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CADEIAS PRODUTIVAS DO AGRONEGÓCIO I – PROPRIEDADE AGRÍCOLA E PRODUÇÃO Alan Malinsk Agronegócio e sistemas de produção Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Definir uma base conceitual para a implantação de sistema de pro- dução vinculada à cadeia do agronegócio. � Descrever os processos e meios para a implementação de sistemas de produção. � Construir sistemas de produção efetivos para o agronegócio. Introdução Os sistemas de produção são um dos componentes da cadeia produtiva do agronegócio no âmbito da propriedade rural. Eles são definidos a partir dos fatores de produção (terra, capital e mão de obra) e estão interligados pelos processos de gestão (ambiental, de pessoas, econômica, de mercado, entre outras). Neste capítulo, você vai ver aspectos conceituais de sistemas de pro- dução. Além disso, vai conhecer os processos e elementos necessários para sua implementação ou seu aperfeiçoamento. Conceitos para a implantação de sistemas de produção As atividades econômicas, tecnológicas, políticas e sociais vinculadas à pro- dução, à transformação, à distribuição e ao consumo da produção primária (animal ou vegetal) têm merecido atenção destacada na comunidade mundial. Esse fato está relacionado à função que esses produtos, em especial os ali- mentares, desempenham em qualquer grupo social. Durante as últimas décadas, tem-se intensificado a percepção de que o mundo está vivenciando uma etapa de transição agrícola. A preparação de sistemas de produção inovadores na agricultura mundial vem se defrontando com distintas transformações dos padrões do comércio globalizado. Como você sabe, a função primordial do alimento é a manutenção da vida. Além disso, a produção de alimentos envolve fatores ligados aos aspectos antropológicos, sociológicos, ambientais e econômicos, que conferem os valores comportamentais e a identidade cultural a uma população. As demandas crescentes por alimentos, fibras e energia estão incorporadas à necessidade de preservação ambiental e à disponibilidade limitada de terras para a expansão da área cultivada. Isso exige que as organizações agrícolas identifiquem, criem, compartilhem e apliquem conhecimentos e tecnologias adequados. Você pode considerar que o setor agrícola vivencia uma nova situação. E essa situação deverá ser fundamentada no uso intensivo de dados, informações e conhecimentos (a respeito das pessoas, dos processos e das tecnologias), que devem ser apropriados pelas organizações rurais. Essa gestão deverá resultar no aumento da produtividade e na racionalização do uso dos recursos naturais, dos meios de produção e dos insumos, com o propósito de garantir sustentabilidade aos sistemas de produção agrícola. As atividades produtivas passaram a integrar amplo processo social de pesquisa e desenvolvimento, planejamento estratégico, inovação e marketing. Dessa forma, a agricultura deixou de ser, pela aliança com o setor industrial, um setor isolado da economia de qualquer sociedade para se tomar parte inte- grante de um conjunto maior de atividades inter-relacionadas: o agronegócio. Em 1957, Davis e Goldenber elaboraram um dos primeiros conceitos de agronegócio (agribusiness): [...] a soma total das operações de produção e distribuição de insumos agríco- las; as operações de produção nas propriedades agrícolas; o armazenamento, processamento e distribuição dos produtos agrícolas e itens produzidos a partir deles. Agronegócio e sistemas de produção2 � Insumo: é a combinação de fatores de produção diretos (matérias-primas) e indiretos (mão de obra, energia, tributos) que entram na elaboração de certa quantidade de bens ou serviços. � Produção: é o trabalho do agropecuarista por meio do cultivo do solo e/ou da cria- ção de animais, independentemente do tamanho da área ou do método utilizado. � Processamento: é a transformação do produto agropecuário em subprodutos, que podem ser bens de consumo ou insumos para outros processos, como leite, queijos, carnes, embutidos, rações, fios e corantes. � Armazenagem e distribuição: caracterizam-se pelo transporte, pela armazena- gem e pela distribuição dos bens agropecuários, bem como pela área de logística, importante para diminuir os custos e sempre bastante visada. O termo agribusiness espalhou-se e foi adotado por diversos países. No Brasil, essa nova visão da agricultura