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DIREITO AMBIENTAL SISTEMATIZADO PARA CURSOS E CONCURSOS Editora Appris Ltda. 1.ª Edição - Copyright© 2023 dos autores Direitos de Edição Reservados à Editora Appris Ltda. Nenhuma parte desta obra poderá ser utilizada indevidamente, sem estar de acordo com a Lei nº 9.610/98. Se incorreções forem encontradas, serão de exclusiva responsabilidade de seus organizadores. Foi realizado o Depósito Legal na Fundação Biblioteca Nacional, de acordo com as Leis nos 10.994, de 14/12/2004, e 12.192, de 14/01/2010. Catalogação na Fonte Elaborado por: Jose�na A. S. Guedes Bibliotecária CRB 9/870 M389d - 2023 Marum, Jorge Alberto de Oliveira Direito Ambiental sistematizado : para cursos e concursos [recurso eletrônico] Jorge Alberto de Oliveira Marum. 1 ed. – Curitiba : Appris, 2023. 1 arquivo digital : EPUB (Direito e Constituição). Inclui referências. ISBN 978-65-250-5275-5 1. Direito ambiental. 2. Meio ambiente. 3. Educação ambiental. I. Título. II. Série. CDD – 344.046 Livro de acordo com a normalização técnica da ABNT Editora e Livraria Appris Ltda. Av. Manoel Ribas, 2265 – Mercês Curitiba/PR – CEP: 80810-002 Tel. (41) 3156 - 4731 www.editoraappris.com.br Printed in Brazil Impresso no Brasil Jorge Alberto de Oliveira Marum DIREITO AMBIENTAL SISTEMATIZADO PARA CURSOS E CONCURSOS FICHA TÉCNICA EDITORIAL Augusto Coelho Sara C. de Andrade Coelho COMITÊ EDITORIAL Marli Caetano Andréa Barbosa Gouveia - UFPR Edmeire C. Pereira - UFPR Iraneide da Silva - UFC Jacques de Lima Ferreira - UP SUPERVISOR DA PRODUÇÃO Renata Cristina Lopes Miccelli PRODUÇÃO EDITORIAL Daniela Nazario REVISÃO Stephanie Ferreira Lima DIAGRAMAÇÃO Jhonny Alves dos Reis CAPA Carlos Pereira ILUSTRAÇÃO DE CAPA Andreza Katsa COMITÊ CIENTÍFICO DA COLEÇÃO DIREITO E CONSTITUIÇÃO DIREÇÃO CIENTÍFICA Antonio Evangelista de Souza Netto (PUC-SP) CONSULTORES Ana Lúcia Porcionato (UNAERP) José Laurindo de Souza Ne�o (TJ/PR – UFPR) Arthur Mendes Lobo (UFPR) Larissa Pinho de Alencar Lima (UFRGS) Augusto Passamani Bufulin (TJ/ES – UFES) Luiz Osório de Moraes Panza (Desembargador TJ/PR, professor doutor) Carlos Eduardo Pellegrini (PF - EPD/SP) Luiz Rodrigues Wambier (IDP/DF) Danielle Nogueira Mota Comar(USP) Marcelo Quen�n (UFPR) Domingos Thadeu Ribeiro da Fonseca (TJ/PR – EMAP) Mário Celega�o (TJ/PR – EMAP) Elmer da Silva Marques (UNIOESTE) Mário Luiz Ramidoff (UFPR) Georges Abboud (PUC/SP) Maurício Bap�stella Bunazar (USP) Guilherme Vidal Vieira (EMPAP) Maurício Dieter (USP) Henrique Garbelini (FADISP) Ricardo Freitas Guimarães (PUC/SP) Em honra a São Francisco de Assis, protetor dos animais e padroeiro da Ecologia; À memória de meu pai, Jorge, e de minha mãe, Maria Clara, a quem devo o amor pelos livros, pelo estudo, pela docência e pela natureza; A Bianca e Laura, amores incondicionais e filhas exemplares, a quem procurei transmitir esse legado; À Faculdade de Direito de Sorocaba, ao Ministério Público do estado de São Paulo, aos meus mestres, alunos, amigos e às pessoas especiais que me estimularam, inspiraram e colaboraram para a realização deste livro. Sumário INTRODUÇÃO CAPÍTULO 1 MEIO AMBIENTE E ECOLOGIA 1.1 Introdução 1.2 O Que Fazer? 1.3 Ecologia 1.4 Ética Ambiental 1.5 Visão Conservadora 1.6 Meio Ambiente CAPÍTULO 2 DIREITO AMBIENTAL: NOÇÕES PRELIMINARES E PANORAMA GERAL 2.1 Direito Ambiental 2.2 Panorama Histórico 2.3 Constituições Brasileiras 2.4 Direito Comparado 2.5 Direito Internacional 2.6 Panorama da Legislação Vigente 2.7 Relações com Outras Disciplinas CAPÍTULO 3 DIREITO AMBIENTAL CONSTITUCIONAL 3.1 Introdução 3.2 Objeto de Tutela 3.3 Estrutura do Direito 3.3.1 Desenvolvimento Sustentável 3.3.2 Solidariedade Intergeracional 3.3.3 Mínimo Existencial Ambiental 3.4 Deveres Fundamentais 3.5 Instrumentos de Garantia 3.5.1 Preservação e Restauração 3.5.2 Biodiversidade 3.5.3 ETEPs 3.5.4 EIA-RIMA 3.5.5 Riscos 3.5.6 Educação Ambiental 3.5.7 Fauna e Flora 3.5.8 Biocombustíveis 3.6 Determinações Particulares 3.6.1 Mineração 3.6.2 Tripla Responsabilização 3.6.3 Grandes Biomas 3.6.4 Áreas Indisponíveis 3.6.5 Energia Nuclear 3.6.6 A “Emenda da Vaquejada” 3.7 Normas Constitucionais Ambientais Esparsas 3.8 Proteção Constitucional Indireta do Meio Ambiente CAPÍTULO 4 COMPETÊNCIAS AMBIENTAIS 4.1 Introdução 4.2 Competência 4.3 Competência Legislativa 4.3.1 Competência Legislativa Privativa 4.3.2 Competência Legislativa Concorrente 4.4 Competência Material 4.4.1 Competência Material Exclusiva 4.4.2 Competência Material Comum 4.5 Federalismo Cooperativo 4.6 A Lei Complementar 140/2011 4.6.1 Objetivos Fundamentais 4.6.2 Conceitos 4.6.3 Instrumentos 4.6.4 Delegação 4.6.5 Ações Administrativas da União 4.6.6 Ações Administrativas dos Estados 4.6.7 Ações Administrativas dos Municípios 4.6.8 Distrito Federal 4.6.9 Unicidade do Licenciamento 4.6.10 Atuação Supletiva 4.6.11 Ação Subsidiária 4.6.12 Poder de Fiscalização 4.6.13 Representação 4.6.14 Responsabilidade Administrativa CAPÍTULO 5 A POLÍTICA NACIONAL DO MEIO AMBIENTE 5.1 Introdução 5.2 Estrutura 5.2.1 Objetivo 5.2.2 Princípios 5.3 Educação Ambiental 5.4 Conceitos 5.5 Objetivos 5.6 Princípio do Poluidor-pagador 5.7 Princípio do Usuário-pagador 5.8 Destinatários 5.9 Sisnama 5.9.1 Conama 5.9.2 Competências do Conama 5.9.3 Resoluções Conama 5.9.4 Ibama 5.9.5 ICMBio 5.10 Instrumentos da PNMA 5.10.1 Padrões de Qualidade Ambiental 5.10.2 Zoneamento Ambiental 5.10.3 Avaliação de Impactos Ambientais (AIA) 5.10.4 EIA-RIMA 5.1.0.5 Licença Ambiental 5.10.6 Licenciamento Ambiental 5.10.7 Autorização Ambiental 5.10.8 Concessão Florestal 5.10.9 Servidão Ambiental 5.10.10 Seguro Ambiental 5.11 Responsabilidade Administrativa 5.12 Responsabilidade Civil 5.13 Ação Civil 5.14 Crime CAPÍTULO 6 CÓDIGO FLORESTAL 6.2 O “Novo Código Florestal” 6.3 Fundamentos Constitucionais 6.3 Abrangência 6.4 Objetivo e “Princípios” 6.5 Objeto da Tutela 6.6 Função Socioambiental da Propriedade 6.7 Obrigações Propter Rem 6.8 Bens de Interesse Comum 6.9 Conceitos 6.10 Áreas de Preservação Permanente 6.10.1 APPs Por Força de Lei 6.10.2 Exceções 6.10.3 APPs Criadas Pelo Poder Público 6.10.4 Regime de Proteção das APPs 6.11 Áreas de Uso Restrito (AUR) 6.12 Reserva Legal 6.12.1 Natureza Jurídica 6.12.2 Obrigação 6.12.3 Dimensões da Reserva Legal 6.12.4 Localização da Reserva Legal 6.12.5 Cômputo da APP 6.12.6 Regime de Proteção da Reserva Legal 6.12.7 Registro da Reserva Legal 6.12.8 Cadastro Ambiental Rural (CAR) 6.12.9 Transformação em Área Urbana 6.12.10 Regularização da Reserva Legal 6.13 Áreas Verdes Urbanas 6.14 Supressão de Vegetação 6.15 Exploração Florestal 6.16 Controle dos Produtos Florestais 6.17 Transporte e Armazenamento 6.18 Comércio 6.19 Uso do Fogo 6.20 Apoio e Incentivo 6.21 Controle do Desmatamento 6.22 Programas de Regularização Ambiental (PRAs) 6.23 Regras de Transição 6.24 Outros Instrumentos de Proteção 6.25 Motosserras 6.26 Proibição do Retrocesso 6.27 Gestão de Florestas Públicas 6.28 Crimes CAPÍTULO 7 BIOMA MATA ATLÂNTICA 7.1 Introdução 7.2 Bioma e Ecossistema 7.3 Mata Atlântica 7.4 A Lei 11.428/2006 – LBMA 7.5 Conceitos 7.6 Objetivos 7.7 Princípios 7.7.1 Função Socioambiental da Propriedade 7.7.2 Princípios da Prevenção e da Precaução 7.8 Classificação da Vegetação 7.9 Regime Jurídico Geral 7.10 Regime Jurídico Especial 7.11 Incentivos Econômicos 7.12 Infrações e Penalidades 7.13 Disposições Finais 7.14 Crime CAPÍTULO 8 O SISTEMA NACIONAL DAS UNIDADES DE CONSERVAÇÃO (SNUC) 8.1 Introdução 8.2 Fundamentos Constitucionais 8.3 Fundamentos Legais 8.4 A Lei 9.985/2000 8.4.1 Conceitos 8.4.2 Sistema Nacional 8.4.3 Objetivos do SNUC 8.4.4 Diretrizes do SNUC 8.4.5 Órgãos Gestores 8.4.6 Classificações 8.4.7 Unidades de Proteção Integral 8.4.7.1 Estação Ecológica (ESEC) 8.4.7.2 Reserva Biológica (REBIO) 8.4.7.3 Parque Nacional (PN) 8.4.7.4 Monumento Natural (MONAT) 8.4.7.5 Refúgio de Vida Silvestre (RVS) 8.4.8 Unidades de Uso Sustentável 8.4.8.1 Área de Proteção Ambiental (APA) 8.4.8.2 Área de Relevantee adotar políticas ambientais para as presentes e as futuras gerações, não podendo utilizar os recursos ambientais de maneira irracional de modo que prive seus descendentes do seu desfrute. Não é justo utilizar recursos naturais que devem ser reservados aos que ainda não existem.52 3.3.3 Mínimo Existencial Ambiental O fato de ser o meio ambiente ecologicamente equilibrado essencial à sadia qualidade de vida conecta-o ao princípio do mínimo existencial ambiental, consagrado no Art. 12 do PIDESC (direito de toda pessoa de desfrutar o mais elevado nível possível de saúde física e mental, devendo os Estados adotarem medidas no sentido da melhoria de todos os aspectos de higiene do trabalho e do meio ambiente). Esse princípio, por sua vez, conecta- se com o princípio magno da dignidade humana, podendo-se conceber, segundo Sarlet e Fensterseifer, “a exigência de um patamar mínimo de qualidade ambiental para a concretização da vida humana em níveis dignos, para aquém do qual a dignidade humana estaria sendo violada no seu núcleo essencial”.53 3.4 Deveres Fundamentais O caput do Art. 225 também estabelece obrigações ao Poder Público e à coletividade (“impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”). Segundo Sarlet e Fensterseifer, cuida-se de deveres fundamentais, correlatos ao direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, uma vez que “direitos fundamentais não podem existir sem deveres”.54 Herman Benjamin, citado pelos mesmos autores, aponta para a existência de uma “trindade de deveres”, consistente na imposição de condutas positivas que vão além do imperativo de “não poluir”, “mas também toma a forma de missão constitucional no dever de defender, no dever de reparar e no dever de preservar”.55 Tal enquadramento normativo […] conduz a uma tutela ecológica compartilhada entre o Estado e os atores privados (pessoas físicas e jurídicas), de modo que ambos (setor público e privado) assumam parcela de responsabilidade e, portanto, cumpram com as obrigações para com a manutenção da qualidade, da segurança e do equilíbrio ambiental.56 3.5 Instrumentos de Garantia Os incisos do § 1º do Art. 225, por sua vez, trazem uma série de instrumentos para assegurar a efetividade do direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, na forma de um rol de incumbências do Poder Público. Esse rol, conforme bem observam Sarlet e Fensterseifer, é exemplificativo.57 São os seguintes os instrumentos expressamente previstos, os quais serão objeto de abordagem pormenorizada em capítulos posteriores: 3.5.1 Preservação e Restauração O inciso I do § 1º do Art. 225 incumbe ao Poder Público: “preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico das espécies e ecossistemas”. Segundo José Afonso da Silva, processos ecológicos essenciais são “aqueles que asseguram as condições necessárias para uma adequada interação biológica e adequado funcionamento dos sistemas vitais”.58 Já o manejo ecológico das espécies e ecossistemas, conforme o mesmo autor, significa “lidar com as espécies de modo a conservá-las e recuperá-las, quando for o caso” e “cuidar do equilíbrio das relações entre a comunidade biótica e o seu habitat”.59 Dando concretude a esse mandamento, há diversos diplomas infraconstitucionais, como as Leis 12.651/12 (Código Florestal) e 9.985/2000 (Unidades de Conservação). 3.5.2 Biodiversidade O inciso II do § 1º do Art. 225 incumbe ao Poder Público “preservar a diversidade e a integridade do patrimônio genético do País e fiscalizar as entidades dedicadas à pesquisa e manipulação de material genético”. O Brasil é signatário da Convenção sobre a Diversidade Biológica, cuja aplicação é regulamentada pelo Decreto 4.339/2002, que instituiu a Política Nacional da Biodiversidade. Na mesma seara, a Lei 11.105/2005 estabelece normas de segurança e mecanismos de fiscalização de atividades que envolvam organismos geneticamente modificados e a Lei 13.123/2015 dispõe sobre o acesso ao patrimônio genético e uso sustentável da biodiversidade. 3.5.3 ETEPs O inciso III do § 1º do Art. 225 incumbe ao Poder Público: […] definir, em todas as unidades da Federação, espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos, sendo a alteração e a supressão permitidas somente através de lei, vedada qualquer utilização que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua proteção. Tratam-se dos chamados espaços territoriais especialmente protegidos, conhecidos pela sigla ETEPs, contemplados, entre outros diplomas legais, nas já citadas Leis 12.651/12 (Código Florestal) e 9.985/2000 (Unidades de Conservação). 3.5.4 EIA-RIMA O inciso IV do § 1º do Art. 225 incumbe ao Poder Público: “exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade”. Sobre o tema, veremos, entre outros diplomas, a Lei n.º 6.938/81 e a Resolução CONAMA n.º 001/86. 3.5.5 Riscos O inciso V do § 1º do Art. 225 incumbe ao Poder Público: “controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente”. Produtos e atividades de risco são tratados, entre outros, pelas Leis 7.802/89 (Agrotóxicos) e 11.105/05 (Biossegurança). 3.5.6 Educação Ambiental O inciso VI do § 1º do Art. 225 incumbe ao Poder Público: “promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente”. A educação ambiental faz parte da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei 6.938/81) e é objeto da específico da Lei 9.795/99, que a trata como um direito. 3.5.7 Fauna e Flora O inciso VII do § 1º do Art. 225 incumbe ao Poder Público “proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade”. Protegendo a flora e a fauna, temos, entre outras, respectivamente, as Leis 12.651/12 (Código Florestal) e 9.605/98 (Lei de Crimes Ambientais). 3.5.8 Biocombustíveis O inciso VIII do § 1º do Art. 225, incluído pela Emenda Constitucional 123 de 2022, em um exemplo da extrafiscalidade60 que vem ganhando destaque em matéria ambiental, realça a importância dos biocombustíveis para o meio ambiente, acrescentando a incumbência para o Poder Público de […] manter regime fiscal favorecido para os biocombustíveis destinados ao consumo final, na forma de lei complementar, a fim de assegurar-lhes tributação inferior à incidente sobre os combustíveis fósseis, capaz de garantir diferencial competitivo em relação a estes, especialmente em relação às contribuições de que tratam a alínea “b” do inciso I e o inciso IV do caput do art. 195 e o art. 239 e ao imposto a que se refere o inciso II do caput do art. 155 desta Constituição. 3.6 Determinações Particulares Os parágrafos 2º a 7º do Art. 225 cuidam, na expressão de José Afonso da Silva, de “determinações particulares”, a saber: 3.6.1 Mineração Nos termos do § 2º do Art. 225, aquele que explorar recursos minerais fica obrigado a recuperar o meio ambiente degradado, de acordo com solução técnica exigida pelo órgão público competente, na forma da lei.61 3.6.2 Tripla Responsabilização O § 3º do Art. 225 constitucionaliza a tripla responsabilização pelo dano ambiental, averbando que as condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados.62 3.6.3 Grandes Biomas O § 4º do Art. 225 consagra os chamados “Grandes Biomas”, declarando que a Floresta Amazônica brasileira, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira são patrimônio nacional e sua utilização far-se-á, na forma da lei, dentro de condições queassegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos naturais.63 3.6.4 Áreas Indisponíveis O § 5º do Art. 225 determina que são indisponíveis as terras devolutas ou arrecadadas pelos Estados, por ações discriminatórias, necessárias à proteção dos ecossistemas naturais.64 3.6.5 Energia Nuclear O § 6º do Art. 225 trata da questão da energia nuclear, cuja produção gera risco de sérios desastres ambientais, como foram os casos de Chernobyl, na antiga União Soviética, e, mais recentemente, de Fukushima, no Japão. Assenta esse dispositivo que as usinas que operem com reator nuclear deverão ter sua localização definida em lei federal, sem o que não poderão ser instaladas. Nessa seara, o Art. 21, inciso XXIII, diz competir (exclusivamente) à União “explorar os serviços e instalações nucleares de qualquer natureza e exercer monopólio estatal sobre a pesquisa, a lavra, o enriquecimento e reprocessamento, a industrialização e o comércio de minérios nucleares e seus derivados”, atendidos os princípios e condições estipulados em suas alíneas. A alínea a determina que “toda atividade nuclear em território nacional somente será admitida para fins pacíficos e mediante aprovação do Congresso Nacional”. E a atual alínea d, dispõe que “a responsabilidade civil por danos nucleares independe da existência de culpa”. No nível infraconstitucional, disciplinam a matéria as Leis 4.118/62, 6.189/74 e 7.781/89. 3.6.6 A “Emenda da Vaquejada” O § 7º do Art. 225 foi acrescido pela Emenda Constitucional n.º 86/2017, visando amenizar o efeito protetivo do inciso VII do § 1º, ressalvando que, para fins do disposto na parte final do inciso VII do § 1º desse artigo, não se consideram cruéis as práticas desportivas que utilizem animais, desde que sejam manifestações culturais, conforme o § 1º do Art. 215 dessa Constituição Federal, registradas como bem de natureza imaterial integrante do patrimônio cultural brasileiro, devendo ser regulamentadas por lei específica que assegure o bem-estar dos animais envolvidos.65 3.7 Normas Constitucionais Ambientais Esparsas Além do Art. 225, outras normas esparsas pelo texto constitucional reforçam a proteção do meio ambiente. Abordaremos essas questões com mais detalhes ao longo dos próximos capítulos. Seguindo a ordem que aparecem no texto constitucional, podemos destacar as seguintes: O inciso LXXIII do Art. 5º ampliou o escopo da ação popular para que esse instrumento da cidadania possibilitasse a defesa do meio ambiente: […] qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural. A via legal para a concretização desse direito fundamental ainda é a Lei 4.717/65. Dentre os bens da União estão as terras devolutas indispensáveis à defesa das fronteiras, das fortificações e construções militares, das vias federais de comunicação e à preservação ambiental, definidas em lei (Art. 20, II). Em matéria de repartição de competências entre os entes federativos, sejam elas legislativas ou materiais, há significativa quantidade de normas relacionadas com o meio ambiente, tema esse que será abordado com mais pormenores em capítulos futuros. Por ora, vamos apenas vê-las de passagem. No que interessa ao meio ambiente, o Art. 21 da Constituição Federal diz competir à União: XX – instituir diretrizes para o desenvolvimento urbano, inclusive habitação, saneamento básico e transportes urbanos; XXIII – explorar os serviços e instalações nucleares de qualquer natureza e exercer monopólio estatal sobre a pesquisa, a lavra, o enriquecimento e reprocessamento, a industrialização e o comércio de minérios nucleares e seus derivados. O Art. 22, por seu turno, estabelece que compete privativamente à União legislar sobre: IV – águas, energia; XII – jazidas, minas, outros recursos minerais e metalurgia; XXVI – atividades nucleares de qualquer natureza. O parágrafo único desse dispositivo ressalva que lei complementar poderá autorizar os Estados a legislar sobre questões específicas das matérias relacionadas neste artigo. O Art. 23 da Constituição Federal trata das competências materiais (administrativas) comuns de todos os entes da Federação, sendo, em matéria ambiental, competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios: III – proteger os documentos, as obras e outros bens de valor histórico, artístico e cultural, os monumentos, as paisagens naturais notáveis e os sítios arqueológicos; VI – proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas formas; VII – preservar as florestas, a fauna e a flora; IX – promover programas de construção de moradias e a melhoria das condições habitacionais e de saneamento básico. O parágrafo único desse artigo determina que leis complementares fixarão normas para a cooperação entre a União e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, tendo em vista o equilíbrio do desenvolvimento e do bem-estar em âmbito nacional. Em matéria ambiental, já há a Lei Complementar 140/2011, que será estudada mais adiante. O Art. 24 disciplina a competência legislativa concorrente, dispondo competir à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre: VI – florestas, caça, pesca, fauna, conservação da natureza, defesa do solo e dos recursos naturais, proteção do meio ambiente e controle da poluição; VII – proteção ao patrimônio histórico, cultural, artístico, turístico e paisagístico; VIII – responsabilidade por dano ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico. O § 1º desse dispositivo determina que, no âmbito da legislação concorrente, a competência da União limitar-se-á a estabelecer normas gerais, e o § 2º diz que a competência da União para legislar sobre normas gerais não exclui a competência suplementar dos Estados. As competências municipais são tratadas no Art. 30, aos municípios competindo legislar sobre assuntos de interesse local (inciso I) e suplementar a legislação federal e a estadual no que couber (inciso II). No que interessa ao meio ambiente, cabe ao Município “promover, no que couber, o adequado ordenamento territorial, mediante planejamento e controle do uso, do parcelamento e da ocupação do solo urbano” (inciso VIII) e promover a proteção do patrimônio histórico-cultural local, observada a legislação e a ação fiscalizadora federal e estadual (inciso IX). O Ministério Público é um dos principais atores em tema de proteção ao meio ambiente, dispondo o Art. 129, inciso III, que, dentre suas funções institucionais, estão as de promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos. Os