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2 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 3 2 CIÊNCIAS E ETNOCIÊNCIA: CONCEITOS, PRÁTICAS E ESPECIALIDADES. 4 3 ORIGENS DA ETNOFARMACOLOGIA E A HISTÓRIA DO USO DE PLANTAS MEDICINAIS ............................................................................................................. 10 3.1 Os vestígios medicinais do mundo vegetal na experiência primitiva e na Antiguidade ............................................................................................................ 11 3.2 A antiguidade Grego Romana e a Idade Média ................................................ 13 4 A DIVERSIDADE ETNOFARMACOLÓGICA BRASILEIRA. ............................. 16 4.1 A etnociência da cura e das plantas (a herança africana). ............................... 17 4.2 Medicina e medicina tradicional yorùbá ............................................................ 19 4.3 As doenças, o corpo e os orixás: aspectos de uma complexa e simbólica classificação. ......................................................................................................... 20 4.4 A herança indígena (curares e cura) ................................................................. 22 5 O MÉTODO E A PRÁTICA DA ETNOFARMACOLOGIA .................................. 24 5.1 Etnofarmacologia e estudo etnodirigido: questões metodológicas e epistemológicas ..................................................................................................... 28 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS: FITOTERAPIA. ETNOFARMACOLOGIA E A REALIDADE BRASILEIRA ....................................................................................... 30 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................................... 33 3 1 INTRODUÇÃO Prezado aluno! O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta , para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 4 2 CIÊNCIAS E ETNOCIÊNCIA: CONCEITOS, PRÁTICAS E ESPECIALIDADES. Enquanto comportamento teórico, entende-se por etnociência um campo de pesquisa formada por diversas disciplinas (etnobiologia, etnopsicologia, etnofilosofia, entre outras) que estuda conhecimentos e paradigmas desenvolvidos no âmbito de uma cultura sobre diferentes fenômenos e dimensões da experiência. Assim, trata-se de uma perspectiva epistemológica que visa compreender os saberes (tradicionais e culturais) como formas de conhecimento legítimo para além da distinção ciência e não ciência, tal como surge na modernidade europeia a partir dos séculos XVI e XVII. O prefixo etno, nesse caso, remete-se aos conhecimentos de povos ou etnias, colocando no horizonte suas especificidades históricas e culturais. Destaca-se, assim, como um importante conjunto de ferramentas que se concretiza através da busca por uma abordagem mais integrativa da ciência, proporcionando uma visão científica mais ampla através da valorização das formas de conhecimento que escapam dos paradigmas da cientificidade convencional. Nesse contexto epistemológico, a etnobiologia é uma das dimensões e práticas possíveis no âmbito da perspectiva etnocientífica. Ela se se preocupa com o conhecimento que um povo (etno) tem da natureza., ou seja, volta-se para o corpus de conhecimento e estratégias de investigação de uma dada sociedade sobre a natureza. Assim, ela visa a descrição e elucidação do sentido da natureza no sistema de crenças e formas de adaptação dos seres humanos aos ambientes ao longo de sua história. Configura-se, portanto, como uma disciplina que descreve a imbricação entre os mundos físico, biológico, simbólico e social, exigindo para sua efetiva realização uma abordagem interdisciplinar. Não é somente uma metodologia entre outras possíveis, mas um posicionamento filosófico centrado no esforço de aproximar a ciência moderna e os saberes tradicionais sobre a natureza. O princípio motivador da disciplina é estabelecer pontes entre as distintas culturas e disciplinas teóricas, com o objetivo de questionar paradigmas excludentes que desconsideram o saber nas suas diversas formas de manifestação, expressão e produção cultural. Monteiro e Brandelli (2017), apontam que, embora seja uma disciplina recente, a Etnobiologia já era praticada por antropólogos no início do século XIX, quando estes estudaram os saberes e cultura dos povos indígenas das Américas, visando entender 5 suas relações de compreensão e vivência da natureza. Com base nas diferentes relações que os seres humanos mantêm com o mundo natural, a Etnobiologia pode ser dividida nas seguintes disciplinas: entnozoologia, etnoecologia, etnofarmacologia e etnobotânica A etnozoologia é o estudo dos conhecimentos e dos usos que uma comunidade humana faz dos animais, que podem ser investigados e recortados de muitas maneiras, conforme os objetivos da pesquisa a ser realizada. Pode-se, por exemplo, partir-se da constatação da existência de uma conexão emocional, quase inata, entre os seres humanos e as demais espécies, que remonta a própria 'criação' da cultura humana. Segundo Sax (2002), as atitudes humanas referidas aos animais evoluíram bem antes das primeiras tentativas de representação e expressão do mundo da natureza através das artes e da religião, evidenciando que no processo de sobrevivência e evolução da espécie humana encontramos uma relação profícua com os outros seres vivos; que surgem no campo simbólico humano como espelhos de experiências subjetivas e comunitárias humanas diversas, como também através do desdobramento prático segundo os processos de domesticação que marcam o envolvimento do ser humano com os outros seres vivos e com a natureza desde os começos mais remotos da cultura humana. A interdependência da espécie humana com os demais elementos bióticos da natureza pode ser explicada pelos conceitos de topofilia e biofilia. O conceito de topofilia segundo Yi Fu Tuan (2012, p.4) se refere ao “ [...] elo afetivo entre a pessoa e o lugar ou ambiente físico”. Dessa maneira, o mundo físico adquire para um ser humano, por exemplo, um sentido simbólico que reflete suas demandas de sobrevivência e desejo de ‘desenvolvimento’. O espaço físico não é somente ‘espaço’ exterior à experiência dos organismos, mas sua condição de existência. Podemos entender esse conceito se considerarmos a diferenciação que Kurt Koffka (1886- 1941), psicólogo da gestalt, colocou em cena, no começo do século XX, distinguindo meio geográfico e meio comportamental. Na perspectiva de Kofka (1975), o meio geográfico são as condições físicas nas quais um organismo se desdobra enquanto ‘fenômeno’ objetivo, supondo que é possível falar de um ser vivo como um conjunto regido por leis que podem ser medidas e conhecidas “objetivamente”. O organismo é isso que acontece no meio geográfico, 6 fenômeno que um observador pode ‘olhar’ tentando33 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, M. Z. Plantas medicinais. 3 ed. Salvador: EDUFBA, 2011. ALVES, L. F. 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No entanto, o organismo também é isso que se mostra como dotado de um sentido (ou seja, direção) em seu ambiente. O meio comportamental, quando pensamos nos seres humanos, é onde esse ser acontece enquanto fenômeno e experiência multidimensional: com dimensões físicas, biológicas, sociais, históricas, culturais, cerebrais e espirituais. Podemos, na perspectiva de Kofka (1975), dizer que o meio comportamental surge do embate do ser vivo com meio geográfico, o que faz surgir um espaço (topos, lugar) onde o modo de ser de um organismo está disseminado e se desenvolve. Nessa perspectiva, é possível dizer que o envolvimento com o lugar e com o espaço que ele inclui está fundado não apenas em relações objetivas, mas principalmente afetivas, que podem estar na ordem deste ‘amor’ ao lugar que o conceito de topifilia indica, mas também na ambiguidade que o termo amor expressa, apontando para relações ambíguas e inconscientes que uma existência comunal e individual tem para com o seu mundo, incluindo não apenas o afeto positivo mas relações de insegurança, amor, negação, medo, expectativas, entre outras. Através dos conceitos de topofilia, meio geográfico, meio comportamental e o organismo enquanto intenção nos deparamos com o conceito de mundo a partir do qual podemos falar da hipótese da biofilia. Ter um mundo estar-no-mundo não são condições exclusivamente humanas. A famosa afirmação de Heidegger (2006) de que os seres humanos são ricos de mundo, os animais pobres de mundo e a ‘pedra’ não tem mundo se mostra assim insuficiente, já que ter um mundo e estar no mundo é a condição necessária para que haja