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SUMÁRIO 
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 3 
2 CIÊNCIAS E ETNOCIÊNCIA: CONCEITOS, PRÁTICAS E ESPECIALIDADES. 4 
3 ORIGENS DA ETNOFARMACOLOGIA E A HISTÓRIA DO USO DE PLANTAS 
MEDICINAIS ............................................................................................................. 10 
3.1 Os vestígios medicinais do mundo vegetal na experiência primitiva e na 
Antiguidade ............................................................................................................ 11 
3.2 A antiguidade Grego Romana e a Idade Média ................................................ 13 
4 A DIVERSIDADE ETNOFARMACOLÓGICA BRASILEIRA. ............................. 16 
4.1 A etnociência da cura e das plantas (a herança africana). ............................... 17 
4.2 Medicina e medicina tradicional yorùbá ............................................................ 19 
4.3 As doenças, o corpo e os orixás: aspectos de uma complexa e simbólica 
classificação. ......................................................................................................... 20 
4.4 A herança indígena (curares e cura) ................................................................. 22 
5 O MÉTODO E A PRÁTICA DA ETNOFARMACOLOGIA .................................. 24 
5.1 Etnofarmacologia e estudo etnodirigido: questões metodológicas e 
epistemológicas ..................................................................................................... 28 
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS: FITOTERAPIA. ETNOFARMACOLOGIA E A 
REALIDADE BRASILEIRA ....................................................................................... 30 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................................... 33 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3 
 
 
1 INTRODUÇÃO 
 
Prezado aluno! 
 
O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante 
ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um 
aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma 
pergunta , para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum 
é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a 
resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas 
poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em 
tempo hábil. 
Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa 
disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das 
avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora 
que lhe convier para isso. 
A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser 
seguida e prazos definidos para as atividades. 
 
Bons estudos! 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4 
 
2 CIÊNCIAS E ETNOCIÊNCIA: CONCEITOS, PRÁTICAS E ESPECIALIDADES. 
Enquanto comportamento teórico, entende-se por etnociência um campo de 
pesquisa formada por diversas disciplinas (etnobiologia, etnopsicologia, etnofilosofia, 
entre outras) que estuda conhecimentos e paradigmas desenvolvidos no âmbito de 
uma cultura sobre diferentes fenômenos e dimensões da experiência. Assim, trata-se 
de uma perspectiva epistemológica que visa compreender os saberes (tradicionais e 
culturais) como formas de conhecimento legítimo para além da distinção ciência e não 
ciência, tal como surge na modernidade europeia a partir dos séculos XVI e XVII. 
O prefixo etno, nesse caso, remete-se aos conhecimentos de povos ou etnias, 
colocando no horizonte suas especificidades históricas e culturais. Destaca-se, assim, 
como um importante conjunto de ferramentas que se concretiza através da busca por 
uma abordagem mais integrativa da ciência, proporcionando uma visão científica mais 
ampla através da valorização das formas de conhecimento que escapam dos 
paradigmas da cientificidade convencional. 
Nesse contexto epistemológico, a etnobiologia é uma das dimensões e práticas 
possíveis no âmbito da perspectiva etnocientífica. Ela se se preocupa com o 
conhecimento que um povo (etno) tem da natureza., ou seja, volta-se para o corpus 
de conhecimento e estratégias de investigação de uma dada sociedade sobre a 
natureza. Assim, ela visa a descrição e elucidação do sentido da natureza no sistema 
de crenças e formas de adaptação dos seres humanos aos ambientes ao longo de 
sua história. Configura-se, portanto, como uma disciplina que descreve a imbricação 
entre os mundos físico, biológico, simbólico e social, exigindo para sua efetiva 
realização uma abordagem interdisciplinar. 
Não é somente uma metodologia entre outras possíveis, mas um 
posicionamento filosófico centrado no esforço de aproximar a ciência moderna e os 
saberes tradicionais sobre a natureza. O princípio motivador da disciplina é 
estabelecer pontes entre as distintas culturas e disciplinas teóricas, com o objetivo de 
questionar paradigmas excludentes que desconsideram o saber nas suas diversas 
formas de manifestação, expressão e produção cultural. 
Monteiro e Brandelli (2017), apontam que, embora seja uma disciplina recente, 
a Etnobiologia já era praticada por antropólogos no início do século XIX, quando estes 
estudaram os saberes e cultura dos povos indígenas das Américas, visando entender 
 
5 
 
suas relações de compreensão e vivência da natureza. Com base nas diferentes 
relações que os seres humanos mantêm com o mundo natural, a Etnobiologia pode 
ser dividida nas seguintes disciplinas: entnozoologia, etnoecologia, etnofarmacologia 
e etnobotânica 
A etnozoologia é o estudo dos conhecimentos e dos usos que uma comunidade 
humana faz dos animais, que podem ser investigados e recortados de muitas 
maneiras, conforme os objetivos da pesquisa a ser realizada. Pode-se, por exemplo, 
partir-se da constatação da existência de uma conexão emocional, quase inata, entre 
os seres humanos e as demais espécies, que remonta a própria 'criação' da cultura 
humana. 
Segundo Sax (2002), as atitudes humanas referidas aos animais evoluíram 
bem antes das primeiras tentativas de representação e expressão do mundo da 
natureza através das artes e da religião, evidenciando que no processo de 
sobrevivência e evolução da espécie humana encontramos uma relação profícua com 
os outros seres vivos; que surgem no campo simbólico humano como espelhos de 
experiências subjetivas e comunitárias humanas diversas, como também através do 
desdobramento prático segundo os processos de domesticação que marcam o 
envolvimento do ser humano com os outros seres vivos e com a natureza desde os 
começos mais remotos da cultura humana. 
A interdependência da espécie humana com os demais elementos bióticos da 
natureza pode ser explicada pelos conceitos de topofilia e biofilia. O conceito de 
topofilia segundo Yi Fu Tuan (2012, p.4) se refere ao “ [...] elo afetivo entre a pessoa 
e o lugar ou ambiente físico”. Dessa maneira, o mundo físico adquire para um ser 
humano, por exemplo, um sentido simbólico que reflete suas demandas de 
sobrevivência e desejo de ‘desenvolvimento’. O espaço físico não é somente ‘espaço’ 
exterior à experiência dos organismos, mas sua condição de existência. Podemos 
entender esse conceito se considerarmos a diferenciação que Kurt Koffka (1886-
1941), psicólogo da gestalt, colocou em cena, no começo do século XX, distinguindo 
meio geográfico e meio comportamental. 
Na perspectiva de Kofka (1975), o meio geográfico são as condições físicas 
nas quais um organismo se desdobra enquanto ‘fenômeno’ objetivo, supondo que é 
possível falar de um ser vivo como um conjunto regido por leis que podem ser medidas 
e conhecidas “objetivamente”. O organismo é isso que acontece no meio geográfico, 
 
6 
 
fenômeno que um observador pode ‘olhar’ tentando33 
 
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medicines/areas/traditional/wha4243.pdf: Acesso em: 24 fev. 2023fazer ciência física, seja em uma 
perspectiva de análise dos fenômenos comportamentais ou fisiológicos. No entanto, 
o organismo também é isso que se mostra como dotado de um sentido (ou seja, 
direção) em seu ambiente. O meio comportamental, quando pensamos nos seres 
humanos, é onde esse ser acontece enquanto fenômeno e experiência 
multidimensional: com dimensões físicas, biológicas, sociais, históricas, culturais, 
cerebrais e espirituais. Podemos, na perspectiva de Kofka (1975), dizer que o meio 
comportamental surge do embate do ser vivo com meio geográfico, o que faz surgir 
um espaço (topos, lugar) onde o modo de ser de um organismo está disseminado e 
se desenvolve. 
Nessa perspectiva, é possível dizer que o envolvimento com o lugar e com o 
espaço que ele inclui está fundado não apenas em relações objetivas, mas 
principalmente afetivas, que podem estar na ordem deste ‘amor’ ao lugar que o 
conceito de topifilia indica, mas também na ambiguidade que o termo amor expressa, 
apontando para relações ambíguas e inconscientes que uma existência comunal e 
individual tem para com o seu mundo, incluindo não apenas o afeto positivo mas 
relações de insegurança, amor, negação, medo, expectativas, entre outras. 
Através dos conceitos de topofilia, meio geográfico, meio comportamental e o 
organismo enquanto intenção nos deparamos com o conceito de mundo a partir do 
qual podemos falar da hipótese da biofilia. Ter um mundo estar-no-mundo não são 
condições exclusivamente humanas. A famosa afirmação de Heidegger (2006) de que 
os seres humanos são ricos de mundo, os animais pobres de mundo e a ‘pedra’ não 
tem mundo se mostra assim insuficiente, já que ter um mundo e estar no mundo é a 
condição necessária para que haja existência, no sentido de “[...] O homem é só um 
laço de relações, apenas as relações contam para o homem” (A. de Saint-Exupéry, 
Pilote de Guerre, pp. 171 e 174, tal como citado por Merleau-Ponty na Fenomenologia 
da Percepção, 1999, p. 612).. 
Essas relações não são apenas humanas ou com humanos, mas também com 
a natureza e com os outros seres que encontram na natureza suas múltiplas moradas. 
Nesse caso, a relação de mundo e existência que os seres humanos tem para com 
os animais pode ser entendida a partir da hipótese da biofilia. De acordo com essa 
hipótese, defendida por Edward Wilson (1919-1921), os seres humanos tiveram 99% 
de sua história evolutiva envolvida com outros seres vivos, tendo, assim, desenvolvido 
 
