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INSTALAÇÃO E PROTEÇÃO DE MOTORES ELÉTRICOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Comparar os diferentes motores elétricos e suas características. > Descrever o dimensionamento de motores. > Reconhecer o funcionamento da partida de motores elétricos de indução. Introdução Devido à facilidade com que a energia elétrica pode ser transmitida e controlada, é natural que o motor elétrico seja o tipo mais encontrado em aplicações tanto industriais quanto residenciais. Os motores elétricos transformam a energia elétrica em movimento, e isso permite o seu uso nas mais diversas aplicações. Contudo, não basta apenas adotar um motor elétrico para a sua aplicação. É necessário o entendimento correto do trabalho que será desempenhado pelo motor e do tipo de alimentação disponível, para que seja adotado o motor ideal para a instalação. Neste capítulo, você vai aprender a identificar os principais tipos de moto- res elétricos e as aplicações para cada tipo de motor. Você também vai estu- dar o cálculo para as potências e velocidades presentes em motores elétricos. Por fim, você vai compreender o funcionamento da partida dos motores elétricos de indução. Instalação e proteção de motores elétricos Eduardo Scheffer Saraiva Motores elétricos O motor elétrico é uma máquina que converte a energia elétrica em energia mecânica. Esse motor apresenta diversas vantagens, devido à facilidade de transmissão da energia elétrica. Assim, ele apresenta baixos custos, controle de velocidade mais simples, adaptação em relação a diferentes cargas, entre outros aspectos. Devido a esse conjunto de vantagens, o consumo de energia associado aos motores elétricos representa uma boa parte do consumo ener- gético de um país industrializado. No Brasil, o valor do consumo de motores elétricos industriais chega a 26%, o que demonstra o papel que os motores elétricos assumem nos mais variados projetos e instalações (WEG, 2019). Antes de conhecer os diferentes tipos de motores elétricos, é necessário entender o princípio de funcionamento desses motores. Motores elétricos funcionam por meio da interação entre o campo magnético presente no estator (parte fixa externa do motor) e a corrente elétrica que está sendo conduzida no rotor (parte interna girante do motor). Esse conceito está representado na Figura 1. O rotor gira, pois o arranjo do condutor e do campo magnético é feito de tal modo que uma força é exercida perpendicularmente em relação ao condutor e ao campo magnético. Com a alteração do sentido da corrente, esse processo se torna contínuo e exerce um torque na saída rotor. Figura 1. Princípio de funcionamento de um motor elétrico. Fonte: Emre Terim/Shutterstock.com. Existem diversos tipos de motores elétricos voltados para inúmeras aplica- ções distintas. Contudo, podemos dividir os motores em dois grandes grupos: os motores de corrente contínua (CC) e os motores de corrente alternada (CA). Instalação e proteção de motores elétricos2 Motores de corrente contínua Esses motores, como o nome sugere, são motores alimentados por CC. São muito utilizados em veículos, aeronaves e manipuladores robóticos, devido à facilidade com que podemos controlar a sua velocidade (NOROUZI; KOCH, 2019; WANG et al., 2019). Os motores CC apresentam em seu interior o comutador, responsável pelo processo de comutação, que converte a tensão e a CA do rotor em tensão e CC em seus terminais (CHAPMAN, 2013). Na Figura 2, estão representados os componentes do motor CC. Figura 2. Estrutura de um motor de corrente contínua. Fonte: Adaptada de Hughes e Drury (2019). Enrolamento de campo Condutores de armadura Escovas Comutador Entre os motores CC mais comumente encontrados na prática, temos o motor CC em série, o motor CC em derivação e o motor CC composto, descritos a seguir. � Motor CC em série: apresenta enrolamentos de campo ligados em série com os enrolamentos de armadura. Uma vez que a ligação está em série, o fluxo no