existência, no sentido de “[...] O homem é só um laço de relações, apenas as relações contam para o homem” (A. de Saint-Exupéry, Pilote de Guerre, pp. 171 e 174, tal como citado por Merleau-Ponty na Fenomenologia da Percepção, 1999, p. 612).. Essas relações não são apenas humanas ou com humanos, mas também com a natureza e com os outros seres que encontram na natureza suas múltiplas moradas. Nesse caso, a relação de mundo e existência que os seres humanos tem para com os animais pode ser entendida a partir da hipótese da biofilia. De acordo com essa hipótese, defendida por Edward Wilson (1919-1921), os seres humanos tiveram 99% de sua história evolutiva envolvida com outros seres vivos, tendo, assim, desenvolvido 7 um significativo e amplo sistema informacional acerca das espécies e do ambiente, que se traduz nos saberes, formas de afetos, crenças e práticas culturais relacionados com a fauna de cada lugar (WILSON, 2003, 2008). Por isso, a etnozoologia se revela também como uma ramo da etnobiologia que aborda as relações entre os animais e os humanos através da imbricação da história natural e da descrição fenomenológica das condições de existência, fornecendo, através de seus estudos, subsídios concretos para a construção e conquista de relações sustentáveis entre os seres humanos com a natureza, pautada na avaliação e na interpretação dos impactos atribuídos às atividades humanas sobre outras espécies animais, e sua relação com a biodiversidade (SAX, 2017; FITA; COSTA-NETO, 2007). Segundo Fita e Costa-Neto (2007), no Brasil, os estudos na etnozoologia ainda são escassos quando comparados, por exemplo, com aqueles direcionados para a etnobotânica. Dentre as dificuldades apontadas pelos autores e que são enfrentadas pelos pesquisadores brasileiros, destaca-se a ausência de estudos de caráter elementar e descritivo sobre a fauna brasileira. No entanto, como aponta Porfirio (2019), nos últimos anos a produção acadêmica sobre o tema tem aumentado através de monografias, dissertações e teses de doutorado preocupados com esse campo de estudo. Entende-se, ainda, que o impulso à pesquisa etnozologica se deve também a uma orientação explicitada e indicada Overal (1990), ainda nos anos 90 do século passado. Esse pesquisador chamou a atenção para a necessidade de se estudar os fenômenos etnozoológicos de nossa própria cultura e ambiente comunitário, uma vez que tradicionalmente se estudava culturas distantes ou formas sociais desaparecidas. O autor indica fenômenos que podem ser estudados desde uma perspectiva etnozoólogica, tanto em culturas ocidentais quanto nas tradicionais, como os domadores e treinadores de animais, chamadores de gado, admiradores de cachorros e outros pets, caçadores, criadores de galos-de-briga e outros animais para esporte e jogos de azar. Podemos acrescentar ainda a necessidade de se estudar como atualmente se configura nosso amor aos animais domésticos e como a indústria do 'cuidado dos pets' tem modificado e antropomorfizado nossa forma de amar e cuidar dos animais domésticos, que se tornam no mundo contemporâneo o espelho de muitos dramas psicossociais. 8 Considerando o que foi dito anteriormente sobre a etnozoologia nos deparamos com a etnoecologia, outro campo de estudo da etnobiologia, onde está em jogo as relações que os seres humanos mantem com outros seres vivos, com ambiente natural e os impactos sistêmicos destas relações, se orientando pela necessidade de compreender como as comunidades humanas em sua diversidade entendem sua inserção no mundo natural. Segundo Toledo e Barrera-Bassol (2009), a Etnoecologia funda suas raízes na antropologia, ainda que possuam a influência de outras disciplinas. O termo ‘etnoecologia', segundo os autores, surge na literatura científica no ano de 1954, através da dissertação do antropólogo americano de Harold Conklin (1926 – 2006), onde ele investigava o manejo das plantas por uma população das Filipinas. Entende- se, conforme esse estudo pioneiro, que já em sua origem, a etnoecologia é o estudo da ecologia de um dado grupo étnico, enquanto algo singular na história deste grupo. Entre os ramos de pesquisa que pertencem ao campo da Etnobiologia, daremos mais atenção nessa exposição a etnobotânica e a etnofarmacologia, mostrando como essas duas disciplinas estão relacionadas com a fitoterapia. Os conceitos trabalhados anteriormente, biofilia, topofilia, experiência e mundo são também de suma importância para entender no que consistem essas duas disciplinas e como elas se relacionam. Segundo Brandelli e Moneiro (2017), nos termos de uma disciplina científica moderna, a etnofarmacologia é um ramo das ciências biológicas (e culturais) que se volta para as dimensões médicas (especialmente de agentes biologicamente ativos) usadas em sistemas tradicionais de medicina. Ao lado da etnobotânica, ela tem demonstrado ser um potente instrumento na busca por substâncias naturais com ação farmacológica. Mas o que são as disciplinas? O termo etnobotânica foi definido pela primeira vez em 1895, pelo botânico norte-americano John William Harshberger (1869 – 1929). Segundo o cientista, a etnobotânica se refere ao estudo das plantas usadas pelos povos aborígenes ou nativos de uma determinada região (HARSHBERG, 1806). Na perspectiva dos conceitos de mundo e experiência já trabalhados quando nos referimos a etnozoologia, a etnobotânica se revela como o estudo das formas como as comunidades humanas em sua espessura e singularidade se voltam para o mudo vegetal. Os etnobotânicos, portanto, investigam como as pessoas interagem com o meio ambiente e obtêm recursos do mundo vegetal para responder suas 9 necessidades culturais e físicas. É uma disciplina científica com caráter interdisciplinar, pois se ocupa da inter-relação entre plantas e populações humanas, do ponto de vista físico, biológico, cultural e médico. Sua abordagem está situada na fronteira entre a botânica, ao analisar a interação do natural; e a antropologia cultural, através da investigação dos costumes e os sistemas simbólicos que fundam e envolvem osprocessos de interação (MONTEIRO; BRANDELLI, 2017). A etnofarmacologia, por outro lado, busca investigar práticas e produtos utilizados tradicionalmente em sistemas médicos caseiros e tradicionais. Na atualidade, o manejo e o estudo da relação humana com as plantas através da etnofarmacologia tem se revelado extremamente vantajoso para ampliar a compreensão de como as plantas podem contribuir para processos de cura e prevenção de doenças. Através da investigação dos hábitos, das tradições e dos costumes de uma população em relação às plantas é possível recolher informações pertinentes que contribuem para a evolução de estudos farmacológicos e elucidar seus impactos na vida das pessoas (SAAD et al, 2018). No âmbito da saúde pública, ao nível brasileiro, também têm sido desenvolvidos métodos para a articulação e implementação da etnofarmacologia e a produção de medicamentos. A política e o programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, criada em 2006, através do decreto 5.813, que teve sua política e objetivos detalhados em 2008, através da de uma portaria interministerial, de nº 2.960, foi um dos grandes avanços institucionais e jurídicos nesse sentido. O programa se orienta pelos princípios de valorização da cultura popular e seu conhecimento em relação às formas de cura, entendendo ser necessário também uma política que possa inserir plantas medicinais, fitoterápicos e serviços relacionados à Fitoterapia no SUS, através de práticas seguras, eficazes e com qualidade (BRASIL, 2006, 2006b, 2008, 2012). Por isso, a necessidade de desenvolver e fortalecer uma política de reconhecimento dos saberes tradicionais sobre os poderes curativos das plantas (aspecto etnofarmacológico), como também o desenvolvimento de instrumentos de fomento à pesquisa e inovações no campo de estudo das plantas medicinais e fitoterápicos, considerando as diversas fases da cadeia produtiva e seus impactos sociais. Tendo em vista esse contexto, o objetivo geral desta exposição é oportunizar 10 ao estudante conhecimento sobre as relações da pesquisa etnofarmacológica e a cultura 'fitoterápica' contemporânea, especialmente no Brasil. Para isso, começar-se-á o estudo indicando como a etnofarmacologia se configura enquanto campo de conhecimento e como ela está atrelada a uma longa história que se confunde com a própria fundação da cultura humana. O objetivo, inicialmente, é situar os contextos no qual esses conhecimentos sobre as plantas se formaram e se desenvolveram enquanto patrimônio cultural e científico determinante para o desenvolvimento humano. Em segundo momento, entrar-se-á no cenário brasileiro segundo as relações da etnofarmacologia e da fitoterapia no Brasil. 