Prévia do material em texto
1 FACULDADE ÚNICA DE IPATINGA 2 Enrique Carlos Natalino Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) (2020). Tem doutorado-sanduíche no German Institute of Global and Area Studies (Alemanha). Possui Mestrado em Administração Pública pela Escola de Governo da Fundação João Pinheiro (2011). É graduado em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) (2006). Tem experiência docente como professor nos cursos de Direito, Administração, Economia e Relações Internacionais da Pontíficia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) e da Faculdade de Direito Novos Horizontes. Wanda Maria de Faria Mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), graduada em Educação Física pelo Centro Universitário de Leste de Minas Gerais (UNILESTE), especializada em Docência do Ensino Superior pela Universidade Cândido Mendes (UCAM), Especializada em Tutoria pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). É coordenadora do curso de Educação Física Licenciatura e Bacharelado em EaD, professora desde 2017, atuando nos cursos de Educação Física Licenciatura e Bacharelado e supervisora de Estágio dos cursos de Educação Física Licenciatura e Bacharelado da Faculdade Única de Ipatinga/MG. Tem experiência no ensino superior no curso de Educação Física Licenciatura e Bacharelado, Educação à Distância em Pedagogia e na área de Educação Física escolar. ÉTICA E CIDADANIA ÉTICA E CIDADANIA 3 2ª edição Ipatinga – MG 2022 4 FACULDADE ÚNICA EDITORIAL Diretor Geral: Valdir Henrique Valério Diretor Executivo: William José Ferreira Ger. do Núcleo de Educação a Distância: Cristiane Lelis dos Santos Coord. Pedag. da Equipe Multidisciplinar: Gilvânia Barcelos Dias Teixeira Revisão Gramatical e Ortográfica: Naiana Leme Camoleze Revisão/Diagramação/Estruturação: Bárbara Carla Amorim O. Silva Carla Jordânia G. de Souza Rubens Henrique L. de Oliveira Design: Brayan Lazarino Santos Élen Cristina Teixeira Oliveira Maria Luiza Filgueiras © 2021, Faculdade Única. É proibida a reprodução total ou parcial deste livro em qualquer meio sem autorização escrita do editor. T314i Teodoro, Jorge Benedito de Freitas, 1986 - . Introdução à filosofia / Jorge Benedito de Freitas Teodoro. – 1. ed. Ipatinga, MG: Editora Única, 2020. 113 p. il. Inclui referências. ISBN: 978-65-990786-0-6 1. Filosofia. 2. Racionalidade. I. Teodoro, Jorge Benedito de Freitas. II. Título. CDD: 100 CDU: 101 Ficha catalográfica elaborada pela bibliotecária Melina Lacerda Vaz CRB – 6/2920. NEaD – Núcleo de Educação as Distancia FACULDADE ÚNICA Rua Salermo, 299 Anexo 03 – Bairro Bethânia – CEP: 35164-779 – Ipatinga/MG Tel (31) 2109 -2300 – 0800 724 2300 www.faculdadeunica.com.br http://www.faculdadeunica.com.br/ 5 Menu de Ícones Com o intuito de facilitar o seu estudo e uma melhor compreensão do conteúdo aplicado ao longo do livro didático, traremos ícones ao lado dos textos. Eles são para chamar a sua atenção para determinado trecho do conteúdo, cada um com uma função específica, mostradas a seguir: São sugestões de links para vídeos, documentos científico (artigos, monografias, dissertações e teses), sites ou links das Bibliotecas Virtuais (Minha Biblioteca e Biblioteca Pearson) relacionados com o conteúdo abordado. Trata-se dos conceitos, definições ou afirmações importantes que você deve ter um maior grau de atenção! São exercícios de fixação do conteúdo abordado em cada unidade do livro. É para o esclarecimento do significado de determinados termos/palavras mostrados ao longo do livro. Este espaço é destinado à reflexão sobre questões citadas em cada unidade, para associação com suas ações, seja no ambiente profissional ou em seu cotidiano. 6 SUMÁRIO ÉTICA E MORAL: CONCEITOS E EVOLUÇÃO HISTÓRICA ......................... 8 1.1 O QUE É ÉTICA E MORAL? ...................................................................................... 8 1.2 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS CONCEITOS ............................................................ 9 1.3 A RELAÇÃO ENTRE ÉTICA E MORAL ..................................................................... 11 FIXANDO O CONTEÚDO ...................................................................................... 15 ÉTICA E MORAL NAS RELAÇÕES SOCIAIS .............................................. 20 2.1 ÉTICA, MORAL E DIREITO ...................................................................................... 20 2.2 ÉTICA NA POLÍTICA .............................................................................................. 23 2.3 ÉTICA DAS CONVICÇÕES E ÉTICA DA RESPONSABILIDADE .............................. 25 FIXANDO O CONTEÚDO ....................................................................................... 29 ÉTICA, MORAL E POLÍTICA: A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA ............. 34 3.1 O CONCEITO DE CIDADANIA E SUA EVOLUÇÃO HISTÓRICA ........................... 34 3.2 CIDADANIA E DIREITOS FUNDAMENTAIS ............................................................ 39 3.3 A CIDADANIA NO MUNDO GLOBALIZADO ........................................................ 41 FIXANDO O CONTEÚDO ....................................................................................... 48 DESAFIOS DO EXERCÍCIO DA CIDADANIA NO BRASIL ......................... 53 4.1 A CONSOLIDAÇÃO DA DEMOCRACIA APÓS 1988 ........................................... 53 4.2 OS DESAFIOS PARA O EXERCÍCIO PLENO DA CIDADANIA ............................... 55 4.3 A CIDADANIA E AS DESIGUALDADES SOCIAIS .................................................. 57 FIXANDO O CONTEÚDO ....................................................................................... 61 ÉTICA NAS RELAÇÕES DE TRABALHO: O CÓDIGO DE ÉTICA PROFISSIONAL ......................................................................................... 65 5.1 ÉTICA, MERCADO E INSTITUIÇÕES ....................................................................... 65 5.2 A RESPONSABILIDADE SOCIAL DAS ORGANIZAÇÕES ....................................... 66 5.3 ÉTICA NAS BUROCRACIAS PÚBLICAS E PRIVADAS............................................. 68 5.4 O CÓDIGO DE ÉTICA PROFISSIONAL .................................................................. 70 5.5 ÉTICA E CIDADANIA NAS RELAÇÕES DE TRABALHO .......................................... 74 FIXANDO O CONTEÚDO ....................................................................................... 77 ÉTICA PROFISSIONAL NA EDUCAÇÃO FÍSICA ....................................... 81 6.1 CARTA BRASILEIRA DE EDUCAÇÃO FÍSICA ......................................................... 84 6.2 CÓDIGO DE ÉTICA - RESOLUÇÃO CONFEF Nº 307/2015 ................................... 91 6.3 O CÓDIGO DE ÉTICA............................................................................................ 94 FIXANDO O CONTEÚDO ..................................................................................... 101 RESPOSTAS DO FIXANDO O CONTEÚDO ............................................. 106 REFERÊNCIAS ......................................................................................... 107 UNIDADE 01 UNIDADE 02 UNIDADE 03 UNIDADE 04 UNIDADE 05 2 UNIDADE 06 6 7 CONFIRA NO LIVRO A Unidade 1 aborda a definiçãoA concepção moderna de cidadania se baseia em valores do ideário iluminista. Em primeiro lugar, não considera as diferenças concretas entre as pessoas. Assim, seria suficiente o afastamento do Estado para que sejam realizados os valores sociais. Em segundo lugar, não considera as oposições existentes dentro da própria sociedade. Bastaria a igualdade de fato, sem considerações sobre as desigualdades de fato que existem nas ruas. Na concepção tradicional de cidadania, o Estado concentra em si o poder da violência legitimada. Os indivíduos, por sua vez, têm uma participação política periférica. Onde está presente o Estado, não haveria espaço para o indivíduo. A participação política, nessa concepção liberal, seria restrita a ocasiões determinadas 40 nas quais o cidadão é chamado a votar. A realização da cidadania, portanto, dependeria de formalismos e burocracias e há um espaço muito pequeno para participação. Do mesmo modo, é o Estado quem definiria os direitos do cidadão, numa relação hierárquica entre quem dita as regras e quem obedece. Essa visão vem sendo solapada por uma série de ineficácias e déficits de atuação do Estado de Direito. Em seu lugar, tem-se construído uma nova concepção de cidadania, com atuação proativa na construção dos espaços sociais. A cidadania, nessa concepção, pertenceria à sociedade civil e seria exercida como atividade realizadora de mecanismos que permitissem o acesso a direitos fundamentais. Há a ideia de efetividade de poucos bens ao invés da universalidade de muitos direitos. O que se valoriza é a experiência pragmática de justiça, provida não apenas pelo Estado, mas por organizações do Terceiro Setor. Diante da incapacidade do Estado de atendar às necessidades sociais, os atores sociais exerceriam papel auxiliar no provimento de bens públicos. A nova ideia social rompe o verticalismo do poder. Há um horizontalismo no qual a sociedade assume o papel do Estado nas políticas sociais. A noção de cidadania não se baseia mais em parâmetros formais da teoria tradicional. Cidadania, hoje, tem um sentido ético-filosófico de acesso à dignidade da pessoa humana. O Estado não é suficiente como agente produtor de justiça e como promotor do bem-estar social. Em um contexto de esvaziamento do papel agregador do estado, são necessários outros agentes na afirmação da cidadania e na garantia de acesso a condições dignas de vida. Apesar dos padrões cada vez mais individualistas de comportamento moral, responsável por certa apatia global diante das injustiças, da miséria e da guerra, há reações importantes em curso no sentido de ampliar o engajamento e a participação da sociedade na vida pública. A democracia é o espaço privilegiado de exercício da cidadania. Administra os interesses gerais da coletividade e aperfeiçoa a racionalidade pública. Essa problemática constitui fonte de preocupação para filósofos, antropólogos, cientistas políticos, sociólogos e estudantes de todas as áreas. O atual estágio de evolução humana consegue avançar, pela emergente engenharia genética, até mesmo na manipulação dos caracteres hereditários da constituição da espécie. Há enorme risco de que se introduzam na natureza humana, modificações que suprimam ou significativamente reduzam as suas características 41 transcendentes, criando condições para que se perpetue esse intransitivo consumismo tecnológico de um novo tipo humano, cuja descartabilidade passe a fazer parte de sua natureza. 3.3 A CIDADANIA NO MUNDO GLOBALIZADO A ideia de cooperação norteia a nova sociedade global. A busca da resolução de problemas comuns da humanidade induz às nações a ampliar o compartilhamento de informações e a procurar caminhos para a superação de flagelos comuns como a fome, as guerras, a pobreza e a miséria. Essa interdependência entre Estados nacionais também trouxe novos desafios para a sociedade civil em âmbito internacional. Com a diluição da soberania e a interconexão entre as economias, os Estados perderam o monopólio do seu poder de balizar a vida política e econômica. Nesse sentido, amplia-se, cada vez mais, o espaço de ação dos cidadãos na esfera pública para expressar suas ideias e seus interesses, intercambiando informações e buscando alcançar objetivos comuns. O crescimento das Organizações Não Governamentais, em escala mundial, é uma expressão dessa abertura do espaço público para novos atores não estatais. Cada vez mais, eles desempenham papéis relevantes nas sociedades, interferindo na política e na economia de diversas formas. A globalização econômica e a revolução tecnológica fortaleceram o papel dessas instituições nas mais variadas searas da vida das nações. O contato cada vez mais estreito entre cidadãos de várias nacionalidades e a coincidência de interesses entre povos que vivem em espaços políticos distintos, pavimenta o caminho para o surgimento de uma verdadeira sociedade global e de uma autêntica cidadania mundial. Portanto, hoje já se pode falar no surgimento de um sentimento cidadão em escala planetária, alavancado pelas novas tecnologias, pelas ferramentas de comunicação, pelas redes sociais e pelo poder cada vez maior das organizações não governamentais. O surgimento de uma governança global também impacta na formação do sentimento de cidadania. Organizações não governamentais, mais do que os Estados e as empresas, conseguem mobilizar os cidadãos em defesa dos interesses de certas pautas políticas, econômicas e sociais: o meio ambiente, os direitos humanos, o desarmamento, o comércio justo, o respeito aos animais, a defesa de 42 minorias etc. Essas organizações influenciam não apenas as pautas políticas nacionais, mas também na agenda das organizações internacionais. Um exemplo dessa participação da sociedade civil tem sido observado nas conferências internacionais sobre ambiente e sustentabilidade, como a Rio-92, a Rio +20 e a Conferência de Paris, nas quais o envolvimento de grupos de ambientalistas, empresários, trabalhadores, acadêmicos e cientistas tem sido cada vez maior. Pautas como meio ambiente e direitos humanos atravessam as fronteiras e aproximam os cidadãos. São temas que possuem uma dimensão local, mas também global, gerando a mobilização da cidadania. Como lidar com os desafios da cidadania global sem instituições adequadas para balizá-los? A cidadania nasceu como um conceito inerente à ordem interna dos Estados, mas se torna cada vez mais atrelado a uma perspectiva global. A formação de uma opinião pública mundial interconectada com os desafios do presente traz grandes dilemas para a democracia e para a governabilidade contemporâneas. A fraqueza dos mecanismos decisórios e a ausência de espaços para a atuação da sociedade civil organizada é um problema. Inexiste, por exemplo, um parlamento mundial que vocalize as vozes dos cidadãos do mundo. Da mesma forma, não há um poder mundial capaz de implementar decisões coletivas de forma coesa e organizada no espaço terrestre. A diluição da soberania dos Estados e o enfraquecimento do poder das instituições nacionais, ao mesmo tempo em que abre espaço para a atuação da sociedade civil, não traz soluções para os novos paradigmas da sociedade internacional. Nesse sentido, surge a necessidade de institucionalização da cidadania e de buscar soluções políticas para lidar com os desafios da globalização econômica e da revolução tecnológica. O sistema de governança global se torna cada vez mais complexo: Estados nacionais, organizações governamentais, empresas transnacionais, organizações não governamentais, imprensa, indivíduos etc. Há uma pluralidade de instituições que interagem em escala planetária e que interferem na formação de uma cidadania mundial. Buscando superar os paradigmas tradicionais de funcionamentodos Estados nacionais, as organizações supranacionais desenvolveram mecanismos institucionais de governança regional, como parlamentos e tribunais, de modo a abrigar a 43 vontade dos cidadãos numa escala territorial maior. O problema central da governabilidade em escala mundial é o da legitimidade das instituições. A ideia de legitimidade se relaciona com a noção de representação do poder, de defesa dos direitos fundamentais e de segurança jurídica. Em outras palavras, a justificação do poder se baseava na capacidade do Estado de assegurar segurança, justiça, ordem, paz e liberdade para que os cidadãos buscassem viver suas vidas. Em um mundo cada vez mais marcado pela produção de riqueza em escala gigantesca e de intensos fluxos financeiros, os Estados nacionais perderam a capacidade de assegurar desenvolvimento econômico, reduzir as desigualdades sociais e promover o bem-estar coletivo. A intensificação da globalização deu ênfase aos processos de integração econômica e política, mas não avançou adequadamente no que diz respeito à ampliação dos espaços de participação democrática em escala mundial. Os Estados nacionais, portanto, não são mais capazes de assegurar a cidadania em escala global. Com a globalização e o aumento da interdependência, o cumprimento de suas funções tradicionais - garantir a paz, a 44 segurança, a liberdade e o bem-estar – tem sido cada vez mais delegada e compartilhada por instituições intergovernamentais e supranacionais. Com a ampliação das assimetrias entre as nações desenvolvidas e em desenvolvimento, é preciso cada vez mais pensar em mecanismos de redução das desigualdades socioeconômicas, base do exercício da cidadania. A globalização trouxe prosperidade, mas não oportunidades iguais para todos. Ampliou a escala dos avanços tecnológicos, da integração regional e da produção de bens e serviços, mas não equalizou o acesso a eles. A ideia da democratização dos espaços globais de poder permanece ainda muito distante. Somente os Estados nacionais foram capazes, até hoje, de colocar em prática sistemas de governança democráticos. Embora busquem ampliar os espaços de poder para a sociedade civil global, as instituições internacionais ainda não conseguiram reproduzir, em escala global, os procedimentos institucionalizados que os Estados nacionais forjaram ao longo da História. Dessa forma, mesmo diante de um processo de globalização da cidadania, os Estados ainda permanecem como instâncias de intermediação entre o interno e o externo, entre o nacional e o internacional. Não se pode desprezar, ademais, o seu papel de conferir legitimidade aos mecanismos de governabilidade global. Como são responsáveis por administrar o território e a população dos Estados, suas funções clássicas ainda permanecem. Nessa direção, aos Estados cabe assegurar que a pluralidade, a diversidade e a responsabilidade estejam presentes na governança global. A cidadania não se limita mais aos Estados, mas ainda depende deles. Somente a legitimidade e a representatividade conferida por suas instituições garantem que os cidadãos possam participar ativamente da esfera pública. Os Estados, quando dotados de mecanismos de governança democrática, ampliam as possibilidades de controle das sociedades sobre o seu destino. Eles são, portanto, expressões políticas ainda relevantes para a viabilização do exercício da cidadania. Sem Estado não há garantia de direitos. E sem direitos não há capacidade de exercício da cidadania. Não existe no horizonte histórico do século XXI a possibilidade de se pensar em mundo sem Estados e no qual os cidadãos possam exercer uma cidadania global independente das lealdades nacionais. A ascensão dos indivíduos como atores globais e no exercício de uma cida- dania global é um fenômeno novo. Os indivíduos, contudo, não existem por si 45 mesmos, independentes de uma comunidade política mundial ou de várias comunidades políticas nacionais. Em última instância, os Estados só existem como instituições políticas, para proteger os indivíduos que nele habitam. Portanto, são eles a base da autoridade estatal. A própria ampliação das salvaguardas aos direitos fundamentais dos indivíduos cria as bases para a erosão posterior da autoridade do Estado. Aos indivíduos caberia, assim, não apenas exercer seus direitos e deveres no âmbito interno, mas fiscalizar os Estados em suas relações exteriores. A cidadania, nesse sentido, é o espaço por excelência do exercício do poder do indivíduo em face do Estado ou dos Estados. A existência de uma comunidade internacional reforça a ideia de uma cidadania global. Comunidades pressupõem não apenas uma coletividade, mas o compartilhamento de ideias e de valores acerca do funcionamento da sociedade. A comunidade se baseia na busca de uma identidade comum e da coincidência de visões de mundo sobre a organização do espaço global. O ideal de uma sociedade cosmopolita, na qual os Estados perdem a sua razão de ser permanece utópica e distante. Embora os direitos humanos tenham se tornado um tema cada vez mais central para a comunidade internacional de Estados, ainda há muito o que caminhar para que haja o reconhecimento do ser humano como o começo e o fim de todas as ações políticas nacionais e internacionais. Ou seja, a busca da salvaguarda da vida humana, em todas as suas esferas e dos meios de defender a liberdade, a igualdade e a fraternidade dos indivíduos permanece como um objetivo ideal de uma cidadania planetária. Matias (2014) argumenta que a comunidade global permanece como um objetivo possível no mundo contemporâneo, graças à globalização, à revolução tecnológica e aos fenômenos da integração econômica e política. A existência de ameaças globais à humanidade, como as mudanças climáticas, o terrorismo, as doenças e a miséria também constituem, na visão do autor, um poderoso instrumento de coesão mundial para turbinar uma cidadania planetária. A viabilidade dessa cidadania, no entanto, depende da existência de instituições e de espaços de poder compartilhados. A criação de uma sociedade civil global, nesse contexto, fortalece esse ideal comunitário e direciona a humanidade para o reconhecimento das ameaças e dos interesses comuns (MATIAS, 46 2014). Quanto mais fortes, organizadas e legítimas forem essas instituições, mais força elas terão no mundo contemporâneo. A forma mais adequada de balizar expectativas e de encontrar soluções comuns para os problemas da humanidade é tornar a cidadania cada vez mais forte e institucionalizada. Diante da ausência de instituições, verdadeiramente, representativas e democráticas em âmbito mundial, os Estados ainda são chamados a atuar como pontes entre o local e o global no exercício de uma cidadania global. Na visão de Matias, “[...] se uma comunidade global vier um dia existir, ela deve ser acompanhada de instituições democráticas e do respeito à pluralidade, para assegurar a legitimidade de seu poder” (MATIAS, 2014, p. 519). Dessa forma, somente quando as instituições globais forem capazes de assegurar, com a mesma eficiência dos Estados, os direitos e as garantias fundamentais dos indivíduos, é que se poderá pensar numa esfera cidadã verdadeiramente global, legítima, plural, representativa e democrática. https://bit.ly/3e1kAh2 47 Dicotomia: divisão em dois termos. Processo constituinte: redação de uma constituição. Tirania: governo em que a força prevalece sobre o dieito. Salvaguardar: garantir, proteger, afastar o perigo. Degeneração: piora do estado inicial, perda das características e propriedades. Faccionárias: está ligado às facções, ou seja, aos grupos de indivíduos unidos por umamesma causa ou luta. Formalismo: rigoroso, metódico, regrado. Caracteres: modo de cada indivíduo agir e reagir; personalidade, aspecto individual. Hereditários: recepção e doação por sucessão. Intransitivo: aquilo que não pode ser transmitido ou repassado para o outro. Interconexão: relação entre várias coisas, vários sistemas ou várias ideias. Balizar: guiar, orientar. Governança: ato de governo, governar. Decisórios: tomada de decisões. 