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AULA 5 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
PSICOLOGIA APLICADA À 
PRÁTICA PASTORAL 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Tatiana Proença Isleb 
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COMO A PSICOLOGIA SE APLICA AO ACONSELHAMENTO PASTORAL 
Até o momento nesta disciplina pudemos ter uma breve noção de alguns 
temas pertinentes ao nosso interesse de estudo: o que é o ser-humano e como 
ele pode ser estudado, o que é a psicologia e como ela se apresenta como ciência 
e profissão, o que é a saúde e, mais especificamente, a saúde mental. Todo esse 
conhecimento nos traz base para o objetivo da nossa disciplina: entender como a 
psicologia se aplica à prática do aconselhamento pastoral. 
Foi necessário conhecer um pouco da psicologia para poder aplicar alguns 
preceitos dela. Precisamos ter em mente que isso não confere ao aluno a 
habilidade de ser “como um psicólogo, Mas lhe dá subsídio para compreender 
melhor quem procura sua ajuda e quando encaminhar para um especialista. 
Nesta aula observaremos um pouco da relação entre a psicologia e a 
religião – os pontos positivos e negativos para a saúde mental. Também, 
falaremos sobre dois elementos fundamentais, tanto para o psicólogo quanto para 
o conselheiro: o cuidado e a relação terapêutica. 
TEMA 1 – A PSICOLOGIA E A RELIGIÃO 
A relação entre as ciências que estudam a saúde mental, dentre elas a 
psicologia, e a religião tem sido conturbada, havendo hostilidades vindas dos dois 
lados. Como vimos, a psicologia tem seu berço na filosofia, em tempos ainda pré-
cristãos. Em paralelo, desenvolveram-se no Ocidente diversas religiões, das quais 
o Cristianismo se tornou proeminente. Durante a Idade Média o Cristianismo se 
apropriou da prática e desenvolvimento dos “saberes”, incluindo os que diziam 
respeito às ciências da saúde mental: psicologia, neurologia, psiquiatria – que 
eram ainda embrionárias e campos de interesse da Filosofia. 
A partir do período do Renascimento e do desenvolvimento das ciências – 
a busca de resultados verificáveis com base em métodos bem estabelecidos –, a 
Psicologia passa a buscar seu espaço como ciência. Por muitos anos psicologia 
e religião (leia-se toda expressão religiosa, não apenas o cristianismo) pareceram 
irreconciliáveis. Alguns autores das áreas da saúde mental defenderam que a 
religião seria causadora de patologias e neuroses (Becker, 2003). Por outro lado, 
as religiões, em particular o cristianismo, se distanciaram dos profissionais e das 
pesquisas sobre saúde mental. 
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Considerando que nossa disciplina é voltada ao aconselhamento pastoral, 
vamos nos deter no cristianismo em alguns momentos do nosso estudo. Contudo, 
isso não exclui a necessidade de se compreender a relação das outras religiões 
ocidentais com o tema estudado, afinal nosso país tem sua cultura toda permeada 
por significados religiosos (Dalgalarrondo; Siegel; Barros, 2008). 
Na história do Cristianismo estão presentes diferentes movimentos que 
perpetuaram diferentes concepções a respeito das doenças físicas e mentais. Por 
um lado, um grupo de religiosos prega que o cristão deve se submeter a todo tipo 
de enfermidade e sofrimento, em postura de louvor a Deus, pois tudo vem dele. 
No outro extremo estão aqueles cristãos que acreditam que pela fé é possível pôr 
fim a todas as enfermidades e problemas. Para alguns destes, todo sofrimento 
provém de Satanás e, para alguns, deve ser combatido somente com a fé. 
Em ambos os lados é possível encontrar pessoas que acreditam e 
defendem que cristãos não devem ficar deprimidos e que a consulta a médicos 
especializados em saúde mental, principalmente incrédulos, seria um sinal de que 
não se está de acordo com os ensinamentos bíblicos (Becker, 2003). Entretanto, 
uma leitura cuidadosa dos textos bíblicos e o conhecimento da história do 
cristianismo revela que mesmo pessoas notáveis e cheias de fé foram acometidas 
por momentos de depressão, por exemplo: Elias, Jó, Jeremias, Martinho Lutero e 
Charles Spurgeon (Becker, 2003). 
