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Saúde Coletiva Dra. Marcela Demitto Furtado Dra. Raquel Gusmão Oliveira DIREÇÃO UNICESUMAR Reitor Wilson de Matos Silva, Vice-Reitor e Pró-Reitor de Administração, Wilson de Matos Silva Filho, Pró-Reitor Executivo de EAD William Victor Kendrick de Matos Silva, Pró-Reitor de Ensino de EAD Janes Fidélis Tomelin Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi. NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Diretoria Executiva Chrystiano Mincoff, James Prestes, Tiago Stachon , Diretoria de Design Educacional Débora Leite, Diretoria de Graduação e Pós-graduação Kátia Coelho, Diretoria de Permanência Leonardo Spaine, Head de Produção de Conteúdos Celso Luiz Braga de Souza Filho, Head de Metodologias Ativas Thuinie Daros, Gerência de Projetos Especiais Daniel F. Hey, Gerência de Produção de Conteúdos Diogo Ribeiro Garcia, Supervisão do Núcleo de Produção de Materiais Nádila de Almeida Toledo, Projeto Gráfico José Jhonny Coelho e Thayla Guimarães Cripaldi, Fotos Shutterstock. Coordenador de Conteúdo Lilian Rosana dos Santos Moraes. Designer Educacional Amanda Peçanha dos Santos e Janaína de Souza Pontes. Revisão Textual Érica Fernanda Ortega. Editoração Isabela Mezzaroba Belido. Ilustração Mateus Calmon. Realidade Aumentada Kleber Ribeiro, Leandro Naldei e Thiago Surmani. C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância; FURTADO, Marcela Demitto; OLIVEIRA, Raquel Gusmão. Saúde Coletiva. Marcela Demitto Furtado; Raquel Gusmão Oliveira. Maringá-PR.: Unicesumar, 2019. Reimpresso em 2024. 152 p. “Graduação - EAD”. 1. Saúde. 2. Coletiva. 3. EaD. I. Título. ISBN 978-85-459-1725-0 CDD - 22 ed. 610 CIP - NBR 12899 - AACR/2 NEAD - Núcleo de Educação a Distância Av. Guedner, 1610, Bloco 4 - Jardim Aclimação CEP 87050-900 - Maringá - Paraná unicesumar.edu.br | 0800 600 6360 Impresso por: PALAVRA DO REITOR WILSON DE MATOS SILVA REITOR Em um mundo global e dinâmico, nós trabalha- mos com princípios éticos e profissionalismo, não somente para oferecer uma educação de qualida- de, mas, acima de tudo, para gerar uma conversão integral das pessoas ao conhecimento. Baseamo- -nos em 4 pilares: intelectual, profissional, emo- cional e espiritual. Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois cursos de graduação e 180 alunos. Hoje, temos mais de 100 mil estudantes espalhados em todo o Brasil: nos quatro campi presenciais (Maringá, Curitiba, Ponta Grossa e Londrina) e em mais de 300 polos EAD no país, com dezenas de cursos de graduação e pós-graduação. Produzimos e revi- samos 500 livros e distribuímos mais de 500 mil exemplares por ano. Somos reconhecidos pelo MEC como uma instituição de excelência, com IGC 4 em 7 anos consecutivos. Estamos entre os 10 maiores grupos educacionais do Brasil. A rapidez do mundo moderno exige dos educadores soluções inteligentes para as ne- cessidades de todos. Para continuar relevante, a instituição de educação precisa ter pelo menos três virtudes: inovação, coragem e compromisso com a qualidade. Por isso, desenvolvemos, para os cursos de Engenharia, metodologias ativas, as quais visam reunir o melhor do ensino presencial e a distância. Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária. Vamos juntos! BOAS-VINDAS WILLIAM DE MATOS SILVA PRÓ-REITOR EXECUTIVO DE EAD Prezado(a) Acadêmico(a), bem-vindo(a) à Co- munidade do Conhecimento. Essa é a característica principal pela qual a Unicesumar tem sido conhecida pelos nossos alu- nos, professores e pela nossa sociedade. Porém, é importante destacar aqui que não estamos falando mais daquele conhecimento estático, repetitivo, local e elitizado, mas de um conhecimento dinâ- mico, renovável em minutos, atemporal, global, democratizado, transformado pelas tecnologias digitais e virtuais. De fato, as tecnologias de informação e comu- nicação têm nos aproximado cada vez mais de pessoas, lugares, informações, da educação por meio da conectividade via internet, do acesso wireless em diferentes lugares e da mobilidade dos celulares. As redes sociais, os sites, blogs e os tablets ace- leraram a informação e a produção do conheci- mento, que não reconhece mais fuso horário e atravessa oceanos em segundos. A apropriação dessa nova forma de conhecer transformou-se hoje em um dos principais fatores de agregação de valor, de superação das desigualdades, propagação de trabalho qualificado e de bem-estar. Logo, como agente social, convido você a saber cada vez mais, a conhecer, entender, selecionar e usar a tecnologia que temos e que está disponível. Da mesma forma que a imprensa de Gutenberg modificou toda uma cultura e forma de conhecer, as tecnologias atuais e suas novas ferramentas, equipamentos e aplicações estão mudando a nossa cultura e transformando a todos nós. Então, prio- rizar o conhecimento hoje, por meio da Educação a Distância (EAD), significa possibilitar o contato com ambientes cativantes, ricos em informações e interatividade. É um processo desafiador, que ao mesmo tempo abrirá as portas para melhores oportunidades. Como já disse Sócrates, “a vida sem desafios não vale a pena ser vivida”. É isso que a EAD da Unicesumar se propõe a fazer. Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quando investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou profissional, nos transformamos e, consequentemente, transformamos também a so- ciedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportunidades e/ou estabe- lecendo mudanças capazes de alcançar um nível de desenvolvimento compatível com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompa- nhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”. Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica e encontram-se integrados à proposta pedagógica, contribuindo no processo educa- cional, complementando sua formação profis- sional, desenvolvendo competências e habilida- des, e aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, de maneira a inseri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta forma possibilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhecimentos necessários para a sua formação pessoal e profissional. Portanto, nossa distância nesse processo de crescimento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o Stu- deo, que é o seu Ambiente Virtual de Aprendiza- gem, interaja nos fóruns e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das discussões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de apren- dizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranquili- dade e segurança sua trajetória acadêmica. APRESENTAÇÃO Caro(a) aluno(a), seja bem-vindo(a)! Este material foi cuidadosamente preparado para você! Tendo como ob- jetivo introduzir alguns temas da Saúde Coletiva em uma perspectiva atualizada, buscando ajudá-lo(a) na compreensão acerca da temática e subsidiar sua prática como Profissional da Saúde. Este material está dividido em cinco Unidades: A Unidade 1 busca discutir o binômio saúde-doença, em uma perspectiva atualizada, discutindo as mudanças e a evolução do conceito de saúde ao longo dos tempos e os modelos de saúde preventivista e de promoção à saúde; também discute os fatores condicionantes e determinantes no pro- cesso saúde-doença e seu impacto na realidade brasileira; e, ainda nesse sentido, apresenta os modelos de Atenção à(SUS). Internacionalmente, foi consultor da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), atuando em vários países da América Latina. Fonte: adaptado de Fiocruz ([2018], on-line)1. A Reforma Sanitária diz respeito a “…um processo de transformação da norma legal e do aparelho institucional que regulamenta e se responsabiliza pela proteção à saúde dos cidadãos”. (Sonia Fleury Teixeira ) ao INAMPS, agora, era repassado às secretarias estaduais de saúde (ANDRADE; SOARES; JU- NIOR, 2001). O SUDS possuía como principais diretrizes a universalização e equidade no acesso aos serviços de saúde; a descentralização das ações de saúde, como citado anteriormente; a integralidade do cuidado; e a implementação de distritos sanitários (ANDRADE; SOARES; JUNIOR, 2001). Em 1988, é promulgada a Constituição da Re- pública, denominada Constituição Cidadã, a qual foi fundamental na definição de ações prioritárias na área de saúde pública (BRASIL, 2000a). Vamos relembrar que foi nessa Constituição que ficou estabelecido que “a saúde é direito de todos e dever do Estado”. A criação do Sistema Único de Saúde (SUS) se deu em 19 de setembro de 1990, por meio da lei 8.080, que “dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços cor- respondentes” (BRASIL, 8.080/1990). De forma geral, essa primeira lei do SUS detalha sobre os objetivos e diretrizes do SUS, os quais serão dis- cutidos no próximo tópico. Logo em seguida, em dezembro de 1990, foi criada a lei 8.142, que “dispõe sobre a participação da comunidade na gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) e sobre as transferências intergover- namentais de recursos financeiros na área da saúde e dá outras providências” (BRASIL, 8.142/1990). Essas duas leis (8.080 e 8.142), denominadas “Leis Orgânicas de Saúde”, foram objeto de muita disputa política. Assim, finalmente estava construído o arca- bouço jurídico do Sistema Único de Saúde. Po- rém, novas lutas ainda estavam por vir e, claro, inúmeras conquistas também! 48 História da Saúde Pública no Brasil Entendendo o SUS Nesse tópico, vamos abordar, especialmente, os objetivos e princípios do SUS, bem como alguns marcos importantes que irão facilitar a sua com- preensão acerca dessa política pública de saúde. De acordo com a lei 8.080, já abordada ante- riormente, os objetivos do SUS são: a identificação e divulgação dos fatores condicionantes e determi- nantes da saúde; a formulação de políticas de saú- de; a assistência às pessoas por intermédio de ações de promoção, proteção e recuperação da saúde, com realização integrada das ações assistenciais e das atividades preventivas (BRASIL, 8.080/1990). Em relação aos princípios do SUS, os que com- põem a sua base, referindo-se aos objetivos fina- lísticos do sistema de saúde, são denominados de doutrinários (ou éticos), sendo eles: universalida- de, equidade e integralidade (PAIM; SILVA, 2010). O princípio de universalidade reafirma o que já foi previsto na Constituição de 1988, que a saú- de é um direito de todos e dever do Poder Público; é a garantia de atenção à saúde de todos os cida- dãos. “No SUS, universalidade supõe que todos os brasileiros tenham acesso igualitário aos serviços de saúde e respectivas ações, sem qualquer barrei- ra de natureza legal, econômica, física ou cultural” (PAIM; SILVA, 2010, p. 114). 49UNIDADE 2 “ A integralidade diz respeito a atender as necessidades específicas de cada indivíduo ou grupo de pessoas, de modo a garantir e promover ações de prevenção, promoção, assistência e reabilitação. De certa forma, é, também, compreender o homem como um ser integral, biopsicossocial, o que irá proporcionar um atendimento holístico (MACHADO et al., 2007). A Integralidade é o próprio caminho que vai transformando as pessoas e construindo algo melhor. Busca uma assistência ampliada, trans- formadora, centrada no indivíduo e não aceita a redução deste nem à doença, nem ao aspecto biológico. Além do atendimento integral, envolve a valorização do cuidado e o acolhimento (FON- TOURA; MAYER, 2006, p. 532-533). O princípio de equidade está atrelado à ne- cessidade de diminuir as desigualdades, sejam elas sociais e/ou econômicas, muito presentes em nosso país quando, por exemplo, comparamos diferentes regiões. Porém, a equidade não é o mes- mo que igualdade, visto que as pessoas, por serem diferentes, possuem necessidades diferentes. Logo, esse princípio busca suprir a necessidade de as- sistência de saúde de acordo com a igualdade de condições (PAIM; SILVA, 2010). Figura 1 - Igualdade e Equidade Fonte: Marta - O meu canto (2017, on-line)2. 50 História da Saúde Pública no Brasil Os princípios que regem a organização do SUS são chamados de Organizacionais ou Operati- vos, são eles: Regionalização, Hierarquização, Resolubilidade, Descentralização e Participação comunitária (BRASIL, 2001a). O entendimento dos princípios de regiona- lização e hierarquização diz respeito à forma de organização dos serviços entre si e com a popu- lação. A regionalização vai além da delimitação rígida de uma base territorial, usuários e serviços; leva-se em conta, também, a divisão político-ad- ministrativa do país (OLIVEIRA et al., 2009). A hierarquização significa que a organização do sistema de saúde deve acontecer em níveis crescentes de complexidade, considerando as ca- racterísticas específicas de cada área geográfica e de cada cliente (OLIVEIRA et al., 2009). Sabendo que o usuário do serviço de saúde pode percorrer por vários níveis de atenção du- rante seu atendimento é que se faz necessário incorporar o sistema de referência e contrarre- ferência, a fim de integrar as redes de saúde e, as- sim, obter maior eficiência no cuidado ao usuário (SERRA; RODRIGUES, 2010). A resolubilidade diz respeito à necessidade do serviço de saúde apresentar-se resolutivo até o nível de sua competência para aquilo que é pro- posto (BRASIL, 1990). O princípio de descentralização pode ser entendido como uma forma de redistribuir as responsabilidades sobre a saúde da população entre as três esferas do governo, acreditando que quanto mais perto a solução estiver do problema, maior serão as chances de acerto. De acordo com Palha e Villa (2003), a des- centralização dos serviços de saúde tem sido o eixo norteador para a operacionalização dos princípios organizativos e diretivos do SUS. Nesse sentido, a descentralização tem ênfase na munici- palização, ou seja, os municípios assumindo um papel cada vez mais importante na prestação e gerenciamento dos serviços de saúde (BARATA; TANAKA; MENDES, 2004). E, por fim, a participação da comunidade re- fere-se à valorização da população nos processos decisórios do país, o que refletiu no chamado “movimento sanitário”, o qual contou com a par- ticipação de intelectuais, usuários e trabalhadores de saúde na luta pela reforma do sistema de saúde. Com o objetivo de colocar em prática a par- ticipação social na saúde é que a lei 8.142 (Lei Complementar da Saúde) propôs a formação dos Conselhos de Saúde, os quais devem acontecer nas três esferas do governo e contar com a pre- sença de representantes do governo, prestadores de serviços, profissionais de saúde e usuários (BRASIL, 8.142/1990). A organização operacional do SUS se deu pela criação das Normas Operacionais Básicas (NOB), as quais possuem três edições (1991, 1993 e 1996), devido à necessidade de aperfeiçoamento ao lon- go dos anos (BRASIL, 2000b). Para atender ao princípio de descentralização, as negociações e pactuações acerca da saúde se dão nos três níveis de governo (nacional, esta- dual e municipal). Nesse sentido, em 1991, foram criadas a Comissão de Intergestores Tripartite (CIT) – com representação do Ministério da Saú- de (MS), do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde (CONASS) e do Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (CONASEMS) – e a Comissão Intergestores Bi- partite (CIB),representada por integrantes da Secretaria Estadual de Saúde (SES) e do Conse- lho Estadual de Secretários Municipais de Saúde (COSEMS) ou órgão equivalente (BRASIL, 2000). Buscando colocar em prática os princípios do SUS, várias estratégias foram formuladas, como a criação dos distritos sanitários, dos sis- temas locais de saúde e do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) (ESPÍNOLA; COSTA, 2006). 51UNIDADE 2 O agente comunitário de saúde é aquele pro- fissional que faz o acompanhamento das famílias que vivem no seu território de abrangência; ele faz uma ponte entre o serviço de saúde e a população, auxiliando nas ações de prevenção e promoção da saúde (BRASIL, 2001b). Outro marco muito importante que buscou reorganizar o SUS no âmbito da atenção básica de saúde foi a criação, em 1994, do Programa de Saúde da Família (PSF), posteriormente intitulado Estra- tégia de Saúde da Família (ESF) (SOUZA, 2000). A operacionalização dos objetivos e princípios do SUS, bem como das diversas políticas criadas no decorrer da sua história, não é uma tarefa fácil e encontra inúmeros obstáculos, como: dificulda- de de financiamento, burocracia no gerenciamen- to público, perfil profissional incompatível com o exigido pelo sistema, dentre muitos outros. Porém, o SUS também é motivo de muitas conquistas que repercutiram em melhores condições de vida para o brasileiro. O SUS ainda está em processo de construção e isso se dá a cada dia. De acordo com Cunha J. e Cunha R. (1998, p. 11), o SUS “se constrói no coti- diano de todos aqueles interessados na mudança da saúde no Brasil. Entendê-lo é uma boa forma de fortalecer a luta pela sua construção”. O SUS depende da atuação concreta dos trabalhadores para que as ações de saúde em defesa da vida tornem-se realidade para a sociedade. É preciso que você, enquanto profissional da saúde, pense sobre o que está ao se alcance para a concretização dos princípios do SUS. 52 História da Saúde Pública no Brasil Pactos pela Saúde Como já discutimos anteriormente, a gestão do SUS é de responsabilidade dos três níveis de go- verno (União, Estados e Municípios), e as Normas Operacionais Básicas (NOB) é que vinham regu- lamentando as relações entre eles até 2006. Nesse ano, foi instituído o Pacto pela Saúde como um conjunto de normas institucionais, com o objetivo de fortalecer a gestão do SUS (BRASIL, 2006). O Pacto pela Saúde se dá num cenário em que se busca a operacionalização do SUS, especialmente no que tange à consolidação da equidade social. Nesse sentido, os profissionais assumiram com- promissos em três dimensões: Pacto pela Vida, em Defesa do SUS e de Gestão, os quais serão aborda- dos brevemente neste tópico (FADEL et al., 2009). No Pacto pela Vida, as metas são firmadas em torno das necessidades prioritárias que geram im- pacto na saúde da população brasileira. São seis as prioridades pactuadas: Saúde do Idoso; Controle do câncer do colo do útero e da mama; Redução da mortalidade infantil e materna; Fortalecimento da capacidade de resposta às doenças emergentes e endemias, com ênfase na dengue, hanseníase, tuber- culose, malária e influenza; Promoção da Saúde; e Fortalecimento da Atenção Básica (BRASIL, 2006). 53UNIDADE 2 O Pacto em Defesa do SUS busca discutir o sis- tema a partir dos seus princípios fundamentais, além de ampliar o diálogo com a sociedade, fa- zendo com que a população se aproxime mais do SUS (CEAP, 2009). As diretrizes desse Pacto, segundo o Ministério da Saúde foram: “ 1. Repolitização da saúde, como um movi- mento que retoma a Reforma Sanitária Bra- sileira aproximando-a dos desafios atuais do SUS; 2. Promoção da Cidadania como estratégia de mobilização social tendo a questão da saúde como um direito; 3.Ga- rantia de financiamento de acordo com as necessidades do Sistema (BRASIL, 2006). Na dimensão do Pacto de Gestão, são aborda- das as seguintes diretrizes: Descentralização; Regionalização; Financiamento; Planejamento; Programação Pactuada e Integrada – PPI; Regu- lação; Participação e Controle Social; Gestão do Trabalho e Educação na Saúde (BRASIL, 2006). Cabe destacar que, no Pacto de Gestão do SUS, é reafirmada a importância da participação da comunidade na maneira de gerir o sistema. As decisões sobre a saúde não devem mais estar cen- tralizadas na “mão” dos gestores. “ Para que a participação da comunidade te- nha melhores condições de atuação, o Pacto propõe um conjunto de ações e reconhece o dever dos gestores de destinar orçamento, cooperando técnica e financeiramente para sua qualificação (CEAP, 2009, p. 14). Assim, acredita-se que o Pacto pela Saúde, consi- derando as suas três dimensões, representa mais uma luta no sentido de reafirmar a saúde como um direito de todos e dever do Estado, buscando garantir as conquistas do SUS até o momento. A Política Nacional de Promoção da Saúde (PNPS) foi aprovada, em 2006, como estratégia que visa a organização da gestão e das práticas de saúde. Em 2015, a PNPS foi revisada, visando destacar a necessidade de articulação com outras políticas públicas, incluindo a participação social e movimentos populares, no sentido de se fortalecer para o enfrentamento dos determinantes sociais de saúde. Dentro da PNPS, foram elencados temas transversais, que auxiliam na formulação de agendas de promoção da saúde e adoção de estratégias, os quais são: Determinantes Sociais da Saúde (DSS), Equidade e respeito à diversidade; Desenvolvimento sustentável; Produção de saúde e cuidado; Ambientes e territórios saudáveis; Vida no trabalho; e Cultura da paz e direitos humanos. Para concretizar as ações de promoção da saúde, foram estabelecidos eixos operacionais: Territoria- lização; Articulação e cooperação intrassetorial e intersetorial; Rede de Atenção à Saúde; Participação e controle social; Gestão; Educação e formação; Vigilância, monitoramento e avaliação; Produção e disseminação de conhecimentos e saberes; e Comunicação social e mídia. Fonte: Brasil (2015). 54 História da Saúde Pública no Brasil Redes de Atenção à Saúde Com base em tudo que já foi explanado até aqui, ainda observa-se, na gestão de saúde, a presença de sistemas hierarquizados, fragmentados e medicaliza- dos, o que não atende adequadamente às demandas de saúde da população. Nesse sentido, o SUS propõe a estratégia de Redes de Atenção em Saúde (RAS), a fim de operacionalizar todos os seus princípios, especialmente o da integralidade no cuidado à saúde. De acordo com Eugênio Vilaça Mendes, as RAS significam: “ [...] uma nova forma de organizar o sistema de atenção à saúde em sistemas integrados que permitam responder, com efetividade, eficiência, segurança, qualidade e equidade, às condições de saúde da população brasi- leira (MENDES, 2011, p. 18). A discussão sobre as RAS já é de longa data em países como Estados Unidos e Canadá. No Brasil, o tema vem sendo abordado a partir do final dos anos 90 e, mesmo recente, já é possível vislumbrar avanços decorrentes desse modelo de atenção, como é o caso do Programa Mãe Paranaense, Rede Cegonha, Rede de Atenção à Urgência e Emergência, entre outras (BRASIL, 2012). 55UNIDADE 2 Curitiba implantou o Programa Mãe Curitibana, em 1999, sendo um exemplo de rede de atenção voltada à saúde materno-infantil, que apresenta resultados positivos na assistência à saúde com queda nas taxas de mortalidade infantil e aumento dos índices de aleitamento materno. Fonte: Mendes (2011). Dos Sistemas Fragmentados para as Redes de Atenção à Saúde Alta Complexidade Média Complexidade APS Atenção Básica Figura 2 - Dos sistemas Fragmentados para as Redes de Atenção à Saúde Fonte: Mendes (2011). Nesse momento, você pode estar se perguntando: afinal como se organiza uma RAS? De acordo com a World Health Organization, os serviços que dependem de menor aporte tec- nológico, a exemplo da atenção primária à saúde, devem apresentar-se dispersos; ao contrário, os serviços mais complexos, comohospitais e uni- dades diagnósticas, tendem a estar mais concen- trados (WHO, 2000). “ A organização das RASs, para ser feita de forma efetiva, eficiente e com qualidade, tem de estruturar-se com base nos seguintes fundamentos: economia de escala, disponi- bilidade de recursos, qualidade e acesso; in- tegração horizontal e vertical; processos de substituição; territórios sanitários; e níveis de atenção (MENDES, 2011, p. 71). Cabe, aqui, discutir brevemente sobre os níveis de complexidade. Erroneamente, a população, bem como gestores e profissionais da saúde, muitas ve- zes, possuem uma visão distorcida sobre o assunto, supervalorizando os níveis terciário e secundário em detrimento do nível primário. A atenção primária não é menos complexa que os outros níveis. Na verdade, é ela que pode resol- ver em torno de 85% dos problemas de saúde da população, ofertando serviços de alta complexi- dade, por exemplo as atividades grupais, as quais buscam a promoção e reabilitação da saúde e pre- venção de doenças. Os níveis secundário e terciá- rio constituem-se pela necessidade de tecnologia, mas não são mais complexos (MENDES, 2011). Assim, a noção hierárquica e piramidal deve ser substituída pelas redes, as quais permitem relações horizontais, possuindo como centro de comuni- cação a atenção primária à saúde, como pode ser ilustrado pela figura a seguir (MENDES, 2011). Redes de Atenção à Saúde 56 História da Saúde Pública no Brasil São três os elementos que constituem as RAS: uma população, uma estrutura operacional e um modelo de atenção à saúde. A presença de uma população é a razão de ser da RAS. Esta precisa ser devidamente conhecida (condições de saú- de, fatores de riscos), registrada e cadastrada em sistemas de informação. O segundo elemento é a estrutura operacional, a qual é constituída pela atenção primária à saúde; os pontos de atenção à saúde secundários e terciários; os sistemas de apoio; os sistemas logísticos; e o sistema de go- vernança (MENDES, 2011). Em relação ao terceiro elemento, que é o mo- delo de atenção, este pode ser definido como: “ [...] um sistema lógico que organiza o fun- cionamento das RASs, articulando, de for- ma singular, as relações entre a população e suas subpopulações estratificadas por ris- cos, os focos das intervenções do sistema de atenção à saúde e os diferentes tipos de intervenções sanitárias, definido em função da visão prevalecente da saúde, das situa- ções demográfica e epidemiológica e dos determinantes sociais da saúde, vigentes em determinado tempo e em determinada sociedade (MENDES, 2011, p. 209). São muitos os desafios a serem superados para a implementação das RAS, os quais vão desde o financiamento, orientação dos serviços com base nas necessidades sanitárias da população, bem como a valorização da atenção primária à saúde por parte de todos (BRASIL, 2012). De acordo com o Ministério da Saúde, outros entraves ainda podem ser elencados: falha na cul- tura e na prática de trabalho em rede; pactos com foco maior na captação de recurso do que em intervenções nas práticas assistenciais; ineficiente capacitação e qualificação profissional; e restrito, monitoramento e avaliação dos resultados por meio de sistema de informações de alta qualidade (BRASIL, 2014). Diante do exposto, percebe-se que, para a efetiva implementação das RAS, faz-se necessário o esforço de todos: gestores (em todas as esferas do governo), profissionais da saúde e população em geral. Nesta unidade, conseguimos relembrar alguns marcos importantes da história do Brasil, além de rever alguns elementos marcantes da economia, da política e da sociedade de forma geral ao longo de cada época. Entendemos que a história das políticas públi- cas de saúde no nosso país sempre esteve atrelada ao contexto histórico e social do momento em que ocorreu e, por isso, foi necessário voltarmos no tempo e vermos tudo o que aconteceu no de- correr dos anos. Compreendemos o cenário em que se deu a criação de um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, o Sistema Único de Saúde (SUS), um momento marcante em nosso país, de desper- tar democrático, de lutas e de muitas conquistas. Conhecemos seu processo de construção, seus principais objetivos e princípios doutrinários e organizativos. Observamos que, para a operacionalização do SUS, foram necessárias algumas pactuações entre os gestores das esferas governamentais. Assim, estudamos o Pacto pela Saúde e as três dimensões que ele englobou: Pacto pela Vida, em Defesa do SUS e de Gestão. Discutimos sobre a necessidade de mudan- ça de um modelo de assistência à saúde hierar- quizado e fragmentado para uma assistência em rede. Nesse sentido, abordamos sobre as Redes de Atenção à Saúde (RAS), seus conceitos, elementos que a compõem e sua forma de organização, acre- ditando que as RAS, por permitirem relações ho- rizontais, tendo como centro a atenção primária, podem contribuir para a integralidade no cuidado à saúde – um dos princípios do SUS. 57UNIDADE 2 Assim, terminamos a nossa viagem no tempo! Espero que você possa ter compreendido melhor e um pouco mais sobre o nosso sistema público de saú- de, seus avanços e desafios. Muitos desafios ainda temos pela frente, quando trabalhamos no contexto do SUS, e você fará parte dele como profissional da saúde, ajudando a construir um pouco mais na história do SUS. Bons estudos! E continue... 58 1. No início do século XX, o Rio de Janeiro se deparou com a epidemia da febre amarela e varíola, doenças que fizeram milhares de vítimas. Nesse período, a obrigatoriedade da vacina contra a varíola e a remodelação da região portuária e do centro da cidade geraram descontentamento na população. Considerando esse contexto histórico, assinale a alternativa correta. a) O alargamento das ruas da área central contribuiu para um ambiente mais arejado, com vistas a reduzir os casos de febre amarela, que é uma doença transmitida pelo ar. b) A população pobre se revoltou, pois tinha consciência da necessidade da vacina para a erradicação da varíola. c) A reforma não aconteceu apenas nas regiões dos portos e área central, mas também nas moradias populares e cortiços, a fim de eliminar os focos de transmissão das doenças. d) A Revolta da vacina ocorreu no governo de Rodrigues Alves em um contexto de reurbanização do centro do Rio de Janeiro e da necessidade de saneamento básico. e) A insatisfação da população não estava relacionada com a modernização urbana autoritária, e sim com as péssimas condições sanitárias. 