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ATOS E EVANGELHOS AULA 3 Prof. Marlon Ronald Fluck 2 CONVERSA INICIAL Mateus utilizou quase 90 por cento do conteúdo do evangelho de Marcos, mas também se utilizou da fonte Q e de material especial só existente em seu evangelho. O conteúdo de Mateus indica para uma composição posterior à destruição do templo e da cidade de Jerusalém. Localiza-se sua composição entre os anos 80 e 100 d.C. Há no evangelho uma mescla de elementos judaico- cristãos e helenísticos. Não há consenso sobre o local da composição, havendo frequentes sugestões de que poderia ser Antioquia (da Síria), pois reflete um período em que a igreja já se havia separado da Sinagoga judaica (Childs, 2011, p. 287). Boring defende que O próprio Mateus é, provavelmente, um escriba cristão, que apresenta de seu tesouro tradicional acumulado, coisas antigas e novas para a edificação da comunidade (13.52). Sábios e escribas (assim como os profetas) parecem ter participado do ministério de ensino no interior da comunidade, mas os papéis exatos e como eles estão relacionados uns com os outros já não podem mais ser determinados. (Boring, 2016, p. 979) Mateus tem suas particularidades e elucida suas interpretações do Evangelho. O evangelista pressupõe a existência de um cristianismo helenístico, que já tinha transcendido suas origens judaicas. Ele desenvolveu temas que lhe são próprios como editor. Mateus trabalha o acesso da igreja a Jesus Cristo. Em que sentido tem relevância o ministério terreno de Jesus agora que ele reina como Senhor da igreja? Mateus relegou o tempo de Jesus ao passado, o historizando em uma vida de Jesus. Ele apresentou detalhes biográficos nas citações de Mateus 2.6ss; 21.5 e 27.9. Com estes horizontes temporais o passado é absorvido pelo presente. A história do Jesus terreno é o ponto de partida que tem sequência na experiência constante da Igreja com o ressuscitado. O Jesus histórico é fundido com o Cristo exaltado na abordagem de Mateus. (Childs, 2011, p. 288-289). Apontemos para algumas particularidades de Mateus. TEMA 1 – O USO QUE MATEUS FAZ DO ANTIGO TESTAMENTO Mateus fez um uso distinto do Antigo Testamento, tendo fórmulas distintas de introdução dos textos, como, por exemplo, “para que se cumprisse o que havia sido dito pelo profeta”, e pelo uso de textos que diferiam da dependência 3 tradicional do texto da Septuaginta. Todo o AT é visto como a revelação profética da vontade de Deus que aponta para o futuro e que se cumpre agora em Jesus Cristo, o Messias prometido. Jesus nasceu como rei dos judeus (2.2), que pastoreará o povo de Israel (2.6). Jesus é perseguido por Herodes, mas reconhecido pelos magos do oriente, o que era uma sinalização do que haveria de vir. Isto indica uma transparência da dimensão profética e escatológica do Antigo Testamento. Mateus interpreta as Escrituras na ótica de profecia e cumprimento (Childs, 2011, p. 290). Mateus citou diretamente o Antigo Testamento quarenta vezes, com indicação do tipo “está escrito”. Com as alusões, há 61 menções nos 28 capítulos (Boring, 2016, p. 981). Mateus apresenta Jesus como Mestre, sem defender o “segredo messiânico”, como presente em Marcos. Mateus se dedicou de forma esmerada a pôr de manifesto de forma sistemática como as profecias do Antigo Testamento se haviam cumprido nas obras de Jesus. E os exegetas acentuaram esta tendência, estendendo as referências a outros textos do Antigo Testamento, para acentuar o cumprimento em Cristo, do plano divino iniciado já na época do Antigo Testamento e orientado à redenção da humanidade. O objetivo dos