48 FIXANDO O CONTEÚDO 1. (Enem/2017) O conceito de democracia, no pensamento de Habermas, é cons- truído a partir de uma dimensão procedimental, calcada no discurso e na deliberação. A legitimidade democrática exige que o processo de tomada de decisões políticas ocorra a partir de uma ampla discussão pública, para somente então decidir. Assim, o caráter deliberativo corresponde a um processo coletivo de ponderação e análise, permeado pelo discurso, que antecede a decisão. VITALE, D. Jürgen Habermas, modernidade e democracia deliberativa. Cadernos do CRH (UFBA), v. 19, 2006 (adaptado). O conceito de democracia proposto por Jürgen Habermas pode favorecer processos de inclusão social. De acordo com o texto, é uma condição para que isso aconteça o(a): a) participação direta periódica do cidadão. b) debate livre e racional entre cidadãos e Estado. c) interlocução entre os poderes governamentais. d) eleição de lideranças políticas com mandatos temporários. e) controle do poder político por cidadãos mais esclarecidos. 2. (Enem/2016) A democracia deliberativa afirma que as partes do Conflito político devem deliberar entre si e, por meio de argumentação razoável, tentar chegar a um acordo sobre as políticas que seja satisfatório para todos. A democracia ativista desconfia das exortações à deliberação por acreditar que, no mundo real da política, onde as desigualdades estruturais influenciam procedimentos e resultados, processos democráticos que parecem cumprir as normas de deliberação geralmente tendem a beneficiar os agentes mais poderosos. Ela recomenda, portanto, que aqueles que se preocupam com a promoção de mais justiça devem realizar principalmente a atividade de oposição crítica, em vez de tentar chegar a um acordo com quem sustenta estruturas de poder existentes ou delas se beneficia. YOUNG, I. M. Desafios ativistas à democracia deliberativa. Revista Brasileira de Ciência Política, n. 13, jan-abr. 2014. 49 As concepções de democracia deliberativa e de democracia ativista apresen- tadas no texto tratam como imprescindíveis, respectivamente: a) a decisão da maioria e a uniformização de direitos. b) a organização de eleições e o movimento anarquista. c) a obtenção do consenso e a mobilização das minorias. d) a fragmentação da participação e a desobediência civil. e) a imposição de resistência e o monitoramento da liberdade. 3. (Enem/2018). A tribo não possui um rei, mas um chefe que não é chefe de Estado. O que significa isso? Simplesmente que o chefe não dispõe de nenhuma autoridade, de nenhum poder de coerção, de nenhum meio de dar uma ordem. O chefe não é um comandante, as pessoas da tribo não têm nenhum dever de obediência. O espaço da chefia não é o lugar do poder. Essencialmente encarregado de eliminar conflitos que podem surgir entre indivíduos, famílias e linhagens, o chefe só dispõe, para restabelecer a ordem e a concórdia, do prestígio que lhe reconhece a sociedade. Mas evidentemente prestígio não significa poder, e os meios que o chefe detém para realizar sua tarefa de pacificador limitam-se ao uso exclusivo da palavra. CLASTRES, P. A sociedade contra o Estado. Rio de Janeiro. Francisco Alves, 1982 (adaptado). O modelo político das sociedades discutidas no texto contrasta com o do Estado liberal burguês porque se baseia em: a) Imposição ideológica e normas hierárquicas. b) Determinação divina e soberania monárquica. c) Intervenção consensual e autonomia comunitária. d) Mediação jurídica e regras contratualistas. e) Gestão coletiva e obrigações tributárias. 4. (Enem/2016). Quanto mais complicada se tornou a produção industrial, mais numerosos passaram a ser os elementos da indústria que exigiam garantia de fornecimento. Três deles eram de importância fundamental: o trabalho, a terra e o dinheiro. Numa sociedade comercial, esse fornecimento só poderia ser organizado de uma forma: tornando-os disponíveis à compra. Agora eles tinham 50 que ser organizados para a venda no mercado. Isso estava de acordo com a exigência de um sistema de mercado. Sabemos que em um sistema como esse, os lucros só podem ser assegurados se se garante a autorregulação por meios de mercados competitivos interdependentes. POLANYI, K. A grande transformação: As origens de nossa época. Rio de Janeiro: Campus, 2000 (Adaptado). A consequência do processo de transformação socioeconômica abordada no texto é a: a) expansão das terras comunais. b) limitação do mercado como meio de especulação. c) consolidação da força de trabalho como mercadoria. d) diminuição do comércio como efeito da industrialização. e) adequação do dinheiro como elemento padrão das transações. 5. (Enem/2016). Hoje, a indústria cultural assumiu a herança civilizatória da democracia de pioneiros e empresários, que tampouco desenvolvera uma fineza de sentido para os desvios espirituais. Todos são livres para dançar e para se divertir, do mesmo modo que, desde a neutralização histórica da religião, são livres para entrar em qualquer uma das inúmeras seitas. Mas a liberdade de escolha da ideologia, que reflete sempre a coerção econômica, revela-se em todos os setores como a liberdade de escolher o que é sempre a mesma coisa. ADORNO, T HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. A liberdade de escolha na civilização ocidental, de acordo com a análise do texto, é um(a): a) legado social. b) patrimônio político. c) produto da moralidade. d) conquista da humanidade. e) ilusão da contemporaneidade. 51 6. (FCC, 2018, adaptada). No que concerne à relação entre Direito e Estado, tal como a tematiza Hans Kelsen, é correto afirmar que o Estado: a) é uma ordem jurídica relativamente centralizada. b) é uma entidade metajurídica que precede a criação do Direito. c) considerado democrático e somente este é legítimo para produzir normas jurídi- cas, pois reflete a justiça. d) é um grupo de pessoas unidas para a consecução de interesses comuns e o Direito é um corpo normativo que reflete a moral do povo. e) e Direito são duas coisas completamente distintas e não necessariamente relacionadas. 7. (ENEM/2019) TEXTO I Os segredos da natureza se revelam mais sob a tortura dos experimentos do que no seu curso natural. BACON, F. Novum Organum, 1620. In: HADOT, P. O véu de Ísis: ensaio sobre a história da ideia de natureza. São Paulo: Loyola, 2006. TEXTO II O ser humano, totalmente desintegrado do todo, não percebe mais as relações de equilíbrio da natureza. Age de forma totalmente desarmônica sobre o ambiente, causando grandes desequilíbrios ambientais. GUIMARÃES, M. A dimensão ambiental na educação. Campinas: Papirus, 1995. Os textos indicam uma relação da sociedade diante da natureza caracterizada pela: a) objetificação do espaço físico. b) retomada do modelo criacionista. c) recuperação do legado ancestral. d) infalibilidade do método científico. e) formação da cosmovisão holística. 52 8. (ENEM/2019) O cristianismo incorporou antigas práticas relativas ao fogo para criar uma festa sincrética. A igreja retomou a distância de seis meses entre os nascimentos de Jesus Cristo e João Batista e instituiua data de comemoração a este último de tal maneira que as festas do solstício de verão europeu com suas tradicionais fogueiras se tornaram “fogueiras de São João”. A festa do fogo e da luz no entanto não foi imediatamente associada a São João Batista. Na Baixa Idade Média, algumas práticas tradicionais da festa (como banhos, danças e cantos) foram perseguidas por monges e bispos. A partir do Concílio de Trento (1545-1563), a Igreja resolveu adotar celebrações em torno do fogo e associá-las à doutrina cristã. CHIANCA, L. Devoção e diversão: expressões contemporâneas de festas e santos católicos. Revista Anthropológica, n. 18, 2007 (adaptado). Com o objetivo de se fortalecer, a instituição mencionada no texto adotou as práticas descritas, que consistem em: a) promoção de atos ecumênicos. b) fomento de orientações bíblicas. c) apropriação de cerimônias seculares. d) retomada de ensinamentos apostólicos. e) ressignificação de rituais fundamentalistas. 53 DESAFIOS DO EXERCÍCIO DA CIDADANIA NO BRASIL “A democracia brasileira é uma plantinha tenra que precisa de muitos cuidados” Otávio Mangabeira 4.1 A CONSOLIDAÇÃO DA DEMOCRACIA APÓS 1988 O exercício da cidadania no Brasil está diretamente relacionado à vigência de um Estado Democrático de Direito, ao funcionamento das instituições, à realização de eleições livres e à difusão de uma educação voltada para o exercício da cidadania. Conforme atesta Carvalho (2004), o caminho da construção da cidadania no Brasil foi bastante tortuoso, mas pavimentou o caminho para uma democracia de massas no começo do século XXI. A conjuntura de crise econômica do Brasil, no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, dificultou a implementação dos direitos assegurados na Constituição de 1988, pois a realidade nacional e internacional era bastante adversa: maior dívida externa, restrições ao crédito, recessão econômica e competição internacional (BRASIL, 1988). Dessa forma, o modelo econômico brasileiro, baseado na substituição de importações e na forte intervenção estatal na economia, tornava-se cada vez mais obsoleto e incapaz de lidar com os desafios de um país com mais 150 milhões de habitantes à época. Do mesmo modo, a permanência de grupos que estiveram no poder durante os governos militares na ordem pós-ditatorial também criou impasses políticos para a maior participação popular e para a adoção de medidas mais ousadas no que concerne ao combate às desigualdades sociais. A agenda brasileira no começo da Nova República apontava para a necessidade de se edificar uma ordem constitucional capaz de afastar de vez o risco da ingovernabilidade pretoriana do horizonte nacional, isto é, uma eventual recaída autoritária. Dessa forma, a nova Constituição foi aprovada em um momento de mudança nas relações entre o Estado e a sociedade e de readaptação do papel do próprio Estado na economia. As ideias liberais sobre a abertura da economia, a reforma administrativa, as privatizações, a desregulamentação e o ajuste fiscal UNIDADE 04 54 também aportaram no Brasil nesse momento, pressionando por mudanças no modelo de organização do Estado e nas suas relações com a sociedade. O ponto central era a necessidade de abandono da herança patrimonialista brasileira e da forte dependência de setores econômicos e sociais em relação ao Estado. Nesse sentido, buscava-se uma repactuação das relações entre empresários, trabalhadores e o Estado, de modo a reduzir a dependência em relação ao corporativismo, ao protecionismo e às benesses governamentais. A fragilidade dos partidos políticos, sua pouca consistência ideológica e a ausência de mecanismos de intermediação de interesses tornaram difícil essa transição de modelo. Passado o clima de euforia democrática da Constituinte, o debate político transitou da questão participativa para a questão da eficiência governativa, centrando-se nos problemas de ingovernabilidade por sobrecarga de demandas sociais decorrente da crise de financiamento do setor público e da falência do modelo de desenvolvimento por substituição de importações. Reis (2007) chama a atenção para o modo como a globalização afetou dramaticamente os problemas da autoridade (construção de capacidade administrativa e simbólica do Estado para projetar presença e ação junto à coletividade no território nacional) e da igualdade (desafio da plena incorporação social da população, especialmente das camadas populares, para neutralizar conflitos e resolver o problema constitucional) nas sociedades modernas (REIS, 2007). 55 Após a Constituição de 1988 realizaram-se no Brasil oito eleições presidenciais diretas, além de eleições congressuais, estaduais e municipais periódicas, normalizando-se o ciclo eleitoral paralelamente à dispersão do eleitorado num quadro plural e multipartidário. A identificação do eleitor brasileiro com determinados partidos populares era um passo fundamental na direção da construção de identidades partidárias estáveis e da institucionalização da participação eleitoral das massas no processo político. Apesar dos inúmeros avanços verificados nos últimos trinta anos no que concerne à organização do Estado e à afirmação das franquias da democracia, Santos (1994) sustenta a tese da existência de um híbrido institucional no Brasil: haveria uma democracia formalizada que assiste a poucos, uma “minúscula mancha na turbulenta superfície do país”; e ao redor dela, imensos espaços de anomia onde não existe soberania ou controle democrático, mas múltiplos poderes transgressores concorrentes regidos pela lei do mais forte. 4.2 OS DESAFIOS PARA O EXERCÍCIO PLENO DA CIDADANIA Apesar da existência formal de um Estado Democrático de Direito, a maioria dos indivíduos se abstém de recorrer ao Estado brasileiro para buscar soluções para seus conflitos, preferindo antes negar sua existência a admitir que sejam vítimas deles. Essa cidadania não intermediada por instituições democráticas, alienada eleitoralmente e refratária à participação alimenta uma cultura de dissimulação, violência difusa, enclausuramento e absoluto descrédito na eficácia do Estado em prover suas funções básicas (segurança, administração e justiça). O impacto de tal comportamento indiferentista abala mortalmente a cultura cívica e gera um senti- mento de impotência que conduz à desconfiança e ao descrédito em relação à coisa pública. Assim, o problema constitucional do país ainda permanece em aberto, pois https://cutt.ly/wkmQeIG https://cutt.ly/wkmQeIG 56 não se concebe uma democracia estável que conviva com grande desigualdade social. Em outras palavras, existe um risco ainda não dimensionado de retrocesso institucional decorrente da ingovernabilidade evidenciada na deterioração do tecido social, no aumento da criminalidade e da violência urbanas, na ampliação de territórios dominados pelo poder paralelo e na descrença dos cidadãos em relação à justiça. Diante do desapreço de que gozam os direitos civis na cultura política convencional e da tolerância com as violações diuturnas aos direitos humanos, pregações autoritárias ainda continuam a amealhar simpatizantes em toda parte. Outro obstáculo ao exercício da cidadania no Brasil são as práticas patrimonialistas, isto é, a mistura entre interesses públicos e privados na gestão pública. O patrimonialismo é um modelo de dominação baseado em relações pessoais e em arbitrariedade, não em regras impessoais entre governantes e governados. Como observa Faoro (2000), a prática entrecorta toda a história brasileira desde a colonização portuguesa até a Independência, moldando a sociedade, a economia e as instituições do Estado. Qual a relação entre patrimonialismo e cidadania?Sabe-se que em sociedades nas quais o poder é exercido de forma tradicional, sem regras institucionalizadas, há grandes obstáculos para o desenvolvimento de liberdades individuais. O patrimonialismo concentra renda e poder, impedindo que a sociedade floresça e exerça plenamente os seus direitos. Os direitos e as garantias fundamentais, por sua vez, constituem as bases da democracia e de uma economia liberal. As instituições políticas do Império (1822-1889) e da República Velha (1889- 1930), emulando as tradições coloniais, também se caracterizaram pela presença de interesses de camada oligárquica no funcionamento da burocracia do Estado. Essa burocracia era elitista e acessível a poucos membros da população brasileira, sobretudo, em um contexto de escravidão. A existência de uma casta de funcionários públicos que vivia à sombra do Estado marca o patrimonialismo à brasileira. Esse “estamento burocrático”, na visão de Faoro (2000), constituía uma camada privilegiada e dependente de favores, benesses e sinecuras do Estado brasileiro. Desde a Colônia até a Independência, esse grupo social buscava se encastelar nas estruturas de poder para manter seus privilégios. Seu modo de funcionamento perpassava uma concepção personalista de exercício do poder, à sombra de um Estado centralizador e mercantilista (FAORO, 57 2000). Após a modernização do Estado português, com as reformas pombalinas do século XVIII, buscou-se a modernização conservadora das instituições e da administração pública. Segundo Campante (2003), esse modelo de governança sobreviveu aos séculos e influenciou, decisivamente, a mentalidade política brasileira nos últimos três séculos. Tanto o Estado Novo quanto o Regime Militar, ao buscar a modernização autoritária da sociedade brasileira, foram influenciados por essa visão do Estado como o domínio de uma elite de sábios (CAMPANTE, 2003). A mesma lógica modernizadora autoritária sobrevive no funcionamento de instituições estatais até o presente momento, com ausência de mecanismos de controle e de transparência em instituições do Poder Executivo, do Poder Legislativo e do Poder Judiciário, nas três esferas federativas, bem como em organizações representativas de classe. A lógica do patrimonialismo e da modernização autoritária da sociedade, contudo, impede o reforço de um catálogo de liberdades fundamentais e de uma cultura política de accountability. Não se pode conceber uma democracia autêntica sem cidadãos conscientes, bem informados e capazes de exercer os seus direitos em face do Estado. E sem igualdade social e oportunidades para todos não se pode conceber um Estado verdadeiramente democrático. 4.3 A CIDADANIA E AS DESIGUALDADES SOCIAIS A garantia de que todos os cidadãos possam usufruir de seus direitos e exigir que o Estado cumpra os seus deveres mantém viva a democracia. A superação das desigualdades sociais, nesse sentido, deve ser o objetivo central do Estado Brasileiro. Esta razão já seria suficiente para refletirmos sobre novos meios de acesso aos bens jurídicos como a saúde, a educação, o trabalho, a segurança, a cultura e o lazer, de forma a obrigar o Estado a planejar e garantir a execução de programas de metas comprometidos com a equalização das condições de vida dos brasileiros, desta e das futuras gerações. O papel de uma democracia é organizar o Estado para que se torne um “agente decisivo da eventual acomodação dos conflitos e da busca de objetivos comuns ou compartilhados de qualquer tipo” (REIS, 2007, p. 161). Ao tentar conciliar solidariedade e eficiência, ela permite, de um lado, o diálogo, a participação, a 58 transparência e a incorporação dos grupos sociais e, de outro, a governabilidade, a capacidade de tomar decisões e a possibilidade real de implementá-las. O sistema democrático e institucional brasileiro vem sendo gradualmente re- forçado com a consolidação de um elevado grau de institucionalização da competição pelo poder, a garantia de direitos e garantias fundamentais (liberdade de associação, liberdade de expressão, formação de novos partidos políticos, igualdade perante a lei), o crescimento do associativismo civil, a emergência de uma cultura política mais plural, a grande expansão eleitoral e a proliferação de organizações extra-partidárias entre os grupos de maior escolaridade. Nesse sentido, é importante ressaltar o papel da ordem jurídica brasileira em balizar o alcance da cidadania. A Constituição de 1988 trouxe como consequências mais relevantes o fortalecimento do Poder Legislativo, a reformulação da Federação, a salvaguarda dos direitos fundamentais e o empoderamento do Poder Judiciário. Houve ainda avanços relacionados à repartição de recursos entre Estados e Municípios, aos direitos dos servidores públicos e à organização do sistema de bem- estar social. Dito isso, quais os caminhos a serem experimentados e perseguidos para que a jovem democracia brasileira se fortaleça nas décadas seguintes? A receita proposta por Santos (1994) é a universalização de um Estado mínimo eficaz, única saída viável para combater os poderes paralelos, as máfias descentralizadas, as punições aleatórias, a erosão das regras de convivência e a diluição dos laços de solidariedade que sustentam uma democracia. Já Reis (2007) aponta como saída um grande conjunto de reformas políticas que combine boas leis, regras e instituições para amadurecer a cultura democrática e fortalecer a identificação dos eleitores com os partidos políticos, aperfeiçoando o princípio da representatividade: fidelidade partidária, cláusulas de barreira, regras sobre coligações, combinação de princípios majoritários e proporcionais nas eleições, combinações de listas partidárias fechadas e flexíveis, financiamento público de campanha. Mas para viabilizar a universalização do Estado mínimo, como sugere Santos (1994), e garantir que uma representação mais autêntica se traduza em ações governamentais que democratizem a democracia, como quer Reis (2007), seria preciso prosseguir na reforma do Estado brasileiro. Como se percebe, muitos dos avanços da democracia brasileira podem ser explicados pelas melhorias institucionais que garantiram a estabilidade e a 59 governabilidade do país nas últimas duas décadas. Contudo, falta completar a obra democratizadora com a expansão de uma cobertura estatal mínima para todo o universo social brasileiro capaz de alimentar a confiança nas instituições e fortalecer uma cultura cívica autêntica. Mas sem uma iniciativa reformista que torne o Estado mais moderno, eficiente, efetivo, transparente e responsável, não se conseguirá alcançar um patamar minimamente razoável de cobertura de toda a população por serviços públicos básicos que uma democracia moderna deve prover. Accountability: prestação de contas. Anomia: comportamento desvirtuoso ocorrido pela falta de leis. Conjuntura: sequência ou combinação de fatos e acontecimentos num mesmo momento; coincidência. Corporativismo: escola de pensamento em que os grupos e aglomerações de determinadas classes de profissionais são de extrema importância para a organização política, econômica e social. No entanto, esses grupos precisam estar subordinados ao Estado. Enclausuramento: refere-se à prisão, fechamento. Hiperinflação: aumento significativo dos índices de inflação. Institucionalização: transformação em instituição. Patrimonialista: refere-se ao patrimonialismo, ou seja, ao conceito de patrimonialismo desenvolvido por Max Weber, em que trata de um Estado onde não há limites entre o que é considerado público e o que é considerado privado. https://bit.ly/3qSgGL7 https://bit.ly/3qSgGL7 60 Pretoriana: Governo que usa de modo abusivo as forças militarespara exercer poder. O termo remonta à Guarda de Pretoria, que era a elite militar que participava ativamente das decisões tomadas para eleger imperadores romanos. Esse grupo, por vezes, chegava a assassinar opositores. Redemocratização: processo de retomada da democracia. Reserva de mercado: atitudes ou decisões de um governo que impede, por meio de leis, que certos tipos de mercadorias ou produtos internacionais sejam acessíveis pela importação. Essa espécie de reserva é feita pelo governo com a intenção de que o próprio mercado interno produza essas mercadorias e serviços, para que a economia seja aquecida. Tecnocracia: sistema governamental que se baseia na soberania dos técnicos. Utilitarista: refere-se à doutrina do utilitarismo, ou seja, à doutrina criada pelos ingleses Bentham e Mill e prega que as ações políticas devem atingir o máximo possível de bem- estar. Pretoriana: Governo que usa de modo abusivo as forças militares para exercer poder. O termo remonta à Guarda de Pretoria, que era a elite militar que participava ativamente das decisões tomadas para eleger imperadores romanos. Esse grupo, por vezes, chegava a assassinar opositores. Redemocratização: processo de retomada da democracia. Reserva de mercado: atitudes ou decisões de um governo que impede, por meio de leis, que certos tipos de mercadorias ou produtos internacionais sejam acessíveis pela importação. Essa espécie de reserva é feita pelo governo com a intenção de que o próprio mercado interno produza essas mercadorias e serviços, para que a economia seja aquecida. Tecnocracia: sistema governamental que se baseia na soberania dos técnicos. Utilitarista: refere-se à doutrina do utilitarismo, ou seja, à doutrina criada pelos ingleses Bentham e Mill e prega que as ações políticas devem atingir o máximo possível de bem- estar. 