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RESUMO DE FILOSOFIA
1. A origem existencial da Filosofia
Não é possível indicar com precisão quando o ser humano começou a pensar. O que sabemos é que, quando pensamos e buscamos respostas para as questões que dizem respeito a nós e ao mundo onde vivemos, parece que respondemos a uma necessidade de encontrar sentido para tudo o que existe. Essa necessidade fez nascer a Filosofia, assim como deu origem a outras formas de expressão e de busca de compreensão propriamente humanas, tais como a arte e a religião.
1.1. Pitágoras: a Filosofia como atividade contemplativa
De acordo com o biógrafo e historiador da Filosofia, Diôgenes Laêrtios, foi Pitágoras o primeiro a usar o termo e a chamar-se de “filósofo”. Ao ser chamado de “sábio” (sophos) pelo rei Lêon, tirano da cidade de Fliús, Pitágoras teria recusado o título, dizendo ser apenas um “amigo do saber” (philosophos). Ora, por que “amigo do saber”, e não simplesmente “sábio”? Existe alguma diferença? Para Pitágoras, sim.
Segundo Pitágoras, a sabedoria é um atributo dos deuses e dela os seres humanos podem apenas participar, tornando-se filósofos. Então, para especificar o que seria próprio do filósofo, Pitágoras se vale de uma analogia entre o modo próprio de o pensamento filosófico proceder e o de outras pessoas de seu tempo, tomando como exemplo os tipos de pessoas que costumavam frequentar aquela que era a festa mais importante da Grécia: os Jogos Olímpicos (festa celebrada em homenagem a Zeus, o principal deus do Olimpo).
Eram três os tipos de pessoas que costumavam frequentar essa festa: os comerciantes, os competidores (artistas e atletas) e os espectadores. Cada um deles comparecia aos jogos com um propósito: os comerciantes aproveitavam para vender seus produtos, servindo, assim, aos seus próprios interesses financeiros; os artistas e os atletas iam com o propósito de competir e mostrar o quanto eram excelentes em suas respectivas atividades (diferentemente dos Jogos Olímpicos modernos, na Grécia Antiga havia também competições de poesia, dança, música, teatro e outras manifestações culturais); já os espectadores iam aos jogos movidos pelo prazer de contemplar a atuação dos competidores (atletas e artistas), que, com suas habilidades e façanhas, realizavam proezas próprias dos deuses.
Aqui temos uma questão curiosa: a palavra “contemplação” – que, em grego, se diz theoría – significa, literalmente, “ver o divino”. Quando os espectadores “contemplavam” o espetáculo que se desenrolava sob seus olhos, era como se vissem a própria manifestação da divindade. 
O que essa analogia de Pitágoras nos diz sobre o filósofo e sobre a Filosofia? Em primeiro lugar, ao comparar o filósofo ao espectador, Pitágoras está nos dizendo que a Filosofia é uma atividade essencialmente contemplativa. Isso significa que o filósofo é aquele cuja principal atividade é o pensar: examinar tudo aquilo que acontece ou que chame a atenção, independentemente dos resultados daí advindos. Por exemplo: enquanto alguns buscam o lucro (comerciantes) e outros buscam a fama (competidores), o filósofo é movido pela busca da verdade. Como consequência, a Filosofia é uma atividade desinteressada, já que visa ao conhecimento da verdade por si mesma, e não por qualquer outro motivo, como o lucro, a glória ou a fama.
Mas por que filosofamos? Para Pitágoras, filosofamos porque não somos sábios (como os deuses), porque não conhecemos a verdade e somos movidos pelo desejo natural de conhecê-la. 
1.2. Aristóteles: a Filosofia como filha do “espanto” ou da “admiração”
Aristóteles (384-321 a.C.) também se perguntou o que levou os homens a filosofar. No início da Metafísica, uma de suas mais importantes obras, ele escreve que “Os homens começaram a filosofar, agora como na origem, por causa da admiração...”.