levou algum tempo para chegar. Só a partir da década de 1980 começou a haver difusão do termo, ainda em inglês. Não eram raras as discussões sobre a utilização da versão estrangeira ou a tradução literal para o português (“agronegócios”), ou ainda sobre o uso das expressões complexo agroindustrial, cadeias agroeconômicas e sistema agroindustrial; todas, como você pode perceber, com a intenção de transmitir um mesmo significado. Somente a partir da segunda metade da década de 1990 é que o termo “agronegócio” começou a ser aceito e adotado de forma hegemônica (MASSILON, 2005). Em 1968, Ray Goldberg utilizou um conceito mais generalista com estudos de casos específicos — produtos agrícolas norte-americanos como laranja, soja e trigo — e apresentou a necessidade de entender o agronegócio da perspectiva dos sistemas agroindustriais, introduzindo o conceito de Commodity System Approach (CSA). Esse autor define CSA como: [...] todos os participantes envolvidos na produção, processamento e marketing de um produto específico. Inclui o suprimento das fazendas, operações de estocagens, processamento, atacado e varejo envolvidos em fluxo desde a produção de insumos até o consumidor final. Inclui as instituições que afetam e coordenam os estágios sucessivos do fluxo do produto, tais como governo, associações e mercados futuros. 3Agronegócio e sistemas de produção Como você pode observar, esse conceito de CSA tem por origem matérias- -primas, no caso, uma commodity, que pode possibilitar o surgimento de outros produtos distintos. Ele evolui com questões associativas e governamentais, com foco no consumidor final. No caso da soja, por exemplo, duas grandes categorias de produtos finais se destacam: o farelo de soja e o óleo de soja (BATALHA; SCARPELLI, 2005; MASSILON, 2005). Na década de 1960, surge na França o conceito de filiere (em português, “fileira”, “cadeia”) aplicado ao agronegócio. A análise da filiere (ou “cadeia produtiva” em português) de cada produto agropecuário permite visualizar as ações e inter-relações entre todos os agentes que a compõem e dela participam. As principais características de cadeias produtivas são as seguintes, de acordo com Albagli et al., citado por Massilon (2005): � refere-se ao conjunto de etapas consecutivas pelas quais passam, se transferem e se transformam os diversos insumos que ingressam no sistema, em ciclos de produção, distribuição e comercialização de bens e serviços; � implica divisão de trabalho, na qual cada agente ou conjunto de agentes realiza etapas distintas do processo produtivo; � amplia os aspectos locais para além de uma mesma região ou localidade; � setoriza os sistemas de produção para dentro das empresas. Batalha e Scarpelli (2005) comentam que os estudiosos brasileiros, quando analisam o conjunto de todas as cadeias agroindustriais vinculadas a produ- tos de determinada matéria-prima do setor agropecuário (soja, milho, cana, carnes, entre outros), tem caracterizado esse conjunto como um complexo agroindustrial. A compreensão do agronegócio, em todos os seus componentes e suas inter-relações, é uma ferramenta indispensável a todos os tomadores de deci- são, sejam autoridades públicas, agentes econômicos privados ou produtores rurais, para que formulem políticas e estratégias com maior previsão e má- xima eficiência. E, para tanto, se faz necessária uma visão sistêmica do setor (HIRAKURI et al., 2012). Agronegócio e sistemas de produção4 Nesse contexto, um sistema é definido como a combinação de partes inter-ligadas, formando um todo organizado ou complexo (CHIAVENATO, 2000). Neste capítulo, você vai se deparar com o conceito de sistema de produção proposto por Hirakuri et al. (2012): “O sistema de produção é composto pelo conjunto de sistemas de cultivo e/ou de criação no âmbito de uma propriedade rural, definidos a partir dos fatores de produção (terra, capital e mão de obra) e interligados por um processo de gestão” (HIRAKURI et al., 2012, p. 13). Como implementar um sistema de produção Um sistema de base agroindustrial é composto pelas fases sequenciais da cadeia produtiva, englobadas pelos ambientes institucional e organizacional. As fases da produção são interligadas por transações típicas, que caracterizam o sistema e, muitas vezes, caracterizam as estratégias e tempos (Tn) diferenciados das empresas que nele atuam. Em um mesmo sistema, você pode observar diferentes arranjos das transações (Figura 1). Figura 1. Sistema de base agrícola. Fonte: Adaptada de Zylbersztajn (1995). Walters et al (2016) destacam que os sistemas de produção agrícola sofrem alterações rápidas em resposta às mudanças nos custos de produção, à demanda do consumidor e às preocupações crescentes pela segurança alimentar e pelo impacto ambiental. A grande preocupação global é a necessidade de desenvolver sistemas de produção que abordem os aspectos sociais, a conservação ambiental e a qualidade do alimento, mantendo uma alternativa economicamente viável para os agricultores. 