2. Sobre os princípios doutrinários e organizacionais do Sistema Único de Saúde (SUS), analise as afirmativas a seguir. I) O princípio da equidade no SUS tem seu maior foco na atenção primária à saúde, por ser este um serviço de menor complexidade e baixo custo. II) A integralidade da assistência à saúde refere-se a um conjunto de ações e serviços voltados para a promoção, prevenção e reabilitação, individuais e coletivos, em todos os níveis de complexidade. III) São princípios organizacionais: Regionalização, Hierarquização, Resolubilidade, Descentralização e Participação comunitária. IV) A valorização da população em questões decisórias sobre a saúde e a for- mação dos Conselhos de Saúde dizem respeito ao princípio de Participação comunitária. Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução. 59 Assinale a alternativa correta. a) Apenas I e II estão corretas. b) Apenas II e III estão corretas. c) Apenas I está correta. d) Apenas II, III e IV estão corretas. e) Nenhuma das alternativas está correta. 3. Sobre os principais objetivos do Sistema Único de Saúde, assinale a alternativa correta. a) Formulação de políticas de saúde destinadas a ações curativas, especialmente nas áreas de endemia. b) Assistência às pessoas por intermédio de ações de promoção, proteção e recuperação da saúde, com realização integrada das ações assistenciais e das atividades preventivas. c)Promover ações de alta complexidade nas regiões de maior vulnerabilidade social. d) Assistência às pessoas, com base nas diretrizes do sistema privado. e) Identificar, em cada região, os fatores determinantes das doenças, considerando o processo patológico o foco para a prestação da assistência à saúde. 4. O Pacto pela Saúde, firmado em 2006, refere-se ao compromisso assumido entre as três esferas de gestão (União, Estados e Municípios), com o objetivo de estabe- lecer ajustes e promover inovações no processo de gestão, para, assim, atender com maior qualidade às demandas do SUS. Explique o que foi o Pacto pela Vida. 5. Um sistema de saúde hierarquizado, “estilo piramidal”, não consegue suprir as demandas de saúde da população. É nesse sentido que surgem discussões sobre as Redes de Atenção à Saúde (RAS). Explique o que são as RAS e como elas se organizam. 60 História da saúde pública no Brasil Cláudio Bertolli Filho Editora: Ática Sinopse: o livro apresenta a história da saúde pública no Brasil, suscitando que o leitor faça uma reflexão sobre a relação da saúde com as políticas sociais de cada período. LIVRO Caminhos da Saúde Pública no Brasil Jacobo Finkelman Editora: FIOCRUZ Sinopse: o livro traz a evolução das políticas públicas de saúde, contextualizando com a história do Brasil. Destaca os principais acontecimentos que contribuíram para o desenvolvimento de ações e programas voltados para a melhoria da saúde do povo brasileiro. LIVRO SICKO - SOS Saúde Ano: 2007 Sinopse: O documentário descreve o sistema de saúde americano e o compara com o de outros países, como Cuba, Canadá, França e Inglaterra. Apesar de não mostrar o Sistema de Saúde do Brasil – o SUS – é possível compará-lo com relação ao que é apresentado no filme. FILME 61 ANDRADE, L. O. M.; PONTES, R. J. S.; JUNIOR, T. M. A descentralização no marco da reforma sanitária no Brasil. Rev. Panam. Salud. Publica, Washington, v. 8, n. 1-2, jul./ago. 2000. ANDRADE, S. M.; SOARES, D. A.; JUNIOR, L. C. Bases da saúde coletiva. Londrina: Ed. UEL, 2001. BAPTISTA, T. W. F. Políticas de Saúde no Pós-Constituinte: um estudo da política implementada a partir da produção normativa dos poderes executivo e legislativo no Brasil. 2003. Tese de Doutorado. Rio de Janeiro: IMS/Uerj, 2003. BARATA, L. R. B.; TANAKA, O. Y.; MENDES, J. D. V. Por um processo de descentralização que consolide os princípios do Sistema Único de Saúde. Epidemiol. Serv. 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G.; RODRIGUES, P. H. A. Avaliação da referência e contrarreferência no Programa Saúde da Família na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Ciência & Saúde Coletiva. v. 15. n. 3, p. 3579-3586, 2010. SINGER, P.; CAMPOS, O. Prevenir e curar: o controle social através dos serviços de saúde. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1978. SOUZA, M. F. A. Enfermagem reconstruindo sua prática: mais que uma conquista no PSF. Rev Bras Enferm. v. 53, p. 81-6, 2000. WHO. World Health Organization. The world health report 2000: health systems, improving performance. Geneva: World Health Organization, 2000. REFERÊNCIAS ON-LINE 1Em: . Acesso em: 18 out. 2018. 2Em: . Acesso em: 19 out. 2018. 64 1. D. 2. D. 3. B. 4. O Pacto pela Vida refere-se a um dos pactos que compõe o Pacto pela Saúde, sendo os outros dois: em Defesa do SUS e de Gestão do SUS. O Pacto pela Vida foi constituído a partir da análise da situação de saúde do país e das necessidades prioritárias que geram impacto na saúde da população brasileira. São seis as prioridades pactuadas: Saúde do Idoso; Controle do câncer do colo do útero e da mama; Redução da mortalidade infantil e materna; Fortalecimento da capacidade de resposta às doenças emergentes e endemias, com ênfase na dengue, hanseníase, tuberculose, malária e influenza; Promoção da Saúde; e Fortalecimento da Atenção Básica. 5. As RAS são sistemas organizativos de ações e serviços de saúde que se articulam, atendendo diferentes níveis de complexidade e necessidades tecnológicas que, de forma integrada, permitem atender, com qualidade, a saúde da população brasileira. A noção hierárquica e piramidal deve ser substituída pelas redes, as quais permitem relações horizontais e de interdependência entre os pontos da rede, possuindo como centro de comunicação a atenção primária à saúde. A organização das RAS estrutura-se com base nos seguintes fundamentos: economia de escala, disponibilidade de recursos, qualidade e acesso; integração horizontal e vertical; processos de substituição; territórios sanitários; e níveis de atenção. 65 66 PLANO DE ESTUDOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM • Compreender o conceito de vigilância em saúde e os prin- cipais sistemas de vigilância em saúde. • Conhecer o Sistema de Vigilância Epidemiológica. • Conhecer os sistemas de informação de interesse na saúde. • Apresentar os principais indicadores de saúde. • Discutir os desafios atuais da Vigilância em Saúde. Vigilância em saúde Vigilância epidemiológica Indicadores de saúde Alguns desafios da vigilância em saúde Sistema de informação em saúde Dra. Raquel Gusmão Oliveira Vigilância em Saúde Vigilância em Saúde Temos visto que a saúde e o cuidado à saúde têm sido uma grande preocupação de toda a huma- nidade ao longo da história e dos tempos, a busca da compreensão do fenômeno saúde e doença tem desafiado estudiosos no sentido de superar os desafios de ter uma sociedade mais saudável. No Brasil, a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) é considerada um marco positivo no con- texto da saúde em nosso país, buscando, por meio de princípios e diretrizes, a organização de ações e serviços que efetivamente atendam às necessi- dades de saúde de todos os brasileiros. Recentemente, a criação das Redes de Atenção à Saúde contextualiza que a Vigilância em saúde deve ser organizada em forma de rede, como uma estratégia na organização dos serviços na atenção e promoção à saúde, estabelecendo, assim, dire- trizes e orientações aos profissionais de saúde, na busca de auxiliar na organização e operacionali- zação da rede de Vigilância. Nesse sentido, acreditamos que é fundamen- tal aos profissionais de saúde compreenderem os principais conceitos e os diferentes sistemas que abrangem o Sistema de Vigilância brasileiro. 69UNIDADE 3 Dentre os diversos Sistemas de Vigilância, des- tacamos, nesta unidade, o Sistema de Vigilância Epidemiológica, pois acreditamos que ele tem um amplo impacto nas ações dos profissionais de saúde. Também apresentaremos os principais sistemas de informações de interesse na saúde e os indicado- res de saúde mais utilizados, considerando que, tanto um quanto outro são fundamentais para subsidiar a tomada de decisão no contexto dos serviços de saúde. Finalmente, buscamos discutir alguns desafios atuais da Vigilância em saúde, acreditando que tais desafios constituem espaços de crescimento e de- senvolvimento para os profissionais de saúde. Então, vamos começar... A doença sempre esteve presente na história da humanidade, como, por exemplo, a peste, a varíola, a cólera e muitas outras que foram registradas ao longo dos tempos em diferentes contextos. Você já ouviu falar delas? E na atualidade? De Quais doenças você pode lembrar? Dengue, zika, H1N1 etc. Essas doenças causam um grande impacto na saúde e na vida da população, sem falar em outros agravos que parecem atingir a sociedade e prejudi- car a vida das pessoas, como é o caso da violência. O que fazer para evitar que essas doenças se espalhem ou afetem negativamente a vida das pes- soas? Como reconhecê-las ou, até mesmo, barrá- -las? Que ações devem ser feitas? Nesse contexto, surge o termo “vigilância em saúde” que tem por objetivo a observação e análise permanente da situação de saúde da população, articulando-se em um conjunto de ações destinadas a controlar determinantes, riscos e danos à saúde de populações que vivem em determinados territórios, garantindo a integralidade da atenção – o que inclui tanto a abordagem individual como coletiva dos problemas de saúde (BRASIL, 2010). Vamos entender um pouco mais desse conceito. Quando falamos de Vigilância em saúde, três ações estão implícitas (BOCCATTO, 2012): • A observação da situação de saúde. • A análise dessa situação. • O conjunto de ações destinadas a controlar os determinantes das doenças e dos agravos. A vigilância em saúde deve estar cotidianamente inserida em todos os níveis de atenção da saúde. A partir de suas específicas ferramentas, as equipes de saúde da atenção primária podem desenvolver habilidades de programação e planejamento, de maneira a organizar os serviços com ações progra- madas de atenção à saúde das pessoas, aumentan- do o acesso da população a diferentes atividades e ações de saúde (BRASIL, 2010). Nesse sentido, o conceito de vigilância em saú- de inclui: a vigilância e o controle das doenças transmissíveis, a vigilância das doenças e agra- vos não transmissíveis, a vigilância da situação de saúde, vigilância ambiental em saúde, vigilância da saúde do trabalhador e a vigilância sanitária (BRASIL, 2010). O Quadro 1, a seguir, explica um pouco das par- ticularidades de cada uma delas; mas, apesar das diferenças, Boccatto (2012) indica alguns princípios norteadores comuns, tais como: • A manutenção da qualidade na coleta de dados. • A consolidação desses dados em informa- ções fidedignas. • A ampla disseminação dessas referidas in- formações a todos aqueles que as geraram e que delas necessitam tomar conhecimento, servindo de ferramenta para: » A elaboração de programas, a identifi- cação de fatores de risco e a aplicação de medidas de controle. • A capacitação e o aprimoramento de pessoal. • A aquisição de equipamentos e tecnologias. • O desenvolvimento de produções cien- tíficas. 70 Vigilância em Saúde Nesse sentido, vale destacar que, para a operacio- nalização da Vigilância em Saúde, é necessária a colaboração e a coparticipação de todos os gestores, técnicos, tra balhadores de todos os níveis e atores sociais, e a adaptação aos inovadores modelos de gestão dos serviços públicos e privados, principal- mente aqueles decunho social, sem perder suas características inerentes (BOCATTO, 2012). Atualmente, o Decreto 7508 (2011) estabelece que a Vigilância em Saúde faz parte da rede regio- nalizada e hierarquizada de serviços junto com a Atenção Primária, urgência e emergência, atenção psicossocial, atenção ambulatorial especializada e hospitalar. A Portaria n° 104, de 25 de janeiro de 2011, do Ministério da Saúde, define as terminologias adota- das em legislação nacional, conforme o disposto no Regulamento Sanitário Internacional de 2005, a rela- ção de doenças, agravos e eventos em saúde pública de notificação compulsória em todo o território na- cional e estabelece fluxo, critérios, responsabilidades e atribuições aos profissionais e serviços de saúde. Quadro 1 - Áreas de atuação da Vigilância em Saúde Vigilância Epidemiológica Realiza um conjunto de ações que proporcionam o conhecimento, a detecção ou a prevenção de qualquer mudança nos fatores determinantes e condicionantes de saúde individual ou coletiva, com a finalidade de recomendar e adotar medidas de prevenção e controle de doenças ou agravos. Trabalha com doenças sexual- mente transmissíveis agudas e crônicas; doenças transmissíveis agudas; doenças transmissíveis crônicas; doenças imunopreveníveis; investigações e respostas a casos e surtos e epidemias; doenças emergentes; agravos inusitados; inclui, tam- bém, o Programa Nacional de Imunização (PNI), descentralizado aos municípios. Vigilância Ambiental Desencadeia um conjunto de atividades relativas às zoonoses e questões sa- nitárias ligadas ao meio ambiente e riscos à saúde (água, ar e solo), com ações integradas com as subprefeituras e outras secretarias, devendo participar na formulação da política e na execução de ações de saneamento básico. Vigilância da Saúde do trabalhador Desencadeia um conjunto de atividades que, por meio das ações de vigilância epi- demiológica e vigilância sanitária, destinam-se à promoção e à proteção à saúde dos trabalhadores, assim como visa recuperação e reabilitação da saúde dos tra- balhadores submetidos aos riscos e agravos advindos das condições de trabalho. Vigilância Sanitária Realiza um conjunto de ações capaz de eliminar, diminuir ou prevenir riscos à saúde e de intervir nos problemas sanitários decorrentes do meio ambiente, da produção e circulação de bens e da prestação de serviços de interesse da saúde. Vigilância da Situação de Saúde Desenvolve ações de monitoramento contínuo do país/estado/região/município/ território, por meio de estudos e análises que revelem o comportamento dos principais indicadores de saúde, priorizando questões relevantes e contribuindo para um planejamento de saúde mais abrangente. Fonte: Boccatto (2012). “Doenças reemergentes” são doenças já conhecidas que haviam sido controladas, mas que voltaram a representar ameaça à saúde humana; registra-se no Brasil a dengue, a cólera e a leishmaniose visceral. (Francisco Antônio Zancan Paz e Marilina Assunta Bercini) 71UNIDADE 3 Vigilância Epidemiológica Quando falamos em Vigilância epidemiológica, adotamos o conceito: “ [...] um conjunto de ações que proporcio- nam o conhecimento, a detecção ou a pre- venção de qualquer mudança nos fatores determinantes e condicionantes de saúde individual ou coletiva, com a finalidade de recomendar e adotar medidas de pre- venção e controle de doenças ou agravos (BOCCATTO, 2012). Vamos conhecer um pouco mais sobre a VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA. O Sistema Nacional de Vigilância Epidemioló- gica (SNVE) foi criado, no Brasil, em 1975, junto ao Ministério da Saúde, abrangendo, exclusiva- mente, doenças infecciosas de notificação com- pulsória e agravos inusitados à saúde. Em 1990, implantou-se o sistema de vigilância de eventos adversos pós vacinação e, a partir daí, outros siste- mas de vigilância foram sendo incorporados, tais como a farmacovigilância, sistema de informação de agravos de notificação, vigilância ambiental, vi- 72 Vigilância em Saúde gilância de traumas e lesões, vigilância das doenças crônicas e vigilância global para respostas rápidas a doenças emergentes (WALDMAN et al., 2012). Vejamos um pouco a respeito delas: • Vigilância de doenças infecciosas: ana- lisa o comportamento das doenças (impre- visível e impacto global), influenciada pelo comportamento humano. • Farmacovigilância: aplica-se à identi- ficação, análise, compreensão de eventos adversos associados ao uso de medica- mentos, com a finalidade de estabelecer as bases técnicas para a sua prevenção (medicamentos, vacinas, hemoderivados, produtos biológicos, plantas medicinais, medicina tradicional e complementar e equipamentos médicos). • Vigilância ambiental: coleta, analisa e dissemina informações sobre exposições ambientais potencialmente de risco e des- fechos, estabelece associação entre os des- fechos e especificas exposições ambientais potencialmente de risco. • Vigilância de traumas e lesões: moni- tora a incidência, causas e circunstâncias em que ocorrem casos fatais e não fatais, intencionais e não intencionais – classifi- cação internacional de doenças por cau- sas externas (um dos maiores e relevantes problemas de saúde pública - 10ª causa de morte no mundo). • Vigilância de doenças crônicas: o siste- ma de vigilância de fatores de risco e pro- teção para doenças crônicas por inquérito telefônico (VIGITEL) faz parte das ações do Ministério da Saúde para estruturar a vigilância de doenças crônicas não trans- missíveis (DCNT) no país. • Vigilância global para respostas rápi- das às doenças emergentes: em resposta à rápida urbanização, consumo de alimen- tos industrializados, novas técnicas de cria- ção intensiva de animais, uso inadequado de antibióticos, alterações ambientais, cor- rentes migratórias e intercâmbio mundial e transportes de massa intercontinental, elaborou-se o Regulamento Sanitário In- ternacional com respostas a possíveis epi- demias com rápida disseminação. Os diferentes sistemas de vigilância têm suas es- pecificidades, no entanto, têm em comum os se- guintes objetivos (WALDMAN et al., 2012): • Identificar novas doenças ou eventos ad- versos à saúde. • Detectar epidemias e documentar a disse- minação de doenças. • Estimar a magnitude da morbidade e da mortalidade causadas por determinados agravos. • Identificar grupos e fatores de risco en- volvendo a ocorrência de doenças, assim como resíduos de fonte de infecção e de suscetíveis. • Recomendar, com base objetivas e cientí- ficas, as medidas necessárias para prevenir ou controlar a ocorrência de específicos agravos à saúde. • Avaliar o impacto de medidas de interven- ção e a adequação das táticas e estratégias aplicadas. • Revisar práticas antigas e atuais de sistema de vigilância, com o objetivo de propor no- vos instrumentos metodológicos. 73UNIDADE 3 A Vigilância Epidemiológica atualizou, em 2016, a lista na- cional de notificação compul- sória referente a doenças, agra- vos e eventos de impor tância para a saúde pública, por meio da Portaria 204/2016. Essa lista tem abrangência nacional em toda a rede de saúde, pública e privada e, obrigatoriamente, as doenças devem ser regis tradas e notificadas no Sistema de In- formação de Agravos de Notifi- cação (SINAN), obedecendo às normas e rotinas estabelecidas pela Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (BOCCATTO, 2012). Os termos doença, agravo e evento são muito utilizados no con- texto da saúde, você conhece o significado deles? • Doença: significa enfermidade ou estado clínico, independente- mente de origem ou fonte, que repre sente ou possa representar um dano significativo para os seres humanos. • Agravo: significa qualquer dano à integridade física, mental e social dos indivíduos, provocado por cir cunstâncias nocivas, como acidentes, intoxicações, abuso de drogas e lesões auto ou heteroinfligidas. • Evento: significa manifestação de doença ou uma ocorrência que apresente potencial para causar doença. Fonte: Brasil (104/2011). Quadro 2 - Lista Nacional de Notificação Compulsória Notificação Imediata (≤ 24 horas) - Acidente de trabalho: grave, fatal e em crianças e adolescentes - Acidente por animal peçonhento - Acidente por animal potencial- mente transmissor da raiva - Botulismo - Cólera - Coqueluche - Dengue - óbitos - Difteria - Doença aguda pelo vírus Zika em gestantes - Doença de chagas aguda - Doença invasiva por: “haemo- philus influenzae” - Doença meningocócica e outras meningites - Doenças com suspeita de disse- minação intencional: a. Antraz pneumônico b. Tularemia c. Varíola - Doenças Exantemáticas: a. Sarampo b. Rubéola - Doenças Febris Hemorrágicas Emergentes/Reemergentes: a. Arenavírus b. Ebola c. Marburg - Eventos adversos graves ou óbitos pós-vacinação - Evento de saúde pública (ESP) que se constitua ameaça à saú- de pública (ver definição no ar- tigo 2º desta portaria) - Febre amarela - Febre de Chikungunya em áreas sem transmissão - Óbito com suspeita de febre de Chikungunya - Febre no Nilo ocidental e ou- tras Arboviroses de importância em saúde pública - Febre Maculose e outras Ri- quetisioses - Febre Tifóide - Hantavírus - Influenza humana produzida por novo subtivo viral - Leptospirose - Malária na região Extra Ama- zônica - Poliomielite por poliovírus sel- vagem - Peste - Raiva humana - Síndrome da Rubéola Congênita - Síndrome da paralisia flácida aguda - Síndrome respiratória aguda grave associada a coronavírus a. Sars- Cov b. Mers- Cov - Tétano: a. Acidental b. Neonatal - Varicela - caso grave internado ou óbito - Violência sexual e tentativa de suicídio 74 Vigilância em Saúde Notificação Semanal - Acidente de trabalho com expo- sição a material biológico - Dengue - casos - Doença aguda causadas pelo vírus Zika - Doença de Creutzfeldt-jacob (DCJ) - Esquistossomose - Febre de Chikungunya - Hanseníase - Hepatites Virais - HIV/Aids - Infecção pelo vírus da Imu- nodeficiência Adquirida - Infecção pelo HIV em gestante, partu- riente ou puérpera e criança exposta ao risco de transmissão vertical do HIV - Infecção pelo vírus da imunodeficiên- cia humana (HIV) - Intoxicação exógena (por substâncias químicas, incluindo agrotóxicos, gases tóxicos e metais pesados - Leishmaniose Tegumentar Americana - Leishmaniose Visceral - Malária na região Amazônica - Óbito a. Infantil b. Materno - Sífilis a. Adquirida b. Congênita c. Em gestantes - Toxoplasmose gestacional e congênita - Tuberculose - Violência: Doméstica e/ou outras violências Fonte: Prefeitura do Rio - Portaria GM/MS 204/2016 (2016, on-line)1. A notificação compulsória, como o nome diz, é obrigatória a todos os profissionais de saúde: enfer- meiros, médicos, odontólogos, mé dicos veterinários, biólogos, biomédicos, farmacêuticos e outros no exercício da profissão, bem como os responsáveis por organizações e estabelecimentos públicos e particulares de saúde e ensino. O Guia de Vigilância em Saúde dissemina procedimentos de fluxos, prazos, instrumentos, defini- ções de casos suspeitos e confirmados, funcionamento dos sistemas de informação em saúde, condutas, medidas de controle e demais diretrizes técnicas para operacionalização do Sistema Nacional de Vigilância em Saúde. Fonte: Brasil (2016). 75UNIDADE 3 Sistema de Informação em Saúde O aperfeiçoamento do Sistema de Vigilância em Saúde, na década de 90, acompanhou o desen- volvimento das tecnologias de informática em nosso país, tornando possível o acesso ágil a bases de dados com informações variadas e desagre- gadas sobre diversos registros, sendo esses dados utilizados em pesquisas científicas, avaliação e planejamento dos serviços de saúde e no ensino. A informação na saúde é imprescindível para que se tomem as decisões corretas para melhorar o nível de saúde de uma determinada população. Nesse sentido, surgem os sistemas de informa- ção em saúde, definidos, por Medronho (2008), como um conjunto de componentes que atuam integrada e articuladamente e que tem como pro- pósito obter e selecionar dados e transformá-los em informação entendida como necessária para o processo de decisão, próprio das organizações e indivíduos que planejam, financiam, administram, provêm, medem e avaliam os serviços de saúde. Tais sistemas devem ter como característica: • Serem articulados nos três níveis de gestão: sistemas municipais, estaduais e federais. 76 Vigilância em Saúde • Serem utilizados por todos os envolvidos no planejamento, gestão e avaliação dos serviços de saúde. • Utilizar a informação como meio para melhorar o nível de saúde das populações. • Disponibilizar, aos usuários dos serviços, as informações obtidas. A operacionalização dos sistemas de saúde deve ser sistematizadas e organizadas; os procedi- mentos de coleta devem estar normatizados; os manuais de operação devem prever todas as si- tuações; as pessoas responsáveis devem conhecer a importância do que fazem e deve haver super- visão e assessoria adequada. Nesse sentido, o processo dos sistemas de in- formação em saúde são organizados nas seguintes etapas: Coleta Processamento Decisão e Controle Figura 1 - Etapas de organização do processo dos sistemas de informação em saúde Os dados coletados são armazenados em um banco de dados, em que ocorre o registro e onde é possível fazer a sua recuperação para que pos- sam ser processados, analisados e, assim, gerar informações para a tomada de decisão e o con- trole de ações. Dados - é a matéria-prima da informação, ou seja, são valores ainda não trabalhados. Indicadores - quantificação da realidade, permitem comparar níveis de saúde entre diferentes po- pulações; ao longo do tempo, derivam dos dados e geram informações. Informações - tradução dos dados após eles serem trabalhados, de forma a permitir alterar o co- nhecimento de outras pessoas, descreve uma situação real associada a um referencial explicativo. Fonte: Cordoni Jr. (2001). Existem inúmeros sistemas de informações, mas queremos destacar os sistemas de informação de interesse à saúde e os Sistemas Nacionais de In- formação em Saúde. Dentre os sistemas de interesse à saúde, pode- mos relacionar, entre outros: • Instituto Brasileiro de Geografia e Estatís- tica (IBGE), que tem atribuições ligadas às geociências e estatísticas sociais, demo- gráficas e econômicas, o que inclui realizar censos e organizar as informações obtidas nesses censos para suprir órgãos das esferas governamentais federal, estadual e muni- cipal, e para outras instituições e o público em geral (BRASIL, [2018], on-line)2. • Pesquisa Nacional por Amostra de Do- micílio (PNAD) que obtém informações anuais sobre características demográficas e socioeconômicas da população, como sexo, idade, educação, trabalho e rendi- mento, características dos domicílios e, com periodicidade variável, informações sobre migração, fecundidade, nupciali- dade, entre outras, tendo como unidade de coleta os domicílios. Temas específicos abrangendo aspectos demográficos, sociais e econômicos também são investigados (BRASIL, [2018], on-line)2. • Ao Instituto de Pesquisa Econômica Apli- cada (IPEA), que é uma fundação pública https://pt.wikipedia.org/wiki/Ci%C3%AAncias_da_Terra https://pt.wikipedia.org/wiki/Estat%C3%ADstica https://pt.wikipedia.org/wiki/Demografia https://pt.wikipedia.org/wiki/Demografia https://pt.wikipedia.org/wiki/Economia https://pt.wikipedia.org/wiki/Censo_demogr%C3%A1fico 77UNIDADE 3 federal, vinculada ao Ministério do Plane- jamento, Desenvolvimento e Gestão, o qual realiza pesquisas que fornecem suporte técnico e institucional às ações governa- mentais para a formulação e reformulação de políticas públicas e programas de desen- volvimento brasileiros (BRASIL, [2018], on-line)3. O departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), criado em 1991, organiza o Sistema Nacional de Informação, dando suporte aos órgãos do SUS no processo de planejamento, operação e controle. O quadro, a seguir, sintetizaos principais Sis- temas de Informação: Sistema de informação de mortalidade (SIM), Sistema Nacional de nascidos vivos (SINASC), Sistema Nacional de notificação (SINAN), Sistema de Informação hospitalar (SIH) e Sistema de informação ambulatorial (SIA), bem como os dados referenciais, forma de coleta, sua origem e algumas observações. Quadro 3 - Características dos principais sistemas de informação em saúde SISTEMA REFERÊNCIA FORMA DE DADOS ORIGEM OBS. SIM Óbitos Declara- ção de óbito (DO) Hospitais Médicos IML (1975)- DO- causa básica baseado no Códi- go Internacional de Doenças CID 10 (2007). 1990- implantou DO na Secretaria de esta- do de saúde em 3 vias (1 Serviço de saúde, 1 cartório, 1 unidade notificadora). Indicadores: mortalidade proporcional por causa, faixa etária, taxa geral, causas es- pecíficas, mortalidade infantil, mortalidade materna. SINASC Nascidos vivos Declara- ção de nascidos vivos (DNV) Hospitais Cartórios 3 vias DNV (branca, serviço de saúde; ama- rela, cartório; e rosa, unidade de saúde. Indicadores: taxa bruta de fecundidade e natalidade, taxa de mortalidade infantil e materna, proporção de mães adolescentes e partos cesáreos. SINAN Agravos notificáveis Fichas de notificação e investi- gação UBS, hospi- tais, clínicas, ambulatórios e consultórios (1990-1993) Doenças de notificação obri- gatória, incidência, prevalência e letalidade, áreas de risco, tendência dos agravos. Perfil epidemiológico dos agravos. Lista de doenças de notificação obrigatória, estados e municípios podem acrescentar na lista. Doenças crônicas transmissíveis (AIDS, es- quistossomose, hanseníase e tuberculose) e não transmissíveis (desnutrição grave), agudas transmissíveis (cólera, dengue e imunoprevenível) e não transmissíveis (acidentes com animais peçonhentos e intoxicações por agrotóxico). Ficha individual de notificação (suspeita clínica) e de investigação (serviço de VE). 