7 
 
um significativo e amplo sistema informacional acerca das espécies e do ambiente, 
que se traduz nos saberes, formas de afetos, crenças e práticas culturais relacionados 
com a fauna de cada lugar (WILSON, 2003, 2008). 
Por isso, a etnozoologia se revela também como uma ramo da etnobiologia 
que aborda as relações entre os animais e os humanos através da imbricação da 
história natural e da descrição fenomenológica das condições de existência, 
fornecendo, através de seus estudos, subsídios concretos para a construção e 
conquista de relações sustentáveis entre os seres humanos com a natureza, pautada 
na avaliação e na interpretação dos impactos atribuídos às atividades humanas sobre 
outras espécies animais, e sua relação com a biodiversidade (SAX, 2017; FITA; 
COSTA-NETO, 2007). 
Segundo Fita e Costa-Neto (2007), no Brasil, os estudos na etnozoologia ainda 
são escassos quando comparados, por exemplo, com aqueles direcionados para a 
etnobotânica. Dentre as dificuldades apontadas pelos autores e que são enfrentadas 
pelos pesquisadores brasileiros, destaca-se a ausência de estudos de caráter 
elementar e descritivo sobre a fauna brasileira. No entanto, como aponta Porfirio 
(2019), nos últimos anos a produção acadêmica sobre o tema tem aumentado através 
de monografias, dissertações e teses de doutorado preocupados com esse campo de 
estudo. 
Entende-se, ainda, que o impulso à pesquisa etnozologica se deve também a 
uma orientação explicitada e indicada Overal (1990), ainda nos anos 90 do século 
passado. Esse pesquisador chamou a atenção para a necessidade de se estudar os 
fenômenos etnozoológicos de nossa própria cultura e ambiente comunitário, uma vez 
que tradicionalmente se estudava culturas distantes ou formas sociais desaparecidas. 
O autor indica fenômenos que podem ser estudados desde uma perspectiva 
etnozoólogica, tanto em culturas ocidentais quanto nas tradicionais, como os 
domadores e treinadores de animais, chamadores de gado, admiradores de cachorros 
e outros pets, caçadores, criadores de galos-de-briga e outros animais para esporte e 
jogos de azar. Podemos acrescentar ainda a necessidade de se estudar como 
atualmente se configura nosso amor aos animais domésticos e como a indústria do 
'cuidado dos pets' tem modificado e antropomorfizado nossa forma de amar e cuidar 
dos animais domésticos, que se tornam no mundo contemporâneo o espelho de 
muitos dramas psicossociais. 
 
8 
 
Considerando o que foi dito anteriormente sobre a etnozoologia nos deparamos 
com a etnoecologia, outro campo de estudo da etnobiologia, onde está em jogo as 
relações que os seres humanos mantem com outros seres vivos, com ambiente 
natural e os impactos sistêmicos destas relações, se orientando pela necessidade de 
compreender como as comunidades humanas em sua diversidade entendem sua 
inserção no mundo natural. 
Segundo Toledo e Barrera-Bassol (2009), a Etnoecologia funda suas raízes na 
antropologia, ainda que possuam a influência de outras disciplinas. O termo 
‘etnoecologia', segundo os autores, surge na literatura científica no ano de 1954, 
através da dissertação do antropólogo americano de Harold Conklin (1926 – 2006), 
onde ele investigava o manejo das plantas por uma população das Filipinas. Entende-
se, conforme esse estudo pioneiro, que já em sua origem, a etnoecologia é o estudo 
da ecologia de um dado grupo étnico, enquanto algo singular na história deste grupo. 
Entre os ramos de pesquisa que pertencem ao campo da Etnobiologia, 
daremos mais atenção nessa exposição a etnobotânica e a etnofarmacologia, 
mostrando como essas duas disciplinas estão relacionadas com a fitoterapia. Os 
conceitos trabalhados anteriormente, biofilia, topofilia, experiência e mundo são 
também de suma importância para entender no que consistem essas duas disciplinas 
e como elas se relacionam. Segundo Brandelli e Moneiro (2017), nos termos de uma 
disciplina científica moderna, a etnofarmacologia é um ramo das ciências biológicas 
(e culturais) que se volta para as dimensões médicas (especialmente de agentes 
biologicamente ativos) usadas em sistemas tradicionais de medicina. Ao lado da 
etnobotânica, ela tem demonstrado ser um potente instrumento na busca por 
substâncias naturais com ação farmacológica. Mas o que são as disciplinas? 
O termo etnobotânica foi definido pela primeira vez em 1895, pelo botânico 
norte-americano John William Harshberger (1869 – 1929). Segundo o cientista, a 
etnobotânica se refere ao estudo das plantas usadas pelos povos aborígenes ou 
nativos de uma determinada região (HARSHBERG, 1806). Na perspectiva dos 
conceitos de mundo e experiência já trabalhados quando nos referimos a 
etnozoologia, a etnobotânica se revela como o estudo das formas como as 
comunidades humanas em sua espessura e singularidade se voltam para o mudo 
vegetal. Os etnobotânicos, portanto, investigam como as pessoas interagem com o 
meio ambiente e obtêm recursos do mundo vegetal para responder suas 
 
9 
 
necessidades culturais e físicas. É uma disciplina científica com caráter 
interdisciplinar, pois se ocupa da inter-relação entre plantas e populações humanas, 
do ponto de vista físico, biológico, cultural e médico. Sua abordagem está situada na 
fronteira entre a botânica, ao analisar a interação do natural; e a antropologia cultural, 
através da investigação dos costumes e os sistemas simbólicos que fundam e 
envolvem osprocessos de interação (MONTEIRO; BRANDELLI, 2017). 
A etnofarmacologia, por outro lado, busca investigar práticas e produtos 
utilizados tradicionalmente em sistemas médicos caseiros e tradicionais. Na 
atualidade, o manejo e o estudo da relação humana com as plantas através da 
etnofarmacologia tem se revelado extremamente vantajoso para ampliar a 
compreensão de como as plantas podem contribuir para processos de cura e 
prevenção de doenças. Através da investigação dos hábitos, das tradições e dos 
costumes de uma população em relação às plantas é possível recolher informações 
pertinentes que contribuem para a evolução de estudos farmacológicos e elucidar 
seus impactos na vida das pessoas (SAAD et al, 2018). 
No âmbito da saúde pública, ao nível brasileiro, também têm sido 
desenvolvidos métodos para a articulação e implementação da etnofarmacologia e a 
produção de medicamentos. A política e o programa Nacional de Plantas Medicinais 
e Fitoterápicos, criada em 2006, através do decreto 5.813, que teve sua política e 
objetivos detalhados em 2008, através da de uma portaria interministerial, de nº 
2.960, foi um dos grandes avanços institucionais e jurídicos nesse sentido. O 
programa se orienta pelos princípios de valorização da cultura popular e seu 
conhecimento em relação às formas de cura, entendendo ser necessário também uma 
política que possa inserir plantas medicinais, fitoterápicos e serviços relacionados à 
Fitoterapia no SUS, através de práticas seguras, eficazes e com qualidade (BRASIL, 
2006, 2006b, 2008, 2012). 
Por isso, a necessidade de desenvolver e fortalecer uma política de 
reconhecimento dos saberes tradicionais sobre os poderes curativos das plantas 
(aspecto etnofarmacológico), como também o desenvolvimento de instrumentos de 
fomento à pesquisa e inovações no campo de estudo das plantas medicinais e 
fitoterápicos, considerando as diversas fases da cadeia produtiva e seus impactos 
sociais. Tendo em vista esse contexto, o objetivo geral desta exposição é oportunizar 
 
