Logo Passei Direto
Buscar

Embriologia Veteriraria

Ferramentas de estudo

Material

Prévia do material em texto

Embriologia veterinária
Poul Hyttel
University of Copenhagen, Denmark
Fred Sinowatz
LMU Munich, Germany
Morten Vejlsted
University of Copenhagen, Denmark
Saunders Elsevier
2
Table of Contents
Cover image
Title page
Copyright
Revisão científica e tradução
Colaboradores
Agradecimentos
Introdução
Prefácio
Capítulo 1: História da embriologia
Capítulo 2: Mecanismos celulares e moleculares do desenvolvimento
embrionário
Desenvolvimento embrionário inicial e períodos gestacionais
Diferenciação
Modelagem
Morfogênese
Modificações epigenéticas e ciclos de vida
Resumo
Capítulo 3: Reprodução comparativa
Puberdade e ciclo estral
Manutenção hormonal da prenhez
Resumo
Capítulo 4: Gametogênese
Células germinativas primordiais
Os cromossomos, a mitose e a meiose
3
Citodiferenciação dos gametas
Resumo
Capítulo 5: Fertilização
Transporte do espermatozoide no trato genital feminino
Capacitação
Interações entre os espermatozoides e a zona pelúcida
Adesão e fusão de espermatozoide e ovócito
Ativação ovocitária
Resumo
Capítulo 6: Clivagem embrionária e blastulação
Clivagens e ativação do genoma
Compactação
Blastulação
Alongamento do blastocisto
Resumo
Capítulo 7: Gastrulação, dobramentos embrionários e formação do celoma
Desenvolvimento do âmnio
Fases iniciais da gastrulação
Formação inicial do mesoderma e endoderma
O ectoderma e seus derivados iniciais
O mesoderma e seus derivados iniciais
O endoderma e seus derivados iniciais
As células germinativas primordiais
Resumo
Capítulo 8: Neurulação
Formação do tubo neural: neurulação primária e secundária
Crista neural
Resumo
4
Capítulo 9: Placentação comparada
Desenvolvimento do concepto peri-implantação
Mudanças no endométrio e reconhecimento materno da prenhez
Classificação da placenta
Diferenças entre as espécies
Prenhez ectópica
Resumo
Capítulo 10: Desenvolvimento do sistema nervoso central e periférico
Placa neural
Tubo neural
Linhagens celulares do sistema nervoso central
Diferenciação histológica do sistema nervoso central
Desenvolvimento da medula espinhal
Desenvolvimento do cérebro
Sistema nervoso periférico
Resumo
Capítulo 11: Olho e orelha
Desenvolvimento do olho
Orelha
Resumo
Capítulo 12: Desenvolvimento das células do sangue, do coração e do sistema
vascular
Formação das células do sangue
O coração
O sistema arterial
O sistema venoso
Circulação antes e após o nascimento
Resumo
5
Capítulo 13: Desenvolvimento do sistema imune
Linfócitos
Órgãos linfoides e tecidos
Resumo
Capítulo 14: Desenvolvimento do sistema gastropulmonar
Cavidades oral e nasal e palato
O intestino anterior
Intestino médio
Intestino posterior
Resumo
Capítulo 15: Desenvolvimento do sistema urogenital
Desenvolvimento do sistema urinário
Desenvolvimento dos órgãos genitais do macho e da fêmea
Resumo
Capítulo 16: Sistema musculoesquelético
O desenvolvimento dos ossos (osteogênese)
Esqueleto axial
Esqueleto apendicular
Crânio
Sistema muscular
Resumo
Capítulo 17: Sistema tegumentar
Epiderme
Derme (cório)
Subcutâneo
Apêndices epidérmicos
Resumo
Capítulo 18: Lista cronológica comparativa do desenvolvimento
6
Capítulo 19: Teratologia
História da teratologia
Princípios gerais
Períodos críticos de suscetibilidade ao desenvolvimento anormal
Causas das malformações
Classificação das malformações
Malformações dos órgãos
Malformações congênitas do sistema cardiovascular
Malformações congênitas do sistema nervoso
Malformações congênitas do sistema urinário
Malformações congênitas do sistema genital
Malformações congênitas do sistema digestivo
Anormalidades congênitas do sistema musculoesquelético
Resumo
Capítulo 20: A galinha e o camundongo como modelos de embriologia
Capítulo 21: Tecnologias em reprodução assistida
Inseminação artificial
Ovulação múltipla e transferência de embriões
Produção in vitro de embriões
Criopreservação de oócitos e embriões
Clonagem e modificações genéticas de embriões através de transferência
nuclear de células somáticas
Células-tronco
Tecnologias de reprodução assistida em seres humanos
Resumo
Índice remissivo
7
8
Copyright
© 2012 Elsevier Editora Ltda.
Tradução autorizada do idioma inglês da edição publicada por Saunders – um
selo editorial Elsevier Limited.
Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998.
Nenhuma parte deste livro, sem autorização prévia por escrito da editora, poderá
ser reproduzida ou transmitida sejam quais forem os meios empregados: eletrônicos,
mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros.
ISBN: 978-85-3525195-1
Copyright © 2010 by Elsevier Limited.
This edition of Essentials of Domestic Animal Embryology, First Edition by Poul
Hyttel, Fred Sinowatz, Morten Vejlsted is published by arrangement with Elsevier
Limited.
ISBN: 978-0-7020-2899-1
Capa
Folio Design
Editoração Eletrônica
Thomson Digital
Elsevier Editora Ltda.
Conhecimento sem Fronteiras
Rua Sete de Setembro, n° 111 – 16° andar 20050-006 – Centro – Rio de Janeiro –
RJ
Rua Quintana, n° 753 – 8° andar 04569-011 – Brooklin – São Paulo – SP
Serviço de Atendimento ao Cliente 0800 026 53 40
sac@elsevier.com.br
Consulte também nosso catálogo completo, os últimos lançamentos e os serviços
exclusivos no site www.elsevier.com.br
Nota
Como as novas pesquisas e a experiência ampliam o nosso conhecimento, pode haver
necessidade de alteração dos métodos de pesquisa, das práticas profissionais ou do tratamento
médico. Tanto médicos quanto pesquisadores devem sempre basear-se em sua própria
experiência e conhecimento para avaliar e empregar quaisquer informações, métodos,
substâncias ou experimentos descritos neste texto. Ao utilizar qualquer informação ou método,
devem ser criteriosos com relação a sua própria segurança ou a segurança de outras pessoas,
incluindo aquelas sobre as quais tenham responsabilidade profissional.
9
Com relação a qualquer fármaco ou produto farmacêutico especificado, aconselha-se o
leitor a cercar-se da mais atual informação fornecida (i) a respeito dos procedimentos
descritos, ou (ii) pelo fabricante de cada produto a ser administrado, de modo a certificar-se
sobre a dose recomendada ou a fórmula, o método e a duração da administração, e as
contraindicações. É responsabilidade do médico, com base em sua experiência pessoal e no
conhecimento de seus pacientes, determinar as posologias e o melhor tratamento para cada
paciente individualmente, e adotar todas as precauções de segurança apropriadas.
Para todos os efeitos legais, nem a Editora, nem autores, nem editores, nem tradutores,
nem revisores ou colaboradores, assumem qualquer responsabilidade por qualquer efeito
danoso e/ou malefício a pessoas ou propriedades envolvendo responsabilidade, negligência
etc. de produtos, ou advindos de qualquer uso ou emprego de quaisquer métodos, produtos,
instruções ou ideias contidos no material aqui publicado.
O Editor
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES
DE LIVROS, RJ
H999e
Hyttel, Poul
Embriologia veterinária / [Poul Hyttel, Fred Sinowatz, Morten Vejlsted];
[tradução Antônio Chaves de Assis Neto … et al.]. - Rio de Janeiro : Elsevier, 2012.
455p. : il. ; 25 cm Tradução de: Essentials of domestic animal embryology Inclui
bibliografia e índice ISBN 978-85-3525195-1
1. Animais domésticos - Embriologia. 2. Embriologia veterinária. I. Sinowatz,
Fred, 1929-2008. II. Vejlsted, Morten 12-1874. CDD: 636.089264 CDU: 636.09:612.64
10
Revisão científica e tradução
SUPERVISÃO DA REVISÃO CIENTÍFICA
Antônio Chaves de Assis Neto
Professor-doutor do Departamento de Cirurgia (Setor de Anatomia) da Faculdade
de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Universidade de São Paulo (USP)
Mestre e Doutor em Anatomia dos Animais Domésticos e Silvestres pela USP
Pós-doutor pela Universidade da Califórnia, Davis – Estados Unidos Felipe
Perecin
Professor-doutor do Departamento de Ciências Básicas da Faculdade de
Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP
Médico Veterinário peladorsalmente e encerram o disco
embrionário na cavidade amniótica.
Após a gastrulação, os três folhetos germinativos diferenciam-se em diversos
tipos celulares e determinam a formação do arcabouço da maioria dos sistemas
orgânicos, definindo o final do período embrionário (Fig. 2-2). O elevado número de
tipos celulares derivados dos folhetos germinativos formados na gastrulação requer,
obviamente, um intrincado sistema de organização e diferenciação celular para criar
41
um organismo completo, com seus diferentes, mas interdependentes, tecidos e órgãos.
Os diferentes mecanismos que regulam o desenvolvimento embrionário não devem
ser vistos como eventos isolados, mas novamente, por conveniência, os processos de
diferenciação, modelagem e morfogênese serão descritos separadamente a seguir.
Fig. 2-2 Diferenciação de zigoto até a formação dos tecidos corpóreos.
O período embrionário é seguido pelo período fetal, o qual se estende até o
nascimento, e inclui o crescimento, maturação e remodelagem dos sistemas
42
corpóreos. O desenvolvimento de cada um dos sistemas corpóreos, coletivamente
referenciado como “embriologia especial”, será discutido nos capítulos subsequentes.
De modo geral, a maioria das perdas embrionárias ocorre no período embrionário
inicial. Esta é também a fase em que os embriões estão mais suscetíveis aos agentes
teratogênicos (Cap. 19).
Diferenciação
O corpo de um mamífero adulto é composto por mais de 230 tipos celulares distintos,
todos originados de uma única célula, o óvulo fertilizado ou zigoto. O processo pelo
qual tipos celulares especializados desenvolvem-se de células menos especializadas é
conhecido como diferenciação celular. Em geral, um evento que precede a
diferenciação celular é o comprometimento celular, o qual, por sua vez, pode ser
dividido em uma fase lábil e reversível denominada especificação celular seguida de
uma fase irreversível denominada determinação celular. Uma vez que a célula
tenha passado pelo processo de “determinação” o seu destino está fixado e,
irrevogavelmente, sofrerá diferenciação.
A diferenciação celular é essencialmente regulada mediante diferenças na
expressão gênica. A diferenciação das células embrionárias de uma origem comum
para gradualmente formar tipos celulares distintos ocorre similarmente a um curso de
água que desce a encosta de uma montanha e ramifica-se diversas vezes até atingir a
base (Figs. 1-4 e 2-2). E da mesma forma que uma folha que cai na correnteza desce a
encosta por um único trajeto, também o faz uma célula particular, que segue um
único trajeto durante a diferenciação. Entretanto, tanto para a folha como para a
célula, numerosas decisões são tomadas ao longo do caminho até atingir o destino
final. Assim, a diferenciação celular durante o desenvolvimento embrionário envolve
diversos pontos de ramificação nas quais linhagens celulares dividem-se e as decisões
sequenciais tomadas ao longo deste trajeto são determinantes da diferenciação. Como
descrito, estas decisões são, em um primeiro momento, reversíveis (especificação
celular), mas depois tornam-se irreversíveis (determinação celular).
Indução
Em um embrião, as células são frequentemente induzidas a diferenciar-se por uma
sinalização célula a célula. A interação entre duas ou mais células vizinhas é
denominada interação proximal ou indução. Durante o desenvolvimento, a indução
entre células e tecidos, ou entre diferentes tecidos, é crucial para a organização e
diferenciação das células em seus respectivos órgãos e tecidos. Para que a indução
43
ocorra, entretanto, é necessário que as células induzidas (células potencialmente
responsivas) sejam competentes ou receptivas ao sinal indutor. A competência,
representada pela expressão de receptores de superfície, por exemplo, está
frequentemente presente durante apenas um intervalo de tempo determinado. Se não
for induzida durante este período crítico, a célula competente pode iniciar o processo
de morte celular programada ou apoptose, em vez de sofrer diferenciação. A
apoptose deve ser entendida como um mecanismo normal durante o desenvolvimento
embrionário.
O primeiro embriologista a investigar os processos de indução foi Hans Spemann
(Cap. 1). Em embriões anfíbios, ele notou que a formação do cristalino no ectoderma
superficial era somente atingida quando existia interação próxima da vesícula óptica
do cérebro em desenvolvimento com o ectoderma superficial (Fig. 2-3, Cap. 11).
Spemann removeu a vesícula óptica antes que a interação com o ectoderma ocorresse
e como consequência observou que não havia formação do cristalino no ectoderma.
Interessantemente, se a vesícula óptica fosse posicionada abaixo do ectoderma
superficial do tronco, não era possível induzir a formação do cristalino no ectoderma
sobrejacente. Em outras palavras, o ectoderma superficial do tronco não é
competente para formar o cristalino.
Fig. 2-3 Indução da formação do cristalino estudada por Hans Spemann. Em circunstâncias
normais, a ectoderme neural da vesícula óptica induz a formação do cristalino no ectoderma
superficial competente da cabeça (1). Uma vesícula óptica ectopicamente posicionada não é
capaz de induzir a formação do cristalino no ectoderma superficial não competente do tronco
(2). Se a vesícula óptica é removida, não há indução da formação do cristalino (3). Outros
44
tecidos transplantados abaixo do ectoderma superficial competente da cabeça não induzem a
formação do cristalino (4).
Outro exemplo de indução é a geração do sistema nervoso pela indução do
neuroectoderma (Fig. 2-4, Cap. 8). Células iniciais do ectoderma podem tanto
diferenciar-se em ectoderma superficial (e deste em epiderme) como em
neuroectoderma (e deste formar o sistema nervoso). A princípio, as células iniciais do
ectoderma são não comprometidas (ou neutras) e capazes de diferenciar-se em
qualquer direção. Entretanto, sinais oriundos da notocorda (uma estrutura mediana
das espécies vertebradas que aparece durante a gastrulação, Cap. 7) induzem células
ectodérmicas sobrejacentes a diferenciar-se no neuroectoderma. Particularmente, a
molécula sinalizadora conhecida como Sonic hedgehog (Shh) desempenha papel
crucial neste processo. Células ectodérmicas que não estão na posição mediana do
embrião normalmente não recebem sinais indutores e formam o ectoderma
superficial. Experimentalmente demonstrou-se que: a remoção da notocorda leva à
formação exclusiva do ectoderma superficial.; já o posicionamento da notocorda em
uma posição que não a mediana induz à formação de neuroectoderma ao invés de
ectoderma superficial; e finalmente o ectoderma mediano removido da influência da
notocorda subjacente forma ectoderma superficial. Esses exemplos ilustram que
durante a especificação celular o destino da diferenciação celular pode ser alterado
pela modificação da posição da célula dentro do embrião. Todavia, uma vez ocorrido
a determinação celular, a plasticidade é perdida.
45
Fig. 2-4 O desenvolvimento inicial do sistema nervoso como um modelo de diferenciação,
modelagem e morfogênese. Diferenciação: Sonic hedgehog (Shh) secretado da notocorda
induz a formação do neuroectoderma sobrejacente. Ainda durante a indução, um gradiente
desta molécula está envolvido na determinação da estrutura do tubo neural por uma
modelagem em zonas dorsoventrais pela expressão dos fatores de transcrição Pax 6
(ventralmente) e Pax 3 e 7 (dorsalmente). Modelagem: Shh derivado da notocorda (conforme
já mencionado) e TGF-β do ectoderma superficial estão envolvidos na modelagem dorsoventral
do tubo neural resultando na geração subsequente de fatores de transcrição que controlam a
modelagem fina das diferentes camadas aferentes (dorsais) e eferentes (ventrais) de neurônios.
Morfogênese: a alteração no formato de uma placa neural achatada para um tubo neural é
causada pela formação de pontos de dobramento nos quais as células tornam-se constritas na
porção apical e a proliferação celular do ectoderma superficial nas margens da placa neural
empurram as laterais uma contra a outra.Células da crista neural deixam o tubo neural nos
pontos de dobramento para formar outras estruturas.
Modificado de Strachan e Read (2004).
46
Moléculas sinalizadoras, como a molécula Sonic hedgehog, que atuam entre
células com pequena distância são conhecidas como fatores parácrinos ou
morfógenos. Muitos desses, envolvidos na indução, estão também envolvidos na
criação de padrões morfológicos nas células embrionárias (veja a seguir). Quatro
famílias principais destas moléculas sinalizadoras são particularmente importantes:
• A família dos fatores de crescimento derivados dos fibroblastos (fibroblast
growth factor – FGF), que inclui mais de 20 proteínas.
• A família Hedgehog, incluindo as proteínas codificadas pelos genes Sonic
hedgehog (Shh), Desert hedgehog (Dhh) e Indian hedgehog (Ihh).1
• A família Wingless (Wnt), que contém ao menos 15 proteínas, as quais
interagem com receptores transmembrana conhecidos como proteínas Frizzled.
• A superfamília do fator de crescimento transformador-β (transforming growth
factor – TGF-β), que inclui ao menos 30 moléculas, tais como as famílias do TGF-
β, da ativina e das proteínas ósseas morfogenéticas (bone morphogenetic
protein – BMP), bem como as proteínas nodal, fator neurotrófico derivado da
glia (GDNF), inibina e substância inibitória mülleriana (MIS).
Potencial celular e genômico
O zigoto e as primeiras gerações de blastômeros possuem potencial de
desenvolvimento, ou potência, equivalentes. Na realidade, cada uma destas células
é capaz, independentemente das demais, de dar origem a todos os tipos celulares que
compõem o embrião propriamente dito, bem como às células que formam as
membranas extraembrionárias e a porção embrionária da placenta. Esta
característica celular é conhecida como totipotência celular. Nos animais
domésticos, totipotência celular foi demonstrada pela primeira vez em ovelhas pelo
cientista dinamaquês Steen Willadsen. Ele isolou blastômeros de embriões ovinos
após as primeiras clivagens e deles produziu gêmeos e quadrigêmeos após
transferências para ovelhas receptoras. De modo figurativo, totipotência celular
corresponde ao início da correnteza na Figura 1-4. Em pouco tempo, entretanto,
iniciam-se as ramificações e as células embrionárias tornam-se mais e mais restritas
no seu potencial de desenvolvimento (ou seja, elas perdem potência). Como descrito
anteriormente neste capítulo, subpopulações de células embrionárias, como a MCI e o
epiblasto, mantém a capacidade de formar todos os tecidos do embrião propriamente
dito, mas perdem a capacidade de formar tecidos extraembrionários. Essa
característica é conhecida como pluripotência. No entanto, experimentos com
células-tronco embrionárias (CTEs) tem desafiado este conceito demonstrando que
47
CTEs, que são derivadas in vitro da MCI, podem originar trofectoderma.
A geração da ovelha clonada Dolly, em 1996, por Wilmut e colegas, pela
introdução de uma célula diferenciada da glândula mamária dentro de um ovócito
cujo genoma havia sido removido, demonstrou que até mesmo uma célula
diferenciada possui algum tipo de totipotência (Cap. 21). Neste contexto é
importante diferenciar totipotência celular de totipotência genômica. Assim, o
zigoto e os primeiros blastômeros possuem totipotência celular, uma vez que são por
si só capazes de originar tanto o embrião por completo como todos os tecidos
extraembrionários. A célula da glândula mamária, por sua vez, possui totipotência
genômica; a célula pode formar todos os tecidos, mas apenas com o auxílio do
aparato citoplasmático e reprogramação genômica provida pelo citoplasma do
ovócito.
Após a gastrulação (Cap. 7), a pluripotência permanece apenas nas células da
linhagem germinativa, uma vez que as demais células embrionárias diferenciam-se
em um dos três folhetos germinativos: o ectoderma, o mesoderma e o endoderma.
Células em cada um desses folhetos germinativos somáticos são consideradas
multipotentes e, em geral, possuem distintos potenciais de desenvolvimento. Ao
final, células em cada um dos folhetos germinativos dão origem a células
progenitoras unipotentes tecido-específicas ou células precursoras (classicamente
designadas em histologia pelo sufixo: -blastos) capazes de produzir apenas tipos
específicos de célula diferenciada. A linhagem germinativa masculina, ao menos em
camundongos, pode, entretanto, albergar células-tronco pluripotentes uma vez que a
espermatogênese é contínua. No entanto, na maioria das vezes as células de uma
determinada linhagem atingem um estágio final de diferenciação no qual elas se
tornam completamente maduras e não mais se dividem; neste momento elas estão
terminantemente diferenciadas. Para manter a capacidade regenerativa de órgãos
e tecidos, entretanto, algumas células mantêm-se plásticas, formando um conjunto de
células-tronco somáticas unipotentes (ou mesmo multipotentes) que podem ser
recrutadas. As células-tronco hematopoiéticas e as células-tronco mesenquimais da
medula óssea adulta são exemplos de células-tronco somáticas.
Controle molecular da diferenciação
No nível molecular, diversas vias complexas estão envolvidas nas decisões tomadas
ao longo dos processos de diferenciação celular. Dois dos fatores-chaves que
participam desse processo são:
• Alterações epigenéticas (cromatina). Alterações epigenéticas resultam em
padrões estáveis (ou seja, herdáveis) de expressão gênica nas células
48
descendentes de qualquer linhagem celular. Conforme mencionado
anteriormente, a constituição genética (ou seja, a combinação das sequências de
DNA) não é alterada durante a diferenciação; todas as células descendentes do
zigoto originam-se de divisões mitóticas e, portanto, devem possuir a mesma
informação genética. Uma exceção ocorre no desenvolvimento dos linfócitos nos
quais ocorrem rearranjos genéticos. Porém, diversos mecanismos epigenéticos,
de um modo rígido e bem orquestrado, controlam como os genes são
sequencialmente expressos durante o desenvolvimento embrionário de modo a
governar os mecanismos de diferenciação. Os três mecanismos epigenéticos mais
importantes são: metilação do DNA, pelo qual a cromatina de algumas regiões
do genoma torna-se altamente condensada e transcricionalmente inativa (veja a
seguir); modificações nas proteínas histonas incluindo a acetilação das
histonas, que comumente leva a uma conformação mais relaxada da cromatina
permitindo a transcrição; e regulação gênica por polycomb-trithorax
(operando, p. ex., nos genes Hox descritos adiante), que modificam a estrutura
da cromatina em conformações transcricionalmente reprimidas (Polycomb) ou
ativas (trithorax). Sabe-se que pelo menos os processos de metilação do DNA e
modificação das proteínas histonas estão associados, gerando um poderoso
mecanismo de silenciamento gênico de longo prazo.
• Fatores de transcrição. A presença de fatores de transcrição estáveis ativa a
expressão de genes importantes para o desenvolvimento. Ao longo de quase a
totalidade deste livro, alguns dos principais fatores de transcrição atuantes nos
mais diferentes aspectos moleculares do desenvolvimento embrionário são
apresentados em quadros. Incluindo os principais genes Hox, descritos adiante.
Modelagem
Modelagem é o processo pelo qual células embrionárias organizam-se em tecidos ou
órgãos. Embora a diferenciação dê origem a células com estrutura e função
especializada, esse processo isoladamente não forma um organismo; as células
diferenciadas necessitam ser organizadas espacialmente em três dimensões com uma
relação muito bem definida entre elas. Todos os embriões mamíferos tendem a seguir
eixos básicos de planos corpóreos gerando os eixos craniocaudal, dorsoventral e
proximodistal. O eixo dorsoventral já está presente no blastocisto, com a MCI
posicionada em um polo (Cap. 6). A formação do eixo craniocaudal ocorre na
gastrulação (Cap. 7), enquanto que a formação do eixo proximodistal é adiada até a
formação dos membros (Cap. 16).
Modelagem é a consequência da expressão regional de genes que podem ser
49
determinados pela açãode gradientes de moléculas sinalizadoras. Células-alvo
próximas da fonte geradora de moléculas sinalizadoras estão expostas a maior
concentração de sinalizadores que aquelas mais distantemente localizadas. Moléculas
sinalizadoras que atuam desta maneira são conhecidas como morfógenos. Os eixos
embrionários craniocaudal e proximodistal são modelados pelos gradientes
morfogenéticos conhecidos em maior ou menor extensão.
Um exemplo de modelagem pela expressão gênica regional controlada por
gradientes de moléculas sinalizadoras é a formação do tubo neural (Fig. 2-4). Nesse
contexto, a expressão dos genes Sonic hedgehog originada da notocorda (que é
também ativo durante a indução do neuroectoderma) e TGF-β originada do
ectoderma superficial está envolvida na determinação inicial da modelagem
dorsoventral do tubo neural que resulta na geração sequencial de fatores de
transcrição os quais controlam de modo fino a modelagem das diferentes camadas
aferentes (dorsais) ou eferentes (ventrais) de neurônios.
Genes homeóticos
Outro bom exemplo de expressão gênica regional resultando em modelagem é
representado pelos genes homeóticos da mosca das frutas, conhecidos como genes
Homeobox (ou Hox) nos mamíferos. Na mosca das frutas, Drosophila melanogaster,
esses genes são originalmente associados à geração da identidade posicional das
células ao longo do eixo craniocaudal. A manipulação artificial desses resulta em
alteração no desenvolvimento de todos os segmentos corpóreos. No mutante
Antennapedia, por exemplo, observou-se o crescimento de pernas em vez de antenas
na cabeça. Portanto, os genes homeóticos atuam governando a diferenciação celular
em segmentos ou regiões inteiras do corpo. Os estudos com drosófilas mutantes
revelaram dois agrupamentos de genes homeóticos localizados em um único
cromossomo e que codificam fatores de transcrição com homeodomínios (que se
refere ao sítio de ligação ao DNA). Esses genes são expressos ao longo do eixo
craniocaudal, dividindo o corpo em zonas discretas (Fig. 2-5). Genes similares são
encontrados nos mamíferos. Nos camundongos e nos humanos, os genes Hox estão
reunidos em quatro agrupamentos denominados Hox-A, Hox-B, Hox-C e Hox-D, cada
um deles localizado em um cromossomo particular. Verificou-se, em camundongos ao
menos, que os genes Hox localizados na extremidade 3’ de cada um dos
agrupamentos são expressos nas fases mais iniciais do desenvolvimento e controlam
a modelagem das porções anteriores dos corpos, enquanto que os genes localizados
nas porções mais próximas da extremidade 5’ são expressos mais tardiamente e
controlam a formação das porções mais posteriores do corpo. Nos mamíferos, a
expressão dos genes Hox ocorre inicialmente durante a gastrulação, começando pelos
50
genes da posição 3’. Portanto, temporal e espacialmente, os genes Hox controlam o
desenvolvimento dos segmentos corpóreos da porção anterior para a posterior. Em
contraste ao que ocorre nas drosófilas, há sobreposição na expressão dos genes Hox
nos mamíferos. Assim, de uma combinação particular da expressão de genes Hox
oriundos dos quatro agrupamentos em cada região ao longo do eixo do corpo as
células obtêm a sua identidade posicional específica. Esse padrão de identidade é
conhecido como o “código Hox”.
Fig. 2-5 Disposição dos genes homeóticos na Drosophila e dos genes Hox no camundongo. A
homologia entre os genes da Drosophila e aqueles do camundongo em cada agrupamento é
indicada pelo código de cores. Um gradiente de ácido retinoico (AR) está envolvido na
definição do “código Hox”.
Modificado de Sadler (2006).
O “código Hox” parece ser induzido pela exposição de células pluripotentes ou
multipotentes a um gradiente de moléculas sinalizadoras. Um gradiente de ácido
51
retinoico, e alguns dos seus derivados imediatos, está provavelmente envolvido neste
processo. Durante a gastrulação, a involução2 das células que formam o mesoderma e
o endoderma ocorre pelas regiões organizadoras no sulco primitivo estendendo-se em
direção à extremidade posterior do epiblasto (Cap. 7). Cada região organizadora
impõe um “código Hox” às células sofrendo involução. No camundongo, três regiões
organizadoras foram identificadas: a região organizadora inicial da gástrula, a região
organizadora intermédia da gástrula e a região organizadora tardia da gástrula. A
região organizadora tardia é também conhecida como nodo primitivo. Em associação
do centro sinalizador anterior e o endoderma visceral anterior (EVA), os centros
organizadores da gástrula formam gradientes anteroposteriores de moléculas
sinalizadoras. Esses gradientes induzem a expressão de determinados genes Hox,
determinando o previamente mencionado “código Hox”.
Morfogênese
Morfogênese é o mecanismo pelo qual tecidos e órgãos ganham forma. Assim,
enquanto modelagem consiste na reunião de células em regiões que formarão os
órgãos, a morfogênese consiste na aquisição da forma interna e completa pelos
órgãos. Portanto, durante a morfogênese estruturas como tubos, folhetos e agregados
densos de células são formados em resposta a diferentes taxas de proliferação celular,
alterações no tamanho e/ou formato das células, fusão celular e/ou alterações nas
propriedades de adesão celular, por exemplo. A formação do tubo neural durante a
neurulação é um exemplo no qual alterações locais no formato celular e na
proliferação celular aproximam grupos celulares distantes para formar uma nova
estrutura (Fig. 2-4, Cap. 8). A transformação de uma placa neural achatada em um
tubo neural fechado é causada tanto pela formação de pontos de dobramento, nos
quais as células sofrem constrição apical devido a alterações no formato celular, bem
como pela proliferação celular nas margens empurrando os dois lados um contra o
outro. Outro exemplo de morfogênese é encontrado no epiblasto durante o processo
de gastrulação: uma única camada de células é convertida em três folhetos
germinativos somáticos e na linhagem celular germinativa pela involução celular
(Cap. 7). Um último exemplo de morfogênese é a morte celular programada
(apoptose) nas membranas das mãos e dos pés criando espaços entre os dígitos (Cap.
16).
Modificações epigenéticas e ciclos de vida
A metilação do DNA é provavelmente o mais compreendido dos mecanismos
52
epigenéticos que atuam no desenvolvimento animal (Fig. 2-6). Em geral, a metilação
do DNA está relacionada à inibição da expressão gênica. Nas células germinativas
primordiais recém-formadas, o DNA está altamente metilado assim como nas suas
progenitoras epiblásticas. Entretanto, no momento em que as células germinativas
adentram a crista genital, o DNA torna-se amplamente desprovido de metilação.
Durante a gametogênese subsequente, quando ovócitos e espermatozoides são
formados da linhagem derivada das células germinativas primordiais, novas
metilações do DNA são estabelecidas, em um processo conhecido com metilação de
novo. Essa desmetilação e remetilação ampla do genoma representa o primeiro
ciclo da reprogramação epigenética necessária para o desenvolvimento da
próxima geração. É importante ressaltar que ocorre metilação dependente do sexo em
alguns loci específicos (que posteriormente levarão à expressão monoalélica de alguns
genes particularmente importantes para o desenvolvimento embrionário), formando
a base para o imprinting genômico. Aparentemente, o gameta masculino torna-se
mais metilado que o feminino.
Fig. 2-6 Padrões globais de metilação do DNA. Um primeiro ciclo de desmetilação e
remetilação do DNA que inclui os genes imprinted é observado durante o desenvolvimento dos
gametas das células germinativas primordiais do embrião. Um segundo ciclo de desmetilação e
remetilação é observado após a fertilização quando o genoma paterno é ativamente
desmetilado. Neste segundo ciclo de reprogramação epigenética, os genes imprinted não sofrem
desmetilação. A partir do momento em que ocorre desenvolvimento do blastocisto, o genoma é
remetilado.
Modificado de Dean et al. (2003).
O segundo ciclo de reprogramação epigenética ocorre após afertilização. Em
espécies tais como camundongo, rato, porco e bovinos, o genoma paterno é
claramente mais lábil que o materno e inicia um processo de desmetilação ativa tão
53
logo o zigoto é formado. Aparentemente esse fenômeno não se aplica a coelhos e
ovelhas. No entanto, próximo do estágio de mórula e blastocisto inicial, ambos os
genomas parentais estão igualmente desmetilados. De modo interessante, e de
grande importância para o desenvolvimento, os genes imprinted metilados não são
afetados por esse ciclo de desmetilação e permanecem metilados. Os imprintings são
somente apagados e redefinidos durante a gametogênese. O fato de os genes
imprinted metilados manterem sua metilação sexo-específica permite a expressão
monoalélica sexo-específica desses genes, o que é de fundamental importância para o
desenvolvimento embrionário e, em especial, para o desenvolvimento placentário. O
segundo ciclo de desmetilação é rapidamente sucedido por um ciclo de metilação de
novo que coincide aproximadamente com a diferenciação dos blastômeros em
trofectoderma e MCI. Curiosamente, a extensão da metilação é, em algumas espécies,
mais pronunciada nas células pluripotentes que formarão a MCI (e posteriormente o
epiblasto) do que naquelas que formarão o trofectoderma.
A inativação do cromossomo X corresponde à inativação seletiva de alelos de
um dos dois cromossomos X das fêmeas gerando um mecanismo de compensação de
dose ou hemizigose funcional para os genes ligados ao X. O cromossomo X inativo
pode ser visto como o corpúsculo de Barr, uma fração de cromatina condensada
situada ao longo do interior do envelope nuclear das fêmeas dos mamíferos. O
processo de inativação é iniciado por um único gene, o XIST, que é expresso apenas
no cromossomo X inativo. O XIST é um dos poucos genes imprinted ligados ao X. O
processo de inativação inicia-se durante o período de metilação de novo do segundo
ciclo de reprogramação epigenética que ocorre no estágio de blastocisto. Na MCI, a
inativação do cromossomo X herdado do pai ou da mãe ocorre de modo aleatório. No
entanto, no trofectoderma o alelo do XIST herdado da mãe é preferencialmente
reprimido levando à inativação do cromossomo X de origem paterna. Isso ilustra o
fenômeno conhecido como conflito dos genomas parentais ou “a batalha dos
sexos”: no trofectoderma e outros tecidos extraembrionários há uma preferência pela
expressão de genes3 de origem paterna enquanto que nas células que formarão o
embrião propriamente dito há preferência pela expressão de genes maternos.
Nas células germinativas primordiais, que transmitem os genes às próximas
gerações, os imprints genômicos têm que ser apagados e o cromossomo X inativo deve
ser reativado de modo a possibilitar que cromossomos X ativos sejam repassados a
todos os gametas.
Resumo
A gestação compreende os períodos embrionário e fetal. Durante o período
54
embrionário, o zigoto é gerado pela fertilização e as clivagens resultam na formação
da mórula. Subsequentemente, no blastocisto forma-se o trofectoderma e a massa
celular interna (MCI). A MCI dá origem ao hipoblasto e ao epiblasto
estabelecendo o disco embrionário bilaminar após a eclosão da zona pelúcida. A
seguir, o epiblasto inicia o processo de gastrulação resultando na formação do disco
embrionário trilaminar com três folhetos da linhagem germinativa somática
(ectoderme, mesoderme e endoderme) além das células germinativas
primordiais. Os três folhetos germinativos participam na formação dos órgãos.
Durante o período fetal, que se estende até o termo, os sistemas orgânicos crescem,
amadurecem e tornam-se remodelados. O desenvolvimento é um processo gradual
regulado por diferentes processos incluindo os princípios gerais de proliferação e
crescimento celular bem como processos mais específicos do desenvolvimento
embrionário tais como diferenciação celular, modelagem e morfogênese.
Diferenciação celular pode ser entendida como uma série de decisões sequenciais
que guiam as células pelas etapas de especificação reversível até a determinação
irreversível. As células podem ser induzidas a diferenciarem-se pelo contato célula a
célula ou por moléculas sinalizadoras, os morfógenos. As células diferenciadas são
agrupadas e relacionam-se tridimensionalmente para formar tecidos e órgãos por
meio dos processos de modelagem. Durante a modelagem, morfógenos podem atuar
de modo complexo, produzindo gradientes que resultam em zonas de diferenciação
celular distintas. A modelagem ocorre por ativações regionais na expressão de genes,
dentre os quais um bom exemplo é a expressão dos genes mamíferos Hox na definição
do eixo craniocaudal do embrião. Alterações finais no formato geral de tecidos e
órgão são obtidas pela morfogênese.
Leituras adicionais
Allegrucci C., Thurston A., Lucas E., Young L. Epigenetics and the germline. Reproduction. 2005;129:137–
149.
Dean W., Santos F., Reik W. Epigenetic reprogramming in early mammalian development and following
somatic cell nuclear transfer. Cell Dev. Biol. 2003;14:93–100.
Garcia-Fernàndez J. The genesis and evolution of the homeobox gene clusters. Nat. Rev. Gen. 2005;6:881–
892.
Gilbert S.F. Developmental Biology, 7th edn. Sinauer Associates, Inc., 2003.
Gjørret J.O., Knijn H.M., Dieleman S.J., Avery B., Larsson L.-I., Maddox-Hyttel P. Chronology of apoptosis in
bovine embryos produced in vivo and in vitro. Biol. Reprod. 2003;69:1193–1200.
Gjørret J.O., Fabian D., Avery B.M., Maddox-Hyttel P. Active caspase-3 and ultrastructural evidence of
apoptosis in spontaneous and induced cell death in bovine in vitro produced preimplantation embryos.
Mol. Reprod. Dev. 2007;74:961–971.
55
Noden D.M., de Lahunta A. The Embryology of Domestic Animals. Williams & Wilkins; 1985.
Pearson J.C., Lemons D., McGinnis W. Modulating Hox gene functions during animal body patterning. Nat.
Rev. Gen. 2005;6:893–904.
Robb L., Tam P.P.L. Gastrula organiser and embryonic patterning in the mouse. Seminars in Cell &
Developmental Biology. 2004;15:543–554.
Sadler T.W. Langman’s Medical Embryology, 10th edn. Lippincott Williams & Wilkins, 2006.
Strachan T., Read A.P. Human Molecular Genetics, 3rd edn. Garland Science, 2004.
Swales A.K.E., Spears N. Genomic imprinting and reproduction. Reproduction. 2005;130:389–399.
Wilmut I., Schnieke A.E., McWhir J., Kind A.J., Campbell K. Viable offspring from fetal and adult
mammalian cells. Nature. 1997;385:810–814.
Young L., Beaujean N. DNA methylation in the preimplantation embryo: The different stories of the mouse
and sheep. Anim. Reprod. Sci. 2004;82–83:61–78.
1 Nota da Tradução: os genes “hedgehog” são assim chamados, pois, em drosófilas, a sua mutação leva à formação de projeções
puntiformes nos embrião, lembrando o aspecto de um porco-espinho. Já o sonic hedgehog foi um gene da mesma família nomeado em
analogia ao personagem do jogo de videogame.
2 Nota da Tradução: o processo de involução celular consiste na interiorização de uma camada externa em expansão de modo a recobrir
a superfície interna das células externas remanescentes.
3 Nota da Revisão Científica: leia-se dos genes imprinted já que a expressão dos demais genes do cromossomo X será de origem materna no
trofectoderma.
56
Capítulo 3
Reprodução comparativa
Morten Vejlsted
Este capítulo oferece uma introdução sobre os sistemas regulatórios envolvidos na
reprodução, com um enfoque particular nas fêmeas e nos hormônios da prenhez que
possuem relação direta com a embriologia. Para mais detalhes sobre aspectos mais
gerais da biologia reprodutiva, especialmente no macho, sugestões de leituras
adicionais estão listados no final deste capítulo.
Puberdade e ciclo estral
Os sistemas endócrino e nervoso atuam em conjunto na cascata de eventos que
levam à formação e maturação dos gametas, à fertilização, ao estabelecimento e
manutenção da prenhez, ao nascimento e, finalmente, aos cuidados com a prole.
Esses processos iniciam-se na puberdade. Na fêmea, a puberdade é marcada pelo
início da atividade cíclica regular dos ovários, o que afeta o comportamentode todo
o sistema genital: o ciclo estral nos animais domésticos.
O sistema reprodutivo nas fêmeas consiste em um par de ovários, nos quais os
ovócitos desenvolvem-se, e em um trato genital tubular constituído pelos ovidutos,
útero, vagina e vestíbulo (Fig. 3-1). O oviduto é dividido em uma porção larga em
forma de funil em sua extremidade, o infundíbulo, que recebe o(s) ovócito(s) na
ovulação, uma porção tubular e mais grossa, a ampola, e uma porção longa e mais
fina, o istmo, que se conecta ao útero. Acredita-se que a fertilização ocorra na
transição entre ampola e istmo. O ovário, exceto na égua, é encontrado dentro da
bursa ovariana – uma cavidade formada pela mesossalpinge. Nos animais
domésticos o útero é bicornual, contendo dois cornos uterinos, o corpo uterino e a
cérvix. O corpo uterino é curto na maioria das espécies, mas relativamente longo em
éguas. A cérvix apresenta um ou mais óstios internos voltados ao corpo uterino e
um óstio externo voltado à vagina. O óstio externo forma a proeminente porção
vaginal em ruminantes e em éguas. O canal cervical apresenta pregas
longitudinais. Pregas circulares adicionais são encontradas em ruminantes, e
protusões, os pulvini cervicales, intercalam-se entre si na cérvix da porca. O orifício
57
uretral marca a transição entre a vagina e o vestíbulo, o qual está em continuidade
externamente com a vulva. Na vaca e na égua adultas, os ovários e o útero podem
ser facilmente manipulados por palpação retal, um método extensivamente usado
para o monitoramento do status reprodutivo dos ovários, particularmente em vacas.
Na égua, e menos extensivamente em outras espécies, o status ovariano e o início da
prenhez podem ser facilmente monitorados por ultrassonografia transretal.
Fig. 3-1 Órgãos genitais da porca em aspecto dorsal. O quadro ‘B’ em A é apresentado em
magnificação em B. 1: Corpo uterino; 2: Corno uterino; 3: Pulvini cervicales; 4: Ovário com
folículos antrais; 5: Infundíbulo; 6: Ampola; 7: Ístmo; 8: Ápice do corno uterino. O bastão de
madeira aponta para o óstio abdominal do oviduto.
Antes da puberdade, o desenvolvimento inicial dos gametas femininos, os
ovócitos, dentro dos folículos ovarianos, é regulado mais ou menos de forma
autônoma. Contudo, como será explicado no Capítulo 4, alguns ovócitos pré-púberes
nunca atingem o estágio de desenvolvimento no qual eles estão aptos para serem
58
fertilizados. Depois do início da puberdade, sinais provenientes de certas áreas do
cérebro, incluindo a glândula pineal, hipotálamo e hipófise, estimulam a produção
ovócitos fertilizáveis. Da hipófise anterior (adeno-hipófise), as gonadotrofinas (i.e.,
hormônios estimuladores das células gonadais) FSH (hormônio folículo estimulante) e
LH (hormônio lutenizante) são liberadas. Esta liberação é controlada pelos GnRHs
(hormônios liberadores de gonadotrofinas) que são secretados pelo hipotálamo e
levados para a hipófise anterior pelo sistema porta hipotalâmico-hipofisário. A
secreção de GnRHs, e então FSH e LH, é influenciada por estímulos visuais, olfatórios,
auditivos e táteis do ambiente e também por sistemas de retroalimentação
homeostáticos no próprio animal. O sistema nervoso central somente estará maturo
suficientemente para permitir a integração complexa de todos esses sinais com o
advento da puberdade.
O advento da puberdade precede o desenvolvimento da maturidade física. No
entanto, mesmo sendo fértil, a fêmea na puberdade (sexualmente madura e capaz de
reproduzir) ainda não atingiu sua máxima fertilidade. Os fatores que influenciam o
advento da puberdade incluem idade, peso corporal, raça, nutrição, doenças e, em
algumas espécies, estação do ano e proximidade ao macho. As idades as quais as
espécies domésticas mais comuns atingem a puberdade são listadas na Tabela 3-1.
Tabela 3-1 Idade da puberdade de algumas espécies de animais domésticos
Espécies Idade na puberdade
Bovina 8-18 meses
Equina 10-24 meses
Suína 6-8 meses
Ovina 6-15 meses
Caprina 4-8 meses
Canina 6-20 meses
Felina 5-12 meses
O FSH liberado pela hipófise atinge o ovário pela circulação sistêmica. No
ovário, ele estimula um grupo de folículos em crescimento a desenvolver-se (Cap. 4).
Os estrógenos, que são produzidos pelas células da granulosa e da teca que
delimitam o folículo e circundam o ovócito, exercem retroalimentação positiva na
secreção hipotalâmica de GnRH. Outro efeito principal dos estrógenos é a indução
dos sintomas de estro, e o advento da puberdade nas fêmeas é sempre sinalizado pela
primeira ocorrência de estro ou cio (receptividade sexual). Depois da puberdade, as
fêmeas domésticas entram em uma fase da vida caracterizada por repetidos ciclos
estrais. O ciclo estral é subdividido em proestro, estro, metaestro e diestro (Tabelas
59
3-2, 3-3).
Tabela 3-2 Características das diferentes fases do ciclo estral e anestro
Fase1 Características
Proestro Fase que precede imediatamente o estro. Os principais hormônios produzidos pelos ovários são os estrógenos.
Estro O período (em condições naturais) de aceitação do macho. A ovulação ocorre durante esta fase em todas as espécies
domésticas, com a exceção da vaca onde a ovulação ocorre logo após o término do estro. Os principais hormônios
produzidos pelos ovários, em resposta ao FSH e ao LH, são os estrógenos.
Metaestro Fase subsequente ao estro quando o macho não é mais aceito. Período de formação do corpo lúteo. O principal hormônio
produzido nos ovários é a progesterona.
Diestro Período da maturidade funcional do corpo lúteo. O principal hormônio produzido nos ovários é a progesterona.
Anestro Fase prolongada de descanso sexual na qual o estro é interrompido em algumas espécies. O sistema reprodutivo está em
fase quiescente.
1 As fases de proestro e estro podem ser coletivamente chamadas como fase folicular e as fases de metaestro
e diestro podem ser chamadas de fase luteal.
Tabela 3-3 Características do ciclo estral e do momento da ovulação em espécies de animais
domésticos
Na maioria das espécies, a elevação dos níveis de estrógenos produzidos pelos
folículos ovarianos durante o proestro atinge uma concentração limiar que faz com
que ocorra uma maior secreção de GnRH pelo hipotálamo durante o estro. Atingindo
a hipófise anterior, o GnRH estimula principalmente um pico de secreção de LH
(Fig. 3-2; Tabela 3-4). No ovário, o LH é necessário para a finalização do processo de
maturação do(s) ovócito(s) (Cap. 4) e a liberação dele(s) pelo processo de ovulação.
Entre as espécies domésticas, a gata e a camela sãos as únicas em que o pico de
GnRH que possibilita a ovulação é induzido pela cópula. Além disso, a gata pode
60
continuar apresentando comportamento de estro e aceitando o macho mesmo tendo
entrado na fase de metaestro (veja a seguir).
Fig. 3-2 Eventos ovarianos e concentrações dos hormônios reprodutivos no plasma
sanguíneo durante o ciclo estral em vacas. Durante o estro (E), a produção de estrógenos pelos
folículos em desenvolvimento resultam no pico de LH e, em menor extensão, FSH pela hipófise
levando à ovulação do ovócito (1). Os folículos não ovulados entram em atresia (2) e as células
foliculares do folículo ovulado desenvolvem-se no corpo lúteo (3) secretando progesterona.
Uma nova onda de folículos desenvolve-se (4), mas entra em atresia (5). Uma outra onda de
crescimento folicular produz então o folículo ovulatório (6) para o próximo estro. Se o ovócito
ovulado não for fertilizado não resultando em prenhez, a prostaglandina é liberada pelo
endométrio causando a regressão do corpo lúteo e eventual formação do corpo albicans (7). O
ciclo estral é dividido em estro (E), metaestro (ME), diestro (DE) e proestro (PE).
Tabela 3-4 Hormônios reprodutivos importantes, sua origem e funções principais
Hormônio Origem Função principal
Melatonina Glândula
pineal
Responsável pela sazonalidade em equinos, ovinos, caprinos e felinos.
GnRH Hipotálamo Estimula a secreção de FSH e LH pela hipófise anterior.
FSH Hipófise Estimula o desenvolvimento de folículos no ovário.
61
anteriorLH Hipófise
anterior
Estimula o desenvolvimento e maturação de folículos e ovócitos e suporta a formação e manutenção do
corpo lúteo no ovário. Induz os sintomas de estro.
Estrógenos Folículo
ovariano
Estimula a secreção de GnRH pelo hipotálamo e o número de receptores de GnRH na hipófise anterior.
Progesterona Corpo
lúteo
Prepara o endométrio para a prenhez, mantém a prenhez e diminui a secreção de GnRH pelo
hipotálamo.
Prostaglandina
F2α
Útero Induz a regressão do corpo lúteo.
Em seguida à ovulação, as células que delimitavam o folículo antes da ruptura
dele iniciam o processo de luteinização para a formação do corpo lúteo, e mantêm
esse processo de luteinização sob o efeito contínuo do LH durante o metaestro. O
desenvolvimento do corpo lúteo inicia-se gradualmente algumas horas antes da
ovulação e é marcado pela síntese de progesterona, em vez de estrógenos, pelas
células foliculares. O corpo lúteo formado por estas células depois da ovulação é bem
definido, algumas vezes um pouco cavitário, esférico e de cor amarelada em vacas,
razão pela qual é denominado corpo lúteo. Durante o diestro, a produção de
progesterona pelo corpo lúteo atinge o seu máximo. As funções principais da
progesterona são: primeiro, exercer o efeito de retroalimentação negativa no
hipotálamo, inibindo a liberação de GnRH e, então, um novo recrutamento de
ovócitos para uma nova ovulação; e, segundo, preparar o endométrio para a
prenhez. Se for realizada uma inseminação e a concepção ocorrer, a progesterona é o
principal hormônio responsável pela manutenção da prenhez. No animal não prenhe
(excluindo a gata e a cadela), a vida média do corpo lúteo é relativamente curta; na
ausência do embrião dentro do útero, o endométrio libera prostaglandina-F2α
promovendo a luteólise (regressão do corpo lúteo). O consequente declínio da
progesterona resulta na remoção do bloqueio hipotalâmico da secreção de GnRH e
possibilita o retorno ao ciclo estral.
No útero gestante, a liberação de prostaglandina F2α na corrente sanguínea é
bloqueada, permitindo a persistência do corpo lúteo. Esta inibição na liberação de
prostaglandina é o componente do “reconhecimento materno da gestação” o qual
depende de sinais espécie-específicos produzidos pelo(s) embrião(s) e reconhecido
pelo endométrio (Tabela 3-5; Cap. 9). Em caninos e felinos, o útero aparenta não ter
nenhum efeito na meia vida do corpo lúteo, e o processo de regressão dele nestas
espécies ainda não foi elucidado. Na cadela, o corpo lúteo pode permanecer
funcional por até mais que dois meses. No final da gestação, a progesterona é
também produzida pela placenta (Cap. 9), dando ao corpo lúteo uma função de certa
forma supérflua em algumas espécies.
