Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

SEMINÁRIO BÍBLICO BATISTA 
APOSTILA DE HERMENÊUTICA 2 – 1º SEMESTRE DE 2025 
SUMÁRIO 
 
 
PALAVRA DO PROFESSOR .................................................................................................................... 3 
1. SABEDORIA: ONTEM E HOJE ....................................................................................................... 4 
2. APOCALIPSE: IMAGENS DO JUÍZO E DA ESPERANÇA ............................................................. 10 
3. HISTÓRIA DA INTERPRETAÇÃO BÍBLICA: DO ANTIGO TESTAMENTO À ERA MODERNA .. 18 
4. HISTÓRIA DA INTERPRETAÇÃO BÍBLICA: A PÓS-MODERNIDADE ........................................ 27 
5. AS FIGURAS DE LINGUAGEM ..................................................................................................... 31 
6. OS TIPOS E OS SÍMBOLOS NA BÍBLIA ....................................................................................... 34 
7. O EMPREGO DO ANTIGO TESTAMENTO NO NOVO ................................................................. 39 
8. ESCATOLOGIA DO NOVO TESTAMENTO: O PROBLEMA HERMENÊUTICO ........................... 50 
APÊNDICE: A CONFUSÃO A RESPEITO DO MILÊNIO ................................................................... 58 
9. O DISPENSACIONALISMO COMO UM SISTEMA TEOLÓGICO .................................................. 62 
 
 
SEMINÁRIO BÍBLICO BATISTA 
APOSTILA DE HERMENÊUTICA 2 – 1º SEMESTRE DE 2025 
PALAVRA DO PROFESSOR 
 
Seja muito bem-vindo à disciplina de Hermenêutica 2! Nela continuaremos a tra-
tar da interpretação bíblica. 
Meus principais objetivos para você com essa disciplina são: a) despertar um inte-
resse genuíno pela descoberta do sentido correto do texto bíblico; b) adquirir habilidades 
específicas para uma correta interpretação dos vários gêneros textuais mais complexos 
presentes nas Escrituras, como salmos, textos sapienciais e apocalípticos; c) manejar as 
ferramentas necessárias para a interpretação bíblica; e) aprender a lidar com textos difí-
ceis; f) fortalecer sua convicção quanto à interpretação bíblica cristocêntrica para a teolo-
gia, a vida e o ministério. 
A apostila utilizou ainda alguns capítulos de “Entendes O Que Lês?”, de Gordon D. 
Fee e Douglas Stuart, e utilizará também “A Interpretação Bíblica”, de Roy B. Zuck. Indico 
imprimir frente e verso. 
Para as citações bíblicas, optei por utilizar minha versão de preferência: Nova Al-
meida Atualizada (NAA). Quanto outra versão for utilizada, ela será citada. 
As setas no decorrer do texto indicam atividades a serem feitas, em sala ou como 
tarefa, de acordo com orientação do professor. 
Desejo ser usado por Deus para que você cresça espiritualmente e ame ainda mais 
o nosso Deus triúno. 
Que Deus te abençoe! 
 
 
Prof. Pr. João Marcus Pinheiro Gomes
SEMINÁRIO BÍBLICO BATISTA 
APOSTILA DE HERMENÊUTICA 2 – 1º SEMESTRE DE 2025 
 
Prof. Pr. João Marcus P. Gomes – (31) 97512-9111 | prjoaomarcus@gmail.com 
4 
 
1. SABEDORIA: ONTEM E HOJE 
 
 
A sabedoria hebraica é uma categoria de literatura que não é familiar à maioria dos 
cristãos de hoje. Contudo, ao ser devidamente compreendida, a sabedoria é muito útil 
para a vida cristã. 
Os textos bíblicos de sabedoria são: os livros de Eclesiastes, Provérbios, Jó, alguns 
salmos e, de certo modo, Cântico dos Cânticos. 
 
1.1. A natureza da sabedoria 
A sabedoria é a habilidade de fazer escolhas piedosas na vida. Alcançamos esse ob-
jetivo aplicando a vontade de Deus nas situações da vida. 
Esse capítulo irá ajudá-lo a refinar sua compreensão e aplicação da sabedoria. 
 
1.1.1. Abusos da literatura sapiencial 
Os livros de sabedoria (sapienciais) têm sofrido diversos abusos: 
1. Leitura parcial dos livros. Isso impede a percepção da mensagem global; 
2. Compreensão errada de palavras e expressões, bem como os estilos da literatura 
sapiencial. Um exemplo é Provérbios 14.7: “Fuja da presença do insensato, porque nele 
você não encontrará palavras de conhecimento”. “Insensato” na literatura de sabedoria 
não é um portador de deficiência mental; antes, significa “incrédulo” – aquele que vive 
conforme seus padrões egoístas e não reconhece autoridade maior que ele mesmo. Em 
outras palavras, o provérbio ensina que se você estiver em busca de sabedoria, não deve 
buscá-la em um incrédulo. 
3. Não seguir a linha de pensamento. Dessa forma entendem como verdade bíblica 
algo escrito como um entendimento incorreto da vida. Considere Jó 15.20: “O ímpio é ator-
mentado todos os dias, no curto número de anos que se reservam para o opressor”. Será 
um ensino inspirado por Deus o fato de os perversos não serem felizes? Jó refutou essa 
ideia energicamente. Esse versículo faz parte do discurso de Elifaz, que procura convencer 
Jó de que ele está sofrendo por ser ímpio! Deus condena as palavras de Elifaz (42.7,8). Se 
você não seguir o discurso inteiro do livro de Jó, não será capaz de perceber isso. 
Discutiremos nesse capítulo o que é a literatura sapiencial e como entendê-la. Da-
remos mais atenção a Provérbios por ser o livro sapiencial mais usado – e abusado. 
 
 
SEMINÁRIO BÍBLICO BATISTA 
APOSTILA DE HERMENÊUTICA 2 – 1º SEMESTRE DE 2025 
 
Prof. Pr. João Marcus P. Gomes – (31) 97512-9111 | prjoaomarcus@gmail.com 
5 
 
1.1.2. Quem é sábio? 
A sabedoria não é teórica e abstrata – existe somente quando uma pessoa pensa e 
age de acordo com a verdade, fazendo escolhas que a vida exige. Desse modo, algumas 
pessoas se dedicam mais à obtenção de sabedoria, e por isso têm mais sabedoria que ou-
tras. O “sábio” no AT se interessava em fazer escolhas e ajudassem a produzir os resulta-
dos desejados, pois as escolhas traçam o curso da vida. 
Os antigos entendiam dessa forma. A sabedoria não-israelita tinha como objetivo 
fazer escolhas melhores para alcançar uma vida melhor. A sabedoria bíblica acrescentou 
a isso que as boas escolhas são somente as escolhas piedosas. Por isso, da perspectiva 
divina, “o temor do SENHOR é o princípio da sabedoria” (Pv 9.10). A sabedoria, portanto, 
não é uma questão de inteligência, capacidade de expressão ou idade. É uma vida voltada 
para Deus, já que Ele mesmo é a fonte da sabedoria (Tg 1.5). 
A vida responsável e bem-sucedida era o alvo. Às vezes, a sabedoria era aplicada a 
questões técnicas, como a construção (Ex 31.3) ou a navegação (Ez 27.8,9). A sabedoria 
também era procurada para tomar decisões que afetassem outras pessoas, como Josué 
(Dt 34.9), Davi (2Sm 14.20) e Salomão (1Rs 3.9). 
A literatura sapiencial, portanto, focaliza as pessoas e seu comportamento. 
 
1.1.3. Mestres da sabedoria 
No Israel antigo, algumas pessoas não apenas se dedicavam a obter a sabedoria, 
mas também a ensinar outras pessoas a obtê-la. Esses instrutores eram chamados de “ho-
mens sábios”. Eventualmente ocupavam uma posição paralela à dos sacerdotes e profetas 
(Jr 18.18). Esses homens atuavam como mestres-conselheiros para os que buscavam a 
sabedoria. O sábio servia como um tipo de pai substituto para aquele que buscava encon-
trar nele sabedoria (Gn 45.8, Jz 5.7). Assim, em vários casos, vemos o mestre sábio cha-
mando seu aluno de “filho meu” em Provérbios (que inclui a ideia de “filha minha”). 
 