Por outro lado, não há dúvidas de que o caráter caridoso do Cristianismo, 
ontem e hoje, contribuiu historicamente para o cuidado dos enfermos, inclusive 
em situações de doença mental. Por essa razão existem muitos estudos que 
relacionam positivamente a religião e a saúde mental (Paiva, 2007). 
Segundo Paulo Dalgalarrondo, proeminente pesquisador sobre esse tema, 
a religião representa uma contradição, pois proporciona libertação e 
aprisionamento, às vezes ao mesmo tempo (Dalgalarrondo; Siegel; Barros, 2008). 
Reconhecer isso nos interessa muito, pois precisamos refletir sobre nossa prática 
como conselheiros, para que possamos utilizar no aconselhamento os elementos 
libertários do cristianismo, favorecendo e fortalecendo a saúde mental das 
pessoas que nos procuram. Conhecer os pontos que desfavorecem ou prejudicam 
a saúde mental das pessoas não deve ser recebido como uma afronta às crenças 
pessoais de ninguém, mas como uma oportunidade de enriquecer suas 
habilidades e, por que não, reconhecer seus pontos fracos. 
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TEMA 2 – A RELIGIÃO COMO FATOR DE PROTEÇÃO OU FATOR DE RISCO 
PARA A SAÚDE MENTAL 
Se fizermos uma pesquisa rápida encontraremos numerosos relatos de 
estudos sobre a correlação entre religião e saúde mental. Muitos deles têm 
apontado que a religiosidade, ou espiritualidade, traz resultados positivos à saúde 
mental. Diante da discórdia aparente entre os meios acadêmicos e científicos com 
os meios religiosos, esses resultados parecem ser surpreendentes. 
Surpresos ou não, existem muitas evidências empíricas (Panzini; Bandeira, 
2007) sobre essa relação, demonstrando que práticas religiosas estão associadas 
com: 
Quadro 1 – Relação entre práticas religiosas e saúde física e mental 
Melhor saúde física e mental, citando melhora percebida das seguintes condições: dor, 
debilidade física, doenças do coração, pressão sanguínea, infarto, funções imune e 
neuroendócrina, doenças infecciosas, câncer e índices de mortalidade; 
Maiores níveis de satisfação de vida, bem-estar, senso de propósito e significado de vida, 
otimismo, esperança; 
Menores índices de ansiedade, depressão e uso/abuso de substâncias; 
Menos exposição a comportamentos de risco, atividades sexuais extramaritais, delinquência, 
crimes e suicídio. 
Fonte: Panzini; Bandeira, 2007. 
Portanto, baseados nesses estudos, podemos afirmar que a religião é um 
fator de proteção à saúde física e mental, ao favorecer comportamentos positivos. 
Afinal, ela é capaz de dar significados positivos às experiências de vida e diminuir, 
por meio do controle social, comportamentos prejudiciais e socialmente 
inaceitáveis. O envolvimento em uma comunidade religiosa1 está relacionado a 
aumento do senso de propósito e significado da vida, conferindo à pessoa 
religiosa resiliência ao estresse; além da interação positiva com outras pessoas 
da mesma fé. 
Por outro lado, a religião pode ser um fator de risco, pois pode ter um efeito 
adverso sobre a saúde física e mental. Isso pode acontecer quando: 
Quadro 2 – Relação entre práticas religiosas e saúde física e mental 
Comportamentos ruins ou prejudiciais à saúde são justificados por crenças ou práticas 
religiosas; 
 
1 Não utilizamos aqui o termo igreja, pois não estamos nos referindo apenas ao Cristianismo. As 
pesquisas citadas referem-se ao comportamento religioso como um todo, sem fazer distinção entre 
as diversas religiões das pessoas que faziam parte dos estudos. 