enrolamento em série é proporcional à corrente de armadura. Quanto maior o fluxo no motor, maior é o conjugado e menor será a velocidade do motor. Dessa forma, esse motor apresenta um maior conjugado por ampere que os demais motores CC, sendo usado em aplicações que necessitam de grandes torques. Instalação e proteção de motores elétricos 3 � Motor CC em derivação: apresenta enrolamento de campo ligado em paralelo com o enrolamento de armadura. Essa ligação em paralelo permite ao motor manter velocidade constante mesmo com mudan- ças no valor da carga. Encontra maior utilização em aplicações que necessitam de um maior controle de velocidade e torque. � Motor CC composto: apresenta dois enrolamentos, um sendo ligado em série e outro em paralelo. Esses enrolamentos permitem que esse motor combine as características tanto do motor CC em série quanto do motor CC em derivação. Ou seja, esse motor é utilizado em aplicações que necessitam de maior torque e de um controle mais refinado para velocidade. Na Figura 3 é apresentado o circuito equivalente para os diferentes ti- pos de motores CC apresentados até aqui, onde EA é a tensão de armadura, RA é a resistência de armadura, Ls e Rs representam o enrolamento em série, e Lf e Rf representam a bobina de campo responsável por produzir o fluxo magnético do motor. Figura 3. Motores de corrente contínua: (a) em série; (b) em derivação; (c) composto. Fonte: Adaptada de Chapman (2013). Instalação e proteção de motores elétricos4 Motores de corrente alternada Em grande parte das aplicações industriais, o profissional vai se deparar com esse tipo de motor. Os motores CA são os motores elétricos alimentados por uma fonte de CA; eles podem ser divididos em aplicações alimentadas por redes trifásicas ou monofásicas. Os motores trifásicos são aqueles alimen- tados por um sistema a três fios, em que as tensões estão defasadas entre si com um ângulo de 120°. Já os motores monofásicos são alimentados por CA, porém, não são capazes de produzir um campo magnético rotativo. Assim, é necessário um segundo enrolamento defasado 90°, o que vai permitir a partida do motor monofásico (MAMEDE FILHO, 2000). O motor mais utilizado industrialmente é o motor de indução trifásico (MIT), também conhecido como motor assíncrono trifásico. Esse motor apresenta uma velocidade no rotor sempre inferior à velocidade do campo magnético girante do estator, que é chamada de velocidade síncrona. Na Figura 4 é apresentado o circuito equivalente por fase para um motor de indução. Figura 4. Circuito equivalente por fase de um motor de indução. Fonte: Adaptada de Chapman (2013). Esse motor apresenta grande uso industrial, devido à sua maior lon- gevidade, à simplicidade tanto de construção como de manutenção e aos menores custos em relação aos demais motores, tanto para a compra como para a manutenção. Instalação e proteção de motores elétricos 5 Dimensionamento de motores elétricos Para a escolha de um motor elétrico, é necessário obter o maior número de informações a respeito da aplicação e do ambiente onde a aplicação está situada. A tensão de alimentação, a potência e o torque necessários à aplicação e se ela será uma aplicação contínua ou intercalada são pontos importantes na escolha de um motor elétrico. Para dimensionar corretamente motores para as aplicações na prática, é preciso conhecer alguns dos fundamentos físicos presentes em motores elétricos. Começaremos pelo conceito de velocidade de rotação. Como foi abordado anteriormente, o rotor gira de modo a acompanhar a rotação do campo magnético girante do estator, de modo que a velocidade com que o campo magnético está girando é determinada pela frequência de alimentação da rede e dada pela seguinte equação: onde f é a frequência da rede em Hz e p é o número de polos presentes no motor. Perceba que essa é a velocidade síncrona, e não a velocidade com a qual o rotor está girando. Para motores assíncronos, a diferença entre a velocidade síncrona e a velocidadedo