10 
 
ao estudante conhecimento sobre as relações da pesquisa etnofarmacológica e a 
cultura 'fitoterápica' contemporânea, especialmente no Brasil. 
Para isso, começar-se-á o estudo indicando como a etnofarmacologia se 
configura enquanto campo de conhecimento e como ela está atrelada a uma longa 
história que se confunde com a própria fundação da cultura humana. O objetivo, 
inicialmente, é situar os contextos no qual esses conhecimentos sobre as plantas se 
formaram e se desenvolveram enquanto patrimônio cultural e científico determinante 
para o desenvolvimento humano. Em segundo momento, entrar-se-á no cenário 
brasileiro segundo as relações da etnofarmacologia e da fitoterapia no Brasil. 
3 ORIGENS DA ETNOFARMACOLOGIA E A HISTÓRIA DO USO DE PLANTAS 
MEDICINAIS 
Segundo Bruneton (2001), os seres humanos pré-históricos, muito antes de 
desenvolverem qualquer alfabeto ou escrita rudimentar, já empregavam algumas 
plantas como forma de alimento e remédios. A experiência humana com o poder 
terapêutico das plantas pode, portanto, ser encontrada na própria origem da cultura 
humana, enquanto propagação e manutenção da vida da espécie, conforme suas 
necessidades, sobrevivência e mitigação do sofrimento. 
Para o ser humano ‘primitivo’, as plantas significavam duas coisas: de um lado 
elas poderiam significar ‘a vida’ em sentido amplo, experimentadas formas de 
existência capazes de alimentar e curar o corpo. Em segundo, elas expressavam a 
manifestavam o poder do milagre e das divindades, pondo-os entre as coisas e os 
seres sagrados. Os modos de lida com esse conhecimento e seu desenvolvimento, 
surgiram, à medida que se tentava suprir necessidades básicas, através inferências 
causais, tentativas de compreensão e observações, dando espaço a uma espécie de 
empirismo primitivo, que encontrava, na prática, seus critérios de “verdade”. O campo 
simbólico, religioso, em torno das plantas, teria, por outro lado, surgido da 
impossibilidade de dizer como e porque uma planta pode curar e outra pode matar. 
Nos próximos subtópicos expomos, nesse sentido, aspectos das diversas fases 
das relações da vida humana com o mundo vegetal, visando indicar suas 
características principais e os primeiros sistemas de classificação e consideração do 
 
11 
 
poder curativo das plantas, para em seguida caracterizar essa relação no mundo 
contemporâneo. 
As informações trabalhadas têm como fonte o livro “As plantas medicinais”, da 
professora Mara Zélia de Almeida, de 2011, uma das pioneiras do estudo da 
Etnobotânica e da Etnofarmacologia no Brasil. Outras fontes e autores utilizados 
também serão indicados no decorrer da exposição. 
3.1 Os vestígios medicinais do mundo vegetal na experiência primitiva e na 
Antiguidade 
Segundo a Organização Mundial de Saúde (1989, 2002), deve-se compreender 
como planta medicinal o vegetal que possui, em um ou mais órgãos, substâncias que 
podem ser utilizadas com finalidade terapêutica ou que sejam precursores de 
fármacos semissintético. Entende-se, assim, que as plantas são seres vivos que 
acumulam, sintetizam e produzem substâncias que podem agir de muitas maneiras 
nos organismos heterotróficos; do ponto de vista das relações entre saúde e doença, 
elas estão em cena desde a aurora da espécie humana, constituindo o campo do que 
os gregos antigos chamaram de Pharmakon: substâncias que podem fazer viver, 
adoecer, curar ou matar os seres humanos. 
A “Tabuinha sumeriana”, por exemplo, uma coleção de textos médicos em 
tabletes de argila, registrados em escrita cuneiforme, contém os primeiros 
testemunhos e explicações orientadas pelo esforço de ligar um conjunto de sintomas 
a uma determinada enfermidade. Provavelmente, o documento foi redigido em 
Nippur, uma importante cidade da Suméria, mais ou menos 2. 600 anos a.C. 
O documento é considerado o mais antigo tratado de medicina e farmacologia 
da história humana; ele contém receitas medicinais, onde são indicados o uso de 
plantas aliadas aos elementos da natureza, tal como a terra e a água, para tratamento 
de doenças. Esse conhecimento médico e farmacológico estava atrelado a uma 
concepção religiosa, onde se entendia que todos os fenômenos da natureza estavam 
determinados pela vontade dos deuses; constituindo, assim, as regras do mundo da 
natureza e das condições de existência dos seres vivos (DIAS, 2005). 
Como dissemos, através da tradução das placas foi possível reconhecer 
receitas fitoterápicas. Por exemplo, receitas para o uso e a preparação da 
beladona, do cânhamo da Índia chamado Quinabu, ou a Cannabis sativa L. Essas 
 
12 
 
plantas eram indicadas para dores, males respiratórios e a insônia, respectivamente. 
Há também observações sobre o óleo de cedro, alcaçuz, mirra, papoula, entre outros. 
Trata-se, de uma variada descrição de formas vegetais que, se, preparadas da 
maneira correta, serviriam ao tratamento de gripes, resfriados e infecções bacterianas 
(ALMEIDA, 2011). 
Os egípcios, na África do Norte, sob a tutela de Imhotep, divindade egípcia da 
cura; e por meio da sabedoria de seus sacerdotes, tornaram-se conhecidos pelos 
seus conhecimentos com os incensos, as resinas, as gomas e mucilagens que 
constituíam a expertise da mumificação. No que tange, a medicina egípcia, cabe frisar 
ainda, que o egiptólogo alemão Yorg Ebers (1837-1898), no final do século XIX, 
encontrou um papiro, datado de aproximadamente 1500 a.C, que se tornou uma das 
fontes mais importantes para compreensão da medicina e da farmacologia antiga. O 
Papiro, conforme indica a professora Maria Zélia de Almeida (p. 36, 2011), inicia com 
a audaciosa consideração: “Aqui começa o livro da produção dos remédios para todas 
as partes do corpo humano” ... 
No papiro é apresentada uma farmacologia sistematizada, onde se descreve 
os potenciais terapêuticos de vegetais como a mirra, o sândalo e a papoula. Essa 
últimaé indicada como uma espécie de sedativo e espanta tristeza, marcada pelo 
poder de trazer a alegria e acabar com a choradeira. Diversas drogas usadas no 
âmbito da medicina egípcia ou kemética eram provenientes de tradições mais antigas 
e da cultura de povos que viviam próximos às comunidades que floresciam sob a 
proteção do Rio Nilo. As cidades do Reino de Sabá, por exemplo, no extremo sudoeste 
do deserto arábico e leste da África, eram famosas pelos seus jardins paradisíacos 
onde se expandia o milagre das ervas mágicas e curativas. Os sabeus, até mais ou 
menos 1 000 a.C., promoviam o comércio através de caravanas para o Egito onde 
vendiam seus produtos e ervas medicinais. 
Plantas e conhecimentos fitoterápicos ainda vinham da Ilha de Creta; vegetais 
como açafrão, a sálvia e o arbusto de Chipre entraram na cultura egípcia através 
desse caminho. O arbusto de Chipre tinha também uma função cultural precisa para 
os egípcios: as cascas eram usadas na produção da Henna, uma tinta para colorir os 
cabelos e as unhas. A Índia também comercializava drogas vegetais desde 2500 
a.C. No oriente, o registro farmacológico sistemático mais antigo é o Pen Tsao, de 
2800 a.C., escrito pelo herborista chinês Shen Numg, que descreve uma centena de 
 
13 
 
plantas medicinais para de diversas moléstias e formas de adoecimento (ALMEIDA, 
2011). 
Encontramos, assim, uma longa história de usos, práticas e experiência, que 
pode ser base para uma etnofarmacologia histórica, com a qual se torna possível 
delimitar e compreender as categorias que orientaram as estruturas de relação dos 
seres humanos com as plantas. Nessas tradições, há uma forte ligação entre doença 
e experiência religiosa, dando origem a uma farmacologia fundada em ‘mítica’ e 
‘simbólica’ de cada um destes povos, o que se dá em níveis diversos. 
O esforço de uma separação entre ‘farmacologia’ e experiência mítica se dará 
entre os gregos, ainda que seja impossível separar nessa tradição o conteúdo 
simbólico e científico em relação às doenças e à saúde. A noção de Pharmakon, por 
exemplo, utilizada pelos gregos para indicar uma profícua variedade de tratamentos, 
como veremos, no próximo tópico tem um sentido de ‘remédio’, mas tem também um 
sentido mágico. 
3.2 A antiguidade Grego Romana e a Idade Média 
No ambiente da cultura helênica, entre os séculos que vão desde a constituição 
do discurso filosófico grego nas colônias da Jônica (Século VII) até o fim do Império 
Romano, é possível identificar um exercício de sistematização do conhecimento sobre 
o mundo vegetal em seu sentido terapêutico e descritivo. 
Na Grécia, por exemplo, Pedacius Dioscórides (50-70) escreveu a obra que foi 
posteriormente, traduzida para o latim e suas primeiras idiomáticas vulgares pelos 
renascentistas do século XV, intitulada ‘Da matéria médica’. No ambiente da cultura-
grego romana e também na Idade Média, a texto foi tratado como o livro sagrado dos 
médicos e farmacêuticos. Em seus estudos, Dioscórides descreveu a origem, as 
características e os usos terapêuticos de mais de quinhentas formas e substâncias 
vegetais. 
A obra é um marco na história da farmacologia, sendo considerada o texto 
fundador da Farmacognosia moderna. A farmacognosia é a parte da farmacologia que 
trata das drogas ou substâncias medicinais em seu estado natural, antes de serem 
manipuladas. Em relação aos esforços anteriores, encontramos no texto do autor um 
esforço de cientificação da experiência terapêutica baseada nas plantas, ou seja, há 
 