3 ORIGENS DA ETNOFARMACOLOGIA E A HISTÓRIA DO USO DE PLANTAS MEDICINAIS Segundo Bruneton (2001), os seres humanos pré-históricos, muito antes de desenvolverem qualquer alfabeto ou escrita rudimentar, já empregavam algumas plantas como forma de alimento e remédios. A experiência humana com o poder terapêutico das plantas pode, portanto, ser encontrada na própria origem da cultura humana, enquanto propagação e manutenção da vida da espécie, conforme suas necessidades, sobrevivência e mitigação do sofrimento. Para o ser humano ‘primitivo’, as plantas significavam duas coisas: de um lado elas poderiam significar ‘a vida’ em sentido amplo, experimentadas formas de existência capazes de alimentar e curar o corpo. Em segundo, elas expressavam a manifestavam o poder do milagre e das divindades, pondo-os entre as coisas e os seres sagrados. Os modos de lida com esse conhecimento e seu desenvolvimento, surgiram, à medida que se tentava suprir necessidades básicas, através inferências causais, tentativas de compreensão e observações, dando espaço a uma espécie de empirismo primitivo, que encontrava, na prática, seus critérios de “verdade”. O campo simbólico, religioso, em torno das plantas, teria, por outro lado, surgido da impossibilidade de dizer como e porque uma planta pode curar e outra pode matar. Nos próximos subtópicos expomos, nesse sentido, aspectos das diversas fases das relações da vida humana com o mundo vegetal, visando indicar suas características principais e os primeiros sistemas de classificação e consideração do 11 poder curativo das plantas, para em seguida caracterizar essa relação no mundo contemporâneo. As informações trabalhadas têm como fonte o livro “As plantas medicinais”, da professora Mara Zélia de Almeida, de 2011, uma das pioneiras do estudo da Etnobotânica e da Etnofarmacologia no Brasil. Outras fontes e autores utilizados também serão indicados no decorrer da exposição. 3.1 Os vestígios medicinais do mundo vegetal na experiência primitiva e na Antiguidade Segundo a Organização Mundial de Saúde (1989, 2002), deve-se compreender como planta medicinal o vegetal que possui, em um ou mais órgãos, substâncias que podem ser utilizadas com finalidade terapêutica ou que sejam precursores de fármacos semissintético. Entende-se, assim, que as plantas são seres vivos que acumulam, sintetizam e produzem substâncias que podem agir de muitas maneiras nos organismos heterotróficos; do ponto de vista das relações entre saúde e doença, elas estão em cena desde a aurora da espécie humana, constituindo o campo do que os gregos antigos chamaram de Pharmakon: substâncias que podem fazer viver, adoecer, curar ou matar os seres humanos. A “Tabuinha sumeriana”, por exemplo, uma coleção de textos médicos em tabletes de argila, registrados em escrita cuneiforme, contém os primeiros testemunhos e explicações orientadas pelo esforço de ligar um conjunto de sintomas a uma determinada enfermidade. Provavelmente, o documento foi redigido em Nippur, uma importante cidade da Suméria, mais ou menos 2. 600 anos a.C. O documento é considerado o mais antigo tratado de medicina e farmacologia da história humana; ele contém receitas medicinais, onde são indicados o uso de plantas aliadas aos elementos da natureza, tal como a terra e a água, para tratamento de doenças. Esse conhecimento médico e farmacológico estava atrelado a uma concepção religiosa, onde se entendia que todos os fenômenos da natureza estavam determinados pela vontade dos deuses; constituindo, assim, as regras do mundo da natureza e das condições de existência dos seres vivos (DIAS, 2005). Como dissemos, através da tradução das placas foi possível reconhecer receitas fitoterápicas. Por exemplo, receitas para o uso e a preparação da beladona, do cânhamo da Índia chamado Quinabu, ou a Cannabis sativa L. Essas 12 plantas eram indicadas para dores, males respiratórios e a insônia, respectivamente. Há também observações sobre o óleo de cedro, alcaçuz, mirra, papoula, entre outros. Trata-se, de uma variada descrição de formas vegetais que, se, preparadas da maneira correta, serviriam ao tratamento de gripes, resfriados e infecções bacterianas (ALMEIDA, 2011). Os egípcios, na África do Norte, sob a tutela de Imhotep, divindade egípcia da cura; e por meio da sabedoria de seus sacerdotes, tornaram-se conhecidos pelos seus conhecimentos com os incensos, as resinas, as gomas e mucilagens que constituíam a expertise da mumificação. No que tange, a medicina egípcia, cabe frisar ainda, que o egiptólogo alemão Yorg Ebers (1837-1898), no final do século XIX, encontrou um papiro, datado de aproximadamente 1500 a.C, que se tornou uma das fontes mais importantes para compreensão da medicina e da farmacologia antiga. O Papiro, conforme indica a professora Maria Zélia de Almeida (p. 36, 2011), inicia com a audaciosa consideração: “Aqui começa o livro da produção dos remédios para todas as partes do corpo humano” ... No papiro é apresentada uma farmacologia sistematizada, onde se descreve os potenciais terapêuticos de vegetais como a mirra, o sândalo e a papoula. Essa últimaé indicada como uma espécie de sedativo e espanta tristeza, marcada pelo poder de trazer a alegria e acabar com a choradeira. Diversas drogas usadas no âmbito da medicina egípcia ou kemética eram provenientes de tradições mais antigas e da cultura de povos que viviam próximos às comunidades que floresciam sob a proteção do Rio Nilo. As cidades do Reino de Sabá, por exemplo, no extremo sudoeste do deserto arábico e leste da África, eram famosas pelos seus jardins paradisíacos onde se expandia o milagre das ervas mágicas e curativas. Os sabeus, até mais ou menos 1 000 a.C., promoviam o comércio através de caravanas para o Egito onde vendiam seus produtos e ervas medicinais. Plantas e conhecimentos fitoterápicos ainda vinham da Ilha de Creta; vegetais como açafrão, a sálvia e o arbusto de Chipre entraram na cultura egípcia através desse caminho. O arbusto de Chipre tinha também uma função cultural precisa para os egípcios: as cascas eram usadas na produção da Henna, uma tinta para colorir os cabelos e as unhas. A Índia também comercializava drogas vegetais desde 2500 a.C. No oriente, o registro farmacológico sistemático mais antigo é o Pen Tsao, de 2800 a.C., escrito pelo herborista chinês Shen Numg, que descreve uma centena de 13 plantas medicinais para de diversas moléstias e formas de adoecimento (ALMEIDA, 2011). Encontramos, assim, uma longa história de usos, práticas e experiência, que pode ser base para uma etnofarmacologia histórica, com a qual se torna possível delimitar e compreender as categorias que orientaram as estruturas de relação dos seres humanos com as plantas. Nessas tradições, há uma forte ligação entre doença e experiência religiosa, dando origem a uma farmacologia fundada em ‘mítica’ e ‘simbólica’ de cada um destes povos, o que se dá em níveis diversos. O esforço de uma separação entre ‘farmacologia’ e experiência mítica se dará entre os gregos, ainda que seja impossível separar nessa tradição o conteúdo simbólico e científico em relação às doenças e à saúde. A noção de Pharmakon, por exemplo, utilizada pelos gregos para indicar uma profícua variedade de tratamentos, como veremos, no próximo tópico tem um sentido de ‘remédio’, mas tem também um sentido mágico. 