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HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA DA ANTIGUIDADE ORIENTAL AULA 2 Prof. Petterson Santos 2 CONVERSA INICIAL Depois de aprendermos um pouco sobre a política no Antigo Egito, chegou a hora de conhecermos mais sobre como era a política na Mesopotâmia e como se organizava. Mesopotâmia quer dizer terra entre rios e consiste justamente em uma região cortada pelos rios Tigres e Eufrates. Sua localização é onde hoje se encontra boa parte dos territórios do Iraque e do Kuwait, além de pedaços da Síria, Irã e Turquia. Figura 1 – Mapa da Mesopotâmia Crédito: João Miguel. Durante boa parte da história dessa região, a organização política predominante foi a da cidade-Estado, havendo diversas delas, com seus próprios líderes, leis e cultura. Mas também existiram períodos em que uma cidade foi politicamente hegemônica sobre as outras, bem como momentos em que toda a região estava unificada dentro de um mesmo império. Nesta aula, vamos apresentar uma síntese dos contextos políticos pelos quais essa região passou. 3 Quadro 1 – cidade-Estado cidade-Estado Uma cidade-Estado é uma cidade que apresenta independência política, ou seja, ela não está submetida diretamente a um reino, império ou algo do tipo, e tem a sua própria classe de governantes, leis e cultura. Para darmos conta desta proposta, vamos utilizar uma abordagem cronológica, apresentando um pouco das principais características políticas de cada período. Vamos inicialmente apresentar alguns períodos da história da Mesopotâmia, tendo em mente que esses períodos não são um consenso na historiografia, uma vez que outras divisões eram possíveis. Veja, no quadro a seguir, os diferentes períodos da história de algumas sociedades: Quadro 2 – Períodos da história Período Duração Período Sumério Antigo 5500 – 2300 a.C. Império Acádio 2300 – 2193 a.C. Terceira Dinastia de Ur 2112 – 2004 a.C. Império Paleobabilônico 1894 – 1595 a.C. Império Neoassírio 934 – 609 a.C. Império Neobabilônico 625 – 539 a.C. Como podemos ver, trata-se de uma região com uma história longa e dinâmica. Obviamente, esta aula será uma introdução ao tema, de modo que diversos períodos interessantes ficarão de fora. TEMA 1 – O NASCIMENTO DAS CIDADES-ESTADOS O período Sumério Antigo é propositalmente longo (5500-2300 a.C.), pois optamos por abarcar nesta divisão a Pré-História mesopotâmica, período esse que não vamos trabalhar nesta aula. É como dissemos acima, poderíamos ter feito outras escolhas para trabalhar com essa sociedade, no entanto, optamos por aquela que nos pareceu mais didática. 4 É importante lembrar que quando estamos falando de Mesopotâmia, estamos nos referindo a uma região que não é pequena e que, diferentemente do Egito, foi ocupada por povos diferentes ao longo do tempo. Os sumérios foram os primeiros a ocupar esse território e acabaram por estabelecer a organização política por cidades-Estados, bem como as bases do que poderia ser chamado de cultura comum mesopotâmica. Para quem não sabe, cidades-Estados são cidades independentes, com governo próprio e que não estão sujeitas a formas estatais mais amplas. Existiram durante o Período Sumério Antigo várias cidades-Estados, tais como Nipur, Ur e Uruk, as quais tinham originalmente os templos como seus principais edifícios. Cada cidade tinha o seu próprio deus patrono, o que ajudou a compor um rico panteão divino para essa região. Com o passar do tempo, os palácios acabaram substituindo os templos como as principais construções das cidades. Vejamos como João apresenta a forma como as cidades-Estados sumérias eram divididas: Cada cidade-Estado possuía três setores: a cidade propriamente dita, geralmente fortificada (a fortificação da primeira cidade, Uruk, é narrada na Epopeia de Gilgamesh); o subúrbio, composto pelas residências, campos, estábulos etc.; e o porto. (João, 2013, p. 32) Figura 2 – No mapa, podemos ver a localização de Nipur, Ur e Uruk Crédito: João Miguel. 