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HISTÓRIA DA MATEMÁTICA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Descrever o prelúdio à matemática moderna. > Explicar a matemática desenvolvida no início da Idade Moderna. > Demonstrar técnicas da matemática dos séculos XV e XVI na sala de aula de matemática. Introdução A história da matemática possui algumas subdivisões que retratam todo seu desenvolvimento ao longo da história. É notório que, ao longo dos tempos, as teorias e os conceitos fundamentais vêm sendo aprimorados, e muito do que se conhece hoje já foi vastamente estudado, tendo a contribuição de muitos pensadores e matemáticos de renome. A Idade Moderna constitui uma fase rica na evolução de conceitos, teorias e teoremas da matemática, tendo sido representada por grandes gênios da história da matemática. Neste capítulo, você verá quais foram os matemáticos que contribuíram para o avanço da matemática, muitas vezes resgatando conceitos e teorias da antiguidade e promovendo, a partir destes, novas formas de pensamento e novas soluções para problemas enfrentados nesta época. Matemática nos séculos XV e XVI Maria Elenice dos Santos Prelúdio à matemática moderna Anterior à Idade Moderna descreve-se o prelúdio à matemática moderna, uma época marcada por transições entre o Renascimento e a Idade Moderna, no seu auge. Neste intervalo e considerando-se os fatos ocorridos na história da matemática, muitos dos documentos e obras matemáticas da antiguidade haviam sido resgatados, permitindo, assim, uma continuidade no fluxo de produções e avanços neste campo (BOYER; MERRZBACH, 1996). Além das contribuições antigas, essa época pode contar com uma rica produção de muitos matemáticos renomados que se destacaram na fase transicional da época da renascença para a era moderna (STEWART, 2014). No desenvolvimento da matemática pós-renascimento, podem-se citar nomes de personalidades como Galileu Galilei, Bonaventura Cavalieri, Henry Briggs, Thomas Harriot, Willian Oughtred, Simon Stevin, John Napier, Johann Kepler, François Viète e outros (BOYER; MERRZBACH, 1996; MEDINA, 2013). Uma forma de disseminação de conceitos e teorias matemáticas se deu a partir de centros de estudos e universidades. Foi uma prática advinda desde a época dos gregos, mas que permitiu, nessa transição, um aumento na divul- gação de conteúdos científicos e teóricos (EVES, 2004; STEWART, 2014). Muitos matemáticos e estudiosos da época promoveram estudos significativos sobre conceitos matemáticos. Após adentrar a fase moderna, grandes nomes foram destaque, sendo os séculos XV e XVI os mais ricos na produção de conceitos da matemática (ARAGÃO, 2009; BOYER; MERRZBACH, 1996). François Viète e Thomas Harriot no desenvolvimento da matemática O matemático François Viète é citado como uma figura lendária na história da matemática, e sua contribuição no desenvolvimento de conceitos e teo- rias é notável nas áreas de aritmética, álgebra, trigonometria, geometria e outras igualmente relevantes (MEDINA, 2013). Sua contribuição está contida em obras como Canon-mathematicas (EVES, 2004). O desenvolvimento das ideias de Viète, sobretudo na álgebra, permitiu a esse grande matemático uma aproximação com o que se chamaram ideias modernas, e ele foi o pioneiro na classificação de incógnitas e parâmetros conhecidos na álgebra (ARAGÃO, 2009; BOYER; MERRZBACH, 1996). Uma das falhas cometidas por Viète foi a de utilizar-se de algumas no- menclaturas de épocas mais antigas para apresentar algumas de suas ideias. Dessa forma, alguns desenvolvimentos ficaram limitados, podendo avançar Matemática nos séculos XV e XVI2 apenas a partir do estudo de outros matemáticos, que se mostraram mais visionários e mais alinhados com os termos da era moderna (STEWART, 2014). Viète também se fez presente no desenvolvimento de