1.1.4. Sabedoria no lar e entre colegas 
O lar é o lugar principal que ensinamos sabedoria, muitas vezes sem perceber, 
quando os pais tentam ajudar os filhos a fazer escolhas certas na vida. Provérbios, entre-
tanto, subordina todos os conselhos à sabedoria de Deus. O conselho deve ser prático, 
preocupado em questões seculares, mas nunca deve deixar de reconhecer que o maior 
bem que uma pessoa pode alcançar é a vontade de Deus. 
Uma das formas de alguém aperfeiçoar sua capacidade de fazer escolhas certas é 
por meio da discussão e da argumentação. Chega-se às vezes a esse tipo de sabedoria atra-
vés de um longo discurso, seja num monólogo para que outras pessoas reflitam sobre ele 
(Eclesiastes), seja num diálogo entre várias pessoas (Jó).SEMINÁRIO BÍBLICO BATISTA 
APOSTILA DE HERMENÊUTICA 2 – 1º SEMESTRE DE 2025 
 
Prof. Pr. João Marcus P. Gomes – (31) 97512-9111 | prjoaomarcus@gmail.com 
6 
 
1.1.5. Sabedoria expressa através de poesia 
No período do AT, estudantes e professores usavam uma variedade de técnicas li-
terárias como auxílio para lembrar-se da sabedoria. Deus inspirou os textos sapienciais 
utilizando tais técnicas, de modo que fossem fáceis de memorizar. Assim, a poesia também 
é veículo da sabedoria veterotestamentária. Os textos sapienciais são compostos principal-
mente de poesias. Entre as técnicas usadas estão os paralelismos (sejam sinonímicos [Pv 
7.4], antitéticos [Pv 10.1] ou sintéticos[Pv 21.16]); acrósticos; aliterações (Ec 3.1-8); se-
quências numéricas (Pv 30.15-31); incontáveis comparações, tais como símiles e metáfo-
ras (Jó 32.19; Ct 4.1-6). Parábolas, alegorias, enigmas e outras técnicas poéticas também 
podem ser encontradas na literatura sapiencial. 
 
1.1.6. Limites da sabedoria 
Nem toda sabedoria no mundo antigo era piedosa. E a habilidade no uso da sabe-
doria não garante que ela será usada corretamente. O conselho sábio que Jonadabe deu a 
Amnom (2Sm 13.3) foi a serviço de uma causa infame; a grande sabedoria de Salomão 
ajudou-o a obter riquezas e poder, mas não o impediu de desviar-se no fim da vida (1Rs 
11.4). Somente quando a sabedoria é usada em obediência a Deus é que ela realiza seus 
propósitos de forma adequada. 
 
1.2. Sabedoria em Provérbios 
Provérbios é lugar da “sabedoria proverbial” - são aforismos memoráveis que aju-
dam as pessoas a fazer escolhas responsáveis. Em contraste com Eclesiastes e Jó, que 
usam sabedoria especulativa como um meio de lidar com as grandes questões da vida, a 
sabedoria proverbial concentra-se principalmente nas atitudes práticas e no comporta-
mento da vida diária. 
A linguagem religiosa é usada raras vezes em Provérbios. Ela está presente, mas 
não é predominante. Nem tudo na vida precisa ser religioso para ser piedoso. Provérbios, 
desse modo, pode servir de corretivo à tendência de espiritualizar tudo, como se houvesse 
algo errado com o mundo físico. 
 
1.2.1. Usos e abusos de Provérbios 
Em hebraico, os provérbios são chamados de meshallim (figuras de linguagem, pa-
rábolas, ou ditos especialmente elaborados). Um provérbio, portanto, é uma expressão 
breve e específica da verdade. Por isso, os provérbios têm uma fraseologia cativante, a fim 
de serem memorizados por qualquer pessoa. 
Os provérbios não apresentam toda uma verdade, mas tratam de situações especí-
ficas, como o provérbio “pense antes de agir”. Observe que ele não detalhou muitos aspec-
tos relacionados à ação refletida. Assim também acontece com os provérbios em hebraico. 
Não dizem toda a verdade, mas apontam em direção a ela. 
Vejamos alguns exemplos. Considere Provérbios 9.13-18: 
SEMINÁRIO BÍBLICO BATISTA 
APOSTILA DE HERMENÊUTICA 2 – 1º SEMESTRE DE 2025 
 
Prof. Pr. João Marcus P. Gomes – (31) 97512-9111 | prjoaomarcus@gmail.com 
7 
 
 
13 A loucura é mulher espalhafatosa; 
 é tola e não sabe coisa alguma. 
14 Senta-se junto à porta de sua casa, 
 toma uma cadeira no lugar mais alto da cidade, 
15 para dizer aos que passam 
 e seguem direito o seu caminho: 
16 “Quem for ingênuo, venha para cá.” 
 E aos que não têm juízo ela diz: 
17 “A água roubada é doce, 
 e o pão comido às escondidas é saboroso.” 
18 Eles, porém, não sabem que ali estão os mortos, 
 que os seus convidados estão nas profundezas do inferno. 
 
Esse provérbio é uma alegoria (história que indica algo além de si mesma através 
de comparações implícitas). Aqui, a loucura é personificada como uma prostituta que se-
duz os que passam por ela a entrar em sua casa. O “ingênuo” é caracterizado por seu fas-
cínio pelos prazeres proibidos (v. 17). Contudo, o resultado final de uma vida de insensa-
tez é a morte. “Fique longe da insensatez!” – essa é a mensagem dessa breve alegoria. 
Outro exemplo é Provérbios 16.3: 
 
Entregue as suas obras ao SENHOR, 
e o que você tem planejado se realizará. 
 
As pessoas presumem com frequência que esse texto é uma promessa direta. Na-
turalmente, os que entendem assim sofrerão decepções! O provérbio não é uma promessa, 
mas verdade geral, ensinando que vidas dedicadas a Deus e vividas conforme a vontade 
Dele são bem-sucedidas, conforme a definição de sucesso feita por Deus. O sábio submete 
seus planos ao cuidado de Deus, crendo que Deus realizará Seus objetivos conforme Seus 
propósitos. 
 
1.2.2. Alguns princípios hermenêuticos 
1. Provérbios não é um livro de garantias da parte de Deus. 
2. Provérbios deve ser lido como uma coletânea. Cada provérbio deve ser equili-
brado com outros e entendido em comparação com o restante da Escritura. Um provérbio 
individual, se for entendido de forma equivocada, te levará a ter atitudes ou comporta-
mentos inadequados. Além disso, não deixe que a preocupação intensamente prática te 
leve a esquecer de lutar contra o materialismo e o mundanismo. 
3. Provérbios foi escrito para ser memorável, não para ser preciso. Nenhum provér-
bio é uma declaração completa da verdade. Quanto mais breve for um provérbio, mais 
SEMINÁRIO BÍBLICO BATISTA 
APOSTILA DE HERMENÊUTICA 2 – 1º SEMESTRE DE 2025 
 
Prof. Pr. João Marcus P. Gomes – (31) 97512-9111 | prjoaomarcus@gmail.com 
8 
 
bom senso será necessário para interpretá-lo. Os provérbios são produzidos tanto para 
estimular uma imagem em usa mente quanto para serem agradáveis aos ouvidos (i.e., re-
petições, acrósticos, rimas etc.). A declaração da mulher virtuosa de Provérbios 31 é um 
acróstico, e usa do exagero para enfatizar a alegria que uma boa esposa traz para sua fa-
mília. Ela é a encarnação da sabedoria na vida cotidiana, a personificação das virtudes e 
um exemplo concreto de temor ao Senhor. 
4. Alguns provérbios precisam ser “traduzidos” para serem apreciados. “Melhor é 
morar no canto do terraço do que com uma mulher briguenta na mesma casa” (Pv 25.24). 
Esse provérbio não pretende sugerir que o esposo deve se separar da mulher briguenta. 
Pretende aconselhar os jovens que vão se casar a tomar cuidado na escolha do cônjuge. 
 