61 FIXANDO O CONTEÚDO 1. (Enem 2012) É verdade que nas democracias o povo parece fazer o que quer; mas a liberdade política não consiste nisso. Deve-se ter sempre presente em mente o que é independência e o que é liberdade. A liberdade é o direito de fazer tudo o que as leis permitem; se um cidadão pudesse fazer tudo o que elas proíbem, não teria mais liberdade, porque os outros também teriam tal poder. MONTESQUIEU. Do Espírito das Leis. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1997 - adaptado. A característica de democracia ressaltada por Montesquieu diz respeito: a) ao status de cidadania que o indivíduo adquire ao tomar as decisões por si mesmo. b) ao condicionamento da liberdade dos cidadãos à conformidade às leis. c) à possibilidade de o cidadão participar no poder e, nesse caso, livre da submissão às leis. d) ao livre-arbítrio do cidadão em relação àquilo que é proibido, desde que ciente das consequências. e) ao direito do cidadão exercer sua vontade de acordo com seus valores pessoais. 2. (ADM&TEC, 2019). Leia as afirmativas a seguir e marque a opção CORRETA: a) No Brasil, o município pode obrigar qualquer cidadão a permanecer associado a uma entidade paramilitar. b) Os valores sociais do trabalho não são fundamentos da República Federativa do Brasil. c) No Brasil, é proibida a associação para fins lícitos. d) Segundo a constituição brasileira, homens e mulheres não são iguais em direitos e obrigações. e) A Constituição Federal de 1988 procura valorizar a construção de uma sociedade fraterna. 3. (ADM&TEC, 2019). Leia as afirmativas a seguir e marque a opção CORRETA: a) A Constituição Federal de 1988 procura impedir a construção de uma sociedade sem preconceitos. 62 b) O direito ao bem-estar é negado pela Constituição Federal de 1988. c) A cidadania não é um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. d) A Constituição Federal de 1988 procura valorizar a construção de uma sociedade sem preconceitos. e) A soberania não é um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. 4. (ADM&TEC, 2019). Leia as afirmativas a seguir e marque a opção CORRETA: a) O Legislativo é um dos poderes da União. b) O direito ao desenvolvimento é contrário aos princípios da Constituição Federal de 1988. c) Constituição Federal de 1988 procura desvalorizar a construção de uma sociedade fraterna. d) A República Federativa do Brasil busca promover os preconceitos relacionados à raça. e) A República Federativa do Brasil busca promover os preconceitos relacionados ao sexo. 5. (FUNDEPES, 2017, adaptado) - Analise as seguintes assertivas relativas ao preâmbulo da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CR/88): I. O preâmbulo da CR/88 não pode, por si só, servir de parâmetro de controle da constitucionalidade de uma norma. II. A invocação de Deus no preâmbulo da CR/88 torna o Brasil um Estado confessional. III. O preâmbulo traz em seu bojo os valores, os fundamentos filosóficos, ideológicos, sociais e econômicos e, dessa forma, norteia a interpretação do texto constitucional. IV. A invocação de Deus no preâmbulo da CR/88 é norma de reprodução obrigatória nas Constituições Estaduais. Está CORRETO somente o que se afirma em: a) I e II. b) I e III. 63 c) II e III. d) III e IV. e) I e IV 6. (FUNDATEC, 2012) A Constituição Brasileira de 1988 define normas constitucionais programáticas, fins e programas de ação futura para a melhoria das condições sociais e econômicas da população. A partir disso, analise as afirmações abaixo: I. A intensa participação popular criou condições para que o Brasil tivesse uma Constituição democrática e comprometida com a supremacia do direito e promoção de justiça. II. A partir dela, o Estado brasileiro passou a ter o dever jurídico-constitucional de realizar justiça social. III. São fundamentos que constituem o eixo relativo aos direitos individuais e coletivos: a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre-iniciativa e o pluralismo político. IV. A saúde, a previdência e a educação compõem um conjunto integrado de ações de iniciativa dos poderes públicos e da sociedade, denominado seguridade social. Quais estão corretas? a) Apenas I e II. b) Apenas I, II e III. c) Apenas I, II e IV. d) Apenas II, III e IV. e) I, II, III e IV. 7. (IESES, 2017) Conforme prevê a Constituição Federal, é correto afirmar: a) Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil construir uma sociedade livre, justa e solidária; a defesa da dignidade da pessoa humana; dos valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; a defesa da paz. 64 b) República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos princípios da soberania; da prevalência dos direitos humanos; da dignidade da pessoa humana; dos valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; da defesa da paz. c) A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos a soberania; a cidadania; a dignidade da pessoa humana; os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; o pluralismo político. d) Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil construir uma sociedade livre, justa e solidária; a prevalência dos direitos humanos; a dignidade da pessoa humana; a solução pacífica dos conflitos; o pluralismo político. e) Nenhuma das Anteriores 8. (FGV, 2014). A República Federativa do Brasil é laica, já que há separação total entre Igreja e Estado e não há religião oficial. No entanto, constou expressamente no preâmbulo da Constituição da República, quando de sua promulgação, que estava sendo feita “sob a proteção de Deus”. Sobre o tratamento constitucional conferido aos cultosreligiosos, é correto afirmar que: a) é inviolável a liberdade de consciência e de crença, desde que exercida no interior dos locais onde ocorrem os cultos religiosos e suas liturgias, na forma da lei. b) é violável a liberdade de crença religiosa, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias. c) ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa, que pode ser invocada como justificativa para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa. d) é vedada a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva. e) é vedado aos entes federativos estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público 65 ÉTICA NAS RELAÇÕES DE TRABALHO: O CÓDIGO DE ÉTICA PROFISSIONAL “Conheço apenas duas coisas belas no universo: o céu estrelado sob nossas cabeças e a lei moral em nossos corações” Immanuel Kant 5.1 ÉTICA, MERCADO E INSTITUIÇÕES Existe uma ética do trabalho e das organizações? Assim como os indivíduos, as organizações, as empresas e os profissionais de várias áreas também obedecem a códigos de conduta ética. A intensificação do fluxo de informações, a internaci- onalização dos mercados, a forte competitividade, os novos marcos regulatórios (especialmente em questões ambientais e sociais) e o desenvolvimento de novas tecnologias são fatores que, no período contemporâneo, têm contribuído para as mudanças de comportamento das organizações. Que mudanças são essas? Que impacto elas têm no mundo do trabalho? No mundo contemporâneo, percebe-se uma crescente busca para manter ou ganhar reputação frente à sociedade, o que tem sido feito principalmente através da adoção de um comportamento ético e socialmente responsável. Mas esse comportamento nem sempre fora adotado pelas organizações. O processo de institucionalização das organizações se processou por meio da transformação de ações, crenças e comportamentos em regras estabelecidas de conduta social. Tais normas comportamentais, ao serem aceitas e incorporadas às rotinas de trabalho, acabam sendo legitimadas e compartilhadas no dia a dia. A partir disso, inicia-se um processo de dissipação ou de aceitação e uso de práticas institucionalizadas. A corrente sociológica do neoinstitucionalismo reafirma que organizações com estruturas formais tendem a prevalecer como meio mais eficiente e racional de coordenar a complexidade da vida moderna. Essa teoria tenta explicar os motivos que levam as instituições a mudar, além de apontar a direção em que caminham e o propósito da mudança. UNIDADE 05 66 As instituições, enquanto regras do jogo, são mediadoras das relações humanas. Sua principal função é a coerção, o estabelecimento dos limites da ação. O desdobramento imediato é o fato de que quanto mais submetidas às instituições e quanto mais similares estas forem, mais homogêneo será o comportamento das organizações. 5.2 A RESPONSABILIDADE SOCIAL DAS ORGANIZAÇÕES As instituições são regras de conduta que prescrevem ações e determinam o que é mais adequado ou pertinente a ser feito. Ela exercem um papel de facilitação e de influência direta sobre as estratégias, sobre as escolhas e sobre o comportamento dos agentes. As empresas são organizações que podem institucionalizar ações de responsabilidade social para adequar a sua estratégia de atuação e o seu comportamento corporativo às mudanças de ambiente e do meio social. As ações de responsabilidade social são práticas formais difundidas e aceitas que credenciam e dão legitimidade a uma organização. Como ilustração, a maior parte das grandes e médias empresas, em ramos diversos da economia, adotam princípios de gestão empresarial. Essas diretrizes comportamentais devem ser seguidas a fim de dar uma orientação, um código básico de ética que permita balizar as ações dos seus funcionários e colaboradores. Tais códigos de ética tratam de temas como proteção ambiental, trabalho infantil, discriminação de funcionários, relações com fornecedores, dentre outros. Nessa direção, empresas multinacionais que possuem grande visibilidade midiática e competem de forma agressiva no mercado externo necessitam seguir regras internas e externas para adequar seu comportamento aos padrões internacionais. Programas de excelência de treinamento contra acidentes de trabalho e adequação a normas internacionais de sustentabilidade ambiental são exemplos de conformação dessas organizações a padrões de excelência mundiais. As matrizes dessas empresas estabelecem diretrizes mais amplas que são seguidas pelas suas filiais, adequando as práticas às realidades locais. A atuação das 67 empresas em áreas como educação, saúde, cultura e meio ambiente é considerada pela sociedade como um valor importante. Iniciativas como essas passaram a ser um componente estratégico para as organizações, na medida em que este tipo de atividade agrega valor à imagem corporativa. A responsabilidade social foi conduzida à institucionalização, seja pela imposição que induz uma conduta de aceitação, seja pelo interesse estritamente individual ou da organização. Dessa forma, as empresas e seus dirigentes, ao adquirirem a consciência de que a mudança de práticas agrega valor às atividades empresarias, concentram-se na adequação das rotinas organizacionais ao universo simbólico-cultural da responsabilidade social. Tanto o meio social atua sobre as empresas, quanto as companhias atuam sobre o meio social, influenciado um ao outro. Nessa interação social, surgem preceitos que se institucionalizam e ajudam a legitimar processos dentro das organizações. O interesse da organização em se adequar aos preceitos do ambiente externo é ainda mais exacerbado em um ambiente de extrema competição entre as organizações. Em um contexto de disputa entre empresas pelo mercado, as práticas organizacionais tornam-se cada vez mais semelhantes e homogêneas. Em um ambiente de incerteza, é conveniente escolher as soluções prescritas. O isomorfismo reflete a força das instituições, sem necessariamente resultar em maior eficiência. O que está em jogo são as recompensas advindas da homogeneização, da similaridade de estruturas, de práticas e de resultados. A adequação das empresas a um código de ética mínimo para reger as suas práticas internas e as suas interações externas é extremamente vantajosa. Ao incorporar regras aceitas socialmente como éticas, demonstram a sua conformidade com valores e com normas compartilhadas pela coletividade. A adequação das organizações a um mínimo ético, nesse sentido, assegura oportunidades de crescimento, expansão e inovação ao longo do tempo. As organizações modernas funcionam por meio da incorporação de Isomorfismo é a tendência das organizações de se comportar de maneira semelhante, incorporando práticas umas das outras para competir melhor. 68 orientações previamente definidas e racionalizadas para a legitimação das suas atividades e para a sua sobrevivência. Pode-se dizer que há pressões contextuais, decorrentes da ética vigente nas relações sociais, que direcionam as escolhas e estratégias adotadas pela organização. A legitimidade passa a ser o “imperativo” organizacional e a organização passa a se preocupar com as influências do ambiente, reconhecendo a estrutura formal como produto institucionalizado. A ação organizacional tem como ponto de partida o reconhecimento de que vantagens competitivas são obtidaspor meio da implantação de estratégias coerentes com os significados e valores socialmente compartilhados, como o de um meio ambiente socialmente equilibrado, da defesa de regras justas de comércio ou do respeito aos direitos do consumidor. Os princípios institucionais condicionam a construção de uma lógica de mercado, resultando em modelos de comportamento que moldam as relações entre as organizações e as induzem a se constituir de maneira homogênea. As companhias, portanto, são motivadas pela visão socioeconômica das ações de responsabilidade social por um motivo simples: a boa reputação frente à sociedade traz maior legitimidade à empresa, o que tente a fortalecer a sua aceitação pela sociedade, o seu poder de mercado, maximizando o seu retorno financeiro. Este fenômeno é conhecido como marketing social. Contudo, não existe modelo ideal para todas as organizações. Cada qual encontra um equilíbrio próprio, compatibilizando estratégia, estrutura, tecnologia, envolvimento, necessidade e ambiente externo. 5.3 ÉTICA NAS BUROCRACIAS PÚBLICAS E PRIVADAS Assim como nas organizações privadas, as instituições públicas também passaram a incorporar valores e princípios de ética corporativa. As estruturas formais O neoinstitucionalismo prevê as intenções e determinações que uma organização tem em sua tomada de decisões. Com a mudança no mercado, os valores deixam de ser apenas financeiros e passam ter peso no campo social e ambiental. Portanto, avaliar a viabilidade ética de um investimento é avaliar sob a ótica econômica, social e ambiental. 69 das organizações modernas espelham as instituições do ambiente em que operam. Ao impulsionarem-se no sentido de incorporar práticas institucionalizadas, as organi- zações buscam aumentar sua legitimidade, independente da aferição da eficácia e da eficiência dos procedimentos escolhidos. Ou seja, muito mais do que o desempenho é a conformidade aos valores éticos e às normas sociais consagrados que determina as chances de sobrevivência de uma organização. O processo coativo ou voluntário que força ou incentiva uma organização a se tornar mais parecida com outra ao se defrontar com as mesmas condições ambientais e ao competir por recursos, poder político e legitimidade, denomina-se isomorfismo institucional. O isomorfismo institucional, conforme visto na seção anterior, força uma homogeneização e torna as organizações mais similares, relacionando-se com a produção de respostas padronizadas frente às incertezas. Quando o ambiente cria uma incerteza simbólica, as organizações buscam se estruturar seguindo organizações similares e bem-sucedidas de seus campos de atividade, percebidas como portadoras de maior legitimidade. Assim como as empresas, a burocracia também segue normas e padrões éticos. O padrão burocrático é o modelo mais superiormente eficaz para assegurar estabilidade, previsibilidade, certeza, continuidade, permanência, subordinação, controle, clareza, confiabilidade, disciplina, rigor e precisão nas modernas sociedades industriais. Sua superioridade técnica incontrastável o torna um instrumento de poder de primeira ordem para eliminar ambiguidades e garantir uma base legítima de obediência aos preceitos normativos superiormente estabelecidos. Assegura ainda uma eficaz coordenação, um eficiente controle e uma efetiva coesão entre as inúmeras partes do organismo estatal, recortado e multifacetado por natureza. 70 A burocracia está presente em todas as grandes organizações modernas, públicas ou privadas, desde o seu nascedouro. Sua identificação com a administração pública se justifica pelo fato de ser mais facilmente percebida, porque está onipresente em sua vida quotidiana. A administração pública lança mão da divisão de trabalho para recrutar pessoas com diferentes habilidades e experiências para o desempenho das mais variadas e complexas funções em centenas de órgãos autônomos. O sistema hierárquico do quadro administrativo assegura alto grau de eficiência no exercício de dominação, sendo indispensável à sua racionalização. A hierarquia ajuda na minimização de atritos, na redução de custos e na eliminação de elementos irracionais e emocionais que fogem à possibilidade de cálculo. O controle dos processos e das rotinas imprime segurança e certeza, unificando a aplicação das normas no tempo e no espaço, segundo padrões éticos previamente estabelecidos. Ou seja, o serviço público deve ser invariavelmente burocratizado porque lhe cabe perseguir e implementar, com a máxima eficiência técnica, as normas legitimamente impostas. O funcionário público - seja ele o militar, o diplomata, o coletor do fisco, o magistrado ou o delegado de polícia – só pode agir no âmbito do que lhe é facultado pela norma. Nas relações entre agentes privados impera a liberdade negativa: tudo o que não está proibido é permitido. O espaço de liberdade de ação é bem maior, mas tem limites na ética organizacional e do trabalho. O modelo burocrático, nesse sentido, também sofre influência dos valores éticos socialmente enraizados. Ao se legitimar pelo saber técnico, pela especialização do conhecimento e pela eficiência administrativa, fundamentado em um sistema hierárquico e disciplinar, a burocracia ajuda a fortalecer os padrões éticos legitimados. Dessa forma, ao gerar mais obediência às normas de comportamento desejadas, a burocracia fortalece o controle, a confiança e a previsibilidade nas organizações. 5.4 O CÓDIGO DE ÉTICA PROFISSIONAL Conforme visto nos itens anteriores, a ética nas organizações e nas burocracias visa estabelecer padrões mais elevados e socialmente legitimados de 71 comportamento corporativo. Busca-se um equilíbrio entre as preocupações racio- nais, financeiras, sociais e sustentáveis. No âmbito individual do exercício das profissões, a ética também busca promover atitudes e valores considerados positivos pela sociedade, como a transparência, a verdade e a honestidade. Dessa forma, as ações éticas, no âmbito profissional, são indispensáveis para orientar as condutas humanas e gerar harmonia social. 5.4.1 Os Conselhos Profissionais de Ética Em qualquer profissão existe um mínimo ético a ser respeitado. Os conselhos profissionais têm um papel relevante nesse sentido, ao disciplinar a conduta dos profissionais, prever situações que envolvam dilemas morais e estabelecer rotinas padronizadas para a resolução de conflitos. Os conselhos profissionais de classe - como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o Conselho Federal de Medicina (CFM), o Conselho Federal de Administradores (CFA), o Conselho Federal de Engenharia (CFE) e o Conselho Federal de Psicologia do Brasil (CFP), bem como as suas representações regionais - são organizações que geram previsibilidade e certeza para a conduta dos profissionais. Suas regras, normas e portarias são guias de ação para situações de incerteza. Cada vez mais a ética profissional se enraíza nas relações de trabalho e produção, sobretudo, em uma sociedade cada vez mais marcada pela proliferação de serviços e de demandas. O Código de Ética Profissional busca a implantação de valores considerados relevantes para a orientação da conduta dos indivíduos nas relações de trabalho, levando em conta as particularidades da profissão que representa perante a classe e a sociedade. Conforme visto nas seções anteriores, as práticas éticas disseminadas socialmente fortalecem as organizações e ampliam o seu valor de mercado. Organizações e seus profissionais não podem estar alheios ao que ocorre no ambiente externo, pois estão socialmente inseridos num espaço e num tempo marcado por valores, crenças e práticas institucionalizadas. Conforme visto nas Unidades 1 e 2 deste livro, a Ética não deve ser vista comoalgo abstrato, mas como a base da agregação de valor e de conhecimento em cada sociedade. Dilemas morais e éticos existem em todos os contextos sociais, inclusive no mundo corporativo. O que as normas de conduta ética na vida profissional visam é elevar o desempenho, reduzir incertezas e disseminar ações 72 consideradas positivas, lícitas, corretas e desejáveis. Nesse sentido, a ética profissional não se diferencia tanto da ética na família, na religião, na escola e na política. A codificação e a formalização de comportamentos considerados éticos buscam a sua interiorização e obediência. Diferentemente da moral, o Direito estabelece normas obrigatórias que induzem a adequação dos comportamentos dos indivíduos às regras dadas, sob pena de sofrerem sanções em caso de descumprimento. Com o desenvolvimento e a expansão da economia capitalista, a ética profissional passou a ser um tema cada vez mais relevante. Na economia de livre- mercado, o indivíduo é o ator central. Dessa forma, não se pode dissociar a ética individual da ética das empresas. Da adequação dos indivíduos a comportamentos socialmente esperados depende o êxito das empresas. As organizações modernas são um produto da Revolução Industrial e se desenvolveram com base na certeza e na previsibilidade. Na sociedade contemporânea, porém, impera o indivíduo. As organizações nada mais são do que um conjunto de indivíduos mobilizados em torno de um objetivo comum. Muitas vezes essa abstração esconde os atores que, mais do que simples agentes signatários de um contrato de obrigações, são verdadeiramente sujeitos ativos, seres conscientes da realidade e dotados de plena capacidades analítica e reflexiva. A visão do indivíduo como unidade de análise levaria a novas formas de superação da resistência à mudança que permitem a adoção espontânea de padrões éticos, sem a necessidade de imposição. A mudança de pensamento organizacional leva tempo para ser processada, um tempo que não é apenas o da organização, mas o que cada um dos seus partícipes leva para responder aos estímulos do ambiente, já que a aceitação e resistência à mudança é algo emocional e cognitivo. Assim sendo, direcionar as percepções individuais e integrá-las num programa de ação coordenado no campo da ética profissional pode ser o diferencial entre a adoção de um comportamento resistente e a decisão convicta de superar a resistência. A resistência à mudança de padrões éticos é um mecanismo de defesa, um meio de expressão da insegurança, da nostalgia ou da repressão do indivíduo que muda junto com a organização a que pertence. Assim, pensar o ser humano como o princípio, a base de toda estratégia de mudança é a saída para a obtenção de melhores resultados e o alcance dos objetivos pretendidos. 