exegetas é demonstrar que todas as obras e palavras de Jesus formam parte de um plano divino que exclui sucessos imprevistos e improvisações, tanto na relação com Jesus e o povo, como em seu conflito com as autoridades judias, com um desenvolvimento gradual para a conclusão, que havia sido seu objetivo desde o começo da vida pública. (Simonetti, 2004, p. 22) Para Mateus, Jesus é a esperança de Israel, inaugurando o governo escatológico de Deus. As citações do AT são meios para atualizar a presença do Messias prometido, que é então experimentado como Senhor exaltado. “A esperança que a sinagoga aguarda está sendo já experimentada pela igreja de Cristo” (Childs, 2011, p. 291). No sermão do monte fica claro que Jesus não veio abolir o Antigo Testamento, mas sim cumprir a Lei e os Profetas (Mt 5.17). Nenhum preceito divino foi desautorizado ou mutilado por ele. Ele não aboliu, mas cumpriu toda lei. A lei é resumida por Jesus no Evangelho. Ela é cumprida pela graça de Deus atuante no ser humano. Cristo cumpriu a lei por nós. Os apóstolos entrariam no céu unicamente se sua justiça superasse em muito a dos escribas e dos fariseus (Mateus 5.20). Não trata, pois, o Senhor de desacreditar o Antigo Testamento, senão que quer dar-lhe novo realce. Se houvesse, em cambio, procedido do 4 perverso, Cristo não haveria buscado seu perfeccionismo. Não o haveria corrigido, senão descartado. E como – me dirás -, se tal é a lei antiga, não conduz agora ao reino dos céus? Não conduz, certamente, aos que vivemos depois do advento de Cristo, posto que nós gozamos de maior graça e temos que lutar maiores combates; mas aos que ela criou em seus peitos, a todos sem exceção os conduziu ao reino dos céus. (João Crisóstomo, citado por Simonetti, 2004, p. 153-154) Os escribas e fariseus na época de Jesus eram soberbos e arrogantes, advogando o cumprimento da lei. Sua prática tinha aparência de justiça. Mateus 5. 20-48 deixa claro que O mandamento de Cristo não é contrário à lei, senão mais amplo que a lei. O mandamento de Cristo contém a lei, porém a lei não contém o mandamento de Cristo. Portanto, quem cumpre os mandatos de Cristo, implicitamente cumpre a lei. Pois quem não se deixa dominar pela ira, menor medida comete um assassinato. Pelo contrário, o que cumpre o mandato da lei não cumpre totalmente o mandato de Cristo. Com frequência sucede que um homem não assassina por temor à represália, porém sem dúvida se deixa dominar pela ira. (Simonetti, 2004, p. 156) TEMA 2 – O PROBLEMA DA LEI A relação entre Jesus e a lei de Moisés é um tema central do evangelho de Mateus. A relação com a antiga aliança domina as abordagens do evangelho de Mateus. Para o evangelista, a principal função do Messias de Israel é a interpretação da lei de Moisés como representação da vontade eterna de Deus. A entrada na justiça do reino é medida pela lei. A ausência da lei é o ápice do mal. Jesus veio abolir a ausência da lei. Jesus cumpre a lei realizando a vontade de Deus (Childs, 2011, p. 291). No Sermão do Monte, em Mateus 5.17-19, Jesus deixa claro que o que importa é a lei como cumprida por ele. Tudo se situa dentro deste cumprimento através dele, pois Com isso se exclui um possível mal-entendido de antítese. Por essa aguda contraposição não quer Jesus, precisamente abolir a Lei vetero- testamentária, ainda que em parte as palavras assim soem. Por outro lado, não se trata também apenas de uma nova interpretação da Lei, que Jesus poria ao lado de outras interpretações, como as que foram dadas pelos rabinos. A primeira suposição seria excessiva, e a outra insuficiente. Trata-se, de fato, da