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Práticas religiosas substituem o cuidado médico especializado; 
A religião é usada para infligir culpa, vergonha, medo ou justificar a raiva ou agressão; 
A religião se torna restritiva e limitante, isolando socialmente as pessoas através do controle 
social. 
Fonte: Panzini; Bandeira, 2007. 
Ao ler a tabela acima é possível que algumas práticas religiosas, 
principalmente de outras religiões que não são o Cristianismo, tenham passado 
por sua mente. Contudo, convido você a refletir sobre as práticas cristãs e como 
elas têm sido vividas por você e seus irmãos de fé. Pois muitas vezes 
normalizamos aquilo que nos faz mal ou prejudica a outros, em nome da fé. Mas 
resgatemos as palavras de Jesus: a verdade liberta (João 8:32) e mesmo que o 
tenhamos conhecido, estamos sendo transformados diariamente pela ação do 
Seu Espírito (Romanos 12:2). Se desejamos aconselhar pessoas em sofrimento, 
precisamos corrigir as ações que podem ser prejudiciais. 
TEMA 3 – COPING RELIGIOSO 
Um dos temas recentes sobre a relação entre saúde mental e 
religião/espiritualidade é o coping religioso. Cope significa “lidar”, coping seria o 
processo de lidar e enfrentar situações. O estudo cognitivista do estresse tem 
utilizado o termo coping skills para estudar e melhorar a forma como as pessoas 
enfrentam situações estressantes. Parte das pesquisas sobre esse tema tem sido 
sobre como as pessoas utilizam recursos da religiosidade para enfrentar essas 
situações e quais os resultados disso. 
Conforme já vimos nas aulas anteriores, o estresse psicológico é natural e, 
em parte, saudável. Ele é a mobilização do nosso corpo, das nossas emoções e 
dos nossos pensamentos para reagir a uma situação considerada ameaçadora ou 
desagradável. O estresse psicológico se torna prejudicial quando é muito intenso, 
além do que os recursos pessoais conseguem manejar, ou quando é prolongado, 
tornando crônicos alguns sintomas. 
As “ferramentas” que cada pessoa utiliza para enfrentar situações de 
estresse chamamos de estratégias de coping (Panzini; Bandeira, 2007). 
Imagine uma situação do cotidiano que é estressante para você. Enfrentar 
o trânsito, manter a rotina, realizar uma parte difícil do seu trabalho ou lidar com 
um imprevisto, por exemplo. O que você faz para “manter o foco” e encontrar 
tranquilidade durante essa situação? Algumas vezes nós utilizamos estratégias 
comportamentais: ligamos uma música relaxante, conversamos ou desabafamos 
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com pessoas queridas, respiramos profundamente, tomamos um banho quente 
etc. Ao mesmo tempo, utilizamos estratégias que chamamos de “cognitivas”: 
procuramos distrair nossos pensamentos, lembramos de momentos bons, 
criamos imagens mentais de como gostaríamos que as coisas acontecessem, 
repetimos mentalmente frases que um dia ouvimos e nos ajudaram em outras 
situações. Isso tudo é o que chamamos de coping. 
Quando utilizamos recursos da fé2 para lidar com situações de estresse 
para facilitar a resolução de problemas e aliviar emoções negativas, estamos 
fazendo coping religioso. Dessa forma as pessoas encontram “significado, 
controle, conforto espiritual, intimidade com Deus e com outros membros da 
sociedade e transformação de vida” (Panzini; Bandeira, 2007). 
3.1 Estratégias de Coping Religioso – positivas e negativas 
Apesar de serem utilizadas para enfrentamento das situações de estresse, 
nem todas as estratégias de coping são benéficas. Por exemplo, o uso de drogas 
é uma estratégia de coping que traz consequências negativas, apesar do alívio 
momentâneo. Você consegue pensar nas estratégias que você utiliza e perceber 
quais são prejudiciais? Comer doces ou comidas gordurosas, isolar-se das 
pessoas que nos querem bem, dirigir de forma imprudente, fazer compras de 
forma impulsiva – esses são alguns exemplos de estratégias que algumas 
pessoas utilizam para enfrentar situações estressantes, mas que podem trazer 
consequências ruins. 