5 As cidades-Estados eram governadas por uma mistura de chefe militar e sumo sacerdote, chamado de lugal ou ensi. Também existia um conselho de anciões, contudo, não se sabe ao certo quem tinha a “palavra final” nas cidades, ou seja, não sabemos se os ensi tinham que obedecer ao conselho ou se este era apenas um órgão consultivo. Similar ao que ocorreu na Grécia, aqui também é possível detectar o fenômeno das confederações de cidades-Estados, que não tinham uma forma de funcionamento muito bem definida. O que sabemos é que as mesmas ocorriam em formas de assembleias, devendo participar os chefes das cidades que compunham a confederação, havendo entre eles um lugal. Nos tempos de paz, o lugal da confederação acabava tendo funções simbólicas ligadas a festivais religiosos e mediando o conflito entre as diferentes cidades. Já nos tempos de guerra, ele assumia a função de chefe militar da confederação. Em 2300 a.C., teve fim o Período Sumério Antigo, quando a confederação de cidades da região foi derrotada pelo rei Sargão de Akkad, dando início, assim, ao período do Império Acádio (2300-2193 a.C.). TEMA 2 – IMPÉRIO ACÁDIO (2300-2193 A.C) O período do Império Acádio foi a primeira experiência da história mesopotâmica em que as cidades que compunham a região passaram a fazer parte de uma estrutura estatal mais ampla, fazendo com que perdessem a sua independência política. Vale destacar que esse império se expandiu para além da Mesopotâmia, tendo conseguido exercer influência também no levante e na Anatólia, chegando até mesmo a enviar tropas para a Península Arábica, fazendo com que o Império Acadiano fosse um dos primeiros impérios multiétnicos da história. Sem dúvidas, as dimensões do Império Acadiano são impressionantes, ainda mais quando pensamos no período histórico em que o mesmo se estabeleceu (2300-2191 a.C.). Segundo Nascimento e Carvalho: Como podemos notar, o império de Acádia (2335-2154 a.C.) teve como principal sustentáculo a batalha, a “máquina de guerra acadiana” foi a principal responsável pela construção e manutenção do Estado, traço evidente quando observamos os monumentos e inscrições reais da dinastia acadiana que dão grande ênfase ao aspecto belicoso, os textos realçam os 5.400 homens alimentados diariamente por Sargão e o esplendor militar de Naram-Sin ao massacrar as cidades revoltosas. (Nascimento; Carvalho, 2020, p. 6, grifo dos autores) 6 Tal como dizemos acima, essa região foi conquistada pelo rei Sargão após a derrota da confederação de cidades locais para Akkad. A partir desse momento, as cidades sumérias passaram a ser governadas por membros da família real e até mesmo por outros acádios (João, 2013, p. 34). Especificamente sobre o rei Sargão, também conhecido como Sargão, o Velho, o mesmo tornou-se uma figura histórica de relevância na Mesopotâmia, tendo surgido relatos épicos que o elevaram ao patamar quase de uma figura mítica, razão pela qual foi tratado como um herói em muitos deles. É possível que a construção dessa imagem tenha sido fortemente patrocinada pelo próprio rei Sargão, que buscou construir uma imagem de um forte guerreiro para si (Nascimento; Carvalho, 2020, p. 4). Segundo os autores já citados, a tentativa de construção dessa imagem de guerreiro também teria sido efetivada pelos descendentes do rei em questão. Figura 3 – Representação 3D do rosto do rei Sargão de Acáde Créditos: Jamshed Hameed/Shutterstock. Por volta de 2193 a.C., os povos gútios invadiram a Mesopotâmia (João, 2013, p. 34), fazendo com que a organização social voltasse aos moldes da época do Período Sumério Antigo, ou seja, baseado nas cidades-Estados independentes, por um breve período de tempo. É possível que fatores internos 7 tenham contribuído para fragilizar o Estado acadiano, como a ambição dos seus reis, queteriam empreendido campanhas militares para lugares distantes, o que poderia ter deixado as terras do império desprotegidas, facilitado a aliança de povos descontentes e suas ações revoltosas (Nascimento; Carvalho, 2020, p. 6). Entretanto, existem alguns autores que acreditam que o fim dessa época se deu devido a uma mudança do regime de chuvas na região. Segundo Weiss: As propriedades micromorfológicas e físico-químicas dessas