma como é verdade que quem viu o Filho viu o Pai, também é verdade que 
quem não viu o Filho, não viu o Pai”. 50 Jesus Cristo é a medida da revelação!
Lembremo-nos mais uma vez das palavras de A. Kuyper, de que o homem 
não pode se colocar sobre a Bíblia para fazer uma investigação de Deus; Deus é 
Quem se comunica, Quem se dá; Ele é sempre o Sujeito, nunca o objeto na rela-
ção do conhecimento. Na Revelação, ocorre uma mudança de referência. Nós 
que nos acostumamos a pensar a partir de nós, precisamos aprender a pensar 
a partir de Deus; nós não somos “a medida de todas as coisas” nem o ponto de 
partida, somos o fim da Revelação graciosa de Deus.
48 Consultar referência.
49Ver: CALVINO, J. As Institutas, III.21.2; III.23.8. Na edição de 1541, escrevera: “E que não achemos 
ruim submeter neste ponto o nosso entendimento à sabedoria de Deus, aos cuidados da qual Ele deixa 
muitos segredos. Porque é douta ignorância ignorar as coisas que não é lícito nem possível saber; o desejo 
de sabê-las revela uma espécie de raiva canina” (CALVINO, J. As Institutas da Religião Cristã: edição 
especial com notas para estudo e pesquisa, v. 3 (III.8), p. 53-54). 
50 Consultar referência.
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A Teologia Reformada reconhece a centralidade real de Deus em todas as 
coisas, tendo como alvo principal, não o tão decantado bem-estar humano – que 
por certo tem a sua relevância51 –, mas a glória de Deus, sabendo que as demais 
coisas serão acrescentadas (Mt 6.33; Ef 1.11-12).52 Infelizmente, ao longo da 
história, as “teologias”, que deveriam ser relativas à Revelação, têm sido relati-
vas ao homem, tornando-se, assim, antropologias.53 O Iluminismo, que gerou o 
“Liberalismo Teológico” – e esse pode ser definido como o esforço de interpre-
tar, reformular e explicar a fé cristã dentro de uma perspectiva iluminista –, foi 
o grande fomentador dessa nova abordagem. Dentro dessa perspectiva, só pode 
ser considerado genuíno o “credo” que se ajuste aos critérios racionais vigentes.54 
Para nós, reformados, entretanto, é a Palavra de Deus que deve dirigir toda 
a nossa abordagem e interpretação teológica, bem como de toda a realidade: o 
Espírito, por intermédio da Palavra, é Quem deve nos guiar à correta interpre-
tação da Revelação. Na Escritura, temos o nosso padrão e apelo final.55
NECESSIDADE E TAREFA DA TEOLOGIA SISTEMÁTICA
A Teologia Reformada não reivindica para si o status de detentora da ver-
dade ou de infalibilidade; antes, ela sabe que o seu vigor estará sempre na sua 
procura acadêmica e piedosa pela interpretação correta e fiel das Escrituras.
51 Calvino, comentando a respeito desta vida e a futura, diz: “...esta vida, por mais que esteja cheia de infinitas 
misérias, com toda razão se conta entre as bênçãos de Deus, que não é lícito menosprezar” (As Institutas, 
III.9.3). À frente, acrescenta: “E muito maior é essa razão, se refletirmos que nesta vida nos está Deus de 
certo modo a preparar para a glória do Reino Celeste” (As Institutas, III.9.3).
52 PACKER, J. I. O “Antigo” Evangelho. São Paulo: Fiel, 1986, p. 1ss., traça uma boa distinção entre o 
“Antigo” e o “Novo” Evangelho, mostrando que o “Antigo”, buscava a Glória de Deus, enquanto que o 
“novo” está preocupado em “ajudar” o homem. Em 1768, Abraham Booth (1734-1806) observara que a 
pregação dos cristãos primitivos gerava a perseguição “porque a verdade que pregavam ofendia o orgulho 
humano (...) não dava lugar ao mérito humano” (BOOTH, A. Somente pela Graça. São Paulo: Publicações 
Evangélicas Selecionadas, 1986, p. 9,10).
53 O filósofo alemão Feuerbach (1804-1872), reduziu “a teologia à antropologia” (FEURBACH, L. A. A 
Essência do Cristianismo, Campinas, SP: Papirus, 1988, Prefácio da 2ª edição p. 35). 