Essa “admiração” a que se refere o filósofo corresponde àquilo que Pitágoras chamava de theoría ou contemplação. Cheio de admiração e de espanto diante de tudo aquilo que existe, e ciente de sua própria ignorância, o filósofo é aquele que, por meio da contemplação, busca conhecer a si mesmo e ao mundo que o cerca.
É importante notar que Aristóteles, ao tratar do início da Filosofia, se vale da expressão “agora como na origem”. Ora, ao referir-se, nessa passagem, à “origem”, Aristóteles tem em mente o que podemos chamar de o começo histórico da Filosofia; já quando emprega a palavra “agora”, ele nos remete à necessidade e à atividade de filosofar que compete a cada um de nós, individualmente, independentemente das circunstâncias históricas e das condições particulares em que vivemos.
Desse modo, para Aristóteles, a reflexão filosófica não é uma atividade exclusiva daqueles que oficialmente chamamos de “filósofos” ou que a tradição consagrou como tais, mas de todos nós, na medida em que compartilhamos uma razão comum (todos os seres humanos são racionais, igualmente dotados de logos) e somos igualmente movidos pelo desejo natural de conhecer. Essas considerações feitas por Aristóteles nos permitem distinguir uma origem existencial da Filosofia (que não é datada, nem exclusiva dos gregos, mas compartilhada por todos que pertencem ao gênero humano) e sua origem histórica, sobre a qual falaremos no tópico seguinte.
Aristóteles nos diz ainda que o saber filosófico se diferencia de outros tipos de saberes por seu caráter particularmente “desinteressado”. O que ele quer dizer com isso? Como já vimos, ele diz que os homens filosofam para se libertarem da ignorância, visto que aqueles que experimentam a sensação de dúvida e de admiração diante do mundo reconhecem que nada sabem. Primeiramente, o homem buscou aquele tipo de conhecimento necessário para viver no mundo, para resolver os problemas práticos que sua própria existência lhe impunha. Trata-se, então, de um tipo de conhecimento que pudesse lhe trazer algum benefício ou vantagem, que visava à satisfação de suas necessidades imediatas, assim como o seu conforto e o seu bem-estar.
Tendo conseguido tudo de que necessitava para sua vida prática, o ser humano se lançou na busca de um outro tipo de saber, um saber, ele diz, buscado por si mesmo, e não por alguma vantagem que lhe seja estranha. A esse tipo de saber, Aristóteles chama de Filosofia. Dizer que o saber filosófico é “desinteressado” significa que ele não é regido pelo imperativo da utilidade, da aplicabilidade imediata, da eficácia (como é o caso dos saberes das diversas ciências que conhecemos). O pensar filosófico é um tipo de saber que é um fim em si mesmo e, portanto, livre, assim como dizemos que é livre o indivíduo que não está submetido à vontade de um outro indivíduo.
Para Aristóteles, o saber filosófico é desinteressado na medida em que responde a uma necessidade existencial do indivíduo enquanto ser humano. Essa qualidade atribuída e esse tipo de saber é, antes de tudo, uma forma de diferenciá-lo dos outros saberes ou das outras formas de conhecimento (as que hoje denominamos “ciências”) e de estabelecer uma hierarquia: um saber é mais perfeito quanto mais ele disser respeito às necessidades fundamentais do espírito humano, que são bem diferentes daquelas que dizem respeito à subsistência, ao conforto material, à posse de bens e outras utilidades práticas da vida. 
