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CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE DIREITOS POLÍTICOS 1. NOÇÕES INTRODUTÓRIAS O regime democrático está fundamentado na soberania popular. De acordo com a Constituição (art. 14), a soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com igual valor para todos e, nos temos da lei, mediante plebiscito, referendo e iniciativa popular. Tanto o plebiscito, quanto o referendo são instrumentos de democracia direta que têm por finalidade a consulta do povo acerca de matéria de relevante interesse público. Tais institutos divergem, contudo, no que tange ao momento dessa consulta, uma vez que, no plebiscito a consulta é prévia e, no referendo, é posterior. Sendo assim, no plebiscito, cabe ao povo aprovar ou denegar a matéria que lhe foi submetida, de modo que o governo se submeta a essa decisão. Já no referendo, o povo somente ratifica ou rejeita decisão (ato) já tomada (o). A iniciativa popular, em âmbito federal, depende da apresentação à Câmara dos Deputados de projeto de lei, subscrito por, no mínimo, 1% do eleitorado nacional, distribuído por, pelo menos, cinco Estados, com não menos de 0,3% dos eleitores de cada um deles. O direito ao sufrágio pode ser dividido sob duas perspectivas: uma ativa e uma passiva. Sob a perspectiva ativa (capacidade eleitoral ativa), fala-se no direito de votar, de alistar- se como eleitor (alistabilidade). A perspectiva passiva, por sua vez, relaciona-se ao direito de ser votado. O sufrágio pode ser universal ou restrito. Sufrágio universal é concedido a todos. Sufrágio restrito é reservado aos que atendem determinados requisitos, por exemplo, econômicos (sufrágio censitário) ou de caráter intelectual (sufrágio capacitário). No Brasil, o sufrágio é universal e exercido através do voto, obrigatório para os maiores de 18 (dezoito) anos e menores de 70 (setenta) anos, e facultativo para os analfabetos, para os maiores de 70 (setenta) anos e para aqueles que possuem mais de 16 (dezesseis) e menos de 18 (dezoito) anos. A aquisição do direito ao sufrágio pressupõe o alistamento eleitoral. São inalistáveis os estrangeiros e os conscritos, durante o período do serviço militar obrigatório. A capacidade eleitoral passiva, como antes visto, é a possibilidade de ser votado, de ser eleito (elegibilidade), não se confundindo com a alistabilidade, visto que nem todo eleitor é elegível, mas todo elegível é eleitor. Para que uma pessoa seja elegível é necessário o preenchimento das seguintes condições de elegibilidade: a) a nacionalidade brasileira; b) o pleno exercício dos direitos políticos; c) o alistamento eleitoral; d) o domicílio eleitoral na circunscrição; e) a filiação partidária (o Brasil não admite a candidatura autônoma ou avulsa, ou seja, sem filiação a partido político); f) a idade mínima de: f1) trinta e cinco anos para Presidente e Vice- Presidente da República e Senador; f2) trinta anos para Governador e Vice-Governador de Estado e do Distrito Federal; f3) vinte e um anos para Deputado Federal, Deputado Estadual ou Distrital, Prefeito, Vice-Prefeito e juiz de paz; f4) dezoito anos para vereador. Além disso, para que um cidadão possa ser eleito, deve não se enquadrar nas condições de inelegibilidade. Importante salientar que recente julgado do STF, decidido em 2018, considerou inconstitucional a lei que determina que, na votação eletrônica, o registro de cada voto deverá ser impresso e depositado, de forma automática e sem contato manual do eleitor, em local previamente lacrado (art. 59-A da Lei 9.504/97, incluído pela Lei 13.165/2015). Essa previsão acaba permitindo a identificação de quem votou, ou seja, permite a quebra do sigilo, e, consequentemente, a diminuição da liberdade do voto, violando o art. 14 e o § 4º do art. 60 da Constituição Federal. Cabe ao legislador fazer a opção pelo voto impresso, eletrônico ou híbrido, visto que a CF/88 nada dispõe a esse respeito, observadas, entretanto, as características do voto nela previstas. O modelo híbrido trazido pelo art. 59-A constitui efetivo retrocesso aos avanços democráticos conquistados pelo Brasil para garantir eleições realmente livres, em que as pessoas possam escolher os candidatos que preferirem. Informativo 905 STF. 2. INELEGIBILIDADES Existem dois tipos de inelegibilidade, a absoluta e a relativa. Por meio da inelegibilidade absoluta, impede-se que o cidadão dispute qualquer mandato eletivo. Somente a Constituição pode estabelecer esse tipo de inelegibilidade. São inelegíveis absolutamente: a) os analfabetos (possuem a capacidade eleitoral ativa, mas não a passiva); b) os inalistáveis (os estrangeiros e os conscritos, durante o serviço militar). As inelegibilidades relativas, por sua vez, referem-se a situações que impedem o cidadão de eleger-se para certos cargos, mas não para outros. Relacionam-se à função exercida, ao parentesco, à condição de militar ou a outras situações previstas em lei complementar. Em razão da inelegibilidade funcional, o Presidente da República, os Governadores de Estado e do Distrito Federal, os Prefeitos e quem os houver sucedido ou substituído no curso dos mandatos não poderão ser reeleitos para um terceiro mandato sucessivo. Também é inelegibilidade funcional aquela que determina ao Presidente da República, aos Governadores de Estado e do Distrito Federal e aos Prefeitos a renúncia dos respectivos mandatos até 06 (seis) meses antes do pleito, para candidatura a outros cargos (regra da desincompatibilização). Importante! – A desincompatibilização somente é necessária para candidatura a outros