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30 Unidade II Unidade II 5 ESTILÍSTICA Trataremos agora do segundo enfoque de nossa disciplina, que é a estilística enquanto estudo dos recursos que a língua oferece para a expressão verbal humana. Iniciaremos, assim, com sua definição e, sem seguida, trataremos, metodologicamente, de descrições dessa expressividade, desde o que se considera nível fonológico até a instância da enunciação. 5.1 Estilística: definição Ao iniciarmos nossos estudos, vêm à tona questões como: “o que é estilística?”, “o que é estilo?” ou “por que estudar semântica e estilística ao mesmo tempo?”. Assim tentaremos responder às questões enunciadas, de modo que entendamos os objetivos de nossa disciplina. Iniciamos, pois, buscando a definição de estilística. De acordo com o que temos visto em obras referentes ao assunto, quando se trata dessa questão, associamos esse estudo ao estilo e daí vem a dúvida: o que é estilo? Segundo Martins, têm sido numerosas as definições de estilo e, de forma reduzida, pode-se considerar esse conceito sob três perspectivas: “[...] 1) as que consideram estilo como desvio da norma; 2) as que julgam como elaboração; 3) as que o entendem como conotação [...]” (Martins, 2000, p. 1). Além disso, alguns teóricos consideram o estilo apenas quando se trata de língua literária, ao passo que outros o consideram de acordo com a diversidade de uso da língua; há, ainda, os que relacionam estilo à obra, ao autor, ao leitor ou, mais especificamente, à forma da obra ou à totalidade dela. Voltando à definição da autora, podemos definir a estilística como “uma das disciplinas voltadas para os fenômenos da linguagem, tendo por objetivo o estilo” (Martins, 2000, p. 1). Tais estudos iniciaram-se com Charles Bally, em 1902, o qual apresenta em suas investigações a diferença fundamental entre língua e linguagem. Na visão desse estudioso, há três graus de estudo da estilística, conforme Ramos (2006): a) Estilística geral ou da linguagem: estudo das tendências e suas manifestações na língua. b) Estilística particular ou da língua: verifica como certa comunidade linguística reflete sua mentalidade no idioma correspondente. c) Estilística individual: apresenta as características ideológicas, temperamentais no sistema expressivo de uma pessoa. 31 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA A estilística nasce na retórica aristotélica como figura de adorno, no estruturalismo passa a ser considerada item gramatical, desvio da norma, tornando-se, nesse momento, a introdução da noção de erro, de repetição como erro gramatical. Já no pós-estruturalismo, estilo incorpora o produto de intenções. No entanto, há divergências com relação à classificação dessa disciplina e, nesse sentido, Martin Alonso considera a existência de dois tipos: a estilística linguística (que tem por base os estudos da língua informal, não padrão, isto é, do uso popular da língua) e a estilística literária (mais voltada aos problemas da língua erudita, estilizada). Lembrete Se repensarmos a noção de semântica, temos que considerar que a estilística e a semântica não são estudos separados, mas sim que um decorre do outro na medida em que, para estabelecer efeitos de sentido a cada contemporaneidade, são necessárias novas formas de dizer. 5.2 Estilística: classificação Dessa forma, observamos que, dependendo da metodologia, há um enfoque diferente nos estudos que constituem a estilística. Nesse sentido, Nilce Sant’anna Martins, a autora do livro Introdução à estilística (o qual é indicado nas referências textuais de nossa disciplina), faz a seguinte divisão: 5.2.1 A estilística da língua (ou da expressão linguística) Tem por base os estudos de Bally, que distingue a face intelectiva da linguagem da face afetiva. Essa corrente tem por objeto de estudo a descrição do sistema expressivo da língua coletiva (a “langue” para Saussure), não considerando, portanto, o discurso, a fala (“parole” para Saussure), que corresponde ao uso individual da língua. Em se tratando da língua portuguesa, temos como representante dessa vertente Manuel Rodrigues Lapa, que estuda valores expressivos do vocabulário português, das várias classes de palavras, bem como de algumas construções sintáticas, dando relevo às concordâncias irregulares. Além desse, podemos também considerar Mattoso Câmara Jr., que considera a estilística uma disciplina complementar da gramática, apoiando sua concepção em três funções da linguagem: representação, expressão e apelo. Nesse sentido, a representação corresponde à linguagem intelectiva e a expressão, assim como o apelo, corresponde à linguagem afetiva de Bally. Nessa perspectiva, a linguística, em sentido amplo, abrange a gramática e a estilística, já em sentido restrito, abrange apenas a gramática. 32 Unidade II Observação A função essencial da língua é representar mentalmente a realidade, todavia os falantes alteram o sistema linguístico com a finalidade de exprimir emoções e de influir sobre as pessoas. É esse uso da língua, que vai além do intelectivo, que Mattoso Câmara considera estilo e, consequentemente, objeto de estudo da estilística. 6 ESTILÍSTICA SOB OUTRAS PERSPECTIVAS 6.1 A estilística como sociolinguística Essa corrente vê a estilística como o estudo das variedades, sejam elas na língua falada, sejam na língua escrita, que são adequadas às diferentes situações e próprias de diferentes classes sociais. Para esses pesquisadores, estilística é o mesmo que sociolinguística. Lembrete Lembre-se de que você viu na disciplina Linguística (ou em Teorias do Texto) as vertentes de estudo e uma delas é a Sociolinguística, que vê a língua em interface com as Ciências Sociais, isto é, inclui o homem como objeto ao estudar a língua. 6.2 Estilística literária Corrente iniciada por Leo Spitzer, parte da reflexão, de cunho psicologista, sobre os desvios da linguagem em relação ao uso comum. Trata das questões da motivação do texto, ou seja, ao se analisar um texto nessa perspectiva, deve-se considerar que é preciso buscar o que o autor sentiu no momento de sua criação ou buscar informações que nos levem à origem da criação. Isso significa analisar o texto à procura de suas origens. O objetivo dos pesquisadores dessa vertente é, enfim, analisar como se constitui a obra literária, além de considerar o prazer estético que ela provoca no leitor. Em suma, o que interessa à estilística literária é a natureza poética do texto. 6.3 Estilística funcional e estrutural A partir dos elementos do processo de comunicação (emissor-contexto-mensagem-contato-código- destinatário), Jakobson preconizou funções da linguagem que estão relacionadas a cada um desses fatores. Por exemplo, se em um texto há tendência em focalizar o emissor, dizemos que a função da linguagem predominante é a emotiva; se o foco for o destinatário, teremos a função conativa e assim por diante. Nesse sentido, Jakobson formulou o princípio da função poética da linguagem a partir da visão estruturalista, por meio da qual existe uma equivalência entre o eixo da seleção (paradigma) e o eixo da combinação (sintagma). 33 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA Assim, como afirma Martins (2000): A repetição de fonemas em palavras diversas (rima, aliteração, assonância etc.) de um mesmo padrão vocabular (palavras com número de sílabas e posição de acento equivalentes), a série sinonímica, os antônimos, a repetição de um mesmo segmento melódico (pé métrico, verso), a simetria, o paralelismo, são, pois, exemplos de equivalências transpostas para a sequência do discurso, constituindo recursos poéticos [...]. Tomemos o exemplo da autora: Na frase Veni, vidi, vici, de César, Jakobson afirma que é a simetria dos três versos dissilábicos, com a consoante inicial e a vogal final idênticas, que dá o tom poético à fala lacônica do imperador. Enfim, essa corrente tem por princípio analisar o efeito poético a partir de combinação das estruturas do código linguístico, tendo em vista que essa organização enriquece o poder sugestivoPedro batia antes. Como para inferirmos que Pedro batia antes, temos que tomar isso como verdade, por exemplo, termos algum tipo de conhecimento anterior à sentença, o estudo das pressuposições estabelece-se no domínio de estudo da pragmática. Mesmo assim, não se deve desconsiderar que deve existir algum tipo de elemento semântico desencadeador da inferência. No exemplo posto, seria a expressão lexical parou de. Considere-se ainda que a semântica argumentativa de Oswald Ducrot dedicou-se inauguralmente ao estudo desse tipo de fenômeno linguístico (pressuposição), deslocando o estudo da unidade proposicional/sentencial para o acontecimento enunciativo, considerando ainda as enunciações anteriores que se articulam à possibilidade de enunciação desse tipo de enunciado: Pedro parou de bater na mulher. d) Condições de felicidade ou adequação ao contexto. A sentença “Eu vos declaro marido e mulher!” deve ser proferida ou enunciada por um representante da lei ou um padre para que seja um enunciado com sucesso. O estudo das condições de felicidade dos enunciados em seu contexto de uso está no domínio da pragmática. e) Implicaturas conversacionais: A: Você vai à aula? B: Estou com uma enxaqueca! A resposta dada por B não é a adequada e esperada por A. A tem de inferir algum outro tipo de significado do que B respondeu: certamente, B está querendo dizer que não vai à aula, pois está muito doente. A investigação dessas implicaturas decorrentes das conversações está no âmbito da pragmática, pois dependem exclusivamente do contexto de uso para serem compreendidas e analisadas. f) Inferências baseadas na estrutura conversacional. A está relatando a B um problema familiar e, ao longo de sua narrativa, B responde de vez em quando: “Sei, entendi.” Esse tipo de enunciado 65 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA tende a significar que B esteja atento ao que A está falando e que B possa prosseguir com seu turno de conversação. Nesse caso, o estudo de tomadas de turno, entre outros aspectos das conversações, está no domínio da pragmática. Considere-se ainda que estes aspectos da conversação a partir da década de 1980 tornaram-se categorias teóricas e de análise sistemáticas da área análise da conversação. No Brasil, o autor exponencial nesse assunto é Luiz Antônio Marcuschi. Stephen Levinson (2007) destaca assim que o sentido do termo pragmática merece uma tentativa de definição. Porém, não é fácil construir tal definição sem tropeçar em incoerências, restrições, insuficiências, e o autor tenta mostrar em seu trabalho certo número de possibilidades, que esboçam um leque de possíveis domínios para o campo da pragmática. Vejamos algumas dessas principais definições: “1. A pragmática é o estudo dos princípios que explicam por que certo grupo de sentenças corresponde a elocuções anômalas ou não possíveis” (Levinson, 2007, p. 7-8) Esse grupo de “alocuções anômalas” poderia incluir: ( 1 ) ?? Venha ali, por favor! ( 2 ) ?? Aristóteles era grego, mas eu não acredito nisso. ( 3 ) ?? Os filhos de Chico são rebeldes e ele não tem filhos. ( 4 ) ?? Os filhos de Chico são rebeldes e ele tem filhos. ( 5 ) ?? Ordeno-lhe que obedeça a esta ordem. ( 6 ) ?? Eu estou cantando perto daqui. ( 7 ) ?? Como todos sabem, a terra, por favor, gira em torno do sol. Para o autor, a explicação para as anomalias mostradas nessas sentenças poderia ser dada pelo fato de que não há nenhum contexto ou, pelo menos, nenhum contexto habitual nos quais elas possam ser adequadamente usadas. Mesmo que um argumento dessa classe seja uma boa maneira de ilustrar o tipo de princípios de que se vale a pragmática, não serviria isso como uma definição explícita da área, pela simples razão de que o conjunto de anomalias pragmáticas (em oposição às semânticas, sintáticas ou sociolinguísticas) é pressuposição ao invés de constatação. Outro problema é que geralmente é possível imaginar contextos em que as supostas anomalias possam ser, afinal de contas, empregadas - você pode experimentar algumas possibilidades com os exemplos anteriores! 66 Unidade II Essa linha de argumento baseia-se na distinção entre o uso ‘comum’ e o uso metalinguístico. De acordo com essa distinção, sentenças como (1) a (7) podem ser mencionadas, mas não podem ser facilmente usadas. “2. A pragmática é o estudo da linguagem numa perspectiva funcional” (Levinson, 2007, p. 7-8) Essa perspectiva tenta explanar facetas da estrutura linguística em referência a pressões e causas extralinguísticas. Mas tal definição ou escopo deixaria de distinguir a pragmática linguística de diversas outras disciplinas interessadas num enfoque funcional da linguagem, incluindo a psicolinguística e a sociolinguística. Além disso, poder-se-ia admitir que adotar uma definição desse tipo é confundir os motivos para o estudo da pragmática com os objetivos ou o modelo geral de uma teoria. “3. A pragmática deveria preocupar-se apenas com princípios de usos linguísticos, sem nada a ver com a descrição da estrutura da língua” (Levinson, 2007, p. 9) Segundo Levinson, em tal definição evoca-se a dicotomia estabelecida por Noam Chomsky, com a distinção entre competência e desempenho: a competência estuda a habilidade inata do homem para a linguagem e o desempenho estuda o uso contextualizado dessa linguagem. Fica estabelecido que o estudo da língua diz respeito ao campo da competência e o estudo da linguagem diz respeito ao campo do desempenho. Por consequência, nessa perspectiva, temos que a pragmática estuda o desempenho e a linguagem. A pragmática deveria ocupar-se essencialmente do esclarecimento de sentenças ambíguas pelos contextos em que elas foram proferidas. De fato, é certo que os contextos fazem muito mais do que meramente selecionar possíveis leituras semânticas de sentenças, por exemplo, a ironia, a dissimulação e coisas que são tipos de uso que realmente criam novas interpretações contextuais. Também se poderia afirmar que a gramática (no sentido lato) trata da indicação não contextual do significado das formas linguísticas, enquanto a pragmática está voltada para uma interpretação adicional dessas formas dentro de um contexto. Um sério problema esconde-se nessa definição: a questão é que alguns aspectos da estrutura linguística às vezes codificam partes do contexto (ou interagem com elas de outra maneira). Torna-se então impossível traçar uma fronteira clara entre competência (gramática independente do contexto) e desempenho (interpretação dependente do contexto), conforme Levinson (2007, p. 9). “4. A pragmática é o estudo das relações entre língua e contexto, que são gramaticalizadas ou codificadas na estrutura da língua” (Levinson, 2007, p. 11) Seria o estudo dos aspectos de relacionamento entre língua e contexto que são relevantes para a elaboração dos livros de gramática. Essa definição restringe a pragmática ao estudo de certos aspectos da estrutura linguística e contrasta fortemente com a proposta esboçada acima, que limita a pragmática ao estudo de aspectos gramaticalmente irrelevantes do uso da língua. O autor diz que tal escopo para a pragmática conteria o estudo da dêixis, inclusive pronomes de tratamento, e provavelmente o estudo da pressuposição e dos atos de fala, e excluiria o estudo dos princípios 67 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA de uso linguístico cujas repercussões na gramática das línguas não pudessem ser demonstradas. Isso poderia causar embaraços porque, pelo menos à primeira vista, as relações extremamente importantes chamadas implicaturas conversacionais ficariam fora do alcance de uma teoria pragmática. Por outro lado, tal escopo para a pragmática teria a provável vantagem de delimitar efetivamente a sua área e excluir campos fronteiriços como a sociolinguística e a psicolinguística, de tal forma que lhe garantiria relevância linguística. Em resumo, a principal valia dessa definição de pragmática é que restringe o campo a questões puramente linguísticas. Porém, ela é provavelmente muito restritivapara refletir com exatidão o uso corrente de uma língua. A pior restrição é a exclusão desses princípios de uso e interpretação da língua que explica como um significado adicional (num sentido amplo) está ‘inscrito’ nas elocuções sem que nelas esteja efetivamente codificado. Eis então uma definição que trabalha o aspecto da pragmática voltado para a estrutura linguística, mas não a parte que trata dos princípios de uso da língua, ou que faz isso apenas indiretamente, quando esses princípios colidem com a organização linguística. “5. A pragmática é o estudo de todos os aspectos do significado não abrangidos numa teoria semântica” (Levinson, 2007, p. 14) Conforme Gazdar (1979, apud Levinson, 2007, p. 14): “[...] a pragmática tem como tópico os aspectos do significado das enunciações que não podem ser explicados por referência direta às condições de verdade das sentenças enunciadas”. Grosso modo Pragmática = significado – condições de verdade Tal definição pode, a princípio, causar confusão. Certamente, a semântica é, por definição, o estudo do significado em sua totalidade e, sendo assim, como pode haver algum resíduo para compor o assunto da pragmática? Mas precisamos notar aqui que a definição de semântica como o estudo do significado é na verdade tão simplista quanto a definição da pragmática como o estudo do uso da língua. Alguns problemas com essa definição (Levinson, 2007, p. 15): • as pressuposições trazem sempre desencadeadores do nível da semântica, porém, tomam um conhecimento de mundo como verdade e, além disso, alguns dos componentes do significado são inferências anuláveis; • as implicaturas convencionais mostram que as inferências são semânticas, pois não mudam com o contexto, já que são convencionalizadas; • o significado semântico da sentença pode não ser igual ao significado pragmático: o enunciado “Maria é um gênio” pode significar excelência intelectual de Maria ou ironicamente significar mediocridade intelectual de Maria; 68 Unidade II • dêixis: fora os dêiticos convencionalizados que não mudam de sentido em outro contexto (Bom dia!), a maioria são elementos semânticos, com baixa densidade sêmica, e que só adquirem significado no contexto; • há ainda alguns enunciados que não são sentenças: “Oh!”, “hum, hum”, “Sshhhh” etc. “6. A pragmática é o estudo das relações entre língua e contexto que são básicas para a explicação da compreensão da língua” (Levinson, 2007, p. 25) Conforme Levinson (2007, p. 25), os pontos positivos dessa definição são: • Ela constata que a pragmática está essencialmente envolvida com a inferência, pois, dada uma estrutura linguística enunciada em um contexto, a teoria pragmática leva em consideração a inferência de pressuposições, implicaturas, força ilocucionária e outras implicações pragmáticas. • Ela não faz distinção entre semântica e pragmática no processo de codificação/decodificação; isso é importante porque ainda há controvérsia sobre tais implicações pragmáticas como pressuposições ou força ilocucionária, se seriam ou não gramaticalizadas ou codificadas em formas linguísticas. • Ela inclui alguns aspectos do estudo de princípios de uso da língua, pois parece haver um princípio genérico da seguinte ordem: para cada grupo sistemático de preceitos de uso da língua haverá um grupo correspondente de procedimentos inferenciais que serão empregados para a compreensão linguística. Os pontos fracos, por sua vez, são também bastante claros: a pragmática teria de incluir o estudo da interação entre o conhecimento linguístico e a totalidade do conhecimento de mundo dos participantes (ou ‘conhecimento enciclopédico’). Contudo, essa dependência interpretativa de suposições de experiência prévia tem sido usada como argumento contra a possibilidade de qualquer estudo sistemático da compreensão linguística: se o grupo de suposições potencialmente relevantes coincide com todo o grupo de fatos e crenças dos participantes, então o estudo desse processo interpretativo será o estudo da soma total do conhecimento e das crenças do ser humano. O argumento é claramente falacioso: assim como podem ser estabelecidas as regras de dedução lógica que irão ser aplicadas a um grupo de proposições infinitamente grande, também pode ser possível que os princípios que irão governar a interação entre enunciados e suposições sejam rigorosamente estabelecidos. Não obstante, se a pragmática deve ser considerada um componente dentro da teoria linguística, pode acontecer que incluir tais princípios seja realmente incluir além da conta. Mas não se tem pensado a sério sobre isso. De acordo com o autor, outra dificuldade enfrentada para a fixação de um escopo para a pragmática é que ele carece de alguma caracterização explícita da noção de contexto. 69 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA O que se poderia designar então por contexto? Essa resposta parece ser muito ampla e complexa. Inicialmente, poderemos apenas selecionar questões que são relevantes cultural e linguisticamente na produção e interpretação dos enunciados. Mas o que seria (ou não) relevante? Levinson registra alguns aspectos levantados por Lyons, Ochs e Bar-Hillel a serem considerados: Quadro 3 - A descrição do contexto Lyons (1977) Ochs (1979) Bar-Hillel (1970) Conhecimento do papel e do status do falante ou receptor O conhecimento da localização espacial e temporal O conhecimento do nível de formalidade O conhecimento do nível de formalidade (código, estilo, canal, variedade escrita ou falada) O conhecimento do tema adequado O conhecimento do campo (registro de uma língua) Crenças e suposições dos usuários da língua a respeito de cenários temporais, espaciais e sociais Ações passadas, presentes e futuras (verbais ou não verbais) O estado do conhecimento e da atenção dos participantes da interação social em questão O contexto pragmático é uma imprecisão quase que completa, já que parece não haver teoria disponível para prever a relevância de tais traços A lista de aspectos contextuais relevantes (dêixis, pressuposição, implicaturas, atos de fala) são, na verdade, uma orientação, não uma definição Quanto à compreensão linguística, compreender uma enunciação é decodificar todo o significado pretendido pelo falante no que diz respeito às suas inferências comunicadas intencionalmente Fonte: Levinson (2007, p. 27-28). “7. Pragmática é o estudo da habilidade que têm os usuários da língua de combinar sentenças com os contextos nos quais elas se tornam adequadas” (Levinson, 2007, p. 29) Conforme o autor, uma das definições mais bem-aceitas pela literatura especializada é esta que vê a noção de adequação ou acerto como o ponto central da pragmática. Tal visão fornece um interessante paralelo com a semântica: ocupando-se a teoria semântica, por assim dizer, da atribuição de condições de verdade a fórmulas bem-construídas, cuida também a pragmática da atribuição de condições de adequação ao mesmo grupo de sentenças com suas interpretações semânticas. Ou seja, uma teoria pragmática deveria em princípio indicar, para cada uma das sentenças bem-construídas de uma língua, uma leitura semântica particular, o grupo de contextos ao qual elas seriam adequadas. Observação “Condições de Felicidade/Adequação” relacionam-se às circunstâncias cooperativas do discurso, no sentido de que quando alguém afirma alguma coisa, implica que acredita nela; quando alguém faz uma pergunta, comunica a implicatura de que deseja sinceramente uma resposta e, quando alguém promete fazer x, comunica a implicatura de que pretende sinceramente fazer x etc. (Levinson, 2007, p. 131). 70 Unidade II Essa visão conta com muitos defensores, não somente entre os linguistas, mas infelizmente ela se defronta com alguns problemas: • A maioria das definições de pragmática entra algumas vezes na área da sociolinguística, mas esta teria exata identidade com uma sociolinguística traduzida, à maneira de Hymes (1971 apud Levinson, 2007), como o estudo da competênciacomunicativa. • Ela exige a necessária idealização de uma comunidade de fala culturalmente homogênea ou, em seu lugar, a construção de várias teorias pragmáticas para cada língua, onde N é o número de subcomunidades culturalmente distintas. • Os falantes de uma língua nem sempre se comportam da maneira recomendada pelos costumes em voga, que podem considerar indecentes e ‘não adequados’. Assim, essa definição satisfaria as exigências de posicionamento da pragmática em uma relação muito abstrata com o que é atualmente observável no uso efetivo da língua. • Parece ser verdade que as restrições pragmáticas são de modo geral revocáveis ou não imutáveis. Supondo que alguém tente, por exemplo, mostrar evidências da noção pragmática de pressuposição em termos de condições de uso adequado da linguagem, ver-se-á que as condições de uso serão erroneamente prognosticadas. • Outro problema, e este é decisivo, com o uso da noção de adequação como um conceito básico ou primordial na pragmática é a ironia: existe um conhecido fenômeno que Grice denominou exploração. Por exemplo, se eu, normalmente, só tiro o chapéu para meus superiores, mas em determinada ocasião tiro o chapéu para um colega, posso estar, com efeito, comunicando uma irônica consideração, com intenção brincalhona ou hostil. A ironia é um bom exemplo de exploração e as dificuldades de seu uso propõem uma teoria pragmática baseada na adequação, pois a ironia mostra seu efeito e sua importância comunicativa, e daí sua adequação, precisamente a partir de sua falta de adequação. De modo geral, o problema é que, sendo inteiramente não adequado, alguém pode, apesar de tudo, ser adequado! Assim, a proposta de que a pragmática seja baseada numa noção de adequação linguística deve ser descartada: o uso da língua é muito elástico para permitir que uma teoria pragmática seja apoiada em tal conceito. Se aceitarmos, porém, que o objetivo de uma teoria pragmática é prognosticar o significado, no sentido amplo de Grice, de um enunciado num contexto específico, eliminam-se então essas dificuldades (Levinson, 2007, p. 32). A essa altura, você está, provavelmente, exausto e desiludido de achar alguma definição plenamente satisfatória para a pragmática. Pode-se até buscar abrigo em uma ostensiva ou extensiva definição, ou seja, providenciar uma simples lista dos fenômenos que devem ser levados em conta por uma teoria pragmática. Entretanto, encarar essas questões com seriedade nos leva realmente a ficar de frente com as dificuldades teóricas que este campo abre. 71 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA Contudo, dado o exposto, podemos considerar de maneira rápida que a pragmática é o estudo do papel que o contexto adequado desempenha no significado! O problema com essa definição rápida, como você já pode supor, é que a ideia de contexto e de adequação é muito ampla e difícil de ser definida. Então, de maneira mais sistemática, o autor procura pautar a definição de pragmática pelos fenômenos que ela busca alcançar no uso da linguagem. “8. A Pragmática é o estudo da dêixis (ou parte dela), implicatura, pressuposição, atos de fala e aspectos sociais da estrutura discursiva” (Levinson, 2007, p. 32) O autor sintetiza, a partir de Katz (1977 apud Levinson, 2007, p. 36-37), algumas formalizações, em torno das quais é possível tentar uma elucidação do assunto, indagando quais são os objetivos de uma teoria pragmática: • Fórmula (16) - ƒƒ (u) = p: pragmática menos semântica; atribui as proposições às enunciações, expressando o significado contextual completo. • Fórmula (17) - ƒƒ (u) = c: pragmática menos semântica; contribuição do contexto para compreensão da língua; passagem do contexto que precede uma enunciação para o contexto após a enunciação, baseada na noção de modificação do contexto. • Fórmula (18) - ƒƒ (s) = c: pragmática é o estudo de aspectos gramaticalmente codificados no contexto. Computa os contextos decodificados nas sentenças. • Fórmula (19) - ƒƒ (u) = a: pragmática é o estudo das limitações à adequação dos enunciados; identifica o conjunto de enunciações adequadas. • Fórmula (20) - ƒƒ (u) = b: a pragmática é definida extensivamente como uma lista de tópicos. Nesse sentido, esta última definição não seria ainda a definição completa e mais teoricamente segura para a pragmática, porém, é indiscutivelmente o ponto por onde podemos começar. Conforme o autor, se quisermos realmente saber do que se ocupa um determinado campo, devemos observar o que fazem seus participantes. Levinson está interessado nas tarefas centrais com que lidam os pragmaticistas. 7.3 Interesse atual pela pragmática: motivações de estudo Algumas questões se colocam de maneira relevante em torno do que seria o interesse da pragmática e isso nos leva a rastrear tais questões, reconhecendo-as como motivações para este campo de estudo. Comecemos pelas perguntas: a pragmática também faz parte da competência (domínio sintático-semântico) ou só do desempenho (domínio do uso)? Poderia haver componentes gramaticais não autônomos no funcionamento pragmático? Se sim, há uma tese de que a pragmática é anterior à semântica ou, pelo menos, são mutuamente autônomas. Nesse caso, a pragmática deverá ser incluída numa teoria geral da competência linguística. No exemplo “Casar-se e ter um filho é melhor do que ter um filho e casar-se”, o conectivo e é semanticamente neutro em relação ao tempo, portanto, semanticamente: 72 Unidade II p e q = q e p. Entretanto, sabemos que pragmaticamente o e, em certas situações, adquire dimensão temporal e deve ser levado em conta para o significado final. Portanto, pode-se concluir que a pragmática também deve fazer parte uma teoria geral da língua (Levinson, 2007, p. 41-42). Seria então a pragmática uma simplificação radical da semântica? Veja o exemplo dado pelo autor: “Algumas moedas de 10 centavos são rejeitadas pela máquina” (Levinson, 2007, p. 44). O significado do quantificador algumas quer dizer algumas, mas não todas. Suponha, porém, que eu esteja tentando usar a máquina, tentando colocar moeda após moeda sem sucesso, e enuncie “Algumas e talvez todas as moedas de 10 centavos são rejeitadas por essa máquina.” Tal enunciado é totalmente aceitável de se dizer, pois o contexto altera o significado do quantificador. Vejamos outro exemplo: Todo homem é cafajeste. Semanticamente tal sentença significa que: para todo x, se x é homem, então ele é cafajeste (Vx (Mx -> Gx). Mas, na verdade, o quantificador todo nesse contexto é modalizado e significa geralmente. Assim, as lacunas do significado não são preenchidas somente por uma teoria semântica, que não aborda a língua como um instrumento de comunicação. Nessa perspectiva, a teoria pragmática não simplifica a teoria semântica (especialmente de natureza formalista), mas a amplia de modo a estabelecer os efeitos dos usos por meio da reorganização linear do material “onde podem ser buscadas explicações para as insinuações, segundas intenções, suposições, posturas sociais etc. que são eficazmente comunicadas pelo uso da língua” (Levinson, 2007, p. 46). É importante que haja princípios e estruturas pragmáticas bem definidas. Outro ponto importante é a procura de universais pragmáticos: rotinas de saudações e despedidas. Fenômenos específicos de cada cultura: dêixis social, por exemplo, os pronomes diferentes de acordo com o sexo do destinatário. Outra motivação geral muito importante para os estudos pragmáticos são as explicações funcionais para os fatos linguísticos, ou seja, certo traço linguístico sendo motivado por princípios externos ao sistema linguístico. Por exemplo, quase todas as línguas possuem três tipos de sentenças (imperativa, interrogativa e declarativa) e tais sentenças parecem ser decorrentes mais essencialmente de práticas sociais humanas relativas a ações como ordenar, perguntar e afirmar. Uma motivação relativa a estes questionamentos seria estabelecer os efeitos dos usos na estrutura da língua (Levinson, 2007, p.47). Saiba mais Para ampliar o olhar acerca das definições de pragmática e das principais categorias de análise trabalhadas em Levinson, leia a seguinte obra: LEVINSON, C. S. Pragmática. São Paulo: Martins Fontes, 2007. 