5Agronegócio e sistemas de produção Os princípios que o conceito de sistemas enfatiza são destacados por Capra (1996): � Visão do todo: a abordagem sistêmica visa ao estudo do desempenho total de sistemas em vez de se concentrar isoladamente nas partes. � Interação e autonomia: sistemas são sensíveis ao meio ambiente com o qual eles interagem, o qual é geralmente variável, dinâmico e imprevisível. A fronteira do sistema estabelece os limites da autonomia interna, a interação entre os compo- nentes do sistema e a relação deste com o ambiente. � Organização e objetivos: em um sistema imperfeitamente organizado, mesmo que cada parte opere o melhor possível em relação aos seus objetivos específicos, os objetivos do sistema como um todo dificilmente serão satisfeitos. � Complexidade: esse enfoque parte do princípio de que, devido a interações entre os componentes e entre o meio ambiente e o sistema como um todo, este é bem mais complexo e mais abrangente do que a soma das partes individuais. � Níveis: sistemas podem ser entendidos em diversos níveis. Considere, por exem- plo, uma célula, uma folha, um animal, uma propriedade, uma região, o planeta e assim por diante. Para um panorama geral das teorias sistêmicas e do pensamento sistêmico, consulte o livro Pensamento sistêmico: o novo paradigma da ciência (VASCONCELLOS, 2002). A implantação ou a melhoria de um sistema de produção independe ex- clusivamente do anseio do produtor rural e deve ter vínculo direto com a disponibilidade dos fatores de produção. Um aspecto decisivo é a necessidade de que o sistema seja estruturado e planejado estrategicamente com foco nos objetivos e metas que, ao serem elaborados, devem levar em conta as demandas do mercado consumidor. Segundo Antle, Jones e Rosenzweig (2017), a nova geração de modelos de sistemas agrícolas deve acelerar o progresso em direção ao objetivo de enfrentar desafios de segurança alimentar e bioenergias de forma sustentável. Mas, para ser uma parte útil desse processo de inovação agrícola, os modeladores de sistemas agrícolas devem evoluir e romper a continuidade dos sistemas usuais. Agronegócio e sistemas de produção6 Processos e elementos para a construção de sistemas de produção Na atualidade, há um intenso debate acerca das abordagens e intervenções para o desenvolvimento de sistemas agrícolas. Soma-se a isso a distância cognitiva entre modelos diferentes de percepção do mundo. Os cenários que emergem dos censos agropecuários mundiais mostram que a maior parte dos agricultores do mundo é pobre, vive nos países subdesenvolvidos, trabalha em pequenas áreas e está distante, em diversos graus, dos conhecimentos e práticas propostos pela ciência agrícola moderna (AZEVEDO, 2007). A ideia de sistema representa um conceito antigo, originário da palavra grega synhis- tanay (que significa “colocar junto”). A evolução na direção do pensamento sistêmico vem ocorrendo em várias áreas da ciência, inclusive na agricultura. Nessa área, o enfoque sistêmico tem se tornado cada vez mais importante em função da crescente complexidade de sistemas organizados e manejados pelo humano — os agroecossistemas. Além disso, está em jogo a emergência do paradigma da sustentabilidade, que lançou novos desafios às organizações rurais, sobretudo em relação à questão socioambiental (PINHEIRO, 2000). Para efeitos de análise, neste capítulo “ [...] um sistema é definido como um conjunto de componentes inter-relacionados e organizados dentro de uma estrutura autônoma (propriedade rural), operando de acordo com objetivos determinados” (PINHEIRO, 2000). 