2. A origem histórica da Filosofia
2.1. Filosofia: saber oriundo do Oriente ou “milagre grego”?
Durante muito tempo discutiu-se se a Filosofia seria a principal contribuição dos gregos antigos para a civilização ocidental. Indo além, muitos chegaram a sustentar a tese de que a Filosofia se originou exclusivamente da genialidade dos gregos, sem contar com qualquer contribuição, empréstimo ou influência de outras civilizações, como a dos egípcios e a dos judeus. Essa posição ficou conhecida como a tese do “milagre grego”, e um dos seus primeiros defensores foi Diógenes Laêrtios, considerado o primeiro historiador da Filosofia. Diógenes Laêrtios recusava a ideia de que a Filosofia havia sido uma criação dos povos ditos “orientais”, tendo os gregos apenas retomado ideias estrangeiras, adaptando-as a seu próprio modo de pensar.
Por outro lado, autores como Heródoto (considerado o “pai da História”), e mesmo filósofos como Platão e Aristóteles, adotavam uma perspectiva distinta ao reconhecerem que os gregos tinham, no mínimo, uma “dívida intelectual” com os povos do Oriente. Desse ponto de vista, a Filosofia, tal como a conhecemos, seria fruto das transformações operadas pelos próprios gregos sobre os conhecimentos que eles receberam e assimilaram dos povos orientais. Trata-se da chamada tese “orientalista”.
Ambas as teses possuem argumentos consistentes e plausíveis a seu favor, mas são extremas, desconsiderando as nuances próprias do tipo de acontecimento em questão.
Assim, o que poderíamos chamar de uma tese intermediária é aquela segundo a qual a Filosofia não é nem fruto exclusivo do “milagre grego”, nem uma mera adaptação de saberes vindos do Oriente. Segundo essa tese, a Filosofia é grega na medida em que foram as condições históricas vividas pelos gregos naquela época que propiciaram o surgimento dessa forma de pensar, cujas consequências constituem nosso legado cultural e intelectual.
2.2. As condições históricas que permitiram o surgimento da Filosofia na Grécia
Quais seriam, então, as condições históricas que permitiram o surgimento da Filosofia no solo grego? Os historiadores costumam apontar especificamente cinco acontecimentos que foram fundamentais para o início e o desenvolvimento da Filosofia na Grécia. 
 
 
Vale a pena nos determos um pouco mais no último desses tópicos, que trata da política e, consequentemente, da cidade-estado, tal como inventada pelos gregos. Isso não significa que outras civilizações não tivessem, antes, algum tipo de organização política. Significa apenas que o modo como os gregos pensaram, organizaram e fizeram política foi inédito, tornando-se base para toda a cultura ocidental posterior.
	Numa sociedade como a do Egito Antigo, a figura do governante se confundia com a figura da própria divindade: o Faraó era considerado filho de um deus (Filho de Rá), o que contribuía para dar legitimidade ao cargo que exercia, assim como para lhe conferir poderes absolutos sobre a vida dos seus súditos
	Além disso, naquela sociedade, os sacerdotes dispunham de um poder político considerável, pois sua “palavra sagrada” era entendida como lei pelos egípcios.
	Com os gregos, por outro lado, acontece o que poderíamos chamar de uma “secularização” da política (nesse contexto, “secularização” corresponde, basicamente, à passagem de uma instituição – no caso, a política – que estava sob o domínio religioso para um regime laico). Isso significa que os gregos promoveram uma importante distinção entre os campos religioso e político, separando o que é de ordem privada (como as crenças) e o que é de ordem pública (como a participação e a tomada de decisões políticas). A lei, por exemplo, deixa de ser uma ordem oriunda das divindades e interpretada pelos sacerdotes, e passa a ser concebida como expressão da vontade coletiva dos cidadãos que decidem, por si mesmos, como querem viver. Não por acaso, as cidades gregas gozavam de um espaço especial destinado à participação dos cidadãos nas discussões e na tomada de decisões políticas: a ágora. Assim, fazer política – cuidar do destino da pólis – não era apenas um direito, mas, sobretudo, um dever dos cidadãos que, reunidos na ágora, gozavam da liberdade e do direito de usar a palavra (isegoria) para dialogar, discutir, deliberar e decidir racionalmente o que deveriam ou não fazer para o benefício de todos e da cidade.