62
Tabela 3-5 Duração da gestação, período do reconhecimento materno da gestação e número
médio de nascidos em espécies de animais domésticos
As raças domésticas de suínos e bovinos são animais policíclicos não
estacionais, o que significa que porcas e vacas experimentam uma atividade cíclica
recorrente durante o ano, interrompida somente com a prenhez, lactação e condições
patológicas.
Em contraste, a égua, a ovelha, a cabra e a gata são animais policíclicos
estacionais; a atividade cíclica deles é profundamente influenciada pela quantidade
e duração da luminosidade do dia. A percepção das alterações dos períodos diários de
luz é mediada pela glândula pineal que, através da síntese de melatonina e outros
hormônios, influenciam a liberação de GnRH. A égua é um animal com reprodução
em dias longos, o que significa que o período de mais alta atividade cíclica é entre a
primavera e o outono na maioria dos indivíduos. Durante o inverno, as éguas
normalmente entram em anestro. Do mesmo modo, a gata está em anestro no outono
e inicia sua atividade cíclica com o aumento do período diário de luz. Pequenos
ruminantes, por sua vez, são animais com reprodução em dias curtos exibindo
atividade cíclica durante o outono e início do inverno, seguido por um período de
anestro.
A cadela é monocíclica e apresenta longos períodos com um único estro.
Normalmente, um ou dois (algumas vezes três) períodos estrais são observados por
ano, separados por longos períodos de anestro, sem que uma sazonalidade óbvia seja
identificada.
Manutenção hormonal da prenhez
63
A fonte de progesterona, o principal hormônio responsável pela manutenção da
prenhez, varia entre as espécies. Na vaca, a principal fonte é o corpo lúteo durante a
primeira metade da gestação e a placenta entre aproximadamente os dias 120-150
até o dia 250. Na égua, vários corpos lúteos acessórios são formados durante o
segundo mês de gestação e, juntamente com o corpo lúteo original ou “primário”,
produzem progesterona até o final do terceiro mês. A partir desta data, a placenta
assume essa produção até o parto. Na ovelha, os corpos lúteos são a maior fonte
durante o primeiro terço da gestação, mas são substituídos pela placenta após isso.
Em porcas, cabras, cadelas e gatas, os corpos lúteos são a maior fonte de
progesterona durante toda a gestação.
A produção de progesterona pelo corpo lúteo na ausência da prenhez é mais
pronunciada na gata e na cadela na qual, como explicado anteriormente, o útero não
gestante não induz a luteólise mediada por prostaglandina. A maioria das cadelas
experimentam pseudoprenhezes com (exibindo) ou sem (não exibindo) sinais clínicos
durante os períodos de metaestro e diestro. Outro hormônio da hipófise, a prolactina,
é provavelmente responsável por este fenômeno. Na gata, o corpo lúteo também
persiste por um período prolongado na ausência da prenhez. No entanto, durante a
estação de atividade cíclica, a gata retorna ao estro. Os mecanismos regulando a
meia-vida do corpo lúteo na cadela e na gata não são conhecidos.
Resumo
Os órgãos genitais femininos consistem em ovários, ovidutos, útero (subdividido
em cornos, corpo e cérvix), vagina e vestíbulo. Na puberdade, a fêmea entra no
ciclo estral que consiste em proestro, estro, metaestro e diestro. A vaca e a porca
são animais policíclicos não estacionais, a égua, a ovelha, a cabra e a gata são
policíclicos estacionais e a cadela é monocíclica. Nas espécies policíclicas
estacionais e monocíclicas, a ciclicidade é interrompida por longos períodos de
anestro. No proestro, folículos antrais em desenvolvimento sintetizam estrógenos
que estimulam a liberação do pico pré-ovulatório de LH (hormônio luteinizante) e em
menor intensidade a liberação de FSH (hormônio folículo estimulante) durante o
estro subsequente, o qual é caracterizado pela aceitação do macho. O pico de LH
estimula a maturação do ovócito e do folículo, culminando com uma ou mais
ovulações, dependendo da espécie. Durante o período subsequente, o metaestro, o(s)
folículo(s) ovulado(s) desenvolve(m)-se em um ou mais corpos lúteos que sintetizam
progesterona, o hormônio responsável pela preparação do útero para a prenhez. A
produção de progesterona atinge o seu máximo durante o diestro. Se a prenhez é
estabelecida, o corpo lúteo (ou corpos lúteos) permanece(m) funcional(ais), mas se a
64
concepção falhar, a liberação de prostaglandina-F2α pelo endométrio causará a
regressão do corpo lúteo (ou dos corpos lúteos) e o retorno do animal ao proestro.
Leitura adicional
Allen W.R. Maternal recognition and maintenance of pregnancy in the mare. Anim. Reprod. 2005;2:209–223.
Arthur’s Veterinary Reproduction and Obstetrics 2001, 8th edn. Noakes, D.E., Parkinson, T.J. and England,
G.C.W. eds. W. B. Saunders.
Concannon P., Tsutsui T., Shille V. Embryo development, hormonal requirements and maternal responses
during canine pregnancy. J. Reprod. Fert. Suppl. 2001;57:169–179.
Denker H.-W., Eng L.A., Hammer C.E. Studies on the early development and implantation in the cat. II.
Implantation. Proteinases. Anat. Embryol. 1978;154:39–54.
Denker H.-W., Eng L.A., Mootz U., Hammer C.E. Studies on the early development and implantation in the
cat. I. Cleavage and blastocyst formation. Anatomischer Anzeiger. 1978;144:457–468.
Engel E., Klein R., Baumgärtner W., HoffmannB. Investigations on the expression of cytokines in the canine
corpus luteum in relation to dioestrus. Anim. Reprod. Sci. 2005;87:163–176.
Evans H.E., Sack W.O. Prenatal development of domestic and laboratory mammals: Growth curves, external
features and selected references. Anat. Histol. Embryol. 1973;2:11–45.
Holst P.A., Phemister R.D. The prenatal development of the dog: Preimplantation events. Biol. Reprod.
1971;5:194–206.
Patten B.M. Embryology of the pig, 3rd edn. Blakiston: New York, 1948.
Rüsse, I. and Sinowatz, F. (1998): Lehrbuch der Embryologie der Haustiere. 2. Auflage. Parey Buchverlag.
Senger P. Pathways to pregnancy and parturition, 2nd edn. Current Conceptions, Inc., 2003.
65
Capítulo 4
Gametogênese
Poul Hyttel
Durante o processo de fertilização o genoma materno e o paterno unem-se no interior
do óvulo unicelular fecundado, o zigoto. Para conduzir os dois genomas ao sítio de
união na tuba uterina, células especializadas conhecidas como gametas se
desenvolveram. O gameta materno, o ovócito1, é a maior célula do organismo e
possui uma competência própria para iniciar o desenvolvimento embrionário uma
vez que tenha passado por um processo conhecido como ativação, descrito no
Capítulo 5. Essa habilidade particular do ovócito é utilizada biotecnologicamente,
especialmente na clonagem por transferência de núcleo. A clonagem envolve a
remoção do genoma do ovócito e depois fazendo com que o citoplasma restante inicie
o desenvolvimento embrionário controlado pelo genoma da célula doadora do núcleo
que foi introduzido pela fusão com o ovócito enucleado (Cap. 21).
O gameta paterno, o espermatozoide, por sua vez, desenvolveu a habilidade de
deslocamento e penetração nos revestimentos do ovócito; são essas qualidades
dinâmicas do espermatozoide que o tornam apto a transportar o genoma paterno do
macho à fêmea.
A seguir iremos focar em como esses gametas especializados desenvolvem-se e
como seus genomas são preparados para a fertilização e, ainda, como a arquitetura
particular dessas células é alcançada. A primeira fase desse processo envolve a
colonização da gônada em desenvolvimento pelas células germinativas
primordiais das quais se desenvolvem as células germinativas. O processo
subsequente, pelo qual os gametas maternos e paternos são produzidos das células
germinativas primordiais, é chamado de gametogênese. A gametogênese inclui a
meiose, para possibilitar a recombinação do material genético e para a redução do
número de cromossomos do complemento diploide para o haploide, e a
citodiferenciação, para alcançar a estrutura celular característica do gameta
feminino ou masculino.
Células germinativas primordiais
66
As células germinativas primordiais são os predecessores dos gametas femininos e
masculinos. Quando o embrião diferencia-se nos estratos (camadas) germinativos
somáticos (ectoderma, mesoderma e endoderma) durante o processo de gastrulação
(Cap. 7), a maior parte das células perde sua pluripotência (a habilidade de dar
origem a todos os tipos celulares do organismo mamífero). No entanto, um grupo de
células permanece pluripotente. Essas são as células germinativas primordiais as
quais, ao menos em suínos, se tornam primeiro identificáveis na borda posterior do
disco embrionário durante a gastrulação. Desse local, elas se movem para o
mesoderma e endoderma recém-formados (Fig. 4-1). Poucos dias depois as células
germinativas primordiais são encontradas no mesoderma visceral circundando o saco
vitelino e o alantoide, externamente ao embrião propriamente dito.
Presumivelmente, as células germinativas primordiais são trazidas para essa
localização externa ao embrião em formação, para “resgatá-las” ou “protegê-las” dos
sinais de diferenciação que estão dirigindo a gastrulação dentro do embrião
propriamente dito. Quando os primeiros somitos estiverem formados, as células
germinativas primordiais poderão ser encontradas no mesoderma do saco vitelino e
do alantoide, mas também no mesoderma da ainda incipiente crista genital, onde
elas estão prontas para colonizar a gônada em desenvolvimento (Figs. 4-2, 4-3, 4-4).
Assim sendo, de forma ativa ou passiva, as células germinativas primordiais são
conduzidas ao longo do aspecto caudal do saco vitelino e do alantoide, para o
mesentério primitivo e depois para a gônada ainda indiferenciada, mas em
desenvolvimento. Durante sua realocação, as células germinativas podem ser
reconhecidas pelo seu tamanho relativamente grande e pelo uso de técnicas especiais
de coloração como aquelas para detecção de atividade da fosfatase alcalina ou para o
fator de transcrição OCT4, o qual está envolvido na manutenção da pluripotência
celular (Figs. 4-3, 4-4).
Fig. 4-1 Posicionamento das células germinativas primordiais no endoderma. A: Disco
embrionário do embrião de suíno no dia 14 do desenvolvimento. Notar sulco primitivo (1). A
67
linha ‘B’ indica o plano do corte para a Figura 4-1B. B: Corte transversal do disco embrionário
corado para o OCT4. Notar os núcleos individualmente corados para o OCT4 no endoderma
(1) identificando as células germinativas primordiais (setas). 2: Mesoderma; 3: Ectoderma.
Fig. 4-2 Migração das células germinativas primordiais (vermelho) do saco vitelino (1) ao
longo do pedúnculo do saco vitelino (2) para o mesentério (4) do intestino primitivo (3) e para
a crista genital (5) localizada medialmente ao mesonefro (6). 7: Alantoide; 8: Úraco
(pedúnculo do alantoide).
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
68
Fig. 4-3 Embrião de suíno no dia 21 de desenvolvimento corado para OCT4. Notar as células
germinativas primordiais (pequenos pontos escuros) no pedúnculo do saco vitelino (seta) onde
estão retornando para o embrião propriamente dito.
69
Fig. 4-4 Corte sagital de um embrião de suíno no dia 26 do desenvolvimento (A). O corte
está corado para OCT4. Os quadros ‘B’ e ‘C’ estão ampliados. B: Núcleos de duas células
germinativas primordiais (setas) localizados na região da crista genital em desenvolvimento. C:
Núcleos de três células germinativas primordiais (setas) na parede do alantoide (1). 2: Saco
vitelino; 3: Intestino primitivo; 4: Cavidade amniótica; 5: Coração. Modificado de Vejlsted et al.
(2006).
Reimpresso com permissão de John Wiley & Sons, Inc.
Durante e após a sua migração, as células germinativas primordiais proliferam
por mitose. As células germinativas primordiais femininas (XX) e masculinas (XY)
70
tornam-se comprometidas com a diferenciação sexo-específica das gônadas e são
circundadas por células somáticas (Cap. 15). As células são agora denominadas de
ovogônias e espermatogônias, respectivamente. Essas células sofrem mais
proliferação antes de iniciar a gametogênese e, consequentemente, a meiose.
Os cromossomos, a mitose e a meiose
As características de um novo indivíduo são determinadas por genes específicos
identificados como sequências de nucleotídeos no ácido desoxirribonucleico (DNA). É
importante ter em mente que não são as próprias sequências dos genes, mas a
expressão equilibrada e controlada deles, controlada por regulação epigenética, que
é crucial para o comportamento dessas células e, portanto, para o desenvolvimento
do concepto. Juntamente com numerosas proteínas, o DNA constitui os
cromossomos. Os cromossomos de um indivíduo herdados da mãe e do pai. Em
humanos, nos quais os genes foram extensivamente mapeados pelo Projeto Genoma
Humano (HUGO), é estimado que existam cerca de 25.000 genes nos 46
cromossomos. O número de genes funcionais em animais domésticos é provavelmente
similar.
Em células somáticas os cromossomos aparecem como pares homólogos para
formar o complemento cromossômico diploide. O número cromossômico diploide é
designado 2n visto que inclui uma cópia materna e uma paterna de cada
cromossomo. Os números cromossômicos diploides em animais domésticos estão
listados na Tabela 4-1. Um par de cromossomos refere-se aos cromossomos sexuais,
enquanto os demais são chamados de autossômicos. Se o par de cromossomos sexuais
for XX, o indivíduo é geneticamenteuma fêmea; se XY, geneticamente um macho.
Um cromossomo de cada par é herdado da mãe por meio do ovócito e o outro do pai
por meio do espermatozoide. Assim, para resultar em um complemento cromossômico
diploide normal após a fertilização, os gametas devem conter apenas um cromossomo
de cada par, chamado de complemento cromossômico haploide e designado como
1n. Os gametas então contêm apenas metade do número de cromossomos presente
nas células somáticas.
Tabela 4-1 Número de cromossomos em várias espécies animais.
71
As divisões das células somáticas ocorrem por mitose, que transfere uma cópia
completa do complemento cromossômico para cada uma das células-filhas. Durante a
gametogênese, entretanto, os mecanismos especiais da meiose são responsáveis por
produzir o complemento cromossômico haploide nas células germinativas.
Mitose
A mitose é o processo pelo qual uma célula divide seu complemento cromossômico
igualmente entre as células-filhas; a cariocinese descreve o processo completo,
incluindo a mitose, pelo qual o núcleo de uma célula dá origem a um núcleo em cada
uma das células-filhas. Normalmente, a cariocinese é acompanhada da citocinese, a
divisão do citoplasma (incluindo organelas e inclusões) entre as células-filhas. Assim,
a cariocinese e a citocinese combinadas resultam em duas células-filhas que em
princípio são geneticamente idênticas às suas células progenitoras, cada uma
recebendo um complemento cromossômico diploide completo (Fig. 4-5). A mitose é
uma fase do ciclo celular somático, e a outra fase a intérfase. A intérfase é
subdividida nas fases G1, na fase de síntese de DNA (S) e na fase G2. Durante a fase
S, cada cromossomo replica o seu DNA para produzir duas cromátides. Como já
mencionado, o complemento cromossômico diploide é designado como 2n. Antes da
fase S, cada cromossomo consiste em um único filamento de DNA, então, cada gene
está presente em duas cópias (2c), uma de origem materna e outra de origem
paterna. Após a fase S, como cada cromossomo consiste agora em duas cromátides,
72
então cada gene estará presente em quatro cópias (4c), embora o número de
cromossomos seja mantido em 2n. Durante as fases G1, S e G2 os cromossomos são
extremamente longos, espalhados pelo núcleo em domínios específicos e não podem
ser individualizados sob o microscópio de luz.
Fig. 4-5 Fases da mitose: A: G2 da intérfase; B: Prófase; C: Prometáfase; D: Metáfase; E:
Anáfase; F: Telófase; G: Células-filhas em G1 da intérfase.
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
A mitose pode ser subdividida em prófase, metáfase, anáfase e telófase. Quando
as células passam da fase G2 da intérfase para a prófase da mitose, os cromossomos
73
enovelam-se, contraem-se, condensam-se e espessam-se (Fig. 4-5 B). Eles se tornam
visíveis sob o microscópio de luz e cada um pode ser visto sob a forma de duas
cromátides unidas em uma região estreita conhecida como centrômero. Também
durante a prófase, o par de centríolos duplica-se no citoplasma adjacente ao núcleo
e os dois pares resultantes tornam-se dispostos em polos opostos do núcleo. À medida
que a célula progride da prófase para a metáfase (um estágio frequentemente
chamado de prometáfase), os microtúbulos começam a formar-se dos dois pares de
centríolos e o envelope nuclear começa a desmantelar-se (Fig. 4-5 C). Alguns dos
microtúbulos de cada par de centríolos fixam-se a estruturas nas cromátides, os
cinetocoros, que são encontradas nos centrômeros de cada cromossomo. Isso
estabelece o fuso mitótico com um par de centríolos em cada polo. Outros
microtúbulos passam diretamente de um par de centríolos ao outro sem se fixar nos
cromossomos. À medida que o fuso se forma, os cromossomos alinham-se no plano
equatorial, definindo a metáfase da divisão celular (Fig. 4-5 D). Subsequentemente, o
centrômero de cada cromossomo divide-se, as duas cromátides separam-se e,
tracionadas pelos microtúbulos, começam a migrar em direção aos polos do fuso
durante a anáfase (Fig. 4-5 E). Nessa fase, cada cromátide se transformou em um
novo cromossomo. O arranjo dos cromossomos em dois grupos, um em cada polo do
fuso, estabelece a telófase da divisão celular (Fig. 4-5 F). Continuando na telófase,
os cromossomos desenovelam e alongam e o envelope nuclear se reorganiza em cada
uma das células-filhas em formação. Esse evento completa a divisão do núcleo e de
seu DNA (cariocinese) nos dois núcleos das células-filhas que contêm as mesmas
sequências de DNA e o mesmo número de cromossomos do núcleo parental (2n, 2c).
A cariocinese é seguida da citocinese para dividir o citoplasma igualmente entre as
células-filhas.
Meiose
A meiose é um processo envolvendo duas divisões celulares especializadas (meiose I
e II) que ocorrem nas células germinativas para gerar os gametas haploides maternos
e paternos, o ovócito e o espermatozoide. Cada uma das duas divisões meióticas
inclui as mesmas fases da mitose: prófase, metáfase, anáfase, telófase, exceto pela
ausência de prófase na meiose II. Além de produzir gametas com o complemento
cromossômico haploide, uma segunda e igualmente importante função da meiose é a
de permitir a recombinação genética; o processo que garante que o genoma de
próxima geração seja uma combinação única dos genomas parentais. O processo mais
complexo ocorre na meiose I, que é caracterizada por uma prófase particularmente
longa, a qual pode ser subdividida nos estágios de leptóteno, zigóteno, paquíteno,
diplóteno e a diacinese. Está além do escopo deste texto de abordar cada um desses
74
estágios, além de dizer que eles recebem seus nomes de acordo com a aparência
morfológica dos cromossomos. Assim que as células germinativas iniciam a meiose I,
a célula materna é chamada de ovócito primário enquanto que o equivalente
paterno é um espermatócito primário. Na fêmea, a meiose se inicia durante a vida
fetal e então é bloqueada no estágio de diplóteno da meiose I até a puberdade e é
reiniciada apenas pouco antes da ovulação. Essa duração prolongada do estágio de
diplóteno é também conhecida como estágio de dictióteno ou dictiato. No macho, por
sua vez, a meiose inicia-se após a puberdade, quando então se torna um processo
contínuo.
Intercâmbio de segmentos cromossômicos e recombinação genética
Assim como na mitose, as células germinativas maternas e paternas (ovogônias e
espermatogônias) passam pela fase S antes de iniciar a meiose. Isso forma duas
cromátides em cada cromossomo (2n, 4c) como na mitose. Esse é o estado da célula
germinativa quando ela entra no estágio de leptóteno da prófase da meiose I (Fig. 4-
6). Em contraste com a mitose, entretanto, os cromossomos homólogos alinham-se
em pares durante a prófase da meiose I. Cada par de cromossomos consiste,
portanto, em quatro cromátides (4c) e é, por conseguinte, chamada de tétrade.
Fig. 4-6 Fases da meiose no macho (A) e na fêmea (B).
75
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
Na tétrade, cada cromossomo materno combina-se com a sua contraparte
paterna em toda a sua extensão por meio do complexo sinaptonêmico. As
cromátides pareiam perfeitamente, ponto a ponto, na fêmea; assim elas fazem
também no macho exceto para a combinação XY, onde o cromossomo Y menor não
pareia com o cromossomo X. Esse pareamento cromossômico permite a troca de
segmentos de cromátides por um processo de intercâmbio de segmentos
cromossômicos (crossing-over). As cromátides se torcem, ou passam uma por sobre
a outra, em certos pontos (a quiasmata), para formar uma estrutura com aspecto de
X. Mais tarde durante a prófase, o complexo sinaptonêmico é gradualmente
desmantelado, o DNA quebra-se na quiasmata e as extremidades livres das
contrapartes unem-se, dessa forma, trocando segmentos de DNA entre as cromátides
maternas e paternas. A troca de cromatina, associada à segregação ao acaso dos
cromossomos maternos e paternos durante a meiose II (veja mais adiante),
proporciona a base molecular para a recombinação genética que é característica da
reprodução sexuada.
Durante a diacinese, os cromossomos homólogos são gradualmente liberadosuns
dos outros. Com a transição da diacinese para a metáfase da meiose I, o envelope
nuclear desaparece e os fusos meióticos são formados. Na célula germinativa
masculina, os polos do fuso meiótico são constituídos de pares de centríolos como na
mitose. Entretanto, pelo menos nas grandes espécies domésticas e em contraste com
aqueles de camundongos, os ovócitos não possuem centríolos e os polos do fuso são
constituídos de um material desconhecido identificado ultraestruturalmente como
pequenos agrupamentos de vesículas. Os microtúbulos do fuso se fixam em cada
cromossomo homólogo em uma tétrade na meiose I em vez de se fixarem nas
cromátides como ocorre na mitose. Durante a metáfase da meiose I, os cromossomos
se alinham no plano equatorial, mas durante a anáfase, são os cromossomos
homólogos e não suas cromátides que são separadas, para serem agrupadas nos
polos do fuso durante a telófase. Assim, em contraste com a mitose, a meiose I separa
cromossomos homólogos em vez de cromátides. Após completar a meiose I, a célula
germinativa é haploide, contendo apenas um cromossomo (1n) de cada par. Deve ser
ressaltado, no entanto, que o conteúdo de DNA da célula germinativa nesse estágio
ainda é 2c porque cada cromossomo consiste em duas cromátides.
Espermatócitos, espermátides, ovócitos e corpúsculos polares
Ao final da telófase da meiose I, o espermatócito primário divide-se em dois
espermatócitos secundários por citocinese (Fig. 4-6). No ovócito, porém, o fuso é
76
localizado na periferia da grande célula esférica e a telófase é associada a uma
citocinese muito desigual resultando em duas células-filhas, uma muito maior que a
outra. A célula-filha maior é agora chamada de ovócito secundário enquanto que a
célula-filha menor, que é quase desprovida de organelas, é o primeiro corpúsculo
polar.
Imediatamente após completar a meiose I, os ovócitos secundários e os
espermatócitos secundários iniciam a meiose II sem uma intérfase.
Consequentemente, não há a fase S, nem replicação do DNA e os cromossomos
mantêm-se com a mesma quantidade de DNA (2c). Os cromossomos também se
mantêm condensados, prontos para passar diretamente pela metáfase, anáfase e
telófase da meiose II sem necessitar passar pela prófase. Na telófase da meiose II, as
duas cromátides de cada cromossomo são separadas e então cada gameta recebe
apenas um único cromossomo de cada par homólogo (1n) contendo um único
filamento de DNA (1c). O espermatócito secundário divide-se em duas espermátides.
O ovócito, por sua vez, novamente se divide de forma desigual resultando em uma
célula-filha grande, a precursora do zigoto e do embrião, e um pequeno segundo
corpúsculo polar. Além disso, no ovócito, a meiose II é novamente bloqueada em
metáfase, o estágio (M II) em que o ovócito é ovulado. Exceções a essa regra são
encontradas no cão e na raposa em que o ovócito é ovulado na prófase da meiose I.
Em grandes espécies domésticas, ao menos, o primeiro e segundo corpúsculos polares
degeneram sem se dividir.
Citodiferenciação dos gametas
Enquanto a meiose provê os gametas com o número haploide de cromossomos e
possibilita a recombinação genética, há uma necessidade paralela de se construir uma
arquitetura celular especializada que caracteriza os dois gametas. Essa
citodiferenciação forma ovócitos de ovogônias por meio da ovogênese e
espermatozoides de espermatogônias pela espermatogênese.
Ovogênese
Desenvolvimento dos folículos primordiais
Após a chegada e proliferação na gônada feminina em desenvolvimento, as células
germinativas primordiais são circundadas por células foliculares – células somáticas
achatadas derivadas do epitélio superficial do ovário em desenvolvimento (Fig. 4-7).
Isso transforma as células germinativas primordiais em ovogônias que continuam a
proliferar, mas sem completar a citocinese, mantendo-as ligadas umas às outras por
77
estreitas pontes citoplasmáticas. Os aglomerados de ovogônias resultantes, derivados
de células germinativas primordiais individuais, podem ser identificados no embrião
em estágios de desenvolvimento que variam entre as espécies (Tabela 4-2).
Fig. 4-7 Desenvolvimento do folículo primordial. A: Célula germinativa primordial (1)
circundada por células pré-foliculares (2). B: aglomerados de ovogônias (3) e ovócitos (4)
associados a células pré-foliculares. C: Multiplicação das células pré-foliculares (5). D:
Desenvolvimento das células pré-foliculares em células foliculares (6) circundadas pela lâmina
basal (7) e associadas a ovócitos individuais. E: O folículo primordial final isolado.
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
Tabela 4-2 Cronologia de eventos durante a diferenciação da gônada em várias espécies.
78
A maioria das ovogônias continua sua proliferação mitótica, mas algumas se
diferenciam em ovócitos primários bem maiores. Esses ovócitos imediatamente
entram na fase S do ciclo celular e depois na prófase da meiose I. As ovogônias
proliferam rapidamente e em algumas espécies (notadamente em bovinos e
humanos) são contadas em milhões (Tabela 4-3). Entretanto, essa proliferação é
seguida de apoptose que leva à perda da maior parte das ovogônias e dos ovócitos
primários, com a sobrevivência de apenas uma pequena população próxima à
superfície do ovário em desenvolvimento. Todos os ovócitos primários sobreviventes
iniciaram a prófase da meiose I quando se tornam bloqueados no estágio de
diplóteno, ainda com o núcleo intacto. Revestidos por células foliculares achatadas,
esses ovócitos formam os folículos primordiais (Figs. 4-8, 4-9, 4-10). As células
foliculares apoiam-se em uma membrana basal que as separa das células do estroma
ao seu redor. Os folículos primordiais constituem uma reserva de folículos quiescentes
da qual a fêmea irá recrutar folículos para o crescimento e ovulação para o resto de
sua vida reprodutiva. Os números de células germinativas primordiais, ovogônias e
ovócitos em várias espécies animais e em humanos estão listados na Tabela 4-3.
Tabela 4-3 Número de ovogônias e ovócitos em várias idades de diferentes espécies.
Espécies Número de ovogônias e/ou ovócitos
79
Bovinos Dia 50: 16.000
Dia 110: 2.700.000
Ovinos Ao nascimento: 54.000-1.000.000
Caprinos 6 meses após o nascimento: 24.000
3 anos após o nascimento: 12.000
Suínos Dia 110: 491.000
10 dias após o nascimento: 60.000-509.000
9 meses após nascimento: 50.000
2-10 anos após o nascimento: 16.000
Canino Ao nascimento: 700.000
5 anos após o nascimento: 35.000
10 anos após o nascimento: 500
Humano Dia 60: 600.000
Dia 150: 6.800.000
Ao nascimento: 400.000-500.000
7 anos após o nascimento: 13.000
(Rüsse e Sinowatz, 2000)
80
Fig. 4-8 Desenvolvimento folicular no ovário bovino do folículo primordial (1) passando
pelos folículos primário (2) e secundário (3) até o folículo terciário (4). No oviduto, o ovócito
maduro em metáfase II (5), o zigoto fecundado (6) apresentando dois pronúcleos, o estágio de
2 (7), 4 (8) e 8 células (9), e na extremidade do corno uterino, a mórula (10) e o blastocisto
(11) são mostrados.
81
Fig. 4-9 Desenvolvimento folicular em bovinos. A: Folículo primordial. O ovócito (1) é
circundado por células foliculares achatadas (2) apoiadas sobre a membrana basal (3). 4:
Célula do estroma; 5: Arteríola. B: Folículo primário. O ovócito (1) é circundado por células da
granulosa cuboides (2). C: Folículo secundário inicial no qual a polarização do compartimento
das células da granulosa tornou-se evidente (setas). O inserto mostra um detalhe da interface
ovócito-células da granulosa com microvilos do ovócito (1) e projeções das células da
granulosa (2). 3: Mitocôndria do ovócito. D: Folículo secundário. O ovócito (1) é circundado
por um compartimento de múltiplas camadas de células da granulosa cuboides (2), e as células
do estroma iniciaram a formação das camadas da teca (3). O inserto mostra um detalhe da
interface ovócito-células da granulosa com as projeções das células da granulosa (4)
82
penetrando na zona pelúcida em desenvolvimento (5). As projeções das células dagranulosa
formam contato com o ovócito por meio de junções do tipo gap (6). 7: Complexo de Golgi do
ovócito. E: Folículo terciário pequeno apresentando o antro (1) e o ovócito localizado no
cumulus oophorus (2). F: Folículo terciário grande apresentando o ovócito no cumulus oophorus
(1) e a camada de células da granulosa (2) circundando o antro. As tecas interna (3) e externa
(4) diferenciaram-se e separam-se das células da granulosa pela membrana basal (6).
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
Fig. 4-10 Desenvolvimento folicular em bovinos. A: Folículo primordial apresentando
células foliculares achatadas (1) e o ovócito (2) com seu núcleo (seta). B: Folículo primário
apresentando células da granulosa cuboides (3). 2: Ovócito; Seta: Núcleo do ovócito. C:
Folículo secundário apresentando múltiplas camadas de células da granulosa (3). 2: Ovócito;
Seta: Núcleo do ovócito. D: Folículo terciário apresentando a camada de células da granulosa
(3) e as células do cumulus (5) circundando o ovócito (2). As camadas da teca (7) começaram a
se formar. 2: Ovócito; 4: Antro; 6: Zona pelúcida.
Crescimento folicular e ovocitário
83
O crescimento folicular ocorre quando os folículos são recrutados da reserva
primordial e desenvolvem-se em folículos primários, secundários e terciários. Deve ser
enfatizado que a grande maioria dos folículos que entram na fase de crescimento
falha em completá-la; a maioria degenera-se por meio de um processo chamado de
atresia com apenas uma minoria completando seu crescimento e chegando a atingir
a ovulação. Ao menos nas grandes espécies domésticas, o crescimento folicular é
iniciado durante a vida fetal (Tabela 4-2). No entanto, nenhum dos ovócitos inclusos
nos folículos (exceto, talvez, por alguns folículos atrésicos) reinicia a meiose até que
a puberdade seja atingida.
Com a ativação do folículo primordial, as células foliculares começam a
proliferar e formam uma monocamada de células cuboides ao redor do ovócito para
formar o folículo primário (Figs. 4-8, 4-9, 4-10). As células foliculares são agora
chamadas de células da granulosa. Com essa ativação, a fase de crescimento
ovocitário é iniciada, na qual o ovócito das espécies domésticas cresce de menos de
30 μm para mais de 120 μm de diâmetro. Durante esse crescimento, o ovócito sofre
muitas modificações morfológicas incluindo o desenvolvimento dos grânulos
corticais (veja adiante) no citoplasma. Além disso, torna-se competente para
reiniciar e meiose e sustentar o desenvolvimento embrionário após a fertilização.
As células da granulosa proliferam para formar várias camadas em torno do
ovócito, estrutura que passa a ser conhecida como folículo secundário (Figs. 4-8, 4-
9, 4-10). O ovócito e as células da granulosa circundantes sintetizam certas
glicoproteínas que são depositadas entre o ovócito e as células formando a zona
pelúcida. Essa estrutura é atravessada por numerosas projeções das células da
granulosa mais internas, as quais por meio disso mantêm contato com o ovócito
pelas junções comunicantes (nexus ou junções do tipo gap). As células do estroma
circundando as células da granulosa diferenciam-se mais internamente na teca
interna, uma camada de células produtoras de esteroides, e mais externamente na
teca externa, formada de camadas concêntricas de células que têm funções de
suporte. As células esteroidogênicas da teca interna e as células da granulosa são, em
conjunto, responsáveis pela síntese de estradiol no folículo por meio de um sistema
“duas células”; as células da teca interna produzem andrógenos que são
transportados para as células da granulosa onde são aromatizados em estrógenos.
À medida que o desenvolvimento continua, espaços preenchidos por líquido
aparecem entre as células da granulosa, os quais se unem em uma única cavidade, o
antro, caracterizando o folículo terciário (Figs. 4-8, 4-9, 4-10). Tais folículos são
também chamados de folículos antrais. Em paralelo com a expansão do antro, o
ovócito se torna localizado em uma protrusão das células da granulosa, o cumulus
oophorus, que se entende em direção ao antro. As células da granulosa do cumulus
84
oophorus são chamadas de células do cumulus. À medida que o folículo desenvolve-
se, o ovócito também se desenvolve até que atinja sua estrutura característica. O
processo de ovulação é desencadeado pela onda pré-ovulatória de LH, mas algumas
evidências sugerem que mesmo antes desse estímulo, o ovócito passa por
modificações no folículo antral em desenvolvimento que aumentam sua competência
para ser fecundado e para sustentar o desenvolvimento embrionário inicial. Esse
processo pode ser chamado de capacitação ovocitária.
Maturação folicular e ovócitária
O folículo terciário continua seu desenvolvimento e, se selecionado para ovulação,
entra na fase final da maturação folicular e ovocitária, estimulada pela onda pré-
ovulatória da LH. O período do início do pico de LH até a ovulação é espécie-
específico e varia de menos de 12 horas a mais de 40 horas. Durante a maturação
pré-ovulatória do folículo, a síntese de esteroides para a produção de estradiol muda
para a produção de progesterona e a parede do folículo prepara-se para romper para
liberar o ovócito. A maturação pré-ovulatória do ovócito tem componentes nucleares
bem como citoplasmáticos (Figs. 4-11, 4-12). A maturação nuclear do ovócito
refere-se ao processo da meiose, a qual é reiniciada do estágio de diplóteno da meiose
I e continua até a fase de metáfase da meiose II, quando (exceto no cão e na raposa)
o ovócito é ovulado. O núcleo do ovócito primário é frequentemente chamado de
vesícula germinativa, e o reinício da meiose é evidenciado morfologicamente pelo
desmantelamento dessa estrutura (Fig. 4-11). A maturação citoplasmática do
ovócito envolve a reestruturação e modulação de muitas organelas do ovócito. Ela é
particularmente evidente em bovinos, em que os grânulos corticais (que antes do pico
de LH são encontrados em grandes aglomerados) migram para posições solitárias
adjacentes à membrana plasmática em preparação para a exocitose durante a
fertilização (Fig. 4-11).
85
Fig. 4-11 Maturação final do ovócito após o pico de LH em bovinos. Antes do pico de LH, o
ovócito está em estágio de diplóteno e é caracterizado por um núcleo localizado
perifericamente (vermelho) e pela localização periférica das organelas. Em nível
ultraestrutural, o ovócito apresenta um retículo endoplasmático liso (REL; verde) bem
desenvolvido, associado a gotículas de lipídios (esferas pretas grandes) e mitocôndrias (azul),
complexos de Golgi (vermelho) e aglomerados de grânulos corticais (esferas pretas pequenas).
O ovócito comunica-se através de junções do tipo gap com as projeções das células do cumulus
(setas). Cerca de 10 h após o pico de LH, o ovócito reinicia a meiose e o envelope nuclear
dissolve-se no REL fazendo com que o núcleo, isto é, a vesícula germinativa, se desarranje e os
microtúbulos (linhas pretas) apareçam adjacentes aos cromossomos em condensação (preto no
núcleo vermelho). O espaço perivitelino entre o ovócito e a zona pelúcida desenvolve-se e no
ovócito as mitocôndrias tendem a se posicionar em torno das gotículas de lipídios e os
complexos de Golgi diminuíram em tamanho. As junções do tipo gap entre o ovócito e as
células do cumulus são parcialmente perdidas. Aproximadamente 15 h após o pico de LH, o
ovócito atinge a fase de metáfase da primeira divisão meiótica (metáfase I). O número e o
tamanho das gotículas de lipídios aumentam, as mitocôndrias organizam-se em torno das
gotículas e esses conglomerados atingem uma distribuição mais uniforme no citoplasma.
86
Numerosos ribossomos (pontos pretos) aparecem, especialmente em torno dos cromossomos, e
o tamanho dos complexos de Golgi diminuem ainda mais. As junções do tipo gap entre o
ovócito e as projeções das células do cumulus desintegram-se. Aproximadamente 24 h após o pico
de LH, o ovócito atinge a metáfase da segunda divisão meiótica (metáfase II) e ocorre a
extrusão do primeiro corpúsculo polar. A maior parte dos grânulosFaculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da
Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho” (UNESP), Jaboticabal
Doutor em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP, Jaboticabal
Pós-doutor pela FZEA-USP
REVISÃO CIENTÍFICA
Aline Adriana Bolzan (Cap. 11)
Professora Doutora do Departamento de Cirurgia da FMVZ-USP
Residência em Clínica Cirúrgica de Pequenos Animais pela FCAV-UNESP, SP
Medica Veterinária pela FCAV-UNESP, Jaboticabal
Mestre e Doutora em Cirurgia Veterinária (Oftalmologia) pela FCAV/UNESP,
Jaboticabal Antônio Chaves de Assis Neto (Caps. 1, 9, 10, 12, 16, 17, 20, 21 e
Índice - parte)
Felipe Perecin (Caps. 3, 4, 5, 6, 7, 8, 13, 14, 15, 18 e Índice - parte)
Flávio V. Meirelles (Cap. 2)
Professor Associado
Professor Livre-docente pela FZEA-USP, Pirassununga
Médico Veterinário pela UNESP, Jaboticabal
Mestre pela Universidade de Montreal
Doutor pela FMRP-USP, Ribeirão Preto
Ricardo De Francisco Strefezzi (Cap. 19)
Professor-doutor do curso de Medicina Veterinária da FZEA-USP
Médico Veterinário
Mestre e Doutor em Patologia Experimental e Comparada pela USP
TRADUÇÃO
Antônio Chaves de Assis Neto (Caps. 1, 9, 14 e Índice - parte)
11
Cláudia Barbosa Fernandes (Cap. 6)
Professora Doutora do Departamento de Reprodução Animal, FMVZ-USP
Medica Veterinária pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) Mestre e
Doutora em Reprodução Animal pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia
(FMVZ) da UNESP, Botucatu
Cláudia Lima Verde Leal (Cap. 4)
Professora Livre-Docente do Departamento de Ciências Básicas da FZEA-USP,
Pirassununga Médica Veterinária pela FCAV-UNESP, Jaboticabal
Mestre em Zootecnia (Melhoramento Genético Animal) pela FCAV-UNESP,
Jaboticabal Doutora em Medicina Veterinária (Reprodução Animal) pela FMVZ-USP
Daniele dos Santos Martins (Cap. 15)
Professora-doutora do Departamento de Zootecnia da FZEA-USP
Médica Veterinária pelo Centro Universitário da Fundação de Ensino Octávio
Bastos (UNIFEOB) Mestre em Anatomia dos Animais Domésticos e Silvestres pela
FMVZ-USP
Doutora e Pós-doutora em Ciências pela FMVZ-USP
Érika Branco (Cap. 17)
Professora Doutora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade
Federal Rural da Amazônia (UFRA), Belém Pesquisadora do Laboratório de Pesquisa
Morfológica Animal da UFRA Médica Veterinária pelo UNIFEOB
Doutora em Ciências pela FMVZ-USP
Fabrizio Grandi (Cap. 19)
Graduado em Medicina Veterinária pela FMVZ-USP
Residência em Anatomia Patológica Veterinária pela FMVZ-UNESP, Botucatu
Mestre e doutorando pelo Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina de
Botucatu (FMB-UNESP) Revisor científico dos periódicos Veterinary Clinical
Pathology, Comparative Clinical Pathology e Veterinary World.
Felipe Perecin (Cap. 2 e Índice - parte)
Fernando Yutaka Moniwa Hosomi, M.V., MSc. (Cap. 8)
Prefeitura Municipal de São Paulo - PMSP
Secretaria Municipal de Saúde - SMS
Coordenação de Vigilância em Saúde - COVISA
Centro de Referência Nacional de Controle de Zoonoses Urbanas - CCZ
Subgerência de Vigilância e Controle de Animais Domésticos – SVCAD
Flávia Thomaz Verechia Pereira (Cap. 16)
Professora adjunta da UNESP, Dracena
Docente de Anatomia, Histologia e Embriologia Animal
Médica Veterinária
12
George Shigueki Yasui (Cap. 7)
Zootecnista pela Universidade Federal de Viçosa (UFV)
Mestre em Produção Animal pela UENF
Mestre e Doutor em Fisheries Sciences pela Hokkaido University Juliana Lopes
Almeida (Cap. 21)
Médica Veterinária pela Universidade Federal de Pelotas
Mestre em Ciências Agrárias (Reprodução Animal) pela Universidade de Brasília
PhD em Patologia Comparativa pela Universidade da Califórnia, Davis – Estados
Unidos Luciano Andrade Silva (Caps. 3 e 18)
Professor Doutor do curso de Medicina Veterinária no Departamento de
Zootecnia da FZEA-USP
Médico Veterinário pela UFV
PhD in Animal Molecular and Cellular Biology pela Universidade da Flórida,
Gainesville – Estados Unidos Mestre em Medicina Veterinária (Reprodução Animal)
pela UFV
Luiz Felipe de Moraes Barros (Cap. 11)
Médico Veterinário pela FMVZ-USP
Mestre e Doutor em Ciências (Clínica Cirúrgica Veterinária) pela FMVZ-USP
Lilian de Jesus Oliveira (Caps. 12 e 13)
Médica Veterinária pela FMVZ-USP
Mestre em Ciências (Anatomia dos Animais Domésticos e Silvestres) pela FMVZ-
USP
Doutora em Animal Molecular and Cellular Biology pela University of Florida,
EUA Pós-doutoranda do Departamento de Ciências Básicas da FZEA-USP
Nicolle Gilda Teixeira de Queiroz Hazarbassanov (Cap. 10)
Especialista em laboratório do Laboratório de Farmacologia Aplicada e
Toxicologia da FMVZ-USP
Médica Veterinária formada pela FMVZ-USP
Doutora em Ciências (Oncologia) pela Fundação Antonio Prudente - Hospital A.
C. Camargo Ricardo José Garcia Pereira (Cap. 20)
Professor-doutor de Reprodução de Aves do Departamento de Reprodução Animal
da FMVZ-USP
Simone Cristina Méo Niciura (Cap. 5)
Pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste, São Carlos
Médica Veterinária pela FCAV-UNESP, Jaboticabal
Mestre e Doutora em Medicina Veterinária (Reprodução Animal) pela FCAV-
UNESP, Jaboticabal
13
14
Colaboradores
Diversos pesquisadores altamente qualificados demonstraram entusiasmo
e prontidão em contribuir com este livro.
Keith J. Betteridge, BVSc MVSc PhD FRCVS
University Professor Emeritus
Department of Biomedical Sciences
Ontario Veterinary College
University of Guelph, Ontario
Canada
Gry Boe-Hansen, DVM Phd
Lecturer
School of Veterinary Science
University of Queensland, Australia
Henrik Callesen, DVM PhD DVSc
Research Professor
Department of Genetics and Biotechnology
Faculty of Agricultural Sciences, Aarhus University,
Denmark
Ernst-Martin Füchtbauer, PhD Dr.habil Associate Professor
Department of Molecular Biology
Aarhus University
Denmark
Vanessa Hall, PhD
Post Doc
Department of Basic Animal and Veterinary Sciences
Faculty of Life Sciences, University of Copenhagen
Denmark
15
Poul Hyttel, DVM Phd DVSc
Professor
Department of Basic Animal and Veterinary Sciences
Faculty of Life Sciences, University of Copenhagen
Denmark
Palle Serup, Phd
Director of Research
Department of Developmental Biology
Hagedorn Research Institute
Denmark
Fred Sinowatz, Dr.med vet. Dr.med Dr.habil Professor
Institute of Veterinary Anatomy, Histology and Embryology
LMU Munich,
Germany
Gábor Vajta, MD PhD DVSc
Scientific Director
Cairns Fertility Centre
Australia
Adjunct Professor, University of Copenhagen, Denmark
Adjunct Professor, James Cook University, Australia
Morten Vejlsted, DVM Phd
Assistant Professor
Department of Large Animal Sciences
Faculty of Life Sciences, University of Copenhagen,
Denmark
16
Introdução
Ao longo dos últimos 20 anos, os esforços da pesquisa científica moderna
rapidamente aumentaram nossos conhecimentos acerca dos processos normais e
anormais de desenvolvimento dos animais domésticos. À medida que o nosso
profundo conhecimento sobre os mecanismos celulares e moleculares aumenta,
também aumenta o reconhecimento do potencial de uso e da aplicação bem-sucedida
desse conhecimento para incrementar a produção animal de alimentos e fibras. É
durante o desenvolvimento embrionário e fetal, da formação dos gametas até o
parto, que os poderosos avanços na manipulação genética molecular e nas
tecnologias de reprodução assistida são empregados, levando a grandes impactos na
produção animal ao redor do mundo. Como resultado desses avanços, continua a
existir uma necessidade não atendida de um texto contemporâneo sobre o
desenvolvimento dos animais domésticos para ser utilizado como base para a
educação e treinamento dos veterinários, zootecnistas e biólogos do desenvolvimento.
Embriologia veterinária preenche essa necessidade fornecendo aos estudantes, aos
professores e aos veterinários uma apresentação aprofundada dos processos
cronológicos elaborados que culminam com a formação de estruturas embrionárias
funcionais, do desenvolvimento dos gametas até o período periparto. À medida que o
nosso entendimento dos processos precisos e orquestrados do desenvolvimento
animal avançam, e oscorticais está distribuída ao
longo da membrana plasmática. As gotículas de lipídios e as mitocôndrias atingem uma
posição mais central no citoplasma deixando uma zona periférica um tanto desprovida de
organelas, na qual as características mais proeminentes são os grandes aglomerados de REL.
Os complexos de Golgi estão praticamente ausentes. A ovulação ocorre aproximadamente 24
horas após o pico de LH.
Fig. 4-12 Cortes histológicos de ovócitos bovinos. A: Ovócito bovino em estágio de diplóteno.
Seta: Núcleo. 1: Zona pelúcida; 2: Células do cumulus. B: Ovócito bovino em metáfase da
segunda divisão meiótica (metáfase II). Seta: placa da metáfase II com primeiro corpúsculo
polar adjacente a ela; 1: Zona pelúcida; 2: Células do cumulus.
Espermatogênese
Desenvolvimento das espermatogônias e dos túbulos seminíferos
Após chegar e proliferar na gônada masculina em desenvolvimento, as células
87
germinativas primordiais localizam-se em cordões sólidos de células de sustentação
primitivas, as progenitoras das células de Sertoli, que se desenvolvem do epitélio
superficial da gônada. Pouco antes da puberdade, os cordões celulares adquirem uma
luz e desenvolvem-se nos túbulos seminíferos dos testículos. Em paralelo, as células
de sustentação gradualmente assumem as características das células de Sertoli e as
células germinativas primordiais desenvolvem-se em espermatogônias (Figs. 4-13, 4-
14).
Fig. 4-13 Célula de Sertoli e células espermatogênicas nos túbulos seminíferos do testículo. 1:
Células de Sertoli; 2: Espermátide – fase de maturação; 3: Espermátide: fase de capuchão; 4:
Espermátide – fase de acrossomo; 5: Espermátide – fase de Golgi; 6: Espermatócitos primários
conectados por pontes citoplasmáticas; 7: Barreira hematotesticular; 8: Espermatogônia; 9:
Lâmina basal; 10: Núcleo da célula de Sertoli.
88
Modificado de Liebich (2004).
Fig. 4-14 Cortes histológicos de testículo de cachaço (A) e de carneiro (B). A: Túbulos
seminíferos (1) do testículo de cachaço com as células de Leydig (2) entre eles. B: Túbulo
seminífero de carneiro com células de Sertoli (3), espermatogônias (4), espermatócitos (5) e
espermátides (6).
A espermatogênese inclui todos os eventos pelos quais as espermatogônias
transformam-se em espermatozoides. Esse processo pode ser subdividido em
espermatocitogênese (o desenvolvimento dos espermatócitos das espermatogônias),
meiose (as duas divisões meióticas dos espermatócitos) e espermiogênese (a
reestruturação celular das espermátides em espermatozoides sem nenhuma divisão
celular). A meiose já foi descrita, então a ênfase será dada à espermatocitogênese e
espermiogênese. Há uma relação celular próxima entre as células espermatogênicas e
as células de Sertoli durante a espermatogênese; as células de Sertoli são necessárias
para o suporte físico e para a regulação parácrina da espermatogênese, e também
formam a barreira hematotesticular, ao vedar os túbulos seminíferos com junções
oclusivas.
Espermatocitogênese
As espermatogônias estão localizadas perifericamente nos túbulos seminíferos,
adjacentes à lâmina basal e ao exterior (i. e., próximas da circulação sanguínea) da
89
barreira hematotesticular. Três tipos podem ser identificados: espermatogônias do
tipo A, intermediárias e do tipo B. As espermatogônias do tipo A1 são as células-
tronco para a espermatogênese. Assim, as primeiras mitoses de uma espermatogônia
do tipo A1 resultarão em novas células-tronco do tipo A1 e em espermatogônias de
segunda geração do tipo A2, com capacidade de progredir ao longo da
espermatogênese (Fig. 4-15). Isso garante uma população perpétua de células-tronco
para a espermatogênese. A espermatogônia do tipo A2 irá, ao menos em ruminantes,
dar origem a uma nova geração subsequente de espermatogônias do tipo A3, as quais
finalmente se dividem em espermatogônias intermediárias que compartilham
características morfológicas com as espermatogônias do tipo A e do tipo B. As
espermatogônias intermediárias darão origem às espermatogônias do tipo B, das
quais há duas gerações, ao menos em ruminantes.