raciocínios sobre reso- lução de cúbicas e quadráticas, descobrindo soluções e formas de encontrar as raízes desconhecidas dessas funções a partir de relações entre raízes e coeficientes (EVES, 2004). Já Thomas Harriot fez progressos sobre os mesmos temas estudados por Viète em razão de ter uma diferente visão do assunto, também desenvolvendo raciocínios na álgebra sobre raízes e coeficientes, porém, utilizando-se de simbolismo para representá-los, o que Viète não fez (ARAGÃO, 2009). John Napier, Henry Briggs e Stevin: teorias e conceitos matemáticos Das diversas áreas da matemática, foi no desenvolvimento da invenção dos logaritmos que John Napier e Henry Briggs deram sua maior contribuição, permitindo avanços significativos desses conceitos. A obra de Napier não é trivial, porém, o conceito de logaritmo foi explicado, ao longo da história, com base na progressão de potências crescentes (ARAGÃO, 2009; EVES, 2004). Um dos pontos de relevância sobre os estudos de Napier é que, como não possuía o conhecimento do conceito de base de sistemas logaritmos, como o sabemos hoje em dia, ele desenvolveu sua pesquisa com base em termos geométricos; no entanto, sua definição geométrica concordava com a descrição numérica que se tem hoje (BOYER; MERRZBACH, 1996). Briggs publicou obras envolvendo cálculos de logaritmos, ampliou a tabela de logaritmos já existente e calculou logaritmos naturais (MEDINA, 2013). No âmbito da história, esse conceito da matemática foi muito bem aceito e promoveu grandes avanços devido à sua aplicação em alguns setores, como na computação dos astrônomos por parte de Johann Kepler, também matemático e astrônomo (EVES, 2004). Na Idade Moderna, o confronto de ideias da antiguidade e com as novas instigou o crescimento de novos conceitos de ciências como a matemática e a física, pois tendências variadas e conflitantes surgiram ao se promover uma redescoberta de antigos clássicos da antiguidade e o desenvolvimento de novos conceitos matemáticos teóricos aplicados a situações mais práticas da vida em sociedade (ARAGÃO, 2009; STEWART, 2014). Nesse contexto, Stevin deu sua contribuição no desenvolvimento da matemática ao estudar frações decimais, e, embora tenha utilizado de notação mais antiga, uma notação mais moderna surgindo nesta época permitiu-lhe fazer avanços consideráveis. Matemática nos séculos XV e XVI 3 Stevin também desenvolveu estudos sobre números imaginários e notações algébricas, baseando-se em estudos como os de Bombelli e Oresme (BOYER; MERRZBACH, 1996). Galileu Galilei, Johannes Kepler e Boaventura Cavalieri: desenvolvimento e evolução dos conceitos matemáticos Tanto Galileu Galilei como Johannes Kepler são lembrados na história por suas habilidades no desenvolvimento da ciência; no entanto, existem relatos na história de suas contribuições na matemática, sendo ambos representantes do desenvolvimento dos conceitos e das teorias matemáticas da era Moderna (EVES, 2004). Galileu Galilei, cientista italiano, é lembrado na história por sua vasta contribuição em muitos âmbitos da ciência, como seus estudos sobre a ciência natural (física), e pela invenção e comercialização de um compasso geométrico, revolucionário para a época (ARAGÃO, 2009; BOYER; MERRZBACH, 1996). Além do tratado sobre o compasso geométrico, contribuiu com muitos dos desenvolvimentos de raciocínio lógico, os quais podem ser verificados nas suas obras de física e astronomia (BOYER; MERRZBACH, 1996). Galileu desenvolveu o número “pi”, com base em expressões numéricas que também foram estudados por Viète. Galileu também desenvolveu a análise infinitesimal que, futuramente, serviu de base na criação do cálculo por Isaac Newton e Leibnitz (ARAGÃO, 2009; MEDINA, 2013). Em muitos dos seus estudos, Galileu contou com a colaboração de seu aluno Cavalieri, que, envolvido nos muitos