	Esse processo de “secularização” da política, de criação de um ambiente de liberdade para dialogar, discutir e tomar decisões assim como todas as outras transformações pelas quais passava a sociedade grega daquele período foram extremamente propícias para o surgimento da Filosofia. Por essa razão, hoje se considera que a Filosofia não foi fruto de um “milagre grego” nem de uma simples apropriação, pelos gregos, da “sabedoria do Oriente”, mas sim resultado de uma série de condições que permitiram seu surgimento e consequente desabrochar.
	3. A mitologia
	Lembra-se do Édipo, da Esfinge e do enigma? Pois bem! “O ser humano”: esta é a resposta ao enigma que a Esfinge propôs a Édipo. É o ser humano o animal que anda pela manhã sobre quatro patas (o bebê engatinhando durante a infância, a “manhã da vida”), à tarde sobre duas (o homem que anda ereto na “tardia” idade adulta) e à noite sobre três (quando necessita da bengala na velhice, o ocaso da vida). Assim, o ser humano é, ele mesmo, não apenas a resposta ao enigma, mas o próprio enigma. 
	“Há muitas maravilhas, mas nenhuma é tão maravilhosa quanto o homem”,(Sófocles, 1993, p. 210-211)
	3.1. O que é o mito
	O filósofo e mitólogo romeno Mircea Eliade (1907-1986) nos oferece uma interessante e bastante elucidativa caracterização do mito:
	[...] o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do “princípio”. Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre, portanto, a narrativa de uma “criação”: ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser. O mito fala apenas do que realmente ocorreu, do que se manifestou plenamente. Os personagens dos mitos são os Entes Sobrenaturais.
	O que podemos depreender dessa passagem?
	A. Que a narrativa mítica refere-se a um tempo que não é datado, ao “tempo fabuloso do ‘princípio’”. Nesse sentido, não é um evento histórico, passível de ser situado cronologicamente;
	B. Que a narrativa mítica é a narrativa de uma “criação”. Ela ilustra como alguma coisa passou a existir, como veio a ser, inclusive como teria se originado o próprio mundo natural ordenado, que os gregos chamaram de cosmo (a palavra grega cosmogonia indica essa característica fundamental do mito: relatar como se originou a ordem que caracteriza o próprio modo de ser da natureza);
	C. Que os protagonistas dos mitos são os Entes Sobrenaturais, cujas façanhas encontram-se sempre presentes nos relatos míticos.
	Os mitos, na medida em que fazem parte da tradição cultural de uma dada sociedade, representam a própria cosmovisão daqueles que dela fazem parte, a forma particular de conceber e de vivenciar a realidade. Por isso, o mito conta com a adesão e a aceitação daqueles indivíduos para os quais ele era narrado: aqueles que contavam e também os que ouviam esses relatos os tomavam como se tudo o que era dito realmente tivesse ocorrido.
	Por seu estreito vínculo com as crenças e práticas religiosas, o mito possui um caráter dogmático, não estando sujeito à crítica, ao questionamento ou à discussão. Do mesmo modo, sua forma de explicação da realidade é fortemente marcada pela presença do sobrenatural, do misterioso, do sagrado. Assim, um dos principais embates da Filosofia nascente com tradição mítica dos gregos se dará nesse terreno em que disputam duas forças contrárias: de um lado, o dogmatismo e o forte apelo ao sobrenatural característicos do pensamento mítico; de outro, a postura crítica e a insistência na busca de uma explicação racional e natural para os fenômenos naturais e humanos, característicos do pensamento filosófico-científico.
	3.2. A mitologia grega
	Embora diversos povos ao redor do mundo, em diferentes períodos da história, tenham criado um conjunto de relatos míticos (mitologia) extremamente ricos tanto em sua forma quanto em seu conteúdo, uma das principais referências que temos quando tratamos desse tema é a mitologia grega. 
