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Módulo 4 Bioética e Deontologia em Odontologia 1 INTRODUÇÃO Como foi visto no módulo 3, o Código de Ética Odontológico impera os direitos e deveres dos profissionais da saúde. Possível notar que um dos artigos destaca o compromisso dos profissionais com o meio ambiente. Art. 2°. A Odontologia é uma profissão que se exerce em beneficio da saúde do ser humano, da coletividade e do meio ambiente, sem discriminação de qualquer forma ou pretexto (BRASIL, 2012). Mas, como a odontologia pode gerar problemas ao individuo e ao meio ambiente? Neste módulo, vamos observar o potencial impacto da odontologia nos dois âmbitos humano e ambiental. 2 ODONTOLOGIA E O MEIO AMBIENTE A odontologia utiliza materiais que são tóxicos, metais pesados e combinações químicas, ao individuo e ao meio ambiente. Além disso, a prática odontológica conta com a presença de fluidos biológicos (sangue e saliva). Dentro desse contexto, esses materiais são chamados de Resíduos de Serviços de Saúde (RSS) (CHAVES, 2002; HOYOS et al., 2008; HILTZ, 2007). Vários são os materiais pesados encontrados na odontologia. O material mais conhecido na odontologia pela sua toxicidade é o mercúrio (Hg) (FIGURA 1), que faz parte da composição do amálgama dentário (FIGURA 2). Seu uso foi submetido a legislação e está na lista criada pela U.S. Environmental Protection Agency (EPA) de poluentes atmosféricos mais tóxicos aos seres humanos (SCHHUTE et al., 1994). O mercúrio é encontrado no meio ambiente sendo a forma metálica ou elementar a mais prejudicial a saúde daqueles que trabalham com o metal. Isso ocorre devido sua volatilização a partir de 12°C. Como a sua evaporação é inodoro e incolor, as pessoas tendem a inalar sem perceber (ATSDR, 1999; ANUSAVICE, 2005; PÉCORA, 2003). Em nível de toxicidade, a exposição humana a esse metal é de origem ocupacional e por via inalatória. Destaca-se os profissionais da odontologia que manuseavam o mercúrio para a obtenção do material restaurador o amálgama de prata. No ambiente odontológico, o meio de contaminação é pela inalação devido a falta de higiene e ventilação inadequada no local de manipulação do amálgama, falhas na refrigeração durante a remoção de restaurações de amálgama, além do derramamento acidental de gotas de mercúrio nos consultórios, e o possível contato do metal com a pele (PÉCORA, 2003; SILVA et al., 2004). O mercúrio é 14 vezes mais denso que a água. Dessa forma, apenas uma pequena gota de mercúrio apresenta quantidade suficiente para saturar o ar de um consultório do tamanho padrão (ANUSAVICE, 2005). O efeito cumulativo do mercúrio no individuo pode atingir o sistema nervoso e os rins (CRAIG, 2006; OMS, 2005; SCHHUTE, 1994; WHO, 2003). A doença relatada a partir do efeito do mercúrio é o mercurialismo marcando o paciente com estomatites (gengivite, sialorreia e linha escura na gengiva marginal), eretismo (mudanças de comportamento e de personalidade: neurastenia, aumento de excitabilidade e irritabilidade, depressão, déficit de memória, delírios, alucinações, melancolia suicida, psicose maníacodepressiva) e tremores. Em nível ambiental, a contaminação do meio ambiente pode ocorrer devido a forma de armazenamento e descarte inadequados. A Organização Mundial da Saúde (OMS) relatou que já houve descarte de 7,41 mil toneladas de mercúrio ao meio ambiente (OMS, 2005). Devido aos efeitos tóxicos ao indivíduo e ao meio ambiente, muitos países proibiram o uso desse metal ou diminuíram o uso do mesmo. No Brasil, o amálgama de prata é muito utilizado pela sua eficácia, eficiência que envolvem o custo e benefício. Retirá-lo de uso, pode gerar um impacto negativo significativo para a saúde bucal dos indivíduos. Então, pela resolução, “RDC Nº 173, de 15/09/2017, o Brasil proíbe o uso do mercúrio e do pó metálicos para confecção de amálgama em serviços de odontologia, exceto quando contidos em cápsulas pré-dosadas (FIGURA 3)” (BRASIL, 2017). Figura 2: Dente restaurado com amalgama dentária (COSTA, 2018) Figura 1: Metal pesado Mercúrio (Hg) (TORRES, 2017) Figura 3: Cápsulas de amálgama (SDI, 2020) Segue abaixo, para a complementação do texto e para ajuda-los a realização do fórum, o artigo intitulado “O amálgama dentário e seu papel na Odontologia atual”. http://revodonto.