73 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA 8 PRAGMÁTICA: TRÊS IMPORTANTES VERTENTES É importante iniciar esse assunto fazendo alusão ao amplo leque de diferentes estudos que essa área da linguística abrange. Na pragmática, é muito grande o número de trabalhos com temas e objetivos variados. Considerando esse ponto de partida, o que em meio a essa diversidade toda é possível reconhecer como interesse dos estudos pragmáticos? Veja logo abaixo os principais pressupostos comuns a estes trabalhos tão diferentes entre si: • A pragmática estuda e analisa o uso concreto da linguagem, centralizando a abordagem em seus usuários na prática linguística. Estuda ainda as condições que governam essa prática. • Pode ser apontada como a ciência do uso linguístico, cuja preocupação é antes com a linguagem do que com a língua. Conforme já vimos anteriormente, o estruturalista Saussure estabeleceu a dicotomia língua x fala, recortando para seu interesse teórico a língua e descartando os aspectos relacionados à fala. Saussure define a linguagem esquematicamente assim: Língua + Fala = Linguagem Entretanto, o interesse da linguística, nesse contexto estruturalista, está centralizado na língua. A pragmática nasce justamente do esforço por defender a não centralidade da língua em relação à fala. Essa área investe nos estudos da linguagem, considerando a fala, e não observa a língua isolada de sua produção social. Os estudos pragmáticos pretendem definir o que é linguagem e analisá-la trazendo para a definição os conceitos de ‘sociedade’ e de ‘comunicação’, descartados pela Linguística saussureana na subtração da fala, ou seja, na subtração das pessoas que falam (Pinto, 2007, p. 48). Conforme sintetiza Pinto (2007, p. 48), outro ponto em comum são os fenômenos linguísticos estudados que não são necessariamente (puramente) convencionais, mas também se compõem relevantemente por elementos criativos, inovadores que se alteram e interagem durante o processo de uso da linguagem. Lembrete O recorte de análise da pragmática não está reduzido a fatos delimitados e convencionais da língua como sistema (inato), mas trabalha a partir de indícios de funcionamento da linguagem, mesmo que isso implique em visualizar erro, exceção, licença poética. 74 Unidade II O autor sintetiza os aspectos mais relevantes de três reconhecidas correntes dos estudos pragmáticos: Quadro 4 O pragmatismo americano Desenvolvido por W. James & Morris, sob forte influência dos estudos semiológicos de Charles Peirce, enfatiza a inclusão do sujeito na construção do sentido e desconstrói (relativiza) a noção clássica de verdade Os estudos dos atos de fala Influenciados pela Filosofia da Linguagem (Wittgenstein) e alavancados por John L. Austin, enfatizam a performatividade da linguagem, cuja definição estaria diretamente relacionada à ação e interação Os estudos da comunicação Integram ambos os interesses teóricos anteriores, mas acrescentam ainda o interesse pelas questões sociais e históricas em que priorizam as relações sociais, de classe, de gênero, de raça e de cultura Aprofundando o pragmatismo americano – O primeiro autor a usar o termo pragmática (pragmatics) foi o filósofo americano Charles Peirce (muito conhecido pelas suas contribuições na área de semiótica) no seu artigo “How to make our ideas clear”, de 1978. Nos estudos iniciais da pragmática, uma das contribuições mais representativas de Peirce foi a sua ideia sobre a tríade pragmática, representada na relação entre signo, objeto e interpretante. Nessa relação, o que Peirce quer priorizar é a importância de se teorizar a linguagem, considerando um conceito bem caro à linguística, o sinal, mas sem deixar de lado aquilo a que esse sinal se refere e principalmente a quem ele significa. Nas palavras abaixo, Peirce explica essa necessária relação: Os que se dedicavam ao estudo da referência geral dos símbolos aos seus objetos ver-se-iam obrigados a realizar também pesquisas das referências em relação aos seus interpretantes (grifo nosso), assim como de outras características dos símbolos e não só dos símbolos, mas de todas as espécies de sinais. Por isso, atualmente, o homem que pesquisa a referência dos símbolos em relação aos seus objetos será forçado a fazer estudos originais em todos os ramos da teoria geral dos sinais (Peirce, 1906 apud Pinto, 2007, p. 52). Peirce trabalhou com muita dedicação, buscando explicar minuciosamente os elementos de sua teoria do signo e detalhando estes elementos em subcategorias para melhor alcançá-las. Conforme apresenta Pinto (2007), os dois principais seguidores e difundidores do pensamento de Peirce foram Willian James e Charles Morris. Morris se entusiasmou quando entrou em contato com a proposta de Rudolf Carnap, que propunha dividir a investigação linguística em três campos: • Sintaxe: relação lógica entre as expressões. • Semântica: relação entre as expressões e seus significados. • Pragmática: relação entre as expressões e seus locutores. 75 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA Observe que há uma relação evidente entre a tríade de Peirce e a de Carnap: Quadro 5 Tríade de Peirce Tríade de Carnap Signo Sinal Sintaxe Lógica Objeto Referente do sinal Semântica Significação Interpretante Sujeito Pragmática Locutor Morris sustenta a teoria pragmática de Peirce, defendendo a interdependência e combatendo a hierarquização desses campos. Mesmo assim, a influência do empirismo lógico atual é muito forte e tais ideias empiricistas acabam por tomar mais a atenção de Morris. Mas a discussão que centraliza mais relevantemente o debate pragmaticista (via Peirce e seus seguidores) sobre a significação e, por tabela, a questão da verdade, da razão, do conhecimento, da informação, da coerência, é a discussão sobre relativizar o conceito de verdade e deslocá-lo do seu contexto clássico de formulação para as situações pragmáticas de uso. Nessa linha de se relativizar o conceito de verdade, alguns autores devem ser considerados, pois contribuem com argumentos fortes à teoria: A verdade no contexto filosófico clássico — Desde a filosofia clássica (Sócrates, Platão e Aristóteles). A questão da verdade nos remonta à filosofia clássica, pois desde Platão essa discussão põe em pauta a pergunta: “O que se pode chamar com segurança de verdadeiro ou falso?”. A filosofia clássica, de modo geral, definiu o conceito de verdade como algo que estivesse fora das pessoas e fora da linguagem, pois a verdade estaria no mundo, nos objetos, nas coisas e deveria ser apenas representada pela linguagem. Assim a verdade ficaria passível de ser encontrada (no mundo) e confirmada (ou não). Tal conceito foi definitivo para a noção de significado (formal), pois a concepção do significado estaria ligada à relação entre as palavras e as coisas, a linguagem e o mundo. Observação Esse é o principal fundamento da semântica formal, para a qual o sentido está na relação entre as palavras (linguagem) e as coisas (mundo). William James — Este filósofo (também seguidor de Peirce) deu ênfase à reflexão sobre os sinais e seus significados e vinte anos depois de Peirce cunhar o termo pragmatics, ele inaugurou o termo pragmatismo (americano). Conforme Pinto, as ideias de James só vieram causar repercussão no século XX, no seio da filosofia da linguagem, bem como dos estudos da linguagem e conhecimento enquanto práticas sociais. A contribuição mais significativa de James é sobre os postulados acerca da verdade, questionando e recriando a noção de verdade como aquilo que é o melhor para nós acreditarmos, de modo a caracterizar o estudo da pragmática como o estudo que tem aplicações práticas, voltado ao uso, à ação. William James questiona os fundamentos da significação e da verdade (clássicos), levando em consideraçãoos elementos pragmáticos que põem em evidência a pessoa que fala, como detentora 76 Unidade II da verdade, do próprio significado, uma vez que a verdade nada mais é do que aquilo que (todos nós, usuários da língua) queremos que seja! (Pinto, 2007, p. 53). Pode-se observar claramente o abismo que se cria entre o conceito de verdade clássico-filosófico e o de W. James, já que ele desloca fortemente o tratamento do significado do nível linguístico para o nível interpessoal e social, relativizando a concepção de verdade e ‘remexendo’ toda a discussão acerca do conhecimento de fato, já que ele duvida da possibilidade de se confirmar as verdades no mundo (deste conhecimento). Willard V. Quine — Este autor é quem inicia (conforme nos apresenta Pinto, 2007) um grande esforço em dar prosseguimento às ideias pragmaticistas de Peirce sobre a significação/verdade. Ele foge do debate logicista acerca da verdade e embrenha-se em reforçar as ideias de Peirce, reformulando-as ousadamente como o pragmatismo radical. Conforme ele defende, muitos argumentos usados pela semântica formal (lógica) que sustentam a exclusão do sujeito (falante) da análise do significado são em sua própria condição questionáveis quanto à sua validade. Lembrete Só para lembrar, a semântica formal entende que o sentido está na relação direta entre a linguagem (palavras) e o mundo (coisas) e define a significação a partir do cálculo: significação = sentido + referente – expresso/codificado pelo signo linguístico. Assim, esse pensamento filosófico trabalha com a seguinte tríade da significação: Sentido (conceito) Referência (objeto)Signo (código) Figura 5 Em sua crítica e proposta, Quine se detém na questão da determinação da referência e levanta o problema: [...] de que determinar o objeto referido por uma expressão é uma questão muito mais séria do que simplesmente encontra-lo no mundo... Quine (1980), defendendo que a indeterminação da referência permanece não importa com qual tipo de expressão referencial estejamos trabalhando, apresenta a situação de uso de expressões demonstrativas. A sentença “Esta mesa está quebrada” proferida numa situação similar à ostentação, não deixa de produzir perguntas: o que está sendo referido para o predicado “está quebrada”: a quina da mesa? O pé da mesa? As dobradiças? Se concordamos com Quine, essas perguntas não são realmente problemas referenciais. 77 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA É perfeitamente aceitável, do ponto de vista de qualquer falante, que permaneça a indeterminação da parte da mesa que está quebrada. A apreensão do objeto referido fica assim fragmentada, e não mais transparente (Pinto, 2007, p. 54). Assim, Quine defende a tese de que a referência é impenetrável, famosa tese da inescrutabilidade da referência em uma visão holística, pois não se pode determinar com toda a certeza o alcance da expressão referencial no mundo. Essa é a prova definitiva de que as incompatibilidades entre as significações só podem ser analisadas com maior alcance em condições pragmáticas (de uso). Davidson e Rorty — Inspirados em J. Dewey e L. Wittgenstein, estes autores acrescentaram uma perspectiva histórica aos estudos pragmáticos americanos, argumentando que o estudo dos princípios da linguagem pode e deve ser considerado enquanto prática social contemporânea. Pinto cita a Teoria da coerência elaborada por Davidson (1986 apud Pinto 2007), que é sustentada também por Rorty (1994 apud Pinto, 2007), a partir de suas críticas à tradição analítica, apresenta uma fundamentação teórica para trabalhar a coerência interna e não a verdade, como a base que suporta qualquer sistema interpretativo. Essa proposta também se contrapõe à posição lógico-formalista acerca do conceito de verdade instaurado na correspondência entre linguagem e mundo. Para Davidson e Rorty (apud Pinto, 2007, p. 55): Se há coerência, pouco importa o valor de verdade dessa correspondência... [ele] quer mostrar é que as atitudes proposicionais de uma pessoa, sua fala, crenças e intenções são verdadeiras porque existe um princípio legítimo que diz que qualquer uma das atitudes proposicionais do/a falante é verdadeira se ela é coerente como o conjunto de atitudes proposicionais desse/a mesmo/a falante. Tomemos um exemplo: A: Estou pensando em assistir ao carnaval em Olinda. Você, que é de lá, sabe se tem muito barulho? B: Não, tem polícia, é tudo bem organizado. A: A polícia não deixa ter muito samba? B: Não, a polícia não deixa as pessoas bagunçarem as ruas. A: Não, não foi isso que eu quis dizer. Eu não estou falando de barulho como bagunça, estou falando de barulho de batida de samba. O exemplo colocado por Pinto ilustra um problema conhecido na linguística como mal-entendido, um ruído na interpretação que deixa de coincidir entre os interlocutores. Na linguística, alguns estudiosos dedicam-se a explicar esse fenômeno tão frequente na linguagem, seja pelas diferenças regionais, culturais, intencionais etc., de modo a tentar “resolver” o problema do mal-entendido. 78 Unidade II Pinto relata o ponto de vista do autor M. Dascal (1986) em um material intitulado “A relevância do mal-entendido”, que destaca a questão dando ênfase às questões do “entender” e “mal entender” dentro do esquema conversacional utilizado pelos interlocutores na atividade da linguagem, mas observa que o fenômeno do mal-entendido deve ser tratado com importância na medida em que revela o funcionamento do “entendimento”. Ou seja, ele disfarçadamente promove uma dicotomia entre entender x mal entender, de modo a priorizar o entendimento/interpretação/coerência no esquema de significação, em detrimento do mau funcionamento do mal-entendido que seria novamente um problema a ser resolvido, eliminado. A proposta de Davidson e Rorty acerca da coerência interna dos sistemas interpretativos dá novos rumos à questão do “mal-entendido”, afinal duas pessoas de culturas diferentes ou simplesmente movidas por interesses sociais e ideológicos distintos podem sim ter dificuldades em manter um diálogo produtivo e, às vezes (por que não?), não quererem chegar a um entendimento. Por outro lado, também pessoas da mesma cultura ou dos mesmos valores ideológicos podem lidar com situações como a descrita, já que podem encaminhar suas interpretações de maneira singular. Isso não significa que cada um pode dizer o que quiser e entender “o que lhe der na telha”! A ideia de coerência interna em sistemas linguísticos nos diz, muito mais apropriadamente, que é inadequada a argumentação em torno de “mal-entendido”, pois o processo que acarreta esse fenômeno desconcertante dos diálogos cotidianos é parte coerente de uma interpretação, e não deve ser encarado como “erro”, ou “inadequação” de significado (Pinto, 2007, p. 56-57). Aprofundando os estudos dos atos de fala – A discussão sobre a “Teoria dos atos de fala” foi aberta para debater como as construções gramaticais podem levar a confusões lógicas entre filósofos. Nesse contexto, J. Austin foi quem melhor se destacou na exposição dos problemas, discutindo a materialidade e historicidade das palavras. Seus estudos procuraram refletir sobre a possibilidade de uma teoria que explicasse questões, exclamações e sentenças que expressam comandos, desejos e concessões. A Teoria dos Atos de Fala, que tem por base conferências de Austin publicadas postumamente em 1962 sob o título How to do things with Word (Austin, 1990), concebe a linguagem como uma atividade construída pelos/as interlocutores/as, ou seja, é impossível discutir linguagem sem considerar o ato de estar falando em si – a linguagem não é assim descrição do mundo, mas ação (Pinto, 2007, p. 57). Inicialmente, na Teoria dos Atos de Fala, um dos pares conceituais mais importantes é a distinção entre os enunciados: • Performativos – que realizam ações porque são ditos. Exemplos: “Eu vos declaro marido e mulher em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” “Declaro encerrada a sessão.”79 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA • Constativos – que realizam apenas uma afirmação, constatação de um estado de coisas. Exemplos: “Está fazendo um sol lindo.” “A mosca caiu na sopa.” O estudo dos contrastes entre esses tipos de enunciados, performativos e constativos, orientou Austin a seguir no raciocínio e instaurar a separação de diferentes níveis de ação linguística por meio de enunciados. Esses níveis de ação agem simultaneamente no enunciado e Austin os denomina atos locucionários, atos ilocucionários, atos perlocucionários: Quadro 6 – Níveis de ação linguística Atos locucionários Os que dizem alguma coisa: “Eu vou estar em casa hoje.” Eles têm a ver com o conjunto de sons que se organizam para efetivar um significado referencial e predicativo, pois efetivam uma sentença sobre o eu. Atos ilocucionários Os que refletem a posição do locutor em relação ao que ele diz: “Eu vou estar em casa hoje.” Dizem respeito à força que o enunciado produz, que se tipifica em pergunta, afirmação, promessa, ameaça, ordem, pedido etc. Atos perlocucionários Os que produzem certos efeitos e consequências sobre o interlocutor, sobre o próprio locutor ou sobre outras pessoas. “Eu vou estar em casa hoje.” O efeito produzido na pessoa que ouve o enunciado, por exemplo, pode ser um efeito de agrado, de medo, de ameaça, transformando-se em ação. Os atos de fala podem trazer ambiguidades em suas interpretações, pois um enunciado pode tanto ser entendido como uma ordem, como uma ameaça ou como um pedido – “A porta está aberta”. Assim, é importante considerar sempre o contexto, a situação de fala entre os falantes em questão e, mesmo assim, os limites da análise linguística muitas vezes não encontram muita exatidão. Austin dedicou-se principalmente aos verbos performativos prometer, declarar, batizar, casar, ordenar, pedir etc., causando grande furor inicialmente frente à impossibilidade, atestada por ele próprio, de manter a distinção entre os valores de verdade/falsidade para esses enunciados (atacando assim os semanticistas formais, lógicos). Questionado em 1958 por um filósofo que dizia que o enunciado performativo poderia sim ser verdadeiro ou falso, Austin respondeu com ironia: Pode-se dizer que um ato é útil, que é conveniente, que ele é mesmo sensato, mas não se pode dizer que ele seja true or false. Qualquer que seja ele, tudo que posso dizer é que os enunciados desse tipo são muito mais numerosos e variados do que se acreditava (Austin apud Pinto, 2007, p. 59). 