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Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2023.2 Página | 1 PMSUS - Oficina 04 POLÍTICA DE REDUÇÃO DE DANOS E CONSULTÓRIOS NA RUA 1) DIFERENCIAR O USO, ABUSO E DEPENDÊNCIA (DROGAS ILÍCITAS); Muitos periódicos médicos usam a nomenclatura empírica criada pela American Psychiatric Association (APA) em um manual intitulado DSM-IV. Nele a dependência de substâncias (adicção) é definida como um padrão mal-adaptativo de uso de substâncias que leva a prejuízo ou sofrimento clínico significativo, evidenciado por três (ou mais) características, que incluem tolerância, abstinência e abandono ou redução de importantes atividades sociais, ocupacionais ou recreativas em razão do uso da substância, durante um período de 12 meses. O termo abuso aplica-se especificamente a substâncias não-prescritas. Assim, o etanol e a cocaína, que não costumam ser prescritos, são considerados drogas de abuso. O uso indevido de drogas costuma referir-se ao uso impróprio de substâncias prescritas, ou ao uso dessas substâncias para fins não-terapêuticos. O uso de morfina ou de um benzodiazepínico para outros fins que não sua indicação terapêutica, ou em dose maior ou mais freqüente do que a indicada, constitui uso indevido da substância. Os termos tolerância, dependência e abstinência podem ser definidos com base em suas ações fisiológicas. Esses vocábulos são igualmente aplicados a drogas prescritas por médicos e não-prescritas. A tolerância refere-se à diminuição do efeito de uma droga com o uso contínuo. O efeito oposto, denominado sensibilização (também chamado de tolerância inversa), refere-se a um desvio da curva de dose-resposta para a esquerda, de modo que a administração repetida de uma droga provoca um maior efeito de determinada dose ou há necessidade de uma dose menor para obter o mesmo efeito. A dependência física (ou dependência fisiológica) referese aos sinais e sintomas físicos adversos provocados pela abstinência de uma droga. A dependência psicológica é um fenômeno mais complexo que pode ocorrer mesmo com drogas que não causam tolerância e dependência física. A dependência psicológica ocorre sempre que uma droga afeta o sistema de recompensa encefálico. As sensações agradáveis produzidas causam o desejo de continuar usando a droga. Quando o uso da droga é interrompido, as adaptações ocorridas no sistema de recompensa encefálico manifestam-se como disforia e fissura pela droga. A adicção costuma referir-se ao comportamento compulsivo de uso (e procura) da droga que interfere com as atividades normais e leva o dependente a continuar usando a droga apesar das conseqüências cada vez piores. Referência: • SWIFT & LEWIS. Farmacologia da Dependência e Abuso de Drogas. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/3319241/ mod_resource/content/1/Farmacologia%20da%20d ependencia%20e%20abuso%20%20de%20drogas.p df Um padrão de uso de substância tipo anfetamina, cocaína ou outro estimulante levando a comprometimento ou sofrimento clinicamente significativo, manifestado por pelo menos dois dos seguintes critérios, ocorrendo durante um período de 12 meses: 1. O estimulante é frequentemente consumido em maiores quantidades ou por um período mais longo do que o pretendido. 2. Existe um desejo persistente ou esforços malsucedidos no sentido de reduzir ou controlar o uso de estimulantes. 3. Muito tempo é gasto em atividades necessárias para a obtenção do estimulante, em utilização, ou na recuperação de seus efeitos. 4. Fissura ou um forte desejo ou necessidade de usar o estimulante. 5. Uso recorrente de estimulantes resultando em fracasso em cumprir obrigações importantes no trabalho, na escola ou em casa. 6. Uso continuado de estimulantes apesar de problemas sociais ou interpessoais persistentes ou recorrentes causados ou exacerbados pelos efeitos do estimulante. 7. Importantes atividades sociais, profissionais ou recreacionais são abandonadas ou reduzidas em virtude do uso de estimulantes. 8. Uso recorrente de estimulantes em situações nas quais isso representa perigo para a integridade física. 9. O uso de estimulantes é mantido apesar da consciência de ter um problema físico ou psicológico persistente ou recorrente que tende a ser causado ou exacerbado pelo estimulante. 10. Tolerância, definida por qualquer um dos seguintes aspectos: a. Necessidade de quantidades progressivamente maiores do estimulante para atingir a intoxicação ou o efeito desejado. b. Efeito acentuadamente menor com o uso continuado da mesma quantidade do estimulante. Nota: Este critério não é considerado em indivíduos cujo uso de medicamentos estimulantes se dá https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/3319241/mod_resource/content/1/Farmacologia%20da%20dependencia%20e%20abuso%20%20de%20drogas.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/3319241/mod_resource/content/1/Farmacologia%20da%20dependencia%20e%20abuso%20%20de%20drogas.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/3319241/mod_resource/content/1/Farmacologia%20da%20dependencia%20e%20abuso%20%20de%20drogas.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/3319241/mod_resource/content/1/Farmacologia%20da%20dependencia%20e%20abuso%20%20de%20drogas.pdf Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2023.2 Página | 2 unicamente sob supervisão médica adequada, como no caso de medicação para transtorno de déficit de atenção/hiperatividade ou narcolepsia. 