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Disciplina | Introdução www.faculdadefocus.com.br | 1 ANÁLISE DO COMPORTAMENTO: PRINCÍPIOS BÁSICOS Unidade 01 Ciência do Comportamento Análise do Comportamento: princípios básicos | Sumário | 2 O Grupo Focus de Educação se responsabiliza pelos vícios do produto no que concerne à sua edição (apresentação a fim de possibilitar ao consumidor bem manuseá-lo e lê-lo). Nem a instituição nem os autores assumem qualquer responsabilidade por eventuais danos ou perdas a pessoa ou bens, decorrentes do uso da presente obra. É proibida a reprodução total ou parcial de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive através de processos xerográficos, fotocópia e gravação, sem permissão por escrito do autor e do editor. O titular cuja obra seja fraudulentamente reproduzida, divulgada ou de qualquer forma utilizada poderá requerer a apreensão dos exemplares reproduzidos ou a suspensão da divulgação, sem prejuízo da indenização cabível (art. 102 da Lei n. 9.610, de 19.02.1998). 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Coliseo - Centro Cascavel - PR, 85801-050 Tel: (45) 3040-1010 www.faculdadefocus.com.br Este documento possui recursos de interatividade através da navegação por marcadores. Acesse a barra de marcadores do seu leitor de PDF e navegue de maneira RÁPIDA e DESCOMPLICADA pelo conteúdo. mailto:nead@faculdadefocus.com.br http://www.faculdadefocus.com.br/ Análise do Comportamento: princípios básicos | Sumário | 3 Sumário Sumário .................................................................................................................... 3 1 Introdução .......................................................................................................... 4 2 Ciência do Comportamento ................................................................................. 4 3 O Comportamento .............................................................................................. 9 3.1 Variáveis que Influenciam o Comportamento ................................................................. 12 4 Análise Funcional do Comportamento ............................................................... 14 5 Conclusão ......................................................................................................... 17 6 Referências ....................................................................................................... 19 Análise do Comportamento: princípios básicos | Introdução | 4 1 Introdução Esta unidade introdutória sobre Análise do Comportamento tem por objetivo fornecer um arcabouço teórico para o estudo sistemático do comportamento sob uma perspectiva analítico-comportamental. Inicialmente, abordaremos o constructo do comportamento e da Análise Funcional do Comportamento, metodologia utilizada para a identificação e interpretação das contingências que controlam as relações entre comportamento e ambiente. Este segmento visa elucidar os mecanismos através dos quais o comportamento é afetado e afeta o ambiente em que ocorre. Esperamos, com esta unidade, propiciar uma compreensão introdutória aos princípios fundamentais da análise do comportamento, enfatizando a importância da metodologia científica neste processo. O objetivo é capacitar o leitor a aplicar os conhecimentos adquiridos em contextos acadêmicos e profissionais e contribuir para a expansão da prática baseada em evidências no âmbito da análise comportamental. 2 Ciência do Comportamento Em dezembro de 1879, Wilhelm Wundt fundava o primeiro laboratório de Psicologia na Universidade de Leipzig, marcando um ponto de virada na história dessa disciplina. Este evento simbolizava a transição da Psicologia de uma abordagem filosófica para uma científica, aplicando métodos experimentais da Fisiologia ao estudo da consciência, percepção, sensação e emoções. Desde então, a Psicologia científica tornou-se o padrão para explorar o comportamento humano, com suas metodologias e abordagens científicas permeando o campo. Neste contexto, o Psicólogo Burrhus Frederic Skinner recebeu grande destaque com sua proposição sobre o Comportamentalismo Radical, influenciando significativamente a Psicologia americana e global. Skinner foi considerado o psicólogo mais eminente do século XX. Suas ideias continuam relevantes para a compreensão e o desenvolvimento da Psicologia contemporânea (SAMPAIO, 2005). Skinner dedicou-se intensamente à pesquisa sobre o comportamento humano com o