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Direito das Sucessões Profa. Silviane Meneghetti Sucessão Testamentária SUCESSÃO LEGÍTIMA X SUCESSÃO TESTAMENTÁRIA A transmissão da herança acontece por meio de duas modalidades: a sucessão legítima (arts. 1.829 a 1.856 do CC) e a testamentária (arts.1.857 a1.990 do CC). Tanto uma como outra referem-se à capacidade passiva, pessoas que estão aptas para receber a herança (art.1.801 do CC). É com a morte que ocorre a sucessão automática, dando ensejo à abertura da sucessão. Assim, a herança é transmitida aos herdeiros legítimos e testamenteiros (art. 1.784 do CC). A sucessão legítima é estabelecida por determinação legal, não depende da vontade do testador. Assim, se não houver testamento ou, na falta de um testamento válido, todo o patrimônio do de cujus pertencerá à legítima, sendo destinado aos herdeiros necessários (descendentes, ascendentes e cônjuge) e, só na falta destes, é que alcançará os facultativos (colaterais até o quarto grau) que serão convocados conforme a ordem de vocação hereditária, ou seja, os mais próximos excluem os mais remotos. Por fim, não havendo os mencionados acima, caberá o patrimônio à Fazenda Pública. Existindo testamento, o patrimônio que compõe a sucessão legítima corresponderá pelo menos à metade (50%) dos bens da herança. A outra metade será distribuída conforme a livre vontade do testador. Caso o de cujus queira manifestar sua vontade de disposição dos bens após a morte, deve providenciar um testamento, caso contrário a lei é que estabelecerá como será feita a sucessão da totalidade de seus bens. A herança é dividida em duas partes: uma que compõe a legítima (isso existindo herdeiros necessários) e outra a testamentária. Quanto à primeira parte, esta é estabelecida por determinação legal. É o que chamamos de campo indisponível que corresponde, no mínimo, a 50%, ele não pode deixar menos que isso, porém pode deixar mais e até tudo (100%). A segunda parte pertence à sucessão testamentária e é de livre disposição do testador (ressalvadas as disposições da lei). É o campo disponível. TESTAMENTO o testamento é um negócio jurídico unilateral, personalíssimo, de autonomia privada, solene, revogável a qualquer momento, gratuito (pois não há contraprestação, nem vantagens para o testador), sendo por meio desse mecanismo que o autor da herança faz disposições de caráter patrimonial ou extrapatrimonial para depois de sua morte. O testador tem a liberdade de escolher quem serão os herdeiros (quem sucede na herança, recebendo os bens como um todo ou parte ideal sobre o total da herança) e os legatários (quem sucede a título singular, ou seja, porção certa e determinada dos bens), quem será beneficiado após sua morte com a totalidade de seus bens, não havendo herdeiros necessários; ou com, pelo menos, metade de seus bens, caso existam herdeiros necessários. Importante mencionar sobre a revogabilidade do testamento que pode ser feita a qualquer momento. Para isso, basta produzir um novo testamento e revogar o anterior. Todavia, o art. 1.610 do CC não admite a revogação de reconhecimento de filho. Como se trata de um ato solene, o advogado (apresentando a minuta e prestando assessoria jurídica) e o tabelião têm o dever de observar todos os requisitos legais para que o ato seja válido, conforme a modalidade de testamento escolhida. TIPOS DE TESTAMENTO Os tipos de testamento permitidos pelo nosso legislador atual são: testamento público, cerrado e particular (testamentos ordinários ou comuns), e os testamentos especiais (de utilização mais restrita): marítimo, aeronáutico e militar. Os testamentos públicos devem ser feitos perante um tabelião e os particulares podem ser realizados pelo testador, de próprio punho ou através de meios mecânicos (art. 1.862 e incisos do CC). Já os testamentos especiais são aceitos em ambas as formas, a depender do testador (art. 1.886 e incisos do CC). A obrigatoriedade de levar o testamento ao Poder Judiciário e não aos cartórios visa maior segurança e autenticidade, bem como conferir garantia à estrita obediência a vontade do testador - desde que as disposições não ofendam a ordem pública e as disposições legais imperativas (art. 1.899 do CC). FORMAS ORDINÁRIAS DE TESTAMENTO A legislação brasileira, por meio do Código Civil, elenca três formas ordinárias de testamento, ou seja, que podem ser realizados, em regra geral, por todas as pessoas capazes, a partir dos 16 anos de idade: o público, o cerrado e o particular. Testamento Público O testamento público, deve ser redigido por um tabelião ou substituto legal, podendo ser apresentada uma minuta redigida pelo advogado especialista que orienta o testador, na língua oficial do país (português). O documento deve ser assinado por duas testemunhas, após a leitura em voz alta pelo tabelião que o guarda sob sua responsabilidade, emitindo apenas certidões quando solicitado. Apesar do nome, o testamento público possui sigilo do conteúdo. Apesar disso, é declarada sua existência pelo cartório a quem lhe procura. Após a morte do testador, constando o testamento original no cartório, o juiz exige que o detentor o apresente no prazo legal, se este já não o fez de forma voluntária anteriormente, e, se preenchido os requisitos, determina seu cumprimento. (Cartório Notarial do Brasil) Testamento Cerrado O testamento cerrado, conhecido também como testamento fechado, deve ser realizado em cartório na presença de duas testemunhas, redigido pelo testador, ou por outra pessoa que ele determine, em língua nacional ou estrangeira. Esta modalidade diferencia-se das demais por ser mantida em segredo até a morte do testador. É necessário que o testamento cerrado seja apresentado ao tabelião do