78 Vigilância em Saúde SISTEMA REFERÊNCIA FORMA DE DADOS ORIGEM OBS. SIH Informação hospitalar Autoriza- ção de in- ternação hospitalar (AIH) Hospitais con- veniados ao SUS (1990) AIH preenchida para toda internação do SUS - 90% das internações, reembolso realizado pelo mecanismo de pagamento fixo por procedimento realizado. Indicadores - tempo médio de permanência geral ou específica, valor médio da interna- ção, proporção de internação por causa ou procedimento, mortalidade hospitalar geral ou causa ou procedimento. SIA Informação ambulato- rial Boletim de produção de serviços ambulato- riais (BPA) Serviços ambu- latoriais cadas- trados pelo SUS Não verifica morbidade e sim procedimentos, auxiliando no controle, auditoria, avaliação e planejamento. Fonte: adaptado de Cordoni JR (2001). Além desses bancos de dados, podemos destacar: • SISVAN - Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional de crianças e gestantes. • SIAB - Sistema de Informação da Atenção Básica -, consolida dados da população ads- crita nos Programa de Saúde da Família. • SISCAT - Sistema de Informação Sobre Acidentes de Trabalho -, acidente no local ou no trajeto ou adoecem devido ao tra- balho (CAT). • SI-PNI- Sistema de Informação do Pro- grama Nacional de Imunização - avalia a cobertura das diferentes vacinas em todos os municípios brasileiros. Existe uma grande necessidade de ampliar a uti- lização de dados produzidos pelos sistemas de informação, no sentido de subsidiar a tomada de decisão de gestores e ações dos profissionais de saúde, acreditando que as informações, se ade- quadamente utilizadas, podem contribuir para a redução de desigualdades e melhoria das ações de saúde em nosso país. É de responsabilidade de todo profissional zelar pela qualidade da informação prestada em seus atendimentos, orientar a equipe na coleta, no processamento, na tomada de decisão e no controle dos dados produzidos. A publicação de documentos com os indicadores brasileiros tem como objetivo subsidiar, com informações relevantes, os processos de formulação, estruturação e avaliação de políticas e ações públicas de importantes estratégias para o sistema de saúde. (Ministério da Saúde) 79UNIDADE 3 Indicadores de Saúde Como você já viu, os Indicadores são a quanti- ficação da realidade, permitem comparar níveis de saúde entre diferentes populações ao longo do tempo, os quais derivam dos dados e geram informações de saúde. Em uma linguagem mais técnica, eles são des- critos como medidas de razões (frequências re- lativas) em forma de proporções (fatia do total de casos ou morte), coeficientes/taxas (risco do evento ocorrer) ou índice (não expressa risco), sintetizando o efeito de determinantes de natureza variada sobre o estado de saúde de uma população. Os indicadores têm como objetivo prover dados necessários ao planejamento e avaliação dos serviços; identificar os fatores determinantes das doenças e permitir sua prevenção; avaliar os métodos usados no controle das doenças; des- crever as histórias das doenças e classificá-las; colocar à disposição do homem conhecimento e tecnologia que possam promover a saúde indi- vidual por meio de medidas de alcance coletivo (CORDONI JR., 2001). Para que sejam considerados um bom indi- cador, algumas características são necessárias, tais como: 80 Vigilância em Saúde • O dado tem que estar disponível. • A técnica de manejo e entendimento deve ser simples. • Deve ser uniforme. • Ter a capacidade de ser sintético. • Ter poder discriminatório. Quanto à natureza dos indicadores, eles po- dem ser positivos ou negativos. Os indicadores positivos de saúde são os ín- dices de vida, ou seja, as condições demográficas, alimentação e nutrição, educação, alfabetização, condições de trabalho, situação de emprego, trans- porte, consumo e economias gerais, habitações e condições de moradia com inclusão de sanea- mento básico, vestuário, lazer, segurança social e liberdade humana. No entanto, esses dados são mais difíceis de mensurar. Os indicadores positivos mais utilizados na saúde são a taxa de natalidade, a taxa de fecun- didade e a esperança de vida ao nascer. Já os in- dicadores negativos quantificam e descrevem a ocorrência de determinados agravos à saúde, doença e morte, para conhecer quantos adoecem e quantos morrem. Quando queremos saber quantos adoecem (morbidade), ou seja, como se dá a manifesta- ção de doença nas populações, a epidemiologia utiliza duas medidas principais: a prevalência e a incidência. A incidência considera os casos novos das doenças ou ocorridos recentemente em determi- nada região, já a prevalência refere-se ao total de casos de uma região (novos e antigos), contados em um tempo limitado. Ambas são calculadas em termos de coeficien- tes, que determina o risco do evento ocorrer e auxilia na comparação entre regiões, seguindo a fórmula: Coeficiente de Incidência C.I = nº casos novos da doença X 1000________________________________ população sob risco Coeficiente de Prevalência C.I = nº casos conhecidos de uma doença X 1000________________________________________ população C.L = nº óbitos por determinada doença/período___________________________________ nº de casos da doença/período Vale ressaltar que existem outros fatores que podem aumentar a prevalência dos casos, tais como a melhora na detecção de novos casos (aprimoramento diagnóstico), a maior duração da doença e aumento da sobrevida (melhora no tratamento, como o caso da AIDS), a imigração dos casos e emigração dos sadios; mas, por outro lado, alguns fatores podem diminuir a prevalên- cia, como o aumento da letalidade, diminuição de incidência e o impacto das políticas públicas e emigração de casos e imigração de sadios (ME- NEGUEL, 2015). Outro coeficiente que se calcula a partir do número de casos de uma doença é a letalidade (CL), expressa pela fórmula a seguir, que mede o risco de uma pessoa morrer quando acometi- da por uma doença, ou seja, a gravidade de uma doença ou agravo. Quandoqueremos saber quantas pessoas mor- reram por determinada causa, utilizamos indi- cadores de mortalidade proporcional (MP) e coeficientes de mortalidade (geral, mortalidade infantil, mortalidade segundo causas, mortalidade materna, mortalidade por grupo etário). O coeficiente geral de mortalidade (CGM) calcula o risco de óbito em uma comunidade, 81UNIDADE 3 podendo ser possível relacionar o nível de saúde de diferentes áreas, no tempo. O CGM, em uma população, fica em torno de 6-12 óbitos/1000 hab, se o cálculo fica abaixo disso, indica pou- ca fidedignidade dos dados. A fórmula para o cálculo é: Número de óbitos especificados (por causa, idade, etc) x 100Número total de óbitos (ou também especificados) Também é possível fazer o cálculo de mortalidade proporcional dentro de um grupo determinado, tal como por grupos etários, sexo ou por causa de morte. Vejamos a seguir. Mortalidade Proporcional Segundo Grupo Etário Quando se calcula a mortalidade segundo os grupos etários, é possível observar a distribuição percen- tual dos óbitos por faixa etária na população residente em determinado território no ano considerado. Ela é calculada com a seguinte expressão: Na análise da mortalidade do conjunto dos grupos etários, utiliza-se a CURVA DE NELSON DE MORAES, construída a partir da distribuição proporcional dos óbitos por grupos etários: menor de 1 ano; 1 a 4 anos; 5 a 19; 20 a 49 anos; e 50 anos ou mais, em que é possível observar 4 tipos de curvas. Po rc en ta ge m Po rc en ta ge m Po rc en ta ge m Po rc en ta ge m 40 40 40 40 50 50 60 80 60 30 3020 20 20 10 10 0 0 30 20 10 0 0 Idade cia, implica-se o acesso à elevada gama de infor- mações, especialmente as relativas à morbidade, à mortalidade, à estrutura demográfica, ao estado imunitário e nutricional da população, à situação socioeconômica e ao saneamento ambiental, sendo que a saúde, atualmente, tem sido a porta de entra- da para vários sistemas, tendo íntima relação com a situação social regional. Dessa forma, é necessá- rio integrar todas as Unidades de Atendimento à Saúde – tam bém intersetorialmente e intersecre- tarialmente (SETA; REIS; DELAMARQUE, 2010). A utilização das informações para tomada da decisão requer que todo o processo de Vigilância, da coleta, consolidação, planejamento, controle e disseminação de informações seja monitorado e conte com um sistema de informação consistente e integrado. Ainda existe uma grande necessidade de am- pliar a utilização de dados produzidos pelos sis- temas de informação, no sentido de subsidiar a tomada de decisão de gestores e ações dos profis- sionais de saúde, acreditando que as informações, se adequadamente utilizadas, podem contribuir para a redução de desigualdades e melhoria das ações de saúde em nosso país. É de responsabilidade de todo profissional zelar pela qualidade da informação prestada em seus atendimentos, orientar a equipe na coleta, no processamento, na tomada de decisão e no controle dos dados produzidos. 2. Estruturação e qualificação das equipes A colaboração e a coparticipação de gestores, técnicos, tra balhadores de todos os níveis e ato- res sociais é essencial para o desenvolvimento do trabalho na Vigilância em saúde, bem como ter pessoal suficiente e com qualificação para o desenvolvimento das ações. Tal necessidade se dá devido à dinâmica do processo de traba- lho da Vigilância, exigindo, também, educa- ção permanente dos profissionais envolvidos, que deve ser planejada de forma estratégica e integral, visando à melhoria da promoção da saúde, à prevenção das doenças, ao diagnós- tico, ao tratamento e a medidas de controle, debelando surtos e epidemias e melhorando a qualidade de vida e de saúde da comunidade (BOCATTO, 2012). Nesse sentido, o profissional da saúde deve desenvolver uma dinâmica de aprendizagem e inovação, cujo primeiro passo deve ser a capa- cidade crescente de adaptação às mudanças, comprometimento, busca de trabalho integrado, saber propor e desenvolver projetos, bem como competência técnica e disciplina. 3. A pesquisa e a produção do conhecimento A cooperação entre serviços, universidades e ins- titutos de pesquisa no desenvolvimento de pes- quisas e na formação de recursos humanos para a vigilância em saúde constitui um desafio. 86 Vigilância em Saúde A pesquisa em saúde mobiliza muitos atores de origens diversas, com visões, interesses e lin- guagens distintas; nesse sentido, construir uma agenda de prioridades para pesquisa na área de saúde é uma tarefa árdua, que pressupõe estabe- lecer consensos e compartilhar recursos; mas, por outro lado, um campo rico de possibilidades, em que o profissional pode articular saberes, pessoas e instituições, buscando a melhoria do serviço e da qualidade de vida das pessoas. Ao pontuar esses desafios, queremos que estes sejam encarados de forma estratégica pelo ges- tor, no sentido de que estes possam ser encarados como novas oportunidades, e que os momentos de crise podem e devem ser vistos como espaços de crescimento e desenvolvimento dos serviços e das pessoas. Você conhece o modelo atual das práticas em Vigilância adotado em seu município? Que de- safios eles enfrentam? Quais as fragilidades dos sistemas de Vigilância de seu município? A Vigilância em Saúde, como parte da Rede de Atenção à Saúde, está incluída no campo de ação do SUS, desenvolvendo uma série de ações e pro- gramas relevantes para a prevenção e controle de doenças e agravos, contribuindo para o trabalho do gestor no estabelecimento de prioridades, na alo- cação de recursos, nas orientações programá ticas, entre outras, em várias áreas do trabalho na saúde. Quando consideramos o contexto da atuação do profissional da saúde, é fundamental desta- car, entre os diversos sistemas de vigilância, o contexto da Vigilância epidemiológica, pois ela sistematiza inúmeras ações, com a finalidade de subsidiar e proporcionar conhecimento, detec- tar ou prevenir qualquer mudança nos fatores determinantes e condicionantes de saúde indi- vidual ou coletiva e, ainda, com a finalidade de recomendar e adotar medidas de prevenção e controle de doenças ou agravos. Para que as ações propostas pela Vigilância sejam concretizadas, é necessário acesso a um elevado e complexo conjunto de informações: relativas à morbidade, mortalidade, situação so- cioeconômica e demográfica das pessoas, entre muitas outras. Dessa forma, o Ministério da Saú- de conta com o Departamento de Informática do SUS (DATASUS). O DATASUS reúne diversos sistemas de infor- mações, como diferentes informações de saúde, com a finalidade de fornecer dados aos gestores para que estes possam subsidiar a tomada de decisão. Entretanto, não basta apenas ter acesso aos dados, o profissional deve ser capaz de transformar os dados em informações, bem como desenvolver uma dinâ- mica de aprendizagem e inovação, cujo primeiro passo deve ser a capacidade crescente de adaptação às mudanças, comprometimento, busca de trabalho integrado, saber propor e desenvolver projetos. Essa tarefa é um grande desafio para todos os profissionais envolvidos no trabalho da Vigilância em Saúde! 87 1. Conjunto de ações que proporcionam o conhecimento, a detecção ou prevenção de qualquer mudança nos fatores determinantes e condicionantes de saúde individual e coletiva. Tem como finalidade recomendar e adotar as medidas de prevenção e controle das doenças ou agravos. Assinale a alternativa correta. a) Vigilância Epidemiológica. b) Vigilância Sanitária. c) Vigilância da Saúde. d) Vigilância Ambiental. e) Vigilância Cultural. 2. Quanto às afirmações a seguir, assinale a alternativa correta. I) As ações da vigilância epidemiológica são desenvolvidas nos sistemas locais de saúde para agilizar a identificação e o controle dos eventos adversos à saúde. II) A vigilância epidemiológica constitui importante instrumento para planejar, organizar e operacionalizar serviços de saúde. III) Informações oriundas da imprensa sobre possíveis surtos de doenças não devem ser consideradas para investigação, pois a mídia, constantemente, faz sensacionalismo sobre o caso, alarmando a comunidade. IV) Durante o período de investigação de caso de doença, independentemente do tipo da doença, devem-se adotar medidas rigorosas de isolamento. Estão corretas: a) Apenas I e II estão corretas. b) Apenas II e III estão corretas. c) Apenas I está correta. d) Apenas II, III e IV estão corretas. e) Nenhuma das alternativas está correta. Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução. 88 3. Analise os indicadores de saúde, a seguir, que têm como base de divisão o nú- mero de habitantes do local. I) Mortalidade geral. II) Coeficiente de incidência acumulada. III) Mortalidade infantil. IV) Mortalidade materna. Assinale a alternativa correta. a) I, II, III e IV estão corretas. b) Apenas I e II estão corretas. c) Apenas I e III estão corretas. d) Apenas I, III e IV estão corretas. e) Nenhuma das alternativas está correta. 4. No conjunto dos sistemas de notificação e vigilância epidemiológica e sanitária no Brasil, o responsável por coletar e processar dados sobre agravos de notifi- cação em todo o território nacional é o: a) Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM). b) Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (SNVE). c) Sistema Nacional de Agravos de Notificação (Sinan). d) Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB). e) Sistema de Informação em Vigilância Sanitária (SIVISA). 89 5. Observe a curva de mortalidade por idades e, de acordo com seu formato, in- dique em que nível de saúdesaúde no Brasil. A Unidade 2 trata da História da Saúde Pública no Brasil, tendo como marco o Sistema Único de Saúde (SUS), descrevendo seu período antecedente, seus processos de construção, destacando interesses, conflitos e necessidades sociais que deram origem ao SUS, seus princípios e diretrizes, bem como as diretrizes do pacto pela Saúde e as Redes de Atenção à saúde. A Unidade 3 discute Vigilância em saúde, os sistemas de informação em saúde, indicadores de saúde e os desafios atuais diante do trabalho no contexto da vigilância. A Unidade 4 sintetiza as principais políticas de saúde no Brasil, relaciona- das à Saúde da mulher, da criança, do adulto e idoso, bem como políticas voltadas às populações vulneráveis e à saúde mental. Finalmente, a Unidade 5 destaca os objetivos e princípios da Política Na- cional de Humanização (PNH), bem como suas diretrizes e os dispositivos, relacionando-os aos direitos e a segurança do paciente, à saúde do traba- lhador e aos desafios de sua operacionalização no contexto hospitalar. Nossa intenção não é esgotar o assunto, mas abrir as portas para a ampliação do seu conhecimento, estimulando novas buscas para que possa enriquecer sua área de atuação e torná-lo(a) um profissional mais crítico e reflexivo, capaz de atuar de forma eficiente em seu contexto de trabalho. Um grande abraço e uma ótima leitura! CURRÍCULO DOS PROFESSORES Dra. Marcela Demitto Furtado Doutora pelo Programa de Pós-Graduação do Departamento de Enfermagem da UEM. Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UEM. Pós-graduada em Enfermagem Pediátrica pelo Departamento de Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina - UEL (modalidade: Residência em Enfermagem em Saúde da Criança). Enfermeira graduada pela Universidade Estadual de Maringá - UEM (2007). Atualmente é professora adjunta do depar- tamento de enfermagem da UEM, na área de saúde de criança. Currículo Lattes disponível em: . Dra. Raquel Gusmão Oliveira Doutora pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo (2018). Mestre em Ciências da Saúde pela Universidade Estadual de Maringá (2005). Graduada em Enfermagem pela Universidade Estadual de Maringá (2000). Docente do Curso de Medicina do Unicesumar - Maringá. Tem exercido docência no ensino superior nos últimos 10 anos, com ênfase em Saúde Coletiva, Saúde da Família e Gestão de Serviços de Saúde. Currículo Lattes disponível em: . Saúde e Doença - uma Perspectiva Atualizada 13 História da Saúde Pública no Brasil 41 Vigilância em Saúde 67 Políticas Públicas de Saúde no Brasil 95 Política Nacional de Humanização (PNH) 125 55 Redes de Atenção à Saúde Utilize o aplicativo Unicesumar Experience para visualizar a Realidade Aumentada. PLANO DE ESTUDOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Dra. Raquel Gusmão Oliveira • Discutir as mudanças e a evolução do conceito de saúde e doença. • Conhecer os modelos de saúde preventivista e de pro- moção à saúde. • Compreender o conceito da determinação social na saúde. • Apresentar os principais determinantes sociais da saúde e seu impacto na realidade brasileira. • Conhecer os modelos de Atenção à saúde no Brasil. Conceito de saúde e doença O modelo preventivista e o modelo de promoção à saúde Os principais determinantes sociais de saúde no Brasil Organização dos serviços de saúde no Brasil Fatores condicionantes e determinantes no processo saúde-doença Saúde e Doença - uma Perspectiva Atualizada Conceito de Saúde e Doença Quando decidimos ser profissionais da área da saú- de, muitas preocupações vem a nossa mente, nos preocupamos com as ações de saúde que podemos realizar, que recursos temos disponíveis, como me- lhorar a vida das pessoas e como contribuir para um mundo melhor e com saúde. Isso é muito im- portante! Contudo, muito além de nos preocuparmos com tudo isso, precisamos estar cientes e com- preender, antes de realizar ou propor qualquer ação, que por trás de toda ação existe um conceito ou um modo de entender a realidade, tendo como pressuposto básico que ela é dinâmica, sujeita a modificações, influenciadas pela cultura, política e momento histórico. Vamos observar, nesta unidade, que, ao longo da história humana, a saúde das pessoas sempre foi alvo de preocupação, por isso convidamos você para dar uma volta na história, tanto antiga quanto atual, e reconhecer pensamentos e ações acerca da saúde. O conceito de saúde sofreu mudanças no decor- rer dos tempos, várias explicações foram dadas e, ainda hoje, vários entendimentos coexistem quando buscamos entender o processo saúde-doença. Entretanto, queremos destacar no texto dois modelos explicativos acerca do processo saúde- 15UNIDADE 1 -doença: um com características biologicistas e outro buscando compreender o ser humano de forma integral, considerando sua história, cultura, contexto e estilos de vida. Buscamos, também, ampliar o entendimento do conceito de saúde e os seus determinantes so- ciais (estilos de vida, rede sociais e comunitárias e as condições de vida e de trabalho), visando uma compreensão da evolução do cenário da saúde da população brasileira e da estruturação e organização dos serviços de saúde ao longo dos anos. Vamos juntos, então, nos aproximar desse uni- verso de conhecimento tão fundamental para o trabalho de um profissional da saúde. Para começar, gostaria de fazer uma pergunta: – O que significa ter saúde para você? Pense nisso por alguns minutos… Pergunte para algumas pessoas próximas a você: o que é ter saúde? Agora, compare as respostas. Você, certamente, vai perceber que a ideia de saúde entre as pessoas é diferente, cada uma possui um entendimento acerca do que é ter saúde. Ao longo da história, muitas explicações foram dadas acerca do que é ter saúde ou estar doente: as explicações mágico-religiosas, a explicação natu- ralística, o olhar bacteriológico, a explicação mul- ticausal e a produção social da saúde e da doença. Vejamos um pouco dessas explicações. As Explicações Mágico-religiosas Na Antiguidade, acreditava-se que as doenças poderiam ser causadas por elementos naturais ou sobrenaturais. Nesse período, a compreensão das doenças era por meio da filosofia religiosa, partiam do princípio de que ela era resultado de ação de forças alheias ao organismo, eram conse- quência de pecado ou de maldição, um sinal de desobediência ao mandamento divino. Tal ideia perdurou por muito tempo e teve seu ápice na Idade Média (SCLIAR, 2007). Na Idade Média europeia, a influência da reli- gião cristã manteve a concepção da doença como resultado do pecado e a cura como questão de fé; o cuidado de doentes estava, em boa parte, entregue a ordens religiosas, que administravam, inclusive, o hospital, o qual era visto não como um lugar de cura, mas de abrigo e de conforto para os doentes (SCLIAR, 2007). A Unicausalidade No início da modernidade, a concepção religiosa foi superada devido ao desenvolvimento do co- nhecimento na época. A evolução da mecânica influenciou as ideias de René Descartes (1596- 1650), no século XVII, que postulava um dualismo mente-corpo e o funcionamento do corpo como uma máquina. Com o desenvolvimento da ana- tomia, identificou-se que a doença era localizada nos órgãos (SCLIAR, 2007). No final do século XIX, os estudos de Louis Pasteur (1822-1895) e a descoberta do microscópio revelou a existência de micro-organismos causadores de doença, possibi- litando a introdução de soros e vacinas. Foi uma revolução, pois, pela primeira vez, fa- tores causais, até então desconhecidos, estavam sendo identificados; as doenças, agora, poderiam ser prevenidas e curadas. Para cada doença, um agente etiológico deverá ser identificado e com- batido por meio de vacinas ou produtos químicos (SCLIAR, 2007). 16 Saúde e Doença - uma Perspectiva Atualizada A Multicausalidade A insuficiênciaestá a população. a) Tipo I: nível de saúde muito baixo. b) Tipo II: nível de saúde baixo. c) Tipo III: nível de saúde regular. d) Tipo IV: nível de saúde elevado. e) Tipo V: nível de saúde muito elevado. 90 Yesterday Ano: 2004 Sinopse: Filme sul africano, no qual as questões de gênero, raça e classe acom- panham a jornada de uma mulher afetada pelo HIV, em busca de um tratamento digno para sua enfermidade. FILME Epidemiologia: exercícios indisciplinados Stela Nazareth Meneghel Editora: Tomo Sinopse: o livro “Epidemiologia: exercícios indisciplinados” é uma obra que objetiva discutir alguns dos principais temas da epidemiologia no contexto da saúde coletiva e das políticas públicas de saúde. Destina-se a estudantes da graduação dos diferentes cursos do campo da saúde e a trabalhadores de ser- viços e instituições, motivados pelo estudo da epidemiologia e pela aplicação de seus métodos. O texto traz o cinema, a arte e a literatura como coadjuvantes do conhecimento epidemiológico e mistura textos teóricos com exercícios (indiscipli- nados) pautados em dados reais, nos sistemas de informação de saúde do país; mas, também, em notícias de jornal e da Internet. Espera que se possa auxiliar os leitores a problematizar algumas das questões epidemiológicas do cotidiano dos cursos e serviços, assim como ajudar a organização de indicadores de saú- de e elaboração de perfis de saúde/doença e de estudos epidemiológicos. Em suma, contribuir para a análise da situação de saúde da população (Rede Unida). LIVRO 91 BOCCATTO, M. Vigilância em saúde. São Paulo: Unifesp, 2012. BRASIL. Decreto n° 7.508, de 28 de junho de 2011. Regulamenta a Lei no 8.080, de 19 de setembro de 1990, para dispor sobre a organização do Sistema Único de Saúde - SUS, o planejamento da saúde, a assistência à saúde e a articulação interfederativa, e dá outras providências. Brasília: Presidência da República, 2011. ______. Diretrizes Nacionais da Vigilância em Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância à Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, 2010. ______. Guia de Vigilância em Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Coordenação-Geral de Desenvolvimento da Epidemiologia em Serviços, 2016. ______. Indicadores e dados básicos para saúde. Ministério da Saúde. Secretaria Técnica da Ripsa, 2001. ______. Portaria nº 104, de 25 de janeiro de 2011. Define as terminologias adotadas em legislação nacional, conforme o disposto no Regulamento Sanitário Internacional 2005 (RSI 2005), a relação de doenças, agravos e eventos em saúde pública de notificação compulsória em todo o território nacional e estabelece fluxo, critérios, responsabilidades e atribuições aos profissionais e serviços de saúde. Brasília: Presidência da República, 2011. CORDONI JR., L. Bases da Saúde Coletiva. Londrina: Uel, 2001. MEDRONHO, R. et al. Epidemiologia. São Paulo: Atheneu, 2008. MENEGHEL, S. N. Epidemiologia: exercícios indisciplinados. Porto Alegre: Tomo, 2015. SETA, M. H.; REIS, L. G. C.; DELAMARQUE, E. Gestão da Vigilância à Saúde. Especialização em Gestão em Saúde. Florianópolis: Departamento de Ciências da Administração/UFSC, 2010. WALDMAN, E. A. et al. (Orgs). Vigilância como prática de saúde pública. Tratado de saúde coletiva. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2012. REFERÊNCIAS ON-LINE 1 Em: . Acesso em: 22 out. 2018. 2 Em: . Acesso em: 22 out. 2018. 3 Em: . Acesso em: 22 out. 2018. 92 1. A. 2. A. 3. C. 4. C. 5. C. 93 94 PLANO DE ESTUDOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM • Compreender as principais políticas públicas de saúde voltadas à saúde da mulher. • Entender as políticas públicas de atenção à saúde da criança. • Estudar as políticas públicas com foco na saúde do adulto e da pessoa idosa. • Compreender a organização do sistema de saúde na aten- ção à populações vulneráveis. • Debater sobre as políticas públicas voltadas à saúde mental. Atenção à saúde da mulher Políticas de atenção à saúde da criança Políticas de saúde e populações vulneráveis Políticas públicas de saúde mental Políticas públicas de saúde do adulto/idoso Dra. Marcela Demitto Furtado Políticas Públicas de Saúde no Brasil Atenção à Saúde da Mulher Olá, caro(a) aluno(a), estudamos, até aqui, aspectos fundamentais para a compreensão da saúde públi- ca brasileira, abordando desde conceitos de saúde e doença, marcos históricos que antecederam o Sis- tema Único de Saúde e que levaram a sua criação, assistência à saúde no modelo de Redes de Atenção, até a operacionalização da vigilância em saúde. Entendemos que é a partir do levantamento das reais necessidades da população que se criam as políticas públicas, as quais devem elaborar pla- nos de ação com o objetivo de minimizar e/ou resolver os problemas da sociedade. Nesta unidade, discutiremos as políticas pú- blicas de saúde, separando-as de acordo com o seu público alvo, como: mulher, criança, adulto e idoso, populações vulneráveis e saúde mental. Assim, em cada tópico, você irá se deparar com uma área da saúde, as quais compõem eixos im- portantes da saúde pública brasileira. O conhecimento das políticas públicas de saú- de específicas para cada público a ser assistido é extremamente relevante quando se deseja analisar a situação da saúde atual, além de permitir uma visão mais ampliada sobre as conquistas alcança- das, desafios e rumos a serem trilhados. 