73 Dessa forma, as empresas que não conseguem convencer os indivíduos a mudar os seus comportamentos éticos estarão sempre vulneráveis a comportamen- tos perniciosos: corrupção, o patrimonialismo, o abuso de autoridade, o desvio de dinheiro, a fraude e os diversos tipos de assédio. Considerados desvios éticos graves pela sociedade, esses problemas podem comprometer a reputação das empresas e afetar o seu valor de mercado. Empresas que visam apenas a maximização utilitária do lucro, sem preocupações ambientais, sociais e humanas, estão mais sujeitas a comportamentos considerados moralmente desviantes e antiéticos. A perda da reputação, do respeito e da credibilidade, em um mundo de elevada competição, pode ser fatal para uma companhia. Nesse sentido, tal como visto nas primeiras seções deste capítulo, as empresas desenvolveram estratégias institucionais de adaptação à nova realidade social, na qual práticas antiéticas são condenadas. A necessidade de adequar ações humanas ao padrão de comportamento desejado traz um custo elevado para as empresas. A necessidade de alterar diretrizes organizacionais nos planos interno e externo conduziu à necessidade de se pensar em uma ética empresarial. A responsabilidade social com os empregados, clientes, consumidores, fornecedores, governo e com a comunidade como um todo se insere neste contexto. A busca de um bom relacionamento com os diversos atores que interagem no processo produtivo tem consequências diretas na imagem das empresas e de seus empregados. Responsabilidade social, dessa forma, é indissociável de uma harmônica relação de um profissional com o seu meio. Os códigos de ética são uma imposição dessas mudanças institucionais. Nesse sentido, sob a influência de corporações norte-americanas, começaram a surgir, na década de 1970, as primeiras codificações sobre os comportamentos dos funcionários e a sua adequação às regras éticas vigentes. Esses primeiros manuais de conduta estavam alinhados às legislações vigentes naquele período, sobretudo, no campo das relações de trabalho, do meio ambiente e dos direitos do consumidor. Buscava-se, sobretudo, a limitação da margem de ação dos empregados e a punição de comportamentos desviantes. Na década seguinte, buscou-se a mudança das mentalidades não apenas pelo uso de mecanismos de coerção e punição, mas pelo convencimento da necessidade de alteração dos padrões e da cultura organizacional. A busca do fomento à confiança e à transparência no ambiente de trabalho foi a chave dessas 74 alterações. As pessoas precisavam ser convencidas dos valores das empresas e dos princípios que defendiam. Tendo em vista esse novo contexto, as corporações representativas de categorias profissionais passaram a auxiliar no processo de normatização, de orientação e de disciplina no ambiente de trabalho. Nesse sentido, os códigos de ética profissional se tornaram instrumentos de racionalização de comportamentos profissionais. Eles apresentam os princípios orientadores, os valores e as diretrizes considerados éticas no exercício de cada profissão, com consonância com os padrões éticos e as melhores práticas da sociedade. Sua eficácia depende, sobretudo, da sua aceitação e incorporação à cultura das organizações e às rotinas dos funcionários. 5.5 ÉTICA E CIDADANIA NAS RELAÇÕES DE TRABALHO A mudança de comportamentos éticos nas empresas depende, sobretudo, da mudança das mentalidades individuais e da cultura organizacional. Não basta às organizações apenas obedecer às legislações nacionais e gerar retornos financeiros aos seus acionistas. É preciso manter relações harmônicas com todos os atores que com elas interagem, gerando comprometimento com valores básicos da sociedade. A incorporação de valores nas interações sociais fortalece a aceitação das empresas e o desejo por seus produtos e serviços. A valorização de competências, o 75 reconhecimento da cidadania, a busca da transparência, da excelência, da efi- ciência, da competência e da honestidade são cada vez mais centrais no mercado de trabalho. Em síntese, a disciplina da ética, nas relações sociais e no mundo do trabalho, tornou-se um imperativo no mundo contemporâneo. Os princípios éticos são importantes não apenas para a adequação das organizações às normas socialmente aceitas como lícitas e corretas, mas também para o fortalecimento de uma cultura cidadã no país. A ética é indispensável para agregar valor às relações produtivas e para fortalecer o compromisso das organizações com os valores supremos da cidadania. Não se pode separar o espaço público do espaço privado no que toca a valores indispensáveis da civilização. Dessa forma, ao valorizar profissionais éticos e prestigiar práticas alinhadas com comportamentos socialmente responsáveis, as empresas maximizam as suas vantagens competitivas e contribuem para disseminar padrões mais elevados de comportamento social. Em longo prazo, decisões éticas constituema base sobre a qual se constrói uma sociedade mais livre, justa e solidária, baseada nos valores do trabalho e da livre-iniciativa. Os Códigos de Ética Profissional, nos mais variados campos do trabalho, são instrumentos que asseguram a difusão de normas de conduta ética no mundo corporativo, moldando empresas e profissionais segundo padrões moralmente desejados. Não se pode depender, contudo, apenas dos instrumentos punitivos para que tais normais sejam cumpridas no cotidiano profissional. É preciso, sobretudo, mudar mentalidades e difundir novas práticas culturais acerca da ética empresarial e profissional. As empresas bem-sucedidas no mundo globalizado são aquelas capazes de se pautar por um mínimo ético. Dessa forma, empresas não devem encarar a ética como um empecilho para o alcance dos seus objetivos, mas como uma plataforma de sustentação e de sobrevivência. Padrões éticos de conduta melhoram as relações entre os empregados, elevam a imagem externa e melhoram a relação das empresas com o seu meio, contribuindo para uma sociedade mais harmônica e equilibrada. 76 Inconstrastável: O que não pode ser respondido, contrastado. Neoinstitucionalista: corrente sociológica que explica a adoção de regras por uma instituição, bem como as marcas e atitudes empregadas por ela, tudo isso baseado em valores culturais de uma sociedade. https://bit.ly/2PiIjyY https://bit.ly/2PiIjyY 77 FIXANDO O CONTEÚDO 1. (FGV - Analista Legislativo Municipal, 2007) Código de valores que norteiam a conduta de um indivíduo, bem como suas decisões e escolhas, fazendo com que esse indivíduo seja capaz de julgar o que é certo e errado. Trata-se d definição de: a) Altruísmo b) Egoísmo c) Consenso d) Participação e) Moralidade 2. (Fundação Carlos Chagas (FCC, 2019) A ética associa cultura e sociedade para definir o que seja mal ou bem, vício ou virtude, que são antagônicos. Com base nessa definição, a virtude da “gentileza”, muito importante para o atendimento do cidadão- usuário, correlaciona-se ao vício de: a) Irascibilidade b) Ambição c) Vaidade d) Indulgência e) Vulgaridade 3. (FGV, 2015, adaptado) O campo em que a ética empresarial se manifesta é constituído por três elementos: agente, virtude e meios. Os dilemas éticos resultam do conflito presente nos valores, nos destinatários e nos meios que servem de base às decisões, impondo uma hierarquia de princípios. Encontrar solução para esses dilemas não é tarefa fácil. Mas alguns princípios podem facilitar a decisão acerca dos dilemas éticos, entre eles: a) Faça o que for melhor para o maior número de pessoas e siga seu mais alto juízo ou princípio; 78 b) Faça o que for melhor para o maior número de pessoas e opte pelos valores do ambiente; c) Siga seu mais alto juízo ou princípio e opte pelo alijamento do código de conduta moral vigente; d) Faça o que quer que os outros façam a você; e opte pelo alijamento do código de conduta moral vigente; e) Faça apenas o que lhe foi solicitado e nada mais. 4. (FCC, 2019) Determinado agente público estadual comissionado tem direito a carro oficial para ser utilizado no exercício de suas funções. Considere que o referido agente tem feito uso desse direito para seus familiares, em especial para conduzir seus filhos às atividades escolares. A conduta do agente: a) a despeito de violar o código de ética, somente poderá ser apurada se for objeto de denúncia, cabendo ao denunciante demonstrar o efetivo prejuízo causado aos cofres públicos. b) viola o código de ética da Administração Pública Estadual, razão pela qual poderá ser instaurado, de ofício ou em razão de denúncia, procedimento para apuração dos fatos, de competência da Comissão Geral de Ética. c) a despeito de ferir o princípio da moralidade, não viola o código de ética da Administração Pública Estadual, pois este não se aplica aos servidores comissionados, mas aos servidores públicos titulares de cargo efetivo e aos titulares de cargo de alta direção. d) não viola o código de ética, porquanto, em razão dos usos e costumes, é administrativamente aceita. e) somente poderá ser objeto de apuração pela Comissão de Ética na hipótese de o referido agente ter expressamente aderido aos termos do Código de Ética no momento da investidura. 5. (FEPESE, 2019) Leia o fragmento a seguir. A ética profissional garante um ambiente de trabalho produtivo e seguro. A fim de explicitar os padrões éticos para uma determinada classe profissional, foram instituídos os ____ que têm por finalidade tornar claro o pensamento de uma dada 79 classe profissional, de modo a comprometer seus integrantes com os objetivos particulares da profissão, respeitando os princípios ____ da ética. Assinale a alternativa cujos itens completam corretamente as lacunas do fragmento acima. a) códigos de conduta - universais b) regulamentos - legais c) códigos de conduta - legais d) regulamentos - universais e) regulamentos - morais 6. (FEPESE, 2019) É característica importante para o atendimento ao público a demonstração de: a) presteza e intolerância. b) ineficiência e educação c) cortesia e falta de paciência. d) pernosticidade e postura profissional e) objetividade na comunicação e postura profissional 7. (FAUEL, 2019, adaptada) Leia com atenção a definição a seguir e assinale o termo correspondente. É um conjunto de valores e normas de comportamento e de relacionamento adotados no ambiente de trabalho, no exercício de qualquer atividade. Ter essa conduta é saber construir relações de qualidade com colegas, chefes e subordinados, contribuir para bom funcionamento das rotinas de trabalho e para a formação de uma imagem positiva da instituição perante os públicos de interesse, como acionistas, clientes e a sociedade em geral. (Fonte: Guia da Carreira) a) Cidadania e urbanidade. b) Ética profissional. c) Relações humanas. d) Sociedade de consumo. e) Moralidade e responsabilidade. 80 8. (FEPESE, 2019) Analise as afirmativas abaixo que tratam de Ética e Responsabilidade Social nas organizações: 1. As organizações contemporâneas devem valorizar o comportamento ético de seus funcionários e agir de forma responsável em relação ao seu ambiente de atuação. 2. As organizações contemporâneas devem buscar seus resultados independentemente dos padrões éticos e morais empregados para obtê-los. 3. A responsabilidade social é sempre um custo desnecessário para as organizações. 4. Ações de responsabilidade social podem valorizar a imagem organizacional. Assinale a alternativa que indica todas as afirmativas corretas. a) É correta apenas a afirmativa 1. b) É correta apenas a afirmativa 2. c) São corretas apenas as afirmativas 1 e 3 d) São corretas apenas as afirmativas 1 e 4. e) São corretas apenas as afirmativas 2 e 3. 81 ÉTICA PROFISSIONAL NA EDUCAÇÃO FÍSICA A profissão de Educação Física como todas as outras precisa seguir normativas, conceitos, parâmetros, se “encaixar” em uma linha comportamental necessária a execução de sua atividade. Por isso as profissões possuem cada uma, seu código de ética que norteia os parâmetros que o profissional deve seguir em exercer suas atividades laborais. O Profissional de Educação Física possui suas peculiaridades, pois o mesmo possui um leque muito grande de atuação. O licenciado atua nas escolas com idades diversas e formas de atuar diferente, desde a linguagem utilizada, o tipo de intervenção e o comportamento diante dos seus alunos (linguagem verbal e não verbal). O bacharel é mais amplo: desde intervenção individual a nível clinicodos conceitos de Moral e de Ética à luz do contexto histórico. Os conceitos de Moral e de Ética , como serão vistos, se referem a objetos distintos, mas, guardam relações estreitas entre si. A Unidade 2 trata da aplicação dos conceitos de Ética e de Moral nas relações sociais. Direito e Política, dois campos das relações sociais, dialogam diretamente com a Moral e com a Ética. Esta unidade aborda ainda a diferença entre Ética das Convicções e Ética da Responsabilidade, dois conceito essenciais para a compreensão da ética no contexto social. A Unidade 3 aborda a temática da Ética, da Moral e da Política na construção do sentimento de cidadania. Aborda ainda a relação entre cidadania e a afirmação histórica dos direitos fundamentais, base da democracia. A unidade finaliza com a análise do fenômeno da cidadania em contexto de globalização. A Unidade 4 trata do desenvolvimento da cidadania no Brasil após a promulgação da Constituição de 1988. Dessa forma, analisa como os cidadãos podem exercer seus direitos e quais os limites de atuação no Estado na salvaguarda dos direitos e garantias fundamentais. Por fim, aborda a problemática do patrimonialismo e como afeta o Estado de Direito. A Unidade 5 analisa as questões éticas à luz das relações de trabalho. Compreenderá uma discussão sobre a ética no mercado, nas instituições e na burocracia, a responsabilidade social das organizações e a ética nas burocracias. Por fim, analisa o fenômeno da normatização de comportamentos éticos, o Código de Ética Profissional e a importância da ética e da cidadania no mundo do trabalho. A Unidade 6 introduz ao aluno um conhecimento básico e necessário relacionado ao conceito de ética profissional. Apresenta a história da criação da Profissão em Educação Física, através de manifestos, congressos, debates mundiais para iniciar a fundamentar a profissão embasada em cientificidade. Aborda o código de ética. Onde descreve todos os direitos e deveres de um Profissional de Educação Física. 8 ÉTICA E MORAL: CONCEITOS E EVOLUÇÃO HISTÓRICA “A razão vos é dada para discernir o bem e o mal” Dante Alighieri, poeta italiano 1.1 O QUE É ÉTICA E MORAL? Ética e moral são conceitos distintos, mas que guardam estreita relação entre si. A ética é a tradução etimológica do termo ethos (hábito, habitualidade, com- portamento reiterado). O hábito revela a personalidade. A questão da ética é essen- cialmente prática e envolve pensar sobre aquilo que o sujeito faz enquanto ser que faz escolhas e toma decisões (agente) ou que é impacto pelas escolhas ou pelas decisões de outras pessoas (reagente). Em outras palavras, a ética é a liberdade interior de cada indivíduo, isto é, aquilo que cada um considera ser bom ou ruim, vicioso ou virtuoso para si mesmo. O conceito de moral, por sua vez, diz respeito aos grandes paradigmas e valores de um determinado grupo social em um dado tempo. Trata-se de um consenso coletivo para o comportamento dos indivíduos e a condução da vida em comunidade. Há um convívio dialético entre ética (do indivíduo) e moral (do grupo). A decisão ética não é simples fruto da cultura, mas também da história pessoal do indivíduo. Sócrates, um dos maiores filósofos da Humanidade, questionava os valores da sociedade da Grécia Antiga. Acusado de corromper o juízo da sociedade atensiense, Sócrates perguntava, entre outras questões, o que era o bem e o que era o mal, algo sem resposta até os dias de hoje. O ato socrático de questionar a moral estabelecida em sua época era visto como algo subversivo e desestabilizador, pois colocava em dúvida as verdades estabelecias. A Antropologia, ao estudar o homem como produtor de cultura, tem grande contribuição a dar ao estudo da ética. A Psicologia, por seu turno, discute como o indivíduo toma suas decisões pessoais. Por que tomou essa decisão? Do mesmo modo, a História e a Sociologia são ciências que ajudam a iluminar o entendimento da moral e da ética. UNIDADE 01 9 A Ética, entretanto, não é uma ciência. Seu objetivo não é produzir respostas absolutas para os problemas humanos. O que a Ética busca é refletir acerca da ação humana e sobre os seus valores fundamentais. Os valores não são permanentes, imutáveis ou aplicáveis a todas as situações. Sempre temos que decidir e fazer escolhas. Os indivíduos podem decidir de acordo com a moral do grupo ou contra a essa moral. Será que tudo o que é lícito é moral? Será que tudo o que é legal é ético? Os valores são relativos e as decisões humanas são tomadas no calor das circunstâncias. A cada momento temos que decidir o que é bom ou ruim, o que fazer e o que não fazer, com base em nossa condição de indivíduo. 1.2 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS CONCEITOS O objeto da reflexão ética é o comportamento humano. É impossível sustentar uma comunidade imensa de pessoas vivendo sob uma única ética. Da mesma forma, é tarefa difícil estabelecer o limite entre o ético e o antiético. Isso se traduz em uma sensação de não se identificar com clareza a barreira entre o que se pode e o que não se pode fazer. A principal característica das sociedades contemporâneas é a insegurança. Isso se traduz em uma sensação permanente de desorientação social, confusão e incerteza. Existe um padrão de comportamento? E um valor universal? Qual é o valor absoluto? Não há respostas fixas para estas perguntas. Se por um lado a flexibilização dos valores universais traz uma sensação inédita de liberdade, por outro a ausência de paradigmas de comportamentos dificulta enormemente a decisão. A multiplicidade de escolhas e de oportunidades passa a ser um instrumento opressor da liberdade. As dúvidas e as inseguranças passam a ser frequentes. Como resposta a este cenário de incertezas, ocorre a chamada “tribalização” da sociedade: as pessoas não se comportam segundo valores universais aplicáveis a todos, mas dentro dos valores do seu grupo (MAFFESOLI, 1997). Essa instabilidade traz grandes impactos nos campos político, jurídico, social, cultural e religioso. Um 10 comportamento que os indivíduos buscam na tentativa de lidar com a insegurança é a busca do passado ou de padrões tradicionais assentados em valores religiosos e familiares. Os grandes paradigmas da vida moderna passam por uma revisão profunda. Isso produz uma série de transformações sociais. A crescente individualização das responsabilidades sociais leva à desagregação dos instrumentos sociais de decisão consensual, como a política. O Estado e o Direito também parecem não ser mais instrumentos eficazes para balizar os comportamentos humanos. Ademais, existe a mentalidade que supervaloriza o homem capitalista em face da dimensão do social, do coletivo ou do político. Diante da sensação de desgoverno das funções estatais, da incapacidade de atender às necessidades fundamentais e da sensação de insegurança generalizada, as categorias universais são substituídas por valores individuais. A falta de parâmetros morais leva à insegurança nas decisões. Cada um passa a valer pelo que produz e pelo que consome. É mais importante ter do que ser. O mercado determina o que é a essência. E quem está fora do mercado? E quem não tem poder de troca? Neste contexto, a dignidade da pessoa humana acaba perdendo sentido e as pessoas que estão fora da relação de consumo são desconsideradas enquanto sujeitos. Nessa linha, a pergunta fundamental da ética (como agir) encontra uma resposta retórica nas questões relativas à exclusão social. Os povos antigos não conheceram a diferença entre o mundo da ação política, o mundo do direito e o mundo do exercício do pensamento. Na Antiguidade, há uma certa integralidade dos pensamentos. Eles não tratavam as coisas de modo cartesiano, departamentalizandopsicomotor, treinamento esportivo, treinamentos (academias, studios e ambientes particulares e livres), recreação, intervenção na saúde básica e a nível hospitalar entre outros (LOCH et al. 2019). Segundo Leme e Varoto (2013), em todas as áreas e âmbitos de atuação o comportamento ético deve prevalecer, pois trabalha-se não apenas com o desenvolvimento corporal, mas com a formação geral do indivíduo. Assim a responsabilidade e comprometimento em ter o “cuidado” com cada indivíduo e ambiente de trabalho é fundamental para um bom desenvolvimento da carreira como profissional. Cada indivíduo é único e merece uma intervenção específica a sua realidade biológica e social. A Profissão de Educação Física é firmada pelo CONFEF (Conselho Federal de Educação Física), pelo o Manifesto Mundial da Educação Física - 2000 da FédérationInternationale D´EducationPhysique (FIEP), além da carta, que deixa claro que a Educação Física, pelos seus valores, deve ser compreendida como um dos direitos fundamentais de todas as pessoas. É importante salientar que a regulamentação do Curso de Educação Física foi decretada e sancionada através da Lei nº 9.696 de 01 de setembro de 1998, onde foi criado os respectivos Conselho UNIDADE Erro! Fonte de referência não encontrada. 82 Federal e Conselhos Regionais de Educação Física (CONFEF/CREF). A educação Física faz parte do processo de Educação, que seja através das vias formais ou não-formais. Desta forma promove uma educação efetiva para a saúde ocupando o tempo livre ou os momentos de lazer, trazendo ao beneficiário um estilo de vida ativo. Deixando evidente que através do meio educacional pode sim fazer com que as pessoas tenham ciência que as atividades físicas podem trazer benefícios à saúde humana nas formas de exercícios ginásticos, jogos, esportes, danças, lutas, atividades de aventura, relaxamento e ocupações diversas do lazer ativo. Atividade física inserida na vida das pessoas através do meio educacional deixa claro as suas possibilidades no desenvolvimento motor e afetivo das pessoas, principalmente quando se trata de crianças e adolescentes, além de ter um papel crucial em relação aos domínios cognitivos e sociais enfatizando o trabalho com o corpo. A educação Física “ao ser assegurada e promovida ao longo da vida das pessoas, apresenta-se com relações efetivas e profundas com a Educação, Saúde, Lazer, Cultura, Esporte, Ciência e Turismo (Carta Brasileira de Educação Física/CONFEF, 2000). Desta forma, os compromissos com as pessoas com necessidades especiais, a exclusão social, são defendidas independe do país, além da paz e do meio ambiente. Os profissionais de Educação Física que realizam suas atividades com Ética, tem mais oportunidades no mercado de trabalho, pois a ética está fundamentada como ideias do bem e da boa virtude do trabalhador, sempre deve estar atualizado em relação às técnicas e práticas da profissão que exerce, transmitindo as pessoas envolvidas confiança no trabalho executado, responsabilidade, proatividade, comprometimento que é mostrado através de normas básicas como a assiduidade no trabalho, o comportamento moral e sócio educativo. A Ética e a moral são firmados através da sociedade através de termos do senso comum. Logo, a “...