80 Unidade II Nesse famoso debate, para insistir na impossibilidade dos enunciados performativos serem considerados verdadeiros ou falsos, Austin ousadamente destituiu a noção de constatividade que ele mesmo havia postulado antes e mostrou que enunciados aparentemente constativos eram de fato performativos, como “Eu te digo para fechar a porta” ou “A mosca caiu na sopa”. Ele inclusive declarou a insustentabilidade de enunciados constativos, afirmando que o constativo nada mais era do que um performativo mascarado. Em 1981, com sua obra Speech acts, John Searle se dedicou a interpretar, reorganizar e dar um acabamento à obra de Austin, defendendo o princípio da intencionalidade nos atos de fala e firmando a Teoria dos Atos de Fala como importante corrente da linguística. Outros autores, como Derrida e Ducrot, também se dedicaram a ler e problematizar a obra de Austin, apontando para outras faces de análise da linguagem que não estivessem presas necessariamente à experiência empírica e seus níveis de ação, valorizando aspectos mais históricos, filosóficos, ideológicos, estruturais e argumentativos. Aprofundando os estudos da comunicação – O grupo de pesquisadores que investiga os estudos da comunicação se caracteriza por uma fusão dos interesses das duas vertentes anteriores: • Utiliza métodos descritos na análise dos atos de fala, na comunicação. • Trabalha com uma renovação das orientações do pragmatismo americano acerca da relativização do conceito de verdade. O que particulariza, então, este grupo é a abordagem destacada das teorias filosóficas historicistas que não se relevam muito expressivamente nas vertentes anteriores. Com a “invasão” dos estudos marxistas em todos os campos das ciências sociais na Europa, questionamentos a respeito da comunicação humana se levantaram com maior seriedade e sistematicidade na direção de formar um novo paradigma. Por traz desses interesses, o pano de fundo era a luta de classes. Assim, os pesquisadores questionavam o que representaria a diferença de classe social para a comunicação entre as pessoas. Outros investigadores que buscaram caminhos alternativos ao marxismo também se mostravam empenhados nos aspectos ligados à comunicação e lançaram perguntas sobre as indagações e questionamentos feitos, de modo a inaugurar uma linha de “inquirição” para analisar o tratamento da comunicação na filosofia, linguística, etnologia e nas ciências sociais em geral. Cabe nesse esforço teórico uma reavaliação do conceito de cooperação na comunicação, assunto este de alta estima para pragmaticistas como H. P. Grice, seguido dos estudiosos analistas da conversação. Conforme Grice, para haver comunicação é preciso haver cooperação entre os interlocutores, cabendo nessa investigação a sistematização dos princípios que regem o espírito cooperativo da comunicação. Para tratar dessas questões, esse autor elaborou um quadro das implicaturas conversacionais, ou seja, regras necessárias para garantir o sucesso de todos os atos de linguagem. 81 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA Na vertente dos estudos da comunicação, Pinto aponta o autor Jacob Mey (1987 apud Pinto, 2007) como um dos grandes questionadores dessas regras, pondo em cheque a garantia de sucesso no ato de fala promovido pela tal cooperação comunicativa. Para Mey (2001), os estudiosos da pragmática atuais apostam no conceito de comunicação como trabalho social, realizado com inclusão dos conflitos das relações sociais entre homem/mulher, aluno/professor, brancos/negros, judeus/antissemitas etc. que aparecem no funcionamento linguístico (o sexismo marcado na linguagem!), nem sempre prezando pela tal cooperatividade comunicativa. Assim, pragmatistas dos estudos da comunicação, preocupados/as em debater os conflitos sociais que são também linguísticos [entendem que, por exemplo] conflitos entre homens e mulheres podem ser identificados linguisticamentese se considera a linguagem como um trabalho social pleno de conflitos sociais. Qualquer tentativa de descrição da comunicação que exclua aspectos sociais é considerada inócua e ineficiente para a pesquisa pragmática. A linguagem não é, portanto, meio neutro de transmitir idéias, mas sim constitutiva da realidade social. Não sendo a realidade social um conceito abstrato, mas o conjunto dos atos repetidos dentro de um sistema regulador, a linguagem é sua parte presente e legitimadora, e deve ser sempre tratada nesses termos (Pinto, 2007, p. 63). Trabalhos como o de Jürgen Habermas sobre a ação comunicativa, a perspectiva da desconstrução de Jacques Derrida e as diversas formas de observar a linguagem como parte do funcionamento social que estão em elaboração constituem a diversidade que ajuda a identificar e garantem que a variedade de fenômenos da linguagem não seja excluída da investigação linguística. Roy Harris (1981 apud Pinto, 2007, p. 63) defende que somente considerando o que é sistematicamente excluído da linguística formal é que se pode desmistificar as ideias sobre o funcionamento da linguagem, de modo a entender, por exemplo, como os usos inovadores e não dicionarizados de palavras ou estruturas sintáticas são tratados nas pesquisas ou ainda como a incoerência de ações em certos atos de fala fica relegada ao patamar do mal-entendido a ser corrigido. A investigação dessas “exclusões” pode esclarecer fatos que durante muito tempo permaneceram na escuridão das investigações linguísticas. Vejamos um exemplo dado por Harris (1981 apud Pinto,2007, p. 63): uma menininha na ponta dos pés, com o mato à altura de seus joelhos, fala: “Olhe, mãe, vai certinho até minhas dobras!” O que a menina quis dizer? A mãe que nunca ouviu esse uso para o termo “dobras” sabe muito bem. E nós também! Para a linguística tradicional essa situação simplesmente distingue conhecimento linguístico e conhecimento pragmático, ou seja, contextual, de mundo – extralinguístico – portanto, sem interesse científico. Para os estudos da comunicação: [...] a questão principal é “como a mãe sabe se esse o uso não é devido?”. Ou, como um pouco mais de crítica, “como o uso é indevido se a mãe sabe?”. Sendo o uso da linguagem lugar de conflito, ele situa também negociações, modificações, recusas. Isso torna inevitáveis as inovações, e 82 Unidade II mais inevitável ainda que para se falar em linguagem tenha-se que falar em fatos até então considerados como não-linguagem. Esses argumentos enfrentam constantemente a crítica de não estarem de fato “fazendo linguística”, mas sociologia, ou qualquer coisa do gênero. Afinal, em que interessariam problemas que não legitimam a ideia de Linguística como ciência? Dizer que linguagem não é puramente convencional implica assumir a impossibilidade de descrever o fenômeno linguístico inteira e sistematicamente (Pinto, 2007, p. 64). Na contramão desse pensamento, os estudos da comunicação acreditam que a delimitação dos limites entre linguagem e mundo mostra uma visão reducionista, já que temer que a inclusão dos aspectos extralinguísticos na análise desvirtue o nível de cientificidade do estudo é o mesmo que pensar que aulas de educação sexual vão fazer as pessoas fazerem mais sexo (Pinto, 2007). Nesse sentido, os estudos da comunicação prosseguem buscando ampliar as possibilidades de estudo e análise da linguagem. Sobre a pragmática, ainda é importante dizer que, mesmo centralizando esses três direcionamentos em que se poderiam classificar os diferentes trabalhos, com o desenvolvimento dessa área, alguns campos e métodos de estudo lá iniciados encontram-se hoje separados da pragmática. Por exemplo, a semântica argumentativa e a análise da conversação são duas correntes outrora participantes dos estudos pragmáticos. Hoje constituem duas áreas independentes da linguística que no cenário da política científica lutam por seu reconhecimento (já concedido!), esforçam-se por justificar a sua condição particular e esclarecedora dos fenômenos linguísticos de seus interesses. Apesar do atual pensamento científico abarcar as diferentes respostas, como diferentes verdades para os fenômenos científicos, no âmbito da linguística há uma forte separação ainda dos estudos linguísticos chamados “puros” (a linguística hard) daqueles chamados funcionais, discursivos, pragmáticos. E, nessa separação, esses estudos, sobretudo os pragmáticos, sofrem ainda certo preconceito por se relacionarem com o fato empírico e, mais ainda, com a inovação, com a exceção, com a criatividade, com a licença poética, com o erro! Saiba mais Para aprofundar o estudo acerca do campo linguístico da pragmática e das principais categorias de análise trabalhadas nesta área relevante, você pode fazer as leituras indicadas abaixo: GRICE, H. P. Lógica e conversação. In: DASCAL, M. (org.). Fundamentos Metodológicos da Linguística. v. IV. Campinas: Unicamp, 1982. RAJAGOPALAN, K. Nova pragmática – frase e feições de um fazer. São Paulo: Parábola, 2010. SEARLE, J. R. Os actos de fala. Coimbra: Almedina, 1984. 83 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA Resumo Nesta unidade, vimos os estudos na área da estilística, desde o conceito de estilo, o qual dependerá do ponto de vista para ser definido, até as questões relativas à pragmática, paradigma atual em que a língua em uso é considerada. Em termos de língua, os recursos estilísticos são produzidos desde a organização de seus elementos mínimos, que são os fones, até a sintaxe dos elementos enunciados. Nesse sentido, há diversas figuras, as quais são normalmente agrupadas enquanto figuras de som, da palavra e da frase. Na instância da enunciação, que está ligada ao modo de dizer no nível do discurso, vimos as categorias espaço, tempo e pessoa e como elas podem ser descritas enquanto estratégias dos sujeitos na interação verbal humana. Vimos ainda a origem do termo pragmática e alguns aspectos para sua definição, a partir da distinção entre pragmática e semântica formal, tais como: condições de verdade ou acarretamento; implicaturas convencionais; pressuposições; condições de felicidade ou adequação ao contexto; implicaturas conversacionais; inferências decorrentes da estrutura conversacional. Na tentativa de se definir o termo, foram consideradas as seguintes definições: • A pragmática é o estudo dos princípios que explicam por que certo grupo de sentenças corresponde a elocuções anômalas ou não possíveis. • A pragmática é o estudo da linguagem de uma perspectiva funcional. • A pragmática deveria preocupar-se apenas com princípios de usos linguísticos, sem nada a ver com a descrição da estrutura da língua. • A pragmática é o estudo das relações entre língua e contexto que são gramaticalizadas ou codificadas na estrutura da língua. • A pragmática é o estudo de todos os aspectos do significado não abrangidos numa teoria semântica. • A pragmática é o estudo das relações entre língua e contexto que são básicas para a explicação da compreensão da língua. 84 Unidade II • A pragmática é o estudo da habilidade que têm os usuários da língua de combinar sentenças com os contextos nos quais elas se tornam adequadas. • A pragmática é o estudo da dêixis (ou parte dela), implicatura, pressuposição, atos de fala e aspectos sociais da estrutura do discurso, significados. Por fim, as vertentes de estudos pragmáticos, que compreendem o pragmatismo americano, a teoria dos atos de fala e os estudos de comunicação, foram retomadas e descritas nesta unidade, observando–se que a análise da conversação e a semântica argumentativa constituem atualmente áreas independentes em termos de estudos linguísticos. 85 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA Exercícios Questão 1. (Fuvest 2008, adaptada) Leia o texto a seguir. S. Paulo, 13-XI-42 Murilo São 23 horas e estou honestissimamente em casa, imagine! Mas é doença que me prende, irmão pequeno. Tomei com uma gripe na semana passada, depois, desensarado, com uma chuva, domingo último, e o resultado foi uma sinusitezinha infernal que me inutilizou mais esta semana toda. E eu com tanto trabalho! Faz quinze dias que não faço nada, com o desânimo de após gripe, uma moleza invencível, e as dores e tratamento atrozes. Nesta noitinha de hoje me senti mais animado e andei trabalhandinho por aí. [...] Quanto a suas reservas a palavras do poema que lhe mandei, gostei da sua habilidade em pegar todos os casos “propositais”. Sim senhor, seu poeta, você até está ficando escritor e estilista. Você tem toda a razão de não gostar do “nariz furão”, de “comichona”, etc. Mas lhe juro que o gosto consciente aí é da gente não gostar sensitivamente. As palavras são postas de propósito pra não gostar, devido à elevação declamatória do coral que precisa ser um bocado bárbara, brutal, insatisfatória e lancinante. Carece botar um pouco de insatisfação no prazer estético, não deixar a coisa muito bem-feitinha. [...] De todas as palavras que você recusou só uma continua me desagradando “lar fechadinho”, em que o carinhoso do diminutivo é um desfalecimento no grandioso do coral. Mário de Andrade, Cartas a Murilo Miranda. “... estou honestissimamente em casa, imagine! Mas é doença que me prende, irmão pequeno.” No trecho anterior, o termo grifado indica que o autor da carta pretende: A) Revelar a acentuada sinceridade com que se dirige ao leitor. B) Descrever o lugar onde é obrigado a ficar em razão da doença. C) Demarcar o tempo em que permanece impossibilitado de sair. D) Usar a doença como pretexto para sua voluntária inatividade. E) Enfatizarsua forçada resignação com a permanência em casa. Resposta correta: alternativa E. 86 Unidade II Análise das alternativas A) Alternativa incorreta. Justificativa: o termo em destaque não qualifica a forma como o autor dirige-se ao leitor. B) Alternativa incorreta. Justificativa: o advérbio não tem a intenção de descrever o local, ele refere-se ao modo como o autor estava. C) Alternativa incorreta. Justificativa: não se trata de um advérbio de tempo. D) Alternativa incorreta. Justificativa: o autor mostra-se insatisfeito com a sua permanência forçada em casa. E) Alternativa correta. Justificativa: o autor utiliza um prefixo superlativo no advérbio justamente para enfatizar o fato de ter que permanecer em casa de maneira forçada. Questão 2. Considere a tirinha e as afirmativas que seguem. Figura 6 Disponível em: http://tinyurl.com/ytv3hk9x. Acesso em: 11 ago. 2011. 