Fig. 4-15 A espermatogênese no touro. A espermatogônia-tronco do tipo A1 no círculo
divide-se em uma espermatogônia do tipo A2, a qual inicia a diferenciação em espermatozoide,
90
e uma espermatogônia do tipo A1, a qual garante o suprimento contínuo de células-tronco
espermatogênicas nos túbulos seminíferos.
Meiose
A última divisão mitótica da espermatogônia do tipo B resulta na formação dos
espermatócitos primários. Essas células iniciam a meiose I, com sua longa prófase
característica. Ao contrário do ovócito, o espermatócito não bloqueia sua meiose no
estágio de diplóteno da prófase. Os espermatócitos deslocam-se pela barreira
hematotesticular para o compartimento luminal dos túbulos seminíferos. Isso ocorre
por meio de um mecanismo similar a um zíper envolvendo junções oclusivas; as
junções são formadas atrás (em posição basal) dos espermatócitos antes que as
junções formadas à frente deles (no seu lado luminal) sejam dissolvidas, para
possibilitar a passagem das células. A conclusão da meiose I resulta na formação de
dois espermatócitos secundários, os quais se dividem cada um em duas
espermátides pela meiose II. Através dessa série de divisões, da espermatogônia de
segunda geração do tipo A até as espermátides, a citocinese é incompleta, deixando
as células de uma geração ainda conectadas por finas pontes citoplasmáticas.
Espermiogênese
As espermátides são transformadas em espermatozoides pela espermiogênese, a qual
engloba quatro fases: de Golgi, de capuchão, de acrossomo e de maturação. Durante a
fase de Golgi, o complexo de Golgi produz grânulos acrossômicos os quais se fundem
para produzir um único grande grânulo acrossômico que se localiza adjacente ao
núcleo (Fig. 4-16). O par de centríolos da espermátide realoca-se no polo oposto do
núcleo onde o centríolo proximal torna-se associado ao núcleo. Ao mesmo tempo, um
anoxena, consistindo em dois microtúbulos centrais circundados por nove pares de
microtúbulos, desenvolve-se do centríolo distal.
91
Fig. 4-16 O desenvolvimento das espermátides por meio das fases de Golgi, de capuchão, de
acrossomo e de maturação.
Modificado de Liebich (2004).
Durante da fase de capuchão, o grânulo acrossômico achata-se e cobre uma
porção maior do núcleo da espermátide. Durante a fase de acrossomo a cromatina
no núcleo se condensa à medida que as histonas são substituídas por protaminas. O
grânulo acrossômico é reestruturado em um acrossomo, o qual contém enzimas
importantes para a penetração do espermatozoide nos revestimentos do ovócito
durante a fertilização. Finalmente, o acrossomo recobre cerca de dois terços do
núcleo condensado da espermátide, o citoplasma é alocado para o desenvolvimento
da cauda e as mitocôndrias são arranjadas em torno do axonema em crescimento. À
medida que essas modificações ocorrem, a espermátide gira de forma que o
acrossomo fique voltado para a lâmina basal do túbulo seminífero e a cauda em
desenvolvimento fique voltada para a luz.
Durante a fase de maturação, a arquitetura espécie-específica da cabeça e da
cauda do espermatozoide desenvolve-se. A maior parte do citoplasma, incluindo a
maioria das organelas, é separada formando o corpo residual (o qual é fagocitado
pelas células de Sertoli), e as espermátides são desconectadas umas das outras.
Finalmente, o espermatozoide é liberado das células de Sertoli para a luz dos túbulos
92
seminíferos.
Espermatozoides
O comprimento do espermatozoide no momento em que é liberado varia de acordo
com a espécie, mas varia de aproximadamente 60 μm no cachaço a 75 μm no touro.
No microscópio de luz, o espermatozoide parece consistir em duas estruturas: a
cabeça e a cauda. No entanto, no microscópio eletrônico, a cauda pode ser
subdividida em colo, peça intermediária, peça principal e peça terminal (Fig. 4-17).
Fig. 4-17 Estrutura do espermatozoide de touro. A cabeça (I) é conectada à peça
93
intermediária (III) pelo colo (II). A peça intermediária está em continuidadecom a peça
principal (IV) e a peça terminal (V). A cabeça apresenta o núcleo (1) com cromatina altamente
compactada e a porção anterior do núcleo é recoberta pelo acrossomo (2) com membranas
acrossômicas interna e externa localizadas internamente à membrana plasmática (3). Uma
placa basal (4) conecta a cabeça ao colo, a qual contém um centríolo proximal (5) e um
centríolo distal que se estende para o axonema localizado centralmente na peça intermediária
e na peça principal da cauda, consistindo de dois pares de microtúbulos centrais (6) e nove
periféricos (7). A peça intermediária apresenta nove fibras densas (8) circundadas por uma
hélice de mitocôndrias (9). Na peça terminal, o axonema é gradualmente perdido. 10:
Segmento equatorial da cabeça; 11: Bainha fibrosa.
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
A cabeça do espermatozoide contém o núcleo, que determina o formato da
cabeça. A porção anterior do núcleo é recoberta pelo acrossomo, delineado por uma
membrana acrossômica interna e uma externa. O acrossomo contém enzimas
hidrolíticas que são liberadas durante a fertilização como resultado da reação
acrossomal (Cap. 5). A região posterior do acrossomo é estreita e essa região da
cabeça do espermatozoide é chamada de região equatorial, a qual se continua
posteriormente na região pós-acrossomo. O núcleo do espermatozoide possui uma
cobertura de citoesqueleto conhecida como teca perinuclear, a qual contém fatores
ativadores do ovócito.
O colo é curto e conectado à cabeça por uma placa basal. Ele contém um
centríolo proximal e um centríolo distal que se continua no axonema da cauda. Os
centríolos são circundados por nove fibras densas periféricas, as quais se continuam
nas fibras densas da cauda.
A peça intermediária da cauda tem a estrutura característica de um flagelo,
contendo um axonema central consistindo em dois microtúbulos centrais e nove
pares periféricos. O axonema é circundado por nove fibras densas, as quais, por sua
vez, são circundadas por uma hélice de mitocôndrias alongadas. Em ruminantes, a
hélice mitocondrial inclui cerca de 40 voltas. Um espessamento em forma de anel da
membrana plasmática da peça intermediária, o annulus, marca o limite entre a peça
intermediária e a peça principal da cauda.
A peça principal da cauda é a porção mais longa. Contém o axonema
circundado de nove fibras densas. A hélice mitocondrial não está mais presente e as
fibras densas são, ao contrário, circundadas por nervuras semicirculares de proteínas
estruturais que se fundiram com duas das fibras densas para formar a bainha
fibrosa.
A transição entre a peça principal e a peça terminal da cauda é marcada pelo
final da bainha fibrosa. Proximalmente, a peça final ainda contém o axonema, mas
94
distalmente os pares de microtúbulos são reduzidos a microtúbulos únicos, os quais
terminam em vários níveis.
Os espermatozoides são transportados por contrações peristálticas dos túbulos
seminíferos e ductos subsequentes, e no ducto do epidídimo adquirem motilidade e
capacidades fecundantes.
Resumo
Células germinativas primordiais migram da parede do saco vitelino para a
gônada indiferenciada em desenvolvimento onde proliferam por mitose. As células
germinativas primordiais associam-se às células somáticas e desenvolvem-se em
ovogônias e espermatogônias. Subsequentemente iniciam a gametogênese que
inclui a meiose e a citodiferenciação dos gametas. A meiose proporciona aos
gametas o número haploide de cromossomos (metade do diploide) e a
recombinação, enquanto a citodiferenciação resulta na estruturação celular das
formas características dos dois gametas, o ovócito e o espermatozoide. Na fêmea,
as ovogônias formam os ovócitos primários que iniciam a meiose I, mas bloqueiam
no estágio de diplóteno da prófase. Um ovócito primário circundado por suas células
somáticas (células foliculares) constitui o folículo primordial, e esse tipo folicular
constitui-se na reserva quiescente de folículos, da qual os folículos são recrutados
para o crescimento passando pelos estágios de folículo primário, secundário e
terciário. O ovócito primário não reinicia a meiose e progride em sua maturação
nuclear até a metáfase da meiose II, somente após a puberdade, pouco antes da
ovulação. Em paralelo, o ovócito completa a sua maturação citoplasmática. No
macho, as espermatogônias são associadas a células somáticas em sólidos cordões
celulares que são as progenitoras dos túbulos seminíferos. A espermatogênese
começa após a puberdade e inclui a espermatocitogênese, a meiose e a
espermiogênese. A espermatocitogênese inclui várias divisões mitóticas das
espermatogônias que se dividem em espermatócitos primários. Pelas duas divisões
da meiose, os espermatócitos primários produzem espermatócitos secundários
haploides e depois as espermátides. A espermiogênese é o processo de
reestruturação transformando espermátides em espermatozoides.
Quadro 4-1 Regulação molecular do desenvolvimento da linhagem
germinativa
Assim como para as três principais camadas germinativas, a especificação da linhagem
germinativa ocorre durante o processo de gastrulação. Ao menos em camundongos, a
especificação é iniciada por sinais locais originados externamente ao embrião propriamente
95
dito. Esses sinais incluem as proteínas de morfogênese óssea (BMP) 4 e 8b atuando pela
via Smad. Células responsivas do epiblasto iniciam então a expressão de fragilis/Ifitm3 e
dessa população específica de células epiblásticas, as células precursoras comprometidas com
a linhagem germinativa são recrutadas. Um regulador transcricional-chave desse processo é o
Blimp1/Prdm1. Funções relacionadas ao Blimp1 incluem a repressão aos programas
somáticos incipientes nas células do epiblasto em gastrulação, sendo a redução da expressão
do gene Hox um indicador. Outros genes relacionados à especificação da linhagem
germinativa incluem Stella e c-kit, este último servindo como receptor para o fator de célula-
tronco/ligante kit, expresso em células revestindo o trajeto do transporte de células
germinativas para a gônada em desenvolvimento. Associada à sua repressão à diferenciação
em célula somática, precursores da linhagem germinativa mantêm a expressão de genes
associados à pluripotência, incluindo Oct4, Sox2 e Nanog, e mostram substanciais
modificações epigenéticas. Esse último incluindo a desmetilação global do DNA à medida que
as células germinativas povoam a crista genital, seguida por metilação de novo e aquisição de
marcas (imprints) genômicas sexo-específicas durante a gametogênese subsequente (Cap. 2,
Fig. 2-3).
No embrião feminino, as células germinativas iniciam a meiose durante as fases iniciais
do desenvolvimento ovariano. Marcadores moleculares expressos durante esse período do
desenvolvimento incluem Stra8 e SCP3, esse último uma proteína do complexo
sinaptonêmico envolvido no pareamento dos cromossomos homólogos. Aparentemente, a
entrada em meiose desencadeia a perda da pluripotência das células germinativas. Os
ovócitos guiam o desenvolvimento gonadal inicial. A foliculogênese é iniciada pela expressão
do fator de transcrição Figα, um fator específico para células germinativas femininas e
essencial, por exemplo, para a produção das proteínas da zona pelúcida. O continuado
desenvolvimento folicular depende de uma gama de fatores endócrinos e produzidos
localmente. Em contraste com a situação no embrião fêmea, a presença de células
germinativas não é necessária para o desenvolvimento do testículo. Em vez disso, a
diferenciação da gônada é controlada pela linhagem de células de Sertoli induzida pela
expressão do gene Sry ligado ao Y (região determinadora do sexo do cromossomo Y) em
células somáticas da crista genital. Sox9, Fgf9 e Dax1 estão entre os genes expressos após a
expressão inicial de Sry. Ao chegarem à crista genital, as células germinativas masculinas são
impedidas de entrar em meiose. Em vez disso, elas entram em estado de bloqueio mitótico
quando chegam a um número apropriado de células, que é espécie-específico.
Leituras adicionais
Berndston W.E., DesjardinsC. The cycle of the seminiferous epithelium in the bovine testis. Am. J. Anat.
1974;140:167–179.
96
Brennan J., Capel B. One tissue, two fates: molecular genetic events that underlie testis versus ovary
development. Nature Rev. Gen. 2004;5:509–521.
Dieleman S.J., Kruip T.A.M., Fontijne P., de Jong W.H.R., van dr Weyden G.C. Changes in oestradiol,
progesterone, and testosterone concentrations in follicular fluid and in the micromorphology of
preovulatory bovine follicles relative to the peak of luteinizing hormone. J. Endocr. 1983;97:31–42.
Grøndahl C., Hyttel P., Grøndahl M.L., Eriksen T., Godtfredsen P., Greve T. Structural aspects of equine
oocyte maturation in vivo. Mol. Reprod. Dev. 1995;42:94–105.
Heuser C.H., Streeter G.L. Early stages in the development of pig embryos, from the period of initial cleavage
to the time of the appearance of limb buds. Contr. Embryol. Carneg. Inst. 1927;20:1–19.
Hyttel P., Farstad W., Mondain-Monval M., Bakke Lajord K., Smith A.J. Structural aspects of oocyte
maturation in the blue fox. Anat. Embryol. 1990;181:325–331.
Hyttel P., Fair T., Callesen H., Greve T. Oocyte growth, capacitation and final maturation in cattle.
Theriogenology. 1997;47:23–32.
Liebich H.-G. Funktionelle Histologie der Haussaugtiere. Stuttgart, Germany: Schatter; 2004.
Moor R.M., Warnes G.M. Regulation of meiosis in mammalian oocytes. Br. Med. Bull. 1979;35:99–103.
Rüsse I., Sinowatz F. Lehrbuch der Embryologie der Haustiere, 2nd edn. Berlin: Parey Buchverlag; 1998.
Sutovsky P., Manandhar G., Wu A., Oko R. Interactions of sperm perinuclear theca with the oocyte:
implications for oocyte activation, anti-polysperm defense, and assisted reproduction. Microsc. Res. Tech.
2003;61:362–378.
Vejlsted M., Offenberg H., Thorup F., Maddox-Hyttel P. Confinement and clearance of OCT4 in the porcine
embryo at stereomicroscopically defined stages around gastrulation. Mol. Reprod. Dev. 2006;73:709–718.
Wrobel K.-H., Süss F. Identification and temporospatial distribution of bovine primordial germ cells prior to
gonadal sexual differentiation. Anat. Embryol. 1998;197:451–467.
1 Nota da Revisão Científica: A nomenclatura ‘ovócito’ e termos relacionados como ‘ovogênese’, ‘ovogônia’, ‘ovocitário’ são equivalentes
aos termos ‘oócito’, ‘oogênese’, ‘oogônia’ e ‘oocitário’, respectivamente.
97
Capítulo 5
Fertilização
Fred Sinowatz
A reprodução sexuada ocorre por meio da fertilização, durante a qual dois gametas
haploides fundem-se e produzem um indivíduo geneticamente único. A fertilização,
processo pelo qual o espermatozoide e o ovo se unem, ocorre na região da ampola
do oviduto (Cap. 3). O complexo formado pelo ovo mamífero, que é ovulado e
entra no oviduto pelo infundíbulo, consiste em três componentes: (1) o ovócito,
aprisionado na metáfase da meiose II na maioria dos animais domésticos (com
exceção dos cães, em que a maturação final até a metáfase II ocorre no oviduto), (2)
a zona pelúcida, uma matriz extracelular que circunda o ovócito, constituída de
glicoproteínas que são sintetizadas tanto pelo ovócito quanto pelas células do
cumulus circundantes em animais domésticos, e (3) as células do cumulus, que
consistem em várias camadas de células do cumulus oophorus inseridas em uma matriz
extracelular, composta principalmente de ácido hialurônico. É comum considerar a
zona pelúcida e o ovócito como uma única estrutura, levando à descrição do
complexo formado pelo ovo ovulado como o complexo cumulus-ovócito (COC),
particularmente no contexto dos procedimentos biotecnológicos (Fig. 5-1).
98
Fig. 5-1 Complexo cumulus-ovócito (1) na ampola de oviduto ovino, onde a fertilização. 2:
Dobras mucosas do oviduto.
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
Transporte do espermatozoide no trato genital feminino
A duração da cópula varia entre diferentes animais domésticos (Cap. 3). A cópula
dura menos que um minuto em ruminantes, é um pouco mais longa em cavalos,
vários minutos em porcos e pode durar de cinco a 30 minutos em cães. Em várias
espécies mamíferas (bovinos, ovinos, coelhos, cães, gatos e primatas), o sêmen é
depositado na porção cranial da vagina. Em outras espécies (porcos, cavalos e
camelídeos), o sêmen é ejaculado diretamente na cérvix (porcos) ou, via processo
uretral, tanto na cérvix quanto no útero.
Em ruminantes, o ejaculado possui volume pequeno (em geral somente 3 a 4
mL), mas contém uma enorme concentração de espermatozoides. Assumiu-se por
muito tempo que, após ser depositada no útero por inseminação artificial, a maior
parte dos espermatozoides ascende em direção ao oviduto. Entretanto, estudos
recentes demonstraram claramente que uma grande proporção desses
espermatozoides é perdida por transporte retrógrado; mais de 60% dos
espermatozoides depositados no útero são perdidos para o exterior dentro de 12
horas após a inseminação artificial. Essa perda pode ser muito maior caso os
espermatozoides sejam depositados na cérvix, e isso pode resultar em
comprometimento da fertilidade.
No cachaço, o volume de ejaculado é grande (200 a 400 mL) com,
comparativamente, baixa concentração de espermatozoides. Devido a seu grande
volume, a maior parte do ejaculado flui da cérvix para o útero. O cachaço ejacula
uma série de frações seminais com diferentes características. A primeira fração
contém poucos espermatozoides e consiste principalmente em secreções das glândulas
sexuais acessórias. A segunda fração é rica em espermatozoides. A maior parte da
fração final origina-se das glândulas bulbouretrais e forma um coágulo que reduz a
perda retrógrada de espermatozoides.
O garanhão ejacula em uma série de “jatos”, dos quais o primeiro geralmente
contém a fração rica em espermatozoides. O plasma seminal do último jato é
altamente viscoso e, como no porco, pode servir para minimizar a perda retrógrada
de espermatozoides pelo trato genital feminino.
No cão, a primeira das três frações do ejaculado origina-se na próstata, a única
glândula sexual acessória nessa espécie. O volume dessa fração límpida e acelular,
99
chamada de fração pré-espermática, varia de 0,5 a 5 mL, dependendo da raça. A
segunda fração, de cor opaca, é rica em espermatozoides. Seu volume varia de 1 a 4
mL e contém entre 300 milhões e dois bilhões de espermatozoides. A última fração
também é produzida pela próstata. Seu volume pode variar em uma ampla faixa, de
1 a até 80 mL, dependendo da raça. Ejaculado vigorosamente, essa última fração de
fluido prostático pode forçar a fração rica em espermatozoides cranialmente em
direção ao útero. No gato, o volume de ejaculado é pequeno (0,2 a 0,3 mL) e não se
sabe se ele é compreendido por múltiplas frações.
A perda retrógrada de espermatozoides pelo trato genital feminino depende
de vários fatores. Os mais importantes são o volume e a natureza física do ejaculado
e o local de sua deposição dentro do trato genital feminino. Como mencionado, em
algumas espécies, como no porco, as proteínas do plasma seminal formam um
tampão vaginal visível que evita que os espermatozoides sejam perdidos para o
exterior. Em alguns roedores de laboratório, o tampão vaginal sólido que é formado
após a cópula pode ser visto externamente e usado para determinar o momento do
coito (Cap. 20).
O transporte de espermatozoides até a ampola do oviduto é resultado,
principalmente, do elevado tônus e motilidade da túnica muscular do trato genital
feminino. Esse transporte pode ser dividido em duas fases, uma fase rápida e uma
fase sustentada de transporte. Dentro de poucos minutos após a cópula, os
espermatozoides já alcançaram o oviduto. Embora os gametas masculinos estejam
próximos ao ovócito após um período bastante curto, esses espermatozoides não são
viáveis e não participam da fertilização; é a fase sustentada do transporte
espermático que é importante para a fertilização bem-sucedida. Na fase sustentada,
os espermatozoides são transportados para os ovidutos a partir de possíveis
reservatórios na junção útero-tubárica ou na cérvix, durante um período prolongado,
liberando-os de maneira mais uniforme.A principal barreira para o transporte espermático é a cérvix uterina que
também pode servir como um reservatório de espermatozoides em várias espécies.
Em ruminantes, e em menor importância na égua, a cérvix possui um sistema
intricado de dobras e sulcos. Como em outras espécies domésticas, o epitélio da cérvix
de ruminantes produz um muco altamente viscoso que proíbe a penetração dos
espermatozoides pelo canal cervical durante a maior parte do ciclo estral. Somente
durante o estro é que o muco modifica sua viscosidade, quando um muco menos
viscoso rico em sialomucinas é produzido pelas regiões basais das criptas cervicais.
Um segundo tipo de muco, que contém principalmente sulfomucinas e é muito mais
viscoso, é secretado pelas porções apicais do epitélio que recobre as pontas das
dobras cervicais. Esses dois tipos diferentes de secreção criam dois compartimentos
100
distintos dentro do canal cervical, um basal com baixa viscosidade e outro mais
central com alta viscosidade. O ambiente com baixa viscosidade nas regiões basais
das dobras oferece um ‘caminho privilegiado’ pelo qual os espermatozoides podem se
mover mais facilmente em direção ao útero. A habilidade do espermatozoide em usar
esse caminho privilegiado depende da sua habilidade em nadar pelas criptas da
cérvix; os espermatozoides imóveis não são capazes de progredir e são eliminados.
Consequentemente, a cérvix age como um filtro para a remoção de espermatozoides
inviáveis.
Capacitação
Os espermatozoides não estão aptos a fertilizar o ovócito imediatamente após a
chegada ao trato genital feminino; para adquirir fertilidade eles devem permanecer
no trato genital feminino por um certo período (Fig. 5-2). As modificações que
ocorrem durante esse período constituem a capacitação dos espermatozoides. O
local onde a capacitação acontece varia entre as espécies. Em espécies nas quais os
espermatozoides são liberados na porção média da cérvix (porca) ou na cérvix caudal
e imediatamente entram no corpo do útero, a capacitação provavelmente começa no
útero e termina no istmo do oviduto. Em espécies nas quais a deposição de sêmen é
intravaginal, a capacitação é provavelmente iniciada durante a passagem do
espermatozoide pela cérvix. Nem todos os espermatozoides são capacitados ao
mesmo tempo e, como o processo geralmente se estende por várias horas, cada
espermatozoide pode apresentar um grau diferente de capacitação, dependendo de
sua localização dentro do trato genital feminino.
Fig. 5-2 Oviduto bovino Os espermatozoides podem ficar temporariamente ligados ao
101
epitélio do istmo no oviduto por mecanismos de ligação mediados por açúcar (p. ex., fucose). 1.
espermatozoide; 2. quinocílios; 3. microvilos.
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
A capacitação compreende um conjunto de processos complexos. Já foi
claramente demonstrado que a membrana plasmática do espermatozoide
(particularmente a da cabeça) sofre modificações marcantes durante a capacitação.
Os processos importantes durante a capacitação são: a remoção da cobertura
glicoproteica e das proteínas do plasma seminal (adsorvidas durante a estocagem no
epidídimo e a ejaculação) da superfície dos espermatozoides; o acoplamento
funcional das cascatas transdutoras de sinal que regulam o início da reação
acrossomal pelas glicoproteínas da zona pelúcida; as alterações na motilidade dos
flagelos que são necessárias para penetração da zona pelúcida; e, finalmente, o
desenvolvimento da capacidade de fundir-se com a membrana plasmática do ovócito.
Esses processos são acompanhados por modificações no metabolismo, nas
propriedades biofísicas da membrana plasmática, e na fosforilação proteica, junto
com a elevação dos níveis de cálcio intracelular e do pH, e hiperpolarização do
potencial de membrana.
A capacitação pode ser revertida pela devolução dos espermatozoides já
capacitados ao plasma seminal. Uma vez descapacitados dessa maneira, eles
necessitam de uma capacitação adicional antes de readquirirem sua fertilidade.
Grande parte do conhecimento sobre o processo de capacitação foi adquirido nos
estudos in vitro. Vários fatores causam capacitação in vitro. Primeiro, o efluxo de
colesterol da membrana espermática é mediado por proteínas ligadoras de esterol e
dá início a vários aspectos da capacitação. A reorganização da membrana
espermática após a depleção de colesterol é considerada a etapa inicial da
capacitação. Na segunda etapa, várias proteínas da membrana plasmática do
espermatozoide são fosforiladas nas tirosinas por um mecanismo dependente de
AMPc. Os espermatozoides expressam uma forma solúvel de adenilcliclase sensível a
bicarbonato que pode controlar esses eventos de fosforilação. Na terceira etapa, a
elevação do pH intracelular e dos níveis de bicarbonato pode levar ao estímulo para
a produção de AMPc. Pela ativação dos canais regulados por nucleotídeos cíclicos na
membrana plasmática do flagelo espermático, os espermatozoides podem ser
modificados para o padrão hiperativado de motilidade que é característico dos
espermatozoides capacitados.
In vivo, ações sinérgicas de múltiplos fatores parecem mediar a capacitação. Foi
demonstrado que as proteínas ligadoras de esterol, como as lipoproteínas de alta
densidade, estão presentes no fluido do oviduto e podem aceleram o efluxo de
102
colesterol dos espermatozoides. Além disso, a progesterona, derivada do fluido
folicular e da secreção pelas células do cumulus que circundam o ovócito após a
ovulação, pode estar envolvida na regulação de alguns aspectos do processo.
Interações entre os espermatozoides e a zona pelúcida
A zona pelúcida (ZP) é uma matriz extracelular que circunda o ovócito e o embrião
inicial e que exerce várias funções importantes durante a fertilização e o
desenvolvimento embrionário inicial. Na maioria das espécies de mamíferos, é
composta de três glicoproteínas (ZPA, equivalente à ZP2 de camundongo; ZPB,
equivalente à ZP1 de camundongo; ZPC, equivalente à ZP3 de camundongo),
produtos das famílias gênicas ZPA, ZPB e ZPC que foram identificadas como
altamente homólogas entre as espécies mamíferas. A maior parte das informações
sobre a estrutura e a função da ZP foi obtida de estudos em camundongos. Dados
recentes em porcos e em outros animais domésticos, no entanto, indicaram que as
descobertas no modelo murino nem sempre são aplicáveis a outras espécies. Por
exemplo, enquanto a ZP3 é o receptor espermático primário no camundongo, são a
ZPA e a ZPC que possuem atividade de receptor no porco. Também contrário ao
camundongo (em que o ovócito em crescimento é a única fonte de glicoproteínas
para a zona pelúcida), essas proteínas são expressas tanto no ovócito quanto nas
células de granulosa em um padrão variável entre os estágios nos animais
domésticos.
A ZP está envolvida em vários estágios críticos da fertilização: a adesão e a
ligação do espermatozoide capacitado à ZP; a indução subsequente da reação
acrossomal e a penetração na ZP; e as modificações da ZP induzidas pela fertilização
que evitam a polispermia.
Adesão dos espermatozoides à zona pelúcida
O primeiro contato entre o espermatozoide e a ZP, a adesão, é uma associação fraca
e não específica entre os gametas e parece ser uma interação bastante ao acaso (Fig.
5-3). Esta é seguida por uma ligação relativamente firme, que é específica à espécie
e é mediada por receptores complementares na ZP (receptores espermáticos) e na
superfície do espermatozoide. No camundongo a adesão inicial entre o
espermatozoide e a zona pelúcida é mediada pela ZP3, uma glicoproteína
constitutiva da ZP que se liga a receptores na cabeça anterior do espermatozoide com
acrossoma intacto. Essa adesão à ZP provavelmente é baseada em processos de
reconhecimento entre proteína e carboidrato, por meio da associação entre resíduos
103
da α-galactosil covalentemente ligadas a moléculas de oxigênio da ZP3 com um
receptor correspondente no espermatozoide. A ligação secundária é então mediada
pela ZP2. Outros autores, entretanto, consideram que a ligação espermatozoide-zona
pelúcidaé um evento puramente dependente de proteínas.
Fig. 5-3 Reação acrossomal. Uma vez ligados à zona pelúcida, os espermatozoides sofrem a
reação acrossomal, durante a qual enzimas hidrolíticas são liberadas do acrossoma da cabeça
do espermatozoide. Ela começa quando a membrana plasmática do espermatozoide forma
sítios múltipos de fusão com a membrana acrossomal externa resultando na formação de várias
vesículas pequenas. (a) Espermatozoide com acrossoma intacto. (b) Vesiculação da membrana
plasmática e da membrana acrossomal externa; (c) Penetração na zona pelúcida pelo
espermatozoide. 1: Fusão da membrana plasmática e da membrana acrossomal externa do
espermatozoide; 2: Zona pelúcida.
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
Em outras espécies que não o camundongo, foi sugerido que vários carboidratos
das proteínas da zona pelúcida estão envolvidos na ligação espermática. Ensaios de
inibição da ligação espermatozoide-ZP revelaram um papel da D-manose na ZP
humana e de ratos. O pré-tratamento de espermatozoides humanos com D-manose
inibiu a penetração do espermatozoide na ZP. No rato, o α-metil manosídeo e a D-
manose acabaram sendo os inibidores mais potentes. Foi demonstrado que a L-fucose
e a fucoidina estão envolvidas no reconhecimento espermatozoide-ZP em ovócitos de
cobaia, hamster, rato e humanos.
Reação acrossomal
104
Uma vez ligado, o espermatozoide sofre a reação acrossomal (Fig. 5-3) que tem
como resultado a liberação de enzimas hidrolíticas pelo acrossomo da cabeça do
espermatozoide. Isso permite que o espermatozoide penetre na matriz da ZP por uma
combinação da digestão enzimática das glicoproteínas da ZP e da propulsão vigorosa
pela cauda do espermatozoide. A reação acrossomal, induzida pelas glicoproteínas da
ZP, consiste em uma fusão ordenada da membrana plasmática do espermatozoide e a
membrana acrossomal externa. Ela tem início quando a membrana plasmática
forma sítios múltiplos de fusão com a membrana acrossomal externa resultando
na formação de muitas vesículas pequenas (vesiculação). Após a ocorrência da
vesiculação, o conteúdo enzimático do acrossoma é disperso, e o núcleo espermático
permanece coberto somente pela membrana acrossomal interna (Fig. 5-4). A
acrosina e a hialuronidase são enzimas liberadas durante a reação acrossomal. A
acrosina hidrolisa as proteínas da ZP e também aumenta a habilidade do
espermatozoide em se ligar a essas proteínas. Durante o processo da penetração na
ZP, os espermatozoides que sofreram reação acrossomal são ligados temporariamente
e liberados pelas glicoproteínas da ZP via mecanismos de ligação secundários que
envolvem a pró-acrosina. Os espermatozoides também avançam em direção do
espaço perivitelínico pela batida vigorosa da cauda. A pró-acrosina é a forma inativa
da enzima acrosina e possui grande afinidade pela ZP. Assim, a pró-acrosina auxilia
na ligação à zona pelúcida à medida que a reação acrossomal progride. Quando a
pró-acrosina é convertida em acrosina, o espermatozoide penetra usando a enzima
para digerir um pequeno buraco na zona pelúcida e passar por ele.
105
Fig. 5-4 Espermatozoide bovino sofrendo a reação acrossomal na superfície da zona
pelúcida. 1: Espermatozoide apresentando vesiculação da membrana plasmática e da
membrana acrossomal externa. 2: Zona pelúcida, composta por glicoproteínas (ZPA, ZPB,
ZPC).
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
Adesão e fusão de espermatozoide e ovócito
Após a penetração da ZP, o espermatozoide adere-se e funde-se à membrana
plasmática do ovócito. A membrana do ovócito funde-se com a membrana do
segmento equatorial do espermatozoide (Cap. 4), e o espermatozoide fertilizante,
incluindo sua cauda, é engolfado pelo ovócito. Estritamente, esse processo deveria
ser referido como singamia. A fusão de membrana dos gametas masculino e
feminino envolve fertilina-α do espermatozoide (também conhecida como
desintegrina 1 ou ADAM1), fertilina-β (ADAM2) e ciritestina (ADAM3), assim como
CRISP1 (proteína secretória 1 rica em cisteína). As integrinas encontradas na
membrana plasmática do ovócito são receptores para ADAMs dos espermatozoides.
Acredita-se que as proteínas mediadoras de adesão em ambos os gametas funcionem
como complexos multiméricos nas membranas plasmáticas. Após a adesão, a
membrana plasmática do espermatozoide funde-se à membrana plasmática do
ovócito. A base molecular desse processo de fusão intercelular não é completamente
compreendida; a tetraspanina CD9, uma proteína associada à integrina, está
106
implicada em certos tipos de fusão de membrana, mas não é sabido se ela participa
na fusão dos gametas.
Ativação ovocitária
Imediatamente após a entrada do espermatozoide, o ovócito sofre a ativação
ovocitária, que estabelece o bloqueio à fertilização polispérmica, a retomada da
meiose e o início do desenvolvimento embrionário. Em todos os animais investigados,
a ativação envolve aumento na concentração do íon cálcio citosólico para
aproximadamente 1 mM. Dependendo da espécie, esse aumento na concentração de
cálcio citosólico ocorre dentro de vários segundos a poucos minutos após a fusão da
membrana dos gametas, e geralmente ocorre como uma “onda” que viaja pelo
ovócito. Em mamíferos, uma oscilação de baixa frequência na concentração de cálcio
citosólico persiste por várias horas e precede a entrada na primeira divisão celular
embrionária. Além da indução do bloqueio à fertilização polispérmica, o aumento na
concentração de cálcio citosólico encerra o bloqueio meiótico de maneira que a
divisão reducional pode ser completada (Cap. 4). Em seguida, as respostas da
ativação do ovócito incluem o recrutamento de RNAms maternos para a tradução e
mudanças na síntese proteica (Cap. 6).
O uso da injeção espermática intracitoplasmática (ICSI; Cap. 21) para fertilizar
ovócitos mostrou que o contato extracelular entre espermatozoide e ovo não é
necessário para ativar os ovos. De modo interessante, também não é o simples ato da
injeção nem a introdução de cálcio do meio que induzem a ativação do ovo. Os
componentes do núcleo espermático, possivelmente sua teca perinuclear, foram
associados às atividades ativadoras de ovócitos. Entre os candidatos a essa
propriedade no espermatozoide estão a oscilina (uma isomerase da glicosamina-6-
fosfato) e uma forma truncada da c-Kit tirosina quinase.
Bloqueio à fertilização polispérmica
O bloqueio à fertilização polispérmica é estabelecido por meio da exocitose de um
grupo de grânulos secretórios, os grânulos corticais, do ovócito (Fig. 5-5). Isso é
referido como reação cortical (Cap. 4). O conteúdo dos grânulos corticais inclui
proteases, fosfatases ácidas, peroxidase, mucopolissacarídeos e ativador de
plasminogênio. Como resultado da liberação dos grânulos corticais, a membrana do
ovócito e a ZP tornam-se modificadas. Em consequência, qualquer posterior
penetração de espermatozoides no ovócito é evitada e o bloqueio da zona à
polispermia está estabelecido.
107
Fig. 5-5 O bloqueio à fertilização polispérmica é estabelecido por meio da exocitose dos
grânulos corticais (reação cortical) (A) mostra um ovócito imaturo bovino com poucos e
pequenos grânulos corticais (seta), (B) a exocitose dos grânulos corticais localizados
perifericamente em um ovócito maduro. 1: Mitocôndrias de um ovócito imaturo; 2: Microvilos;
3: Mitocôndria de um ovócito maduro; 4: Zona pelúcida.
Retomada da meiose e formação do pronúcleo
Como outra consequência da ativação ovocitária, a meiose é retomada e a segunda
divisão da meiose é completada. A célula-filha que quase não recebe citoplasma é
chamada de segundo corpúsculo polar (Cap. 4). A outra célula-filha é o ovócito
definitivo, agora referido como o zigoto. Seu conjunto haploide de cromossomos
torna-se circundado por camadas de retículo endoplasmático liso que contribui para a
formação de um envelope nuclear, e um núcleo vesicular conhecido como pronúcleo
feminino ou materno é formado (Fig. 5-6). O núcleo do espermatozoide passa por
modificações marcantes dentro do citoplasma do ovócito. Ele torna-se inchado
(“descondensado”),circundado por retículo endoplasmático liso contribuindo para
um envelope nuclear, e forma o pronúcleo masculino ou paterno (Fig. 5-7). A
descondensação do núcleo espermático requer a redução de muitas pontes dissulfito.
O agente redutor primário é a glutationa do citoplasma do ovócito. Além disso, as
protaminas pelas quais o DNA espermático é empacotado são substituídas pelas
histonas do ovócito. A cauda do espermatozoide destaca-se e degenera-se. Os
pronúcleos masculino e feminino aproximam-se, auxiliados pelo citoesqueleto do
zigoto (Figs. 5-8, 5-9). Finalmente, eles ficam em contato próximo e perdem seus
envelopes nucleares, que aparentemente se dissolve em retículo endoplasmático liso.
Durante a dissolução dos envelopes nucleares, os genomas haploides masculino e
feminino tornam-se unidos no centro do zigoto. Essa mistura é referida como
108
cariogamia ou sincariose. Deve-se notar que, em contraste ao que ocorre na
fertilização em algumas ordens inferiores, os pronúcleos em mamíferos não se
fundem realmente. Durante a migração dos pronúcleos, a fase S do primeiro ciclo
celular pós-fertilização é completada e, na dissolução dos envelopes nucleares dos
pronúcleos, a cromatina condensa-se para formar a prófase da primeira divisão
mitótica. A clivagem subsequente completa-se normalmente dentro de 24 horas após
a ovulação. Se o ovócito não é fertilizado nesse período, ele perde seu potencial de
desenvolvimento.
Fig. 5-6 Formação do pronúcleo feminino. Como uma consequência da ativação ovocitária,
a segunda divisão meiótica é completada (A). Uma das células-filhas (2 na Fig. 5-7 C) não
recebe quase citoplasma e é chamada de segundo corpúsculo polar A outra célula-filha (B) é o
ovócito definitivo. Seu conjunto haploide de cromossomos torna-se circundado por camadas de
retículo endoplasmático e um núcleo vesicular (3). O pronúcleo feminino está formado. 1:
Conjunto haploide de cromossomos; 2: Corpúsculo polar; 3: Pronúcleo feminino.
109
Fig. 5-7 Formação do pronúcleo masculino. O espermatozoide é capturado pelo ovócito por
um processo de fagocitose (A). O núcleo espermático torna-se rodeado por camadas de retículo
endoplasmático liso (B) contribuindo para a formação de um envelope nuclear. Um pronúcleo
paterno vesicular (descondensado) (C) é formado. 1: Núcleo espermático em descondensação;
2: Cauda espermática em degeneração; 3: Retículo endoplasmático; 4: Pronúcleo masculino.
Fig. 5-8 Pronúcleo masculino (1) e feminino (2) de um zigoto bovino. 3: Zona pelúcida; 4:
Espermatozoide penetrando a zona pelúcida.
110
Fig. 5-9 Visão geral da fertilização em mamíferos (modificado de Rüsse e Sinowatz, 1998). A
Anáfase da primeira divisão meiótica no folículo; B: Penetração do espermatozoide no espaço
perivitelínico; metáfase da segunda divisão meiótica e a ativação do ovócito resulta na
liberação dos grânulos corticais; C: Primeiro o espermatozoide é capturado pelo ovócito por um
processo de fagocitose; anáfase da segunda divisão meiótica; D: Formação dos pronúcleos
masculino e feminino, a cauda do espermatozoide degenera-se; E: Cariogamia; F: Primeira
divisão mitótica do zigoto.
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
Resumo
Os espermatozoides são depositados no trato genital feminino durante a cópula ou
inseminação artificial. Eles são transportados ao local de fertilização na região
ampolar do oviduto nas sucessivas fases de transporte rápida e sustentada, das
quais a última resulta na fertilização. Durante o transporte, o espermatozoide sofre a
capacitação e adquire a capacidade fertilizante. A fertilização é um processo em
etapas que inclui uma primeira série de interações entre o espermatozoide e a zona
pelúcida, e uma segunda série de eventos em que o espermatozoide fertilizante é
111
incorporado no ovócito. O espermatozoide primeiro adere-se fracamente à zona
pelúcida e esse processo é seguido por uma ligação mais firme mediada por
receptor. O contato com a zona pelúcida desencadeia a reação acrossomal no
espermatozoide, resultando na liberação de enzimas que auxiliam na penetração na
zona pelúcida. Subsequentemente, a membrana plasmática do segmento equatorial
do espermatozoide fertilizante funde-se com o ovócito internalizando-o. A fusão dos
gametas induz a ativação ovocitária incluindo a reação cortical no ovócito, pela
qual o conteúdo dos grânulos corticais é liberado e induz o bloqueio da zona à
polispermia. A ativação do ovócito também leva à conclusão da meiose II e ao
início do desenvolvimento embrionário inicial. No ovócito, o compartimento de
cromossomo haploide materno é circundado por um envelope nuclear formando o
pronúcleo materno e, após descondensação da cromatina no espermatozoide, seu
componente cromossomal haploide também se torna circundado por um envelope
nuclear para formar o pronúcleo paterno. Os pronúcleos então se movem um em
direção ao outro para o centro do zigoto, seus envelopes nucleares dissolvem-se e a
cromatina condensa-se para entrar na prófase da primeira divisão mitótica. A
primeira clivagem geralmente é observada dentro de 24 horas após a ovulação.
Quadro 5-1 A contribuição dos espermatozoides
Os espermatozoides maduros possuem pouco citoplasma e não possuem qualquer síntese
proteica detectável. Assumiu-se, portanto, por muito tempo que o espermatozoide contribui
para um embrião pouco mais do que com os genes paternos, enquanto o ovócito, com seus
abundantes RNAs e proteínas, dirige exclusivamente o desenvolvimento inicial do embrião.
De maneira surpreendente, estudos recentes mostraram que defeitos no espermatozoide
podem perturbar o desenvolvimento embrionário mesmo se os genes carregados pelas células
germinativas masculinas forem perfeitamente normais. Tem ficado claro que além do
conjunto haploide de cromossomos, o espermatozoide também contribui com um
conteúdo complexo de RNA e proteínas que podem ser cruciais para o desenvolvimento
inicial de um embrião.
Contrário a opiniões mais antigas, o espermatozoide inteiro, incluindo a peça
intermediária e a cauda, é capturado pelo ovócito. Em vários mamíferos, as estruturas da
peça intermediária e da cauda persistem no embrião por várias divisões celulares. Na maioria
dos mamíferos (mas não em camundongos) o espermatozoide também contribui com os
centríolos, um pré-requisito para a formação do aparato do fuso e a primeira divisão mitótica.
Também foi descoberto recentemente que o espermatozoide contribui com uma molécula
chamada de PLC que desencadeia as ondas de íons cálcio que ativam um ovo fertilizado, e
que o espermatozoide contém várias centenas de tipos diferentes de RNA mensageiro. Alguns
deles são codificantes de proteínas necessárias para o desenvolvimento embrionário inicial,
112
mas a função da maioria das moléculas de RNA transferidas ainda precisa ser estabelecida.
Leituras adicionais
Brewis I.A., Moore H.D. Molecular mechanisms of gamete recognition and fusion at fertilization. Hum.
Reprod. 1997;12:156–165.
Dean J. Molecular biology of sperm-egg interactions. Andrologia. 2005;37:198–199.
Dunbar B.S., Avery S. The mammalian zona pellucida: its biochemistry, immunochemistry, molecular
biology, and developmental expression. Reprod. Fertil. Dev. 1994;6:331–347.
Evans J.P., Florman H.M. The state of the unions: the cell biology of fertilization. Nat. Cell. Biol. 2002;4:57–
63.
Farstad W., Hyttel P., Grøndahl C., Mondain-Monval M., Smith A.J. Fertilization and early embryonic
development in the blue fox (Alopex lagopus). Mol. Reprod. Dev. 1993;36:331–337.
Guraya S.S. Cellular and molecular biology of capacitation and acrosome reaction in spermatozoa. Int. Rev.
Cytol. 2000;199:1–64.
Hyttel P., Greve T., Callesen H. Ultrastructure of in-vivo fertilization in superovulated cattle. J. Reprod. Fert.
1988;82:1–13.
Hyttel P., Xu K.P., Greve T. Scanning electron microscopy of in vitro fertilization in cattle. Anat. Embryol.
1988;178:41–46.
Kölle S., Sinowatz F., Boie G., Totzauer I., Amselgruber W., Plendl J. Localization of the mRNA encoding the
zona protein ZP3 alpha in theporcine ovary, oocyte and embryo by non-radioactive in situ hybridization.
Histochem. J. 1996;28:441–447.
Kölle S., Sinowatz F., Boie G., Palma G. Differential expression of ZPC in the bovine ovary, oocyte, and
embryo. Mol. Reprod. Dev. 1998;49:435–443.
Kölle S., Dubois C.S., Caillaud M., Lahuec C., Sinowatz F., Goudet G. Equine zona protein synthesis and ZP
structure during folliculogenesis, oocyte maturation, and embryogenesis. Mol. Reprod. Dev. 2007;74:851–
859.
Laurincik J., Hyttel P., Rath D., Pivko J. Ovulation, fertilization and pronucleus development in
superovulated gilts. Theriogenology. 1994;41:447–452.
Laurincik J., Kopecny V., Hyttel P. Pronucleus development and DNA synthesis in bovine zygotes in vivo.
Theriogenology. 1994;42:1285–1293.
Laurincik J., Hyttel P., Kopecny V. DNA synthesis and pronucleus development in pig zygotes obtained in
vivo: An autoradiographic and ultratsructural study. Mol. Reprod. Dev. 1995;40:325–332.
Lyng R., Shur B.D. Sperm-egg binding requires a multiplicity of receptor-ligand interactions: new insights
into the nature of gamete receptors derived from reproductive tract secretions. Soc. Reprod. Fertil. Suppl.
2007;65:335–351.
Moore H.D. Molecular biology of fertilization. J. Reprod. Fertil. Suppl. 2001;57:105–110.
Rüsse I., Sinowatz F. Lehrbuch der Embryologie der Haustiere, 2nd edn. Berlin: Parey Buchverlag; 1998.
Sinowatz F., Wrobel K.H. Development of the bovine acrosome. An ultrastructural and cytochemical study.
Cell Tissue Res. 1981;219(3):511–524.
113
Sinowatz F., Gabius H.J., Amselgruber W. Surface sugar binding components of bovine spermatozoa as
evidence by fluorescent neoglycoproteins. Histochemistry. 1988;88:395–399.
Sinowatz F., Volgmayr J.K., Gabius H.J., Friess A.E. Cytochemical analysis of mammalian sperm membranes.
Prog. Histochem. Cytochem. 1989;19:1–74.
Sinowatz F., Amselgruber W., Topfer-Petersen E., Totzauer I., Calvete J., Plendl J. Immunocytochemical
characterization of porcine zona pellucida during follicular development. Anat. Embryol. 1995;191:41–46.
Sinowatz F., Plendl J., Kölle S. Protein-carbohydrate interactions during fertilization. Acta Anat. (Basel).
1998;161:196–205.
Sinowatz F., Topfer-Petersen E., Koelle S., Palma G. Functional morphology of the zona pellucida. Anat.
Histol. Embryol. 2001 a;30:257–263.
Sinowatz F., Koelle S., Topfer-Petersen E. Biosynthesis and expression of zona pellucida glycoproteins in
mammals. Cells Tissues Organs. 2001;168:24–35.
Sinowatz F., Wessa E., Neumueller C., Palma G. On the species specificity of sperm binding and sperm
penetration of the zona pellucida. Reprod. Domest. Anim. 2003;38:141–146.
Wassarman P.M. Towards molecular mechanisms for gamete adhesion and fusion during mammalian
fertilization. Curr. Opin. Cell Biol. 1995;7:658–664.
Wassarman P.M., Litscher E.S. Sperm–egg recognition mechanisms in mammals. Curr. Top. Dev. Biol.
1995;30:1–19.
114
Capítulo 6
Clivagem embrionária e blastulação
Morten Vejlsted
Após a fertilização, a meiose é concluída, a ciclicidade celular retorna ao padrão
mitótico. O genoma embrionário único é estabelecido por meio da mistura dos
cromossomos paternos e maternos com a dissolução dos dois pronúcleos. Este evento
provê ao zigoto a genética completa para o desenvolvimento embrionário. O
citoplasma do zigoto, herdado do ovócito, contém a composição molecular e
estrutural completa e necessária para iniciar as primeiras clivagens e,
posteriormente, ativar o genoma do embrião para a nova transcrição embrionária.
Assim, a fase inicial de desenvolvimento é guiada por informações armazenadas no
ovócito e passadas ao zigoto e ao embrião recém-formado.
Clivagens e ativação do genoma
No zigoto, a fase S é concluída durante o primeiro ciclo celular após a fertilização.
Assim, quando o zigoto cliva em um embrião de duas células na primeira mitose,
cada uma das duas células, denominadas blastômeros, contém uma cópia completa
do genoma embrionário (Figs. 2-1, 6-1). O embrião ainda é, e continuará sendo,
circundado pela zona pelúcida por alguns dias. Uma série de divisões mitóticas
continuam a ocorrer. Durante esta fase de desenvolvimento, as divisões mitóticas são
peculiares, pois ocorrem quase sem crescimento celular, as células vão se tornando
cada vez menores, pois o citoplasma original do zigoto é dividido em porções cada
vez menores. Estas divisões celulares são denominadas clivagens. Os blastômeros
podem ser de tamanhos desiguais devido a uma assincronia na clivagem. Esta
assincronia torna-se aparente desde o início, mesmo entre os estágios de duas e
quatro células, que resulta em um temporário embrião de três células. Ao menos no
camundongo, o ponto de penetração do espermatozoide pode posicionar o plano da
primeira clivagem. Além disso, no estágio duas células, o blastômero que herda o
local de entrada do espermatozoide tende a se dividir mais precocemente e tem a
maior probabilidade de originar as células posicionadas internamente no crescente
montante celular.
115
Fig. 6-1 Cortes de um zigoto bovino (A) com dois pronúcleos (setas) e de um embrião de
duas células (B) com núcleos (setas).
As clivagens iniciam-se durante o transporte embrionário pelo oviduto, mas em
um estágio espécie específico do desenvolvimento, o embrião chega ao útero (Tabela
6-1). A égua é muito particular no que diz respeito ao transporte pelo oviduto, a
entrada no utero é permitida somente para embriões, enquanto ovócitos não
fertilizados, por um mecanismo ainda desconhecido, ficam retidos no oviduto.