objetivo de aprimorar a Análise do Comportamento a tal ponto que pudesse utilizá-la para criar um mundo melhor. Ele tinha a convicção de que era possível compreender o ser humano e sua natureza de maneira mais profunda do que a psicologia de sua época propunha, e acreditava que, apesar da complexidade do Análise do Comportamento: princípios básicos | Ciência do Comportamento | 5 comportamento humano, era possível estudá-lo de forma científica (MOREIRA; MEDEIROS, 2019). Sobre essa questão, escreveu: Estamos interessados, então, nas causas do comportamento humano. Queremos saber por que os homens se comportam da maneira como o fazem. Qualquer condição ou evento que tenha algum efeito demonstrável sobre o comportamento deve ser considerado. Descobrindo e analisando estas causas poderemos prever o controlar o comportamento na medida que o possamos manipular (SKINNER, 1953/2003, p. 24). Segundo Moreira e Medeiros (2019), Skinner acreditava que a ciência representa o caminho mais eficaz e confiável para a construção do conhecimento. Enquanto muitos alegavam que o estudo do comportamento humano era excessivamente complexo para ser abordado de forma científica, ou que a subjetividade humana estava além do alcance da ciência, Skinner dedicava-se incansavelmente em seus laboratórios para demonstrar a viabilidade de uma ciência do comportamento, incluindo os "fenômenos comportamentais subjetivos". Assim, ele contribuiu com conhecimentos que hoje servem como alicerce para o trabalho de inúmeros analistas do comportamento em todo o mundo. As pesquisas de Skinner, de seus colaboradores e daqueles que seguiram adiante na área da Análise do Comportamento fundamentam a atuação dos analistas, principalmente psicólogos, em diversas áreas de atuação, incluindo a clínica, organizacional, educacional, hospitalar, comunitária, cultural, laboratorial, jurídica entre outras (MOREIRA; MEDEIROS, 2019). Análise do Comportamento: princípios básicos | Ciência do Comportamento | 6 Figura 1 - Burrhus Frederic Skinner no Departamento de Psicologia de Harvard, 1950 Fonte: Winkimedia Commons O estudo do comportamento é um tema desafiador, não por ser inacessível, mas pela sua complexidade. Por se tratar de um processo, e não de um objeto estático, sua observação exige técnica e energia consideráveis do cientista. Relatos, afirmações e narrativas sobre o comportamento são apenas um passo para a análise do comportamento. Para estudar ocomportamento humano de fato, é necessário que se encontre algum tipo de uniformidade. Assim, da observação prolongada do comportamento humano surge um vago senso de ordem. Se não fosse possível descobrir uma ordem razoável, dificilmente conseguiríamos eficácia no trato com assuntos humanos. Qualquer previsão plausível baseia-se nessa uniformidade (SKINNER, 1953/2003). Neste sentido, a ciência busca ordem e relações ordenadas entre eventos. Ela começa com observações individuais e avança para leis científicas, que, assim como os sistemas científicos, visam a eficiência no manejo de assuntos. A ciência não é conhecimento passivo, mas sim ativo. Ao entender as leis que governam o mundo, nos preparamos para lidar eficientemente com ele, prevendo e controlando eventos. Os métodos científicos, assim, visam clarificar e explicitar essas uniformidades, seja Análise do Comportamento: princípios básicos | Ciência do Comportamento | 7 através de técnicas de campo, clínicas psicológicas, ou métodos experimentais de laboratório (SKINNER, 1953/2003). Desde o início de sua carreira na década de 1930 até sua última obra em 1990, Skinner desenvolveu uma visão abrangente que tocou em variados temas como ética, educação e cultura, sempre sob uma perspectiva única. Seu trabalho, consistente em sua abordagem ao comportamento humano como um fenômeno determinado e passível de análise científica, sofreu evoluções ao longo do tempo. Inicialmente influenciado pela Física, Skinner estava focado no conceito de reflexo, mas sua pesquisa eventualmente o levou ao desenvolvimento do conceito de comportamento operante, refletindo uma abordagem mais alinhada com a Biologia. Essa transição marca uma evolução em sua compreensão da ciência e do comportamento humano, com suas ideias iniciais ainda permeando seus trabalhos posteriores, apesar das transformações em suas concepções fundamentais (SAMPAIO, 2005). Skinner foi influenciado fortemente influenciado pelo behaviorismo de John B. Watson, especialmente pela ideia de que a Psicologia