14 
 
o intento de classificar e descrever o poder terapêutico das substâncias oriundas da 
natureza sem remetê-los a uma entidade divina. 
Após a queda do Império Romano, a Europa atravessou um longo período de 
obscurantismo científico entre os séculos V e XV, que é chamado de Idade Média. No 
entanto, ainda nesse período podemos identificar uma rica ampliação da arte médica, 
que no âmbito da farmacologia surge de conhecimentos de origem indiana. Trata-se, 
da contribuição da cultura árabe à tradição de uso e desenvolvimento da 
farmacognosia. Dessa forma, surge a Medicina Árabe, destacando-se o filósofo e 
médico Avicena (980-1063) e as suas flores como terapêutica para os males 
cardíacos. Através da península Ibérica, os conhecimentos árabes espalharam-se por 
toda a Europa. Assim, diversas drogas, desconhecidas na época, no âmbito da 
cultura europeia nascente, foram introduzidas na terapêutica. Algumas delas são as 
seguintes: canela, limão, noz-moscada, sene, tamarindo e cânfora são algumas das 
mais importantes (ALMEIDA, 2011). 
Posteriormente, com a Renascença, as Grandes Navegações, a Revolução 
científica e o Iluminismo se intensificam mudanças que vão determinar uma nova 
conformação para o tratamento do mundo vegetal e sua importância terapêutica. O 
Renascimento traz aos europeus um espírito que busca ultrapassar os limites da 
mentalidade medieval, em favor de um questionamento do princípio de autoridade, 
em arte, filosofia e ciência. Esse espírito é enriquecido pelo acontecimento das 
grandes navegações, ou seja, através da descoberta de intercâmbio de plantas 
medicinais entre os continentes podem se configurar e se fortalecer, isso tem como 
consequência a introdução das espécies originárias das Américas, podendo ser citado 
o maracujá e o guaraná, originadas nas terras do pau-brasil. 
A revolução científica e o iluminismo, por outro lado, são os produtos finais 
deste percurso, significando o surgimento de uma nova mentalidade que será aquela 
que determinará os usos e práticas farmacológicas nos séculos seguintes. Portanto, 
ao final do século XVIII, está configurado um paradigma científico sólido para o uso 
de fitofármacos, baseado no isolamento de metabólitos especiais. Data também do 
início do século XIX, um novo aspecto do estudo de plantas medicinais: surge a 
fisiologia e da farmacologia experimental (ALMEIDA, 2011) 
Nesse percurso, destaca-se Paracelso. Intelectual enciclopédico e diverso, era 
médico e desenvolveu trabalhos no campo da física, teologia, metafísica e do estudo 
 
15 
 
da natureza. No âmbito da configuração da química moderna, ele compreendeu o 
efeito das plantas medicinais sob um ângulo diferente daquele dos clássicos e antigos, 
afirmando que nelas havia componentes terapeuticamente ativos e passíveis de 
serem extraídos por processos químicos. Surge, assim, a noção estruturante de 
princípio ativo enquanto responsável pela resposta terapêutica como potencial 
característico de uma forma vegetal. Além disso, Paracelso também questionou a 
Medicina humoral defendida por Hipócrates e Galeno, dizendo que o corpo humano 
adoece devido a influências externas e que tais enfermidades deveriam ser 
combatidas mediante emprego de compostos de origem vegetal e mineral de ação 
específica, conforme o isolamento dos princípios ativos (SAAD et al., 2016). 
No Brasil, a primeira obra sobre a utilização medicinal das plantas foi realizada 
por Gabriel Soares de Souza (1540-1591), autor do “Tratado Descritivo do Brasil” 
(1971), de 1587, onde se descreve os preparados empregados pelos indígenas. O 
autor era empresário e agricultor, torna-se também um dos estudiosos mais 
importantes a paisagem brasileira naquele período. Através de seu trabalho notamos 
que a cultura médica e terapêutica dos ameríndios passou a ser a medicina utilizada 
no Brasil da época colonial, tanto pelos nativos como pelos africanos escravizados, 
como também pelos europeus que passaram a usufruir da sabedoria ameríndia. 
Posteriormente, com a vinda da Família Real Portuguesa para o Rio de Janeiro, 
em 1808, aconteceu um avanço no registro e no cultivo de espécies vegetais, inclusive 
exóticas, além da inauguração do Jardim Botânico. Nesse período de colonização, os 
dados disponíveis sobre o uso de plantas nativas se conservavam e se disseminavam 
mediante compilação também dos padres jesuítas, osquais tinham contato direto com 
os indígenas, incorporando, inclusive, espécies brasileiras nos remédios originários 
da Europa (SAAD et al., 2016). 
Após a Segunda Guerra Mundial, a indústria farmacêutica se expandiu 
intensamente e as plantas medicinais foram empregadas como insumo para o 
isolamento e posterior síntese de moléculas, entrando em cena o conceito de 
fitofármaco, com destaque para a digoxina e digitoxina (para tratamento da 
insuficiência cardíaca congestiva e para certas arritmias), encontradas na dedaleira 
(Digitalis purpurea), e para a morfina (com propriedade analgésica) presente na 
papoula. Esse processo ocasionou uma queda no uso medicinal das plantas. 
 
16 
 
O resgate da importância das plantas medicinais como estratégia terapêutica 
fitoterápica se dá a partir da década de 1970. Segundo Bruneton (2001), esse resgate 
acontece também pela desconfiança em relação a indústria farmacêutica e os vários 
efeitos colaterais gerados pelo consumo de medicamentos sintéticos. Acontece, 
assim, o fortalecimento, de uma tendência mundial de defesa, estímulo e inserção da 
Fitoterapia nos programas de atenção primária à saúde (APS), principalmente após a 
Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde realizada em Alma-
Ata, em 1978. A partir desta ocasião, a Organização Mundial da Saúde (OMS) 
reconheceu oficialmente o uso de plantas medicinais e remédios fitoterápicos como 
práticas de saúde a serem incorporadas nos respectivos sistemas de saúde dos 
países, tendo como referência os sistemas médicos complexos, alguns associados à 
Medicina tradicional, e que já empregam as plantas medicinais na terapêutica, além 
de levar em consideração o aspecto integral do indivíduo em todas as suas dimensões 
(WHO, 2002). 
4 A DIVERSIDADE ETNOFARMACOLÓGICA BRASILEIRA. 
O território brasileiro é formado por cinco regiões. Nessas regiões podemos 
identificar também formas riquíssimas de paisagem natural. Floresta Amazônica, Mata 
Atlântica, Pantanal Mato-grossense, Cerrado e Caatinga são os nomes desta diversa 
e profunda paisagem. Nela, é possível identificar plantas indicadas e utilizadas pelas 
populações que a habitam, ou seja, conhecimentos das quais ainda não foram 
realizados estudo químico, farmacológico e toxicológico aprofundado, ainda que se 
possa ver avanços nesse sentido. Esse uso da paisagem natural pelas comunidades 
e culturas que a habitam, encontra-se fundamentado nas culturas africana, indígena, 
europeia e outras que reverberam e formam um campo de estudo muito rico para 
etnobotânica e a etnofarmacologia. 
Tendo em vista esse contexto, buscamos neste tópico tratar das contribuições 
africanas e indígenas na formação das condições que formam o campo da 
farmacologia e da medicina tradicional, oriunda de tais povos, comunidades e 
agrupamentos étnicos. 
 
17 
 
4.1 A etnociência da cura e das plantas (a herança africana). 
Segundo a professora Maria Zélia de Almeida (2021), a forte influência da 
herança cultural africana na medicina popular do Brasil, pode ser identificada 
principalmente no norte, nordeste e sudeste do país. Segundo a autora (2021), essa 
presença em diversos territórios e dimensões socioculturais se configura como uma 
forma de resistência das populações mestiças e afrodescendentes em defesa das 
tradições que elas herdaram de seus antepassados, escravizados e colonizados pelos 
europeus. 
A experiência dos africanos, quando transplantados do ambiente de sua cultura 
e território geográfico também envolveu um paulatino enfraquecimento de identidade. 
Através da hegemonia da cultura europeia, os africanos são ‘europeizados’ deixando, 
muitas vezes, em segundo plano, suas raízes culturais originárias. No texto, “Brancos 
e Pretos na Bahia" (1971), publicado pela primeira vez em 1942, Pierson (1900-1995) 
já registra o enfraquecimento ou perda do mundo mental africano pelos seus 
descendentes, conforme a assimilação dos padrões culturais europeus e a constante 
violação espiritual de que foram vítimas. 
 No entanto, como aponta a professora Maria Zélia (2021), houve, no Brasil, 
também um movimento um reverso. Segundo a autora, “[...] o forte amarelo do dendê 
atingiu as louças portuguesas de Macau servidas nos sobrados dos senhores”. Deta 
maneira, o ritmo e as formas culturais de um Brasil que buscava se construir a imagem 
e semelhança do colonizador foi “[...] assenzalando-se e recebendo novos 
compassos”. Para além da perda de identidade, acontece, portanto, no Brasil 
uma aculturação bilateral que pode ser observada, “[...] na medicina tradicional 
brasileira, principalmente na Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Maranhão” 
(ALMEIDA, 2021, p. 45). 
No que tange a formação da dimensão etnobotânica da cultura brasileira, os 
africanos fizeram um duplo e poderoso trabalho. De um lado, transplantaram um 
sistema de classificação botânica da África para o Brasil, disseminando na terra do 
pau-brasil formas vegetais não faziam parte da paisagem local. Em segundo, fizeram 
com que plantas nativas do Brasil se tornassem parte da sua cultura, valorizando, 
investigando e enriquecendo os usos terapêuticos desenvolvidos pelos povos 
ameríndios. Entende-se, assim, que “[...] ao incorporarem-se ao novo habitat e às 
 