Tabela 6-1 Momento de passagem do embrião do oviduto para o útero e de formação de
blastocistos, em diferentes espécies
Durante o crescimento ovocitário, transcritos e proteínas são armazenados nestas
células especializadas para uso futuro (Fig. 6-2). No final da fase de crescimento a
transcrição diminui. No entanto, o ovócito pode ser carregado em maior ou menor
grau com os transcritos e proteínas necessários para a condução do desenvolvimento
embrionário inicial e que governam, ao menos, a primeira clivagem. Os transcritos e
116
as proteínas são gradualmente degradados após a fertilização e, em certo estágio de
desenvolvimento, a atividade do genoma embrionário é necessária. O genoma
embrionário é ativado gradualmente; a transcrição é muito limitada no início, mas
aumenta em estágios espécie-específicos e em duas fases: a ativação menor e a
ativação principal do genoma embrionário (Tabela 6-2).
Fig. 6-2 Controle materno versus embrionário do desenvolvimento inicial do embrião.
Durante a fase de crescimento ovocitário nos folículos, transcritos e proteínas são acumuladas
no ovócito. Com o desenvolvimento, esses componentes são gradualmente utilizados e
degradados. Em paralelo, o genoma embrionário passa inicialmente por uma ativação menor e
subsequentemente pela ativação principal. Este processo ocorre no estágio de quatro células
em suínos e oito células em bovinos.
Tabela 6-2 Momento da ativação menor e ativação principal do genoma embrionário em
diferentes espécies
Espécies Ativação menor do genoma Ativação principal do genoma
Camundongo Fase G2 do primeiro ciclo celular (zigoto) Segundo ciclo celular (embrião de duas células)
Suíno Desconhecido Terceiro ciclo celular (embrião de quatro células)
Bovino Primeiro ciclo celular (zigoto) Quarto ciclo celular (embrião de oito células)
Canino Desconhecido Quarto ciclo celular (embrião de oito células)
Equino Desconhecido Do quarto para o quinto ciclo celular (embrião de oito a 16 células)
Ovino Desconhecido Do quarto para o quinto ciclo celular (embrião de oito a 16 células)
117
Após poucas divisões celulares, o embrião adquire a forma de uma pequena
massa de células denominada mórula, nome em latim para amora.
Compactação
Todas as células individuais da mórula são idênticas às iniciais, suas formas esféricas
dão à mórula a aparência típica de uma amora. Mais tarde, porém, as células
exteriores diferenciam-se em um epitélio firmemente unido atribuindo ao embrião
uma superfície mais lisa.Este processo é conhecido como compactação (Fig. 6-3). As
células externas constituem o trofectoderma ou trofoblasto. Neste livro, o termo
trofectoderma será utilizado quando se referir a um período anterior à placentação e
trofoblasto quando estas células já estiverem comprometidas com a formação da
placenta. A firme união entre as células vizinhas do trofectoderma resultam em
junções intercelulares especializadas, incluindo junções do tipo oclusivas e
desmossomos. Assim, um típico epitélio com compartimentos celulares apicais e
basolaterais é formado. Existem algumas diferenças entre as espécies para o período
de compactação: no suíno ocorre muito cedo no desenvolvimento, ao redor do estágio
de oito células, enquanto que em bovinos acontece mais tarde, por volta do estágio
de 16 a 32 células.
118
Fig. 6-3 Cortes de embriões de suínos. A: embrião de quatro células apresentando três
blastômeros e um núcleo (seta). 1: Zona pelúcida. B: Mórula no processo de compactação.
Observe a estreita ligação (seta) entre as células externas. 1: Zona pelúcida. C: Blastocisto. 1:
Zona pelúcida; 2: Trofectoderma; 3: MCI. D: Blastocisto expandido. 1: Zona pelúcida; 2:
Trofectoderma; 3: MCI.
Do ponto de vista molecular, a diferenciação dos blastômeros mais externos, ao
menos em camundongos, parece ser dependente da diminuição na expressão do fator
de transcrição Oct4, seguido do aumento na expressão de outros fatores de
transcrição como Cdx2 e Eomesodermina (Fig. 6-4). Concomitantemente, as células
internas conservam a expressão de Oct4.
119
Fig. 6-4 Ação sequencial dos fatores de transcrição Oct4, Nanog, Cdx2 e GATA-6 durante a
diferenciação celular inicial no embrião de camundongo. Na compactação celular duas
linhagens são derivadas de blastômeros totipotentes: a massa celular interna pluripotente
(MCI) e o trofectoderma. O epiblasto mais tarde se diferencia em hipoblasto e epiblasto.
Blastulação
A compactação da mórula é um pré-requisito para posterior blastulação – formação
de uma cavidade repleta de líquido no centro do embrião, a blastocele. A blastulação
ocorre geralmente dentro do lúmen uterino durante a primeira semana de
desenvolvimento e transforma o embrião em um blastocisto (Fig. 6-5).
Fig. 6-5 Blastocisto suíno no dia seis de desenvolvimento, observado em estereomicroscópio.
120
1: Zona pelúcida; 2: Trofectoderma; 3: Blastocele; 4: Massa celular interna (MCI).
A blastulação é provocada principalmente pelo controle do trofectoderma sobre
o transporte de fluidos para a cavidade. Ao final, os blastômeros internos
posicionam-se em um polo do embrião formando a massa celular interna (MCI).
Células derivadas da MCI formarão o embrião propriamente dito, enquanto que as
células do trofectoderma originarão a parte embrionária da placenta (Cap. 9). A
proporção entre as células MCI e trofectoderma é de cerca de 1:3. A porção do
trofectoderma que recobre a MCI é conhecida como trofectoderma polar enquanto
que o restante é conhecido como trofectoderma mural (Fig. 6-6).
Fig. 6-6 Blastocisto bovino no dia seis de desenvolvimento. O quadro (B) refere-se à figura
observada na ultraestrutura em “B”. A: Corte em microscopia de luz. Observa-se que as células
planas do hipoblasto (setas) começam a formar-se da MCI. 1: MCI; 2: Trofectoderma mural; 3:
Trofectoderma polar; 4: Zona pelúcida. B: Microscopia eletrônica de transmissão de duas
células adjacentes do trofectoderma. 5: Junção oclusiva; 6: Desmossoma; 7: Microvilos; 8: Zona
pelúcida.
Com a pressão osmótica no interior da cavidade do blastocisto subindo, o
embrião gradualmente se expande. No lavado uterino para a coleta e transferência
de embriões é comum encontrar blastocistos em colapso com capacidade de
reexpandir. No entanto, não é conhecido se tratar de um artefato in vitro ou de um
fenômeno fisiológico intrauterino. Ao final, a expansão do blastocisto leva à ruptura
da zona pelúcida (Fig. 6-7) e permite que o embrião escape pela abertura. Em
algumas espécies, este processo, conhecido como eclosão, é auxiliado por enzimas
proteolíticas liberadas pelo endométrio e que agem nas glicoproteínas que compõem
121
a zona pelúcida. Em equinos, forma-se uma cápsula “compensatória” entre o
trofectoderma e a zona pelúcida antes que esta seja rompida. A cápsula desempenha
um importante papel na manutenção da prenhez precoce para esta espécie (Cap. 9).
Fig. 6-7 Eclosão do blastocisto suíno. Os núcleos estão marcados com o corante fluorescente
Hoechst 33342 e espermatozoides supranumerários são visualizados aderidos à zona pelúcida
(seta).
(Foto: Wouter Hazeleger.)
Próximo ao período da eclosão, a MCI diferencia-se em duas populações de
células: aquelas voltadas a blastocele formando uma camada achatada denominada
hipoblasto (Fig. 6-8); e aquelas remanescentes formam uma camada multicelular
chamada epiblasto. Pequenas cavidades intercelulares podem surgir no epiblasto. O
hipoblasto, como o trofectoderma, tem característica epitelial. Gradualmente, ele
forma um completo revestimento interno abaixo não apenas do epiblasto, como
também do trofectoderma. Nos equinos, o hipoblasto inicialmente forma “colônias”
separadas que posteriormente unem-se em um fechado compartimento interno. Em
ambos os casos, uma cavidade denominada saco vitelino primitivo é formada. Do
ponto de vista molecular, ao menos em camundongos, a expressão do fator de
transcrição Nanog é essencial para a formação do epiblasto (Fig. 6-4), enquanto o
fator de transcrição GATA-6 é um regulador-chave na formação hipoblasto. O
epiblasto mais tarde formará o embrião propriamente dito enquanto o hipoblasto vai
formar o epitélio interno do saco vitelino, que dependendo da espécie, pode estar
envolvido com a placentação (Cap. 9). No camundongo e no coelho, entretanto, o
hipoblasto também tem demonstrado desempenhar um papel importante na
regulação da proliferação, sobrevivência e diferenciação do epiblasto sobrejacente.
122
Esta regulação é, em parte, mediada pela formação de uma membrana basal entre o
hipoblasto e o epiblasto.
Fig. 6-8 Blastocistos bovinos aos dias 10 (A) e 12 (B) de desenvolvimento. 1: Epiblasto; 2:
Trofectoderma; 3: Hipoblasto. Observa-se a camada Rauber em processo de degeneração em B
(seta).
Nas espécies domésticas, o trofectoderma polar que recobre o epiblasto
(conhecido como camada de Rauber) gradualmente se desintegra e é perdido,
expondo o epiblasto para o ambiente uterino. No entanto, antes do desprendimento
da camada de Rauber, junções do tipo oclusivas são formadas entre as células mais
periféricas do epiblasto com o objetivo de selar o embrião, apesar da perda do
trofectoderma polar. Após a perda da camada de Rauber, o epiblasto é claramente
perceptível como uma estrutura brilhante, inicialmente circular tornando-se oval.
Junto com hipoblasto subjacente é conhecido como disco embrionário (Figs. 6-9, 6-
10).
123
Fig. 6-9 Blastocisto suíno no dia 10 de desenvolvimento. O disco embrionário no quadro (B)
observado em uma maior ampliação em B.
Fig. 6-10 Disco embrionário em embrião bovino. A: Embrião ovoide no dia 14 de
desenvolvimento com pouca visualização do disco embrionário (seta). A linha (B) indica o corte
exibido em B. B: Corte através do disco embrionário (1). 2: Epiblasto; 3: Trofectoderma com
microvilos; 4: Hipoblasto; 5: Saco vitelino primitivo.
Alongamento do blastocisto
Durante a formação do disco embrionário, o blastocisto ainda está em expansão. Uma
vez que o disco é formado, o trofectoderma com o hipoblasto subjacente remodelam-
se e o embrião torna-se ovoide (Fig. 6-10). Em ruminantes e suínos, o processo de
alongamento continua, e o embrião se torna primeiro tubular e posteriormente
filamentoso (Fig. 6-11). A massa embrionária total não aumenta na mesma
proporção que o comprimento, assim o embrião torna-se filiforme e tremendamente
124
longo. Este fenômeno é particularmente marcante no suíno no qual o embrião
desenvolve-se de uma esfera de cerca de um centímetro de diâmetro no dia 10 para
uma estrutura filamentosa de aproximadamenteum metro de comprimento no dia
13. O alongamento ocorre de modo intenso particularmente nos dias 12 e 13 (30-45
milímetros por hora!). Este aumento não pode ser explicado somente por mitoses, e
envolve também a reestruturação do citoesqueleto e da forma celular. Em
ruminantes, o alongamento do embrião é menos evidente; em bovinos o
comprimento aumenta até 35 cm entre os dias 12 e 21 (Fig. 6-12).
Fig. 6-11 Alongamento do embrião suíno. A: Embrião esférico (1) e tubular (2) no dia 11 de
desenvolvimento. O embrião tubular é um pouco enovelado. B: Entremeado de embriões
filamentosos no dia 13 de desenvolvimento. Observa-se o disco embrionário (3) e as
extremidades terminais dilatadas do embrião (4).
125
Fig. 6-12 Alongamento de embriões bovinos ao redor de 16 (A), 18 (B), 22 (C), e 27 (D) dias
de desenvolvimento.
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
Em contraste com os ruminantes e os suínos, nos equinos o embrião não se
alonga e permanece esférico durante esta fase do desenvolvimento.
Resumo
No zigoto, a meiose é finalizada e o genoma embrionário único é formado.
Completada a fase S do primeiro ciclo celular pós-fertilização, o zigoto entra no ciclo
celular mitótico e cliva em duas células. Esta clivagem, e as várias subsequentes,
ocorrem sem o crescimento celular, assim as células ficam cada vez menores. Em
um estágio de desenvolvimento variável entre as espécies, ocorre a ativação
principal do genoma embrionário. Após um determinado número de divisões, o
embrião chega ao útero na forma de um aglomerado celular semelhante a uma amora
e denominado mórula. Durante o processo de compactação, os blastômeros mais
externos da mórula unem-se uns aos outros para desenvolver o trofectoderma. Uma
cavidade cheia de fluido, a blastocele, desenvolve-se no interior do trofectoderma
126
enquanto as células internas reunem-se em um polo do embrião para formar a massa
celular interna (MCI) e o embrião passa a receber o nome de blastocisto. Em uma
fase do desenvolvimento variávels entre as espécies, o blastocisto sai da zona
pelúcida com a eclosão. Próximo ao período de eclosão, as celulas internas da MCI
delaminam e formam um epitélio, o hipoblasto, no interior do blastocisto. A
cavidade delimitada pelo hipoblasto é denominada saco vitelino primitivo. As
células externas da MCI formam o epiblasto, que mais tarde originará o embrião
propriamente dito. O trofectoderma que recobre o epiblasto, a camada de Rauber, é
subsequentemente perdido, assim, o epiblasto é exposto ao ambiente uterino e torna-
se confluente com o trofectoderma. Nesta fase, o epiblasto e o hipoblasto formam o
disco embrionário. Após a eclosão, o blastocisto mantém inicialmente a forma
esférica, mas em suínos e ruminantes (não em equinos), torna-se ovoide, e alongam-
se, tornando-se sucessivamente tubular e filamentoso.
Quadro 6-1 Regulação molecular da blastulação
Próximo ao estágio de mórula, os blastômeros perdem a totipotência e duas linhagens
celulares distintas tornam-se evidentes: células internas, formando a MCI e células externas
formando o trofectoderma. A formação da MCI e do trofectoderma constitui o primeiro
processo de diferenciação durante o desenvolvimento embrionário. Em termos moleculares,
no entanto, recentes descobertas em camundongos demonstram que o padrão molecular para
essa diferenciação é estabelecido tão cedo quanto na fase de quatro células. Como
mencionado no Capítulo 2, a diferenciação celular e o desenvolvimento embrionário são
epigeneticamente controlados, uma vez que todas as células (com algumas exceções, p. ex., a
linhagem de linfócitos) descendem do zigoto e compartilham as mesmas sequências de DNA.
A modificação nas histonas é um desses mecanismos de controle epigenético. Em
camundongos, a dependência do arranjo espacial de cada dos quatro blastômeros e a ordem
em que são gerados, faz com que alguns blastômeros aparentemente fiquem com mais
metilações de resíduos de arginina em histona H3 do que outros. Os blastômeros mais
metilados tendem a formar as células internas e, consequentemente, a MCI; os menos
metilados tendem a formar células externas, e, portanto, o trofectoderma.
Em termos morfológicos, a diferenciação da MCI e do trofectoderma é inicialmente
evidenciada por alterações na superfície celular que aumentam a adesão entre blastômeros.
Isso é mediado pela expressão de moléculas de adesão celular transmembrana dependentes de
cálcio, ovomorulina, também conhecida como E-caderina. Quando a adesão mediada pela
E-caderina ocorre, todos os blastômeros têm a superfície coberta com microvilos voltados
para o exterior e a superfície mais lisa voltada para o centro do embrião. Subsequentemente
às adesões mediadas pela E-caderina, junções oclusivas desenvolvem-se entre as células
externas, definindo claramente os domínios de membrana plasmática apical e basolateral.
127
Assim, as células exteriores tornam-se polarizadas e epiteliais. Mais tarde, bombas de Na+,
K+ são estabelecidas na região basolateral do trofectoderma para conduzir a formação da
blastocele durante a blastulação.
Leituras adicionais
Betteridge K.J. Equine embryology: An inventory of unanswered questions. Theriogenology. 2007;68S:S9–S21.
Betteridge K.J., Fléchon J.–E. The anatomy and physiology of pre-attachment bovine embryos.
Theriogenology. 1988;29:155–187.
Degrelle A.A., Campion E., Cabau C., Piumi F., Reinaud P., Richard C., Renard J.–P., Hue I. Molecular
evidence for a critical period in mural trophoblast development in bovine blastocysts. Dev. Biol.
2005;288:448–460.
Denker H.–W., Eng L.A., Mootz U., Hammer C.E. Studies on the early development and implantation in the
cat. I. Cleavage and blastocyst formation. Anatomischer Anzeiger. 1978;144:457–468.
Heuser, C.H. and Streeter, G.L. (1927): Early stages in the development of pig embryos, from the period of
initial cleavage to the time of the appearance of limb-buds. Contributions to Embryology, 20, Carnegie
Institution of Washington, Publication number 109:1-19.
Holst P.A., Phemister R.D. The prenatal development of the dog: preimplantation events. Biol. Reprod.
1971;5:194–206.
Hunter R.H.F. Chronological and cytological details of fertilization and early embryonic development in the
domestic pig, Sus scrofa. Anat. Rec. 1974;178:169–186.
Maddox-Hyttel P, Bjerregaard B., Laurincik J. Meiosis and embryo technology: renaissance of the nucleolus.
Reprod. Fertil. Dev. 2005;17:3–14.
Patten B.M. Embryology of the pig, edn. New York: Blakiston; 1948.
Reynaud K., Fontbonne A., Marseloo N., Viaris de Lesegno C., Saint-Dizier M., Chastant-Maillard S. In vivo
canine oocyte maturation, fertilization and early embryogenesis: a review. Theriogenology. 2006;66:1685–
1693.
Rüsse I., Sinowatz F. Lehrbuch der Embryologie der Haustiere, 2nd edn. Berlin: Parey Buchverlag; 1998.
Schier A.F. The maternal-zygotic transition: death and birth of RNAs. Science. 2007;316:406–407.
Sharp D.C. The early fetal life of the equine conceptus. Anim. Reprod. Sci. 2000;60–61:679–689.
Stroband H.W.J., van der Lende T. Embryonic and uterine development during early pregnancy in pigs. J.
Reprod. Fert. Suppl. 1990;40:261–277.
Vejlsted M., Du Y., Vajta G., Maddox-Hyttel P. Post-hatching development of the porcine and bovine embryo
– defi ning criteria for expected development in vivo and in vitro. Theriogenology. 2006;65:153–165.
Watson A.J. Trophectoderm differentiation in the bovine embryo: characterization of a polarized epithelium.
J. Reprod. Fert. 1998;114:327–339.
Watson A.J., Barcroft L. Regulation of blastocyst formation. Frontiers in Bioscience. 2001;6:D708–730.
128
Capítulo 7
Gastrulação, dobramentos embrionários e formação do celoma
Morten Vejlsted
Conforme discutido no capítulo anterior, a blastulação resulta na formação de células
da massa celular interna (MCI), trofoectoderma, epiblasto e hipoblasto. O hipoblasto
e o trofoectoderma são linhagens extraembrionárias que participarão da formação da
membrana fetal (Cap. 9), ao passo que os derivados do epiblasto incluirão todas aslinhagens celulares. Inicialmente, isto ocorre pela formação de três camadas
germinativas do epiblasto: ectoderma, mesoderma e endoderma. Um derivado de
destaque do endoderma é o intestino primitivo, formação da qual se dá o nome para
o próprio processo de formação das camadas germinativas – a gastrulação, que
deriva do termo grego gástrula, o qual significa “pequeno estômago”. Além das três
camadas germinativas, a gastrulação também estabelece a linhagem germinativa,
na forma de células germinativas primordiais. Apenas a formação inicial da
linhagem germinativa será discutida neste capítulo, o posterior desenvolvimento das
células germinativas primordiais nas cristas gonadais está descrito nos Capítulos 4 e
15.
Enquanto a gastrulação prossegue, o disco embrionário gradualmente é coberto
por membranas extraembrionárias para a formação da cavidade amniótica. Nas
espécies domésticas, a formação do âmnio resulta dos dobramentos da região superior
da trofectoderma com o mesoderma extraembrionário subjacente, conforme será
descrito primeiro, seguido então para outros eventos no próprio disco.
Desenvolvimento do âmnio
Durante as fases iniciais da gastrulação, o trofoectoderma é delineado por uma fina
camada de mesoderma extraembrionário (veja a seguir), as duas camadas em
conjunto constituem o cório. Durante a gastrulação, o cório forma pregas
corioamnióticas que circundam o disco embrionário (Fig. 7-1). Gradualmente, as
pregas estendem-se em sentido superior até encontrarem-se e unirem-se sobre o disco
embrionário, envolvendo-o, assim, em uma cavidade amniótica fechada. O termo
âmnio geralmente é empregado para o conjunto da cavidade e sua parede. O
129
epitélio interior do âmnio surge do trofoectoderma e assim, no disco embrionário, é
contínuo com o epiblasto e posteriormente à superfície do ectoderma embrionário
(veja a seguir). A cobertura externa do âmnio é composta do mesoderma
extraembrionário. Posteriormente, o âmnio será envolto por ainda outra cavidade, o
alantoide (veja abaixo e no Cap. 9).
Fig. 7-1 Formação do âmnio em suíno das pregas corioamnióticas no dias 13° a 15° de
desenvolvimento. 1: Trofoectoderma; 2: Epiblasto; 3: Linha primitiva; 4: Células do
mesentoderma; 5: Mesoderma intraembrionário; 6: Prega corioamniótica; 7: Cório; 8:
Mesoderma extraembrionário; 9: Endoderma; 10: Hipoblasto; 11: Celoma; 12: Ectoderma
superficial; 13: Mesoderma; 14: Sulco neural; 15: Notocorda; 16: Cavidade amniótica.
O local onde as pregas corioamnióticas encontram-se e se fundem é conhecido
como mesoâmnio (Fig. 7-2). No cavalo e em carnívoros, o mesoâmnio é ausente e
deixa então o âmnio e o cório sem conexão. Como resultado, potros, cães e gatos
nascem cobertos por um âmnio intacto, que pode ser sufocante se não for removido
pela mãe ou por um assistente. Em contraste, em suínos e ruminantes, o mesoâmnio
persiste; como resultado, o âmnio é removido durante o parto e as proles nascem sem
a cobertura de membranas.
130
Fig. 7-2 Embrião de ovelha no 17° dia de desenvolvimento Quando os embriões são
expelidos do útero, o cório é comumente destacado, deixando o mesoâmnio como uma antena
sobre o âmnio. 1: Mesoâmnio; 2: Âmnio; 3: Saco vitelino; 4: Alantoide.
Fases iniciais da gastrulação
O começo da gastrulação tem sido tradicionalmente relacionado com a aparência
morfológica da linha primitiva, um acúmulo alongado de células no polo caudal do
futuro embrião. Esta estrutura é formada por células do epiblasto que se acumulam
na região posterior formando uma área espessa em formato de crescente (formato
de “meia-lua”) no disco embrionário – o primeiro sinal morfológico do início da
gastrulação já identificado, ao menos em suínos e bovinos (Figs. 7-3, 7-4). O
espessamento caudal do crescente aparece aproximadamente nos dias 10 e 11 da
gestação em suínos e aproximadamente nos dias 14 a 15 em bovinos. Quando a área
espessa em formato de crescente é estabelecida, inicia-se a entrada de células do
epiblasto no espaço entre o epiblasto e o hipoblasto (Fig. 7-5). Em animais de
laboratório, esses sinais morfológicos do início da gastrulação no epiblasto são
precedidos de mudanças morfológicas e moleculares no hipoblasto que delimita o
polo anterior do epiblasto (veja Quadro 7-1 em regulação molecular).
Fig. 7-3 Acúmulo de células epiblásticas na porção posterior do disco embrionário resulta na
131
formação da linha primitiva (1).
Fig. 7-4 Disco embrionário de suíno no 10° dia de desenvolvimento mostrando o acúmulo de
células epiblásticas formando um crescente posterior. A: Disco embrionário com o crescente
posterior (setas). A linha (B) indica o plano de secção mostrado em “B”. B: Seção mediana do
disco embrionário mostrando um espessamento posterior (seta) do epiblasto (1). 2: Hipoblasto;
3: Saco vitelino primitivo.
132
Fig. 7-5 Disco embrionário de um embrião bovino no 14° dia de desenvolvimento mostrando
de células da região crescente caudal do epiblasto ingressando no espaço entre o epiblasto e
hipoblasto. A: Embrião tubular apresentando disco embrionário (seta). A linha (B) indica onde
o embrião foi seccionado para então produzir a imagem em B. B: Visão interna do disco
embrionário exibindo o crescimento posterior (setas). A linha (C) indica o plano de seção
mostrado em C. C: Seção mediana do disco embrionário com o epiblasto (1) do qual células
ingressam (2). 3: Hipoblasto; 4: Saco vitelino primitivo.
Quadro 7-1 Regulação molecular: formação dos eixos do corpo
O eixo embrionário dorsoventral é formado durante a blastulação quando a MCI posiciona-se
em um dos polos do blastocisto com suas células externas em frente ao trofoectoderma
adjacente e as células internas voltadas para a cavidade blastocística (Cap. 6). Com a
diferenciação, as células internas da MCI delaminam e formam o hipoblasto ao passo que no
epiblasto forma-se um eixo dorsoventral com as células dorsais voltadas para o
trofoectoderma, isto é, camada de Rauber. O eixo embrionário anteroposterior
(posteriormente craniocaudal) aparentemente não é formado até a gastrulação. Em espécies
de laboratório, um eixo anteroposterior é inicialmente evidente quando o polo embrionário
anterior torna-se marcado por uma área de células do hipoblasto expressando uma gama de
fatores com propriedades de indução neural. Dentre esses fatores estão incluídos fatores de
transcrição como o Otx2 e Hesx1, e moléculas sinalizadoras como a Dickkopf 1 (Dkk1) e
Cerberus-like 1 (Cer I). Essa região do hipoblasto é conhecida como endoderma visceral
anterior (EVA) em camundongos, e como crista marginal anterior (CMA) em coelhos. Pelo
menos nessas espécies, o hipoblasto do EVA e CMA induz o epiblasto adjacente a diferenciar-
133
se de maneira neural, estabelecendo dessa forma a futura região da cabeça do embrião.
Interessantemente, isto ocorre mesmo antes da formação da linha primitiva no polo posterior
do disco embrionário. Depois, moléculas sinalizadoras provenientes do nó primitivo e
notocorda, incluindo a Cordina (“Chordin”), Noggin e Follistatina, são importantes para a
subsequente diferenciação neural. Em suínos e bovinos, a formação do espessamento caudal
do epiblasto em forma de crescente, que precede a formação da linha primitiva, é até
então o primeiro sinal do futuro eixo embrionário anteroposterior.
O eixo embrionário final a ser estabelecido é o eixo esquerdo-direito. No camundongo, foi
mostrado que a unilateralidade esquerda-direita é regulada principalmente pelas células do
nó primitivo que secretam o fator 8 de crescimento do fibroblasto (fibroblast growth factor 8
ou FGF-8), iniciando uma reação em cascata de expressão de outros fatores de crescimento. O
batimento de cílios na região ventral das células do nó primitivo cria um gradiente de FGF-8
que resulta em mais FGF-8 sendo fornecido para a região esquerda da linha primitiva do que
na região direita. O padrão de reação em cascata da expressão gênica iniciado pela FGF-8
seletivamente define o lado esquerdo do embrião. A molécula sinalizadora Sonic hedgehog
(Shh) é expressa na notocordagenomas dos animais são desvendados e analisados, a
importância do desenvolvimento animal torna-se central para entender e melhorar o
crescimento animal, para a manutenção da saúde e para determinar as causas
subjacentes das doenças.
Embora uma quantidade razoável de textos de boa qualidade acerca da
embriologia humana esteja disponível (como o Langman’s Medical Embryology), o
foco em uma única espécie continua a ser uma séria limitação para veterinários e
outros profissionais que trabalham com animais, não permitindo uma visão
abrangente das amplas e distintas variações que existem entre as espécies
domésticas, com referência especial aos processos de blastogênese, implantação e
placentação. Certamente, a obra referência de Bradley Patton, Embryology of the pig,
publicada em inglês em 1927, proporcionou um maravilhoso relato descritivo e
ilustrado deste modelo de desenvolvimento embrionário mamífero frequentemente
utilizado. Uma publicação descritiva concisa do desenvolvimento em suínos, The
embryonic pig: a chronological account foi posteriormente publicada por A. W.
Marrable, em 1971. Em 1984, Drew Noden e Alexander de Lahunta, reconhecendo a
17
falta de um texto adequado de embriologia dos animais domésticos que fosse útil
para estudantes de veterinária, publicaram The embryology of domestic animals:
developmental mechanisms and malformation. Este livro, uma importante contribuição
para a bibliografia veterinária por muitos anos, apresentava um material descritivo
tradicional, sistema a sistema, da anatomia do desenvolvimento dos animais
domésticos, incluindo aves; os autores incluíram também muitos experimentos
relevantes e casos clínicos de referência ao longo do livro. Infelizmente, uma edição
revisada jamais foi produzida e a obra não está mais disponível. Mais recentemente,
uma obra alemã primorosamente detalhada, Lehrbuch der Embryologie der Haustiere
(1991), foi publicada por Imogen Rüsse e Fred Sinowatz (coautor desta obra).
Ilustrações e micrografias excelentes caracterizam essa ampla obra de referência em
embriologia dos animais domésticos. Impresso apenas em alemão, a disseminação
internacional da obra foi limitada. Em 2006, McGaedy e colaboradores publicaram o
livro Veterinary Embryology, uma obra que está voltada para os interesses específicos
dos estudantes de veterinária. Nesse mesmo sentido, a publicação de Embriologia
veterinária é especialmente oportuna uma vez que constitui uma fonte de consulta até
então inexistente para aqueles que desejam compreender os processos fundamentais
do desenvolvimento animal, sejam eles estudantes, professores, pesquisadores ou
médicos veterinários.
Fazendo uma reflexão, o projeto deste livro nasceu após uma conversa que Poul
e eu tivemos durante um encontro científico no ano 2000. À medida que
compartilhávamos e comparávamos nossas experiências ao ministrar anatomia e
embriologia animal para os estudantes de veterinária, houve uma percepção mútua
de que uma obra moderna acerca do desenvolvimento dos animais doméstico era
extremamente necessária para apoiar a bibliografia fundamental dos cursos de
medicina veterinária e áreas afins no século XXI. Para atrair um público mais global,
solicitou-se a contribuição de coautores reconhecidos internacionalmente como
especialistas em seus campos. Seus capítulos foram ininterruptamente concatenados
em uma obra de fácil leitura e muito informativa. Merece destaque a inclusão dos
capítulos 1, 2, 20 e 21, cada um dos quais aborda um tópico específico, incluindo uma
narrativa histórica do estudo da embriologia animal, uma discussão atual dos
mecanismos celulares e moleculares que governam os processos relacionados ao
desenvolvimento, a embriologia comparada de camundongos e galinhas, e um
resumo sucinto do aparecimento, desenvolvimento e aplicação em larga escala das
tecnologias de reprodução assistida para aumentar a produção dos animais
domésticos, respectivamente.
Autor principal, o professor Poul Hyttel é reconhecido internacionalmente como
um pesquisador distinto e um educador apaixonado nas áreas de reprodução animal e
18
biologia celular na Royal Veterinary and Agricultural University, e mais
recentemente, na Universidade de Copenhagen. Ele coordenou os cursos de anatomia
e histologia veterinária e de biologia celular por muitos anos em Copenhagen, e
recebeu reconhecimento e prêmios formais, bem como constantes elogios de seus
estudantes, pelo seu compromisso dedicado e apaixonado pelo ensino. Nesse sentido,
Poul reuniu um distinto grupo de colaboradores internacionais como coautores,
incluindo o professor Fred Sinowatz (Munique) e o Dr. Morten Vejlsted
(Copenhagen), entre outros. Keith Betteridge, professor eminente de reprodução
animal na Universidade de Guelph, realizou completa revisão editorial do texto. A
primeira edição apresenta uma visão lógica, contemporânea e abrangente do
conhecimento atual sobre o tema. O formato propicia informações textuais sucintas
muito bem apoiadas por ilustrações, fotografias e micrografias de qualidade. Acredito
que tanto os estudantes, os professores e os veterinários irão adotar esta obra uma
vez que ela se mostrará uma fonte de consulta inestimável para o aprendizado e para
o conhecimento no campo da embriologia dos animais domésticos.
Maio 2009 Worcester, Massachusetts, EUA
Eric W. Overström, Ph.D
Professor e Chefe do Departamento de Biologia e Biotecnologia
Diretor do Centro de Ciências da Vida & Bioengenharia
Instituto Politécnico de Worcester
Worcester, Massachusetts
19
Prefácio
Para mim, um dos mais excitantes e gloriosos momentos ensinando anatomia
macroscópica dos animais domésticos aconteceu durante os dias compartilhados com
os estudantes e rodeados por mesas de aço repletas de úteros gravídicos e fetos na
sala de dissecção. Examinar aqueles espécimes fetais é como abrir um livro de
anatomia; um livro no qual cada órgão e cada estrutura estão perfeitamente
definidos e seu histórico de desenvolvimento está perfeitamente preservado –
verdadeiramente uma situação ideal para uma memorável experiência anatômica
tanto para alunos quanto para professores!
A embriologia sempre foi um pré-requisito para o real entendimento da
anatomia macroscópica e da teratologia resultante do desenvolvimento incorreto.
Atualmente, entretanto, é isso e muito mais além; as pesquisas biomédicas
contemporâneas requerem conhecimentos de embriologia (ou, preferencialmente, de
biologia do desenvolvimento) para desempenhar um papel importante neste
progresso – um papel com implicações importantes para a sociedade. As tecnologias
de reprodução assistida, por exemplo, são tão utilizadas em animais domésticos como
em humanos nos quais a fertilização in vitro tornou-se uma etapa ex soma comum na
ligação de uma geração com a seguinte. Nos animais domésticos, técnicas como a
clonagem por transferência nuclear de células somáticas tornaram possíveis
modificações genéticas que abriram a possibilidade de modificar animais
geneticamente de modo que eles produzam proteínas de interesse, sirvam como
modelo de estudo de doenças humanas, ou, no futuro, forneçam órgãos para
xenotransplantes. Todas essas possibilidades dependem de um conhecimento
profundo de embriologia, muitos dos quais são controversos. A disciplina de
embriologia é trazida à luz da ética, o que, na minha opinião, obriga os
embriologistas contemporâneos a participar de debates de cunho científico com a
sociedade.
Por algum tempo, tecnologias de reprodução assistida cada vez mais sofisticadas
transportaram a pesquisa embriológica “de ponta” para fora do corpo e para dentro
do ambiente in vitro. No entanto, a expansão do campo da embriologia de modo a
abranger as células-tronco embrionárias nos redirecionou para o embrião per se; o
controle da diferenciação das células- -tronco in vitro depende absolutamente do
entendimento dos processos moleculares que regulam o desenvolvimento in vivo. O
próprio embrião tornou-se a chave para o sucesso – o círculo está fechado!
A investigação “de ponta” é atualmente formadae pode servir como uma barreira na linha média, reprimindo a
expressão de genes do lado esquerdo no lado direito do disco embrionário. Cílios das células
do nó primitivo batendo aberrantemente para a direita podem estar envolvidos na condição
conhecida como situs inversus, no qual todos os órgãos do corpo desenvolvem-se como uma
imagem espelhada da sua posição normal.
As células do epiblasto que constituem a região posterior em crescimento logo se
unem na linha média do disco embrionário para formar a linha primitiva (Fig. 7-3).
Nessa linha, as células começam a involuir1 do epiblasto através de sua membrana
basal para formar então os precursores mesoendodermais (mesentoderma), isto
é, células capazes de formar tanto mesoderma como endoderma. Este é o primeiro
exemplo de transição epitélio-mesenquimal durante o desenvolvimento
embrionário, processo no qual as células mudam suas características de células do
epitélio (apresentando fortes conexões intercelulares) para se tornarem mais
livremente organizadas e, portanto, capazes de realizar migrações. O termo
mesênquima refere-se ao tecido embrionário livremente organizado,
independentemente da camada germinativa de origem. O interessante é que, assim
como o início da gastrulação é marcado por esta transição epitélio-mesenquimal, o
final dessa fase de desenvolvimento é marcado pela supressão desse processo.
Formação inicial do mesoderma e endoderma
As células do mesentoderma originam o endoderma e o mesoderma. As células
134
formadoras do endoderma se integram e deslocam o hipoblasto, que está
imediatamente abaixo do epiblasto, formando o endoderma (Fig. 7-6). Outras células
continuam posicionadas abaixo do epiblasto e do trofoectoderma formando o
mesoderma intra e extraembrionário, respectivamente. O endoderma aumenta de
tamanho para formar o revestimento superior do saco vitelino primitivo abaixo do
epiblasto e, na margem do disco embrionário, é contínuo com o hipoblasto (Figs. 7-6,
7-7). A porção do saco vitelino primitivo coberto pelo endoderma será posteriormente
isolada no interior do embrião, desenvolvendo-se em um intestino primitivo, no
qual a porção da cavidade coberta pelo hipoblasto será deslocada externamente ao
embrião para formar o saco vitelino definitivo (Fig. 7-8).
Fig. 7-6 Duas diferentes fases do ingresso (setas) de células através da linha primitiva e nó
primitivo. A: o disco embrionário visto de cima. A linha (B) indica a seção apresentada na visão
oblíqua em “B”. 1: Membrana bucofaríngea; 2: Borda do corte da trofoectoderma e hipoblasto;
3: Células do mesoderma formando a notocorda; 4: Nó primitivo; 5: Linha primitiva; 6:
Membrana cloacal. B: Seção oblíqua da linha primitiva. 7: Epiblasto; 8: Nó primitivo; 9: Linha
primitiva; 10: Trofoectoderma; 11: Células do mesentoderma (laranja); 12: Células do
mesoderma (vermelho); 13: Células do endoderma (amarelo); 14: Células do hipoblasto
(verde). C: Secção obliqua algumas horas depois. 15: Mesoderma somático; 16: Mesoderma
visceral; 17: Transição entre endoderma e hipoblasto; 18: Saco vitelino primitivo; 19: Celoma;
20: Cório; 21: Parede do saco vitelino.
135
Fig. 7-7 Gastrulação em um embrião de ovelha no 13° dia de desenvolvimento. A: Embrião
tubular de ovelha. O retângulo (B) está aumentado em “B”. B: Disco embrionário (1) cercado
por pregas corioamnióticas (2). C: Seção longitudinal de B. 1: Disco embrionário; 3: Epiblasto;
4: Trofoectoderma; 5: Mesoderma; 6: Endoderma; 7: Mesoderma somático; 8: Mesoderma
visceral; 9: Celoma; 10: Saco vitelino primitivo.
Fig. 7-8 Formação das cavidades celomáticas. A, D e G: Seção mediana de embriões em
diferentes estágios dos dobramentos craniocaudais. As setas indicam o sentido das dobras. B, C,
E, F e H: Seções transversais de embriões em diferentes estágios de dobramentos laterais. As
setas indicam o sentido dos dobramentos. O plano de seção de B é indicado em A, o plano de
seção de E está indicado em D e o plano de seção de H é indicado em G. 1: Ectoderma; 2:
Mesoderma; 3: Endoderma; 4: Cavidade amniótica; 5: Saco vitelino primitivo; 6: Celoma
extraembrionário; 7: Sulco neural; 8: Mesoderma paraxial; 9: Mesoderma intermediário; 10:
Mesoderma lateral; 11: Celoma intraembrionário; 12: Intestino posterior; 13: Saco vitelino; 14:
Alantoide; 15: Mesoâmnio; 16: Somatopleura; 17: Esplâncnopleura.
Modificado de Sadler (2004).
136
O desenvolvimento do mesoderma intraembrionário é similar ao do
endoderma. Ele surge de uma porção de células presuntivamente mesentodermais que
ingressaram pela linha primitiva, e que a partir de então permanecem no espaço
entre o epiblasto e o hipoblasto. A formação do mesoderma não é restrita à área do
disco embrionário, contudo; células do mesoderma migram muito além do disco como
mesoderma extraembrionário (Figs. 7-6, 7-7). Cada um dos mesodermas intra e
extraembrionária se divide em duas camadas: uma associando-se ao epiblasto e
trofoectoderma para formar o mesoderma somático ou parietal, e a outra
associando-se ao endoderma e hipoblasto para formar o mesoderma visceral ou
esplâncnico (Figs. 7-6, 7-7). Juntos, o trofectoderma e o mesoderma somático
extraembrionário irão formar as camadas externas da parte embrionária da placenta,
o cório (Cap. 9). A cavidade formada entre os mesodermas somático e visceral é
conhecida como o celoma. Inicialmente, o celoma está situado apenas fora do disco
embrionário e é então conhecido como celoma extraembrionário ou exoceloma.
Rapidamente, entretanto, a separação em mesoderma somático e visceral também
envolve porções do mesoderma intraembrionário, estabelecendo então o celoma
intraembrionário que, associado aos dobramentos crâniocaudais e laterais do
embrião, darão origem posteriormente às cavidades do corpo (Fig. 7-8). Quando isso
ocorre, o mesoderma somático origina as regiões parietais do peritôneo e pleura,
enquanto que o mesoderma visceral origina as porções viscerais destas membranas
serosas.
O mesoderma intraembrionário é estabelecido no sentido anteroposterior, em
parte se desenvolvendo paralelamente ao crescimento da linha primitiva. Depois da
involução, as células espalham-se de ambos os lados, formando o mesoderma
extraembrionário, e, cranialmente, formando o mesoderma intraembrionário.
Rapidamente, a taxa de crescimento do disco embrionário ultrapassa o crescimento
da linha primitiva, e o disco é alongado resultando em uma estrutura oval, e
posteriormente em formato de pera (Fig. 7-9). Após estender mais da metade do
comprimento do disco embrionário, a linha primitiva gradualmente vai se
localizando mais posteriormente como resultado desse crescimento diferencial.
137
Fig. 7-9 Embrião suíno no 12° dia de desenvolvimento, mostrando o disco embrionário em
forma de pera. A linha primitiva (setas) e nó primitivo (1) são fracamente visíveis.
Juntamente com a relativa retração posterior da linha primitiva, uma estrutura
da mediana, a notocorda é estabelecida – uma etapa essencial no estabelecimento
do eixo embrionário anteroposterior (Figs. 7-1, 7-6). A notocorda é formada por
células do epiblasto que ingressam através do nó primitivo, uma população
especializada de células do epiblasto localizada na extremidade anterior da linha
primitiva. As primeiras células a ingressarem pelo nó primitivo formam a placa pré-
cordal, uma estrutura mesodérmica localizada imediatamente anterior à extremidade
da notocorda.
Durante o processo de gastrulação, a involução das células que formam o
mesoderma e o endoderma ocorre por diferentes regiões organizadoras dentro da
linha primitiva. No camundongo, três destas regiões organizadoras foram
identificadas: uma organizadora da gástrula precoce, contribuindo principalmente
para a formação do mesoderma extraembrionário; uma organizadora da gástrula
intermediária, contribuindo principalmente para a formação do endoderma e
mesoderma intraembrionário; e a região organizadora da gástrula tardia originando
a placa pré-cordal e a notocorda. A região organizadora tardia é o nó primitivo.
Anteriormente, a notocorda é delimitadapela placa pré-cordal, e anterior a ele
o epiblasto é tão fortemente aderido ao endoderma recém-formado que não há espaço
para o mesoderma em crescimento (Fig. 7-6). Esta área do epiblasto e o endoderma
138
originam a membrana bucofaríngea que por um tempo fecha a futura abertura
entre a cavidade oral e a faringe (Cap. 14). Posteriormente, a notocorda é delimitada
por uma estrutura similar, a membrana cloacal, que por um tempo fecha as
aberturas em comum do intestino, órgãos urinários e trato reprodutivo na cloaca
(Cap. 14).
O ectoderma e seus derivados iniciais
As moléculas sinalizadoras provenientes da notocorda, incluindo a Sonic hedgehog
(Shh), induzem o epiblasto sobrejacente a diferenciar em neuroectoderma (Cap. 8).
Por isso, por alguns instantes, tanto a linha primitiva (na região posterior) como o
ectoderma neural em início de formação (na região anterior) são visíveis na
superfície do disco embrionário (Fig. 7-10).
Fig. 7-10 Visão da região superior do disco embrionário mostrando o desenvolvimento
gradual (de B até D) do neuroectoderma em relação ao desaparecimento relativo da linha
primitiva. 1: Nó primitivo; 2: Linha primitiva; 3: Borda seccionada da trofoectoderma e
hipoblasto; 4: Placa neural; 5: Sulco neural; 6: Somito.
Neuroectoderma
Na região do disco embrionário anterior ao nó primitivo, células do epiblasto são
induzidas a diferenciarem-se em neuroectoderma, em parte pela notocorda recém-
estabelecida. Essa fase é reconhecida inicialmente pela formação da placa neural
(Fig. 7-10). Rapidamente, as bordas laterais da placa neural elevam-se, formando as
pregas neurais, que então delimitam uma depressão na linha média conhecida como
sulco neural. As pregas neurais gradualmente fundem-se sobre o sulco neural até
completar a formação do tubo neural. A fusão é iniciada na futura região cervical do
embrião e prossegue em sentido anterior e posterior como um zíper duplo. Por isso, o
tubo neural inicialmente se conecta na cavidade amniótica na região anterior e
139
posterior através dos neuroporos anterior e posterior (Fig. 7-11). Esses poros, ao
final, fecham-se, primeiro o anterior e então o posterior. Este processo estabelece o
primeiro sistema de órgão embrionário, o sistema nervoso central (Caps. 8 e 10).
Fig. 7-11 Formação do sulco neural e tubo neural em embrião bovino no 21° dia de
desenvolvimento. O cório foi removido durante a coleta do embrião e então o celoma
extraembrionário não está delineado. A: os planos de seção (B e C) indicam a localização das
seções transversais em “B” e “C”. 1: Somito; 2: Epitélio interno da parede do âmnio; 3:
Mesoderma; 4: Neuroporo rostral; 5: Ectoderma de superfície; 6: Notocorda; 7: Endoderma; 8:
Saco vitelino primitivo; 9: Tubo neural; 10: Celoma extraembrionário.
Juntamente com a elevação e fusão das pregas neurais, certas células das bordas
laterais ou cristas das pregas neurais destacam-se. Esta população de células,
conhecidas como células da crista neural, não participará da formação do tubo
neural; ao contrário, elas migram para vários locais e participam da formação de
vários outros tecidos como o tegumento (melanócitos), outras partes do sistema
nervoso (incluindo neurônios para o sistema nervoso central, simpático e entérico) e
grande parte dos derivados do mesênquima craniofacial (Cap. 8).
O mecanismo pelo qual as células da crista neural destacam-se das pregas
neurais é similar ao que ocorre durante o ingresso de células do epiblasto na linha
primitiva e no nó primitivo – outro exemplo de transição epitélio-mesenquimal.
Conforme mencionado anteriormente, o termo mesênquima refere-se ao tecido
embrionário pouco organizado, independente da camada germinativa de origem.
140
Assim, tanto o neuroectoderma (através das células da crista neural) como o
mesoderma podem dar origem ao mesênquima.
Ectoderma superficial
Depois de alocar células para o endoderma, mesoderma, a linhagem germinativa e
neuroectoderma, a maior parte do epiblasto que ainda permanece na região lateral
irá diferenciar-se em ectoderma superficial. Uma vez que os neuroporos anterior e
posterior fecham-se, dois espessamentos bilaterais do ectoderma de superfície, o
placódio ótico e o placódio do cristalino, são estabelecidos no ectoderma da região
cefálica do embrião (Fig. 7-12). O placódio ótico invagina-se para formar a vesícula
ótica, que irá se desenvolver no ouvido interno para audição e balanço (Cap. 11),
enquanto o placódio do cristalino invagina-se para formar o cristalino do olho (Cap.
11). O ectoderma superficial ainda remanescente dá origem à epiderme e glândulas
associadas à pele (Cap. 17), bem como o epitélio que recobre a cavidade nasal e
oral (Cap. 14) e a porção caudal do canal anal (Cap. 14). O epitélio que recobre a
cavidade oral origina o esmalte dos dentes (Cap. 14) e também parte da glândula
pituitária, a hipófise anterior (Cap. 10).
Fig. 7-12 Embrião suíno no 12° dia de desenvolvimento apresentando placódios óptico (1) e
141
ótico (2).
O mesoderma e seus derivados iniciais
A formação da notocorda gera um eixo na linha média do embrião como um molde
para o esqueleto axial. Inicialmente, células do mesoderma formam uma fina camada
de mesênquima entrelaçado de ambos os lados da notocorda. Rapidamente,
entretanto, iniciando na região occipital do embrião, o mesoderma mais próximo da
notocorda (o mesoderma paraxial) prolifera e forma pares de estruturas espessas
segmentadas conhecidas como somitômeros. Na região da cabeça, os somitômeros,
juntamente com o mesoderma lateral (placa lateral) e células da crista neural,
diferenciam-se então em tecido conjuntivo, ossos e cartilagem. Na região do corpo
eles formam somitos, dos quais a derme, músculo esquelético e as vértebras
desenvolvem-se (Figs. 7-8, 7-10, 7-11). Em espécies de grande porte, os somitos são
formados a uma taxa média de seis pares por dia. O número de somitos formados
durante esta fase de desenvolvimento, portanto, gera uma estimativa da idade do
embrião.
Na região mais lateral, o mesoderma permanece delgado e é, portanto, chamado
de mesoderma lateral (ou placa lateral). O mesoderma lateral é contínuo com o
mesoderma extraembrionário. Conforme descrito anteriormente, a formação do
celoma extraembrionário divide esta parte do mesoderma em mesoderma somático
e visceral (Fig. 7-8). De modo similar, com o desenvolvimento contínuo do celoma,
um celoma intraembrionário divide o mesoderma lateral. No embrião, o mesoderma
somático associa-se ao mesoderma de superfície para então constituir a
somatopleura ao passo que o mesoderma visceral associa-se ao endoderma para
formar a esplancnopleura (Fig. 7-8). Entre o mesoderma paraxial e o mesoderma
lateral, encontramos o mesoderma intermediário.