	Os gregos criaram e transmitiram a nós inúmeros mitos, muitos dos quais foram retomados por pensadores e estudiosos das mais diversas áreas, por eles lidos e interpretados com diferentes propósitos. 
	A maior parte dos mitos gregos nos foram transmitidos pelos poetas, dentre os quais se destacam Homero e Hesíodo, responsáveis por recolher e registrar aqueles relatos míticos dos diversos
povos que ocuparam a Grécia desde o Período Arcaico (cerca de 1500 a.C.). Homero é considerado o autor de duas grandes obras, a Ilíada e a Odisseia. Já a obra Teogonia, que constitui um relato sobre a origem dos deuses, é atribuída a Hesíodo.
	Cada um dos deuses gregos encarnava algum aspecto da vida, uma força ou elemento da natureza, uma virtude, uma atividade ou qualidade humana, etc
	Assim, Cronos (o tempo) era filho de Gaia (Terra), que, por sua vez, era filha de Caos (Desordem). Cada elemento da natureza era representado por um deus: Hefesto (Fogo), Gaia (Terra), Poseidon (Mar / Água), Éolos (Ar). Havia o deus da guerra (Ares), a deusa da caça (Ártemis), o do amor (Eros), a deusa da beleza (Cárites), da sabedoria (Atena). Zeus, senhor do Olimpo (a morada dos deuses), era o mais poderoso de todos os deuses. Todos eram imortais, possuíam poderes sobrenaturais e gostavam muito de se intrometer nos assuntos e negócios dos humanos.
	O filósofo francês Luc Ferry defende enfaticamente que a reflexão não é de modo algum uma propriedade exclusiva da Filosofia: prova disso é a própria riqueza sapiencial da mitologia grega, da qual a Filosofia é uma das herdeiras mais diretas. Na mitologia grega, aquelas interrogações fundamentais dos filósofos sobre o mundo, sobre a vida e sobre como viver de modo pleno já se encontravam como que em germe, apenas sob um outro formato.
	[…] a mitologia está muito longe de ser, como frequentemente se acha nos dias de hoje, um apanhado de “contos e lendas”, uma série de pequenas histórias mais ou menos fantasmagóricas, com a exclusiva finalidade de distrair. Ao contrário de se limitar a uma simples diversão literária, ela verdadeiramente constitui o cerne da sabedoria antiga, a origem profunda daquilo que a grande tradição da filosofia grega logo a seguir desenvolveu sob uma forma conceitual, visando definir os parâmetros de uma vida bem-sucedida para nós, mortais.
	3.3. A trajetória do mito ao logos
	Tanto o mito quanto a Filosofia surgem da necessidade humana de explicar o mundo e os fenômenos que nele acontecem, assim como da necessidade de conferir sentido ou significado ao que somos e ao que fazemos. O que servirá para distinguir o tipo de respostas oferecidas pelos mitos daquele tipo de respostas elaboradas pelos filósofos será o modus operandi de cada uma dessas criações da mente humana. Ou seja, enquanto o mito é, essencialmente, uma narrativa, a Filosofia, desde as suas origens, apresenta-se como a busca de uma explicação propriamente racional para a realidade natural, assim como para os problemas humanos.
	Mas o que é explicar? Qual a diferença entre a explicação e a simples narrativa?
	Explicar é mostrar como um dado fenômeno encontra-se relacionado a uma causa que lhe é anterior e que o determina; ou seja, explicar é estabelecer uma conexão (“nexo causal”) entre fenômenos naturais que identificamos ao observar a natureza.
	O mito, embora também coloque esse tipo de questão sobre a origem dos fenômenos naturais, não oferece uma explicação como aquela a que nos referimos anteriormente, que é característica do pensamento filosófico-científico (e que depois se tornará o modo de explicação por excelência das chamadas “Ciências Naturais”). O que temos nos relatos míticos, ao contrário, é uma narrativa repleta de mistério e de coisas fabulosas, e, como vimos, protagonizada ou ao menos dependente da ação daqueles entes sobrenaturais que povoam a mitologia.