cartório para que ele aprove o testamento, por meio da assinatura do testador, das duas testemunhas e do próprio tabelião, seja fechado, lacrado e costurado, e depois entregue pelo tabelião ao testador, que o guarda sob sua responsabilidade. Diferentemente do testamento público, após o falecimento do testador que o fez de modo fechado, o detentor deve apresentá-lo em juízo sem qualquer intimação. Isso porque não há registro do original, sob risco de ser extraviado ou deteriorado, sendo cumprido apenas sem a violação do lacre. (Cartório Notarial do Brasil) Testamento Particular O testamento particular (privado) não é registrado em cartório, porém exige três testemunhas e, necessita de confirmação pelo Juiz para possuir validade. A redação do testamento pode ser feita à próprio punho ou digitada e pode ser redigido em qualquer idioma, desde que as testemunhas o entendam. É imprescindível que o testamento privado seja lido e assinado, no mesmo momento, por quem o escreveu e, por pelo menos, três testemunhas. Após o falecimento, as testemunhas deverão ir a juízo para confirmá-lo. (Cartório Notarial do Brasil) Formas especiais de testamento Em casos de risco de morte, a legislação brasileira apresenta formas especiais de testamento quando há impossibilidade de ser firmado um testamento ordinário frente às circunstâncias do testador. São elas: Testamento marítimo, aeronáutico e militar. As três formas especiais, em caso de o testador sobreviver à circunstância anteriormente apresentada, ele deve em até 90 dias realizar um testamento de forma ordinária, visto que o testamento especial perderá seu efeito. Os testamentos marítimo e aeronáutico podem ser firmados, sob risco de morte iminente, perante o comandante da aeronave ou embarcação nacional. Deve haver a presença de duas testemunhas, na forma que corresponda ao testamento público ou cerrado, registrado no diário de bordo. Em caso de falecimento do testador, o testamento, sob guarda do comandante, será entregue às autoridades administrativas no primeiro porto ou aeroporto nacional que encontre. O testamento militar pode ser firmado por todo aquele que esteja a serviço das forças armadas, dentro do país ou fora dele, quando há o perigo de morte. Um exemplo é em uma situaçãode guerra, em que não há condições de testar pelas vias normais, na forma detalhada pelo código civil brasileiro. Nuncupativo: é o único caso em que se admite testamento verbal, estando o militar em combate ou ferido, confia sua última vontade a duas testemunhas (testamento oral). Com a morte do testador as testemunhas devem procurar o oficial responsável para reduzir a declaração a termo e, posteriormente, assinarem. Testamento de urgência Embora seja uma forma de testamento particular, é utilizada em situações imprevisíveis nas quais a pessoa está submetida a grave risco de morte e, por este motivo, não tem acesso aos meios regulares para testar. Além disso, há a falta de quem possa testemunhar o ato (o indivíduo pode se encontrar em isolamento social), é permitido testar de próprio punho, sem a presença de testemunhas. O testamento emergencial está descrito no art. 1.879 do Código Civil: “Em circunstâncias excepcionais declaradas na cédula, o testamento particular de próprio punho e assinado pelo testador, sem testemunhas, poderá ser confirmado, a critério do juiz”. Uma vez realizado o testamento emergencial pelo interessado, caso ele não venha a óbito nos próximos 90 (noventa) dias, o documento caducará. Testamento Vital O testamento vital, também chamado de Diretivas Antecipadas de Vontade, é um documento no qual a pessoa determina quais os procedimentos médicos aos quais desejaria ou não ser submetida no caso de ser acometida de doença grave e/ou terminal, numa situação em que esteja incapacitada de tomar suas próprias decisões (por alteração em seu nível de consciência, por exemplo). Um documento como esse pode garantir que as equipes médicas não realizem procedimentos que a pessoa considere intoleráveis ou humilhantes em sua fase final da vida, permitindo que ela possa terminar seus dias de forma digna e compatível com suas crenças. Ele é uma ferramenta que proporciona alívio e segurança para a pessoa doente, para seus familiares e para a equipe de saúde, evitando que decisões importantes numa fase tão delicada sejam tomadas de forma equivocada, intempestiva e/ou incompatível com os desejos daquela pessoa. (Centro de Oncologia) Codicilo Parece com um testamento, mas é mais limitado e não exige muitas formalidades. Pode ser feito por meio de um documento informal, assim como uma simples carta, basta que seja datado e assinado. O codicilo encontra-se previsto nos artes. 1.881 e seguintes do CC. Art. 1.881. Toda pessoa capaz de testar poderá, mediante escrito particular seu, datado e assinado, fazer disposições especiais sobre o seu enterro, sobre esmolas de pouca monta a certas e determinadas pessoas, ou, indeterminadamente, aos pobres de certo lugar, assim como legar móveis, roupas ou joias, de pouco valor, de seu uso pessoal. (Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios – TJDFT) Referências Izaura Fabíola Lins de Barros Lôbo Cavalcanti. Testamento, uma forma de proteção. IBDFAM. Data de publicação: 08/04/2022. DIAS, Maria Berenice. Manual das Sucessões. 7. Ed. rev., ampl. E atual. – Salvador: editora JusPodivm, 2021. https://www.tjdft.jus.br/institucional/imprensa/campanhas-e-produtos/direito-facil/edicao-semanal/codicilo https://centrodeoncologia.org.br/sua-saude/o-testamento-vital https://cnbsp.org.br/2021/06/02/sempre-familia-quais-sao-os-tipos-de-testamento-e-o-que-levar-em-conta-na-hora-de-escolher-uma-modalidade/ image1.png image2.png image3.png image4.png image5.png image6.png