87 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA I — O personagem que está na calçada interpretou o sentido literal da fala do motorista, não considerando o que ficou subentendido no contexto. II — O gesto com o dedo no primeiro quadrinho indica que o personagem considerou entendida a mensagem do motorista. III — De acordo com a Pragmática, que não considera as condições de produção do enunciado, o personagem interpretou corretamente a fala do motorista. Está correto o que se afirma em: A) I, II e III. B) Somente em I e II. C) Somente em II e III. D) Somente em I e III. E) Somente em II. Resposta correta: alternativa B. Análise das afirmativas I — Afirmativa correta. Justificativa: a fala do motorista deixa implícito, no contexto, o pedido para que o personagem sinalize antes de o carro bater. II — Afirmativa correta. Justificativa: o gesto de “positivo” indica para o motorista que, na concepção do personagem, a mensagem havia sido compreendida. III — Afirmativa incorreta. Justificativa: a pragmática é o estudo do uso da linguagem, ou seja, considera sempre as condições de produção do texto. 88 REFERÊNCIAS Audiovisuais GIL, G. A mão da limpeza. Intérprete: Gilberto Gil. In: GIL, G. Raça Humana. São Paulo: Warner Music, 2003. CD. Faixa 6. HOLANDA, F. B. de.; GIL, G. A Rita. Intérprete: Chico Buarque de Holanda. In: HOLANDA, F. B. de. Chico Buarque ao vivo. Paris. São Paulo: BMG, 1990. CD. Faixa 3. HOLANDA, F. B. de.; GUERRA, R. Tatuagem. Intérprete: Chico Buarque de Holanda. In: HOLANDA, F. B. de. Chico Canta. São Paulo: Universal Music, 1973. CD. Faixa 3. HOLANDA, F. B. de.; MORAES, V. de. Valsinha. Intérprete: Chico Buarque de Holanda. 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Na primeira, Aristóteles destaca a técnica de argumentar, enquanto na segunda ele trata da poesia enquanto arte, enquanto ornamentação. Entretanto, o conceito de retórica foi passando por reformulações, de acordo com cada época, até chegar à modernidade, em que os estudiosos do assunto propõem estudar a função retórica, considerando que ela implica em múltiplas alterações da linguagem, e denominam metábole todo tipo de mudança de um aspecto qualquer da linguagem. Essas mudanças classificam-se: no plano da expressão (significante), os metaplasmos (alterações das palavras) e as metataxes (alterações das frases); no plano do conteúdo, os metassemas (palavras) e metalogismos (frases). Em síntese, conforme Martins (2000, p. 21): a retórica é um conjunto de desvios suscetíveis de autocorreção, isto é, que modificam o nível normal de redundância da língua, transgredindo regras, ou inventando outras novas. O desvio criado por um autor é percebido pelo leitor graças a uma marca, e em seguida reduzido graças à presença de um invariante. O conjunto dessas operações, tanto as que se desenvolvem no 34 Unidade II produtor como as que têm lugar no consumidor, produz um efeito estético específico, que pode ser chamado ethos e que é o verdadeiro objeto da comunicação artística. Como podemos observar, torna-se impossível obter uma definição homogênea do que seja a estilística. Cada corrente de investigação contribui, então, com seus conceitos e teorias, que se complementam. Na obra tomada como referência básica de nossos estudos sobre o assunto, a autora segue a linha descritiva, iniciada por Bally, aproveitando outros conceitos, como os de Jakobson, por exemplo, e divide os capítulos de acordo com os níveis de descrição da língua (o fonético, o léxico e o sintático), resultando na divisão em: estilística do som, estilística da palavra, estilística da frase. No capítulo final, focaliza aspectos do discurso, denominando-os de estilística da enunciação. Nessa perspectiva, veremos alguns conceitos e exemplos dos estudos realizados pela estilística. Saiba mais Ao tratar da estilística da enunciação, considera-se a noção de enunciação pela perspectiva proposta por Émile Benveniste, consulte-a nas seguintes obras: BENVENISTE, E. Problemas de linguística geral I. Campinas: Pontes, 1988a. BENVENISTE, E. Problemas de linguística geral II. Campinas: Pontes, 1988b. 6.5 Estilística do som Também chamada de fonoestilística, trata dos valores expressivos de natureza sonora observáveis nas palavras e nos enunciados. Fonemas e prosodemas (acento, entoação, altura e ritmo) constituem um complexo sonoro de extraordinária importância na função emotiva e poética (Martins, 2000, p. 26). Os sons podem sugerir ideias ou impressões, provocar sensações de agrado e/ou desagrado. É o que se pode denominar “motivação sonora”, quando há alguma correspondência entre som e significado. Por exemplo, a vogal /u/ pode estar relacionada à ideia de escuridão nas palavras “escuro” e “noturno”, todavia isso não acontece em luz, diurno. Quando ocorre a intersecção de um significante e um significado, temos a metáfora fonética, assim como na metáfora semântica ocorre a intersecção de significados (o de um comparante e o de um comparado). Desse modo, conforme a insistência em sons de valor expressivo, podemos obter as seguintes figuras de som: 35 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA 6.5.1 Aliteração É a repetição insistente dos mesmos sons consonantais (no início ou em integrantes da sílaba tônica). Exemplo: “Jabuticaba Caju Maracujá/Pipoca Mandioca Abacaxi/é tudo tupi/tupi guarani” (Tu tu tu Tupi, de Hélio Ziskind, grifo nosso). 6.5.2 Assonância É a repetição insistente dos mesmos sons vocálicos. Exemplo: “Jundiaí Morumbi Curitiba Parati” (Hélio Ziskind, idem). 6.5.3 Homeoteleuto e rima Homeoteleuto: repetição de sons no final das palavras; aparecimento de uma terminação igual em palavras próximas, sem obedecer a um esquema regular, ocorrendo ocasionalmente numa frase ou verso. Exemplo: “Cassiano pensou, fumou, imaginou, trotou, cismou, e, já a duas léguas do arraial [...]” (Rosa, 2001, p. 143, grifo nosso). Eco: homeoteleuto não intencional, não estético, que se costuma considerar um vício de linguagem. Rima: coincidência de sons, geralmente nos finais das palavras. Exemplo: O índio andou pelo Brasil deu nome pra tudo que ele viu. Se o índio deu nome, tá dado! Se o índio falou, tá falado! (Tu tu tu Tupi, de Hélio Ziskind, grifo nosso) 6.5.4 Anomimação Consiste no emprego de palavras derivadas do mesmo radical – em uma mesma frase ou em frases mais ou menos próximas (ex.: sonho sonhado). 6.5.5 Paronomásia Figura pela qual se aproximam palavras que oferecem sonoridade análoga com sentidos diferentes; é um jogo de palavras, um trocadilho (de que pode resultar até um efeito humorístico). Exemplo: “Tão mal cumprida tão mais comprida...”. 36 Unidade II 6.5.6 Onomatopeia É a reprodução de um ruído ou a tentativa de imitação de um ruído por um grupo de sons da linguagem. É a transposição na língua articulada humana de gritos e ruídos inarticulados. Esse é um recurso bastante utilizado em histórias em quadrinhos em expressões como: bang (tiro), nhac, nhac (mastigação), pow (soco), bum (explosão). 6.5.7 Harmonia imitativa Estende-se ao longo de um enunciado, de um fragmento de prosa, de um poema, e resulta de um aglomerado de recursos expressivos: peculiaridades dos fonemas, repetições de fonemas, de palavras, de sintagmas ou frase, do ritmo do verso ou da frase. Veja-se, por exemplo, o poema Os sinos, de Manuel Bandeira: Sino de Belém, pelos que inda vêm! Sino de Belém bate bem-bem-bem. Sino da paixão, pelos que lá vão! Sino da paixão bate bão-bão-bão. A aliteração do /b/ e a reiteração de vocábulos labiais evocam fonicamente o tanger dos sinos. A onomatopeia bem-bem-bem sugere o som metálico e alegre “pelos que inda vêm” (os batizados); bão-bão-bão, o dobre de finados “pelos que lá vão” (os mortos). Além desses recursos expressivos, que constituem figuras de linguagem no nível fonético, ou seja, as figuras de som, podemos encontrar outros recursos que não compreendem necessariamente figuras, mas que caracterizam estilos no uso da língua. 6.5.8 Alterações fonéticas A estilística fônica trata de alterações fonéticas que têm valor expressivo. 6.5.8.1 Metaplasmos – por supressão, acréscimo, troca e permuta Ex.: arvre (árvore), aspro (áspero), pobrema (problema), guentar (aguentar), embonecrado (embonecado) etc. Correspondem a tendências ainda vigentes na língua, perceptíveis na fala popular e coibidas na língua culta. 6.5.8.2 Alterações fonéticas em autores regionalistas São formas populares, cujas funções são as de marcar o nível cultural das personagens ou da língua arcaica ainda existente em zonas rurais ou dos sertões. 37 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA Esses processos correspondem: (a) ao acréscimo de fonemas no interior de vocábulo (murucego); (b) ao acréscimo de /s/ no final de certas palavras (nuncas); (c) à supressão de som nas várias partes dos vocábulos (dianta, manhecer); (d) à supressão da vogal átona (pré ou pós-tônica): escrafuncar (escarafunchar); (e) à forma diminutiva em –im (riachim, passarim); (f) à troca de fonemas por vocalização, nasalação, dissimulação etc.; (g) à troca do [ r ] por [ l ]: militriz; (h) à permuta ou mudança de posição de fonemas, mais frequentemente com o [ R ] como em enterter, agardecer, entre outros. 6.5.8.3 Alterações fonéticasna poesia Na poesia, a metrificação dos versos está relacionada à sonoridade, que determina as sílabas poéticas formadas por supressão ou fusão de sons vocálicos. Daí, temos os seguintes fenômenos: Crase - fusão de duas vogais iguais: “Eu não espero o bem...”. Elisão - desaparecimento da vogal final de uma palavra ante a vogal inicial da palavra seguinte: “Alma serena e casta...”. Sinalefa - fusão da vogal final de uma palavra, reduzida à semivogal, com a vogal inicial da palavra seguinte, formando um ditongo: “Tudo quanto afirmais...”. Elipse - elisão ou sinalefa de vogal nasal; restringe-se praticamente ao encontro da preposição com e o artigo, variando a grafia: com o, co’o, co. Hiato entre vocábulos: usado pelos românticos, condenado pelos parnasianos, por deixar o verso frouxo; em certos casos, realça determinada palavra ou obriga a se emitir o verso num tom pausado. “Meu/ can/to/ de/ mor/te, Gue/rrei/ros/, ou/vi” (Dias, 1969, p. 123, grifo nosso). 38 Unidade II Há casos em que o hiato torna-se ditongo, fenômeno denominado sinérese, como em “E o Piaga se ruge/No seu Maracá” (Dias, 1969, p. 235, grifo nosso). As vogais formariam um hiato em se tratando de sílaba comum, mas tornam-se ditongo na métrica da sílaba poética. O inverso também ocorre e um ditongo desdobra-se em hiato. A esse fenômeno denomina-se diérese. Esse recurso contraria a tendência da língua de reduzir os hiatos. Devemos considerar, ainda, recursos fonéticos que já não se encontram no segmento da língua, mas no nível suprassegmental, e que podem alterar a mensagem, conforme a expressividade que podem marcar. Vejamos a seguir. 6.5.8.4 Prosodemas ou traços suprassegmentais • Acento: função distintiva – assim como a entoação, tem função intelectiva (frase afirmativa ou interrogativa, por exemplo) e presta funções expressivas importantes. É o caso do acento de duração, que não tem função fonológica, mas expressiva. Na língua escrita, essa função pode ser marcada pela repetição de grafemas, “rrrolar”, por exemplo. Pode, ainda, haver a intensidade de pronúncia marcada em uma sílaba para expressar emoção, energia, duração inusitada. Exemplo: Ela é maravilhosa! • Entoação: é a curva melódica que a voz descreve ao pronunciar palavras, frases e orações. Um nome próprio, por exemplo, com diferentes entoações, pode ter múltiplos significados, que devem ajustar-se ao contexto. É a entoação que indica se as nossas palavras estão no sentido próprio ou no oposto, se estamos sendo sinceros ou irônicos. • Sinais de pontuação e entoação: ponto final, vírgula, ponto-e-vírgula, travessão, parênteses, ponto de interrogação, de exclamação e reticências sugerem diferentes inflexões, mas têm em comum a indicação de uma pausa, precedida de queda, suspensão ou elevação da voz. A supressão de sinais de pontuação esperados pode ter efeito estilístico, permitindo, inclusive, múltiplas leituras. 6.5.9 Ortografia A ortografia pode marcar, na escrita, recursos expressivos. Assim, o emprego das maiúsculas, por exemplo, que foge ao Acordo Ortográfico, pode sugerir respeito, admiração, sentimento religioso ou cívico, acatamento de autoridade (pai, mestre, sacerdote, pátria etc.). Da mesma forma, o uso da minúscula no início de nomes próprios expressa a subversão à ordem, o que tem um valor semântico específico, de acordo com o contexto. 39 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA 6.6 Estilística da palavra Não há um conceito preciso do léxico. Segundo Martins (2000, p. 71): A Estilística léxica ou da palavra estuda os aspectos expressivos das palavras ligados aos seus componentes semânticos e morfológicos, os quais, entretanto, não podem ser completamente separados dos aspectos sintáticos e contextuais. De acordo com a conceituação tradicional de léxico, este é denominado palavra. Assim, há duas possibilidades expressivas da nossa língua das duas espécies de palavras: as gramaticais e as lexicais. 6.6.1 Palavras gramaticais Também denominadas palavras-formas, palavras-vazias e instrumentos gramaticais (ou não palavras). Sua significação é apreendida apenas no contexto linguístico, daí a afirmação de que ela é intralinguística ou interna. São pouco numerosas, mas de altíssima frequência nos enunciados. Esse tipo de palavra tem a função de: a) Relacionar o enunciado com a situação de enunciação, indicando os participantes da comunicação, o espaço e o tempo em que ela se dá. São os dêiticos (eu, tu e suas variantes, aqui, aí, agora, possessivos e demonstrativos referentes à 1ª e à 2ª pessoas etc.); b) Substituir ou referir algum elemento presente no enunciado. São os anafóricos ou representantes (ele, demonstrativos não relacionados à 1ª e 2ª pessoas etc.); c) Atualizar os nomes. São os determinantes, como artigo, pronomes adjetivos, numerais; d) Indicar quantidade e intensificação (numerais, pronomes indefinidos, quantitativos etc.); e) Relacionar palavras no sintagma e orações na frase; f) Estabelecer coesão textual. Martins (2000, p. 73) afirma que: O emprego das palavras gramaticais diz respeito, portanto, à sintaxe e à organização textual, seguindo regras mais ou menos fixas. Entretanto, sempre há possibilidade de uma alteração ou violação das regras para um efeito expressivo. Palavras gramaticais podem perder, em certos empregos, esse valor gramatical e tornar-se meros elementos de realce ou ainda receber um valor nocional, aproximando-se das palavras lexicais. 40 Unidade II Também palavras lexicais podem perder seu valor nocional, gramaticalizando-se. Exemplos selecionados pela autora: Advérbios cá, lá, aqui, enfatizando formas pronominais: “Eu cá sei das minhas dificuldades”; “Eles lá resolveram o caso”; “Aqui comigo é preciso tudo muito certinho”. Processo de nominalização: “Nosso eu maravilhoso” (Rachel de Queiroz); “Acho que nem dormia, comia o nada, nada, à pressas, pitava o tempo todo” (Guimarães Rosa). Cujo, que como relativo é marca da língua culta, substantivado é popular, com tom pejorativo: “- Fecha essa queixada, cujo, que isto não é comida, não, é freio” (Guimarães Rosa). Tom depreciativo (entre outros) dos pronomes neutros tudo, isto, isso, aquilo, referentes a pessoas: “- Arrenego! Deus me perdoe. Pois é aquilo que prega hoje?...” (M. A. de Almeida). Alguém com conotação valorizadora: “ser alguém na vida” ou usado em expressão indireta, dirigida a uma pessoa presente: “Alguém vai me emprestar um dinheirinho....”. Artigos e certos pronomes adjetivos podem absorver o sentido de um modificador do substantivo que acompanham: “Aí é que era um desfiar de anedotas, de ditos, de perguntas, e um estalar de risadas que ninguém podia ouvir porque o lavadouro ficava muito longe de casa” (Assis, Machado de. Obra Completa, v. I, p. 526). Artigo definido = sintagma: “Ele é o professor!”. Cada, tal, que, aquele e outros também assimilam um termo caracterizador em construções como: “Você arranja cada negócio!”; “Que dia, meu Deus!”. Nexos comparativos, entre as palavras nocionais gramaticalizadas, com redução do seu valor conceitual: “Os [namorados] daqui ficam só de mãos dadas, feito uns santos...” (R. de Queiroz, 100 crônicas... p. 10). “... o pessoal do bonde rindo que era ver uns demônios...” (2000, p. 211). 