18 
 
novas condições sociais, algumas plantas indispensáveis aos rituais de saúde foram 
substituídas e outras foram adotadas” (ALMEIDA, 2021, p. 44). 
Assim, por exemplo, quando se passeia pelo espaço e cultura de comunidades 
na região metropolitana do Rio de Janeiro e de Salvador, é possível observar ainda 
nos dias atuais um intenso consumo de espécies vegetais que são, por sua vez, 
utilizadas em terreiros de religião afro-brasileira, como a Umbanda e o Candomblé. 
Nestes terreiros, os Babalorixás e Yalorixás (sacerdotes), portadores de 
conhecimento etnomédico, forjado desde a chegada dos africanos no Brasil e pelo 
contato com a cultura nativa, utilizavam destas plantas para fins medicinais e 
espirituais, obedecendo a toda uma tradição de práticas rituais. 
Em sua ampla maioria, essas plantas são obtidas nas barracas de mercados 
populares e de vendedores ambulantes denominados “erveiros de rua”. Atualmente, 
temos ainda um fenômeno comercial interessante: nos últimos 20 anos houve um 
crescimento enorme no Brasil de casas (comércios) que se voltam para venda de 
produtos naturais, incluindo em seu repertório uma tradição fitoterápica e medicinal 
que faz referência direta a cultura africana e as formas como nossos antepassados 
utilizavam vegetais para prevenção e tratamento de doenças. 
Durante muito tempo, esse sistema de trocas simbólica e terapêutica foi 
criticado pela sociedade, tornando-se, em muitas ocasiões alvo de perseguições 
jurídicas e policiais. A professora Zélia de Almeida (2011), indica, como sinal desta 
condição, antigos recortes de jornais como uma manchete do Diário de Notícias de 
Salvador de 9 de maio de 1905 onde se lê a seguinte chamada de uma matéria: 
“Rapariga de família enlouquece com a beberagem de Jurema no Candomblé”. 
Assim, entende-se, que um dos papéis da pesquisa etnofarmacológica é 
restituir o valor a essa tradição que tem contribuído fortemente para saúde do povo 
brasileiro, em momentos que, por questões econômicas, o acesso à medicina 
“científica” tradicional não é um bem comum a todos. Além disso, entende-se que esse 
saber de origem africana se apresenta como estratégia para o reconhecimento e a 
investigação das plantas medicinais, o que é determinante tanto para a fitoterapia 
quanto para farmacologia sintética. 
 
19 
 
4.2 Medicina e medicina tradicional yorùbá 
Como frisamos desde o início da exposição, a experiência da cura e do 
adoecimento nas comunidades humanas, durante muitos séculos, baseou-se 
unicamente na utilização de produtos naturais de origem vegetal, animal e mineral 
com propriedades terapêuticas, representando a principale, em algumas ocasiões, 
ainda na atualidade, a única forma de cuidado à saúde disponível para a prevenção e 
tratamento de diversas doenças, ainda no mundo atual (PATWARDHAN; BODEKER 
, 2019). 
Esse conjunto saberes é denominado como Medicina Tradicional (MT); 
consistindo, segundo Organização Mundial de Saúde (WHO, 1989), na soma das 
diferentes teorias, crenças, práticas e experiências de diferentes culturas, portadoras 
de eficácia na prevenção, diagnóstico e tratamento de enfermidades físicas e mentais. 
Apesentam também características estruturais que os diferenciam da medicina 
científica ocidental. Algumas características são as seguintes: a) transmissão oral do 
conhecimento em maior ou menor grau conforme os esforços de resistência e 
sobrevivência das tradições onde se situam; b) a concepção da saúde como um 
estado de harmonia ou equilíbrio das dimensões que formam o sujeito (SILVA, J. J. L. 
S. da; LEITÃO, S. G.; OLIVEIRA, D, 2022). 
 As formas de cura baseadas nas crenças e conhecimentos de origem africana 
são reconhecidas no Brasil pelo nome de Terapêutica yorùbá. São denominadas 
yorùbá aquelas pessoas e comunidades cuja ancestralidade pode ser remetida ao 
sudoeste da Nigéria. No Brasil, eles são também conhecidos como Nagô. Segundo 
Silva, Guimarães e Oliveira (2022), a Medicinal Tradicional Africana praticada 
pelos yorùbás inclui uma série de ações não convencionais do ponto de vista da 
medicina científica ocidental, tais como a manipulação de plantas, uso de substâncias 
animais e minerais, leitura de oráculos, dietas, jejuns, banhos, encantamentos e 
massagem. Ela se difere também da medicina ocidental ‘científica’ por não estar 
voltada unicamente à cura e à recuperação de sintomas físicos, mas para o equilíbrio 
entre o paciente, seu ambiente cultural e espiritual, buscando, assim, uma inserção 
social e psicológica do indivíduo em sua comunidade através do caráter ancestral de 
sua experiência religiosa. 
As concepções da doença, diagnóstico e tratamento, assim como a concepção 
de vida e morte, são consideradas de acordo com seu enraizamento na dimensão 
 
20 
 
sociocultural do indivíduo, não havendo possibilidade de separação entre o físico e o 
espiritual, a cultura e natureza, o sujeito e a comunidade. Pode-se, portanto, 
compreender medicina de origem yorùbá como uma síntese dos conhecimentos de 
origem ancestral, elucidáveis ou não, à luz da medicina ocidental ‘científica’, usados 
para diagnóstico, prevenção e eliminação de distúrbios físicos, mentais, sociais; eles 
são repassados às gerações oralmente ou através da manutenção de 
comportamentos que marcam o modo de ser daquela cultura. O fenômeno do 
adoecimento é tratado como um acontecimento que não se restringe a um processo 
apenas biológico, mas também como resultado de um contexto cultural e fruto da 
construção subjetiva das experiências de aflição e dor. 
As limpezas, os defumadores, banhos de ervas, Ebós de saúde, entre outras 
práticas e rituais são na tradição yorùbá ações terapêuticas. Elas têm a mesma 
importância que os medicamentos e preparados de origem vegetal, constituindo, com 
eles, formas de intervenção e tratamento, que objetivam a cura. Como manifestação 
e expressão da cultura material e imaterial dos povos e comunidades de matriz 
africana, significam através de sua como uma variada classificação e ordenação do 
espaço simbólico onde o sagrado e o profano se imbricam. Desta perspectiva, a 
manifestação da boa saúde, a experiência do sujeito na comunidade, a doença e o 
fenômeno religiosos se 'abrigam', dando-se ao sujeito pela via prática do cuidado e 
pela via do sentido mágico /criador do deus (orixá) conforme sua relação com 
pessoas, grupos e olhar sobre a pessoa humana. 
Nesse contexto, encontra-se um sistema de classificação e reconhecimento de 
sintomas e doenças baseado em relações simbólicas entre o corpo, os Orixás, seus 
arquétipos e suas histórias (Itans). Os diagnósticos na maioria das vezes, como 
citados anteriormente, resultam da consulta aos oráculos (jogos divinatórios) que 
determinam o sentido e a origem dos sintomas, identificando os males e orientandos 
procedimentos de cura (ALMEIDA, 2011). 
4.3 As doenças, o corpo e os orixás: aspectos de uma complexa e simbólica 
classificação. 
Fazemos questão de frisar que o assunto do qual estamos falando é complexo; 
que daremos ao estudante apenas sinais de sua estruturação. Os sistemas de 
classificação de qualquer cultura não se referem somente a nomes, mas também a 
 