11. Abstinência, manifestada por qualquer dos seguintes aspectos: a. Síndrome de abstinência característica para o estimulante; b. O estimulante (ou uma substância estreitamente relacionada) é consumido para aliviar ou evitar os sintomas de abstinência. Nota: Este critério é desconsiderado em indivíduos cujo uso de medicamentos estimulantes se dá unicamente sob supervisão médica adequada, como no caso de medicação para transtorno de déficit de atenção/hiperatividade ou narcolepsia. Referência: • Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). Classificação do uso: Uso na vida: o uso de droga pelo menos uma vez na vida Uso no ano: o uso de droga pelo menos uma vez nos últimos doze meses Uso recente ou no mês: o uso de droga pelo menos uma vez nos últimos 30 dias Uso frequente: uso de droga seis ou mais vezes nos últimos 30 dias Uso de risco: padrão de uso que implica alto risco de dano à saúde física ou mental do usuário, mas que ainda não resultou em doença orgânica ou psicológica Uso prejudicial: padrão de uso que já está causando dano à saúde física ou mental Não-usuário: nunca utilizou drogas Usuário leve: utilizou drogas no último mês, mas o consumo foi menor que uma vez por semana Usuário moderado: utilizou drogas semanalmente, mas não todos os dias, durante o último mês Usuário pesado: utilizou drogas diariamente durante o último mês. A OMS considera ainda que o abuso de drogas não pode ser definido apenas em função da quantidade e freqüência de uso. Assim, uma pessoa somente será considerada dependente se o seu padrão de uso resultar em pelo menos três dos seguintes sintomas ou sinais, ao longo dos últimos doze meses: • Forte desejo ou compulsão de consumir drogas; • Dificuldades em controlar o uso, seja em termos de início, término ou nível de consumo; • Uso de substâncias psicoativas para atenuar sintomas de abstinência, com plena consciência dessa prática; • Estado fisiológico de abstinência; • Evidência de tolerância, quando o indivíduo necessita de doses maiores de substância para alcançar os efeitos obtidos anteriormente com doses menores; • Estreitamento do repertório pessoal de consumo, quando o indivíduo passa, por exemplo, a consumir drogas em ambientes inadequados, a qualquer hora, sem nenhum motivo especial; • Falta de interesse progressivo de outros prazeres einteresses em favor do uso de drogas; • Insistência no uso da substância, apesar de manifestações danosas comprovadamente decorrentes desse uso; • Evidência de que o retorno ao uso da substância, após um período de abstinência, leva a uma rápida reinstalação do padrão de consumo anterior. Referência: • UNIFESP. Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas. Disponível em: https://www2.unifesp.br/dpsicobio/cebrid/quest_dro gas/classific_uso.htm 2) ESTUDAR A POLÍTICA NACIONAL DE DROGAS, ABORDANDO SUA HISTÓRIA, DIRETRIZES E DESAFIOS; História Partindo-se do pressuposto de que uma política sobre drogas constitui o conjunto de esforços do país para redução da oferta e da demanda de drogas. O Brasil, assim como boa parte das nações, passou a implementar uma política sobre drogas na primeira metade do século 20 com a transposição das disposições e recomendações introduzidas pela Convenção Internacional do Ópio (Haia, 1912) para a legislação nacional. Assim, a primeira norma legal a tratar do assunto foi o Decreto-Lei n. 891/1938, que consolidou ações de prevenção, tratamento e repressão de drogas no Brasil. Em 1976, o referido Decreto-Lei foi alterado pela Lei n. 6.368/1976, que dispôs sobre medidas de prevenção e repressão ao tráfico ilícito e uso indevido de substâncias entorpecentes ou que causem dependência física ou psíquica. A aprovação desta lei inaugura uma série de esforços para consolidar a política de drogas brasileira. Já em setembro de 1980, o Decreto n. 85.110, instituiu o Sistema Nacional de Prevenção, Fiscalização e Repressão de Entorpecentes e normatizou o Conselho Federal de Entorpecentes - CONFEN. Ambos deram origem aos atuais órgãos que atuam na governança da Política Nacional sobre Drogas. Em 1986, por meio da Lei nº. 7.560, foi criado o Fundo de Prevenção, Recuperação e de Combate às Drogas de Abuso (FUNCAB) e foram estabelecidas regras sobre os bens apreendidos e adquiridos com produtos de tráfico ilícito de drogas ou atividades correlatas. Este Fundo originou o atual Fundo Nacional Antidrogas (FUNAD). Em 1993, foi criada, no âmbito do Ministério da Justiça, a Secretaria Federal de Entorpecentes, órgão de supervisão técnica das atividades de https://www2.unifesp.br/dpsicobio/cebrid/quest_drogas/classific_uso.htm https://www2.unifesp.br/dpsicobio/cebrid/quest_drogas/classific_uso.htm Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2023.2 Página | 3 prevenção, fiscalização e repressão ao uso indevido de produtos e substâncias entorpecentes ou que determinem dependência física ou psíquica, buscando dar estrutura para a organização do Sistema Nacional de Prevenção, Fiscalização e Repressão de Entorpecentes. Em 1998, o então Conselho Federal de Entorpecentes (CONFEN) foi transformado no Conselho Nacional Antidrogas (CONAD) e, na mesma oportunidade, foi criada a Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD). Ambos os órgãos deixaram de ser vinculados ao Ministério da Justiça e passaram para a Casa Militar da Presidência da República. Em que pese existirem no período legislações bastante abrangentes sobre a temática no que se refere à previsão de ações de redução da oferta e da demanda, em 2002, foi instituída, pela primeira vez, um documento com a síntese da política de drogas, denominado de Política Nacional Antidrogas (PNAD), por meio do Decreto nº. 4.345/2002. Nesse mesmo período, o governo sancionou a Lei n. 10.409/2002, que fez uma série de modificações na antiga Lei n. 6.368/1976, mas manteve partes significativas desta legislação no tocante à redução da oferta. Em 2005, a política instituída em 2002 passou por atualizações, sendo aprovado novo decreto com a síntese de uma nova Política Nacional sobre Drogas (Resolução n. 3/GSIPR/CONAD de 2005), sem, contudo, rever o Decreto n. 4.345/2002, que continuou vigente. Em 2006, foi aprovada a Lei n. 11.343/2006 que instituiu o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas (SISNAD) e prescreveu medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas, em consonância com a política sobre drogas vigente. Esta lei tentou reunir os dois instrumentos normativos anteriores: as Leis 6.368/1976 e 10.409/2002, revogando-os a partir de sua edição, com o reconhecimento de diferenças entre as figuras do traficante e a