Ética vem ao meio da sociedade como normas que precisam ser seguidas para que haja uma boa convivência entre os homens” (Rildete Oliveira, 2018). A finalidade destes conceitos é uma forma de orientar a sociedade em relação aos valores e morais que devem ser seguidos e conservados. A conduta do homem tem como responsável a ética e a moral que constrói os alicerces e vem por definir seu caráter e virtudes, ensinando seu comportamento perante a sociedade. Desde que que o homem nasce, ele é ensinado o que é certo ou errado 83 e a partir daí irá reproduzir os valores que são impostos no meio em vive. Pode-se dizer que os valores do homem fazem parte de sua formação, do desenvolvimento de sua consciência, de sua maneira de agir e também de se relacionar perante a sociedade, ou seja, os valores são normas de conduta do ser humano que vem por determinar suas decisões sempre levando em consideração e garantindo a convivência no meio social de forma pacífica, honesta e justa. O comportamento ético contribui de forma a garantir o bom andamento das atividades e favorecer um clima sadio e harmonioso. Dessa forma, no ambiente de trabalho, os funcionários, passam a desenvolver mais confiança entre si, o que auxilia no aumento da produtividade e respeito mútuo. A organização da profissão de Educação Física iniciou-se com vários manifestos, seminários, congressos nacionais e internacionais trazendo debates, ideias para construção das diretrizes e normativas para a profissão, sendo um dos documentos marcantes para esta construção foi a carta Brasileira. https://bit.ly/3LGkYyA 84 6.1 CARTA BRASILEIRA DE EDUCAÇÃO FÍSICA A carta brasileira de Educação Física (2000) é um documento que surgiu para deixar em evidência regulamentações dos profissionais de Educação Física no Brasil. A carta enfatiza o profissional brasileiro de educação física, o objeto da educação física no brasil, coloca a educação física como referência para uma educação física de qualidade, como deve ser a preparação dos profissionais, primando pela qualidade. Dentro das escolas e em demais espaços físicos é defendida uma educação física de qualidade, além disso, deixa claro as responsabilidades do governo e do Conselho Federal de Educação Física (CONFEF/CREF). 85 figura 1: Carta Brasileira de Educação Física Fonte: Disponível em: https://bit.ly/3lzwdye. Acesso em: 02 abr. 2022. Para esta carta, foram utilizados desde os manifestos, agendas, congressos nacionais e internacionais para que este documento fosse tratado. Foi um caminho árduo e muita reflexão. Teve início com a Declaração Universal dos Direitos Humanos (Nações Unidas, 1948). A Agenda 21 (Earth Summit, Rio de Janeiro, 1992), o Manifesto 2000 - Por uma Cultura de Paz e Não - Violência (Grupo de Prêmios Nobel, 1998), a Carta Internacional de Educação Física e Esporte (Unesco, Paris, 1978), a Carta dos Direitos da Criança no Esporte. (Panathlon, Avignone, 1995). Na década de 1930, teve início aqui no Brasil, na área da educação com uns dos primeiros manifestos. Começou com a Carta de Belo Horizonte (1984), a qual foi assinada por vários intelectuais reagindo ao autoritarismo da época, depois veio a Carta Brasileira de Esporte Educacional (1989), emitida pela academia brasileira de Educação Física, onde buscava-se um norte para um comprometimento dos esportes na área educacional. Quando veio a transição do século em 1999, a área da Educação Física, proporcionou três encontros internacionais, onde analisaram aspetos importantes nas práticas educativas: https://bit.ly/3lzwdye 86 Sendo o 1º aspecto: World SummitonPhysicalEducation (Berlim), lá foi expedida a Agenda Berlim, onde ficou estabelecido que a educação física deveria ser oferecida com qualidade, sendo uma das principais exigências. O 2º aspecto: aconteceu o III Encontro onde Ministros e responsáveis pelo esporte e educação física (III MINEPS). Neste encontro elaboraram as diretrizes para as realizações das ações dos governos em favor da Educação Física e do esporte (Declaração de Puntadel Este). Já o 3º aspecto: aconteceu o Congresso Mundial FIEP em Foz do Iguaçu. Neste congresso foi lançado o Manifesto Mundial FIEP – 2000. Este Manifesto defende o direito da Educação física para todos onde evidenciou compromissos a questões humanitárias. Além disso, o Manifesto fez observação em todos os documentos existentes fazendo uma síntesecom posicionamentos internacionais declarados. Conforme o Manifesto Mundial da Educação Física - 2000 da Fédération Internationale D´Education Physique (FIEP), a Educação Física deve ser compreendida pelos seus valores e como um dos direitos fundamentais de todos. Sendo que a mesma faz parte do processo de educação, tanto pelas vias formais e não formais, de forma “...que ao promover uma educação efetiva para a saúde e ocupação saudável do tempo livre de lazer, constitui-se num meio efetivo para a conquista, de um estilo de vida ativo, dos seres humanos”. Na educação física, as atividades físicas quando praticada com intenção educativa, sejam elas através de jogos, exercícios de ginástica, esportes, danças, relaxamento e atividades de aventura torna-se ocupações de várias formas de se praticar o lazer ativo. Além disso, conta-se com a possibilidade de desenvolvimento motor e afetivo do indivíduo, sejam crianças ou adolescentes, abarcando também o desenvolvimento cognitivo e social. Pode-se contar que a Educação física faz parte do processo de vida dos indivíduos, tanto na saúde, na educação, no lazer, na cultura, no esporte, na ciência e no turismo. Sem deixar de fora as pessoas com necessidades especiais e sempre em prol da inclusão social e independente dos países primando pela paz e pelo meio ambiente. Nos últimos anos, sempre fazendo indicações necessárias com significado nível de importância das atividades físicas, discutidos em programas e eventos, colocando como conclusões e emitiram documentos deixando pontos esclarecedores. Vejam 87 através dos históricos dos movimentos: Manifesto Mundial da Educação Física (FIEP/ 1970); I Conferência Internacional de Ministros e Altos Funcionários Encarregados pela Educação Física e os Desportos (UNESCO/ Paris/ 1976); Carta Internacional de Educação Física e do Esporte (UNESCO/ 1978); Reuniões da Associação Européia de Educação Física (EUPEA/ GHENT/ 1977) (EUPEA / Madri / 1991); II Conferência Internacional dos Ministros e Altos Funcionários Responsáveis pela Educação Física e o Esporte (MINEPS II/ UNESCO/ Moscow/ 1988); Congresso Mundial de Yokohama (ICHPERD/ 1993); XV Congresso Panamericano de Educação Física (Lima / 1995); Carta dos Direitos da Criança no Esporte ( Panathlon / Avignone/ 10º Congresso Internacional/ 1995); Manifesto sobre a Atividade Física e o Esporte (Rede Ibero- Americano de Centros Superiores de Ciências da Atividade Física e do Esporte/ I Seminário de Institutos e Faculdades de Ciências do Esporte/ Cartagena das Índias / 1996); I Congresso Mundial de Educação Olímpica e para e Esporte (FOSE/ KALAVITRA/ 1997); Declaração de São Paulo (5º Congresso Mundial de Recreação e Lazer/ WLRA, 1998); Programa Vida Ativa, da Organização Mundial de Saúde (WHO, 1998); Manifesto de São Paulo (ICSSPE/ CELAFISCS/ 1998); XVIII Congresso Panamericano de Educação Física (Panamá/ 1999); Conferência Mundial sobre Meio Ambiente e Esporte (COI, COB/ Rio de Janeiro/ 1999); III Conferência Internacional dos Ministros e Altos Funcionários Responsáveis pela Educação Física e o Esporte (III MINEPS/ UNESCO/ Puntadel Este/ 1999); II Congresso Mundial de Educação Física Olímpica e para o Esporte (FOSE/ Montes Olímpius/ 2000); Conferência Mundial sobre Educação Física e Esporte para a Cultura da Paz (UNESCO/COI/Paris/2000) (Carta Brasileira de Educação Física, 2000). Em 1998, os profissionais de Educação Física no Brasil tiveram sua conquista. O exercício profissional foi regulamentado através da Lei nº 9696/98. Com isso, valorizando o profissional de Educação Física de forma efetiva e responsável. A Carta A carta, formulada pelo Conselho Federal de Educação Física, durante o Fórum Nacional que aconteceu em Belo Horizonte em agosto do ano de 2000, afirma a regulamentação do exercício profissional na área de Educação Física no Brasil através da Lei nº 9696/98. Deixa claro a necessidade de um processo de qualidade em todas as ações em que se refere a área e sempre buscando novas reflexões e discussões no decorrer dos anos, levando em conta fatores relacionados a cultura, 88 ao social e educacional do país. Profissionais de Educação Física Os profissionais de Educação Física no Brasil devem ser identificados e registrados no CONFEF/CREFs. Devem possuir formação acadêmica e sempre estar se aprimorando no contexto técnico-científico e cultural. O órgão CONFEF/CREFs, são responsáveis pelo exercício profissional na área de Educação Física, onde utiliza e investiga, respectivamente, com fins educativos e científicos, as possíveis formas de expressão de atividade física; Educação Física no Brasil O objetivo da Educação Física no Brasil, é “constituir- se numa Educação Física de Qualidade, sem distinção de qualquer condição humana e sem perder de vista a formação integral das pessoas, sejam crianças, jovens, adultos ou idosos, terá que ser conduzida pelos Profissionais de Educação Física como um caminho de desenvolvimento de estilos de vida ativos nos brasileiros, para que possa contribuir para a Qualidade de Vida da população” (Carta Brasileira de Educação Física, 2000). Referências para uma Educação Física de qualidade no país Conforme descrito na carta a Educação Física no Brasil, a Educação Física deve ser de Qualidade, de forma a contribuir para a melhoria da sociedade. Primeiramente, deve ser entendida como direto e não como obrigação. Promovendo benefícios através das atividades físicas e esportivas às pessoas ao longo da vida, independentes de ser práticas formais ou não-formais. Levar em consideração as práticas esportivas, danças e jogos que devem ser valorizados, pois fazem parte da cultural do país e das diferentes regiões. As atividades físicas sempre devem ser acompanhadas por um profissional habilitado, onde as práticas corporais sejam de forma prazerosas. Lembrando que o profissional de Educação física sempre deve levar em consideração a individualidade biológica do indivíduo provendo vivências e experiências de solidariedade, cooperação e superação. Além disso, ajudar o beneficiário a desenvolver sua corporeidade de forma a entender e perceber seus benefícios na promoção da saúde. Estar sempre buscando novos conhecimentos na área, ter atitudes interdisciplinares, promover ações dentro da comunidade acadêmica em 89 relação à pesquisa, intercâmbio e difundir informações e programas de cooperação técnico-científico e disseminar o respeito pelo meio ambiente. Preparação de profissionais para uma educação física de qualidade Um dos pontos esclarecidos foram os currículos acadêmicos, onde incorporaram a educação continuada, para que os profissionais possam acompanhar os avanços técnicos e científicos da área de atuação. Outro ponto, foi equiparar a preparação dos profissionais de Educação Física dos países vizinhos para que tenham um padrão de qualidade através de cursos, eventos e outros oferecidos apresentem compromisso e qualidade considerando a complementação científica. Educação física de qualidade nas escolas A educação física dentro das escolas deve se apresentar com qualidade. Primeiramente, que sejam obrigatórias no ensino básico (infantil, fundamental e médio), e que faça parte do currículo. Que integre a outras disciplinas e façam uso de instalações materiais adequados. Que os discentes tenham aulas que envolvam as práticas esportivas e jogos em seu conteúdo, sempre no sentido educacional, e quando apresentar o esporte de rendimento no ambiente escolar, que sejam sempre com regras específicas fazendo com que o discente entenda o processo educativo. Possibilitar ao discente uma variedade de experiências e vivências, fazendo o uso das atividades físicas para obterconhecimento sobre sua corporeidade, além de despertar como meio de conquista e de um estilo de vida ativo. A busca de uma educação física de qualidade nos seus diversos espaços A Educação Física, ao ser realizada em vários espaços, como academias, clubes, condomínios, praias, áreas públicas e outras, desde que apresente Qualidade, respeite a democracia e igualdade de condições entre as pessoas. A educação física deve levar aos beneficiários sua importância ao longo das suas vidas. Lembrar sempre que o profissional deve ser competente e responsável ao desenvolver os programas de atividade física. Levando em consideração as instalações e equipamentos, os quais devem ser compatíveis com os objetivos específicos e não menos, sua conduta ética sob qualquer pretexto e circunstância. 90 As responsabilidades dos governos para o fomento de educação física de qualidade Algumas estratégias de intervenções que o Governo Federal, os Governos Estaduais e Municipais precisam para compreender o valor de uma Educação Física de Qualidade para a população brasileira. Uma política de valorização da Educação Física, através de programas e campanhas que sejam efetivas. Verificar sempre as necessidades de adaptações nas legislações vigentes. Valorizar o profissional de Educação Física, dando oportunidades através de concursos, promovendo capacitações e atuações em espaços públicos e compreender a Educação Física como meio de promoção de saúde, além de promover ações nos campos legal, fiscal e administrativo. Responsabilidades do CONFEF/CREFs O CONFEF e os CREFs, tem como atribuições e comprometimento em lei atuar no compromisso da Educação Física de Qualidade, intervindo para uma melhoria e valorização dos profissionais, cumprindo o Código de Ética estabelecido. Elaborar e difundir a Carta Brasileira de Educação Física com o objetivo de contribuir com a sociedade. Portanto, cabe ao profissional de Educação Física adequar no seu desenvolvimento acadêmico científico e ético para que tenha um bom desenvolvimento em sua atuação promovendo a saúde e qualidade de vida às pessoas. Desta forma, o “CONFEF: “...em suas atribuições legais publica o código de ética através da resolução 307/2015 que permeia as diretrizes a ser cumprida pelos Profissionais de Educação Física no exercício da profissão” (Concelho Federal de Educação Física, CONFEF). https://bit.ly/3MMgx6K 91 6.2 CÓDIGO DE ÉTICA - RESOLUÇÃO CONFEF Nº 307/2015 As bases legais do código de ética dos profissionais de educação física são as declarações universais dos direitos humanos e da Cultura, Agenda 21, que tem a ver com a proteção do meio ambiente e a Carta Brasileira de Educação Física que foi publicada em 2001. É importante salientar, o que vai nortear o código de ética, salientando principalmente, em que as obrigações estão relacionados ao eixo da Saúde e que está no direito Internacional e nacional de combate a antidopagem de meios ilícitos e lícitos conforme o Código de Ética do profissional de educação física, o qual está sustentado nos princípios bioéticos, que são: fazer bem e o bom, ter benevolência de não fazer o mal nenhum, mal com o uso da ciência na questão da Autonomia das pessoas e das instituições e o princípio da Justiça. https://bit.ly/3yWJ45t 92 figura 2: CÓDIGO DE ÉTICA DE EDUCAÇÃO FÍSICA Disponível em: https://bit.ly/3NvkX1T Acessado em: 03 abr. 2022. Esse código de ética foi construído e sempre renovado para os destinatários, que são os profissionais de educação física e os nossos beneficiários, ou seja, os nossos clientes e as empresas que mais contratam. O Código de Ética prima pela qualidade https://bit.ly/3NvkX1T 93 e competência da atualização dos profissionais de educação física e está envolto nele a questão da transferência das ações profissionais, onde procura nortear a referência dos profissionais de educação física incluindo o CREF como entidade mediadora de todos os segmentos éticos e dados da atuação profissional dos profissionais de educação física e a fundamentação legal que nos rege, que rege nossa profissão, que rege o nosso código de conduta e que sempre levará em consideração os preceitos do Código de ética. Qual é o sentido educacional almejado pelo profissional de educação física? Fazendo julgamento ético, com objetivo fundamental, está sendo pensado na preservação da saúde, se está sendo levado em conta a responsabilidade social do profissional de educação física e prima para que os profissionais de Educação Física assumam as responsabilidades sobre as ações e as condutas no ambiente de trabalho. O profissional de Educação Física tem papel essencial na prevenção e promoção da saúde. Partindo deste contexto, o sistema CONFEFE/CREFs (Conselho Federal e Regionais de Educação Física) no fórum Nacional de Prevenção Integrada da Área de Saúde, promovido em na cidade de Belo Horizonte, em 8 e 9 de setembro de 2005 teve como objetivo construir um elo entre a teoria e a prática. Este fórum visando a prevenção do direito e da prioridade em relação às políticas públicas de saúde possibilitando a inclusão de prevenção nos programas e projetos sociais desenvolvidos, surgindo assim a elaboração da Carta Brasileira de Prevenção Integrada na Área da Saúde. Para construir esta carta foi eleito o Prof. Dr. Manuel Jose Gomes Tubino, que na época era o Presidente da Federação Internacional de Educação Física (FIEP), que aceitou prontamente, onde elaborou a minuta do documento, a qual foi aprovada. 94 figura 3: Carta Brasileira de Prevenção Integrada na Área da Saúde Disponível em: https://bit.ly/3NshPUw Acesso em: 03 abr. 2022. 6.3 O CÓDIGO DE ÉTICA O exercício da profissão exige que os profissionais de educação física se têm em conta, compatíveis com os preceitos da lei que legitima a educação física como campo de trabalhos específicos daqueles que trabalham em educação física conforme a lei 9.696 de 1998. O estatuto do CONFEF, este código de ética e outras normas que são expedidas pelo sistema CONFEF/CREF e demais princípios da moral individual, social e condicional da lei que criou a profissão de educação física do estatuto do nosso Conselho Federal e nos princípios dignos da moral individual, social e profissional em termos e os princípios daqueles que tal e de acordo com Conselho Federal e nos princípios da moral. https://bit.ly/3NshPUw https://bit.ly/3N0mCNn 95 Um dos primeiros princípios norteadores é: Respeito à dignidade a integridade ao direito do indivíduo; Ausência de discriminação e preconceitos de qualquer natureza; Respeito à ética nas atividades profissionais; Valorização da identidade profissional; Sustentabilidade do meio ambiente onde trabalha a Agenda 21; A prestação sempre do melhor serviço e cada vez mais com o número maior de pessoas com competência responsabilidade e honestidade; Atuação dentro da nossa Especificidade, que é fundamental na qual enquadramos a competência; Dirigir os princípios das diretrizes e comprometimento com a preservação da Saúde, portanto qualquer julgamento vai partir desta questão do comprometimento pela preservação da saúde do indivíduo e da coletividade e com desenvolvimento intelectual, cultural do beneficiário da nossa, ou seja, o cliente ou empresa a qual se faz a prestação de serviço; Aperfeiçoamento técnico científico, ético e moral está no código de ética e prima como diretriz, ou seja, como os profissionais de educação física continuem sempre se aperfeiçoando, sendo a graduação o passo inicial e a partir de então tem-se que evoluir; Transparências emnossas ações e decisões: tanto para o beneficiário quanto destinatário estão relacionados o pleno acesso à informação; Autonomia no exercício da profissão: respeitar os nossos preceitos legais e éticos e os princípios da bioética. Só então os profissionais de educação física têm-se autonomia do exercício da profissão; Priorização do compromisso ético com a sociedade; Integração com trabalho de profissionais de outras áreas com as quais trabalhamos e sabemos até onde vai a nossa competência e até onde vai a competência do outro, onde entendemos de atividades multiprofissional. Como os profissionais da saúde, sempre nós somos chamados a atuar em equipe; Responsabilidades e deveres Se temos princípios, se temos leis e diretrizes, desse código de ética, o que ele coloca como as nossas responsabilidades e nossos deveres. 