Lei de Deus no Antigo Testamento, mas, precisamente, apenas no sentido do seu cumprimento através de Jesus. (Trilling, 1981, p. 85) Os fariseus são criticados por Jesus por somente aderirem ao aspecto exterior, deixando de lado o mais importante (Mateus, 23.23). Interpretaram mal a vontade de Deus, desprezando as obras de justiça e misericórdia, 5 abandonando o amor a Deus e ao próximo (Mateus 22.39s), enquanto “destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” (Mt 22.40). Mateus salienta que a lei deve funcionar dentro do marco escatológico do iminente juízo final. Por isso, a igrejaem Mateus não se designa como o verdadeiro Israel, senão que recebe sua identidade não por intermédio de caracteres institucionais, mas sim em virtude de sua relação com o Senhor exaltado, quem, por ser o cumprimento do Antigo Testamento, é também o criador de uma nova comunidade. Arrebatará o reino de Deus das mãos desses possuidores malvados, e o entregará à nação que produza frutos de justiça (21.43). (Childs, 2011, p. 291-292) Mateus enfatizou a ética ensinada por Jesus. Ela é a vontade de Deus, a retidão, a justiça. Apesar de Mateus insistir que a Lei e os Profetas, como interpretados por Jesus, representam a vontade de Deus e deve ser cumprida, a vontade de Deus é finalmente revelada em uma vida de discipulado de Jesus com o mandamento de amor a Deus e ao próximo como sua norma fundamental. (Boring, 2016, p. 980) TEMA 3 – A PATERNIDADE DE DEUS (MATEUS 6) Jesus chama Deus de “meu pai”, em Mateus, Lucas e João. A menção a Deus como “Abba” nas epístolas paulinas é um “eco da oração de Jesus” (Jeremias, 1977, p. 104). Nos dias de Jesus, já há muito tempo ‘abba que não mais se restringia à linguagem das criancinhas. Também os filhos adultos se dirigiam então a seu pai, chamando-o de ‘abba. (...). Para a sensibilidade dos contemporâneos de Jesus, teria parecido irreverente, até mesmo inimaginável, invocar a Deus usando esta palavra familiar. Jesus, porém, ousou empregar ‘Abba como invocação de Deus. Este ‘Abba é uma ipsissima vox Jesu. (Jeremias, 1977, p. 107-108) Jesus cercou de respeito a interpelação de Deus como ‘Abba. O especialista em teologia do Novo Testamento esclarece que Na interpelação de Deus como ‘Abba expressa-se o ultimo mistério da missão de Jesus. Ele se entendia como alguém que tinha recebido a plenipotência para transmitir a revelação de Deus, porque Deus se tinha dado a conhecer a ele como o seu Pai (Mt 11.27 par.). (Jeremias, 1977, p. 109) No Cristianismo primitivo se desenvolveu uma mística de Deus Pai, que se expressou também em forma de invocação do “Abba” como oração dos cristãos primitivos. No Novo Testamento Deus como Pai focaliza principalmente a proteção social e emocional vivenciada pelo crente. A paternidade de Deus é 6 concretizada em que ele provê alimentação, vestimenta e vida, libertando das preocupações e ansiedades. Deus provê o que necessitamos. Os filhos de Deus deixam-se cair nos braços de Deus, pois sabem que são segurados por ele. Deus espera por aqueles que se entregam assim a Ele. Ele não é Senhor ausente da vida do ser humano, mas gosta de ser provocado como pai, recebendo nossas orações. A oração é uma necessidade decisiva na pregação paternal no Judaísmo e no Cristianismo primitivo. A paternidade de Deus, portanto não era entendida em termos autoritários, mas no sentido de proteção, proximidade e providência. A abrangência não ocorre no sentido da função oficial do pater família, mas sim da relação do pai com as crianças pequenas nas esferas mais pobres da sociedade, onde se enfatiza a relação diária entre