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REGIÃO DE CONTRASTES O termo América Latina foi usado pela primeira vez em um poema chamado “Las dos Américas”, publicado em 15 de fevereiro de 1857, de autoria do poeta colombiano José María Torres Caicedo. Do ponto de vista literário, o poema não recebeu reconhecimento, mas, em relação às questões geopolíticas, pode-se dizer que ele, de alguma forma, anteviu as relações historicamente tensas entre a maior potência do mundo e os seus “coirmãos” americanos. Leia um trecho desse poema e veja como já havia uma clareza das diferenças políticas e humanistas entre a América Anglo-Saxônica, constituída pelos Estados Unidos e Canadá, e a América Latina. As duas Américas [...] Mais isolados se encontram, desunidos Esses povos nascidos para se aliarem: A união é seu dever, sua lei é se amar Têm a mesma origem e missão A raça da América Latina, Em frente tem a raça saxônica, Inimigo mortal que já ameaça Destruir sua liberdade e sua bandeira. José María Torres Caicedo A América Latina, com destaque para a América do Sul, foi marcada, durante as décadas de 1960 e 1970, por inúmeras ditaduras militares. Naquela época, a população vivia sob grande repressão política e risco de prisões arbitrárias. Somente na década de 1980, os regimes militares foram, lentamente, sendo substituídos por governos democráticos eleitos com voto direto pelo povo. Acabaram as ditaduras, mas não a dependência econômica e a situação de subordinação política em que os países latino-americanos se encontram em relação às potências hegemônicas mundiais, sobretudo em relação aos Estados Unidos. Esse fato tem dificultado os avanços políticos, econômicos, sociais e até tecnológicos na região. O desejo estadunidense de dominação sobre o continente é antigo. Em 1820, a Doutrina Monroe pregava “a América para os americanos”. Em 1898, os EUA lutaram contra a Espanha pelo controle do Caribe. Após a vitória na Guerra Hispano-Americana, eles anexaram Porto Rico, Havaí e Cuba, marcando o início do imperialismo estadunidense pelo mundo. Já no século XX, em nome da política do Big Stick (em português, “Grande Porrete”), os EUA intervieram militarmente em Cuba, Nicarágua, Haiti, República Dominicana e, mais recentemente, em Granada (1983). Desde 2000, o Plano Colômbia é conduzido pelos EUA para erradicar o narcotráfico e para combater as guerrilhas que atuam no país, conforme veremos mais adiante. Após a eleição de Barack Obama, nos EUA, foi firmado o compromisso de se iniciar uma nova era de relacionamentos com os países da América Latina, baseada na igualdade e na cooperação. O fato é que o aprendizado da vida democrática tem sido muito difícil para as nações da América Latina e ocorre de forma muito lenta. Diversos retrocessos na democracia marcaram o continente após os anos 1990 (observe o mapa seguinte). Somente a Colômbia, apesar de viver a mais de cinquenta anos uma guerra civil, o Chile e o Uruguai não tiveram presidentes depostos. Presidente e ano em que o mandato foi interrompido Instabilidade política Presidentes depostos entre 1990 e 2012 na América do Sul OCEANO PACÍFICO OCEANO ATLÂNTICO Brasil Paraguai Argentina Uruguai Bolívia Peru Equador Colômbia Venezuela Chile Guiana Francesa (França) OCEANO PACÍFICO OCEANO ATLÂNTICO Brasil Paraguai Argentina Uruguai Bolívia Peru Equador Colômbia Venezuela Chile Guiana Francesa (França) Argentina Fernando de la Rúa – 2001 Ramón Puerta – 2001 Eduardo Camaño – 2001 Adolfo Rodríguez Saá – 2001 Bolívia Sánchez de Lozada – 2003 Carlos Mesa – 2005 Peru Alberto Fujimori – 2000 Equador Abdalá Bucaram – 1997 Jamil Mahuad Witt – 2000 Colômbia Mesmo com uma guerra civil a mais de 50 anos, todos os presidentes cumpriram seus mandatos desde 1958 Venezuela Andrés Pérez – 1993 Hugo Chávez – 2002 Pedro Carmona – 2002 Guiana Janet Jagan – 1999 Suriname Ramsewak Shankar – 1990 Paraguai Raúl Cubas – 1999 Fernando Lugo – 2012 Brasil Fernando Collor de Mello – 1992 Dilma Rousseff – 2016 N 0 890 km Focos de Tensão: Américas MÓDULO 09 FRENTE CGEOGRAFIA 103Bernoulli Sistema de Ensino Por outro lado, a tentativa de integração, criada por Simón Bolívar na transição do século XIX para o século XX, fracassou em função do nacionalismo característico das elites políticas dos países-membros e da pressão estadunidense, exercida no contexto da política do Big Stick, que visava a preservar o continente americano como área de influência político-econômica dos Estados Unidos. Em alguns países da América Latina, o bolivarismo sempre esteve latente em determinados recortes sociais, permitindo que os políticos se utilizassem de uma plataforma bolivariana e se elegessem em seus países, apoiados, também, por certa rejeição ao neoliberalismo e às suas consequências socioeconômicas. O bolivarismo foi a tentativa de se implantar uma política de coalizão entre os países latino-americanos, recentemente emancipados do processo de colonização, contra práticas de dominação promovidas por países europeus ou pelos EUA. Atualmente, é uma doutrina que prega, em linhas gerais, a união dos países da América Latina e do Caribe, pois considera que existem laços históricos e culturais entre os povos da região e várias razões de ordem política para essa integração. Nos últimos anos