1.3. Sabedoria em Jó 
Jó é um diálogo cuidadosamente estruturado entre Jó e seus bem-intencionados, 
mas totalmente equivocados “consoladores” – Bildade, Zofar, Elifaz e Eliú. Você pode en-
contrar aqui todo tipo de conselho errôneo e conclusões incorretas. Esse diálogo tem um 
alvo muito importante: estabelecer de modo convincente na mente do leitor que aquilo 
que acontece na vida nem sempre acontece porque é justo. O contraste com essa verdade 
encontra-se nos “consoladores”. Eles dizem a Jó que aquilo que acontece com alguém 
nessa vida é resultado direto de ter ou não agradado a Deus. 
Os discípulos de Jesus também sustentavam essa lógica (Jo 9.1-3), assim como mui-
tos cristãos hoje. Entretanto, muitas coisas que acontecem na vida não são conforme o 
padrão perfeito de Deus. Em outras palavras, o sofrimento não é necessariamente resul-
tado de um pecado específico (cf. Rm 8.18-23). 
Essa é a verdadeira sabedoria em sua melhor qualidade. O leitor de Jó aprende que 
a melhor sabedoria do mundo é a sabedoria que provém de Deus e que edifica a confiança 
na sabedoria e na justiça divinas. 
 
1.4. Sabedoria em Eclesiastes 
Eclesiastes é um monólogo que muitas vezes deixa os cristãos perplexos. É um livro 
bastante difícil de ler, com várias passagens aparentemente contraditórias. O livro é uma 
expressão de como se deve aproveitar a vida com Deus num mundo em que todos morrem 
no final. Tome cuidado para não selecionar trechos fora do seu contexto. 
Em Eclesiastes há termos fundamentais, como “vaidade”, que ocorre trinta e sete 
vezes, e significa “vapor” ou “sopro”, “ar”. Mas a questão é: o que esse termo significa para 
o Pregador (Qohelet)? 
Ao que parece, o objetivo do Pregador é que se deveainda viver a vida como uma 
dádiva de Deus, mesmo que a única certeza seja a da sepultura (3.12-14). A alegria nessa 
vida não vem, em último caso, do “resultado”do conceito de “analogia da Escritura” na exegese de Apoca-
lipse. A analogia da Escritura significa que a Escritura deve ser interpretada à luz do res-
tante da Escritura. Apesar disso, não devemos fazer de outras Escrituras as chaves her-
menêuticas para destravar o Apocalipse, criando um “cânon dentro do cânon”. Desse 
modo, é aceitável reconhecer o uso que João faz de Daniel ou Ezequiel. No entanto, as cha-
ves para a interpretação do Apocalipse devem estar no próprio Apocalipse e em seu pró-
prio contexto histórico. 
3. A natureza apocalíptica e profética de Apocalipse traz algumas dificuldades adi-
cionais para a exegese. Seguem algumas sugestões: 
a. É preciso ter sensibilidade para o rico pano de fundo de ideias do Apocalipse. A 
origem principal dessas ideias é o AT, mas João também usa imagens da literatura 
apocalíptica e até mesmo da mitologia antiga. Essas imagens, no entanto, não sig-
nificam necessariamente o que significavam nas suas fontes. Foram despedaçadas 
e transformadas sob a inspiração. 
b. A linguagem figurada apocalíptica é de vários tipos. A besta saindo do mar, por 
exemplo, parece ser uma figura padronizada para um império mundial, e não para 
um soberano individual. Por outro lado, algumas figuras são fluidas. O “Leão” da 
tribo de Judá é ao mesmo tempo um “Cordeiro” (Ap 5;5.6) – o único leão que há no 
Apocalipse. A mulher no capítulo 12 é claramente uma figura positiva, mas a mu-
lher do capítulo 17 é má. 
Do mesmo modo, algumas figuras claramente se referem a coisas específicas. Os 
sete candelabros em 1.12-20 são identificados como as sete igrejas, e o dragão no 
capítulo 12 é Satanás. Por outro lado, muitas figuras provavelmente são gerais. Por 
exemplo, os quatro cavaleiros do capítulo 6 podem não representar uma pessoa, 
um demônio ou Jesus, mas podem representar coisas mais amplas, como a con-
quista, o derramamento de sangue através da violência, a lamentação por causa da 
fome gerada pela guerra e forças satânicas sobre as quais Cristo tem pleno poder. 
Juntas, essas figuras expressam a condição caída da humanidade como sendo a ori-
gem do sofrimento da igreja (6.9-11), que, por sua vez, será uma causa do juízo 
divino (6.12-17). 
c. Quando João interpreta suas figuras de linguagem, essas interpretações devem ser 
sustentadas e servir de ponto de partida para compreender outras figuras. Há seis 
figuras interpretadas: o semelhante a filho de homem (1.13) é Cristo (1.18). Os 
candelabros de ouro (1.20) são as sete igrejas. As sete estrelas (1.20) são os sete 
anjos, ou mensageiros, das igrejas (podendo ser seres celestiais ou os pastores lo-
cais). O grande dragão (12.9) é Satanás. As sete cabeças (17.9) são sete montes em 
que a mulher está assentada, bem como sete reis, tornando-se, assim, uma figura 
SEMINÁRIO BÍBLICO BATISTA 
APOSTILA DE HERMENÊUTICA 2 – 1º SEMESTRE DE 2025 
 
Prof. Pr. João Marcus P. Gomes – (31) 97512-9111 | prjoaomarcus@gmail.com 
13 
 
fluida. A prostituta (17.18) é a grande cidade, uma indicação de Roma (mas tam-
bém pode se referir de forma mais abrangente ao mundo decaído e rebelde contra 
Deus). 
d. Devemos entender as visões como um todo, e não forçar alegoricamente os por-
menores. Nesse ponto, as visões se assemelham a parábolas. A visão em sua totali-
dade visa dizer algo; os pormenores são (1) para efeito dramático (6.12-14) ou (2) 
para acrescentar ao quadro total, impedindo que os leitores se enganassem quanto 
aos pontos de referência (9.7-11). Nessa última passagem, os gafanhotos com co-
roas de ouro, rostos de homens e cabelos longos ajudam a preencher o quadro de 
tal forma que os leitores originais dificilmente se enganariam quando ao signifi-
cado – as hordas dos bárbaros nas orlas externas do Império Romano. 
4. João espera que seus leitores ouçam ecos do AT como continuação e consumação 
dessa história. Você perceberá isso a cada momento. Por exemplo, a apresentação de 
Cristo começa com uma doxologia dedicada a Ele em 1.5b-6, que transparece o sistema 
sacrificial e o uso da linguagem de Êxodo 19.6 para referir-se à igreja como o novo povo 
de Deus, redimido por Cristo. 
5. Os apocalipses em geral, e o Apocalipse de João em especial, não pretendem ofere-
cer uma narrativa detalhada e cronológica do futuro. A preocupação maior de João é que, 
apesar dos desafios do presente, Deus tem controlado a história e a igreja. Mesmo que a 
igreja experimente sofrimento e morte, será triunfante em Cristo, que julgará Seus inimi-
gos e salvará Seu povo. Todas as visões devem ser vistas tendo essa preocupação em 
mente. 
 
2.3. Contexto histórico 
O ponto de partida da exegese de Apocalipse é reconstruir a situação em que foi 
escrito. Para fazer bem esse trabalho, procure lê-lo até o fim numa só sentada. Leia pro-
curando o quadro geral. Não procure entender tudo. 
Numa segunda leitura, enquanto lê, faça anotações mentais ou por escrito sobre o 
autor e seus leitores. Depois, volte mais uma vez e anote todas as referências que indicam 
que os leitores de João são companheiros na tribulação (1.9). Por exemplo, observe nas 
sete cartas a expressão “ao vencedor”. O quinto selo (6.9-11) revela os mártires cristãos, 
mortos por causa da “palavra” e do “testemunho”. Em 7.14, a grande multidão, que nunca 
mais sofrerá (7.16), “vem da grande tribulação”. 
Esse tema é a chave para compreender o contexto histórico, e explica plenamente 
a ocasião e o propósito do livro. O próprio João estava no exílio por causa da sua fé. Outros 
também estavam passando por sofrimentos pelo testemunho de Jesus. Os temas são cla-
ros: a igreja e o estado têm seguido direções que levarão a uma colisão; e pode até parecer 
que a vitória inicial pertença ao estado. Dessa forma, João adverte que muita coisa ainda 
irá piorar antes que se possa observar uma melhora (6.9-11). Ele está bastante preocu-
pado com o fato de eles não se renderem em tempos de opressão (14.11,12; 21.7,8). Essa 
SEMINÁRIO BÍBLICO BATISTA 
APOSTILA DE HERMENÊUTICA 2 – 1º SEMESTRE DE 2025 
 