pai e filho (Berger, 1994, p. 30). Na parábola do filho pródigo (Lucas 15.11-32), os lados infantil e carinhoso do pai foram sublinhados. Por outro lado, o irmão mais velho reagiu de forma autoritária. O texto aponta para o fato que o papel de Deus como pai amoroso desempenha uma função crítica específica, neste caso para a relação entre antigos e novos convertidos (Berger, 1994, p. 31). A oração dos discípulos é para se dirigir a Deus Pai (Mateus 6.9; Lucas 11.1-2). Ele deixa o sol e a chuva vir sobre todos (Mateus 5.45-48). Diante dEle, encontram-se os salvos. Ele é o que providencia como criador para seus filhos. Ele é o amor. Sobre a relação entre Deus Pai, o Filho e os filhos, ocorrem duas ênfases: somos introduzidos em Jesus na relação com Deus e a filiação de Jesus é estendida aos que creem. No evangelho de João, Jesus se referiu ao “meu Pai” até João 20.17a, enquanto se referiu a “meu Pai e vosso Pai”, a partir de João 20. 17b (Berger, 1994, p. 31). TEMA 4 – OS EVANGELHOS E A MISSÃO Os Evangelhos são literatura de missão. Eles documentam a missão. Neles se narra a missão do filho de Deus, a qual serve para compreendermos qual é a missão da Igreja. Mateus deixou claro que a missão da igreja é apresentar a presença do reino de Deus entre os seres humanos. Mateus usou cerca de 50 vezes a expressão “reino de Deus” ou equivalente, enquanto os outros evangelhos somados não alcançam esta quantidade. O Evangelho, portanto, gira em torno da expressão central para a teologia da missão. O reino de Deus é o poder dinâmico da missão (Cevallos, 2006, p. 188). 7 Seguir Jesus significa iniciar uma relação de fidelidade aos valores do reino de Deus. Não se pode tornar mais fácil o ingresso no reino de Deus. Isto significaria o sacrifício da fidelidade. O caminho para o discipulado exige obediência ao Senhor Jesus Cristo. O caminho da missão é o do despojamento. Ela busca o outro para convidá-lo a participar do reino de Deus (Cevallos, 2006, p. 193-194). A formação de discípulos é algo indispensável para a fidelidade missionária. Homens e mulheres precisam ser conduzidos a seguir a Cristo, a praticar o Evangelho e a obedecer ao Senhor. Mateus 24.14 não afirma a necessidade que todos aceitem a mensagem do Evangelho. Não é o êxito que é determinante. A pregação a toda criatura é que é sinal da proximidade da instauração final do reino de Deus. O senhorio divino é para ser levado a todos os povos. A boa notícia do reino de Deus é que Deus está conosco. Queremos ser fiéis ao Deus que atua na história até o fim. Os cristãos são atuantes no presente em cada geração. O evangelho da salvação precisa ser anunciado e também ser demonstrado em forma de serviço sacrificial e ensinado aos novos cristãos (Mateus 4.23; 9.35). A igreja de Mateus havia abandonado a missão especificamente judaica e Não mais se vê como um movimento de renovação no judaísmo, estando agora engajada em uma missão aos gentios, isto é, às ‘nações’, das quais Israel é agora uma (28.18-20). Mateus entende o presente e o futuro de sua igreja como orientados para os gentios, e considera o desenvolvimento do judaísmo não cristão apenas como um concorrente e adversário. Nesse sentido, a igreja de Mateus é ‘gentia’. (Boring, 2016, p. 975) Lohse também defendeu uma atuação ampla de Mateus, dizendo: Portanto o evangelista não defende um judeu-cristianismo estreitamente limitado a Israel, mas pertence ao círculo de judaico- cristãos que por um lado tentam preservar o legado de Israel, mas por outro lado reconhecem a existência da igreja gentílico-cristã e por isso estão cientes de que a mensagem de