54 Consultar referência. 
55 Consultar referência.
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A teologia é uma reflexão interpretativa e sistematizada da Palavra, tendo como 
meta a compreensão e sistematização de toda a doutrina cristã, sendo, portanto, 
uma ciência “normativa”,56 cujo compromisso é com Deus e com a Sua verdade 
revelada, atenta às necessidades do homem em sua existência.57 “A dogmática 
vai em busca da verdade absoluta”. Dentro dessa perspectiva, podemos falar da 
necessidade e da tarefa da Teologia Sistemática.
56 Consultar referência. 
57 Consultar referência. 
Dr. Lloyd-Jones (1889-1981), em 1969, nas conferências que realizava no Se-
minário Teológico Westminster, resume:
O pregador deveria ser bem versado em teologia bíblica, a qual, por sua vez con-
duz à teologia sistemática. Para mim, nada é mais importante para um pregador 
do que o fato que ele deveria estar de posse da teologia sistemática, conhecen-
do profundamente e estando bem arraigado nela. Essa teologia sistemática, esse 
corpo de verdades derivadas das Escrituras, sempre deve fazer-se presente como 
pano de fundo e influência controladora da pregação. Cada mensagem, que pro-
vém de algum texto ou declaração específica das Escrituras, sempre deve fazer 
parte ou ser um aspecto desse conjunto total da Verdade. Jamais será algo isola-
do, jamais será algo separado ou desvinculado. A doutrina que houver em qual-
quer texto específico, nunca deveríamos olvidar, faz parte desse conjunto maior 
– a Verdade ou a Fé. Esse é o significado da frase ‘comparando Escritura com Es-
critura’. Não podemos manipular nenhum texto isolado; toda a nossa preparação 
de um sermão deveria ser controlada por esse pano de fundo de teologia siste-
mática (...). O emprego correto da teologia sistemática consiste em que, quando 
descobrimos alguma doutrina específica no texto selecionado, nós averiguamos 
e controlamos, assegurando-nos de que ela cabe dentro de todo esse corpo de 
doutrinas bíblicas que é vital e essencial” (LLOYOD-JONES, 1984, p. 48-49).
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a) Aprofundar a relação da verdade sistematizada com o desenvolvimento 
da piedade
A erudição associada à piedade e aos demais dotes do bom pastor lhe 
sejam uma preparação. Ora, aqueles que o Senhor destinou a tão gran-
de ofício, os equipa antes com essas armas que são requeridas para de-
sempenhá-lo, de sorte que não venham a ele vazios e despreparados 
(Calvino, João. As Institutas, 2. ed. IV.3.11).
Para McGrath (2007, p. 67), “uma teologia que toca a mente, deixando de afetar 
o coração, não é a verdadeira teologia cristã”. João Calvino (1509-1564) comen-
tando o texto de 1Tm 6.3,58 diz que “[a doutrina] só será consistente com a 
piedade se nos estabelecer no temor e no culto divino, se edificar nossa fé, se 
nos exercitar na paciência e na humildade e em todos os deveres do amor”.59 
Estamos convencidos de que a genuína piedade bíblica (eu)se/beia) – At 3.12; 
1Tm 2.2; 3.16; 4.7,8; 6.3,5,6,11; 2Tm 3.5; Tt 1.1; 2Pe 1.3,6,7; 3.11 – começa pela 
compreensão correta do mistério de Cristo, conforme nos diz Paulo, “evidente-
mente, grande é o mistério da piedade Aquele que foi manifestado na carne foi 
justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido 
no mundo, recebido na glória” (1Tm 3.16). A piedade era a tônica do ministério 
pastoral de Paulo. É desse modo que ele inicia a sua carta a Tito, “Paulo, servo 
de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover (kata/)60 a fé que é dos elei-
tos (e)klekto/j) – Mt 22.14; 24.22,24,31; Mc 13.20,22,27; Lc 18.7; 23.35; Rm 
8.33; 16.13; Cl 3.12; 1Tm 5.21; 2Tm 2.10; Tt 1.1; 1Pe 1.1; 2.4; 1Pe 2.6,9; 2Jo 1,13; 
Ap 17.14 – de Deus e o pleno conhecimento da verdade segundo a piedade” (Tt 
1.1). Portanto, devemos indagar sempre a respeito de doutrinas consideradas 
evangélicas, se elas, de fato, contribuem para a piedade. A genuína ortodoxia 
será plena de vida e piedade.