41 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA Ainda segundo Martins (p. 76): [...] muitos valores expressivos se ligam às palavras gramaticais, existindo um sistema expressivo paralelo ao sistema puramente gramatical. Uma boa parte da Estilística pode ser denominada gramática afetiva [...]. 6.6.2 Palavras lexicais São também denominadas lexicográficas, nocionais, reais, plenas; mesmo isoladas, despertam uma representação mental. Têm significação extralinguística ou externa. Diz-se inventário aberto, por possibilitar constante renovação do léxico de uma língua. São os substantivos, os adjetivos e os advérbios deles derivados ou a eles correspondentes, os verbos que exprimem ação e processo mental (excluídos, portanto, os auxiliares e os de ligação, que são palavrasgramaticais). 6.6.3 As tonalidades emotivas das palavras Podem ser inerentes ao próprio significado ou podem resultar de um emprego particular, sendo perceptíveis no enunciado, em razão do contexto, ou pela entoação, ou por algum recurso gráfico. Assim as palavras podem expressar afetividade, julgamento ou avaliação, como se pode observar na seleção lexical de adjetivos do tipo bom/mau, feio/bonito ou de substantivos como palácio/mansão (ideia de edifício, moradia). O sentido avaliativo pode ser expresso pelo acréscimo de afixos aos lexemas. Desse modo, podemos obter palavras como politicagem, politicalha, gentinha, gentalha, que exprimem uma avaliação negativa. Há palavras evocativas, como estrangeirismos, arcaísmos, termos dialetais, neologismos, expressões de gíria, as quais não só transmitem um significado, mas também nos remetem a uma época, a um lugar, a um meio social ou cultural. Devemos, ainda, lembrar-nos dos regionalismos, que permitem destacar peculiaridades de regiões do país, assim como das gírias, que caracterizam grupos sociais por meio de sua fala. Encerramos esse item com um texto de Deanna Troi, em que ele trabalha com estrangeirismos, dentre eles alguns já são arcaísmos. 42 Unidade II Destaque E tudo mudou... O rouge virou blush O pó-de-arroz virou pó-compacto O brilho virou gloss O rímel virou máscara incolor A Lycra virou stretch Anabela virou plataforma O corpete virou porta-seios Que virou sutiã Que virou lib Que virou silicone A peruca virou aplique, interlace, megahair, alongamento A escova virou chapinha “Problemas de moça” viraram TPM Confete virou MM A crise de nervos virou estresse A chita virou viscose. A purpurina virou gliter A brilhantina virou mousse Os halteres viraram bomba A ergométrica virou spinning A tanga virou fio dental E o fio dental virou anti-séptico bucal Ninguém mais vê... Ping-Pong virou Babaloo O a-la-carte virou self-service É um filho onde éramos seis O álbum de fotos agora é mostrado por email O namoro agora é virtual A cantada virou torpedo E do “não” não se tem medo O break virou street O samba, pagode O carnaval de rua virou Sapucaí O folclore brasileiro, halloween O piano agora é teclado, também O forró de sanfona ficou eletrônico Fortificante não é mais Biotônico Bicicleta virou Bis Polícia e ladrão virou counter strike Folhetins são novelas de TV Fauna e flora a desaparecer Lobato virou Paulo Coelho Caetano virou um chato Chico sumiu da FM e TV Baby se converteu RPM desapareceu Elis ressuscitou em Maria Rita? Gal virou fênix Raul e Renato, Cássia e Cazuza, Lennon e Elvis, Todos anjos Agora só tocam lira... A tristeza, depressão O espaguete virou Miojo pronto A paquera virou pegação A gafieira virou dança de salão O que era praça virou shopping A areia virou ringue A caneta virou teclado O long play virou CD A fita de vídeo é DVD O CD já é MP3 A AIDS virou gripe A bala antes encontrada agora é perdida A violência está coisa maldita! A maconha é calmante O professor é agora o facilitador As lições já não importam mais A guerra superou a paz E a sociedade ficou incapaz... ... De tudo. Inclusive de notar essas diferenças. Disponível em: https://tinyurl.com/54c649r2. Acesso em: 18 jul. 2011. 43 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA 6.6.4 As palavras e a linguagem figurada A linguagem figurada consiste em “desvio”, segundo a retórica, e em “alterações da linguagem”, segundo a não retórica. Dentre as figuras consideradas de palavra, temos: 6.6.4.1 Metáfora [...] uma comparação em que o espírito, induzido pela associação de duas representações, confunde num só termo a noção caracterizada e o objeto sensível tomado como ponto de comparação [...], segundo Bally (apud Martins, 2000, p. 92). Bally agrupa as expressões figuradas em três grupos: imagens concretas, sensíveis, imaginativas; imagens afetivas; imagens mortas. Exemplos: a) imagens concretas: “O vento engrossa sua grande voz”. b) imagens afetivas: “O doente declina dia a dia”. c) imagens mortas: escrúpulo, do latim scrupulu (designava uma pedrinha usada para pesar coisas pequenas; passou a designar a honestidade do negociante que não queria causar ao freguês o menor prejuízo, generalizando-se o seu sentido para o de “meticulosidade”). Enfim, as imagens concretas são apreendidas pela imaginação, as afetivas pelo sentimento ou pelos sentidos e as mortas por uma operação intelectual [...]. Segundo Ullmann, o termo imagem é o mais geral e abrange metáfora e símile (em casos mais raros, a metonímia). O símile se distingue da comparação gramatical, intensiva, por relacionar termos de diferentes níveis de referência, isto é, termos de natureza diferente. Ex.: O homem era forte como um touro. No símile, podemos ter quatro elementos explícitos: o comparado ou termo real (homem), o comparante ou termo irreal, imaginário, metafórico (touro), o análogo, que explicita o ponto comum entre os dois termos (forte) e o nexo gramatical (como). Na linguagem falada, essas comparações intensificadoras são frequentes, por exemplo: “surdo como uma porta”; “liso como sabão” etc. Em certas expressões, o comparante ressalta a ironia: “sutil como um elefante”. 44 Unidade II O nexo comparativo mais usual é como, mas são numerosos os torneios equivalentes, inclusive palavras nocionais como verbos, sendo alguns mais característicos da linguagem popular (que nem, feito) e outros da linguagem culta (tal, à semelhança de, análogo a). Exemplos selecionados por Martins (2000): “Estrondeavam pragas, qual um bafo do inferno” (José Américo, A bagaceira, p. 193). “Isso de querer-bem da gente é que nem avenca peluda, que murcha e, depois de tempo, tendo água outra vez fica verde” (Guimarães Rosa, Sagarana, p. 216). “Os olhos dela brilhavam reproduzindo folha de faca nova” (Guimarães Rosa, No Urubuquaquá, no Pinhém, p. 140). A metáfora pode ocorrer com substantivos, adjetivos e verbos, mas a metáfora de substantivo é mais comum. Nesse tipo de metáfora, tem-se a relação entre dois substantivos (A, termo real; B, termo imaginário), entre os quais se encontram traços comuns (semelhança). Para que haja metáfora, os termos comparados devem pertencer a universos diferentes. Por exemplo, ao dizer “Jorge é um touro”, há implícita a comparação entre o homem e o animal, entre os quais é estabelecido um traço de semelhança, no caso, de forte ou de violento. Nas metáforas lexicalizadas, mortas, o termo B substitui o termo A, com perda do teor expressivo; a metáfora torna-se um processo denominativo (catacrese) como em minhocão (elevado na cidade de São Paulo), orelhão (telefone), borboleta (catraca ou roleta dos ônibus), tartaruga (saliência nas ruas para forçar os carros a diminuírem a velocidade) etc. No caso de metáforas de adjetivo e de verbo, estas se caracterizam pela inadequação lógica ou não pertinência ao substantivo com que se relacionam sintaticamente. São exemplos: palavras ocas, caráter reto, nota preta, mesada gorda, arrotar grandeza etc. Na atribuição de juízos de valor, a metáfora pode ser utilizada para expressar exagero, indicando exaltação ou depreciação, e tem um papel importante na expressão da ironia. 6.6.4.2 Metonímia Segundo Michel Le Guerri (apud Martins, 2000, p. 102): [...] é a figura pela qual uma palavra (substantivo) que designa uma realidade A é substituída por outra palavra que designa uma realidade B, em virtude de uma relação de vizinhança, de coexistência, de interdependência, que une A e B, de fato ou no pensamento. 45 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA Vemos, portanto, que a metáfora se estabelece por semelhança, ao passo que a metonímia se dá por contiguidade. No dia a dia encontramos expressões metonímicas e nem nos damos conta desse recurso expressivo da língua. É o caso de “ter um teto para morar”, “o pão nosso de cada dia”, entre outras. Todavia, trata-se de um recurso muito utilizado para produzir a beleza de um texto poético. Veja os exemplos: “Na verdade a mão escrava passava a vida limpando o que o brancosujava, ê” (A mão da limpeza, de Chico Buarque de Holanda e Gilberto Gil). Quero ser a cicatriz Risonha e corrosiva Marcada a frio Ferro e Fogo Em carne viva [...] (Tatuagem, de Chico Buarque e Ruy Guerra) 6.6.4.3 Sinédoque É a troca de palavras com significado de diferente extensão, havendo entre elas uma relação de inclusão. A parte que na sinédoque é destacada do todo é, em geral, a que tem mais relevância no fato expresso. Assim, no exemplo abaixo, o ato de assassinar é atribuído à mão e não ao homem, porque foi com a mão que ele lhe cravou o punhal. “Ai pobre mão de loucura que mataste por amar!” (Meireles, 1987, p. 419). As figuras metáfora, metonímia e sinédoque, com grande frequência, constituem uma personificação, a qual se pode considerar como um tipo de metáfora, por ser uma alteração do traço significativo (sema) inanimado para animado, ou não humano para humano. É o que podemos verificar na belíssima composição Viola Enluarada, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle: A mão que toca um violão Se for preciso faz a guerra, Mata o mundo, fere a terra. A voz que canta uma canção Se for preciso canta um hino, Louva à morte. 46 Unidade II Viola em noite enluarada No sertão é como espada, Esperança de vingança. O mesmo pé que dança um samba Se preciso vai à luta, Capoeira. Quem tem de noite a companheira Sabe que a paz é passageira, Prá defendê-la se levanta E grita: Eu vou! Mão, violão, canção e espada E viola enluarada Pelo campo e cidade, Porta bandeira, capoeira, Desfilando vão cantando Liberdade. Quem tem de noite a companheira Sabe que a paz é passageira, Prá defendê-la se levanta E grita: Eu vou! Porta bandeira, capoeira, Desfilando vão cantando Liberdade. Liberdade, liberdade, liberdade... 6.7 Estilística da frase É por meio da sintaxe que quem fala ou escreve escolhe entre os tipos de frase, de acordo com as regras gramaticais, mas esse processo não está relacionado apenas ao domínio gramatical, mas também ao domínio estilístico. A frase veicula valores expressivos em potencial nas palavras, que adquirem seu sentido explicitado e o seu tom particular – neutro ou afetivo. À estilística interessa tanto a combinação das regras estabelecidas pela norma gramatical quanto os desvios dela que constituem traços originais e expressivos. Como unidade de comunicação, a frase exprime um sentido, encerra um conteúdo, que corresponde à sua função. Daí a classificação em: 47 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA • declarativa, em que o emissor exprime um fato que a seu juízo é verdadeiro ou falso; marcada por entonação descendente que corresponde ao ponto final; • exclamativa, que realiza a função emotiva, em que o falante deixa transparecer sentimentos variados, com entonação ascendente; • imperativa, que realiza a função apelativa, em que o falante exprime um fato desejável ou indesejável numa ordem, num pedido, numa súplica; • interrogativa, que é simultaneamente emotiva e apelativa, de entonação variável, conforme tenha ou não palavra interrogativa. Denomina-se, geralmente, oração a frase de estrutura binária (sujeito + predicado). Portanto, a frase pode ou não ser oração, ser completa e incompleta, explícita e implícita. O mais comum, porém, é que um discurso se constitua de mais de uma frase, havendo entre elas elementos de coesão como conjunções, vocábulos anafóricos, elipse, vocábulos repetidos, sinônimos ou pertencentes a um mesmo campo de significação. O adjetivo predicativo do sujeito alterna frequentemente com o advérbio, tirando os estilistas proveito dessa dupla possibilidade. É o que se vê no exemplo selecionado por Martins (2000, p. 136): A neve caía, levemente. A neve ia caindo direta e vaga.... A neve caía desfeita e branca. A neve caía, contínua, silenciosa. (Prosas bárbaras, em Obras de Eça de Queiroz, p. 569-775). Há também a possibilidade de haver ou não uma pausa entre o sujeito e o verbo dos vários tipos de frase. Isso quer dizer que a ligação entre os dois elementos da frase pode apresentar graus, variando a estrutura rítmica. Exemplos: O menino brincava. O menino, brincava. / O menino, ele brincava. A segmentação é, frequentemente, acompanhada de uma inversão e de um pleonasmo: “Ele é interessante, esse livro.” Esse procedimento é eminentemente expressivo, em que ambas as partes ganham relevo, e é usual na língua falada. Qualquer termo, além do sujeito, pode ser destacado na oração, tornando-se tema do enunciado. 48 Unidade II Outro recurso sintático é a elipse: brevidade da expressão resultante de alguma coisa que se deixou de dizer, ou por se ter dito em outra frase, oração ou sintagma, ou por outra razão de ordem afetiva ou estética. Exemplo: “Os mangues da outra margem jogam folhas vermelhas na corrente. Descem como canoinhas. Param um momento ali naquele remanso” (Rosa, 2001, p. 192). A elipse de palavras gramaticais é a que geralmente ocorre, visto que a relação ou determinação que elas exprimem é dedutível da própria significação dos termos expressos. Exemplos: “Mulher perguntou se ele queria beber gol, se doente estava” (Rosa, 1988, p. 20). “Ali mesmo, para cima do curral, vez pegaram um tatu peba” (Rosa, 1984, p. 139). “Tenho tempo hoje não, moça” (Rosa, 1988, p. 19). “Aquele silêncio, que pior que uma alarida” (Rosa, 1986, p. 207). Denomina-se pleonasmo o que se considera redundância pelo fato de uma informação ser transmitida por uma quantidade de signos linguísticos superior ao essencialmente necessário. Ocorre em todos os níveis da linguagem (fônico, semântico, morfossintático). A noção de grau normal de redundância da língua faz parte da competência dos usuários. Sentimos a sua redução na elipse e o seu aumento no pleonasmo. Segundo Bally, pleonasmo gramatical é a redundância normal da língua (marca de plural, por exemplo). Já o pleonasmo vicioso é o que se deve à ignorância do significado exato ou da etimologia das palavras (do tipo hemorragia de sangue, decapitar a cabeça etc.). É expressivo o pleonasmo que enfatiza as ideias transmitidas. Exemplos: “Todos nus e da cor da escura treva” (Camões, 2009, grifo nosso). “Deus, esse, minha rica, está longe” (Queirós, 1982, grifo nosso). “[...] estavam sem saber como voltar para suas casinhas deles” (Rosa, 1984, p. 18, grifo nosso). Se o termo que inicia a frase fica sem função sintática própria, servindo apenas como correferente de um pronome mais ou menos próximo, temos a quebra de construção a que se dá o nome de anacoluto. Exemplo: “Eu, que era branca e linda, eis-me medonha e escura” (Bandeira, 1967, p. 126). Certas partículas destituídas de valor nocional e sintático, mas portadoras de valor expressivo, são comumente chamadas de realce ou espontaneidade, ou ainda expletivas. Exemplos: 49 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA “E vocês também não me voltem mortos. Quero-os bem vivinhos e perfeitos” (Lobato, 1968, p. 84, grifo nosso). “Vocês são brancos, lá se entendam” (frase feita). Assim como os termos da oração, as orações que entram numa frase também apresentam maior ou menor grau de dependência e coesão. Quanto à relação entre as orações, esta pode ser estabelecida sem dependência uma da outra. É o que se denomina coordenação. Ela pode ser feita com ou sem o elemento de ligação, nexo ou conjunção. A construção assindética é mais comum na língua oral, tem um tom mais espontâneo, menor rigor lógico; é mais ágil, sugere a simultaneidade ou rápida sequência dos fatos. Esse tipo de construção é apreciada por Graciliano Ramos. No caso da coordenação sindética, a coesão entre as orações é reforçada por um nexo – a conjunção coordenativa. A conjunção mais frequente é e, cujo valor fundamental é reunir fatos que se acrescentam (aditiva), mas pode estabelecer várias outras relações que se apreendem pela própria significação das orações. É o que ocorre nos versos: [...] E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar E ali dançaram tanta dança que a vizinhançatoda despertou E foi tanto felicidade que toda cidade se iluminou E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais [...] (Valsinha, de Chico Buarque e Vinícius de Moraes) De cunho estilístico, a ausência de conjunção denomina-se assíndeto e a repetição a partir da segunda oração, polissíndeto (construção enfática, visto que destaca cada uma das orações). Quando há subordinação entre as orações, há uma relação de dependência ou regência e a oração subordinada equivale a um substantivo, adjetivo ou advérbio que tem valor de termo subordinante. Há escritores que preferem períodos mais curtos, outros períodos mais longos, dependendo do gosto pessoal, do estilo da época ou do gênero de composição do texto. A epopeia, por exemplo, caracteriza-se por ser constituída de períodos longos em que se encadeiam enumerações, além de ser rica de modulações, atendendo à grandiosidade desse estilo. Já em textos do tipo crônica ou em outros de cunho didático, o período breve está mais de acordo com a simplicidade, com a espontaneidade das manifestações emotivas ou com a vivacidade dos diálogos, bem como de acordo com o tom despretensioso. 