instrumentos legais para o cumprimento dessa missão estão na Lei da Ação Civil Pública (Lei 7.347/85). Nos termos do Art. 170, a ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, e deve observar, entre outros, os seguintes princípios: função social da propriedade (inciso III) e defesa do meio ambiente (inciso IV). Ainda dentro da Ordem Econômica, o Art. 174 fala da atividade fiscalizatória do Estado (lato sensu), de destacada relevância em sede de proteção ao meio ambiente. Diz esse artigo que, como agente normativo e regulador da atividade econômica, o Estado exercerá, na forma da lei, as funções de fiscalização, incentivo e planejamento, sendo este determinante para o setor público e indicativo para o setor privado. O § 3º do mesmo artigo, ao tratar da atividade garimpeira, não descura do meio ambiente, dispondo que “o Estado favorecerá a organização da atividade garimpeira em cooperativas, levando em conta a proteção do meio ambiente e a promoção econômico- social dos garimpeiros”. Ao tratar do desenvolvimento urbano,o Art. 182 determina que […] a política de desenvolvimento urbano, executada pelo Poder Público municipal, conforme diretrizes gerais fixadas em lei, tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes. O § 1º estatui que o plano diretor, aprovado pela Câmara Municipal, obrigatório para cidades com mais de vinte mil habitantes, é o instrumento básico da política de desenvolvimento e de expansão urbana. Como se sabe, o Art. 5º, inciso XXII, garante o direito de propriedade, porém o inciso XXIII exige que a propriedade cumpra sua função social. Desdobrando esse dispositivo, o § 2º do Art. 182 diz que “a propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor”. Desenvolvem o tema, entre outras, as Leis 6.766/79 e 10.257/2001, as quais, como será visto, contêm dispositivos que conjugam o desenvolvimento urbano com a proteção do meio ambiente. Ao tratar da propriedade rural, o Art. 186 diz que a função social é cumprida quando a propriedade rural atende, simultaneamente, segundo critérios e graus de exigência estabelecidos em lei, aos seguintes requisitos: aproveitamento racional e adequado (inciso I) e utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente (inciso II). A saúde é um direito fundamental (Art. 6º, 194 e 196), cuja proteção também depende também de um meio ambiente ecologicamente equilibrado. Assim, ao proteger a saúde como um direito de todos e dever do Estado, a Constituição indiretamente também protege o meio ambiente ecologicamente equilibrado. Nessa temática, os dispositivos relativos ao SUS também possuem ligações com o meio ambiente, dispondo o Art. 200 que ao sistema único de saúde compete, além de outras atribuições, nos termos da lei: […] IV – participar da formulação da política e da execução das ações de saneamento básico; VII – participar do controle e fiscalização da produção, transporte, guarda e utilização de substâncias e produtos psicoativos, tóxicos e radioativos; VIII – colaborar na proteção do meio ambiente, nele compreendido o do trabalho. Como está em voga lembrar na atualidade, nenhum direito fundamental é absoluto, devendo haver convivência e ponderação entre os direitos dessa espécie. Assim, ao tratar da liberdade de expressão e de informação, o Art. 220 impõe limites à propaganda de produtos nocivos ou perigosos nos seguintes termos: “Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nessa Constituição. […] § 3º Compete à lei federal: II – estabelecer os meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade de se defenderem de programas ou programações de rádio e televisão que contrariem o disposto no Art. 221, bem como da propaganda de produtos, práticas e serviços que possam ser nocivos à saúde e ao meio ambiente”. 3.8 Proteção Constitucional Indireta do Meio Ambiente O meio ambiente também é protegido de forma indireta por princípios e regras constitucionais, podendo-se destacar as seguintes passagens: Proclama o Art. 1º da Constituição Federal que “a República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: […] III - a dignidade da pessoa humana”. Como visto, desse princípio magno deriva o princípio do mínimo existencial ambiental. Sobre o tema, escrevem Sarlet e Fensterseifer que “a dignidade (da pessoa) humana constitui conceito submetido a permanente processo de reconstrução, cuidando-se de uma noção histórico- cultural em permanente transformação quanto ao seu sentido e alcance”. Nessa perspectiva, “os valores ecológicos tomaram assento definitivo no conteúdo do princípio da dignidade da pessoa humana”.66 O Art. 4º determina que, nas relações internacionais, a República Federativa do Brasil rege-se, entre outros princípios, pela “prevalência dos direitos humanos” (inciso II), dentre os quais, como já visto, figura o meio ambiente ecologicamente equilibrado. O caput do Art. 5º, ao proclamar que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”, protege direitos fundamentais ligados ao meio ambiente, como a vida, a saúde, a segurança e a dignidade humana. Como direito fundamental, o meio ambiente tem aplicabilidade imediata, nos termos do § 1º do Art. 5º: “as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata”, é dizer, os dispositivos ligados ao tema não carecem de regulamentação legal. A cláusula aberta do § 2º do Art. 5º, ao estabelecer que “os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”, abrange não apenas o direito fundamental ao meio ambiente consagrado no Art. 255, como também as normas ambientais decorrentes de compromissos internacionais firmados pelo Brasil. Segundo o § 3º do Art. 5º, incluído pela Emenda Constitucional n.º 45/2004, “os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais”. Logo, tratados e convenções sobre meio ambiente, aprovados na forma estipulada por esse dispositivo, terão status de emenda constitucional. No campo dos direitos sociais, dispõe o Art. 6º que […] são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. Assim, não apenas por ser um direito social, como visto anteriormente, mas também por ser essencial à saúde humana, o meio ambiente tem aqui reforçada a sua proteção constitucional. O meio ambiente do trabalho, citado expressamente no Art. 200, inciso VIII, é contemplado de forma indireta pelo Art. 7º, que dispõe serem direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social, a redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança (inciso XXII). Além dos já mencionados bens públicos diretamente ligados à proteção ambiental, o Art. 20 da Constituição Federal relaciona entre os bens da União mais alguns de interesse ambiental, a saber: […] os lagos, rios e quaisquer correntes de água em terrenos de seu domínio, ou que banhem mais de um Estado, sirvam de limites com outros países, ou se estendam a território estrangeiro ou dele provenham, bem como os terrenos marginais e as praias fluviais (inciso III), “os recursos minerais, inclusive os do subsolo” (inciso IX), e as “cavidades naturais subterrâneas e os sítios arqueológicos e pré- históricos” (inciso X). Por sua vez, são bens dos Estados relacionados com a proteção ambiental, nos termos do Art. 26, “as águas superficiais ou subterrâneas, fluentes, emergentes e em depósito, ressalvadas, neste caso, na forma da lei, as decorrentes de obras da União” (inciso I). Por fim, merece menção o art. 241, que trata do Federalismo Cooperativo, de grande importância na implementação de ações de proteção ambiental, com destaque para o saneamento básico. Nos termos desse dispositivo, […] a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios disciplinarão por meio de lei os consórcios públicos e os convênios de cooperação entre os entes federados, autorizando a gestão associada de serviços públicos, bem como a transferência total ou parcial de encargos, serviços, pessoal e bens essenciais à continuidade dos serviçostransferidos. 33 Direito Ambiental esquematizado, 6. ed., p. 101. 34 Op. cit., p. 440. 35 Cf. Sarlet e Fensterseifer, op. cit., p. 553; STF, ADI 3.540-1/DF. 36 Op. cit., p. 53. 37 Op. cit., p. 160. 38 Op. cit., p. 106. 39 Cf. Herman Benjamin, art. cit., p. 93 e 99; Sarlet e Fensterseifer, op. cit., p. 406 e 554. 40 Op. cit., p. 85. 41 Cf., também, as definições de Ávila Coimbra e da Resolução Conama n.º 306, de 5 de julho de 2002, citadas no capítulo anterior. 42 Op. cit., p. 90. 43 Op. cit., p. 77, grifos no original. 44 Ibidem, p. 102, grifos no original. 45 Apud Milaré, op. cit., p. 160. 46 Op. cit., p. 393. 47 José Afonso da Silva, op. cit., p. 56. 48 Op. cit., p. 55. 49 Op. cit., p. 62. 50 Op. cit., p. 216. 51 Op. cit., p. 220, grifo nosso. 52 Frederico Amado, op. cit., p. 74. 53 Op. cit., p. 201. 54 Op. cit., p. 333. 55 Ibidem, p. 372, grifos no original. 56 Ibidem, p. 376. 57 Op. cit., p. 244. 58 Op. cit., p. 56. 59 Ibidem, p. 95. 60 Em Direito Tributário, a extrafiscalidade significa a utilização de tributos para fins diversos da arrecadação, como é o caso da proteção ambiental. Toshio Mukai considera “a utilização dos tributos com fins extrafiscais ou regulatórios” como “instrumento importante para a defesa do meio ambiente” (Direito Ambiental sistematizado, Forense, 10. ed., p. 88). Nesse sentido, o projeto de reforma tributária ora em curso no Congresso Nacional (julho de 2023) contempla várias hipóteses de extrafiscalidade ambiental. 61 Cf. Decreto-lei n.° 227/67 e Lei n.° 12.334/10. 62 Cf. Leis n.° 6.938/81, 7.347/85 e 9.605/98. 63 Cf. Lei 11.428/2006. 64 Terras devolutas são aquelas remanescentes das capitanias hereditárias e sesmarias, que não foram utilizadas, nem apropriadas legitimamente por particulares (por isso, são consideradas “devolvidas” ao Poder Público). Conforme a Constituição, são bens da União “as terras devolutas indispensáveis à defesa das fronteiras, das fortificações e construções militares, das vias federais de comunicação e à preservação ambiental, definidas em lei” (Art. 20, II), e são bens dos Estados “as terras devolutas não compreendidas entre as da União” (Art. 26, IV). A arrecadação é feita por meio das ações discriminatórias, previstas na Lei 3.081/56, que servem para identificar e separar as terras efetivamente devolutas das legitimamente apropriadas por particulares. Édis Milaré define terra devoluta como “a que não está destinada a qualquer uso público nem está legitimamente integrada ao patrimônio particular”. Portanto, ensina, a qualificação de devoluta independe da arrecadação (12. ed., p. 167). Conforme o Art. 188 da CF, “a destinação de terras públicas e devolutas será compatibilizada com a política agrícola e com o plano nacional de reforma agrária”. Tal dispositivo encontra exceção no § 5º do Art. 225, que torna indisponíveis as terras devolutas necessárias à proteção dos ecossistemas naturais. Em matéria ambiental, a legislação infraconstitucional trata das terras devolutas na Lei 9.985/2000 (Art. 43), entre outras. 65 Trata-se da famigerada “emenda da vaquejada”, incluída pela E.C. n.º 96/2017, que estudaremos em momento oportuno. 66 Op. cit., p. 77. CAPÍTULO 4 COMPETÊNCIAS AMBIENTAIS A repartição de competências entre a União e os Estados-membros, os Municípios e o Distrito Federal constitui o fulcro de nosso Estado Federal. (José Afonso da Silva) 4.1 Introdução Como visto no capítulo anterior, o Art. 225, caput, da Constituição Federal, ao consagrar o meio ambiente ecologicamente equilibrado como um direito de todos, ao mesmo tempo impõe ao Poder Público (e à coletividade) o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. Vimos também que os incisos I a VII do § 1º desse artigo estabelecem, em rol exemplificativo, os instrumentos a serem utilizados pelo Poder Público para cumprir sua obrigação de defender e preservar esse direito, quais sejam, preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais, prover o manejo ecológico das espécies e ecossistemas, preservar a diversidade e a integridade do patrimônio genético, fiscalizar as entidades dedicadas à pesquisa e à manipulação de material genético, definir espaços territoriais especialmente protegidos, exigir estudo prévio de impacto ambiental, controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente, promover a educação ambiental, proteger a fauna e a flora etc. A expressão “Poder Público”, utilizada pelo caput do Art. 225, abrange todos os órgãos que exerçam qualquer parcela do poder político em todos os entes da Federação: Executivo, Legislativo, Judiciário e Ministério Público, nos níveis federal, estatual, distrital e municipal, conforme o caso, bem como os respectivos órgãos da administração indireta. Conforme José Afonso da Silva, Poder Público é expressão genérica que se refere a todas as entidades territoriais públicas, pois uma das características do Estado Federal, como o nosso, consiste precisamente em distribuir o Poder Público por todas as entidades autônomas que o compõem, para que cada qual o exerça nos limites das competências que lhe foram outorgadas pela Constituição.67 É essencial, portanto, saber, em cada caso, qual ente público tem a competência para tratar do tema, seja no campo legislativo, seja no âmbito administrativo.68 4.2 Competência José Afonso da Silva define competência como “a faculdade juridicamente atribuída a uma entidade ou a um órgão ou agente do Poder Público para emitir decisões. Competências são as diversas modalidades de poder de que se servem os órgãos ou entidades estatais para realizar suas funções”.69 O tema da repartição de competências é crucial quando se trata de um Estado de tipo federal, como é o Brasil, porquanto federação é uma forma de Estado pactuada, por meio de uma Constituição de tipo rígido, e caracterizada pela união indissolúvel de entes com autonomia política e administrativa, com repartição de competências e rendas. Em função de sua origem nos EUA, cuja federação originou- se da agregação de unidades políticas anteriormente independentes, conceitualmente o pacto federativo envolve a delimitação das competências da União (competências enumeradas ou explícitas) e a liberdade para os entes federados (estados, províncias, cantões etc.) exercer as demais competências (competências residuais, reservadas ou remanescentes), segundo o princípio da subsidiariedade. No Brasil, no entanto, dada a peculiaridade de a federação ter sido formada de maneira centrífuga, bem como em razão de outros fatores políticos e sociais, a União concentra imensa gama de poderes, pouco deixando para os demais entes federados.70 Também no Brasil, como decorrência nossa tradição municipalista, existe a peculiaridade de os municípios também serem considerados entes autônomos da Federação, sendo que esses também exercem competências, com “poderes definidos indicativamente”.71 Como observam Sarlet e Fensterseifer, o pacto federativo brasileiro adota o modelo de federalismo cooperativo, com seu sistema de distribuição de competências alicerçado, a partir de uma lógica de verticalização e com a incidência do princípio da predominância do interesse.72 Nesse sentido, o parágrafo único do Art. 23 determina que leis complementares fixarão normas para a cooperação entre União, Estados, Distrito Federal e Municípios. Segundo os mesmos autores, do sistema constitucional decorre um “dever de cooperação entre os entes federativos no cumprimento dos seus deveres de proteção ambiental”.73 Conforme os mesmos autores, esse dever de cooperação […] implica a adequação das competências constitucionais ambientais também ao princípio da subsidiariedade, enquanto princípio constitucional implícito no nosso sistema constitucional, o qual conduz à descentralização do sistema de competências e ao fortalecimento da autonomia dos entes federativos inferiores (ou periféricos) naquilo que representaro fortalecimento dos instrumentos de proteção ambiental e dos mecanismos de participação política…74 Segundo Augusto Zimmermann, o princípio da subsidiariedade, próprio do federalismo, requer que apenas “quando o nível inferior não seja possível à realização de determinada ação, de igual ou melhor forma, é que o nível superior deve receber a competência para agir”.75 José Afonso da Silva ensina que “o princípio geral que norteia a repartição de competências entre as entidades componentes do Estado federal é o da predominância do interesse”.76 Assim, à União competem as matérias de predominante interesse nacional ou geral, bem como aquelas que envolvem mais de um Estado. Aos Estados, por sua vez, competem as matérias de predominante interesse regional (circunscritas ao respectivo território, que transcendam os municípios). Finalmente, aos Municípios competem as matérias de predominante interesse local. Cabe à Constituição Federal realizar a repartição de competências entre os entes da Federação. A atual Constituição brasileira estabelece, basicamente, duas espécies de competência: a competência legislativa (formal) e a competência material (administrativa, implementadora). A competência legislativa pode ser privativa, concorrente e suplementar. Já a competência material pode ser exclusiva ou comum. A propósito do tema, Manoel Gonçalves Ferreira Filho adverte que “é bastante complexa a repartição de competências na Constituição brasileira”.77 4.3 Competência Legislativa A competência legislativa é a faculdade de editar normas gerais e abstratas, que inovam o ordenamento jurídico no nível imediatamente infraconstitucional, e postas à obediência de todos. Segundo a Constituição Federal, essa competência se subdivide em: a) privativa, b) concorrente e c) suplementar. A competência legislativa é caracterizada por uma estrutura vertical, ou seja, hierárquica.78 4.3.1 Competência Legislativa Privativa A competência legislativa é privativa, quando “enumerada como própria de uma entidade, com possibilidade, no entanto, de delegação”, admitindo também a “competência suplementar”.79 No que concerne ao meio ambiente, segundo o Art. 22 da Constituição Federal, compete privativamente à União legislar sobre: “IV - águas, energia; XII - jazidas, minas, outros recursos minerais e metalurgia; XXVI - atividades nucleares de qualquer natureza”. Segundo o parágrafo único do Art. 22, mediante lei complementar a União poderá autorizar os Estados a legislar sobre questões específicas das matérias relacionadas nesse artigo (delegação de competência). O rol do Art. 22 não é taxativo, pois, segundo Fernanda Dias Menezes de Almeida, “numerosas disposições constitucionais carecem de leis integradoras de sua eficácia, sendo muitas de tais leis, pela natureza dos temas versados, indubitavelmente de competência da União”.80 4.3.2 Competência Legislativa Concorrente Em matéria ambiental, determina o Art. 24 que compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre: VI - florestas, caça, pesca, fauna, conservação da natureza, defesa do solo e dos recursos naturais, proteção do meio ambiente e controle da poluição; VII - proteção ao patrimônio histórico, cultural, artístico, turístico e paisagístico; VIII - responsabilidade por dano ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico. Conforme José Afonso da Silva, a competência concorrente ocorre quando há a “possibilidade de disposição sobre o mesmo assunto ou matéria por mais de uma entidade federativa” ou a “primazia da União no que tange à fixação de normas gerais”.81 Aos Estados e ao Distrito Federal, escreve Ferreira Filho, “cabe complementar essas normas, que a Constituição incorretamente chama de suplementar”.82 No âmbito da legislação concorrente, a competência da União limitar-se-á a estabelecer normas gerais (Art. 24, § 1º). A propósito desse dispositivo, Sarlet e Fensterseifer escrevem que […] a expressão limitar-se-á constante do dispositivo é elucidativa a respeito da limitação da União na elaboração da norma geral, com o propósito de reservar aos demais entes federativos espaço legislativo para suplementar a legislação editada no plano federal à luz das realidades e peculiaridades, respectivamente, regionais e locais.83 Conforme lição do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Carlos Veloso, nomas gerais […] devem apresentar generalidade maior do que apresentam, em regra, as leis. Penso que norma geral, tal como posta na Constituição, tem o sentido de diretriz, de princípio geral. A norma geral federal, melhor dizer nacional, seria a moldura do quadro a ser pintado pelos Estados e Municípios no âmbito de suas competências. 