Mesoderma paraxial
Como regra geral, o desenvolvimento ocorre em sentido anteroposterior (uma
exceção à essa regra é o desenvolvimento da linha primitiva). Portanto, a formação
dos somitos progride da região occipital para a região posterior. Na região da cabeça,
os somitômeros, juntamente com uma segmentação similar à placa neural, formam os
neurômeros (Caps. 9 e 10). Da região occipital e em sentido posterior, os
somitômeros gradualmente organizam-se em somitos. Cada somito
subsequentemente diferencia-se em três componentes (Fig. 7-13). A parte
ventromedial do somito associa-se à notocorda formando então o esclerótomo, que
142
serve de molde para a formação da coluna vertebral (Cap. 16). A parte dorsolateral
de cada somito forma precursores localizados tanto na derme quanto no tecido
muscular, o dermomiótomo. Desta estrutura, populações de células localizadas na
região dorsoventral e ventromedial formam o miótomo e outro grupo de células
localizado dorsolateralmente dá origem ao dermátomo. O miótomo de cada somito
contribui para a formação dos músculos das costas e dos membros (Cap. 16), ao
passo que o dermátomo dispersa-se e forma a derme e a hipoderme da pele (Cap.
17).
Fig. 7-13 Secções transversais de embriões mostrando a diferenciação gradual (A, B, C até D)
dos somitos.1: Sulco neural; 2: Somito; 3: Notocorda; 4: Esclerótomo; 5: Dermamiótomo; 6:
Tubo neural; 7: Aorta dorsal; 8: Dermátomo; 9: Miótomo.
Modificado de Sadler (2004).
Posteriormente, cada miótomo e dermátomo receberá seus próprios segmentos de
componentes nervosos (Cap. 10). Clinicamente falando, é importante notar que esta
inervação do segmento de origem é mantida por toda a vida.
Mesoderma intermediário
O mesoderma intermediário, que conecta o mesoderma paraxial e o mesoderma
lateral, diferencia-se em estruturas tanto do sistema urinário como as gônadas, que
conjuntamente são chamados de sistema urogenital (Cap. 15). Analogamente ao
processo descrito para o mesoderma paraxial, o mesoderma intermediário localizado
nas regiões torácicas cervical e cranial forma grupos segmentários de células
143
conhecidos como nefrótomos. Contudo, uma massa tecidual não segmentada é
formada na região mais caudal. Esta massa é o cordão nefrogênico que forma um
rim temporário, o mesonefro numa porção medial na qual as gônadas começam a se
formar em um período relativamente precoce do desenvolvimento para então receber
as células germinativas primordiais. As células germinativas primordiais
inicialmente escapam do epiblasto durante a formação das camadas germinativas,
mas posteriormente regressam para então colonizar as gônadas em desenvolvimento
(Caps. 4 e 15).
Mesoderma lateral e dobramento embrionário
Durante uma série de dobramentos anteroposterior e laterais, as subdivisões do
celoma em cavidades intra e extraembrionárias ficam mais definidas e o corpo do
embrião gradualmente assume o aspecto de um tubo fechado revestindo outro tubo,
as vísceras primitivas (Fig. 7-8). A somatopleura formará a parede lateral e ventral
do corpo do qual o mesoderma somático formará o revestimento interno (formando o
peritônio e pleura) e a ectoderma formará revestimento externo (a epiderme). A
esplancnopleura formará a parede do intestino primitivo e seus derivados, no qual o
endoderma formará o revestimento interno (a lamina epithelialis da túnica
mucosa). O mesoderma visceral formará todos os outros componentes do
intestino e seus derivados. Rapidamente, o celoma intraembrionário será dividido
em cavidades peritonial, pleural e pericardial. As membranas serosas que revestem as
superfícies parietais de cada uma dessas cavidades são derivadas do mesoderma
somático, enquanto que as membranas serosas que revestem as superfícies viscerais (e
por isso cobrindo os órgãos) são derivadas do mesoderma visceral.
Formação do sangue e vasos sanguíneos
Tanto o sangue quanto os vasos sanguíneos parecem surgir das células precursoras
provenientes do mesoderma, os hemangioblastos. Estes se diferenciam em células-
tronco hematopoiéticas (formando as células sanguíneas) e angioblastos que
formam as células endoteliais que coalescem para formar os vasos sanguíneos (Cap.
12).
O primeiro sinal da formação do sangue e vasos sanguíneos é visto no
mesoderma visceral do esplancnopleura que recobre o saco vitelino
extraembrionário. Contudo, isso parece ser apenas um fenômeno transitório;
posteriormente, os primeiros indícios de hematopoiese ocorrem no fígado e no baço e
então na medula óssea (Cap. 12).
144
O endoderma e seus derivados iniciais
O revestimento epitelial interno do trato gastrointestinal e seus derivados são os
principais componentes gerados pelo endoderma (Fig. 7-8). Inicialmente, o epitélio
de cobertura do saco vitelino primitivo é formado pelo endoderma, que é contínuo
com o hipoblasto e também o desloca. Com os dobramentos anteroposteriores e
laterais do embrião, a porção fechada do endoderma no saco vitelino primitivo é
envolta pelo embrião em formação, formando o intestino primitivo, enquanto que a
porção fechada do hipoblasto passa a se localizar fora do embrião para formar o
saco vitelino definitivo. O termo saco vitelino pode ser confuso, já que a cavidade
não tem muita semelhança com o saco vitelino em galinhas. Conforme será descrito
no Capítulo 9, o saco vitelino tem um papel apenas transitório em suínos e
ruminantes. Contudo, tanto em cavalos quanto em carnívoros ele é essencial pelo
menos durante a fase inicial de formação da placenta. Então, o saco vitelino dos
animais domésticos é algo análogo à estrutura em galinhas, já que tem uma função
nutritiva durante o desenvolvimento embrionário.
O intestino primitivo compreende as partes cranial (intestino anterior), médio
(intestino médio) e caudal (intestino posterior). O intestino médio comunica-se com o
saco vitelino pelo ducto vitelino (Fig. 7-8). Este ducto é inicialmente amplo, mas
com o desenvolvimento ele vai tornando-se longo e estreito e finalmente é
incorporado no cordão umbilical (Cap. 9). O endoderma forma o epitélio do sistema
gastropulmonar e o parênquima dos seus derivados. O endoderma do intestino
anterior origina a faringe e seus derivados, incluindo o ouvido médio, o parênquima
da glândula tireoide, as glândulas paratireoides, o fígado e o pâncreas, e o estroma
reticulado das tonsilas e do timo, bem como o esôfago, estômago, fígado e pâncreas
(Cap. 14). Na sua extremidade anterior, o intestino anterior é temporariamente
fechado por uma membrana ectodermal-endodermal, a membrana bucofaríngea.
Em um certo estágio de desenvolvimento, esta membrana rompe-se e estabelece uma
comunicação entre a cavidade amniótica e o intestino primitivo. O intestino médio
origina a maior parte do intestino delgado e grosso até o cólon transverso enquanto
que o intestino posterior forma o cólon transverso e descendente, bem como o reto e
parte do orifício anal. Neste trecho final caudal, o intestino posterior
temporariamente dilata-se para formar a cloaca, uma cavidade de trânsito comum
para os sistemas gastrointestinal e urogenital que estão em formação (Caps. 14 e 15).
A cloaca é separada da cavidade amniótica pela membrana cloacal, composta pelo
ectoderma e endoderma adjacentes, como na membrana bucofaríngea. Após a
separação dos sistemas gastrointestinal e urinário, a membrana cloacal é eliminada,
e ambos os sistemas são abertos na cavidade amniótica pelo ânus e pelo seio
145
urogenital, respectivamente.
Formação do alantoide
Durante a segunda ou terceira semana de desenvolvimento, dependendo da espécie,
o alantoide é formado por um prolongamento do intestino posterior no celoma
extraembrionário (Fig. 7-8). Em ruminantes e em suínos, o alantoide assume uma
aparência em forma de T estando a barra superior desse T localizada como uma
cavidade transversal no sentido caudal do embrião e a haste vertical desse T
conectado ao intestino posterior (Fig. 7-2). Similar ao ducto vitelino, o ducto
alantoide, que conecta a cavidade do alantoide ao intestino posterior, é incorporado
ao cordão umbilical como consequência das dobras embrionárias. Já que o alantoide
é um divertículo do intestino posterior, sua parede é revestida internamente por um
epitélio de origem endodérmica e o revestimento externo é proveniente do
mesoderma visceral. Com o crescimento do alantoide, a região da parede contendo
mesoderma visceral junta-se com o mesoderma somático do cório e, finalmente,
recobre parcialmente o âmnio. A junção das paredes do alantoide e do cório formam
a parte embrionária da placenta alantocoriônica que é encontrada nos animais
domésticos (Fig. 7-8; Cap. 9). A região intraembrionária proximal do ducto alantoide,
que se estende do intestino posterior ao umbigo, é conhecida como úraco, e dá
origem a bexiga urinária (Cap. 15). Durante a gestação inicial, a cavidade alantoide
serve como um depósito de resíduos que são excretados pelo sistema urinário do
embrião, que está ainda em desenvolvimento.
As células germinativas primordiais
Durante a formação do mesoderma e do endoderma, uma certa população de células
do epiblasto é isolada para a formação a futura linhagem germinativa. Estas células
germinativas primordiais não estão bem descritas nos animais domésticos, mas, ao
menos em suínos e em bovinos, elas parecem ser reconhecidas pela primeira vez na
borda posterior do disco embrionáriodurante a gastrulação. Ao passo que as camadas
germinativas são formadas, as células germinativas primordiais são deslocadas da
região do disco embrionário para a parede do saco vitelino definitivo e, de certa
forma, para o alantoide (Cap. 4). Como isso ocorre ainda é desconhecido, mas
provavelmente envolve transporte passivo com o endoderma. As células
germinativas primordiais multiplicam-se na parede do saco vitelino e então, por
meios ativos ou passivos, deslocam-se para região das cristas genitais já que estas se
desenvolvem do mesoderma intermediário (Cap. 4). A rota de migração, pelo menos
em suínos, passa pelo mesoderma visceral conectando os pedúnculos tanto do saco
146
vitelino e do alantoide no intestino posterior. Com a chegada nas cristas genitais, as
células germinativas primordiais multiplicam-se por certo período (o tempo varia
entre as espécies) até que seja iniciada a meiose (em fêmeas) ou entrar em bloqueio
da mitose até a puberdade (no caso de machos; Cap. 4).
Resumo
Durante a gastrulação, o epiblasto forma a linha primitiva, por meio do qual as
células involuem para formar o endoderma, o mesoderma e as células
germinativas primordiais. O epiblasto remanescente origina o ectoderma.
O primeiro órgão a formar-se no embrião em desenvolvimento é o sistema
nervoso central, proveniente do ectoderma. Durante a neurulação, o
neuroectoderma é formado e origina o tubo neural que ao final diferencia-se em
vesículas cerebrais e a medula espinhal. Antes do fechamento do tubo neural, uma
população de células da crista neural é destacada. Esta população de células
especializadas participa da formação de diversos tecidos dentre eles componentes do
sistema nervoso central, entérico e periférico. Após a diferenciação do
neuroectoderma, a região da camada germinativa do ectoderma ainda remanescente
forma o ectoderma superficial dando origem à epiderme que inclui cabelos, chifres,
garras, cascos e glândulas subcutâneas.
O endoderma origina o trato gastrointestinal, trato respiratório, partes do
sistema urinário, partes do ouvido médio, o parênquima da glândula tireoide, as
glândulas paratireoides, o fígado e pâncreas, e o estroma reticular das tonsilas e
timo.
O mesoderma é dividido em mesoderma paraxial, intermediário e
mesoderma lateral. Na região cranial, o mesoderma paraxial forma pares de
somitômeros que mais tarde irão participar da formação da cabeça. Mais
caudalmente, os somitômeros formam somitos. Cada somito origina um
esclerótomo, um miótomo e um dermátomo. O esclerótomo forma a base do
esqueleto axial (a coluna vertebral). Do miótomo formam-se a parede do corpo, os
membros e a musculatura epaxial. O dermátomo origina a derme e a hipoderme da
pele. O sistema urogenital é derivado do mesoderma intermediário. Essenciais para a
o sistema genital são as células germinativas primordiais; formadas no início da
gastrulação, essas células são alocadas para o saco vitelino e alantoide durante a
formação da camada germinativa, e são finalmente incorporadas nas cristas genitais
provenientes do mesoderma intermediário. O mesoderma lateral divide-se nas
camadas somática e visceral formando assim o celoma intraembrionário. O
mesoderma somático associa-se ao trofoectoderma, formando o cório, e também ao
147
ectoderma superficial para formar a somatopleura. Do mesmo modo, o mesoderma
visceral associa-se ao endoderma, formando a esplâncnopleura. A somatopleura
forma a membrana parietal serosa das cavidades do corpo, incluindo o peritônio,
pleura e pericárdio, enquanto que a esplâncnopleura origina as membranas serosas
que recobrem os órgãos internos. O sangue e vasos sanguíneos, a região cortical das
adrenais e baço também são derivados do mesoderma.
Leituras adicionais
Barends P.M.G., Stroband H.W.J., Taverne N., te Kronnie G., Leën M.P.J.M., Blommers P.C.J. Integrity of the
preimplantation pig blastocyst during expansion and loss of polar trophectoderm (Rauber cells) and the
morphology of the embryoblast as an indicator for developmental stage. J. Reprod. Fert. 1989;87:715–
726.
Degrelle A.A., Campion E., Cabau C., Piumi F., Reinaud P., Richard C., Renard J.–P., Hue I. Molecular
evidence for a critical period in mural trophoblast development in bovine blastocysts. Dev. Biol.
2005;288:448–460.
Fléchon J.–E., Degrouard J., Fléchon B. Gastrulation events in the prestreak pig embryo: ultrastructure and
cell markers. Genesis. 2004;38:13–25.
Gilbert S.F. Developmental Biology, 8th edn. Sinauer Associates, Inc., Publishers: Sunderland, Massachusetts,
2006.
Maddox-Hyttel P., Alexopoulos N.I., Vajta G., Lewis I., Rogers P., Cann L., Callesen H., Tveden-Nyborg P.,
Trounson A. Immunohistochemical and ultrastructural characterization of the initial post-hatching
development of bovine embryos. Reproduction. 2003;125:607–623.
Ohta S., Suzuki K., Tachibana K., Tanaka H., Yamada G. Cessation of gastrulation is mediated by supression
of epithelial-mesenchymal transition at the ventral ectodermal ridge. Development. 2007;134:4315–4324.
Robb L., Tam P.P.L. Gastrula organiser and embryonic patterning in the mouse. Semin. Cell Dev. Biol.
2004;15:543–554.
Sadler T.W. Langman’s Medical Embryology, 10th edition. Lippincott Williams and Wilkins: Baltimore,
Maryland, USA, 2006.
Stern C.D. Gastrulation. From cells to embryo. Cold Spring Harbor, New York: Ed. Cold Spring Harbor
Laboratory Press; 2004.
Vejlsted M., Du Y., Vajta G., Maddox-Hyttel P. Post-hatching development of the porcine and bovine embryo
– defining criteria for expected development in vivo and in vitro. Theriogenology. 2006;65:153–165.
1 Nota da Revisão Científica: O processo de involução consiste na interiorização de uma camada externa em expansão de modo a recobrir
a superfície interna das células externas remanescentes.
148
Capítulo 8
Neurulação
Fred Sinowatz
A neurulação é um evento fundamental da embriogênese. Ela leva à formação do
tubo neural, o precursor do sistema nervoso central, incluindo o cérebro e a
medula espinhal. Este sistema de órgãos é o primeiro a iniciar seu desenvolvimento;
funcionalmente, contudo, este é ultrapassado pelo desenvolvimento do sistema
vascular, o qual é o primeiro sistema de órgãos a ganhar função.
Formação do tubo neural: neurulação primária e secundária
Durante a neurulação, a qual é convencionalmente dividida em fases primária e
secundária, o epiblasto é induzido a formar o ectoderma neural (Fig. 8-1). O
primeiro sinal morfológico da neurulação primária é um espessamento dorsal do
ectoderma anterior, concomitante com a regressão da linha primitiva. Esta região
elíptica de ectoderma espessado especializado é referida como placa neural.
Subsequentemente, a placa neural passa por uma remodelagem, a qual a converte
em uma estrutura mais alongada e com formato de buraco de fechadura, com a
região anterior mais larga e a posterior mais estreita. A principal força motriz da
remodelagem da placa neural parece vir das extensões convergentes que causam um
movimento relativo dirigido medialmente de células, com intercalação na linha
média. Isto leva a um alongamento e estreitamento da placa neural. A modelagem da
placa neural é seguida pelo desenvolvimento de duas elevações laterais, as pregas
neurais, em cada lado de uma região medial referida como sulco neural. Em suínos
e bovinos, as pregas neurais tornam-se evidentes durante a terceira semana de
desenvolvimento. O desenvolvimento das pregas neurais anteriores parece ser
altamente dependente do mesênquima subjacente, o qual se prolifera e expande
pronunciadamente, com um notável aumento em seus espaços extracelulares, à
medida que a elevação das pregas inicia-se. Na porção espinhal do tubo neural, a
expansão da elevação da prega neural paraxial não é acompanhada pela elevação do
mesênquima.
149
Fig. 8-1 Desenvolvimento do tubo neural e da crista neural. Os bordos laterais da placa
neural são elevados e tornam-se as pregas neurais. A região média deprimida da placa neural é
chamada sulco neural. As pregas neurais continuam a se elevar, justapõem-seà linha média e
fundem-se para criar o tubo neural, o qual se torna coberto pelo futuro ectoderma epidérmico.
À medida que as pregas neurais elevam-se e fundem-se, as células nos bordos laterais do
neuroectoderma (células da crista neural) começam a se dissociar de seus vizinhos, passando
por uma transição epitélio-mesenquimal e deixam o neuroectoderma. 1: Ectoderma superficial;
2: Placa neural; 3: Sulco neural; 4: Crista neural; 5: Tubo neural; 6: Gânglio espinhal; 7:
Neuróporo anterior; 8: Neuróporo posterior; 9: Notocorda; 10: Nodo primitivo; 11: Linha
primitiva; 12: Somitos.
As pregas neurais continuam a elevar-se, justapostas à linha média e, por fim,
fundem-se para criar o tubo neural, o qual se torna coberto pelo ectoderma
superficial que irá desenvolver-se na futura epiderme. Este processo é facilitado pelo
citoesqueleto (microfilamentos e microtúbulos) das células da placa neural e por
forças extrínsecas dos tecidos paraxiais e notocordal subjacentes. Esta neurulação
primária cria o cérebro e a maior parte da medula espinhal.
No bulbo caudal, o tubo neural é formado pela neurulação secundária. Este é
um mecanismo diferente, sem dobramentos neurais, no qual a medula espinhal
inicialmente forma uma massa sólida de células epiteliais e um lúmen central
desenvolve-se secundariamente por cavitação. A transição da neurulação primária
para a secundária ocorre no futuro nível sacral superior.
Dobramento da placa neural e aposição das pregas neurais
150
O dobramento da placa neural, o qual é observado durante a neurulação primária,
ocorre em três sítios principais: o ponto de articulação mediano (MHP),
sobrejacente à notocorda, e os pontos de articulação dorsolaterais pareados
(DLHP) nos pontos de junção do ectoderma superficial à porção externa de cada
prega neural. O ponto de articulação mediano é induzido por sinais da notocorda e é
o único sítio de dobramento na placa neural espinhal superior.
Gradualmente, as pregas neurais aproximam-se uma da outra na linha média,
onde elas finalmente se fundem. Os filamentos de actina das células neuroepiteliais
desempenham um papel significativo na neurulação anterior. Isto se tornou aparente
com dados de camundongos transgênicos e de estudos usando citocalasina (uma
droga que despolimeriza os microfilamentos de actina) a qual, em diversas espécies,
mostrou que o fechamento do tubo neural, especialmente na porção anterior, é
altamente dependente do citoesqueleto de actina. A neurulação espinhal, por sua vez,
é mais resistente à ruptura dos microfilamentos de actina.
Protrusões celulares estendem-se das células apicais das pregas neurais à medida
que elas se aproximam umas das outras na linha média dorsal e se interdigitam à
medida que as pregas entram em contato. Isto possibilita um primeiro
reconhecimento célula a célula e fornece uma adesão inicial, seguido do
estabelecimento posterior de contatos celulares permanentes.
Fusão das pregas neurais
A fusão inicia-se na região cervical e procede anterior e posteriormente deste ponto.
Esta fusão é mediada por glicoconjugados de superfície celular. Como resultado
destes processos, o tubo neural é formado e separado do folheto ectodérmico
sobrejacente. Até que a fusão esteja completa, as extremidades anterior e posterior do
tubo neural comunicam-se com a cavidade amniótica por duas aberturas, os
neuróporos anterior e posterior. O fechamento do neuróporo anterior ocorre no
embrião bovino aproximadamente ao dia 24 (estágio dos somitos 18 a 20), enquanto
que o neuróporo posterior fecha-se dois dias depois (estágio do somito 25). A
neurulação está então completa. O sistema nervoso central é representado neste
momento por uma estrutura tubular fechada com uma porção posterior estreita, o
primórdio da medula espinhal e uma porção cefálica muito mais larga, o primórdio
do encéfalo. Durante a neurulação, o neuroepitélio é totalmente proliferativo; as
células deixam o ciclo celular e iniciam a diferenciação neuronal somente após o
completo fechamento do tubo neural.
Apoptose durante a neurulação
151
Durante a neurulação, a proliferação celular também é acompanhada por algum grau
de apoptose no neuroepitélio. A taxa de apoptose parece estar precisamente
ajustada e parece ser igualmente prejudicial se a intensidade da apoptose está
aumentada ou diminuída. A apoptose excessiva perturba a neurulação anterior
deixando poucas células com funcionamento normal para a morfogênese, mas
também existem dados que indicam que a redução da morte celular devido à pouca
apoptose pode levar a defeitos do fechamento do tubo neural.
A apoptose nas extremidades das pregas neurais pode desempenhar uma função
especial. Após as pregas neurais opostas terem feito contato e aderido uma à outra, o
remodelamento epitelial da linha média por apoptose quebra a continuidade entre o
neuroepitélio e o ectoderma superficial. A inibição da apoptose produz defeitos de
tubo neural, provavelmente prevenindo este remodelamento da linha média dorsal.
Crista neural
Formação da crista neural
À medida que as pregas neurais elevam-se, células do bordo ou da crista lateral do
neuroepitélio, a crista neural, passam por uma transição epitélio-mesenquimal à
medida que elas deixam o neuroectoderma em direção ao mesoderma subjacente
através de migração ativa (Fig. 8-1). A indução de células da crista neural requer
interações entre o ectoderma neural e o ectoderma superficial sobrejacente. A
especificação das células da crista neural é resultado de uma instrução indutiva do
ectoderma superficial. A instrução é possivelmente mediada por um gradiente da
proteína morfogenética óssea 4 (BMP4), BMP7 e Wnt. As proteínas morfogenéticas
ósseas secretadas pelo ectoderma superficial iniciam este processo. Uma vez
estimuladas, as células da crista neural expressam a proteína Slug, um fator de
transcrição da família das Zinc Finger que caracteriza as células que se separam da
camada de células embrionárias para migrar como células mesenquimais.
A migração de células da crista neural e a neurulação estão temporal e
espacialmente relacionadas nas porções anteriores do tubo neural, mas no
mesencéfalo e no rombencéfalo as células da crista neural começam a se separar dos
ápices das pregas neurais e começam a migrar muito à frente do fechamento do tubo
neural. Em contraste, na região da medula espinhal, a migração de células da crista
neural inicia-se após várias horas após o completo fechamento do tubo neural
espinhal.
Migração de células da crista neural
152
As vias pelas quais as células da crista neural deixam o tubo neural depende da
região. As células da crista em migração dão origem a um arranjo de células e tecidos
heterogêneos. As células da crista neural que deixam as porções anteriores das pregas
neurais, antes do fechamento do tubo neural nesta região, contribuem com o
esqueleto craniofacial e outros derivados mesenquimais, mas também podem
diferenciar-se em diversos outros tipos celulares incluindo neurônios dos gânglios
craniais, células de Schwann e melanócitos (Tabela 8-1).
Tabela 8-1 Principais derivados da crista neural cranial e circunfaringeal
Sistema nervoso
sensorial
Gânglios do nervo trigeminal (V), nervo facial (VII), glossofaríngeo (gânglio superior), nervo vago (gânglio jugular)
Sistema nervoso
autônomo
Gânglios parassimpáticos; ciliar, etmoidal, esfenopalatino, submandibular, visceral
Células satélite dos gânglios sensoriais, células de Schwann dos nervos periféricos, leptomeninges do prosencéfalo e
parte do mesencéfalo
Células
endócrinas
Corpo carotídeo, células parafoliculares da tireoide
Células
pigmentadas
Melanócitos
Células
mesectodérmicas
Calota craniana (escamoso e parte do osso frontal), ossos nasal e orbital, parte da cápsula ótica, palato, maxila,
cartilagem visceral, parte da cartilagem auricular externa
Tecido
conjuntivo
Derme e adipócitos da pele, córnea do olho, odontoblastos, estroma das glândulas (tireoide, paratireoide, timo,
salivar, lacrimal), vias de saída do coração, valvas cardíacas semilunares,paredes da aorta e artérias derivadas do
arco aórtico
Músculos Músculos ciliares; músculos lisos dérmicos, músculos lisos cardíacos
As células da crista neural separam-se da placa neural ou do tubo neural
mudando sua forma e alterando as propriedades típicas de células neuroepiteliais
para aquelas típicas de células mesenquimais. Na região da cabeça, células
incipientes da crista neural emitem processos que penetram a lâmina basal
subjacente ao epitélio neural. Após a degradação adicional da lâmina basal, as
células da crista neural, neste momento com aparência mesenquimal, atravessam os
remanescentes da lâmina basal e migram para o mesênquima circunjacente.
Uma alteração significante que acompanha a transição epitélio-mesenquimal é
sua perda de adesividade celular devido à perda de moléculas de adesão (CAMs),
características do tubo neural (p. ex., a N-CAM e a N-caderina).
Após deixar o neuroepitélio, as células da crista neural encontram um ambiente
relativamente pobre em células, mas rico em moléculas de matriz extracelular. Neste
ambiente especializado, as células da crista neural migram ao longo de diversas vias
bem definidas a ponto de serem influenciadas tanto por propriedades intrínsecas das
células como pelo ambiente no qual elas se encontram.
153
A migração é sustentada pelos componentes da matriz extracelular: moléculas
encontradas na lâmina basal, tais como a fibronectina, a laminina e o colágeno tipo
IV. A ligação com este substrato de moléculas e a migração sobre este é mediada pela
ação de integrinas (uma família de moléculas de adesão) sobre as células em
migração. Equilibrando esse processo, outras moléculas da matriz extracelular, tais
como os proteogliganos de sulfato de condroitina, inibem a migração de células da
crista neural.
Crista neural anterior
As células da crista neural na cabeça e no tronco em desenvolvimento (Fig. 8-2)
seguem vias de migração diferentes. A crista neural anterior é um importante
componente da extremidade encefálica do embrião em desenvolvimento.
Pesquisas comparativas da anatomia e do desenvolvimento sugerem que a crista
neural anterior é o principal substrato morfológico para a evolução da cabeça dos
vertebrados. Deixando o neurotubo nascente muito antes da fusão das pregas neurais,
as células da crista neural anterior migram em correntes difusas pelo mesênquima
anterior para alcançar sua destinação final na cabeça em desenvolvimento, seus
trajetos controlados por diferenças locais na matriz extracelular.
Fig. 8-2 Vias migratórias das células da crista neural na região da cabeça (modificado de
Sadler, 2006) As células que deixam a crista neural migram e formam estruturas da face e do
pescoço. 1-6: Arcos faríngeos; V, VII, IX e X: Placódios epibranquiais.
Reproduzido com permissão de Lippincott Williams & Wilkins.
As origens da crista neural no rombencéfalo anterior influenciam
significativamente suas destinações finais dentro dos arcos faríngeos (Cap. 14), e a
expressão de certos produtos gênicos. As células da crista neural dos rombômeros 1 e
2 migram para o primeiro arco faríngeo e formam a maior parte de seu
mesênquima. As células da crista neural do rombômero 4 migram para o segundo
arco e aqueles dos rombômeros 6 e 7 para o terceiro arco. Uma correlação estreita
154
pode ser demonstrada entre os padrões de migração das células da crista neural
rombomérica e a expressão de produtos do complexo de genes HoxB (Cap. 14). Os
produtos dos genes HoxB-2, HoxB-3 e HoxB-4 são expressos em uma sequência regular
tanto no tubo neural quanto no mesênquima derivado da crista neural do segundo,
terceiro e quarto arcos faríngeos, mas não no rombômero 2, nem no mesênquima do
primeiro arco faríngeo. Após os arcos faríngeos terem sido povoados com células da
crista neural, o ectoderma sobrejacente aos arcos também expressa um padrão
similar de produtos gênicos HoxB. Estas interações entre as células da crista neural e
o ectoderma superficial dos arcos faríngeos pode influenciar como o ectoderma dos
arcos diferenciam-se.
Assumiu-se por muito tempo que, em contraste com as células da crista neural do
tronco, as células da crista neural anterior eram pré-programadas, já tendo recebido
instruções morfogenéticas distintas antes que elas deixassem o tubo neural.
Entretanto, experimentos recentes mostraram que fatores ambientais desempenham
um papel decisivo na determinação do destino das células da crista neural anterior:
muitas das influências regionais sobre sua diferenciação hoje são reconhecidas como
o resultado de interações encontradas durante a migração.
As células da crista neural anterior diferenciam-se em uma ampla variedade de
tipos celulares e teciduais (Tabela 8-2; Caps. 14 e 16), incluindo o tecido conjuntivo e
esquelético da cabeça.
Tabela 8-2 Principais derivados da crista neural do tronco
Sistema nervoso
sensorial
Gânglios espinhais
Sistema nervoso
autônomo
Gânglios da cadeia simpática, gânglios celíacos e mesentéricos, plexos visceral e pélvico, células de Schwann de
nervos periféricos, células satélites de gânglios sensoriais, células gliais entéricas
Células
endócrinas
Medula adrenal, células neurossecretórias do coração e dos pulmões
Células
pigmentadas
Melanócitos
Células
mesectodérmicas
Nenhum
Tecido
conjuntivo
Nenhum
Músculos Nenhum
Crista neural circunfaringeana
A crista neural circunfaringeana surge da região rombencefálica posterior e da
155
porção inferior da faringe. As células desta região migram em direção aos intestinos
(células da crista neural vagal parassimpática, que se originam no nível dos somitos
um a sete) e do coração (células da crista neural cardíaca, que se originam do
rombencéfalo anterior no nível do somito cinco), onde eles contribuem
significativamente com as vias de saída cardíacas (Cap. 12). As células da crista
neural vagal migram para os intestinos em desenvolvimento como precursores dos
neurônios parassimpáticos do trato digestivo. Eles migram posteriormente até que,
junto com células da crista neural da região sacral, povoem a total extensão dos
intestinos. Estas células formam os plexos submucoso e mioentérico.
As células da crista neural cardíaca contribuem maciçamente com as pregas
troncoconais que separam as vias de saída do coração para os segmentos aórtico e
pulmonar, com os folhetos das valvas semilunares na base das vias de saída e com as
paredes das artérias coronárias proximais próximas de suas junções com a aorta
ascendente (Cap. 12). Elas também podem modificar os sinais que levam à
diferenciação normal das células miocárdicas. As células da crista neural cardíaca
também podem diferenciar-se nas células de Schwann dos nervos craniais.
Uma fração significativa da população da crista neural cardíaca torna-se
associada a outros órgãos, incluindo o timo e as glândulas paratireoide e tireoide.
Diversas anomalias severas destes órgãos resultam de deficiências da crista neural
cardíaca. Uma destas é a síndrome de DiGeorge, causada por uma deleção do
cromossomo 22 em humanos. Esta síndrome é caracterizada por hipoplasia e função
reduzida do timo, das glândulas tireoide e paratireoide, assim como defeitos
cardiovasculares, tais como tronco arterioso persistente e anomalias dos arcos
aórticos.
As células da crista neural circunfaringeana também migram ventralmente à
faringe. Ali elas acompanham os mioblastos derivados dos somitos que migram
anteriormente para formar os músculos intrínsecos da língua e os músculos
hipofaríngeos e também contribuem com o tecido conjuntivo destes músculos. Um
distúrbio das células da crista cardíaca nesta região pode resultar em defeitos septais
cardíacos (septo aorticopulmonar) assim como malformações glandulares e
craniofaciais.
Crista neural do tronco
A crista neural do tronco estende-se do sexto somito aos somitos mais posteriores.
Dentro do tronco, três principais vias migratórias das células da crista neural podem
ser discernidas. Uma delas é uma via dorsolateral entre o ectoderma e os somitos.
As células que seguem esta via dispersam-sesob o ectoderma e por fim o adentram
156
como células pigmentadas (melanócitos). Na segunda via ventromedial, células da
crista neural inicialmente movem-se para o espaço entre os somitos e o tubo neural
na metade anterior do embrião. A via continua por sob a superfície ventromedial dos
somitos, levando as células em migração à aorta dorsal. As células que usam este
ramo pertencem à linhagem simpatoadrenal e contribuem com o sistema nervoso
simpático e com a medula adrenal. Uma terceira via ventrolateral segue para as
metades anteriores dos somitos. As células que seguem esta via formam os gânglios
espinhais e sensoriais arranjados por segmentos.
A linhagem simpatoadrenal é derivada de células progenitoras
simpatoadrenais comprometidas que já passaram por uma série de pontos de
restrição de forma que eles não formam mais neurônios sensoriais, glia ou
melanócitos. Estas células progenitoras dão origem a quatro tipos de progênie
celular: (1) células cromafins adrenais, (2) células pequenas, intensamente
fluorescentes encontradas nos gânglios simpáticos, (3) neurônios simpáticos
adrenérgicos e (4) uma pequena população de neurônios simpáticos
colinérgicos.
Um tanto mais abaixo nesta linhagem celular, uma célula progenitora
bipotencial que pode dar origem tanto a células cromafins adrenais ou neurônios
simpáticos é encontrada. As células progenitoras bipotenciais já possuem alguns
traços neuronais, mas a diferenciação final depende de seu ambiente. Na presença de
fator de crescimento de fibroblastos (FGF) e fator de crescimento de nervos (NGF)
nos primórdios dos gânglios simpáticos, estes precursores diferenciam-se em
neurônios simpáticos definitivos. Por sua vez, se as células precursoras na medula
adrenal em desenvolvimento encontram glicocorticoides secretados por células
corticais adrenais, eles perdem suas propriedades neuronais e diferenciam-se em
células adrenais cromafins. Contudo, esta escolha não é absoluta, as células
cromafins podem ser estimuladas após o nascimento para se transdiferenciarem em
neurônios se elas forem expostas a NGF in vitro.
Toda a extensão dos intestinos é povoada por neurônios parassimpáticos
derivados da crista neural e células associadas, a glia entérica. Estes surgem de
células da crista neural nos níveis cervical (vagal) e sacral, os quais, sob influência
do fator neurotrófico derivado da glia (GDNF), migram extensivamente ao longo dos
intestinos em desenvolvimento. As células da crista neural sacral colonizam o
intestino distal, mas mesmo ali elas formam somente uma pequena porção dos
neurônios entéricos; a maior parte é derivada de células da crista neural vagal.
Dentro dos intestinos, as células da crista neural formam o sistema nervoso
entérico, o qual em muitos aspectos atua como um componente independente do
sistema nervoso. O número de neurônios entéricos praticamente equivale ao número
157
de neurônios na medula espinhal e a maioria deles não está diretamente conectado
ao cérebro ou à medula espinhal. Esta independência explica como o intestino
consegue manter a atividade reflexa na ausência de estímulos oriundos do sistema
nervoso central.
As células da crista neural não estão comprometidas com a formação do tecido
nervoso associado às vísceras antes de deixar a medula espinhal. Experimentalmente,
caso a crista neural vagal seja substituída pela crista neural do tronco (que
normalmente não dão origem a derivados associados aos intestinos), o intestino é
colonizado pelas células transplantadas da crista neural do tronco. Evidências de que
as vias de migração afetam a diferenciação são observadas nos neurotransmissores
produzidos por estas células da crista transplantada. Dessa forma, os neurônios
parassimpáticos diferenciados de células da crista do tronco ectopicamente
transplantado produzem serotonina, e não catecolaminas, nos intestinos. Caso eles
tivessem se diferenciado em seus sítios normais no tronco, estes neurônios iriam
produzir catecolaminas, e não serotonina.
Apesar da forte influência do ambiente do intestino na diferenciação das células
da crista neural, as células mantêm um surpreendente nível de flexibilidade de seu
desenvolvimento. Caso células derivadas da crista que já estivessem no intestino de
embriões de aves sejam retransplantadas para a região do tronco de embriões mais
jovens, elas aparentemente perdem a memória de sua associação prévia com o
intestino. Elas adentram a via comum para todas as células da crista do tronco (com
a exceção das vias das células pigmentadas) e diferenciam-se de acordo.
A maior parte dos precursores da crista neural dos neurônios parassimpáticos
associados a intestinos expressam o fator de transcrição hélice-alça-hélice, Mash 1, o
qual também é expresso nos precursores dos neurônios simpáticos, mas não nos
sensoriais. A expressão do Mash 1, a qual aparentemente mantém a competência das
células pós-migratórias no intestino em se diferenciarem em neurônios, é estimulada
pelo fator de crescimento BMP2 e BMP4. Outros fatores ambientais são necessários
para o total comprometimento destas células para formarem neurônios autonômicos.
Comparados com a crista neural anterior, a crista neural do tronco possui uma
variedade relativamente limitada de opções de diferenciação. Os derivados da crista
neural do tronco estão resumidos na Tabela 8-2.
Origens filogenéticas da crista neural
Filogeneticamente, a crista neural é uma característica típica dos vertebrados. Seus
derivados são geralmente considerados como homólogos com os plexos nervosos
epidermais e viscerais encontrados em não vertebrados. Desse modo, é assumido que
a crista neural surgiu como resultado da centralização dos sistemas nervosos
158
observados nos vertebrados.
Durante a evolução, os vertebrados também desenvolveram órgãos sensoriais
especiais e estruturas locomotoras. Para proteger e sustentar estas “novas”
aquisições, estruturas esqueléticas também se desenvolveram. Dessa maneira, pode se
assumir que a crista neural dos vertebrados evoluiu como o resultado de alterações no
sistema nervoso e da necessidade de se proteger estruturas para os órgãos sensoriais
especiais e os músculos. Com isto em mente, não é surpreendente que as células da
crista neural possuam dois destinos de desenvolvimento: eles formam elementos
ganglionares e estruturas de suporte do sistema nervoso periférico e eles podem
se diferenciar em mesênquima (ectomesênquima). Dependendo do nível no qual as
células da crista neural começam a migrar, os destinos de desenvolvimento diferem:
crista neural anterior, formada anterior ao somito sete, pode formar neurônios e
ectomesênquima. Crista neural do tronco, posterior ao somito sete, forma estruturas
neurais e somitos mas, sob condições fisiológicas, não formam ectomesênquima.
Resumo
Durante a neurulação primária, a placa neural é formada na porção anterior do
epiblasto. Subsequentemente, as pregas neurais definem o sulco neural e o tubo
neural. A porção posterior do tubo neural é formada por neurulação secundária
onde um cordão neural sólido desenvolve um lúmen secundariamente. As
extremidades anterior e posterior do tubo neural comunicam-se com a cavidade
amniótica pelos neuróporos anterior e posterior que se fecham posteriormente.
À medida que as pregas neurais se elevam, as células do bordo lateral da crista
do neuroepitélio, a crista neural, passam por uma transição epitélio-
mesenquimal à medida que elas deixam o neuroectoderma para adentrar o
mesoderma subjacente por migração ativa. A crista neural é agora considerada uma
população de células-tronco pluripotentes que promove contribuições vitais para uma
ampla variedade de sistemas de órgãos neuronais e não neuronais. As células da
crista neural migram para sítios periféricos por todo o corpo. Elas se diferenciam em
muitos tipos celulares, tais como neurônios, células gliais do sistema nervoso
periférico, melanócitos e células adrenais medulares. As células da crista neural
cranial e circunfaringeal também se diferenciam em células cartilagíneas, ósseas,dentina, fibroblastos dérmicos, células musculares lisas, estroma de glândulas
faríngeas e diversas estruturas do coração e dos grandes vasos. Células da crista
neural no tronco tomam três principais vias para sua migração: uma via
dorsolateral para os melanócitos, uma via ventral para células da linhagem
159
simpatoadrenal e uma via ventrolateral passando pelas metades anteriores dos
somitos para células que formam os gânglios sensoriais. Em contraste com as células
das cristas neurais cranial e circunfaringeal, as células da crista neural do tronco não
são capazes de diferenciar-se em elementos esqueléticos.
Quadro 8-1 Formação da crista neural e migração das células da crista
neural
A formação da crista neural é induzida por interações da placa neural com o mesoderma
paraxial ou com o ectoderma não neural. Diversas vias de sinalização estão presentes na
região entre o ectoderma neural e o não neural onde a crista neural é estabelecida. Entre as
moléculas identificadas neste processo estão membros das famílias de sinalização BMP, Wnt,
FGF e Notch. A ação orquestrada destes sinais e seus alvos posteriores definirão a identidade
da crista neural. Apesar de a crista neural ser uma inovação dos vertebrados, resultados de
genômica comparada sugerem que suas propriedades migratórias evoluíram pela utilização
de programas que já estavam presentes em ancestrais comuns aos vertebrados e aos
invertebrados. Vários mecanismos controlam a migração de células da crista neural nas
diferentes regiões do corpo. No tronco, interações célula-célula predominam e os somitos
mesodérmicos controlam o padrão rostro-caudal das células da crista neural. A notocorda
impede que células da crista neural cruzem a linha média. No rombencéfalo, a migração
segmental de células da crista neural é influenciada tanto pela informação inerente aos
rombômeros e os sinais ambientais dos tecidos adjacentes, como pela vesícula ótica. Existe
claramente uma relação íntima entre as células da crista neural em migração, o tubo neural
dos quais elas emergem e tecidos pelos quais elas se movem. O programa de desenvolvimento
que determina o destino das células da crista neural é tanto fixo quanto plástico: fixo no
sentido de que um grupo de células da crista neural carrega informações que dirigem o
padrão axial e a morfologia espécie-específica da cabeça e da face; plástico porque, como
células individuais, as células da crista neural são responsivas a sinais umas das outras, assim
como de tecidos não oriundos da crista neural presentes no ambiente.
Leituras adicionais
Anderson D.J. Cellular and molecular biology of neural crest cell lineage determination. Trends Genet.
1997;13:276–280.
Barrallo-Gimeno A., Nieto M.A. Evolution of the neural crest. Adv. Exp. Med. Biol. 2006;589:235–244.
Basch M.L., Bronner-Fraser M. Neural crest inducing signals. Adv. Exp. Med. Biol. 2006;589:24–31.
Bronner-Fraser M. Patterning of the vertebrate neural crest. Perspect. Dev. Neurobiol. 1995;3:53–62.
Dupin E., Creuzet S., Le Douarin N.M. The contribution of the neural crest to the vertebrate body. Adv. Exp.
Med. Biol. 2006;589:96–119.
160
Farlie P.G., McKeown S.J., Newgreen D.F. The neural crest: basic biology and clinical relationships in the
craniofacial and enteric nervous systems. Birth Defects Res. C. Embryo Today. 2004;72:173–189.
Kee Y., Hwang B.J., Sternberg P.W., Bronner-Fraser M. Evolutionary conservation of cell migration genes:
from nematode neurons to vertebrate neural crest. Genes Dev. 2007;21:391–396.
Maschoff K.L., Baldwin H.S. Molecular determinants of neural crest migration. Am. J. Med. Genet.
2000;97:280–288.
Noden D.M., Schneider R.A. Neural crest cells and the community of plan for craniofacial development:
historical debates and current perspectives. Adv. Exp. Med. Biol. 2006;589:1–23.
Patterson P.H. Control of cell fate in a vertebrate neurogenic cell lineage. Cell. 1990;62:1035–1038.
Sandell L.L., Trainor P.A. Neural crest cell plasticity. Size matters. Adv. Exp. Med. Biol. 2006;589:78–95.
Trainor P.A., Krumlauf R. Hox genes, neural crest cells and branchial arch patterning. Curr. Opin. Cell Biol.
2001;13:698–705.
161
Capítulo 9
Placentação comparada
Morten Vejilsted
Na cavidade uterina, o embrião é nutrido, inicialmente, pela secreção das glândulas
uterinas. Estes produtos são conhecidos como histotrofos ou leite uterino.
Entretanto, no decorrer do desenvolvimento, esta nutrição torna-se inadequada. Para
contrabalancear a insuficiência nutricional o próprio embrião estabelece uma
conexão entre os tecidos embrionários, os quais são vascularizados pelo próprio
embrião, e pelo sistema circulatório materno. Este fato permite ao embrião importar
nutrientes maternos do sangue, hemotrofo, e exportar seus próprios dejetos. Juntos,
histotrofos e hemotrofos são denominados embriotrofo. Para realizar as trocas
materno-fetais um órgão temporário, a placenta, é formado pela contribuição dos
tecidos embrionários e maternos. Como será explicado a seguir, a formação da
placenta (placentação) necessita sincronizar os locais de receptividade uterina e do
desenvolvimento embrionário.
Em roedores e primatas, os blastocistos eclodidos fixam-se no epitélio
endometrial e, devido à invasão natural do trofoectoderma nestas espécies, o embrião
penetra no epitélio e invade o tecido conjuntivo no qual ele se torna completamente
embebido. Este processo, pelo qual o embrião deixa o lúmen uterino, é conhecido
como implantação. Nos animais domésticos, entretanto, o embrião permanece
fixado à superfície endometrial interna ao longo de toda a gestação e, exceto nos
carnívoros, a placentação é não invasiva.
Desenvolvimento do concepto peri-implantação
Na maioria dos animais domésticos, o embrião alcança a cavidade uterina antes da
blastulação (Cap. 6). No fim da blastulação, o embrião consiste em uma esfera de
trofoectoderma circundando a massa celular interna e a cavidade blastocística
(Fig. 9-1). Quando atrelado à formação da placenta, o trofoectoderma é denominado
trofoblasto. Como a maioria dos tecidos extraembrionários, o trofoblasto é essencial
durante a vida intrauterina, entretanto, ele é expelido no parto como parte da
placenta.
162
Fig. 9-1 Desenvolvimento das membranas extraembrionárias apresentadas em seções
longitudinais progressivas dos embriões (A a F). 1: Massa celular interna; 2: Trofoectoderma; 3:
Cavidade blastocística; 4: Epiblasto; 5: Hipoblasto; 6: Mesoderma intrauterino; 7: Endoderma;
8: Mesoderma extraembrionário somático; 9: Mesoderma extraembrionário visceral; 10: Saco
vitelino primitivo; 11: Intestino primitivo; 12: Alantoide; 13: Saco vitelino definitivo; 14:
Celoma extraembrionário; 15: Cório; 16: Esplanopleura; 17: Fusão entre a parede do saco
vitelino e o cório permitindo a formação da placenta coriovitelina; 18: Cavidade amniótica: 19:
Mesoâmnio; 20: Corioalantoide permitindo a formação da placenta corioalantoide. G: Em
bovinos e suínos, o cório e a porção dorsal da parede do âmnio permanece fusionada no
mesoâmnio. H: Em equinos e cão, o alantoide circunda completamemte o âmnio.
163
No momento da eclosão da zona pelúcida, a massa celular interna diferencia-se
em epiblasto e hipoblasto (Fig. 9-1). O hipoblasto gradualmente forma um
revestimento interno do epiblasto e do trofoectoderma. Quando formada, a cavidade
fechada pode ser denominada saco vitelino primitivo, análogo ao saco vitelino
encontrado nos embriões de aves. O processo de gastrulação resulta no
estabelecimento das três camadas germinativas: endoderma, mesoderma e ectoderma
(Cap. 7). Durante este processo, o endoderma gradualmente desloca o hipoblasto
sob o epiblasto. Entretanto, o mesoderma extraembrionário divide-se nas lâminas
somática (ou parietal) e visceral (ou esplâncnica) revestindo o celoma
extraembrionário. O mesoderma somático extraembrionário associado a
trofoectoderma origina o cório, enquanto o mesoderma visceral juntamente com o
hipoblasto e endoderma formam a esplancnopleura. Por fim, do saco vitelino
primitivo (Cap. 7),as dobras do corpo do próprio embrião resultam na formação do
intestino primitivo e do saco vitelino definitivo. A parede do saco vitelino
definitivo estabelece uma fusão com o cório em algumas espécies para formar a
placenta coriovitelina.
O alantoide se desenvolve da evaginação do intestino posterior (Fig. 9-1). A
evaginação ocorre após a formação do saco vitelino definitivo e, devido a sua origem
no intestino posterior, sua parede é composta internamente pelo endoderma e
externamente pelo mesoderma visceral, as duas camadas juntas formam a
esplancnopleura. Os vasos sanguíneos são formados, incialmente, no mesoderma
visceral do saco vitelino, e este desenvolvimento permitirá posteriormente a
vascularização do mesoderma visceral associado ao alantoide (Cap. 12). Em
contrapartida, o mesoderma somático, incluindo aquele do cório, permanece
inicialmente avascular. Com o desenvolvimento embrionário, o alantoide
gradualmente expande-se no celoma extraembrionário, ocupando a maior parte da
cavidade embrionária. O corioalantoide é formado da junção da parede do cório e
do alantoide, o qual se torna gradualmente vascularizado dos vasos no mesoderma
visceral alantoico originando a placenta corioalantoide.
Mudanças no endométrio e reconhecimento materno da prenhez
Durante o período de livre movimentação do embrião na cavidade uterina, o útero
prepara-se para a placentação. Os estrógenos e a progesterona são os principais
hormônios produzidos nos ovários (Cap. 3). Os altos níveis de estrógenos são
secretados no sangue circulante durante o proestro e o estro (a fase folicular do ciclo
estral); a progesterona predomina durante os períodos subsequentes de metaestro e
diestro (fase luteal) quando o embrião move-se da tuba uterina para o útero. É nesta
164
fase do ciclo de produção de hormônios ovarianos que são estimuladas mudanças
marcantes no endométrio, o revestimento interno do útero.
Durante o proestro e o estro, o aumento dos níveis de estrógenos induz a
proliferação das glândulas uterinas e ingurgitamento do estroma uterino com sangue
(resultante de hiperemia e congestão) e fluido extracelular (edema). A genitália
externa, notavelmente a vulva, torna-se edemaciada, a qual pode ajudar no
diagnóstico do cio. Durante o metaestro, o edema endometrial diminui e alguns vasos
congestos rompem-se. Este fenômeno denominado metrorragia pode conter sangue e
corrimento vulvar, indicando, na vaca, que o estro já passou.
A proliferação das glândulas endometriais continua durante o metaestro, e
durante o diestro as glândulas alcançam um estado máximo de atividade secretória.
Consequentemente, a secreção de glândulas uterinas é maior durante os primeiro
onze dias de diestro, promovendo nutrição histotrófica ao embrião. Se a prenhez não
ocorrer, segue a involução do endométrio, resultando na regressão do corpus luteum
ou corpo lúteo.