O coping religioso também apresenta estratégias consideradas positivas e 
negativas. As positivas são aquelas que fortalecem a saúde mental e 
proporcionam efeitos benéficos, como: procurar amor e proteção de Deus, buscar 
na fé força e determinação para resolver problemas, envolver-se com outras 
pessoas por um bem comum e entregar a solução a Deus depois de fazer tudo o 
que podia. 
As estratégias de coping religioso negativas são aquelas que, de alguma 
forma, prejudicam a pessoa que as utiliza. Assim como o consumo exagerado de 
açúcar pode não trazer muitos malefícios, se associado a outras práticas 
positivas, as práticas religiosas consideradas negativas não invalidam o potencial 
benéfico da religião/espiritualidade. Mas conhecê-las é importante, pois isso nos 
 
2 Para os autores desses estudos, a fé compreende a religião, a espiritualidade em geral e as 
crenças pessoais. 
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ajuda a dar direção a quem nos procura para aconselhamento, de forma que 
utilizem bons recursos, no lugar daqueles que podem ser prejudiciais. 
As estratégias negativas estão associadas à desesperança, culpa e 
resignação. É quando, diante da situação estressante, a pessoa tem pensamentos 
e atitudes negativas em relação a Deus, a si mesmo e aos outros. Podemos citar 
pensamentos como: “Deus não se importa/não existe”, “Deus está me castigando” 
ou “o mal está agindo contra mim”; e comportamentos como: afastar-se do grupo 
de fé que tem sido sua rede de apoio, engajar-se em comportamentos impulsivos 
ou destrutivos motivados pela culpa, deixar de procurar ativamente uma solução 
para seus problemas, aguardando um milagre. 
TEMA 4 – ELEMENTOS DE CURA – O CUIDADO 
Ao longo de todo o seu tempo de existência a Psicologia vem acumulando 
um repertório vasto sobre o ser humano e sobre técnicas de terapia para atuação 
em saúde mental e outras áreas. Apesar de tanto conhecimento desenvolvido 
existem elementos que são essenciais para que essas técnicas sejam eficazes 
nos tratamentos e intervenções. Eles não são restritos à atuação dos psicólogos, 
são partilhados por qualquer pessoa que se coloque na condição de oferecer 
ajuda a outra pessoa. 
Na essência, o trabalho terapêutico é o encontro entre duas pessoas – o 
cuidador e a pessoa que necessita de cuidados. É muito fácil nos perdermos na 
infinidade de teorias e técnicas disponíveis ou nos colocarmos em uma posição 
fria e distante como conselheiros. Mas devemos nos lembrar sempre que 
aconselhar é parte de algo maior, que chamamos de cuidado. 
O cuidado é um dos elementos terapêuticos de diversos ofícios, como da 
enfermagem, da psicologia ou do aconselhamento religioso. Ele tem a conotação 
de preocupação ou responsabilidade por alguém, de agir e observar com afeto 
(Waldow, 1992). 
A igreja cristã, a exemplo do próprio Cristo, testemunhou vigorosamente de 
sua fé por meio do cuidado aos enfermos, aos marginalizados e aos carentes 
(Paiva, 2007). O amor ao próximo é propulsor de atos de caridade ao longo de 
toda a história do cristianismo. Nos primeiros séculos da história da igreja cristã 
algumas formas de cuidado foram bastante marcantes, tais como: a ceia do amor, 
que era servida diariamente juntamente com a ceia do Senhor e alimentava 
multidões; a solidariedade em situações emergenciais, quando todos dividiam o 
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que tinham, para atender aos desprovidos; a hospitalidade, oferecida aos 
ministros do evangelho, ao estrangeiro e ao viajante, provendo o cuidado por 
poucos dias; asofertas financeiras que, durante o Império Romano, chegaram a 
abastecer um caixa único que sustentava mais de 15 mil pessoas, dentre elas 
viúvas e doentes; a prática do sepultamento dos mortos em guerras e por pestes, 
que além de ter um caráter sanitário e erradicar algumas das pestes, demonstrou 
o cuidado pela dignidade (Neto, 2015). 