rotor dá origem ao conceito de escorregamento, que é dado pela expressão a seguir: onde ω é a velocidade de rotação do rotor. Como podemos perceber, se o escorregamento for de s = 0, temos um motor síncrono cuja velocidade do rotor é igual à velocidade síncrona. Considere um motor de quatro polos que está recebendo uma ali- mentação da rede de 220 V e 50 Hz e no qual a velocidade do rotor é de 1.300 rpm. Calcule o escorregamento presente nesse motor. Instalação e proteção de motores elétricos6 Solução: Para iniciar a resolução do problema, devemos calcular a velocidade de rotação síncrona, dada pela seguinte expressão: Como sabemos que a velocidade angular do rotor é de 1.300 rpm, calculamos o escorregamento da seguinte maneira: Outra medida importante em motores elétricos é o seu rendimento. O rendimento nada mais é do que a taxa em que a energia elétrica é conver- tida em energia mecânica. O processo de conversão apresenta perdas de potência ao longo do caminho. Podemos estimar essas perdas por meio do rendimento dado a seguir: Conhecendo a potência de saída (potência mecânica) e a potência de entrada (potência elétrica), podemos obter o rendimento do motor. O cálculo da potência mecânica em um motor é dado pela multiplicação entre o torque e a velocidade angular no rotor em rad/s: Psaída = τω Já o cálculo da potência de entrada vai depender do tipo de motor com o qual estamos trabalhando. Para motores CC, temos: Pentrada = VI onde V é a tensão em volts e I é a corrente em amperes. Instalação e proteção de motores elétricos 7 Para motores CA, o cálculo da potência é dado por: onde VL e IL são, respectivamente, a tensão e a corrente de linha, cos θ é o fator de potência, e θ é a defasagem entre tensão e corrente de fase (ALE- XANDER; SADIKU, 2013). Considere um motor CC alimentado por uma tensão de 220 V e que usa uma corrente de 30 A. Esse motor apresenta em sua saída um torque de 23,9 Nm e uma velocidade no rotor de 2.000 rpm. Calcule o rendimento desse motor. Solução: Para resolver este exercício, utilizamos a fórmula para a potência de entrada em motores CC, de modo que obtemos a seguinte potência na entrada do motor: Pentrada = VI = 220 ∙ 30 = 6,6 kW Para a obtenção da potência mecânica, é necessário converter o valor da velocidade de rotação de rpm para rad/s. Isso pode ser obtido por meio da seguinte relação: Dessa forma, podemos calcular a potência de saída como: Psaída = τω = 23,9 ∙ 209,43 = 5 kW Com isso, é possível obter o rendimento do motor na ordem de: A potência e a velocidade de rotor de um motor elétrico são característi- cas essenciais na escolha adequada de um motor para aplicação industrial. Assim, estar atento às necessidades de cada aplicação é determinante para a escolha do motor. Instalação e proteção de motores elétricos8 Partida de motores elétricos de indução Durante a partida de motores elétricos, é demandado da rede elétrica um grande valor de corrente. Isso pode comprometer a integridade da instalação, causando queda de tensão, prejudicar o funcionamento de equipamentos tanto de comando quanto de proteção e pôr em risco a segurança da instalação. Motores de grande porte podem, sozinhos, causar quedas de tensão que poderiam danificar equipamentos. Porém, é comum a partida de diversos motores simultaneamente. Para contornar esses problemas e aumentar a vida útil tanto dos motores quantos dos equipamentos presentes na instalação elétrica, é comum adotar circuitos que permitem um determinado nível de controle sobre a demanda de corrente durante a partida dos motores. A seguir, serão apresentados os principais tipos de partida para MITs. � Partida direta: método mais simples para o acionamento do motor, em que o motor é simplesmente alimentado pela rede. Como é de se imaginar, para empregar esse tipo de partida, é necessário que o motor apresente valores baixos de potência, inferiores a 5 cv, de modo que a corrente de partida não cause nenhum dano ao sistema. Outro ponto importante a observar