Prof. Pr. João Marcus P. Gomes – (31) 97512-9111 | prjoaomarcus@gmail.com 
14 
 
palavra profética, porém, também é de encorajamento; Deus tem controlado todas as coi-
sas. Cristo segura as chaves da história e segura a igreja em Suas mãos (1.17-20). Deus 
finalmente derramará Sua ira sobre os que causaram o sofrimento e a morte, e dará des-
canso eterno para os que permanecem fiéis. Naquele contexto, naturalmente, Roma era a 
inimiga que seria julgada. 
Deve-se observar aqui que uma das chaves para interpretar o Apocalipse é a dis-
tinção que João faz entre dois termos cruciais – “tribulação” e “ira”. A tribulação (o sofri-
mento e a morte) claramente faz parte do que a igreja estava padecendo e ainda padecerá. 
A ira de Deus, por outro lado, é Seu juízo que será derramado sobre aqueles que afligiram 
o povo de Deus. 
Você deve notar também como a abertura dos selos 5 e 6 (6.9-11) levanta as duas 
questões cruciais no livro. No quinto selo, os mártires cristãos exclamam: “Até quando, ó 
Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que ha-
bitam sobre a terra?” A resposta é dupla: (1) devem esperar um pouco mais, porque ha-
verá ainda muitos outros mártires; e (2) o juízo, apesar disso, é absolutamente certo, con-
forme indica o sexto selo. 
No sexto selo, quando chega o juízo divino, os julgados exclamam: “Quem poderá 
subsistir?”. A resposta é dada no capítulo 7: aqueles que foram selados por Deus, que “la-
varam suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro” (7.14). 
 
2.4. Contexto literário 
Para entender qualquer das visões específicas no Apocalipse, é importante enten-
der como essa visão funciona no livro como um todo. Nesse aspecto, o Apocalipse é muito 
mais semelhante às epístolas do que aos profetas. Nas epístolas, como você deve se lem-
brar, devemos “pensar em parágrafos”, porque cada parágrafo é um bloco para edificar o 
argumentointeiro. Assim também acontece no Apocalipse. O livro é um todo, e cada visão 
faz parte da totalidade. 
Procuraremos guiar você pela estrutura total do livro, que é bem clara e não é as-
sunto de debate. As diferenças entre as visões sobre o Apocalipse se encontram no modo 
como as pessoas interpretam a estrutura. 
O livro desdobra-se como um grande drama, em que as primeiras cenas preparam 
o palco e definem o elenco das personagens, e as cenas seguintes pressupõem todas as 
cenas anteriores e devem ser bem entendidas para podermos seguir o enredo. 
Desse modo, os capítulos 1—3 preparam o palco e nos apresentam a maioria das 
“personagens” relevantes. A primeira personagem a aparecer é o próprio João (1.1-11), 
que será o narrador ao longo do livro. 
A segunda é Cristo (1.12-20), a quem João descreve com imagens magníficas, deri-
vadas parcialmente de Daniel 10, como Senhor da história e Senhor da igreja. 
A terceira é a igreja (2.1-3.22). Em cartas para as sete igrejas reais, porém repre-
sentativas, João encoraja e adverte a igreja. A perseguição já está presente; para a igreja 
SEMINÁRIO BÍBLICO BATISTA 
APOSTILA DE HERMENÊUTICA 2 – 1º SEMESTRE DE 2025 
 
Prof. Pr. João Marcus P. Gomes – (31) 97512-9111 | prjoaomarcus@gmail.com 
15 
 
promete-se ainda mais perseguição. Mas também há desordens internas que ameaçam 
seu bem-estar. Para os que são vitoriosos, há as promessas da glória final. 
Os capítulos 4—5 também ajudam a preparar o palco. Com visões empolgantes, 
acompanhadas de adoração e louvor, a igreja é informada de que Deus reina em majestade 
soberana (cap. 4). Aos crentes que duvidam dessa presença de Deus, João relembra que o 
“Leão” é um “Cordeiro”, que Ele mesmo redimiu a humanidade através do sofrimento 
(cap. 5). Assim, todo o céu irrompe em louvor “Àquele que está assentado no trono e ao 
Cordeiro”. 
Os capítulos 6—7 começam com o desenrolar do próprio drama. Três vezes no li-
vro, as visões são apresentadas em conjuntos de sete, cuidadosamente estruturados (caps. 
6—7; 8—11; 15—16). Em cada caso, os quatro primeiros itens estão juntos formando um 
só quadro; em 6—7 e 8—11, os dois itens seguintes também vão juntos para apresentar 
dois lados de outra realidade. Estes passam, então, a ser interrompidos por um interlúdio 
de duas visões, antes de ser revelado o sétimo item. Nos capítulos 15—16, os três finais 
formam um só agrupamento sem o interlúdio, precisamente porque conduzem direta-
mente às visões finais dos capítulos 17—22. 
Os capítulos 8—11 revelam o conteúdo dos juízos temporais de Deus em Roma. As 
quatro primeiras trombetas, que ecoam pragas do Egito (Ex 7—10), indicam que parte 
daquele juízo envolverá grandes desordens na natureza; a quinta e a sexta trombeta indi-
cam que o juízo também virá das hordas bárbaras e de uma grande guerra. Depois do 
interlúdio, que exprime o enaltecimento que Deus faz das suas “testemunhas”, a sétima 
trombeta soa a conclusão: “O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, 
e ele reinará para todo o sempre” (Ap 11.15). 
As visões, no entanto, não se acabaram. Nos capítulos 8-11, recebemos o quadro 
global; os capítulos 12—22 oferecem detalhes daquele juízo e triunfo. 
O capítulo 12 é a chave teológica do livro. Em duas visões, somos informados sobre 
a tentativa de Satanás de destruir a Cristo e sobre sua derrota. Dessa forma, dentro do “já 
e ainda não” do Reino de Deus, Satanás é revelado como um inimigo derrotado (já), cuja 
derrota final ainda não chegou. 
Os capítulos 13—14 passam, então, a mostrar como, para a igreja de João, aquela 
vingança tomou a forma do Império Romano com seus imperadores que exigiam submis-
são religiosa. Mas o império e os imperadores estão condenados (caps. 15—16). O livro 
termina com uma “história de duas cidades” (caps. 17—22). A cidade terrestre (Roma) 
está condenada por sua participação na perseguição do povo de Deus. Essa é seguida pela 
cidade de Deus, onde o povo de Deus habita eternamente. 
Dentro dessa estrutura global, várias das visões apresentam consideráveis dificul-
dades, tanto em relação ao significado de seu conteúdo como em relação à sua função no 
contexto. Para essas questões, você deve consultar os melhores comentários (como Os-
borne ou Mounce). 
 