97UNIDADE 4 Iremos perceber que as políticas públicas de saúde buscam atender as demandas de cuidado da população, levando em consideração o contexto do momento e indicadores de resultado, além de buscar o cumprimento dos objetivos e princípios do SUS em suas ações. Enquanto futuro profissional da saúde, você poderá se deparar com situações que envolvam clientelas diversas, por isso a importância de de- bater sobre as políticas públicas de saúde separa- damente para cada área. Nota-se que abordaremos assuntos bem diver- sos em cada tópico, assim, abasteça-se de muito ânimo, determinação e vontade de seguir em frente. Para iniciar este tópico, precisamos recordar que, ao longo da história da humanidade, a mu- lher exerceu, por muito tempo, o papel social de mãe e cuidadora dos afazeres domésticos. A visão restrita sobre a mulher, considerando-a apenas como reprodutora, acabava por gerar uma ima- gem frágil, delicada. A subordinação da mulher ao homem, o qual era o provedor do lar e possuía a sua figura associada à autoridade, também foi outra característica bastante presente na história e que deu origem às sociedades patriarcais. Com relação à saúde, apenas nas primeiras décadas do século XX é que a saúde da mulher recebeu um olhar diferenciado dos gestores e, en- tão, passou a fazer parte das políticas nacionais de saúde. No entanto, até a década de 70, os pro- gramas ainda possuíam como embasamento esse conhecimento limitado e fragmentado da mulher e sua saúde. O enfoque central dos programas era a saúde da criança e da gestante (materno- -infantis), por considerá-las grupos com maior vulnerabilidade (BRASIL, 2004a). Com o movimento feminista brasileiro, em mea- dos da década de 60, que propunha, entre outras coisas, a igualdade de gênero, foi possível ampliar o conceito de saúde da mulher, entendendo a saúde se- xual e reprodutiva como um direito (GIFFIN, 2002). Outros assuntos também relacionados à mu- lher, e não apenas àqueles ligados à vida reprodu- tiva, começaram a ser discutidos, como prevenção das doenças sexualmente transmissíveis, métodos contraceptivos, sexualidade, excesso de trabalho e desigualdades (BRASIL, 2004a). Foi nesse cenário que, em 1983, o Ministério da Saúde lançou o Programa de Assistência Inte- gral à Saúde da Mulher (PAISM), buscando in- tegralizar a assistência a essa clientela com ações educativas, de promoção, prevenção, diagnóstico etratamento. “ O PAISM incorporou como princípios e diretrizes as propostas de descentralização, hierarquização e regionalização dos servi- ços, bem como a integralidade e a equidade da atenção, num período em que, paralela- mente, no âmbito do Movimento Sanitário, se concebia o arcabouço conceitual que em- basaria a formulação do Sistema Único de Saúde (SUS) (BRASIL, 2004a, p. 16). Em 2004, foi elaborada a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM), a fim de atender às reais necessidades das mulhe- res brasileiras e, nesse sentido, reduzir índices de morbidade e mortalidade por causas evitáveis. “ Esta nova política foi formulada tendo por base a avaliação das políticas anteriores e, a partir de então, buscou preencher as lacu- nas deixadas, como: climatério/menopausa; queixas ginecológicas; infertilidade e repro- dução assistida; saúde da mulher na ado- lescência; doenças crônico-degenerativas; saúde ocupacional; saúde mental; doenças infecto-contagiosas, bem como a atenção às mulheres rurais, com deficiência, negras, indígenas, presidiárias e lésbicas (FREITAS et al., 2009, p. 427). 98 Políticas Públicas de Saúde no Brasil As mudanças no papel social da mulher, sua in- serção no mercado de trabalho atrelada a novos hábitos e estilo de vida, sobrecarga de responsa- bilidades e estresse da vida moderna, acabou por provocar mudanças no perfil epidemiológico das mulheres (BRASIL, 2004a). Doenças antes com pouco significado passam a chamar a atenção devido a sua elevada preva- lência, como é o caso das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), como Diabetes Mellitus, Hipertensão Arterial e o Câncer. A epidemiologia do câncer em mulheres no Brasil, especialmente o câncer de mama e colo uterino, e sua magnitude social também são focos importantes quando se discute sobre a saúde da mulher. Por isso, muitas estratégias são pensadas e implementadas no sentido de controlar essas doenças. Sabe-se que quando diagnosticadas pre- cocemente, possuem grandes chances de cura, o que destaca a importância do rastreamento e ado- ção de condutas terapêuticas em tempo oportuno (BRASIL, 2013a). De acordo com o Ministério da Saúde, o rastreamento refere-se à realização de um exame em um indivíduo saudável, não doente, cujo objetivo é identificar sinais indicativos/sugestivos de câncer e, quando necessário, encaminhá-lo para uma investigação mais aprofundada e/ou tratamento. Para o câncer de mama, a principal forma de rastreamento é a mamografia, e para o câncer de colo de útero o exame citopatológico/Preventivo/Papanicolau. Fonte: Brasil (2013a). A operacionalização da PNAISM se deu, na prá- tica, por meio da elaboração de diversas ações consideradas prioritárias no atendimento à saúde dessa clientela. Nesse sentido, foram estabelecidos Pactos, Programas e Políticas. Algumas delas serão apresentadas em seguida. Primeiramente, podemos citar o Pacto Nacio- nal pela Redução da Mortalidade Materna e Neo- natal, realizado em 2004, cuja meta estabelecida foi a redução anual de 5% da mortalidade materna e neonatal. Para tanto, foram estabelecidas uma série de ações estratégicas, como (BRASIL, 2004b): • Efetivação de pactos municipais e esta- duais. • Qualificação e humanização da atenção à saúde da mulher e da criança. • Acolhimento ao parto. • Garantia do direito ao acompanhante e ao alojamento conjunto. • Resolutividade à atenção ao parto e ao nas- cimento. • Garantia de atenção humanizada ao aborto. • Organização de acesso e adequação da oferta de serviços. • Qualificação do atendimento às urgências/ emergências. • Melhoria da rede hospitalar e ampliação dos centros de parto normal. • Expansão da atenção à saúde da mulher e da criança. • Ampliação das ações de planejamento familiar. • Redução da transmissão vertical do HIV/aids. 99UNIDADE 4 • Proteção à saúde da mulher trabalhadora. • Atenção às mulheres e recém-nascidos ne- gros e indígenas, respeitando as suas parti- cularidades étnicas e culturais. • Acompanhamento de planos e seguros pri- vados de saúde. • Promoção à educação permanente dos profissionais envolvidos com a atenção obstétrica e neonatal. • Garantia à vigilância ao óbito materno e infantil. • Fortalecimento dos projetos de premiação de serviços exemplares. Em 2005, foi lançada a Política Nacional de Atenção Obstétrica e Neonatal com o obje- tivo de desenvolver ações voltadas à atenção pré-natal, parto, recém-nascido, acompanha- mento no pós-parto imediato, atendimentos às principais intercorrências obstétricas e neona- tais e atenção no puerpério no âmbito do SUS (BRASIL, 1.067/2005). Em 2013, o Ministério da Saúde instituiu a Po- lítica Nacional para a Prevenção e Controle do Câncer na Rede de Atenção à Saúde das Pessoas com Doenças Crônicas no âmbito do Sistema É importante que se pense em um modelo de atenção à saúde que possua uma efetiva comu- nicação e articulação nos diferentes níveis de atenção. A garantia de acesso aos serviços e as- sistência integral à mulher é fundamental. Único de Saúde (SUS), buscando reduzir os ín- dices de mortalidade e incapacidades provocadas pelo câncer, além de melhorar a qualidade de vida dos usuários com a doença (BRASIL, 2014a). Atualmente, é possível verificar que a po- pulação de mulheres é superior a dos homens, com maior expectativa de vida e que adoecem com maior frequência, o que justifica a saúde da mulher ser entendida como prioridade no Brasil (BRASIL, 2004a). Nesse sentido, é fundamental pensarmos em ações de saúde, no âmbito da promoção, prevenção e tratamento, que compreendam a mulher como um todo, entendendo-a como um ser biopsicos- social inserido num contexto e não mais de forma fragmentada como no início do século passado. 100 Políticas Públicas de Saúde no Brasil Para iniciarmos este tópico, faço a seguinte per- gunta: você já ouviu dizer ou mesmo já disse que a criança é um adulto em miniatura? Na área da saúde, por muito tempo, as crianças foram tratadas como adultos ou, conforme colo- cado na pergunta, como “adultos em miniatura”, ignorando aspectos específicos da infância, tais como seu crescimento e desenvolvimento, além de características individuais presentes nessa fase. Isso se deve ao fato de que, ao longo da história, a criança ocupou diferentes posições na socie- dade. No período colonial, muitas crianças eram vistas, pela própria família, como mão de obra barata; submetidas a castigos/torturas ou, ainda, abandonadas em casas de caridade ou hospitais (RIBEIRO, 2006). As condições sanitárias da época eram pés- simas, atreladas à má alimentação; e a falta de assistência qualificada no parto fazia as taxas de mortalidade infantil crescerem cada vez mais. Políticas de Atenção à Saúde da Criança 101UNIDADE 4 No século XVII, a criança passou a ter repre- sentatividade nas famílias, as quais começaram a demonstrar afeto por elas. No entanto, no século XVIII, muitas crianças continuam sendo abando- nadas, uma situação ainda aceita pela sociedade (ARIÈS, 2011). A separação das crianças de seus pais ainda acontecia no século XIX, quando elas eram en- viadas para os colégios internos ou internatos e lá eram cuidadas e educadas (RIBEIRO, 2006). A família não entendia qual o seu papel na vida da criança. Apenas quando ela começou a compreender a sua importância para a formação e desenvolvimento de um indivíduo e os serviços públicos assumiram a sua responsabilidade assis- tencial é que a criança começou a ser respeitada e valorizada. Foi então que começaram a ser criadas as políticas públicas de atenção à saúde da criança (ARAÚJO et al., 2014). Na década de 20, surgem os primeiros deba- tes sobre o aleitamento materno, na busca de es- tratégias para a sua promoção, já que bebês não amamentados adoecem mais frequentemente e isso representava maior absenteísmo de mulheres no trabalho. Nos próximos anos, foram criados programas cujo foco era a maternidade, infância e adolescência;no entanto, todos ainda com um olhar fragmentado e curativo acerca da criança (SILVA, 2006). Mesmo com a implantação, em 1970, do Pro- grama Nacional de Saúde Materno-Infantil, que possuía como objetivo principal reduzir a mor- bimortalidade de mães e bebês, o panorama geral de saúde das crianças mantinha-se crítico (SILVA, 2006). Pensando em uma assistência integral à saúde da criança, ou seja, que considerasse suas diversas dimensões, valorizando-a como um ser único e que não pode ser dissociado de sua família, é que, em 1984, foi criado o Programa de Assistência Integral à Saúde da Criança (PAISC). O PAISC possuía como objetivo promover ações de saúde, de modo a priorizar as crianças com maior risco de adoecer. As ações de saúde englobavam: acompanhamento do crescimen- to e desenvolvimento; incentivo ao aleitamento materno; controle das doenças diarreicas e das Infecções Respiratórias Agudas (IRAs) e a imu- nização (BRASIL, 1984). Em 1990, foi aprovada a lei 8.069, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o qual garante amplos direitos de proteção à vida e à saúde destes. Em 1991, foi instituído o Programa de Assis- tência à Saúde Perinatal (PROASP), com vistas a uma assistência de maior qualidade voltada ao binômio mãe-feto e recém-nascido. Nesse pe- ríodo, muito se discutiu sobre a importância do alojamento conjunto e do aleitamento materno (COSTA et al., 2010). Na busca por uma assistência humanizada à criança no âmbito hospitalar e que valorizasse a amamentação é que, em 1995, o Ministério da Saúde implantou a Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC). Já em 1996, foi adotada a Atenção Integrada às Doenças Prevalentes na Infância (AIDPI), uma es- tratégia que buscou fortalecer e organizar a aten- ção primária à saúde, capacitando os profissionais para o cuidado e tratamento das doenças mais frequentes em crianças menores de cinco anos. Considerando o número significativo de nas- cimentos prematuros e com baixo peso, o Minis- tério da Saúde lançou, em 2000, o Método Mãe Canguru - Atenção Humanizada ao recém-nas- cido de baixo peso. O método propicia o contato pele a pele entre a mãe ou outro membro da família e o recém- -nascido, contribuindo para o estabelecimento e fortalecimento do vínculo afetivo, além de outros inúmeros benefícios já comprovados na literatura (PINHEIRO et al., 2014). 102 Políticas Públicas de Saúde no Brasil Ainda em 2000, foi criado o Programa Nacio- nal de Humanização do pré-natal e nascimento, buscando assegurar a integralidade da assistência desde o pré-natal, incluindo gestantes de baixo e alto risco, parto, transcorrendo pelo puerpério até o período neonatal. Em 2004, foi lançada a Agenda de compro- missos para a saúde integral e redução da mor- talidade infantil, a qual destacou a importância de ações que fortaleçam o nascimento saudável, contribuam para o crescimento e desenvolvi- mento e combatam os principais agravos nu- tricionais e doenças mais comuns na infância (SILVA et al., 2009). Seguindo a proposta das Redes de Atenção em Saúde (RAS), tema já abordado na Unidade 2, é que em 2011 foi implantada a Rede Cegonha e, em 2012, a Rede Mãe Paranaense. Essas RAS têm como proposta a organização da atenção mater- no-infantil, à medida que permitem a integração de ações e serviços de saúde. Em agosto de 2015, o Ministério da Saúde ins- tituiu a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança (PNAISC) no âmbito do SUS, a qual apresenta sete eixos estratégicos (BRASIL, 1.130/2015): • Atenção humanizada e qualificada à ges- tação, parto, nascimento e recém-nascido. • Aleitamento materno e alimentação com- plementar saudável. • Promoção e acompanhamento do cresci- mento e desenvolvimento integral. • Atenção a crianças com agravos prevalen- tes na infância e com doenças crônicas. • Atenção à criança em situação de violên- cias, prevenção de acidentes e promoção da cultura de paz. • Atenção à saúde de crianças com defi- ciência ou em situações específicas e de vulnerabilidade. • Vigilância e prevenção do óbito infantil, fetal e materno. Percebe-se que, ao longo da história, as políti- cas públicas de saúde voltadas à criança foram se transformando, adequando-se tanto ao papel social exercido pela criança como ao perfil epide- miológico e às demandas de saúde de cada época. As políticas públicas de saúde da criança estão em constante construção. Buscam uma assistência integral que inclua a família, migrando do modelo centrado na doença para o modelo de construção de redes. (Juliane Pagliari Araújo) 103UNIDADE 4 Políticas Públicas de Saúde do Adulto/Idoso Neste tópico, iremos abordar alguns aspectos das políticas públicas de saúde voltadas ao adul- to e ao idoso. Mas quem é o adulto? Podemos considerar o adulto aquele que en- contra-se na faixa etária entre 18 e 60 anos de idade. De acordo com o Estatuto do Idoso, con- sidera-se pessoa idosa aquela com idade igual ou superior a 60 anos (BRASIL, 1.074/2003), e para o Estatuto da Criança e do Adolescente, a adolescência se encerra aos 18 anos (BRASIL, 8.069/1990). Já é conhecido que na atualidade ocorre uma queda das taxas de fecundidade e de mortalidade infantil, bem como um aumento da expectativa de vida. Assim, os adultos representam uma porção significativa da população e, portanto, merecem atenção por parte das políticas públicas de saúde. Para o planejamento de ações de saúde, tanto individuais como coletivas, voltadas ao adulto, é fundamental conhecer o perfil epidemiológico dessa população. Nesse sentido, podem ser desta- cadas algumas condições específicas, como: hiper- tensão arterial, diabetes mellitus, tuberculose, han- seníase e a saúde do homem (PERALBA, 2012). 104 Políticas Públicas de Saúde no Brasil Em 2008, foi criada a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), a fim de reconhecer os determinantes sociais que expõem essa parcela da população a riscos de adoecer, evidenciando os principais fato- res que contribuem para a morbimortalidade (BRASIL, 2008). “ Um dos principais objetivos desta Política é promover ações de saúde que contribuam significativamente para a compreensão da realidade singular masculina nos seus diver- sos contextos socioculturais e político-eco- nômicos; outro, é o respeito aos diferentes níveis de desenvolvimento e organização dos sistemas locais de saúde e tipos de ges- tão. Este conjunto possibilita o aumento da expectativa de vida e a redução dos índices de morbimortalidade por causas prevení- veis e evitáveis nessa população (BRASIL, 2008, p. 3). No cenário atual, referente à saúde do adulto, no- ta-se que as políticas públicas estão alinhadas a uma busca pela assistência integral do indivíduo. Para isso, muito se discute sobre a reorganização das Redes de Atenção em Saúde (RAS), de forma que elas se articulem/comuniquem-se para aten- der as demandas dessa população. Aliado a isso, o Ministério da Saúde tem investido na linha do cuidado voltado às doenças crônicas (GARCIA; FONSÊCA, 2014). As doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) configuram-se como sério problema de saúde pública. Considerando sua magnitude em todo o território brasileiro, foi elaborado o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrenta- mento das Doenças Crônicas Não Transmissí- veis (DCNT), 2011-2022. Fazem parte do Plano os quatro principais gru- pos de DCNT, os quais são: circulatórias, câncer, respiratórias crônicas e diabetes. Os fatores de risco em comum modificáveis para essas doenças são: tabagismo, álcool, inatividade física, alimen- tação não saudável e obesidade; sobre os quais busca-se ações integradas, visando a melhoria das DCNT em geral (BRASIL, 2011). Melhorar as condições de vida do adulto é pensar em idosos mais saudáveis, com maior qualidade de vida. O envelhecimento pode ser considerado como um processo natural da vida que, em condições normais, não acarreta nenhum tipo de problema (senescência).Já a senilidade refere-se à exposição do indivíduo a doenças, por exemplo, o que exige assistência de saúde (BRASIL, 2007). Todos nós estamos envelhecendo a cada dia, logo, hoje somos mais velhos do que ontem. E pensar no envelhecimento suscita uma série de ações de promoção da saúde – grande foco das políticas públicas. O termo “envelhecimento ativo” passou a ser utilizado no final dos anos 90, com o intuito de expandir os fatores que afetam o envelhecimento para além da saúde. As políticas públicas passa- ram, então, a pensar em ações que abordassem a alimentação saudável, prática de atividade física, combate às situações de violência familiar e ur- bana, redução do consumo do tabaco e álcool etc. (BRASIL, 2007). Em 1994, é criada a Política Nacional do Idoso, a qual propõe ações em diversas áreas, como traba- lho, lazer, habitação e saúde. Nesta última, a política busca garantir ao idoso a assistência nos diferentes níveis de atenção à saúde (BRASIL, 8.842/1994). No ano de 2003, por meio da lei n° 10.741, foi instituído o Estatuto do Idoso, o qual dispõe sobre o papel da família, da comunidade, bem como 105UNIDADE 4 dos gestores públicos, em garantir os direitos da pessoa idosa. O Estatuto do Idoso vem somar com a Política Nacional do Idoso e vai além no sentido de oferecer punições quando os direitos não são assegurados (BRASIL, 2003). Em outubro de 2006, é aprovada a Política Na- cional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI), cuja finalidade principal é: “ [...] recuperar, manter e promover a autono- mia e a independência dos indivíduos idosos, direcionando medidas coletivas e individuais de saúde para esse fim, em consonância com os princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde (BRASIL, 2.528/2006, p. 3). Como já foi abordado em outra unidade, a saúde do idoso foi uma das seis prioridades pactuadas em 2006 entre as três esferas do governo – Pacto pela Vida. A discussão sobre a saúde do idoso dentro do contexto do Sistema Único de Saúde é ampla e se insere em outras políticas públicas de saúde, como as Políticas Nacionais de: • Atenção Básica. • Promoção da Saúde. • Humanização no SUS. Percebe-se que as políticas públicas de saúde vol- tadas ao adulto e ao idoso respondem ao pano- rama epidemiológico de cada período, buscando atender as necessidades de saúde da população alvo e, assim, permitir um envelhecimento cada vez mais saudável. 106 Políticas Públicas de Saúde no Brasil Políticas de Saúde e Populações Vulneráveis Para começar esse tópico, pergunte-se: o que sig- nifica estar vulnerável? Vulnerável em relação a que? Qual a relação entre vulnerabilidade e saúde? Quais são as populações vulneráveis? Mas o que é vulnerabilidade? Para Bertolozzi et al., (2009, p. 1327) “o termo vulnerabilidade é comumente empregado para designar suscetibilidades das pessoas a problemas e danos de saúde”. Na saúde, a utilização do termo “vulnerabilida- de” se deu no contexto da epidemia da AIDS/HIV, quando percebeu-se que a utilização de “grupos de risco” possuía um caráter restritivo e, por vezes, preconceituoso. Logo, o conceito de vulnerabili- dade parecia ser mais amplo e, no caso da AIDS, demonstrava que todos os indivíduos sociais es- tavam vulneráveis à doença. De forma geral, uma pessoa vulnerável é aque- la que está exposta a riscos. Nesse contexto, é pos- sível destacar condições que favorecem maior ou menor risco para o indivíduo, como, por exemplo: aspectos comportamentais do indivíduo e/ou do coletivo, além da possibilidade e formas para o seu enfrentamento. Assim, conhecer as vulnerabilidades de uma 107UNIDADE 4 determinada população permite a realização de diagnósticos, com vistas à elaboração de ações específicas voltadas às necessidades do grupo. Atualmente, inserem-se nos grupos de popula- ções vulneráveis: pessoas com deficiência, pessoas em situação de rua, pessoas negras, pessoas idosas e grupo LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). Iremos abordar, de forma pontual, alguns as- pectos importantes das políticas públicas de saúde para cada grupo, exceto para as pessoas idosas, visto que o tema já foi discutido em outro tópico. Pessoas com Deficiência Diante da necessidade de incluir as pessoas com deficiência na rede de serviços do SUS, de forma a atender integralmente suas complexas deman- das de saúde, é que, em 2002, foi criada a Política Nacional de Saúde da Pessoa com Deficiência. Em 2012, é instituído no âmbito do SUS a Rede de Cuidados à Saúde da Pessoa com Deficiência (Portaria 793, de 24/04/12), estabelecendo dire- trizes para o cuidado às pessoas com deficiência temporária ou permanente; progressiva; regressi- va ou estável; intermitente ou contínua. A organização e funcionamento dos servi- ços de saúde, com comunicação entre as redes de atenção, articulando prevenção, promoção e reabilitação, é fundamental para uma assistência de qualidade a esse grupo vulnerável. Em julho de 2015, foi criada a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), a qual prevê uma série de direitos, entre eles o direito à saúde. Pessoas em Situação de Rua O número de Pessoas em Situação de Rua (PSR) cresce a cada ano no Brasil e isso é reflexo das con- dições sociais da população, como: desemprego, pobreza, formação de grandes centros urbanos, rápida urbanização de algumas localidades, entre outras (BRASIL, 2014b). “O Bicho Vi ontem um bicho Na imundície do pátio Catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. O bicho não era um cão, Não era um gato, Não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem”. O poema de Manuel Bandeira retrata a triste realidade das PSR, grupo que ganhou visibilidade nos últimos anos, o que permitiu uma série de avanços na área. Fonte: Bandeira (1993). 108 Políticas Públicas de Saúde no Brasil A invisibilidade desse grupo é um problema que impede que seus direitos enquanto cidadãos se- jam reconhecidos e garantidos. Nesse sentido, em 2009, instituiu-se a Política Nacional para População em Situação de Rua, a partir da qual: “ considera-se população em situação de rua o grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regu- lar, e que utiliza os logradouros públicos e as áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou per- manente, bem como as unidades de acolhi- mento para pernoite temporário ou como moradia provisória (BRASIL, 2014b, p. 11). São vários os objetivos dessa política, entre eles (BRASIL, 2014b): • Assegurar o acesso amplo, simplificado e seguro aos serviços e programas que integram as políticas públicas de saúde, educação, previdência, assistência social, moradia, segurança, cultura, esporte, lazer, trabalho e renda. • Garantir a formação e a capacitação per- manente de profissionais para atuação no desenvolvimento de políticas públicas intersetoriais, transversais e intergoverna- mentais direcionadas às pessoas em situa- ção de rua. • Desenvolver ações educativas permanen- tes que contribuam para a formação de cultura de respeito, ética e solidariedade entre a População em Situação de Rua e os demais grupos sociais. • Implantar centros de defesa dos direitos hu- manos para a População em Situação de Rua. • Criar meios de articulação entre o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e o Sis- tema Único de Saúde (SUS) para qualificar a oferta de serviços. • Implementar ações de segurança alimen- tar e nutricional suficientes para propor- cionar acesso permanente à alimentação pela População em Situação de Rua, com qualidade. • Disponibilizar programas de qualificação profissional para as pessoas em situação de rua, com o objetivo de propiciar o seu acesso ao mercado de trabalho. Na área da saúde, um grande avançoaconteceu, também, em 2009, com a criação do Comitê Téc- nico de Saúde para a população em situação de rua, por meio da Portaria MS/GM n° 3.305. Em 2013, foi publicado o Plano Operativo para Implementação de Ações em Saúde da População em Situação de Rua. Nesse plano, as ações de promoção da saúde voltadas a essa população foram agrupadas em cinco eixos, os quais são (BRASIL, 2014b): 1. Inclusão da PSR no escopo das redes de atenção à saúde. 2. Promoção e Vigilância em Saúde. 3. Educação Permanente em Saúde na abor- dagem da Saúde da PSR. 4. Fortalecimento da Participação e do Con- trole Social. 5. Monitoramento e avaliação das ações de saúde para a PSR. 109UNIDADE 4 Pessoas Negras Em 2009, o Ministério da Saúde instituiu a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, em resposta às desigualdades em saúde que aco- metem essa população, que grande parte se deve ao contexto histórico desse grupo no Brasil. “ Seu propósito é garantir maior grau de equidade no que tange a efetivação do di- reito humano à saúde, em seus aspectos de promoção, prevenção, atenção, tratamento e recuperação de doenças e agravos transmis- síveis e não transmissíveis, incluindo aque- les de maior prevalência nesse segmento populacional (BRASIL, 2013b, p. 7). Essa política tem um caráter transversal das ações de saúde da população negra, à medida que reali- za articulações entre as secretarias do Ministério da Saúde, cuja intencionalidade é a promoção de equidade – um dos princípios do SUS. Grupo LGBT Na 13º Conferência Nacional de Saúde, realizada em 2013, muito se discutiu sobre orientação se- xual e identidade de gênero como determinantes sociais de saúde. Nesse sentido, foram elencadas algumas estratégias: • O desenvolvimento de ações interseto- riais de educação em direitos humanos e respeito à diversidade, efetivando campa- nhas e currículos escolares que abordem os direitos sociais. • A sensibilização dos profissionais a respei- to dos direitos de LGBT, com inclusão do tema da livre expressão sexual na política de educação permanente no SUS. • A inclusão dos quesitos de identidade de gênero e de orientação sexual nos formulá- rios, prontuários e sistemas de informação em saúde. • A ampliação da participação dos movimen- tos sociais LGBT nos conselhos de saúde. O consultório na rua (CnaR) é uma estratégia voltada ao atendimento dessa população, que vive “sem endereço, e nem moradia fixa”. As equipes que atuam nos CnaR são formadas por profissionais de diversas áreas, que atuam de forma itinerante, buscando garantir o acesso dessa população à saúde. Destaca-se que essa não é a única “porta de entrada” da PSR no SUS. Sua entrada pode se dar, também, por meio das Unidade Básica de Saúde e Unidades de Pronto Atendimento. Fonte: Brasil (2014b). 110 Políticas Públicas de Saúde no Brasil • O incentivo à produção de pesquisas cien- tíficas, inovações tecnológicas e comparti- lhamento dos avanços terapêuticos. • A garantia dos direitos sexuais e reprodu- tivos e o respeito ao direito à intimidade e à individualidade. • O estabelecimento de normas e protocolos de atendimento específicos para as lésbicas e travestis. • A manutenção e o fortalecimento de ações da prevenção das DST/aids, com especial foco nas populações LGBT. • O aprimoramento do Processo Transexua- lizador. • A implementação do protocolo de atenção contra a violência, considerando a iden- tidade de gênero e a orientação sexual (BRASIL, 2013c, p. 12). Em 2011, foi definida a Política Nacional de Saúde Integral dos LGBT, visando a inclusão social desse grupo vulnerável. De acordo com o Ministério da Saúde, a Polí- tica tem como principal objetivo: “ [...] promover a saúde integral de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, eli- minando a discriminação e o preconceito institucional, bem como contribuindo para a redução das desigualdades e a consolida- ção do SUS como sistema universal, integral e equitativo (BRASIL, 2013c, p. 18). A garantia de atendimento à saúde é um direito de todo cidadão, devendo-se respeitar as suas es- pecificidades, sejam elas quais forem. Para tanto, foram criadas as políticas públicas de saúde para as populações vulneráveis. 111UNIDADE 4 Políticas Públicas de Saúde Mental Antes de iniciar este tópico, é importante nos per- guntarmos: o que é saúde mental? Quem são os doentes mentais? Por que a criação de políticas públicas direcionadas à saúde mental? Mais uma vez, precisamos retomar a história para compreendermos todas essas questões. Vamos lá! Considerando que a loucura existe desde o princípio da humanidade, vários eram os locais destinados para se tratar os loucos: igrejas ou tem- plos, domicílio e asilos. As instituições psiquiátri- cas, propriamente ditas, surgiram em meados do século VXIII (FOUCAULT, 1995). A abordagem ao indivíduo com doença mental era autoritária, agressiva, violenta e totalmente ex- cludente. O indivíduo era mantido em hospícios ou manicômios, longe dos familiares. Muito se falava em choques como método de tratamento e as famosas “camisas de força” para contenção nos momentos de crise, quando não eram acorrenta- dos e trancados em salas escuras. O descontentamento da comunidade psiquiá- trica, indivíduos com transtorno mental, familia- res e a sociedade de forma geral, com o modelo de assistência na área de saúde mental, é que fo- mentou o processo de Reforma. 