estudos do mestre, propôs soluções para muitos dos problemas matemáticos presentes na vida e obra de Galileu (BOYER; MERRZBACH, 1996; EVES, 2004). Johannes Kepler, com formação em física e astronomia, valeu-se da mate- mática para aplicá-la na astronomia, no estudo das órbitas elípticas. Buscando solucionar questõesenvolvendo as cônicas (elipse, parábola, hipérbole e a circunferência), Kepler utilizou-se do chamado princípio da continuidade, um conceito também, mais tarde, desenvolvido no cálculo (ARAGÃO, 2009). A matemática foi fundamental na elaboração das leis de Kepler, pois com- provou matematicamente que as órbitas dos planetas comportavam-se de forma elíptica (BOYER; MERRZBACH, 1996). Matemática nos séculos XV e XVI4 Para ver uma abordagem das três leis de Kepler e como este mate- mático de renome utilizou-se de conceitos matemáticos no estudo das cônicas em uma abordagem de elipses para provar sua lei das órbitas, busque pela obra Fundamentos de física: óptica e física moderna, de Halliday, Resnick e Walker (2018). A intensa produção de obras da física de Galileu e Kepler foi um dos motivos de avanço de conceitos da matemática, pois tanto Galileu quanto Kepler estavam envolvidos em grandes temas da física naquela época e ne- cessitavam de fundamentação matemática para provar suas ideias. Embora não tenham sido completados, muitos dos desenvolvimentos matemáticos de Galileu serviram de base para futuros matemáticos desenvolverem-nos por completo, como foi o caso do estudo da curva, no qual Galileu não obteve êxito de imediato, mas cujas investigações serviram de base para os estudos de Torricelli (BOYER; MERRZBACH, 1996). Nesta seção, você viu que a transição entre a época da renascença e a Idade Moderna deu-se com a participação em massa de muitos matemáticos de renome e com o desenvolvimento de grandes conceitos que levaram a matemática a tornar-se uma das ciências mais estudadas ao longo da história. A influência de nomes como Viète, Napier, Galileu Galilei e Johannes Kepler deixa claro que a Idade Moderna foi uma das mais ricas na produção de conteúdos representativos da matemática, pois muitos deles deram base às descobertas de matemáticos que transcenderam sua época, como René Descartes, Isaac Newton, Evangelista Torricelli, Blaise Pascal e outros. A matemática desenvolvida no início da idade moderna A história retrata que a Idade Moderna compreendeu o período de 1453 até o ano de 1789, com base em fatos históricos marcantes marcando o início da era Moderna, como a tomada de Constantinopla, e seu fim, no início da Revolução Francesa (BOYER; MERRZBACH, 1996). Não se devem descartar os fatos históricos na história da matemática, pois muitos deles acabaram por influenciar o desenvolvimento dos conceitos e teorias da matemática (BOYER; MERRZBACH, 1996). O início da Idade Moderna foi marcado por muitas pro- duções matemáticas que causaram grandes transformações nas formas de Matemática nos séculos XV e XVI 5 pensamento e desenvolvimento de conceitos aplicados nessa área (ARAGÃO, 2009). A Idade Moderna é bem representada por seis nomes da época, uma vez que seus estudos foram de grande representatividade e promoveram avanços significativos dos conceitos matemáticos. São eles: René Descartes, Pierre de Fermat, Giles Persone de Roberval, Girad Desargues, Evangelista Torricelli e Blaise Pascal. A época de Fermat e Descartes na história da matemática A história da matemática apresenta uma riqueza na quantidade de conceitos e teorias desenvolvidas e que são fundamentais para explicar muitos dos fenômenos que conhecemos até os dias de hoje em muitas áreas do conhe- cimento (BOYER; MERRZBACH, 1996). A Idade Moderna é marcada na história por seus grandes pensadores, cientistas e matemáticos. Destacam-se aqui figuras principais da era Moderna, como René Descartes e