21 
 
formas de remissão específica de um conteúdo ao outro, formando o que se pode 
chamar de uma "estrutura interpretativa" e “categorias de orientação”. 
A estrutura interpretativa são os instrumentos e o pano de fundo usado na 
interpretação do que o fenômeno diz. Nesse caso, quando se trata de uma doença, 
dos sintomas que a caracterizam e permitem ver seu desenvolvimento em uma 
existência humana. As categorias de orientação são aquelas que vão 'guiar' a prática. 
Elas são construídas conforme uma quantidade de 'dados' e signos que uma 
comunidade movimenta em seu interior através das formas de transmissão que lhe 
são peculiares. 
Considerando a existência de uma classificação das doenças e dos sintomas na 
medicina tradicional yorùbá, encontramos duas grandes categorias de doenças: a 
primeira engloba as doenças relacionadas com a atuação das divindades nos 
indivíduos, entendendo que a enfermidade pode ser de ordem física, mas está ligada 
à relação daquele sujeito com o seu orixá ou com a estruturação das relações ele 
mantém a experiência religiosa que é o seu 'berço'. A segunda compreende as 
doenças de fundo endêmico como a varíola ou a gripe, por exemplo, originadas da 
ação genérica do orixá Obaluaiê e Omolú, que são os senhores da vida e da morte na 
tradição yorùbá, sincretizados na Umbanda através das figuras de São Lázaro e São 
Roque, denominados médicos dos pobres e necessitados. 
Quando se trata dos iniciados, a doença pode exprimir a marca ou sinal de sua 
divindade principal, ou de um orixá que faça parte de seu “carrego de santo”. O 
sintoma é interpretado da relação do sujeito com seu orixá. As doenças de pele como 
varíola, catapora, rubéola, sarampo e outras como coqueluche, caxumba e 
tuberculose são de responsabilidade direta de Obaluaê e Omolú, por isso podem ser 
mais comuns nos filhos destes orixás. O vitiligo, porém, é território de Oxumarê, assim 
como a erisipela a Nanã, o que pode talvez ser explicado pelos laços de parentesco 
entre divindades (Nanã, a mãe de Obaluaê e Oxumarê). Nesse caso, as doenças 
estão relacionadas a uma divindade e sua singularização como manifestação e 
expressão no sujeito de sua característica 'essencial' (ALMEIDA, 2011). 
 
 
 
22 
 
4.4 A herança indígena (curares e cura) 
A descrição dos costumes e conhecimentos dos povos ameríndios sobre o 
mundo vegetal datam do século XVI. Com objetivos medicinais, a primeira descrição 
sistemática é atribuída a William Pies (1611-1678), um médico da expedição dirigida 
por Maurício de Nassau ao nordeste do Brasil durante a ocupação holandesa, entre 
os anos de 1630 e 1654. Na ocasião, ele descreveu vegetais como a pecacuanha, o 
jaborandi e o tabaco. Alguns anos mais tarde, a missão científica trazida ao Brasil pela 
princesa Leopoldina seria de grande importância para a consideração do potencial 
científico e terapêutico da paisagem natural brasileira (ALMEIDA, 2011). 
Durante a missa promovida pela princesa, o botânico Karl Friedrich Phillip Von 
Martius (1774-1868), documentou em detalhes aspectos do mundo vegetal da porção 
brasileira do mundo ameríndio. Em 1847, a convite de Von Martius, chegou ao Brasil 
o farmacêutico Theodor Peckholt (1822-1912), que analisou 6000 plantas, publicando 
uma centena de artigos científicos sobre o assunto. Atribui-se a ele, o primeiro 
isolamento de uma substância bioativa de origem brasileira,a agoniadina, extraída 
das cascas de agoniada (ALMEIDA, 2021). 
Conforme a professora Maria Zélia de Almeida (2011), uma importante 
aquisição para a terapêutica, obtida a partir das pesquisas etnofarmacológicas com 
grupos indígenas, foi a compreensão da consistência química dos curares. 
Curare é o nome que se dá à mistura de ervas feita pelos indígenas da 
Amazônia e outras regiões do Brasil, com objetivo de produzir uma substância 
paralisante que é capaz também de matar, conforme as circunstâncias de seu uso e 
objetivos de sua fabricação. Apesar de inócuos por via oral, apenas uma gota injetada 
na corrente sanguínea paralisa a vítima. Os curares podem ser divididos em dois 
grupos: os curares de tubo, conservados em canos de bambu e os de cabaça, 
guardados em cabaças ou recipientes de barro. Eles são encontrados em diferentes 
ambientes culturais ameríndios, apresentando-se, assim, uma diversidade em sua 
origem vegetal, composição e finalidades. 
Outro assunto bastante estudado na tradição etnofarmacológica de pesquisa 
sobre o mundo vegetal amazônico e as tradições ameríndias são os psicoativos 
usados pelas comunidades indígenas em seus rituais religiosos. Através destas 
pesquisas se tornaram conhecidas várias drogas utilizadas pelos indígenas nos 
momentos ritualísticos. Entre as mais conhecidas podemos citar as seguintes: 
 
23 
 
➢ Maquira scherophylla C. C. Berg (família Moraceae), trata-se de uma forma vegetal 
básica para produção de uma mistura também conhecida como “rapé dos índios”, 
que se constitui como um potente rapé alucinógeno, utilizado em cerimônia anual 
pelos índios Waika na região do rio Totobí, em Roraima. 
➢ Justicia pectoralis Jacq (Acanthaceae), trata-se também de mais um dos 
constituintes desse rapé, conhecida no Nordeste do Brasil como chambá, 
encontra-se em várias receitas de xaropes com atividade broncodilatadora. 
➢ Yopo, trata-se uma poção indígena conhecida de uso ritual, distribuído por várias 
tribos da América do Sul e entre essas os nativos da Amazônia brasileira. é 
preparada a partir da Piptadenia peregrina L., da família Leguminosae, cuja 
química estudada acusa a presença de bufotenina e outras triptaminas ação 
psicoativa. 
➢ Além dessas, vale citar a Banisteriopsis caapi Spr., família Malpighiaceae e 
Psychotria viridis R. et P., da família Rubiaceae, ambas utilizadas na beberagem 
do Santo Daime, de reconhecida ação narcótica. Os constituintes principais desse 
preparado são os alcalóides b-carbolínicos, harmina, harmalina e 
tetraidrohaluruina e outros princípios tóxicos bem conhecidos, como a triptamina. 
 
Interessante notar, que para essa tradição (as tradições) ameríndia, em sua 
riqueza de diversidade cultural e espiritual, os animais, a terra, as plantas, os rios, as 
rochas e os astros são dimensões constituintes da Natureza, compreendida como um 
ser dotado de sentido, ou seja, de orientação e acontecimento em si através de si. A 
Natureza, agora em maiúscula, atribui-se uma interioridade e uma consciência 
próprias; seus entes são também compreendidos como sujeitos capazes de agir de 
forma intencional, perpassada de sentido e não simples significado. Tal concepção 
dos povos indígenas sobre a natureza reflete em seus processos de cura: não apenas 
o reconhecimento de plantas medicinais e de ervas curativas, mas da forma como 
percebem, diagnosticam e tratam uma doença. 
Por outro lado, cabe frisar, que a medicina europeia na época da colonização 
era agressiva ao organismo, baseada em purgantes e vomitivos, também utilizava 
elementos mágicos e religiosos, como pedras preciosas e diversos outros rituais. 
Enquanto para os indígenas a doença poderia significar parte de uma alma que foi 
 
24 
 
retirada da pessoa doente, para o colonizador, representava o fruto de um pecado 
dessa alma. 
5 O MÉTODO E A PRÁTICA DA ETNOFARMACOLOGIA 
Como indicamos até agora, existe um conhecimento acumulado milenarmente 
sobre as relações entre humanos e o mundo vegetal. Observando aspectos da cultura 
brasileira, reconhecemos a existência de uma grande sabedoria ancestral que pode 
ser utilizada pela ciência farmacológica e indicar formas de tratamento fundadas em 
uma consideração integral da experiência humana. 
Esses dois aspectos são positivos de duas maneiras: de um lado, a 
farmacologia pode se enriquecer muito considerando não haver apenas superstição 
na sabedoria acumulado no passado. No segundo, entende-se a saúde de uma 
pessoa envolvida pelo seu lugar no mundo, sendo necessário que sua cultura também 
faça parte do tratamento quando ocorre uma experiência de adoecimento. 
Tendo em vista esses dois aspectos, tratar-se-á agora de métodos e 
abordagens das plantas medicinais, pondo em relevo a pesquisa etnofarmacológica e 
suas características, visando apresentar uma definição clara e objetiva da disciplina 
até aqui estudada, para no próximo tópico, nos voltarmos para o campo da fitoterapia 
e sua relação com os conhecimentos trabalhados até o momento. 
O leitor perceberá que existem diversas áreas envolvidas na pesquisa das 
substâncias oriundas de plantas, enquanto reflexo da riqueza e da complexidade dos 
fenômenos estudados nos âmbitos das tradições ancestrais de cura e suas possíveis 
relações e impactos na farmacologia ‘moderna. Temos, assim, a fitoquímica que se 
volta para o isolamento, a purificação e a descrição dos princípios ativos oriundos de 
uma espécie vegetal; a etnobotânica e a etnofarmacologia que selecionam e 
descrevem a sabedoria dos diferentes povos e etnias acerca dos benefícios e 
malefícios oriundos do uso de uma planta; a farmacologia, que investiga os efeitos 
terapêuticos de extratos e constituintes químicos tomados isoladamente. Existem 
também muitos percursos possíveis em cada uma destas disciplinas, destacando-se 
quatro formas de abordagens: randômica, etiológica, quimiotaxonômica e etnodirigida 
(MACIEL et al., 2002). 
 