96 Promover a educação física: para que o nosso beneficiário assuma o estilo de vida ativo; Zelar pelo prestígio da profissão da educação física; Assegurar ao beneficiário o serviço do profissional seguro competente e atualizado e elaborar o programa de atividade do nosso beneficiário; Oferecer ao beneficiário de preferência por escrito, isso é muito importante e deve ser feito como orientação. São seguros que nos dá respaldo sobre qualquer tipo de intercorrência que possa acontecer, apesar do nosso beneficiário ser informado sobre as circunstâncias que podem influenciar o desenvolvimento do trabalho a ser prestado. Ex: Você faz o seu trabalho correto. A obrigação do profissional de educação física é informar ao beneficiário que isso pode contribuir para o resultado. Se não surtiu efeito o planejado, não é que deixamos de praticar nossas funções, mas a partir deste momento, nós deixamos de cumprir a nossa parte e a desconfiança por conta do beneficiário irá surgir. Portanto, se o nosso cliente acredita que o nosso trabalho não está sendo contando com os resultados que ele queria não tem porque nós continuarmos atendendo esse cliente. Manter-se sempre informado dos princípios do código de ética é nossa obrigação, nos mantermos atualizados e informados sobre descobertas técnicas científicas. Além disso, avaliada nossa competência técnica é legal e somente aceitar aquilo que nós conseguimos fazer, então somente aquilo que for de sua competência; Zelar pela sua competência e exclusivamente na prestação de serviços e encargos a qual não posso passar para outros; Promover e fazer facilitar o aperfeiçoamento técnico científico e cultural das pessoas sob sua responsabilidade, orientação profissional, promover o aperfeiçoamento e a formação dos estagiários para que ele seja e construa um profissional competente; Manter-se atualizado dos conhecimentos técnicos científicos, sento em tudo colocada como responsabilidade e dever do profissional de educação física. Dever e obrigação do profissional de educação física Responsabilizar-se pelas falhas que nós cometemos independente se foi coletiva ou de toda equipe ou se é exclusivamente sua; 97 Emitir pareceres técnicos devendo estar atualizado e comunicar ao sistema CONFEF/CREF qualquer fato que envolva a recusa de nos colocar admissão do cargo e cultivar; Respeitar este código de ética pelo que nos apresentamos adequadamente nas aulas de educação física, o profissional no local de sua atuação deve estar com a roupa adequada para poder te avaliar na academia no local de trabalho; Respeitar e fazer se respeitar no ambiente de trabalho; Promover adequados materiais e equipamentos as quais se trabalham a nossa competência, os equipamentos e materiais a qual nós utilizamos dentro da empresa, pois, o material é nosso e temos que ter responsabilidade e dever; ser cobrados as suas responsabilidades em relação aos equipamentos Pagar o CREF anualmente, portar e utilizar a cédula de identificação do profissional dentro do exercício da profissão sempre. Sem a sua cédula profissional e identidade profissional você está cometendo um pequeno desvio ético. O que não podemos fazer Concorrer ao exercício da profissão para realização de atos com contrário a lei. EX: não posso utilizar a profissão para fazer algo ilegal - receitar suplementos alimentares sendo profissional de educação física - está concorrendo com o exercício da profissão para realização do ato contrário a lei. Interromper a prestação de serviços sem comunicar previamente ao beneficiário; Comunicar a partir de qual data no contrato em que eu não estarei mais prestando serviços. Fazer isso por escrito, pois, desta forma eu me preservo de sofrer algum tipo de sanção crítica por não ter feito comunicado, sendo a melhor forma de comunicação. Transferir quando impedido ou facilitar por qualquer meio, para pessoas não habilitadas ou pedir. Ex: Se eu tenho um colega de profissão que está suspenso, e eu transfiro para ele algo que é da minha competência isso significa um desvio ético; Se eu sou responsável por um estagiário e ele faz a atividade sem está diretamente supervisionado. Isso também é um desvio de ética, não é atentado a 98 nós transferir ou facilitar por qualquer meio o exercício para uma pessoa não habilitada ou que esteja impedido. Contratar direto ou indiretamente serviços que possam causar danos morais para você profissional, para a profissão, para empresa ou para o beneficiário. Não pode contratar nada e ser responsável, ou por qualquer contratação direta ou indireta que possa causar malefícios ao beneficiário a empresa e a profissão. Receber proventos que não sejam exclusivamente da prática correta e honesta do nosso exercício profissional; Não assinar relatórios elaborados por outros, sem a minha devida supervisão; Exercer a profissão quando impedido ou fazer, ou facilitar por qualquer meio o meu exercício como personal habilitado; É vedado aproveitar-se de situações de relacionamento entre eu e o meu beneficiário para obter qualquer tipo de vantagem, seja física, emocional e financeira. Se o profissional tem esse tipo de atitude ele está incorrendo um desvio ético; Incidir no erro e inteirar que evidenciam inércia profissional, foi advertido e aconteceu de novo, você está incorrendo no mesmo erro sucessivas vezes; Fazer falsa prova de qualquer requisito para adquirir o sistema quando a pessoa se registra em relação a sua atuação e profissionalização; Vincular seu nome, ou registro a atividade manifestadamente; Assumir comportamento frente à a um determinado grupo que prega por exemplo ser contrário a vacina, qualquer ela que seja. Se um dos nossos preceitos é a saúde, nossos princípios norteadores é cuidar da saúde. Você está utilizando o seu registro Profissional ou profissional de educação física e está incorrendo em um desvio ético; Nos relacionamentos com nossos colegas não é permitido fazer referências prejudiciais e muitas vezes, quando alguém fala de alguém, não podemos fazer referência ao colega de profissão. Isso caracteriza-se também um desvio ético sobre o exercício profissional dele; Aceitar cargos profissional de supervisão do colega que tenha saído para preservar a dignidade dele profissional de educação física, se adaptar a educação física ou do beneficiário. Se ele saiu denunciando que estava errado, isso é considerado um desvio ético; 99 Apropriar-se do trabalho, iniciativa, solução não encontrada por terceiros, plágio é um desvio ético; provocar desentendimento com um colega que tenha vindo a substituir o exercício profissional, você assumi legalmente, eticamente o exercício com um beneficiário sabendo-se que é do seu colega, não pode manifestar nenhum tipo de juízo sobre as ações deles, se obeneficiário se manifestar, você deve não fazer comentários, ou juízo de valor da ação de seu colega, não cabe a você ficar julgando o colega, uma vez que você não estava lá para ver o que realmente aconteceu, inclusive se o cliente age dessa forma é interessante, que se possível, o próximo a ser falado pode ser você e a profissão de educação física; Pactuar em espírito de solidariedade ou atos infringentes Exercer a profissão sem ser indiscriminado. Nenhum tipo de discriminação é aceito ou religião ou sexualidade ou orientação sexual; Recorrer ao conselho Regional de Educação Física quando impedido de cumprir a lei; Requerer o desagravo, algo que já ocorreu diversas vezes em relação aos meios de comunicação de propaganda, ou entretenimento, ou movimento que colocaram profissionais de educação física em uma situação constrangedora, como se todos os profissionais de educação física agissem como determinado personagem fictício ou de propaganda. Nesses casos, o Conselho Federal de Educação Física foi a público e pediu retratação dos veículos de comunicação tanto quanto o que foi vinculado; Recusar a adoção de medidas o exercício da atividade profissional contrários aos trâmites da nossa consciência ética ainda que permitido; Participar de movimento de defesa da dignidade em prol do profissional, principalmente na busca do aprimoramento técnico-científico e moral nos termos determinados. Ex: tipo de indicação. Onde eu posso estar no movimento de defesa da profissão ou do profissional; Apontar falhas ou irregularidades dos regulamentos e normas numa determinada competição. Ex: existe uma norma, “O que é antiética e legal você tem todo direito de apontar e pedir para quê convocar o conselho 100 Regional de conselho de educação física, provocá-lo para aquele ato em defesa do profissional e da profissão de educação física; Receber salário ou honorários pelo seu trabalho profissional. Só posso exercer a minha profissão se eu for remunerado, para isso inclusive muitas vezes as pessoas falam. Por que que a educação física não tem um programa de atividade física, ginástica laboral para os servidores? Porque nós não fomos contratados como profissionais de educação física nós, somos contratados como professores do ensino superior, logo para o exercício, para exercer a profissão de educação física, em que tenha que ser remunerado, terei que ter um contrato com a universidade e aí sim, o profissional de educação física poderá fazer esse tipo de atividade. https://bit.ly/3yWb9tP 101 FIXANDO O CONTEÚDO 1. Considerando as exigências de qualidade e ética profissional nas intervenções, o profissional de Educação Física deverá esta capacitado para exercer sua profissão. Pois O mesmo deverá compreender, analisar, estudar.... atuando em todas as dimensões de seu campo profissional, disseminando e aplicando conhecimento práticos e teóricos sobre a Educação Física. De acordo com as asserções, marque a opção correta: a) Apenas a primeira asserção está correta; b) Apenas a segunda asserção está correta; c) As duas asserções estão corretas e a segunda justifica a primeira; d) As duas asserções estão corretas e a segunda não justifica a primeira; e) As duas asserções estão incorretas. 2. Ao iniciar seu trabalho em uma escola como professor de educação Física, é necessário verificar a forma de se vestir e portar, pois você é referência para seus alunos e avaliado quanto sua conduta. Assim a ética no ambiente de trabalho é de fundamental importância para o bom funcionamento das atividades da escola e das relações de trabalho entre os funcionários. São vantagens da ética aplicada ao trabalho: I. Maior nível de produção na escola; II. Favorecimento para a criação de um ambiente de trabalho harmonioso, respeitoso e agradável. III. Cooperação e atitudes que visam à ajuda aos colegas de trabalho. IV. Aumento no índice de confiança entre os funcionários V. Respeito à hierarquia dentro da empresa. É correto apenas o que se afirma em: 102 a) I, II e III. b) I, III e V. c) II, IV e V. d) I, II e IV. e) III, IV e V. 3. Em um caso onde um profissional de educação em atuação em academia. O aluno ao fazer treinamento lesiona o joelho (ligamento cruzado) com apenas 3 meses em atividade ao realizar o movimento de agachamento. O mesmo alega a displicência do profissional em orientar e acompanhar a execução. Este caso é de caráter cível Pois, Incapacita a pessoa a realizar suas atividades diárias o que acarretará em indenizações devido a danos materiais e morais sendo o valor estipulado pelo juiz. a) A primeira asserção é uma proposição verdadeira e a segunda é uma proposição falsa. b) As duas asserções são proposições verdadeiras e a segunda não é uma justificativa correta da primeira. c) A primeira asserção é uma proposição falsa e a segunda é uma proposição verdadeira. d) As duas asserções são proposições verdadeiras e a segunda é uma justificativa correta da primeira e) As duas asserções são proposições falsas. 4. Um dos valores atrelados aos movimentos olímpico e paraolímpico é o chamado fair play, que também significa jogo limpo. Diante da demanda ética posta pela noção de fair play nas Paraolimpíadas, qual das opções a seguir corresponde à medida adotada pelos órgãos de gestão do paradesporto para assegurar uma competição mais igualitária entre atletas paraolímpicos de uma mesma modalidade? a) Classificação por índice técnico obtido em competições anteriores. b) Classificação por grau de funcionalidade em cada tipo de deficiência. 103 c) Classificação por resultados em competições oficiais nacionais e internacionais. d) Classificação por tempo acumulado de experiência em competições paradesportivas oficiais. e) Classificação por faixa etária combinada com informações advindas de testes de aptidão física. 5. Um profissional de Educação Física encaminhou seu projeto de pesquisa, que envolvia a coleta de medidas antropométricas de jovens de 13 a 15 anos de idade, para avaliação pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP). Por motivos logísticos, surgiu a oportunidade do profissional iniciar a coleta de dados antes da manifestação do CEP sobre o projeto. Considerando essa situação, bem como o que estabelece a Resolução 466/2012, acerca das pesquisas realizadas com seres humanos, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre elas. I. A coleta dos dados antes da manifestação do CEP constitui-se em conduta profissional antiética. PORQUE II. O CEP pode identificar riscos aos participantes, decorrentes da aplicação dos procedimentos metodológicos adotados, que não foram observados pelo proponente do projeto. A respeito dessas asserções, assinale a opção correta. a) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é uma justificativa correta da I. b) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não é uma justificativa correta da I. c) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa. d) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira. e) As asserções I e II são proposições falsas. 6. A prevenção e promoção da saúde devem ser desenvolvidas nas perspectivas da interdisciplinaridade e intersetorialidade, incluindo as dimensões sociais, políticas, 104 econômicas e culturais, além de outras diferentes áreas de conhecimento humano. Quanto aos eixos temáticos e de atuação na prevenção e promoção da saúde estão: I. Qualidade de vida; II. Autonomia pessoal; III. Cultura física; IV. Cultura da paz V. Integração com o meio ambiente.Está correto: a) Apenas as afirmativas I e III estão corretas; b) Apenas as afirmativas I, II e IV estão corretas; c) Apenas as afirmativas III e V estão corretas; d) Apenas as afirmativas I, II, III, IV e V estão corretas; e) Apenas as afirmativas I, III e V estão corretas. 7. O estágio é o ato educativo escolar supervisionado, desenvolvido no ambiente de trabalho, para preparar para o mercado de trabalho o educando. Este pode ser obrigatório, previsto na grade curricular. Quanto aos direitos do estagiário de ensino superior: I. Fazer carga horária diária no Máximo 6h/dia – 30h/semanais; II. No período de avaliação o estagiário pode ter sua jornada reduzida pela metade. III. O estagiário poderá receber bolsa; IV. O estágio deve ser superior a um ano de duração. V. Independente do período de estágio, o estagiário terá férias. Está correto: a) Apenas as afirmativas I, II e III estão corretas; b) Apenas as afirmativas I, II e IV estão corretas; 105 c) Apenas as afirmativas III e V estão corretas; d) Apenas as afirmativas III e IV estão corretas; e) Apenas as afirmativas I, II e V estão corretas. 8. O CREF é o órgão fiscalizador da profissão. O mesmo possui competências de coordenar, zelar e dispor de manual de orientação. Quanto as ações de orientação e fiscalização o mesmo: I. Faz visitas rotineiras; II. Atende denúncias de profissional de Educação Física; III. Visitas específicas; IV. Lavra relatos. Está correto: a) Apenas as afirmativas II e III estão corretas; b) Apenas as afirmativas I e IV estão corretas; c) Apenas as afirmativas I, II e III estão corretas; d) Apenas as afirmativas III e IV estão corretas; e) Apenas as afirmativas I e II estão corretas. 106 RESPOSTAS DO FIXANDO O CONTEÚDO UNIDADE 01 UNIDADE 02 QUESTÃO 1 A QUESTÃO 1 A QUESTÃO 2 B QUESTÃO 2 E QUESTÃO 3 B QUESTÃO 3 D QUESTÃO 4 A QUESTÃO 4 D QUESTÃO 5 B QUESTÃO 5 C QUESTÃO 6 A QUESTÃO 6 D QUESTÃO 7 E QUESTÃO 7 C QUESTÃO 8 C QUESTÃO 8 C UNIDADE 03 UNIDADE 04 QUESTÃO 1 B QUESTÃO 1 B QUESTÃO 2 E QUESTÃO 2 E QUESTÃO 3 C QUESTÃO 3 D QUESTÃO 4 C QUESTÃO 4 A QUESTÃO 5 E QUESTÃO 5 B QUESTÃO 6 A QUESTÃO 6 B QUESTÃO 7 A QUESTÃO 7 C QUESTÃO 8 E QUESTÃO 8 E UNIDADE 05 UNIDADE 06 QUESTÃO 1 E QUESTÃO 1 C QUESTÃO 2 A QUESTÃO 2 D QUESTÃO 3 A QUESTÃO 3 D QUESTÃO 4 B QUESTÃO 4 B QUESTÃO 5 A QUESTÃO 5 A QUESTÃO 6 E QUESTÃO 6 D QUESTÃO 7 B QUESTÃO 7 A QUESTÃO 8 D QUESTÃO 8 C 107 REFERÊNCIAS BES, P. et al. Sociedade, cultura e cidadania. Porto Alegre: Sagah, 2018. BITTAR, E. C. B. Curso de ética jurídica: ética geral e profissional. São Paulo: Saraiva, 2018. BOBBIO, N. O Filósofo e a Política: Antologia. Tradução de César Benjamim, Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 2003. BONAVIDES, P. Curso de Direito Constitucional. 19. ed. São Paulo: Editora Malheiros, 2006. 563 p. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, [1988]. Disponível em: https://bit.ly/2Gd7tdY. Acesso em: 05 dez. 2020. CAMPANTE, R. G. O patrimonialismo em Faoro e Weber e a sociologia brasileira. Dados, Rio de Janeiro, v. 46, n. 01, p. 153-193, 2003. Disponível em: https://bit.ly/3031cs3. Acesso em: 11 fev. 2021. CARVALHO, J. M. D. Cidadania no Brasil: o longo caminho. São Paulo: Civilização Brasileira, 2004. ______. Carta Brasileira de Educação Física. CONFEF, 2000. CONSELHO FEDERAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA. Estatuto do Conselho Federal de Educação Física. CONFEF, 2002. Disponível em: https://bit.ly/3PF3BkX. Acesso em: 16 Nov. 2021. CONSELHO REGIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA DE SÃO PAULO - CREFSP. Código de Ética. A Ética e a Deontologia da Educação Física. Revista CREF-SP. São Paulo. Setembro 2000. FERRAZ JR., T. S. Introdução ao estudo do direito: técnica, decisão, dominação. 11. ed. São Paulo: Atlas, 2019. FURROW, D. Ética: conceitos-chave em filosofia. Tradução de Fernando José R. da Rocha. Porto Alegre: Artmed, 2007. 184 p. KELSEN, H. Teoria pura do Direito. Tradução de João Batista Machado. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. LOPES FILHO, A. R. I. et al. (Org.). Ética e cidadania. Porto Alegre: SAGAH, 2018. LUNA, F. V.; KLEIN, H. S. História econômica e social do Brasil: o Brasil desde a república. São Paulo: Saraiva, 2016. LEME, A. S. P; VAROTO, F. A. Ética Profissional na Educação Física escolar. Revista Educação Física UNIFAFIBE, Ano II, n. 2, p. 125-142, dezembro/2013. Disponível em: https://bit.ly/3ySIIgr Acesso em: 10 Abr. 2022. 108 MAQUIAVEL, N. O Príncipe. Tradução de Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. MATIAS, E. F. P. A Humanidade e suas fronteiras: do Estado soberano à sociedade global. São Paulo: Paz e Terra, 2014. MATHIAS, R. L; DIAS, D. F; RECH, C. R. Apontamentos para a atuação do Profissional de Educação Física na Atenção Básica à Saúde: um ensaio. Rev Bras Ativ Fís Saúde. 2019; 24:e 0069. Disponível em: https://bit.ly/3PH5TQQ Acesso em: 10 abr. 2022. MIRANDA, J. Teoria do Estado e da constituição. Rio de Janeiro: Forense, 2002. MORAES, A. D.; KIM, R. P. (Coord.). Cidadania: O novo conceito jurídico e a sua relação com os direitos fundamentais individuais e coletivos. São Paulo: Atlas, 2013. MORRIS, C. Os grandes filósofos do Direito: Leituras escolhidas em direito. Tradução de Reynaldo Guarani. São Paulo: Martins Fontes, 2002. (Coleção Justiça e Direito). ______. O Código de Ética. 5. ed. Rio de Janeiro: CONFEF, 2003. OLIVEIRA R. o que é a ética no cotidiano das pessoas e das empresas? 2018. Disponível em: https://bit.ly/3yZo9Pk acesso em: 10 abr. 2022. REIS, F. W. Dilemas da Democracia no Brasil. In: MELO, C. R.; SÁEZ, M. A. (Org.). A Democracia Brasileira: Balanço e Perspectivas para o Século 21. Belo Horizonte: Editora UFMG, v. 1, 2007. p. 453-484. SANTOS, W. G. D. Razões da desordem. São Paulo: Rocco, 1994. 152 p. WEBER, M. Politics As a Vocation. Philadelphia: Fortress Press, 1965. WEFFORT, F. C. Formação do pensamento político brasileiro: ideias e personagens. São Paulo: Ática , 2011.o saber humano. Os antigos lidavam com o mundo de modo muito integrado; não havia a separação entre direito e a moral. As sociedades medievais também não faziam essa distinção: havia um princípio geral que regia todas as áreas. O direito natural era a razão de tudo. A modernidade construiu a diferença entre direito e moral, principalmente, a partir do pensamento do filósofo alemão Immanuel Kant. A filosofia de Kant diferenciou o universo da norma moral e o universo da norma jurídica. Kant influenciou o jurista austríaco Hans Kelsen na construção da sua teoria pura do direito. Kelsen separou direito e moral para distanciá-los; ele queria determinar a autonomia do Direito. Para Kelsen, direito é o conjunto de normas postas pelo Estado (KELSEN, 1998). 11 A tarefa do jurista não era avaliar a justiça do sistema, mas compreender os critérios de validade das normas de acordo com a hierarquia. Para Kelsen (1998), a questão da justiça não pertencia ao direito. Dessa forma, criou um abismo entre direito (decidir de acordo com o ordenamento) e moral (discutir os valores). 1.3 A RELAÇÃO ENTRE ÉTICA E MORAL O estudo da Ética busca entender todas as formas de mentalidade e estar a par de que um ethos dominante não existe sem que haja uma camada social dominante que o proclame. Toda vez que se definem normas de comportamento consideradas adequadas, passa a haver um aparato para proteger essas normas. Nesse sentido, ao estudarmos a ética devemos também nos preocupar em pensar a diversidade das alternativas de comportamento possíveis. Importante enfatizar, nesse sentido, a relação entre ética, arbítrio e pluralidade. A universalização de qualquer tipo de verdade ética nos leva à definição de patamares rígidos. Torna- se a moral de uma classe dominante sobre a moral das classes dominadas. O que está em questão é a construção do compartilhamento dos valores. Dessa forma, todo sistema ético busca, em primeiro lugar, proteger os valores que consagra. Muitos grupos sociais constroem sistemas de dominação com base na política, na religião ou em outros sistemas que formam a consciência de um grupo. Dessa maneira, a ética busca eliminar as diferenças e estabelecer regras de padrões de comportamento. No entanto, os valores não são tão absolutos que não possam dialogar com valores opostos. Um sistema ético, apesar de defender as suas verdades, deve praticar a tolerância, pois a moral de uns não pode se impor à moral de outros. Valores morais são passíveis de ajuste e de confronte com outros. Os grupos culturais opostos podem construir instrumentos para a abertura recíproca de valores. Como é possível construir uma ética global em um contexto de diferenças entre os povos, nacionalismo exacerbado, contingentes humanos excluídos e oposição entre culturas? O filósofo alemão Juergen Habermas defende que só existe verdade en- quanto experiência intersubjetiva. O autor se posiciona em confronto direto com a verdade fundada na reflexão individual. Para Habermas, a verdade se constrói a partir do diálogo entre sujeitos que pensam diferentes. Ou seja, a chave para a busca 12 da verdade é a aceitação da divergência como algo legítimo e natural. Somente por meio da comunicação se pode alcançar a colaboração, o entendimento e o consenso. A moral é algo que avalia o outro para julgá-lo como pertencente ou não pertencente a uma comunidade. O próprio direito vem associado a uma moral. A linguagem transpassa valores por meio de certos termos e de palavras que expressam visões de mundo. E elas se expressam por meio de cláusulas gerais: bom, ruim, justo, injusto etc. A linguagem recebe uma grande bagagem da moral. Ela também é transmissora desses valores. Todas as práticas discursivas são transmissivas de valores. O indivíduo que se vale da linguagem pratica juízos, requalificando-os o tempo todo. A ética, portanto, significa esfera da ação individual. Está contida dentro de um circuito de liberdade que lhe pertence. A moral é a grande instituição social que acaba sendo o arcabouço de sustentação de certas atitudes individuais respaldadas em conceitos preexistentes. A moral, por outro lado, procura moldar o indivíduo a modelos sociais convenientes, não necessariamente bons. Configura, dessa forma, uma instituição social que produz mecanismos de controle e determinam a execução de seus preceitos. Escolas e normas jurídicas são exemplos de instituições que contribuem para a homogeneização dos indivíduos. Instituições trazem estabilidade para o grupo e para a sociedade. A moral é um mecanismo de pasteurização dos comportamentos. Ela permite julgar o que é conforme e o que é desconforme. Ela promove a agregação ou a segregação do outro. Nas relações morais é preciso verificar a relação de poder para determinar quais são os comportamentos adequados. A moral pode ser o principal instrumento ideológico de exercício do poder. A moral disfarça, suaviza e amortece a prática de poder. Ou seja, é um instrumento de adequação das identidades individuais. A moral fornece abrigo para a estrutura de poder. Ela pratica uma espécie de controle conveniente em um certo contexto. Exemplificando, na Idade Média, era clara a associação entre poder e moral. A moral imposta era a da Igreja Católica, que detinha o poder. A relação entre moral e poder pertence à própria dinâmica das relações sociais. Nesse sentido, é preciso observar com cautela os valores morais. Um curso de ética não é um curso de moral. A filosofia ética é uma prática aberta de reflexão. É necessário dimensionar e ponderar os valores, para avaliar se o valor é realmente 13 válido. A moral do meio é a prática do exercício de dominação? Nessa direção, a ética se vale da capacidade de resistência que o indivíduo tem em face das pressões externas do meio. É a sua capacidade de ponderar entre os conflitos internos e os valores das instituições sociais. Já a moral se baseia em um conjunto das sutis e não explícitas manifestações de poder sobre os indivíduos. A moral está inserida num contexto sócio-histórico. Não devemos incorporar a moral sem questioná-la, sob pena de nos transformarmos em meros reprodutores dos conceitos morais do nosso tempo. O comportamento ético pressupõe, dessa forma, o questionamento da moral antes de absorvê-la. A moral defende o passado, o que foi consagrado e nos convida a reproduzir esses valores. A ética flerta com o novo. O comportamento ético permite requalificar os valores. Isso dá abertura ao processo de alteração dos valores. Os indivíduos podem resistir aos valores morais por meio da capacidade de reflexão. Não existem leis morais eternas. Em outras palavras, a moral nos convida ao conforto e à segurança. A ética nos convida ao exercício responsável e refletido para nos tornarmos agentes e arquitetos de nossa própria existência. 