58 “Se alguém ensina outra doutrina e não concorda com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e com o 
ensino segundo a piedade, é enfatuado, nada entende, mas tem mania por questões e contendas de palavras, 
de que nascem inveja, provocação, difamações, suspeitas malignas, altercações sem fim, por homens cuja 
mente é pervertida e privados da verdade, supondo que a piedade é fonte de lucro” (1Tm 6.3-5).
59 Consultar referência. 
60 Kata/ quando estabelece relação, tem o sentido de “de acordo com a”, “com referência a”. No texto, 
pode ter o sentido de “segundo afé que é dos eleitos”, “no interesse de”, “promover”, etc. (Mc 7.5; Lc 1.9,38; 
2.22,24,29; Jo 19.7; At 24.14; Cl 1.25,29; 2Tm 1.1,8,9; Hb 7.5).
INTRODUÇÃO A TEOLOGIA
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Paulo diz que é apóstolo da parte de Jesus Cristo comprometido com a fé que é dos 
eleitos de Deus. O seu ensino tinha esse propósito – diferentemente dos falsos mes-
tres, que se ocupavam com fábulas e mandamentos procedentes da mentira (Tt 1.14) 
– promover a fé dos crentes em Cristo Jesus. A fé que é dos eleitos, portanto, deve ser 
desenvolvida no “pleno conhecimento (e)pi/gnwsij) – Rm 1.28; 3.20; 10.2; Ef 1.17; 
4.13; Fp 1.9; Cl 1.9,10; 2.2; 3.10; 1Tm 2.4; 2Tm 2.25; 3.7; Tt 1.1; Fm 6; Hb 10.26; 2Pe 
1.2,3,8; 2.20 – da verdade (a)lh/qeia)”. Ou seja, a nossa salvação se materializa em 
nosso conhecimento intensivo e qualitativamente completo da verdade. Contudo 
esse conhecimento da verdade, longe de arrogante e autossuficiente, está relacio-
nado com a piedade “segundo a piedade (eu)se/beia)” – At 3.12; 1Tm 2.2; 3.16; 
4.7,8; 6.3,5,6,11; 2Tm 3.5; Tt 1.1; 2Pe 1.3,6,7; 3.11. O verdadeiro conhecimento de 
Deus é cheio de piedade. Piedade caracteriza a atitude correta para com Deus, englo-
bando temor, reverência, adoração e obediência. Ela é a palavra para a verdadeira 
religião.61 Paulo diz que a piedade para tudo é proveitosa, não havendo contraindi-
cação “pois o exercício físico para pouco é proveitoso (w)fe/limoj), mas a piedade 
para tudo é proveitosa (w)fe/limoj),62 porque tem a promessa da vida que agora é e 
da que há de ser” (1Tm 4.8). Por isso, Timóteo, com o propósito de realizar a vontade 
de Deus, deveria exercitá-la com a perseverança de um atleta (1Tm 4.7);63 segui-la 
como alguém que persegue um alvo, e a convicção e o zelo com os quais o próprio 
Paulo perseguira a Igreja de Deus (Fp 3.6) “tu, porém, ó homem de Deus, foge des-
tas coisas; antes, segue (diw/kw)64 a justiça, a piedade (eu)se/beia), a fé, o amor, a 
constância, a mansidão” (1Tm 6.11). O tempo presente do verbo indica a progressi-
vidade que deve caracterizar essa busca pela piedade.
61 Consultar referência.
62 Este adjetivo que, no Novo Testamento, só é empregado por Paulo, é aplicado às boas obras (Tt 3.8) e à 
Palavra inspirada de Deus em sua aplicação às nossas necessidades (2Tm 3.16).
63 “Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas caducas. Exercita-te (gumna/zw), pessoalmente, na piedade” 
(1Tm 4.7). Gumna/zw é aplicada ao exercício próprio de atleta. No Novo Testamento a palavra é usada 
metaforicamente, indicando o treinamento que pode ser utilizado para o bem ou para o mal (*1Tm 4.7; 
Hb 5.14;12.11; 2Pe 2.14). 
64 Diw/kw é utilizada sistematicamente para aqueles que perseguiam a Jesus, os discípulos e a Igreja (Mt 
5.10-12; Lc 21.12; Jo 5.16; 15.20). Lucas emprega este mesmo verbo para descrever a perseguição que 
Paulo efetuou contra a Igreja (At 22.4; 26.11; 1 Co 15.9; Gl 1.13,23; Fp 3.6), sendo também a palavra 
utilizada por Jesus Cristo quando pergunta a Saulo do porquê de sua perseguição (At 9.4-5/At 22.7-8/
At 26.14-15). Paulo diz que prosseguia para o alvo (Fp 3.12,14). O escritor de Hebreus diz que devemos 
perseguir a paz e a santificação (Hb 12.14).