84 Exemplo de norma geral em matéria ambiental é a Lei 6.938/81 (Lei da Política Nacional do Meio Ambiente). Ensina José Afonso da Silva que a competência suplementar “é correlativa da competência concorrente, e significa o poder de formular normas que desdobrem o conteúdo de princípios ou normas gerais ou que supram a ausência ou omissão destas”.85 Ferreira Filho, por sua vez, observa que, “na falta de normas gerais editadas pela União, os Estados e o Distrito Federal podem editá-las, suprindo a lacuna (competência supletiva, que a Constituição também chama de ‘suplementar’, de modo incorreto, art. 24, § 3º)”.86 Após relacionar, no caput, as matérias sobre as quais compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente, o § 2º do Art. 24 ressalva que a competência da União para legislar sobre normas gerais não exclui a competência suplementar dos Estados. Ademais, inexistindo lei federal sobre normas gerais, os Estados exercerão a competência legislativa plena, para atender a suas peculiaridades (§ 3º), observando-se que a superveniência de lei federal sobre normas gerais suspende a eficácia da lei estadual, no que lhe for contrário (§ 4º). Como se verifica do caput do Art. 24, a Constituição não atribui aos Municípios competência legislativa concorrente com a União, os Estados e o Distrito Federal. Entretanto, observa Ferreira Filho, “confere a eles uma competência de suplementar (entenda-se complementar) a legislação federal e estadual, no que for de seu interesse peculiar (art. 30, II)”.87 Ora, se a Constituição conferiu ao Município a competência administrativa para “proteger o meio ambiente” (Art. 23, VI), “é obvio”, segundo Milaré, “que, para cumprir tal missão, há que poder legislar sobre a matéria”.88 Com efeito, quem quer os fins, dá os meios. Assim, o ente municipal dispõe de competência para legislar sobre meio ambiente, mas é necessário que o faça observando os limites do interesse local, de sorte que a sua regulação normativa (suplementar) se coadune com a legislação editada pela União e pelos Estados-membros. Discute-se o alcance da expressão “interesse local” que circunscreve a competência legislativa municipal. Segundo Hely Lopes Meirelles, […] interesse local não é interesse exclusivo do Município; não é interesse privativo da localidade; não é interesse único dos municípios […] O que define e caracteriza o interesse local, inscrito como dogma constitucional, é a predominância do interesse do Município sobre o do Estado ou da União.89 Sarlet e Fensterseifer figuram como exemplo de interesse local “a poluição atmosférica, do solo, hídrica ou mesmo sonora circunscrita a determinada localidade”.90 As competências municipais estão alocadas nos incisos I e seguintes do Art. 30, sempre balizadas pelo interesse local, destacando-se: I - legislar sobre assuntos de interesse local; II - suplementar a legislação federal e a estadual no que couber; […] VIII - promover, no que couber, adequado ordenamento territorial, mediante planejamento e controle do uso, do parcelamento e da ocupação do solo urbano; IX - promover a proteção do patrimônio histórico-cultural local, observada a legislação e a ação fiscalizadora federal e estadual. É importante salientar que, no exercícioda competência suplementar, é aceito que estados, municípios e o Distrito Federal podem “ir além da legislação federal, desde que seja para adotar medidas mais protetivas ao meio ambiente”, nunca, porém, para tornar a legislação mais branda.91 A respeito do tema, já decidiu o Superior Tribunal de Justiça: A legislação municipal, contudo, deve se constringir a atender as características próprias do território em que as questões ambientais, por suas particularidades, não contêm o disciplinamento consignado na lei federal ou estadual. A legislação supletiva, como é cediço, não pode ineficacizar os efeitos da lei que pretende suplementar.92 4.4 Competência Material Também chamada de administrativa, executiva ou implementadora, a competência material diz respeito à função administrativa em geral, ou seja, à execução de políticas públicas, à formulação de normas infralegais (poder regulamentar), ao exercício do poder de polícia e à expedição de atos concretos. Sobre o tema, ensina Ferreira Filho que […] a competência administrativa é, em princípio, correlata à competência legislativa. Assim, quem tem competência para legislar sobre uma matéria tem competência para exercer a competência administrativa quanto a ela.93 Em obediência ao princípio da legalidade estrita que rege a Administração Pública (Art. 37, da CF), essa competência somente pode ser exercida mediante expressa previsão legal. A competência material pode ser: a) exclusiva ou b) comum, cumulativa ou paralela. A competência material é caracterizada por uma estrutura horizontal, ensejando a cooperação e a complementaridade entre as atividades dos entes federativos.94 Carvalho Filho define função administrativa como “aquela exercida pelo Estado ou por seus delegados, subjacentemente à ordem constitucional e legal, sob regime de direito público, com vistas a alcançar os fins colimados pela ordem jurídica”.95 Vejamos, em breve abordagem, os modos pelos quais se manifesta a função administrativa. Primeiro, por meio do poder regulamentar, que é a faculdade da Administração Pública de editar normas infralegais genéricas, abstratas e impessoais para complementar as leis e possibilitar sua aplicação, não podendo inovar em relação ao conteúdo da lei nem a contrariar. Sua formalização ocorre por meio de decretos, regulamentos, portarias, resoluções, instruções etc. A competência material também se exerce mediante a execução de políticas públicas. Segundo Maria Paula Dallari Bucci, “políticas públicas são programas de ação governamental visando a coordenar os meios à disposição do Estado e as atividades privadas, para a realização de objetivos socialmente relevantes e politicamente determinados”.96 Sarlet e Fensterseifer escrevem que “as políticas públicas ambientais, nesse contexto, expressam a execução das leis e, portanto, estão atreladas à atividade administrativa e ao exercício da competência executiva prevista no Art. 23 da CF/1988”.97 Também é função típica da Administração o exercício do poder de polícia, assim definido pelo Código Tributário Nacional (Lei 5.172/66): Art. 78. Considera-se poder de polícia atividade da administração pública que, limitando ou disciplinando direito, interesse ou liberdade, regula a prática de ato ou abstenção de fato, em razão de interesse público concernente à segurança, à higiene, à ordem, aos costumes, à disciplina da produção e do mercado, ao exercício de atividades econômicas dependentes de concessão ou autorização do Poder Público, à tranquilidade pública ou ao respeito à propriedade e aos direitos individuais ou coletivos. De maneira mais resumida, Carvalho Filho conceitua poder de polícia como a “prerrogativa de direito público que, calcada na lei, autoriza a Administração Pública a restringir o uso e o gozo da liberdade e da propriedade em favor do interesse da comunidade”.98 No contexto da proteção ao meio ambiente, Sarlet &e Fensterseifer destacam que […] a fiscalização e o controle das atividades lesivas u potencialmente lesivas ao meio ambiente, em vista do marco legislativo ambiental existente, se expressa pelo exercício do poder de polícia ambiental, sem dúvida um dos exemplos mais significativos do exercício da competência executiva na área ecológica.99 Do poder de polícia decorre a atividade de fiscalização. Conforme o Art. 174, caput, da Constituição Federal, como agente normativo e regulador da atividade econômica, o Estado exercerá, na forma da lei, dentre outras, a função de fiscalização. Com efeito, assevera Carvalho Filho […] não adiantaria deter o Estado o poder de impor restrições aos indivíduos se não dispusesse dos mecanismos necessários à fiscalização da conduta destes […] A fiscalização apresenta duplo aspecto: um preventivo, através do qual os agentes da Administração procuram impedir um dano social, e um repressivo, que, em face da transgressão da norma de polícia, redunda na aplicação de uma sanção.100 Por fim, a Administração age por meio de atos concretos, que, nas palavras de Carvalho Filho, são atos administrativos “preordenados a determinados indivíduos plenamente identificados, como são, por exemplo, os veiculados por atos sancionatórios, como a multa, e por atos de consentimentos, como as licenças e autorizações”.101 Também esses estão presentes em matéria administrativa ambiental, conforme será explicitado mais adiante. 4.4.1 Competência Material Exclusiva Conforme José Afonso da Silva, a competência é exclusiva quando “atribuída a uma entidade com exclusão das demais”.102 Ensina o mesmo autor que essa espécie de competência não comporta delegação: “a diferença que se faz entre competência exclusiva e competência privativa é que aquela é indelegável e esta é delegável”.103 No que interessa ao tema ambiental, dispõe o Art. 21 que compete (exclusivamente) à União: […] XIX - instituir sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos e definir critérios de outorga de direitos de seu uso; XX - instituir diretrizes para o desenvolvimento urbano, inclusive habitação, saneamento básico e transportes urbanos; […] XXIII - explorar os serviços e instalações nucleares de qualquer natureza e exercer monopólio estatal sobre a pesquisa, a lavra, o enriquecimento e reprocessamento, a industrialização e o comércio de minérios nucleares e seus derivados, atendidos os seguintes princípios e condições: a) toda atividade nuclear em território nacional somente será admitida para fins pacíficos e mediante aprovação do Congresso Nacional; b) sob regime de permissão, são autorizadas a comercialização e a utilização de radioisótopos para a pesquisa e usos médicos, agrícolas e industriais; c) sob regime de permissão, são autorizadas a produção, comercialização e utilização de radioisótopos de meia-vida igual ou inferior a duas horas; d) a responsabilidade civil por danos nucleares independe da existência de culpa. 4.4.2 Competência Material Comum A competência é comum, cumulativa ou paralela, quando há “a faculdade de legislar ou praticar certos atos, em determinada esfera, juntamente e em pé de igualdade, consistindo, pois, num campo de atuação comum às várias entidades, sem que o exercício de uma venha a excluir a competência de outra, que pode assim ser exercida cumulativamente.104 Nos termos do Art. 23, é competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios: [...] III - proteger os documentos, as obras e outros bens de valor histórico, artístico e cultural, os monumentos, as paisagens naturais notáveis e os sítios arqueológicos; VI - proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas formas; VII - preservar as florestas, a fauna e a flora. IX - promover programas de construção de moradias e a melhoria das condições habitacionais e de saneamento básico. 4.5 Federalismo Cooperativo Como já visto anteriormente, o parágrafo único do Art. 23 dispõe que leis complementares fixarão normas para a cooperação entre a União e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, tendo em vista o equilíbrio do desenvolvimentoe do bem-estar em âmbito nacional. Em tema ambiental, já existe a Lei Complementar n.º 140/2011, que será vista adiante. Outro dispositivo relativo ao federalismo cooperativo consta do Art. 241, segundo o qual a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios disciplinarão por meio de lei os consórcios públicos e os convênios de cooperação entre os entes federados, autorizando a gestão associada de serviços públicos, bem como a transferência total ou parcial de encargos, serviços, pessoal e bens essenciais à continuidade dos serviços transferidos. Tratam-se de instrumentos muito utilizados em matéria administrativa ambiental, como será visto ao tratarmos, por exemplo, das questões relativas aos resíduos sólidos e ao saneamento básico. 4.6 A Lei Complementar 140/2011 Atendendo ao comando do parágrafo único do Art. 23 da Constituição Federal e procurando sanar dúvidas e conflitos de competências até então comuns, a Lei Complementar 140/2011, nos termos de sua ementa, […] fixa normas, nos termos dos incisos III, VI e VII do caput e do parágrafo único do art. 23 da Constituição Federal, para a cooperação entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios nas ações administrativas decorrentes do exercício da competência comum relativas à proteção das paisagens naturais notáveis, à proteção do meio ambiente, ao combate à poluição em qualquer de suas formas e à preservação das florestas, da fauna e da flora. 4.6.1 Objetivos Fundamentais O Art. 3º da LC 140/2011 traça os objetivos fundamentais e comuns dos entes federativos em tema de competência ambiental material, a saber: I - proteger, defender e conservar o meio ambiente ecologicamente equilibrado, promovendo gestão descentralizada, democrática e eficiente; II - garantir o equilíbrio do desenvolvimento socioeconômico com a proteção do meio ambiente, observando a dignidade da pessoa humana, a erradicação da pobreza e a redução das desigualdades sociais e regionais; III - harmonizar as políticas e ações administrativas para evitar a sobreposição de atuação entre os entes federativos, de forma a evitar conflitos de atribuições e garantir uma atuação administrativa eficiente; IV - garantir a uniformidade da política ambiental para todo o País, respeitadas as peculiaridades regionais e locais. 4.6.2 Conceitos O Art. 2º da LC 140/2011 veicula alguns conceitos, estabelecendo que, para os fins dessa Lei Complementar, consideram-se: I - licenciamento ambiental: o procedimento administrativo destinado a licenciar atividades ou empreendimentos utilizadores de recursos ambientais, efetiva ou potencialmente poluidores ou capazes, sob qualquer forma, de causar degradação ambiental; II - atuação supletiva: ação do ente da Federação que se substitui ao ente federativo originariamente detentor das atribuições, nas hipóteses definidas nesta Lei Complementar; III - atuação subsidiária: ação do ente da Federação que visa a auxiliar no desempenho das atribuições decorrentes das competências comuns, quando solicitado pelo ente federativo originariamente detentor das atribuições definidas nesta Lei Complementar. 4.6.3 Instrumentos O Art. 4º da LC 140/2011 fala dos instrumentos de cooperação institucional, arrolando os seguintes: I - consórcios públicos, nos termos da legislação em vigor; II - convênios, acordos de cooperação técnica e outros instrumentos similares com órgãos e entidades do Poder Público, respeitado o art. 241 da Constituição Federal; III - Comissão Tripartite Nacional, Comissões Tripartites Estaduais e Comissão Bipartite do Distrito Federal; IV - fundos públicos e privados e outros instrumentos econômicos; V - delegação de atribuições de um ente federativo a outro, respeitados os requisitos previstos nesta Lei Complementar; VI - delegação da execução de ações administrativas de um ente federativo a outro, respeitados os requisitos previstos nesta Lei Complementar. Frederico Amado define consórcios públicos como […] contratos administrativos que podem ser celebrados pelas entidades políticas, a fim de realizar os seus objetivos de interesse comum, como a preservação do meio ambiente e o desenvolvimento sustentável, sendo constituída uma associação pública ou pessoa jurídica de direito privado para geri-lo, nos termos da regulação dada pela Lei 11.107/2005.105 Convênios, segundo o mesmo autor, […] são ajustes celebrados entre pessoas jurídicas de direito público ou entre estas e particulares, visando realizar o interesse público, por meio de interesses convergentes dos convenentes, não criando novas pessoas jurídicas, sendo bastante similares aos acordos de cooperação técnica.106 4.6.4 Delegação O Art. 5º da LC 140/2011 autoriza o ente federativo a delegar, mediante convênio, a execução de ações administrativas a ele atribuídas nessa Lei Complementar, desde que o ente destinatário da delegação disponha de órgão ambiental capacitado a executar as ações administrativas a serem delegadas e de conselho de meio ambiente. Segundo o parágrafo único, considera-se órgão ambiental capacitado, para os efeitos do disposto no caput, aquele que possui técnicos próprios ou em consórcio, devidamente habilitados e em número compatível com a demanda das ações administrativas a serem delegadas. 4.6.5 Ações Administrativas da União A partir do Art. 7º, a Lei Complementar 140/2011 discrimina as ações administrativas dos entes federativos, começando pela União. Segundo o Art. 7º, são ações administrativas da União: I - formular, executar e fazer cumprir, em âmbito nacional, a Política Nacional do Meio Ambiente (Lei n. 6.938/81) II - exercer a gestão dos recursos ambientais no âmbito de suas atribuições; III - promover ações relacionadas à Política Nacional do Meio Ambiente nos âmbitos nacional e internacional; IV - promover a integração de programas e ações de órgãos e entidades da administração pública da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, relacionados à proteção e à gestão ambiental; V - articular a cooperação técnica, científica e financeira, em apoio à Política Nacional do Meio Ambiente; VI - promover o desenvolvimento de estudos e pesquisas direcionados à proteção e à gestão ambiental, divulgando os resultados obtidos; VII - promover a articulação da Política Nacional do Meio Ambiente com as de Recursos Hídricos, Desenvolvimento Regional, Ordenamento Territorial e outras; VIII - organizar e manter, com a colaboração dos órgãos e entidades da administração pública dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, o Sistema Nacional de Informação sobre Meio Ambiente (Sinima); IX - elaborar o zoneamento ambiental de âmbito nacional e regional; X - definir espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos; XI - promover e orientar a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a proteção do meio ambiente; XII - controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente, na forma da lei; XIII - exercer o controle e fiscalizar as atividades e empreendimentos cuja atribuição para licenciar ou autorizar, ambientalmente, for cometida à União; XIV - promover o licenciamento ambiental de empreendimentos e atividades: a) localizados ou desenvolvidos conjuntamente no Brasil e em país limítrofe; b) localizados ou desenvolvidos no mar territorial, na plataforma continental ou na zona econômica exclusiva; c) localizados ou desenvolvidos em terras indígenas; d) localizados ou desenvolvidos em unidades de conservação instituídas pela União, exceto em Áreas de Proteção Ambiental (APAs); e) localizados ou desenvolvidos em dois ou mais Estados; f) de caráter militar, excetuando-se do licenciamento ambiental, nos termos de ato do Poder Executivo, aqueles previstos no preparo e emprego das Forças Armadas, conforme disposto na Lei Complementar n. 97/1999; g) destinados a pesquisar, lavrar, produzir, beneficiar,transportar, armazenar e dispor material radioativo, em qualquer estágio, ou que utilizem energia nuclear em qualquer de suas formas e aplicações, mediante parecer da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen); ou h) que atendam tipologia estabelecida por ato do Poder Executivo, a partir de proposição da Comissão Tripartite Nacional, assegurada a participação de um membro do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), e considerados os critérios de porte, potencial poluidor e natureza da atividade ou empreendimento; XV - aprovar o manejo e a supressão de vegetação, de florestas e formações sucessoras em: a) florestas públicas federais, terras devolutas federais ou unidades de conservação instituídas pela União, exceto em APAs; e b) atividades ou empreendimentos licenciados ou autorizados, ambientalmente, pela União; XVI - elaborar a relação de espécies da fauna e da flora ameaçadas de extinção e de espécies sobre-explotadas no território nacional, mediante laudos e estudos técnico- científicos, fomentando as atividades que conservem essas espécies in situ; XVII - controlar a introdução no País de espécies exóticas potencialmente invasoras que possam ameaçar os ecossistemas, habitats e espécies nativas; XVIII - aprovar a liberação de exemplares de espécie exótica da fauna e da flora em ecossistemas naturais frágeis ou protegidos; XIX - controlar a exportação de componentes da biodiversidade brasileira na forma de espécimes silvestres da flora, micro- organismos e da fauna, partes ou produtos deles derivados; XX - controlar a apanha de espécimes da fauna silvestre, ovos e larvas; XXI - proteger a fauna migratória e as espécies inseridas na relação prevista no inciso XVI; XXII - exercer o controle ambiental da pesca em âmbito nacional ou regional; XXIII - gerir o patrimônio genético e o acesso ao conhecimento tradicional associado, respeitadas as atribuições setoriais; XXIV - exercer o controle ambiental sobre o transporte marítimo de produtos perigosos; e XXV - exercer o controle ambiental sobre o transporte interestadual, fluvial ou terrestre, de produtos perigosos. Parágrafo único. O licenciamento dos empreendimentos cuja localização compreenda concomitantemente áreas das faixas terrestre e marítima da zona costeira será de atribuição da União exclusivamente nos casos previstos em tipologia estabelecida por ato do Poder Executivo, a partir de proposição da Comissão Tripartite Nacional, assegurada a participação de um membro do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e considerados os critérios de porte, potencial poluidor e natureza da atividade ou empreendimento. 