112 Políticas Públicas de Saúde no Brasil A Reforma Psiquiátrica, propriamente dita, iniciou-se internacionalmente. O médico italiano Franco Basaglia foi seu precursor na década de 60, lutando por melhores condições das instalações que atendiam as pessoas com transtornos men- tais, melhor tratamento clínico e, mais para frente, criticando o modelo hospitalocêntrico. Em 1978, aconteceu, no Rio de Janeiro, o I Simpósio Internacional de Psicanálise, Grupos e Instituições, o qual contou com a presença do Dr. Basaglia. A partir desse Simpósio, a luta an- timanicomial e a reforma psiquiátrica no Brasil se fortaleceu. Na década de 70, inicia-se o processo de Re- forma Psiquiátrica no Brasil. A partir desse pe- ríodo, vários acontecimentos marcam a história da saúde mental. Em 1978, o Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental (MTSM) mostra seu desconten- tamento com a assistência prestada ao paciente com transtorno mental, criticando o modelo cen- trado nos hospitais, além de destacar as péssimas condições de trabalho e a privatização da atenção psiquiátrica. Esse movimento social foi um dos responsá- veis pela criação, em 1986, do primeiro Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), localizado no município de São Paulo. O objetivo do CAPS é: “ [...] oferecer atendimento à população de sua área de abrangência, realizando o acompa- nhamento clínico e a reinserção social dos usuários pelo acesso ao trabalho, lazer, exer- cício dos direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e comunitários. É um serviço de atendimento de saúde mental criado para ser substitutivo às internações em hospitais psiquiátricos (BRASIL, 2004c, p. 13). Em 1987, acontece a I Conferência Nacional de Saúde Mental, a qual contou com membros de diversos segmentos da sociedade. “ A realização da I Conferência Nacional de Saúde Mental, em desdobramento à 8ª Conferência Nacional de Saúde, representa um marco histórico na psiquiatria brasilei- ra, posto que reflete a aspiração de toda a comunidade científica da área, que entende que a política nacional de saúde mental ne- cessita estar integrada à política nacional de desenvolvimento social do Governo Federal (BRASIL, 1988, p. 9). No mesmo ano, na cidade de Bauru-SP, ocorre o I Encontro Nacional do Movimento de Traba- lhadores de Saúde Mental. O lema criado nesse período – “Por uma sociedade sem manicômios” Quem já ouviu a expressão “ficou pinel”? Ela significa “ficou louco” e faz referência ao sobrenome de um médico que marcou a história da saúde mental. No contextoda Revolução Francesa, Philippe Pinel, médico psiquiatra, foi considerado o primeiro reformador da assistência psiquiátrica. Por muitos é considerado o pai da psiquiatria. Em 1798, in- dignado com as péssimas condições de tratamento, ele liberou asilados presos há mais de 30 anos. Seus pensamentos e atitudes influenciaram a revolução psiquiátrica em diversos países. Fonte: Foucault (1995). 113UNIDADE 4 – sugere a necessidade de discutir sobre a saúde mental e uma nova assistência psiquiátrica por parte da sociedade. Um fato importante foi a intervenção na Casa de Saúde Anchieta, localizada em Santos-SP. A intervenção foi o fechamento do hospício, pela prefeitura, e a criação de centros de atenção psi- cossocial. Em 1990, foi divulgado, pela Organização Pan- -Americana de Saúde e a Organização Mundial da Saúde, um documento intitulado: “a reestru- turação da atenção psiquiátrica na América La- tina: uma nova política para os serviços de Saúde Mental”, mais conhecido como Declaração de Ca- racas, cuja proposta central é a reestruturação da assistência psiquiátrica. Nesse contexto, acreditava-se que o modelo de assistência vigente não conseguiria atender o indivíduo com transtorno mental em sua in- tegralidade. O modelo hospitalocêntrico, como única alternativa de cuidado, acaba por provocar isolamento social e da própria família. Em 2001, a Lei nº 10.216, conhecida como a Lei da Reforma Psiquiátrica, apresenta uma nova direção para o modelo assistencial em saúde men- tal, garantindo proteção e direitos às pessoas por- tadoras de transtornos mentais. De acordo com a lei, são direitos da pessoa portadora de transtorno mental: I. ter acesso ao melhor tratamento do sis- tema de saúde, consentâneo às suas ne- cessidades; II. ser tratada com humanidade e respeito e no interesse exclusivo de beneficiar sua saúde, visando alcançar sua recuperação pela inserção na família, no trabalho e na comunidade; III. ser protegida contra qualquer forma de abuso e exploração; IV. ter garantia de sigilo nas informações prestadas; V. ter direito à presença médica, em qualquer tempo, para esclarecer a necessidade ou não de sua hospitalização involuntária; VI. ter livre acesso aos meios de comunicação disponíveis; VII. receber o maior número de informações a respeito de sua doença e de seu tratamento; VIII. ser tratada em ambiente terapêutico pelos meios menos invasivos possíveis; IX. ser tratada, preferencialmente, em serviços comunitários de saúde mental (BRASIL, 10.216/2001, p. 1). Com base na Lei 10.216 é se que se deu a criação da Política Nacional de Saúde Mental. De acordo com a Portaria do Ministério da Saúde nº 399/GM, de 22 de fevereiro de 2006, destaca-se que a saúde mental foi incluída como prioridade no Pacto pela Vida, em 2007. É claro que ainda há um longo caminho a ser percorrido na área de saúde mental, de modo que as políticas públicas de saúde realmente consigam atender esse público de forma integral em todas as demandas. No entanto, é notório as conquistas alcançadas ao longo da história. Com a desinstitucionalização, busca-se inserir a pessoa com transtorno mental na sociedade, permitindo sua (re)inserção no mercado de tra- balho, nos estudos, nas práticas de lazer, além de permitir seu convívio com a família e a sua de- sestigmatização. Nesse novo modelo de assistência em saúde mental, a família é considerada coparticipante no processo de reabilitação do indivíduo com transtorno mental, precisando ser amparada e capacitada pelos profissionais de saúde. Em 2011, foi instituída a Rede de Atenção Psi- cossocial para pessoas com sofrimento ou trans- torno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). 114 Políticas Públicas de Saúde no Brasil A articulação dessa Rede, com valorização para os CAPS como serviço estratégico em saú- de mental, é um dos pontos importante para a garantia de acesso, integralidade do cuidado, além de resolutividade e qualidade no serviço prestado. Assim, faz-se necessário um olhar avaliativo para as políticas de saúde vigentes. Elas corres- pondem aos motivos pelos quais foram criadas? O Brasil apresenta inúmeras políticas públi- cas de saúde. Nesta unidade, abordamos alguns marcos importantes e características de algumas políticas voltadas a grupos específicos, como: mulher, criança, adulto e idoso, saúde do idoso e populações vulneráveis. É importante destacar que as políticas públi- cas de saúde buscam atender às necessidades da comunidade em determinado momento, por isso elas não são estáticas, pelo contrário, são dinâ- micas, estão em constante transformação. Afinal, a sociedade, de forma geral, vive em constante transformação, seja ela econômica, cultural ou política. Assim, o estudo sobre a temática tem um começo, mas não um ponto final! Além disso, as políticas públicas de saúde vão se adequando às discussões que emergem em cada época, tanto pela sociedade como pelos profissionais envolvidos. Os modelos de assistên- cia à saúde, por exemplo, apresentaram grandes mudanças ao longo da história. Atualmente, é enfatizada a busca por uma assistência que preze pela integralidade do indivíduo, considerando-o um ser biopsicossocial e, nesse sentido, as políti- cas foram sendo (re)construídas. É um grande desafio para os profissionais da saúde, em todas as esferas de governo, cum- prirem com as propostas pactuadas por meio das políticas públicas. É necessário que elas as- segurem, na prática, os direitos constitucionais do cidadão. Por isso, é importantíssimo um bom preparo do aluno na academia para o exercício da pro- fissão. As bases teóricas, no caso desta unidade, embasadas pela política e marcadas pela história, são relevantes para a compreensão da atualidade. Logo, a capacitação profissional de qualidade é fundamental na área da saúde, a fim de formar profissionais que implementem políticas públicas de saúde de acordo com as reais demandas da população, além de garantir, na prática, a opera- cionalização dos princípios do SUS. 115 1. Sobre as políticas públicas de saúde, no Brasil, voltadas à mulher, analise as questões a seguir. I) As políticas públicas de saúde direcionadas a esse público iniciaram nas primeiras décadas do século XIX. II) Por um longo período, os programas de saúde materno-infantis refletiram a visão limitada da sociedade em relação à mulher, destacando o biológico e seu papel social de mãe e doméstica. III) O Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM) foi lançado pelo Ministério da Saúde em 1983 e incorporou os princípios que nortearam a reforma sanitária. IV) A humanização e a qualificação da atenção em saúde são princípios norteado- res da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher, criada em 2004. Assinale a alternativa correta. a) Somente as afirmativas I, II e III são verdadeiras. b) Somente as afirmativas I e IV são verdadeiras. c) Somente as afirmativas II, III e IV são verdadeiras. d) Todas as afirmativas são verdadeiras. e) Nenhuma das afirmativas são verdadeiras. Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução. 116 2. As políticas públicas voltadas à saúde da criança avançaram ao longo da história. Buscam uma assistência à saúde por meio da construção de redes e que garanta a integralidade do cuidado. Sobre o assunto, assinale a alternativa correta. a) Desde os primórdios da humanidade, a figura da criança sempre foi permeada de afeto, especialmente dentro do contexto familiar. b) O Programa de Assistência Integral à Saúde da Criança (PAISC) criado em 1984, possuía como objetivo promover ações de saúde, priorizando crianças com maior risco de adoecer. c) A Atenção Integrada às Doenças Prevalentes na Infância (AIDPI) buscou for- talecer e organizar a atenção primária à saúde, tendo como foco o cuidado e tratamento das doenças mais frequentes em crianças até 10 anos. d) As Redes de Atençãoem Saúde é uma realidade em diversas áreas da saúde, exceto na saúde materno-infantil. e) Os eixos estratégicos da Política Nacional de Atenção Integral à saúde da Criança (PNAISC), desconsidera os determinantes sociais e condicionantes da saúde da criança. 117 3. O envelhecimento da população é uma realidade mundial. Nesse sentido, é necessário criar estratégias de promoção da saúde e prevenção de doenças ao longo da vida, a fim de possibilitar uma velhice com maior qualidade de vida. Sobre as políticas públicas de saúde voltadas ao adulto e idoso, analise as questões abaixo. I) Um dos objetivos da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH) é aproximar a população masculina do serviço de saúde, tendo a atenção primária como porta de entrada, já que muitos adentram o sistema de saúde pela atenção especializada. II) O Estatuto do idoso representou uma grande conquista da população idosa brasileira, garantindo a eles direitos em diversas áreas, inclusive o direito à saúde por meio do SUS. III) O processo de transição epidemiológica que acontece no Brasil é marcado pelo aumento das mortes por doenças infectocontagiosas e queda progressiva das mortes por doenças crônicas, a exemplo das neoplasias e hipertensão arterial. IV) A Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI), criada pelo Ministério da Saúde, em 2006, destaca a necessidade de se considerar essa população igual às demais, sem distinção de grupos ou estratos, a fim de não gerar discriminação. Assinale a alternativa correta. a) Apenas I e II estão corretas. b) Apenas II e III estão corretas. c) Apenas I está correta. d) Apenas II, III e IV estão corretas. e) Nenhuma das alternativas está correta. 118 4. Sobre as políticas públicas de saúde mental, assinale a alternativa correta: a) A Reforma Psiquiátrica no Brasil ainda está em processo de consolidação, visto que muitos hospitais psiquiátricos ainda não aumentaram o número de leitos. b) São objetivos dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS): acolher os pacientes com transtornos mentais, auxiliá-los na sua integração familiar e na sociedade, além de encorajá-los na busca pela autonomia. c) A Política Nacional de Saúde Mental propõe uma série de mudanças direciona- das à saúde das pessoas com transtorno mental; no entanto, mantém o mesmo modelo assistencial praticado no século XVIII. d) A Declaração de Caracas, divulgada em 1990, fortaleceu a ideia de que pessoas com transtorno mental eram perigosas e precisavam ser tratadas em institui- ções psiquiátricas. e) A Rede de Atenção Psicossocial para pessoas com sofrimento ou transtorno mental possui como ponto estratégico os hospitais psiquiátricos. 5. Conhecer a vulnerabilidade de determinada população faz-se necessário para a elaboração de estratégias assertivas de promoção da saúde e prevenção de doenças. Sobre as políticas públicas de saúde direcionadas às populações vul- neráveis (pessoas com deficiência, pessoas em situação de rua, pessoas negras, pessoas idosas e grupo LGBT), assinale a alternativa correta. a) O Estatuto da Pessoa com Deficiência garante, entre outros fatores, o direito à saúde, sem, contudo, abordar sobre o acesso aos serviços de habilitação e de reabilitação. b) Uma estratégia encontrada para a assistência à saúde das pessoas em situação de rua foi a criação do Consultório na Rua, o qual está vinculado a uma assis- tência exclusivamente curativa. c) A Política Nacional de Saúde Integral dos LGBT tem muitos objetivos, entre eles destacam-se: a eliminação da discriminação e preconceito, bem como contribuição para a redução das desigualdades e a consolidação do SUS como sistema universal, integral e equitativo. d) As desigualdades sociais observadas na população negra em nada se relacionam com o acesso desse grupo às questões relativas à saúde. e) O termo vulnerabilidade pode ser entendido como sinônimo de incapacidade quando se aborda o processo de envelhecimento da pessoa idosa. 119 Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher Princípios e Diretrizes Editora: Ministério da Saúde Sinopse: o manual do Ministério da Saúde apresenta a Política Nacional de Aten- ção Integral à Saúde da Mulher, com destaque para seus objetivos e princípios. LIVRO Ilha do Medo Ano: 2010 Sinopse: Trata-se de um suspense que acontece em uma prisão psiquiátrica para detentos de alta periculosidade, a qual fica localizada em uma ilha. Leo- nardo DiCaprio representa um agente federal que é encaminhado a essa ilha para investigar a morte de uma interna. O personagem faz críticas à instituição, dado a forma como os pacientes psiquiátricos eram tratados. FILME Nise, o coração da loucura Ano: 2016 Sinopse: Filme nacional que conta a história da psiquiatra Nise da Silveira, inter- pretada pela atriz Glória Pires. A médica propõe uma nova forma de tratamento aos pacientes que sofrem da esquizofrenia, eliminando o eletrochoque e loboto- mia. Seus colegas de trabalho discordam do seu meio de tratamento e a isolam, restando a ela assumir o abandonado Setor de Terapia Ocupacional, em que dá início a uma nova forma de lidar com os pacientes, por meio do amor e da arte. FILME 120 ARAÚJO, J. P. et al. História da saúde da criança: conquistas, políticas e perspectivas. Rev Bras Enferm. v. 67, n. 6, p. 1000-7, 2014. ARIÈS, P. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 2011. BANDEIRA, M. O bicho. In: BANDEIRA, M. Estrela da vida inteira. 20. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. BERTOLOZZI, M. R. et al. Os conceitos de vulnerabilidade e adesão na Saúde Coletiva. Rev. esc. enferm. USP. v. 43, n. 2, p. 1326-1330, 2009. BRASIL. Conferência Nacional de Saúde, 8, Brasília, 1987. I Conferência Nacional de Saúde Mental: relatório final. Brasília: Centro de Documentação do Ministério da Saúde, 1988. ______. Controle dos cânceres do colo do útero e da mama. Brasília: Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica, 2013a. ______. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Brasília: Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica, 2007. ______. Implantação das Redes de Atenção à Saúde e outras estratégias da SAS. Brasília: Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, 2014a. ______. Lei n° 1.074, de 1º de outubro de 2003. Dispõe sobre o Estatuto do Idoso e dá outras providências. Brasília: Presidência da República, 2003. Disponível em: . Acesso em: 22 out. 2018. ______. Lei n° 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Brasília: Presidência da República, 1990. Disponível em: . Acesso em: 22 out. 2018. ______. Lei n° 8.842, de 4 de janeiro de 1994. Dispõe sobre a política nacional do idoso, cria o Conselho Nacional do Idoso e dá outras providências. Brasília: Presidência da República, 1994. Disponível em: . Acesso em: 22 out. 2018. ______. Lei n° 10.216, de 6 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Brasília: Presidência da República, 2001. 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Brasília: Minis- tério da Saúde, Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa, Departamento de Apoio à Gestão Participativa, 2013b. ______. Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Bra- sília: Ministério da Saúde, Ministério da Saúde, Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa, Departamento de Apoio à Gestão Participativa, 2013c. ______. Portaria nº 1.067, de 4 de julho de 2005. Institui a Política Nacional de atenção obstétrica e neonatal, e dá outra providências. Brasília: Ministério da Saúde, 2005. ______. Portaria nº 1.130, de 5 de agosto de 2015. Institui a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança (PNAISC) no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Brasília: Ministério da Saúde, 2015. Disponível em: . Acesso em: 22 out. 2018. ______. Portaria n° 2.528, de 19 de outubro de 2006. Aprova a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. Disponível em: . Acesso em: 22 out. 2018. ______. Programa de Assistência Integral à Saúde da Criança: Ações Básicas. Brasília: Ministério da Saúde, Secretaria de Comunicação, 1984. ______. Saúde da população em situação de rua: um direito humano. Brasília: Ministério da Saúde, Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa, Departamento de Apoio à Gestão Participativa, 2014b. ______. Saúde mental no SUS: os centros de atenção psicossocial. Brasília: Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas, 2004c. COSTA, R. et al. Políticas Públicas de Saúde ao recém-nascido no Brasil: reflexos para a assistência neonatal. Hist Enferm Rev Eletrônica. v. 1, n. 1, p. 55-68, 2010. 122 FOUCAULT, M. História da loucura na idade clássica. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 1995. FREITAS, G. L. et al. Discutindo a política de atenção à saúde da mulher no contexto da promoção da saúde. Rev. Eletr. Enf. v. 11, n. 2, p. 424-8, 2009. GARCIA, P. T.; FONSÊCA, W. C. F. 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Perspectivas de médicos do programa saúde da família acerca das linhas de cuidado propostas pela agenda de compromissos para a saúde integral da criança e redução da mortalidade infantil. Cad Saúde Pública. v. 25, n. 2, p. 349-58, 2009. SILVA, M. A. Política de saúde para crianças: apontamentos para a atuação da enfermagem. In: GAÍVA, M. A. M. Saúde da criança e do adolescente: contribuições para o trabalho de enfermeiros(as). Cuiabá: Universidade Federal do Mato Grosso, 2006. p. 9-28. 123 1. C. 2. B. 3. A. 4. B. 5. C. 124 PLANO DE ESTUDOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM • Compreender a criação da PNH, seus objetivos e princípios. • Conhecer as diretrizes e dispositivos da PNH. • Estudar sobre a segurança e direito do paciente. • Entender as políticas de saúde voltadas ao trabalhador. • Discutir os principais desafios para a humanização nos serviços de saúde. Conhecendo a PNH Diretrizes e dispositivos da PNH Atenção à saúde do trabalhador Desafios para a humanização nos serviços da saúde Segurança e direito do paciente Dra. Marcela Demitto Furtado Política Nacional de Humanização (PNH) Conhecendo a PNH Olá, caro(a) aluno(a), estamos quase chegando na reta final. Percorremos um longo caminho até aqui. Nesse percurso, acredito que você conseguiu compreender os diversos aspectos que tornam a saúde pública tão ampla e complexa e, ao mesmo tempo, tão fascinante. Conseguimos preparar uma bagagem bastan- te vasta de conhecimento, a qual será de grande relevância para o melhor entendimento do tema que abordaremos. Nesta unidade, iremos discutir sobre a huma- nização, um termo bastante utilizado na área da saúde atualmente, mas que ainda gera dúvidas quanto ao seu significado e operacionalização. Talvez porque o assunto ultrapasse as questões técnicas e instrumentais, alçando dimensões po- lítico-filosóficas. A humanização é um aspecto fundamental nas políticas de saúde, por isso foi criada a Políti- ca Nacional de Humanização (PNH), que surgiu para reconstruir o modelo de assistência à saúde, bem como a gestão dos processos de trabalho. 127UNIDADE 5 Assim, uma das propostas de estudo para esse momento é conhecer a PNH, seus objetivos, prin- cípios, diretrizes e dispositivos. Iremos abordar, também, aspectos relativos à segurança e direitos do paciente, saúde do trabalhador, bem como os principais desafios para que a humanização acon- teça, de fato, nas instituições de saúde. A reflexão sobre a humanização na prática as- sistencial em saúde, desde a elaboração de políti- cas públicas, gestão e cogestão, nos processos de trabalho, até a realização do cuidado ao usuário, extrapolando as relações e afetando também as estruturas, sejam elas físicas ou não, é um exercício muito importante para todos os profissionais na área da saúde (Médicos, Dentistas, Tecnólogos em Estética e Cosmética, Biomédicos, Enfermeiros, Podólogos, Fisioterapeutas, Terapeutas Integrativos e Complementares, Psicólogos, Nutricionistas, Fo- noaudiólogos, Terapeutas Ocupacionais e outros). Então, sugiro que você aproveite esse momento não só para se apropriar da temática, mas também para repensar sobre o profissional que você deseja ser. Precisamos ser a mudança que queremos ver nos serviços de saúde. Dessa forma, desejo força de vontade, dedi- cação e organização para aproveitar ao máximo essa oportunidade. Antes de conhecermos a Política Nacional de Humanização (PNH), é importante refletirmos sobre o significado da palavra humanização. Pare um instante e tente responder às seguintes questões: o que é humanização? Como huma- nizar o humano? O que eu entendo sobre hu- manização na saúde? De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa, humanização significa o “ato ou efeito de huma- nizar”. E humanizar é “tornar humano, tornar tratável, civilizar” (BUENO, 2007). Na área da saúde, o termo “humanização” começou a ser utilizado a partir do século XXI, partindo de discussões e recomendações realizadas pelo Ministério da Saúde. Humanizar a saúde é bastante complexo, pois envolve uma série de questões, como: respeito à unicidade de cada indivíduo; políti- cas públicas, no sentido de garantir igualdade de acesso aos serviços; envolve processo de trabalho; competência profissional; cuidado voltado àquele que cuida, como uma das formas de valorizar o trabalhador etc. (BERMEO, 2008). Fonte: adaptado de Bueno (2007) e Bermeo (2008). Em 2000, o Ministério da Saúde instituiu o Pro- grama Nacional de Humanização da Atenção Hospitalar(PNHAH), cujo objetivo principal é aprimorar as relações entre usuários e profis- sionais, entre os próprios profissionais e entre o serviço hospitalar e a comunidade. A intenção do Programa é promover uma nova forma de “fazer” saúde, que impacte na qualidade da assistência prestada pelas instituições vinculadas ao SUS. Em 2003, a humanização, antes considerada programa, passa a ser uma política – A Política Nacional de Humanização da atenção e gestão do SUS (PNH), também conhecida como Hu- manizaSUS. 128 Política Nacional de Humanização (PNH) A humanização, enquanto política do SUS, não se relacio- na apenas a pessoas (usuários, trabalhadores, gestores) e suas ações, mas também envolve a relação existente entre elas e o ambiente em que atuam. A PNH suscita modos de ser e fazer saúde. De acordo com o Ministério da Saúde, a humanização pode ser compreendida como: “ [...] valorização dos diferentes sujeitos im- plicados no processo de produção de saúde: usuários, trabalhadores e gestores; Fomento da autonomia e do prota- gonismo desses sujeitos; Aumento do grau de corresponsabilidade na produção de saúde e de sujeitos; Estabelecimen- to de vínculos solidários e de participação coleti- va no processo de gestão; Identificação das neces- sidades sociais de saúde; Mudança nos modelos de atenção e gestão dos processos de trabalho, tendo como foco as ne- cessidades dos cidadãos e a produção de saúde; Compromisso com a ambiência, melhoria das condições de trabalho e de atendimento (BRA- SIL, 2004, p. 15). A PNH propõe uma nova forma de gerir e cuidar a partir de três princípios básicos: • Transversalidade. O caráter transversal da PNH refere-se ao fato de que ela deve estar inserida em todas as políticas e programas do SUS, ampliando a comunicação dentro dos grupos e entre eles; • Indissociabilidade entre atenção e gestão. A gestão e a forma de gerir saúde está intimamente ligada à atenção prestada. Tanto os usuários como os trabalhadores, além de conhecer a forma de gestão dos serviços de saúde, precisam ser ativos no processo de tomada de decisão. • Protagonismo, corresponsabilidade e autonomia dos sujeitos e coletivos. No SUS humanizado, cada um (usuário, traba- lhador e gestor) tem o seu papel bem definido, seus direitos e suas responsabilidades na construção da saúde. A PNH pode ser implantada em qualquer serviço de saúde: uma Unidade Básica de Saúde, Unidade de Pronto Atendimento, hos- pitais e secretarias de saúde, ou seja, em toda a rede pública, desde que seja firmado um compromisso entre gestores, trabalhadores e usuários para a reorganização das práticas de saúde, aceitando as propostas da PNH. Dentro desta reorganização das práticas de saúde, podemos observar a inserção pelo Ministério da Saúde, de novas propostas de tratamentos, com a criação da Política Nacional de Práticas In- tegrativas e Complementares (PNPIC) no SUS, com a aprovação da Portaria Nº 971, de 03 de maio de 2006, que visava garantir a população condições de bem-estar físico, mental e social, ofertando cinco procedimentos na área de tratamentos holísticos (Medicina Tradicional Chinesa/Acupuntura, Homeopatia, Plantas Medici- nais e Fitoterapia, Medicina Antroposófica e Termalismo Social/ Crenoterapia). Em 2017, foram incluídos ao SUS mais 14 terapias, somando 19 práticas disponíveis à população, sendo estas: ayurveda, arteterapia, biodança, dança circular, meditação, musicoterapia, naturopatia, osteopatia, quiropraxia, reflexoterapia, reiki, shantala, terapia co- munitária integrativa e yoga. Com o aumento da procura destas técnicas de tratamento, devi- do a evidências científicas dos benefícios do tratamento integrado entre medicina convencional e práticas integrativas e complemen- tares, em 21 de março de 2018, foram acrescentadas mais dez novas 129UNIDADE 5 práticas na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complemen- tares – PNPIC, através da Portaria N° 702, alterando a Portaria de Consolidação nº 2/GM/MS, de 28 de setembro de 2017. Estas dez técnicas introduzidas (aromaterapia, apiterapia, bioe- nergética, constelação familiar, cromoterapia, geoterapia, hipnote- rapia, imposição de mãos, ozonioterapia, terapia de florais), fez do Brasil o país líder na oferta dessa modalidade na atenção básica, pois passa a contar com 29 práticas integrativas pelo SUS. Mas qual é o caminho/método a ser percorrido para a opera- cionalização da PNH? O Ministério da Saúde propõe que a PNH deva caminhar no sentido da inclusão de diferentes agentes nos processos de produção da saúde, denominado “método de tríplice inclusão” (BRASIL, 2008). Quadro 1 - Método de tríplice inclusão Inclusão dos gestores, usuários e trabalhadores na produção de autonomia protagonismo e corresponsabilidade. Inclusão de fenômenos que promovam o pensamento crítico e analítico sobre os modelos de atenção e gestão, no sentido de gerar mudanças. Inclusão do coletivo, seja dos trabalhadores de saúde, quando em trabalho grupal, seja do movimento social organizado. Fonte: Brasil (2008). A valorização do sujeito pela PNH implica em incluí-lo no processo de trabalho como um agente capaz de identificar lacunas e construir estratégias para saná-las. Cuidar do cuidador/trabalhador de saúde é possibilitar a construção conjunta de estratégias para “aliviar as dores”/sofrimentos, muitas vezes ocasionados pela forma de gestão e organização do trabalho (PASCHE; PASSOS; HENNINGTON, 2011). 