14 https://bit.ly/3sEsLEa https://bit.ly/3uNOhIo https://bit.ly/3sEsLEa https://bit.ly/3uNOhIo 15 FIXANDO O CONTEÚDO 1. (Enem 2010, 2ª aplicação) “A ética exige um governo que amplie a igualdade entre os cidadãos. Essa é a base da pátria. Sem ela, muitos indivíduos não se sen- tem “em casa”, experimentam-se como estrangeiros em seu próprio lugar de nascimento. “ SILVA, R. R. Ética, defesa nacional, cooperação dos povos. OLIVEIRA, E. R (Org.) Segurança & defesa nacional: da competição à cooperação regional. São Paulo: Fundação Memorial da América Latina, 2007 (adaptado). Os pressupostos éticos são essenciais para a estruturação política e integração de indivíduos em uma sociedade. De acordo com o texto, a ética corresponde a: a) valores e costumes partilhados pela maioria da sociedade. b) preceitos normativosimpostos pela coação das leis jurídicas. c) normas determinadas pelo governo, diferentes das leis estrangeiras. d) transferência dos valores praticados em casa para a esfera social. e) proibição da interferência de estrangeiros em nossa pátria. 2. (ENEM 2011, adaptado) O brasileiro tem noção clara dos comportamentos éticos e morais adequados, mas vive sob o espectro da corrupção, revela pesquisa. Se o país fosse resultado dos padrões morais que as pessoas dizem aprovar, pareceria mais com a Escandinávia do que com Bruzundanga (corrompida nação fictícia de Lima Barreto). O distanciamento entre “reconhecer” e “cumprir” efetivamente o que é moral constitui uma ambiguidade inerente ao humano, porque as normas morais são: a) decorrentes da vontade divina e, por esse motivo, utópicas. b) parâmetros idealizados, cujo cumprimento é destituído de obrigação. c) amplas e vão além da capacidade de o indivíduo conseguir cumpri-las integralmente. d) criadas pelo homem, que concede a si mesmo a lei à qual deve se submeter. e) mais vinculantes do que as normas jurídica. 3. (UNICAMP 2016, adaptada) Por que a ética voltou a ser um dos temas mais trabalhados do pensamento filosófico contemporâneo? Nos anos 1960, a política 16 ocupava esse lugar e muitos cometeram o exagero de afirmar que tudo era polí- tico. José Arthur Gianotti, “Moralidade Pública e Moralidade Privada”, em Adauto Novaes, Ética. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 239. A partir desse fragmento sobre a ética e o pensamento filosófico, é correto afirmar que: a) o tema foi relevante no passado e apenas recentemente voltou a ocupar um espaço central na produção filosófica. b) os impasses morais e éticos das sociedades contemporâneas reposicionaram o tema da ética como um dos campos mais relevantes para a filosofia. c) o pensamento filosófico abandonou sua postura política após o desencanto com os sistemas ideológicos que eram vigentes nos anos 1960. d) na atualidade, a ética é uma pauta conservadora, pois nas sociedades atuais, não há demandas éticas rígidas. e) a ética foi incorporada pelas outras ciências, deixando de ser estudada nas últimas décadas. 4. (UNISC 2012) – Apresentados os enunciados abaixo, qual deles melhor caracteriza o tema da ética filosófica? a) A ética filosófica estuda a maneira como as pessoas agem dentro de uma determinada sociedade. b) A ética filosófica consiste em um conjunto de normas relativas à vida sexual das pessoas. c) A ética filosófica é o estudo das normas que regem o exercício de uma determinada profissão. d) A ética filosófica é um discurso racional e argumentativo cujo objetivo é fundamentar critérios para avaliar as ações humanas, seja para louvá-las ou para censurá-las. e) A ética filosófica consiste na explicação das normas de comportamento que se encontram na Bíblia. 5. (Leopoldino Rocha) O sujeito ético-moral é somente aquele que preencher os 17 seguintes requisitos: a) ser consciente de si, mas não precisa reconhecer a existência dos outros como sujeitos éticos iguais a si. b) saber o que faz, conhecer as causas e os fins de sua ação, o significado de suas intenções e de suas atitudes e a essência dos valores morais. c) não precisa controlar interiormente seus impulsos, suas inclinações e suas paixões, deixando-as fluir livremente. d) dizer o que as coisas são, como são e por que são. Enunciar, pois, juízos de fato. e) ser responsável, mas não precisa reconhecer-se como autor da sua própria ação nem avaliar os efeitos e as consequências dela sobre si e sobre os outros. 6. (Unesp 2019) – Então, todos os alemães dessa época são culpados? – Esta pergunta surgiu depois da guerra e permanece até hoje. Nenhum povo é coletivamente culpado. Os alemães contrários ao nazismo foram perseguidos, presos em campos de concentração, forçados ao exílio. A Alemanha estava, como muitos outros países da Europa, impregnada de antissemitismo, ainda que os antissemitas ativos, assassinos, fossem apenas uma minoria. Estima-se hoje que cerca de 100 000 alemães participaram de forma ativa do genocídio. Mas o que dizer dos outros, os que viram seus vizinhos judeus serem presos ou os que os levaram para os trens de deportação? (Annette Wieviorka. Auschwitz explicado à minha filha, 2000. Adaptado.) Ao tratar da atitude dos alemães frente à perseguição nazista aos judeus, o texto defende a ideia de que: a) os alemães comportaram-se de forma diversa perante o genocídio, mas muitos mostraram-se tolerantes diante do que acontecia no país. b) esse tema continua presente no debate político alemão, pois inexistem fontes documentais que comprovem a ocorrência do genocídio. c) esse tema foi bastante discutido no período do pós-guerra, mas é inadequado abordá-lo hoje, pois acentua as divergências políticas no país. d) os alemães foram coletivamente responsáveis pelo genocídio judaico, pois a maioria da população teve participação direta na ação. e) os alemães defendem hoje a participação de seus ancestrais no genocídio, pois 18 consideram que tal atitude foi uma estratégia de sobrevivência. 7. (Unesp 2018). Os homens, diz antigo ditado grego, atormentam-se com a ideia que têm das coisas e não com as coisas em si. Seria grande passo, em alívio da nossa miserável condição, se se provasse que isso é uma verdade absoluta. Pois se o mal só tem acesso em nós porque julgamos que o seja, parece que estaria em nosso poder não o levarmos a sério ou o colocarmos a nosso serviço. Por que atribuir à doença, à indigência, ao desprezo um gosto ácido e mau se o podemos modificar? Pois o destino apenas suscita o incidente; a nós é que cabe determinar a qualidade de seus efeitos. (Michel de Montaigne. Ensaios, 2000. Adaptado.) De acordo com o filósofo, a diferença entre o bem e o mal: a) representa uma oposição de natureza metafísica, que não está sujeita a relativismos existenciais. b) relaciona-se com uma esfera sagrada cujo conhecimento é autorizado somente a sacerdotes religiosos. c) resulta da queda humana de um estado original de bem-aventurança e harmonia geral do Universo. d) depende do conhecimento do mundo como realidade em si mesma, independente dos julgamentos humanos. e) depende sobretudo da qualidade valorativa estabelecida por cada indivíduo diante de sua vida. 8. (Enem PPL 2016) 19 A figura do inquilino ao qual a personagem da tirinha se refere é o(a): a) constrangimento por olhares de reprovação. b) costume importo aos filhos por coação. c) consciência da obrigação moral. d) pessoa habitante da mesma casa. e) temor de possível castigo. 20 ÉTICA E MORAL NAS RELAÇÕES SOCIAIS “A astúcia do Direito consiste em valer-se do veneno da força para evitar que ela triunfe“ Miguel Reale, jurista brasileiro 2.1 ÉTICA, MORAL E DIREITO Conforme visto no capítulo anterior, a Ética diz respeito ao conjunto dos valores que norteiam a vida em sociedade e a convivência entre os indivíduos num determinado tempo. O Direito é uma ordem social estabelecida em torno de um sistema sancionatório para garantir a aplicação da Justiça. Essa ordem busca estabelecer regras para o funcionamento da sociedade e prevê meios para exigir o seu cumprimento, as sanções. Ele se vale da força para evitar que o mundo seja governado apenas por ela. Corresponde, na visão do jurista Jeremy Bentham, ao “mínimo ético” ou a um conjunto de normas morais consideradas relevantes por cada sociedade. A Moral, por sua vez, se caracteriza por ser um tipo de preceito acerca do comportamento desprovido de mecanismos de coação (MORRIS, 2002).O Direito prevê uma convivência social ordenada, na qual inexiste a possibilidade de desordem ou anarquia. É um mecanismo de dominação que se vale de normas, instituições e decisões para controlar o comportamento das sociedades. As regras jurídicas são obrigatórias e coercitivas, pois emanam de uma fonte jurídica válida e de uma autoridade competente. Seu fim último é a realização da justiça do bem comum. Nesse sentido, diferentemente da Moral, que lida com preceitos sobre o comportamento humano despidos de mecanismos de coerção, o Direito é uma ordenação ética com capacidade de impor comportamentos pelo uso legitimado da força. A Moral se baseia em mecanismos de sanção individual (ressentimento, remorso e culpa) ou coletiva (discriminação, repulsa, exclusão e indignação), ao passo que o Direito se assenta em sanções coercitivas que se valem da imposição da força. O Direito não se vale de qualquer violência indiscriminada, mas da força organizada e aplicada segundo regras institucionalizadas. O Direito lida com o problema ancestral da busca da verdade e da justiça no UNIDADE Err o! Fo nt e d e re 21 exercício do poder. Seu fundamento filosófico variou ao longo da Histórica, sendo considerada pelos gregos como uma técnica e pelos romanos como uma arte (a busca do bem e da equidade). Assim como as instituições são regras que estabelecem padrões de comportamento e geram previsibilidade, o Direito é um elemento de fidelização e conexão entre o passado e o futuro. Nesse sentido, o Direito não é neutro, mas um conjunto de práticas que visa realizar determinados valores fundamentais. O mais importante desses valores é a justiça, ou seja, dar a cada um aquilo que lhe é direito. A justiça é parte da moral e se baseia no senso de equilíbrio na distribuição de bens entre os homens. Sem validade, eficácia e justiça, não há sistema jurídico legítimo. O jurista austríaco Hans Kelsen, em “Teoria Pura do Direito”, afirma que a Justiça é um valor decorrente da Moral. No entanto, diferentemente das normas sociais (Moral e Ética), o Direito é uma norma jurídica cuja legitimidade não se baseia apenas em valores, mas em critérios de validade. Ou seja, a norma jurídica é uma proposição hipotética dada por um poder institucionalizado (Estado) para estabelecer normas de conduta (KELSEN, 1998). A Moral lida com as concepções de um indivíduo ou de um conjunto de indivíduos acerca do que é lícito e justo. As regras de conduta morais são tão plurais quanto a sociedade e balizam o convívio social. E buscam, essencialmente, o aperfeiçoamento de um indivíduo em relação à sua consciência ou a de seu grupo. Sua origem é a autoridade religiosa, a razão e a tradição. O Direito, por outro lado, é uma técnica de regulação do convívio social que se baseia em uma norma. E que prevê sanções ao descumprimento destas regras. A fonte do Direito é o Estado. Somente são válidas as normas jurídicas produzidas por quem tem competência para tal. As sanções jurídicas, por sua vez, são obrigatórias. Embora adote princípios morais como fundamento de sua aplicação, o Direito pode conter também normais normas amorais. A Moral, por seu turno, influencia diretamente o Direito. Os legisladores são guiados por valores e ideias difusos na sociedade para produzir normas jurídicas. As normas jurídicas, nesse sentido, expressam regras morais que devem ser obrigatoriamente cumpridas. As sociedades antigas, como visto, eram caracterizadas pela coincidência entre mandamentos jurídicos e morais. Já na Idade Média, as regras jurídicas constituíam um “mínimo ético”, ou seja, o núcleo duro das regras morais. 22 Com a positivação do Direito (prevalência de normas escritas em códigos e leis), nos séculos XVIII e XIX, as regras jurídicas tornaram-se autônomas em relação à moral. Dada a pluralidade de sistemas morais existentes (religião, família, trabalho etc), as autoridades competentes do Estado se limitaram a impor normas segundo critérios de validade. Os positivistas defendem que os indivíduos são livres para obedecer ou não às normas vigentes, de acordo com os seus valores morais e interesses. O custo do descumprimento dessas normas é a aplicação de sanções jurídicas. Os moralistas, por sua vez, sustentam que os operadores do Direito precisam buscar sempre a coe- rência entre normais normas jurídicas e preceitos morais, sob pena de esvaziamento valorativo do Direito. Para eles, seria impossível estabelecer uma distinção entre Direito e Moral, pois ambos caminham lado a lado. Portanto, é importante distinguir norma moral e norma jurídica. A normal moral decorre da experiência histórica da sociedade. Já a norma jurídica pode ser imposta pela autoridade mesmo que não corresponda à experiência da sociedade. A norma moral fala a linguagem da interioridade e da intencionalidade. É preciso haver correspondência entre a vontade interior e a exteriorização. Na norma jurídica, isso é irrelevante em diversas situações. Na norma jurídica, são necessários atos exteriores; a intencionalidade é um aspecto secundário. A norma moral não possui sanção (punição); já a norma jurídica possui sanção. A norma moral possui, entretanto, um grau de coercibilidade (possibilidade de punição) que muitas vezes é muito mais forte que a sanção jurídica, como a vergonha, o constrangimento e o arrependimento. Direito e moral não podem se 23 separar. Como avaliar a legitimidade de um sistema jurídico? Essa avaliação não pode ser pautada unicamente sob o aspecto da moral. Após a Segunda Guerra Mundial, com a Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948, foram definidas as diretrizes estruturantes do comportamento universal, de modo que os direitos humanos constituem o mínimo ético de um sistema jurídico. 2.2 ÉTICA NA POLÍTICA A relação entre ética, moral e política é tão ancestral quanto a Humanidade. Desde os filósofos da Antiguidade até os cientistas políticos, juristas e escritores contemporâneos, o tema já foi abordado de maneira múltipla. O assunto desperta as atenções do ser humano desde os primórdios da civilização. Tratados, ensaios, romances e peças teatrais já foram escritas sobre essa questão, sem uma solução definitiva ou uma resposta correta para a problemática da moralidade nas relações sociais. Sendo o homem um ser essencialmente político – isto é, que vive na polis (cidade) – sempre se pergunta sobre o que é agir moralmente. Da mesma forma que existe uma ética profissional, uma ética do trabalho, uma ética familiar e uma ética religiosa, a ética política trata da distinção entre o que é moralmente lícito e ilícito. A aceitação de que a moral política se distingue do senso comum é um dos fundamentos da modernidade. Maquiavel afirmou, em “O Príncipe”, que a moral dos governantes não é a mesma dos governados. Nesse sentido, para obter êxito em sua missão de dominar os povos e governar as nações, antes de serem amados, os príncipes deveriam buscar serem temidos (MAQUIAVEL, 2010). Enquanto em outras atividades humanas o que se busca, essencialmente, é adequar os comportamentos às regras de conduta moral consensuais e estabelecidas, na relação entre política e moral, o debate é mais complexo. Ao contrário da ética médica, da ética esportiva ou da ética do trabalho, não existe um consenso sobre quais seriam os preceitos éticos da política. O que existe, fundamentalmente, é a noção de que a moral política se reporta às ações de um indivíduo no que toca aos seus deveres para com os outros, e não consigo mesmo. Dessa forma, o foco do estudo da moral política não é a compreensão daquilo que é considerado lícito ou ilícito. Na perspectiva do filósofo e jurista italiano Norberto 24 Bobbio, o que sebusca compreender é “[...] se tem sentido colocar-se em termos morais o problema do admissível e do inadmissível no caso das ações políticas” (BOBBIO, 2003, p. 161). Dessa forma, utilizando-se uma categoria de Maquiavel, é possível, por exemplo, distinguir os políticos do tipo “leão” e os do tipo “raposa”. Os primeiros baseariam seu poder no uso da força; os segundos, no domínio da astúcia. Thomas Hobbes, em sua obra “O Leviatã”, assegurava que nenhuma moral estava acima da política. No estado de natureza, argumentava o filósofo inglês, a política não tinha nenhum conteúdo moral, baseando-se pura e simplesmente no exercício da força (MORRIS, 2002). A moral do mais forte sempre prevalecia e a sobrevivência era a única moral existente. No estado civil impera a moral do soberano, isto é, daquele indivíduo escolhido pelos demais como aquele que distingue o justo do injusto. Portanto, a vontade do rei deveria ser a única e exclusiva fonte moral a ser obedecida. A noção de razão de Estado, que floresceu com o Estado moderno, aceita que em circunstâncias específicas e determinadas, o soberano possa infringir os códigos morais prevalecentes para salvaguardar o seu poder. Assim, a ação política imporia ao seu praticante “[...] ações moralmente reprováveis, porém necessárias por causa da natureza e da finalidade da própria atividade” (BOBBIO, 2003, p. 168). Da mesma forma que o político teria uma moral própria, certas categorias profissionais, ao longo da História, também advogam a existência de um direito particular e de uma moral específica. Se existe uma ética inerente à política, existiria, do mesmo modo, uma ética aplicável a profissões determinadas, como a dos médicos, dos padres e dos advogados. 25 2.3 ÉTICA DAS CONVICÇÕES E ÉTICA DA RESPONSABILIDADE Quando refletimos sobre a importância da moral e da ética na vida pública, é importante entender como os valores morais e éticos guiam os homens públicos em suas ações. Em seu clássico artigo “Política como Vocação”, o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) distingue três qualidades para a formação de um homem público (WEBER, 1965). Em primeiro lugar, a paixão à causa; e segundo lugar, o senso de responsabilidade; em terceiro lugar, o senso de proporção, isto é, a capacidade de manter distância dos fatos e dos homens, de modo a refletir com mais propriedade sobre os acontecimentos. Segundo Weber (1965), os homens precisam ainda superar a vaidade, pois o desejo de poder pode desvirtuar tanto a sua paixão, quanto o seu senso de proporção. Ou seja, a vaidade poder tornar-se um fim em si mesmo, uma busca exclusiva pela exaltação do próprio ego. Existe uma ética própria para o mundo político? Para Weber (1965), na política haveria dois pecados mortais. Primeiro, não defender nenhuma causa, o que conduz o político à paralisia e à busca do brilho efêmero. Segundo, não possuir nenhum senso de responsabilidade, o que o leva a abusar do poder como um fim em si mesmo, sem qualquer propósito maior. As causas que justificam o alcance do poder dependeriam das visões de mundo e convicções íntimas de cada político. Tais motivações podem ser humanistas, nacionalistas, sociais, religiosas e éticas. Nesse sentido, cabe indagar se existiria um “mínimo ético” na política que compatibilizasse as diversas causas que levam os políticos a almejar o poder. Seria a ética da política a mesma ética da religião? Segundo Weber (1965), a ética religiosa, contida nos Evangelhos, implica em comportamentos rígidos e que não admitem meio-termo: é o “tudo ou nada”. A ética dos Evangelhos persegue verdades absolutas e incontestáveis, baseadas na convicção e na consciência individual. De acordo com Weber (1965), as condutas podem ser orientadas segundo duas lógicas: a ética da ética da convicção e a ética da responsabilidade. Isto não significa que a ética da convicção esteja desconectada de qualquer responsabilidade. O ponto central da ética da responsabilidade é a noção das consequências do ato humano e o reconhecimento do papel da vontade, da ação ou da omissão na produção de resultados. Quando se observa apenas ética da convicção, atribui-se qualquer consequência dos atos humanos à vontade divina. Dessa forma, os homens isentam-se de qualquer compromisso, obrigação e 26 prudência no dia a dia, pois seu destino estaria traçado. A questão mais sensível da ética da responsabilidade é o fato de que, para alcançar fins considerados nobres, os homens às vezes precisam recorrer a expedi- entes considerados desagradáveis, desonestos ou perigosos. Assim, o ato de mentir, segundo a ética das convicções, é moralmente condenável. Já segundo a ética da responsabilidade, a mentira, muitas vezes, pode ser uma forma de se evitar um mal maior. Segundo Weber (1965), no entanto, nenhuma ética conseguiu até hoje definir o que seria uma finalidade considerada “eticamente boa” que justificasse o uso de métodos considerados moralmente perigosos, como o uso da força. Em que circunstâncias se justifica o uso da força para o alcance de fins considerados justos? No caso de uma guerra ou de uma revolução, por exemplo, seria legítimo o recurso à violência para alcançar fins considerados justos? Os partidários da ética da convicção são unânimes ao afirmar que matar um outro ser humano é considerado um pecado mortal, sem qualquer exceção. Já sob o ponto de vista da ética da responsabilidade, em casos excepcionais, como o de uma ameaça à sobrevivência do Estado ou da nação, seria moralmente justo o emprego da força e da violência armada para repelir uma invasão ao território nacional. Essa tensão entre meios e fins caracteriza a ética da responsabilidade. Nesse sentido, a violência poderia ser admitida como um meio do alcance de fins políticos considerados nobres ou justos, como a sobrevivência nacional. Da mesma forma, o debate entre a continuidade de uma revolução ou de uma guerra e a realização da paz depende, sobretudo, das condições em que os termos da paz são assinados. Se forem injustos, os partidários da ética da responsabilidade admitem a legitimidade As duas lógicas weberianas que conduzem a vida política: a Ética das Convicções e Ética da Responsabilidade: Ética da responsabilidade é a noção das consequências do ato humano e o reconhecimento do papel da vontade, da ação ou da omissão na produção de resultados. Ética da convicção é a atribuição de qualquer consequência dos atos humanos à vontade divina. Dessa forma, os homens isentam-se de qualquer compromisso, obrigação e prudência no dia a dia, pois seu destino estaria traçado. 