Cristo vale para o mundo todo. O motivo de ele perseverar na lei e nos profetas, porém, é que eles não caducaram, mas foram plenificados em Cristo. (Lohse, 1972, p. 153) O evangelho de Mateus apresenta em seu último capítulo a visita de Maria Madalena e a outra Maria ao sepulcro de Jesus. O túmulo está vazio, mas o anjo diz às mulheres que devem dizer aos discípulos que Jesus foi à Galileia, onde devem ir para vê-lo. As mulheres foram, portanto, as primeiras a ficar sabendo da ressurreição de Jesus e a receber o envio a propagar a vitória sobre a morte. “O anjo não envia a simples mulheres, senão à igreja naquelas duas mulheres. 8 A envia para que difunda a mensagem por todo lugar” (Pedro Crisólogo, citado por Simonetti, 2006, p. 375). Jesus envia, portanto, “a boa notícia a seus discípulos por meio das mulheres, honrando, como muitas vezes tenho dito, ao sexo mais desprezado, dando-lhe as melhores esperanças e curando o que se havia danificado” (João Crisóstomo, citado por Simonetti, 2006, p. 376). Depois Jesus apareceu aos onze discípulos, que foram atrás dele na Galileia (Mateus 28.16-20). Agora, Depois de pôr em suas mãos um resumo do ensino cristão, expresso na fórmula dobatismo, o Senhor ressuscitado mandou a seus discípulos ir a todo mundo. Com a ressurreição de Jesus fica restabelecida de novo sua verdadeira glória, que segue à sua humilhação. Jesus recordou a seus discípulos a consumação de todas as coisas, de modo que não olharam só para os perigos presentes, senão também as coisas boas que estão por vir e que duram para sempre. Ele prometeu não apenas estar com estes discípulos, senão também com todos os crentes que viriam depois deles. (Crisóstomo, citado por Simonetti, 2006, p. 380) Assim, receberam o grande encargo missionário, o qual é embasado no poder completo recebido por Jesus Cristo no céu e na terra. Os discípulos deviam ensinar agora todas as nações. Eles não são repreendidos por haver negado a Jesus quando de sua crucificação. Ele prometeu estar com eles até o final. Eles deviam agir como um só corpo. Ele está conosco para facilitar tudo. TEMA 5 – MATEUS E A TEOLOGIA DO REINO Em muitas das parábolas em Mateus, ele apresenta parábolas do Reino no qual Deus exerce diversas funções reais (Mt 14.9; 18.23; 22.2, 7, 11, 13). (...) o reino de Deus invadiu a presente era. Por isto, o diferente em Jesus é que simultaneamente se vive o presente e o futuro. O reino de Deus já presente se converte em uma espécie de garantia de que há algo a mais por vir, pelo que se motiva ao discípulo a se submeter às demandas deste mesmo Reino. (...) Jesus entendeu sua missão como a apresentação de uma ética que se vá abrindo espaço no mundo até chegar à sua plenitude. (...). O único ponto de partida para a ética social de Jesus é o reino de Deus. Esta ética do Reino não somente rompe qualquer dicotomia entre ética pessoal e social, senão que a unifica. A radicalidade de Jesus é justamente uma vida autentica e sincera em todos os âmbitos da vida. Não existe para Jesus nenhum tipo de divisão entre assuntos profanos e sagrados. Tudo é sagrado, no sentido de que ele é soberano sobre todas as coisas. Não existem dois róis para o crente, um para cumprir pessoalmente, e outro para viver na sociedade. Por isto, a presença do reino de Deus já traz conotações de ética pessoal e social. (Cevallos, 2006, p. 204-206) 9 Mateus 5.1-19 mostra o caráter dos membros do reino de Deus. Mt 5.21- 48 descreve o conflito entre Jesus e a interpretação bíblica dos escribas (teólogos judeus). Em Mt 6.1-18 apresenta a justiça dos fariseus (religiosos leigos judeus). Os