130 Política Nacional de Humanização (PNH) Diretrizes e Dispositivos da PNH As diretrizes da PNH referem-se às orientações gerais acerca dessa política pública de saúde, que serão apresentadas brevemente no quadro 2 (BRASIL, 2008). Os dispositivos da PNH são meios de colocar em prática as diretrizes que serão apresentadas a seguir. São eles (BRASIL, 2008): • Acolhimento e Classificação de Risco (ACR). • Colegiado Gestor. • Contrato de Gestão. • Equipe Transdisciplinar de Referência e de Apoio Matricial. • Grupo de Trabalho de Humanização (GTH) e Câmara Técnica de Humaniza- ção (CTH). • Programa de Formação em Saúde e Tra- balho (PFST) e Comunidade Ampliada de Pesquisa (CAP). • Projeto memória do SUS que dá certo. • Projeto Terapêutico Singular (PTS) e Pro- jeto de Saúde Coletiva. • Projetos cogeridos de ambiência. • Sistemas de escuta qualificada para usuá- rios e trabalhadores da saúde: gerência de porta aberta, ouvidorias, grupos focais e pesquisas de satisfação. • Visita aberta e direito à acompanhante. 131UNIDADE 5 Quadro 2 - Diretrizes da PNH Clínica ampliada Envolve uma abordagem clínica da doença e do sofrimento que vai além do patológico. Isso permite uma visão ampliada do sujeito, pois considera suas ou- tras dimensões dentro do processo saúde-doença. Considera o indivíduo como único, busca pela integralidade, combate o modelo fragmentado de assistência em saúde. Por meio do diálogo, entre os sujeitos é possível a construção de deci- sões compartilhadas e comprometidas com a autonomia. Cogestão Refere-se à inclusão de novos sujeitos no modo de gerir, bem como a ampliação de tarefas da gestão. Envolve a interação de pessoas e recursos para se alcançar os objetivos e metas. Acolhimento Remete ao reconhecimento da legitimidade da necessidade do outro, o que envol- ve escuta ativa e qualificada, criação de vínculo. O acolhimento realizado a partir da necessidade do sujeito permite o acesso àquilo que ele realmente precisa, além de permitir que situações de maior vulnerabilidade sejam atendidas com prioridade. Valorização do trabalho e do trabalhador Destaca a importância do trabalhador na tomada de decisão; considerando sua capacidade de análise crítica, reflexiva e de geração de mudanças. Defesa dos Direitos do Usuário Os usuários possuem uma série de direitos e cabe aos profissionais e serviços de saúde divulgar esse conhecimento, bem como contribuir para que eles sejam cumpridos. Fomento das grupalidades,coletivos e redes Considera o grupo não apenas como um conjunto de indivíduos, é muito mais do que isso. O grupo é de um coletivo que está em constante transformação, compondo uma rede na qual o processo de produção de saúde se realiza. A reorganização da gestão e assistência à saúde só faz sentido se partir do cole- tivo, ou seja, dos atores do processo; é o que o torna democrático. A construção das redes foi uma das estratégias para ampliar a comunicação entre os serviços, de modo a melhorar a qualidade da assistência prestada. Construção da memória do SUS que dá certo A história do SUS revela inúmeros desafios, porém muitas conquistas foram alcançadas e devem ser divulgadas. Buscar a memória do SUS, os pontos-chaves e marcos importantes podem auxiliar a repensar o presente e planejar o futuro. Fonte: adaptado de Brasil (2008). A Ambiência na saúde é um termo bastante usado no contexto da humanização dos serviços, pois refere-se ao tratamento do espaço/território físico de modo que ele seja acolhedor, confortável. Nesse sentido, é fundamental valorizar os componentes do ambiente, como cor, cheiro, luz, texturas e sons, por acreditar que um bom espaço físico possa otimizar o encontro entre pessoas e ser um facilitador do processo de trabalho. Vale destacar que a ambiência extrapola a ideia de uma estruturação físico-funcional. Envolve as- pectos culturais e de modo de vida, como, por exemplo, a privacidade do indivíduo; acessibilidade e acesso sem discriminação; aspectos relativos à ergonomia, conforto térmico e acústico. Fonte: Brasil (2010). 132 Política Nacional de Humanização (PNH) Segurança e Direito do Paciente A preocupação em discutir sobre a segurança do paciente nas instituições de saúde acontece em nível global. Trata-se de um componente impor- tantíssimo para a qualidade da assistência; logo, é um indicador de saúde que deve ser analisado criteriosamente pelos profissionais de saúde e gestores nesta área. Quando um erro acontece, infringindo a segu- rança do paciente, os prejuízos podem ser diversos para ele, podendo se estender para sua família; na maioria das vezes, prolonga-se o tempo de in- ternação, o que também pode gerar novos riscos, além de elevar os custos hospitalares; a morte, infelizmente, pode ser também uma consequên- cia. Diante de um erro praticado, destacam-se, ainda, os efeitos psicológicos traumáticos na vida dos profissionais de saúde que prestam o cuidado (DE CARVALHO; VIEIRA, 2002). Foi nos Estados Unidos, a partir do relatório do Institute of Medicine, no final do século XX, que se iniciou um movimento sobre a segurança do paciente. O relatório mostrou dados sobre a assistência à saúde no país, identificando taxas alarmantes de eventos adversos que culmina- ram em mortes após a internação de pacientes (KOHN; CORRIGNAN; DONALDSON, 2001). 133UNIDADE 5 A partir do ano 2000, o mundo todo passa a reconhecer a segurança do paciente como uma dimensão da qualidade da assistência em saú- de. Nesse sentido, surgem muitas pesquisas, bem como a criação de institutos e associações voltadas à segurança do paciente (CASSIANI, 2005). Frente à magnitude do problema, a Organização Mundial de Saúde estabeleceu, em 2004, a Aliança Mundial para a Segurança do Paciente (World Al- liance for Patient Safety). Trata-se de um compro- misso firmado entre diversos países, com o intuito de definir e identificar prioridades acerca da segu- rança do paciente (WHO, 2008). Em 2013, o Ministério da Saúde, por meio da portaria GM/MS nº 529, instituiu o Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP), cujo objetivo principal é melhorar a qualidade do cui- dado em saúde nos estabelecimentos nacionais. Ainda em 2013, foram aprovados seis proto- colos básicos de segurança do paciente: • Identificação do Paciente. • Prevenção de úlcera por pressão. • Segurança na prescrição, uso e administra- ção de medicamentos. • Cirurgia segura. • Prática de higiene das mãos em serviços de saúde. • Prevenção de quedas. Mesmo com tantas ações mundiais em prol da segurança do paciente, ainda há muito o que fazer. Uma pesquisa realizada em cinco países da amé- rica latina, entre 2007 e 2009, mostrou que 10,5% dos pacientes hospitalizados sofreram algum tipo de evento adverso, sendo que 58,9% poderiam ter sido evitados (ANVISA, 2013). Em relatório realizado em mais de 30 mil hos- pitais da Europa, em 2013, foi evidenciado que um em cada 18 pacientes apresenta infecção as- sociada à assistência em saúde, o que alerta para a necessidade urgente de estratégias que tentem sanar esse sério problema de saúde pública (FA- RIA; MOREIRA; PINTO, 2013). De acordo com Silva (2010), o grande desafio dessa temática está na compreensão de que as causas dos eventos adversos são multifatoriais e que todos os profissionais de saúde são suscetíveis a cometer erros, especialmente quando o proces- so de trabalho é complexo e/ou encontra-se mal organizado. Quantas vezes já ouvimos na mídia sobre casos de pacientes que foram lesados devido a erros provocados por profissionais de saúde? Erros na administração de medicação, troca de pacientes submetidos a um procedimento cirúrgico, falhas na prescrição médica, entre muitos outros. James Reason, professor de psicologia da Universidade de Manchester, Reino Unido, ten- tou explicar o caráter multifatorial das falhas de segurança por meio da teoria sobre o erro humano, também conhecida como “queijo suíço”. Ele compara as fragilidades do sistema de saú- de aos buracos do queijo. O alinhamento entre vários furos do queijo suíço é que irá culminar em perdas ou danos (REASON; CARTHEY; DE LEVAL, 2001). 134 Política Nacional de Humanização (PNH) Pensando no Modelo do Queijo Suíço aplicado à área da saúde, que estratégias poderiam ser im- plementadas para evitar o desencadeamento de um evento adverso? Donabedian (1980) tenta explicar a ocorrência dos eventos adversos por meio da tríade – estrutu- ra - processo - resultado. A estrutura relaciona-se a aspectos mais estáveis, como os profissionais, os instrumentos de trabalho, os locais e modelos de organização dos serviços. O processo envolve as ações realizadas pelos profissionais em direção ao paciente, bem como as respostas destes àquilo que foi realizado. O resultado pode ser representado pela efetividade e eficiência das atividades pratica- das, bem como pelo grau de satisfação do paciente. Existem muitos estudos de campo que buscam investigar as causas dos eventos adversos na área da saúde. Muitos deles relacionados a erros de medicação. Estudo de revisão sobre erros de medicação entre profissionais de enfermagem mostrou que entre as principais causas estão a sobrecarga de trabalho, cansaço e estresse do profissional (DOS SANTOS et al., 2014). Independentemente de qualquer situação, é sabido que o paciente tem o direito de receber uma assistência em saúde segura, o que consiste em um desdobramento do direito à vida, já que a falta de segurança pode ocasionar a morte. Em 2009, o Conselho Nacional de Saúde aprovou a Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde, a qual apresenta seis princípios básicos (BRASIL, 2011): • Todo cidadão tem direito ao acesso or- denado e organizado aos sistemas de saúde. • Todo cidadão tem direito a tratamento adequado e efetivo para seu problema. • Todo cidadão tem direito ao atendimento humanizado, acolhedor e livre de qualquer discriminação. • Todo cidadão tem direito a atendimento que respeite a sua pessoa, seus valores e seus direitos. Modelo de causa de acidente - Queijo Suiço Sucessivas camadas de defesas, barreiras e proteções Perdas Perigos Outros buracos devido às condições latentes (falha de equipamento, falta de treinamento ou experiência da Alguns buracos devido a falha ativa (erro, violações de procedimento) Figura 1 - Modelo do Queijo Suíço Fonte: Reason (2006). 135UNIDADE 5 • Todo cidadão também tem responsabili- dades para que seu tratamento aconteçada formulação unicausal só ficou evidente no início do séc. XX, devido ao processo de mudanças ocorridas na sociedade e na insuficiência de dar explicações sobre a saúde e a doença das pessoas e das comunidades, bem como o efeito da transição epide- miológica - fenômeno no qual evidencia a diminuição de doenças infecciosas e o aumento de doenças crônicas degenerativas, em que o homem passa a ser considerado como um ser biopsicossocial. Nesse sentido, a saúde e a doença são reconhecidas como o equilíbrio e/ou desequilíbrio entre o ambiente, o agente e o hos- pedeiro, envolvendo dimensões subjetivas e não apenas biologica- mente científicas e objetivas. No entanto, a crítica a tal explicação se dá ao fato de não considerar as variações das doenças verificadas historicamente, em relação ao seu aparecimento e desaparecimen- to, aumento ou diminuição de sua frequência, da menor ou maior importância, que adquirem nas variadas formas de organização social (BACKES et al., 2009). Uma nova proposta de consenso sobre saúde ocorreu em 7 de abril de 1948 (desde então, o Dia Mundial da Saúde), implicando o reconhecimento do direito à saúde e da obrigação do Estado na promoção e proteção da saúde. “Saúde é o estado do mais com- pleto bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de enfermidade” (SCLIAR, 2007). O conceito da Organização Mundial da Saúde (OMS) reflete, de um lado, uma aspiração nascida dos movimentos sociais do pós-guerra: o fim do colonialismo, a ascensão do socialismo. Saúde deveria expressar o direito a uma vida plena, sem privações, um conceito amplamente difundido, mas que carrega em si um estado inatingível de equilíbrio em um cenário de neutralidade, que o torna pouco operacional e prático (BACKES et al., 2009). O livro de Moacyr Scliar, intitulado Do Mágico ao Social: trajetória da saúde pública, apresenta, de uma forma mais detalhada, os caminhos percorridos pela condição humana no contexto da saúde e da doença, em uma perspectiva histórica, apontando olhares e características das matrizes do pensamento sobre o paradoxo saúde-doença. 17UNIDADE 1 A Produção Social da Saúde e da Doença Um novo paradigma surge diante da crise de desenvolvimento das sociedades modernas: o reconhecimento de que tudo o que existe é pro- duto da ação humana. A saúde de um indivíduo, de um grupo de indi- víduos ou de uma comunidade, depende, também, de coisas que o homem criou e faz, das interações dos grupos sociais, das políticas adotadas pelo go- verno, inclusive os próprios mecanismos de aten- ção à doença, do ensino voltado para os cursos da área da saúde, da educação e das intervenções sobre o meio ambiente (SANTOS; WESTPHAL, 1999). Nesse sentido, Santos e Westphal (1999) res- saltam que ter saúde não pode ser apenas não estar doente, significa, também, a possibilidade de atuar, de produzir a sua própria saúde, quer mediante cuidados tradicionalmente conheci- dos, quer por ações que influenciam o seu meio – ações políticas para a redução de desigualdades, educação, cooperação intersetorial, participação da sociedade civil nas decisões que afetam sua existência – para, usando uma expressão bem conhecida, o exercício da cidadania. Para que uma população possa ser saudável, no paradigma da história social da saúde, é ne- cessário: paz (contrário de violência); habitação adequada em tamanho por habitante, em condi- ções adequadas de conforto térmico; educação, pelo menos fundamental; alimentação imprescin- dível para o crescimento e desenvolvimento das crianças e necessária para a reposição da força de trabalho; renda decorrente da inserção no mer- cado de trabalho, adequada para cobrir as neces- sidades básicas de alimentação, vestuário e lazer; ecossistema saudável preservado e não poluído; justiça social e equidade, garantindo os direitos fundamentais dos cidadãos (DE OTAWA, 1986). No Brasil, o movimento de Reforma Sanitária, articulado nos anos 80, formulou um “conceito ampliado de saúde” e passou a entendê-la como um estado resultante das condições de alimenta- ção, habitação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso à terra e aos serviços de saúde, apontan- do, assim, para a determinação social e cultural da saúde e da doença. Para operar com o conceito ampliado de saúde, precisamos pensar na saúde como um processo em detrimento da concepção de saúde como um atributo (tenho/não tenho). (Stela Nazareth Meneghel) 18 Saúde e Doença - uma Perspectiva Atualizada O Modelo Preventivista e o Modelo de Promoção à Saúde É possível verificar que o conceito de saúde foi influenciado, no decorrer dos tempos, por ques- tões sociais, culturais e econômicas. Vale destacar que as ações de saúde e a forma de organização da assistência também acompanham as mudanças do conceito de saúde. Na tentativa de explicar essas mudanças, di- versos autores propuseram modelos explicativos do processo saúde-doença. Vejamos dois deles: o modelo de Atenção à Saúde Preventivista e o Modelo da Promoção à Saúde. O Modelo Preventivista O modelo preventivista surge devido à crise do capitalismo e à incapacidade dos governos de ar- carem com os custos da saúde no contexto médi- co hospitalar, com base na proposta de Leavell e Clarck do modelo da história natural da doença (evolução natural da doença). 19UNIDADE 1 Quadro 1 - Modelo da História Natural da Doença Período pré-patogênese Patogênese precoce Patogênese avançada Recuperação, incapacidade ou morte Interação entre agente e hospedeiro Doença subclínica Horizonte clínico Alterações celulares Doença com manifes- tação clínica Ultrapassagem do ho- rizonte clínico Prevenção primária Prevenção secundária Prevenção terciária Promoção à saúde Proteção específica Diagnóstico Precoce Limitação do dano Reabilitação Fonte: Meneghel (2015). O modelo pressupõe que toda doença tem um percurso natural de pré-patogênese, patogênese e de recuperação, e que, para cada momento da história natural da doença, preconiza ações sanitárias que correspondem aos três níveis de prevenção: primário, secun- dário e terciário (MENEGHEL, 2015). No período pré-patogênico, os agentes causadores de doenças e o indivíduo vivem em equilíbrio com o ambiente. No perío- do patogênico, inicialmente, não há sinais e sintomas da doença, também chamado de período de incubação, só então aparecem as manifestações clínicas da doença, que podem evoluir para re- cuperação, incapacidade ou morte. As intervenções nos diferentes estágios da doença são chama- das de prevenção primária, secundária e terciária e têm como obje- tivo prevenir doenças ou seu agravamento. As ações de prevenção primária podem ser medidas gerais e educativas de resistência e bem-estar geral dos indivíduos; as de prevenção secundária buscam a redução de fatores de risco; e as de prevenção terciária reduzem e intervêm nas sequelas de doenças. A crítica a esse modelo se dá pelo fato dele não considerar os efeitos positivos e negativos das condições de vida e de trabalho e a inserção social dos indivíduos nos níveis de saúde da população, o que reduz o conceito de saúde como estritamente biológico, ig- norando a dimensão social que envolve o processo saúde-doença (MENEGHEL, 2015). 20 Saúde e Doença - uma Perspectiva Atualizada O Modelo de Promoção à Saúde Com as mudanças ocorridas na sociedade pós- -guerra, os estudiosos descreveram um fenômeno denominado de transição demográfica e epidemio- lógica no mundo todo. Tal fenômeno apontou para incapacidade do Modelo da história natural da doença dar expli- cações para várias doenças e agravos, como as doenças crônicas, os acidentes, a crescente violên- cia, entre outros. Diante disso, diversas propostas foram elaboradas no sentido de buscar uma visão e atenção mais integral da saúde. Discussões acerca do tema “saúde integral” foram realizadas no cenário Internacional. A Conferência realizada em Alma-Ata, em 1978, éda forma adequada. • Todo cidadão tem direito ao comprome- timento dos gestores da saúde para que os princípios anteriores sejam cumpridos. É importante destacar que a Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde é um dos dispositivos da Política Nacional de Humanização, tema discutido nos tópicos anteriores. Acredita-se que promover uma assistência de qualidade a todos os cidadãos, com alta resolutividade, em ambiente acolhedor, faça parte de um atendimento humanizado. Embora exista a constituição que garanta os direitos do paciente, é notório o distanciamento entre o que está em lei e a prática dos serviços de saúde. Muitos pacientes desconhecem seus direi- tos, e outros, por medo de represália das institui- ções e/ou profissionais de saúde, negam-se a exi- gi-los, omitem-se (VELOSO; SPINDOLA, 2005). Nesse sentido, a criação de espaços democrá- ticos criados pela sociedade são importantes para exigir dos gestores políticas públicas e uma admi- nistração que busque por medidas de proteção aos direitos do paciente (CHAUÍ, 2006). De acordo com Gomes et al. (2008, p. 774) “a educação mostra-se como uma possibilidade de acesso à informação e consciência política em direção a uma mudança nas práticas de saúde que ferem a dignidade humana”. É relevante, também, que os profissionais de saúde se sintam responsabilizados em fornecer informações aos pacientes sobre os seus direi- tos. A partir da apropriação desse conhecimento, é possível maior controle social e participação coletiva nas ações e processos de gerir a saúde. Lembrando que aspectos relativos à autonomia e corresponsabilidade fazem parte da PNH, pro- posta pelo Ministério da Saúde. 136 Política Nacional de Humanização (PNH) Atenção à Saúde do Trabalhador Sabemos que, na nossa sociedade, o trabalho não diz respeito apenas a uma fonte de renda que permite que as pessoas possuam coisas, mas relaciona-se, ainda, com reconhecimento, honra e realizações. Além disso, é preciso considerar que o trabalho também pode gerar problemas que afetam a saú- de, ocasionados pelo estresse ou pela exposição a condições perigosas, entre muitas outras situações. Este esgotamento causado pelo estresse em um grande número na população é que incentivou o aumento da oferta das Práticas Integrativas e Complementares (PICS), pelo SUS. Nesse tópico, iremos tratar sobre a saúde do trabalhador; mas, o que significa esse termo? E por que discutir esse assunto na saúde pública? De acordo com o Ministério da Saúde, o termo Saúde do Trabalhador refere-se “a um campo do sa- ber que visa compreender as relações entre o traba- lho e o processo saúde/doença” (BRASIL, 2001, p. 7). “ A gente não quer só comer A gente quer prazer pra aliviar a dor A gente não quer só dinheiro, A gente quer dinheiro e felicidade A gente não quer só dinheiro, A gente quer inteiro e não pela metade (Arnaldo Antunes) 137UNIDADE 5 O trecho da música “Comida”, de Arnaldo Antu- nes, interpretada pela banda Titãs, é quase que uma reivindicação para um olhar mais atento ao trabalhador, que possui múltiplas dimensões e, consequentemente, necessidades distintas, as quais precisam ser valorizadas. Os trabalhadores estão expostos a uma série de riscos ambientais e organizacionais em função de sua inserção nos processos de trabalho. Logo, o setor da saúde necessita incorporar esses indi- víduos em estratégias de promoção, prevenção e recuperação da saúde. Foi apenas a partir da década de 80 que a visão em relação ao trabalhador começou a se modifi- car; ele passa a ser reconhecido como sujeito e não apenas como consumidor dos serviços de saúde. A própria Constituição Brasileira de 1988, na seção de Direitos à Saúde, artigo 200, des- taca como competência do SUS, entre outras atribuições, “executar as ações de vigilância sa- nitária e epidemiológica, bem como as de saúde do trabalhador”. Em 1990, a Lei Orgânica de Saúde (Lei n° 8080) regulamentou o SUS e suas competências no campo da Saúde do Trabalhador, reconhecen- do o trabalho como um importante determinante de saúde. Nesta mesma década, muitas iniciativas foram registradas no sentido de consolidar a área de saú- de do trabalhador, como: • 1994 - 2ª Conferência Nacional de Saúde do Trabalhador. • 1998 - Elaboração da Norma Operacional de Saúde do Trabalhador (NOST). • 1998 - Instrução Normativa de Vigilância em Saúde do Trabalhador. • 1999 - Listagem de Doenças Relacionadas ao Trabalho. Dada a dispersão das ações voltadas à saúde do trabalhador é que, em 2002, foi criada a Rede Na- cional de Atenção Integral à Saúde do Trabalha- dor (RENAST), cujo objetivo principal é realizar a articulação das ações em saúde do trabalha- dor no contexto do SUS. Para tanto, existem os Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST). “ Um modelo de atenção integral à saúde dos trabalhadores implica em qualificar as prá- ticas de saúde, envolvendo o atendimento dos acidentados do trabalho, dos trabalha- dores doentes, das urgências e emergências às ações de promoção e proteção da saúde e de vigilância, orientadas por critério epi- demiológico. Para que isso ocorra de modo efetivo, faz-se necessária abordagem inter- disciplinar e a utilização de instrumentos, saberes, tecnologias originadas de diferentes áreas do conhecimento, colocados a serviço das necessidades dos trabalhadores (BRA- SIL, 2006, p. 17). Em 2011, a partir do Decreto 7.602, foi criada a Política Nacional de Segurança e Saúde no Tra- balho (PNSST), na busca de articular ações de diferentes setores, como Trabalho, Previdência Social, Saúde e Meio Ambiente. As diretrizes que regem a PNSST são: “ [...] inclusão de todos trabalhadores brasi- leiros no sistema nacional de promoção e proteção da saúde; harmonização da legis- lação e a articulação das ações de promoção, proteção, prevenção, assistência, reabilitação e reparação da saúde do trabalhador; ado- ção de medidas especiais para atividades 138 Política Nacional de Humanização (PNH) laborais de alto risco; estruturação de rede integrada de informações em saúde do tra- balhador; promoção da implantação de sis- temas e programas de gestão da segurança e saúde nos locais de trabalho; reestruturação da formação em saúde do trabalhador e em segurança no trabalho e o estímulo à capaci- tação e à educação continuada de trabalha- dores; e promoção de agenda integrada de estudos e pesquisas em segurança e saúde no trabalho (BRASIL, 2011, p. 1). O Ministério da Saúde, em 2012, instituiu a Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Traba- lhadora (PNST), por meio da Portaria GM/MS n° 1.823. Esta se alinha a todas as outras políticas de saúde do SUS, o que confere a ela o caráter de transversalidade. A saúde do trabalhador, enquanto área do co- nhecimento, encontra-se em construção. Muitas conquistas foram alcançadas, mas ainda há um longo caminho pela frente. A integralidade da assistência à saúde do traba- lhador precisa ser colocada em prática e, para isso, entre outras coisas, é preciso extrapolar a esfera biológica e individual, interferindo nas questões relativas ao processo de trabalho. Com a globalização; aumento da competiti- vidade; crise financeira em diversos setores, que acaba por culminar em elevadas taxas de desem- prego; crescimento dos trabalhadores informais e temporários ocorre uma série de transformações na vida do trabalhador que, com certeza, impac- tam em sua saúde (SILVEIRA, 2009). As reais condições de trabalho precisam ser identificadas e analisadas profundamente, a fim de “reverter a cultura de que o trabalho é bom independentemente das condições em que é rea- lizado” (LOURENÇO; BERTANI, 2007, p. 125). A Previdência Social garante uma série de be- nefícios a trabalhadores com carteira assinada vítimas de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho, desde que comprovada a incapacidade para o trabalho por parte da perícia médica. São exemplos de benefícios previstos pela legis- lação previdenciária:auxílio-doença, aposenta- doria por invalidez, auxílio-acidente, pensão por morte e reabilitação profissional. Em casos de acidentes ou doenças relaciona- das ao trabalho, mesmo que esses eventos não tenham gerado incapacidades, faz-se necessá- rio o preenchimento de uma ficha denominada “Comunicação de Acidente de Trabalho” (CAT), a qual é utilizada para fins estatísticos e epidemio- lógicos, bem como para assegurar alguns direitos previstos em lei. Fonte: adaptado de Silveira (2009). 139UNIDADE 5 Desafios para a Humanização nos Serviços da Saúde Como já foi abordado anteriormente, o tema hu- manização tem conquistado um espaço signifi- cativo na área da saúde e tem sido considerado como um dos caminhos para transformações no SUS, com vistas à melhora na qualidade assisten- cial e nos processos de trabalho e gestão. A humanização visa romper com a fragmenta- ção do cuidado, do trabalho e da rede de assistên- cia à saúde. Não refere-se a uma maquiagem nos serviços de saúde, como utilizar cores e desenhos nas paredes, ser gentil e educado com o usuário ou, ainda, bonificar o profissional por bom de- sempenho. Vai além. Por tudo isso, percebe-se que a operaciona- lização da humanização no SUS possui uma série de desafios. Um deles, segundo Martins (2010), refere-se a desconstruir os processos hierárquicos para, então, trabalhar em redes. As redes de atenção à saúde são formadas por diversos pontos (serviços), que se conectam/se comunicam na construção da in- tersetorialidade e da integralidade. No entanto, as redes também podem ser compostas de afetos, vivências, políticas, um emaranhado de aspectos de grande relevância para a produção de saúde. 140 Política Nacional de Humanização (PNH) Considerando que a humanização envolve tam- bém o relacionamento entre usuários e profis- sionais de saúde, faz-se necessário romper com o mecanicismo, muito vezes inerente às relações de trabalho. Nesse sentido, é preciso repensar em novas formas de interação entre os atores (gesto- res, usuários e profissionais), de forma que estes atuem como sujeitos ativos de um processo e não sendo submissos a ele (BRASIL, 2010). A literatura destaca como desafio o exercício de não colocar a PNH como verdade absoluta, imutável, mas que ela possa ser uma forma de pensar e fazer saúde, que ela sirva para fazermos uma reflexão crítica e, a partir dela, tornar o pro- cesso dinâmico e inovador (HECKERT; PASSOS; BARROS, 2009). Estudo aponta como dificuldades para se colo- car em prática a proposta da humanização aspec- tos como: influência direta do modelo organiza- cional, dos desenhos da missão institucional, do envolvimento e aderência dos gerentes à proposta, da capacitação e sensibilidade dos profissionais (DIAS; DOMINGUES, 2005). Os desafios da humanização podem ser supe- rados, desde que os problemas e soluções sejam construídos de forma coletiva entre usuários, pro- fissionais e gestores. “ O trabalho multidisciplinar, a participação efetiva do usuário, a democratização da ges- tão, as ações de educação permanente, as re- flexões sobre os processos de trabalho, dentre várias outras ofertas da PNH, demonstram que há estratégias para melhorar as relações de trabalho, aumentar o diálogo entre seus atores e criar novos modos de produção do cuidado (MARTINS, 2010, p. 92). Continuamente, faz-se necessária a realização de cursos, oficinas de formação, a fim de discutir os processos de trabalho, as diretrizes e dispo- sitivos da PNH. A partir da vivência no dia a dia de trabalho, é preciso se reinventar, criando espaços coletivos que valorizem a autonomia e a corresponsabilidade dos profissionais de saúde no trabalho e dos usuários no cuidado de si, ex- Uma pesquisa qualitativa, realizada em uma enfermaria de Pediatria de um instituto de referência no cuidado da Saúde da Mulher, Criança e Adolescente, tendo como sujeitos a equipe de enferma- gem, usuários e acompanhantes, identificou que os princípios fundamentais da humanização não ocorrem de forma efetiva na relação entre os sujeitos. Destacou-se como princípios da humanização: acolhimento, autonomia, protagonismo e correspon- sabilidade. O estudo apontou, ainda, a presença de lacunas na compreensão da proposta de um projeto de humanização para o serviço. Para a equipe de saúde, a humanização está atrelada a prestar uma assistência de qualidade, no entanto sem refletir sobre como ela pode ser prestada, nem tampouco se indagar sobre quais as possibilidades de mudanças na prática. O estudo destaca, como estratégia para essa situação, a cria- ção de um projeto de Educação Continuada, de modo a preparar profissionais e usuários a construir coletivamente o cenário de práticas. Fonte: Alves, Deslandes e Mitre (2009). 