SEMINÁRIO BÍBLICO BATISTA 
APOSTILA DE HERMENÊUTICA 2 – 1º SEMESTRE DE 2025 
 
Prof. Pr. João Marcus P. Gomes – (31) 97512-9111 | prjoaomarcus@gmail.com 
16 
 
2.5. Questões hermenêuticas 
As dificuldades hermenêuticas do Apocalipse são bem semelhantes às dos livros 
proféticos. Em contraste com outros gêneros, os profetas e o Apocalipse frequentemente 
falam sobre coisas que, para eles, ainda deviam acontecer. 
Com frequência, o que estava para acontecer tinha um caráter temporal imediato 
que, na história, já aconteceu. O Império Romano realmente sofreu o juízo temporal, par-
cialmente através das hordas bárbaras, exatamente como João previu. 
Para tais questões, os problemas hermenêuticos não são muito grandes. Podemos 
corretamente supor que o juízo divino será derramado sobre as nações que assassinaram 
cristãos, assim como Roma. 
Além disso, podemos ainda ouvir como Palavra de Deus que o discipulado segue o 
caminho da cruz, que Deus não nos prometeu o livramento do sofrimento e da morte, mas 
sim através deles. Assim, o Apocalipse é a Palavra de Deus de consolo e encorajamento 
aos cristãos que sofrem, especialmente cristãos que sofrem na mãos do estado por crerem 
em Jesus. Deixar de perceber essa Palavra é perder o sentido de todo o livro! 
No entanto, nossas dificuldades hermenêuticas estão em outro aspecto da profecia, 
a saber, que o fato de que a palavra “temporal” muitas vezes estão estreitamente ligada às 
realidades escatológicas finais. A queda de Roma no capítulo 18 parece constar como o 
primeiro episódio do desfecho final, e muitos dos quadros do juízo “temporal” são entre-
laçados com palavras ou ideias que também subentendem o término definitivo como 
parte do quadro. A pergunta é: o que fazemos com essa profecia? Oferecemos algumas 
sugestões. 
1. Precisamos aprender que os quadros futuros são apenas quadros. Os quadros ex-
pressam a realidade, mas não devem ser confundidos com ela, nem é necessário 
que cada detalhe do quadro seja cumprido de alguma forma. Assim, quando as qua-
tro primeira trombetas proclamam as calamidades na natureza como parte do ju-
ízo de Deus, não devemos esperar um cumprimento literal de todos os detalhes. 
Sua lição, com base no eco das pragas do Egito, é encorajar os cristãos diante da 
opressão de Roma, mostrando-lhes que Deus enviará as pragas sobre Roma do 
mesmo modo como aconteceu no Egito. 
2. Alguns quadros que expressam a certeza do juízo de Deus não necessariamente 
indicam a iminência desse juízo. Quando Satanás é derrotado e lançado na terra, 
sabe que “pouco tempo lhe resta” (Ap 12.9.12). Mas esse “pouco tempo” não signi-
fica necessariamente “muito em breve”, mas sim que seu tempo é limitado. Haverá 
um tempo em que ele será preso, mas o dia e a hora que isso ocorrerá ninguém 
sabe. 
3. A dimensão escatológica dos juízos e da salvação deve alertar-nos à possibilidade 
de uma dimensão “ainda não” de muitos dos quadros. Por outro lado, não há regras 
fixas de como devamos extrair o elemento ainda futuro. Devemos tomar cuidado 
SEMINÁRIO BÍBLICO BATISTA 
APOSTILA DE HERMENÊUTICA 2 – 1º SEMESTRE DE 2025 
 
Prof. Pr. João Marcus P. Gomes – (31) 97512-9111 | prjoaomarcus@gmail.com 
17 
 
para não gastar tempo demais especulando sobre como os eventos contemporâ-
neos devem ser encaixados no Apocalipse. 
4. Embora há quadros com uma dimensão ainda a ser cumprida, não recebemos cha-
ves que nos ensinem a defini-las. A figura do anticristo, por exemplo, é especial-
mente difícil. Nos escritos de Paulo (2Ts 2.3,4) é uma figura específica; em Apoca-
lipse 13—14, ele vem em forma de imperador romano. Em 1João, no entanto, o 
anticristo é apresentadode modo generalizado, como referência aos falsos profe-
tas que tinham invadido a igreja. Como, então, devemos entender a figura quanto 
ao nosso futuro? 
Historicamente, a igreja tem visto uma variedade de governantes mundiais como 
expressão do anticristo. Nesse sentido, muitos anticristos continuam a vir (1Jo 
2.18). Mas e quanto à figura de alcance mundial que acompanhará o fim? Apoca-
lipse 13—14 não nos diz que isso acontecerá? Nossa resposta é: não necessaria-
mente; estamos, por outro lado, abertos à possibilidade. É preciso ter cautela, pois 
a Bíblia não nos oferece certeza dogmática quanto a esse ponto. 
5. Os quadros que objetivavam ser totalmente futuros ainda devem ser entendidos 
assim. Por exemplo, os quadros de 11.15-19 e 19.1-22.1 são inteiramente escato-
lógicos. Devemos entendê-los como Palavra de Deus ainda a ser cumprida. 
 
Uma palavra final. Se há ambiguidades para nós sobre como questões secundárias 
acontecerão, temos a certeza de que Deus vai realizar todas essas coisas reveladas no Apo-
calipse – no tempo e do modo Dele. Tal certeza deve servir para nós como advertência e 
encorajamento, assim como serviu aos destinatários originais. 
 
SEMINÁRIO BÍBLICO BATISTA 
APOSTILA DE HERMENÊUTICA 2 – 1º SEMESTRE DE 2025 
 
Prof. Pr. João Marcus P. Gomes – (31) 97512-9111 | prjoaomarcus@gmail.com 
18 
 
3. HISTÓRIA DA INTERPRETAÇÃO BÍBLICA: 
DO ANTIGO TESTAMENTO À ERA MODERNA1 
 
 
O estudo da história da interpretação bíblica é proveitoso por dois motivos: 1) 
ajuda-nos a enxergar os erros do passado para evitar que se repitam; e 2) ajuda-nos a 
entender como algumas questões de interpretação surgiram e foram tratadas, infor-
mando-nos como chegamos ao nível atual de compreensão bíblica. 
Grosso modo, os estudiosos das Escrituras adotaram as principais perspectivas no 
decorrer da história: literal, alegórica, tradicional, racionalista e subjetiva. 
 
3.1. A interpretação judaica 
3.1.1. Esdras e o escribas (Ne 8.1-12) 
Ao retornarem do exílio babilônico, muito provavelmente os judeus falavam ara-
maico, e não hebraico. Por isso, quando Esdras, o escriba, leu a lei (Ne 8.3), os levitas tive-
ram de traduzi-la do hebraico para o aramaico. Além disso, eles explicaram o texto para 
que o povo “entendesse o que se lia” (v. 8). 
Desde Esdras até Cristo, os escribas não só ensinavam as Escrituras, como também 
as copiavam. Eles tinham grande respeito pelo AT, mas alguns caíam no exagero. O rabino 
Akiba (c. 50-132 d.C.), por exemplo, líder de uma escola de rabinos na Palestina, acredi-
tava em um significado oculto em cada minúcia do AT. Além disso, afirmava que cada ver-
sículo das Escrituras possui muitas explicações. 
 
3.1.2. Hillel e Shammai 
O rabino Hillel (c. 70 a.C-10 d.C.) fundou uma escola em Jerusalém. Era conhecido 
por sua humildade e seu amor. Ele dividiu em seis tópicos as diversas regras que se de-
senvolveram entre os judeus sobre os 613 mandamentos da lei mosaica. Além disso, es-
tabeleceu sete regras para a interpretação do AT. 
Shammai, contemporâneo de Hillel, diferia dele tanto na personalidade quanto na 
hermenêutica. Interpretava a lei com rigor. Os ensinamentos de ambos sempre se contra-
punham. Após a queda de Jerusalém, em 70 d.C., a escola de Hillel ganhou fama, enquanto 
a de Shammai perdeu influência. 
 
3.1.3. A alegorização judaica 
Alegorizar é procurar um sentido oculto por trás do sentido literal do texto. A alego-
ria geralmente está dissociada do sentido literal. Segundo esse método, o sentido literal é 
superficial, e o alegórico é o que apresenta o verdadeiro significado. 
 
1 ZUCK, Roy B. A Interpretação Bíblica – ontem e hoje. In: A Interpretação Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 1994. 
SEMINÁRIO BÍBLICO BATISTA 
APOSTILA DE HERMENÊUTICA 2 – 1º SEMESTRE DE 2025 
 
Prof. Pr. João Marcus P. Gomes – (31) 97512-9111 | prjoaomarcus@gmail.com 
19 
 
A alegorização judaica sofreu influências da alegorização grega. Alguns filósofos 
gregos se constrangiam com o comportamento imoral dos deuses mitológicos. Como, en-
tão, os gregos poderiam aceitar essa literatura mitológica? A solução adotada por eles foi 
alegorizar as históricas, procurando sentidos ocultos sob o texto literal. 
Os judeus de Alexandria, no Egito, foram influenciados pela literatura grega. Mas 
eles também tinham dois problemas: como aceitar o AT e também a filosofia grega, espe-
cialmente a de Platão? E como tornar o AT aceitável aos gregos? A solução foi a mesma 
encontrada pelos filósofos gregos: alegorizar o AT. 
A Septuaginta – tradução grega do AT feita em Alexandria cerca de 200 anos a.C. – 
procurou remover os antropomorfismos de Deus. Por exemplo, traduz “O Senhor é ho-
mem de guerra”, de Êxodo 15.3 em hebraico, por “o Senhor esmaga as guerras”. 
Dois nomes tiveram grande reconhecimento nesse período da alegorização judaica 
de Alexandria: Aristóbulo (c. 160 a.C.) e Filo (c. 20 a.C. – 50 d.C.). Aristóbulo acreditava 
que os ensinos do AT só poderiam ser desvendados através da alegorização. 
Filo acreditava que a alegorização era necessária para evitar declarações inade-
quadas sobre Deus ou afirmações aparentemente contraditórias do AT. Afirmava, ainda, 
que o sentido literal correspondia ao nível mais imaturo de entendimento. 
Alguns judeus tornaram-se ascéticos e formaram comunidades judaicas fechadas, 
como os essênios de Qumran. Eles copiavam as Escrituras e escreviam comentários sobre 
alguns livros do AT. Eles também foram influenciados pela alegorização. 
 