4.6.6 Ações Administrativas dos Estados O Art. 8º arrola as ações administrativas dos estados, a saber: I - executar e fazer cumprir, em âmbito estadual, a Política Nacional do Meio Ambiente e demais políticas nacionais relacionadas à proteção ambiental; II - exercer a gestão dos recursos ambientais no âmbito de suas atribuições; III - formular, executar e fazer cumprir, em âmbito estadual, a Política Estadual de Meio Ambiente; IV - promover, no âmbito estadual, a integração de programas e ações de órgãos e entidades da administração pública da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, relacionados à proteção e à gestão ambiental; V - articular a cooperação técnica, científica e financeira, em apoio às Políticas Nacional e Estadual de Meio Ambiente; VI - promover o desenvolvimento de estudos e pesquisas direcionados à proteção e à gestão ambiental, divulgando os resultados obtidos; VII - organizar e manter, com a colaboração dos órgãos municipais competentes, o Sistema Estadual de Informações sobre Meio Ambiente; VIII - prestar informações à União para a formação e atualização do Sinima; IX - elaborar o zoneamento ambiental de âmbito estadual, em conformidade com os zoneamentos de âmbito nacional e regional; X - definir espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos; XI - promover e orientar a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a proteção do meio ambiente; XII - controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente, na forma da lei; XIII - exercer o controle e fiscalizar as atividades e empreendimentos cuja atribuição para licenciar ou autorizar, ambientalmente, for cometida aos Estados; XIV - promover o licenciamento ambiental de atividades ou empreendimentos utilizadores de recursos ambientais, efetiva ou potencialmente poluidores ou capazes, sob qualquer forma, de causar degradação ambiental, ressalvado o disposto nos arts. 7o e 9o; XV - promover o licenciamento ambiental de atividades ou empreendimentos localizados ou desenvolvidos em unidades de conservação instituídas pelo Estado, exceto em Áreas de Proteção Ambiental (APAs); XVI - aprovar o manejo e a supressão de vegetação, de florestas e formações sucessoras em: a) florestas públicas estaduais ou unidades de conservação do Estado, exceto em Áreas de Proteção Ambiental (APAs); b) imóveis rurais, observadas as atribuições previstas no inciso XV do art. 7o; e c) atividades ou empreendimentos licenciados ou autorizados, ambientalmente, pelo Estado; XVII - elaborar a relação de espécies da fauna e da flora ameaçadas de extinção no respectivo território, mediante laudos e estudos técnico-científicos, fomentando as atividades que conservem essas espécies in situ; XVIII - controlar a apanha de espécimes da fauna silvestre, ovos e larvas destinadas à implantação de criadouros e à pesquisa científica, ressalvado o disposto no inciso XX do art. 7o; XIX - aprovar o funcionamento de criadouros da fauna silvestre; XX - exercer o controle ambiental da pesca em âmbito estadual; e XXI - exercer o controle ambiental do transporte fluvial e terrestre de produtos perigosos, ressalvado o disposto no inciso XXV do art. 7o. 4.6.7 Ações Administrativas dos Municípios As ações administrativas dos municípios são estabelecidas no Art. 9º, verbis: I - executar e fazer cumprir, em âmbito municipal, as Políticas Nacional e Estadual de Meio Ambiente e demais políticas nacionais e estaduais relacionadas à proteção do meio ambiente; II - exercer a gestão dos recursos ambientais no âmbito de suas atribuições; III - formular, executar e fazer cumprir a Política Municipal de Meio Ambiente; IV - promover, no Município, a integração de programas e ações de órgãos e entidades da administração pública federal, estadual e municipal, relacionados à proteção e à gestão ambiental; V - articular a cooperação técnica, científica e financeira, em apoio às Políticas Nacional, Estadual e Municipal de Meio Ambiente; VI - promover o desenvolvimento de estudos e pesquisas direcionados à proteção e à gestão ambiental, divulgando os resultados obtidos; VII - organizar e manter o Sistema Municipal de Informações sobre Meio Ambiente; VIII - prestar informações aos Estados e à União para a formação e atualização dos Sistemas Estadual e Nacional de Informações sobre Meio Ambiente; IX - elaborar o Plano Diretor, observando os zoneamentos ambientais; X - definir espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos; XI - promover e orientar a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a proteção do meio ambiente; XII - controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente, na forma da lei; XIII - exercer o controle e fiscalizar as atividades e empreendimentos cuja atribuição para licenciar ou autorizar, ambientalmente, for cometida ao Município; XIV - observadas as atribuições dos demais entes federativos previstas nesta Lei Complementar, promover o licenciamento ambiental das atividades ou empreendimentos: a) que causem ou possam causar impacto ambiental de âmbito local,conforme tipologia definida pelos respectivos Conselhos Estaduais de Meio Ambiente, considerados os critérios de porte, potencial poluidor e natureza da atividade; ou b) localizados em unidades de conservação instituídas pelo Município, exceto em Áreas de Proteção Ambiental (APAs); XV - observadas as atribuições dos demais entes federativos previstas nesta Lei Complementar, aprovar: a) a supressão e o manejo de vegetação, de florestas e formações sucessoras em florestas públicas municipais e unidades de conservação instituídas pelo Município, exceto em Áreas de Proteção Ambiental (APAs); e b) a supressão e o manejo de vegetação, de florestas e formações sucessoras em empreendimentos licenciados ou autorizados, ambientalmente, pelo Município. 4.6.8 Distrito Federal Como se sabe, conforme a Constituição Federal (Art. 32, § 1º), o Distrito Federal exerce simultaneamente as competências estaduais e municipais. Assim, o Art. 10 da Lei Complementar 140/2011 dispõe que são ações administrativas do Distrito Federal as previstas nos Art. 8º e 9º, já mencionados. 4.6.9 Unicidade do Licenciamento O Art. 13 da LC 140/2011 estabelece o princípio da unicidade do licenciamento, determinando que os empreendimentos e atividades são licenciados ou autorizados, ambientalmente, por um único ente federativo, em conformidade com as atribuições estabelecidas nos termos desta Lei Complementar. O § 1º desse artigo ressalva que os demais entes federativos interessados podem manifestar-se ao órgão responsável pela licença ou autorização, de maneira não vinculante, respeitados os prazos e procedimentos do licenciamento ambiental. A supressão de vegetação decorrente de licenciamentos ambientais é objeto de autorização, devendo ser autorizada pelo ente federativo licenciador. Trataremos dos temas relativos à licença, ao licenciamento e à autorização em matéria ambiental no capítulo seguinte, que abordará a Política Nacional do Meio Ambiente traçada na Lei 6.938/81, bem como em outros capítulos sobre temas específicos. Segundo o Art. 11, a lei poderá estabelecer regras próprias para atribuições relativas à autorização de manejo e à supressão de vegetação, considerada a sua caracterização como vegetação primária ou secundária em diferentes estágios de regeneração, assim como a existência de espécies da flora ou da fauna ameaçadas de extinção. É o que acontece, por exemplo, em áreas com remanescentes de Mata Atlântica, nos termos da Lei 11.428/2006. Trataremos desse tema em capítulo futuro. 4.6.10 Atuação Supletiva O Art. 15 da LC 140/2011 estabelece que os entes federativos devem atuar em caráter supletivo nas ações administrativas de licenciamento e na autorização ambiental, nas seguintes hipóteses: I - inexistindo órgão ambiental capacitado ou conselho de meio ambiente no Estado ou no Distrito Federal, a União deve desempenhar as ações administrativas estaduais ou distritais até a sua criação; II - inexistindo órgão ambiental capacitado ou conselho de meio ambiente no Município, o Estado deve desempenhar as ações administrativas municipais até a sua criação; III - inexistindo órgão ambiental capacitado ou conselho de meio ambiente no Estado e no Município, a União deve desempenhar as ações administrativas até a sua criação em um daqueles entes federativos. 4.6.11 Ação Subsidiária O Art. 16 da LC 140/2011 trata da ação administrativa subsidiária dos entes federativos, a qual deve dar-se por meio de apoio técnico, científico, administrativo ou financeiro, sem prejuízo de outras formas de cooperação. Segundo o parágrafo único desse dispositivo, a ação subsidiária deve ser solicitada pelo ente originariamente detentor da atribuição nos termos desta Lei Complementar. 4.6.12 Poder de Fiscalização O Art. 17 da LC 140/2011 atribui o poder de fiscalização ao órgão responsável pelo licenciamento ou autorização, conforme o caso, de um empreendimento ou atividade, cabendo-lhe lavrar auto de infração ambiental e instaurar processo administrativo para a apuração de infrações à legislação ambiental cometidas pelo empreendimento ou atividade licenciada ou autorizada. Não obstante, o § 2º desse artigo abre exceção a essa competência para os casos urgentes, dispondo que, nos casos de iminência ou ocorrência de degradação da qualidade ambiental, o ente federativo que tiver conhecimento do fato deverá determinar medidas para evitá-la, fazer cessá-la ou mitigá-la, comunicando imediatamente ao órgão competente para as providências cabíveis. O § 3º do Art. 17 ressalva que o disposto no caput desse artigo, relativamente à competência para a fiscalização, não impede o exercício, pelos entes federativos, da atribuição comum de fiscalização da conformidade de empreendimentos e atividades efetiva ou potencialmente poluidores ou utilizadores de recursos naturais com a legislação ambiental em vigor. No entanto, deve prevalecer o auto de infração ambiental lavrado por órgão que detenha a atribuição de licenciamento ou autorização a que se refere o caput. 4.6.13 Representação Segundo o § 1º do Art. 17, qualquer pessoa legalmente identificada, ao constatar infração ambiental decorrente de empreendimento ou atividade utilizadores de recursos ambientais, efetiva ou potencialmente poluidores, pode dirigir representação ao órgão a que se refere o caput, para efeito do exercício de seu poder de polícia. 4.6.14 Responsabilidade Administrativa Voltaremos a alguns desses temas em capítulos futuros, especialmente quando tratarmos da responsabilidade administrativa pelo dano ambiental, objeto da Lei 9.605/98 e do Decreto 6.514/2008, que dispõe sobre as infrações e sanções administrativas relativas ao meio ambiente, bem como estabelece o processo administrativo federal para apuração destas infrações. 67 Op. cit., p. 79, grifos no original. 68 Milaré, oportunamente, lembra que também existe a competência jurisdicional (Direito do Ambiente, 12. ed., p. 200), porém essa não vem ao caso ao tratarmos da questão da competência administrativa dos entes federativos na proteção ao meio ambiente. Trataremos da competência jurisdicional ao abordar as formas de defesa do meio ambiente em juízo. 69 Curso de Direito Constitucional positivo, 42. ed., p. 483, grifos no original. 70 Cf. Frederico Amado, op. cit., p. 37. 71 Direito Ambiental Constitucional, p. 76. 72 Toshio Mukai explica que no federalismo cooperativo “os níveis de governo não se digladiam pelas suas competências, se unem para, cada qual, dentro de suas atribuições, darem conta das necessidades dos administrados” (op. cit., p. 16.) 73 Op. cit., p. 246, grifos no original. 74 Ibidem, p. 248, grifos no original. 75 Teoria geral do federalismo democrático, Lumen Juris, p. 201. Apud Sarlet e Fensterseifer, op. cit., p. 296. 76 Curso…, op. cit., p. 482. 77 Curso de Direito Constitucional, 38. ed., p. 87. 78 Cf. Abelha Rodrigues, op. cit., p. 157. 79 José Afonso da Silva diferencia a competência privativa da exclusiva, afirmando que a segunda não pode ser delegada (Curso…, op. cit., p. 485). Fernanda Dias Menezes de Almeida, no entanto, citando Ferreira Filho, Cretella Jr. e Celso Bastos, considera que ambos os termos (“privativa e “exclusiva”) significam a mesma coisa e podem ser usados indistintamente (Competências na Constituição de 1988, p. 85-87). 80 Op. cit., p. 105. 81 Curso…, op. cit., p. 485. 82 Op. cit., p. 88. 83 Op. cit., p. 252, grifos no original. 84 Apud Sarlet e Fensterseifer, op. cit., p. 257, grifos no original. 85 Curso…, op. cit., p. 485. 86 Op. cit., p. 88, grifos no original. 87 Idem, grifos no original. 88 Op. cit., p. 202. 89 Direito Municipal Brasileiro, apud Milaré, op. cit., p. 203, grifos no original. 90 Op. cit., p. 268. 91 Marcelo Abelha Rodrigues, op. cit., p. 144. 92 STJ, REsp 29.299 apud Amado, p. 45. 93 Op. cit., p. 88. 94 Cf. Abelha Rodrigues, op. cit., p. 146. 95 José dos Santos Carvalho Filho, Manual de Direito Administrativo, Atlas, 30. ed. 96 Direito Administrativo e Políticas Públicas, Saraiva,2006, p. 241. 97 Op. cit., p. 280. 98 Op. cit., p. 79. 99 Op. cit., p. 279. 100 Op. cit., p. 89, grifos no original. 101 Op. cit., p. 87. 102 Curso…, cit., p. 485. 103 Ibidem. 104 José Afonso da Silva, Curso…, p. 485. 105 Op. cit., p. 41. 106 Ibidem. CAPÍTULO 5 A POLÍTICA NACIONAL DO MEIO AMBIENTE A Política Nacional do Meio Ambiente, instituída pela Lei 6.938, de 31.08.1981, foi, sem questionamento, um passo pioneiro na vida pública nacional, no que concerne à dinâmica da realidade ambiental. Esse caráter de vanguarda não se limitou à esfera do meio ambiente: teve significado também na história da Administração Pública brasileira. (Édis Milaré) 5.1 Introdução Como visto anteriormente, a Lei 6.938/81, que estabelece a Política Nacional do Meio Ambiente, inaugurou o Direito Ambiental no Brasil, tendo sido pioneira ao consagrar o meio ambiente como objeto de tutela jurídica por si próprio, e não de forma indireta, reflexa ou utilitária. E fez isso a propósito de regulamentar o Art. 8º da Constituição de 1967-69, então vigente, que sequer mencionava o meio ambiente, dispondo apenas competir à União legislar sobre “jazidas, minas e outros recursos minerais; metalurgia; florestas, caça e pesca e águas”. Avançada para a época, a explicação para isso parece ser a de que lei teve como o seu principal redator Paulo Affonso Leme Machado, pioneiro do Direito Ambiental no Brasil.107 A Lei 6.938/81 foi recepcionada — e ressignificada — pela Constituição de 1988, sofrendo posteriormente algumas atualizações e modificações. Está em consonância com o Art. 24 da atual Constituição, que atribui à União a competência concorrente para legislar sobre proteção do meio ambiente (inciso VI), veiculando normas gerais, nos termos do § 1º do mesmo artigo. A redação dada ao Art. 1º pela Lei 8.028/90 faz remissão aos incisos VI e VII do Art. 23 e, em evidente equívoco, ao Art. “235” (sic) da Constituição, quando deveria mencionar o Art. 225. Como anunciado no Art. 1º, a Lei 6.938/81 estabelece a Política Nacional do Meio Ambiente, formulando, portanto, as bases de uma verdadeira e abrangente política pública.108 Como escreve Abelha Rodrigues, “nessa lei, mais do que simples regras de direito ambiental, há, de forma expressa, um conjunto de valores e objetivos que devem reger a tutela ambiental em nosso país, em todas as searas do Poder Público”.109 5.2 Estrutura Segundo Abelha Rodrigues, estruturalmente, a Lei 6.938/81 pode ser dividida em três partes: princípios, fins e objetivos e instrumentos.110 5.2.1 Objetivo Como nota Abelha Rodrigues, ao enunciar o que chama de objetivos, na verdade a lei trata de “fins abstratos”.111 Na dicção do Art. 2º, caput: a Política Nacional do Meio Ambiente tem por objetivo a preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida, visando assegurar, no país, condições ao desenvolvimento socioeconômico, aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana. 5.2.2 Princípios Já ao relacionar o que denomina de princípios, segundo Amado, a lei em comento, na verdade, estabelece metas.112 Essas estão arroladas nos incisos do Art. 2º, a saber: I - ação governamental na manutenção do equilíbrio ecológico, considerando o meio ambiente como um patrimônio público a ser necessariamente assegurado e protegido, tendo em vista o uso coletivo; II - racionalização do uso do solo, do subsolo, da água e do ar; III - planejamento e fiscalização do uso dos recursos ambientais; IV - proteção dos ecossistemas, com a preservação de áreas representativas; V - controle e zoneamento das atividades potencial ou efetivamente poluidoras; VI - incentivos ao estudo e à pesquisa de tecnologias orientadas para o uso racional e a proteção dos recursos ambientais; VII - acompanhamento do estado da qualidade ambiental; VIII - recuperação de áreas degradadas; IX - proteção de áreas ameaçadas de degradação; X - educação ambiental a todos os níveis de ensino, inclusive a educação da comunidade, objetivando capacitá-la para participação ativa na defesa do meio ambiente. 5.3 Educação Ambiental A Educação Ambiental, mencionada no inciso X do Art. 2º, merece menção à parte. Regulamentando dispositivo constitucional (Art. 225, § 1º, VI), o tema é objeto da Lei 9.795/99, que “dispõe sobre a educação ambiental, institui a Política Nacional de Educação Ambiental e dá outras providências”. Frederico Amado considera que a educação ambiental “talvez seja a saída para o futuro equacionamento da questão ambiental”.113 Conforme o Art. 1º da Lei 9.795/99, entendem-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade. Estatui o Art. 2º da Lei 9.795/99 que a educação ambiental é um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não formal. Trata-se de um direito de todos e uma obrigação não apenas do Poder Público, como das instituições públicas e privadas de ensino e mesmo dos meios de comunicação de massa e da coletividade. Com efeito, dispõe o Art. 3º que, como parte do processo educativo mais amplo, todos têm direito à educação ambiental, incumbindo: I - ao Poder Público, nos termos dos arts. 205 e 225 da Constituição Federal, definir políticas públicas que incorporem a dimensão ambiental, promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e o engajamento da sociedade na conservação, recuperação e melhoria do meio ambiente; II - às instituições educativas, promover a educação ambiental de maneira integrada aos programas educacionais que desenvolvem; […] IV - aos meios de comunicação de massa, colaborar de maneira ativa e permanente na disseminação de informações e práticas educativas sobre meio ambiente e incorporar a dimensão ambiental em sua programação; V - às empresas, entidades de classe, instituições públicas e privadas, promover programas destinados à capacitação dos trabalhadores, visando à melhoria e ao controle efetivo sobre o ambiente de trabalho, bem como sobre as repercussões do processo produtivo no meio ambiente; VI - à sociedade como um todo, manter atenção permanente à formação de valores, atitudes e habilidades que propiciem a atuação individual e coletiva voltada para a prevenção, a identificação e a solução de problemas ambientais. Conforme o Art. 4º da Lei 9.795/99, são princípios básicos da educação ambiental, entre outros: I - o enfoque humanista, holístico, democrático e participativo; II - a concepção do meio ambiente em sua totalidade, considerando a interdependência entre o meio natural, o socioeconômico e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade; III - o pluralismo de ideias e concepções pedagógicas, na perspectiva da inter, multi e transdisciplinaridade; […] O Art. 5º da Lei 9.795/99 dispõe que, entre os objetivos fundamentais da educação ambiental, está “o desenvolvimento de uma compreensão integrada do meio ambiente em suas múltiplas e complexas relações, envolvendo aspectos ecológicos, psicológicos, legais, políticos, sociais, econômicos, científicos, culturais e éticos”. A Lei 14.393, de 4 de julho de 2022, acrescentou o Art. 13-A à Lei 9.795/99 para instituir a Campanha Junho Verde. Segundo esse artigo, “Fica instituída a Campanha Junho Verde, a ser celebrada anualmente como parte das atividades da educação ambiental não formal”. Esclarece o § 1º desse novo artigo que o objetivo da Campanha Junho Verde é desenvolver o entendimento da população acerca da importância da conservação dos ecossistemas naturais e de todos os seres vivos e do controle da poluição e da degradação dos recursos naturais, para as presentes e futuras gerações. O § 2º determina que a Campanha Junho Verde será promovida pelo poder público federal,Interesse Ecológico (Arie) 8.4.8.3 Floresta Nacional (Flona) 8.4.8.4 Reserva Extrativista (RESEX) 8.4.8.5 Reserva de Fauna (Refau) 8.4.8.6 Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) 8.4.8.7 Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) 8.4.9 Criação, Desafetação, Implantação e Gestão 8.4.9.1 Zona de Amortecimento, Corredores Ecológicos e Mosaico 8.4.9.2 Plano de Manejo 8.4.9.3 Atividades Proibidas 8.4.9.4 Pesquisa Científica 8.4.9.5 Exploração Comercial 8.4.9.4.6 Recursos e Doações 8.4.9.4.6 EIA/RIMA 8.4.9.4.7 Infrações e Penalidades 8.4.9.4.8 Populações Tradicionais 8.4.10 Reservas da Biosfera 8.4.11 Cadastro Nacional 8.4.12 Crime CAPÍTULO 9 RECURSOS AMBIENTAIS: ÁGUA 9.1 Introdução 9.2 Panorama Histórico 9.3 Fundamentos Constitucionais 9.4 O Código de Águas 9.5 Competências 9.6 A Política Nacional de Recursos Hídricos 9.6.1 Recursos Hídricos 9.6.2 Fundamentos 9.6.3 Objetivos 9.6.4 Diretrizes 9.6.5 Instrumentos 9.6.5.1 Planos de Recursos Hídricos 9.6.5.2 Enquadramento dos Corpos D’água 9.6.5.3 Outorga 9.6.5.4 Cobrança 9.6.6 Competências Federais, Estaduais e Municipais 9.6.7 Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos 9.6.7.1 Conselho Nacional de Recursos Hídricos 9.6.7.2 Comitês de Bacia Hidrográfica 9.6.7.3 A Agência Nacional de Águas (ANA) 9.6.7.4 Agências de Águas 9.6.8 Infrações e Sanções 9.7 Proteção Contra a Poluição 9.7.1 Poluição Marítima 9.8 Zona Costeira 9.9 A Convenção sobre o Direito do Mar 9.10 Saneamento Básico CAPÍTULO 10 SANEAMENTO BÁSICO 10.1 Introdução 10.2 Quadro Dramático 10.3 Fundamentos Constitucionais 10.4 Lei Complementar 140/2011 10.5 Lei 10.257/2001 10.6 A Lei 11.445/2007 e o “Novo Marco do Saneamento” 10.6.1 A ANA 10.6.2 Conceitos 10.6.3 Recursos Hídricos 10.6.4 Princípios 10.6.5 Titularidade 10.6.6 Contrato de Concessão 10.6.7 Serviço Regionalizado 10.6.8 Órgão Regulador 10.6.9 Direitos dos Usuários 10.6.10 Conexão Obrigatória 10.6.11 Licenciamento Ambiental 10.6.12 Controle Social 10.6.13 Política Federal 10.6.14 Resíduos Sólidos 10.6.15 Veto Polêmico 10.6.16 Mínimo Existencial x Reserva do Possível CAPÍTULO 11 RESÍDUOS SÓLIDOS 11.1 Introdução 11.2 Fundamentos Constitucionais 11.3 Lei Complementar 140/2011 11.4 A Lei 11.445/2007 11.5 A Lei 12.305/2010 11.5.1 Definições 11.5.2 A Política Nacional de Resíduos Sólidos 11.5.3 Princípios 11.5.4 Objetivos 11.5.6 Ordem de Prioridade 11.5.7 Incumbências Estaduais e Municipais 11.5.8 Classificação 11.5.9 Planos de Resíduos Sólidos 11.5.9.1 Plano Nacional 11.5.9.2 Planos Estaduais 11.5.9.3 Planos