141UNIDADE 5 tinguindo atitudes e práticas desumanizadoras (BRASIL, 2013). Nesta unidade, foi possível abordar sobre a humanização e como esse termo vem sendo em- pregado na área da saúde. Discutir sobre a Política Nacional de Humanização (PNH), seus objeti- vos, diretrizes e dispositivos é fundamental para a compreensão do tema. A proposta da PNH é bastante ousada por pro- por uma nova forma de fazer saúde, rompendo com o modelo de assistência fragmentado, cen- trado na doença e hierarquizado. Busca fomentar a autonomia e protagonismo dos usuários, traba- lhadores e gestores, de modo que estes construam, coletivamente, modos de assistir e gerir em saúde. Essa discussão permite a reflexão sobre onde estamos e aonde desejamos chegar! Assim como nas outras unidades, nesta tam- bém foi necessário, em alguns momentos, fazer um resgate histórico acerca das políticas públicas, a fim de nos situarmos no tempo e entendermos que muitos obstáculos foram ultrapassados para chegarmos até aqui. Discutimos, ainda, sobre a segurança e direitos do paciente, aspectos de grande relevância para a saúde pública. A segurança do paciente é um importante indicador de saúde, que reflete a qua- lidade da assistência prestada. Quanto aos direitos do paciente, estes devem ser assegurados em toda e qualquer situação. A saúde do trabalhador também foi discutida nesta unidade e mostra-se uma área em constru- ção. O trabalho pode ser uma fonte de desgaste da saúde, acarretando inúmeros problemas que devem ser valorizados pelos serviços públicos. A partir da discussão de todos esses assuntos, conseguimos visualizar um aspecto muito impor- tante da PNH, que é a transversalidade, caracte- rizada pela inserção dessa política em todas as outras existentes no âmbito do SUS. A implantação de um novo modelo de assistên- cia, o qual exige uma nova perspectiva de cuidado, sem dúvida é um grande desafio. Para tanto, é pre- ciso continuar caminhando, vislumbrando alterna- tivas para que a humanização realmente aconteça na prática assistencial e nos processos de gestão. 142 1. De acordo com os princípios do HumanizaSUS, definidos pelo Ministério da Saúde, a transversalidade trata-se de: a) Corresponsabilidade entre gestores, usuários e a participação coletiva nos processos e na gestão. b) Concepções e práticas que atravessam as diferentes ações e instâncias que aumentam o grau de abertura de comunicação intra e intergrupos. c) Práticas interdependentes e complementares que precisam ser entendidas para que ocorra a humanização. d) Participação do Município e do Estado, em conjunto com a União, buscando um SUS melhor. e) Práticas interdependentes e complementares, corresponsabilidade entre ges- tores, usuários. 2. Sobre a cultura de segurança descrita na Política Nacional de Segurança do Paciente, assinale a alternativa correta. a) Cultura que prioriza as metas financeiras e operacionais acima de segurança. b) Comprometimento da estrutura ou função do corpo e/ou qualquer efeito dele oriundo, incluindo doenças, lesão, sofrimento, morte, incapacidade ou disfun- ção, podendo, assim, ser físico, social ou psicológico. c) Cultura na qual todos os trabalhadores, incluindo profissionais envolvidosno cuidado e gestores, assumem responsabilidade pela sua própria segurança, pela segurança de seus colegas, pacientes e familiares. d) Evento ou circunstância que poderia ter resultado, ou resultou, em dano des- necessário ao paciente. e) Promoção de processos de capacitação de gerentes, profissionais e equipes de saúde em segurança do paciente. Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução. 143 3. De acordo com o Ministério da Saúde, “a Política Nacional de Humanização (PNH) busca pôr em prática os princípios do SUS no cotidiano dos serviços de saúde, produzindo mudanças nos modos de gerir e cuidar”. Sobre o tema, assinale a alternativa incorreta. a) A “Transversalidade” é um dos princípios da PNH que significa ampliar a co- municação entre os sujeitos envolvidos nos processos de produção de saúde, quebrando paradigmas do poder e do saber. b) Uma das diretrizes da PNH é a “Clínica Ampliada”, seu conceito está relaciona- do à ampliação e garantia de acesso ao usuário a todos os níveis de atenção. c) O termo “ambiência” não refere-se apenas à criação de espaços saudáveis, acolhedores e confortáveis, mas também de um ambiente social e de relações interpessoais. d) O “Acolhimento”, diretriz da PNH, sustenta a relação entre equipes/serviços e usuários/populações, devendo ser construída de forma coletiva. e) A PNH possui, como um dos eixos de ação, a integração de seus princípios aos processos de Educação Permanente nos serviços de Saúde. 4. O credenciamento dos serviços, como Sentinela de Notificação Compulsória de Acidentes e Doenças Relacionados ao Trabalho, será feito de acordo com as diretrizes e orientações referentes à(ao): a) Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador (RENAST). b) Lei Orgânica da Saúde (LOS). c) Norma Operacional de Saúde do Trabalhador (NOST). d) Constituição Federal Brasileira (CFB). e) Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST). 144 5. Quanto à Política de Saúde do trabalhador, é correto afirmar: a) Fazem parte da melhoria do ambiente de trabalho e controle das condições de risco para a saúde: identificação no trabalho das condições de risco para a saúde; caracterização da exposição e quantificação das condições de risco; discussão e definição das alternativas de eliminação ou controle das condições de risco; implementação e avaliação das medidas adotadas. b) Produtos vendidos sob nomes comerciais, sem informação detalhada quanto à composição química. Geralmente, criam problemas para o reconhecimento de riscos. Essas informações não cabem ser exigidas dos fabricantes e for- necedores, devendo-se solicitar a análise das amostras, que garante maior confiabilidade e menor custo. c) O profissional encontra, com facilidade, os dados para o estabelecimento do nexo ou da relação trabalho-doença, principalmente pela precisão na identi- ficação de fatores de risco e/ou situações a que o trabalhador está ou esteve exposto a condições potencialmente lesivas para sua saúde. d) O médico e a equipe de saúde, responsáveis pelo atendimento do trabalhador, devem buscar um relacionamento de cooperação com os colegas do paciente. Considerando a natureza harmoniosa dessas relações, torna-se desnecessário que os procedimentos sejam registrados e documentados. e) Estabelecida a relação causal ou o nexo entre a doença e o trabalho desempe- nhado pelo doente, o profissional ou a equipe responsável pelo atendimento deve passar a responsabilidade ao profissional adequado, isentando-se de demais responsabilidades. 145 Humanização na saúde Fernanda Reis Editora: DOC Sinopse: o livro aborda a humanização, em todas as suas vertentes, nas insti- tuições voltadas aos cuidados da saúde, como questão prioritária para o trata- mento do doente. LIVRO Portaria nº 1.820, de 13 de agosto de 2009. Dispõe sobre os direitos e deveres dos usuários da saúde. WEB 146 ALVES, C. A.; DESLANDES, S. F.; MITRE, R. M. A. Desafios da humanização no contexto do cuidado da enfer- magem pediátrica de média e alta complexidade. Interface - Comunic., Saúde, Educ., v. 13, supl. 1, p. 581-94, 2009. Disponível em: . Acesso em: 23 out. 2018. ANVISA. Assistência segura: uma reflexão teórica aplicada à prática. Brasília: Anvisa, 2013. BERMEO, J. C. Humanizar a saúde: cuidado, relações e valores. Petrópolis: Vozes, 2008. BRASIL. Área Técnica de Saúde do Trabalhador. Brasília: Ministério da Saúde, 2001. ______. Carta dos direitos dos usuários da saúde. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2011. ______. Decreto 7.602, de 7 de novembro de 2011. Dispõe sobre a Política Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho - PNSST. Brasília: Presidência da República, 2011. Disponível em: . Acesso em: 23 out. 2018. ______. Formação e intervenção. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. Política Nacional de Humanização. Brasília, 2010. ______. HumanizaSUS: documento base para gestores e trabalhadores do SUS. 4. ed. Brasília: Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Núcleo Técnico da Política Nacional de Humanização, 2008. ______. HumanizaSUS: política nacional de humanização: documento base para gestores e trabalhadores do SUS. 2. ed. Ministério da Saúde, Secretaria-Executiva, Núcleo Técnico da Política Nacional de Humanização. Brasília: Ministério da Saúde, 2004. ______. Lei n° 8.080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências. Brasília: Presidência da República, 1990. Disponível em: . Acesso em: 23 out. 2018. ______. Política Nacional de Humanização - PNH. Brasília, 2013. ______. Portaria n° 1.823, de 23 de agosto de 2012. Institui a Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora. Ministério da Saúde, 2012. Disponível em: . Acesso em: 23 out. 2018. ______. Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador – Manual de Gestão e Gerenciamento, São Paulo: 2006. BUENO, S. Minidicionário da língua portuguesa. 2. ed. São Paulo: FTD, 2007. 147 CASSIANI, S. H. B. A segurança do paciente e o paradoxo no uso de medicamentos. Rev Bras Enferm. [on- -line], v. 58, n. 1, p. 95-99, 2005. CHAUÍ, M. Marilena Chauí diz que Brasil convive com violência estrutural e ataca a “oligarquia”. In: FÓRUM DE ENTIDADES NACIONAIS DE DIREITOS HUMANOS, 2006. Anais... [S.l.], 2006. DE CARVALHO, M.; VIEIRA, A. A. Erro médico em pacientes hospitalizados. J Pediatr. Porto Alegre, v. 78, n. 4, p. 261-8, 2002. DIAS, M. A. B.; DOMINGUES, R. M. S. M. Desafios na implantação de uma política de humanização da assis- tência hospitalar ao parto. Ciências & Saúde Coletiva. Rio de Janeiro, v. 10, n. 3, p. 669 - 705, jul./set., 2005. DONABEDIAN, A. Explorations in Quality Assessment and Monitoring: The Definition of Quality and Approaches to Its Assessment. Ann Arbor: Health Administration Press, 1980. DOS SANTOS, D. S. et al. Segurança do paciente: fatores causais de eventos adversos a medicamentos pela equipe de enfermagem. 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Enfatizamos a importância do profissional da saúde conhecer o Sistema Único de Saúde (SUS), a rede de saúde e os serviços oferecidos, no intuito de ajudar na orientação e intervenção contextualizada, bem como dar subsídios e ferramentas para atuar no contexto da Vigilância em Saúde. Igualmente, destaca os principais aspectos das políticas de saúde voltadas ao ciclo de vida e as orientações aos profissionais de saúde no sentido da necessidade de humanização nos serviços de saúde. Conforme enfatizamos, no decorrer do livro, a definição do processo saú- de doença e da organização de serviços e políticas públicas da população brasileira é influenciado pela compreensão do momento histórico, político e social do tempo em que ocorre. Dessa forma, o indivíduo deve estar atento aos condicionantes e deter- minantes de saúde que, no caso do Brasil, apesar de muitos avanços na qualidade de vida e da saúde da população, o país ainda enfrenta grandes desafios na área de distribuição de renda, recursos e estrutura. São muitos os desafios do trabalho no contexto da Saúde Pública: a constru- ção histórica e coletiva, as mudanças sociais e tecnológicas, a administração de recursos e, principalmente, a compreensão da importância de humanizar os serviços e acolher as necessidades da população. Muitas mudanças ocorreram e muitas ainda estão por vir. Esperamos que o estudo proposto neste livro tenha ajudado na compreensão e na melhoria da qualidade do seu trabalho e que você possa abrir novos horizontes e fazer a diferença na sua trajetória profissional. Sucesso! SAÚDE COLETIVA_A_HIBRIDO.pdf U01.pdf U01 expediente Redes de Atenção à Saúde História da Saúde Pública no Brasil Vigilância em Saúde Políticas Públicas de Saúde no Brasil Política Nacional de Humanização (PNH) U01 Redes de Atenção à Saúde História da Saúde Pública no Brasil Vigilância em Saúde Políticas Públicas de Saúde no Brasil Política Nacional de Humanização (PNH) SAÚDE COLETIVA_A_HIBRIDO Button 1:considerada um marco para a discussão de uma visão de saúde integral, pois reconhece, em seu relatório, que a saúde é um direito; também vale destacar a I Conferência Internacional de Pro- moção à Saúde, realizada no Canadá, em 1986, que redigiu a Carta de Otawa, a qual propõe um conceito amplo de saúde, relacionando-a ao bem- -estar dos indivíduos e na ampla causalidade do processo saúde doença, em que a saúde é consi- derada um recurso para a vida e não objetivo de vida (WESTPHAL, 2012). Em uma visão ampliada da saúde, considera-se os fatores socioambientais na produção e determi- nação da saúde e da doença, sendo que a promoção à saúde prevê uma visão holística e socioambiental do mesmo processo, colocando-se como uma prática emancipatória e um imperativo ético, com foco no cidadão, na família, na coletividade, nas condições de vida, nas iniquidades e potencialidades do territó- rio em que vivem e trabalham (WESTPHAL, 2012). A teoria da transição epidemiológica, proposta por Omran (1971), foca nas complexas mudanças dos padrões saúde-doença e nas interações entre eles, determinantes demográficos, econômicos e sociais, e suas consequências. As ideias a seguir destacam em sua teoria: I. O processo de mudanças nos padrões de mortalidade e adoecimento são longos, as pandemias por doenças infecciosas são gradativamente substituídas pelas doenças degenerativas e agravos. II. As mais profundas mudanças nos padrões de saúde-doença ocorrem nas crianças e nas mu- lheres jovens. III. As mudanças são fortemente associadas às transições demográfica e socioeconômica que cons- tituem o complexo da modernização. IV. As variações peculiares no padrão, no ritmo, nos determinantes e nas consequências das mu- danças na população diferenciam três modelos básicos de transição epidemiológica: o modelo clássico ou ocidental, o modelo acelerado e o modelo contemporâneo ou prolongado. Fonte: Duarte e Barreto (2012). 21UNIDADE 1 Quadro 2 - Visão socioambiental da saúde, determinantes e estratégias e programas de saúde Conceitos de saúde Bem-estar biopsicossocial. Necessidades de saúde. Determi- nantes de saúde Condições de riscos diversas. Estratégias Ação política, espaços sau- dáveis, empoderamento da população, desenvolvimento de habilidades e reorientação de serviços. Desenvol- vimento de progra- mas Comunidade em diálogo crítico com profissionais e agências. Fonte: Westphal (2012). A agenda 2030 da ONU prevê 17 medidas para a transformação do mundo, a terceira trata da saúde - Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades. A promoção de saúde é considerada uma estra- tégia fundamental para enfrentar as iniquidades sociais e de saúde. Juntamente com outras 16 medidas, dando a ideia de um conceito ampliado de saúde. (Organização das Nações Unidas) 22 Saúde e Doença - uma Perspectiva Atualizada Fatores Condicionantes e Determinantes do Processo Saúde-Doença Porque as pessoas adoecem? Desde as primeiras investigações acerca da saú- de de grupos e populações, foi possível identificar as diferenças sociais existentes das condições de vida e da situação de trabalho, dentre estas destacam-se Engels, que investigou os trabalhadores ingleses; Snow, que descobriu a cólera em Londres; Louis, trabalhadores na França; e Virchow, o Tifo na Si- lésia, ressaltando o excesso de risco de adoecer e morrer entre as camadas mais pobres da população (BARATA, 2012). Na América Latina, estudos sobre desigualdades sociais e saúde são recentes, datam da segunda meta- de do século XX, surgindo devido às consequências da globalização sobre as condições de vida e a situa- ção de saúde dos povos sob a ótica da exclusão social. O Processo Saúde Doença – está diretamente atrelado à forma como o ser humano, no decor- rer de sua existência, apropria-se da natureza para transformá-la, buscando o atendimento às suas ne- cessidades, representando um conjunto de relações e variáveis que produz e condiciona o estado de saúde e doença de uma população, que se modifica nos diversos momentos históricos e do desenvol- vimento científico da humanidade; não sendo um 23UNIDADE 1 conceito abstrato, ele varia segundo a época em que vivemos, assim como os interesses dos diversos grupos sociais (GUALDA; BERGAMASCO, 2004). Diante disso, é necessário conhecer os determinantes mais complexos do comportamento humano, além das condições materiais de vida, para que seja possível a efetivação das práticas de promoção e prevenção da saúde e a diminuição das desigualdades, visto que o Brasil ocupa a 11ª posição entre os lugares mais desiguais do mundo (COMISSÃO NACIONAL, 2008, on-line)2. Redes Sociais e Comunitárias Idade, Sexo e Fatores hereditários Produção Agrícola de Alimentos Educação Ambiente de Trabalho Condições de Vida e de Trabalho Desemprego Água e Esgoto Serviços Sociais de Saúde Habitação Condiçõ es Socioeconômicas, Culturais e Ambientais e Gerais Es tilo s de Vida dos Indivíduos Idade, Sexo e Fatores hereditários Produção Agrícola de Alimentos Educação Ambiente de Trabalho Condições de Vida e de Trabalho Desemprego Água e Esgoto Serviços Sociais de Saúde Habitação Figura 1 - Modelo de determinação social da saúde proposto por Dahlgren e Whitehead Fonte: Comissão Nacional (2008, on-line)2. Há uma vasta literatura sobre aspectos concei- tuais e modelos de referência relacionados aos de- terminantes sociais e iniquidades em saúde. A Comissão Nacional de Determinantes So- ciais de Saúde os define como “fatores sociais, eco- nômicos, culturais, étnicos/raciais, psicológicos e comportamentais que influenciam a ocorrência de problemas de saúde e seus fatores de risco na população” (BUSS; PELLEGRINI FILHO, 2007, p. 78). E adotou o modelo de determinação social da saúde proposto por Dahlgren e Whitehead (WESTPHAL, 2012). Desigualdades sociais em saúde Diferença na inserção social dos indivíduos, re- partição do poder e propriedade. Positiva = valores de cooperação e solidariedade. Negativa = exploração, dominação e produção de doença. (Rita Barradas Barata) O modelo entende que a saúde compreende três dimensões: a biológica, a social e cultural (BA- RATA, 2012). A dimensão biológica compreende as caracte- rísticas biológicas marcadas pela interação genó- tipo-fenótipo, ou seja, a genética e a modulação das potencialidades são herdadas pelas condi- ções concretas da existência que irão resultar nas manifestações fenotípicas, como a idade/sexo e fatores hereditários X estilo de vida. Na dimen- são social, inclui os grupos sociais e as formas de consciência e condutas resultantes de suas interações, bem como a forma de constituição dessas comunidades. 24 Saúde e Doença - uma Perspectiva Atualizada A dimensão cultural inclui as condições de vida e de trabalho e suas formas de organização que compreende as condições socioeconômicas, culturais e ambientais gerais. O relatório da Comissão Nacional de determi- nantes sociais de saúde (COMISSÃO NACIONAL, 2008, on-line)2, ao analisar a situação de saúde de uma população, relacionando os Determinantes sociais de saúde, considera os seguintes itens: 1. Situação e tendências da evolução de- mográfica, social e econômica do país: traça um panorama geral de referência para a análise da situação de saúde, des- crevendo a evolução desses macrodeter- minantes, particularmente nas últimas quatro décadas. Inclui dados sobre cresci- mento populacional, fecundidade, morta- lidade, migrações, urbanização, estrutura do mercado de trabalho, distribuição de renda e educação. 2. A estratificação socioeconômica e a saú- de: apresenta a situação atual e tendências da situação de saúde no país, destacando as desigualdades de saúde segundo va- riáveis de estratificação socioeconômica, como renda, escolaridade, gênero e local de moradia. 3. Condições de vida, ambiente e traba- lho: apresenta as relações entre situação de saúde e condições de vida, ambientee trabalho, com ênfase nas relações entre saneamento, alimentação, habitação, am- biente de poluição, acesso à informação e serviços de saúde e seu impacto nas con- dições de saúde dos diversos grupos da população. 4. Redes sociais, comunitárias e saúde: inclui evidências sobre a organização co- munitária e redes de solidariedade e apoio para a melhoria da situação de saúde, des- tacando, particularmente, o grau de de- senvolvimento dessas redes nos grupos sociais mais desfavorecidos. 5. Comportamentos, estilos de vida e saú- de: inclui evidências existentes no Brasil sobre condutas de risco, como hábito de fumar, alcoolismo, sedentarismo, die- ta inadequada, entre outros, segundo os diferentes estratos socioeconômicos da população. 6. Saúde materno-infantil e saúde indí- gena: por sua importância social e por apresentarem necessidades específicas de políticas públicas, são dedicadas seções especiais sobre saúde materno-infantil e saúde indígena. Além disso, podem ser incluídos: saúde e am- biente nas grandes cidades; seguridade social e saúde; cultura e promoção da saúde; distribuição, acesso e utilização de serviços de saúde em áreas urbanas; violência e saúde; iniciativas comunitá- rias de promoção e proteção da saúde; desempre- go e saúde, entre outros. A COMISSÃO NACIONAL SOBRE OS DETERMINANTES SOCIAIS DA SAÚDE foi criada, em 2006, para produção de conhecimentos e informações sobre os determinantes sociais e de saúde (DSS), bem como revisão e análise de políticas e programas de intervenção sobre os DSS e comunicação sobre a importância e possibilidades de atuação sobre eles. Fonte: Comissão Nacional (2008, on-line)2. 25UNIDADE 1 Os Principais Determinantes Sociais de Saúde no Brasil E a saúde do Brasil, como vai? A situação de saúde, vida e trabalho da po- pulação brasileira vem passando por grandes transformações nas quatro últimas décadas, in- fluenciadas pelas mudanças econômicas, sociais e demográficas ocorridas no país, é o que mostra o Relatório elaborado pela Comissão Nacional sobre os Determinantes Sociais da Saúde. A seguir, elaboramos uma síntese com base no Relatório, destacando os principais aspec- tos que marcam a evolução demográfica, social e econômica relacionadas à saúde, questões de vida, ambiente e trabalho, as redes sociais e o comportamento e estilo de vida dos brasileiros, agrupados em três grandes itens: 1) Tendências demográfica, social e econômica; 2) Redes socias, e 3) Condições de vida e de saúde (COMISSÃO NACIONAL, 2008, on-line)2. 26 Saúde e Doença - uma Perspectiva Atualizada 1. Tendências demográficas, social e econômica A urbanização foi apontada como um fator impor- tante de mudanças, em que, a partir da década de 70, influenciada pela industrialização, promoveu mudanças no setor econômico e na forma de viver das pessoas que, saindo do campo para viver na ci- dade, buscavam trabalho e melhores condições de vida; no entanto, a oferta de infraestrutura e servi- ços urbanos não acompanhou a grande demanda, a tal ponto que, em 1980, havia 38,2 milhões de moradores em domicílios urbanos inadequados. O PIB per capita passou de 2.060 dólares, em 1960, para 5.250, em 2000 e 5.720, em 2006. En- tretanto, esse extraordinário aumento da riqueza produzida e a modernização da economia não significaram melhoria na distribuição e urbaniza- ção; o crescimento do transporte e das indústrias, assim como a expansão da fronteira agrícola, cria- ram as condições propícias para uma permanente exposição de contingentes populacionais, pro- gressivamente maiores à poluição atmosférica e dos corpos hídricos. Alterações na fecundidade: a taxa média geo- métrica de crescimento anual da população pas- sou de 2,89%, no período 1960/1970, para 1,64%, no período 1991/2000. A taxa de fecundidade, que se mantinha estável desde 1940, passou a cair de maneira acelerada a partir de 1960. Envelhecimento da população e aumento da expectativa de vida: a proporção de jovens de 0 a 14 anos que era de 42,6%, em 1960, passou para 30%, em 2000, e deverá atingir 18% em 2050, en- quanto que a de idosos maiores de 65 anos, que era de 2,7%, em 1960, passou para 5,4%, em 2000, e no ano de 2050 deverá superar a de jovens, al- cançando 19%. Quanto à esperança de vida ao nascer, houve um ganho de mais de 20 anos, entre 1960 e 2006, para o Brasil como um todo. O valor de 72,4 anos, em 2006, é 9 anos inferior ao do Japão, país com a maior expectativa de vida ao nascer em todo o mundo. O crescimento rápido do peso relativo dos ido- sos tem um impacto importante na economia e na sociedade, obrigando a definição de políticas públicas que possam fazer frente a esse fenômeno sem paralelo na experiência mundial. O Brasil gasta 7% do Produto Interno Bruto (PIB) em saúde, cerca de 530 dólares per capita, abaixo de Argentina (US$ 1.045), Chile (US$ 827) e Uruguai (US$ 781), para citar alguns países do Cone Sul. 2. Redes sociais Diversos estudos mostram que não são as socie- dades mais ricas que possuem melhores níveis de saúde, mas as que são mais igualitárias e com alta coesão social. Nessas sociedades, as pessoas são mais envolvidas com a vida pública, vivem mais, são menos violentas e avaliam melhor sua própria saúde. Um importante indicador da riqueza do ca- pital social é relação de confiança entre as pes- soas. Segundo dados da Pesquisa Social Brasileira (PSB), que realizou 2.363 entrevistas entre julho e outubro de 2002, as relações de confiança, no Brasil, são extremamente débeis, praticamente limitando-se à confiança em familiares; enquanto 84% das pessoas confiam na família, apenas 15% confiam na maioria das pessoas. 