3.2. Os pais da igreja primitiva 
Pouco se sabe sobre a hermenêutica do primeiro século. Mas sabe-se que, nos es-
critos dos pais da igreja, havia muitas citações do AT que mostravam um tipo de Cristo. 
Clemente de Roma (30-95 d.C.), Inácio de Antioquia da Síria (c. 35-107), Policarpo 
de Esmirna (70-155) foram alguns dos nomes do período. Apesar de terem se baseado 
fortemente no AT, acabaram sendo influenciados pela alegorização. 
Justino Mártir (c. 100-164) mostrava através de inúmeras citações que o AT pre-
nunciava Cristo. Justino afirmava, entretanto, que o valor do AT para os cristãos era per-
cebido apenas por meio da alegorização. Combateu Marcião, um herege da época, que não 
aceitava a aplicabilidade do AT para os cristãos. 
Ireneu de Esmirna (c. 130-202) defendia que a Bíblia deve ser entendida em seu 
sentido literal. Defendia o uso dos tipos para enxergar Cristo no AT, porém, em alguns 
momentos, beirava a alegoria em seu entendimento do AT. Por exemplo, acreditava que 
os três espias (e não dois!) na história de Raabe representavam Deus Pai, Filho e Espírito 
Santo. E 
Em seu entender, o único método correto de interpretação bíblica era o da fé, pre-
servada nas igrejas através da sucessão apostólica. Assim, enfatizava a importância da 
tradição na compreensão das Escrituras. 
SEMINÁRIO BÍBLICO BATISTA 
APOSTILA DE HERMENÊUTICA 2 – 1º SEMESTRE DE 2025 
 
Prof. Pr. João Marcus P. Gomes – (31) 97512-9111 | prjoaomarcus@gmail.com 
20 
 
Tertuliano de Cartago (c. 160-220) alegava que as Escrituras eram propriedade da 
igreja. Tal entendimento pretendia centralizar a interpretação bíblica com o objetivo de 
combater as heresias que surgiam na época. Apesar de combater os gnósticos por sua ale-
gorização, recorria a esse estilo sempre que lhe convinha. 
Podemos fazer três observações sobre os apologistas Justino, Ireneu e Tertuliano: 
1) o estilo alegórico assumiu um caráter alegórico; 2) a tipologia tendia a se transformar 
em alegoria; 3) a autoridade da igreja foi usada para combater as heresias. Sem saber, 
esses apologistas abriram caminho para que a tradição da igreja ganhasse grande autori-
dade, perspectiva que predominou durante toda a Idade Média. 
 
3.2.1. Os pais alexandrinos e antioquinos 
Os pais alexandrinos 
Clemente de Alexandria (155-216) fora influenciado pelo alegorista judeu Filo. Ele 
ensinava que toda a Escritura utilizava uma linguagem simbólica e misteriosa.Clemente 
afirmava que qualquer passagem bíblica pode ter até cinco sentidos: a) histórico; b) dou-
trinário (ensinos morais e teológicos); c) profético, que inclui tipos e profecias; d) filosó-
fico (alegorias); e ainda e) místico (verdades morais e espirituais). 
Orígenes (c. 185-254), um homem extremamente culto, defendia que a Bíblia, por 
estar repleta de enigmas, parábolas, afirmações obscuras e problemas morais, o sentido 
só pode ser encontrado num nível mais profundo. Ele via um sentido triplo nos textos 
bíblicos: literal, moral e alegórico. 
Orígenes desconsiderou a tal ponto o sentido literal e normal das Escrituras que 
seu estilo alegórico foi caracterizado por um exagero incomum. 
Os pais antioquinos 
Percebendo o crescente abandono do sentido literal das Escrituras por parte dos 
pais alexandrinos, vários líderes da igreja em Antioquia da Síria enfatizaram a interpreta-
ção literal. Eles incentivaram o estudo das línguas bíblicas originais (hebraico e grego) e 
escreveram comentários bíblicos. Para eles, o elo entre o AT e o NT era a tipologia e as 
profecias em vez da alegorização. Além disso, a interpretação literal incluía a linguagem 
figurada. 
Luciano (c. 240-312), Diodoro (m. 393), Teodoro da Mopsuéstia, João Crisóstomo 
(c. 354-407) e Teodoreto (386-458) foram teólogos importantes dessa escola. 
 
3.2.2. Os pais da igreja nos séculos V e VI 
Sete nomes destacam-se nesse período, embora Jerônimo e Agostinho sejam os 
mais conhecidos. 
Jerônimo (c. 347-419) começou adotando a alegorização de Orígenes. Posterior-
mente assumiu uma postura mais literal. Contudo, ele acreditava que um sentido mais 
profundo das Escrituras poderia ser desvendado a partir do sentido literal. Ele produziu 
a Vulgata - uma tradução da Bíblia para o latim. Essa foi sua maior obra. 
SEMINÁRIO BÍBLICO BATISTA 
APOSTILA DE HERMENÊUTICA 2 – 1º SEMESTRE DE 2025 
 
Prof. Pr. João Marcus P. Gomes – (31) 97512-9111 | prjoaomarcus@gmail.com 
21 
 
Vimos que Tertuliano abriu caminho para a autoridade da tradição da igreja. Vi-
cente, que faleceu antes de 450, adotou esse destaque e lhe deu ênfase ainda maior. 
Agostinho (354-430) exerceu grande influência na igreja por séculos. Inicialmente 
foi maniqueísta. Esse movimento considerava absurdos os antropomorfismos do AT. Para 
resolver essa questão, Agostinho adotou o estilo alegórico. 
Agostinho desenvolveu o princípio da “analogia da fé”: nenhuma interpretação é 
aceitável se for contrária ao sentido geral do restante das Escrituras. Contudo, sua herme-
nêutica era marcadamente alegórica. Para ele, na Queda, as folhas de figueira representa-
vam a hipocrisia e o cobrir a carne, a mortalidade (3.7,21). A embriaguez de Noé simboli-
zava o sofrimento e a morte de Cristo. 
João Cassiano (c. 360-435) pregava que a Bíblia tinha um sentido quádruplo: his-
tórico, alegórico, tropológico (moral) e anagógico (oculto, celestial). Segundo esse mé-
todo, Jerusalém pode ter quatro significados: historicamente, a cidade dos judeus; alego-
ricamente, a igreja de Cristo; tropologicamente, a alma humana, e anagogicamente, a ci-
dade celestial. 
Eusébio de Lião, Adriano de Antioquia, Junílio foram outras referências desse pe-
ríodo. 
Percebe-se, então, que Jerônimo, Vicente e Agostinho abriram caminho para duas 
tendências que durariam mais de mil anos: a alegorização e a autoridade da igreja. Ao 
mesmo tempo, Cassiano, Euquério, Adriano e Junílio apoiaram-se no método alegórico de 
Agostinho, consolidando tal método de interpretação que perdurou pela Idade Média. 
 
3.3. A Idade Média 
Nesse período, a tradição da igreja ocupava lugar de destaque, juntamente com a 
alegorização das Escrituras. 
Normalmente, o início da Idade Média é associado a Gregório, o Grande (540-604), 
considerado o primeiro papa da Igreja Católica Romana. Ele fundamentava suas interpre-
tações da Bíblia nos pais da igreja. 
Entre os intérpretes bíblicos de destaque, estão Beda, o Venerável (673-734); Al-
cuíno (735-804); Rabano Mauro; Bernardo de Claraval (1090-1153); Joaquim de Flora 
(1132-1202); Stephen Langton (c. 1155-1228), todos defensores da alegorização; Rashi 
(1040-1105), seguido por Hugo (1097-1141), Ricardo (m. 1173) e André (m. 1175) pre-
feriram uma interpretação mais literal e histórica. 
Tomás de Aquino (1225-11274) foi o teólogo mais famoso da Idade Média. Ele 
acreditava que o sentido literal das Escrituras era fundamental, mas que outros sentidos 
se apoiavam sobre este. 
João Wycliffe (c. 1330-1384) foi um extraordinário reformador e teólogo, que 
acentuava fortemente a legitimidade das Escrituras como fonte de doutrinas e de vida 
cristã. Defendia fortemente a interpretação histórico-gramatical das Escrituras. 
 