unidades definem alterações no regime hidrológico e nas condições do solo diagnósticas de mudanças climáticas significativas. Para correlacionar eventos geológicos e respostas sociais dentro do registro arqueológico, apresentamos dados socioeconômicos e climáticos regionais datados. Esses dados definem os principais efeitos de uma mudança climática abrupta em -2.200 a.C., ou seja, colapso imperial, deserção regional e deslocamento populacional. (Weiss et al., 1993, p. 996) Mesmo com o fim do Império Acádio, as relações entre sumérios e acádios não se encerraram, pois ambos os povos acabaram se miscigenando, e os idiomas da Assíria e da Babilônia, duas das principais cidades da história da mesopotâmia, acabaram sendo de origem semita, tal como o acadiano. TEMA 3 – TERCEIRA DINASTIA DE UR (2112 – 2004 A.C) Já dissemos acima que, após a queda do Império Acadiano, houve um breve período em que a Mesopotâmia voltou a ter as cidades-Estados como a sua principal forma de organização social. Esse breve período não foi nada pacífico, de modo que foi marcado por várias disputas e guerras entre as diversas cidades da região. Por volta de 2112 a.C., o rei Ur-Nammu, de Ur, conseguiu reunificar a Mesopotâmia, dando início ao período que conhecemos como Terceira Dinastia de Ur (2112-2004 a.C.). Ur é uma cidade de origem suméria, tendo surgido ainda durante o Período Antigo, e a sua nova hegemonia na região fez com que essa época também fosse conhecida como Período Neossumério. 8 Figura 4 – Ruinas de Ur Créditos: Simon Edge/Shutterstock. Diferentemente dos monarcas acadianos que buscavam se representar como grandes guerreiros, os reis de Ur buscaram se legitimar com base na imagem de figuras cultas que “escreviam e falavam diversos idiomas, entendiam sobre leis, jurisprudência e administração” (Nascimento; Carvalho, 2020, p. 7). É importante deixar claro que os monarcas de Ur ainda reivindicavam para si os postos de grandes guerreiros, contudo, isso não era mais tão proeminente como havia sido durante o período anterior. Em um sentido muito restrito, é possível dizer que os reis deram lugar aos intelectuais. Bastante parecido com o que aconteceu durante um período da história egípcia, os reis de Ur também criaram escolas de escribas que tinham como função educar os filhos das elites locais para o serviço do Estado. Nessas escolas, os textos com os quais os alunos aprendiam a ler e a escrever transmitiam os valores da monarquia, o que acabava por legitimar o poder real frente às elites locais. Graças a Nascimento e Carvalho, tivemos acesso a uma fonte de origem mesopotâmica, o prólogo do Código de leis de Ur-Nammu, que exemplifica a nova forma de apresentação do rei da qual estamos falando. Segue um trecho da fonte: 9 An e Enlil deram o reino de Ur para Nanna, nesse tempo Ur-Nammu, nascido de Ninsun, mãe adorada, foi criado de acordo com os princípios da verdade e da igualdade. Depois os deuses fizeram de Ur- Nammu um guerreiro poderoso, rei de Ur, da Suméria e da Acádia. Seguindo a verdadeira palavra de Utu, o rei estabeleceu a justiça em suas terras. Baniu a calúnia, a violência e a fome. Aumentou as riquezas dos templos. Criou uma medida. Criou o peso de uma mina. Os órfãos não mais eram entregues aos poderosos. As viúvas não mais estavam à mercê dos poderosos. O rico não mais dominava o pobre. (Nascimento; Carvalho, 2020, p. 8, grifo dos autores) Como podemos ver, o rei é representado como uma figura divina feita pelos deuses e cujas ações são sem dúvidas justas. Precisamos estar atentos, contudo, para não cairmos no discurso das fontes. É preciso lembrar que esse texto foi confeccionado a mando dos reis de Ur, e por mais que o reinado de Ur- Nammu possa ter sido estável, não temos motivos para acreditar que o rei tenha sido tão benevolente como o texto nos faz parecer. Finalmente, a Terceira Dinastia de Ur acaba por volta de 2004 a.C., provavelmente devido a um desgaste causado pelas sucessivas campanhas militares contra os elemitas e os reis de Mari. Depois do término desse período, temos mais uma vez o retorno das cidades-Estados como as