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-72722016000100013 Outro material dentro da odontologia que é considerado tóxico ao meio ambiente é a película radiográfica. Esta é composta por filme, lâmina de chumbo, papel preto e envelope (FIGURA 4). O filme radiográfico apresenta a base de poliéster, que é encoberta por um ou ambos os lados com gelatina impregnada de sais halogenados de prata, a qual forma a parte sensível do filme. Sobre ela, há uma capa protetora de gelatina. A exposição do filme à radiação ioniza os cristais de brometo de prata, formando uma imagem latente e iniciando um processo que será concluído através do tratamento químico do filme, com redução dos íons de prata a prata metálica ou prata pura, e formação de bromo ou outras substâncias (FREITAS; ROSA; SOUZA, 2004; FERNANDES et al., 2005). As radiografias insatisfatórias e as lâminas de chumbo são consideradas resíduos sólidos do grupo B, categoria esta para resíduos que contêm metais pesados ou substancias químicas que apresentem riscos à saúde pública e ao meio ambiente. Os materiais que estão dentro dessa categoria podem apresentar características de inflamabilidade, corrosividade, reatividade e toxicidade. Por esse motivo é necessário fazer o gerenciamento seguindo os protocolos instituídos. Além da película radiográfica, existem os efluentes gerados a partir do processamento radiográficos como o líquido revelador e fixador, a água de lavagem dos filmes radiográficos (FIGURA 5). Consistem em soluções com altas concentrações de prata, hidroquinona, quinona, metol, tiossulfato de sódio, sulfito de sódio e ácido bórico, além de outros químicos altamente tóxicos à saúde ambiental e humana, como cianeto, cloreto, ferro, fósforo total, nitrogênio total e sulfito (FERNANDES; AZEVEDO; CARVALHO, 2005; HOCEVAR; RODRIGUEZ, 2002). As soluções fixadoras usadas devem ser submetidas a recuperação dos íons prata ou serem acondicionadas em recipientes identificados com o símbolo de risco associado conforme a NBR 7.500 e encaminhados ao Aterro Sanitário Industrial para Resíduos Perigosos ou ser submetidos a tratamento de acordo com as orientações do órgão local do meio ambiente. Já para o revelador do filme radiográfico, a neutralização desse líquido com soda muriática ou ácido acético com acréscimo de água é necessária. Um exemplo de neutralização seria para cada 1 litro de revelador, 10 litros de água e 100 ml de vinagre comum (MENDES, 2006). Com a finalidade de aprofundamento no assunto e ajudá-los na resolução do fórum, leiam o texto abaixo intitulado “Gerenciamento dos resíduos radiológicos em consultórios odontológicos da cidade de Pelotas (RS, Brasil)” http://revodonto.