SEMINÁRIO BÍBLICO BATISTA 
APOSTILA DE HERMENÊUTICA 2 – 1º SEMESTRE DE 2025 
 
Prof. Pr. João Marcus P. Gomes – (31) 97512-9111 | prjoaomarcus@gmail.com 
22 
 
3.4. A Reforma Protestante 
Os reformadores pregavam que a Bíblia era a única fonte legítima a nortear a fé e 
a prática. A Reforma foi marcada por distúrbios sociais e eclesiásticos. Em poucas pala-
vras, a Reforma Protestante foi uma reforma hermenêutica. 
A Renascença, iniciada no século XIV na Itália, invadiu o século XVII. Ela reavivou 
o interesse pela literatura clássica, até mesmo pelo hebraico e pelo grego. Houve, assim, 
um aprendizado bíblico que contribuiu para suplantar a teologia medieval. 
Martinho Lutero (1483-1546) escreveu o seguinte: “depois de fazer preleções so-
bre a epístola aos Romanos, passei a conhecer a Cristo. Foi assim que percebi que ele não 
é nenhuma alegoria e aprendi a saber o que Cristo realmente é”. 
Lutero denunciou energicamente o método alegórico de interpretação. “Alegorias 
são especulações vãs, são como a escória das Escrituras”. “Alegorizar é manipular o texto 
bíblico”. Ele também rejeitou o sentido quádruplo das Escrituras, que predominou na 
Idade Média, e enfatizou o sentido literal da Bíblia. 
Para ele, a interpretação deve estar centrada em Cristo. Em vez de alegorizar o AT, 
com frequência Lutero via nele a figura de Cristo, muitas vezes além do que legitimamente 
permite uma interpretação correta. 
O fato de Lutero ter rejeitado a alegorização das Escrituras causou uma revolução. 
A alegorização passa a ser arbitrária. Ela encobre o significado verdadeiro dos textos bí-
blicos. 
Mas Paulo não fez uso da alegorização? Leia Gálatas 4.24-26. Existe uma diferença 
entre a interpretação de alegorias assim chamadas na Bíblia e a alegorização das Escritu-
ras. Quando Paulo utiliza alegorias, ele deixa claro o que está fazendo, assim como acon-
tece com outros escritores bíblicos. “Estas coisas são alegóricas” (v. 24). Em outras pala-
vras, Paulo afirmou que o sentido alegórico é complementar, e não substitui o sentido 
claro do texto. A tabela abaixo mostra algumas diferenças entre o método de Paulo e a 
alegorização das Escrituras: 
 
A alegorização de Paulo O método alegórico 
O sentido histórico é verdadeiro. O sentido histórico é irrelevante. 
Paralelos são feitos para chegar a uma 
conclusão. 
O significado mais “profundo” é mais ver-
dadeiro. 
Paulo não disse que a alegoria era a expo-
sição de Gênesis 16. 
O significado mais “profundo” é a “exposi-
ção” do texto. 
Quando Paulo utilizou o estilo alegórico, 
ele informou que estava alegorizando. 
Tudo no AT pode ser alegorizado. 
 
O apóstolo Paulo utilizou a alegoria como uma forma de ilustração ou analogia, 
para destacar que certos fatos relativos a Hagar estão associados aos não-cristãos e que 
certos fatos relativos a Sara estão associados aos cristãos. 
SEMINÁRIO BÍBLICO BATISTA 
APOSTILA DE HERMENÊUTICA 2 – 1º SEMESTRE DE 2025 
 
Prof. Pr. João Marcus P. Gomes – (31) 97512-9111 | prjoaomarcus@gmail.com 
23 
 
Philip Melanchthon (1497-1560), companheiro de Lutero, era profundo conhece-
dor do hebraico e do grego. Tornou-se referência na exegese bíblica. Apesar de às vezes 
cair naalegorização, no geral seguia o método gramatical e histórico. 
João Calvino (1509-1564), um dos maiores intérpretes da Bíblia, rejeitava as inter-
pretações alegóricas. Calvino ressaltava a natureza cristológica dos textos bíblicos, o mé-
todo histórico-gramatical, a exegese em vez da eisegese (deixar o texto falar por si mesmo, 
e não ler o que ele não diz), o ministério esclarecedor do Espírito Santo e um tratamento 
equilibrado da tipologia. Embora seja mais famoso por sua obra prima, A Instituição da 
Religião Cristã, escreveu comentários sobre quase todos os livros da Bíblia. 
Ulrich Zuínglio (1484-1531) foi o cabeça da Reforma em Zurique, enquanto Cal-
vino o foi em Genebra. Rompeu laços com a Igreja Católica e pregava sermões expositivos. 
Ele repudiava a autoridade da igreja. Zuínglio destacava a importância de se interpretar 
passagens bíblicas levando em consideração seu contexto. 
William Tyndale (c. 1494-1536) é famoso por sua tradução do NT para o inglês. 
Defendia o sentido literal da Bíblia. 
O movimento anabatista começou em 1525 em Zurique, na Suíça, com os seguido-
res de Zuínglio. Estes queriam um rompimento mais radical com a Igreja Católica, rejei-
tando totalmente o controle da igreja por parte do Estado e o batismo infantil. 
Em resposta à Reforma Protestante, a Igreja Católica convocou o Concílio de 
Trento, que aconteceu entre 1545 e 1563. As reformas propostas ali ficaram conhecidas 
como Contrarreforma. Esse Concílio declarou que a Bíblia não é a autoridade suprema, 
mas que a verdade se encontra em livros escritos e em tradições não-escritas”. O Concílio 
afirmou ainda que uma interpretação precisa só é possível a través da Igreja Católica, e 
não através de indivíduos. 
 
3.5. O pós-Reforma 
Os duzentos anos dos séculos XVII e XVIII caracterizaram-se pela consolidação e 
difusão do calvinismo, as reações ao calvinismo, os estudos textuais e linguísticos e o ra-
cionalismo. 
A consolidação e a difusão do calvinismo 
A Confissão de Fé de Westminster, aprovada pelo parlamento inglês em 1647 e 
pelo parlamento escocês em 1649, apresentou as doutrinas que norteariam o calvinismo 
na Inglaterra. Quando à interpretação da Bíblia, a Confissão diz: “a regra infalível de inter-
pretação bíblica está nas próprias Escrituras; portanto, quando houver dúvida sobre o 
significado verdadeiro e completo de qualquer passagem (que é apenas um, e não muitos), 
deve ser pesquisado e conhecido em outros trechos que sejam mais claros”. 
Francisco Turretin (1623-1687), Jean-Alphonse Turretin (1648-1737) e Johann 
Ernesti (1707-1781) foram outras pessoas de destaque desse momento histórico. 
As reações ao calvinismo 
SEMINÁRIO BÍBLICO BATISTA 
APOSTILA DE HERMENÊUTICA 2 – 1º SEMESTRE DE 2025 
 
Prof. Pr. João Marcus P. Gomes – (31) 97512-9111 | prjoaomarcus@gmail.com 
24 
 
O teólogo holandês Jacobus Arminius (1560-1609) rejeitou uma série de ensina-
mentos de Calvino e pregava que o homem possui livre-arbítrio. 
O misticismo – concepção de que o homem pode conhecer a Deus e se relacionar 
com Ele através de experiências subjetivas, à parte das Escrituras – desenvolveu-se no 
pós-Reforma, sob influência de Jacob Boehme (1635-1705), que acabou preparando o ca-
minho para o pietismo e sua ênfase na espiritualidade interior. 
Após o Concílio de Trento, os protestantes desenvolveram suas próprias doutrinas 
e dogmatismos religiosos. 
O pietismo surgiu como reação ao dogmatismo. Philipp Jakob Spener (1635-1705) 
é considerado o fundador do pietismo pós-Reforma. Ele rejeitava o formalismo morto e a 
teologia de meras palavras e credos. Destacava a importância de uma vida santa, do sa-
cerdócio de cada cristão e de uma vida de estudo bíblico e oração. 
August Francke (1663-1727) também foi outro pietista de influência. Tanto Spener 
quanto Francke rejeitavam o tratamento literal das Escrituras, que, segundo eles, só tra-
tava da “camada exterior”. 
O pietismo influenciou os morávios, que por sua vez influenciaram John Wesley 
(1703-1791). Reagindo ao racionalismo, desacreditava do raciocínio humano. 
O racionalismo 
Esse movimento sustentava que a razão é capaz de discernir o que é verdadeiro e 
o que é falso. Portanto, a Bíblia está certa se está de acordo com a razão humana, e o que 
vai além disso pode ser rejeitado. 
Ícones do racionalismo foram o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679), o fi-
lósofo holandês Baruch Spinoza (1632-1677). Alguns racionalistas foram ao extremo de 
entender a Bíblia apenas como um livro histórico, desprezando os milagres registrados 
nas Escrituras. 
 