7Agronegócio e sistemas de produção Para trazer o conceito de propriedade rural para o plano da experiência vivida, Azevedo (2007) comenta que é necessário considerar que nesses locais há pessoas, animais e plantas desejadas, animais e plantas indesejadas, terra para se plantar, água, conheci- mento, trabalho, sonhos, desejos, expectativas e outros inumeráveis objetos-chave. Tudo isso, ao se combinar, se transforma na organização rural, novo objeto-chave emergido das relações entre esses primeiros objetos. Entendida assim, a propriedade deixa de ser um “objeto” puramente material e passa a ser um conceito. Para a elaboração de modelos conceituais nos sistemas de produção do agronegócio, os modelos de sistemas agrícolas têm inúmeras peculiaridades. Estas, por sua vez, dependem dos processos envolvidos, de suas escalas e da ampla gama de propósitos que motivaram seu desenvolvimento (JONES et al., 2017). Na Figura 2, você pode ver escalas/níveis em que os modelos de sistemas agrícolas são desenvolvidos, juntamente aos tipos de usuários e decisões e políticas de interesse. Figura 2. Níveis e escalas de sistemas agrícolas em função de usuários, tomada de decisão e políticas de interesse. Fonte: Jones et al. (2017, p. 248). Agronegócio e sistemas de produção8 Outro conceito-chave para a compreensão dos sistemas é o de complexidade. Ele pode ser depreendido da dificuldade, ou até mesmo incapacidade, de se perceber com facilidade e de modo intuitivo o funcionamento dos sistemas. É consequência do número de elementos que podem ser isoladamente defini- dos, bem como do número e da natureza das relações estabelecidas entre os elementos (AZEVEDO, 2007). Antle, Jones e Rosenzweig (2017) mostram que a maioria dos produtores precisa de modelos de sistemas que representem fazendas na sua integralidade. Em particular, para fazendas de pequeno porte no mundo em desenvolvimento, são necessários modelos que levem em conta as interações entre cultivos múl- tiplos e, muitas vezes, gado. No entanto, muitos modelos de sistemas agrícolas representam apenas culturas únicas e têm capacidade limitada para simular interações ou inter-relações entre vegetais e gado. Por quê? Uma explicação é que muitos modelos foram desenvolvidos nas partes mais industrializadas do mundo, onde as principais culturas de commodities são produzidas. Outra explicação é que os modelos de culturas individuais são mais fáceis de criar, exigem menos recursos computacionais e são conduzidos por um conjunto menor de dados do que os modelos de rotações de culturas, policultivos ou sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta. Um primeiro passo para perceber o potencial dos modelos de sistemas agrícolas é reconhecer que a maioria dos trabalhos tem sido realizada por cientistas em instituições de pesquisa ou acadêmicas. Portanto, é motivada por pesquisas e consideraçõesacadêmicas mais do que pelas necessidades dos usuários. Um grande desafio para o desenvolvimento de uma nova geração de modelos, projetados para atender às necessidades dos usuários, é transformar o processo de desenvolvimento do modelo “na sua cabeça”, começando com as necessidades dos usuários e voltando aos modelos e dados necessários para quantificar a relevância das saídas do sistema de produção (ANTLE; JONES; ROSENZWEIG, 2017). Na Figura 3, você pode ver um panorama das características dos dados de nível de fazenda e das ferramentas de decisão, assim como dos dados em escala de paisagem e das ferramentas analíticas que suportam políticas de base científica e suas inter-relações. Conforme descrevem Capalbo, Antle e Seavert (2017), embora a tomada de decisões ao nível da fazenda e a análise da escala de paisagem tenham propósitos diferentes, ambas dependem tanto dos dados privados quanto das características específicas do terreno e da fazenda, das decisões de gerenciamento específicas da região e do que é 9Agronegócio e sistemas de produção realizado na propriedade, bem como de dados públicos (clima e outros dados físicos que descrevem um local específico, além de preços e outros dados econômicos disponíveis publicamente). Uma questão-chave para o projeto da infraestrutura de conhecimento agrícola é como ambos os tipos de dados podem ser coletados, gerenciados e utilizados de forma eficiente e segura. Figura 3. Ligações entre dados e ferramentas de decisão em escala de fazenda e paisagem. Fonte: Antle et al (2015, p. 248). Agronegócio e sistemas de produção10 Euclides Filho (2000) destaca que sistemas de produção de gado de corte são o conjunto de tecnologias