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516- 09392012000400006&lng=es&nrm=iso Além das questões envolvidas com os materiais tóxicos utilizados na odontologia, bem como o seu gerenciamento, outras estratégias ecológicas dentro do consultório também estão relacionadas com a responsabilidade do cirurgião-dentista como questões que envolvam o consumo de água, papel e eletricidade (AVINASH et al., 2013). Nos Estados Unidos da América, foi criado pelo Oral Dental Sudio, o termo Eco-Friendly, pautado no modelo 4R: reutilizar, reduzir, repensar (AVINASH et al., 2013). O que seria reutilizar dentro do contexto do consultório odontológico? Está relacionado com o uso de instrumentais reprocessáveis, de aço inoxidável (AL-QARNI MA et al., 2016). O que seria reduzir dentro desse contexto no consultório odontológico? Reduzir consumo de água,de energia, minimizar o uso de materiais que impactam no meio ambiente, material de consumo de escritório. Como fazer isso, verificando medidas sustentáveis existentes hoje. O que seria repensar? Repensar nos materiais utilizados, na adoção de tecnologias que diminuem o impacto ao individuo e ao meio ambiente. Figura 5: Câmera escura com materiais químicos para revelação da radiográfica odontológica Figura 4: Película radiográfica Quais são essas medidas sustentáveis? Para minimizar os resíduos químicos obtidos a partir das radiografias, a adoção da técnica digital seria a melhor escolha. Porém, o alto custo do equipamento pode desencorajar os cirurgiões- dentistas a investirem no equipamento. Na eficiência da iluminação do consultório, construção do consultório com aproveitamento máximo da luz natural, bem como a utilização de lâmpadas de Led com o potencial de 80% na redução do consumo, além de utilizar nas dependências do consultório os sensores de movimentos. O sistema elétrico também deve estar de acordo com o planejamento de equipamentos odontológicos, com tomadas bem localizadas para evitar extensões externas e benjamins (T). Estas podem danificar os equipamentos odontológicos. Além disso, importante verificar de forma periódica as instalações elétricas a fim de evitar fluxo anormal de energia e gasto no consumo da mesma. Pensando em outra situação sustentável é na eficiência de aparelhos eletrônicos como ar condicionados, ventiladores, geladeiras, televisores, computadores. Em lugares permitidos pela biossegurança como recepção, e em dias mais frescos, adotar ventiladores. Em caso de uso de ar condicionado, fazer manutenção e troca de filtros. Na escolha por televisões, aparelhos de sons, importante observar aqueles com baixo consumo de energia e não deixar em standby. Além desses, é preciso atentar-se ao uso de computadores. Quando o cirurgião-dentista não estiver utilizando, importante desliga-lo. CURIOSIDADE: 80% dos resíduos odontológicos não são infecciosos (papel toalha, embalagens de produtos, envelopes, sacolas, gessos, lâminas de chumbo do filme radiográfico) e resíduos semelhantes ao doméstico (caneta, escova de dente, copo descartável) (VIEIRA et al., 2009; AVINASH et al., 2013) Nas medidas sustentáveis, também está dentro desse quesito a eficiência dos motores de alta e baixa rotação como a manutenção periódica para garantir seu desempenho. Além do próprio motor, importante a manutenção periódica das bombas e elevadores e outros equipamentos envolvidos no funcionamento do motor. Em relação a cadeira odontológica, preferir a automática e atentar-se na posição de trabalho e volta a zero despende menos tempo na movimentação, consumindo menos energia. Desligamento do refletor ao fazer procedimentos externos, uso dos sugadores quando necessário tambem são medidas sustentáveis. Em relação a autoclave, sempre utilizá-las com a capacidade máxima para evitar ciclos e alto consumo de energia. Abaixo segue o link do artigo intitulado “Estratégias de Sustentabilidade na Prática Odontológica” https://apcdaracatuba.com.br/revista/v32n12011/TRABALHO6.pdf Assistam aos vídeos sobre sustentabilidade odontológica a partir do link abaixo para fixar melhor o aprendizado (ATENÇÃO: os vídeos inseridos não tem caráter de propaganda de estabelecimento). https://www.youtube.com/watch?v=_TuFEg3LZVc https://www.youtube.com/watch?v=8RJOjM40m-4 3 GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS ODONTOLÓGICO O gerenciamento de resíduos odontológicos está relacionado com o manejo dentro e fora do estabelecimento incluindo desde a sua geração ao seu descarte (TAKADA, 2003). A responsabilidade por esse processo é do profissional que gerou o resíduo. O gerenciamento é compreendido por etapas como geração; segregação; descarte; acondicionamento; identificação; tratamento preliminar; coleta interna; transporte interno; armazenamento temporário e externo; higienização, e segurança ocupacional (BRASIL, 2004). A segregação é a operação da separação do resíduo no momento da geração. Esta fase é básica para o sucesso do processo de manejo do material. De acordo com a NBR nº. 12.809, todos os profissionais envolvidos no serviço de saúde devem ser capacitados para segregar adequadamente os resíduos e reconhecer o sistema de identificação (CASTILHO; SOARES, 1998). Com a segregação realizada de forma correta, muitos benefícios serão vistos, tais como (SILVA, HOPPE, 2005): • “Redução dos riscos para a saúde, impedindo que os resíduos com risco biológico, que geralmente são frações pequenas, contaminem outros resíduos gerados no estabelecimento de saúde”; • “Permite que alguns produtos dos resíduos comuns possam ser reutilizados ou reciclados”; • “Diminuição de custos, pois será encaminhada para tratamento especial apenas uma fração dos resíduos gerados”. Os estabelecimentos de saúde devem elaborar o seu Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde (PGRSS) embasado na Resolução n°222/18. Para a segregação dos resíduos, devem seguir a classificação de resíduos do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). Conforme essa classificação, os resíduos gerados pelas práticas odontológicas se enquadram em uma classificação: grupos A (biológicos), B (químicos) e C (Radiotivos) D (domiciliares) e E (resíduos perfuro-cortantes). Para uma leitura complementar sobre o assunto, leiam o artigo intitulado “Resíduos dos serviços de saúde: conhecimento sobre a geração e responsabilidade dos formandos em Odontologia das faculdades de Santa Catarina” http://revodonto.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1516-09392015000400004&script=sci_arttext Quadro 1: Classificação de resíduos dos serviços odontológicos (BRASIL, 2004; BRASIL, 2005) Diante de tudo que foi exposto, responda? O cirurgião-dentista (CD), bem como todos os profissionais da saúde bucal tem dever de adotar a odontologia sustentável? É certo e coerente ter um artigo que aborde sobre essa temática no código de ética? É importante ter clareza de que o cirurgião-dentista, os profissionais da saúde bucal, bem como os estudantes de odontologia tem o dever de manusear seu ambiente de trabalho com segurança tanto para o indivíduo/paciente quanto ao meio ambiente, beneficiando o coletivo. O conhecimento sobre os materiais tóxicos e a forma de gerenciá-los, os meios de conter desperdício de energia e água, de evitar problemas no equipamento são fundamentais para construir uma odontologia ecologicamente sustentável. “Devemos ser bons. Não existe esforços inúteis quando empregados em prol da coletividade” (Getúlio Vergas) REFERÊNCIAS BRASIL. CONSELHO FEDERAL DE ODONTOLOGIA. CÓDIGO DE ÉTICA ODONTOLOGICO [Internet]. Brasilia: CFO; 2012 [capturado em 08 de março de 2021]. Disponível em https://website.cfo.org.br/codigos/POTTER, V. R. Bioethics, the science of survival. Perspect. Biol. Med. 1970; 14:127-153. CHAVES L. C. Acondicionamento inadequado de materiais perfurocortantes: risco potencial à saúde humana e ambiental. Arq Méd ABC. 2002; 26(3):44-50. HOYOS, A.; COBO, M.; ARISTIZÁBAL, B.; CÓRDOBA, F.; MONTES DE CORREA, C. 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