A luteólise deverá ser evitada se a prenhez continuar. A manutenção do corpo
lúteo é baseada no reconhecimento materno da prenhez, no qual uma série de
eventos depende do desenvolvimento sincronizado do embrião e de um endométrio
receptivo. Para sinalizar a sua presença no útero, o embrião previne a luteólise
enquanto se sobrepõe, e, então, adere-se ao endométrio. A eficiência da sinalização
depende do grau de contato entre o trofoblasto e o endométrio, assegurado pelo
alongamento do concepto nos ruminantes e suínos e por migração intrauterina nos
equinos.
Em ruminantes, o corpo lúteo produz ocitocina assim como progesterona. A
ocitocina estimula o endométrio a sintetizar prostaglandina (PGF2α; Cap. 30) a
qual tem sido identificada como a principal causa da luteólise em ruminantes (assim
como em suínos e equinos). Nos ruminantes, o interferon-tau (IFN-t) é produzido
pelo trofoectodema, inibindo a formação de receptores de ocitocinas. Portanto, na
presença do embrião, a ocitocina não pode estimular a síntese de PGF2α e a luteólise
é evitada. Além disso, o IFN-t estimula a produção de histotrofo das glândulas
endometriais.
Os suínos utilizam outras estratégias para interromper os caminhos da luteólise.
Embora a ocitocina também seja produzida pelo corpo lúteo no suíno e promova
síntese de PGF2α endometrial. O estradiol é produzido pelo trofoectoderma entre os
dias 11 e 12 do desenvolvimento embrionário causando liberação de PGF2α no lúmen
uterino em vez do fluxo sanguíneo materno. No lúmen, a PGF2α é rapidamente
degradada. Além de modificar a secreção de PGF2α endócrina (circulação materna)
para exócrina (lúmem uterino), acredita-se que o estrógeno também estimule as
165
contrações miometriais facilitando a distribuição dos embriões dentro dos longos
cornos uterinos. Foi demonstrado que pelos menos quatro embriões devem estar
presentes a fim de evitar a luteólise no suíno.
Outra estratégia para a manutenção da prenhez é vista na égua. O contato
direto célula a célula entre o trofoblasto e o endométrio é evitado até o dia 21 pela
cápsula (veja a seguir) e é lentamente estabelecida após isto. A cápsula é capaz de
tornar o concepto esférico do equino para migração ao longo de toda a superfície do
endométrio entre 12 e 14 vezes por dia durante os dias 6 a 17 da prenhez a fim de
evitar a luteólise. Esta migração tem se mostrado essencial para a manutenção da
prenhez, entretanto, a natureza e o papel das trocas sinalizadoras com a égua ainda
não estão completamente identificados e compreendidos. Considerando que a égua já
reconhece a diferença entre o embrião e o ovócito não fertilizado na tuba uterina
(“permitindo” apenas os embriões passarem no útero), pode ser inapropriado aplicar
o termo reconhecimento da prenhez para equinos como até então é utilizado para
ruminantes e suínos.
Em carnívoros, também, um sinal para o reconhecimento materno da prenhez
foi identificado. Nos caninos os períodos de metaestro e dietro são longos. Em
condições normais estas fases do ciclo estral podem levar de 20 a 30 dias e, em
muitos casos, a cadela não prenhe desenvolve uma síndrome denominada
pseudoprenhez na qual o corpo lúteo mantém sua produção de progesterona por
longos períodos. Na maioria dos casos há uma reversão do quadro, mas algumas
vezes há uma necessidade de tratamento. Devido ao longo período do corpo lúteo, os
sinais embrionários para o reconhecimento da prenhez podem ser menos importantes
ou até desnecessários em cães. Portanto, o aumento dos níveis de hormônio pituitário
luteotrófico, a prolactina, parece ser responsável pela manutenção do corpo lúteo no
final da gestação de cadelas.
Classificação da placenta
Há grandes diferenças entre as espécies em relação ao início da placentação e,
portanto, como sua arquitetura final se desenvolve. Várias formas diferentes de
classificações da placenta, baseadas em uma variedade de critérios, foram propostas
ao longo dos anos. Uma delas é baseada na natureza dos tecidos extraembrionários
que contribuem para a formação da placenta, levando esta a ser classificada como
coriovitelina ou corioalantoide. Na placenta coriovitelina, a parede do saco
vitelino justapõe-se com o cório para formar uma área de trocas (Fig. 9-1). Nos
animais domésticos uma placenta coriovitelina funcional é vista somente nos
carnívoros e equinos. A placenta corioalantoide, considerada funcional primária
166
em todas as espécies domésticas, é estabelecida pela fusão entre a parede do
alantoide e do cório estabelecendo assim o corioalantoide. Nos suínos e ruminantes, o
saco vitelino involui 3 a 4 semanas após a concepção e nunca forma uma placenta
funcional.
Outra forma de classificação é baseada na estrutura da superfície corioalantoide
e suas interações com o endométrio. As áreas onde o corioalantoide interage com o
endométrio e se envolve na formação da placenta são denominadas cório frondoso.
Por sua vez, as áreas onde o corioalantoide está livre, não envolvido na formação da
placenta, de superfície lisa, são conhecidas como cório liso. Em suínos e equinos, o
cório frondoso é difuso, distribuído completamente na superfície coriônica e,
portanto, a placenta é categorizadacomo difusa. A área de superfície corioalantoide
suína é aumentada por dobras reveladas com pregas primárias e rugas secundárias,
e por isto denominada pregueada. Nos equinos, os vilos coriônicos são
aglomerados em numerosas “microzonas” especializadas, conhecidas como
microcotilédones, que se estendem nas criptas do endométrio, a placenta é também
denominada vilosa.
Em ruminantes, o cório frondoso é organizado em vilos coriônicos arborizados
semelhantes a grandes tufos visíveis macroscopicamente denominados cotilédones.
Sendo assim, a placenta é conhecida como cotiledonária, múltipla ou vilosa. Os
cotilédones combinados com projeções do endométrio denominadas carúnculas,
formam os placentônios, nos quais os vilos corioalantoides deste se estendem nas
criptas das carúnculas. O cório liso está presente entre os cotilédones.
Em carnívoros, o cório frondoso é organizado em uma ampla faixa estendida ao
redor do eixo longitudinal do embrião onde se formam lamelas. Este tipo de placenta
pode ser denominada zonária ou lamelar.
Uma terceira forma de classificação é baseada no número de camadas teciduais
que separam a circulação fetal e materna, deste modo, formando a barreira
placentária (Fig. 9-2). Existem três camadas de membranas extraembrionárias na
placenta corioalantoide: o endotélio revestindo os vasos sanguíneos alantoides; o
mesênquima corioalantoide, originado da fusão somática (coriônico) e visceral
(alantoico) do mesoderma; e o epitélio coriônico, ou seja, o trofoblasto. Entretanto,
o número de camadas retidas na porção materna da placenta varia com a espécie.
Antes da placentação, o endométrio apresenta três camadas que contribuirão para a
formação da barreira placentária: o epitélio endometrial, o tecido conjuntivo e o
endotélio vascular.
167
Fig. 9-2 A barreira placentária A: A placenta epiteliocorial na porca. B: A placenta
sinepiteliocorial da vaca. C: A placenta endoteliocorial da cadela. D: A placenta hemocorial da
camundonga. F: Componentes fetais da placenta; M: Componentes maternos da placenta; 1:
Epitélio endometrial; 2: Vasos fetais; 3: Endotélio fetal; 4: Trofoblasto; 5: Mesênquima; 6: Vasos
maternos; 7: Células binucleadas; 8: Células sanguineas vermelhas. A barreira placentária é
indicada pelas setas duplas.
Nos animais domésticos, o número de camadas maternas na barreira placentária
resulta em duas principais classes de placenta: a epiteliocorial e a endoteliocorial.
A primeira é encontrada em suínos, equinos e ruminantes. Os epitélios coriônico e
endometrial estão sobrepostos, e não há perdas de tecidos maternos. A placenta
epiteliocorial em ruminantes é modificada com células trofoblásticas especiais que
estabelecem uma fusão com as células do endométrio. A placenta também é
denominada sinepiteliocorial. Em carnívoros, por seu turno, a placenta é
endoteliocorial, pois o epitélio endometrial e o tecido conjuntivo são perdidos
durante a placentação, levando a um contato direto do trofoblasto com o endotélio
vascular materno. Em roedores e humanos, a redução da barreira placentária
materna é completa, levando um contato direto do trofoblasto com o sangue, sendo
assim denominada placenta hemocorial. O número de camadas de tecidos que
separam a circulação fetal e materna tem importantes implicações nas transferências
de imunoglobulinas e outras proteínas maternas para o feto e, consequentemente,
para o desenvolvimento do sistema imunitário no útero (Cap. 13).
Em carnívoros, a placenta endoteliocorial resulta da aderência entre os
componentes fetais e maternos da placenta. Como resultado, uma porção do
endométrio é lesada quando as membranas fetais e a placenta são expulsas no
nascimento. A porção lesada do endométrio é denominada decídua e este tipo de
placenta deciduada. A placenta em roedores e humanos também é deciduada. Em
contrapartida, a placenta de ruminantes, suínos e equinos é adeciduada.
168
Diferenças entre as espécies
Suínos
Os embriões passam para o estágio de 4 células no útero aproximadamente 2 dias
após a ovulação. O blastocisto eclodido sofre uma fase de extremo alongamento
durante os dias 10 a 14 do desenvolvimento coincidindo com a distribuição dos
embriões dentro dos longos cornos uterinos. O estradiol secretado pelo trofoblasto
leva ao reconhecimento materno da prenhez por volta dos dia 11 a 12 e a
implantação tem início por volta dos dias 13 a 14 no lado mesometrial do útero.
O saco vitelino é transitoriamente presente, mas involui em torno dos 20 dias
sem a formação de uma placenta coriovitelínica. Portanto, a placenta corialantoide
do suíno é difusa, pregueada, epiteliocorial e adeciduada. As áreas de trocas da
placenta são aumentas por dobras na forma de pregas (macroscópicas) primárias e
rugas (microscópicas) secundárias (Figs. 9-3, 9-4). Nas extremidades das membranas
fetais, o alantoide não se estende até o fim do cório, o qual forma extremidades
necróticas. A placenta difusa cobre inteiramente a superfície endometrial incluindo a
abertura das glândulas endometriais. Consequentemente, para a liberação das
secreções histotróficas acontecer, o corioalantoide forma cavidades semelhantes a
rosetas, aréolas, sobre a abertura das glândulas (Fig. 9-5).
169
Fig. 9-3 A placenta difusa na porca. 1: Corioalantoide; 2: Mesoâmnio; 3; Endométrio; 4:
Âmnio; 5: Alantoide; 6: Prega corioalantoide com rugas secundárias; 7: Miométrio.
Fig. 9-4 Placenta em baixa (A) e (B) em alta resolução. 1: Alantoide; 2: Epitélio endometrial
do alantoide; 3: Mesênquima; 4: Prega corioalantoide; 5: Endométrio; 6: Miométrio; 7:
Perimétrio; 8: Ruga corioalantoide; 9: Glândulas uterinas; 10: Vasos fetais; 11: Vasos maternos.
170
Fig. 9-5 Aréola na placenta de suínos. 1: Mesênquima; 2: Ruga corioalantoide; 3: Aréola; 4:
Endométrio; 5: Glândulas uterinas.
A formação do âmnio é seguida de uma persistência do mesoâmnio (Cap. 7),
Desse modo, os leitões são, em geral, nascidos descobertos de membrana fetal. O
alantoide começa a se formar por volta do dia 15, e devido à involução do saco
vitelino, ocupa o celoma extraembrionário, exceto pela área do mesoâmnio.
Ruminantes
Em geral, o embrião ruminante entra no útero no estádio de 8 a 16 células, 3 a 4 dias
após a ovulação. O blastocisto rapidamente elonga-se após a eclosão da zona
pelúcida. Nos bovinos, o concepto estende-se igualmente em ambos os cornos por
volta do dia 22 (Cap. 6). Uma maior quantidade de embriões parece estar localizada
no corno direito, reforçando o fato que a ovulação é mais comum no ovário direito e
que a migração embrionária não é tão pronunciada como nos suínos e equinos. O
reconhecimento materno da prenhez ocorre por volta do dia 12 a 13 (ovelha) e 16 a
17 (vaca), como um resultado da secreção de IFT-t pelo trofoblasto, e é seguido da
implantação nos dias 15 a 20 (ovelha) e 16 a 18 (vaca).
O saco vitelino está apenas transitoriamente presente, degenera-se brevemente
após a implantação ter iniciado. Desse modo, a placenta corioalantoide é
cotiledonária ou múltipla, vilosa, sinepiteliocorial e adeciduada.
A placentação ocorre pelo desenvolvimento dos vilos coriônicos em aposição às
proeminências endometriais carunculares formando cotilédones semelhantes a
171
botões, correspondendo à forma da carúncula. A carúncula e o cotilédone formam o
placentônio (Figs. 9-6, 9,7). Em vacas, 75 a 120 carúnculas estão presentes; na
ovelha entre 80 a 100.
Fig. 9-6 A placenta cotiledonária dos ruminantes. 1: Corioalantoide (cotilédone) formando
vilo; 2: Carúncula com criptas envolvendo os vilos; 3: Miométrio.
172
Fig. 9-7 Placentônio de vaca em baixa (A) e em alta (B) resolução. 1: Alantoide; 2: Epitélio
endodermal do alantoide; 3: Placentônio; 4: Endométrio; 5: Miométrio; 6: Mesênquima; 7:
Ramificação dos vilos corioalantoides.
Os placentônios são convexos em vacas, côncavos em ovelhas, e planos em
cabras. O trofoblasto cobre os cotilédones dando origem a uma única população de
células binucleadas gigantes produtoras de hormônio que migram e fusionam-se
com as células do epitélio endometrialpor uma conjunção de
20
embriologia convencional, genômica, transcriptômica e epigenômica aplicada à
investigação dos mecanismos moleculares da biologia do desenvolvimento. A
informação está aumentando exponencialmente, e combinar o conhecimento
molecular avançado com a embriologia como um todo é um desafio – um desafio que
se tornou claro ao escrever um livro sobre os fundamentos da embriologia dos
animais domésticos! Durante anos, o ensino de embriologia veterinária era
dificultado pela falta de livros sobre o tema, e livros sobre embriologia médica eram
utilizados com baixo aproveitamento. Em 2006, quando McGaedy et al. publicaram
seu bem-vindo livro sobre embriologia veterinária, nós já havíamos iniciado o projeto
deste livro com o objetivo de transformar nosso próprio material de pesquisas,
coletado ao longo de várias décadas, em algo palatável e estimulante para os
estudantes. Trabalhar com esse intuito foi uma grande experiência para nós, e
esperamos que você, leitor, considere que tenhamos realizado, ao menos em parte,
aquilo que pretendíamos. As melhorias futuras, é claro, dependerão muito do retorno
e opiniões recebidas, e serei grato em receber críticas construtivas.
Enquanto isso, é meu desejo sincero que a leitura deste livro possa levá-lo a pelo
menos um “Aha-Erlebnis” no maravilhoso mundo da embriologia!
Poul Hyttel
Vidiekjaer
Valby, Dinamarca
3 de junho de 2009
Minha pintura (2003) do horizonte de Skagen, Dinamarca, onde cresci e fui “imprinted”.
Vejo a embriologia do mesmo prisma: uma vista com potenciais infinitos que estão apenas
aguardando para serem realizados.
21
Capítulo 1
História da embriologia
Poul Hytell, Gábor Vajta
Embriologia, o estudo do desenvolvimento da fertilização até o nascimento sempre
intrigou filósofos e cientistas. Ao longo dos anos o fascínio universal, entre os
embriologistas, pela maneira pela qual a “vida” se desenvolve deu origem a diversas
discussões acerca da complexidade deste processo. Em 1899, Ernst Haeckel (1834-
1919) considerou que “a ontogenia é uma recapitulação da filogenia”. Em outras
palavras, ontogenia (o desenvolvimento de um organismo do ovo fertilizado até sua
forma madura) reflete, em questão de dias ou meses, a origem e evolução das
espécies (filogenia), um processo contínuo que pode ser medido em milhões de anos.
Esta afirmação não pode ser considerada totalmente verdadeira, pois, basta analisar
um embrião ovino de 19 dias de idade para entender a perspectiva de Haeckel; como,
por exemplo, os arcos faríngeos similares a guelras e os somitos (Fig. 1-1) são comuns
aos embriões de todos os cordados. Embora formado como um médico, Haeckel
abandonou a profissão após ler A origem das espécies de Charles Robert Darwin
(1809-1882) publicado em 1859 (e disponível à época por quinze xelins!). Sempre
desconfiado das explicações teológicas e místicas da vida, Haeckel utilizou a teoria de
Darwin como munição para atacar dogmas religiosos arraigados bem como para
elaborar seus próprios entendimentos. No entanto, ao projetar a filogenia na
ontogenia, Haeckel cometeu um erro: o mecanismo de mudança requer que a
formação de novos caracteres e diagnósticos de novas espécies ocorra da sua origem
até o esquema básico de desenvolvimento. Por exemplo, devido à maioria dos
metazoários passarem por um estágio de desenvolvimento chamado gástrula (um
aglomerado de células com desdobramentos que, em seguida, formará o intestino)
Haeckel considerou que em um determinado momento um organismo chamado
“gastraea” tivesse existido, assemelhando-se com o estágio de gástrula da ontogenia.
Nesta hipótese, o ancestral metazoário, pensou ele, deu origem a todos os animais
multicelulares. A concepção de um “único segmento” da filogenia, ou seja, todos os
seres antecedem uma única linhagem, foi abandonada; a filogenia divide-se em uma
infinidade de linhas.
22
Fig. 1-1 Embrião de ovelha no dia 19 do desenvolvimento.
A maioria dos antigos filósofos gregos se interessavam pela embriologia. De
acordo com Demócrito (455–370 a.C.) o sexo de um indivíduo era determinado pela
origem do espermatozoide: os machos proviam do testículo direito (Claro!) e as
fêmeas do testículo esquerdo. Esta hipótese foi modificada por Pitágoras, Hipócrates
e Galeno. No entanto, para a ciência, a definição do sexo sempre foi privilégio do
homem; a maioria dos filósofos colocavam as fêmeas entre os homens e os animais,
portanto, os machos eram originados de um forte espermatozoide do testículo direito.
O primeiro embriologista conhecido foi o filósofo grego Aristóteles (384-322
a.C.). Na obra A geração dos Animais (350 a.C.) ele descreveu as diferentes formas que
os animais nasciam: dos ovos (oviparidade, como os pássaros, sapos e maioria dos
invertebrados), pelo nascimento (vivíparos, como em animais placentários e alguns
peixes) ou por produção de ovos que eclodiam dentro do corpo (ovoviparidade, como
ocorre em certos répteis e cobras). Foi também Aristóteles que observou os dois
principais padrões de divisão celular do desenvolvimento: clivagem holoblástica na
qual o ovo é dividido progressivamente em células menores (como em sapos e
mamíferos) e o padrão meroblástico no qual a parte do ovo destinado à formação do
embrião se divide, e o restante tem a função de nutrição (como nas aves). Aristóteles
descobriu que as membranas fetais e o cordão umbilical em bovinos possuíam funções
importantes para a nutrição fetal. Ainda, fez a mais importante descoberta de
estudos sequenciais de ovos fertilizados de galinhas. O embrião desenvolve seus
sistemas de órgãos gradualmente – eles não estão pré-formados. Este conceito de
nova (de novo) formação de estruturas embrionárias, o qual é denominado
epigênese, permanece controverso por mais de 2.000 mil anos, antes de ser
23
completamente aceito; Aristóteles estava muito a frente do seu tempo. O enigma da
reprodução sexuada também o intrigava. Ele notou que ambos os sexos eram
necessários para a concepção e percebeu que o sêmen do macho não contribuía
fisicamente para a concepção, mas promovia uma desconhecida interação com o
sangue menstrual no útero da fêmea e, desse modo, a materialização de um embrião.
Neste caso, Aristóteles estava errado. Ironicamente, ao contrário de seu ponto de
vista não aceito sobre a epigênese, seu erro acerca da concepção prevaleceu por
2.000 anos, e levou quase cem anos para ser corrigido!
Durante esses 2.000 anos, a ciência da embriologia desenvolveu-se muito
lentamente paralela à anatomia descritiva. Uma das primeiras descrições anatômicas
de útero prenhe de porcas foi feita por Kopho (ano de nascimento e morte
desconhecidos) no início do século XIII em seu trabalho Anatomio Porci. Kopho
trabalhou em uma famosa escola de medicina de Salerno usando porcos como
modelos, pois cadáveres humanos não poderiam ser dissecados por questões
religiosas. No início do renascimento, os famosos e incomparáveis estudos artísticos e
anatômicos de Leonardo da Vinci (1452–1519) incluíram investigações de úteros
prenhes de uma vaca. Seus desenhos de um útero bicórneo prenhe e de fetos e
membranas fetais liberados do útero estão reproduzidos na Figura 1-2. Em um de seus
desenhos, Leonardo evidencia um útero humano aberto e “revela” não uma placenta
humana, mas uma placenta de ruminante multivilosa e vilosa (Cap. 9)! Certamente,
para Leonardo, não foi possível estudar a gestação humana. As estruturas são
descritas baseadas nas anotações de Leonardo, que trabalhou principalmente em
Florença.
24
Fig. 1-2 Desenhos de Leonardo da Vinci. A: Em cima: Um corno uterino gestante de vaca.
Embaixo: Feto e membranas fetais mostrando os cotilédones da placenta (Cap. 9). B: Útero
simples aberto de ser humano mostrando o feto e o cordão umbilical. Observe que a placenta é
de um ruminante, do tipo multivilosa com vários placentônios desenhados no corte da parede
do útero e, em cima do lado direito, um cotilédone simples desenhado em alta resolução
mostrando as superfícies dos vilos.
Desde o século XIII ao XV, o Renascimento foi um grande(Fig. 9-2). Em pequenos ruminantes este
fenômeno de fusão, que origina a placenta sinepiteliocorial, ainda que mais
pronunciado, resulta em um sincício que substitui o epitélio materno.
A carúncula não possui abertura de glândulas uterinas, pois, o cório que parte
por entre os cotilédones não está fixado ao endométrio e não forma aréola. As placas
amnióticas, as quais são elevações epiteliais estratificadas ricas em glicoproteínas
no epitélio do âmnio, e os cálculos alantoicos, massas esbranquiçadas ou
acastanhadas de debris celulares circundados por mucoproteínas e minerais
provavelmente originados do intestino posterior fetal e do sistema urinário em
desenvolvimento, são comumente encontrados em vacas e ovelhas. Como nos suínos,
um mesoâmnio persiste, portanto, o bezerro nasce sem cobertura de membranas. As
membranas fetais são normalmente expulsas dentro de 6 a 12 horas, e mantidas após
o nascimento – a retenção das membranas por longos períodos – não é um fato
incomum.
Durante uma gestação clinicamente normal, a quantidade de fluido presente na
cavidade amniótica e alantoide é firmemente regulada. Entretanto, uma quantidade
excessiva de fluidos pode, algumas vezes, acumular em ambas as cavidades,
especialmente em vacas, resultando em hidroâmnio ou hidroalantoide. Assim, o
volume de fluido normal no âmnio e alantoide em vacas é de aproximadamente 15 a
20 litros respectivamente, em casos de hidroalantoide (a condição mais frequente)
173
um total de 100 a 200 litros pode acumular no alantoide. As razões para esta
condição incluem distúrbios vasculares na placenta em geral associados a
malformações gemelares e embrionárias. O interessante é que anormalidades
placentárias, incluindo hidroalantoide, são encontradas com frequência em prenhezes
resultantes de transferência de embriões clonados por transferência nuclear de
células somáticas (Cap. 21).
Equino
O embrião equino entra no útero, nos estágios de mórula ou blastocisto,
aproximadamente 6 dias após a ovulação. Somente embriões entram na cavidade
uterina; ovócitos não fecundados são retidos nas tubas uterinas por meio de reações
ainda não completamente elucidadas. A eclosão da zona pelúcida ocorre por volta do
dia 7 e 8 do desenvolvimento. Entretanto, mesmo antes da eclosão dentro da zona
pelúcida, uma cápsula glicoproteica elástica produzida em grande parte pelo
trofoectoderma circunda o blastocisto. Diferente de outras espécies, o concepto,
devido à presença da cápsula, permanece esférico durante a gastrulação até o
vigésimo primeiro dia quando a cápsula é perdida. A cápsula permite que o embrião
esférico atravesse todo o lúmen uterino do dia 6 ao décimo sétimo, promovendo os
sinais essenciais para a manutenção da prenhez. Esta extensa mobilidade é finalizada
pela fixação do embrião – um aumento do tônus uterino fixando o embrião na base
do corno uterino. O mesmo processo ocorre com o concepto equino no que se refere
ao tempo de fixação que este tem para posicionar-se adequadamente (orientar-se) no
útero, no qual o próprio embrião reveste a parede mesometrial, ou posiciona-se “para
baixo” como visto na ultrassonografia transretal antes do dia 40.
A placenta coriovitelina do equino se forma de uma estrutura proeminente, o
saco vitelino, que funciona como base para as trocas materno-fetais até
aproximadamente o quadragésimo segundo dia de gestação. A partir desta data o
saco vitelino involui e a placenta corioalantoide assume a função até o final da
gestação. A involução do saco vitelino persiste a termo e, devido a este fato, o cordão
umbilical torna-se mais longo no cavalo, medindo entre 50 a 100 cm ao nascimento.
O desenvolvimento da placenta é necessário para a formação da cinta
coriônica na junção entre o corioalantoide e o saco vitelino em torno do trigésimo
quarto dia (Figs. 9-8, 9-9). Esta estrutura consiste em uma faixa espessa de células
trofoblásticas que invade o endométrio, atravessa a barreira placentária e forma as
taças endometriais no endométrio. Estes agregados de células produzem o
hormônio gonadotrofina coriônica equina (eCG), conhecido como gonadotrofina
sérica da égua prenhe (PMSG). A eCG age como um estimulante luteotrófico
174
mantendo tanto o corpo lúteo primário, quanto a formação do corpo lúteo
suplementar (acessório) (Cap. 3).
Fig. 9-8 Embrião equino durante a presença da cinta coriônica. A: Vista da ramificação
vascular. B: Seção do embrião. 1: Saco vitelino; 2; Seio terminal; 3: Cinta coriônica; 4:
Alantoide; 5: Âmnio; 6: Mesoderma com vasos; 7: Celoma extraembrionário.
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
Fig. 9-9 Embrião equino aos 25 dias de prenhez, antes da formação da cinta coriônica. 1:
Seio terminal; 2: Local de formação da cinta; 3: Cobertura corioalantoide da cavidade
alantoide.
Foto: Keith Betteridge.
175
O desenvolvimento do âmnio se completa por volta do vigésimo primeiro dia.
Não há persistência de um mesoâmnio. Consequentemente, os potros podem
nascer recobertos pelo âmnio, fato que vem a potencializar riscos de sufocamento
caso a membrana não seja removida rapidamente. Entre o vigésimo ao quadragésimo
dia o alantoide expande-se na cavidade celomática extraembrionária (Figs. 9-8, 9-9).
O corioalantoide forma-se, e gradualmente desenvolve tufos de vilos corioalantoides,
microcotilédones, distribuídos difusamente, projetando-se nas reentrâncias
endometriais, as criptas. Todo o processo de placentação completa-se antes do
centésimo vigésimo primeiro dia. Os microcotilédones fetais e as criptas maternas
podem ser descritas como microplacentônios, ligeiramente semelhantes aos
arranjos vistos nos ruminantes. Como no suíno, no equino não há perda de
endométrio ao nascimento. A placenta do cavalo é difusa, vilosa, epiteliocorial e
adeciduada. Numerosas aréolas estão espalhadas entre os microcotilédones,
facilitando o aproveitamento do histotrofo (Figs. 9-10, 9-11).
176
Fig. 9-10 Placenta difusa na égua. 1: Corioalantoide; 2: Endométrio, 3: Âmnio; 4: Alantoide;
5: Saco vitelino; 6: Microcotilédones corioalantoicos com vilos; 7: Taças endometriais; 8:
Endométrio com criptas envolvendo os vilos. 9: Miométrio.
177
Fig. 9-11 Placenta de égua em baixa (A) e em alta (B) resolução. 1: Alantoide; 2:
Microcotilédones; 3: Endométrio; 4: Glândulas uterinas; 5: Epitélio endodermal do alantoide; 6:
Vasos fetais.
Quando a égua concebe gêmeos, há uma redução da área endometrial disponível
para cada embrião durante a placentação. Este fato representa um problema, pois a
expansão de uma das placentas restringe o crescimento da outra resultando na morte
de um dos gêmeos ou de ambos. Portanto, o diagnóstico inicial da prenhez é
comumente realizado a fim de possibilitar a retirada de um dos gêmeos por redução
embrionária (ruptura transretal manual).
Como nos ruminantes, os cálculos alantoicos são frequentemente encontrados
flutuando na cavidade alantoide. No cavalo eles são particularmente grandes e
denominados hipomanes. As placas amnióticas ou pústulas também são bastante
observadas no âmnio.
Carnívoros
É difícil prever, precisamente, o tempo no qual ocorrem os eventos da gestação em
cadelas, pois a cópula ocorre antes da ovulação, e os espermatozoides permanecem
viáveis por longo tempo no trato genital feminino (Cap. 3). Na gata, ao contrário, o
momento da fecundação pode ser estimado precisamente, pois a ovulação é induzida
na cópula. Para ambas as espécies, os embriões parecem entrar no útero no estágio
de blastocisto, cerca de 6-8 dias póscópula. Os embriões de carnívoros não emergem
de seus revestimentos do mesmo modo que se expandem os blastocistos de
ruminantes e suínos claramente “eclodidos” da ainda óbvia zona pelúcida. Em vez
disso, o blastocisto de gatos, por exemplo, permanece envolvido em uma
membrana extremamente atenuada, muito parecida com a cápsula do equino,
178
entre os dias 12 e 15 após a cópula. Se este revestimento é muito modificado na zona
pelúcida, ou substituído por ela, ainda não foi estabelecido. O revestimento é
provavelmente um suporte à extensa migração doblastocisto no corno uterino no
qual permite o espaçamento do próprio embrião.
O reconhecimento materno da prenhez nestas espécies é provavelmente
desnecessário pela prevenção da regressão do corpo lúteo. A placentação começa em
torno do décimo sétimo ao décimo oitavo dia na cadela e no décimo segundo ao
décimo quarto dia na gata.
O saco vitelino inicialmente forma uma ampla placenta coriovitelina. Mais
tarde, a área central da placenta coriovitelina degenera-se resultando em uma
placenta coriovitelina transitória na periferia da estrutura inicial. A placenta
corioalantoide, entretanto, serve como principal base para as trocas materno-fetal.
Devido à aparência de uma cinta do cório frondoso, a placenta coriovitelina em
carnívoros é referida como sendo zonária (Fig. 9-12). No cório frondoso, o
trofoblasto origina duas diferentes populações de células: as células localizadas
basalmente denominadas células do citotrofoblasto e as células localizadas
superficialmente denominadas células do sinciotrofoblasto, as quais são formadas
pela fusão de muitas células trofoblásticas. O sinciotrofoblasto é altamente invasivo e
destrói tanto o epitélio endometrial como o tecido conjuntivo subjacente,
aproximando o trofoblasto ao endotélio materno, tornando a placenta dos carnívoros
endoteliocorial (Fig. 9-2). Além disso, como o tecido materno é perdido no parto, a
placenta é classificada como decídua. Como no suíno, a área de superfície do cório
frondoso é aumentada pelas dobras lisas denominadas lamelas. Estas estruturas
podem, dependendo da espécie de carnívoro, ser mais ou menos ramificada e
destorcida, resultando na formação do labirinto. A zona placentária é organizada no
interior da zona lamelar com a lamela corioalantoide, uma zona de junção
intermediária contendo a parte terminal da lamela, vasos maternos, debris celular e
secreções glandulares, e uma zona glandular contendo as projeções das glândulas
uterinas (Fig. 9-13). Em resumo, a placenta de carnívoros é zonária, lamelar ou
labiríntica, endoteliocorial e deciduada.
179
Fig. 9-12 Placenta zonária da cadela. 1: Perimétrio; 2: Endométrio e miométrio; 3:
Corioalantoide; 4: Alantoide; 5: Saco vitelino; 6: Corioalantoide formando lamelas na zona
placentária; 7: Hematoma marginal.
Fig. 9-13 Placenta de marta. A: A área do quadrado está ampliada em “B”. 1: Alantoide; 2:
Zona lamelar; 3: Zona juncional; 4: Edométrio; 5: Hematoma marginal; 6: Zona glandular; 7:
Lamela individual da zona lamelar.
Nas margens da zona placentária, parte do endotélio materno degenera. No cão
e em martas, esta degeneração resulta na formação de um hematoma denominado
180
hematoma marginal. Na gata, os hematomas são posicionados mais irregulares. Em
ambas as espécies, o sangue contido serve como fonte de ferro. Devido a diferenças
na quebra de hemoglobina, os hematomas são verdes na cadela e marrom na gata. As
áreas periféricas à zona placentária, conhecidas como paraplacenta, são consideradas
não funcionais. A aréola não ocorre em carnívoros. Como nos equinos, um
mesoâmnio não persiste e então os recém-nascidos são normalmente cobertos pelo
o âmnio.
Roedores e primatas
A placenta de roedores e primatas será brevemente descrita por razões comparativas.
Nestas espécies, o trofoectoderma é altamente invasivo e então o blastocisto
penetra no epitélio endometrial localizando-se no tecido conjuntivo endometrial. O
termo implantação é bem adequado nestas espécies. Ao longo do desenvolvimento
do embrião, o trofoblasto diferencia-se em um citotrofoblasto interno e um
sinciotrofoblasto externo. O alantoide não se desenvolve e, portanto, não há
formação de uma placenta corioalantoide. Entretanto, a migração do mesoderma
visceral resulta em ampla vascularização da placenta, a qual toma a forma de um
disco, formando a placenta discoidal (Fig. 9-14). O termo “placenta” dá-se devido á
semelhança deste disco esponjoso com um bolo (placenta = bolo plano em latim).
181
Fig. 9-14 Placenta discoidal de primatas. 1: Perimétrio; 2: Endométrio e miométrio; 3:
Âmnio; 4: Cavidade uterina; 5: Espaço interviloso com sangue materno; 6: Endométrio; 7:
Miométrio.
No disco, o trofoblasto forma vilos com um núcleo de citotrofoblasto e uma
camada externa de sinciotrofoblasto. Mais tarde, o núcleo é invadido pelo
mesoderma carreando vasos sanguíneos. Devido à natureza invasiva do
sinciotrofoblasto, o tecido conjuntivo materno e o endotélio são removidos e os vilos
fetais cobertos de trofoblasto estão diretamente circundados pelo sangue materno
contido nos espaços intervilosos. Assim é estabelecida a placenta hemocorial (Fig. 9-
2). A placenta discoidal e a decídua são expulsas com o nascimento. Dessa forma, as
placentas de roedores e primatas são discoidais, vilosas, hemocorial e deciduada.
Prenhez ectópica
182
As gestações que ocorrem fora da tuba uterina são denominadas ectópicas. Embora
rara e fatal, a condição ocorre principalmente na tuba uterina e na cavidade
abdominal. As prenhezes tubáricas podem acometer mais de 95% de todas as
prenhezes ectópicas em humanos; ao contrário, este tipo de prenhez não ocorre nos
animais domésticos. Existe uma especulação se é devido ao ambiente tubárico
espécie-específica não favorável ao desenvolvimento embrionário ou interrupção dos
caminhos que conduzem ao reconhecimento materno da prenhez. O tipo abdominal
de prenhez ectópica pode ocorrer como resultado de um zigoto que entra na cavidade
abdominal e fixa-se no mesentério ou vísceras abdominais (forma abdominal
primária) ou, mais frequentemente, pela ruptura da tuba uterina ou útero seguido de
expulsão do embrião/feto (forma abdominal secundária). Na maioria dos casos, o
embrião/feto torna-se calcificado e é frequentemente encontrado por acaso.
Entretanto, tanto em ovelhas, quanto em gatas, a prole viva resultante da forma
secundária pode ser recuperada por cesariana, indicando que o desenvolvimento
completo a termo é possível de ocorrer fora da cavidade uterina.
Resumo
No interior do útero, o embrião é inicialmente nutrido pelo histotrofo das glândulas
uterinas. A placentação estabelece a base para uma absorção de nutrientes via
circulação sanguínea, o hemotrofo. Um importante evento de pré-implantação é o
reconhecimento materno da prenhez, mediado pelos sinais produzidos pelo
embrião. Próximo do momento da implantação, o embrião desenvolve múltiplas
membranas e cavidades. O revestimento externo do embrião consiste no
trofoectoderma com um revestimento interno do mesoderma extraembrionário
somático, construindo o cório. As dobras do cório resultam na formação do âmnio
envolvendo o embrião. O hipoblasto, recoberto com o mesoderma extraembrionário
visceral, fecha a cavidade denominada saco vitelino primitivo. O celoma
extraembrionário é encontrado entre o mesoderma embrionário somático e o
visceral. O endoderma está inserido na porção do saco hipoblástico e, com as dobras
anteroposterior e lateral do embrião, a porção do endoderma que reveste o saco
vitelino primitivo, forma o intestino primitivo, ao passo que a porção revestida com
hipoblasto forma o saco vitelino definitivo. Finalmente, o alantoide desenvolve-se
como uma consequência do intestino posterior e vem a ocupar a maior parte do
celoma extraembrionário. Com o tempo, o alantoide passa a circundar suavemente o
âmnio. Entretanto, em bovinos e suínos, um mesoâmnio, onde o âmnio e cório são
fixados, persiste.
Uma placenta coriovitelina temporária é formada pela interação da fusão do
183
saco vitelino e o cório com o endométrio no equino e no cão. A placenta
corioalantoide permanente é formada pela fusão entre o alantoide, o cório e o
endométrio. A placenta é classificada de acordo com sua aparência anatômica
(difusa, múltipla, zonária ou discoidal), suas características de superfície (vilos,
dobras, lamelas/labirinto), e pela espessura de barreias (epiteliocorial,
sinepitelicorial, endotelicorial ou hemocorial). No suíno, a placenta é difusa,
pregueada, epiteliocorial e adeciduada. Nos ruminantes, a placenta é
cotiledonária ou múltipla,vilosa, sinepitelicorial e adeciduada. No equino, a
placenta é difusa, vilosa, epiteliocorial e adeciduada. Nos carnívoros, a placenta
é zonária; lamelar ou labiríntica, endoteliocorial e deciduada. Em roedores e
primatas, a placenta é discoidal, vilosa, hemocorial e deciduada.
Leituras adicionais
Allen W.R. Maternal recognition and maintenance of pregnancy in the mare. Anim. Reprod. 2005;2:209–223.
Allen W.R., Stewart F. Equine placentation. Reprod. Fert. Dev. 2001;13:623–634.
Cencic A., Guillomot M., Koren S., La Bonnardière C. Trophoblastic interferons: Do they modulate uterine
cellular markers at the time of conceptus attachment in the pig? Placenta. 2003;24:862–869.
Concannon P., Tsutsui T., Shille V. Embryo development, hormonal requirements and maternal responses
during canine pregnancy. J. Reprod. Fert. Suppl. 2001;57:169–179.
Corpa J.M. Ectopic pregnancy in animals and humans. Reproduction. 2006;131:631–640.
Dantzer V. Scanning electron microscopy of exposed surfaces of the porcine placenta. Acta Anat.
1984;118:96–106.
Dantzer V. Electron microscopy of the initial stages of placentation in the pig. Anat. Embryol. 1985;172:281–
293.
Dantzer V., Leiser R. Initial vascularisation in the pig placenta: I. Demonstration of nonglandular areas by
histology and corrosion casts. Anat. Rec. 1994;238:177–190.
Dantzer V., Winther H. Histological and immunohistochemical events during placentation in the pig.
Reproduction Suppl. 2001;58:209–222.
Denker H.-W. Structural dynamics and function of early embryonic coats. Cells Tissues Organs.
2000;166:180–207.
Denker H.-W., Eng L.A., Hammer C.E. Studies on the early development and implantation in the cat. II.
Implantation: Proteinases. Anat. Embryol. 1978;154:39–54.
Lee K.Y., DeMayo F.J. Animal models of implantation. Reproduction. 2004;128:679–695.
Leiser R., Dantzer V. Structural and functional aspects of porcine placental microvasculature. Anat. Embryol.
1988;177:409–419.
Leiser R., Dantzer V. Initial vascularisation in the pig placenta: II. Demonstration of gland and areola-gland
subunits by histology and corrosion casts. Anat. Rec. 1994;238:326–334.
Leiser R., Krebs C., Ebert B., Dantzer V. Placental vascular corrosion cast studies: a comparison between
184
ruminants and humans. Microsc. Res. Tech. 1997;38:76–87.
Rüsse I., Sinowatz F. Lehrbuch der Embryologie der haustiere, 2nd edn. Berlin: Parey Buchverlag; 1998.
Spencer T.E., Johnson G.A., Bazer F.W., Burghardt R.C. Implantation mechanisms: insights from the sheep.
Reproduction. 2004;128:657–668.
Swanson W.F., Roth T.I., Wildt D.E. In vivo embryogenesis, embryo migration, and embryonic mortality in
the domestic cat. Biol. Reprod. 1994;51:452–464.
185
Capítulo 10
Desenvolvimento do sistema nervoso central e periférico
Fred Sinowatz
O sistema nervoso central (SNC) desenvolve-se do ectoderma assim que este se
diferencia em ectoderma superficial e neuroectoderma. Algumas das
características mais precoces do desenvolvimento do sistema nervoso já foram
abordadas em relação à neurulação (Cap. 8) e serão brevemente recapituladas aqui,
mais especificamente na discussão do desenvolvimento do SNC. O sistema nervoso
periférico (SNP) se desenvolve em associação do SNC como o sistema de
comunicação entre o SNC e o restante do corpo.
Placa neural
O desenvolvimento da placa neural, um espessamento do ectoderma que representa
o primórdio do sistema nervoso, é induzido pela notocorda (Cap. 8), um grande
centro axial de sinalização do tronco do embrião inicial. Subsequentemente, a placa
neural se dobra e forma o tubo neural. Alguns dos mecanismos moleculares que
norteiam este processo foram recentemente esclarecidos em camundongos. A
notocorda, a qual está próxima da placa neural da linha média durante este estágio,
libera a sonic hedgehog (Shh). Grande parte do ectoderma superficial de um embrião
durante a gastrulação produz a Proteína Morfogenética Óssea 4 (BMP4). Esta
proteína de sinalização previne o ectoderma dorsal de formar o tecido neural. Sob a
influência do Fator Nuclear Hepático 3beta (HNF-3beta), as células da notocorda em
desenvolvimento secretam noguina e cordina. Estas duas moléculas são potentes
indutores neurais que bloqueiam a influência inibitória de BMP4 e então possibilitam
que o ectoderma dorsal à notocorda forme tecido neural.
Tubo neural
O tubo neural é uma estrutura proeminente que domina a porção anterior
(futuramente cefálica) do embrião. No texto que se segue iremos observar como o
tubo neural precoce se desenvolve nos principais componentes morfológicos e
funcionais do sistema nervoso maduro (Fig. 10-1). Antes da neurogênese, a placa
186
neural e o tubo neural são compostos por uma única camada de células
neuroepiteliais (neuroepitélio). As células neuroepiteliais são altamente
polarizadas ao longo do seu eixo apical-basal. Isto se reflete, por exemplo, na
organização de suas membranas plasmáticas: certas proteínas transmembrana como
a prominina-1 (CD133) são encontradas seletivamente na membrana plasmática
apical.
Fig. 10-1 Formação do tubo neural e cristas neurais. As áreas demarcadas com quadros em
A–C estão aumentadas à direita (modificado de Rüsse e Sinowatz, 1998). A: 1: Notocorda; 2:
Ectoderma superficial; B: 1: Notocorda; 2: Ectoderma superficial; 3: Sulco neural; 4: Placa
187
neural. C: 1: Notocorda; 2: Epitélio do sulco neural; numerosas mitoses ocorrem no epitélio
neural; 3: Sulco neural; 4: Crista neural; D: 1: Notocorda; 2: Ectoderma superficial; 3: Tubo
neural; 4: Cristas neurais, as quais neste estágio ainda são uma folha contínua de células. E: 1:
Notocorda; 2: Ectoderma superficial; 3: Tubo neural; 4: Cristas neurais, as quais são
segmentadas em grupos de células que dão origem a diversos tipos celulares. E: Células
ependimárias; ZV: zona ventricular; ZM: zona marginal.
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
Pouco após a indução, o epitélio da placa neural e do tubo neural inicial se
organiza em um epitélio pseudoestratificado no qual os núcleos parecem estar
localizados em várias camadas separadas por que eles se encontram em diferentes
alturas no interior das células neuroepiteliais alongadas. Os núcleos se deslocam
extensivamente no citoplasma conforme o ciclo celular progride (Fig. 10-2). A síntese
de DNA (a fase S) ocorre nos núcleos localizados próximos à membrana limitante
externa (a lâmina basal ao redor do tubo neural). Conforme estes núcleos se
preparam para entrar em mitose eles migram através do citoplasma em direção ao
lúmen do tubo neural, onde a mitose é completada. A orientação do fuso mitótico
durante esta divisão é importante para o destino das células filhas. Se o plano de
clivagem é perpendicular à superfície apical (interna) do tubo neural, as duas células
filhas migram lentamente em direção à periferia do tubo neural, onde elas se
preparam para uma nova rodada de síntese de DNA. Se, por sua vez, o plano de
clivagem corre paralelamente à superfície interna do tubo neural, as duas células
filhas têm destinos completamente diferentes. A célula filha mais próxima da
superfície interna migra para longe muito vagarosamente e permanece como uma
célula progenitora que ainda é capaz de fazer mitose. A célula filha que ficar mais
próxima da superfície basal (membrana limitante externa) herda uma alta
concentração do receptor Notch em sua superfície e pode agora ser chamada de
neuroblasto. Os neuroblastos são células precursoras dos neurônios e começam a
produzir processos celulares que finalmente se tornam os axônios e dendritos.
188
Fig. 10-2 Migração nuclear intercinética no interior do tubo neural. Dentro do epitélio
pseudoestratificado do tubo neural, os núcleos que sintetizam DNA (fase S) estão localizados
próximos da membrana limitante externa (MLE), mas depois se movem em direção à margem
interna do tubo neural, onde ocorre a mitose.
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
A migração nuclear intercinética no neuroepitélio é acompanhada por uma
mudança na morfologia nuclear: o núcleo adota uma forma alongadaatravés do eixo
apical-basal quando a migração se inicia e se torna arredondado quando a migração
para. Isto é consistente com a ideia de que o núcleo seja puxado por alguma
maquinária citoesquelética. Os trabalhos iniciais sobre a migração nuclear
intercinética indicavam o envolvimento de microtúbulos, uma ideia que é
corroborada pela observação de que o posicionamento nuclear é um processo
dependente de microtúbulos em muitos tipos celulares. Estudos recentes do gene
lisencefalia 1 (LIS1) também apoiam esta ideia. Mutações no gene LIS1 humano são
responsáveis pela lisencefalia tipo 1 (cérebro liso), uma grave malformação do
cérebro com causa genética. A proteína LIS1 forma um complexo com a dineína e
dinactina citoplasmáticas o qual se liga aos microtúbulos e perturba a dinâmica dos
mesmos. Camundongos com expressão reduzida de LIS1 apresentam defeitos na
migração nuclear intercinética das células neuroepiteliais e migração neuronal
anormal.
Adicionalmente aos microtúbulos, os filamentos de actina e miosina estão
também provavelmente envolvidos com a migração nuclear intercinética das células
neuroepiteliais. A citocalasina B, uma droga que inibe a polimerização de actina,
bloqueia o processo, e a ablação da cadeia pesada II-B da miosina não muscular
resulta em migração nuclear desordenada nas células.
Linhagens celulares do sistema nervoso central
189
Durante o desenvolvimento, as células-tronco neurais dão origem a todos os
neurônios do SNC de mamíferos (Figs. 10-3, 10-4, 10-5) e também a dois tipos de
células macrogliais, os astrócitos e os oligodendrócitos. Geralmente, dois critérios
são aplicados para definir uma célula como uma célula-tronco: autorrenovação e
pluripotência (ou pelo menos multipotência). A autorrenovação indica que uma
célula é capaz de se dividir por número ilimitado de vezes, cada qual resultando ou
em duas células-tronco ou em uma célula-tronco e uma célula comprometida. A
pluripotência ou multipotência implica que a célula pode dar origem a numerosos
tipos de células diferenciadas – todos os tipos celulares do organismo de mamíferos
no caso de pluripotência (Cap. 2). No entanto, este conceito deve ser de certa
maneira modificado quando aplicado ao SNC: “células-tronco” neste contexto são
células neurais que são autorrenovadoras, mas não necessariamente por um número
ilimitado de divisões celulares e elas podem ser multipotentes ou unipotentes.
Fig. 10-3 Linhagens celulares no sistema nervoso central em desenvolvimento.
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
190
Fig. 10-4 Origens de neurônios e vários tipos de células gliais. Neurônios, oligodendrócitos,
astrócitos fibrilares e protoplasmáticos, e células ependimárias se originam de células
neuroepiteliais. A micróglia (glia Hortega) se desenvolve de células mesenquimais.
Fig. 10-5 A: Durante este desenvolvimento inicial, o epitélio do tubo neural consiste na zona
ventricular (ZV), onde células neurais epiteliais sofrem mitoses, e na zona marginal (ZM), a
qual contém processos alongados das células. B: Secção pelo tubo neural em estágio um pouco
mais avançado que em A. As células neuroepiteliais, que já deixaram o ciclo mitótico, migram
para longe do lúmen do tubo neural e formam uma camada celular intermediária (ZI: zona
intermediária).
As células neuroepiteliais que podem ser consideradas as células-tronco do SNC
passam primeiro por divisões proliferativas simétricas, cada qual gerando duas
células-tronco filhas. Estas divisões são seguidas por numerosas divisões assimétricas
autorrenovadoras, cada qual resultando em uma célula-tronco filha e uma célula mais
diferenciada tal qual uma célula progenitora. As células progenitoras neurais são
tipicamente submetidas a divisões simétricas diferenciadoras que geram duas células
pós-mitóticas prontas para a diferenciação terminal.
As origens da maioria das células encontradas no SNC maduro podem ser
rastreadas até as células-tronco multipotentes no interior do neuroepitélio precoce.
Estas células sofrem muitas divisões mitóticas antes de amadurecerem em células
progenitoras bipotentes, as quais dão origem ou a células progenitoras
neuronais ou gliais. Esta bifurcação do desenvolvimento é acompanhada por uma
alteração significativa na expressão gênica. Por exemplo, células-tronco
191
multipotentes expressam uma proteína do filamento intermediário chamada nestina.