discípulos devem superar a justiça de ambos grupos. Mt 6.19- 7.27 apresenta de forma positiva como deve ser a justiça dos que são membros do reino. O sermão do monte tem sido visto como prelúdio do monte do Calvário. As bem-aventuranças contradizem a sabedoria do mundo. As bem-aventuranças mostram a radicalidade do reino de Deus. O reinado de Deus é seu tema central. Somente à luz do reino se pode entender as bem-aventuranças. O reino é dos pobres em espírito (v.3), ter uma conduta de acordo com esta opção, sendo perseguido por causa da justiça (v.10). Assim, se amontoa tesouros no céu, em vez de dinheiro na terra (Mt 6.24). O primeiro grupo de bem-aventuranças é composto de características passivas (choro, mansidão e falta de justiça, v.4-6), enquanto o segundo grupo é composto por características ativas (agir misericordiosamente, ter pureza de coração e promover a paz, v.7-9). Mt 5.13-16 descreve a característica dos membros do reino como meio de preservação (sal, v.13) e produção de ações concretas para que Deus seja glorificado, produzindo transformações (v.14-16). Mateus começa com o sermão do monte a primeira composição de discursos de Jesus. O mesmo ocorre em Lucas, mas com menos material. O reino de Deus é outorgado aos pobres, no sentido social e religioso, o que alia grande esperança com profunda reverência (Trilling, 1981, p. 60-62). Nas bem-aventuranças, A acentuação se desloca para o aspecto ético, para o comportamento do homem, para o imperativo, ainda que na doutrina de Jesus, à diferença da doutrina rabínica, a misericórdia de Deus jamais seja objeto de cálculos, mas sempre uma graça concedida livremente. Estes traços são característicos do texto de Mateus em seu conjunto; correspondem a uma época mais tardia e evoluída e, de modo geral, ao seu Evangelho. (Trilling, 1981, p. 66) Jesus não rechaça as necessidades materiais dos seres humanos, mas sim as coloca em melhor perspectiva: se deve buscar primeiro o reino de Deus e a sua justiça (Mt 6.33). É a partir daí que Jesus promete suprir nossas necessidades todas. A vinda do reino somente ocorre de uma forma conjugada com a justiça do reino de Deus. Isto cria uma nova relação com os seres 10 humanos, com os valores do reino e uma relação de dependência de Deus. O Deus justo não nos deixa indiferentes àqueles que sofrem injustiças. Deus é exigente e misericordioso. A característica de Jesus não é de neutralidade. Ele não foi passivo diante da injustiça. Sua mensagem exigia conversão e justiça. Ele via as multidões desamparadas e dispersas e tinha compaixão (Mt 9. 35-36). O Sermão do Monte (Mateus 5-7) mostra as demandas radicais de Jesus e do reino de Deus. Ele expressa a justiça e o arrependimento que pertencem ao reino de Deus. Ele mostra a diferença entre os cidadãos do reino e os que não são. Somente os que experimentaram o novo nascimento poderão cumprir as demandas do reino. A justiça de quem crê deve ser superior à dos escribas e fariseus (Mateus 5.20). As bem-aventuranças anunciam o contrário da sabedoria do mundo. Jesus convida ali a amontoar riquezas no céu, significa optar a favor de Deus e contra o dinheiro (Mateus 6.24). O Sermão do Monte trata profundamente da dimensão ética da vida cristã. A palavra ‘justiça’ é verdadeiramente a palavra-chave de todo o sermão da montanha. (...). Todo o sermão da montanha é regra de vida, orientação para o agir, fundamento para o agir, fundamento para a moral dos discípulos, tudo resumido no conceito central de justiça. (Trilling, 1981, p. 93) A mensagem do evangelho de Mateus se evidencia nas grandes composições de sermões, que são