3.2 A antiguidade Grego Romana e a Idade Média No ambiente da cultura helênica, entre os séculos que vão desde a constituição do discurso filosófico grego nas colônias da Jônica (Século VII) até o fim do Império Romano, é possível identificar um exercício de sistematização do conhecimento sobre o mundo vegetal em seu sentido terapêutico e descritivo. Na Grécia, por exemplo, Pedacius Dioscórides (50-70) escreveu a obra que foi posteriormente, traduzida para o latim e suas primeiras idiomáticas vulgares pelos renascentistas do século XV, intitulada ‘Da matéria médica’. No ambiente da cultura- grego romana e também na Idade Média, a texto foi tratado como o livro sagrado dos médicos e farmacêuticos. Em seus estudos, Dioscórides descreveu a origem, as características e os usos terapêuticos de mais de quinhentas formas e substâncias vegetais. A obra é um marco na história da farmacologia, sendo considerada o texto fundador da Farmacognosia moderna. A farmacognosia é a parte da farmacologia que trata das drogas ou substâncias medicinais em seu estado natural, antes de serem manipuladas. Em relação aos esforços anteriores, encontramos no texto do autor um esforço de cientificação da experiência terapêutica baseada nas plantas, ou seja, há 14 o intento de classificar e descrever o poder terapêutico das substâncias oriundas da natureza sem remetê-los a uma entidade divina. Após a queda do Império Romano, a Europa atravessou um longo período de obscurantismo científico entre os séculos V e XV, que é chamado de Idade Média. No entanto, ainda nesse período podemos identificar uma rica ampliação da arte médica, que no âmbito da farmacologia surge de conhecimentos de origem indiana. Trata-se, da contribuição da cultura árabe à tradição de uso e desenvolvimento da farmacognosia. Dessa forma, surge a Medicina Árabe, destacando-se o filósofo e médico Avicena (980-1063) e as suas flores como terapêutica para os males cardíacos. Através da península Ibérica, os conhecimentos árabes espalharam-se por toda a Europa. Assim, diversas drogas, desconhecidas na época, no âmbito da cultura europeia nascente, foram introduzidas na terapêutica. Algumas delas são as seguintes: canela, limão, noz-moscada, sene, tamarindo e cânfora são algumas das mais importantes (ALMEIDA, 2011). Posteriormente, com a Renascença, as Grandes Navegações, a Revolução científica e o Iluminismo se intensificam mudanças que vão determinar uma nova conformação para o tratamento do mundo vegetal e sua importância terapêutica. O Renascimento traz aos europeus um espírito que busca ultrapassar os limites da mentalidade medieval, em favor de um questionamento do princípio de autoridade, em arte, filosofia e ciência. Esse espírito é enriquecido pelo acontecimento das grandes navegações, ou seja, através da descoberta de intercâmbio de plantas medicinais entre os continentes podem se configurar e se fortalecer, isso tem como consequência a introdução das espécies originárias das Américas, podendo ser citado o maracujá e o guaraná, originadas nas terras do pau-brasil. A revolução científica e o iluminismo, por outro lado, são os produtos finais deste percurso, significando o surgimento de uma nova mentalidade que será aquela que determinará os usos e práticas farmacológicas nos séculos seguintes. Portanto, ao final do século XVIII, está configurado um paradigma científico sólido para o uso de fitofármacos, baseado no isolamento de metabólitos especiais. Data também do início do século XIX, um novo aspecto do estudo de plantas medicinais: surge a fisiologia e da farmacologia experimental (ALMEIDA, 2011) Nesse percurso, destaca-se Paracelso. Intelectual enciclopédico e diverso, era médico e desenvolveu trabalhos no campo da física, teologia, metafísica e do estudo 15 da natureza. No âmbito da configuração da química moderna, ele compreendeu o efeito das plantas medicinais sob um ângulo diferente daquele dos clássicos e antigos, afirmando que nelas havia componentes terapeuticamente ativos e passíveis de serem extraídos por processos químicos. Surge, assim, a noção estruturante de princípio ativo enquanto responsável pela resposta terapêutica como potencial característico de uma forma vegetal. Além disso, Paracelso também questionou a Medicina humoral defendida por Hipócrates e Galeno, dizendo que o corpo humano adoece devido a influências externas e que tais enfermidades deveriam ser combatidas mediante emprego de compostos de origem vegetal e mineral de ação específica, conforme o isolamento dos princípios ativos (SAAD et al., 2016). No Brasil, a primeira obra sobre a utilização medicinal das plantas foi realizada por Gabriel Soares de Souza (1540-1591), autor do “Tratado Descritivo do Brasil” (1971), de 1587, onde se descreve os preparados empregados pelos indígenas. O autor era empresário e agricultor, torna-se também um dos estudiosos mais importantes a paisagem brasileira naquele período. Através de seu trabalho notamos que a cultura médica e terapêutica dos ameríndios passou a ser a medicina utilizada no Brasil da época colonial, tanto pelos nativos como pelos africanos escravizados, como também pelos europeus que passaram a usufruir da sabedoria ameríndia. Posteriormente, com a vinda da Família Real Portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, aconteceu um avanço no registro e no cultivo de espécies vegetais, inclusive exóticas, além da inauguração do Jardim Botânico. Nesse período de colonização, os dados disponíveis sobre o uso de plantas nativas se conservavam e se disseminavam mediante compilação também dos padres jesuítas, osquais tinham contato direto com os indígenas, incorporando, inclusive, espécies brasileiras nos remédios originários da Europa (SAAD et al., 2016). Após a Segunda Guerra Mundial, a indústria farmacêutica se expandiu intensamente e as plantas medicinais foram empregadas como insumo para o isolamento e posterior síntese de moléculas, entrando em cena o conceito de fitofármaco, com destaque para a digoxina e digitoxina (para tratamento da insuficiência cardíaca congestiva e para certas arritmias), encontradas na dedaleira (Digitalis purpurea), e para a morfina (com propriedade analgésica) presente na papoula. Esse processo ocasionou uma queda no uso medicinal das plantas. 16 O resgate da importância das plantas medicinais como estratégia terapêutica fitoterápica se dá a partir da década de 1970. Segundo Bruneton (2001), esse resgate acontece também pela desconfiança em relação a indústria farmacêutica e os vários efeitos colaterais gerados pelo consumo de medicamentos sintéticos. Acontece, assim, o fortalecimento, de uma tendência mundial de defesa, estímulo e inserção da Fitoterapia nos programas de atenção primária à saúde (APS), principalmente após a Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde realizada em Alma- Ata, em 1978. A partir desta ocasião, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu oficialmente o uso de plantas medicinais e remédios fitoterápicos como práticas de saúde a serem incorporadas nos respectivos sistemas de saúde dos países, tendo como referência os sistemas médicos complexos, alguns associados à Medicina tradicional, e que já empregam as plantas medicinais na terapêutica, além de levar em consideração o aspecto integral do indivíduo em todas as suas dimensões (WHO, 2002). 4 A DIVERSIDADE ETNOFARMACOLÓGICA BRASILEIRA. O território brasileiro é formado por cinco regiões. Nessas regiões podemos identificar também formas riquíssimas de paisagem natural. Floresta Amazônica, Mata Atlântica, Pantanal Mato-grossense, Cerrado e Caatinga são os nomes desta diversa e profunda paisagem. Nela, é possível identificar plantas indicadas e utilizadas pelas populações que a habitam, ou seja, conhecimentos das quais ainda não foram realizados estudo químico, farmacológico e toxicológico aprofundado, ainda que se possa ver avanços nesse sentido. Esse uso da paisagem natural pelas comunidades e culturas que a habitam, encontra-se fundamentado nas culturas africana, indígena, europeia e outras que reverberam e formam um campo de estudo muito rico para etnobotânica e a etnofarmacologia. Tendo em vista esse contexto, buscamos neste tópico tratar das contribuições africanas e indígenas na formação das condições que formam o campo da farmacologia e da medicina tradicional, oriunda de tais povos, comunidades e agrupamentos étnicos. 17 4.1 A etnociência da cura e das plantas (a herança africana). Segundo a professora Maria Zélia de Almeida (2021), a forte influência da herança cultural africana na medicina popular do Brasil, pode ser identificada principalmente no norte, nordeste e sudeste do país. Segundo a autora (2021), essa presença em diversos territórios e dimensões socioculturais se configura como uma forma de resistência das populações mestiças e afrodescendentes em defesa das tradições que elas herdaram de seus antepassados, escravizados e colonizados pelos europeus. A experiência dos africanos, quando transplantados do ambiente de sua cultura e território geográfico também envolveu um paulatino enfraquecimento de identidade. Através da hegemonia da cultura europeia, os africanos são ‘europeizados’ deixando, muitas vezes, em segundo plano, suas raízes culturais originárias. No texto, “Brancos e Pretos na Bahia" (1971), publicado pela primeira vez em 1942, Pierson (1900-1995) já registra o enfraquecimento ou perda do mundo mental africano pelos seus descendentes, conforme a assimilação dos padrões culturais europeus e a constante violação espiritual de que foram vítimas. No entanto, como aponta a professora Maria Zélia (2021), houve, no Brasil, também um movimento um reverso. Segundo a autora, “[...] o forte amarelo do dendê atingiu as louças portuguesas de Macau servidas nos sobrados dos senhores”. Deta maneira, o ritmo e as formas culturais de um Brasil que buscava se construir a imagem e