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Calvino entende que o conhecimento verdadeiro do verdadeiro Deus traz como 
implicação necessária, a piedade e a santificação
[...] deve observar-se que somos convidados ao conhecimento de Deus, 
não àquele que, contente com vã especulação, simplesmente voluteia 
no cérebro, mas àquele que, se é de nós retamente percebido e finca pé 
no coração, haverá de ser sólido e frutuoso [...]65.
Jamais o poderá alguém conhecer devidamente que não apreenda ao mesmo 
tempo a santificação do Espírito. A fé consiste no conhecimento de Cristo. E Cristo 
não pode ser conhecido senão em conjunção com a santificação do Seu Espírito. 
Segue-se, consequentemente, que de modo nenhum a fé deve ser separada do 
afeto piedoso”.66 Resume “o conhecimento de Deus é a genuína vida da alma....”.67 
O verdadeiro conhecimento de Deus conduz-nos à piedade. 
Paulo sustenta que aquele falso conhecimento que se exalta acima da 
simples e humilde doutrina da piedade não é de forma alguma conheci-
mento [...] A única coisa que, segundo a autoridade de Paulo, realmente 
merece ser denominada de conhecimento é aquela que nos instrui na 
confiança e no temor de Deus, ou seja, na piedade.68
No entanto é possível forjar uma aparente piedade – conforme os falsos mes-
tres que, privados da verdade, o faziam pensando em obter lucro (1Tm 6.5) -, 
contudo essa carece de poder e da alegria resultantes da convicção de que Deus 
supre as nossas necessidades. Logo, esses falsos mestres não conhecem o “lucro” 
da piedade 
de fato, grande fonte de lucro (porismo/j) é a piedade (e)use/beia) 
com o contentamento (au)ta/rkeia = “suficiência”, “satisfação”). Porque 
nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar 
dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes (1Tm 6.6-
8/2Tm 3.5). 
65 J. Calvino, As Institutas, I.5.9. “...Importa se nos transfunda ela (a doutrina) ao coração e se nos traduza no 
modo de viver, e, a tal ponto a si nos transforme, que nos não seja infrutuosa. Se, com razão, se incendem 
os filósofos contra aqueles que, em professando uma arte que lhes deva ser a mestra da vida, a convertem 
em sofística loquacidade, e os alijam ignominiosamente de sua grei, de quão melhor razão haveremos de 
detestar estes fúteis sofistas que se contentam em revolutear o Evangelho no topo dos lábios, Evangelho cuja 
eficácia devera penetrar os mais profundos afetos do coração, arraigar-se na alma e afetar o homem todo, 
cem vezes mais do que as frias exortações dos filósofos” (CALVINO, J. As Institutas, III.6.4). 
66 Consultar referência.
67 Consultar referência.
68 Consultar referência. 
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Todo o conhecimento cristão deve vir acompanhado de piedade (1Tm 3.16/1Tm 
6.3;Tt 1.1). A piedade deve estar associada a diversas outras virtudes cristãs a 
fim de que seja frutuosa no pleno conhecimento de Cristo (2Pe 1.6-8). A nossa 
certeza é que Deus nos concedeu todas as coisas que nos conduzem à piedade. 
Ele exige de nós, os crentes, “o uso diligente de todos os meios exteriores pelos 
quais Cristo nos comunica as bênçãos da salvação”69 e que não negligenciemos 
os “meios de preservação”.70 Portanto, devemos utilizar de todos os recursos que 
Deus nos forneceu com este santo propósito “visto como, pelo seu divino poder, 
nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade (e)use/
beia), pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria 
glória e virtude” (2Pe 1.3).71 
A piedade como resultado de nosso relacionamento com Deus deve ter o 
seu reflexo concreto dentro de casa, sendo revelada por meio do tratamento que 
concedemos aos nossos pais e irmãos “... se alguma viúva tem filhos ou netos, 
que estes aprendam primeiro a exercer piedade (eu)sebe/w) para com a própria 
casa e a recompensar a seus progenitores, pois isso é aceitável diante de Deus” 