principais formas de organização social da Mesopotâmia (João, 2013, p. 34). TEMA 4 – IMPÉRIO PALEOBABILÔNICO (1894 – 1595 A.C.) O término do período da Terceira Dinastia de Ur fez com que a Mesopotâmia voltasse a ter nas cidades-Estados independentes a sua principal forma de organização social até mais ou menos 1894 a.C., quando teve início o Império Paleobabilônico, quando uma das cidades antigas mais conhecidas da Ásia, a Babilônia, tornou-se a capital da Mesopotâmia, depois que seu rei Hamurabi conquistou a região. João apresenta de maneira bastante simplificada o contexto de ascensão da Babilônia como principal cidade da região: O período posterior, o Paleobabilônico (1900 a.C.), iniciou-se após uma disputa entre os reis de Larsa, Mari e Babilônia, de um lado, e os de Eschunna, Elam, tribos montanhesas e Assur, de outro, culminando com a vitória dos primeiros. Contudo, Hamurábi, rei da Babilônia, não demorou a subjugar os seus aliados, Rimsin de Larsa e Zimrilin de Mari, dando início à primeira dominação babilônica na região. (João, 2013, p. 34-35) Hamurabi não entrou para a história apenas como o rei que unificou a Mesopotâmia sob domínio babilônico, ele também é conhecido pela criação do Código de Hamurabi, que seria um dos primeiros códigos jurídicos de que temos 10 notícia. O mesmo versa sobre vários assuntos diferentes, tratando de questões criminais, passando por temas familiares e até mesmo normatizando alguns aspectos da escravidão. A extensão de temáticas do Código de Hamurabi já nos é um forte indicativo de que buscou-se criar um Estado centralizado com base na Babilônia nessa região. Esse documento também nos permite presumir que a escrita tenha ocupado um importante papel na administração durante essa época, pois sabemos que o próprio rei Hamurabi trocava cartas frequentemente com os governadores provinciais. João acredita que o Estado tenha ficado mais complexo nessa época e cita algumas instituições e cargos que teriam sido criados nela, como o purhum (assembleia de homens livres), shibutum (conselho dos anciãos), shakanakum (representante do rei) e makisi (coletor de impostos) (João, 2013, p. 35). Não sabemos muito acerca da economia dessa época. Provavelmente a monarquia e a nobreza continuavam a explorar uma boa parcela de terras, e os camponeses, além de trabalharem para eles, deveriam pagar tributos in natura dos recursos obtidos em suas próprias plantações. O Império Paleobabilônico sofreu com a invasão/migração de povos cassitas para a região, embora esses não sejam a causa de seu fim. Esse império terminou por volta de 1595 a.C., quando o rei hitita Mursili I conquistou esse território. Os hititas eram um povo de origem da Anatólia, cujo território atualmente faz parte da Turquia. TEMA 5 – OS NOVOS IMPÉRIOS (934 – 539 A.C.) Este tema tratará de dois períodos diferentes da história mesopotâmica, o primeiro deles é o Império Neoassírio (934-609 a.C.), e o segundo é o Império Neobabilônico (625 – 539 a.C.). Como você pode notar, estamos dando um salto no tempo de quase um milênio para tratar diretamente dessas etapas finais da história da Mesopotâmia. Esse avanço não significa que os períodos que ficaram para trás são desinteressantes, pois o fizemos por falta de espaço para tratarmosde todos os períodos da região. Voltemos para os temas deste tema, começando pelo Império Neoassírio. Os assírios seriam um dos povos a herdarem a língua de Akkad junto com os babilônios. A palavra “Assíria” é originada de Assur, localizada no atual Iraque, sendo a primeira cidade importante desse povo e também a sua primeira capital. 