semelhança do colonizador foi “[...] assenzalando-se e recebendo novos compassos”. Para além da perda de identidade, acontece, portanto, no Brasil uma aculturação bilateral que pode ser observada, “[...] na medicina tradicional brasileira, principalmente na Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Maranhão” (ALMEIDA, 2021, p. 45). No que tange a formação da dimensão etnobotânica da cultura brasileira, os africanos fizeram um duplo e poderoso trabalho. De um lado, transplantaram um sistema de classificação botânica da África para o Brasil, disseminando na terra do pau-brasil formas vegetais não faziam parte da paisagem local. Em segundo, fizeram com que plantas nativas do Brasil se tornassem parte da sua cultura, valorizando, investigando e enriquecendo os usos terapêuticos desenvolvidos pelos povos ameríndios. Entende-se, assim, que “[...] ao incorporarem-se ao novo habitat e às 18 novas condições sociais, algumas plantas indispensáveis aos rituais de saúde foram substituídas e outras foram adotadas” (ALMEIDA, 2021, p. 44). Assim, por exemplo, quando se passeia pelo espaço e cultura de comunidades na região metropolitana do Rio de Janeiro e de Salvador, é possível observar ainda nos dias atuais um intenso consumo de espécies vegetais que são, por sua vez, utilizadas em terreiros de religião afro-brasileira, como a Umbanda e o Candomblé. Nestes terreiros, os Babalorixás e Yalorixás (sacerdotes), portadores de conhecimento etnomédico, forjado desde a chegada dos africanos no Brasil e pelo contato com a cultura nativa, utilizavam destas plantas para fins medicinais e espirituais, obedecendo a toda uma tradição de práticas rituais. Em sua ampla maioria, essas plantas são obtidas nas barracas de mercados populares e de vendedores ambulantes denominados “erveiros de rua”. Atualmente, temos ainda um fenômeno comercial interessante: nos últimos 20 anos houve um crescimento enorme no Brasil de casas (comércios) que se voltam para venda de produtos naturais, incluindo em seu repertório uma tradição fitoterápica e medicinal que faz referência direta a cultura africana e as formas como nossos antepassados utilizavam vegetais para prevenção e tratamento de doenças. Durante muito tempo, esse sistema de trocas simbólica e terapêutica foi criticado pela sociedade, tornando-se, em muitas ocasiões alvo de perseguições jurídicas e policiais. A professora Zélia de Almeida (2011), indica, como sinal desta condição, antigos recortes de jornais como uma manchete do Diário de Notícias de Salvador de 9 de maio de 1905 onde se lê a seguinte chamada de uma matéria: “Rapariga de família enlouquece com a beberagem de Jurema no Candomblé”. Assim, entende-se, que um dos papéis da pesquisa etnofarmacológica é restituir o valor a essa tradição que tem contribuído fortemente para saúde do povo brasileiro, em momentos que, por questões econômicas, o acesso à medicina “científica” tradicional não é um bem comum a todos. Além disso, entende-se que esse saber de origem africana se apresenta como estratégia para o reconhecimento e a investigação das plantas medicinais, o que é determinante tanto para a fitoterapia quanto para farmacologia sintética. 19 4.2 Medicina e medicina tradicional yorùbá Como frisamos desde o início da exposição, a experiência da cura e do adoecimento nas comunidades humanas, durante muitos séculos, baseou-se unicamente na utilização de produtos naturais de origem vegetal, animal e mineral com propriedades terapêuticas, representando a principale, em algumas ocasiões, ainda na atualidade, a única forma de cuidado à saúde disponível para a prevenção e tratamento de diversas doenças, ainda no mundo atual (PATWARDHAN; BODEKER , 2019). Esse conjunto saberes é denominado como Medicina Tradicional (MT); consistindo, segundo Organização Mundial de Saúde (WHO, 1989), na soma das diferentes teorias, crenças, práticas e experiências de diferentes culturas, portadoras de eficácia na prevenção, diagnóstico e tratamento de enfermidades físicas e mentais. Apesentam também características estruturais que os diferenciam da medicina científica ocidental. Algumas características são as seguintes: a) transmissão oral do conhecimento em maior ou menor grau conforme os esforços de resistência e sobrevivência das tradições onde se situam; b) a concepção da saúde como um estado de harmonia ou equilíbrio das dimensões que formam o sujeito (SILVA, J. J. L. S. da; LEITÃO, S. G.; OLIVEIRA, D, 2022). As formas de cura baseadas nas crenças e conhecimentos de origem africana são reconhecidas no Brasil pelo nome de Terapêutica yorùbá. São denominadas yorùbá aquelas pessoas e comunidades cuja ancestralidade pode ser remetida ao sudoeste da Nigéria. No Brasil, eles são também conhecidos como Nagô. Segundo Silva, Guimarães e Oliveira (2022), a Medicinal Tradicional Africana praticada pelos yorùbás inclui uma série de ações não convencionais do ponto de vista da medicina científica ocidental, tais como a manipulação de plantas, uso de substâncias animais e minerais, leitura de oráculos, dietas, jejuns, banhos, encantamentos e massagem. Ela se difere também da medicina ocidental ‘científica’ por não estar voltada unicamente à cura e à recuperação de sintomas físicos, mas para o equilíbrio entre o paciente, seu ambiente cultural e espiritual, buscando, assim, uma inserção social e psicológica do indivíduo em sua comunidade através do caráter ancestral de sua experiência religiosa. As concepções da doença, diagnóstico e tratamento, assim como a concepção de vida e morte, são consideradas de acordo com seu enraizamento na dimensão 20 sociocultural do indivíduo, não havendo possibilidade de separação entre o físico e o espiritual, a cultura e natureza, o sujeito e a comunidade. Pode-se, portanto, compreender medicina de origem yorùbá como uma síntese dos conhecimentos de origem ancestral, elucidáveis ou não, à luz da medicina ocidental ‘científica’, usados para diagnóstico, prevenção e eliminação de distúrbios físicos, mentais, sociais; eles são repassados às gerações oralmente ou através da manutenção de comportamentos que marcam o modo de ser daquela cultura. O fenômeno do adoecimento é tratado como um acontecimento que não se restringe a um processo apenas biológico, mas também como resultado de um contexto cultural e fruto da construção subjetiva das experiências de aflição e dor. As limpezas, os defumadores, banhos de ervas, Ebós de saúde, entre outras práticas e rituais são na tradição yorùbá ações terapêuticas. Elas têm a mesma importância que os medicamentos e preparados de origem vegetal, constituindo, com eles, formas de intervenção e tratamento, que objetivam a cura. Como manifestação e expressão da cultura material e imaterial dos povos e comunidades de matriz africana, significam através de sua como uma variada classificação e ordenação do espaço simbólico onde o sagrado e o profano se imbricam. Desta perspectiva, a manifestação da boa saúde, a experiência do sujeito na comunidade, a doença e o fenômeno religiosos se 'abrigam', dando-se ao sujeito pela via prática do cuidado e pela via do sentido mágico /criador do deus (orixá) conforme sua relação com pessoas, grupos e olhar sobre a pessoa humana. Nesse contexto, encontra-se um sistema de classificação e reconhecimento de sintomas e doenças baseado em relações simbólicas entre o corpo, os Orixás, seus arquétipos e suas histórias (Itans). Os diagnósticos na maioria das vezes, como citados anteriormente, resultam da consulta aos oráculos (jogos divinatórios) que determinam o sentido e a origem dos sintomas, identificando os males e orientandos procedimentos de cura (ALMEIDA, 2011). 