deveria ser uma ciência objetiva focada na previsão e controle do comportamento. Por isso, desde o início buscou uma análise científica do comportamento inspirada nas ciências naturais. Seu modelo inicial de ciência foi influenciado pelas mudanças na Física no final do século XIX e início do XX, particularmente pelas críticas ao modelo mecanicista. Foram figuras centrais nessa influência o físico e filósofo austríaco Ernst Mach e o físico estadunidense Percy Bridgman. Mach enfatizava a importância das observações empíricas e a construção do conhecimento baseado nas sensações, enquanto Bridgman criticava as noções mecanicistas e defendia que os conceitos científicos deveriam ser definidos pelas operações usadas para estudá-los. Essas influências moldaram o pensamento inicial de Skinner e sua abordagem ao comportamento, levando-o a adotar uma perspectiva que valorizava a descrição empírica e a rejeição de explicações metafísicas no estudo da Psicologia (SAMPAIO, 2005). Na sua tese de doutoramento, defendida em 1930, e nos trabalhos que se seguiram até 1937, Skinner focou na análise científica do comportamento através do conceito de reflexo, visando observar, controlar as variáveis ambientais e elaborar previsões. Este período inicial reflete a influência da física contemporânea, particularmente as críticas ao mecanicismo e as abordagens operacionais de Ernst Mach e Percy Bridgman. Skinner adotou uma definição operacional do reflexo como uma correlação entre estímulo e resposta, rejeitando a mediação de estruturas no sistema nervoso e enfatizando relações funcionais entre eventos observáveis (SAMPAIO, 2005). Análise do Comportamento: princípios básicos | Ciência do Comportamento | 8 Durante esse período, Skinner ainda aderiu à noção de que o comportamento era provocado por eventos antecedentes e manteve uma visão atomizadora do comportamento, considerando ações complexas como compostas por partes menores, os reflexos. No entanto, já em 1935, começou a se afastar de algumas dessas ideias, reconhecendo a importância da realidade independente e do papel do sujeito ativo na investigação científica. Em 1937, com o desenvolvimento do conceito de operante, Skinner moveu-se além da necessidade de identificar um estímulo antecedente para cada ação, destacando o papel das consequências do comportamento (SAMPAIO, 2005). Apesar da forte influência da física em suas concepções iniciais, Skinner também foi impactado pela biologia desde o início, evidenciado por sua associação com o departamento de Fisiologia de Harvard e a influência de figuras como Jacques Loeb. Este período inicial de seu trabalho estabeleceu a base para as evoluções subsequentes em seu pensamento, marcando a transição para uma abordagem mais madura que enfatizaria as relações funcionais e a importância das consequências do comportamento (SAMPAIO, 2005). Em "Ciência e Comportamento Humano" (1953), Skinner reafirma e expande suas concepções de ciência e comportamento, enfatizando a utilidade prática do conhecimento científico como solução para problemas humanos. Ele defende uma ciência focada na descrição, previsão e controle dos fenômenos, evitando a necessidade de explicação no sentido tradicional, alinhando-se com a visão de Ernst Mach sobre a equivalência entre descrição e explicação. Skinner argumenta que a ciência é caracterizada por um progresso acumulativo, mas não necessariamente por uma aproximação da "verdade" no sentido positivista. Ele valoriza uma abordagem pragmática, onde a verdade é entendida como eficácia na ação (SAMPAIO, 2005). Para Skinner, as características essenciais da ciência incluem uma ênfase nos dados empíricos, honestidade intelectual e a rejeição de conclusões prematuras. Ele promove uma mudança do conceito de causalidade para o de relações funcionais, onde o foco está nas mudanças entre variáveis independentes e dependentes, refletindo a influência de Mach em sua abordagem à ciência e ao comportamento humano (SAMPAIO, 2005). Skinner aborda a complexidade do comportamento humano, defendendo a possibilidade de sua análise científica através de técnicas experimentais e estatísticas que simplificam condições para estabelecer relações quantitativas entre variáveis. Da mesma forma, enfatiza a importância de considerar todas as condições que afetam o Análise do Comportamento: princípios básicos | O Comportamento | 9 comportamento, preferencialmente de forma quantitativa, e foca nas variáveis ambientais externas e na história ambiental do indivíduo, descartando a relevância das condições internas para a análise funcional do comportamento. (SAMPAIO, 2005). 