Municipais 11.5.9.4 Plano de Gerenciamento 11.5.10 Responsabilidades 11.5.11 Resíduos Perigosos 11.5.12 Instrumentos Econômicos 11.5.13 Proibições 11.5.14 Responsabilidade por Dano Ambiental 11.5.15 Novo Marco do Saneamento CAPÍTULO 12 SOLO 12.1 Introdução 12.2 Fundamentos Constitucionais 12.3 Bem Ambiental 12.4 Formas de Degradação do Solo 12.5 Mineração 12.5.1 O Código de Mineração 12.5.2 Mineração na Legislação Ambiental 12.5.3 Garimpo 12.5.4 Responsabilidade Civil, Administrativa e Criminal 12.6 Agrotóxicos 12.6.1 Agrotóxicos e Direito Ambiental 12.7 Áreas Contaminadas 12.8 Cemitérios CAPÍTULO 13 AR 13.1 Introdução 13.2 Fundamentos Constitucionais 13.3 Bem Ambiental 13.4 Poluição Atmosférica 13.5 Combate à Poluição Atmosférica 13.5.1 Decreto-lei 1.413/75 13.5.2 Lei 6.803/80 13.5.3 São Paulo 13.5.4 Padrões de Qualidade do Ar 13.5.4 Queimadas e Incêndios 13.6 Poluição Sonora 13.7 Disposições Penais 13.8 Direito de Vizinhança CAPÍTULO 14 CLIMA 14.1 Introdução 14.2 Mudanças Climáticas e Aquecimento Global 14.3 Panorama Histórico e Cenário Internacional 14.4 Fundamentos Constitucionais 14.5 Legislação Climática 14.5.1 A Lei 12.187/2009 14.5.2 Políticas Estaduais e Municipais CAPÍTULO 15 BIODIVERSIDADE E PATRIMÔNIO GENÉTICO 15.1 Introdução 15.2 Fundamentos Constitucionais 15.3 Biodiversidade na Lei Complementar 140/2011 15.4 Biodiversidade na Lei 6.938/81 15.5 Biodiversidade no Código Florestal 15.6 Biodiversidade na Lei 9.985/2000 15.7 Biodiversidade na Lei 11.428/2006 15.8 A Convenção sobre a Diversidade Biológica 15.9 Decreto 4.339/2002 15.10 Lei de Biossegurança 15.11 A Lei 13.123/2015 CAPÍTULO 16 FAUNA 16.1 Introdução 16.2 Panorama Histórico 16.3 Fundamentos Constitucionais 16.4 Lei Complementar 140/2011 16.5 Lei 6.938/81 16.6 O Decreto 24.645/34 16.7 A Lei de Proteção à Fauna 16.8 O “Código de Pesca” 16.9 Experimentação Animal 16.10 Zoológicos 16.11 Rodeios 16.12 Crimes 16.13 Personalidade Jurídica e Direitos dos Animais CAPÍTULO 17 MEIO AMBIENTE URBANO 17.1 Introdução 17.2 A Cidade 17.3 Panorama Internacional 17.4 Fundamentos Constitucionais 17.5 Urbanismo na Legislação Ambiental 17.6 Direito Urbanístico 17.6.1 Estatuto da Cidade 17.6.2 Parcelamento do Solo 17.6.3 Paisagem Urbana 17.6.4 Mobilidade Urbana 17.6.5 Metrópoles CAPÍTULO 18 MEIO AMBIENTE CULTURAL 18.1 Introdução 18.2 Fundamentos Constitucionais 18.3 O Decreto-lei 25/37 e o Tombamento 18.4 Patrimônio Arqueológico, Paleontológico e Espeleológico 18.5 Lei 12.343/2010 18.6 Instrumentos de Proteção CAPÍTULO 19 RESPONSABILIDADE ADMINISTRATIVA AMBIENTAL 19.1 Introdução 19.2 Fundamentos Constitucionais 19.3 Lei 6.938/81 19.4 Lei Complementar 140/2011 19.5 Lei 9.605/98 CAPÍTULO 20 RESPONSABILIDADE CIVIL PELO DANO AMBIENTAL 20.1 Introdução 20.2 A Responsabilidade Objetiva 20.3 O Dano Ambiental 20.4 Instrumentos de Tutela 20.4.1 Ação Civil Pública 20.4.2 Inquérito Civil 20.4.3 Ação Popular CAPÍTULO 21 RESPONSABILIDADE AMBIENTAL CRIMINAL 21.1 Introdução 21.2 A Lei 9.605/98 21.2.1 A Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica 21.2.2 Penas 21.2.3 A Ação Penal Ambiental 21.2.4 Crimes em Espécie REFERÊNCIAS SOBRE O AUTOR SOBRE A OBRA CONTRACAPA PREFÁCIO Jorge Alberto de Oliveira Marum ingressou no Ministério Público paulista quando a Constituição de 88 ainda era novinha em folha, vindo a tomar posse no cargo de promotor de justiça no ano seguinte à promulgação da nossa festejada Carta Verde. Coincidência ou não, o fato é que a defesa do meio ambiente se transformou na principal marca de sua carreira, que já ultrapassa 30 anos de amor e dedicação à causa pública. Após o período de promotor substituto, Marum foi titular nas comarcas de Iguape e Tatuí, até chegar à sua terra do coração, Sorocaba, onde atua desde o ano de 1993. Foi nesta cidade, aliás, que ele deu asas à vocação que o acompanha desde cedo, o Direito Ambiental. E assim pode alçar voos cada vez mais altos, que lhe permitiram enxergar a paisagem do entorno e ouvir as vozes quase sempre silenciadas das outras realidades sensíveis. A promotoria do meio ambiente de Sorocaba passou a ter não apenas um funcionário público exemplar e cumpridor de seus deveres funcionais, mas acima de tudo um ser humano dotado de consciência ecológica e sensibilidade pelos animais. Discípulo de Édis Milaré e Paulo Affonso Leme Machado, pioneiros do direito ambiental brasileiro, tornou-se um dos promotores verdes surgidos na época em que o Centro de Apoio Operacional doas Promotorias de Justiça do Meio Ambiente Ministério Público do Estado de São Paulo era coordenado pelo então procurador de Justiça Antonio Herman Benjamin, que idealizou os inesquecíveis congressos ambientais realizados a partir de 1997 em Águas de São Pedro, Ubatuba, Campos do Jordão e noutras cidades do interior paulista. Nestes eventos históricos, que contavam com a participação de colegas idealistas como Daniel Fink, Fillipe Augusto Vieira de Andrade, Marcelo Pedroso Goulart, José Carlos de Freitas, Fernando Reverendo Vidal Akaoui, Alexandra Faccioli Martins, Luís Fernando Rocha, Liliane Garcia Ferreira, dentre outros tantos, o Ministério Público debatia e construía a sua melhor forma de atuação na área do meio ambiente. Presença constante em cada um deles, seja com a apresentação de ideias inovadoras ou teses submetidas a plenário, Jorge Marum passou a ser uma figura exponencial entre seus pares, contribuindo para o avanço da tutela jurídica ambiental. Na Promotoria de Justiça do Meio Ambienteestadual, distrital e municipal em parceria com escolas, universidades, empresas públicas e privadas, igrejas, comércio, entidades da sociedade civil, comunidades tradicionais e populações indígenas, e incluirá ações direcionadas para: I - divulgação de informações acerca do estado de conservação das florestas e biomas brasileiros e dos meios de participação ativa da sociedade para a sua salvaguarda; II - fomento à conservação e ao uso de espaços públicos urbanos por meio de atividades culturais e de educação ambiental; III - conservação da biodiversidade brasileira e plantio e uso de espécies vegetais nativas em áreas urbanas e rurais; IV - sensibilização acerca da redução de padrões de consumo, da reutilização de materiais, da separação de resíduos sólidos na origem e da reciclagem; V - divulgação da legislação ambiental brasileira e dos princípios ecológicos que a regem; VI - debate sobre transição ecológica das cadeias produtivas, economia de baixo carbono e carbono neutro; VII - inovação ambiental por meio de projetos educacionais relacionados ao potencial da biodiversidade do País; VIII - preservação da cultura dos povos tradicionais e indígenas que habitam biomas brasileiros, inseridos no contexto da proteção da biodiversidade do País; IX - debate sobre as mudanças climáticas e seus impactos nas cidades e no meio rural, com a participação dos Poderes Legislativos estaduais, distrital e municipais; X - estímulo à formação da consciência ecológica cidadã a respeito de temas ambientais candentes, em uma perspectiva transdisciplinar e social transformadora, pautada pela ética intergeracional; XI - debate, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, sobre ecologia, conservação ambiental e cadeias produtivas; XII - fomento à conscientização ambiental em áreas turísticas, com estímulo ao turismo sustentável; XIII - divulgação e disponibilização de estudos científicos e de soluções tecnológicas adequadas às políticas públicas de proteção do meio ambiente; XIV - promoção de ações socioeducativas destinadas a diferentes públicos nas unidades de conservação da natureza em que a visitação pública é permitida; XV - debate, divulgação, sensibilização e práticas educativas atinentes às relações entre a degradação ambiental e o surgimento de endemias, epidemias e pandemias, bem como à necessidade de conservação adequada do meio ambiente para a prevenção delas; e XVI - conscientização relativa a uso racional da água, escassez hídrica, acesso a água potável e tecnologias disponíveis para melhoria da eficiência hídrica. Por fim, o § 3º do Art. 13-A da Lei 9.795/99 dispõe que, “na Campanha Junho Verde, será observado o conceito de Ecologia Integral, que inclui dimensões humanas e sociais dos desafios ambientais”. 5.4 Conceitos Voltando à Lei 6.938/81, o Art. 3º, como se tornará comum na legislação ambiental posterior, expressa, em seus incisos, importantes conceitos para seu melhor entendimento, estabelecendo que, para os fins previstos nesta Lei, entende-se por: I – Meio Ambiente: o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas. II – Degradação Ambiental: a alteração adversa das características do meio ambiente. III – Poluição: a degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou indiretamente: a) prejudiquem a saúde, a segurança e o bem-estar da população; b) criem condições adversas às atividades sociais e econômicas; c) afetem desfavoravelmente a biota (conjunto de seres vivos); d) afetem as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente; e) lancem matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais estabelecidos. IV – Poluidor: a pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado, responsável, direta ou indiretamente, por atividade causadora de degradação ambiental. V – Recursos Ambientais (ou bens ambientais): a atmosfera, as águas interiores, superficiais e subterrâneas, os estuários, o mar territorial, o solo, o subsolo, os elementos da biosfera, a fauna e a flora. 5.5 Objetivos No Art. 4º a Lei traça seus “objetivos” ou, no dizer de Abelha Rodrigues, seus “fins concretos”.114 Dispõe o Art. 4º que a Política Nacional do Meio Ambiente visará: I - à compatibilização do desenvolvimento econômico-social com a preservação da qualidade do meio ambiente e do equilíbrio ecológico;115 II - à definição de áreas prioritárias de ação governamental relativa à qualidade e ao equilíbrio ecológico, atendendo aos interesses da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios e dos Municípios; III - ao estabelecimento de critérios e padrões de qualidade ambiental e de normas relativas ao uso e manejo de recursos ambientais; IV - ao desenvolvimento de pesquisas e de tecnologias nacionais orientadas para o uso racional de recursos ambientais; V - à difusão de tecnologias de manejo do meio ambiente, à divulgação de dados e informações ambientais e à formação de uma consciência pública sobre a necessidade de preservação da qualidade ambiental e do equilíbrio ecológico; VI - à preservação e restauração dos recursos ambientais com vistas à sua utilização racional e disponibilidade permanente, concorrendo para a manutenção do equilíbrio ecológico propício à vida; VII - à imposição, ao poluidor e ao predador, da obrigação de recuperar e/ou indenizar os danos causados e, ao usuário, da contribuição pela utilização de recursos ambientais com fins econômicos.116 5.6 Princípio do Poluidor-pagador Os objetivos anteriormente arrolados veiculam alguns importantes princípios de Direito Ambiental, como é o caso do princípio do poluidor-pagador (Art. 4º, VII). Sobre o tema, escreve Roger Scruton que […] o primeiro passo em qualquer política ambiental será conceber um esquema de cobrar pela poluição e pelo lixo produzindo, de modo que tanto produtores quanto consumidores se sintam incentivados a contê-los. Essa é a base do ‘Polluter Pays Principle’ formulado e recomendado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 1975.117 Conforme Amado, […] por este princípio, deve o poluidor responder pelos custos sociais da degradação causada por sua atividade impactante (as chamadas externalidades negativas), devendo-se agregar esse valor no custo produtivo da atividade, para evitar que se privatizem os lucros e se socializem os prejuízos.118 No entanto, não se trata de “pagar para poluir”. Com efeito, adverte Abelha Rodrigues que esse princípio “não pode ser interpretado ao pé da letra. Jamais pode traduzir a ideia de pagar para poluir”.119 No mesmo sentido, José Afonso da Silva, citando Fernando Alves Correia, ensina que: […] o chamado princípio do poluidor-pagador é equivocado quando se pensa que dá o direito de poluir, desde que pague. Não é isso, não pode ser isso. Ele significa, tão só, que aquele que polui fica obrigado a corrigir ou recuperar o meio ambiente, suportando os encargos daí resultantes, não lhe sendo permitido continuar a ação poluente.120 Trata-se, o princípio do poluidor-pagador, de um dos postulados fundamentais do Direito Ambiental.121 Como exemplos de concretização desse princípio, podemos citar as responsabilidades civil, administrativa e penal pelo dano ambiental e a logística reversa (obrigação que certos fabricantes têm de se responsabilizar pelo retorno dos resíduos resultantes de seus produtos). 5.7 Princípio do Usuário-pagador Pelo princípio do usuário-pagador, também previsto no artigo 4º, inciso VII, da Lei 6.938/81, aplica-se o mesmo regime do poluidor-pagador ao usuário de bens ambientais (águas, ar, solo, florestas etc.). Esse princípio significa que, “dado o caráter difuso e esgotável dos bens ambientais, todos que sejam responsáveis pela utilização desses bens em seu proveito (e em detrimento da sociedade) devem arcar com esse déficit da sociedade”.122 A diferença desse princípio com o princípio do poluidor-pagador decorre do fato de que ele incide mesmo que não hajapoluição.123 Um exemplo é a outorga do uso da água, que está sujeita a pagamento, nos termos dos artigos 11 e seguintes da Lei 9.433/97, que será vista em momento oportuno. 5.8 Destinatários O Art. 5º aponta os destinatários da Política Nacional do Meio Ambiente, determinando que as diretrizes desta serão formuladas em normas e planos destinados a orientar a ação dos Governos da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios e dos Municípios no que se relaciona com a preservação da qualidade ambiental e manutenção do equilíbrio ecológico, observados os princípios estabelecidos no Art. 2º dessa lei. O parágrafo único do mesmo artigo deixa claro que as atividades empresariais públicas ou privadas serão exercidas em consonância com as diretrizes da PNMA. 5.9 Sisnama O Art. 6º cuida da estrutura do Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama), determinando que os órgãos e entidades da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, bem como as fundações instituídas pelo Poder Público, responsáveis pela proteção e melhoria da qualidade ambiental, constituirão esse sistema, assim estruturado: I - órgão superior: o Conselho de Governo,124 com a função de assessorar o Presidente da República na formulação da política nacional e nas diretrizes governamentais para o meio ambiente e os recursos ambientais; II - órgão consultivo e deliberativo: o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), com a finalidade de assessorar, estudar e propor ao Conselho de Governo, diretrizes de políticas governamentais para o meio ambiente e os recursos naturais e deliberar, no âmbito de sua competência, sobre normas e padrões compatíveis com o meio ambiente ecologicamente equilibrado e essencial à sadia qualidade de vida; III - órgão central: a Secretaria do Meio Ambiente da Presidência da República,125 com a finalidade de planejar, coordenar, supervisionar e controlar, como órgão federal, a política nacional e as diretrizes governamentais fixadas para o meio ambiente; IV - órgãos executores: o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade - Instituto Chico Mendes, com a finalidade de executar e fazer executar a política e as diretrizes governamentais fixadas para o meio ambiente, de acordo com as respectivas competências; V - Órgãos Seccionais: os órgãos ou entidades estaduais responsáveis pela execução de programas, projetos e pelo controle e fiscalização de atividades capazes de provocar a degradação ambiental; VI - Órgãos Locais: os órgãos ou entidades municipais, responsáveis pelo controle e fiscalização dessas atividades, nas suas respectivas jurisdições. O § 1º do Art. 6º dispõe que os estados, na esfera de suas competências e nas áreas de sua jurisdição, elaborarão normas supletivas e complementares e padrões relacionados com o meio ambiente, observados os que forem estabelecidos pelo Conama. No mesmo sentido, o § 2º diz que os municípios, observadas as normas e os padrões federais e estaduais, também poderão elaborar as normas mencionadas no parágrafo anterior. 5.9.1 Conama Conforme o inciso II do Art. 6º, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), é o órgão consultivo e deliberativo do Sisnama, com a finalidade de assessorar, estudar e propor, ao Conselho de Governo, diretrizes de políticas governamentais para o meio ambiente e os recursos naturais e deliberar, no âmbito de sua competência, sobre normas e padrões compatíveis com o meio ambiente ecologicamente equilibrado e essencial à sadia qualidade de vida. Nos termos do Art. 5º-A do Decreto 99.274/90, recentemente modificado pelo Decreto 11.417, de 16 de fevereiro de 2023, integram o Plenário do Conama: I - o Ministro de Estado do Meio Ambiente e Mudança do Clima, que o presidirá; II - o Secretário-Executivo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, que será o seu Secretário-Executivo; III - um representante do IBAMA; IV - um representante do Instituto Chico Mendes; V - um representante do Serviço Florestal Brasileiro do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima; VI - um representante da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico - ANA; VII - um representante: a) de cada um dos Ministérios; b) de cada um dos seguintes órgãos da Presidência da República: 1. Casa Civil; 2. Secretaria-Geral; e 3. Secretaria de Relações Institucionais; e c) de cada um dos Comandos do Ministério da Defesa: 1. da Marinha; 2. do Exército; e 3. da Aeronáutica; VIII - um representante de cada um dos Governos estaduais e do Distrito Federal, indicados pelos respectivos Governadores; IX - oito representantes dos Governos municipais que possuam órgão ambiental estruturado e conselho de meio ambiente com caráter deliberativo, dos quais: a) um representante de cada região geográfica do País; b) um representante da Associação Nacional de Municípios e Meio Ambiente - ANAMMA; e c) dois representantes de entidades municipalistas de âmbito nacional; X - vinte e dois representantes de entidades de trabalhadores e da sociedade civil, dos quais: a) dois representantes de entidades ambientalistas de cada uma das regiões geográficas do País; b) três representantes de entidades ambientalistas de âmbito nacional; c) três representantes de associações legalmente constituídas para a defesa dos recursos naturais e do combate à poluição, de livre escolha do Presidente do Conama; d) um representante de entidades profissionais, de âmbito nacional, com atuação na área ambiental e de saneamento, indicado pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental - ABES; e) um representante de trabalhadores indicado pelas centrais sindicais e confederações de trabalhadores da área urbana (Central Única dos Trabalhadores - CUT, Força Sindical, União Geral dos Trabalhadores - UGT, Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria - CNTI e Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio - CNTC), escolhido em procedimento sob a coordenação conjunta da CNTI e da CNTC; f) um representante de trabalhadores da área rural, indicado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares - CONTAG; g) um representante de populações tradicionais, escolhido em processo estabelecido por meio de ato do Ministro de Estado do Meio Ambiente e Mudança do Clima; h) um representante da comunidade indígena, escolhido em procedimento sob a coordenação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil - APIB; e i) um representante da comunidade científica, indicado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - SBPC; XI - oito representantes de entidades empresariais, dos quais: a) dois da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil - CNA; b) dois da Confederação Nacional da Indústria - CNI; c) um da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo - CNC; d) um da Confederação Nacional do Transporte - CNT; e e) dois do setor florestal, indicados nos termos de regulamento do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima; XII - um membro honorário indicado pelo Plenário. Conforme o § 1º do Art. 5º-A do Decreto 99.274/90, integram também o Plenário do Conama, na condição de conselheiros convidados, sem direito a voto: I - um representante do Ministério Público Federal; II - um representante dos Ministérios Públicos Estaduais, indicado pelo Conselho Nacional de Procuradores-Gerais do Ministério Público dos Estados e da União - CNPG; III - um representante da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados; IV - um representante da Comissão de Meio Ambiente do Senado Federal. 5.9.2 Competências do Conama O Art. 8º trata das competências do Conama, a saber: I - estabelecer, mediante proposta do Ibama, normas e critérios para o licenciamento de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras, a ser concedido pelos Estados e supervisionado pelo IBAMA; II - determinar, quando julgar necessário, a realização de estudos das alternativas e das possíveis consequênciasambientais de projetos públicos ou privados, requisitando aos órgãos federais, estaduais e municipais, bem assim a entidades privadas, as informações indispensáveis para apreciação dos estudos de impacto ambiental, e respectivos relatórios, no caso de obras ou atividades de significativa degradação ambiental, especialmente nas áreas consideradas patrimônio nacional; III - […] revogado; IV - homologar acordos visando à transformação de penalidades pecuniárias na obrigação de executar medidas de interesse para a proteção ambiental; V - determinar, mediante representação do IBAMA, a perda ou restrição de benefícios fiscais concedidos pelo Poder Público, em caráter geral ou condicional, e a perda ou suspensão de participação em linhas de financiamento em estabelecimentos oficiais de crédito; VI - estabelecer, privativamente, normas e padrões nacionais de controle da poluição por veículos automotores, aeronaves e embarcações, mediante audiência dos Ministérios competentes; VII - estabelecer normas, critérios e padrões relativos ao controle e à manutenção da qualidade do meio ambiente com vistas ao uso racional dos recursos ambientais, principalmente os hídricos. Parágrafo único. O Secretário (rectius: Ministro) do Meio Ambiente é, sem prejuízo de suas funções, o presidente do CONAMA. 