do usuário/dependente, os quais passaram a ser tratados de modo diferenciado e a ocupar capítulos diferentes da lei. Já o Decreto n. 5.912/2006 regulamentou as competências dos Órgãos do Poder Executivo no que se refere à temática. Em 2008, foi editada a Lei n. 11.754 por meio da qual o Conselho Nacional Antidrogas passou a se chamar Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (CONAD). A nova Lei também alterou o nome da Secretaria Nacional Antidrogas para Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD). Em janeiro de 2011, a SENAD retornou do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República para o Ministério da Justiça, a fim de potencializar a articulação das ações da redução de demanda da oferta de drogas, que priorizam o enfrentamento ao tráfico de ilícitos. Mais recentemente, a Portaria Interministerial n. 2, de 21 de dezembro de 2017 criou o Comitê Gestor Interministerial com o objetivo de coordenar ações de prevenção, pesquisa, cuidados, formação e reinserção social no âmbito do governo federal, sendo composto, originalmente, pelos Ministérios da Justiça, Trabalho, Saúde e Desenvolvimento Social e Agrário. Em 2019 foi editado o Decreto n. 9.761/2019, que regulamenta a Política Nacional sobre Drogas, atualmente vigente, promovendo ajustes na Governança da Política Nacional de Drogas. E em setembro de 2021, o Decreto n. 10.785 alterou o nome da SENAD para Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos. Referência: • Ministério da Justiça e Segurança Pública: A Política Nacional Sobre Drogas, 11/11/2021 (atualizado em 23/02/2023). Disponível em: https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/sua- protecao/politicas-sobre-drogas/a-politica-nacional- sobre-drogas LEI Nº 11.343, DE 23 DE AGOSTO DE 2006 Institui o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas - Sisnad; prescreve medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas; estabelece normas para repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas; define crimes e dá outras providências. Ficam proibidas, em todo o território nacional, as drogas, bem como o plantio, a cultura, a colheita e a exploração de vegetais e substratos dos quais possam ser extraídas ou produzidas drogas, ressalvada a hipótese de autorização legal ou regulamentar, bem como o que estabelece a Convenção de Viena, das Nações Unidas, sobre Substâncias Psicotrópicas, de 1971, a respeito de plantas de uso estritamente ritualístico-religioso. Pode a União autorizar o plantio, a cultura e a colheita dos vegetais referidos no caput deste artigo, exclusivamente para fins medicinais ou científicos, em local e prazo predeterminados, mediante fiscalização, respeitadas as ressalvas supramencionadas. O Sisnad tem a finalidade de articular, integrar, organizar e coordenar as atividades relacionadas com: https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/sua-protecao/politicas-sobre-drogas/a-politica-nacional-sobre-drogas https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/sua-protecao/politicas-sobre-drogas/a-politica-nacional-sobre-drogas https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/sua-protecao/politicas-sobre-drogas/a-politica-nacional-sobre-drogas Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2023.2 Página | 4 I - a prevenção do uso indevido, a atenção e a reinserção social de usuários e dependentes de drogas; II - a repressão da produção não autorizada e do tráfico ilícitode drogas. Entende-se por Sisnad o conjunto ordenado de princípios, regras, critérios e recursos materiais e humanos que envolvem as políticas, planos, programas, ações e projetos sobre drogas, incluindo-se nele, por adesão, os Sistemas de Políticas Públicas sobre Drogas dos Estados, Distrito Federal e Municípios. A organização do Sisnad assegura a orientação central e a execução descentralizada das atividades realizadas em seu âmbito, nas esferas federal, distrital, estadual e municipal. O Sisnad atuará em articulação com o Sistema Único de Saúde - SUS, e com o Sistema Único de Assistência Social - SUAS. São princípios do Sisnad: I - o respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana, especialmente quanto à sua autonomia e à sua liberdade; II - o respeito à diversidade e às especificidades populacionais existentes; III - a promoção dos valores éticos, culturais e de cidadania do povo brasileiro, reconhecendo-os como fatores de proteção para o uso indevido de drogas e outros comportamentos correlacionados; IV - a promoção de consensos nacionais, de ampla participação social, para o estabelecimento dos fundamentos e estratégias do Sisnad; V - a promoção da responsabilidade compartilhada entre Estado e Sociedade, reconhecendo a importância da participação social nas atividades do Sisnad; VI - o reconhecimento da intersetorialidade dos fatores correlacionados com o uso indevido de drogas, com a sua produção não autorizada e o seu tráfico ilícito; VII - a integração das estratégias nacionais e internacionais de prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas e de repressão à sua produção não autorizada e ao seu tráfico ilícito; VIII - a articulação com os órgãos do Ministério Público e dos Poderes Legislativo e Judiciário visando à cooperação mútua nas atividades do Sisnad; IX - a adoção de abordagem multidisciplinar que reconheça a interdependência e a natureza complementar das atividades de prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas, repressão da produção não autorizada e do tráfico ilícito de drogas; X - a observância do equilíbrio entre as atividades de prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas e de repressão à sua produção não autorizada e ao seu tráfico ilícito, visando a garantir a estabilidade e o bem-estar social; XI - a observância às orientações e normas emanadas do Conselho Nacional Antidrogas - Conad. O Sisnad tem os seguintes objetivos: I - contribuir para a inclusão social do cidadão, visando a torná-lo menos vulnerável a assumir comportamentos de risco para o uso