na partida direta é que ela não é indicada para aplicações que exigem um acionamento progressivo. � Partida por meio de chave estrela-triângulo: esse método só pode ser empregado em motores que apresentem no mínimo seis terminais e apresentem dupla tensão nominal. A partida é constituída pelo acio- namento do motor em uma ligação estrela, de modo que a corrente de partida e o torque ficam reduzidos em 1/3. Após um breve período, a ligação é substituída pela ligação em triângulo, de modo a normalizar a tensão de trabalho do motor. Essa técnica apresenta baixo custo e garante menores correntes de partida, o que faz com que as quedas de tensão também diminuam. A maior desvantagem está relacionada com a estrutura do motor. Ainda, o tempo entre a troca de ligação estrela para triângulo só poderá ocorrer quando atingido no mínimo 90% da velocidade de regime, de modo a não elevar a corrente na partida. � Partida por meio de chave compensadora: nesse método, é empre- gado um autotransformador ligado ao estator, de modo a controlar a partida do motor. Instalação e proteção de motores elétricos 9 � Partida por meio de chaves estáticas: esse método emprega um circuito controlado por um microprocessador, de modo a aplicar diferentes níveis de tensão aos terminais do motor. Isso implica em um controle mais refinado tanto dos valores de torque quanto da corrente de par- tida. Além disso, é possível realizar o acionamento em rampa, o que é ideal para aplicações que necessitam de acionamento gradual. Os circuitos de partidas são construídos de modo a contemplar também a proteção do motor, como proteção contra curto-circuito, proteção contra sobrecarga, proteção contra subtensão etc. A Figura 5 apresenta um exemplo de um circuito de partida no qual foram adicionados diferentes componentes para a proteção do motor. Em azul, estão representados os fusíveis, que trabalham como proteção contra curtos-circuitos. Isso porque, durante um curto-circuito, a corrente aumenta muitas vezes em relação à corrente nomi- nal; isso causará a queima dos fusíveis e o desligamento da alimentação do motor. Em verde, está a proteção contra subtensão, que se dá pela utilização de um relé, que está sendo energizado pela rede de alimentação, assim como o motor representado pela letra R. Caso a tensão de alimentação diminua, o relé deixará de estar energizado e abrirá os contatos apresentados em verde na figura, o que vai interromper a alimentação do motor. Por fim, em vermelho, está representada uma proteção contra sobrecargas dada por relés térmicos, que vão interromper a alimentação caso exista um aquecimento excessivo do motor. Figura 5. Exemplo de circuito de partida para motores de indução trifásicos. Fonte: Adaptada de Chapman (2013). Instalação e proteção de motores elétricos10 Referências ALEXANDER, C. K.; SADIKU, M. Fundamentos de circuitos elétricos. 5. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013. CHAPMAN, S. J. Fundamentos de máquinas elétricas. 5. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013. HUGHES, A.; DRURY, B. Electric motors and drives: fundamentals, types and applications. 5th ed. Oxford: Newnes, 2019. MAMEDE FILHO, J. Instalações elétricas industriais. Rio de Janeiro: LTC, 2000. NOROUZI, A.; KOCH, C. R. Robotic manipulator control using PD-type fuzzy iterative learning control. In: IEEE CANADIAN CONFERENCE OF ELECTRICAL AND COMPUTER EN- GINEERING (CCECE), 2019, Edmonton. Anais [...]. Edmonton: IEEE, 2019. p. 1–4. WANG, X. et al. Adaptive control of Dc motor servo system with application to vehicle active steering. IEEE/ASME Transactions on Mechatronics, [s. l.], v. 24, n. 3, p. 1054–1063, 2019. WEG. Motores eficientes geram economia de energia na indústria. Valor Econômico, [s. l.], 2 dez. 2019. Disponível em: https://valor.globo.com/patrocinado/weg/weg/ noticia/2019/12/02/motores-eficientes-geram-economia-de-energia-na-industria. ghtml. Acesso em: 7 dez. 2020. 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