3 O Comportamento Em termos técnicos, comportamento é qualquer atividade que envolva movimento muscular, secreção glandular ou atividade elétrica no corpo de um organismo, ou seja, é tudo o que envolve a ação de um organismo. Por exemplo, o ato de piscar os olhos é considerado um comportamento, pois envolve uma ação muscular voluntária ou reflexa (diferentemente características inatas, como a cor dos olhos, que são atributos biológicos estáticos). Essa distinção é importante para que possamos entender o comportamento como uma manifestação de ações e reações do organismo que podem ser observadas, medidas e modificadas, em oposição a características físicas ou objetos que são externos à dinâmica comportamental (MARTIN; PEAR, 2018). Outra definição apresentada por Skinner, em The Behavior of Organisms (1938), citada por Matos (2001), delineia o comportamento como “uma parte da atividade total de um organismo [...] é aquela parte do funcionamento de um organismo envolvido em agir sobre ou em interação com o mundo externo”. Nessa perspectiva, Skinner afirma: Por comportamento então, eu me refiro simplesmente ao movimento de um organismo, ou desuas partes, num quadro de referência fornecido pelo organismo ele próprio, ou por vários objetos ou campos de força externos. É conveniente falar disto como a ação do organismo sobre o mundo externo, e é frequentemente desejável lidar com um efeito mais do que com o movimento em si mesmo ...” (SKINNER, 1938 apud MATOS, 2001, p. 2) A partir da definição de comportamento de Skinner, nota-se que comportamento é entendido como um interativo processo com o mundo. Ao enfatizar esse intercâmbio, Skinner revela como as ações dos indivíduos (respostas) interagem com mudanças no ambiente (estímulos). Nessa perspectiva, o comportamento integra o Análise do Comportamento: princípios básicos | O Comportamento | 10 ambiente em uma relação funcional, ao invés de ser diretamente causado por ele. Lembrando que, neste contexto, o conceito de “mundo externo” envolve também os estímulos que são parte da fisiologia humana, ou, nas palavras de Skinner (1974/1998) do “mundo dentro da pele”. Para a análise do comportamento, contudo, não basta apenas descrever o ambiente (estímulo) ou as respostas (comportamentos); é imperativo descrever as relações regulares entre as os estímulos e as respostas para prever quando o primeiro influenciará a ocorrência do segundo. Essa busca por padrões regulares apenas evidencia a importância de previsão e controle para a ciência do comportamento. O foco na regularidade impede que o analista comportamental se atenha a eventos únicos de interação entre estímulos e respostas. Para ele, é vital reconhecer que a presença de uma categoria de respostas está ligada à presença de uma categoria de estímulos. Assim, a definição de uma classe de estímulos é determinada pela sua relação com uma classe correspondente de respostas. Conforme esclarecem Pessôa e Velasco (2012), Adiantaria muito pouco dizer que um cisco no olho eliciou uma resposta de piscar. O importante para o analista do comportamento é saber que alguns objetos, quando em contato com o olho, eliciam respostas de piscar. Os objetos que cumprem essa função em relação à resposta de piscar formam a classe de estímulos eliciadores (da classe) de respostas de piscar. Assim, pode-se prever que, toda vez que um estímulo dessa classe ocorrer, ocorrerá também uma resposta da classe de piscar (PESSÔA; VELASCO, 2012, p. 25). Segundo Todorov e Hanna (2010), na perspectiva de Skinner o comportamento deve ser considerado em conjunto com o contexto em que ocorre, pois a análise isolada de ambos não oferece compreensão do todo. Para a psicologia, é essencial ver o comportamento e o ambiente, assim como a resposta e o estímulo, como conceitos mutuamente dependentes. Um não pode ser definido sem referência ao outro. Os autores destacam que uma teoria eficaz em psicologia comportamental deve incluir definições claras das relações funcionais, além de indicar onde encontrar variáveis independentes e contextuais no ambiente externo. Na identificação de relações funcionais, os analistas do comportamento usam o conceito de contingência, Análise do Comportamento: princípios básicos | O Comportamento | 11 definido por Skinner (1953/1967) como regras que estabelecem relações entre comportamentos