50 Unidade II Há frases que não se estruturam em sujeito e predicado. Trata-se da frase incompleta, também denominada inorgânica, inarticulada, elíptica, cujo entendimento exige certos dados contidos na situação de enunciação ou no contexto linguístico. A frase incompleta pode apresentar vários graus de implicitação e de afetividade. Partindo das frases com menos elementos implícitos para as mais condensadas, temos: a) Frases de dois membros (dirremas) Há construções do tipo “Bonita, sua blusa”, que exprime o mesmo fato da frase completa: “Esta blusa é bonita”. Esse tipo de construção compõe muitos provérbios e frases sentenciosas, que têm a sua expressividade realçada por essa construção (ausência de verbo), tornando-os atemporais, de valor permanente, universal. Veja no exemplo: Cada macaco em seu galho é mais impressivo que seria Cada macaco deve ficar em seu galho. Muitas das frases desse tipo apresentam um paralelismo que acentua uma ideia implícita de causa, consequência, oposição, tempo etc. b) Frases de um só membro (monorremas), cujo sentido se completa com um segundo membro não expresso, mas inerente no contexto ou na situação. Esse tipo de construção ocorre em casos de informações sumárias, avisos, anúncios, por exemplo: “Fechado para almoço”. “Rua sem saída”. As frases desse tipo têm função referencial e conativa: comunicam e advertem. 6.7.1 A ordem dos termos da frase 6.7.1.1 A ordem dos termos no sintagma nominal De modo geral, o adjetivo que tem valor apreciativo é colocado antes do substantivo (uma bela resposta, uma comovente cena) e coloca-se depois do substantivo o adjetivo que enuncia particularidade do objeto, definindo-o, distinguindo-o de outros, classificando-o (homens brutos, música popular, momento especial). 51 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA Quando há dois ou mais adjetivos, as possibilidades de distribuição aumentam consideravelmente, podendo ficar todos depois ou antes do substantivo, ou ser divididos, conforme mais convenha ao ritmo desejado. Na linguagem poética encontramos, também anteposto ao substantivo, o adjunto preposicionado. É o que ocorre nesses versos de Sousa (1997, p. 42): Do teu perfil os tímidos, incertos Traços indefinidos, vagos traços, Deixam, da luz nos ouros e nos aços, Outra luz de que os céus ficam cobertos (grifo nosso). 6.7.1.2 A ordem dos termos no sintagma verbal No sintagma verbal é comum o auxiliar anteceder o verbo principal. Porém, quando se quer enfatizar o verbo principal, ele pode ser antecipado, quer na linguagem falada, quer na linguagem poética. Exemplos: “Fugir você não pode.” “Morrer, quem é que quer?” “Oh! Ver não posso este labéu maldito!” (Alves, 1960, p. 199). 6.7.2 As alterações da ordem direta As alterações da ordem “direta” receberam da retórica as denominações de hipérbato, anástrofe, sínquise, prolepse. Como não coincide e nem é satisfatória a distinção entre umas e outras, é preferível ficar apenas com a denominação genérica de inversão. Esse processo rompe a monotonia da ordem usual, podendo favorecer um ritmo mais adequado ou propiciar um tom mais elegante; na poesia, pode atender à imposição da métrica ou da rima, além da intenção de ênfase. Bally distingue a inversão afetiva da linguagem comum – um realce dado ao tema da frase -, que é espontânea, natural, da inversão retórica, usada na poesia mais pomposa. São inversões de caráter afetivo, não estético, construções como: “É um encanto essa criança.” “Dinheiro eu não tenho.” Como exemplos de inversão artificial, própria da linguagem poética, mais elaborada, podem servir estes versos de Gonçalves Dias (1969, p. 33), que não chegam, entretanto, a ser obscuros: 52 Unidade II O que nos resta pois? – Resta a saudade, Que dos passados dias De mágoas e alegrias Bálsamo santo extrai consolador 6.7.3 Concordância Há dois tipos de concordância: a lógico-gramatical, estabelecida pela gramática normativa, e a estilística, que ultrapassa os limites da correção, a que atende a necessidades expressionais particulares, a que oferece a quem fala ou escreve possibilidades de escolha. A concordância estilística pode ser: 6.7.3.1 Concordância por atração Ocorre quando o adjetivo e o verbo concordam com um termo mais próximo e de maior importância no contexto e no espírito de quem fala ou escreve e não com o termo que logicamente lhes determinaria as flexões. Exemplo: “Vi um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade” (Assis, 1971, p. 167, grifo nosso). 6.7.3.2 Concordância ideológica (ad sensum, sínese, silepse) As flexões assumidas pelo verbo ou pelo adjetivo não são compatíveis com os termos presentes na frase aos quais eles se prendem gramaticalmente, mas com a ideia que eles despertam na mente de quem fala ou escreve. Ex.: “Consultemos o coração aqueles que o tivermos” (Camilo C. Branco, 1986, grifo nosso). 6.7.3.3 Concordância afetiva: a que se deve ao influxo da emoção Ex.: ”-Sim, e agora ando bom. E tu, meu Luís, como vamos de saúde?” (A. Garret, 1966). 6.8 Estilística da enunciação O paradigma atual de estudos linguísticos é denominado pragmática, no qual pressupõe-se a língua em uso efetivo. Para tanto, torna-se necessário analisar além do produto, que é o enunciado, e adentrar o que se chama enunciação. A enunciação é um ato de comunicação em que se encontram um eu que fala para um tu, situados em um aqui e num agora. Isso quer dizer que ao falarmos de enunciação, pressupomos o ato, o processo comunicativo pelo qual se tem o resultado, o produto, que denominamos enunciado. 53 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA Portanto, os estudos linguísticos que levam em conta a Teoria da Enunciação têm por objetivo buscar nos enunciados as marcas dos elementos relacionados à enunciação, como a situação comunicativa, o contexto socio-histórico, o locutor, o interlocutor, o referente etc. Nesse sentido, há estudiosos que dividem a estilística em duas: a do enunciado, que investiga o aspecto verbal, suas particularidades fônicas, morfológicas, semânticas e sintáticas; a da enunciação, que trata da relação entre os protagonistas do discurso, ou seja, da relação locutor-interlocutor–referente. Um dos aspectos que pode ser descrito pela estilística da enunciação é a questão da objetividade versus subjetividade na produção de textos/discursos. Para tanto, o locutor utiliza recursos da língua que lhe permitam produzir efeito de objetividade e/ou subjetividade. Diz-se que um texto é subjetivo quando se observa neste a manifestação da 1ª pessoa do discurso. Nesse tipo de texto, encontraremos o uso de pronomes de 1ª pessoa (eu, mim, comigo, meu), assim como os indicadores de tempo e lugar - aqui, agora - relacionados a essa pessoa. Ao contrário, podemos dizer que otexto é objetivo quando nele encontra-se marcado o uso da 3ª pessoa do discurso (ele, seu etc.) e seus respectivos indicadores de tempo e espaço (então, lá). Nesse tipo de texto, pode-se notar o distanciamento do sujeito enunciador. Vejamos o enunciado: “Em Brasília, na quarta-feira, a governadora gaúcha afirmou que será candidata à reeleição” (https://tinyurl.com/yc5rdjc6). Há referência ao locutor na 3ª pessoa: “a governadora gaúcha afirmou”, recurso que caracteriza, em um texto jornalístico, a objetividade do sujeito enunciador, mantendo-se este distante no espaço enunciativo, atribuindo, assim, indiretamente, a responsabilidade da afirmação ao “outro”. A subjetividade pode ser explícita ou implícita. No primeiro caso, haverá marcas no enunciado de 1ª pessoa. Assim, podemos encontrar afirmações do tipo “Considero positiva a atuação do governo sobre o problema”. Já no segundo caso, quando a subjetividade está manifestada implicitamente, o sujeito não se declara. Dessa forma, poderíamos ter a mesma assertiva do seguinte modo: “A atuação do governo sobre o problema foi positiva”. A avaliação pode ser de vários tipos e nestes a subjetividade manifesta-se em vários graus. São eles: avaliação quantitativa, modalizadora e axiológica (ou apreciativa). No primeiro caso, quando há medidas exatas para quantificar uma ação, diz-se objetiva a avaliação, todavia as medidas são relacionadas a critérios, o que dá margem à subjetividade. Por ser mais imprecisa, torna-se mais subjetiva a avaliação quantitativa com indefinidos como muito, pouco, algum etc. Na avaliação modalizadora, o locutor considera o fato a que se refere como verdadeiro ou falso, certo, incerto, possível, desejável. A certeza da veracidade do fato pode ser enunciada, em uma oração declarativa, pelo uso de expressões como “sem dúvida”, “realmente”, “indubitavelmente” etc. Da mesma 54 Unidade II forma, se o enunciado é objeto de citação, ele pode ser introduzido por verbos como afirmar, garantir, afiançar etc. Quanto à avaliação axiológica (ou apreciativa), esta diz respeito ao valor moral ou estético e relaciona-se aos valores de bom/mau, bonito/feio, útil/inútil. Nesse tipo de avaliação, há uma intensificação da subjetividade, tornando-se esta de cunho pessoal, daí ser de caráter afetivo. O enunciador pode mostrar-se emocionalmente envolvido, declarando explicitamente seus sentimentos, falando diretamente de si ou pode deixar transparecer sua emoção por meio da seleção lexical ou de determinadas construções ou figuras. Essa subjetividade afetiva é muito comum em poemas líricos, mas ela também se encontra presente em outros tipos de texto. Atualmente, os estudos linguísticos têm ressaltado a importância da intertextualidade nos textos, uma vez que todo texto dialoga com outro(s). Desse modo, verifica-se que de forma explícita ou implícita os autores retomam outros discursos e, para tanto, utilizam recursos da língua. Por ser amplo, este é um estudo que requer tempo e espaço e, por isso, não vamos tratar detalhadamente dele por ora. Além disso, a estilística clássica vai até o limite da frase, tendo em vista o enunciado, o produto e não o processo, como o faz os estudos da enunciação. Um texto constitui-se basicamente de três instâncias enunciativas: • A do enunciador – Enunciatário, que diz respeito à enunciação considerada como ato implícito de produção do enunciado. Enunciador e enunciatário equivalem a autor/leitor, isto é, à imagem desses construídas pela obra e que são sempre pressupostos. O enunciador, ao produzir um enunciado, leva em conta o enunciatário a quem se dirige. • A do narrador – Narratário: eu/tu instalados no enunciado, que podem permanecer implícitos. Um exemplo é quando se narra uma história em 3ª pessoa. • A do interlocutor – Interlocutário, quando o narrador dá a voz a um personagem, em discurso direto. Desse modo, é preciso analisar as categorias pessoa, tempo e espaço para que o texto produza sentido nessa relação interacional em que se insere, do ponto de vista pragmático. A pragmática é a ciência da língua em uso, que, segundo Fiorin (2003, p. 161) “estuda as condições que governam a utilização da linguagem, a prática linguística”. Observação Para se estudar a língua em uso é preciso ir além do produto, que é o enunciado, e chegar até as condições de produção dele, o que corresponde ao ato, isto é, à enunciação. 55 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA Isso é notório, por exemplo, em relação aos dêiticos, visto que eles indicam o lugar ou o tempo em que um enunciado é produzido, bem como os que participam da situação enunciativa. Um dêitico só pode ser entendido na situação de comunicação, daí a importância da dêixis para a análise pragmática. Ao interpretarmos um enunciado, devemos levar em conta os participantes do ato comunicativo, ou seja, a relação eu-tu, o momento da enunciação – agora – e o lugar de produção do enunciado – aqui. Assim, podemos representar a dêixis da seguinte forma: EU ___ TU AQUI/AGORA Os elementos linguísticos que servem para situar o enunciado são os dêiticos. Na década de 1970, Benveniste postulou a teoria da enunciação, em que se diferenciam o ato, o processo de produção do texto (que é a enunciação) do produto, o estado que resulta da enunciação, isto é, o enunciado. De acordo com Fiorin (2003, p.163): Como a pessoa enuncia num dado espaço e num determinado tempo, todo espaço e todo tempo organizam-se em torno do “sujeito”, tomado como ponto de referência. Assim, espaço e tempo estão na dependência do eu, que neles se enuncia. O aqui é o espaço do eu e o agora é o momento da enunciação. A partir desses dois elementos, organizam-se todas as relações espaciais e temporais. A Pessoa Na cena enunciativa, a 1ª e a 2ª pessoas correspondem aos participantes da comunicação, ao passo que a 3ª pessoa, “ele”, designa qualquer ser ou não designa nenhum ser, ou seja, a 3ª pessoa equivale à impessoalidade, já que esse sujeito não é jamais instaurado como participante da enunciação. É dessa forma que o texto torna-se subjetivo ou objetivo. Na verdade, o que se tem é efeito de subjetividade versus objetividade. Se o enunciador encontra-se instaurado na cena enunciativa, o texto torna-se subjetivo, do contrário o efeito é de objetividade. Vejamos os exemplos: “O presidente da empresa concede, a partir desta data, aumento de 30% nos salários.” “Concedo, a partir desta data, aumento de 30% nos salários.” 56 Unidade II Verificamos que no primeiro exemplo o sujeito enunciador encontra-se enunciado em 3ª pessoa, o que produz efeito de distanciamento, portanto de objetividade. Já no segundo exemplo, o sujeito enunciador está instaurado na cena enunciativa, pois ele se diz “eu”, assume a voz da 1ª pessoa, o que confere um caráter subjetivo ao enunciado. Podemos dizer que no primeiro exemplo a ênfase recai sobre a ação, ao passo que no segundo exemplo, foi colocado em evidência o sujeito da ação. De acordo com a teoria da enunciação, denominam-se “pessoas enunciativas” as que participam do ato de comunicação (eu/tu) e “pessoa enunciva” aquela que pertence ao domínio do enunciado, o “ele”. Nesse sentido, segundo Fiorin (2003, p. 165), os significados das pessoas são: eu: quem fala, eu é quem diz eu; tu: aquele com quem se fala, aquele a quem o eu diz tu, que por esse fato se torna o interlocutário. ele: substituto pronominal de um grupo nominal, de que tira a referência; participante do enunciado; aquele de que eu e tu falam; nós: não é a multiplicação de objetos idênticos, mas a junção de um eu com um não eu; há três nós: um nós inclusivo, em que ao eu se acrescentam um tu (singular ou plural); um nós exclusivo, em que ao eu se juntam ele ou eles (nesse caso, o texto deve estabelecer que sintagma nominal o ele presente no nós substitui) e um nós misto, em que ao eu se acrescenta tu (singular ou plural) e ele(s). vós: um vós é o plural de tu e outro é um vós em que ao tu se juntam ele oueles; eles: pluralização de ele. O Tempo O tempo linguístico difere-se do tempo cronológico e do tempo físico. Para Benveniste (apud Fiorin, 2003, p. 166), o tempo físico é o tempo marcado, por exemplo, pelo movimento dos astros, que determinam a existência de dias, anos etc., enquanto o tempo cronológico é o dos acontecimentos, o tempo marcado pelo calendário. Ainda de acordo com esse autor: O que o tempo linguístico tem de singular é que ele é ligado ao exercício da fala, pois ele tem seu centro no presente da instância da fala. Quando o falante toma a palavra, instaura um agora, momento da enunciação. Em contraposição ao agora, cria-se um então. Esse agora é, pois, o fundamento das oposições temporais da língua. 