4.3 As doenças, o corpo e os orixás: aspectos de uma complexa e simbólica classificação. Fazemos questão de frisar que o assunto do qual estamos falando é complexo; que daremos ao estudante apenas sinais de sua estruturação. Os sistemas de classificação de qualquer cultura não se referem somente a nomes, mas também a 21 formas de remissão específica de um conteúdo ao outro, formando o que se pode chamar de uma "estrutura interpretativa" e “categorias de orientação”. A estrutura interpretativa são os instrumentos e o pano de fundo usado na interpretação do que o fenômeno diz. Nesse caso, quando se trata de uma doença, dos sintomas que a caracterizam e permitem ver seu desenvolvimento em uma existência humana. As categorias de orientação são aquelas que vão 'guiar' a prática. Elas são construídas conforme uma quantidade de 'dados' e signos que uma comunidade movimenta em seu interior através das formas de transmissão que lhe são peculiares. Considerando a existência de uma classificação das doenças e dos sintomas na medicina tradicional yorùbá, encontramos duas grandes categorias de doenças: a primeira engloba as doenças relacionadas com a atuação das divindades nos indivíduos, entendendo que a enfermidade pode ser de ordem física, mas está ligada à relação daquele sujeito com o seu orixá ou com a estruturação das relações ele mantém a experiência religiosa que é o seu 'berço'. A segunda compreende as doenças de fundo endêmico como a varíola ou a gripe, por exemplo, originadas da ação genérica do orixá Obaluaiê e Omolú, que são os senhores da vida e da morte na tradição yorùbá, sincretizados na Umbanda através das figuras de São Lázaro e São Roque, denominados médicos dos pobres e necessitados. Quando se trata dos iniciados, a doença pode exprimir a marca ou sinal de sua divindade principal, ou de um orixá que faça parte de seu “carrego de santo”. O sintoma é interpretado da relação do sujeito com seu orixá. As doenças de pele como varíola, catapora, rubéola, sarampo e outras como coqueluche, caxumba e tuberculose são de responsabilidade direta de Obaluaê e Omolú, por isso podem ser mais comuns nos filhos destes orixás. O vitiligo, porém, é território de Oxumarê, assim como a erisipela a Nanã, o que pode talvez ser explicado pelos laços de parentesco entre divindades (Nanã, a mãe de Obaluaê e Oxumarê). Nesse caso, as doenças estão relacionadas a uma divindade e sua singularização como manifestação e expressão no sujeito de sua característica 'essencial' (ALMEIDA, 2011). 22 4.4 A herança indígena (curares e cura) A descrição dos costumes e conhecimentos dos povos ameríndios sobre o mundo vegetal datam do século XVI. Com objetivos medicinais, a primeira descrição sistemática é atribuída a William Pies (1611-1678), um médico da expedição dirigida por Maurício de Nassau ao nordeste do Brasil durante a ocupação holandesa, entre os anos de 1630 e 1654. Na ocasião, ele descreveu vegetais como a pecacuanha, o jaborandi e o tabaco. Alguns anos mais tarde, a missão científica trazida ao Brasil pela princesa Leopoldina seria de grande importância para a consideração do potencial científico e terapêutico da paisagem natural brasileira (ALMEIDA, 2011). Durante a missa promovida pela princesa, o botânico Karl Friedrich Phillip Von Martius (1774-1868), documentou em detalhes aspectos do mundo vegetal da porção brasileira do mundo ameríndio. Em 1847, a convite de Von Martius, chegou ao Brasil o farmacêutico Theodor Peckholt (1822-1912), que analisou 6000 plantas, publicando uma centena de artigos científicos sobre o assunto. Atribui-se a ele, o primeiro isolamento de uma substância bioativa de origem brasileira,a agoniadina, extraída das cascas de agoniada (ALMEIDA, 2021). Conforme a professora Maria Zélia de Almeida (2011), uma importante aquisição para a terapêutica, obtida a partir das pesquisas etnofarmacológicas com grupos indígenas, foi a compreensão da consistência química dos curares. Curare é o nome que se dá à mistura de ervas feita pelos indígenas da Amazônia e outras regiões do Brasil, com objetivo de produzir uma substância paralisante que é capaz também de matar, conforme as circunstâncias de seu uso e objetivos de sua fabricação. Apesar de inócuos por via oral, apenas uma gota injetada na corrente sanguínea paralisa a vítima. Os curares podem ser divididos em dois grupos: os curares de tubo, conservados em canos de bambu e os de cabaça, guardados em cabaças ou recipientes de barro. Eles são encontrados em diferentes ambientes culturais ameríndios, apresentando-se, assim, uma diversidade em sua origem vegetal, composição e finalidades. Outro assunto bastante estudado na tradição etnofarmacológica de pesquisa sobre o mundo vegetal amazônico e as tradições ameríndias são os psicoativos usados pelas comunidades indígenas em seus rituais religiosos. Através destas pesquisas se tornaram conhecidas várias drogas utilizadas pelos indígenas nos momentos ritualísticos. Entre as mais conhecidas podemos citar as seguintes: 23 ➢ Maquira scherophylla C. C. Berg (família Moraceae), trata-se de uma forma vegetal básica para produção de uma mistura também conhecida como “rapé dos índios”, que se constitui como um potente rapé alucinógeno, utilizado em cerimônia anual pelos índios Waika na região do rio Totobí, em Roraima. ➢ Justicia pectoralis Jacq (Acanthaceae), trata-se também de mais um dos constituintes desse rapé, conhecida no Nordeste do Brasil como chambá, encontra-se em várias receitas de xaropes com atividade broncodilatadora. ➢ Yopo, trata-se uma poção indígena conhecida de uso ritual, distribuído por várias tribos da América do Sul e entre essas os nativos da Amazônia brasileira. é preparada a partir da Piptadenia peregrina L., da família Leguminosae, cuja química estudada acusa a presença de bufotenina e outras triptaminas ação psicoativa. ➢ Além dessas, vale citar a Banisteriopsis caapi Spr., família Malpighiaceae e Psychotria viridis R. et P., da família Rubiaceae, ambas utilizadas na beberagem do Santo Daime, de reconhecida ação narcótica. Os constituintes principais desse preparado são os alcalóides b-carbolínicos, harmina, harmalina e tetraidrohaluruina e outros princípios tóxicos bem conhecidos, como a triptamina. Interessante notar, que para essa tradição (as tradições) ameríndia, em sua riqueza de diversidade cultural e espiritual, os animais, a terra, as plantas, os rios, as rochas e os astros são dimensões constituintes da Natureza, compreendida como um ser dotado de sentido, ou seja, de orientação e acontecimento em si através de si. A Natureza, agora em maiúscula, atribui-se uma interioridade e uma consciência próprias; seus entes são também compreendidos como sujeitos capazes de agir de forma intencional, perpassada de sentido e não simples significado. Tal concepção dos povos indígenas sobre a natureza reflete em seus processos de cura: não apenas o reconhecimento de plantas medicinais e de ervas curativas, mas da forma como percebem, diagnosticam e tratam uma doença. Por outro lado, cabe frisar, que a medicina europeia na época da colonização era agressiva ao organismo, baseada em purgantes e vomitivos, também utilizava elementos mágicos e religiosos, como pedras preciosas e diversos outros rituais. Enquanto para os indígenas a doença poderia significar parte de uma alma que foi 24 retirada da pessoa doente, para o colonizador, representava o fruto de um pecado dessa alma. 5 O MÉTODO E A PRÁTICA DA ETNOFARMACOLOGIA Como indicamos até agora, existe um conhecimento acumulado milenarmente sobre as relações entre humanos e o mundo vegetal. Observando aspectos da cultura brasileira, reconhecemos a existência de uma grande sabedoria ancestral que pode ser utilizada pela ciência farmacológica e indicar formas de tratamento fundadas em uma consideração integral da experiência humana. Esses dois aspectos são positivos de duas maneiras: de um lado, a farmacologia pode se enriquecer muito considerando não haver apenas superstição na sabedoria acumulado no passado. No segundo, entende-se a saúde de uma pessoa envolvida pelo seu lugar no mundo, sendo necessário que sua cultura também faça parte do tratamento quando ocorre uma experiência de adoecimento. Tendo em vista esses dois aspectos, tratar-se-á agora de métodos e abordagens das plantas medicinais, pondo em relevo a pesquisa etnofarmacológica e suas características, visando apresentar uma definição clara e objetiva da disciplina até aqui estudada, para no próximo tópico, nos voltarmos para o campo da fitoterapia e sua relação com os conhecimentos trabalhados até o momento. O leitor perceberá que existem diversas áreas envolvidas na pesquisa das substâncias oriundas de plantas, enquanto reflexo da riqueza e da complexidade dos fenômenos estudados nos âmbitos das tradições ancestrais de cura e suas possíveis relações e impactos na farmacologia ‘moderna. Temos, assim, a fitoquímica que se volta para o isolamento, a purificação e a descrição dos princípios ativos oriundos de uma espécie vegetal; a etnobotânica e a etnofarmacologia que selecionam e descrevem a sabedoria dos diferentes povos e etnias acerca dos benefícios e malefícios oriundos do uso de uma planta; a farmacologia, que investiga os efeitos terapêuticos de extratos e constituintes químicos tomados isoladamente. Existem também muitos percursos possíveis em cada uma destas disciplinas, destacando-se quatro formas de abordagens: randômica, etiológica, quimiotaxonômica e etnodirigida (MACIEL et al., 2002). 