e eventos ambientais, ou seja, “componentes das relações comportamentais que apresentam relação de dependência entre si” (TEIXEIRA JUNIOR, 2005, p. 5). As contingências são expressas em termos de "se, então", e são cruciais na análise experimental do comportamento, servindo como definições de variáveis independentes. CONTINGÊNCIA: Componente das relações comportamentais que apresentam relação de dependência entre si. Fonte: Vocabulário de Análise do Comportamento de Teixeira Júnior e Ronaldo Rodrigues et al. Como afirmou Skinner, “os homens agem sobre o mundo, modificam-no e, por sua vez, são modificados pelas consequências de sua ação”. Certas características compartilhadas com outras espécies alteram o comportamento humano para promover uma troca mais eficaz e segura com o ambiente. Uma vez estabelecido um comportamento adequado, suas consequências continuam atuando para mantê-lo ativo. Se o ambiente muda, comportamentos antigos desaparecem e novas consequências geram novas formas de agir (SKINNER, 1978, p. 16). O comportamento humano modifica o meio através de mecanismos físicos. Quando uma pessoa se move em direção a um objeto, por exemplo, ela se aproxima dele; ao tentar alcançá-lo, pode ocorrer um contato físico; se o levanta, empurra ou puxa, o objeto muda de posição, seguindo princípios geométricos e mecânicos simples. No entanto, muitas vezes a ação humana é indireta, especialmente quando influencia outros seres humanos. Por exemplo, uma pessoa com sede pode pedir água, gerando um padrão sonoro que leva outra pessoa a oferecer-lhe um copo com água. Embora os sons possam ser descritos fisicamente, o recebimento da água é resultado de uma série complexa de eventos envolvendo a resposta de um ouvinte. A consequência final, a entrega da água, não tem relação geométrica ou mecânica com o ato de pedir. Esse tipo de comportamento se caracteriza por uma ineficácia direta sobre o mundo físico; suas consequências emergem de uma cadeia de eventos físicos, Análise do Comportamento: princípios básicos | O Comportamento | 12 ainda que mais complexos e menos previsíveis do que as reações mecânicas simples (SKINNER, 1978, p. 16). Ademais, comportamentos tanto podem ser manifestos (públicos, visíveis) e passíveis de serem observados e registrados por outra pessoa como podem ser encobertos (privados, internos). Os comportamentos encobertos normalmente envolvem atividades internas, como pensamento, os quais podem emergir através da autofala, de imagens ou de sentimentos (MARTINS; PEAR, 2018). Tanto os comportamentos manifestos quanto os encobertos podem ser influenciados por técnicas de modificação de comportamento, mas os comportamentos encobertos normalmente requerem métodos especiais para serem observados pelos outros. (MARTINS; PEAR, 2018). 3.1 Variáveis que Influenciam o Comportamento Skinner (1953/2003) percebeu que frequentemente ao buscar explicações para o comportamento dentro do organismo, negligenciamos as variáveis externas acessíveis à análise científica. Essas variáveis, presentes no ambiente imediato e na história ambiental do indivíduo, são fundamentais e possuem propriedades físicas mensuráveis. Para uma compreensão adequada do comportamento, é crucial analisar essas variáveis independentes, que são diversas e têm relações complexas com o comportamento. Skinner (1953/2003) exemplifica essa questão a partir do ato de beber um copo de água. Este ato simples pode ser analisado cientificamente considerando-se a probabilidade de ocorrência, que varia desde a certeza absoluta até a improbabilidade completa. As variáveis que influenciam essa probabilidade incluem experiência passada, condições fisiológicas, como a privação de água, e até fatores psicológicos, como o medo de que a água esteja contaminada. As variáveis ressaltam a necessidade de se considerar os diversos fatores que influenciam essa relação. É importante destacar que explicações baseadas em estados ou agentes internos, como a sede, podem ser redundantes ou insuficientes se não forem acompanhadas de uma análise das condições externas que levam a esses estados. Por exemplo, afirmar que alguém bebe porque tem sede é útil apenas se entendermos "sede" como uma tendência a beber, e não como um estado causal interno. Se a sede é meramente inferida e não observável diretamente, ela não serve como uma explicação eficaz. Análise do Comportamento: princípios básicos | O Comportamento | 13 Contudo, se a sede tem características fisiológicas ou