	No mito, não temos, propriamente, uma explicação racional da origem de determinado fenômeno, mas simplesmente uma exposição por meio de palavras ou de imagens de um suposto acontecimento ou de uma série de acontecimentos mais ou menos encadeados – justamente o que chamamos de narrativa.
		4.O nascimento da Filosofia
	Os historiadores da Filosofia nos dizem que ela possui data e local de nascimento (o século VI a.C., nas colônias gregas espalhadas pelo Mar Mediterrâneo), assim como um iniciador (Tales de Mileto, c. 585 a.C.). 
	Mileto, no tempo em que viveu Tales, era uma cidade portuária no litoral da Jônia (Ásia Menor) que possuía um intenso comércio com seus vizinhos, particularmente Chipre, Fenícia, Egito, Creta, Lídia e os impérios da Mesopotâmia. Como vimos anteriormente ao abordar as condições históricas que propiciaram o surgimento e o desenvolvimento da Filosofia na Grécia, as viagens marítimas comerciais tiveram um importante papel nesse processo, e a pequena ilha de Mileto, onde viveu Tales, o primeiro filósofo de que se tem notícia, era famosa à época por sua vocação comercial e, sobretudo, por seu porto, sempre repleto de veleiros das mais diversas partes do mundo, e por seus armazéns, que estocavam mercadorias do mundo inteiro.
	Foi ali que nasceu a Filosofia, essa nova forma de pensar que mudou para sempre o modo como encaramos o mundo e a vida, e que constitui talvez o mais importante legado dos gregos para a civilização ocidental. A seguir, trataremos dos principais períodos da filosofia grega, assim como apontaremos quais as escolas de pensamento que marcaram o início da Filosofia e seus respectivos representantes.
4.1. Os principais períodos da filosofia grega
	A história tradicional da Filosofia costuma começar, portanto, com Tales, que viveu no século VI a.C. Desse modo, é com ele que se inicia aquele que é considerado o primeiro dos três grandes períodos da filosofia antiga – o período pré-socrático ou cosmológico, que vai, portanto, de Tales, no século VI a.C., até os sofistas e Sócrates, no século V a.C. 
	No primeiro período da filosofia grega (chamado de pré-socrático ou cosmológico), encontramos vários filósofos que, tanto por suas diversificadas origens geográficas quanto pelas ideias distintas que sustentavam, acabaram por constituir diferentes tendências ou escolas de pensamento. Os historiadores da Filosofia costumam dividi-las em quatro: (1) Escola Jônica; (2) Escola Italiana; (3) Escola Eleata; e (4) Escola Atomista.
	São, portanto, diversas as escolas e muitos os filósofos que representam as diferentes perspectivas intelectuais que marcaram o alvorecer da filosofia grega. Mas, apesar dessa diversidade de perspectivas intelectuais, os filósofos das diferentes escolas de pensamento possuíam uma característica comum: todos construíram cosmologias, isto é, teorias filosóficas que se ocupavam, basicamente, com investigar a origem do mundo e as causas das transformações na natureza (physis), razão pela qual ficaram também conhecidos como cosmologistas, físicos ou ainda naturalistas.
	O fato de serem também conhecidos como filósofos pré-socráticos encontra-se ligado mais a essa orientação naturalista ou cosmológica de seu pensamento do que propriamente a uma questão cronológica. Com efeito, alguns dos filósofos a quem nos referimos como “pré-socráticos” foram contemporâneos de Sócrates (c. 470-399 a.C.) e, portanto, não poderiam ser adequadamente classificados como tendo vivido antes de Sócrates. 