3. Condições de vida e de saúde Os índices de cobertura dos serviços de água e esgoto, no período de 1999 a 2004, têm aumentado. Entretanto, enquanto nas regiões Sul e Sudeste, res- pectivamente, 83% e 91% da população estava co- berto pela rede geral de abastecimento de água, na região Norte, a cobertura desses serviços alcançava apenas 54,8% da população, e no Nordeste 72%. Es- 27UNIDADE 1 tudos apontam para o fato que 53% da população brasileira ainda não teria acesso a um saneamento adequado, e no atual ritmo de ampliação do acesso à universalização só se daria em 115 anos. Quanto à educação, em 1940, 56% da popula- ção brasileira era analfabeta, percentual que cai para 40%, em 1960, e 13,6%, no ano 2000. No nível fundamental, a cobertura é quase universal, en- tre 7 a 14 anos em todas as regiões, tanto na área urbana como rural; já no ensino médio, a taxa de frequência entre 15 a 17 anos ainda é bastan- te baixa para o Brasil como um todo; no ensino superior, é possível observar que quanto maior a renda, maior é o acesso ao ensino superior público em todas as regiões. Os efeitos do nível de instrução se manifestam das mais diferentes formas: na percepção dos problemas de saúde; na capacidade de entendi- mento das informações sobre saúde; na adoção de estilos de vida saudáveis; no consumo e uti- lização dos serviços de saúde; e na adesão aos procedimentos terapêuticos. O acesso equitativo aos serviços de saúde é de grande importância para a qualidade de vida e de saúde de um país; os números do SUS impressio- nam pela magnitude. No ano de 2005, foram reali- zadas cerca de 450 milhões de consultas médicas; 11,8 milhões de internações; 2,6 milhões de partos; 250 milhões de exames laboratoriais; 40 milhões de vacinações; 80 mil cirurgias cardíacas e 20 mil transplantes de órgãos. O Programa de saúde da família, iniciado em 1994, conta, em 2008, com cerca de 27,5 mil equi- pes (mais de 150 mil profissionais) atuando em 5.131 municípios (92% do total de municípios brasileiros, com cobertura de 44% da população). O Programa Nacional de Imunização (PNI) al- cançou uma cobertura praticamente universal em menores de um ano de idade, a partir de 1999, quando chegou a 94,7%, enquanto que, em 1978, atingia somente 40% das crianças. No entanto, o relatórioaponta que, apesar des- ses inegáveis avanços na produção de serviços e dos princípios de universalidade e equidade que regem o SUS, ainda se observam importantes de- sigualdades na oferta de recursos e serviços, assim como uma forte influência da posição social dos indivíduos no acesso, utilização e qualidade dos serviços de saúde. Quanto à situação de saúde, a taxa de mor- talidade infantil (TMI), que era de 124 óbitos no primeiro ano de vida para cada mil nascidos vivos, em 1960, caiu para 48,3, em 1990; 35,26, em 2000; e 25,1, em 2006. A proporção de mortes de menores de um ano de idade, sobre o total de óbitos, reduziu-se de 24%, em 1980, para 5%, em 2005, variando de 11,3%, na Região Norte, a 3,4%, na Região Sul. Em 2003, 58% dos óbitos informados ocorreram na faixa de 60 ou mais anos de idade, com variações de 43%, na Região Norte, a 62%, na Região Sul. Quanto à mortalidade masculina e a feminina, entre 1960 e 2006, a sobremortalidade masculina cresceu acentuadamente, principalmente na faixa dos 20 aos 24 anos de idade: em 1960, a chance de um homem com 20 anos de idade morrer antes de passar para o grupo etário seguinte (25 a 29 anos) era 1,1 vez maior que a de uma mulher do mesmo grupo etário. Em 2006, a chance masculina, na mesma com- paração com a chance feminina, no mesmo grupo etário (20 a 24 anos), aumentou para 4,1 vezes. A principal causa do aumento da sobremortalidade masculina são os óbitos por causas externas (ou violentos). Nas regiões Sudeste e Sul, pela primeira vez, a mortalidade por doenças cardiovasculares superou a mortalidade por doenças infecciosas, o que viria a ocorrer nas Regiões Norte, Nordeste e Centro- -Oeste duas décadas depois, durante os anos 80. Observa-se um processo de transição nutri- cional, que consiste na substituição de um pa- 28 Saúde e Doença - uma Perspectiva Atualizada drão alimentar, baseado no consumo de cereais, feijões, raízes e tubérculos, por uma alimentação mais rica em gorduras (especialmente hidroge- nadas) e açúcares, além da crescente ingestão de ingredientes químicos, aumentando o risco de sobrepeso e obesidade, aparecimento de doenças crônicas e incapacidades. Os fatores relacionados a comportamentos e estilos de vida, como tabagismo, baixo consumo de frutas, de legumes e de verduras e o consumo de álcool são os principais fatores de risco para morte por câncer em países de baixa e média ren- da, o que é o caso brasileiro. Estima-se que o tabagismo seja responsável por 18% das mortes por câncer; o baixo consumo de frutas, legumes e verduras por 6%; e o consumo de álcool por 5%. A saúde do trabalhador também é uma preo- cupação, pois os problemas de saúde dos traba- lhadores estão intimamente relacionados com o grau de desenvolvimento alcançado por um país ou uma região. A esses problemas se associam o deteriora- mento das condições de trabalho e crescentes da- nos ambientais. Os acidentes de trabalho são um dos subprodutos dessas tendências, juntamente com uma grande carga de doenças profissionais e doenças relacionadas ao trabalho, cujas con- sequências contribuem para o agravamento dos problemas sociais que o país enfrenta. No Brasil, verifica-se a presença de algumas doenças já controladas em países desenvolvidos, como a silicose e outras pneumoconioses, enve- nenamento por chumbo, asbestose, síndrome do túnel do carpo, doenças dermatológicas causadas por compostos químicos, além dos sintomas e desordens mentais relacionadas ao stress, como a síndrome do Burnout. A poluição também é uma preocupação, devi- do aos efeitos adversos sobre a saúde das popula- ções expostas. Estima-se que o número de mortes causadas por problemas decorrentes da poluição atmosférica no mundo é de cerca de 3 milhões por ano, o que representa 5% do total de 55 milhões de mortes que ocorrem anualmente no mundo. Em algumas populações, cerca de 30% a 40% dos casos de asma e 20% a 30% de todas as doenças respiratórias podem ser relacionadas à poluição atmosférica. Outros efeitos referem-se a perdas econômicas, aumento no absenteísmo escolar, dias de trabalho perdidos e nebulizações. Busque saber sobre os membros da Comis- são Nacional de Determinantes Sociais de Saú- de (CNDSS) e reflita sobre a importância da diversidade de olhares sobre os determinantes de saúde. Para saber mais e se inteirar, acesse o relatório da comissão nacional sobre os determinantes sociais da saúde, intitulado “As causas sociais das iniquidades em saúde no Brasil”. Fonte: Comissão Nacional (2008, on-line)2. 29UNIDADE 1 É possível observar as mudanças ocorridas nas condições de vida e de saúde da população bra- sileira, condicionadas aos fatores econômicos, socioculturais e políticos, ao longo dos anos. Agora, quando tomamos como foco os servi- ços de saúde no Brasil, é possível observar mudan- ças significativas no decorrer dos anos, do mesmo modo, influenciados por fatores econômicos, so- cioculturais e políticos. Diversos autores fazem análises e escrevem sobre o sistema de saúde brasileiro, mas tomamos por referência a análise de Carvalho, Martin e Cordoni Jr (2001), os quais identificaram quatro tendências: Sanitarismo Campanhista, período de Transição, Modelo médico assistencial privatista e o Modelo plural. Vejamos um pouco de cada uma dessas ten- dências. Organização dos Serviços de Saúde no Brasil 30 Saúde e Doença - uma Perspectiva Atualizada 1. Sanitarismo Campanhista Tal tendência vigorou no país do início do século XX até 1945 e recebeu esse nome porque tinha, nas campanhas sanitárias, sua principal estratégia de saneamento. O Brasil tinha sua economia baseada na agri- cultura e na exportação do café; o comércio e o es- paço nos portos era prioridade, devendo ser livre de doenças e saneados. Devido a isso, o sistema de saúde adotado foi o modelo das campanhas sanitá- rias, com foco no combate das endemias urbanas e rurais. A assistência individual era privada, hospitalar com caráter de assistência social e as Santa Casas de Misericórdia atendiam quem não podia pagar. Em 1923, com a Lei Elói Chaves, surge a as- sistência previdenciária no país e a criação das Caixas de Aposentadoria e Pensão nas empresas de estradas de ferro para os empregados, as quais ofereciam benefícios de aposentadorias e pen- sões, assistência médica e farmacêutica; logo em seguida, os portuários e marítimos criaram seus Institutos de Previdência, nascendo uma nova estrutura de previdência social por categoria de trabalhadores, denominadas de Institutos de Apo- sentadorias e Pensão (IAP). Em 1930, o ministério da Educação e Saúde passa a coordenar as ações de saúde coletiva. 2. Período de Transição Esse período é compreendido entre 1945 a 1960, marcado pelo pós-guerra e a crise previdenciária. Nesse período, a previdência social passa a ter grande importância e a ser utilizada como instru- mento político; também foi nesse período que o Ministério da Saúde foi criado (1953). Ocorre, também, a unificação dos Institutos (IAPs), em 1967, e a criação do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), marcada pela exclusão de trabalhadores e empregados da gestão pela cres- cente influência da indústria farmacêutica, médico hospitalares e os proprietários de hospitais. 3. Modelo médico assistencial privatista O modelo médico assistencial privatista marca o período entre 1960 a 1980, caracterizado pela prá- tica médica curativa, individual, assistencialista e especializada em detrimento da saúde pública e a criação com intervenção estatal de um comple- xo médico privado, organizando o estado como financiador, o setor privado nacional como pres- tador de serviços e o setor privado internacional como produtor de insumos. O Brasil vivia o período da ditadura militar, marcado por atos institucionais e decretos pre- sidenciais de cunho arbitrário e que alteravam direitos de cidadania, informação, organização social e política. A saúde, que estava ligadaà assistência social, tem sua ampliação na década de 70, com a cober- tura para os trabalhadores rurais, as empregadas domésticas e os trabalhadores autônomos domés- ticos. Em 1974, cria-se o Ministério da Previdência e Assistência Social, que atua no atendimento mé- dico assistencial individualizado e o Ministério da Saúde se volta ao atendimento coletivo e vigilância sanitária. Com a crise econômica no final da década de 70, foi impulsionado o Movimento da Reforma Sanitária que discutia reformas nas políticas de saú- de, surgindo as ideias de medicina comunitária e o conceito de Atenção Primária à Saúde (OMS). O Movimento da Reforma Sanitária ajuda a fortalecer o processo de Transição democrática, ocorrido em 1984 com a 8° conferência Nacional de Saúde, em 1986, em que se discutiu a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) e culminou com sua promulgação na Constituição em 1988. 31UNIDADE 1 4. Modelo plural A partir de 1988, o Sistema Único de Saúde (SUS) foi incluído ao sistema de saúde brasileiro privado, garantindo acesso universal e igualitário às ações e serviços de saúde a todos os brasileiros, colocando a saúde como direito de todos e dever do estado. O setor lucrativo privado de atenção médica supletiva, que iniciou-se em 1954, fortalece na dé- cada de 80 pela precariedade dos serviços públicos, criando, assim, a medicina de grupo, as cooperati- vas médicas, e os seguro saúde. Regulamentados e fiscalizados pelo Estado, aliado ao setor não lu- crativo, as instituições filantrópicas (Santas Casas) configuram o sistema de saúde atual brasileiro. Em síntese, gostaria de trazer o pensamento de Cohn (2012) acerca da política de saúde brasileira, o qual considera que tanto sua configuração e implementação são processos complexos de jo- gos de interesses e valores múltiplos existentes na sociedade e que, em nossa sociedade desigual, as políticas sociais e de saúde devem priorizar os segmentos socialmente mais vulneráveis, com a lógica da universalização, integralidade e da equi- dade da atenção à saúde, o que depende tanto da vontade política dos governantes quanto da sociedade, para que os direitos sociais se consti- tuam como uma realidade marcada com maior justiça social. Ao prestar a assistência ao indivíduo, à família ou à comunidade, deve ser considerado quem é ou quem são os usuários, como se apresentam na situação de necessidade de saúde, seus direitos, deveres, valores e prerrogativas. O ser humano é complexo e não há como abranger sua totalidade por uma única definição. Mesmo que a pessoa seja considerada um ser biopsicossocial e espiritual, não consegue expressar toda sua individualidade e singularidade. Os profissionais da saúde apren- dem sobre estrutura e função humana por meio do estudo da anatomia, da fisiologia, da psicolo- gia, da sociologia e da patologia, além das várias maneiras de assistir, de abordar e se relacionar profissionalmente com o indivíduo, a família ou a comunidade. Para saber mais da história do sistema brasileiro de saúde, leia o texto de Paim et al(2011) “O sistema de saúde brasileiro: história, avanços e desafios”, disponível em: . Acesso em: 19 out. 2018. O artigo, publicado em 2011 pelo periódico The Lancet, faz parte de uma série de publicações que analisam as melhorias nas condições de saúde e na expectativa de vida da população brasileira. Nesse artigo, é apresentado um panorama das principais conquistas e desafios relativos às políticas públicas de saúde no Brasil, com especial destaque ao Sistema Único de Saúde (SUS). 32 Saúde e Doença - uma Perspectiva Atualizada Não podemos nos esquecer de que o am- biente é o local onde a pessoa se encontra com as coisas ao seu redor e que exercem nela in- fluências, afetando-a de várias maneiras. É ne- cessário compreender as condições impostas como passíveis de interferência e atentar para não culpar os indivíduos quando tais condições forem insalubres e interferirem em seu estilo de vida. Trabalhar com as condições de vida impostas requer um trabalho interdisciplinar e intersetorial. A área da saúde, sozinha, não consegue assegurar qualidade de vida e, conse- quentemente, de saúde. É na esfera da ética que compreenderemos a necessidade do empenho de parte significativa da sociedade para assegu- rar a dignidade da vida humana. Cabe aos profissionais da saúde rever em sua prática, buscando entender que não basta traba- lhar com as doenças, é necessário compreender o indivíduo no todo como alguém que vive a ex- periência da necessidade, do adoecimento, carre- gada de valores e significados subjetivos, únicos, capazes de interferir na qualidade do cuidado prestado. Assim, resta-nos, como profissionais da saúde, enfrentar o desafio de construir estratégias para conceber a saúde no âmbito da atenção bá- sica de forma mais solidária e menos punitiva na convivência com os estilos de vida individuais. 33 1. O grande desafio do conceito ampliado de saúde é a operacionalização de suas particularidades pelos trabalhadores da saúde, em especial aqueles que lidam diretamente com a população. Diante disso, em relação às premissas a seguir, assinale a alternativa que possibilita a concretude e expressão do conceito nas práticas cotidianas dos serviços. a) Criando ambientes favoráveis à saúde, reforçando a ação comunitária, aumen- tando o número de serviços de saúde. b) Reforçando a ação comunitária, desenvolvendo habilidades pessoais e forman- do um maior número de profissionais de saúde. c) Criando ambientes favoráveis à saúde, reforçando a ação comunitária, desen- volvendo habilidades pessoais. d) Reforçando a ação comunitária, educando a população e formando um maior número de profissionais de saúde. e) Aumentando o número de serviços de saúde, formando mais profissionais de saúde e criando ambientes favoráveis à saúde. 2. Procure uma música ou um filme que traga uma percepção da situação de saú- de ou noção de saúde, ou que retrate a “cara” da sociedade em que vivemos, registre em seu caderno e justifique a escolha com base nos determinantes sociais de saúde. 3. De acordo com a Visão Socioambiental da saúde, descreva o conceito de saúde, seus determinantes, as estratégias e os programas de saúde. 4. Explique o modelo de determinação social da saúde proposto por Dahlgren e Whitehead. 5. Qual a crítica ao Modelo Plural de saúde brasileiro? Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução. 34 Tratado de Saúde Coletiva Gastão Wagner de Sousa Campos Editora: Hucitec Sinopse: o livro apresenta um panorama dos principais assuntos de que se ocupa a saúde coletiva, estabelecendo um diálogo com docentes e discentes de graduação e pós-graduação das profissões de saúde. LIVRO Visite o portal da saúde do Ministério da Saúde. Você encontrará: Blog da saúde, Web rádio saúde e Canal saúde, que contribuem com informações e notícias sobre a saúde, aberto a todos os cidadãos, trabalhadores e gestores de saúde e Ministério da Saúde. Para acessar, use seu leitor de QR Code. WEB 35 Políticas de saúde no brasil: Um século de luta pelo direito à saúde Ano: 2006 Sinopse: O documentário conta a história das políticas de saúde em nosso país, mostrando como ela se articulou com a história política brasileira, destacando os mecanismos que foram criados para sua implementação, desde as Caixas de Aposentadorias e Pensões até a implantação do SUS. Sua narrativa central mostra que a saúde era considerada, no início do século XX, um dever da po- pulação, com as práticas sanitárias implantadas autoritariamente pelo Estado, de modo articulado aos interesses do capital, e como, no decorrer do século, por meio da luta popular, essa relação se inverteu, passando a ser considerada, a partir da Constituição de 1988, um direito do cidadão e um dever do Estado. Toda essa trajetória é contada por meio de uma narrativa ficcional, vivida por atores,com reconstrução de época, apoiada por material de arquivo. Para tor- nar a narrativa mais leve e atraente, o filme se vale da linguagem dos meios de comunicação dominantes em cada época, como o jornal, o rádio, a TV Preto e branco, a TV colorida e, por fim, a internet. O filme foi realizado por iniciativa da Secretaria de Gestão Estratégica e Partici- pativa, do Ministério da Saúde, em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde - OPAS e a Universidade Federal Fluminense/UFF. A obra, de caráter formativo, terá distribuição gratuita em todo o país, dirigida especialmente aos Conselhos de Saúde, instituições de ensino e movimentos sociais ligados à saúde. Estimula-se que o filme seja utilizado nas etapas municipais e estaduais da 13ª Conferência Nacional de Saúde. Uma versão legendada em espanhol e inglês está sendo discutida com a OPAS, para divulgação junto a países da América Latina, Caribe e África, que buscam no SUS uma referência. O documentário é composto por 5 capítulos, que podem ser assistidos em sequência, com 60 minutos de duração, ou separadamente; cobrindo os seguintes períodos: 1900 a 1930; 1930 a 1945; 1945 a 1964; 1964 a 1988; e 1988 a 2006. FILME 36 BACKES, M. T. S. et al. Conceitos de saúde e doença ao longo da história sob o olhar epidemiológico e antro- pológico. Rev. enferm. UERJ, v. 17, n. 1, 2009. BARATA, R. B. Desigualdades sociais e saúde. In: CAMPOS, G. W. S. et al. Tratado de saúde coletiva. São Paulo: Hucitec, 2012. BATISTELLA, C. et al. O território e o processo saúde-doença. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2007. BUSS, P. M.; PELLEGRINI FILHO, A. A saúde e seus determinantes sociais. Physis, v. 17, n. 1, p. 77-93, 2007. CARVALHO, B. G.; MARTIN, G. B.; CORDONI JR., L. A organização do sistema de saúde no Brasil: Bases da saúde coletiva. Londrina: Ed. UEL, 2001. COHN, A. O estudo das políticas de saúde-implicações e fatos. In: CAMPOS, G. W. S. et al. Tratado de saúde coletiva. 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A dimensão biológica compreende as características biológicas marcadas pela interação genótipo-fenótipo, ou seja, a genética e a modulação das potencialidades são herdada pelas condições concretas da existência que irão resultar nas manifestações fenotípicas, como exemplo, a idade/sexo e fatores hereditários X estilo de vida. Na dimensão social, inclui os grupos sociais e as formas de consciência e condutas resultantes de suas interações, bem como a forma de constituição dessas comunidades. A dimensão cultural inclui as condições de vida e de trabalho, suas formas de organização que compreende as condições socioeconô- micas, culturais e ambientais gerais. 5. “E um sistema público de saúde dual, políticas de saúde centralizadas e verticalizadas, tradição histórica da saúde vinculada ao mercado de trabalho, o sistema privado prestador com origem na década de 20 como fruto da política previdenciária, distribuição de equipamentos de saúde altamente desigual, modelo de atenção comandado pela lógica médica e hospitalocêntrico, duplo comando da previdência social que prestava serviços de assistência à saúde e o Ministério da Saúde relativos a ações coletivas, dualidade na assistência dos trabalhadores por categorias (década de 30), e na diferenciação do acesso segundo a posição no mercado de trabalho (década de 70), herança de um setor privado de produção de assistência médica que se constituiu sob as sombras e financiamento do Estado”. 38 39 40 PLANO DE ESTUDOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM • Conhecer brevemente a história que antecedeu o SUS. • Identificar os interesses, conflitos e necessidades sociais que deram origem ao SUS. • Conhecer os objetivos e princípios do SUS. • Descrever as diretrizes contidas nos pactos intergestores: Pacto pela vida, Pacto em defesa do SUS e Pacto de gestão. • Compreender o conceito de rede de atenção e seus com- ponentes. Antecedentes do SUS O processo de construção do SUS Pactos pela saúde Redes de atenção à saúdeEntendendo o SUS Dra. Marcela Demitto Furtado História da Saúde Pública no Brasil Antecedentes do SUS Olá, caro(a) aluno(a). Já demos o primeiro passo na compreensão do processo saúde-doença quan- do estudamos, na unidade anterior, um pouco sobre alguns conceitos, os fatores determinantes e condicionantes do processo saúde-doença e a realidade brasileira, bem como os modelos de Atenção à Saúde. Para compreendermos um pouco mais como esse processo se dá na atualidade, é fundamen- tal resgatarmos um pouco de história, afinal, to- dos nós somos frutos de um passado e de uma história, sofremos influências ao longo da vida, fazemos escolhas, e tudo isso contribuiu para a formação da pessoa que somos hoje. Da mesma forma, o setor saúde também foi construído com base na história. O contexto po- lítico-social, a economia, o desenvolvimento da ciência e pesquisa e a situação geral do Brasil, bem como acontecimentos a nível mundial, ao longo dos anos, refletiram diretamente na saúde e cons- trução das políticas públicas. 43UNIDADE 2 Nesta unidade, estudaremos a história e a evo- lução da saúde pública no Brasil, destacando a cria- ção do Sistema Único de Saúde (SUS), que é um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo. Abordaremos seus objetivos e suas diretrizes fi- losóficas e organizativas, bem como as reformas institucionais que deram origem aos Pactos pela Saúde, além de discutirmos sobre as mudanças no modelo de atenção com a implantação das Redes de Atenção à Saúde. O conhecimento adquirido aqui será funda- mental para a compreensão das demais unidades, além de permitir uma visão mais ampliada e crítica sobre a organização dos serviços de saúde no Brasil, contexto no qual o profissional da saúde irá atuar. Vamos, então, mergulhar nessa linha do tempo, buscando entender um pouco mais desse uni- verso tão vasto de informações no contexto da Saúde Pública. Para conhecer a história da saúde no Brasil pre- cisamos entender um pouco da história do nosso país, já que os acontecimentos sociais, políticos e econômicos refletiram diretamente na construção da saúde pública. Como é de conhecimento de todos,em meados de 1500, a saúde retratava a brutalidade imposta pela colonização portuguesa: abandono social do homem livre, extermínio de bandeirantes e civili- zações indígenas, escravidão dos negros africanos, os quais viviam em senzalas, sob tortura e sem con- dições mínimas de higiene. As doenças, nesse período, eram vistas, muitas vezes, como castigos divinos pelo pecado do ho- mem. Para o tratamento, as pessoas procuravam por feiticeiros, curandeiros, boticários e, também, pelas Casas de Saúde filantrópicas ligadas à Igreja Católica ou aos militares. Tudo isso custava di- nheiro, logo, quem não podia pagar ficava sem assistência. A estratégia de controle adotada nessa época para as doenças pestilenciais, como lepra e varíola, era o confinamento, tratando-se, portanto, de uma medicina de exclusão. Você sabia que a lepra é uma das doenças mais antigas do mundo, mas que hoje tem tratamento e cura? A lepra, também conhecida como hanseníase, é uma doença infecciosa, contagiosa, causada por uma bacilo chamado Mycobacterium leprae, que afeta nervos e pele. A transmissão se dá pelas vias aéreas, como secreções nasais, gotículas da fala, tosse e espirro de pacientes considerados bacilíferos, ou seja, sem tratamento. Antigamente, as pessoas doentes ficavam nos leprosários, isoladas da socie- dade. Hoje, todos os casos têm tratamento e cura. Os pacientes podem ser tratados gratuitamente no Sistema Único de Saúde. Fonte: Brasil (2008). 44 História da Saúde Pública no Brasil A partir do século XIX, com a vinda da família real ao Brasil, é que se começou a pensar em po- líticas públicas de saúde; afinal, era preciso uma estrutura sanitária mínima que pudesse dar su- porte ao poder que se instalava na cidade do Rio de Janeiro (POLIGNANO, 2001). Até meados de 1850, a saúde pública estava limitada às juntas municipais e ao controle de na- vios e saúde dos portos (BERTOLOZZI; GRECO, 1996). Com a Proclamação da República, em 1889, o país adotou uma forma de organização capitalista. O período compreendido entre 1889 e 1930, deno- minando de Primeira República, foi marcado pelo surgimento das primeiras indústrias e investimen- to estrangeiro (BERTOLOZZI; GRECO, 1996). Com a falta de um modelo sanitário, a saúde tornou-se caótica, caracterizada pelo predomínio de diversas doenças graves, como tuberculose, sífi- lis, varíola, febre amarela, entre outras. Tal situação gerou sérias consequências, tanto para a saúde coletiva quanto para o setor do comércio exterior, já que os navios estrangeiros não queriam mais atracar no porto do Rio de Janeiro (POLIGNA- NO, 2001). Nesse período, Rodrigues Alves, o atual pre- sidente do Brasil, nomeou Oswaldo Cruz como Diretor do Departamento Federal de Saúde Pú- blica, com a finalidade de erradicar a epidemia da febre amarela. Assim, várias condutas arbitrárias e que não haviam sido esclarecidas à população foram tomadas para combater o mosquito que transmite a doença, o que gerou insatisfação e re- volta da população. Esse modelo de intervenção ficou conhecido como campanhista (SINGER; CAMPOS, 1978). Somado a isso, em 1904, a Lei federal n° 1.261 instituiu a vacinação obrigatória anti-varíola para todo o território nacional, o que culminou com vários conflitos entre a população e as forças do governo (policiais e militares). Essa manifestação popular ficou conhecida como Revolta da Vacina (SINGER; CAMPOS, 1978). Mesmo permeado por abusos, o modelo cam- panhista obteve conquistas no controle das epide- mias, conseguindo, por exemplo, erradicar a febre amarela do Rio de Janeiro. Ainda nesse período, foi incorporado o registro demográfico que per- mitiu conhecer a população e suas necessidades, o laboratório para auxiliar no diagnósticos das doenças e a fabricação de produtos profiláticos (BERTOLLI FILHO, 1996). Com a 1° Guerra Mundial (1914-1918), envol- vendo as grandes potências do mundo, o Brasil so- freu consequências na sua economia, o que gerou desemprego, redução de salários e elevação do cus- to de vida. Atrelado a isso, as péssimas condições de trabalho e a falta de direitos trabalhistas deram origem às greves gerais (BERTOLLI FILHO, 1996). A partir de então, os trabalhadores passam a conquistar alguns direitos sociais que, a princípio, relacionam-se apenas ao trabalho e depois abran- gem a questão da saúde. Discutiremos esse assunto no próximo tópico! 45UNIDADE 2 Uma série de eventos, cujas datas serão apresen- tadas a seguir, contribuíram para a construção do SUS como a principal política pública de saúde do Brasil. Em 1923, foi criada a lei Eloy Chaves – que estabelece as Caixas de Aposentadoria e Pensões (CAPs) –, marco inicial da Previdência Social no Brasil. Tal lei visava garantir pensão aos trabalha- dores em caso de algum acidente ou afastamento do trabalho por doença, e uma futura aposenta- doria. Com as CAPs, inicia-se o debate sobre a importância de atender às necessidades dos traba- lhadores (ANDRADE; SOARES; JUNIOR, 2001). Na Era Vargas, foram criados o Ministério da Educação e da Saúde Pública e o Ministério do Trabalho; este último com o intuito de atender os direitos dos trabalhadores, o que, até o momento, era inexistente (BERTOLLI FILHO, 1996). Em 1932, buscando ampliar o papel das CAPs, foram criados os Institutos de Aposentadoria e Pensões (IAPs), os quais eram organizados por categoria profissional. Assim, foram criados o Ins- tituto de Aposentadoria e Pensões dos Marítimos (IAPM), dos Bancários (IAPB), dos Comerciários (IAPC), dentre outros; e o Estado passou a parti- O Processo de Construção do SUS 46 História da Saúde Pública no Brasil cipar da sua administração, controle e financia- mento (ANDRADE; PONTES; JUNIOR, 2000). Nesse período, ainda se mantinha o formato do vínculo contributivo formal do trabalhador para a garantia do benefício, ou seja, aquele que não con- tribuísse estava excluído do sistema de proteção, o que se configurava como uma injustiça social, já que não havia o mesmo direito para todos. Em 1966, com a unificação dos IAPs, foi criado o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), que permitia que todo trabalhador urbano com carteira assinada se tornasse, automaticamente, contribuinte e beneficiário do sistema. Tal órgão gerou uma certa insatisfação nos contribuintes dos institutos com mais benefícios, pois, com a unificação, os mais pobres iriam receber mais be- nefícios (ANDRADE; SOARES; JUNIOR, 2001). Em 1977, foi criado o Instituto Nacional de As- sistência Médica e Previdência Social (INAMPS), grande órgão governamental que prestava assis- tência médica apenas aos trabalhadores da eco- nomia formal, com carteira assinada, e seus de- pendentes. Tal assistência à saúde estava atrelada basicamente à custa de compra de serviços médi- co hospitalares e especializados do setor privado (BAPTISTA, 2003). A década de 80 foi marcada por movimentos de contestação ao sistema de saúde. Um evento que marcou a história foi a realização da VIII Conferência de Saúde, que aconteceu em março de 1986, presidida pelo médico Sérgio Arouca, contudo, pela primeira vez, com a participação da comunidade (ANDRADE; PONTES; JU- NIOR, 2000). 47UNIDADE 2 A VIII Conferência Nacional de Saúde difundiu a proposta da reforma sanitária, consagrando um conceito ampliado de saúde e reconhecendo esta como direito universal e dever do Estado. Em 1987, ocorreu a implantação do Sistema Uni- ficado e Descentralizado de Saúde (SUDS), um convênio entre o INAMPS e os governos esta- duais. O SUDS avançou na política de descentra- lização da saúde, bem como na descentralização orçamentária, ocorrendo o que chamamos de “estadualização”, ou seja, todo o poder conferido Sérgio Arouca é considerado um dos principais teóricos e líderes do movimento da reforma sanitária. Falecido em agosto de 2003, aos 61 anos, devido a um câncer no intestino, Arouca é reconhecido por sua importante participação na construção do Sistema Único de Saúde