psíquicas mensuráveis, ela poderia desempenhar um papel na ciência do comportamento (SKINNER, 1953/2003). Fisiologistaspodem argumentar que os diferentes métodos de aumentar a probabilidade de beber, como a privação de água ou exercícios físicos, resultam em uma elevação da concentração de solutos no corpo, levando a uma mudança no sistema nervoso que torna o ato de beber mais provável. Da mesma forma, esses métodos poderiam induzir um estado psíquico de "querer beber", que também influenciaria o comportamento. Em cada caso temos um encadeamento casual composto de três elos: (1) uma operação efetuada de fora sobre o organismo - por exemplo, privação de água; (2) uma condição interna - por exemplo, sede fisiológica ou psíquica; (3) um certo comportamento - por exemplo, beber (SKINNER, 1953/2003). Poderíamos, a partir de dados a respeito do segundo elo, que é a condição interna, prever o terceiro elo (o comportamento), contudo, é quase impossível obter informações diretas sobre a condição interna. Podemos inferi-la a partir do comportamento, por exemplo, dizer que o animal está com sede se ele beber água. Porém, isso seria apenas lançar uma hipótese. Também poderíamos tentar inferir a condição interna a partir de uma operação efetuada de fora sobre o organismo, afirmando que o animal tem sede se estiver privado de água há longo tempo, porém, aqui também não seria diferente. Para o controle do comportamento, a condição interna é inútil a menos que possa ser manipulada. Porém não existem meio de “alterar diretamente processos neurais nos instantes apropriados na vida de um organismo que se comporta, nem ainda foi descoberto um jeito de alterar um processo psíquico” (SKINNER, 1953/2003). Neste sentido, a objeção que Skinner faz ao uso de estados internos como explicação não implica que eles não existam, mas sim que eles podem não ser relevantes para uma análise funcional do comportamento. Para entender completamente o comportamento de um sistema, é necessário olhar além do próprio sistema e considerar as forças externas que agem sobre ele. A menos que o segundo elo na cadeia causal não seja determinado de forma ordenada pelo primeiro, ou o terceiro pelo segundo, o primeiro e o terceiro elos devem estar ordenadamente relacionados. Ao retrocedermos além do segundo elo para previsão e controle, Análise do Comportamento: princípios básicos | Análise Funcional do Comportamento | 14 evitamos digressões desnecessárias, examinando o comportamento como uma função das condições externas (SKINNER, 1953/2003). 4 Análise Funcional do Comportamento Skinner (1953/2003) apresenta a análise funcional do comportamento como uma possibilidade decorrente das variáveis externas, das quais o comportamento é função. Na tentativa de prever o comportamento de um organismo individual, tem-se uma variável dependente, que é “o efeito para o qual procuramos a causa”, ou seja, o comportamento. As causas do comportamento são chamadas de variáveis independentes, que são as condições externas das quais o comportamento é função. • Variável: qualquer evento ambiental ou comportamental que possa variar ou ser modificado em mais de um valor. • Variável Dependente: efeito observado pela manipulação da variável independente. • Variável Independente: variável manipulada pelo experimentador que produz mudanças na variável dependente. Fonte: Vocabulário de Análise do Comportamento de Teixeira Júnior e Ronaldo Rodrigues et al. As condições externas que afetam o comportamento formam a base das leis da ciência do comportamento. Uma compreensão quantitativa e abrangente dessas leis nos permite entender o organismo como um sistema comportamental. Assim, para Skinner, a análise do comportamento deve ser conduzida dentro do escopo de uma ciência natural, sem atribuir ao comportamento propriedades especiais que necessitariam de métodos específicos. Muitas vezes argumenta-se que um ato não é tão importante quanto o “intento” que está por trás dele, ou que somente pode ser descrito em Análise do Comportamento: princípios básicos | Análise Funcional do Comportamento | 15 termos do que “significa” para o indivíduo que se comporta ou para outros que possam ser afetados por ele. Se afirmações deste tipo tiverem de ser úteis para propósitos científicos, deverão estar baseadas em eventos observáveis, e é exclusivamente em tais eventos que se deve confinar uma análise funcional (SKINNER, 1953/2003, p. 38). Embora termos como "intenção" e "significado" pareçam