25 As investigações randômicas compreendem a coleta ao acaso de plantas para triagens fitoquímicas e farmacológicas, considerando em primeiro lugar sua disponibilidade das plantas. Segundo Maciel et al, (2002), existem muitas críticas e visões equivocadas sobre esta abordagem, devido à aleatoriedade na qual ela parece se basear, entendendo que essa forma de pesquisa está fundada numa ausência de critérios ou em critérios muito frágeis do ponto de vista científico. No entanto, ela se baseia no reconhecimento de uma descrição anterior que deve ser encontrada na literatura ou em um experimento descritivo anterior e pelos quais se pode considerar em um determinado ambiente a disponibilidade e a necessidade de plantas que podem ser levadas ao laboratório e pesquisadas. Calderon et al (2000), por exemplo, indica como um grupo de pesquisadores no Panamá da qual ela fez parte, utilizaram esse procedimento para estudar as plantas de um bosque tropical no começo do século. Os pesquisadores partiram de uma lista de plantas já estudadas em uma área de 50 hectares e a partir desta lista selecionaram e ampliaram para estudo de novas formas vegetais, considerando suas características morfológica e disponibilidade espacial. A abordagem randômica é considerada onerosa e custosa por muitos pesquisadores, mas, podemos entendê-la como um esforço exploratório que pode abrir caminho para contato com vegetais ainda não investigadas. O trabalho dos pesquisadores do Panamá, por exemplo, permitiu o enriquecimento da lista que anteriormente os orientava. Com isto, uma nova lista de espécies foi desenvolvida e os resultados da pesquisa foram considerados satisfatórios, uma vez que se identificou uma diversidade de plantas com atividades antioxidantes e antitumorais (CALDERON et al, 2000; MACIEL et al, 2002). As investigações de caráter filogenético ou quimiotaxonômico se baseiam na seleção de espécies de uma família ou gênero de plantas das quais ao menosuma das espécies possua algum estudo fitoquímica que tenha despertado interesse. Essa abordagem é bastante utilizada quando se rastreia um ativo de interesse e se deseja identificar se mais espécies da mesma família ou grupo possuem este ativo, além de ser possível descobrir variações de concentração e qualidade de ativos em espécies diferentes, pertencentes a grupos ou famílias comuns. Um bom exemplo são as espécies do gênero Baunilha que possuem algumas substâncias químicas em comum como glicosídeos, triterpenos, latonas e flavonoides. Outro exemplo são as espécies do gênero Hypericum, notadamente H. perforatum L. Hipericina é um dos principais 26 constituintes desta espécie, ao qual se reportam propriedades antidepressivas. Em uma abordagem, a partir desse método, seleciona-se as plantas conforme a indicação de seu parentesco fitoquímica ou com intuito de constar a presença do princípio ativo na constituição de um grupo de espécies. É filogenética porque se refere à origem da planta, em termos do seu parentesco genético ((CALDERON et al, 2000; MACIEL et al, 2002). Outra abordagem que tem sido muito utilizada é a etiológica. A abordagem etiológica consiste na consideração do comportamento dos animais diante das plantas. Ou seja, seleciona-se aquilo que será estudado conforme o reconhecimento dos animais diante deste ou daquele vegetal. Esta abordagem tem como orientação avaliar a utilização de metabólitos secundários por animais, ou outras substâncias não nutricionais dos vegetais, com o objetivo de combater doenças ou controlá-las Temos também a abordagem etnofarmacológica ou etnodirigida que está no centro dos de nossos estudos nessa exposição. Esta abordagem usa como premissa básica o conhecimento preexistente sobre as espécies vegetais, ou seja, ela considera as tradições populares e ancestrais sobre o assunto, podendo assumir um sentido antropológico descritivo e também histórico. Assim, ela pode ser usada para o estudo das tradições já desaparecidas através dos documentos existentes, como também da sobrevivência do discurso tradicional e ancestral sobre as plantas e suas práticas em grupos sociais que transmitem uma determinada herança e ‘ciência’, entendendo a ciência em um sentido amplo, ou seja, enquanto uma atitude de ter ‘ciência de’, reconhecendo e orientando-se por um corpus de conhecimentos e práticas que marcam a forma de viver e resistir de uma comunidade (BUENO, M. J. A.; MATÍNEZ, 2016) Na perspectiva antropológica descritiva, as espécies são selecionadas para estudo de acordo com a indicação de grupos populacionais específicos, obedecendo a contextos de utilização e enfatizando a importância do conhecimento construído localmente pelas comunidades ou etnias locais, com relação aos recursos naturais e sua aplicação em seus processos de saúde e doença. Quando se fala de história, temos os documentos que podem refletir conhecimentos de culturas e comunidades humanas desaparecidas ou em vias de desaparecimento. Através da perspectiva etnofarmacológica, podemos, por exemplo, entender que o Brasil é detentor de rica diversidade cultural e étnica que resultou em um 27 acúmulo considerável de conhecimentos passados de geração a geração dentre os quais se destaca o conhecimento sobre o manejo e uso de plantas medicinais, condição gritante quando pensamos na Amazônia (Brasil, 2006). As comunidades tradicionais da Amazônia tais como indígenas, caiçaras, caboclos e quilombolas detêm um vasto conhecimento sobre o uso de uma grande diversidade de plantas medicinais tanto nativas como exóticas para inúmeras indicações terapêuticas Informações sobre essas plantas, dos seus usos, nomes, das formas de cultivá-las e de suas histórias foram e ainda são transmitidos de geração a geração constituindo- se no “conhecimento tradicional” (LORENZI; MATOS, 2008; ALVES, 2010). Segundo a pesquisadora Telma Lélia Gonçalves Schultz de Carvalho, em sua dissertação de mestrado, dentre as 60 comunidades quilombolas existentes no Baixo Amazonas, encontramos, por exemplo, a comunidade quilombola Tininho, existente há mais de 190 anos, que sobreviveu com acesso restrito aos grandes centros urbanos, especialmente no que tange a obtenção de atendimento à saúde, de infraestrutura, políticas de geração de renda e de assistência técnica. Entende-se, assim, que as estratégias de sobrevivência da comunidade passaram diretamente pela sua capacidade de gerir sua própria existência enquanto organização social pensante e portadora de conhecimentos capazes de responder às suas demandas no que tange a saúde e outras formas de cuidado. Ainda segundo a autora, a permanência na região há tanto tempo sugere que a comunidade detenha grande conhecimento tradicional sobre os recursos vegetais ao seu redor, utilizados muitas vezes, como estratégias de sobrevivência, inclusive em relação aos aspectos de saúde, já que os remédios caseiros advindo das plantas é um meio de tratamento para várias enfermidades e algumas vezes o único recurso terapêutico disponível. Importante salientar, que atualmente, boa parte das plantas medicinais cultivadas e dos conhecimentos tradicionais presentes na prática destas comunidades estão se perdendo rapidamente como consequência das mudanças socioeconômicas, culturais e das formas de uso da terra na Amazônia. Segundo a pesquisadora, o desaparecimento desse saber ancestral coloca a necessidade de o estabelecimento de ações para garantir seu registro e valorização. É este o papel fundamental da pesquisa etnodirigida em etnofarmacologia e da perspectiva etnocientífica. Mas quais são as formas de ser dessa pesquisa? Quais são suas estratégias metodológicas e base epistemológica? 