Pierre de Fermat (ARAGÃO, 2009). Tanto Descartes quanto Fermat envolveram-se no desenvolvimento da geometria analítica e, na área da matemática, esta foi a maior contribuição de Descartes (BOYER; MERRZBACH, 1996). A obra La géometrie é de autoria de Descartes, na qual ele explica detalhadamente, em linguagem minuciosa, os conceitos e fundamentos envolvendo a geometria analítica. Descartes preocupou-se com a descrição geométrica, traduzindo operações algébricas em linguagem geométrica (ARAGÃO, 2009). Nesta obra, também é possí- vel verificar como Descartes desenvolveu uma transformação de cálculos aritméticos em conceitos geométricos e como a multiplicação, a divisão e a extração de raízes quadradas podiam ser efetuadas geometricamente (BOYER; MERRZBACH, 1996). Este foi um passo grande na matemática, promovendo uma revolução na forma de pensar e também possibilitando aplicações mais abrangentes desses conceitos. Os fundamentos geométricos estudados por Descartes e apresentados na sua obra máxima da matemática abrangeram o estudo de curvas e cô- nicas e normais e retas tangentes com base em construções geométricas, conceitos estes que fazem Descartes er lembrado até os dias de hoje (BOYER; MERRZBACH, 1996). A Figura 1 retrata René Descartes e Pierre de Fermat, ma- temáticos contemporâneos, que promoveram, independentemente, avanços consideráveis sobre geometria analítica. Matemática nos séculos XV e XVI6 Figura 1. Fotografia de (a) René Descartes e (b) Pierre Fermat, matemáticos contemporâneos da Idade Moderna. Fonte: (a) (CONHEÇA..., 2020, documento on-line) e (b) Fernandes (2010, documento on-line). a b A contribuição de Pierre Fermat também se deu no avanço da geometria analítica, resgatando os conceitos já desenvolvidos na antiguidade e promo- vendo sua evolução (ARAGÃO, 2009). Por exemplo, Fermat aprofundou seus estudos sobre as obras de Apolônio, que tratava de planos e também sobre a coleção matemática de Papus. Fermat descreveu suas ideias no tratado que chamou de Ad locus planos e sólidos isagoge, no qual demonstrou todo seu vasto conhecimento dos conceitos de geometria analítica, assim como fizera Descartes (BOYER; MERRZBACH, 1996; ROONEY, 2012). Fermat representou a geometria analítica em dimensão superior, desenvolvendo os conceitos de diferenciação e integração; no entanto, sua obra que contém eses relatos, intitulada A introdução aos lugares, não foi publicada em vida, o que concedeu apenas a Descartes o título de inventor da geometria analítica (ROONEY, 2012). Giles Persone de Roberval, Evangelista Torricelli, Girad Desargues e Blaise Pascal: desenvolvimentos matemáticos na Idade Moderna O matemático Giles Persone de Roberval, um dos poucos a exercer as fun- ções de matemático profissionalmente, ao longo da história destacou-se no desenvolvimento de um método de indivisíveis, no estudo do cicloide e no estudo de áreas de arcos de curvas. Além disso, demonstrou como traçar retas tangentes às curvas, assim como também o fizeram Descartes e Fermat. Matemática nos séculos XV e XVI 7 Roberval também estudou o conceito de volumes em sólidos de revolução (ARAGÃO, 2009; BOYER; MERRZBACH, 1996). Sobre Evangelista Torricelli, a história retrata que ele também se dedicou ao estudo do cicloide e publicou seus aprofundamentos ao tema no livro De parabole (ARAGÃO, 2009). Esse tema gerou muitas controvérsias na época, pois Torricelli foi acusado de plágio, embora, de fato, os estudos publicados sejam de sua autoria; no entanto, eram temas similares àqueles desenvolvidos por Fermat (ROONEY, 2012). A Figura 2 mostra o movimento cicloide, tema que trouxe bastante evolução no desenvolvimento de conceitos para explicar o movimento de um corpo que produz esse movimento (BOYER; MERRZBACH, 1996). Figura 2. Representação de um cicloide em desenvolvimento. Fonte: Barros (2020, documento on-line). Torricelli foi um matemático notável do seu tempo e deu muitas con- tribuições em diversos temas da matemática, como já foi citado, além de ter também contribuído em muitos assuntos relacionados à física (BOYER; MERRZBACH, 1996). Girard Desargues também estudou as cônicas, a interação entre cones e planos, e promoveu avanços de grande notoriedade na área da geometria projetiva. No entanto, embora seus estudos sejam de destaque e impacto na evolução da matemática, não foram aceitos na época, embora hoje o sejam (BOYER; MERRZBACH, 1996; ROONEY,2012). Pascal é retratado na história como um prodígio na matemática. Seus estudos também abordaram o estudo das cônicas, um tema em alta na época e que deu grandes contribuições no avanço da matemática ao longo da his- tória (ARAGÃO, 2009). Em seu livro Essay pour les coniques, Pascal descreveu o comportamento das cônicas; depois, utilizou-se da geometria projetiva, Matemática nos séculos XV e XVI8 já descrita por seus contemporâneos, e escreveu a Obra completa sobre côni- cas, uma continuação de seu primeiro livro (ROONEY, 2012) (BOYER; MERRZBACH, 1996). Pascal também se dedicou ao estudo dos conceitos de probabilidade e, assim como muitos matemáticos aqui citados, desenvolveu, conceitos de grande relevância ao estudar o cicloide e a integração de funções trigono- métricas (BOYER; MERRZBACH, 1996). Nesta seção, foi apresentado um panorama de como se deu o desenvol- vimento da matemática no início da Idade Moderna e quais foram as desco- bertas e os estudos relacionados a este tema e que produziram mudanças significativas na forma de pensar. As contribuições de Descartes, Fermat, Roberval, Torricelli, Desargues e Pascal foram de grande impacto nesta época e até hoje o são, sendo esses conceitos e teorias ainda utilizados para explicar muitos dos conceitos de que a matemática trata. Técnicas da matemática dos séculos XV e XVI aplicadas à sala de aula As ciências como a física e a matemática geralmente apresentam duas linhas bastante diferentes, sendo que a primeira mostra uma preocupação em relatar os conceitos históricos da sua história, contextualizando sobre quais foram os cientistas, estudiosos, filósofos, físicos e matemáticos que produziram todo o vasto conhecimento de ambas as ciências (ARAGÃO, 2009; BOYER; MERRZBACH, 1996). Por outro lado, uma segunda linha tem suas preocupações voltadas para a educação e as formas de ensinar em sala de aula, buscando abordagens efetivas e que procurem instigar a docência dessas ciências. A transmissão de conceitos da matemática em sala de aula sempre foi um tema de grandes discussões, pois trata-se de uma disciplina fundamental em todos os níveis de educação, mas que se depara constantemente com formas não muito efetivas de atingir os objetivos finais no ensino, uma vez que nem sempre o aluno alcança o nível de compreensão estabelecido pelo plano curricular da referida disciplina (BOYER; MERRZBACH, 1996; SMOLE; MUNIZ, 2013). Como já foi descrito, a história da matemática passou por muitas fases ao longo dos tempos, e nessa linha de tempo, tudo o que conhecemos de conceitos, teorias, teoremas e tratados da matemática teve sua construção passando pelo crivo de muitos pensadores e matemáticos (ARAGÃO, 2009; BOYER; MERRZBACH, 1996). Assuntos relativos à matemática que hoje têm suas bases muito sólidas e bem fundamentadas muitas vezes foram construídos gradativamente ao longo de muitos anos, e isso se aplica aos temas como Matemática nos séculos XV e XVI 9 aritmética, álgebra, geometria, trigonometria, estatística e cálculo diferencial e integral (EVES, 2004; BOYER; MERRZBACH, 1996). O ensino da matemática em sala de aula e as técnicas utilizadas O ensino de aritmética em sala de aula vem desde a época dos gregos, ou até de muito antes, pois desde que o homem aprendeu