5.9.3 Resoluções Conama Como visto anteriormente, o Conama tem competência para editar normas, as quais são veiculadas por meio de resoluções. As resoluções do Conama são de suma importância na regulamentação da Política Nacional do Meio Ambiente. No entanto, não raro são acusadas de extrapolar o poder regulamentar. Sobre o tema, escreve Frederico Amado que […] a questão dos limites do poder normativo do CONAMA, mutatis mutandis, gera a mesma polêmica do poder normativo das agências reguladoras, pois é sabido que, em regra, o poder regulamentar tem por fundamento de validade a lei em sentido estrito, que deve fixar, ao menos, os parâmetros a serem pormenorizados pelo ato regulamentar, ou seja, é vedada a delegação incondicionada do Poder Legislativo ao Poder Executivo (Princípio da Estrita Legalidade), sendo a função política legiferante irrenunciável e indelegável, salvo as exceções previstas constitucionalmente.126 Contudo, […] por questões de conveniência ambiental ou em aplicação direta do direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, considerado como fundamento primário de inúmeros atos do Conselho, pois é preciso uma regulamentação estatal específica da matéria, aliada ao fato de as resoluções do CONAMA serem, normalmente, regras de boa qualidade técnica, não é comum a sua invalidação pelo Poder Judiciário.127 Além disso, ainda conforme Amado, […] é possível a criação de deveres ambientais por simples ato regulamentar, desde que a norma secundária tenha fundamento de validade diretamente na Constituição, na aplicação direta do direito fundamental ao meio ambiente equilibrado ecologicamente ou em outro dispositivo da Lei Maior (STF, ADPF 101/2009).128 Não obstante, informa o mesmo autor que “o STF não tem conhecido ação direta de inconstitucionalidade proposta contra ato normativo do CONAMA (ADI 2.714)”.129 5.9.4 Ibama Nos termos do Art. 6º, inciso IV, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) é um dos dois órgãos executores da Política Nacional do Meio Ambienta. Trata-se de “autarquia federal em regime especial, criado pela Lei 7.735/1989, vinculado ao MMA, a quem compete exercer o poder de polícia ambiental federal, executar ações da Política Nacional do Meio Ambiente na esfera federal e ações supletivas”.130 5.9.5 ICMBio O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) é o outro órgão executor mencionado no inciso IV do Art. 6º, cuidando-se de autarquia federal criada pela Lei 11.516/07, que o desmembrou do Ibama, sendo incumbido da “tarefa de conservação ambiental, mediante a gestão das unidades de conservação federais”.131 O tema das unidades de conservação será abordado em capítulo futuro. 5.10 Instrumentos da PNMA O Art. 9º traz os instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente, quais sejam: I - o estabelecimento de padrões de qualidade ambiental; II - o zoneamento ambiental; III - a avaliação de impactos ambientais; IV - o licenciamento e a revisão de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras; V - os incentivos à produção e instalação de equipamentos e a criação ou absorção de tecnologia, voltados para a melhoria da qualidade ambiental; VI - a criação de espaços territoriais especialmente protegidos pelo Poder Público federal, estadual e municipal, tais como áreas de proteção ambiental, de relevante interesse ecológico e reservas extrativistas; VII - o sistema nacional de informações sobre o meio ambiente; VIII - o Cadastro Técnico Federal de Atividades e Instrumentos de Defesa Ambiental; IX - as penalidades disciplinares ou compensatórias ao não cumprimento das medidas necessárias à preservação ou correção da degradação ambiental; X - a instituição do Relatório de Qualidade do Meio Ambiente, a ser divulgado anualmente pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis - IBAMA; XI - a garantia da prestação de informações relativas ao Meio Ambiente, obrigando-se o Poder Público a produzi-las, quando inexistentes; XII - o Cadastro Técnico Federal de atividades potencialmente poluidoras e/ou utilizadoras dos recursos ambientais. XIII - instrumentos econômicos, como concessão florestal, servidão ambiental, seguro ambiental e outros. Desse extenso rol de instrumentos, podemos destacar alguns: 5.10.1 Padrões de Qualidade Ambiental Instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente, “os padrões de qualidade ambiental estão estabelecidos no Brasil por resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente CONAMA. No presente, já estão regulamentados os Padrões de Qualidade Á do Ar, das Águas e dos Níveis de Ruído”.132 Embora redigidos em linguagem técnica, “como parâmetros técnicos, estão incorporados à legislação, e assim devem ser entendidos”.133 Veremos mais sobre esses instrumentos em outro capítulo. 5.10.2 Zoneamento Ambiental Instrumento da PNMA, o zoneamento ambiental, também chamado de Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE), é definido por Milaré como “o resultado de estudos conduzidos para o conhecimento sistematizado de características, fragilidades e potencialidades do meio a partir de aspectos ambientais escolhidos em espaço geográfico limitado”, visando “a subsidiar os processos de planejamento e de ordenamento do uso e da ocupação do território, bem como da utilização de recursos ambientais”. 134 O ideal é que seja realizado por lei específica,135 porém foi regulamentado pelo Decreto 4.297/2002, cujo Art. 2º define o ZEE como […] instrumento de organização do território a ser obrigatoriamente seguido na implantação de planos, obras e atividades públicas e privadas, estabelece medidas e padrões de proteção ambiental destinados a assegurar a qualidade ambiental, dos recursos hídricos e do solo e a conservação da biodiversidade, garantindo o desenvolvimento sustentável e a melhoria das condições de vida da população. Conforme Amado, trata-se de “importante ferramenta para o planejamento ambiental”, consistindo numa “modalidade de intervenção estatal sobre o território, a fim de reparti-lo em zonas consoante o melhor interesse na preservação ambiental e no uso sustentável dos recursos naturais”.136 Trata-se de competência comum entre as entidades políticas.137 5.10.3 Avaliação de Impactos Ambientais (AIA) Conforme Milaré, a Avaliação de Impactos Ambientais (AIA) constitui-se em “avaliação técnica e prévia (vale dizer, a priori e não a posteriori) dos riscos e danos potenciais que determinado empreendimento ou ação pode causar às características essenciais do meio, seus recursos e seu equilíbrio ecológico”. “No caso de licenciamento ambiental, figura como requisito de absoluta necessidade”. A AIA é gênero, desdobrando-se “em diferentes modelos outipos, por exemplo: Estudo de Impacto Ambiental – EIA, Estudo de Impacto de Vizinhança – EIV, Relatório Ambiental Preliminar – RAP e outros”. O Decreto 99.274/90, ao regulamentar a Lei 6.938/81, […] vinculou a avaliação de impactos ambientais aos sistemas de licenciamento, outorgando ao Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA competência para “fixar os critérios básicos, segundo os quais serão exigidos estudos de impacto ambiental para fins de licenciamento”, com poderes, para tal fim, de baixar as resoluções que entender necessárias.138 5.10.4 EIA-RIMA Instrumento de estatura constitucional (Art. 225, § 1º), como modalidade de Avaliação de Impacto Ambiental (AIA), “o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) é hoje considerado um dos mais notáveis instrumentos de compatibilização do desenvolvimento econômico-social com a preservação da qualidade do meio ambiente”, devendo ser elaborado antes da instalação de obra ou de atividade potencialmente causadora de significativa degradação, nos termos do Art. 225, § 1º, IV, da CF/1988.139 O EIA é documento distinto do Relatório de Impacto ao Meio Ambiente (Rima), pois é “de maior abrangência que o relatório e o engloba em si mesmo”. O Rima, “destinando-se especificamente ao esclarecimento das vantagens e consequências ambientais do empreendimento, refletirá as conclusões daquele”.140 O EIA-RIMA deve ser exigido, analisado e aprovado (ou não) pelo órgão licenciador (Art. 7º a 10 da Lei Complementar 140/2011). Deve ser elaborado por equipe técnica multidisciplinar, sob responsabilidade do empreendedor (Art. 8º da Resolução Conama n.º 001/1986). Impacto ambiental é definido pelo Art. 1º da Resolução Conama 001/1986, que regulamenta o EIA-RIMA, nos seguintes termos: […] qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetam: I - a saúde, a segurança e o bem-estar da população; II - as atividades sociais e econômicas; III - a biota; IV - as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; V - a qualidade dos recursos ambientais. Não há definição legal para aquilo que se considera como a “significativa degradação” que faz surgir a necessidade do EIA- RIMA. O Art. 2º da Resolução Conama 001/1986 traz um rol exemplificativo de obras e atividades que obrigam a realização do EIA-RIMA: estradas de rodagem com duas ou mais faixas de rolamento, ferrovias, portos, aeroportos, oleodutos, gasodutos etc. Há controvérsia na doutrina acerca da natureza da presunção do significativo impacto ambiental das atividades listadas nesse rol. Segundo Frederico Amado, citando Paulo Affonso Leme Machado, a presunção é absoluta.141 Já conforme Édis Milaré, a presunção é relativa, podendo ser afastada pela comprovação, a cargo do proponente, da ausência do significativo impacto. Milaré baseia-se no Art. 3º da Resolução Conama n.º 237/1997, que, ao dispor sobre o EIA-RIMA no caput, ressalva: “o órgão ambiental competente, verificando que a atividade ou empreendimento não é potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente, definirá os estudos ambientais pertinentes ao respectivo processo de licenciamento”.142 Dúvida não há, no entanto, de que o rol do Art. 2º da Res. Conama 001/86 é exemplificativo, havendo outros exemplos, como instalação de incineradores de lixo doméstico ou industrial e plantio de sementes geneticamente modificadas.143 5.1.0.5 Licença Ambiental O Art. 9º, IV, da Lei 6.938/81 arrola o licenciamento ambiental como um dos instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente. Licenciamento é o meio pelo qual se obtém a licença ambiental. Segundo Carvalho Filho, licença é o “ato vinculado por meio do qual a Administração confere ao interessado consentimento para o desempenho de certa atividade”.144 José Afonso da Silva anota que, “se o titular do direito a ser exercido comprova o cumprimento dos requisitos, para o seu efetivo exercício, não pode ser recusada, porque do preenchimento dos requisitos nasce o direito subjetivo à licença”.145 A licença ambiental, no entanto, tem algumas peculiaridades. Ensina Milaré que, por constituir o meio ambiente patrimônio público, bem de uso comum do povo, […] inexiste direito subjetivo à sua utilização, que, à evidência, só pode legitimar-se mediante ato próprio de seu direto guardião, o Poder Público. Para tanto, arma-o a lei de uma série de instrumentos de controle – prévios, concomitantes e sucessivos como são, v.g., a autorização, a licença e a fiscalização.146 O Art. 1º, inciso II, da Resolução Conama n.º 237/97 define licença ambiental como o […] ato administrativo pelo qual o órgão ambiental competente estabelece as condições, restrições e medidas de controle ambiental que deverão ser obedecidas pelo empreendedor, pessoa física ou jurídica, para localizar, instalar, ampliar e operar empreendimentos ou atividades utilizadoras dos recursos ambientais consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras ou aquelas que, sob qualquer forma, possam causar degradação ambiental. Conforme Frederico Amado, o Art. 19 da Res. Conama n.º 237/97 “estatui que o órgão ambiental poderá modificar os condicionantes e as medidas de controle e adequação da licença ambiental, assim como suspendê-la ou cancelá-la”. Assim, “pode ocorrer que a licença ambiental tenha o regime jurídico similar ou idêntico ao da autorização administrativa, em razão da possibilidade de alteração ulterior do interesse ambiental, da certa margem de discricionariedade e da presença constante de conceitos abertos na legislação ambiental”.147 Nesse sentido, assim já decidiu o TRF da 4ª Região: “a licença ambiental tem natureza autorizatória, devido seu caráter precário”.148 5.10.6 Licenciamento Ambiental O Art. 9º, inciso IV, da Lei 6.938/81 arrola o licenciamento ambiental como um dos instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente, porém não o define. Devemos, então, buscar a definição de licenciamento ambiental no Art. 2º, I, da Lei Complementar 140/2011, verbatim: “o procedimento administrativo destinado a licenciar atividades ou empreendimentos utilizadores de recursos ambientais, efetiva ou potencialmente poluidores ou capazes, sob qualquer forma, de causar degradação ambiental”. Milaré considera que […] o licenciamento constitui importante instrumento de gestão do ambiente, na medida em que, por meio dele, a Administração Pública busca exercer o necessário controle sobre as atividades humanas que interferem nas condições ambientais, de forma a compatibilizar o desenvolvimento econômico com a preservação do equilíbrio ecológico.149 Para o mesmo autor, citando Bandeira de Mello, trata-se de verdadeiro processo administrativo, como “uma sucessão itinerária e encadeada de atos administrativos que tendem, todos, a um resultado final e conclusivo”.150 Dispõe o Art. 10 da Lei 6.938/81 que a construção, instalação, ampliação e funcionamento de estabelecimentos e atividades utilizadores de recursos ambientais, efetiva ou potencialmente poluidores ou capazes, sob qualquer forma, de causar degradação ambiental dependerão de prévio licenciamento ambiental. O § 1º do Art. 10 exige a publicidade do procedimento, determinando que os pedidos de licenciamento, sua renovação e a respectiva concessão serão publicados no jornal oficial, bem como em periódico regional ou local de grande circulação, ou em meio eletrônico de comunicação mantido pelo órgão ambiental competente. O licenciamento ambiental é regulamentado pela Resolução Conama n.º 237/97. A rigor, escreve Abelha Rodrigues, “nenhuma atividade econômica com possibilidade de impactar o meio ambiente pode ser exercida sem a licença ambiental respectiva”.151 Nos termos do Art. 2º da Resolução 237/97, estarão sujeitas ao licenciamento ambiental as atividades relacionadas no Anexo I, cujo rol, conforme Amado, não é taxativo, “pois o ente ambiental poderá complementá-lo, fundamentando a necessidade conforme as especificidades, os riscosambientais o porte e outras características do empreendimento ou atividade”.152 A competência para o licenciamento ambiental deriva da competência administrativa comum determinada pelo Art. 23 da CF, regulamentada pela Lei Complementar 140/2011 e informada pelo princípio da predominância do interesse, conforme já visto no capítulo respectivo. Nos termos da LC 140/2011, “os empreendimentos e atividades são licenciados ou autorizados, ambientalmente, por um único ente federativo” (Art. 13), e o critério para a definição do órgão licenciador, conforme ensina Milaré, é “misto, baseado não só na amplitude dos impactos, como também na localização, na dominialidade, no porte, no potencial poluidor e na natureza da atividade ou empreendimento, conferindo o licenciamento a um único nível de competência”,153 sem excluir a participação de mais de um ente, quando haja superposição de interesses. Por exemplo: […] no licenciamento de rodovias ou de dutos que alcancem parcialmente unidades de conservação estaduais, municipais e terras indígenas. Não há se falar em tríplice atuação. A União capitaneará o processo, por força dos comandos legais acima expostos [arts. 231 da CF, e 7º, inciso XIV, c, da Lei Complementar 140/2011], restando aos Estados e Municípios a intervenção que entenderem necessária para o acautelamento de seus interesses.154 5.10.7 Autorização Ambiental Embora não arrolada no corpo da Lei 6.938/81, mas, sim, em seu anexo, incluído pela Lei 9.960/2000, a autorização também pode ser considerada um instrumento da Política Nacional do Meio Ambiente. Genericamente, autorização é o “ato administrativo pelo qual a Administração consente que o particular exerça atividade ou utilize bem público no seu próprio interesse. É ato discricionário e precário…”.155 Conforme Milaré, isso “significa que a autoridade analisa discricionariamente, segundo critérios de conveniência e oportunidade, a solicitação para remover ou não a proibição do exercício da atividade pretendida”.156 Na seara ambiental, interessa especialmente a autorização para a supressão de vegetação. Nos termos do Art. 13, § 2º, da LC 140/2011, “a supressão de vegetação decorrente de licenciamentos ambientais é autorizada pelo ente federativo licenciador”. Já a supressão de vegetação nativa, em caso de pedido desvinculado de licenciamento, deve ser autorizada pelo órgão estadual competente do Sisnama, nos termos do Art. 26, caput, do Código Florestal.157 Segundo o Art. 11 da LC 140/2011, […] a lei poderá estabelecer regras próprias para atribuições relativas à autorização de manejo e supressão de vegetação, considerada a sua caracterização como vegetação primária ou secundária em diferentes estágios de regeneração, assim como a existência de espécies da flora ou da fauna ameaçadas de extinção. É o caso, por exemplo, da vegetação componente do Bioma Mata Atlântica. Trataremos desse tema em capítulo futuro. 5.10.8 Concessão Florestal Em Direito Administrativo, concessão é o “contrato administrativo pelo qual a Administração Pública transfere a pessoa jurídica ou a consórcio de empresas a execução de certa atividade de interesse coletivo, remunerada através do sistema de tarifas pagas pelo usuário”.158 A concessão florestal é instrumento econômico da Política Nacional do Meio Ambiente. Consiste na […] delegação onerosa, feita pelo poder concedente, do direito de praticar manejo florestal sustentável para exploração de produtos e serviços numa unidade de manejo, mediante licitação, à pessoa jurídica, em consórcio ou não, que atenda às exigências do respectivo edital de licitação e demonstre capacidade para seu desempenho, por sua conta e risco e por prazo determinado.159 Conforme Milaré, “a intenção maior da concessão florestal é transformar a biodiversidade em ativo real e, com isso, promover o uso sustentável da floresta, auxiliando no combate ao desmatamento ilegal e também à grilagem de terras em florestas importantes, como a amazônica”.160 5.10.9 Servidão Ambiental Outro instrumento econômico da PNMA é a servidão ambiental. Conforme o Art. 9º-A da Lei 6.938/81, o proprietário ou possuidor de imóvel, pessoa natural ou jurídica, pode, por instrumento público ou particular ou por termo administrativo firmado perante órgão integrante do Sisnama, limitar o uso de toda a sua propriedade ou de parte dela para preservar, conservar ou recuperar os recursos ambientais existentes, instituindo servidão ambiental. Ressalva o § 2º que a servidão ambiental não se aplica às Áreas de Preservação Permanente e à Reserva Legal mínima exigida, nos termos do Código Florestal, tema que será visto oportunamente. Exige o § 3º do Art. 9º-A que a restrição ao uso ou à exploração da vegetação da área sob servidão ambiental deve ser, no mínimo, a mesma estabelecida para a Reserva Legal. Dispõe o Art. 9º-B que a servidão ambiental poderá ser onerosa ou gratuita, temporária ou perpétua e, quanto ao tempo de duração, o § 1º do mesmo artigo determina que o prazo mínimo da servidão ambiental temporária é de 15 anos. Trata-se, conforme Amado, de “espécie de servidão administrativa, com natureza de direito real sobre coisa alheia”.161 Segundo o mesmo autor, […] existe interesse econômico de um proprietário imobiliário de instituir servidão onerosa no seu imóvel para favorecer terceiro (detentor da servidão) para que este compense reserva legal no seu imóvel rural que não possua os percentuais mínimos….162 5.10.10 Seguro Ambiental Previsto no Art. 9º, XIII, da Lei 6.938/81, ao lado da concessão florestal e da servidão ambiental, como instrumento econômico da Política Nacional do Meio Ambiente, o seguro ambiental “é relevante, pois facilita a reparação de danos ao meio ambiente”.163 5.11 Responsabilidade Administrativa Segundo José Afonso da Silva,164 o Art. 14, caput, da Lei 6.938/81, que trata da responsabilidade administrativa pela degradação ambiental, bem como seus incisos, que estabeleciam as respectivas sanções, foi revogado pela Lei 9.605/98. Trata-se de revogação tácita, que evidentemente não atingiu § 1º, que trata da responsabilidade civil. O Decreto 6.514/2008, que regulamenta a Lei 9.605/98, dispõe sobre as infrações e sanções administrativas ao meio ambiente, estabelece o processo administrativo federal para apuração destas infrações e dá outras providências. A matéria será vista em capítulo próprio. 