e práticas de manejo. Eles incluem também o tipo de animal, o propósito da criação, a raça ou grupamento genético e a ecorregião onde a atividade é desenvolvida. Devem-se considerar, ainda, ao se definir um sistema de produção, os aspectos sociais, econômicos e culturais. Afinal, como você sabe, esses fatores têm influência decisiva, principalmente nas modificações que poderão ser impostas por forças externas e, especialmente, na forma como tais mudanças deverão ocorrer para que o processo seja eficaz e as transformações alcancem os benefícios esperados. Permeando todas essas considerações, devem estar a definição do mercado e a demanda a ser atendida, ou seja, quais são e como devem ser atendidos os clientes ou consumidores. Construir e alterar sistemas de produção Empresas, organizações não governamentais, organizações de representação setorial, governos e consumidores foram afetados pelo ciclo de reorgani- zação em todos os sistemas produtivos que sucedeu à chamada revolução verde. O período subsequente à Segunda Guerra Mundial foi caracterizado pelas mudanças tecnológicas e pelo aumento da produção de alimentos. Já o período contemporâneo caracteriza-se pelo foco na gestão e na governança dos sistemas de produção. Zylberstajn (2013) comenta sobre o debate da desindustrialização brasi- leira, que alguns autores associam ao avanço dos sistemas de base agrícola (Figura 1). Esses autores sugerem que a performance do agronegócio se dá em detrimento da atividade industrial. Zylberstajn afirma que conceito de indústria ou de atividade industrial não exclui a agricultura. Nesse sentido, a atividade industrial é aquela que produz mercadorias em grande escala, e as atividades agrícolas são as que geram grandes impactos nos setores conecta- dos a ela, como máquinas agrícolas, insumos de sanidade vegetal e animal, equipamentos industriais, serviços, etc. Nesse contexto, o autor sugere quatro fatores críticos em sistemas de base agrícola: desverticalização, novos atores, flexibilização e redesenho dos sistemas de direito de propriedade. A seguir, você vai conhecer melhor cada um desses aspectos. 11Agronegócio e sistemas de produção � Desverticalização: tem origem na industrialização da agricultura. A unidade de produção agrícola e o sistema de base agrícola podem ser vistos como firma “coasiana”, ou seja, um nexo de contratos entre agentes especializados. Tal definição extrapola consideravelmente a da firma agrícola tradicional, que era tratada na teoria da firma. A firma vista pela teoria da produção nada tem a ver com a firma agrícola do mundo real. Como decorrência, o processo de desverticalização da atividade agrícola prossegue com o surgimento de mecanismos contratuais complexos. A cooperação entre agentes especializados visando à criação de valor pode ser uma forma superior aos processos de produção totalmente integrados verticalmente. Na produção da soja em regiões com dupla safra de soja e milho, a especificidade temporal impede que contratos externos sejam realizados. O produtor precisa ter o seu próprio equipamento, pois tem poucas horas para colher uma safra e plantar a safra seguinte. Soluções mistas são comuns, casos em que o produtor contrata uma parte da atividade e integra a outra parte. � Novos atores: existem algumas regularidades quanto às características dos novos gestores de organizações agrícolas, como a tendência a residir na área urbana, o aumento do acesso à rede mundial, o aumento do grau de escolaridade e a faixa etária que se eleva ao longo do tempo. Os novos atores passaram a atuar nos sistemas de base agrícola, como os fundos de investimento, e os investidores individuais focalizam as atividades com gestão profissionalizada. Em decorrência, emergiu a governança corporativa, e os aspectos ligados à sucessão familiar passaram a representar importantes temas. Agronegócio e sistemas de produção12 Nas granjas integradas ou autônomas de suínos e aves, se observa também o cresci- mento das agroholdings, empresas de investidores corporativos geridas profissional- mente, em geral com múltiplas unidades. � Flexibilização: esse aspecto decorre da intensificação do comércio internacional, que caracterizou a segunda metade do século XX, inau- gurando uma nova configuração do mapa estratégico global. Para os sistemas de base agrícola brasileiros, dois elementos são relevantes, a saber: o crescimento da renda doméstica e as exportações de commo- dities. A flexibilidade surge como fator de competitividade, uma vez que se considera a diversidade dos perfis dos mercados doméstico, internacional de baixa exigência e internacional com exigências espe- ciais. Como implicação, surgem o estabelecimento de contratos com parceiros internacionais, o conhecimento dos ambientes institucionais regulatórios dos países de destino, assim como o desenvolvimento de mecanismos de monitoramento e de informações compatíveis com as necessidades. Como exemplo de flexibilização, você pode considerar os programas de estudo financiados pela comunidade europeia. Eles buscam desenvolver conhecimento sobre os sistemas de suprimento nos países originadores (rastreabilidade). � Redesenho dos sistemas de direito de propriedade: a teoria econômica dos direitos de propriedade foi ampliada com a aplicação do seu conceito no estudo de sistemas de base agrícola. Assim, tem coberto aspectos de qualidade e segurança do alimento, direito do consumidor, estratégias de cobrança por atributos, estudos de preferência dos consumidores e demanda por atributos, entre outros. Isso destaca os papéis dos con- sumidores, dos stakeholders e das gerações futuras, que introduzem aspectos novos a serem considerados nos sistemas de produção. 13Agronegócio e sistemas de produção O direito do consumidor é um exemplo do redesenho dos sistemas, de modo especial quanto à informação sobre os atributos existentes no produto. Toda a indústria de certificação tem a sua base estabelecida a partir da necessidade de revelar informações sobre atributos não observáveis, informações estas que são objeto da transação. Os sistemas de produção Os sistemas de produção foram classificados pela complexidade e pelo grau de interação entre cultivo e/ou criação, processos que os formam.Em relação à sua complexidade, os sistemas de produção podem ser classificados como: � Sistema em monocultura ou produção isolada: ocorre quando, em determinada área, a produção vegetal ou animal se dá de forma isolada em um período específico, que normalmente é categorizado como um ano agrícola. Como exemplo de monocultura, você pode considerar o cultivo de soja intercalado por períodos de pousio e realizado durante vários anos na mesma gleba. O pousio sem cobertura tem efeitos negativos sobre as propriedades dos solos. � Sistema em sucessão de culturas: ocorre quando se tem a repetição sazonal de uma sequência de duas espécies vegetais no mesmo espaço produtivo por vários anos. Por exemplo, em uma determinada gleba, pode ser adotado um sistema de sucessão soja-trigo, sendo o cultivo da soja na primavera e no verão e o do trigo no outono e no inverno. � Sistema em rotação de culturas: ocorre por meio da alternância or- denada, cíclica (temporal) e sazonal de diferentes espécies vegetais em um espaço produtivo específico. Agronegócio e sistemas de produção14 � Sistema em consorciação de culturas ou policultivo: ocorre quando duas ou mais culturas ocupam a mesma área agrícola em um mesmo período de tempo. � Sistema em integração: ocorre quando sistemas de cultivo/criação de diferentes finalidades (agricultura ou lavoura, pecuária e floresta) são integrados entre si, em uma mesma gleba, com o intuito de maximizar o uso da área e dos meios de produção, bem como de diversificar a renda. Nesse contexto, destacam-se quatro possíveis tipos de sistemas integrados: ■ lavoura-pecuária (soja e milho com sucessão de pastagem); ■ lavoura-floresta (soja nas entrelinhas do eucalipto); ■ pecuária-floresta (gado sobre pastagem em reflorestamento de eucalipto); ■ lavoura-pecuária-floresta (cultivo de milho seguido de pastagem com entrada de bovinos em área de eucalipto). O sistema de cultivo refere-se às práticas comuns de manejo associadas a determinada espécie vegetal. Ele visa à produção a partir da combinação lógica e ordenada de um conjunto de atividades e operações. No caso da produção animal, esse processo é chamado de sistema de criação. ANTLE, J. M. et al. Towards a new generation of agricultural system models, data, and knowledge products: model design, improvement and implementation. New York: AgMIP, 2015. ANTLE, J.M.; JONES, L. W.; ROSENZWEIG, C. New generation agricultural system models, data, and knowledge products: introduction. 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