cargos. No caso de reeleição, não é preciso renúncia com até 06 (seis) meses. A inelegibilidade em razão do parentesco está explicitada no art. 14, §7º, da CRFB/1988. Segundo tal artigo, são inelegíveis, no território da circunscrição do titular, o cônjuge e os parentes consanguíneos ou afins, até o segundo grau ou por adoção, do: a) Presidente da República; b) Governador de Estado, Território ou do Distrito Federal; c) Prefeito; d) ou quem haja substituído dentro dos 06 (seis meses) anteriores ao pleito, salvo se já titular de mandato eletivo e candidato à reeleição. Trata-se da inelegibilidade reflexa. Em outras palavras, tem-se que: a) o cônjuge e parentes consanguíneos ou afins até segundo grau do Prefeito não poderão candidatar-se aos mandatos de Vereador e Prefeito do mesmo município; b) o cônjuge e os parentes consanguíneos ou afins até segundo grau do Governador não poderão candidatar-se aos cargos de Vereador, Deputado Estadual, Deputado Federal, Senador ou Governador pelo mesmo estado; c) o cônjuge, parentes consanguíneos ou afins até segundo grau do Presidente da República não poderão candidatar-se a qualquer cargo eletivo no País. Ressalte-se que a inelegibilidade reflexa é inaplicável quando o cônjuge ou os parentes já possuírem mandato eletivo e puderem candidatar-se à reeleição. A respeito do tema, destaque-se a Súmula Vinculante 18, in verbis: “A dissolução da sociedade ou do vínculo conjugal, no curso do mandato, não afasta a inelegibilidade prevista no § 7º do artigo 14 da Constituição Federal”. Importante! – O STF tem entendimento no sentido de que o cônjuge e os parentes podem concorrer nas eleições, quando o titular do cargo puder ser reeleito e não concorra na disputa. Há entendimento, inclusive, de que o cônjuge e os parentes (consanguíneos ou afins até segundo grau) são elegíveis para o mesmo cargo do titular, quando este tiver direito à reeleição e houver renúncia até 06 (seis) meses antes do pleito. Com relação ao militar alistável, é elegível, desde que: a) quando conte com menos de 10 (dez) anos de serviço, afaste-se da atividade; b) se contar com mais de 10 (dez) anos de serviço, será agregado pela autoridade superior e, se eleito, passará a automaticamente, no ato da diplomação, para a inatividade. Além dessas, outras hipóteses de inelegibilidade (relativas) podem ser criadas, desde que por lei complementarda União. Nesse sentido, dispõe o §9º do art. 14 da Constituição: “Lei complementar estabelecerá outros casos de inelegibilidade e os prazos de sua cessação, a fim de proteger a probidade administrativa, a moralidade para exercício de mandato considerada vida pregressa do candidato, e a normalidade e legitimidade das eleições contra a influência do poder econômico ou o abuso do exercício de função, cargo ou emprego na administração direta ou indireta”. 3. PRIVAÇÃO DOS DIREITOS POLÍTICOS Apenas diante de situações excepcionais, é possível privar um cidadão de seus direitos políticos. Tal privação pode ser definitiva (perda) ou temporária (suspensão). Não é permitido, contudo, a cassação dos direitos políticos. São hipóteses de perda dos direitos políticos: a) o cancelamento da naturalização por sentença transitada em julgado; e c) a recusa de cumprimento de obrigação a todos imposta ou prestação alternativa. Importante! – a Constituição estabelece que ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política. Se tais condições forem invocadas para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e houver recusa de cumprimento de obrigação alternativa (estabelecida em lei), haverá a perda dos direitos políticos. Para reaquisição dos direitos políticos no caso de cancelamento de naturalização por sentença transitada em julgado, será necessário o ajuizamento de ação rescisória. Quando a perda se der por recusa ao cumprimento de obrigação a todos imposta ou prestação alternativa, dar-se-á a reaquisição quando houver o cumprimento da obrigação devida. São, em contrapartida, causas de suspensão dos direitos políticos: a) incapacidade civil absoluta; b) condenação criminal transitada em julgado (a suspensão persiste enquanto durarem os efeitos da condenação); c) improbidade administrativa. A reaquisição desses direitos, nas hipóteses de suspensão, ocorrerá quando cessarem as causas suspensivas. 4. EXERCÍCIO DE MANDATO ELETIVO POR SERVIDOR PÚBLICO Em seu artigo 38, a Constituição estabelece que, ao servidor público da administração direta, autárquica e fundacional, no exercício de mandato eletivo, aplicam-se as seguintes disposições: a) tratando-se de mandato eletivo federal, estadual ou distrital, ficará afastado de seu cargo, emprego ou função; b) investido no mandato de Prefeito, será afastado do cargo, emprego ou função, sendo-lhe facultado optar pela sua remuneração; c) investido no mandato de Vereador, havendo compatibilidade de horários, perceberá as vantagens de seu cargo, emprego ou função, sem prejuízo da remuneração do cargo eletivo, e, não havendo compatibilidade, será aplicada a norma do inciso anterior; d) em qualquer caso que exija o afastamento para o exercício de mandato eletivo, seu tempo de serviço será contado para todos os efeitos legais, exceto para promoção por merecimento; e) para efeito de benefício previdenciário, no caso de afastamento, os valores serão determinados como se no exercício estivesse. 5. BIBLIOGRAFIA LENZA, Pedro. Direito Constitucional Esquematizado. 16 ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Saraiva, 2012. SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 37. ed. São Paulo: Malheiros, 2014.