O aconselhamento pastoral segue o exemplo histórico da igreja cristã no 
cuidado ao próximo. Sem o caráter de cuidado, na intenção de agir em favor do 
outro, o aconselhamento – bem como a psicoterapia – podem assumir um formato 
frio e hierárquico. 
Carl Rogers, psicólogo humanista e criador da abordagem terapêutica 
centrada na pessoa, relacionou o cuidado ao amor (Waldow, 1992). Para ele, o 
cuidado acontece no encontro entre duas pessoas, permeado de compreensão e 
aceitação, além do amor. Como elemento fundamental do cuidado terapêutico – 
seja em aconselhamento, ou psicoterapia, ou na relação médico-paciente – o 
cuidado deve ser o ponto de partida, o meio e o objetivo final. 
TEMA 5 – ELEMENTOS DE CURA – RELAÇÃO TERAPÊUTICA 
Outro elemento fundamental para uma ação terapêutica eficaz diz respeito 
à relação entre o cuidador e a pessoa recebendo cuidados. Uma alma humana 
tocando outra alma humana, como dizia Carl Jung. Essa relação é limitada pelo 
tempo, espaço e condições de cada pessoa da relação – não exige intimidade 
absoluta. Quando nos colocamos na posição de cuidar de alguém e de suas 
necessidades o elemento mais importante é a nossa presença – mais importante 
do que qualquer técnica ou recurso teórico que tenhamos aprendido. 
Estar nessa relação de cuidado é estar com a pessoa, no mundo dela, com 
os pensamentos voltados para ela. É estar aberto para, junto com ela, passar por 
um processo de descoberta e de aprendizagem mútua. É um “uso terapêutico do 
eu”, quando mobilizamos toda a nossa atenção e afeto para estar ali e 
compreender a outra pessoa, na intenção de cuidar dela. 
A posição de conselheiro pode ser, em algumas situações, utilizada como 
um artifício de autoridade, e acabamos por nos colocar como “superiores” e 
detentores do conhecimento, enquanto a pessoa aconselhada é aquela que 
recebe passivamente nossos conselhos. Ainda temos em nossa cultura a ideia de 
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que não podemos nos envolver emocionalmente com as pessoas que atendemos, 
mas esse distanciamento é justamente o contrário do que estamos falando aqui. 
Para que essa relação seja de fato terapêutica, ela necessita de alguns 
ingredientes: 
Quadro 3 – Ingredientes para uma relação terapêutica 
Conhecimento É necessário conhecer o outro, seus poderes e limitações, suas 
necessidades. Também é fundamental ter conhecimento sobre o “como” 
cuidar – aí entram as técnicas e fundamentação teórica da nossa ação 
como cuidadores. Esse conhecimento é inesgotável, por isso precisamos 
nos esforçar para aprender e atualizar nossos recursos sempre. 
Honestidade Ser honesto é agir de forma franca. É estar aberto para o outro. Também, 
aberto para si, reconhecendo os próprios sentimentos que essa relação de 
cuidado desperta em si – às vezes medo ou raiva podem surgir e 
precisamos ser honestos conosco sobre isso, para aprendermos a agir 
nessas situações. Às vezes precisaremos ser francos com a pessoa que 
está recebendo cuidado a respeito dos nossos sentimentos. Podemos 
achar que somos capazes de esconder como nos sentimos e sermos 
totalmente neutros, mas a pessoa que está nessa relação de cuidado 
conosco é capaz de notar como estamos – afinal, é uma relação. E 
esconder ou negar isso pode comprometer a confiança. 
Confiança É preciso que haja confiança mútua. A pessoa que recebe o cuidado precisa 
confiar em seu cuidador. E, por outro lado, o cuidador precisa confiar que o 
outro é independente e capaz de crescer, no seu próprio ritmo e época. 