25 
 
As investigações randômicas compreendem a coleta ao acaso de plantas para 
triagens fitoquímicas e farmacológicas, considerando em primeiro lugar sua 
disponibilidade das plantas. Segundo Maciel et al, (2002), existem muitas críticas e 
visões equivocadas sobre esta abordagem, devido à aleatoriedade na qual ela parece 
se basear, entendendo que essa forma de pesquisa está fundada numa ausência de 
critérios ou em critérios muito frágeis do ponto de vista científico. No entanto, ela se 
baseia no reconhecimento de uma descrição anterior que deve ser encontrada na 
literatura ou em um experimento descritivo anterior e pelos quais se pode considerar 
em um determinado ambiente a disponibilidade e a necessidade de plantas que 
podem ser levadas ao laboratório e pesquisadas. 
Calderon et al (2000), por exemplo, indica como um grupo de pesquisadores 
no Panamá da qual ela fez parte, utilizaram esse procedimento para estudar as 
plantas de um bosque tropical no começo do século. Os pesquisadores partiram de 
uma lista de plantas já estudadas em uma área de 50 hectares e a partir desta lista 
selecionaram e ampliaram para estudo de novas formas vegetais, considerando suas 
características morfológica e disponibilidade espacial. A abordagem randômica é 
considerada onerosa e custosa por muitos pesquisadores, mas, podemos entendê-la 
como um esforço exploratório que pode abrir caminho para contato com vegetais 
ainda não investigadas. O trabalho dos pesquisadores do Panamá, por exemplo, 
permitiu o enriquecimento da lista que anteriormente os orientava. Com isto, uma nova 
lista de espécies foi desenvolvida e os resultados da pesquisa foram considerados 
satisfatórios, uma vez que se identificou uma diversidade de plantas com atividades 
antioxidantes e antitumorais (CALDERON et al, 2000; MACIEL et al, 2002). 
As investigações de caráter filogenético ou quimiotaxonômico se baseiam na 
seleção de espécies de uma família ou gênero de plantas das quais ao menosuma 
das espécies possua algum estudo fitoquímica que tenha despertado interesse. Essa 
abordagem é bastante utilizada quando se rastreia um ativo de interesse e se deseja 
identificar se mais espécies da mesma família ou grupo possuem este ativo, além de 
ser possível descobrir variações de concentração e qualidade de ativos em espécies 
diferentes, pertencentes a grupos ou famílias comuns. Um bom exemplo são as 
espécies do gênero Baunilha que possuem algumas substâncias químicas em comum 
como glicosídeos, triterpenos, latonas e flavonoides. Outro exemplo são as espécies 
do gênero Hypericum, notadamente H. perforatum L. Hipericina é um dos principais 
 
26 
 
constituintes desta espécie, ao qual se reportam propriedades antidepressivas. Em 
uma abordagem, a partir desse método, seleciona-se as plantas conforme a indicação 
de seu parentesco fitoquímica ou com intuito de constar a presença do princípio ativo 
na constituição de um grupo de espécies. É filogenética porque se refere à origem da 
planta, em termos do seu parentesco genético ((CALDERON et al, 2000; MACIEL et 
al, 2002). 
Outra abordagem que tem sido muito utilizada é a etiológica. A abordagem 
etiológica consiste na consideração do comportamento dos animais diante das 
plantas. Ou seja, seleciona-se aquilo que será estudado conforme o reconhecimento 
dos animais diante deste ou daquele vegetal. Esta abordagem tem como orientação 
avaliar a utilização de metabólitos secundários por animais, ou outras substâncias não 
nutricionais dos vegetais, com o objetivo de combater doenças ou controlá-las 
Temos também a abordagem etnofarmacológica ou etnodirigida que está no 
centro dos de nossos estudos nessa exposição. Esta abordagem usa como premissa 
básica o conhecimento preexistente sobre as espécies vegetais, ou seja, ela 
considera as tradições populares e ancestrais sobre o assunto, podendo assumir um 
sentido antropológico descritivo e também histórico. Assim, ela pode ser usada para 
o estudo das tradições já desaparecidas através dos documentos existentes, como 
também da sobrevivência do discurso tradicional e ancestral sobre as plantas e suas 
práticas em grupos sociais que transmitem uma determinada herança e ‘ciência’, 
entendendo a ciência em um sentido amplo, ou seja, enquanto uma atitude de ter 
‘ciência de’, reconhecendo e orientando-se por um corpus de conhecimentos e 
práticas que marcam a forma de viver e resistir de uma comunidade (BUENO, M. J. 
A.; MATÍNEZ, 2016) 
Na perspectiva antropológica descritiva, as espécies são selecionadas para 
estudo de acordo com a indicação de grupos populacionais específicos, obedecendo 
a contextos de utilização e enfatizando a importância do conhecimento construído 
localmente pelas comunidades ou etnias locais, com relação aos recursos naturais e 
sua aplicação em seus processos de saúde e doença. Quando se fala de história, 
temos os documentos que podem refletir conhecimentos de culturas e comunidades 
humanas desaparecidas ou em vias de desaparecimento. 
Através da perspectiva etnofarmacológica, podemos, por exemplo, entender 
que o Brasil é detentor de rica diversidade cultural e étnica que resultou em um 
 
27 
 
acúmulo considerável de conhecimentos passados de geração a geração dentre os 
quais se destaca o conhecimento sobre o manejo e uso de plantas medicinais, 
condição gritante quando pensamos na Amazônia (Brasil, 2006). As comunidades 
tradicionais da Amazônia tais como indígenas, caiçaras, caboclos e quilombolas 
detêm um vasto conhecimento sobre o uso de uma grande diversidade de plantas 
medicinais tanto nativas como exóticas para inúmeras indicações terapêuticas 
Informações sobre essas plantas, dos seus usos, nomes, das formas de cultivá-las e 
de suas histórias foram e ainda são transmitidos de geração a geração constituindo-
se no “conhecimento tradicional” (LORENZI; MATOS, 2008; ALVES, 2010). 
Segundo a pesquisadora Telma Lélia Gonçalves Schultz de Carvalho, em sua 
dissertação de mestrado, dentre as 60 comunidades quilombolas existentes no Baixo 
Amazonas, encontramos, por exemplo, a comunidade quilombola Tininho, existente 
há mais de 190 anos, que sobreviveu com acesso restrito aos grandes centros 
urbanos, especialmente no que tange a obtenção de atendimento à saúde, de 
infraestrutura, políticas de geração de renda e de assistência técnica. 
Entende-se, assim, que as estratégias de sobrevivência da comunidade 
passaram diretamente pela sua capacidade de gerir sua própria existência enquanto 
organização social pensante e portadora de conhecimentos capazes de responder às 
suas demandas no que tange a saúde e outras formas de cuidado. Ainda segundo a 
autora, a permanência na região há tanto tempo sugere que a comunidade detenha 
grande conhecimento tradicional sobre os recursos vegetais ao seu redor, utilizados 
muitas vezes, como estratégias de sobrevivência, inclusive em relação aos aspectos 
de saúde, já que os remédios caseiros advindo das plantas é um meio de tratamento 
para várias enfermidades e algumas vezes o único recurso terapêutico disponível. 
Importante salientar, que atualmente, boa parte das plantas medicinais 
cultivadas e dos conhecimentos tradicionais presentes na prática destas comunidades 
estão se perdendo rapidamente como consequência das mudanças socioeconômicas, 
culturais e das formas de uso da terra na Amazônia. Segundo a pesquisadora, o 
desaparecimento desse saber ancestral coloca a necessidade de o estabelecimento 
de ações para garantir seu registro e valorização. É este o papel fundamental da 
pesquisa etnodirigida em etnofarmacologia e da perspectiva etnocientífica. Mas quais 
são as formas de ser dessa pesquisa? Quais são suas estratégias metodológicas e 
base epistemológica? 
 