A expressão de nestina é regulada negativamente conforme descendentes das células
progenitoras bipotentes se separam em células progenitoras neuronais, as quais
expressam neurofilamentos e células progenitoras gliais, que expressam a proteína
glial fibrilar ácida.
As células progenitoras neuronais originam uma série de neuroblastos. Os
mais precoces neuroblastos bipolares possuem dois processos citoplasmáticos
delgados que entram em contato tanto com a membrana limitante externa quanto
com o bordo luminal central do tubo neural. Ao retrair o processo interno, um
neuroblasto bipolar perde o contato com a borda luminal interna e se torna um
neuroblasto unipolar. Os neuroblastos unipolares acumulam uma grande
quantidade de retículo endoplasmático rugoso (substância de Nissl) em seu
citoplasma e então começam a emitir vários processos citoplasmáticos. Neste ponto,
eles são conhecidos como neuroblastos multipolares, e suas atividades principais de
desenvolvimento são enviar processos axonais e dendríticos e fazer conexões com
outros neurônios e órgãos finais.
Outra importante linhagem que se origina das células progenitoras bipotentes é
a das células progenitoras gliais. As células progenitoras gliais continuam a passar
por mitoses e sua progênie se separa em várias linhagens. Uma delas, a célula
progenitora O-2A, é precursora de duas importantes linhagens de células gliais que
por fim formam os oligodendrócitos e os astrócitos tipo 2, estes últimos são
distinguidos pelo seu fenótipo antigênico dos astrócitos tipo 1, derivados de outra
linhagem glial. Anatomicamente, os astrócitos podem ser divididos em astrócitos
protoplasmáticos, encontrados na substância cinzenta, e astrócitos fibrosos
encontrados na substância branca. A origem dos oligodendrócitos foi por muito
tempo assunto de debates, mas estudos demonstraram que eles provavelmente
provêm de células progenitoras localizadas na zona ventricular ventral ao lado da
placa do assoalho. Desta região, eles se disseminam por todo o cérebro e medula
espinhal, formando então as proteções de mielina ao redor de axônios na substância
branca do SNC. A formação de precursores de oligodendrócitos depende de sonic
hedgehog (Shh), produzida pelas células na notocorda, como um sinal indutor.
Uma terceira linhagem glial possui uma história mais complexa. As células
progenitoras radiais dão origem às células da glia radial, as quais atuam como
fio-guia no cérebro para a migração de neurônios jovens. Quando os neurônios estão
migrando ao longo das células da glia radial do feto, no período intermediário da
gestação, eles inibem a proliferação das células da glia radial. Após a migração de
células neuronais, as células da glia radial, agora livres da influência inibitória dos
neurônios, reentram no ciclo mitótico e produzem uma progênie que pode se
192
transformar em um número de tipos celulares: algumas podem aparentemente cruzar
por séries de linhagens e se diferenciar em astrócitos tipo 1. Outras se diferenciam
em vários tipos de células gliais especializadas. Enquanto algumas podem até se
tornar células ependimárias e neurônios.
Outro tipo de célula glial do SNC não se origina do neuroepitélio. Estas células
microgliais, as quais atuam como macrófagos com motilidade em seguida a lesões
no SNC, são células derivadas do mesoderma que entram no SNC em conjunto ao
sistema vascular e não são encontradas, portanto, no SNC em desenvolvimento até
que este seja infiltrado por vasos sanguíneos.
Se as células-tronco neurais e suas células progenitoras proliferam (por divisões
simétricas) ou se diferenciam (pela divisão assimétrica) está proximamente
relacionado às suascaracterísticas epiteliais, especialmente sua polaridade apical-
basal e duração do ciclo celular. Geralmente, o período de produção de neurônios
precede aquele de gliogênese. O momento no qual o precursor de um neurônio passa
por sua última divisão é caracterizado seu “aniversário”. As células neurogênicas na
parte ventral da medula espinhal e do rombencéfalo são normalmente as primeiras a
pararem de se dividir, seguidas pelos neurônios dorsais e intermediários. Os
neurônios corticais no cérebro e cerebelo são as últimas populações a serem
formadas. Eles continuam a proliferar até o terceiro ou quarto mês pós-parto no cão
e o terceiro ano de vida em humanos. Em espécies precoces, incluindo gado e
cavalos, a maioria dos neurônios corticais já está formada no momento do
nascimento.
Diferenciação histológica do sistema nervoso central
Células nervosas
Os neuroblastos surgem por divisão das células neuroepiteliais e, uma vez
formados, perdem a capacidade de se dividirem (Fig. 10-4). Inicialmente, os
neuroblastos desenvolvem dois processos e se estendem do lúmen do tubo neural até
a membrana limitante externa. Quando eles começam a migrar para a camada
intermediária, o processo central é retraído e os neuroblastos parecem
temporariamente unipolares. Durante a diferenciação, mais adiante, vários processos
citoplasmáticos pequenos se estendem do seu corpo celular. Um destes processos se
prolonga rapidamente, formando o axônio primitivo, enquanto a arborização dos
outros dá origem aos dendritos primitivos. Estas células podem ser chamadas agora
de neuroblastos multipolares, os quais por fim se tornam neurônios multipolares
maduros. Os axônios de neurônios na placa basal, os quais deixam a zona marginal
no aspecto lateroventral da medula, formam a raiz ventral eferente da medula
193
espinhal. Os axônios de neurônios na placa alar penetram através da zona marginal
da medula, de onde eles ascendem para níveis mais altos ou mais baixos para
formarem os neurônios de associação.
Células gliais
A outra importante linhagem que se origina das células progenitoras bipolares é a
das células progenitoras gliais (glioblastos), que são formadas por células
neuroepiteliais após a produção de neuroblastos ser encerrada, e sua progênie se
divide em vários tipos celulares. Um deles, a célula progenitora O-2A é a
precursora de dois tipos de células gliais que por fim se diferenciam em astrócitos
tipo 2 e oligodendrócitos. Foi demonstrado recentemente que os oligodendrócitos
são derivados de células progenitoras localizadas na zona ventricular ventral. Deste
local eles migram por toda a medula espinhal e cérebro, formando a bainha de
mielina ao redor de processos neuronais. A formação de oligodendrócitos depende da
molécula de sinalização sonic hedgehog (Shh) produzida por células da notocorda. Em
contraste às células de Schwann do sistema nervoso periférico, as quais só podem
envolver apenas um axônio, os processos achatados de uma única célula
oligodendroglial no sistema nervoso central podem mielinizar várias fibras nervosas.
As bainhas de mielina começam a se formar na medula espinhal durante o período
fetal tardio. Em geral, os tratos das fibras são mielinizados por volta do período que
eles se tornam funcionais (Tabela 10-1).
Tabela 10-1 Início da formação das bainhas mielínicas no sistema nervoso central e periférico
Espécie Tecido Estágio da gestação
Felino N. vestibular Dia 53 p.c.
N. coclear Dia 57 p.c.
N. óptico Dia 1-2 p.n.
Suíno Medula espinhal Semana 8 p.c. (cervical)
Semana 9 p.c. (lombar)
Ovino N. oculomotor Dia 63 p.c.
N. troclear
N. vestibular
N. hipoglosso
N. trigêmeo (sens.) Dia 66 p.c.
N. glossofaríngeo
N. vago
N. acessório
194
N. óptico Dia 78 p.c.
N. trigêmeo (mot.) Dia 60 p.c.
N. facial Dia 78 p.c.
N. troclear
N. abducente
N. vestibular Dia 80 p.c.
Medula espinhal Dia 60 p.c.
Medula oblonga
Mesencéfalo
Cerebelo Dia 80 p.c.
Telencéfalo Dia 100 p.c.
Bovino Medula oblonga Semana 21 p.c.
Medula espinhal Semana 16 p.c.
N. abducente Semana 20 p.c.
N. intermediofacial (mot.)
N. coclear
N. glossofaríngeo
N. vago
N. hipoglosso
N. trigêmeo Semana 21 p.c.
N. vestibulococlear Semana 16 p.c.
N. acessório
N. óptico Semana 24 p.c.
p.n. = pós-natal; p.c. = pós-coito.
Nem todas as células gliais da medula espinhal se originam do neuroepitélio. As
células microgliais, que surgem na segunda metade do desenvolvimento fetal, são
células altamente fagocíticas derivadas da mesoderme.
Quando as células neuroepiteliais param de produzir neuroblastos, elas se
diferenciam em células epiteliais ependimárias revestindo o canal central da
medula espinhal. Com a geração de neurônios, o neuroepitélio é transformado em um
epitélio com diversas camadas celulares. Com a mudança para neurogênese, as
células neuroepiteliais regulam negativamente certas características epiteliais (em
especial sua expressão de proteínas tight junctions) simultaneamente ao aparecimento
de marcos astrogliais. Em essência, após o estabelecimento da neurogênese, as
células neuroepiteliais dão origem a um tipo celular distinto, mas relacionado: as
células da glia radial, que podem exibir propriedades residuais neuroepiteliais
assim como astrogliais.
As células da glia radial representam progenitores com destino mais restrito do
195
que as células neuroepiteliais e gradualmente as substituem. Como consequência,
muitos dos neurônios no sistema nervoso central são derivados das células da glia
radial. As propriedades neuroepiteliais que são mantidas pelas células da glia radial
incluem a expressão de marcadores neuroepiteliais (tais como a proteína de
filamento intermediário nestina) e a manutenção de uma superfície apical e
características importantes de polaridade apical-basal (tal como uma localização
apical de centrossomos e prominina-1). Assim como as células neuroepiteliais, as
células da glia radial apresentam migração nuclear intercinética, com seus núcleos
em processo de mitose na superfície apical da zona ventricular e migrando
basalmente para completar a fase S do ciclo celular. No entanto, em contraste às
células neuroepiteliais, as células da glia radial demonstram diversas propriedades da
astroglia, tal como a expressão do transportador de glutamato específico de astrócitos
(GLAST), proteína ligante de Ca2+ S100β e proteína glial fibrilar ácida.
Ao contrário das células neuroepiteliais precoces, a maioria das células da glia
radial possui um potencial de desenvolvimento limitado. Normalmente, elas geram
apenas um tipo celular, ou astrócitos ou oligodendrócitos, ou mais comumente
neurônios.
Desenvolvimento da medula espinhal
Com o início da diferenciação celular no tubo neural, o neuroepitélio se espessa e
parece possuir camadas (Fig. 10-6). A camada mais próxima do lúmen do tubo neural
é chamada de ventricular ou camada neuroepitelial. Ela permanece epitelial e
exibe atividade mitótica. No entanto, conforme avança o desenvolvimento, a
população de células proliferantes na camada neuroepitelial torna-se exausta e as
células restantes diferenciam-se para formar o epêndima do canal central e o
sistema ventricular do cérebro.
196
Fig. 10-6 Quatro estágios sucessivos no desenvolvimento da medula espinhal. A e B: 1:
Neuroepitélio; 2: Canal central; 3: Notocorda; 4: Ectoderma superficial; 5: Placa basal; 6: Placa
do teto; 7: Placa do assoalho; 8: Zona marginal; 9: Gânglio espinhal; 10: Corno dorsal
(sensorial); 11: Nervo espinhal. C: 1: Neuroepitélio; 2: Canal central; 3: Notocorda; 4:
Ectoderma superficial; 5: Placa basal; 6: Placa alar; 7 e 8: Corno intermediário; 9: Zona
marginal; 10: Placa do teto; 11: Placa do assoalho; 12: Gânglio espinhal; 13: Raiz dorsal; 14:
Nervo espinhal; D: 1: Epêndima; 2: Canal central; 3: Corno dorsal (sensorial); 4: Corno
intermediário; 5: Corno ventral (motor); 6: Raiz dorsal (sensorial); 7: Nervo espinhal; 7’: Raiz
ventral (motora); 8: Septo dorsal; 9: Fissura mediana; 10: Substância branca; 11: Gânglio
espinhal.
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
197A zona ventricular é rodeada pela camada intermediária ou do manto (Figs.
10-1, 10-5) a qual contém os corpos celulares dos neuroblastos pós-mitóticos e
prováveis células gliais. Durante o amadurecimento da medula espinhal, a camada
intermediária se torna a substância cinzenta, onde os corpos celulares dos
neurônios estão localizados (Fig. 10-7).
Fig. 10-7 Embrião porcino, Dia 16, secção transversa. 1: Primórdio da medula espinhal; 2:
Notocorda; 3: Aorta dorsal; 4: Miótomo; 5: Dermátomo.
Como os neuroblastos continuam a desenvolver axônios e dendritos, uma
camada marginal (zona marginal) periférica é formada. Ela contém processos
neurais, porém não corpos celulares e mais tarde forma a substância branca da
medula espinhal.
A adição contínua de neuroblastos à camada intermediária espessa o tubo neural
ventral e dorsalmente em cada um dos lados (Figs. 10-6, 10-8). Os espessamentos
ventrais são denominados placas basais. Eles contêm neurônios motores (fibras
nervosas eferentes somáticas gerais) e neurônios autonômicos (fibras nervosas
eferentes viscerais; Tabela 10-2). Os espessamentos dorsais, as placas alares,
formam a área sensorial com neurônios recebendo estímulos da pele, articulações e
músculos (fibras nervosas aferentes somáticas gerais), da faringe (fibras nervosas
aferentes viscerais especiais), e das vísceras e coração (fibras nervosas aferentes
198
viscerais gerais). Um pequeno sulco longitudinal, o sulco limitante, marca o limite
entre estas duas áreas (Fig. 10-6). As placas alares direita e esquerda estão
conectadas dorsalmente sobre o canal central pela delgada placa do teto, as duas
placas basais estão conectadas pela placa do assoalho, ventral ao canal central. As
placas do teto e do assoalho não contêm neuroblastos, sendo que suas fibras nervosas
servem primariamente para interligar um lado ao outro.
Fig. 10-8 Embrião felino, 17 mm CCN. 1: Placa do teto; 2: Canal central; 3: Zona
ependimária; 4: Zona marginal; 5: Placa do assoalho; 6: Gânglio espinhal; 7: Placa basal; 8:
Placa alar.
Tabela 10-2 Origem das estruturas no sistema nervoso central
199
A medula espinhal madura é organizada de forma semelhante ao padrão
embrionário, exceto que as placas basais e alares se tornam subdivididas em
componentes somáticos e viscerais. A transformação da medula espinhal embrionária
para a madura (Fig. 10-9) resulta da proliferação, movimento celular assimétrico de
neurônios imaturos na camada intermediária e o desenvolvimento de processos
neuronais. Neste decurso, a camada intermediária adquire uma forma de borboleta,
com cornos cinza proeminentes dorsal e ventralmente, ao redor do canal central.
Adicionalmente aos cornos eferentes ventrais e aos aferentes dorsais, uma pequena
projeção lateral de substância cinzenta pode ser observada entre as colunas dorsal e
ventral na região espinhal da torácica 1 (T1) até a lombar 2 (L2). Este é o corno
lateral, que contém corpos celulares de neurônios autonômicos simpáticos (eferentes
viscerais).
200
Fig. 10-9 Cão adulto, secção transversal através da medula espinhal. 1: Corno dorsal
(sensorial); 2: Corno ventral (motor); 3: Funículo dorsal; 4: Funículo ventral; 5: Canal central;
6: Dura-máter; 7: Funículo lateral.
A camada marginal evolui para a substância branca da medula espinhal,
denominada desta forma em razão de seu aspecto esbranquiçado que resulta da
predominância de axônios mielinizados. Esta camada externa contém tratos de
axônios ascendentes e descendentes que são agrupados em feixes (funículos). Os
funículos dorsais, laterais e ventrais estão separados pelas raízes nervosas espinhais
eferentes que emergem da medula e raízes aferentes que penetram na medula (Fig.
10-9).
Gânglios da raiz dorsal e nervos espinhais
Assim como o descrito mais amplamente no Capítulo 8, as células da crista neural
migram dos bordos das pregas neurais e dão origem a gânglios espinhais (gânglios
da raiz dorsal) ou sensoriais dos nervos espinhais, assim como muitos outros tipos
celulares, incluindo outros tipos de células dos gânglios (gânglios sensoriais,
gânglios eferentes viscerais gerais do sistema simpático e parassimpático), células de
Schwann, melanócitos, odontoblastos e mesênquima dos arcos faríngeos. Os
neuroblastos dos gânglios espinhais desenvolvem dois processos, os quais
prontamente se unem em formato de T (neurônios pseudounipolares). Ambos os
201
processos das células de gânglios espinhais possuem características estruturais de
axônios, mas os processos periféricos podem ser funcionalmente classificados como
um dendrito na maneira em que a condução no seu interior ocorre em direção ao
corpo celular. Os processos que se estendem centralmente entram na porção dorsal
do tubo neural e constituem a raiz dorsal aferente da medula espinhal. Na medula
espinhal, eles formam sinapses com interneurônios dos cornos dorsais aferentes ou
ascendem pelas camadas marginais para um dos centros cerebrais altos. Os processos
que crescem perifericamente se unem às fibras da raiz ventral para formar o tronco
do nervo espinhal, pelo qual eles terminam em receptores sensoriais. O tronco
comum do nervo espinhal quase imediatamente se divide em um ramo dorsal e um
ventral. Os ramos dorsais dos nervos espinhais inervam a musculatura axial dorsal,
articulações vertebrais e a pele do dorso. Os ramos primários ventrais inervam os
membros e a parede ventral do corpo, e formam os dois principais plexos nervosos,
os plexos braquial e o lombossacral.
Alterações posicionais da medula espinhal: ascensão da medula espinhal
Inicialmente, a medula espinhal percorre toda a extensão do embrião com os nervos
espinhais passando pelos forames intervertebrais nos níveis de sua origem. Mais
adiante, no entanto, a coluna vertebral e a dura crescem mais rapidamente do que a
medula espinhal, deixando a extremidade posterior da medula com o término
gradualmente em um nível mais alto na coluna vertebral (Fig. 10-10). Este fenômeno
é chamado de ascensão da medula espinhal. O crescimento desproporcional
também força os nervos espinhais a percorrerem obliquamente da medula espinhal
para os seus forames vertebrais correspondentes.
202
Fig. 10-10 Porção terminal da medula espinhal bovina em relação ao final da coluna
vertebral em dois estágios (A: 3 meses de gestação, B: adulto) do desenvolvimento. 1:
Segmentos da coluna espinhal, de cranial até caudal; 1-6: Parte lombar; I-VI: Parte sacral; 1-3:
Parte coccígea; 2: Nervo espinhal; a: coluna vertebral; b: sacro; c: vértebras coccígeas; d: cauda
eqüina.
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
Em animais adultos a medula espinhal termina ao nível L2 até L3, dependendo
da espécie. O saco dural circundante e o espaço subaracnoide se estendem mais
posteriormente, geralmente até a sacral 2 (S2). Da extremidade posterior da medula
espinhal, uma extensão glial e ependimária em forma de linha corre posteriormente,
o fio terminal, o qual se liga ao periósteo das primeiras vértebras coccígeas. Os
feixes de fibras nervosas que percorrem posteriormente no interior na coluna
vertebral formam a cauda equina. Para se coletar fluido cerebroespinhal durante
uma punção lombar, a agulha deve ser inserida nos níveis lombares inferiores, de
203
forma a se evitar atingir a porção mais baixa da medula espinhal.
Desenvolvimento do cérebro
Os dois terços anteriores do tubo neural desenvolvem o cérebro. A fusão das pregas
neurais na região anterior e o fechamento do neuroporo anterior resultam na
formação das três vesículas cerebrais primárias (Figs. 10-11, 10-12) das quais o
cérebro evolui. Uma expansão na extremidade mais rostral do tubo neural forma a
primeira vesícula cerebral, o prosencéfalo ou encéfalo anterior. As vesículas
ópticas crescem como evaginações de cada lado do prosencéfalo. As duas regiões
aumentadas do cérebro posteriores a esta se tornam o mesencéfalo e o
rombencéfalo (segunda e terceira vesículas primárias cerebrais). O prosencéfalo se
divide parcialmente em duas vesículas, o telencéfalo e o diencéfalo (Figs. 10-13,
10-14). Asparedes laterais do telencéfalo logo se tornam abobadadas, antecipando
os futuros hemisférios cerebrais. O diencéfalo permanece não dividido, localizado
na linha média e conectado às vesículas ópticas que se expandem lateralmente. O
rombencéfalo também se divide em porções rostral e posterior: o metencéfalo e o
mielencéfalo, respectivamente (Figs. 10-14, 10-15). O metencéfalo dará origem à
ponte e ao corpo trapezoide ventralmente, e ao cerebelo dorsalmente. O
mielencéfalo forma a medula oblonga, a qual é a parte mais posterior do tronco
encefálico e o conecta à medula espinhal (Figs. 10-14, 10-16).
204
Fig. 10-11 Embrião ovino com três vesículas cerebrais. 1: Prosencéfalo; 2: Mesencéfalo; 3:
Rombencéfalo; 4: Placode ótico; 5: Coração; 6: Mesonefro; 7: Parede do corpo.
205
Fig. 10-12 Embrião felino, 10 mm CCN, secção longitudinal, estágio de três vesículas
cerebrais. 1: Prosencéfalo; 2: Mesencéfalo; 3: Rombencéfalo com flexura pontina (seta); 4:
Flexura cefálica; 5: Flexura cervical; 6: Primórdio da neuro-hipófise; 7: Bolsa de Rathke,
primórdio da adeno-hipófise; 8: Cavidade oral primária; 9: Língua; 10: Coração; 11: Pulmão;
12: Mesonefro; 13: Intestino.
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
206
Fig. 10-13 Desenvolvimento do cérebro felino ao dia 18 (A), dia 22 (B) e dia 25 (C). A: 1:
Prosencéfalo; 2: Mesencéfalo; Rombencéfalo; 4: Medula espinhal; 5: Vesícula óptica. B: 1:
Telencéfalo; 2: Diencéfalo; 3: Mesencéfalo; 4: Rombencéfalo; 5: Infundíbulo; 6: Pedúnculo da
vesícula óptica. C: 1: Primórdio do corpo mamilar; 2: Infundíbulo; 3: Hipotálamo; 4: Quiasma
óptico; 5: Lâmina terminal; 6: Placa comissural; 7: Bulbo olfatório; 8: Hemisfério cerebral; 9:
Teto do 3° ventrículo; 10: Tálamo; 11: Primórdio da epífise; 12: Comissura caudal; 13:
Metatálamo; 14: Corpos quadrigêmeos; 15: Cerebelo; 16: Membrana tectória; 17: Flexura
cervical; 18: Cruz cerebral; 19: Ponte; 20: Medula oblonga.
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
Fig. 10-14 Embrião felino, 17 mm CCN, estágio do desenvolvimento cerebral em cinco
vesículas, secção longitudinal, obtido de Rüsse e Sinowatz, 1998. 1: Telencéfalo; 2: Diencéfalo;
3: Mesencéfalo; 4: Metencéfalo; 5: Mielencéfalo; 6: Hipófise; 7: Língua; 8: Esôfago.
Cortesia de Sinowatz e Rüsse (2007).
207
Fig. 10-15 Embrião porcino, dia 21.5, secção longitudinal através do metencéfalo e do
mielencéfalo. 1: Placa do teto do 4° ventrículo; 2: Neurômeros do rombencéfalo; 3:
Mielencéfalo.
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
Fig. 10-16 Desenvolvimento do cérebro felino ao dia 33. 1: Bulbo olfatório; 2: Hemisfério
cerebral; 3: Epitálamo; 4: Primórdio dos corpos quadrigêmeos; 5: Colículos caudais; 6: Cerebelo;
7: Membrana tectória; 8: Flexura cervical; 9: Medula oblonga; 10: Ponte; 11: Cruz cerebral; 12:
N. óptico.
208
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
As flexuras cerebrais
O crescimento diferencial das cinco vesículas cerebrais secundárias (telencéfalo,
diencéfalo, mesencéfalo, metencéfalo e mielencéfalo) dá origem às flexuras (Fig. 10-
12). Conforme ocorre o dobramento da cabeça, o mesencéfalo se dobra ventralmente
para produzir a flexura mesencefálica (flexura cefálica). Uma segunda dobra
ventral mais gradual entre o encéfalo posterior e a medula espinhal é denominada
flexura cervical. No rombencéfalo, ocorre um pequeno dobramento dorsal, a
flexura pontina. A flexura pontina está localizada na futura região pontina e causa
um adelgaçamento do teto do encéfalo posterior.
A princípio, o cérebro em desenvolvimento apresenta a mesma estrutura básica
da medula espinhal, mas as flexuras produzem variações consideráveis no traçado de
secções transversais em diferentes níveis do cérebro e nas posições relativas da
substância branca e cinzenta. O sulco limitante se estende anteriormente apenas até
a junção do mesencéfalo e diencéfalo. Portanto, as placas alares e basais, que são
separadas pelo sulco limitante, são apenas reconhecíveis posteriormente a esta
junção. No diencéfalo e telencéfalo, porém, as placas alares se tornam acentuadas e a
placa basal regride.
Rombencéfalo (encéfalo posterior)
O rombencéfalo consiste no mielencéfalo, a vesícula cerebral mais posterior, e o
metencéfalo, o qual se estende da flexura pontina para o istmo rombencefálico.
Posteriormente, a flexura cervical demarca o mielencéfalo da medula espinhal em
desenvolvimento. Mais adiante, esta junção é definida como o nível das raízes do
primeiro nervo espinhal cervical, aproximadamente no forame magno.
Mielencéfalo
O mielencéfalo se assemelha à medula espinhal tanto em relação ao seu
desenvolvimento quanto estruturalmente e se desenvolve na medula oblonga – a
parte posterior do tronco encefálico. A medula oblonga funciona como um canal para
os tratos entre a medula espinhal e as regiões mais altas do cérebro e também
contém importantes centros para a regulação da respiração e batimentos cardíacos.
O arranjo fundamental das placas alares e basais, as quais são separadas pelo
sulco limitante como observado na medula espinhal, é mantido quase sem alteração,
mas as paredes laterais são invertidas. Isto ocasiona uma expansão pronunciada da
209
placa do teto, fechando o canal central dorsalmente, e um alargamento do canal do
quarto ventrículo. A placa do teto do mielencéfalo é reduzida a uma camada única
de células ependimárias que está coberta por células mesenquimais formando a pia-
máter. A proliferação ativa do mesênquima vascular produz numerosas invaginações
em fundo de saco para o quarto ventrículo subjacente. Elas formam o plexo coroide,
que produz o fluido cerebroespinhal.
Como resultado, em vez de estarem arranjadas dorsoventralmente, as placas
alares e basais passam a ficar dispostas no assoalho do encéfalo posterior como as
páginas de um livro aberto, de modo que as áreas eferentes das placas basais tornam-
se dispostas medialmente às áreas aferentes das placas alares. A cavidade desta parte
do mielencéfalo (parte posterior do futuro quarto ventrículo) adquire um formato
romboide.
As placas basais, assim como na medula espinhal, contêm os núcleos (agregados
de corpos celulares de neurônios) de nervos eferentes. De cada lado, estes núcleos
estão arranjados em três grupos (Tabela 10-3). O primeiro é o grupo eferente
somático geral medial, representado pelos neurônios dos nervos hipoglosso (XII) e
acessório (XI), uma continuação cefálica do corno ventral da medula espinhal. Este
grupo eferente somático geral se expande rostralmente para o mesencéfalo e é
também denominado coluna motora eferente somática geral. O segundo grupo é o
grupo eferente visceral especial intermediário, representado por neurônios que
inervam músculos derivados dos arcos (branquiais) faríngeos (os nervos
glossofaríngeo (IX), vago (X) e acessório (XI) que inervam a musculatura do terceiro
e quarto arcos faríngeos). O terceiro, o grupo eferente visceral geral, é
representado pelos neurônios do nervo vago (X) e glossofaríngeo (IX). Os axônios
dos neurônios do vago suprem as vísceras torácicas e abdominais e o coração,
enquanto os axônios dos neurônios do glossofaríngeo suprem a glândula parótida.
Tabela 10-3 Regiões funcionais do cérebro e medula espinhal
Placa alar (aferente ou sensorial) Aferente somático
geral
Estímulo da pele, articulações e músculos
Aferente visceral
especial
Estímulo de papilas gustativas e faringe
Aferente visceral
geral
Estímulo das vísceras e coração
Placa basal (eferente motor ou
autonômico)
Eferente visceral
geral
Ligação autonômica entre o corno intermediário e as vísceras
Eferente visceral
especial
Nervos motores para músculos estriados dos arcos branquiais
Eferente somático Nervos motores para os outros músculos estriados que não os dos nervos
210
geral do arco branquial
Os neuroblastos das placas alares no mielencéfalo migram para a zona marginal
e formam áreas isoladas de substância cinzenta, os núcleos gráceis medialmente e os
núcleos cuneiformes lateralmente. Estes núcleos estão associados aos tratos
ascendentes correspondentes da medula espinhal no interiordo funículo dorsal.
Outro grupo de neuroblastos das placas alares migra ventralmente e forma os
núcleos olivares. Ainda, outros neuroblastos das placas alares agrupam-se em
núcleos que estão arranjados em quatro colunas de cada lado. Estas são, em ordem de
lateral até medial: (1) aferente somática especial, recebendo impulsos da orelha
interna; (2) aferente somática geral, que recebe estímulos da superfície da cabeça;
(3) aferente visceral especial, recebendo estímulos das papilas gustativas, e (4)
aferente visceral geral, a qual recebe impulsos das vísceras.
Metencéfalo
O metencéfalo representa a porção anterior do rombencéfalo (Figs. 10-17, 10-18). Ele
se desenvolve em duas partes principais: a ponte, uma estrutura transversa que
demarca a extremidade anterior da medula oblonga, e o cerebelo, uma estrutura de
desenvolvimento recente do ponto de vista filogenético, mas tardia
ontogeneticamente, que atua como centro de coordenação de postura e movimento.
Foi demonstrado em camundongos que o desenvolvimento destas estruturas depende
da expressão do gene engrailed-1 nesta área durante o início do desenvolvimento.
211
Fig. 10-17 Desenvolvimento pré-natal do cérebro e cerebelo bovino. A: dia 60; B: dia 65; C:
dia 80; D: dia 120; E: dia 180.
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
212
Fig. 10-18 Desenvolvimento do metencéfalo bovino do dia 65 até o dia 120 da gestação;
secções medianas. A: dia 65. 1: Ponte; 2: Medula oblonga; 3: Vermis; 4: Fissura pós-culminata;
5: Fissura uvulonodular; 6: Lobo floculonodular; 7: Plexo coroide do 4° ventrículo; 8: 4°
ventrículo. B: dia 80. 1: Ponte; 2: Medula oblonga; 3: Lobo rostral; 4: Fissura pós-culminata; 5:
Lobo caudal; 6: Fissura pós-piramidal; 7: Fissura floculonodular; 8: Lobo floculonodular; 9: 4°
ventrículo; 10: Véu medular rostral; 11: Véu medular caudal; 12: Plexo coroide. C: dia 120. 1:
Ponte; 2: Medula oblonga; 3: Gânglio trigêmeo; 3’: Núcleo sensitivo pontino dos n. trigêmeos;
3”: Núcleo do trato mesencefálico; 3’: Núcleo do trato espinhal dos n. trigêmeos; 4: Véu
medular rostral; 5: Véu medular caudal; 6: Fissura pós-culminata; 7: Fissura pós-piramidal; 8:
Pirâmide; 9: Úvula; 10: Fissura uvulonodular; 11: Lobo floculonodular.
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
213
O metencéfalo, tal qual o mielencéfalo, é caracterizado pelas placas basais e
alares, mas com destinos diferentes de desenvolvimento. Assim como nas partes
anteriores do mielencéfalo, a flexura pontina causa uma divergência das paredes
laterais e, portanto, as placas alares novamente se situam laterais às placas basais,
no lugar de estarem arranjadas dorsoventralmente.
Cada placa basal do metencéfalo contém três grupos de neurônios motores: (1) o
grupo eferente somático geral medial, que forma o núcleo do nervo abducente
(VI); (2) o grupo eferente visceral especial intermediário, que dá origem aos
núcleos dos nervos trigêmeo (V) e facial (VII), inervando a musculatura do primeiro e
segundo arco faríngeo; e (3) o grupo eferente visceral geral que origina o núcleo
do nervo facial (VII), suprindo as glândulas mandibulares e sublinguais. Alguns
neurônios da placa alar migram ventralmente para formar os núcleos pontinos. Os
axônios que partem dos neurônios no córtex cerebral terminam nos núcleos pontinos.
Ventralmente, os axônios destes neurônios pontinos formam uma faixa superficial de
fibras nervosas conhecidas como as fibras transversas da ponte.
O cerebelo, um derivado da placa alar, é formado no teto do metencéfalo e é
tanto estrutural quanto funcionalmente muito complexo (Fig. 10-17). Ele surgiu
filogeneticamente como uma especialização do sistema vestibular e adquiriu outras
funções importantes (como a orquestração da coordenação geral, e envolvimento nos
reflexos auditivos e visuais) durante sua evolução. Tanto a morfologia do cerebelo
quanto o arranjo espacial dos seus neurônios foram altamente conservados durante a
evolução. As falhas do desenvolvimento do cerebelo causam anormalidades de
locomoção e postura (Cap. 19).
Os primórdios do cerebelo são os lábios rômbicos, regiões dorsolaterais das
placas alares do metencéfalo. Foi descrito em camundongos que os lábios rômbicos se
estendem entre os rombômeros 1–8, mas o próprio cerebelo é derivado apenas do
lábio rômbico anterior (r1). As porções mais posteriores dos lábios rômbicos (r2–r8)
dão origem às células precursoras migratórias que formam uma variedade de núcleos
localizados ventralmente, incluindo-se os núcleos olivares e pontinos.
Observados de cima, os lábios rômbicos parecem ser estruturas em formato de
“V”. Sendo assim, os lábios rômbicos estão próximos uns aos outros na região anterior
e mais afastados posteriormente, onde eles se unem ao mielencéfalo. Rostralmente,
as extensões mediais dos lábios rômbicos estão fusionadas por um istmo. Como
resultado de um maior aprofundamento da flexura pontina, os lábios rômbicos se
comprimem anteroposteriormente e formam a placa cerebelar.
Durante o período fetal precoce, o cerebelo em desenvolvimento se expande
dorsalmente, formando uma estrutura semelhante a um haltere com uma fissura
transversa dividindo-o em uma porção grande anterior e uma porção menor
214
posterior. A parte medial da região anterior dá origem ao vermis, e as áreas laterais
se desenvolvem nos hemisférios do cerebelo. A região anterior cresce
consideravelmente e mais tarde se torna o componente dominante do cerebelo
maduro. Este aumento é caracterizado por um dobramento marcante da superfície,
resultando em pregas próximas, transversas e paralelas – as folhas cerebelares. A
porção posterior evolui para os lobos floculonodulares pareados. Eles são
considerados como as estruturas filogeneticamente mais antigas do cerebelo e estão
associados ao desenvolvimento do aparato vestibular.
Inicialmente, a placa cerebelar consiste em camadas neuroepiteliais,
intermediárias e marginais. Durante o início do período fetal as células do
neuroepitélio migram pelas camadas intermediária e marginal para a superfície do
cerebelo, onde elas são arranjadas em uma segunda camada germinal, a camada
granular externa (Fig. 10-19). As células desta camada ainda são capazes de se
dividir mitoticamente e mais adiante dão origem a vários tipos celulares, entre os
quais células granulosas, células em cesto e células estreladas. As células
granulosas são com grande vantagem a maior população formada pela camada
granular externa.
Fig. 10-19 Diferenciação histológica do cerebelo (secção sagital). A e B: Os neuroblastos
migram do neuroepitélio (1) para a superfície do cerebelo e formam uma camada granular
externa (2). As células desta camada retêm sua capacidade de se dividirem e formam uma zona
proliferativa na superfície do cerebelo. C: Mais adiante no desenvolvimento, as células da
camada granular externa dão origem a vários tipos celulares que migram em direção ao
interior e passam pelas células de Purkinje em diferenciação (3). Elas dão origem às células
granulares do córtex cerebelar definitivo. As células em cesto e estreladas são produzidas pelas
células em proliferação na substância branca cerebelar. 4: Neurônios do núcleo dentado.
215
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
As células remanescentes na camada neuroepitelial se dividem e formam a
camada germinativa interna. Os neuroblastos que se originam da camada
germinativa interna migram para o hemisfério cerebelar onde eles se estabelecem em
três grupos pareados logo acima do epêndima do quarto ventrículo, como precursores
dos núcleos cerebelares (o núcleo dentado, núcleo interposto e núcleo fastigial),
que são responsáveis por retransmitir sinais do e para o córtex cerebelar.
As células da camada germinativa interna também migram em direção da
camada granular externa, onde elas se diferenciam em células de Purkinje. Os
corpos celulares das células de Purkinje se tornam alinhados em uma camada única
abaixo da camada granular externa. Cada um destes neurônios desenvolve uma
ampla arborização dendrítica superficial, em um plano único transversal ao eixo
longitudinaldo fólio. Em fetos bovinos, a camada de células de Purkinje já está
desenvolvida no dia 100 da gestação.
Após sua última divisão mitótica, as células granulares externas se tornam
neurônios bipolares imaturos, e seus axônios correm em paralelo ao eixo longitudinal
do fólio. Concomitantemente, os corpos celulares das células granulares externas
sofrem uma segunda migração orientada para o centro, em direção ao interior do
futuro cerebelo. No trajeto, estas células passam pela camada de precursores das
grandes células de Purkinje e estabelecem inúmeras sinapses com eles (Fig. 10-19).
Quando elas passam, as células de Purkinje formam uma espessa camada no córtex
cerebelar denominada camada granular, a qual é mais larga sobre o centro de cada
fólio e mais delgada ao redor dos sulcos entre eles. De cada célula granular, um único
axônio percorre superficialmente e se bifurca na região dos dendritos das células de
Purkinje. Estes axônios, chamados de fibras paralelas, atravessam as folhas
cerebelares perpendicularmente ao plano das árvores dendríticas das células de
Purkinje. Cada célula de Purkinje faz contato sináptico com centenas de milhares de
fibras paralelas. Os mecanismos exatos que controlam a migração celular no cerebelo
são amplamente desconhecidos, mas já foi estabelecido que um tipo especial de célula
da glia (células da glia radial) guia a migração radial das células de Purkinje. A
migração para o interior feita pelas células granulares externas esvazia a zona
exterior do córtex cerebelar, a qual passa a ser referida como camada molecular.
Desta maneira, na sua forma final o córtex cerebelar apresenta três camadas
claramente separadas: uma camada molecular externa, a camada de células de
Purkinje e uma camada granular interna (Fig. 10-20).
216
Fig. 10-20 Secção histológica do córtex cerebelar diferenciado de um cão adulto. 1: Camada
molecular; 2: Camada de células de Purkinje; 3: Camada granular.
O quanto o cerebelo se encontrará desenvolvido ao nascimento se correlaciona
com a idade na qual o animal se torna capaz de ficar em pé e se locomover. Em
carnívoros, grande parte da diferenciação do córtex cerebelar ocorre no período pós-
natal. Filhotes de gatos e cães não andam de forma coordenada até cerca de 3
semanas pós-parto. Na época do nascimento, há apenas alguma estratificação da
camada intermediária e na camada germinativa externa, onde as células ainda estão
se dividindo ativamente. As outras camadas são formadas durante as duas primeiras
semanas pós-natais, conforme se inicia a migração para o interior da camada
germinativa externa. O pico de desenvolvimento da camada germinativa externa
ocorre por volta de 7 dias e ela começa a se reduzir em tamanho por volta de 14 dias
pós-natais, assim que a camada granular definitiva se estabelece. A diferenciação da
camada de células de Purkinje em gatos e cães é completada no vermis ao final do
dia 30 pós-parto e no restante do cerebelo por volta de 10 semanas.
Em bezerros e potros (precoces e capazes de permanecerem em pé e andarem
cerca de uma hora após o nascimento) o cerebelo é muito mais diferenciado e
funcional ao nascimento. Em fetos bovinos a camada germinativa externa surge por
volta do dia 57 da gestação e alcança espessura máxima próximo ao dia 183. Embora
a camada germinativa externa ainda seja reconhecível no momento do nascimento
destas espécies, as três camadas definitivas do cerebelo maduro já estão aparentes. A
camada germinativa externa se torna gradualmente ausente de células durante os
primeiros meses pós-natais e por fim desaparece. Durante esse período, a capacidade
funcional do cerebelo amadurece, evidenciada pelo aparecimento dos reflexos
“aprendidos” (p. ex., reflexos posturais) e locomoção mais bem coordenada.
217
Mesencéfalo (encéfalo médio)
O mesencéfalo (encéfalo médio) permanece como uma estrutura relativamente
simples e as relações fundamentais entre as placas basais e alares são essencialmente
preservadas. A parte do mesencéfalo dorsal ao aqueduto se torna o teto e forma os
corpos quadrigêmeos, derivados das placas alares. Ventralmente ao aqueduto as
placas basais formam o tegmento, o qual contém os núcleos eferentes dos nervos
oculomotor (III; eferente somático geral e eferente visceral geral) e troclear (IV;
eferente somático geral). Seus axônios suprem a maioria dos músculos extrínsecos que
movem o globo ocular. Um núcleo eferente visceral especial relativamente pequeno,
o núcleo de Edinger-Westphal, inerva o músculo do esfíncter pupilar do olho pelo
nervo oculomotor (III). Ainda não está claro se os núcleos vermelhos e a
substância negra são derivados da placa basal ou por migração dos neurônios da
placa alar.
Os neurônios da camada intermediária tanto das placas alares como basais
contribuem para a formação reticular, um agregado de células nervosas
concentradas em núcleos ao redor do aqueduto que se estende do mielencéfalo para o
diencéfalo e está relacionado ao estado de consciência do animal.
A camada marginal, associada a cada placa basal, cresce consideravelmente e
forma a cruz cerebral. As cruzes (pedúnculos cerebrais) servem como vias para os
axônios descendo do córtex cerebral para centros mais baixos no metencéfalo e
medula espinhal. Estas fibras são corticonucleares e corticoespinhais (piramidais),
respectivamente.
Os neuroblastos das placas alares migram para o teto do mesencéfalo e formam
protuberâncias longitudinais proeminentes, separadas por uma depressão medial
rasa. Estas elevações são separadas por um sulco transversal que divide cada uma em
colículos rostrais e caudais. Os colículos caudais são relativamente simples em sua
estrutura e possuem funções auditivas. Os colículos rostrais apresentam uma
arquitetura de estratificação mais complexa e são parte integral do sistema visual.
Em vertebrados inferiores, os colículos rostrais atuam como centros de integração
primários dos estímulos visuais. Em mamíferos os neurônios dos colículos rostrais
enviam seus axônios para núcleos motores apropriados via os tratos tetoespinhais e
tetobulbares. Os colículos rostrais estão envolvidos em movimentos oculares
subconscientes. Em mamíferos superiores, a função dos colículos rostrais também
depende de estímulo vindo do córtex visual. Lesões corticais produzem cegueira total
aparente. Em pássaros, o lobo óptico, o equivalente dos colículos rostrais, provém
todas as funções visuais. As conexões entre os colículos rostrais e caudais coordenam
os reflexos visuais e auditivos.
218
Prosencéfalo (encéfalo anterior)
O prosencéfalo é a mais anterior das três vesículas cerebrais primitivas. A parte
anterior do prosencéfalo, o telencéfalo, forma os hemisférios cerebrais e os
bulbos olfatórios. A parte posterior do prosencéfalo, o diencéfalo, dá origem ao
epitálamo incluindo-se a glândula pineal, tálamo, metatálamo e hipotálamo,
assim como a neuro-hipófise e os cálices ópticos. A cavidade que se desenvolve no
interior do diencéfalo é o terceiro ventrículo. As cavidades no telencéfalo formam
os ventrículos laterais. Todas as estruturas prosencefálicas (telencéfalo e
diencéfalo) são consideradas derivadas das placas alares e do teto altamente
modificadas, sem representação significativa das placas basais. Isto é corroborado
pelo fato de o sulco limitante, o qual separa as placas alares e basais em vesículas
cerebrais mais posteriores, não se estender anteriormente além do mesencéfalo. O
interessante é que estudos moleculares em camundongos demonstraram que a sonic
hedgehog (Shh), marcadora da linha média ventral, é expressa em partes ventrais do
diencéfalo, denotando possível existência de uma placa basal, pelo menos nesta
espécie.
Diferenciação da região prosencefálica
Os distintos padrões de expressão gênica influenciam fortemente a organização
regional básica do prosencéfalo. Seis dos chamados prosômeros se estendem da
junção prosencefálica-mesencefálica para a ponta anterior do prosencéfalo. Os
prosômeros 1 até 3 (p1– p3, o mais posterior), tornam-se incorporados ao diencéfalo,
e p2 e p3 contribuemsignificativamente com o tálamo. P4 até p6 contribuem tanto
para estruturas diencefálicas quanto telencefálicas. A área basal de p4 até p6 se
desenvolve nas principais regiões que integram as funções nervosas autonômicas e
controlam a liberação de hormônios pela pituitária. As placas alares destes domínios
se desenvolvem em estruturas que incluem o córtex cerebral, gânglios da base e
vesículas ópticas.
Conforme o desenvolvimento avança, a combinação de p2 e p3 realiza uma
dobra acentuada posteriormente, para cima de p4 a p6. Em humanos foi
demonstrado que um enorme crescimento da placa alar de p4 até p6 forma as
vesículas encefálicas, as quais envolvem os demais prosômeros e formam, mais tarde,
o córtex cerebral.
Diencéfalo
O desenvolvimento do diencéfalo é caracterizado pelo aparecimento de três pares de
intumescências no aspecto medial da parede lateral do diencéfalo (Fig. 10-21). Elas
219
formam um primórdio epitalâmico dorsal, um talâmico intermediário e um
hipotalâmico ventral de cada lado. O maior par de massas está representado pelo
tálamo em desenvolvimento, que está separado por um canal, o sulco hipotalâmico,
do hipotálamo situado ventralmente (Fig. 10-22). As massas hipotalâmicas,
originalmente pareadas, se fundem mais adiante para formar uma única estrutura
que se torna um grande centro regulatório. Ela se diferencia em várias áreas
nucleares que controlam muitas funções homeostáticas básicas como o sono,
temperatura corpórea, fome, balanço de fluidos e eletrólitos, comportamento
emocional e atividade da pituitária. Os núcleos subtalâmicos pareados, os corpos
mamilares, podem ser observados como protuberâncias distintas da superfície
medioventral do hipotálamo.
Fig. 10-21 Embrião porcino, dia 21,5. 1: Diencéfalo; 2: Retina; 3: Lente; 4: Epitélio
pigmentado da retina; 5: Estomódeo.
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
220
Fig. 10-22 Embrião canino, 35 mm CCN, secção coronal. I e II: ventrículos laterais; III:
terceiro ventrículo. 1: Tálamo; 2: Hipotálamo; 3: Corpo estriado; 4: Hemisférios cerebrais; 5:
Plexo coroide; 6: Olho; 7: Cavidade nasal; 8: Sutura dos processos palatinos laterais; 9:
Cavidade oral; 10: Língua; 11: Botões dentários; 12: Mandíbula.
Cortesia de Rüsse e Sinowatz (1998).
Os primórdios talâmicos altamente proliferativos gradualmente se projetam para
o lúmen do diencéfalo. Em animais domésticos esta expansão é geralmente tão
grande que as regiões talâmicas de ambos os lados se fusionam na linha média,
formando a adesão intertalâmica ou massa intermédia. A região central do canal
neural ventricular expandido do diencéfalo consequentemente se torna obliterada
resultando em um terceiro ventrículo em formato de anel (Fig. 10-22).
Ventralmente à adesão, o terceiro ventrículo forma uma fenda vertical entre as
paredes do hipotálamo em desenvolvimento que se estende em direção ventral para o
pedúnculo da neuro-hipófise. Dorsalmente à adesão intertalâmica, o terceiro
ventrículo está coberto pela placa do teto (reduzida a uma única camada de células
ependimárias) e por mesênquima vascular. Esta camada combinada forma o plexo
coroide do terceiro ventrículo e ventrículos laterais. No tálamo, tratos neurais de
centros cerebrais mais altos fazem sinapses com aqueles de outras regiões do cérebro
e tronco encefálico. Desta forma, o tálamo atua como um centro importante para
retransmitir impulsos sensoriais (auditivos, visuais e táteis), em conjunto com sinais
dos gânglios da base e cerebelo, para as áreas correspondentes do córtex cerebral.
221
No aspecto dorsolateral dos primórdios talâmicos, o metatálamo forma os
corpos geniculados medial e lateral, estruturas que fazem conexão com os colículos
rostrais e caudais, respectivamente, para retransmitir impulsos visuais e auditivos.
Epífise (glândula pineal)
A porção mais posterior da placa do teto do diencéfalo desenvolve um pequeno
divertículo. No interior dele, a proliferação celular produz a epífise (incluindo a
glândula pineal) como uma estrutura em formato de cone. O cone permanece
aderido ao teto do diencéfalo pelas habênulas, dois finos pedúnculos de fibras
nervosas que também contêm alguns aglomerados de neurônios (núcleos
habenulares). As células neuroepiteliais se diferenciam em dois tipos celulares, os
pinealócitos e as células gliais. Os pinealócitos desenvolvem processos celulares e
liberam um hormônio, a melatonina, para os capilares ao seu redor ou para o fluido
cerebroespinhal do terceiro ventrículo. A glândula pineal está envolvida no controle
do ritmo circadiano. Na ausência de luz, ela produz melatonina, a qual possui
atividade antigonadotrópica e inibe a função do eixo pituitário-gonadal em algumas
espécies, como as éguas, mas tem efeito oposto em outras espécies, como em ovelhas
(Cap. 3). A produção de melatonina pela glândula pineal está sob a influência do
núcleo supraquiasmático do hipotálamo, que recebe informações da retina sobre o
padrão diário de luz e escuridão. Dados recentes em animais de experimentação
sugerem que é principalmente o núcleo supraquiasmático que controla o ciclo diário,
e não o sinal da melatonina, como foi postulado anteriormente.
Hipófise (glândula pituitária)
A hipófise se desenvolve de duas partes consideravelmente separadas: (1) uma
protrusão ectodérmica do estomódeo imediatamente à frente da membrana
bucofaríngea, conhecida como bolsa de Rathke, formando a adeno-hipófise, e (2)
um crescimento inferior ventral do diencéfalo, o infundíbulo, formando a
neuro-hipófise. Quando o estomódeo é formado inicialmente, o ectoderma do seu
aspecto dorsal está próximo do neuroectoderma ventral do diencéfalo (Fig. 10-23).