indevido de drogas, seu tráfico ilícito e outros comportamentos correlacionados; II - promover a construção e a socialização do conhecimento sobre drogas no país; III - promover a integração entre as políticas de prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas e de repressão à sua produção não autorizada e ao tráfico ilícito e as políticas públicas setoriais dos órgãos do Poder Executivo da União, Distrito Federal, Estados e Municípios; IV - assegurar as condições para a coordenação, a integração e a articulação das atividades já citadas. Diretrizes das atividades de prevenção: Constituem atividades de prevenção do uso indevido de drogas, para efeito desta Lei, aquelas direcionadas para a redução dos fatores de vulnerabilidade e risco e para a promoção e o fortalecimento dos fatores de proteção. As atividades de prevenção do uso indevido de drogas devem observar os seguintes princípios e diretrizes: I - o reconhecimento do uso indevido de drogas como fator de interferência na qualidade de vida do indivíduo e na sua relação com a comunidade à qual pertence; II - a adoção de conceitos objetivos e de fundamentação científica como forma de orientar as ações dos serviços públicos comunitários e privados e de evitar preconceitos e estigmatização das pessoas e dos serviços que as atendam; III - o fortalecimento da autonomia e da responsabilidade individual em relação ao uso indevido de drogas; IV - o compartilhamento de responsabilidades e a colaboração mútua com as instituições do setor privado e com os diversos segmentos sociais, incluindo usuários e dependentes de drogas e respectivos familiares, por meio do estabelecimento de parcerias; V - a adoção de estratégias preventivas diferenciadas e adequadas às especificidades socioculturais das Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2023.2 Página | 5 diversas populações, bem como das diferentes drogas utilizadas; VI - o reconhecimento do “não-uso”, do “retardamento do uso” e da redução de riscos como resultados desejáveis das atividades de natureza preventiva, quando da definição dos objetivos a serem alcançados; VII - o tratamento especial dirigido às parcelas mais vulneráveis da população, levando em consideração as suas necessidades específicas; VIII - a articulação entre os serviços e organizações que atuam em atividades de prevenção do uso indevido de drogas e a rede de atenção a usuários e dependentes de drogas e respectivos familiares; IX - o investimento em alternativas esportivas, culturais, artísticas, profissionais, entre outras, como forma de inclusão social e de melhoria da qualidade de vida; X - o estabelecimento de políticas de formação continuada na área da prevenção do uso indevido de drogas para profissionais de educação nos 3 (três) níveis de ensino; XI - a implantação de projetos pedagógicos de prevenção do uso indevido de drogas, nas instituições de ensino público e privado, alinhados às Diretrizes Curriculares Nacionais e aos conhecimentos relacionados a drogas; XII - a observância das orientações e normas emanadas do Conad; XIII - o alinhamento às diretrizes dos órgãos de controle social de políticas setoriais específicas. As atividades de prevenção do uso indevido de drogas dirigidas à criança e ao adolescente deverão estar em consonância com as diretrizes emanadas pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente - Conanda. Constituem atividades de atenção ao usuário e dependente de drogas e respectivos familiares, para efeito desta Lei, aquelas que visem à melhoria da qualidade de vida e à redução dos riscos e dos danos associados ao uso de drogas. Constituem atividades de reinserção social do usuário ou do dependente de drogas e respectivos familiares, para efeito desta Lei, aquelas direcionadas para sua integração ou reintegração em redes sociais. As atividades de atenção e as de reinserção social do usuário e do dependente de drogas e respectivos familiares devem observar os seguintes princípios e diretrizes: I - respeito ao usuário e ao dependente de drogas, independentemente de quaisquer condições, observados os direitos fundamentais da pessoa humana, os princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde e da Política Nacional de Assistência Social; II - a adoção de estratégias diferenciadas de atenção e reinserção social do usuário e do dependente de drogas e respectivos familiares que considerem as suas peculiaridades socioculturais; III - definição de projeto terapêutico individualizado, orientado para a inclusão social e para a redução de riscos e de danos sociais e à saúde; IV - atenção ao usuário ou dependente de drogas e aos respectivos familiares, sempre que possível, de forma multidisciplinar e por equipes multiprofissionais; V - observância das orientações e normas emanadas do Conad; VI - o alinhamento às diretrizes dos órgãos de controle social de políticas setoriais específicas. VII - estímulo à capacitação técnica e profissional; VIII - efetivação de políticas de reinserção social voltadas à educaçãocontinuada e ao trabalho; IX - observância do plano individual de atendimento; X - orientação adequada ao usuário ou dependente de drogas quanto às consequências lesivas do uso de drogas, ainda que ocasional. O tratamento do usuário ou dependente de drogas deverá ser ordenado em uma rede de atenção à saúde, com prioridade para as modalidades de tratamento ambulatorial, incluindo excepcionalmente formas de internação em unidades de saúde e hospitais gerais nos termos de normas dispostas pela União e articuladas com os serviços de assistência social e em etapas que permitam: I - articular a atenção com ações preventivas que atinjam toda a população; II - orientar-se por protocolos técnicos predefinidos, baseados em evidências científicas, oferecendo atendimento individualizado ao usuário ou dependente de drogas com abordagem preventiva e, sempre que indicado, ambulatorial; III - preparar para a reinserção social e econômica, respeitando as habilidades e projetos individuais por meio de programas que