finalizadas com a expressão: “E aconteceu que, concluindo Jesus essas palavras” (7.28; 11.1; 13.53; 19.1; 26.1). A palavra de Jesus surge então como ponto culminante. (Lohse, 1972, p. 147). A perspectiva de Marcos sobre a missão acentua a verbalização da boa notícia, a exemplificação da boa nova, sendo que essa assume uma forma entre os judeus e outra entre os gentios. Para Jesus, o cristão se despede de todo tipo de segurança. O rico é para vender suas posses e distribuir entre os pobres. Jesus se dedicou aos marginalizados socialmente (Marcos 2.13-15), entre os quais se destacam as mulheres e as crianças (Marcos 10.1-16). A receptividade de Jesus para com as pessoas da periferia não se resume aos judeus. Marcos relata encontros de Jesus com não judeus e os choques com costumes judaicos sobre pureza e dieta (Marcos 6.7-8.10). Jesus estimulou o compartilhar voluntário e fraterno (Marcos 4.8; 6.44; 8.8, 19-20; 10.30). A fama de Jesus não se limitou à Palestina, mas se estendeu a Idumeia, Tiro, Sidon 11 (Marcos 3.7-8), Decápolis (Marcos 5.19-20). Dedicar-se aos gentios foi o programa do ministério de Jesus (Marcos 7.24-30). Foi em solo gentio que Pedro pronunciou a grande confissão (Marcos 8.27-29). O evangelho é para ser pregado a todas as nações (Marcos 13.10). Deus quer salvar a todos, sem tomar em conta quem são, judeus ou gentios, ricos ou pobres. Tanto judeus como gentios terão acesso à glória de Deus. A morte de Jesus começou a abrir os olhos dos opressores. O centurião, representando a opressão dos gentios, confessa “verdadeiramente este homem era filho de Deus”. Lucas reproduz o dito dizendo “Deveras, este homem era inocente” (Lucas 23.47). Não são os doutores da lei nem os detentores de poder no Sinédrio que têm este discernimento, mas um pagão oficial do pelotãoexecutor de Jesus. Além dele, José de Arimateia, membro do Sinédrio, solicita o cadáver de Jesus a Pilatos, o que indica sua abertura ao discipulado. O centurião e José de Arimateia são peregrinos não experientes. As mulheres parecem ser as que salvaram da ruína o projeto do discipulado. Elas seguiram e serviram Jesus. O sinal messiânico do serviço veio às mulheres, visto que os homens naquela época preferiam ser servidos. A comunidade de Marcos tinha muitas mulheres, as quais acolheram sua mensagem como boa nova (Cook; Foulkes, 1990, p. 357-360). A referência frequente ao “reino de Deus” em Mateus é decorrência da sua reverência para com “Deus”. O reino de Deus anunciado por Cristo não é libertação deste ou daquele mal, das dificuldades econômicas da gente, ou só do pecado. Não devemos estreitar o reino de Deus, reduzindo-o a um aspecto particular, já que o abarca tudo: o mundo, a pessoa humana e a sociedade, a totalidade da realidade haverá de ser transformada por Deus. (Boff, citado por Cevallos, 2006, p.187) O reino já irrompeu na história humana. Terá também uma dimensão futura (Mt 8.11; 22.2-10; 6.10). Por meio de Jesus, o reino se tornou uma realidade presente. Mateus usou cinquenta vezes a expressão “reino de Deus”, enquanto os outros evangelhos somados não alcançaram essa quantidade. O uso da expressão é crucial para a teologia da missão. O evangelho é absoluto para qualquer cultura e modelo social. O reino de Deus abrange o todo da existência. Jesus deseja estabelecer uma nova sociedade. Ser um discípulo de Jesus é entrar em um processo educativo com o fim de comprometer-se com Deus e com os valores do reino de Deus; 12 estes valores são antagônicos para quem traz as culturas e os reinos da presente era. Pela natureza dinâmica do Reino, é uma relação também dinâmica