28 5.1 Etnofarmacologia e estudo etnodirigido: questões metodológicas e epistemológicas Segundo Elaine Elisabetsky (2003), pesquisadora pioneira dos estudos de etnofarmacologia no cenário intelectual e acadêmico brasileiro, a questão metodológica e epistemológica se coloca em relação ao tratamento do objeto e dos fenômenos estudados pela disciplina. Segundo a autora, a Etnofarmacologia não trata de superstições, mas do conhecimento popular relacionado aos “sistemas tradicionais de medicina” (ELISABETSKY, 2003, p. 35). A apreciação desse conhecimento depende, assim, de admitir que se trata de um conhecimento autêntico, ou seja, um produto válido do intelecto humano e com função social estruturante. Por isso, define-se Etnofarmacologia como a exploração científica interdisciplinar dos agentes biologicamente ativos, tradicionalmente empregados ou observados pelos seres humanos no território de sua cultura e tradições de suas comunidades, entendendo que a disciplina tem como base um trabalho descritivo que visa situar as formas convencionais de investigação e aplicação das ciências experimentais em relação ao saber produzido em uma determinada comunidade humana. Para compreender essa relação de um campo de conhecimento ao outro, podemos tomar como exemplo as etapas envolvidas no processo de desenvolvimento de fármacos. Esse processo pode ser resumido da seguinte maneira: em primeiro momento, existe a necessidade de investigação e descoberta da atividade terapêutica como característica de uma substância ou composto. Para isso, podem ser realizados testes in vitro para avaliar as propriedades biológicas das moléculas promissoras, investigando a ação farmacocinética e a farmacodinâmica destas moléculas em animais, constituindo um estudo pré-clínico. Por fim, são realizados estudos clínicos em seres humanos em várias fases (estudo clínico), visando estabelecer a validade das hipóteses e os protocolos para produção e uso de um fármaco. Esse percurso a partir do qual se produz um medicamento conforme demonstração da eficácia de uma substância, é antecedido por um processo de preparação, que visa selecionarquais plantas entrarão nas cenas investigativas, laboratoriais, farmacológicas e terapêuticas. O estudo etnodirigido é exatamente uma estratégia que pode ser utilizada nesse sentido. No entanto, não se trata apenas de 'terminar' a investigação nesse momento em que ‘planta’ entra para o mundo da 29 ciência, mas se ater também ao sentido que planta expressa na vida de uma comunidade. Por isso, a etnofarmacologia envolve também o estudo das concepções de natureza e experiência que podem ser identificados na maneira como uma comunidade testemunha sua relação de experiência com as plantas. Assim, o estudo etnodirigido se dá por uma metodologia que preserva o conhecimento que as comunidades têm sobre as plantas e seu poder terapêutico. Podem ser realizadas entrevistas de caráter biográfico, descrições fenomenológicas de caráter etnológico, sistemas de abordagem e aprendizagem através da observação dos atores envolvidos nos processos de cura da comunidade, registros em imagens e áudios da maneira como uma comunidade fala das plantas, entendendo as práticas de restituição da saúde envolvidas, da descrição da doença e das formas de sua experiência. Essa forma de pesquisa tem os seguintes objetivos: a) bioprospectar e ampliar a ciência farmacêutica, tornando possível impactos terapêuticos e sociais; a bioprospecção consiste na busca sistemática por organismos, genes, enzimas, compostos, processos e partes provenientes de seres vivos em geral (coletivamente chamados de recursos genéticos) que possam tornar possível o desenvolvimento de um produto para fins medicinais e intervenção na 'biologia humana' e aquela outros seres vivos. b) Conservar e preservar a biodiversidade do país; nesse caso, a valorização das plantas e dos saberes tradicionais sobre eles permite ver como a sustentabilidade, a conservação são processos geradores de riqueza sustentável, opondo-se, assim, as formas de exploração predatória que caracterizaram boa parte da ação humana sobre o mundo natural nos últimos séculos. c) Promover o uso local das plantas em associação com fármacos convencionais e outras tecnologias biomédicas, enquanto prática terapêutica, utilizando o conhecimento das comunidades locais, mas também respeitando seu direito de propriedade intelectual. Trata-se, também uma alternativa econômica para as comunidades que podem ser subsidiadas para o cultivo de ervas medicinais e plantas com potencial terapêutico. 30 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS: FITOTERAPIA. ETNOFARMACOLOGIA E A REALIDADE BRASILEIRA A fitoterapia é uma técnica de cura farmacológica que se preocupa com as funções terapêuticas das plantas. No mundo contemporâneo, médicos, nutricionistas, farmacêuticos, fisioterapeutas e outros profissionais utilizavam dos fitoterápicos no tratamento de várias doenças, buscando também através da fitoterapia prevenir quadros de adoecimento. É importante lembrar que as observações populares e as investigações científicas sobre o uso e a eficácia de plantas medicinais mantêm em voga a prática do consumo de fitoterápicos, tornando valiosas as informações terapêuticas acumuladas durante séculos e aquelas oriundas de sociedades tradicionais. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), amplos setores da população confiam nos métodos tradicionais relativos aos cuidados cotidianos com a saúde e cerca de 80% dessa população, principalmente dos países em desenvolvimento, confiam nos derivados de plantas medicinais para seus cuidados com a saúde. Nesse contexto, a tendência nas últimas décadas é adotar o estudo científico das plantas já conhecidas pelas sociedades tradicionais, utilizando esse conhecimento como orientador da pesquisa farmacológica laboratorial (OMS, 1989; 2002) A Etnobotânica e Etnofarmacologia são, portanto, instrumentos que permitem o resgate e a conservação dos saberes tradicionais, contribuindo, portanto, para realizar uma das orientações fundamentais da Organização Mundial de Saúde (OMS): fazer a conexão entre a medicina convencional e as medicinas tradicionais, assegurando que medicamentos à base de plantas não sejam desconsiderados por estreiteza de compreensão ou preconceito; mas também não sejam aceitos de modo inquestionável, pois também resultam malefícios a saúde quando mal administrados e não reconhecidos seus efeitos adversos (BRUNING, M. C. R. et al, 2012). Recomenda-se, assim, uma atitude crítica, que busque entender como o mundo das plantas pode se inserir nas redes públicas de saúde, considerando ainda que em muitas regiões e comunidades as plantas medicinais se apresentam como o recurso terapêutico mais imediato, já que o acesso a medicina é desigual em todo o mundo. 31 O uso de fitoterápicos com finalidade profilática, curativa, paliativa ou com fins de diagnóstico passou a ser oficialmente reconhecido pela OMS em 1978, quando a entidade recomendou a difusão mundial dos conhecimentos necessários para o seu uso. Considerando-se as plantas medicinais importantes instrumentos da Assistência, vários comunicados e resoluções da OMS expressam a posição da entidade a respeito da necessidade de valorizar o uso desses medicamentos no âmbito sanitário, baseando-se na construção de políticas nacionais como também no esforço de regulamentação e fiscalização para os produtos oriundos das práticas tradicionais contemplem, entre outros, os conceitos de Medicina Tradicional (MT) e Medicina Complementar/Alternativa (MCA). O Brasil possui grande potencial para o desenvolvimento da Fitoterapia. Dois aspectos são sinais deste potencial: a grandeza da biodiversidade brasileira e a sociodiversidade no tratamento das plantas medicinais. Nesse sentido, cabe lembrar, que diversos foram os avanços nas últimas décadas para a regulamentação da Fitoterapia no Brasil como estratégia terapêutica disponível na Atenção Básica do Sistema Único de Saúde (SUS). A formulação e implementação de políticas públicas para valorização do conhecimento tradicional e científico das plantas medicinais e sua inserção na saúde pública para cuidados primários, representam, portanto, um marco regulatório e incentivo à pesquisa para plantas medicinais e fitoterápicas, priorizando a biodiversidade do país, o desenvolvimento de tecnologias e inovações nas diversas fases da cadeia produtiva. No SUS, as ações/programas com plantas medicinais e fitoterapia, distribuídos em todas as regiões do País, ocorrem de maneira diferenciada, com relação aos produtos e serviços oferecidos e, principalmente, às espécies de plantas medicinais disponibilizadas, em virtude dos diferentes biomas. Os estudos sobre programas e ações de fitoterapia demonstram que a inserção de fitoterápicos e plantas medicinais na atenção primária à saúde melhorou o acesso a outras possibilidades terapêuticas. Adicionalmente, tal inserção estimulou profissionais de saúde a organizar ações de educação em saúde e educação ambiental, além de ações intersetoriais (parceria com agricultura, educação, meio ambiente) (BARREIRO, E. J.; BOLZANI, V. D. S, 2009). A pesquisa etnofarmacológica, nesse contexto, é o lugar onde o saber tradicional e a ciência fazem o encontro, já que é um dos caminhos para a descoberta 32 de novas drogas. É necessário, portanto, levar em consideração as características inerentes aos grupos étnicos pesquisados, bem como seus conceitos de doenças e remédios, além da observação de formas farmacêuticas indicadas, entendendo como cada mistura e preparações a partir de uma erva ou conjunto de plantas significa uma riqueza de mundo e uma demonstração da diversidade cultural do Brasil, revelando, assim, a história do nosso povo, dos seus sofrimentos e suas estratégias de conhecimento e sobrevivência em cenários de experiência adversos.