	5. A filosofia pré-socrática ou naturalista
	Ao longo de todo o século VI a.C., nas colônias gregas do Mar Mediterrâneo, diferentes escolas filosóficas irão se desenvolver em torno de um interesse comum: explicar racionalmente a origem e o funcionamento do cosmo. Muitos dos relatos míticos procuraram também oferecer respostas para a pergunta da origem do cosmo, razão pela qual ficaram conhecidos como mitos cosmogônicos. No entanto, como vimos anteriormente, ao passo que o mito constitui uma narrativa sobre a origem e criação dos seres e do próprio mundo (daí cosmogonia, termo oriundo da conjunção das palavras gregas cosmo = ordem, harmonia, beleza + gonos, gonia = narrativa), as primeiras teorias filosóficas serão tentativas de explicar racional e teoricamente a origem do mundo e da ordem que nele impera – por isso a palavra cosmologia: a explicação ou discurso racional (logos), da origem da ordem natural (cosmos) e, em última instância, de todos os processos e fenômenos naturais.
	O cosmos, para o grego antigo, corresponde à própria realidade natural, ao mundo – tanto terreno quanto celeste
– que possui uma harmonia, uma ordem, uma beleza que são racionais. Dada essa correspondência ou homologia entre a razão humana e a racionalidade cósmica (o semelhante reconhece o semelhante), o mundo pode ser, enfim, compreendido. A essa compreensão damos o nome de ciência. Assim, a Filosofia que nasce com os pré-socráticos se confunde com a própria ideia grega de ciência, razão pela qual nos referimos ao pensamento filosófico originário como “pensamento filosófico-científico”.
	Para tentarmos compreender esses pensadores originários, devemos considerar duas noções centrais. A primeira delas é a ideia de arché. Essa palavra grega possui, basicamente, dois grandes significados, um dos quais nos interessa particularmente nesse contexto. Arché significa fundamento, origem, princípio. Os primeiros filósofos gregos, como veremos a seguir, buscavam a arché, isto é, o elemento originário ou primordial de tudo o que existe. Com isso eles queriam dizer uma espécie de causa primeira ou fundamental, a partir da qual todo o restante (todos os processos naturais) seria como um mero conjunto de efeitos
	6. Sócrates: educador da juventude e “parteiro” das ideias
	Sócrates nasceu em Atenas por volta de 470 / 469 a.C., onde viveu toda sua vida até ser condenado à morte no ano de 399 a.C., acusado de desrespeitar os deuses da pólis e de corromper a juventude. Ele nunca escreveu, pois acreditava que a Filosofia devia ser oral e dialogal, isto é, uma atividade (não um saber acabado) baseada no diálogo entre interlocutores interessados em colocar à prova suas próprias opiniões e buscar, juntos, o conhecimento da verdade. Platão, o maior e mais conhecido de seus discípulos, nos legou grande parte do que sabemos a respeito de Sócrates por meio de seus Diálogos, uma série de conversas filosóficas sobre temas diversos (amor, conhecimento, justiça, coragem, retórica, beleza, imortalidade da alma etc.) que parecem imitar ou reproduzir as conversas que ouviu de seu mestre nas ruas de Atenas, que era onde Sócrates acreditava ser o lugar mesmo da Filosofia. Além de Platão, existem outras fontes por meio das quais conhecemos um pouco mais da vida e do pensamento de Sócrates. Uma delas é o livro Ditos e feitos memoráveis de Sócrates, do general grego Xenofonte, também ele um discípulo de Sócrates na juventude.
	Seja por suas ideias, por seu modo autêntico de vida, seu método filosófico inovador ou mesmo por sua morte em nome da liberdade de pensamento, Sócrates se tornou um marco na história da Filosofia. A imagem que Platão nos legou dele é a de alguém que não se curvava às convenções sociais, que incomodava com suas perguntas os pretensos sábios de sua época e que defendia enfaticamente a necessidade de pensar sobre as questões mais importantes da vida, já que, segundo ele, “uma vida sem exame [sem pensamento ou reflexão] não é uma vida propriamente humana” (Platão, Apologia, 23a). Com isso, Sócrates tinha consciência do incômodo que causava, razão pela qual comparou a si mesmo a um inseto cuja missão era despertar da letargia, da falta de reflexão e de cuidado consigo mesmo (“cuidado da própria alma”, dizia Sócrates) seus concidadãos atenienses (Apologia, 30e-31a).