de dependência e seguimento para cumprir os propósitos que envolve ser parte da missão da comunidade messiânica, que é a proclamação da presença do reino de Deus entre os seres humanos. (Cevallos, 2006, p. 191-192) Ser discípulo é ser um seguidor. O que recebe o chamado para ser discípulo não está ingressando numa instituição educativa, mas para seguir uma relação de dependência e compromisso. Ocorre a adoção de um novo estilo de vida. A pessoa passa a ter uma relação de fidelidade com Jesus, de fidelidade para com os valores do reino de Deus. A missão da comunidade formada por Jesus é uma continuação de sua própria missão. Eles foram chamados para ser enviados. Não se pode buscar outra forma diferente de fazer missão que a forma que o próprio Jesus encomendou a seus discípulos. Esta pregação tem frutos somente pela certeza de que o reino de Deus já está presente. Porém, a missão só se pode expressar em uma nova forma de viver. (Cevallos, 2006, p. 194). NA PRÁTICA Na abordagem do Evangelho de Mateus se percebe que o evangelista fez uma mescla de elementos judaico-cristãos e helenísticos. Mateus apresentou a história do Jesus terreno a partir da experiência com o ressuscitado. O evangelista faz uso do Antigo Testamento, mostrando o cumprimento da lei através de Jesus Cristo. Assim, ele realizou a vontade de Deus. Mateus enfatizou a ética ensinada por Jesus. Outra ênfase do Evangelho de Mateus foi a paternidade de Deus, o que transparece também na forma de orar. Também vimos que os evangelhos são literatura de missão. Mateus desenvolve a teologia do reino apresentada por Jesus. FINALIZANDO Nesta aula, abordamos o Evangelho de Mateus. Somos chamados a uma nova relação com os seres humanos, com os valores do reino de Deus e a uma nova relação de dependência de Deus. Deus é descrito como exigente e misericordioso. Ele não nos deixa indiferentes àqueles que sofrem injustiças. O evangelho é absoluto para qualquer cultura e modelo social. O reino de Deus abrange o todo da existência humana. Jesus deseja estabelecer uma nova sociedade a partir da comunidade dos discípulos. 13 REFERÊNCIAS BERGER, K. Theologiegeschichte des Urchristentums. Tübingen; Basiléia: Francke Verlag, 1994. (UTB für Wissenschaft: Grosse Reihe) BORING, M. E. Introdução ao Novo Testamento: História, Literatura e Teologia. v. 2. Santo André: Academia Evangélica; Paulus, 2016. CEVALLOS A., Juan Carlos. La misión en los evangelios sinópticos. In: PADILLA, C. R.; SEGURA C. H. (ed.). Ser, hacer y decir: bases bíblicas de la misión integral. Buenos Aires: Kairós, 2006, p. 183-251. CHILDS, B. S. Teología bíblica del Antiguo y del Nuevo Testamento. Salamanca: Sígueme, 2011. (Biblioteca de Estúdios Bíblicos, 134) COOK, G.; FOULKES, R. Comentário Bíblico Hispanoamericano: Marcos. Miami: Editorial Caribe, 1990. JEREMIAS, J. Teologia do Novo Testamento: a pregação de Jesus. São Paulo: Paulinas, 1977. LOHSE, E. Introdução ao Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1972. SCHNELLE, U. Teologia do Novo Testamento. Santo André: Academia Cristã; Paulus, 2010. SIMONETTI, M. Evangelio según San Mateo (1-13). Madri: Ciudad Nueva, 2004. (La Biblia comentada por los padres de la Iglesia, Nuevo Testamento, 1a). SIMONETTI, M. Evangelio según San Mateo (14-28). Madri: Ciudad Nueva, 2006. (La Biblia comentada por los padres de la Iglesia, Nuevo Testamento, 1b). TRILLING, W. O anúncio de Cristo nos Evangelhos sinóticos. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 1981. (Nova coleção bíblica, 12) WRIGHT, N. T. A ressurreição do Filho de Deus. Santo André: Academia Cristã; Paulus, 2017.