a contar, tornou-se fundamental aprender operações matemáticas, a princípio para utilizá-las em situações de sua vida cotidiana e, depois, como base à criação de conceitos mais profundos da matemática (BOYER; MERRZBACH, 1996; SMOLE; MUNIZ, 2013). Em sala de aula, esses conceitos são trabalhados com estudantes desde o início da sua formação, ou seja, desde sua alfabetização. Outros conceitos, como álgebra, geometria, trigonometria, estatística, etc., são subsequentes à aritmética, uma vez que necessitam dela para o seu desenvolvimento (EVES, 2004). Ao longo dos tempos, o ensino veio sofrendo transformações, pois na época de grandes filósofos e pensadores gregos, por exemplo, muitos ti- nham o livre pensamento e a apreciação do saber (BOYER; MERRZBACH, 1996). A partir da revolução industrial, a necessidade de ensino em massa produziu salas de aula no formato que chamamos de tradicional (carteiras dispostas umas atrás das outras), sendo que o aluno não tinha muita participação no seu processo de aprendizagem (ARAGÃO, 2009). Hoje, o quadro que se pinta na educação vem sofrendo mudanças e permitindo ao aluno ser mais ativo no seu processo de ensino e aprendizagem (BOYER; MERRZBACH, 1996). Retratando as técnicas de ensino do início da Idade Moderna, as formas de se ensinar os conceitos de matemática sempre foram muito teóricas, embora alguns conceitos pudessem ter o apoio de representações geométricas e gráficas (BOYER; MERRZBACH, 1996; SMOLE; MUNIZ, 2013). O ensino da matemá- tica pode contar com técnicas como o uso de jogos lúdicos ou de elementos visuais no desenvolvimento de seus conceitos (POSAMENTIER; KRULIK, 2014). Um exemplo da inserção de situações lúdicas é mostrado na Figura 3, onde se vê o conhecimento da matemática sendo construído a partir de objetos cujas formas permitem o desenvolvimento de vários conceitos matemáticos, sobretudo de geometria e trigonometria. Matemática nos séculos XV e XVI10 Figura 3. Uso de figuras geométricas no processo de aprendizagem. Fonte: Marciano (2020, documento on-line). Outro recurso que também é utilizado na matemática é o uso de gráficos para ilustração de resultados. Essa técnica foi aplicada e — e ainda é, até os dias de hoje —na matemática e em diversas outras áreas como ferramenta gráfica para a visualização de resultados de pesquisas, empresas, etc (BOYER; MERRZBACH, 1996). Outra técnica utilizada em sala de aula e que sempre mostrou grande efetividade foi a experimentação (EVES, 2004). Conceitos matemáticos apli- cados a algumas áreas do conhecimento, como a física, sempre se mostraram uma forma de aplicar conhecimentos adquiridos (BOYER; MERRZBACH, 1996). A Figura 4 mostra uma forma de aplicação da matemática na obtenção de informações a partir da experimentação. A disciplina história da matemática que é ensinada em sala de aula nos mostra a relevância de todo o desenvolvimento matemático ao longo da história (ARAGÃO, 2009; BOYER; MERRZBACH, 1996). Muitas técnicas e recursos didático-pedagógicos hoje utilizados em sala de aula estão pautados nas técnicas utilizadas já nos séculos XV e XVI, como o uso de recursos visuais para demonstração de fundamentos teóricos, ou mesmo o recurso da ex- perimentação, quando os conceitos matemáticos são aplicados em outros contextos, como a física, química, etc. (BOYER; MERRZBACH, 1996; EVES, 2004). Matemática nos séculos XV e XVI 11 Figura 4. Uso da matemática para comprovação de conceitos da Física. Fonte: Vieira (2015, documento on-line). Exemplo Um dos desenvolvimentos matemáticos do início da Idade Moderna foi o estudo do matemático François Viète sobre o número “pi”. Na matemática, o número π constitui uma proporção numérica definida a partir da relação entre o perímetro de uma circunferência e o seu diâmetro. Viète utilizou-se das formalizações de Arquimedes sobre o número