	6.1. O método socrático: a ironia e a maiêutica
	Para Sócrates, um dos maiores empecilhos na busca da verdade é a presunção do saber. Em suas andanças pelas ruas de Atenas, ele confrontava seus interlocutores, desafiando-os a fazer “um exame de si mesmos”, analisando o que acreditavam saber sobre aqueles assuntos no qual se julgavam especialistas. Nessas ocasiões, a pergunta feita por Sócrates era “o que é?” (o que é a verdade, a beleza, a justiça, o bem, a virtude, etc.). Assim, Sócrates abalava as opiniões do senso comum ao mostrar que seus interlocutores achavam que sabiam aquilo sobre o qual, na verdade, só possuíam opiniões contraditórias e carentes de fundamentação. Ao ser, então, instado a responder às próprias perguntas que fazia, a definir “o que é” a verdade, a beleza, a justiça, o bem, a virtude, etc., Sócrates alegava também não saber, mas se dizia disposto a investigar junto com aqueles com os quais discutia a verdadeira natureza desses valores. Isso, segundo Sócrates, fazia dele alguém mais sábio do que todos os outros que se julgavam como tais, pois, enquanto estes afirmavam saber aquilo sobre o que não sabiam, ele, Sócrates, era mais sábio na medida em que tinha consciência da própria ignorância. Temos presente, desse modo, a famosa “ironia socrática”, isto é, a estratégia do filósofo de declarar-se ignorante frente a seus interlocutores com o intuito de desmascarar seu saber aparente. Com sua peculiar ironia, Sócrates por vezes brincava de engrandecer seu interlocutor, louvando suas grandes capacidades e seu notável saber, para, em seguida, derrubar com uma lógica implacável suas afirmações, mostrando o quanto eram contraditórias suas opiniões (doxa) e, como tais, distantes da verdade (episteme).
	A estratégia adotada por Sócrates, seu método filosófico, tinha, na verdade, dois propósitos principais: primeiro, o de levar seu interlocutor a realizar um “exame de si mesmo”, purificando-se das falsas opiniões e livrando-se de um saber presumido; segundo, o de conduzi-lo, então, à busca do verdadeiro saber, do qual, segundo o próprio Sócrates, nossa alma já se encontrava “grávida”, precisando apenas de um “parteiro” para que pudesse vir à luz – essa concepção pressupõe a existência, na alma, de um saber germinal ou potencial, passível de ser suscitado ou desenvolvido por meio da conversação filosófica. Essa segunda parte de seu método recebeu, por isso, o nome de “maiêutica” (que, em grego, significa “parto”).
	Sócrates era um educador e, como tal, reuniu em torno de si muitos e importantes jovens atenienses, que, fascinados com seu método e sua filosofia, o seguiam e imitavam, levando adiante suas ideias. 
	O que Sócrates procurava incutir em seus discípulos é que ninguém consegue bem governar os outros sem, antes, ser capaz de governar a si mesmo, ou seja, sem ser capaz de autodomínio – enkrateia, em grego. Trata-se não de uma virtude em especial, mas sim da “base de todas as virtudes”, nos diz Xenofonte, e quem melhor encarnava esse ideal de homem era o próprio Sócrates:“[...] suas ações mais que suas palavras testemunhavam sua temperança: sobranceiro não somente nos prazeres dos sentidos como também ao que busca a riqueza, achava que receber dinheiro do primeiro que aparece é comprar um senhor e sujeitar-se à mais ignominiosa servidão.” (Xenofonte, Ditos e feitos memoráveis de Sócrates, I, V, 6).
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