articulem educação, capacitação para o trabalho, esporte, cultura e acompanhamento individualizado; e IV - acompanhar os resultados pelo SUS, Suas e Sisnad, de forma articulada. Caberá à União dispor sobre os protocolos técnicos de tratamento, em âmbito nacional. A internação de dependentes de drogas somente será realizada em unidades de saúde ou hospitais gerais, dotados de equipes multidisciplinares e deverá ser obrigatoriamente autorizada por médico devidamente registrado no Conselho Regional de Medicina - CRM Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2023.2 Página | 6 do Estado onde se localize o estabelecimento no qual se dará a internação. Do Plano Individual de Atendimento O atendimento ao usuário ou dependente de drogas na rede de atenção à saúde dependerá de: I - avaliação prévia por equipe técnica multidisciplinar e multissetorial; e II - elaboração de um Plano Individual de Atendimento - PIA. A avaliação prévia da equipe técnica subsidiará a elaboração e execução do projeto terapêutico individual a ser adotado, levantando no mínimo: I - o tipo de droga e o padrão de seu uso; e II - o risco à saúde física e mental do usuário ou dependente de drogas ou das pessoas com as quais convive. O PIA deverá contemplar a participação dos familiares ou responsáveis, os quais têm o dever de contribuir com o processo, sendo esses, no caso de crianças e adolescentes, passíveis de responsabilização civil, administrativa e criminal, nos termos da Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente. O PIA será inicialmente elaborado sob a responsabilidade da equipe técnica do primeiro projeto terapêutico que atender o usuário ou dependente de drogas e será atualizado ao longo das diversas fases do atendimento. Constarão do plano individual, no mínimo: I - os resultados da avaliação multidisciplinar; II - os objetivos declarados pelo atendido; III - a previsão de suas atividades de integração social ou capacitação profissional; IV - atividades de integração e apoio à família; V - formas de participação da família para efetivo cumprimento do plano individual; VI - designação do projeto terapêutico mais adequado para o cumprimento do previsto no plano; e VII - as medidas específicas de atenção à saúde do atendido. O PIA será elaborado no prazo de até 30 (trinta) dias da data do ingresso no atendimento. As informações produzidas na avaliação e as registradas no plano individual de atendimento são consideradas sigilosas. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios poderão conceder benefícios às instituições privadas que desenvolverem programas de reinserção no mercado de trabalho, do usuário e do dependente de drogas encaminhados por órgão oficial. As instituições da sociedade civil, sem fins lucrativos, com atuação nas áreas da atenção à saúde e da assistência social, que atendam usuários ou dependentes de drogas poderão receber recursos do Funad, condicionados à sua disponibilidade orçamentária e financeira. O usuário e o dependente de drogas que, em razão da prática de infração penal, estiverem cumprindo pena privativa de liberdade ou submetidos a medida de segurança, têm garantidos os serviços de atenção à sua saúde, definidos pelo respectivo sistema penitenciário. Do Acolhimento em Comunidade Terapêutica O acolhimento do usuário ou dependente de drogas na comunidade terapêutica acolhedora caracteriza-se por: I - oferta de projetos terapêuticos ao usuário ou dependente de drogas que visam à abstinência; II - adesão e permanência voluntária, formalizadas por escrito, entendida como uma etapa transitória para a reinserção social e econômica do usuário ou dependente de drogas; III - ambiente residencial, propício à formação de vínculos, com a convivência entre os pares, atividades práticas de valor educativo e a promoção do desenvolvimento pessoal, vocacionada para acolhimento ao usuário ou dependente de drogas em vulnerabilidade social; IV - avaliação médica prévia; V - elaboração de plano individual de atendimento; VI - vedação de isolamento físico do usuário ou dependente de drogas Não são elegíveis para o acolhimento as pessoas com comprometimentos biológicos e psicológicos de natureza grave que mereçam atenção médico- hospitalar contínua ou de emergência, caso em que deverão ser encaminhadas à rede de saúde. Referência: • Lei Nº 11.343, de 23 de agosto de 2006. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004- 2006/2006/lei/l11343.htm 3) CONHECER A NOVA POLÍTICA NACIONAL DE DROGAS, ESCLARECENDO AS MUDANÇAS E SEU IMPACTO PARA OS USUÁRIOS E SERVIÇOS DE SAÚDE (RETROCESSOS OU MELHORIAS); → Categoria 2: drogas Amplamente mencionada no documento, a segunda categoria de análise “Drogas”, se refere ao debate em torno das Diretrizes da Política Nacional sobre Drogas (PND), que passaria a sofrer alterações com a Nota Técnica aqui analisada. As modificações da PND envolveriam orientações de tratamento e de reinserção https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11343.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11343.htm Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2023.2 Página | 7 social de pacientes que apresentam dependência química. Percebe-se como um dos pontos mais fortes da discussão em torno da Política de Drogas, a “abstinência”, considerada uma solução plausível e louvável. Nesse sentido, procura-se afastar a lógica da estratégia de Redução de Danos, e centralizar na abstinência o método de tratamento para os usuários de drogas. O conceito amplo de Redução de Danos envolve estratégias de prevenção à saúde minimizadoras das consequências negativas vinculadas ao uso de drogas, sem necessariamente interferir na oferta ou no consumo delas, primando pelo respeito à liberdade de escolha e responsabilidade do indivíduo. No extremo oposto, o paradigma da abstinência prega a descontinuidade imediata do uso pela imposição. Esse tipo de tratamento, o qual defende a ruptura do uso como a principal estratégia de saúde pública, não se baseia em evidencias científicas comprobatórias do melhor tipo terapêutico e, assim, se coloca contra os avanços da Reforma Psiquiátrica e da Política Nacional de Redução de Danos. Além disso, conforme estabelecido na Medida Provisória n. 870, de 1 de janeiro de 2019, a Política Nacional sobre Drogas passa, desde então, a ser de competência da nova Secretaria Nacional de Cuidados e Prevenção às Drogas, do Ministério da Cidadania. Com essa separação entre as duas políticas, PNSMe Política de Drogas, fica patente a obstaculização à aplicação aos usuários de álcool e outras drogas dos princípios que regem a atenção psicossocial, voltada ao cuidado em comunidade e à reinserção social do indivíduo. Referências: • Miguel & Medeiros. A volta dos Manicômios: Reflexões acerca da Nota Técnica n. 11/2019 - CGMAD/DAPES/SAS/MSN. 2022. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/cbsm/article/do wnload/80699/51213 O PLC (Projeto de Lei da Câmara) 37, de 2013 A Secretaria Nacional de Cuidados e Prevenção às Drogas do Ministério da Cidadania e a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas do Ministério da Justiça e Segurança Pública articularão e coordenarão a implementação da Pnad, no âmbito de suas competências. Comunidades terapêuticas Uma das questões centrais da PLC 37 é o fortalecimento das comunidades terapêuticas. Embora atendam a dependentes de drogas em recuperação, elas não são consideradas clínicas nem estabelecimentos médicos, mas entidades filantrópicas. A nova legislação não apenas estebelece o atendimento do dependente químico nas comunidades, mas prevê a possibilidade de as instituições receberem dinheiro público por meio de isenção fiscal. Há mais de 1.800 comunidades do tipo no Brasil atualmente, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O PLC 37 transforma em lei uma política de dar prevalência às comunidades terapêuticas que já tinha sido adotada pelo Executivo. Endurecimento das política antidrogas A nova legislação estabelece como meta no tratamento de dependência química a abstinência, deixando de lado políticas de redução de danos – conjunto de práticas de saúde pública adotadas em diversos países com o objetivo de diminuir os danos causados pelo uso de drogas em pessoas que não conseguem ou não querem parar. A mudança vai contra o entendimento de parte da comunidade médica e acadêmica de que as políticas de redução de danos são medidas efetivas e necessárias quando em conjunto com tratamentos focados em abstinência. O PLC 37 também facilita a internação involuntária, que poderá ser pedida por familiar ou servidor público da saúde ou da assistência social; determina que o paciente possa ficar internado contra sua vontade por até três meses e estabelece a necessidade de autorização médica para que a internação seja encerrada. Atualmente, a família pode escolher pela liberação do dependente. O projeto também trata das penas para o tráfico - a pena mínima para quem "atue no comando de organização criminosa" passa de 5 para 8 anos de prisão. Também há a determinação de que a pena seja reduzida se o acusado não for reincidente e não integrar organização crimininosa ou se "as circunstâncias do fato e a quantidade de droga" demonstrarem "menor potencial lesivo da conduta". Referência: • MORI, Letícia. O que muda com a lei sobre drogas que o Senado correu para aprovar? BBC News Brasil, 16 mai. 2023. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-48299757 4) COMPREENDER A POLÍTICA DE REDUÇÃO DE DANOS PARA AS SITUAÇÕES DE VULNERABILIDADES E O SEU FUNCIONAMENTO; A redução de danos é um conjunto de estratégias que tem por objetivo oferecer alternativas de cuidados à saúde que possam ser adotadas sem abandonar a prática do uso de drogas. Ou seja, enquanto não for possível a adoção da abstinência, outros riscos à saúde https://periodicos.ufsc.br/index.php/cbsm/article/download/80699/51213 https://periodicos.ufsc.br/index.php/cbsm/article/download/80699/51213 https://www.bbc.com/portuguese/brasil-48299757 Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2023.2 Página | 8 podem ser evitados, como por exemplo, as doenças infectocontagiosas transmissíveis por via sanguínea, como é o caso do HIV/aids, hepatites e sífilis. Essa abordagem leva em consideração a complexidade do fenômeno, a diversidade dos usos e as particularidades culturais dos usuários, possibilitando, desta forma, uma melhor compreensão da hierarquia de riscos no cotidiano do uso de drogas. A redução de danos parte do pressuposto que é impossível acabar com as drogas no mundo, eliminando totalmente seu consumo. Comporta ações voltadas para as drogas lícitas e ilícitas e suas intervenções não são controladas exclusivamente pelos órgãos governamentais e policiais. Diferencia-se, portanto, do modelo preventivo tradicional que, ao desconsiderar a complexidade que envolve os diferentes usos de drogas, busca um objetivo unívoco: a abstinência, meta idealizada e restritiva. A redução de danos está fundamentada nos princípios de democracia, cidadania, direitos humanos e de saúde. Os cinco princípios da redução de danos: I. A RD é uma alternativa de saúde pública para modelos moral/criminal e de doença do uso e da dependência de drogas. II. A RD reconhece a abstinência como resultado ideal, mas aceita alternativas que reduzam danos. III. A RD surgiu principalmente como uma abordagem de “baixo para cima”. IV. A RD promove acesso a serviços de baixa exigência como alternativa para abordagens tradicionais de alta exigência. V. A RD baseia-se nos princípios do pragmatismo empático versus idealismo moralista. As estratégias de redução de danos têm sido implementadas com mais frequência desde 1984 e, de lá para cá, as diversas formas de uso seguro de drogas têm sido discutidas com usuários e trabalhadores do campo das drogas como forma de aprimorar as ações de prevenção e assistência. No início, acreditava-se que a RD era um conjunto de estratégias de prevenção; depois, com o desenvolvimento das ações e teorização dos seus princípios, pode-se perceber que a RD comporta ações de