No local da aposição, o ectoderma do estomódeo se espessa e invagina, formando a
bolsa de Rathke (ou adeno-hipofisária). A extremidade distal desta bolsa cresce
em direção do primórdio infundibular, dorsal e adjacente à bolsa de Rathke. Uma
vez em contato próximo com a borda anterior do infundíbulo em formação, a bolsa se
achata novamente enquanto ainda está anexada ao revestimento do estomódeo por
um pedúnculo epitelial. A conexão é perdida alguns dias mais tarde e o epitélio na
borda anterior da bolsa prolifera e passa a formar cordões e blocos de células.
Observa-se uma menor proliferação na porção da bolsa de Rathke que está em
222
contato com a neuro-hipófise em desenvolvimento. A proliferação celular na borda
rostral continua em grau variável, dependendo da espécie, e forma a adeno-hipófise.
As células da adeno-hipófise circundam àquelas da neuro-hipófise em extensões
variáveis, muito intensamente em suínos.
Fig. 10-23 Desenvolvimento da hipófise felina (áreas delimitadas por quadros). A: 5 mm
CCN. 1: Prosencéfalo; 2: Membrana bucofaríngea; 3: Estomódeo; B: 11 mm CCN. 1:
Telencéfalo; 2: Diencéfalo; 3: Evaginação do infundíbulo do diencéfalo: primórdio da neuro-
hipófise. 4: Bolsa de Rathke: primórdio da adeno-hipófise. C: 14 mm CCN. 1: Telencéfalo; 2:
Diencéfalo; 3: Adeno-hipófise; 4: Neuro-hipófise; 5: Canal craniofaríngeo; 6: Osso esfenoide.
Telencéfalo
O desenvolvimento do telencéfalo é dominado por uma enorme expansão das
vesículas telencefálicas, as quais dão origem aos dois hemisférios cerebrais que
crescem superando completamente as partes anteriores do tronco encefálico (Figs.
10-17, 10-24). As paredes das vesículas telencefálicas rodeiam os ventrículos
laterais em expansão, os quais são protrusões do terceiro ventrículo, comunicam-se
com ele via os forames interventriculares.
223
Fig. 10-24 Embrião porcino, dia 21,5, secção sagital do telencéfalo. 1: Hemisfério cerebral;
2: Ventrículo lateral; 3: Gânglios da base; 4: Plexo coroide.
Embora os hemisférios cerebrais se expandam muito durante o início da
gestação, sua superfície externa permanece lisa. Mais adiante, eles são submetidos a
dobramentos em vários níveis de organização e diversos sulcos e fissuras principais
começam a aparecer. Ao término da gestação a superfície de cada hemisfério se torna
dobrada e desenvolve sulcos (fendas) e giros (elevações) espécie-específicos,
característicosmomento para estudos
anatômicos e, felizmente, coincidiu com a invenção da impressão de livros por
Johann Gutenberg. Assim, a principal publicação importante em embriologia
comparada foi De Formato Foetu em 1600 pelo o anatomista italiano Hieronymus
Fabricius de Acquapendente (1533-1619). Fabricius descreveu e ilustrou a
anatomia macroscópica de embriões e suas membranas nesse livro, mas não foi o
primeiro a fazer isso; outro anatomista italiano, Bartolomeu Eustáquio (1514-
1574), tinha previamente publicado ilustrações de embriões de cães e ovelhas em
1552. Portanto, podemos reconhecer o nome de Fabricius, no termo bursa Fabricii
(porção imunologicamente competente do intestino de aves), e de Eustáquio na
trompa de Eustáquio.
Os trabalhos de Eustáquio e Fabricius e outros autores forneceram uma ideia de
como os órgãos desenvolvem a sua forma imatura para a maturidade, mas deixa sem
resposta o enigma básico de como e onde os embriões mamíferos se originam. No
entanto, o desenvolvimento do microscópio por Zacarias Janssen, fabricante de
óculos holandês, em 1590, deu início a uma nova era da ciência embriológica para
25
lidar com essa questão de 2.000 anos. O domínio holandês no campo óptico não foi
apenas uma coincidência; as ambições navais de seu império necessitavam de
excelentes telescópios e sistemas de lentes. O microscópio de Janssen em sua forma
original, na verdade, não era apropriado para pesquisas com células e tecidos. O
microscópio media 2 metros de comprimento, tinha uma resolução de apenas 10 a 20
vezes, e seu principal uso era atrair atenções em feiras de exposição! Em 1672, o
médico italiano Doutor Marcelo Malpighi (1628-1694) publicou os primeiros relatos
microscópicos do desenvolvimento de galinhas, identificando o sulco neural, os
somitos e a circulação de sangue nas artérias e veias do vitelo. Malpighi observou
ovos de galinhas não incubados consideravelmente estruturados, levando-o a
acreditar que uma versão pré-formada residia no ovo. Mais tarde (1722), o
oftalmologista francês Antoine Maître-Jan (1650-1730) demonstrou que embora o
ovo examinado por Malpighi fosse tecnicamente “não incubado”, este foi deixado
exposto ao sol de agosto da cidade de Bologna e, portanto, foi previamente
“aquecido”. Consequentemente, as noções de Malpighi sobre o embrião pré-formado
deram início a grandes debates em embriologia ao longo dos séculos XVII e XVIII. A
questão era: os órgãos de embriões eram formados de novo (epigênese), ou eles já
estavam presentes em formato de miniatura no ovo (ou no espermatozoide quando
estas células foram descobertas), um conceito referido como pré-formação. Iremos
retornar a este debate em outro momento.
A nova técnica de microscopia também propôs uma vigorosa pesquisa para os
gametas de mamíferos. O ovo de galinha e suas transformações iniciais em pintos
eram óbvias, como tinha descrito Aristóteles, mas o que intermediava a formação de
embriões em mamíferos? Onde era encontrado o ovo nos mamíferos?
Um dos maiores precursores e influentes nomes da fascinante história da
descoberta do ovo de mamíferos foi William Harvey (1578-1657), médico particular
dos reis ingleses James I e Charles I, e famoso por suas descrições da circulação
sanguínea. Em 1651, Harvey publicou De Generatione Animalium (Discussões
abordando a Geração de Animais) exibindo, na capa, Zeus libertando todas as
criaturas de um ovo que trazia a inscrição Ex ovo omnia (Todas as coisas vem do ovo).
Entretanto, deve-se, de fato, considerar que as observações de Harvey em alguns
pontos impediram o progresso dos conhecimentos de reprodução e embriologia até o
século XVII. Depois de ter estudado com Fabricius, Harvey foi imbuído com a visão de
Aristóteles de que o sêmen provinha de forças que interagiam com o sangue
menstrual para materializar-se como um embrião. Harvey também tentou entender
estes processos analisando os materiais no início da concepção em fêmeas de cervos
sacrificadas durante a estação de caça do rei Charles I em sua floresta e parques
Reais por um período de mais de 12 anos. Nos veados e gamos estudados, verificou-se
26
que a atividade sexual dos machos começava na metade de setembro, então, Harvey
dissecou os úteros ao longo dos meses de setembro a dezembro. Acreditando,
erroneamente, que a cópula coincidia com o início do cio, Harvey ficou confuso e
nada encontrou ao que ele reconhecia como um embrião até metade de novembro,
uns dois meses depois. Isso o induziu ao erro, exceto a conclusão absolutamente
lógica que “nada após o coito foi encontrado no útero por muitos dias”. Quando ele
encontrou o concepto, no qual, para Harvey, era o ovo: “A definição de Aristóteles
para um ovo se aplica a ele, isto é, o ovo é aquilo que está fora da parte a qual
animal é gerado e o restante é o alimento para que ele seja gerado.”
Três fatores de interesse veterinário conduziram este brilhante homem para
caminhos desnorteantes. Primeiro, ele não compreendeu que as fêmeas não entravam
no cio até o início de outubro e então suas estimativas sobre os dados reprodutivos
estavam erradas. Segundo, ele descartou os ovários (“testículo da fêmea”) como parte
da concepção, pois eles não cresciam como os testículos dos machos durante a cópula.
Terceiro, esperando encontrar um ovo com forma de concepto, ele confundiu a
“substância purulenta… friável… e amarelada”, observada logo após o
acasalamento, nitidamente descrita como o filamento de blastocisto característico dos
ruminantes. Se Harvey tivesse utilizado o microscópio para realizar suas pesquisas
em diferentes conceptos (como, coelho ou cavalo) a descoberta do verdadeiro
embrião teria avançado consideravelmente!
Certamente, é fácil criticar retrospectivamente os fatos, porém, é importante
ressaltar que Harvey fez importantes contribuições para a Embriologia. Suas
descrições do desenvolvimento inicial foram impecáveis: ele foi o primeiro a observar
o blastoderma de embriões de galinhas (a pequena região do ovo continha gema livre
de citoplasma que origina o próprio embrião), e a indicar que as ilhas de sangue
formam-se antes do coração; ele descreveu o desenvolvimento gradual do embrião,
subscrevendo a escola da epigênese como fez Aristóteles.
As observações de Harvey e suas pesquisas sobre o ovo dos mamíferos
continuaram com Regnier de Graaf (1641-1673) o qual promoveu estudos
detalhados dos órgãos reprodutivos femininos, especialmente o ovário. De Graaf,
como seu amigo Leeuwenhoek, trabalhou em Delft. Comparando os ovários de
mamíferos com os de galinhas, De Graaf considerou o folículo ovariano antral de
mamíferos como sendo os ovos. A suposição foi confirmada por degustação! Sua
contribuição para a ciência foi reconhecida posteriormente pelo médico alemão
doutor Theodor Ludwing Wilhelm Bischoff (1807–1882) que introduziu a
nomenclatura “folículo de Graaf”. De Graaf também notou algumas conexões entre a
maturação folicular e o desenvolvimento de ovócitos, mas sem um microscópio
apropriado, não foi possível afirmar tais fatos e suas observações foram por um bom
27
tempo esquecidas. Provavelmente, se ele tivesse vivido um pouco mais (morreu
tragicamente cedo, aos 32 anos de idade), a descoberta do ovo dos mamíferos
poderia ter evitado um atraso de cerca de 150 anos!
Na verdade, o primeiro cientista a ver o ovo do mamífero (o qual todos
acreditavam existir, mas ninguém tinha visto) foi o médico estoniano doutor Karl
Ernst von Baer (1792-1876). Ao abrir o “Ovo de Graaf”, como o folículo era
conhecido naquele tempo, encontrou um pequeno ponto amarelo e o examinou sob
um microscópio (Baer, 1827). A primeira vista, Baer ficou supresso e mal podia
acreditar que tinha encontrado o que muitos cientistas famosos como Harvey, De
Graaf, Purkinje e outros não conseguiram encontrar. Ele ficou tão entusiasmado que
retornou ao microscópico uma segunda vez. O ovo dos mamíferos tinha sido
identificado.
E quanto ao espermatozoide? Anton van Leeuwenhoek (1632-1723), um
comerciante holandês e cientista de Delft, foi o primeiro a relatar o espermatozoidedo cérebro maduro. O padrão externo de sulcos e giros é produzido por
um crescimento desigual do córtex e sua substância branca associada.
Uma vastidão de eventos celulares internos determina como o telencéfalo
funciona. Os detalhes vão além do escopo deste livro e apenas os princípios gerais
serão discutidos aqui. Geralmente, o desenvolvimento funcional do telencéfalo se
inicia com uma regionalização precoce seguida pela geração e migração direcionada
de precursores neurais. A migração é radial e seu padrão é estabelecido em estágios
bastante precoces do desenvolvimento embrionário.
Os neuroblastos migram da camada ventricular, onde eles são formados,
para a superfície externa das vesículas telencefálicas. Existem locais geneticamente
predeterminados na camada ventricular do tubo neural que equivalem a áreas
particulares da superfície dos hemisférios. Os neuroblastos que se originam em um
determinado local e tempo de desenvolvimento irão se estabelecer em pontos
definidos do futuro córtex. Esta equivalência depende de células especiais da glia
(células da glia radial) que se estendem da camada ventricular do tubo neural para a
área correspondente da superfície do hemisfério. Os neuroblastos em migração
seguem os processos gliais para atingirem suas destinações específicas.
Além da posição no interior do tubo neural, o tempo de migração influencia
224
fortemente o posicionamento de neurônios no córtex cerebral. No córtex maduro, os
primeiros neurônios a se organizarem na superfície serão encontrados na camada
mais profunda. Conforme mais neurônios deixam a camada ventricular, eles devem
migrar pelas camadas de neurônios já presentes. Os últimos neurônios a compor são
encontrados nas camadas mais superficiais do córtex cerebral (estratificação de
dentro para fora do córtex cerebral).
Assim que as células neuronais atingem sua posição final, processos axonais (e,
um pouco depois, processos dendríticos) crescem delas para células-alvo específicas
ao longo de caminhos estreitamente guiados. Os axônios de células piramidais, por
exemplo, passam como grupos longos de fibras (a cápsula interna) entre os gânglios
basais e percorrem até células eferentes somáticas gerais da medula espinhal. Na
superfície ventral da medula oblonga, eles são observados como pirâmides, que são
uma manifestação grosseira dos tratos corticoespinhais.
Sendo assim, a posição tangencial de um neurônio no córtex cerebral é
determinada pela sua origem na camada ventricular e, por sua vez, a camada na
qual a célula por fim se localiza é fortemente influenciada pelo tempo tomado
durante sua migração. O padrão de migração neuronal geneticamente
predeterminado durante a formação do córtex cerebral provavelmente contribui
significativamente para o desenvolvimento das colunas neuronais organizadas em
módulos que compreendem a unidade funcional e organizacional do córtex cerebral
do cérebro maduro.
Conforme o córtex cerebral se desenvolve, os axônios de seus neurônios fazem
sinapses com outros neurônios nas seguintes formas: (1) com neurônios no interior
do mesmo hemisfério, (2) com neurônios de outro hemisfério e (3) com neurônios
de outras regiões do cérebro e medula espinhal. Os neurônios que fazem sinapses
com neurônios do mesmo hemisfério são denominados neurônios de associação.
Seus processos percorrem entre giros adjacentes (neurônios de associação curta) ou a
giros mais distantes (neurônios de associação longa). Os neurônios com axônios que
conectam regiões correspondentes dos dois hemisférios são classificados como
neurônios comissurais. Aqueles com axônios que conectam o córtex a regiões mais
profundas do SNC são chamados de neurônios de projeção.
Baseando-se no seu desenvolvimento filogenético, o córtex cerebral pode ser
subdividido em alocórtex, evolucionariamente mais antigo, e no mais recente
neocórtex (Fig. 10-25). O alocórtex compreende o arquicórtex e o paleocórtex. O
alocórtex apresenta uma ampla variedade de padrões histológicos em regiões
diferentes, mas está caracterizado geralmente por três camadas histológicas
(molecular, piramidal ou granular e polimórfica). O neocórtex, por sua vez,
apresenta uma mais complexa estrutura histológica de cinco ou seis camadas.
225
Fig. 10-25 Embrião porcino, dia 21,5, secção coronal do telencéfalo. 1: Ventrículo lateral
direito; 2: Ventrículo lateral esquerdo; 3: Neopálio; 4: Plexo coroide; 5: Arquipálio.
Em carnívoros, as conexões principais entre os hemisférios estão completas a
partir da terceira semana pós-natal, mas o amadurecimento total é prolongado até a
sexta semana ou até depois, quando a mielinização das vias principais é completada.
As vias eferentes somáticas gerais e as vias para propriocepção são as últimas a
serem mielinizadas. As evidências anatômicas e funcionais mais claras dos processos
de maturação pós-natal do cérebro advêm de um rápido crescimento dos hemisférios,
ao aumento das proeminências dos giros e o aumento de complexidade do
comportamento motor do animal durante as seis primeiras semanas pós-natais. Nas
espécies precoces (ruminantes e cavalos) o córtex já atingiu maturidade funcional ao
momento do nascimento.
Arquicórtex (arquipálio) (Fig. 10-25)
O arquicórtex consiste em giro geniculado, giro supracaloso, giro para-
hipocampal assim como o giro hipocampal e o giro dentado, os quais são
chamados coletivamente de formação hipocampal. O primórdio da formação
hipocampal aparece cedo no desenvolvimento, na parede dorsomedial do telencéfalo,
onde uma área restrita da parede ventricular evagina para o lúmen ventricular. A
formação hipocampal passa então a ficar externa à fissura coroide. A continuação do
desenvolvimento é postergada e a fase migratória dos neuroblastos não se inicia até
mais tardiamente do período embrionário. Durante o período fetal, quando o
neocórtex e a grande comissura, o corpo caloso, se desenvolvem, a formação
226
hipocampal retrai posteriormente, ao longo da parede dorsomedial dos hemisférios.
Apenas pequenos resquícios, o indúsio gríseo e as estrias longitudinais permanecem
no interior do sulco hipocampal. O hipocampo é deslocado no lobo temporal onde ele
forma uma eminência que se projeta dorsalmente para o corno inferior do ventrículo
lateral. O sistema eferente do hipocampo é o fórnix, o qual se curva sobre o tálamo
para atingir os corpos mamilares ventralmente.
Paleocórtex (paleopálio)
O paleocórtex está localizado nos aspectos basais e mediais dos hemisférios. Ele
compreende os bulbos olfatórios, tratos olfatórios, tubérculo olfatório e lobo
piriforme. Expansões das regiões rostrais do telencéfalo formam os bulbos olfatórios.
Eles recebem axônios de neurônios na mucosa olfatória, os quais formam sinapses
complicadas com as células mitrais do bulbo olfatório, chamadas glomérulos
olfatórios. Os axônios dos neurônios do bulbo formam o trato olfatório e fazem
sinapses com os neurônios do córtex olfatório do hemisfério cerebral.
Neocórtex (neopálio)
O neocórtex compõe a maior parte do córtex cerebral. Ele é distinguido do alocórtex
por possuir mais células nervosas em seis camadas histológicas. Durante sua
formação, as células da camada ventricular migram superficialmente para formar a
camada intermediária e mais tarde, uma camada subventricular adicional e a placa
cortical. A placa cortical é estabelecida pela migração de neuroblastos formados na
camada ventricular. As camadas 2 até 6 do córtex maduro são derivadas da placa
cortical. Embora a estratificação do córtex seja completada durante o
desenvolvimento fetal, o córtex cerebral não se torna funcional e morfologicamente
maduro até mais tardiamente. Isto é especialmente evidente em carnívoros, mas
também é verdadeiro em ungulados e equinos. A maturação funcional pós-natal
envolve a chegada de fibras aferentes, mielinização de tratos importantes no SNC e
preenchimento de conexões sinápticas intracorticais necessárias.
Comissuras
Conforme o córtex cerebral se desenvolve, processos neuronais fazem sinapses com
neurônios no interior do mesmo hemisfério,em movimento. Ele construiu um microscópio de lente simples que tinha capacidade
de aumentar 300 vezes. Tecnicamente, este microscópio foi uma conquista espantosa
– era menor que um selo de correio e semelhante a um micromanipulador primitivo.
Era usado perto dos olhos como uma lupa. Com esta inovação, Leeuwenhoek
desenhou espermatozoides de diferentes espécies. Inicialmente, o interesse de
Leeuwenhoek não era estudar os espermatozoides, mas sim escrever sobre sêmen e
coito. Ao analisar, pela primeira vez, sob o microscópio, o sêmen, observou que
estava tomado de glóbulos. Entretanto, não era de seu agrado discutir seus achados e
rapidamente retomou a outros assuntos. Três ou quatro anos depois, em 1677, um
estudante da escola de medicina em Leiden lhe trouxe uma amostra de sêmen na qual
tinha encontrado pequenos animais com caudas, os quais Leeuwenhoek podia
observar bem. Consequentemente, Leeuwenhoek retomou suas observações e, em seu
próprio sêmen (adquirido não por profanação, mas como uma consequência natural
do coito conjugal, salientou), observou uma grande quantidade, porém menor que
um milhão, de “animalcules” do tamanho de um grão grosso de areia e com uma
cauda fina, ondulante e transparente. Um mês depois, Leeuwenhoek descreveu estas
observações em uma carta ao Lord Brouncker, presidente da Sociedade Real em
Londres. Ainda preocupado sobre o assunto, ele pediu a Brouncker que não a
publicasse, caso a considerasse uma ofensa. As observações de Leeuwenhoek
promoveram fervorosos debates e controvérsias sobre o que significavam aqueles
vivos objetos. Primeiro, pensava-se que as criaturas semelhantes a girinos eram
parasitas. Leewennhoek pode ter sido tendencioso, uma vez que já estava engajado
em estudos paralelos de parasitas, ele foi o primeiro a ver a giárdia, um parasita
protozoário que infecta o trato gastrointestinal. Giárdias são flagelados e podem, em
28
baixa resolução microscópica, ter a aparência de espermatozoides. Outros cientistas
consideravam as ações giratórias dos objetos como uma forma do sêmen não sofrer
solidificação. Na escola da pré-formação, entretanto, as observações de Leewennhoek
incentivaram a ideia que a cabeça dos espermatozoides tivesse miniaturas de bebês,
como potros, bezerros etc. Estes cientistas tornaram-se conhecidos como espermitas.
Os dois gametas de mamíferos tinham sido identificados. No entanto, em vez de
criar uma plataforma comum de novas ideias, este novo conhecimento provocou um
delicado conflito, se o embrião originava do ovo ou do espermatozoide!
Em paralelo com as pesquisas dos gametas dos mamíferos, as disputas entre a
escola da epigênese e da pré-formação tornaram-se cada vez mais intensas. A última
tinha o respaldo de 18 séculos de ciência, religião e filosofia por várias razões.
Primeiro, se o corpo é pré-formado e apenas necessita desenvolver-se, nenhum
mistério seria necessário para iniciar o desenvolvimento embrionário. Este foi um
conveniente ponto de vista religioso e de respeito à criação da humanidade por Deus.
Segundo, se o corpo era pré-definido nas células germinativas, as gerações seguintes
já seriam pré-definidas nas células germinativas, semelhante a bonecas russas
Matrioshcas. Este conceito também era conveniente, e assegurava que a forma das
espécies seria permanentemente constante. O fato de que em certo ponto as bonecas
Matrioshcas não poderiam ficar menores seria uma objeção óbvia do conceito hoje
em dia. Entretanto, não havia uma escala de tamanho biológico no momento
daquelas argumentações, pois, a teoria celular de Theodor Schwann (1810-1882)
apenas teria sido proposta em 1847. Assim, os preformistas poderiam alegar, como
definido em 1764 pelo naturalista, filósofo e escritor suíço Charles Bonnet (1720–
1793), que “A natureza trabalha o menor que deseja”. Basicamente, o preformismo
foi uma teoria conservacionista, e foi incapaz de responder algumas questões
suscitadas pelo limitado conhecimento da variação genética daquela época. Era
sabido, por exemplo, que o cruzamento entre brancos e negros resultaria em bebês
com cor de pele intermediária, um resultado incompatível com a pré-formação dos
gametas.
No final do século XVIII, Caspar Friedrich Wolff (1734-1794), um embriologista
alemão que trabalhou em São Petersburgo, realizou observações detalhadas em
embriões de galinhas que resultou no primeiro argumento forte para a epigênese. Ele
demonstrou como o intestino originava-se de dobras de um tecido simples
indiferenciado e interpretou seus achados como evidência da epigênese quando, em
1767, escreveu que “A formação do intestino foi devidamente ponderada, desta
forma, não tenho qualquer dúvida da verdade da epigênese”. O termo “Ducto de
Wolff” para os ductos mesonéfricos vem do nome de Caspar Friedrich Wolff.
Apesar das contribuições de Wolff, a teoria do preformismo persistiu até 1820
29
quando novas técnicas de colorações de tecidos e microscopia permitiram um avanço
na ciência da Embriologia. Três amigos, Christian Pander (1794-1865), Karl Ernst
von Baer e Martin Heinrich Rathke (1793-1860), vindos da região Báltica,
estudaram na Alemanha e formularam conceitos de grande importância para a
embriologia contemporânea. Pander expandiu as observações de Wolff e também,
apesar de estudar embriões de galinhas por apenas 15 meses antes de se tornar
paleontologista, descobriu as camadas germinativas (Pander, 1817). A denominação
geral “camada germinativa” foi derivada do latim germen (“brotar” ou “germinar”)
onde as três camadas individuais são de origem grega: ectoderma do ectos (“fora”) e
derma (‘pele”), mesoderma do mesos (“meio”) e endoderma do endon (“dentro”).
Pander também notou que os órgãos não eram formados de uma única camada
germinativa. Uma notável característica do livro de Pander de 1817 é a qualidade
das ilustrações do anatomista e artista alemão Eduard Joseph d’Alton (1772–1840);
ele retratou magnificamente detalhes que ainda não tinham sido definidos (Fig. 1-3).
Este trabalho clássico realça as observações precisas e a habilidades em Embriologia.
30
Fig. 1-3 Desenho de um embrião de galinha de dois dias de Eduard Joseph d’Alton mostrado
em Pander (1817).
Rathke estudou comparativamente a embriologia de sapos, salamandras, peixes,
aves e mamíferos e demonstrou similaridades no desenvolvimento entre todos estes
grupos de vertebrados. Ele descreveu pela primeira vez os arcos faríngeos comuns no
desenvolvimento destes animais. A “bolsa de Rathke” – a contribuição ectodermal da
glândula pituitária – o recorda.
Além de identificar o óvulo de mamífero, von Baer ampliou as observações de
Pander em embriões de galinhas e descreveu a notocorda pela primeira vez.
Entretanto, von Baer novamente apreciou os princípios comuns que norteiam o
desenvolvimento embrionário inicial independente da espécie. Em 1828, ele
escreveu: “Tenho dois embriões pequenos conservados em álcool que me esqueci de
marcar. No momento, sou incapaz de determinar o gênero ao qual eles pertencem.
Eles podem ser lagartos, pequenas aves ou até mamíferos.”
Técnicas de colorações e microscopias continuaram melhorando durante o século
XIX, o que permitiu observações mais detalhadas nos estágios de clivagem pelo
biólogo alemão Theodor Ludwig Wilhelm von Bischoff (1807–1882) em coelhos, e
pelo anatomista e fisiologista suíço Rudolph Albert von Kölliker (1817–1905) no
homem e vários animais domésticos. Kölliker também publicou o primeiro livro-texto
de embriologia do homem e animais superiores em 1861.
Graças as contribuições de Pander, von Baer e Rathke, a escola preformista
radical cessou suas atividades em 1820. Entretanto, o conceito desta escola persistiu
por mais 80 anos devido a um grupo de cientistas o qual consideraram as células do
estágio de clivagem de embriões como representantes das metades direita e esquerda
do corpo quando formado. Isso significava que a construção do corpo tem origem na
segregação do ovo. Em 1893, August Weismann (1834-1914) propôs a teoria celular
germinativa como uma extensão dessa ideia. Baseadono escasso conhecimento de
fertilização disponível naquela época, ele teve uma grande visão e propôs que o ovo
e o espermatozoide contribuíam igualitariamente em termos cromossômicos, tanto
qualitativa como quantitativamente, ao novo organismo. Ele afirmou que os
cromossomos transportavam os potenciais herdados deste novo organismo, e foi
considerado naquele momento que os cromossomos ainda não tinham sido
identificados como transportadores de material genético. Entretanto, Weismann
acreditava que nem todas as informações cromossômicas eram passadas para cada
célula do embrião, mas que diferentes informações iam para diferentes células,
explicando sua diferenciação. Weismann claramente entendeu os princípios de
como as características eram herdadas através da fertilização, mas ele estava errado
31
sobre os mecanismos da diferenciação. A teoria de diferenciação de Weismann foi
posta à prova praticamente pelo embriologista alemão Wilhelm Roux (1850-1924),
que já havia publicado os resultados de seu experimento em 1888, no qual as células
individuais de embriões de sapos com 2 a 4 células foram destruídas com uma agulha
quente. Como previsto pela teoria de Weismann, Roux observou a formação de
embriões nos quais somente um lado desenvolveu normalmente. Estes resultados
inspiraram outro embriologista alemão Hans Adolf Eduard Driesch (1867-1941) a
realizar experimentos usando células separadas em vez da técnica de destruição de
Roux. Para sua enorme surpresa, Driesch obteve resultados que foram bastante
diferentes daqueles de Roux. Usando células separadas de diferentes estágios de
clivagem de ouriço-do-mar ele demonstrou que cada uma das células era capaz de
desenvolver pequenos embriões e larvas (Driesch, 1892). Ele repetiu o mesmo
experimento com embriões de 4 células e obteve resultados similares; as larvas eram
menores mas em compensação pareciam completamente normais.
A evidência final contra a teoria de Roux-Weismann foi realizada pelos elegantes
experimentos publicados por outro embriologista alemão, Hans Spemann (1869-
1941). Originalmente, como Driesch, sua teoria experimental foi estabelecida em
salamandras. Portanto, separando as células nos estágios de clivagem por meio de
uma ligadura (um fio de cabelo retirado de seu filho recém-nascido), ele demonstrou
que as células separadas eram capazes de formar pequenos embriões – e eram
totipotentes. Em 1928, Spemann conduziu o primeiro experimento com
transferência nuclear: transferiu o núcleo de células de embrião de salamandra para
uma célula sem núcleo. Usando um fio de cabelo, como tinha feito em 1902 ao
separar embriões de salamandra, Spemann dividiu a célula ovo fertilizada, forçando
o núcleo para um lado e o citoplasma para o outro. Ele esperou o núcleo dividir e
crescer até a um embrião de 16 células. Em seguida, desamarrou o fio de cabelo e
possibilitou que o núcleo do embrião se dividisse no citoplasma. Spemann apertou
completamente o laço, separando fisicamente a esfera citoplasmática e seus novos
núcleos permaneceram longe do resto do embrião de 16 células. Desta célula simples
cresceu um embrião de salamandra normal, provando que o núcleo de células
embrionárias seria capaz de conduzir o desenvolvimento completo da salamandra.
Spemann criou o primeiro clone por transferência nuclear. Ainda, publicou seus
resultados em 1938, no seu livro Embryonic Development and Induction, o qual ele
chamou de “fantástico experimento” de clonagem das células diferenciadas ou adultas
e teoricamente preparou o caminho para os conhecimentos de hoje. Infelizmente,
Spemann não via nenhuma saída prática para realizar tais experimentos na época. O
pesquisador foi vencedor do prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1935 devido a
sua descoberta, agora conhecida como indução embrionária – influência exercida
32
por várias partes do embrião conduzindo ao desenvolvimento de grupos de células
em determinados tecidos e órgãos. Os trabalhos de Driesch e Spemann finalmente
puseram fim ao conceito de que informações hereditárias eram divididas entre as
células durante o desenvolvimento embrionário.
A localização do material genético não tinha sido determinada entre o final do
século XIX e inicio do século XX quando um grupo de embriologistas americanos
descobriu que a hereditariedade residia no citoplasma ou no núcleo do ovo
fertilizado. Edmund Beecher Wilson (1856–1939) acreditava que o material
genético estava no núcleo; enquanto, Thomas Hunt Morgan (1866–1945)
acreditava que o citoplasma era o responsável por abrigá-lo. Wilson e o biólogo
alemão Theodor Heinrich Boveri (1862-1915) trabalharam na Estação Zoológica de
Nápoles. Boveri contribuiu para a hipótese cromossômica da hereditariedade dos ovos
fecundados do ouriço-do-mar com dois espermatozoides. Na primeira clivagem, os
ovos produziram quatros polos mitóticos e dividiram-se em quatro células em vez de
duas. Posteriormente, Boveri separou as células e demonstrou que elas desenvolviam
anormalidades, de uma maneira particular, devido ao fato de carregarem diferentes
cromossomos. Assim, Boveri afirmou que cada cromossomo era diferente e controlava
diferentes processos vitais. Wilson e Nettie Maria Stevens (1861–1912), uma das
primeiras mulheres americanas a ser reconhecida por suas contribuições à ciência,
continuaram os trabalhos de Boveri. Eles demonstraram a relação entre o
cromossomo e o sexo: o desenvolvimento de embriões XO ou XY em machos e
embriões XX em fêmeas (Wilson, 1905; Stevens, 1905a, b). Pela primeira vez, uma
característica fenotípica particular tinha sido correlacionada como uma propriedade
dos núcleos. Por fim, Morgan encontrou mutações correlacionadas com o sexo e com
o cromossomo X. Isto o convenceu que suas observações sobre a hereditariedade no
citoplasma estavam erradas e que os genes estavam ligados uns aos outros no
cromossomo. Sendo assim, um grupo de embriologistas realizou um grande marco ao
descobrir que os cromossomos alojados nos núcleos de células eram os responsáveis
pelo desenvolvimento e características hereditárias.
No início do século XX, a Embriologia e a Genética não eram consideradas
ciências separadas. Elas divergiram no final dos anos 1920 quando Morgan redefiniu
Genética como a ciência que estuda a transmissão de características hereditárias,
enquanto que a Embriologia estuda a ciência da expressão destas características. Esta
divisão não ocorreu sem hostilidade; geneticistas consideravam os embriologistas
antiquados, enquanto embriologistas olhavam os geneticistas como desinformados
sobre como o organismo na verdade se desenvolve! Felizmente, hoje em dia, observa-
se uma reaproximação de geneticistas e embriologistas em várias situações profícuas
de simbiose. Dois cientistas defenderam o sinergismo entre embriologistas e
33
geneticistas na atualidade: Salome Gluecksohn-Schoenheimer (agora Gluecksohn-
Waelsch; 1907-2007) e Conrad Hal Waddington (1905-1975). Gluecksohn-
Schoenheimer recebeu seu doutorado no laboratório de Spemann, no entanto, fugiu
da Alemanha de Hitler para os Estados Unidos. Sua pesquisa corajosa demonstrou
que as mutações no gene Brachury de camundongos causava desenvolvimento
anormal na porção posterior do embrião, ela localizou o defeito na notocorda
(Gluecksohn-Schoenheimer, 1938, 1940), promovendo exemplos da proximidade
entre a Embriologia e a Genética. O interessante é que passaram-se 50 anos para
seus resultados serem confirmados pelo método de hibridização do DNA após a
clonagem do gene Brachyury (Wilkinson et al., 1990). Wadington, por sua vez,
abordou a conexão casual entre a Embriologia e a Genética pelo isolamento de genes
que causavam malformação em moscas da fruta. Além do mais, suas interpretações e
conceitos visuais sobre o “cenário epigenético” afetaram a diferenciação celular no
embrião ainda presentes nas conferências contemporâneas de células-tronco
embrionárias e suas diferenciações (Waddington, 1957, Fig. 1-4).
Fig. 1-4 Em cima: Descrições do cenário epigenético feita por C. H. Waddington com uma
34
esferarepresentando a célula e os vales representando as diferentes vias de diferenciação.
Embaixo: Descrição pouco comum do cenário epigenético ilustrando como a tensão de
diferentes genes controlam o destino da bola.
De Waddington (1957).
A questão da totipotência, inicialmente abordada por Driesch e Spemann, foi
posteriormente revista em níveis mais detalhados. Embora, Driesch e Spemann
tivessem demonstrado a totipotência das células nos estágios embrionários iniciais de
clivagem, experimentos realizados nos anos de 1950 por Robert Briggs (1911-1983)
e Thomas King (1921-2000) testaram a totipotencialidade do núcleo, ou melhor, do
genoma. Seu modelo de transferência nuclear foi exatamente a realização exata do
“fantástico experimento” proposto por Hans Spemann, embora nunca tivessem
ouvido falar sobre as suas ideias. Para atingir seus objetivos eles tinham desenvolvido
métodos pelos quais removeriam o genoma de um ovo sem destruí-lo (enucleação),
retiravam um núcleo doador de uma outra célula, e transferiam este núcleo para o
ovo enucleado. Como suas abordagens eram extremamente não ortodoxas, os
primeiros projetos submetidos ao Instituto Nacional de Câncer foram recusados com
uma ideia “tresloucada”. Entretanto, eles por fim obtiveram algum apoio, e após
meses de experimentos eles produziram o primeiro blastocisto por transferência
nuclear. O sucesso inicial foi temporário. No entusiasmo, eles se reuniram aos
funcionários do instituto para lhes mostrar os blastocistos. Após várias observações
no microscópio, seguidas de aplausos e parabéns, eles reavaliaram as placas e
encontraram somente embriões destruídos. Felizmente, embora os primeiros embriões
estivessem mortos, o sistema de transferência nuclear funcionou; em 1952, Briggs e
King demonstraram com sucesso que o núcleo doador no estágio de blástula de sapos
poderia direcionar o desenvolvimento de girinos completos quando transferidos em
ovos enucleados. Esta pesquisa prepara o caminho para transferência nuclear de
células somáticas que hoje são usadas para a clonagem de mamíferos. Briggs e King
também descobriram que quando as células de estágios mais avançados (girinos com
caudas, por exemplo) eram usadas como núcleos doadores, o desenvolvimento
normal não ocorria a menos que o núcleo viesse de células germinativas. Assim, as
células somáticas pareciam perder sua habilidade para conduzir o desenvolvimento
com o seu grau de diferenciação aumentado. Este ponto mais tarde foi seguido por
John B. Gurdon que trabalhou com outras espécies de sapos, Xenopus, em vez de
Rana de Briggs e King. Gurdon et al. (1975) observaram que quando núcleos de
células cultivadas de pele de sapos adultos foram transferidos para ovos enucleados,
o desenvolvimento de clones nunca progredia além da formação do tubo neural.
Entretanto, quando eram realizadas transferências nucleares seriadas dos embriões
35
clonados para outros ovos enucleados, era possível gerar numerosos girinos; a
totipotência genômica das células somáticas estava então comprovada. Convém,
contudo, salientar que o experimento com sapos nunca conseguiu fechar o ciclo do
desenvolvimento pela produção de um organismo adulto por transferência de células
somáticas de outros organismos adultos.
O fechamento do ciclo não aconteceu até a transposição da técnica de
transferência nuclear aos mamíferos, pelo veterinário dinamarquês Steen Malte
Willadsen, em Cambridge, durante os anos 1980. Willadsen (1986) conseguiu
transferir não apenas o núcleo, mas a célula inteira de um embrião ovino no estágio
de mórula para ovos enucleados por fusão celular elétrica. Seu trabalho resultou no
primeiro mamífero clonado nascido após clonagem por transferência nuclear. Em
1996, esta tecnologia foi um passo importante para Keith H. Campbell trabalhar no
Instituto Roslin na Escócia no grupo de pesquisa liderado por Ian Wilmut. Campbell
et al. (1996) conseguiram produzir ovelhas após a transferência de núcleos de células
cultivadas, e coletadas da massa celular interna, para ovos enucleados. O segredo
para esse sucesso foi a meticulosidade de Campbell na experimentação do ciclo
celular que demonstrou a necessidade de certo grau de sincronismo do ciclo celular
entre o núcleo doador e o citoplasma receptor. A capacidade das células cultivadas
dos clones mamíferos representou um grande avanço em ciências biomédicas,
facilidade na manipulação de células antes da transferência nuclear e abriu um
caminho para a produção de animais transgênicos (animais nos quais um gene
diferente, o transgênico, foi adicionado). Assim, Angelika Schnieke, que trabalhou
no mesmo grupo de pesquisadores, foi capaz de anunciar o nascimento da ovelha
transgênica Polly, uma ovelha clonada de cultivos de fibroblasto fetais de ovelhas na
qual o gene humano para o fator de coagulação IX foi inserido como um promotor
que possibilitou a expressão da transgênese na glândula mamária (Schnieke et al.,
1997). Com este evento surgiu o conceito de “biofármacos” (produção de proteínas
valiosas na transgênese animal). O relato de Polly foi precedido por outro do grupo
de Rolin; uma publicação que surpreendeu não somente a comunidade científica, mas
todas as leis da sociedade mundial: a notícia do nascimento da ovelha clonada Dolly
(Wilmut et al. 1997). Dolly foi criada por Wilmut e seu grupo por transferência de
células cultivadas da glândula mamária de uma ovelha de 6 anos de idade em óvulos
enucleados. Novamente, o sucesso dependeu do controle do ciclo celular; as células
doadoras nucleares da glândula mamária foram mantidas em cultivo, o que suprimiu
sua atividade mitótica, provocando um estado de senescência celular, bloqueando até
o estágio G1 do ciclo celular ou G0. Pesquisas, desde então, resultaram na clonagem
de muitos animais (incluindo bovinos, camundongos, caprinos, suínos, gatos, coelhos,
equinos, cães e ratos) e, também, foi demonstrado que “silenciar” o núcleo das células
36
doadoras não é necessário.
Em associação da genética, a embriologia é uma ciência em desenvolvimento
exponencial. A forma como continuará a se desenvolver somente o tempo poderá
dizer. A embriologia fez seu caminho no currículo de Medicina Veterinária na metade
do século XIX quando se tornou incorporada ao ensino da Anatomia. Em 1924, o
primeiro livro-texto de Embriologia publicado por Zeitzschmann e outros (embora
poucos) surgiu. A obra Embryology of the Pig de Bradley M. Patten merece especial
atenção, pois é uma fonte admirável de inspiração para os autores deste livro. Do
mesmo modo, “a bíblia” da Embriologia Comparada Biologia do Desenvolvimento de
Scott F. Gilbert é admirável por sua representatividade e pelo seu estilo imitável.
Como a Embriologia foi originalmente baseada na tradição da Anatomia
Descritiva e nos currículos de Medicina e Veterinária, a nomenclatura é baseada no
latim e no grego. Para facilitar a leitura, “anglicamos” alguns termos mais usados na
forma latina ou grega.
Leituras adicionais
Aristotle (ca. 350 BC): The generation of animals. A.L. Peck (trans.). eBooks@Adelaide, 2004 (see
http://etext.library.adelaide.edu.au/a/aristotle/generation/).
Baer K.E.V. De ovi mammalium et hominis genesi. Leipzig: Voss; 1827.
Bonnet C. Contemplation de la Nature. Amsterdam: Marc-Michel Ray; 1764.
Briggs R., King T.J. Transplantation of living nuclei from blastula cells into enucleated frogs’ eggs. Proc. Natl.
Acad. Sci. USA. 1952;38:455–464.
Campbell K.H., McWhir J., Ritchie W.A., Wilmut I. Sheep cloned by nuclear transfer from a cultured cell
line. Nature. 1996;380:64–66.
Darwin C. On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the
Struggle for Life. London: John Murray; 1859.
Fabricius, H. of Aquapendente (1600): De formato foetu. Pasquala, Padova.
Gilbert S.F. Developmental biology, 7th edn. Sinauer Associates: Sunderland, Massachusetts, 2003.
Gluecksohn-Schoenheimer S. The development of two tailless mutants in the house mouse. Genetics.
1938;23:573–584.
Gluecksohn-Schoenheimer S. The effect of an earlylethal (t0) in the house mouse. Genetics. 1940;25:391–
400.
Gurdon J.B., Laskey R.A., Reeves O.R. The developmental capacity of nuclei transplanted from keratinized
cells of adult frogs. J. Embryol. Exp. Morphol. 1975;34:93–112.
Harvey W. Excitationes de generatione animalium. Amsterdam: Elzevier; 1651.
Kölliker A. Entwiklungsgeschichte des Menschen und der höhere Thiere. Leipzig: Engelmann; 1881.
Maître-Jan A. Observations sur la formation du poulet. Paris: L. d’Houdry; 1722.
37
Malpighi M. De formatione pulli in ovo (London). Reprinted in HB Adelmann ‘Marcello Malpighi and the
evolution of embryology’. Ithaca, NY: Cornell University Press; 1672. 1966
Pander H.C. Beitrage zur Entwiklungsgeschichte des Hühnchens in Eye. Wüzburg: Brönner; 1817/18.
Patten B.M. Embryology of the pig, 3rd edn. Blakiston Company: New York, Toronto, 1948.
Roux W. Contributions to the developmental mechanisms of the embryo. On the artificial production of half
embryos by destruction of one of the first two blastomeres and the later development (postgeneration) of
the missing half of the body. In: Willier B.H., Oppenheimer J.M. 1974 ‘Foundations of experimental
embryology’. New York: Hafner; 1888:pp. 2–37.
Schnieke A., Schnieke A.E., Kind A.J., Ritchie W.A., Mycock K., Scott A.R., Ritchie M., Wilmut I., Colman A.,
Campbell K.H. Human factor IX transgenic sheep produced by transfer of nuclei from transfected fetal
fibroblasts. Science. 1997;278:2130–2134.
Schwann T., Schleyden M.J. Microscopical researches into the accordance in the structure and growth of
animals and plants. London: Printed for the Sydenham Society; 1847.
Stevens N.M. Studies in spermatogenesis with special reference to the ‘accessory chromosome’. Washington.
D.C.: Carnegie Institute of Washington; 1905.
Stevens N.M. A study of the germ cells of Aphis rosae and Aphis oenotherae. J. Exp. Zool. 1905;2:371–405.
507–545
Waddington C.H. The strategy of the genes. London: Geo Allen & Unwin; 1957.
Weismann, A. (1893): The germ-plasm: A theory of heredity. Translated by W. Newton Parker and H.
Ronnfeld. Walter Scott Ltd., London.
Wilkinson D.G., Bhatt S., Herrmann B.G. Expression pattern of the mouse T-gene and its role in mesoderm
formation. Nature. 1990;343:657–659.
Willadsen S.M. Nuclear transplantation in sheep embryos. Nature. 1986;320:63–65.
Wilmut I., Schnieke A.E., McWhir J., Kind A.J., Campbell K. Viable offspring from fetal and adult
mammalian cells. Nature. 1997;385:810–814.
Wilson E.B. The chromosome in relation to the determination of sex in insects. Science. 1905;22:500–502.
Wolf K.F. De formatione intestorum praecipue. Novi Commentarii Academine Scientarum Imperialis
Petropolitanae. 1767;12:403–507.
38
Capítulo 2
Mecanismos celulares e moleculares do desenvolvimento embrionário
Morten Vejilsted
Desenvolvimento embrionário inicial e períodos gestacionais
O desenvolvimento embrionário abrange todos os processos nos quais uma única
célula – o óvulo fertilizado ou zigoto – origina primeiro um embrião e,
posteriormente, um feto que ao nascimento é capaz de adaptar-se à vida pós-natal.
Esses processos ocorrem de maneira contínua, mas, por conveniência, podem ser
arbitrariamente divididos em períodos sucessivos. Dessa forma, o desenvolvimento
intrauterino é comumente dividido em período embrionário, quando a maioria dos
sistemas é formada, e período fetal, que consiste majoritariamente no crescimento e
maturação dos órgãos (Cap. 18). No entanto, o desenvolvimento do organismo não
para ao nascimento; os órgãos continuam a crescer e maturar ao menos até a
puberdade e muitos tecidos necessitam de reposição contínua ao longo da vida.
Portanto, o envelhecimento e a morte podem também ser incluídos no processo
natural de desenvolvimento do organismo.
O período embrionário é iniciado pela fertilização quando o ovócito, recoberto
pela zona pelúcida, é fecundado pelo espermatozoide resultando no desenvolvimento
do pronúcleo feminino (derivado do ovócito) e do pronúcleo masculino (derivado
do espermatozoide) e na formação do embrião de uma célula chamado zigoto (Fig. 2-
1; Cap. 5). Na primeira mitose após a fertilização o zigoto transforma-se em um
embrião de duas células. Essas duas, e as subsequentes células embrionárias iniciais,
são denominadas blastômeros. Durante as divisões mitóticas iniciais dos
blastômeros, o aumento no número de células não é acompanhado de aumento de
volume celular, de tal modo que o volume total do embrião permanece constante à
medida que o tamanho dos blastômeros vai sendo reduzido à metade após cada
divisão. Este modo de divisão celular, que ocorre exclusivamente neste período, é
conhecido como clivagem (Cap. 6). Em seguida, simultaneamente à fase em que as
células atingem um determinado tamanho mínimo decorrente das clivagens
sucessivas, inicia-se uma fase de crescimento celular durante os ciclos celulares, com
as células-filhas crescendo até atingirem o tamanho aproximado das células-mães. A
39
manutenção do tamanho celular relativamente constante, juntamente com a intensa
proliferação celular e deposição de material extracelular, leva ao aumento do
tamanho do embrião como um todo. Tanto a proliferação celular como o crescimento
celular são fundamentos de biologia celular geral que não serão abordados em
profundidade neste livro.
Fig. 2-1 Desenvolvimento inicial do embrião mamífero. A: Zigoto; B: embrião de 2 células; C:
embrião de 4 células; D: mórula inicial; E: mórula compacta; F: Blastocisto; G: Blastocisto
expandido; H: Blastocisto eclodindo da zona pelúcida; I: Blastocisto ovoide com disco
embrionário; J: Blastocisto elongado; K: Disco embrionário no processo de gastrulação. 1:
40
Massa celular interna; 2: Trofectoderma; 3: Epiblasto; 4: Hipoblasto; 5: Disco embrionário; 6:
Pregas amnióticas; 7: Ectoderma; 8: Mesoderma; 9: Endoderma.
Por fim os blastômeros formam um pequeno agregado celular, similar a uma
amora arredondada, chamado de mórula (Fig. 2-1; Cap. 6). Inicialmente, a mórula é
caracterizada por blastômeros protuberantes individualizados; posteriormente, estas
células aderem-se firmemente umas às outras e formam a mórula compacta, com
superfície mais uniforme. Este processo é conhecido como compactação. As células da
camada externa originam o trofectoderma. Subsequentemente, durante o processo
de blastulação, forma-se no interior do trofectoderma uma cavidade preenchida por
líquido, denominada blastocele, bem como um conjunto de células internas,
denominado massa celular interna (MCI), reunidas em um dos polos do embrião,
que neste momento é denominado blastocisto. O trofectoderma participará da
formação da placenta (Cap. 9) enquanto que a MCI originará o embrião
propriamente dito. O blastocisto expande-se, eclode da zona pelúcida e,
posteriormente, ao final da blastulação, a MCI forma duas camadas celulares, uma
interna e outra externa, denominadas hipoblasto e epiblasto, respectivamente,
estabelecendo o disco embrionário bilaminar. Nos animais domésticos, a formação
do disco embrionário bilaminar está associada ao desaparecimento da camada de
trofectoderma que recobre o epiblasto (Cap. 6). Concomitantemente, o formato do
embrião muda de esférico para ovoide e posteriormente para tubular e filamentoso,
exceto nos equinos. O período compreendido entre a fertilização e a blastulação
completa dura cerca de 10 a 12 dias em suínos, caprinos, ovinos e felinos, 14 dias em
bovinos e equinos e 16 dias nos cães.
Durante a fase subsequente do período embrionário, o disco embrionário
bilaminar é transformado em um disco embrionário trilaminar pelo processo de
gastrulação (Fig. 2-1; Cap. 7). A gastrulação leva à formação das três folhetos
germinativos, ectoderme, mesoderme e endoderme, e à formação das células
germinativas primordiais, as progenitoras das células da linhagem germinativa. No
início do processo de gastrulação, a porção do trofectoderma localizada ao redor do
disco embrionário, juntamente com o mesoderma extraembrionário subjacente, dá
origem às pregas amnióticas que se fundem

Mais conteúdos dessa disciplina