Confiar é também apreciar o outro, por suas características positivas e 
acreditar que elas lhe permitem receber cuidado e desenvolver 
autocuidado. 
Humildade É preciso muita humildade para reconhecer que precisamos estar em 
contínua aprendizagem; que podemos aprender muito com a pessoa que 
está sendo cuidada; e para reconhecer nossas limitações pessoais. Em 
algumas situações teremos que reconhecer que não somos suficientes para 
atender àquela pessoa e precisaremos adicionar outras pessoas à relação 
de cuidado. 
Compromisso Na relação de cuidado precisamos assumir a responsabilidade por nossas 
próprias ações e reconhecer o risco das nossas decisões. Isso faz parte do 
compromisso que pactuamos com a pessoa que se entrega ao nosso 
cuidado. 
Fonte: Santos, 2005. 
Na relação de cuidado precisamos nos observar sempre, para que a 
relação seja de fato terapêutica. Heidegger, filósofo alemão, sugere que existem 
dois tipos de cuidado: 
 Aquele que ele chama de “assumir pelo outro”: é quando nos 
responsabilizamos integralmente pela outra pessoa, sem considerar que 
ela possui capacidades e potencialidades para cuidar de si em vários 
aspectos. Esse tipo de cuidado resulta em dependência da pessoa cuidada 
pelo cuidador. 
 O “cuidado autêntico”: esse tipo de cuidado oferece à pessoa que é ajudada 
a oportunidade de cuidar de si, na medida que é possível. Acontece quando 
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o cuidador reconhece no outro a potencialidade que tem e o ajuda a cuidar 
de si. É um cuidado criativo, que oferece ajuda de acordo com as 
particularidades e necessidades de cada pessoa em particular. 
Quando nos esforçamos para oferecer um “cuidado autêntico”, zelando 
pelos ingredientes fundamentais da relação terapêutica, favorecemos e 
restabelecemos o comportamento de autocuidado da pessoa que procura nossa 
ajuda. Isso contribui para estimular a pessoa a buscar sempre sua completude 
como ser humano. 
Portanto, além de qualquer técnica utilizada, precisamos zelar para que 
nossa postura como conselheiros seja terapêutica – ou seja, que estejamos 
usando a nós mesmos como fonte de cuidado do outro, com nossa atenção, nossa 
empatia, nossos recursos. Precisamos observar também qual tipo de cuidado 
estamos oferecendo, para que não venhamos a reforçar a dependência, mas 
sempre estimular a autonomia daquele que cuidamos. 
 
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REFERÊNCIAS 
BECKER, M. C. Aconselhamento Pastoral na Depressão: uma análise psico-
teológica do aconselhamento pastoral diante da depressão. 247f. Dissertação 
(Mestrado em Ciências Médicas) – UNICAMP, Campinas-SP, 2003. Disponível 
em: 
. Acesso em: 20 set. 2019. 
DALGALARRONDO, P.; SIEGEL, P.; BARROS, N. F. De. Religião, 
Psicopatologia e Saúde Mental. Porto Alegre: Artmed, 2008. 
NETO, R. G. Diaconia e cuidado nos primeiros séculos do cristianismo. Estudos 
Teológicos, v. 55, n. 2, p. 316-332, 2015. 
PAIVA, G. J. De. Religião, enfrentamento e cura: perspectivas psicológicas. 
Estudos de Psicologia, v. 24, n. 1, p. 99-104, 2007. 
PANZINI, R. G.; BANDEIRA, D. R. Coping (enfrentamento) religioso/espiritual. 
Revista de Psiquiatria Clínica, v. 34, supl. 1, p. 126-135, 2007. Disponível em: 
. Acesso em: 20 set. 
2019. 
SANTOS, C. B. Abordagem centrada na pessoa: relação terapêutica e processo 
de mudança. Revista do Serviço de Psiquiatria do Hospital Fernando 
Fonseca, p. 18-23, 2005. 
WALDOW, V. R. Cuidado: uma revisão teórica. Revista Gaúcha de 
Enfermagem, v. 13, n. 2, p. 29-35, 1992. 
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