assistência. Ações no Brasil O primeiro PTS (Programa de Trocas de Seringas) surge em Amsterdã, em 1984, para prevenir Hepatite B. A partir da boa experiência e com o conhecimento da transmissão sanguínea do HIV, outros PTS começam a surgir no mundo. A partir de 1993, começam a surgir vários programas de redução de danos no Brasil, alguns deles com troca de seringas usadas por novas. Em 1998, tínhamos cerca de 200 programas em diversos municípios do Brasil. Em 2006, apontava um número menor; outros dados são apontados no Brasil por conta de a redução de danos entrar como princípio norteador na Política Nacional de Saúde Mental, fazendo com que diversos serviços de saúde mental fossem implementados sob a ótica das estratégias de redução de danos. No início do século XXI, com a implantação dos programas de redução de danos, o contato com os usuários de várias drogas aumentou e foi possível acompanhar a entrada de crack nas cenas grupais de uso de drogas. De imediato, o crack passa a ser a droga de escolha de vários usuários e novas estratégias de redução de danos começam a ser pensadas e testadas como forma de intervenção para o manejo dos usuários de crack. A troca de cachimbos foi uma das estratégias pensadas, mas na prática se tornou ineficaz; o porte de cachimbo, sua especificidade, o material do qual ele é feito, tamanho, comprimento, ou seja, as características individuais de cada cachimbo tornaram a prática de troca descrente. Fez-se, então, as oficinas de construção de cachimbos que até o momento parece ser uma prática assertiva, na medida em que ajuda o usuário a construir seu próprio cachimbo para que não haja seu compartilhamento, evitando a transmissão de doenças como Tuberculose e Hepatite C. Outra ação importante para usuários de crack é a distribuição de protetores labiais e piteiras para uso individual. Isso quer dizer que, caso haja compartilhamento do cachimbo, deve ser adicionada uma piteira de uso individual. Atualmente, a redução de danos aparece como princípio norteador dos serviços de saúde mental e de Aids/hepatites virais do Brasil. Há ações de assistência, como serviçosde baixa exigência para o tratamento ao uso de drogas e ações de prevenção, como serviços de distribuição de insumos para o uso de drogas. Há, ainda, o trabalho de diversas Organizações Não Governamentais e coletivos que atuam com práticas de prevenção relacionadas ao uso de drogas baseadas na redução de danos em festas e espaços de uso de drogas, fazendo orientação ao uso e socorro em caso de intoxicação. São diferentes estratégias para diferentes drogas, como cocaína inalada e drogas sintéticas. Mas enganam-se as pessoas que acreditam que as estratégias de redução de danos estão focadas somente nas drogas qualificadas como ilícitas. Boa parte das estratégias de redução de danos foram desenvolvidas para as drogas qualificadas como lícitas; estratégias Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2023.2 Página | 9 para o consumo do tabaco e do álcool são implementadas por diferentes atores de diferentes serviços. Referência: • UNIFESP. Redução de Danos: Conceitos e Práticas. Disponível em: https://www.tjmt.jus.br/intranet.arq/cms/grupopagin as/105/988/Redu%C3%A7%C3%A3o_de_danos_- _conceitos_e_pr%C3%A1ticas.pdf No âmbito da prevenção às IST, ao HIV/aids e às hepatites virais, as ações de redução de danos estão voltadas, principalmente, às pessoas que usam álcool e outras drogas, silicone líquido industrial e hormônios e têm por objetivo evitar a transmissão, promover a melhoria da qualidade de vida e garantir o acesso à saúde. As ações podem variar desde a oferta de insumos, de forma singularizada, para prevenir a transmissão sexual ou parenteral, por meio de intervenções comportamentais, até intervenções estruturais relacionadas à redução do estigma, de inequidades e de barreiras de acesso à saúde. Referência: • Ministério da Saúde. Redução de danos, 17 ago. 2022. Disponível em: https://www.gov.br/aids/pt- br/assuntos/prevencao-combinada/reducao-de- danos 5) ENTENDER O FUNCIONAMENTO DO CONSULTÓRIO NA RUA, SEUS COMPONENTES, QUANDO É INDICADA A SUA IMPLEMENTAÇÃO E OS ELEMENTOS ESSENCIAIS PARA O CUIDADO DA POPULAÇÃO DE RUA. Equipes de Atenção Básica para populações em situações específicas - Equipe de Consultório na Rua: equipe constituída por profissionais que atuam de forma itinerante, ofertando ações e cuidados de saúde para a população em situação de rua, considerando suas diferentes necessidades de saúde, sendo responsabilidade dessa equipe, no âmbito da Rede de Atenção Psicossocial, ofertar cuidados em saúde mental, para (1) pessoas em situação de rua em geral; (2) pessoas com transtornos mentais; e (3) usuários de crack, álcool e outras drogas, incluindo ações de redução de danos, em parceria com equipes de outros pontos de atenção da rede de saúde, como Unidades Básicas de Saúde, Centros de Atenção Psicossocial, Prontos-Socorros, entre outros. Quando necessário, a Equipe de Consultório na Rua poderá utilizar as instalações das UBS do território. Consultório de Rua O Consultório de Rua é uma experiência que surgiu no início de 1999, em Salvador, na Bahia, realizada pelo Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas – CETAD, instituição criada como extensão da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Os Consultórios de Rua constituem uma modalidade de atendimento extramuros dirigida aos usuários de drogas que vivem em condições de maior vulnerabilidade social e distanciados da rede de serviços de saúde e intersetorial. São dispositivos clínico-comunitários que ofertam cuidados em saúde aos usuários em seus próprios contextos de vida, adaptados para as especificidades de uma população complexa. Promovem a acessibilidade a serviços da rede institucionalizada, a assistência integral e a promoção de laços sociais para os usuários em situação de exclusão social, possibilitando um espaço concreto do exercício de direitos e cidadania. Sua estrutura de funcionamento conta com uma equipe volante mínima com