(1Tm 5.4).72 Nunca o nosso trabalho, por mais relevante que seja, poderá se tor-
nar em um empecilho para a ajuda aos nossos familiares. A genuína piedade é 
caracterizada por atitudes condizentes para com Deus (reverência) e para com o 
nosso próximo (fraternidade). Curiosamente, quando o Novo Testamento des-
creve Cornélio, diz que ele era um homem “piedoso (Eu)sebh/j) e temente a 
Deus (...) e que fazia muitas esmolas ao povo e de contínuo orava a Deus” (At 
10.2). A piedade é, portanto, uma relação teologicamente orientada do homem 
para com Deus em sua devoção e reverência e a sua condutabiblicamente ajus-
tada e coerente com o seu próximo. A piedade envolve comunhão com Deus e 
o cultivo de relações justas com os nossos irmãos. “A obediência é a mãe da pie-
dade”, resume Calvino.73 
69 Catecismo Menor de Westminster, Perg. 85.
70 Confissão de Westminster, XVII.3.
71 Consultar referência. 
72 Consultar referência.
73 Consultar referência.
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A piedade é desenvolvida por meio de nosso crescimento na graça. A graça 
de Deus é educativa “porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos 
os homens, educando-nos (paideu/w) para que, renegadas a impiedade e as 
paixões mundanas, vivamos no presente século, sensata, justa e piedosamente 
(eu)sebw=j)” (Tt 2.11-12). A piedade autêntica, por ser moldada pela Palavra, traz 
consigo os perigos próprios resultantes de uma ética contrastante com os valores 
deste século. “Ora, todos quantos querem viver piedosamente (eu)sebw=j)74 em 
Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3.12), no entanto há o conforto expresso 
por Pedro às Igrejas perseguidas “...o Senhor sabe livrar da provação [peirasmo/j 
= “tentação”] os piedosos (eu)sebh/j)...” (2Pe 2.9). 
A piedade não pode estar dissociada da fé que confessa que Deus é o autor 
de todo o bem. Portanto podemos nEle descansar sendo conduzidos pela Sua 
Palavra.75
A reflexão teológica deve ser sempre um prefácio à ação76 sob a influên-
cia modeladora do Espírito que nos instrui pelo Evangelho. “Uma igreja que só 
reflete e não atua é semelhante ao exército que passa o tempo fazendo manobras 
dentro do quartel”.77 A nossa reflexão e ação devem estar sempre acompanhadas 
e dominadas pela oração fervorosa e sincera, “desvenda os meus olhos, para que 
eu contemple as maravilhas da tua lei” (Sl 119.18).78 “A fé envolve a verdade de 
Deus (doutrina), encontro com Deus (culto) e servir a Deus (vida). A insepara-
bilidade desses três elementos é vista repetidas vezes nas Escrituras e na história 
do povo de Deus”.79
74 Este advérbio só ocorre em dois textos do Novo Testamento: 2Tm 3.12; Tt 2.12.
75 Consultar referência.
76 “Para aquele que é intelectualmente dotado, é muito mais fácil ser um cristão no campo do pensamento 
do que naquele comportamento prático; e ainda o bom teólogo sabe muito bem que o que realmente 
conta diante de Deus não é simplesmente o que alguém pensa, mas o que alguém pensa com tal fé que se 
torna ato. Porque somente essa fé ‘que atua pelo amor’ é considerada” (BRUNNER, E. Dogmática, São 
Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 119-120).
77 Consultar referência. 
78 “A oração é sempre necessária como instrução (...). Transmitir conhecimento não basta. É igualmente 
essencial que oremos – que oremos por nós mesmos, para que Deus nos faça receptivos ao conhecimento 
e à instrução; que oremos para sermos capacitados a agasalhar o conhecimento recebido e aplicá-lo; que 
oremos para que não fique só em nossas mentes, e sim que se apegue aos nossos corações, dobre as nossas 
vontades e afete o homem todo. O conhecimento, a instrução e a oração devem andar sempre juntos; 
jamais devem estar separados” (LLOYD-JONES, D. M. As Insondáveis Riquezas de Cristo. São Paulo: 
Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 98).