descrever comportamentos, na verdade referem-se às variáveis independentes que o controlam. Isso também se aplica a termos que se referem às relações de controle do comportamento, como "agressivo", "amigável", entre outros. As variáveis independentes também devem ser descritas em termos físicos. Isso se opõe à tentativa de compreender o comportamento com base em sua significância para o organismo ou distinguindo entre o mundo físico e o mundo psicológico da "experiência". As "forças sociais" ou influências culturais e tradicionais também devem ser explicadas em termos de eventos físicos, que afetam tanto o cientista quanto o indivíduo observado. Na prática, lidar diretamente com dados observáveis oferece vantagens significativas. Assim como é necessário relacionar estados internos (com fome ou ansiedade) a variáveis manipuláveis externas para uso prático, também é preciso identificar os eventos físicos através dos quais uma "força social" impacta o organismo. Segundo Matos (1999), o modelo de causalidade adotado pelo analista do comportamento é centrado na seleção por consequências. Para um funcionalista, comportamentos se desenvolvem ou mudam devido à utilidade que têm na preservação da vida do indivíduo. Eles evoluem como meios para enfrentar ambientes complexos. Por exemplo, um comportamento incomum não é classificado como ‘patológico’ pelo analista comportamental. Sua ocorrência indica funcionalidade e valor para a sobrevivência. A análise funcional, portanto, busca entender o valor de sobrevivência de um comportamento específico. Como no caso do comportamento de autoagressão, que não é visto como indicativo de um processo psicótico, mas como um conjunto de respostas que levam a consequências importantes para o indivíduo, sejam elas sensoriais ou sociais. Matos (1999) explica que esta ênfase na identificação das variáveis que influenciam o comportamento diferencia a abordagem do analista do comportamento de outras práticas psicológicas, que tendem a focar em uma descrição estrutural do comportamento, analisando a composição e organização dos elementos de uma ação, Análise do Comportamento: princípios básicos | Análise Funcional do Comportamento | 16 em vez de sua função biológica. É crucial reconhecer que as análises funcionais e estruturais são complementares; não se trata de excluir uma em detrimento da outra, porém a análise funcional é essencial na Psicologia. Uma análise funcional considera o ambiente e a função do comportamento nesse contexto. Por exemplo, ao observar um pássaro andando, voando ou caçando, identifica-se o comportamento de acordo com referências ambientais específicas: o solo para andar, o ar para voar, e a presa para caçar. Os efeitos comportamentais correspondem ao deslocamento ou à captura da presa. Tal como na interação entre uma criança e um adultos, em que o comportamento da criança muda em resposta ao comportamento dos adultos, estabelecendo uma relação funcional denominada "reforçamento" (MATOS, 1999). O termo "reforçamento" descreve uma relação entre uma classe de comportamentos e suas consequências. Essa relação funcional não é diretamente observável; são as mudanças no comportamento e no ambiente que são observadas e a partir das quais se infere a relação funcional. A análise funcional é uma "explicação" de um evento através da descrição de suas relações com outros eventos, levando em conta eventos antecedentes e consequentes(MATOS, 1999). • Reforçamento: relação entre apresentação de consequências a um comportamento e o aumento de sua frequência. • Reforçador (estímulo reforçador ou estímulo apetitivo): qualquer evento que quando apresentado aumenta a frequência de um comportamento e que quando retirado diminui a sua frequência. Fonte: Vocabulário de Análise do Comportamento de Teixeira Júnior e Ronaldo Rodrigues et al. A análise funcional tem várias vantagens, como identificar variáveis importantes para a ocorrência de um fenômeno, facilitar intervenções futuras e planejar condições para a generalização e manutenção desse fenômeno. Ao classificar um comportamento ou estímulo, é possível trabalhar com respostas ou estímulos equivalentes, substituindo-os por outros mais adequados que produzam os mesmos reforçadores (MATOS, 1999). Análise do Comportamento: princípios básicos | Conclusão | 17 Identificar um comportamento de interesse requer não só observá-lo, mas também considerar relatos de terceiros (como pais, professores, ou outros pesquisadores, dependendo