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Gustavo Penna Embora o DNA seja um material bastante estável – como exigido para o armazenamento da informação genética, ele é uma molécula orgânica complexa suscetível a alterações espontâneas, mesmo nas condições normais da célula, que resultariam em mutações caso não fossem corrigidas. O DNA de cada célula humana perde cerca de 18 mil purinas (adenina e guanina) todos os dias em função da hidrólise das ligações N-glicosil à desoxirribose, uma reação espontânea denominada depurinação. Similarmente, uma desaminação espontânea da citosina para uracila no DNA ocorre a uma proporção de aproximadamente 100 bases por célula por dia. As bases do DNA também são danificadas ocasionalmente por metabólitos reativos produzidos na célula, incluindo as formas reativas do oxigênio e o doador de alta energia S-adenosilmetionina, ou pela exposição a produtos químicos no ambiente. Da mesma forma, a radiação UV do sol pode produzir uma ligação covalente entre duas pirimidinas adjacentes no DNA, formando, por exemplo, dímeros de timina. Vias de Reparo As células possuem múltiplas vias para o reparo do DNA, usando diferentes enzimas que atuam em diferentes tipos de lesões. As duas das vias mais comuns são o reparo por excisão de bases e o reparo por excisão de nucleotídeos. As duas vias diferem na maneira pela qual a lesão é removida do DNA. A primeira via, denominada reparo por excisão de bases, envolve uma bateria de enzimas denominadas DNA-glicosilases, cada uma capaz de reconhecer um tipo específico de base alterada no DNA e de catalisar sua remoção hidrolítica. A base alterada é detectada no contexto da projeção do nucleotídeo alterado para fora da hélice, em um processo que permite que a DNA-glicosilase procure uma lesão em todas as faces da base usando a projeção das bases para avaliar a situação de cada par de bases. Uma vez reconhecida a lesão, a enzima remove a base do açúcar. Existem pelo menos seis tipos dessas enzimas, incluindo as que removem Cs desaminados, As desaminados, diferentes tipos de bases alquiladas ou oxidadas, bases com anéis rompidos e bases nas quais a ligação dupla carbono-carbono foi acidentalmente convertida em uma ligação simples entre os carbonos. A “lacuna” criada pela ação da DNA-glicosilase é reconhecida por uma enzima chamada endonuclease AP (AP para apúrica ou apirimídica, e endo para indicar que a nuclease cliva dentro da cadeia polinucleotídica), que cliva a cadeia principal fosfodiéster que em seguida é clivada novamente por uma fosfodiesterase. A “lacuna” de um único nucleotídeo é, por sua vez, preenchido pela DNA-polimerase e pela DNA-ligase. A segunda principal via de reparo é chamada de reparo por excisão de nucleotídeos. Esse mecanismo pode corrigir uma lesão causada por praticamente qualquer alteração volumosa na estrutura da dupla-hélice de DNA. Essas “lesões volumosas” incluem aquelas produzidas pela ligação covalente de bases do DNA aos hidrocarbonetos (como o carcinógeno benzopireno, encontrado na fumaça do tabaco, alcatrão e exaustão do diesel) e os vários dímeros de pirimidina (T-T, T-C e C-C) causados pela luz do sol. Nessa via, um enorme complexo multienzimático verifica o DNA à procura de distorções na dupla-hélice, em vez de uma alteração específica de bases. Uma vez encontrada uma lesão, a cadeia fosfodiéster da fita anormal é clivada nos dois lados da distorção, e a DNA- helicase remove o oligonucleotídeo de fita simples contendo a lesão. O intervalo produzido na hélice de DNA é, então, corrigido pela DNA-polimerase e pela DNA-ligase. Uma alternativa aos processos de reparo por excisão de bases e de nucleotídeos é usar a química reversa da lesão de DNA, e essa estratégia é seletivamente utilizada para a remoção rápida de determinadas lesões altamente mutagênicas ou tóxicas. Por exemplo, a lesão de alquilação O6-metilguanina tem o grupo metila removido pela transferência direta a um resíduo de cisteína na própria proteína de reparo, que é destruída na reação. Em outro exemplo, grupos metil nas lesões de alquilação 1- metiladenina e 3-metilcitosina são removidos por uma demetilase dependente de ferro, que libera formaldeído a partir do DNA metilado e regenera a base original. O acoplamento do reparo por excisão de nucleotídeos à transcrição garante que o DNA mais importante da célula seja corrigido de maneira eficiente Todo o DNA celular é constantemente monitorado para verificação de lesões, e os mecanismos de reparo descritos atuam em todas as partes do genoma. Contudo, as células têm uma maneira de direcionar o reparo às sequências de DNA em que ele é mais urgentemente necessário. Quando a RNA polimerase encontra uma lesão no DNA, como uma base danificada ou um dímero de timina, ela "para" ou pausa no local da lesão e, por meio de proteínas acopladoras, direciona a maquinaria de reparo a esses sítios. DNA-polimerases translesão especiais Se o DNA celular estiver extremamente danificado, os mecanismos de reparo discutidos anteriormente em geral não serão suficientes para corrigi-lo. Nesses casos, uma estratégia diferente, que implica risco à célula, é utilizada. As DNA-polimerases replicativas altamente precisas param quando encontram um DNA danificado, e, em emergências, as células empregam polimerases de reserva, versáteis, porém menos precisas, conhecidas como polimerases translesão, para replicar durante a lesão do DNA. As células humanas possuem sete polimerases translesão, algumas das quais capazes de reconhecer um tipo específico de lesão no DNA e adicionar corretamente o nucleotídeo necessário para restaurar a sequência inicial. Outras fazem “boas adivinhações”, especialmente quando a base do molde foi muito danificada. Essas enzimas não são tão precisas como as polimerases replicativas normais quando copiam uma sequência normal de DNA. Por exemplo, as polimerases translesão não possuem atividade de correção de leitura e são muito menos criteriosas do que as polimerases replicativas na escolha do nucleotídeo a ser inicialmente incorporado. Por essa razão, essas polimerases translesão são capazes de adicionar apenas um ou uns poucos nucleotídeos antes que a polimerase replicativa de alta precisão continue a síntese de DNA. Elas são provavelmente responsáveis pela maioria das mutações de substituição de bases e deleção de um único nucleotídeo que se acumulam nos genomas. Embora geralmente produzam mutações quando o DNA danificado é copiado elas provavelmente também originem mutações – em menor nível – no DNA não danificado. Quebras na fita dupla(Estudar) De acordo com este modelo, uma polimerase replicativa estacionária em um sítio de DNA danificado é reconhecida pela célula como uma situação que precisa de resgate. Enzimas especializadas modificam de modo covalente a cinta deslizante (normalmente ela é ubiquitinada ) que libera a DNA-polimerase replicativa e, com o DNA danificado, atraem a polimerase translesão específica para o tipo de lesão. Uma vez que o DNA danificado é ultrapassado, a modificação covalente da cinta é removida, a polimerase translesão é dissociada e a polimerase replicativa volta a atuar.