79 Consultar referência.
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Talvez, aqui, esteja uma das armadilhas mais sutis, pois prezamos a doutrina, 
entendemos ser ela fundamental para a vida cristã, no entanto, nesta justíssima 
ênfase e compreensão, podemos nos esquecer da importância vital da pieda-
de.80 Notemos que não estou dizendo que isso aconteça conosco com frequência 
ou que esse seja o nosso ponto fraco, apenas observo que devemos vigiar nesse 
flanco, para que o inimigo não alcance êxito em seu desígnio destruidor. Paulo fala 
dos “desígnios” de Satanás (2Co 2.11),81 indicando a ideia de que ele tem metas 
definidas, estratégias elaboradas, um programa de ação com variedades de téc-
nicas e opções a serem aplicadas conforme as circunstâncias. Ele emprega toda 
a sua “energia” (2Ts 2.9).82 Nesse texto, fica claro que Satanás se vale de todos os 
recursos a ele disponíveis, contudo, como não poderia ser diferente, amparado 
na “mentira” – que lhe é própria (Jo 8.44) –, para realizar os seus propósitos.
D.M. Lloyd-Jones (1899-1981), assim se expressou:
O ministro do Evangelho é um homem que está sempre lutando em 
duas frentes. Primeiro ele tem que concitar as pessoas a se interessarem 
por doutrina e pela teologia, todavia não demorará muito nisso antes 
de perceber que terá que abrir uma segunda frente e dizer às pessoas 
que não é suficiente interessar-se somente por doutrinas e teologia, que 
você corre o perigo de se tornar um mero intelectualista ortodoxo e 
de ir ficando negligente quanto à sua vida espiritual e quanto à vida da 
Igreja. Este é o perigo que assedia os que sustentam a posição reforma-
da. Essas são as únicas pessoas realmente interessadas em teologia, pelo 
que o diabo vem a eles e os impele para demasiado longe na linha desse 
interesse, e eles tendem a tornar-se meros teólogos e só intelectualmen-
te interessados na verdade (LLOYD-JONES, 1993, p. 22).
80 Consultar referência. 
81 “Para que Satanás não alcance vantagem sobre nós, pois não lhe ignoramos os desígnios (no/hma)” (2Co 
2.11). A palavra traduzida por “desígnio” (no/hma), ocorre cinco vezes no NT., sendo utilizada apenas 
por Paulo: 2Co 2.11; 3.14; 4.4; 10.5; 11.3; Fp 4.7, tendo o sentido de “plano” (Platão, Política, 260d), 
“intenção maligna”, “intrigas”, “ardis”. Com exceção de Fp 4.7, a palavra sempre é usada negativamente no 
NT. No/hma é o resultado da atividade do nou=j (mente); (BEHM, J.; WURTHWEIN, E. nou=j, etc. In: 
Gerhard Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: 
Eerdmans, 1983 (Reprinted), v. 4, p. 960).
82 “Ora, o aparecimento do iníquo é segundo a eficácia (e)ne/rgeia) de Satanás, com todo poder, e sinais, e 
prodígios da mentira” (2Ts 2.9). Satanás atua de forma eficaz na consecução dos seus objetivos: e)ne/rgeia 
(energeia) – “trabalho efetivo” –, de onde vem a nossa palavra “energia”, passando pelo latim, “energîa”. 
Esse substantivo é empregado tanto para Deus (Ef 3.7; 4.16; Fp 3.21; Cl 1.29; 2.12) como para Satanás 
(2Ts 2.9). Estando este subordinado à e)ne/rgeia de Deus (2Ts 2.11). E)ne/rgeia e seus derivados, no NT., 
descreve sempre um poder eficaz em atividade sobre-humana, por meio da qual a natureza de quem a 
exerce se revela (Veja: BARCLAY, W. Palavras Chaves do Novo Testamento, p. 51-57).
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A Teologia não termina em conhecimento teórico e abstrato, antes, se plenifica 
no conhecimento prático e existencial de Deus por intermédio da Sua Revelação 
nas Escrituras Sagradas, mediante a iluminação do Espírito. O teólogo deve ser 
um crente do início ao fim do seu labor teológico. Conhecer a Deus é obede-
cer a Seus mandamentos. “A boa teologia desloca-se da cabeça até o coração e, 
finalmente, até a mão”.83 A Teologia não pode ser um estudo descompromissado 
feito por um transeunte acadêmico; ela é função da Igreja Cristã, dentro da qual 
estamos inseridos. Segundo Brunner (1889-1966).84
Estudamos dogmática como membros da Igreja, com a consciência que 
temos uma incumbência dada por ela um serviço a lhe prestar, devido 
a uma compulsão que pode originar-se somente no seu interior. Pensa-
mento dogmático não é somente pensar sobre a fé, é um pensar crendo. 
Calvino está convencido de que ninguém pode “provar sequer o mais leve gosto 
da reta e sã doutrina, a não ser aquele que se haja feito discípulo da

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