formação multidisciplinar constituída por profissionais da saúde mental, da atenção básica, e de pelo menos um profissional da assistência social, sendo estes: médico, assistente social, psicólogo, outros profissionais de nível superior, redutores de danos, técnicos de enfermagem e educadores sociais. Além desses, eventualmente, poderá contar com oficineiros que possam, estrategicamente, desenvolver atividades de arte-expressão. Para o desenvolvimento de suas atividades necessita de carro tipo perua (“van”), usado para fazer o deslocamento da equipe profissional e dos materiais necessários à realização das ações. O carro, além de transportar a equipe e os insumos, tem a função de se constituir como referência para os usuários. Para isso, a caracterização do veículo deve conter sua identificação institucional, com o nome Consultório de Rua - SUS marcando a presença do serviço público de saúde. É interessante também que seu “layout” esteja de acordo com a linguagem do público que deverá acessar - usuários jovens de substâncias psicoativas em situação de maior vulnerabilidade. Há veículos de Consultórios de Rua que foram grafitados ou que portam adesivos de símbolos contendo alguma significação para este segmento jovem. A ideia é favorecer à clientela traços de identificação com o dispositivo e promover a construção de um vínculo desde o primeiro momento. O carro é um dos elementos que podem contribuir para a aproximação inicial e a construção do Consultório de Rua como um referencial para os cuidados com a saúde. O terceiro aspecto diz respeito a um ponto fixo onde os Consultórios de Rua devem se instalar em cada área de atuação previamente definida. Considerando o fato de que, em muitos locais escolhidos para a intervenção, a população alvo é flutuante, é necessário https://www.tjmt.jus.br/intranet.arq/cms/grupopaginas/105/988/Redu%C3%A7%C3%A3o_de_danos_-_conceitos_e_pr%C3%A1ticas.pdf https://www.tjmt.jus.br/intranet.arq/cms/grupopaginas/105/988/Redu%C3%A7%C3%A3o_de_danos_-_conceitos_e_pr%C3%A1ticas.pdf https://www.tjmt.jus.br/intranet.arq/cms/grupopaginas/105/988/Redu%C3%A7%C3%A3o_de_danos_-_conceitos_e_pr%C3%A1ticas.pdf https://www.gov.br/aids/pt-br/assuntos/prevencao-combinada/reducao-de-danos https://www.gov.br/aids/pt-br/assuntos/prevencao-combinada/reducao-de-danos https://www.gov.br/aids/pt-br/assuntos/prevencao-combinada/reducao-de-danos Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2023.2 Página | 10 que se estabeleça um local, dia e hora para os encontros, mantendo-se a regularidade da presença da equipe de forma constante, de modo a criar uma referência e tornar os contatos mais acessíveis para os usuários. Um aspecto de grande relevância do Consultório de Rua é exatamente ser uma proposta de clínica na rua, especializada para o atendimento de problemas relacionados ao consumo de substâncias psicoativas. A perspectiva de uma oferta programada, tal como se modela este dispositivo, implica em ofertar onde ainda não há uma demanda de ajuda explicitada. Não havendo as condições prévias estabelecidas, tudo está por se fazer. De modo que o lugar do profissional é construído a partir do momento em que se coloca no contexto do trabalho, assim como o lugar do Consultório de Rua. Diferentemente do trabalho dentro de uma instituição, quando é o usuário que busca o serviço e cujas condições de atendimento já estão dadas, com toda a ambiência ajudando a compor o setting terapêutico, incluindo o lugar que o profissional ocupa na organização do serviço, na rua esses lugares precisam ser construídos a partir do trabalho e da posição em que os profissionais se colocam para os usuários. No seu posicionamento, a equipe deve explicitar o propósito da presença do Consultório de Rua e quais as características do seu trabalho, diferenciando-o de outras ações desenvolvidas na rua,como ações de cunho caritativo. Assim, gradativamente, vai-se demarcando o lugar do Consultório de Rua enquanto um dispositivo do campo da saúde. Um dos eixos éticos dos Consultórios de Rua se refere ao respeito ao modus vivendi da população atendida. Não cabe à equipe nenhuma forma de julgamento ou censura moral aos comportamentos dos indivíduos, seja com relação ao uso de substâncias psicoativas ilícitas, ou a condutas delinquentes ou antagônicas à moral e costumes tidos como aceitáveis. O papel dos profissionais é exatamente o de acessar um segmento que muitas vezes está à margem da rede de saúde e social por temer o estigma e a rejeição. A aceitação de cada um destes usuários enquanto sujeitos e o respeito ao lugar que ocupam na escala social confere ao Consultório de Rua a possibilidade de construção de um vínculo de confiança, base sobre a qual se desenvolverá o trabalho. A redução de danos é estratégia prioritária no atendimento aos usuários, respeitando seu tempo e escolha em relação ao consumo das substâncias psicoativas utilizadas, buscando reduzir os danos decorrentes sem imposição de condições rígidas para seu tratamento. Critérios de implantação municipal Os municípios que apresentam perfil epidemiológico para incluir este dispositivo como um equipamento de saúde para usuários de AD excluídos da rede, inserindo-os na rede formal de saúde, possibilitando seu acesso para cuidados relacionados aos problemas decorrentes do consumo de álcool e outras drogas. Como um parâmetro geral, os Consultórios de Rua são indicados para municípios com população superior a 300 mil habitantes, o que deve ser visto como uma orientação flexível. Referência: • Ministério da Saúde. Consultório de Rua do SUS, set. 2010. Disponível em: https://www5.pucsp.br/ecopolitica/downloads/pesq uisas/1_B_2010_Consultorio_rua_SUS_conselho_s aude_mental.pdf https://www5.pucsp.br/ecopolitica/downloads/pesquisas/1_B_2010_Consultorio_rua_SUS_conselho_saude_mental.pdf https://www5.pucsp.br/ecopolitica/downloads/pesquisas/1_B_2010_Consultorio_rua_SUS_conselho_saude_mental.pdf https://www5.pucsp.br/ecopolitica/downloads/pesquisas/1_B_2010_Consultorio_rua_SUS_conselho_saude_mental.pdf