do contexto de trabalho). Para identificar e descrever um efeito comportamental, é necessário especificá-lo, como por exemplo determinar a frequência de sua ocorrência. Assim, procurar uma relação ordenada entre variáveis ambientais e comportamentais relevantes para este efeito implica: a. descrever a situação que antecede e sucede o comportamento de interesse; b. na identificação da situação subsequente, é preciso diferenciar quais eventos são consequências; c. na identificação da situação antecedente, é importante distinguir quais eventos são realmente condições. *Essas identificações muitas vezes requerem observações repetidas. Além disso, é essencial descrever a natureza das relações de consequência dentro de um contexto mais amplo para aproveitar os benefícios de incorporá-las em um referencial conceitual. Isso envolve, por exemplo, determinar se estamos diante de reforço positivo ou negativo, de uma punição, fuga ou esquiva. Classificar essas relações em contextos mais amplos facilita a previsão de ocorrências similares. Vale destacar que, em contraste com análises estruturais, que se concentram na composição e organização dos elementos, a análise funcional pode ser aplicada a longo prazo, relacionando eventos separados no tempo. Uma variável ambiental pode influenciar um comportamento mesmo que não esteja presente no momento da mudança comportamental. Isso permite explicações históricas e evita a dependência de conceitos mediacionistas como memória, informação, trauma, entre outros. A análise funcional, portanto, é uma ferramenta poderosa para entender e influenciar comportamentos de maneira eficaz, sem se limitar a aspectos estruturais (MATOS, 1999). 5 Conclusão A conclusão desta unidade introdutória sobre Análise do Comportamento reitera a importância do entendimento dos princípios fundamentais que regem a análise do Análise do Comportamento: princípios básicos | Conclusão | 18 comportamento humano e a interação deste com o ambiente. Através da exploração do constructo do comportamento e da aplicação da Análise Funcional do Comportamento, buscamos não apenas compreender as contingências que influenciam tais interações, mas também fornecer ferramentas para uma intervenção eficaz e baseada em evidências. Este conhecimento, ao ser aplicado em contextos acadêmicos e profissionais, tem o potencial de enriquecer significativamente a prática da análise comportamental, promovendo uma abordagem que valoriza a metodologia científica como pilar para a compreensão e modificação do comportamento. Espera- se, portanto, que os conhecimentos adquiridos nesta unidade inspirem uma contínua busca pelo aprimoramento e pela aplicação prática dos conceitos explorados, contribuindo assim para o avanço da análise do comportamento como ciência e prática. Análise do Comportamento: princípios básicos | Referências | 19 6 Referências MARTIN, Garry. Modificação do comportamento: o que é e como fazer. 10. Ed. Rio de Janeiro: Roca, 2018. MATOS, Maria Amélia. Análise funcional do comportamento. Revista Estudos de Psicologia, PUC-Campinas, v. 16, n. 3, p. 8-18, setembro/dezembro, 1999. MOREIRA, Márcio Borges; MEDEIROS, Carlos Augusto. Princípios básicos de análise do comportamento. 2. ed. Porto Alegre, RS: Artmed, 2019. PÊSSOA, Candido, V. B. B.; VELASCO, Saulo, M. Comportamento Operante. In: BORGES, Nicodemos Batista; CASSAS, Fernando Albregard (Col.) Clínica analítico- comportamental: aspectos teóricos e práticos. Porto Alegre, RS: Artmed, 2012, p. 24 – 31. SAMPAIO, Angelo Augusto Silva. Skinner: Sobre Ciência e Comportamento Humano. Psicologia, Ciência e Profissão, 25(3), 370-383, Bahia, 2005. SKINNER, Burrhus Frederic, 1904. O comportamento verbal. Tradução de Maria da Penha Villalobos. São Paulo: Cultrix: Ed da Universidade de São Paulo, 1978. SKINNER, Burrhus Frederic. Ciência e comportamento humano. 11. ed. São Paulo, SP: Martins Fontes, 2003. TEIXEIRA JÚNIOR, RONALDO RODRIGUES et al. Vocabulário de análise do comportamento: Um manual de consulta para termos usados na área. Santo André, SP: ESETec Editores Associados, 2006. TODOROV, João Claudio; HANNA, Elanice S. Análise do Comportamento no Brasil. Psicologia: Teoria e Pesquisa, vol. 26, n. especial, pp. 143-153, Brasília, 2010. Análise do Comportamento: princípios básicos | Referências | 20 Sumário 1 Introdução 2 Ciência do Comportamento 3 O Comportamento 3.1 Variáveis que Influenciam o Comportamento 4 Análise Funcional do Comportamento 5 Conclusão 6 Referências