5.12 Responsabilidade Civil A Lei 6.938/81 foi inovadora ao estabelecer, no § 1º do Art. 14, que responsabilidade civil por dano ambiental é objetiva, averbando que, sem obstar a aplicação das penalidades previstas neste artigo, é o poluidor obrigado, independentemente da existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade. Trataremos desse tema em capítulo próprio. 5.13 Ação Civil A segunda parte do § 1º do Art. 14, introduziu no sistema normativo brasileiro uma ação civil para a responsabilização civil pelo dano ambiental, dispondo que o Ministério Público da União e dos Estados terá legitimidade para propor ação de responsabilidade civil e criminal, por danos causados ao meio ambiente. Essa ação deu lugar à Ação Civil Pública, instituída pela Lei 7.347/85, que será estudada posteriormente.165 5.14 Crime Por fim, o Art. 15 da Lei 6.938/81 introduz um tipo penal, estatuindo que o poluidor que expuser a perigo a incolumidade humana, animal ou vegetal ou estiver tornando mais grave situação de perigo existente, fica sujeito à pena de reclusão de um a três anos e multa. Nos termos do § 1º, a pena é aumentada até o dobro se resultar em dano irreversível à fauna, à flora e ao meio ambiente ou em lesão corporal grave (inciso I). Está sujeita ao mesmo aumento de pena a poluição é decorrente de atividade industrial ou de transporte (inciso II) ou se o crime é praticado durante a noite, em domingo ou em feriado (inciso III). Nos termos do § 2º desse artigo, incorre no mesmo crime a autoridade competente que deixar de promover as medidas tendentes a impedir a práticadas condutas acima descritas. Trata-se de dispositivo penal raramente aplicado. A maioria dos crimes ambientais está prevista na Lei 9.605/98, que será estudada em capítulo específico. 107 Cf. Paulo Affonso Leme Machado, Direito Ambiental brasileiro, JusPodivm, 28. ed., p. 8. 108 Como visto, “Políticas públicas são programas de ação governamental visando a coordenar os meios à disposição do Estado e as atividades privadas, para a realização de objetivos socialmente relevantes e politicamente determinados” (Maria Paula Dallari Bucci, Direito Administrativo e Políticas Públicas, Saraiva, 2006, p. 241). 109 Op. cit., p. 166. 110 Ibidem, p. 167. 111 Ibidem, p. 168. 112 Op. cit., p. 97. 113 Op. cit., p. 98. 114 Op. cit., p. 168. 115 Princípio do desenvolvimento sustentável, já mencionado. 116 Princípios do poluidor-pagador e do usuário-pagador, a serem vistos a seguir. 117 Op. cit., p. 339. 118 Op. cit., p 70, grifos no original. 119 Op. cit., p 370. 120 José Afonso da Silva, op. cit., p. 120-121. 121 Cf. Abelha Rodrigues, op. cit., p. 377. 122 Abelha Rodrigues, op. cit., p. 375. 123 Cf. Amado, op. cit., p. 72. 124 Conforme a Lei 9.649/98, que dispõe sobre a organização da Presidência da República e dos Ministérios, o Conselho de Governo integra a Presidência da República (Art. 1º, § 1º, I) e é “integrado pelos Ministros de Estado, pelos titulares dos órgãos essenciais da Presidência da República e pelo Advogado-Geral da União, que será presidido pelo Presidente da República, ou, por sua determinação, pelo Chefe da Casa Civil, e secretariado por um dos membros para este fim designado pelo Presidente da República” (Art. 7º, I). 125 Rectius: Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, cf. Art. 5º, II, do Dec. 99.274/90, em sua atual redação. 126 Op. cit., p. 112. 127 Idem. 128 Ibidem, p. 25. Ainda sobre o tema, Édis Milaré, que em edições anteriores criticava a possibilidade do estabelecimento, por via administrativa, de direitos e obrigações em matéria ambiental, reviu sua posição na 12ª edição da obra Direito do ambiente, consignando que “é sabido que o Supremo Tribunal Federal – em virtude da natureza exemplificativa do rol do art. 59 da Lei Maior, como visto no início do Título – tem se inclinado pela concessão de força normativa primária aos regulamentos autônomos” (p. 1148-1149, nota). 129 Ibidem, p. 112, nota. 130 Frederico Amado, op. cit., p. 114. 131 Ibidem, p. 115. 132 Édis Milaré, op. cit., p. 699. 133 Idem. 134 Ibidem, p. 727. 135 Cf. Amado, p. 126. 136 Op. cit., p. 125. 137 Ibidem, p. 127. 138 Op. cit., p. 740. 139 Milaré, op. cit., p. 745 140 Ibidem, p. 746. 141 Op. cit., p. 189. 142 Op. cit., p. 755. 143 Milaré, op. cit., p. 752. 144 Op. cit., p. 147. 145 Direito…, op. cit., p. 302. 146 Op. cit., p. p. 776. 147 Op. cit., p. 146-147. 148 Apud Amado, op. cit., p. 147. 149 Op. cit., p. 777. 150 Apud: Milaré, op. cit., 12. ed., p. 1012. 151 Op. cit., p. 249. 152 Op. cit., p. 157. 153 Op. cit., 8. ed., p. 789. 154 Idem. 155 Carvalho Filho, op. cit., p. 151. 156 Direito do Ambiente, 11ª ed., p. 1057. 157 Milaré, op. cit., p. 797. 158 Carvalho Filho, op. cit., p. 152. 159 Art. 3º, VII, da Lei 11.284/2006, que trata da gestão de florestas públicas. 160 Op. cit., p. 849. 161 Op. cit., p. 105. 162 Ibidem, p. 106. 163 Idem. 164 Op. cit., p. 362. 165 A primeira lei a mencionar a ação civil pública foi a Lei Complementar 40/81 (art. 3º, III). CAPÍTULO 6 CÓDIGO FLORESTAL Uma floresta virgem é o produto de todos os milhões de anos desde o início da vida em nosso Planeta. Se ela for derrubada, outra floresta pode crescer em seu lugar, mas a continuidade terá sido interrompida. O rompimento dos ciclos naturais da vida das plantas e dos animais significa que a floresta jamais será como teria sido se não tivesse sido derrubada. (Peter Singer)166 6.1 Introdução Após o estudo das normas ambientais de caráter mais geral contidas na Constituição, na Lei Complementar 140/2011 e na Lei 6.938/81, passaremos a estudar a legislação ambiental infraconstitucional mais específica, dividindo-a, para fins didáticos, em setores correspondentes aos recursos ambientais. Lembrando que, nos termos do Art. 3º, V, da Lei 6.938/81, são recursos ou bens ambientais: a atmosfera, as águas interiores, superficiais e subterrâneas, os estuários, o mar territorial, o solo, o subsolo, os elementos da biosfera, a fauna e a flora. Começaremos pela flora, contemplada especialmente no Código Florestal e em outros diplomas normativos. 6.2 O “Novo Código Florestal” O chamado “Novo Código Florestal” não é propriamente um código, seja porque não traz a disciplina fundamental e completa do ramo do Direito de que trata, seja porque há outras leis que tratam das florestas (v.g., Leis 9.985/2000 e 11.284/2006), seja porque não existe um “Direito Florestal”, mas, sim, o Direito Ambiental. A Lei 12.651/2012 — que, por sinal, não se autodenomina “código” — é assim chamada só por tradição, pois os diplomas legais que a antecederam (Decreto 23.793/34 e Lei 4.771/65) traziam essa denominação. Diante disso, Édis Milaré passou a chamá-la simplesmente de “Lei Florestal”.167 A tramitação do projeto que resultou na Lei 12.651/2012 foi conturbada, com duros embates entre ruralistas e ambientalistas, sendo curioso notar que o relator do projeto na Câmara dos Deputados, o então deputado Aldo Rebelo, embora seja um histórico quadro da esquerda, não se alinhou com a pauta ambientalista.168 Logo após a promulgação, a lei sofreu várias alterações por medida provisória. Houve retrocessos em relação ao Código anterior na proteção às florestas. A doutrina em geral é muito crítica ao resultado.169 Atualmente, com o julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal, das ações diretas de inconstitucionalidade que pendiam contra vários dispositivos do Código Florestal (ADIs 4901,4902 e 4903), encontra-se em grande parte superado o debate sobre a constitucionalidade da lei. Além disso, não obstante os retrocessos apontados pela doutrina e pelos ambientalistas, a Lei Florestal brasileira é talvez a mais protetiva do mundo.170 Cumpre aplicá-la. Assim, como ensina Boris Starck, citado por Édis Milaré, “o jurista não pode esperar por um direito ideal, mas trabalhar com o existente, em busca de soluções melhores”.171 6.3 Fundamentos Constitucionais Como visto, o Art. 225, § 1º, da Constituição Federal impõe ao Poder Público, dentre outras obrigações, definir espaços territoriais especialmente protegidos, preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais, prover o manejo ecológico das espécies e ecossistemas, proteger a flora etc. Além disso, é competência material comum da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios preservar as florestas, a fauna e a flora (Art. 23, VII). E é competência legislativa concorrente da União (normas gerais), dos Estados e do Distrito Federal legislar sobre florestas conservação da natureza, defesa do solo e dos recursos naturais (Art. 24, inciso IV). 6.3 Abrangência A Lei 12.651/12 trata, basicamente, de espaços territoriais especialmente protegidos lato sensu172, nos termos do § 1º do Art. 225 da Constituição. Conforme o Art. 1º-A, a lei em comento […] estabelece normas gerais sobre a proteção da vegetação, áreas de Preservação Permanente e as áreas de Reserva Legal; a exploração florestal, o suprimento de matéria-prima florestal, o controle da origem dos produtos florestais e o controle e prevenção dos incêndios florestais, e prevê instrumentos econômicos e financeiros para o alcance de seus objetivos. 6.4 Objetivo e “Princípios” No parágrafo único do Art. 1º-A, a lei declara que tem por principal objetivo o desenvolvimento sustentável, que, como visto, é um dos principais princípios do Direito Ambiental. Já nos incisos desse parágrafo, são arrolados outros objetivos, que a lei equivocadamente chama de princípios, a saber: I - afirmação do compromisso soberano do Brasil com a preservação das suas florestas e demais formas de vegetaçãonativa, bem como da biodiversidade, do solo, dos recursos hídricos e da integridade do sistema climático, para o bem estar das gerações presentes e futuras; II - reafirmação da importância da função estratégica da atividade agropecuária e do papel das florestas e demais formas de vegetação nativa na sustentabilidade, no crescimento econômico, na melhoria da qualidade de vida da população brasileira e na presença do País nos mercados nacional e internacional de alimentos e bioenergia; III - ação governamental de proteção e uso sustentável de florestas, consagrando o compromisso do País com a compatibilização e harmonização entre o uso produtivo da terra e a preservação da água, do solo e da vegetação; IV - responsabilidade comum da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, em colaboração com a sociedade civil, na criação de políticas para a preservação e restauração da vegetação nativa e de suas funções ecológicas e sociais nas áreas urbanas e rurais; V - fomento à pesquisa científica e tecnológica na busca da inovação para o uso sustentável do solo e da água, a recuperação e a preservação das florestas e demais formas de vegetação nativa; VI - criação e mobilização de incentivos econômicos para fomentar a preservação e a recuperação da vegetação nativa e para promover o desenvolvimento de atividades produtivas sustentáveis. 6.5 Objeto da Tutela O Art. 2º, caput, da Lei 12.651/12 dispõe que não apenas as florestas existentes no território nacional, mas também “as demais formas de vegetação nativa, reconhecidas de utilidade às terras que revestem, são bens de interesse comum a todos os habitantes do País, exercendo-se os direitos de propriedade com as limitações que a legislação em geral e especialmente esta Lei estabelecem”. Portanto, a lei não se restringe à proteção de florestas, mas também de todas as formas de vegetação nativa que tenham relevância ambiental de molde a justificar a especial proteção do espaço onde ocorrem. 6.6 Função Socioambiental da Propriedade O § 1º do Art. 2º trata da função socioambiental da propriedade, estabelecendo que, na utilização e exploração da vegetação, as ações ou omissões contrárias às disposições dessa lei são consideradas uso irregular da propriedade, aplicando-se o procedimento sumário (extinto), sem prejuízo da responsabilidade civil, nos termos do § 1º do Art. 14 da Lei 6.938/81, e das sanções administrativas, civis e penais. No mesmo sentido, o Art. 1.228, § 1º, do Código Civil estatui que […] o direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais e de modo que sejam preservados, de conformidade com o estabelecido em lei especial, a flora, a fauna, as belezas naturais, o equilíbrio ecológico e o patrimônio histórico e artístico, bem como evitada a poluição do ar e das águas. 6.7 Obrigações Propter Rem O § 2º do Art. 2º deixa claro que as obrigações previstas nesta lei são propter rem, ou seja, têm natureza real e são transmitidas ao sucessor, de qualquer natureza, no caso de transferência de domínio ou posse do imóvel rural. Confirmando essa assertiva e estendendo-a para todas as obrigações ambientais, a Súmula 623 do STJ dispõe: “As obrigações ambientais possuem natureza propter rem, sendo admissível cobrá-las do proprietário ou possuidor atual e/ou dos anteriores, à escolha do credor.” 6.8 Bens de Interesse Comum Ecoando o Art. 225 da Constituição Federal, que consagra o meio ambiente ecologicamente equilibrado como “bem de uso comum do povo”, o caput do Art. 2º da Lei Florestal proclama que as florestas e demais formas de vegetação nativa são “bens de interesse comum a todos”. Esclarecendo essa expressão, escreve Amado que “em Direito Ambiental, é possível que um bem, público ou privado, seja de uso comum do povo, em conotação diversa à da classificação tradicional dos bens públicos […] tendo em conta a natureza autônoma do bem ambiental, naturalmente difuso”.173 Como exemplo, figura o autor […] uma pessoa proprietária de uma área com cobertura florestal tem o direito real, mas, por outro lado, não poderá desmatar sem licenciamento ambiental e acima dos limites legais de tolerância. Assim, o bem é privado, mas o seu equilíbrio ambiental é direito difuso, imaterial, de terceira geração, de todo o povo e tutelável autonomamente.174 6.9 Conceitos O Art. 3º da Lei Florestal traz os conceitos considerados relevantes para a aplicação da lei em comento. Curiosamente, porém, o chamado Código Florestal não define floresta. Segundo Milaré, floresta é “associação arbórea de grande extensão e continuidade”, o “império da árvore, num determinado território dotado de condições climáticas e ecológicas para o desenvolvimento de plantas superiores”. Segundo o mesmo autor, “a floresta pode ser nativa ou natural (com espécies ou essências características do meio ou ecossistema) ou plantada (com essências nativas ou espécies exóticas)”.175 6.10 Áreas de Preservação Permanente O inciso II do Art. 3º traz o importante conceito de Área de Preservação Permanente (APP): […] área protegida, coberta ou não por vegetação nativa, com a função ambiental de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica e a biodiversidade, facilitar o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas. Conforme Amado, a Área de Preservação Permanente constitui-se em “limitação de uso ao direito de propriedade, porquanto genéricas, não sendo cabível indenização ao proprietário pelo seu regime jurídico especial restritivo (STJ, REsp 1.233.257/2012)”.176 Com efeito, como observa o clássico autor Osny Duarte Pereira, “exigir reparação civil, por manutenção de matas evidentemente protetoras, é o mesmo que pedir ao Poder Público recompensa pelas áreas perdidas com montes inaproveitáveis, lagoas e banhados, areias, pedreiras etc.”.177 Há, basicamente, duas espécies de Áreas de Preservação Permanente: as que existem por força de lei, previstas no Art. 4º, e as que podem ser criadas pelo Poder Público, disciplinadas no Art. 6º. 6.10.1 APPs Por Força de Lei O Art. 4º relaciona as áreas que são consideradas como de preservação permanente pelo simples fato de estarem previstas na lei. Importante ressaltar que, nos termos do caput do artigo, essas áreas podem estar tanto em zonas rurais como urbanas. São elas: As faixas marginais de qualquer curso d’água natural, perene e intermitente, excluídos os efêmeros, desde a borda da calha do leito regular,178 em largura mínima de: a) 30 metros, para os cursos d’água de menos de dez metros de largura; b) 50 metros, para os cursos d’água que tenham de dez a 50 metros de largura; c) 100 metros, para os cursos d’água que tenham de 50 a 200 metros de largura; d) 200 metros, para os cursos d’água que tenham de 200 a 600 metros de largura; e) 500 metros, para os cursos d’água que tenham largura superior a 600 metros (inciso I). As áreas no entorno dos lagos e lagoas naturais, em faixa com largura mínima de: a) 100 metros, em zonas rurais, exceto para o corpo d’água com até 20 hectares de superfície, cuja faixa marginal será de 50 metros; b) 30 metros, em zonas urbanas (inc. II). As áreas no entorno dos reservatórios d’água artificiais, decorrentes de barramento ou represamento de cursos d’água naturais, na faixa definida na licença ambiental do empreendimento (inc. III).179 As áreas no entorno das nascentes180 e dos olhos d’água perenes181, qualquer que seja sua situação topográfica, no raio mínimo de 50 metros (inc. IV). Trata-se, em todos os casos anteriores, da chamada “mata ciliar”, assim denominada porque, da mesma forma que os cílios protegem os olhos, essa vegetação protege os cursos, depósitos ou nascentes de água. Também são consideradas de preservação permanente: As encostas ou partes dessas com declividade superior a 45º, equivalente a 100% na linha de maior declive (inc. V). As restingas, como fixadoras de dunas ou estabilizadoras de mangues (inc. VI). Os manguezais, em toda a sua extensão (inc.VII). As bordas dos tabuleiros ou chapadas, até a linha de ruptura do relevo, em faixa nunca inferior a 100 metros em projeções horizontais (inc. VIII). No topo de morros, montes, montanhas e serras, com altura mínima de 100 metros e inclinação média maior que 25º, as áreas delimitadas a partir da curva de nível correspondente a dois terços da altura mínima da elevação sempre em relação à base, sendo essa definida pelo plano horizontal determinado por planície ou espelho d’água adjacente ou, nos relevos ondulados, pela cota do ponto de sela mais próximo da elevação (inc. IX). As áreas em altitude superior a 1.800 metros, qualquer que seja a vegetação (inc. X). Em veredas, a faixa marginal, em projeção horizontal, com largura mínima de 50 metros, a partir do espaço permanentemente brejoso e encharcado (inc. XI). 6.10.2 Exceções Os parágrafos do artigo 4º trazem algumas exceções relativas às áreas de preservação permanente. Conforme o § 1º, não será exigida Área de Preservação Permanente no entorno de reservatórios artificiais de água que não decorram de barramento ou represamento de cursos d’água naturais, e segundo o § 4º, nas acumulações naturais ou artificiais de água com superfície inferior a um hectare, fica dispensada a reserva da faixa de proteção prevista nos incisos II e III do caput, vedada nova supressão de áreas de vegetação nativa, salvo autorização do órgão ambiental competente do Sisnama. O § 5º, por sua vez, admite, para a pequena propriedade ou posse rural familiar, de que trata o inciso V do Art. 3º desta Lei,182 o plantio de culturas temporárias e sazonais de vazante de ciclo curto na faixa de terra que fica exposta no período de vazante dos rios ou lagos, desde que não implique supressão de novas áreas de vegetação nativa, seja conservada a qualidade da água e do solo e seja protegida a fauna silvestre. Nos termos do § 6º, nos imóveis rurais com até 15 módulos fiscais, nas áreas de que tratam os incisos I e II do caput desse artigo, é admitida a prática da aquicultura e a infraestrutura física diretamente a ela associada, desde que: a) sejam adotadas práticas sustentáveis de manejo183 de solo e água e de recursos hídricos, garantindo sua qualidade e quantidade, de acordo com norma dos Conselhos Estaduais de Meio Ambiente; b) esteja de acordo com os respectivos planos de bacia ou planos de gestão de recursos hídricos; c) seja realizado o licenciamento pelo órgão ambiental competente; d) o imóvel esteja inscrito no Cadastro Ambiental Rural (CAR); e) não implique novas supressões de vegetação nativa. 