11 Na sua extensão máxima, esse império conquistou toda a Mesopotâmia, partes do Golfo Pérsico, conquistou Damasco, a Fenícia e a Palestina, chegando até o monte Tauro na Turquia. Esse povo também expandiu a sua fronteira para o mediterrâneo, conforme descrito por da Silva: A prática de campanhas militares direcionadas à Costa Oriental do Mediterrâneo foi continuada pelos seus sucessores e, ao longo do Período Neoassírio (934-609 a.C.), foi ampliada. Assurnasirpal II (884- 859 a.C.) alcançou a costa do Levante e recebeu homenagens das mesmas cidades fenícias que Tiglath-Pileser I recebera. Também reivindicou a soberania sobre a região, realizando o ritual tradicional de lavar suas armas no Mar Mediterrâneo. Shalmaneser III (859-824 a.C.) manteve o mesmo interesse pela Costa Mediterrânica que seus predecessores, dentro dos mesmos limites. (da Silva, 2021, p. 7-8) Graças a sua chegada até o mediterrâneo, os assírios tiveram contatos com os antigos gregos, que foram marcados por diferentes relações, indo desde a rivalidade comercial e a guerra entre esses povos até a presença de mercenários gregos no próprio exército assírio (da Silva, 2021, p. 8). Os assírios chegaram a trocar de capital durante o seu império, Assur foi substituída por Nínive, localizada atualmente no Iraque, antes do seu declínio. O fim desse império se deu após a morte do rei Assurbanipal, aproximadamente em 627 a.C., quando os seus sucessores não conseguiram manter o império unido e Nínive foi saqueada justamente pelos babilônios. Com a conquista da Assíria, os babilônios puderam novamente se estabelecer como a força hegemônica da região e criar novamente um império. Esse novo império ocupou as terras onde hoje estão localizados os seguintes países: Iraque (a cidade da Babilônia se localizava nesse território), Israel, Líbano, Palestina e Síria. Dentre todos os seus reis, certamente o mais conhecido é Nabucodonosor, que ajudou a expandir o império e também realizou diversas obras monumentais, a mais conhecida são os Jardins Suspensos da Babilônia, que foram consideradas uma das sete maravilhas do mundo antigo (João, 2013, p. 35). Um importante símbolo de poder desse Estado era o ritual de ano novo, que envolvia o deus Marduk, patrono da Babilônia, e o seu rei. Todas as pessoas poderiam participar dos festivais do ano novo, que duravam 11 dias e eram dedicados à divindade já citada. A única condição para a realização desses festivais era a presença do rei. Machado nos descreve como era o ritual de ano novo do qual o rei participava: 12 Ao chegar a Esagila, o rei era desprovido de sua espada, de seu cetro e das demais insígnias reais, para ser esbofeteado pelo sacerdote do Templo até cair diante de Marduk e jurar que não havia pecado nem descuidado do culto ao deus, além de sempre proteger e cuidar do bem-estar da Babilônia. Após estas confissões, o sacerdote tranqüilizava o rei, devolvia seus pertences e o esbofeteava mais uma vez. Se o rei chorasse era um bom presságio. (Machado, 2008, p. 4) Para Santos, esse ritual significa: “a reinvestidura na realeza e na vice- regência do deus e símbolo do poder que a esfera do religioso possuía na esfera do político no Próximo-Oriente Antigo” (dos Santos, 2004, p. 180). Ou seja, a religião ocupava um grande espaço de poder dentro dessa sociedade, e não é de se espantar que existam rituais e normas religiosas às quais mesmo o rei deveria se submeter. O último rei da Babilônia foi Nabonido, do qual sabemos muito pouco. Esse monarca não era de descendência real e chegou ao trono depois de uma conspiração, sendo ele filho de uma sacerdotisa do deus Sin de Harran e de um governador. Não temos detalhes sobre a sua vida antes de sua ascensão real, tampouco compreendemos quais eram as suas motivações políticas. O pouco que podemos dizer é que esse rei tentou construir para si uma imagem de continuidade imperial em relação aos monarcas anteriores (dos Santos, 2018, p. 202). O que mais chama a atenção durante o reinado de Nabonido é o fato de este monarca ter permanecido dez anos da península arábica, tendo confiado o governo da capital de seu império, ou seja, a Babilônia, ao seu filho Bel-sharra- usur. Durante o seu reinado, ele tentou favorecer o deus Sin sobre Marduk, o que obviamente despertava a ira dos sacerdotes dessa divindade. Não temos muitas informações sobre o ocorrido, mas o fato é que a Babilônia é invadida pela Pérsia, sob reinado de Ciro, Bel-sharra-usur é morto no palácio e Nabonido foi feito prisioneiro. Depois de conquistar a Babilônia, os persas respeitaram as suas tradições religiosas e assumiram em