observou-se na América Latina um boom de partidos esquerdistas, denominado, por alguns estudiosos, de “onda democrática” ou “onda vermelha”. Esse fato pode ser entendido como uma resposta ao fracasso social dos sistemas econômicos neoliberais, implantados nesses mesmos países durante a década de 1990, e aos vários retrocessos vividos pela democracia no continente. A partir do final dos anos 1990 e início do século XXI, chegaram ao poder presidentes de esquerda ou centro-esquerda em oito países do continente: Brasil (Lula, seguido de Dilma Rousseff), Argentina (Cristina Kirchner), Equador (Rafael Correa), Uruguai (Tabare Vazquez e José Mujica), Paraguai (Fernando Lugo), Chile (Michelle Bachelet) Nicarágua (Daniel Ortega), devendo ser destacadas a Venezuela (Hugo Chávez, seguido de Nicolás Maduro) e a Bolívia (Evo Morales), cujas populações levaram ao poder governantes que também têm adotado atitudes contrárias ao neoliberalismo. Como os países da América Latina que adotaram governos com tendências de esquerda no fim da década de 1990 e início dos anos 2000 apresentaram melhorias em seus indicadores socioeconômicos, a ascensão de outros governos que seguem a mesma linha foi favorecida, aumentando a “onda vermelha” na região. Porém, desde de 2015, nota-se um recrudescimento da direita na região. Esse fenômeno não ocorria de maneira tão intensa nos últimos 19 anos, quando Hugo Chávez venceu as eleições na Venezuela e iniciou um movimento de vitórias eleitorais em diferentes países latino-americanos. Diversos fatores contribuem para o enfraquecimento da esquerda latino-americana, como a redução dos preços internacionais das commodities, que geraram resultados negativos na economia, desejo de maior atitude diante do aumento da criminalidade, avanço das religiões evangélicas, cujos fiéis possuem perfil mais conservador, além dos diversos escândalos políticos e de corrupção, que geraram crises institucionais e grande insatisfação dos eleitores com governos de esquerda. A última clara manifestação da onda de esquerda foi a eleição de Luis Guillermo Solís, na Costa Rica, em 2014, e os maiores símbolos da ascensão da direita foram a eleição do empresário Maurício Macri, na Argentina, e a vitória da direita nas eleições legislativas na Venezuela, encerrando uma sequência de 19 vitórias eleitorais chavistas. Além de Macri, na Argentina, também alcançaram o poder recentemente o ex-banqueiro Pedro Pablo Kuczynski, no Peru, e, no Brasil, Michel Temer assumiu o cargo depois do impeachment de Dilma Rousseff, que se juntaram a Juan Manuel Santos (Colômbia),Enrique Peña Nieto (México) e Horácio Cartes (Paraguai), entre outros. Essa divergência política na América Latina, com destaque na América do Sul, tem conduzido o continente a várias tensões diplomáticas nos últimos anos, criando – e em algumas situações reforçando – as chamadas “linhas de fratura” existentes no subcontinente (como representado no mapa a seguir). Tal situação causa instabilidade e promove a desconfiança internacional, gerando a possibilidade de ruptura política entre os Estados envolvidos ou até mesmo a ocorrência de uma intervenção militar. Conflitos que persistem: as fraturas andinas 0 330 km N PANAMÁ COLÔMBIA EQUADOR BRASIL VENEZUELA PERU BOLÍVIA PARAGUAI ARGENTINA CHILE Medellín Cáli Quito Bogotá Caracas Lima La Paz Faixa de disputa entre Chile e Bolívia. Linha de fratura Principais eixos de comunicação e de integração regional Conflitos e contestações de fronteiras Tráfico de armas Tráfico de drogas Presença de refúgios colombianos Zona de floresta A Venezuela reclama parte do território das Guianas desde 1966. Incluiu a oitava estrela na bandeira nacional para representá-lo, em 13 de março de 2006. Guerra peruano- -equatoriana (1941-1942), terminou com a assinatura do Protocolo do io de Janeiro. Guerra da Confederação peruano-boliviana (1836-1839). Guerra do Pacífico (1879-1883). O Chile derrotou o Peru e a Bolívia, anexando parte de seus territórios e tomando a saída boliviana para o mar. L’ATLAS 2010 DU MONDE DIPLOMATIQUE. Paris: Armand Colin, 2009. p. 152 Entre essas tensões, pode-se destacar a aliança política entre a Venezuela e o Equador, representantes de uma esquerda mais radical, em oposição à Colômbia, país que é um dos maiores aliados dos EUA na América Latina. Além da clara disparidade política entre os países, a ação das Farc e o narcotráfico aumentam as tensões regionais, dificultando muitas vezes a manutenção da diplomacia. Outro exemplo de tensão nos remete à história da política externa boliviana, país simpatizante da “política chavista”, marcada por conflitos com países vizinhos, como Chile, Peru e Paraguai. A Bolívia perdeu territórios para esses três países em guerras do passado, como a Guerra do Pacífico (1879-1883) e a Guerra do Chaco (1932-1935). Atualmente, o Governo Evo Morales ainda mantém disputas fronteiriças e reivindicações territoriais com Chile e Peru. Em outubro de 2010, foi assinado um acordo entre os governos da Bolívia e do Peru, em que o governo peruano concede à Bolívia acesso contínuo ao Oceano Pacífico e a um terminal localizado no Porto de Illo (sul do território peruano). Frente C Focos de Tensão: AméricasMódulo 09 G EO G R A FI A 105104 Bernoulli Sistema de EnsinoColeção 6V