28 
 
5.1 Etnofarmacologia e estudo etnodirigido: questões metodológicas e 
epistemológicas 
Segundo Elaine Elisabetsky (2003), pesquisadora pioneira dos estudos de 
etnofarmacologia no cenário intelectual e acadêmico brasileiro, a questão 
metodológica e epistemológica se coloca em relação ao tratamento do objeto e dos 
fenômenos estudados pela disciplina. Segundo a autora, a Etnofarmacologia não trata 
de superstições, mas do conhecimento popular relacionado aos “sistemas tradicionais 
de medicina” (ELISABETSKY, 2003, p. 35). 
A apreciação desse conhecimento depende, assim, de admitir que se trata de 
um conhecimento autêntico, ou seja, um produto válido do intelecto humano e com 
função social estruturante. Por isso, define-se Etnofarmacologia como a exploração 
científica interdisciplinar dos agentes biologicamente ativos, tradicionalmente 
empregados ou observados pelos seres humanos no território de sua cultura e 
tradições de suas comunidades, entendendo que a disciplina tem como base um 
trabalho descritivo que visa situar as formas convencionais de investigação e 
aplicação das ciências experimentais em relação ao saber produzido em uma 
determinada comunidade humana. 
Para compreender essa relação de um campo de conhecimento ao outro, 
podemos tomar como exemplo as etapas envolvidas no processo de desenvolvimento 
de fármacos. Esse processo pode ser resumido da seguinte maneira: em primeiro 
momento, existe a necessidade de investigação e descoberta da atividade terapêutica 
como característica de uma substância ou composto. Para isso, podem ser realizados 
testes in vitro para avaliar as propriedades biológicas das moléculas promissoras, 
investigando a ação farmacocinética e a farmacodinâmica destas moléculas em 
animais, constituindo um estudo pré-clínico. Por fim, são realizados estudos clínicos 
em seres humanos em várias fases (estudo clínico), visando estabelecer a validade 
das hipóteses e os protocolos para produção e uso de um fármaco. 
Esse percurso a partir do qual se produz um medicamento conforme 
demonstração da eficácia de uma substância, é antecedido por um processo de 
preparação, que visa selecionarquais plantas entrarão nas cenas investigativas, 
laboratoriais, farmacológicas e terapêuticas. O estudo etnodirigido é exatamente uma 
estratégia que pode ser utilizada nesse sentido. No entanto, não se trata apenas de 
'terminar' a investigação nesse momento em que ‘planta’ entra para o mundo da 
 
29 
 
ciência, mas se ater também ao sentido que planta expressa na vida de uma 
comunidade. Por isso, a etnofarmacologia envolve também o estudo das concepções 
de natureza e experiência que podem ser identificados na maneira como uma 
comunidade testemunha sua relação de experiência com as plantas. 
Assim, o estudo etnodirigido se dá por uma metodologia que preserva o 
conhecimento que as comunidades têm sobre as plantas e seu poder terapêutico. 
Podem ser realizadas entrevistas de caráter biográfico, descrições fenomenológicas 
de caráter etnológico, sistemas de abordagem e aprendizagem através da observação 
dos atores envolvidos nos processos de cura da comunidade, registros em imagens e 
áudios da maneira como uma comunidade fala das plantas, entendendo as práticas 
de restituição da saúde envolvidas, da descrição da doença e das formas de sua 
experiência. Essa forma de pesquisa tem os seguintes objetivos: 
a) bioprospectar e ampliar a ciência farmacêutica, tornando possível impactos 
terapêuticos e sociais; a bioprospecção consiste na busca sistemática por 
organismos, genes, enzimas, compostos, processos e partes provenientes de seres 
vivos em geral (coletivamente chamados de recursos genéticos) que possam tornar 
possível o desenvolvimento de um produto para fins medicinais e intervenção na 
'biologia humana' e aquela outros seres vivos. 
b) Conservar e preservar a biodiversidade do país; nesse caso, a valorização 
das plantas e dos saberes tradicionais sobre eles permite ver como a sustentabilidade, 
a conservação são processos geradores de riqueza sustentável, opondo-se, assim, 
as formas de exploração predatória que caracterizaram boa parte da ação humana 
sobre o mundo natural nos últimos séculos. 
c) Promover o uso local das plantas em associação com fármacos 
convencionais e outras tecnologias biomédicas, enquanto prática terapêutica, 
utilizando o conhecimento das comunidades locais, mas também respeitando seu 
direito de propriedade intelectual. Trata-se, também uma alternativa econômica para 
as comunidades que podem ser subsidiadas para o cultivo de ervas medicinais e 
plantas com potencial terapêutico. 
 
30 
 
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS: FITOTERAPIA. ETNOFARMACOLOGIA E A 
REALIDADE BRASILEIRA 
A fitoterapia é uma técnica de cura farmacológica que se preocupa com as 
funções terapêuticas das plantas. No mundo contemporâneo, médicos, nutricionistas, 
farmacêuticos, fisioterapeutas e outros profissionais utilizavam dos fitoterápicos no 
tratamento de várias doenças, buscando também através da fitoterapia prevenir 
quadros de adoecimento. 
É importante lembrar que as observações populares e as investigações 
científicas sobre o uso e a eficácia de plantas medicinais mantêm em voga a prática 
do consumo de fitoterápicos, tornando valiosas as informações terapêuticas 
acumuladas durante séculos e aquelas oriundas de sociedades tradicionais. 
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), amplos setores da 
população confiam nos métodos tradicionais relativos aos cuidados cotidianos com a 
saúde e cerca de 80% dessa população, principalmente dos países em 
desenvolvimento, confiam nos derivados de plantas medicinais para seus cuidados 
com a saúde. Nesse contexto, a tendência nas últimas décadas é adotar o estudo 
científico das plantas já conhecidas pelas sociedades tradicionais, utilizando esse 
conhecimento como orientador da pesquisa farmacológica laboratorial (OMS, 1989; 
2002) 
A Etnobotânica e Etnofarmacologia são, portanto, instrumentos que permitem 
o resgate e a conservação dos saberes tradicionais, contribuindo, portanto, para 
realizar uma das orientações fundamentais da Organização Mundial de Saúde (OMS): 
fazer a conexão entre a medicina convencional e as medicinas tradicionais, 
assegurando que medicamentos à base de plantas não sejam desconsiderados por 
estreiteza de compreensão ou preconceito; mas também não sejam aceitos de modo 
inquestionável, pois também resultam malefícios a saúde quando mal administrados 
e não reconhecidos seus efeitos adversos (BRUNING, M. C. R. et al, 2012). 
Recomenda-se, assim, uma atitude crítica, que busque entender como o 
mundo das plantas pode se inserir nas redes públicas de saúde, considerando ainda 
que em muitas regiões e comunidades as plantas medicinais se apresentam como o 
recurso terapêutico mais imediato, já que o acesso a medicina é desigual em todo o 
mundo. 
 
31 
 
O uso de fitoterápicos com finalidade profilática, curativa, paliativa ou com fins 
de diagnóstico passou a ser oficialmente reconhecido pela OMS em 1978, quando a 
entidade recomendou a difusão mundial dos conhecimentos necessários para o seu 
uso. Considerando-se as plantas medicinais importantes instrumentos da Assistência, 
vários comunicados e resoluções da OMS expressam a posição da entidade a 
respeito da necessidade de valorizar o uso desses medicamentos no âmbito sanitário, 
baseando-se na construção de políticas nacionais como também no esforço de 
regulamentação e fiscalização para os produtos oriundos das práticas tradicionais 
contemplem, entre outros, os conceitos de Medicina Tradicional (MT) e Medicina 
Complementar/Alternativa (MCA). 
O Brasil possui grande potencial para o desenvolvimento da Fitoterapia. Dois 
aspectos são sinais deste potencial: a grandeza da biodiversidade brasileira e a 
sociodiversidade no tratamento das plantas medicinais. Nesse sentido, cabe lembrar, 
que diversos foram os avanços nas últimas décadas para a regulamentação da 
Fitoterapia no Brasil como estratégia terapêutica disponível na Atenção Básica do 
Sistema Único de Saúde (SUS). 
A formulação e implementação de políticas públicas para valorização do 
conhecimento tradicional e científico das plantas medicinais e sua inserção na saúde 
pública para cuidados primários, representam, portanto, um marco regulatório e 
incentivo à pesquisa para plantas medicinais e fitoterápicas, priorizando a 
biodiversidade do país, o desenvolvimento de tecnologias e inovações nas diversas 
fases da cadeia produtiva. 
No SUS, as ações/programas com plantas medicinais e fitoterapia, distribuídos 
em todas as regiões do País, ocorrem de maneira diferenciada, com relação aos 
produtos e serviços oferecidos e, principalmente, às espécies de plantas medicinais 
disponibilizadas, em virtude dos diferentes biomas. Os estudos sobre programas e 
ações de fitoterapia demonstram que a inserção de fitoterápicos e plantas medicinais 
na atenção primária à saúde melhorou o acesso a outras possibilidades terapêuticas. 
Adicionalmente, tal inserção estimulou profissionais de saúde a organizar ações de 
educação em saúde e educação ambiental, além de ações intersetoriais (parceria com 
agricultura, educação, meio ambiente) (BARREIRO, E. J.; BOLZANI, V. D. S, 2009). 
A pesquisa etnofarmacológica, nesse contexto, é o lugar onde o saber 
tradicional e a ciência fazem o encontro, já que é um dos caminhos para a descoberta 
 
32 
 
de novas drogas. É necessário, portanto, levar em consideração as características 
inerentes aos grupos étnicos pesquisados, bem como seus conceitos de doenças e 
remédios, além da observação de formas farmacêuticas indicadas, entendendo como 
cada mistura e preparações a partir de uma erva ou conjunto de plantas significa uma 
riqueza de mundo e uma demonstração da diversidade cultural do Brasil, revelando, 
assim, a história do nosso povo, dos seus sofrimentos e suas estratégias de 
conhecimento e sobrevivência em cenários de experiência adversos.

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