certo grau as suas crenças, o que fez com que os sacerdotes de Marduk os enxergassem como libertadores (Santos, 2018, p. 205). Após a queda do Império Neobabilônico sob domínio persa, nenhum outro povo originário da região voltaria a ter o controle da mesma durante a Antiguidade. Por esse motivo, vamos encerrar por aqui a nossa construção da história política mesopotâmica. Contudo, isso não significa que a história de um povo ou região deixa de ser importante por estar sob domínio estrangeiro, nós 13 precisaríamos de um momento para encerrar esta aula, e este nos parece ser o momento mais apropriado. Além disso, vale destacar que a história desse território não acabou, ela continua sendo escrita até hoje pelos seres humanos que ainda habitam aquela riquíssima região. NA PRÁTICA Observe a seguinte passagem do hino autologio a Shulgi, escrito durante o reinado do monarca que dá nome ao hino, tendo sido ele o segundo regente da Terceira Dinastia de Ur: 1-13. Ó meu rei, grande touro, dragão com olhos de leão! Pastor Shulgi, [...] poderoso, digno de heroísmo! Homem justo, investido com justiça por Utu! Leopardo feroz [...] touro desenfreado que nasceu para ser um grande animal! Uma barba de lápis-lazúli, um peito sagrado – maravilhoso de se ver! Ó rei, Shulgi, nomeado por An com um bom nome! Bom pastor, dotado de força por Enlil, Shulgi, o amado de coração de Ninlil! [...] 14-17. Ó, meu rei, quem é tão poderoso quanto você e quem é capaz de rivalizar com você? De fato, quem é desde o nascimento tão rico em compreensão quanto você? Que seu heroísmo brilhe e que você possa ser respeitosamente elogiado! 18-31. Você destrói os inimigos, você é poderoso, você é corajoso, quando está em Ekur, nas terras estrangeiras hostis você saqueia cidades; como um leão Ofegante. Você lança palavras raivosas contra o povo das terras estrangeiras que são hostis a Nanna. Você é adornado com esplêndidos chifres [...] você traz alegria a Enlil. (Nascimento; Carvalho, 2020, p. 8) Agora, analise como esse texto ajuda nos esforços da Dinastia de Ur a se legitimar politicamente. FINALIZANDO Nesta aula, aprendemos um pouco sobre a história e a organização política na Mesopotâmia, desde suas origens na época das cidades-Estados Sumérias independentes até a conquista persa. Esta aula acabou se debruçando mais sobre os períodos da história em que uma cidade-Estado detinha uma clara hegemonia na região, bem como nos momentos em que algumas delas conseguiram exercer algum tipo de controle centralizado sobre as demais. Isso não significa que a história deva ser contada sempre na perspectiva da centralização de poder, de forma que os momentos em que isso não ocorre sejam ignorados. O que fizemos aqui foi um recorte para dar conta de milhares de anos de história. 14 O importante a se ter em mente é que a Mesopotâmia é uma das regiões mais antigas habitadaspelos seres humanos. Sua história é bastante rica e sem dúvidas o seu estudo vai continuar dando bons frutos para o entendimento da jornada humana na Terra. 15 REFERÊNCIAS da SILVA, R. K. P. Império Neoassírio: contatos e trocas no mediterrâneo antigo (séculos IX – VII a.C.). In: ANPHU Brasil, 31., 2021, Rio de Janeiro. Anais... Disponível em: . Acesso em: 18 mar. 2022. dos SANTOS, A. R. O templo mesopotâmico como factor socioeconómico. Revista Lusófona de Ciências das Religiões, n. 5/6, p. 177-190, 2004. ______. Nabónido e o final do Império NeoBabilônico. In: LEÃO, D.; RAMOS, J. A.; RODRIGUES, S. N. (Coords.). Arqueologia dos Impérios. Coimbra: Imprensa da Cidade de Coimbra, 2018. JOÃO, M. T. D. Tópicos de história antiga oriental. Curitiba: Intersaberes, 2013. MACHADO, C. O. Religiosidade e cultura no Império Neobabilônio. Alétheia – Revista de estudos sobre Antiguidade e Medievo, 2008. NASCIMENTO, R. F. A.; CARVALHO, A. G.. O poder religioso e as formas de propaganda na Mesopotâmia antiga: uma análise comparada entre o Período Acadiano e a III Dinastia de Ur (2335-2004 a.C.). In: Encontro estadual de história ANPUH Bahia, 10., 2020, Vitória da Conquista. Anais... 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