3.6. A Era Moderna 
O século XIX 
Três elementos desse período podem ser destacados: o subjetivismo, a crítica his-
tórica e os trabalhos exegéticos. 
O subjetivismo é a ideia de que o conhecimento de Deus é fruto da experiência in-
dividual e subjetiva. Dois nomes se destacam: Friedrich Schleiermacher (1768-1834) e 
Søren Kierkegaard (1813-1855). 
Schleiermacher rejeitava a autoridade da Bíblia e enfatizava o papel do sentimento 
na religião. Foi uma reação ao racionalismo. Kierkegaard rejeitava o cristianismo com seu 
racionalismo formal e dogmatismo frio e pregava que a fé é uma experiência subjetiva. 
A crítica histórica da Bíblia era racionalista, e destacava a autoria humana da Bíblia 
e o contexto histórico dos textos bíblicos. Como racionalistas, os estudiosos contestavam 
a sua natureza sobrenatural e sua inspiração. 
SEMINÁRIO BÍBLICO BATISTA 
APOSTILA DE HERMENÊUTICA 2 – 1º SEMESTRE DE 2025 
 
Prof. Pr. João Marcus P. Gomes – (31) 97512-9111 | prjoaomarcus@gmail.com 
25 
 
Entre os nomes importantes desse movimento estão Benjamin Jowett (1817-
1893), Ferdinand Baur (1792-1860), David Strauss (1808-1874), Julius Wellhausen 
(1844-1918) e Adolf von Harnack (1851-1930). 
Em oposição à crítica histórica racionalista, muitos eruditos conservadores escre-
veram comentários exegéticos sobre a Bíblia. Entre eles figuram J. B. Lighfoot, B. F. Wes-
cott, Charles Hodge, John Albert Broadus, entre outros. 
O século XX 
O século XX abriga muitas correntes hermenêuticas. Dentre elas estão o libera-
lismo, a ortodoxia, a neo-ortodoxia e o bultmannismo. 
O liberalismo deu continuidade a uma abordagem mais racionalista e crítica do sé-
culo XIX. Os liberais pregam que a Bíblia é um livro humano, e que seus elementos sobre-
naturais devem ser explicados racionalmente. As doutrinas do pecado e do inferno são 
diminuídas ou rejeitadas por eles. Jesus é considerado apenas um mestre moral e ético 
em vez do Salvador. Dentre seus líderes encontram-se Nels Feré, Harry Fosdick, W. H. 
Horton, L. Harold DeWolf e outros. 
Muitos fundamentalistas reagiram fortemente ao liberalismo e incentivaram uma 
abordagem literal da Bíblia como um livro sobrenatural. A ortodoxia adotou uma concep-
ção tanto literal quanto devocional da Bíblia, enfatizando a interpretação histórico-gra-
matical defendida na era Moderna pelos reformadores. 
A neo-ortodoxia nega a inerrância e a infalibilidade da Bíblia. A Bíblia em si mesma 
não é a revelação; ela se transforma na Palavra de Deus quando Deus fala ao homem atra-
vés dela. Além disso, histórias bíblicas como a origem do homem são interpretadas em 
termos mitológicos, e não de forma literal. A Queda é um mito mostrando que o homem 
corrompe sua natureza moral. A encarnação e a cruz ensinam-nos que o problema da 
culpa do homem só pode vir de Deus. Karl Barth (1886-1968), Emil Brunner (1889-1966) 
e Reinhold Niebuhr (1892-1971) são exemplos de teólogos neo-ortodoxos. 
Rudolf Bultmann (1884-1976) ensinava que o NT devia ser compreendido através 
da “demitização”, ou seja, pela desconstrução dos elementos mitológicos – tais como os 
milagres, entre os quais a ressurreição de Cristo – que, em seu entender, são atualmente 
inaceitáveis. Os mitos são recursos pré-científicos que expressam verdades espirituais 
transcendentes. Jesus, por exemplo, não ressuscitou literalmente dos mortos.Sua ressur-
reição na verdade simboliza a nova liberdade que os discípulos experimentaram. 
O bultmannismo, influenciado pelo filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), 
adota uma perspectiva existencialista da Bíblia. Assim, a preocupação de seus líderes é 
alcançar a essência da experiência religiosa das Escrituras. Chamado de “Nova Hermenêu-
tica”, o movimento tem por defensores Ernest Fuchs, Gerhard Ebeling e Hans-Georg Ga-
damer. Na Nova Hermenêutica, o texto bíblico pode ter o sentido que o leitor desejar. Por-
tanto, a verdade existe no campo existencial, e não nas ideias escritas. Fuchs, por exemplo, 
SEMINÁRIO BÍBLICO BATISTA 
APOSTILA DE HERMENÊUTICA 2 – 1º SEMESTRE DE 2025 
 
Prof. Pr. João Marcus P. Gomes – (31) 97512-9111 | prjoaomarcus@gmail.com 
26 
 
ensina que não devemos tentar descobrir o sentido dos textos bíblicos, mas devemos ape-
nas deixá-los falar conosco de forma a modificar o entendimento que temos de nós mes-
mos. 
Os mitos bíblicos, apesar de não serem cientificamente aceitos pelo homem mo-
derno, têm algo a dizer. Por isso, os estudantes do NT devem descobrir o que tais mitos 
significam. Ao criticar o bultmannismo e a Nova Hermenêutica, Pinnock afirma: “a inten-
ção do texto fica em segundo plano diante das necessidades do intérprete. A Bíblia não 
nos dirige mais; nós é que a dirigimos!” 
 
Conclusão 
Além do método literal de interpretação das Escrituras, quatro outros métodos 
predominaram na história da igreja: o alegórico – que praticamente deixa de lado o sen-
tido literal; o tradicional – que em grande parte abandona o individual; o racionalista – 
que descarta o sobrenatural; e o subjetivo – que desconsidera o objetivo. 
Infelizmente, ainda hoje há muitos intérpretes que alegorizam o texto bíblico sem 
qualquer fundamento. A Igreja Católica continua exaltando a autoridade da tradição sobre 
as Escrituras. Nos púlpitos liberais, o racionalismo e o subjetivismo continuam sendo a 
norma. A neo-ortodoxia não é tão comum hoje, pois tem sido parcialmente substituída 
pela Nova Hermenêutica. 
Figuram ainda outros métodos hermenêuticos surgidos nos últimos anos: o estru-
turalismo – que despreza o passado histórico dos textos bíblicos e entende que a Bíblia 
possui os mesmos elementos estruturais que a literatura de todas as culturas e épocas; a 
teologia da libertação – que interpreta a Bíblia pela ótica dos oprimidos econômica e po-
liticamente; a teologia feminista – que analisa a Bíblia do prisma das vítimas de discrimi-
nação sexual; e a hermenêutica étnica – que visa promover a libertação temporal de povos 
oprimidos. 
Essa breve retrospectiva da história da hermenêutica mostra a importância de os 
evangélicos continuarem a enfatizar a interpretação histórico-gramatical e literal da Bí-
blia. Somente esta capacita os cristãos a entenderem corretamente a Palavra de Deus. 
 
 
 
	PALAVRA DO PROFESSOR
	1. SABEDORIA: ONTEM E HOJE
	2. APOCALIPSE: IMAGENS DO JUÍZO E DA ESPERANÇA
	3. HISTÓRIA DA INTERPRETAÇÃO BÍBLICA: DO ANTIGO TESTAMENTO À ERA MODERNA

Mais conteúdos dessa disciplina