27 da continuidade da revolução ou da guerra. Para Weber (1965), é impossível conciliar a ética da convicção e a ética da responsabilidade, pois a primeira não admite concessões à segunda. A ética da convicção defende que os meios são mais importantes que os fins. Isto é, o mal só pode trazer o mal. A ética da responsabilidade, por sua vez, admite que os fins justifiquem os meios. Ou seja, o mal, quando praticado com fins nobres, também pode produzir o bem. Todas as crenças religiosas enfrentam o problema da ética na política. A questão mais sensível são as circunstâncias em que se admite e se legitima o uso da violência. Os políticos ao praticarem a violência com a busca de um fim nobre devem não apenas justificar o recurso à força, mas buscar seguidores que compartilhem de seus objetivos. Em síntese, Max Weber afirma que a política não pode abrir mão das questões éticas. Os homens que se dedicam à política, na visão do autor, devem estar cientes das consequências e impactos de seus atos. A salvação das almas, de um indivíduo e de seu grupo não deve ser buscada por meio da política, mas da religião. O caminho da política,por sua vez, pressupõe o uso de algum tipo de violência para alcançar os objetivos pretendidos. Nesse sentido, é preciso esclarecer aos partidários da ética da convicção que quaisquer atos humanos geram consequências. A Os partidários da ética da convicção acreditam que quaisquer atos humanos geram consequências, inclusive na política. Já para os adeptos da ética da responsabilidade, a política, diferentemente da religião, exige que os homens tenham senso de proporção. Sendo assim, convidamos você a refletir sobre a seguinte situação: Um determinado país sofre um ataque externo e precisa tomar atitudes de defesa e ataque. No entanto, sua população não tem total conhecimento sobre os desdobramentos dessa situação. Revelar tudo o que está acontecendo pode gerar pânico geral e piorar ainda mais o quadro, até mesmo dificultando as ações de defesa. Para a ética da convicção, a verdade deve estar acima de tudo. Contudo, preservar em sigilo determinadas informações ou até mesmo mentir sobre elas pode promover a segurança nacional. Para os adeptos da ética da responsabilidade é preciso lançar mão do senso de proporção. Em que medida um chefe de Estado deve pender para uma das duas lógicas? 28 política, diferentemente da religião, exige que os homens tenham senso de proporção. Sendo assim, a política seria a arte do possível. https://bit.ly/2Ocaijw https://bit.ly/2Ocaijw 29 FIXANDO O CONTEÚDO 1. (Enem 2010, 2ª aplicação) No século XX, o transporte rodoviário e a aviação civil aceleraram o intercâmbio de pessoas e mercadorias, fazendo com que as dis- tâncias e a percepção subjetiva das mesmas se reduzissem constantemente. É possível apontar uma tendência de universalização em vários campos, por exemplo, na globalização da economia, no armamentismo nuclear, na manipulação genética, entre outros. HABERMAS, J. A constelação pós-nacional: ensaios políticos. São Paulo: Littera Mundi, 2001 (adaptado). Os impactos e efeitos dessa universalização, conforme descrito no texto, podem ser analisados do ponto de vista moral, o que leva à defesa da criação de normas universais que estejam de acordo com: a) os valores culturais praticados pelos diferentes povos em suas tradições e costumes locais. b) os pactos assinados pelos grandes líderes políticos, os quais dispõem de condições para tomar decisões. c) os sentimentos de respeito e fé no cumprimento de valores religiosos relativos à justiça divina. d) os sistemas políticos e seus processos consensuais e democráticos de formação de normas gerais. e) os imperativos técnico-científicos, que determinam com exatidão o grau de justiça das normas. 2. (Enem 2010) A ética precisa ser compreendida como um empreendimento coletivo a ser constantemente retomado e rediscutido, porque é produto da relação social se organize sentindo-se responsável por todos e que crie condições para o exercício de um pensar e agir autônomos. A relação entre ética e política é também uma questão de educação e luta pela soberania dos povos. É necessária uma ética renovada, que se construa a partir da natureza dos valores sociais para organizar também uma nova prática política. CORDI et al. Para filosofar. São Paulo: Scipione, 2007 (adaptado). 30 O Século XX teve de repensar a ética para enfrentar novos problemas oriundos de diferentes crises sociais, conflitos ideológicos e contradições da realidade. Sob esse enfoque e a partir do texto, a ética pode ser: a) compreendida como instrumento de garantia da cidadania, porque através dela os cidadãos passam a pensar e agir de acordo com valores coletivos. b) mecanismo de criação de direitos humanos, porque é da natureza do homem ser ético e virtuoso. c) meio para resolver os conflitos sociais no cenário da globalização, pois a partir do entendimento do que é efetivamente a ética, a política internacional se realiza. d) parâmetro para assegurar o exercício político primando pelos interesses e ação privada dos cidadãos. e) aceitação de valores universais implícitos numa sociedade que busca dimensionar sua vinculação à outras sociedades. 3. (Enem 2010) Na ética contemporânea, o sujeito não é mais um sujeito substancial, soberano e absolutamente livre, nem um sujeito empírico puramente natural. Ele é simultaneamente os dois, na medida em que é um sujeito histórico-social. Assim, a ética adquire um dimensionamento político, uma vez que a ação do sujeito não pode mais ser vista e avaliada fora da relação social coletiva. Desse modo, a ética se entrelaça, necessariamente, com a política, entendida esta como a área de avaliação dos valores que atravessam as relações sociais e que interliga os indivíduos entre si. SEVERINO. A. J. Filosofia O texto, ao evocar a dimensão histórica do processo deformação da ética na sociedade contemporânea, ressalta: a) os conteúdos éticos decorrentes das ideologias político-partidárias. b) o valor da ação humana derivada de preceitos metafísicos. c) a sistematização de valores desassociados da cultura. d) o sentido coletivo e político das ações humanas individuais. e) o julgamento da ação ética pelos políticos eleitos democraticamente 31 4. (Enem 2009) Na década de 30 do século XIX, Tocqueville escreveu as seguintes linhas a respeito da moralidade nos EUA: “A opinião pública norte-americana é particularmente dura com a falta de moral, pois esta desvia a atenção frente à busca do bem-estar e prejudica a harmonia doméstica, que é tão essencial ao sucesso dos negócios. Nesse sentido, pode-se dizer que ser casto é uma questão de honra”. TOCQUEVILLE, A. Democracy in America. Chicago: Encyclopædia Britannica, Inc., Great Books 44, 1990 (adaptado). Do trecho, infere-se que, para Tocqueville, os norte-americanos do seu tempo: a) buscavam o êxito, descurando as virtudes cívicas. b) tinham na vida moral uma garantia de enriquecimento rápido. c) valorizavam um conceito de honra dissociado do comportamento ético. d) relacionavam a conduta moral dos indivíduos com o progresso econômico. e) e) acreditavam que o comportamento casto perturbava a harmonia doméstica. 5. (Enem 2017) “Uma pessoa vê-se forçada pela necessidade a pedir dinheiro emprestado. Sabe muito bem que não poderá pagar, mas vê também que não lhe emprestarão nada se não prometer firmemente pagar em prazo determinado. Sente a tentação de fazer a promessa; mas tem ainda consciência bastante para perguntar a si mesma: não é proibido e contrário ao dever livrar-se de apuros desta maneira? Admitindo que se decida a fazê-lo, a sua máxima de ação seria: quando julgo estar em apuros de dinheiro, vou pedi-lo emprestado e prometo pagá-lo, embora saiba que tal nunca sucederá”. KANT, I. Fundamentação da metafísica dos costumes. São Paulo: Abril Cultural, 1980. De acordo com a moral kantiana, a “falsa promessa de pagamento” representada no texto: a) assegura que a ação seja aceita por todos a partir da livre discussão participativa. b) garante que os efeitos das ações não destruam a possibilidade da vida futura na terra. 32 c) opõe-se ao princípio de que toda ação do homem possa valer como norma uni- versal. d) materializa-se no entendimento de que os fins da ação humana podem justificar os meios. e) permite que a ação individual produza a mais ampla felicidade para as pessoas envolvidas. 6. (Enem 2017) A moralidade, Bentham exortava, não é uma questão de agradar a Deus, muito menos de fidelidade a regras abstratas. A moralidade é a tentativa de criar a maior quantidade de felicidade possível neste mundo. Ao decidir o que fazer, deveríamos, portanto, perguntar qual curso de conduta promoveria a maior quantidade de felicidadepara todos aqueles que serão afetados. RACHELS, J. Os elementos da filosofia moral. Barueri-SP: Manole, 2006. Os parâmetros da ação indicados no texto estão em conformidade com uma: a) fundamentação científica de viés positivista. b) convenção social de orientação normativa. c) transgressão comportamental religiosa. d) racionalidade de caráter pragmático. e) nclinação de natureza passional. 7. (Enem 2017) “Se, pois, para as coisas que fazemos existe um fim que desejamos por ele mesmo e tudo o mais é desejado no interesse desse fim; evidentemente tal fim será o bem, ou antes, o sumo bem. Mas não terá o conhecimento, porventura, grande influência sobre essa vida? Se assim é, esforcemo-nos por determinar, ainda que em linhas gerais apenas, o que seja ele e de qual das ciências ou faculdades constitui o objeto. Ninguém duvidará de que o seu estudo pertença à arte mais prestigiosa e que mais verdadeiramente se pode chamar a arte mestra. Ora, a política mostra ser dessa natureza, pois é ela que determina quais as ciências que devem ser estudadas num Estado, quais são as que cada cidadão deve aprender, e até que ponto; e vemos que até as faculdades tidas em maior apreço, como a estratégia, a economia e a retórica, estão sujeitas a ela. Ora, como a política utiliza as demais ciências e, por outro lado, legisla sobre o que 33 devemos e o que não devemos fazer, a finalidade dessa ciência deve abranger as das outras, de modo que essa finalidade será o bem humano. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. In: Pensadores. São Pauto: Nova Cultural, 1991 (adaptado). Para Aristóteles, a relação entre o sumo bem e a organização da pólis pressupõe que: a) o bem dos indivíduos consiste em cada um perseguir seus interesses. b) o sumo bem é dado pela fé de que os deuses são os portadores da verdade. c) a política é a ciência que precede todas as demais na organização da cidade. d) a educação visa formar a consciência de cada pessoa para agir corretamente. e) a democracia protege as atividades políticas necessárias para o bem comum. 8. (Enem/2013) “Nasce daqui uma questão: se vale mais ser amado que temido ou temido que amado. Responde-se que ambas as coisas seriam de desejar; mas porque é difícil juntá-las, é muito mais seguro ser temido que amado, quando haja de faltar uma das duas. Porque dos homens que se pode dizer, duma maneira geral, que são ingratos, volúveis, simuladores, covardes e ávidos de lucro, e enquanto lhes fazes bem são inteiramente teus, oferecem-te o sangue, os bens, a vida e os filhos, quando, como acima disse, o perigo está longe; mas quando ele chega, revoltam-se.” MAQUIAVEL, N. O Príncipe. Rio de Janeiro: Bertrand, 1991. A partir da análise histórica do comportamento humano em suas relações sociais e políticas, Maquiavel define o homem como um ser: a) munido de virtude, com disposição nata a praticar o bem a si e aos outros. b) possuidor de fortuna, valendo-se de riquezas para alcançar êxito na política. c) guiado por interesses, de modo que suas ações são imprevisíveis e inconstantes. d) naturalmente racional, vivendo em um estado pré-social e portando seus direitos naturais. e) sociável por natureza, mantendo relações pacíficas com seus pares. 34 ÉTICA, MORAL E POLÍTICA: A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA “Que estranho desejo é ambicionar o poder e perder a liberdade” Francis Bacon, filósofo inglês 3.1 O CONCEITO DE CIDADANIA E SUA EVOLUÇÃO HISTÓRICA Cidadania é um laço que une um indivíduo a um determinado Estado-Nação. Esse vínculo de subordinação a uma ordem jurídica nacional torna o indivíduo sujeito a direitos e obrigações, tornando-o parte integrante de um povo. O povo é o elemento humano que habita o território do Estado e que se mantém unido graças aos valores e aos objetivos comuns que compartilham. A cidadania é o vínculo estabelecido entre o Estado e o povo. O vínculo de cidadania se prolonga por toda a vida e é definidor da identidade pessoal de um indivíduo. No entender de Bonavides (2006), a cidadania implica em deveres básicos em relação a uma coletividade, como a fidelidade à Nação e a observância das normas do Estado. Jorge Miranda afirma que os cidadãos são os membros do Estado, sujeitos de Direito e súditos da ordem política juridicamente organizada. Cidadania, portanto, define a qualidade do sujeito que se subordina a uma coletividade política. O autor distingue a cidadania da nacionalidade. A primeira é o vínculo direto de um indivíduo a um Estado, enquanto a segunda é a relação entre um indivíduo e uma Nação. A aquisição e a perda de cidadania é definida pelas regras internas do Estado que as concede. Há dois meios fundamentais de aquisição da cidadania: pela filiação (jus sanguinis) ou pelo local de nascimento (jus soli). A cidadania implica na participação da vida política de um Estado, como o direito de votar e de ser votado (MIRANDA, 2002). O conceito de cidadania em sua versão moderna nutriu-se das ideias surgidas na Itália, Inglaterra, França e Estados Unidos a partir da Idade Moderna. De Nicolau Maquiavel a Thomas Hobbes e de Jean Jacques Rousseau aos Federalistas norte- americanos, a base do pensamento político moderno compreendido como um conjunto de teorias e de ideias relacionadas à busca da institucionalização dos UNIDADE Err o! Fo nt e d e re 35 conflitos forjou-se numa pluralidade de correntes e de tradições envoltas na formação da linguagem e da prática política europeia nos séculos XVI a XVIII. Da matriz italiana, o republicanismo absorveu as lições de Maquiavel acerca da formação do humanismo cívico num contexto de reposicionamento do homem no centro do pensamento. Responsável por uma ruptura no pensamento ocidental e fundador da Ciência Política, o autor resgata o pensamento greco-latino para embasar as suas reflexões acerca das temáticas políticas de seu tempo. O pensamento de Maquiavel se tornou clássico por duas razões centrais: a ampla difusão no Ocidente e abrangência de largas temporalidades. Maquiavel aborda as constantes disputas de poder entre as cidades-Estado da península itálica, mostrando como a instabilidade e a imprevisibilidade eram inerentes à realidade contemporânea. Para Maquiavel, política e história também deveriam ser analisadas em conjunto, já que o poder organizava historicamente as relações econômicas e sociais entre os indivíduos, via exercício da dominação e a busca do consenso. O autor desenvolve, nas duas obras, a ideia de que o corpo político se divide ante o desejo de dominação e de ser dominado, o que se nota, por exemplo, no relato dos conflitos entre as potências europeias da época e as cidades do norte italiano. Finalmente, demonstra que a política se desenrola na dicotomia essência versus aparência, mostrando como a política possui uma importante dimensão simbólica na construção de narrativas. A noção de cidadania desenvolvida por Maquiavel seria transformada na França, dois séculos depois. Jean Jacques Rousseau foi o mais notável dos filósofos do período Iluminista e o principal representante do republicanismo de matriz francesa. Em “O Espírito das Leis”, Rousseau ataca a Igreja e a instituição monárquica pelas desigualdades e pela miséria. Para conter a proliferação de uma sociedade profundamente desigual, prega um ideal democrático, rejeitando o estado histórico, construído desde tempos imemoriais, ao qual atribui a culpa pela desigualdade dos homens. Disseminador de ideais de coletividade e de cooperação, Rousseau propõe a composição de um novo Estado, não-tirano, opressor e fonte de desigualdades, mas de um organismo protetor, socialmente justo, sem privilégios e que tenha no povo a fonte de todo e qualquer poder. No fundo, a função deste novo Estado,pautado pela justiça e pelos direitos de todos os homens, era alcançar algo próximo da 36 perfeição e da igualdade. Rousseau conecta, portanto, a formação da liberdade do cidadão à soberania popular. Há, portanto, uma possível aproximação entre o pensamento de Rousseau e o de Maquiavel, na medida em que ambos procuram afirmar a necessidade de legitimação do poder. Na visão de Rousseau, o homem não é um ser naturalmente sociável, mas socializável pelas circunstâncias e pela luta para sobreviver. Em “Discurso da origem da desigualdade entre os homens”, o autor argumenta que os direitos se formam a partir de um contrato de submissão dos homens a um poder. Nessa linha, ataca a noção de direitos naturais precedente, afirmando a necessidade de pactuação do corpo político para a afirmação das liberdades. Nesse sentido, sua obra trata da problemática do “contrato social”, associada à ideia de república e de igualdade entre os homens. Para Rousseau, a cidadania pressupõe a existência de simetria e de uma “vontade geral” entre os cidadãos, valorizando, dessa forma, o controle democrático e a prestação de contas. A noção contemporânea de cidadania, em um contexto democrático, se valeu do debate de ideias durante a formação histórica das instituições republicanas dos Estados Unidos da América. Texto clássico da Ciência Política, ‘O Federalista” (1788) consagrou-se como um conjunto de artigos escritos por Alexander Hamilton, James Madison e John Jay, três dos Pais Fundadores da recém independente nação norte-americana. Além de consagrados partícipes do processo de emancipação política do país, Hamilton, Madison e Jay tiveram atuação destacada no processo de elaboração do texto constitucional dos Estados Unidos, no bojo da conclusão da Guerra da Independência e dos arranjos para a estabilização política interna. O objetivo da publicação desses artigos foi explicitar e debater os temas centrais discutidos no processo constituinte, em especial a centralização, a coordenação e o controle do poder. James Madison, em “O Federalista”, aborda a temática do controle do poder político e da contenção das ambições humanas. Advoga, nessa direção, a necessidade de instituir mecanismos capazes de afastar as tiranias e assegurar a existência das liberdades dentro do Estado, tornando-se um dos principais teóricos da existência de “checks and balances” (freios e contrapesos) entre as diversas 37 instâncias e poderes. A teoria liberal da cidadania nutriu-se das lições de Montes- quieu e da seiva madisoniana para consolidar o entendimento que consagrou a moderna tripartição de poderes do Estado. Em breves palavras, somente o poder poderia ser contido por outro poder, numa sucessão de mecanismos capazes de refrear o ímpeto autoritário dos governantes. Madison dialoga com a teoria do “governo misto”, existente na Inglaterra liberal do século XVIII, em que as funções governativas eram compartilhadas pelos três principais grupos sociais, favorecendo a harmonia, a convivência civil e a liberdade. Fruto de uma rebelião de cidadãos armados contra uma monarquia, nos Estados Unidos estavam ausentes as condições para a existência desse modelo de organização social e política. Madison argumentava que o elemento inspirador da nova nação também não deveria ser a “virtude” das experiências republicanas da Antiguidade Clássica. Contrariamente ao “governo misto” e à “virtude” dos clássicos da Grécia, ancorava-se na teoria da “tripartição de poderes” de Montesquieu, que defendia uma divisão das atribuições do poder de maneira horizontal entre três braços independentes e autônomos de governo: o Legislativo, responsável pela edição de normas; o Executivo, responsável pela sua aplicação; e o Judiciário, responsável por dirimir conflitos. A separação de poderes garantiria a autonomia, o equilíbrio e a liberdade, dissolvendo o poder absoluto em várias mãos. Madison preconizava a necessidade de se conter o mal das facções através do seu controle, não da sua eliminação. Compreendendo a sua natureza e risco, o autor buscava alguma forma de lidar com as diferentes forças sociais e políticas nascidas da diversidade de ideias, crenças, opiniões e interesses, mas que poderiam ameaçar a estabilidade política dos governos e a existência dos regimes. Madison entendia que a eliminação das facções era algo incompatível com um sistema de liberdades, cuja missão principal do governo era salvaguardar. Um ponto central da visão madisoniana, nesse sentido, era a necessidade de equacionar a vontade da maioria com os direitos das facções minoritárias, evitando que a primeira esmagasse as segundas. A existência de mecanismos de proteção das minorias do abuso de poder era essencial para evitar a tirania. James Madison rompe com a tradição dos governos populares da Antiguidade ao defender o modelo de democracia representativa, em que as 38 facções estariam representadas por um corpo político de cidadãos preparados para governar. A ampliação da base territorial de governo também seria importante. Por outro lado, a existência de governos representativos não eliminaria o mal das facções, tendo em vista a existência do risco de degeneração do poder em armadilhas faccionárias capazes de levar à captura do governo por interesses contrários à vontade geral. Desta forma, o remédio proposto não é a eliminação das facções, mas a sua multiplicação, de modo a pulverizar o poder num grande número de forças facciosas de alcance local e limitado, cada uma delas incapaz de ameaçar a existência da liberdade. O objetivo é a neutralização das facções entre si, numa fórmula semelhante à teoria dos “checks and balances”. O interesse geral, resume Madison, se alcançaria através da coordenação dos interesses em conflito pelos poderes que interagem entre si, filtrando os excessos e compatibilizando a vontade da maioria com os direitos das minorias. A atualidade dos textos dos autores norte-americanos repousa em sua capacidade de pensar temas fundamentais da sociedade política moderna. https://bit.ly/382nxKC 39 3.2 CIDADANIA E DIREITOS FUNDAMENTAIS O conceito de cidadania não teve difusão uniforme no Ocidente. No ideário iluminista, ser cidadão significava ter a posse de direitos políticos uniformes e iguais. A ideia era a de que todos eram iguais perante a lei. Na concepção do universalismo moderno, existe a ideia de igualdade como um ponto de partida. O papel do Estado é reduzido; ele confere a cidadania e define os direitos em abstrato. A Revolução Francesa trouxe como conquista a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão. Nessa concepção, o Estado não atrapalha as relações entre os particulares. O Estado reconhece os direitos individuais, mas adota um papel de definir o que é o espaço da liberdade. O Estado reconhece o direito e se abstém de interferir nisso. Atribui direitos ao indivíduo e isso tem impactos sobre a concepção de cidadania. No discurso liberal há uma igualdade formal. Por exemplo, o voto de cada cidadão tem o mesmo valor, independentemente de sua condição social ou financeira. Na concepção liberal de cidadania está presente a ideia da representatividade. O indivíduo pertence a uma ordem soberana e é esta ordem que o reconhece como cidadão. Essa concepção é orientada por critérios político- jurídicos constitucionalizados. No Direito contemporâneo encontraremos concepções que afirmam essa ideia, que é moderna. Nesse sentido, cidadão é aquele que é capaz de votar ou que está habilitado para receber votos. Votar e ser votado é o que define a condição de cidadão. No entanto, será que essa concepção é suficiente para a realização do ideário democrático? Será que é suficiente para atender às demandas sociais?