57 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA Para se determinar o tempo linguístico, de acordo com Fiorin (2003, p. 167), é necessário considerar três momentos: o momento da enunciação – ME, o momento da referência – MR (presente, passado e futuro) e o momento do acontecimento – MA, que pode ser concomitante, anterior ou posterior a cada um dos momentos de referência. Ainda segundo o autor, há dois sistemas temporais na língua, um que se relaciona ao momento de referência presente, isto é, ao próprio momento da enunciação, e outro ordenado pela função de momentos de referência, passado ou futuro, instalados no enunciado. O primeiro sistema, o da enunciação, é denominado enunciativo, enquanto o segundo é chamado de enuncivo. A partir dessa divisão pode-se obter o seguinte esquema: ME (presente implícito) Sistema enunciativo Sistema enuncivo concomitância MR presente não concomitância anterioridade MR pretérito posterioridade MR futuro Os tempos enunciativos ordenam-se da seguinte maneira: MR presente concomitância presente não concomitância anterioridade pretérito perfeito I posterioridade futuro do presente O presente marca uma coincidência entre o momento do acontecimento e o momento de referência presente. Há, todavia, três casos de relações entre momento de referência e momento da enunciação, a saber: • Presente pontual: coincidência entre MR e ME. Ex.: “Uma estrela surge no céu.” 58 Unidade II • Presente durativo: momento de referência é mais longo que o momento da enunciação. Essa duração pode ser contínua (presente de continuidade) ou descontínua (presente iterativo). Exemplos: a) “Neste semestre, faço uma pesquisa de língua portuguesa.” b) “Nos finais de semana, eles se encontram na lanchonete.” Veja que no exemplo (a) a ação está sendo realizada e continuada em um presente, enquanto no exemplo (b) tem-se a impressão de uma ação frequente, mas descontinuada, ou seja, iterativa, repetida. O pretérito perfeito marca uma relação de anterioridade entre o momento do acontecimento e o momento de referência presente (MR). Ex.: “O candidato eleito assumiu o cargo.” A ação enunciada pelo verbo assumir é anterior ao agora da enunciação e está enunciada pelo pretérito perfeito simples. Em português, há uma tendência em se enunciar ações passadas pelo pretérito perfeito composto, que não tem uma função temporal propriamente dita, mas uma função aspectual, em que a ação tem um valor iterativo, inacabado. Por exemplo, em “Todos têm feito os exercícios nos últimos dias”, o pretérito composto, além de marcar uma ação iniciada em um tempo anterior ao momento de referência presente, indica uma continuidade da ação. Nesse caso, do ponto de vista funcional, há dois pretéritos perfeitos: o primeiro, que é o tempo do sistema enunciativo, e o segundo, que pertence ao sistema enuncivo. O futuro do presente indica uma posterioridade do momento do acontecimento em relação a um momento de referência presente. Ex.: “Eu falarei com você na próxima semana.” No exemplo, o acontecimento “falará” é posterior ao momento de referência presente. Os tempos enuncivos ordenam-se em dois subsistemas, um centrado em um momento de referência pretérito e outro centrado em um momento de referência futuro. 59 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA O esquema do primeiro subsistema é o seguinte: MR pretérito concomitância acabado não concomitância anterioridade pretérito mais que perfeito posterioridade pontual limitado pretérito perfeito 2 inacabado durativo não limitado pretérito imperfeito imperfectivo futuro do pretérito simples perfectivo futuro do pretérito composto A concomitância do momento do acontecimento em relação a um momento de referência pretérito pode ser expressa tanto pelo pretérito perfeito 2 quanto pelo pretérito imperfeito. Veja os exemplos: c) “No dia 1º de janeiro, o candidato eleito pelo povo tomou posse do cargo de Presidente da República.” d) “No dia 1º de janeiro, o candidato eleito pelo povo tomava posse do cargo de Presidente da República.” Nos exemplos c e d, tanto tomou quanto tomava indicam concomitância a um momento de referência pretérito – 1º de janeiro. O pretérito perfeito é o tempo por excelência da narração, ao passo que o imperfeito é o tempo que melhor atende aos propósitos da descrição. Já o pretérito mais que perfeito indica uma relação de anterioridade entre o momento do acontecimento e o momento de referência pretérito. Ele pode ser expresso tanto na forma simples como na composta, tendo sido esta última mais utilizada atualmente. Vejamos os exemplos: “No dia seguinte, quando ninguém mais tinha esperança, ele chegara.” “Ele partiu para aquela cidade, onde tinha vivido desde criança.” O outro subsistema enuncivo organiza-se em torno de um momento de referência futuro e apresenta a seguinte estrutura: 60 Unidade II MR futuro concomitância presente do futuro não concomitância anterioridade futuro de futuro posterioridade futuro anterior Segundo Fiorin (2003, p. 173): A) O presente do futuro não tem em português uma forma específica. Ex.: “No dia em que eu chegar, avisarei meus amigos”. B) A anterioridade em relação a um momento de referência futuro é indicada pelo futuro anterior: Ex.: “No final da semana, terei enviado todos os cartões”. C) A posterioridade em relação a um momento de referência futuro é indicada pelo futuro do presente simples: Ex.: “Depois de lhe telefonar, irei a sua casa”. Na categoria tempo, os advérbios de tempo também articulam-se em um sistema enunciativo e outro enuncivo, sendo o primeiro centrado num momento de referência presente e o segundo organizado em torno de um momento de referência pretérito ou futuro inscrito no enunciado. O Espaço O espaço linguístico constitui-se a partir do lugar do “eu”, isto é, do “aqui” na cena enunciativa. Na expressão linguística, as classes gramaticais que expressam esse espaço são a dos demonstrativos e a dos advérbios de lugar. Como já vimos anteriormente, os pronomes demonstrativos podem funcionar como dêiticos ou como anafóricos (e/ou catafóricos). De acordo com os estudos gramaticais, este/ esse (e seus correspondentes) indicam o espaço da cena enunciativa, enquanto aquele indica o que se encontra fora dele, na função dêitica. Já em função coesiva, este emprega-se como anafórico e aquele, também em função anafórica, marca o que foi dito há algum tempo ou em outro contexto. Quando devem ser retomados dois termos, este refere-se ao que foi enunciado por último e aquele ao que foi dito primeiro. 61 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA Vejamos o exemplo: “João e José chegaram juntos. Este estava de vermelho, aquele de azul.” Os advérbios de lugar relacionam-se à cena enunciativa, sendo que aqui e aí opõem os espaços relacionados ao eu/tu, ao passo que ali indica o espaço fora da cena enunciativa. Já na relação cá versus lá, o primeiro marca o espaço da enunciação e o segundo, o espaço fora da cena enunciativa. Nesse sentido, acolá opõe-se a lá, distinguindo-se dois locais fora do espaço da enunciação. Vejamos o exemplo: “Aqui, desse lado da rua, todas as casas são brancas. Ali, do outro lado, todas as casas são azuis. Lá, na outra rua, as casas têm cores variadas.” Como pudemos observar, a pragmática consideraa língua em seu uso efetivo e, desse modo, os recursos que oferece são utilizados para a construção de sentido nos textos produzidos. Daí os critérios de categorias para efeito de análise desse objeto tão rico e produtivo que é a nossa língua portuguesa. Saiba mais Para aprofundar seus estudos a respeito, sugerimos a seguinte obra: FIORIN, J. L. A. Introdução à Linguística II: princípios de análise. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2003. 7 INTRODUÇÃO À PRAGMÁTICA Neste tópico, trataremos da língua do ponto de vista da pragmática, observando a origem desses estudos e as contribuições em termos de análise da expressão verbal humana e das estratégias extralinguísticas. O autor Stephen Levinson (2007) faz em seu livro, Pragmática, uma apresentação bastante satisfatória do campo de estudo da pragmática linguística que sintetizaremos aqui, a fim de dar um panorama sobre esta área. Centralizaremos as contribuições de Levinson que esclarecem a origem da pragmática, sua definição e seus aspectos teóricos. 7.1 Pragmática: a origem Sobre a origem do termo, Levinson explicita que a palavra pragmática tem a raiz grega pragma, que significa ação. Conforme o autor, o estudo da pragmática se desenvolveu no século XX. Morris (1938) foi o precursor, com o estudo da semiótica; logo em seguida tivemos o filósofo Carnap (1956, 1959) com o estudo da lógica e, na semântica formal, Montague (1968). Conforme Levinson (2007), devemos 62 Unidade II acrescentar que a pragmática se consolida nos estudos linguísticos com os estudos de Austin (How to do things with words, 1962), Grice (Logic and conversation, 1975; Further notes on logic and conversation implicature, 1978), e Searle (Speech acts, 1969; Expression and meaning, 1979). Em linhas gerais, diversas e distintas acepções do termo pragmática brotaram da divisão original da semiótica feita por Charles Morris: o estudo de largo escopo de fenômenos psicológicos e sociológicos envolvidos no sistema de signos em geral ou na língua em particular (o uso europeu ‘continental’ do termo); ou o estudo de certos conceitos abstratos que fazem referência aos agentes (uma das definições de Carnap); ou o estudo dos termos indiciais ou dêiticos (conceito de Montague); ou, finalmente, a recente acepção da linguística e da filosofia anglo-americanas (Levinson, 2007, p. 6). Levinson (2007) ocupa-se mais pontualmente da última acepção do termo, e é para uma explicação de seu emprego que agora nos voltaremos. Em outras palavras, todos os parâmetros pragmáticos referem-se aos usuários da língua apenas no caso de que tais parâmetros devam ser conhecidos ou tidos como verdadeiros pelos participantes, a fim de se tornarem relevantes. 7.2 Definindo a pragmática: alguns aspectos A pragmática linguística tem como objeto a ação materializada pela linguagem: o que a interação linguística produz em termos de “ação” no mundo? A pragmática é o estudo do uso linguístico, da interação entre o código linguístico, a linguagem e a sociedade. Sobre a distinção entre pragmática e semântica formal: temos que a semântica é o estudo do significado da língua e seus códigos, retirados (separados) do contexto ou da situação empírica de uso; a semântica formal está vinculada ao estudo do valor de verdade das sentenças (proposições lógicas), enquanto a pragmática está associada ao estudo do significado da linguagem, inserido em contextos de uso específicos, considerando as suas condições de produção. Observação Especificamos a semântica formal, pois há atualmente outras vertentes como a semântica enunciativo-argumentativa, a semântica do acontecimento, a semântica cognitiva, que não compartilham dos mesmos princípios da semântica formal, tradicional sobre a linguagem e sobre o sentido. Para melhor visualizarmos essa distinção, consideremos um exemplo tão comum nos livros e aulas de pragmática: “A porta está aberta”. Semanticamente não temos dúvida sobre a informação veiculada por essa sentença a respeito do estado do objeto “porta”. Por outro lado, se essa mesma sentença for enunciada em diferentes situações de uso, ela ganhará diferentes sentidos. Vejamos algumas possibilidades de diferentes significados: 1º Antes de tudo, temos que considerar o significado mais referencial relativo ao estado de coisa do objeto porta na condição de aberta sendo usado literalmente: uma pessoa vai verificar o estado da porta 63 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA e constata, dizendo: “A porta está aberta”. O significado dessa proposição é meramente a constatação de que a porta está aberta e não fechada ou encostada ou entreaberta... 2º Um casal está discutindo acaloradamente e, em dado momento, o marido ameaça a mulher de deixá-la, indo embora para sempre, ao que a esposa responde não menos ameaçadora: “A porta está aberta!”. Tal proposição pode ser uma forma de desdém (“pode ir”) em relação à presença do outro ou uma ameaça do tipo “se for na precisa voltar mais” ou uma provocação (“não quero mais você aqui”). 3º Em um dia de excessivo frio e vento, num ambiente de trabalho em meio a uma reunião de vendedores, o gerente adverte: “A porta está aberta”. Tal proposição é uma ordem para que algum funcionário feche a porta. 4º Mediante à insatisfação dos funcionários de uma fábrica, o gerente mostra as condições de trabalho, salário e os benefícios possíveis naquele momento de crise e ameaça os funcionários que não estiverem satisfeitos com o que a empresa oferece, dizendo: “Aos insatisfeitos, a porta está aberta”. Tal proposição é claramente ameaçadora no sentido de que quem não estiver de acordo com as regras será demitido. 5º Um pai comovido e saudoso que recebe o filho pródigo de volta em sua casa dizendo: “A porta está aberta”. Tal proposição claramente demonstra o perdão do pai em relação ao filho e se faz um convite para que este filho pródigo volte ao seio da família. Este exemplo tão usado nas aulas de pragmática, bem como nos artigos, livros e discussões dessa área, foi aplicado por Searle e tantos outros autores que se debruçaram a respeito do assunto. Assim como esse exemplo, alguns outros são igualmente bastante explorados e eventualmente aparecerão aqui: “Eu vos declaro marido e mulher”, “Declaro aberta a sessão”, “Pedro parou de fumar”. Observação Observe ainda outros exemplos em que o significado semântico pode ser outro em contexto de uso (pragmáticos): Ironia: “Você está feliz, hein?”. Mudança de perspectiva - passivas, ergativas: “O prato foi quebrado/O prato quebrou.” Sinonímia: a diferença entre medo e pavor – “Tenho medo de cachorro”/“Tenho pavor de cachorro.” Contradição: “Sua advogada é muito competente”. “Ela é e não é”. Prosódia: “A-hã, a-hã” “Hum.” Sentenças clivadas: “Não foi a proposta que foi reprovada.” 64 Unidade II Assim sendo, há um significado do código e um significado do contexto de uso. Existem variadas relações de implícitos, pressuposições, inferências nas enunciações que são componentes previsíveis do significado e que estão sujeitos à revisão e acréscimo. Vejamos aqui uma breve mostra de algumas dessas relações e em que área elas são analisadas, já que dificilmente uma teoria semântica coerente pode capturar todos estes divergentes aspectos do significado (Levinson, 2007, p. 16-17): a) Condições de verdade ou acarretamento. Se a proposição p é verdadeira, a proposição q também é verdadeira: P = José derramou o leite acarreta; Q = O leite derramou. A investigação dos acarretamentos estabelece-se no campo de estudo da semântica. b) Implicaturas convencionais. Os dêiticos – dêixis social (senhor, ô cara, mas rapaz); dêiticos do discurso (nossa! então, mas, bem, oh!); alguns dêiticos de tempo (bom dia!, tarde, noite). Já que as inferências feitas pelo interlocutor sobre esses dêiticos são convencionalizadas, eles não mudam com o contexto, e o estudo dos mesmos dá-se no campo da semântica. c) Pressuposições: Pedro parou de bater na mulher ou Pedro não parou de bater na mulher pressupõe que