π para aplicar nos seus cálculos sobre séries infinitas. Os estudos de Viète permitiram calcular o valor de π com base na equação que segue, usando o método dos limites. Matemática nos séculos XV e XVI12 Muitas aplicações envolvendo o número π foram possíveis uma vez que seu valor foi calculado. Assim, demonstre três informações básicas sobre a circunferência utilizando o número π: o perímetro de sua circunferência, a área do círculo dessa circunferência e o volume da esfera que tal circunferência encerra (Figura 5). Figura 5. Informações de diâme- tro e raio de uma circunferência. Fonte: 123 Calculei (2020, docu- mento on-line). Resolução Com base nos conceitos desenvolvidos por François Viète e sua definição para o número π, as informações pedidas serão obtidas a partir da Figura 5, utilizando-se das informaçõesde raio e diâmetro dadas. Perímetro da circunferência A equação para o cálculo do perímetro C de uma circunferência será dada por: C = 2πR Área do círculo da circunferência A equação para o cálculo da área “A” do círculo de uma circunferência será dada por: A = πR2 Matemática nos séculos XV e XVI 13 Volume do círculo da circunferência A equação para o cálculo do volume “V” do círculo de uma circunferência será dada por: = 4 3 3 Verifica-se, então, que os objetivos pretendidos neste capítulo foram atingidos, uma vez que a fase do início da Idade Moderna foi discutida, evi- denciando os pontos de maior relevância do que se chamou “prelúdio à matemática moderna” e, assim, mostrando quais foram os matemáticos que contribuíram para o progresso de conceitos e teorias matemáticas desta fase, bem como quais foram esses conceitos. Referências 123 CALCULEI. Calculadora do círculo. 2020. Disponível em: https://www.123calculei. com/Circulo/. Acesso em: 12 fev. 2021. ARAGÃO, M. J. História da matemática. Rio de Janeiro: Interciência, 2009. BARROS, L. Conheça mais sobre a braquistócrona. 2020. Disponível em: http://blogs. unama.br/noticias/matematica/conheca-mais-sobre-braquistocrona. Acesso em: 12 fev. 2021. BOYER, C. B.; MERRZBACH, U. C. História da matemática. São Paulo: Blucher, 1996. CONHEÇA René Descartes (1596 - 1650). 2020. Disponível em: https://sites.google.com/ site/embuscapsicologia/a-historia-da-psicologia/conheca-rene-descartes-1596---1650. Acesso em: 12 fev. 2021. EVES, H. Introdução à história da matemática. Campinas: UNICAMP, 2004. FERNANDES, M. Pierre Fermat. 2010. Disponível em: http://moniquefernandes15.blogspot. com/2010/11/pierre-fermat.html. Acesso em: 12 fev. 2021. MARCIANO, E. Plano de aula sobre formas geométricas: educação infantil. 2020. Disponí- vel em: https://escolaeducacao.com.br/plano-de-aula-formas-geometricas-educacao- -infantil/. Acesso em: 12 fev. 2021. MEDINA, M. B. Os grandes matemáticos. São Paulo: M. Books, 2013. POSAMENTIER, A. S.; KRULIK, S. A arte de motivar os estudantes do ensino médio para a matemática. Porto Alegre: AMGH, 2014. ROONEY, A. A história da matemática. São Paulo: M. Books, 2017. SMOLE, K. S.; MUNIZ, C. A. A matemática em sala de aula: reflexões e propostas para os anos iniciais do ensino fundamental. Porto Alegre: Penso, 2013. STEWART, I. Os maiores problemas matemáticos de todos os tempos. Rio de Janeiro: Zahar, 2014. Matemática nos séculos XV e XVI14 VIEIRA, A. O que a Torre de Pisa e o levantamento de peso têm em comum? 2015. Dis- ponível em: https://descomplica.com.br/artigo/torre-de-pisa-e-levantamento-de- -peso-tem-algo-em-comum-o-equilibrio-estatico-desvenda-esse-misterio/4FR/. Acesso em: 12 fev. 2021. Leitura recomendada HALLIDAY, D.; RESNICK, J.; WALKER, J. Fundamentos de física: óptica e física moderna. 10. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2018. v. 4. Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da publicação do material. 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