6.10.3 APPs Criadas Pelo Poder Público Além das APPs por força de lei, há a possibilidade da criação APPs por ato do Poder Público. Essas são previstas no Art. 6º, que consideram de preservação permanente, quando declaradas de interesse social por ato do chefe do Poder Executivo, as áreas cobertas com florestas ou outras formas de vegetação destinadas a uma ou mais das seguintes finalidades: a) conter a erosão do solo e mitigar riscos de enchentes e deslizamentos de terra e de rocha; b) proteger as restingas ou veredas; c) proteger várzeas; d) abrigar exemplares da fauna ou da flora ameaçados de extinção; e) proteger sítios de excepcional beleza ou de valor científico, cultural ou histórico; f) formar faixas de proteção ao longo de rodovias e ferrovias; g) assegurar condições de bem-estar público; h) auxiliar a defesa do território nacional, a critério das autoridades militares; i) proteger áreas úmidas, especialmente as de importância internacional. Discute-se a possibilidade de criação de áreas de preservação permanente por resolução do Conama, como é o caso da Resolução 303/2002. Há decisões do STJ admitindo a hipótese, porém sob o regime do Código anterior.184 Para Édis Milaré, no entanto, tais resoluções foram revogadas pelo novo Código.185 6.10.4 Regime de Proteção das APPs O Art. 7º da Lei Florestal trata do regime de proteção das áreas de proteção permanente, determinando que a vegetação situada nessas áreas deverá ser mantida pelo proprietário, possuidor ou ocupante a qualquer título, pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado. Tendo ocorrido supressão de vegetação situada nessas áreas, o proprietário, possuidor ou ocupante a qualquer título é obrigado a promover a recomposição dessa vegetação, ressalvados os usos autorizados previstos na própria lei (§ 1º). Essa obrigação tem natureza real e é transmitida ao sucessor no caso de transferência de domínio ou posse do imóvel rural (§ 2º). Trata-se, portanto, de propter rem, como já referido anteriormente. O § 3º do Art. 7º determina que, no caso de supressão não autorizada de vegetação realizada após 22/07/2008, é vedada a concessão de novas autorizações de supressão de vegetação enquanto não cumpridas as obrigações previstas no § 1º. O Art. 8º prevê a possibilidade de intervenção ou a supressão de vegetação nativa em Área de Preservação Permanente somente nas hipóteses de utilidade pública186, de interesse social187 ou de baixo impacto ambiental188 previstas nessa lei. Com relação à vegetação protetora de nascentes, dunas e restingas, o Art. 8º, em seu § 1º, determina que a supressão somente poderá ser autorizada em caso de utilidade pública. Já a intervenção ou a supressão de vegetação nativa em APP de que tratam os incisos VI e VII do caput do Art. 4º (as restingas, como fixadoras de dunas ou estabilizadoras de mangues, e os manguezais, em toda a sua extensão) poderá ser autorizada, excepcionalmente, em locais onde a função ecológica do manguezal esteja comprometida, para execução de obras habitacionais e de urbanização, inseridas em projetos de regularização fundiária de interesse social, em áreas urbanas consolidadas ocupadas por população de baixa renda (Art. 8º, § 2º). É dispensada a autorização do órgão ambiental competente para a execução, em caráter de urgência, de atividades de segurança nacional e obras de interesse da defesa civil destinadas à prevenção e à mitigação de acidentes em áreas urbanas (Art. 8º, § 3º). O § 4º do Art. 8º realça que não haverá, em qualquer hipótese, direito à regularização de futuras intervenções ou supressões de vegetação nativa, além das previstas nessa lei. O Art. 9º permite o acesso de pessoas e animais às Áreas de Preservação Permanente para obtenção de água e para realização de atividades de baixo impacto ambiental. Segundo o Art. 52, a intervenção e a supressão de vegetação em Áreas de Preservação Permanente e de Reserva Legal para as atividades eventuais ou de baixo impacto ambiental, previstas no inciso X do Art. 3º, excetuadas as alíneas b e g, quando desenvolvidas nos imóveis a que se refere o inciso V do Art. 3º, dependerão de simples declaração ao órgão ambiental competente, desde que esteja o imóvel devidamente inscrito no CAR. 6.11 Áreas de Uso Restrito (AUR) Os artigos 10 e seguintes da Lei Florestal cuidam das Áreas de Uso Restrito, as quais, conforme Édis Milaré, constituem “mais uma categoria de espaço protegido em sentido lato”.189 Trata-se dos pantanais e planícies pantaneiras, áreas de inclinação entre 25º e 45º, Zona Costeira e apicuns e salgados. Nos termos do Art. 10, nos pantanais e planícies pantaneiras, é permitida a exploração ecologicamente sustentável, devendo-se considerar as recomendações técnicas dos órgãos oficiais de pesquisa, ficando novas supressões de vegetação nativa para uso alternativo do solo190 condicionadas à autorização do órgão estadual do meio ambiente, com base nas recomendações mencionadas neste artigo. Já nas áreas de inclinação entre 25º e 45º, serão permitidos o manejo florestal sustentável e o exercício de atividades agrossilvipastoris, bem como a manutenção da infraestrutura física associada ao desenvolvimento das atividades, observadas boas práticas agronômicas, sendo vedada a conversão de novas áreas, excetuadas as hipóteses de utilidade pública e interesse social (Art. 11). Na Zona Costeira,191 patrimônio nacional nos termos do § 4º do Art. 225 da ConstituiçãoFederal, sua ocupação e exploração deve dar-se de modo ecologicamente sustentável (Art. 11-A, § 1º). Os apicuns e salgados, áreas de elevada salinidade associadas aos manguezais, podem ser utilizados em atividades de carcinicultura e salinas, desde que observados os seguintes requisitos previstos no Art. 11-A, § 2º, dentre os quais, a licença ambiental. 6.12 Reserva Legal A partir do Art. 12, a Lei Florestal passa a tratar de outro espaço territorial especialmente protegido de grande importância, qual seja, a Reserva Legal. Trata-se de um percentual de sua área total que todo imóvel rural que deve possuir como floresta protegida. A Reserva Legal é assim definida no Art. 3º, III: […] área localizada no interior de uma propriedade ou posse rural, delimitada nos termos do art. 12, com a função de assegurar o uso econômico de modo sustentável dos recursos naturais do imóvel rural, auxiliar a conservação e a reabilitação dos processos ecológicos e promover a conservação da biodiversidade, bem como o abrigo e a proteção de fauna silvestre e da flora nativa. Dispõe o Art. 54 que, para cumprimento da manutenção da área de Reserva Legal nos imóveis a que se refere o inciso V do Art. 3º (pequena propriedade ou posse rural familiar), “poderão ser computados os plantios de árvores frutíferas, ornamentais ou industriais, compostos por espécies exóticas, cultivadas em sistema intercalar ou em consórcio com espécies nativas da região em sistemas agroflorestais”. Note-se que, diferentemente das APPs, exigidas tanto em áreas urbanas, como rurais, a Reserva Legal somente é exigida em áreas rurais. Todavia, como anota Amado, “não há definição de área rural na legislação ambiental, gerando a controvérsia de qual critério deverá prevalecer para a sua conceituação”.192 Para o Estatuto da Terra (Lei 4.504/64), imóvel rural é o […] o prédio rústico, de área contínua qualquer que seja a sua localização que se destina à exploração extrativa agrícola, pecuária ou agroindustrial, quer através de planos públicos de valorização, quer através de iniciativa privada (Art. 4º, I). O critério, aqui, é a destinação do imóvel, não importando a sua localização. O Código Tributário Nacional, por sua vez, em seu Art. 32, § 1º, considera zona urbana (portanto, não rural) aquela definida em lei municipal, devendo, no entanto, ser observado o requisito mínimo da existência de melhoramentos indicados em pelo menos dois dos incisos seguintes, construídos ou mantidos pelo Poder Público: I – meio-fio ou calçamento, com canalização de águas pluviais; II – abastecimento de água; III – sistema de esgotos sanitários; IV – rede de iluminação pública, com ou sem posteamento para distribuição domiciliar; V – escola primária ou posto de saúde a uma distância máxima de três quilômetros do imóvel considerado. Portanto, imóvel rural é aquele que se enquadra na definição do Art. 4º, I, do Estatuto da Terra, e não está abrangido pelas exceções do Art. 32, § 1º, do CTN. A questão, no entanto, como observa Amado, “está longe de ser pacificada”,193 havendo imóveis com características rurais em áreas urbanas e imóveis com características urbanas em áreas rurais. 6.12.1 Natureza Jurídica Conforme a doutrina, a Reserva Legal constitui “limitação administrativa (portanto, geral, gratuita e com finalidade pública) fixada pelo legislador, tendo por fim condicionar o uso da propriedade em prol do interesse público”.194 Dessa forma, não enseja indenização, configurando-se como “materialização do conceito de função socioambiental da propriedade”.195 6.12.2 Obrigação O Art. 12 é taxativo ao dispor que todo imóvel rural deve manter área com um percentual mínimo de cobertura de vegetação nativa, a título de Reserva Legal, sem prejuízo da aplicação das normas sobre as Áreas de Preservação Permanente. Conforme José Afonso da Silva, caso a área não seja dotada de vegetação, “o proprietário ou possuidor deve recompor a reserva legal de sua propriedade (ou posse)”.196 Tal obrigação está expressa no Art. 99 da Lei 8.171/91 (Lei da Política Agrícola). Uma exceção é prevista na parte final do caput, que se refere aos proprietários ou possuidores de imóveis rurais mencionados no Art. 68, quais sejam aquelas que realizaram supressão de vegetação nativa respeitando os percentuais de Reserva Legal previstos pela legislação em vigor à época em que ocorreu a supressão. 6.12.3 Dimensões da Reserva Legal Os incisos do Art. 12 estabelecem as dimensões da Reserva Legal, que variam conforme a região do país ou o bioma onde está localizado o imóvel, a saber: I – localizado na Amazônia Legal:197 a) 80% no imóvel situado em área de florestas; b) 35% no imóvel situado em área de cerrado; c) 20% no imóvel situado em área de campos gerais; II – localizado nas demais regiões do país: 20%. Assim, um imóvel localizado, por exemplo, em área de cerrado deve manter 35% de sua área como floresta nativa a título de Reserva Legal. 6.12.4 Localização da Reserva Legal O Art. 14 da Lei Florestal fixa os critérios para a localização da Reserva Legal no interior do imóvel, a qual deverá levar em consideração os estudos e critérios elencados nos incisos do artigo, a saber: I - o plano de bacia hidrográfica; II - o Zoneamento Ecológico-Econômico; III - a formação de corredores ecológicos com outra Reserva Legal, com Área de Preservação Permanente, com Unidade de Conservação ou com outra área legalmente protegida; IV - as áreas de maior importância para a conservação da biodiversidade; e V - as áreas de maior fragilidade ambiental. Nos termos do Art. 14, § 1º, cabe ao órgão estadual integrante do Sisnama ou instituição por ele habilitada deverá aprovar a localização da Reserva Legal após a inclusão do imóvel no Cadastro Ambiental Rural (CAR), conforme o Art. 29 da lei. 6.12.5 Cômputo da APP O Art. 15 da Lei Florestal, diferentemente do que dispunha o Código revogado, permite o cômputo das Áreas de Preservação Permanente para fins de Reserva Legal, ou seja, a metragem das Áreas de Preservação Permanente pode ser descontada do percentual do imóvel rural que deve ser preservado a título de Reserva Legal. Para isso, os incisos do impõe algumas condições. Primeiro, que o benefício previsto neste artigo não implique a conversão de novas áreas para o uso alternativo do solo, isto é, que não signifique a possibilidade de supressão de vegetação em novas áreas (inc. I). Exige-se também que a área a ser computada esteja conservada ou em processo de recuperação, conforme comprovação do proprietário ao órgão estadual integrante do Sisnama (inc. II). Por fim, exige-se que o proprietário ou possuidor tenha requerido inclusão do imóvel no Cadastro Ambiental Rural (CAR), nos termos da Lei Florestal. 6.12.6 Regime de Proteção da Reserva Legal O Art. 17 preceitua que a Reserva Legal deve ser conservada com cobertura de vegetação nativa pelo proprietário, possuidor ou ocupante a qualquer título do imóvel rural, pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado. É admitida apenas a exploração econômica da Reserva Legal, desde que mediante manejo sustentável, previamente aprovado pelo órgão competente do Sisnama, de acordo com as modalidades previstas no Art. 20 (art. 17, § 1º). O § 4º do Art. 17 dispõe que, sem prejuízo das sanções administrativas, cíveis e penais cabíveis em relação às áreas desmatadas irregularmente após 22 de julho de 2008 (§ 3º), deverá ser iniciado, nessas áreas, o processo de recomposição da Reserva Legal em até dois anos contados a partir da data da publicação da lei, devendo tal processo ser concluído nos prazos estabelecidos pelo Programa de Regularização Ambiental (PRA), de que trata o Art. 59. 6.12.7 Registro da Reserva Legal O Código revogado determinava a averbação da Reserva Legal à margem da matrícula do imóvel no Registro de Imóveis. A lei atual, em seu Art. 18, contenta-se com o registro da área no órgão ambiental competente por meio de inscrição no Cadastro Ambiental Rural (CAR), de que trata o Art. 29, sendo vedada a alteração da destinação daReserva Legal após o registro no CAR, nos casos de transmissão, a qualquer título, ou de desmembramento, com as exceções previstas na própria lei. Não obstante a aparente dispensa da averbação da Reserva Legal no Registro de Imóveis, a Procuradoria-Geral de Justiça de São Paulo, em 23 de janeiro de 2023, publicou o Aviso n.º 039/2023 – PGJ-SUBJUR,198 recomendando aos membros do Ministério Público paulista que atuam nas áreas ambiental e de registro de imóveis […] que adotem providências administrativas e/ou judiciais para garantir que os dados do registro da Reserva Legal no CAR, com a devida especialização, sejam transpostos para o Registro de Imóveis na primeira alteração subsequente do registro, pela prática de qualquer ato registrário (via averbação), inclusive em casos de retificação da área de imóvel rural. Bem como para “exigir do proprietário rural a averbação da Reserva Legal no Registro de Imóveis em caso de ausência de cadastro do imóvel rural no CAR com a devida especialização da Reserva Legal”. A recomendação baseia-se na consideração, em primeiro lugar, de que […] a evolução da relação entre o registro de imóveis e a proteção do meio ambiente à luz do direito ambiental passou da condição de guardião do direito de propriedade à condição de guardião da função socioambiental da propriedade, segundo a doutrina especializada, proporcionando grande contribuição para a implementação do direito ambiental e a proteção do meio ambiente, especialmente como instrumento de controle urbanístico-ambiental (com a função de obstar a prática de atos registrais enquanto não cumpridas pelo proprietário as prescrições das normas ambientais). O documento também cita que o entendimento predominante no Tribunal de Justiça de São Paulo é o de que a obrigação de averbar a reserva legal persiste (Art. 167, II, n.° 22, e Art. 169, da Lei de Registros Públicos), “apesar das naturezas diversas do CAR (função administrativa) e do Registro de Imóveis (função de assegurar a publicidade e impor restrição sobre do domínio, capaz de vincular terceiros)”. Como exemplos, são citados os acórdãos n.° 0022012- 02.1996.8.26.0114 e 0015142-98.2011.8.26.0506, ambos de 2019, da 1ª Câmara Reservada ao Meio Ambiente, com a ressalva de que o proprietário decide sobre o melhor momento para a averbação (princípio da instância). São citados também os acórdãos prolatados pela Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça, ambos relatados pelo Min. Herman Benjamin, nos Recursos Especiais n.° 1.742.149/MG e 1.641.168/MG, ambos de 2019, com a ressalva de que o registro da Reserva Legal no CAR “desobriga” a averbação no Registro de Imóveis […] enquanto não houver necessidade de alteração, por outra razão (transmissão de domínio, desmembramento, retificação compra e venda, usucapião, hipoteca, loteamento, incorporação, parcelamento do solo, servidão, usufruto, convenção antenupcial etc. – que, por constituição, transferência ou modificação, judicial ou extrajudicial, de direitos reais atrelados ao imóvel etc.) dos assentos do Registro de Imóveis. Ou seja, a prática de atos registrais subsequentes traz a obrigatoriedade de transposição para o Registro de Imóveis dos dados da Reserva Legal constantes do CAR. 6.12.8 Cadastro Ambiental Rural (CAR) O Cadastro Ambiental Rural (CAR), anteriormente mencionado, em que agora deve ser registrada a Reserva Legal, foi criado por força do artigo 29 da Lei Florestal, consistindo em registro público eletrônico de âmbito nacional, obrigatório para todos os imóveis rurais, com a finalidade de integrar as informações ambientais das propriedades e posses rurais, compondo base de dados para controle, monitoramento, planejamento ambiental e econômico e combate ao desmatamento. O CAR faz parte do Sistema Nacional de Informação sobre Meio Ambiente (Sinima). A inscrição do imóvel rural no CAR deverá ser feita, preferencialmente, no órgão ambiental municipal ou estadual, que, nos termos do regulamento, exigirá, além da identificação do proprietário ou possuidor rural, a comprovação da propriedade ou posse e a identificação do imóvel por meio de planta e memorial descritivo, contendo a indicação das coordenadas geográficas com pelo menos um ponto de amarração do perímetro do imóvel, informando a localização dos remanescentes de vegetação nativa, das Áreas de Preservação Permanente, das Áreas de Uso Restrito, das áreas consolidadas e, caso existente, também da localização da Reserva Legal (Art. 29, incisos I a III). Nos termos do § 3º do Art. 29, a inscrição do imóvel no CAR é obrigatória e por prazo indeterminado para todas as propriedades e posses rurais, sendo ainda condição obrigatória para a adesão ao Programa de Regularização Ambiental – PRA (Art. 59, § 2º). O § 2º do mesmo artigo ressalva que o cadastramento não será considerado título para fins de reconhecimento do direito de propriedade ou posse. Verifica-se, assim, que o CAR não é apenas um receptor do registro da Reserva Legal, servindo como um importante repositório de informações ambientais sobre os imóveis rurais. 6.12.9 Transformação em Área Urbana A transformação da área rural em urbana não descaracteriza automaticamente a Reserva Legal, dispondo o Art. 19 da Lei Florestal que a inserção do imóvel rural em perímetro urbano, definido mediante lei municipal, não desobriga o proprietário ou posseiro da manutenção da área de Reserva Legal. Esta somente será extinta quando do registro de eventual parcelamento do solo para fins urbanos aprovado segundo a legislação específica e consoante as diretrizes do plano diretor de que trata o § 1º do Art. 182 da Constituição Federal. Nesse caso, extinta a Reserva Legal, essa poderá ser transformada em Área Verde Urbana, nos termos do Art. 25, inciso II, conforme será visto a seguir. 6.12.10 Regularização da Reserva Legal Como regra de transição, a Art. 66 prevê que o proprietário ou possuidor de imóvel rural que detinha, em 22 de julho de 2008, área de Reserva Legal em extensão inferior ao estabelecido no Art. 12, poderá regularizar sua situação, independentemente da adesão ao Programa de Regularização Ambiental (PRA), adotando as seguintes alternativas, isolada ou conjuntamente: recompor a Reserva Legal; permitir a regeneração natural da vegetação na área de Reserva Legal; compensar a Reserva Legal (incisos I a III). Essa obrigação tem natureza real e é transmitida ao sucessor no caso de transferência de domínio ou posse do imóvel rural (§ 1º), ou seja, é propter rem. A recomposição de que trata o inciso I deverá atender os critérios estipulados pelo órgão competente do Sisnama e ser concluída em até 20 anos, abrangendo, a cada dois anos, no mínimo 1/10 da área total necessária à sua complementação. 6.13 Áreas Verdes Urbanas O Art. 25 da Lei Florestal trata das Áreas Verdes Urbanas, que também se constituem em espaços territoriais especialmente protegidos, nos termos do Art. 225, § 1, III, da Constituição Federal.199 Áreas Verdes Urbanas, na definição do Art. 3º, inciso XX, são […] espaços, públicos ou privados, com predomínio de vegetação, preferencialmente nativa, natural ou recuperada, previstos no Plano Diretor, nas Leis de Zoneamento Urbano e Uso do Solo do Município, indisponíveis para construção de moradias, destinados aos propósitos de recreação, lazer, melhoria da qualidade ambiental urbana, proteção dos recursos hídricos, manutenção ou melhoria paisagística, proteção de bens e manifestações culturais. Dispõe o Art. 25 que o poder público municipal contará, para o estabelecimento de áreas verdes urbanas, com os seguintes instrumentos: I - o exercício do direito de preempção para aquisição de remanescentes florestais relevantes, conforme dispõe a Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001;200 II - a transformação das Reservas Legais em áreas verdes nas expansões urbanas; III - o estabelecimento de exigência de áreas verdes nos loteamentos, empreendimentos comerciais e na implantação de infraestrutura; e IV - aplicação em áreas verdes de recursos oriundos da compensaçãode Sorocaba o trabalho desenvolvido por ele em três décadas fala por si. Basta citar a infinidade de inquéritos civis que instaurou para apurar ilícitos ambientais contra a Natureza-Mãe. Basta ver que a maioria das suas ações civis públicas ajuizadas alcançou o resultado almejado ou, ao menos, serviu como referência para prevenir danos ambientais futuros. Basta ver, enfim, a resolutividade das demandas obtida por meio de termos de compromisso e ajustamento de conduta ou acordos judiciais, a revelar que a atuação funcional do promotor do meio ambiente sempre se mostrou eficiente e, sobretudo, comprometida com os fins de direito e a busca da justiça. Em meio ao vasto repertório de questões ambientais enfrentadas e resolvidas por ele merecem menção, por exemplo, temas relacionados a saneamento básico, resíduos sólidos, unidades de conservação, qualidade do ar e da água, licenciamento ambiental, contaminação do solo, desmatamento, incêndios florestais, mudanças climáticas, tutela da flora e da fauna. A ideia dos animais enquanto sujeitos de direito também se vê no trabalho de Marum, que propôs ação civil pública para que o elefante asiático confinado no zoo de Sorocaba fosse transferido para um santuário de elefantes situado no estado do Mato Grosso. Conforme argumentado na peça inicial, perante a Vara da Fazenda Pública de Sorocaba, os zoos em geral não atendem às necessidades de animais exóticos de grande porte, seja em vista dos espaços artificiais disponibilizados, seja pela falta de contato com semelhantes, seja em face da constante circulação do público visitante, o que leva a concluir que o modelo tradicional dos zoológicos passa longe do bem-estar animal. Já no santuário que se propôs a acolher o elefante, como enfatizado pelo autor no processo, o animal terá junto a si solo natural, mata nativa e alimentação diversificada, com livre acesso a bebedouros, tanque e lamaçais, além de um riacho sazonal e uma lagoa, em meio à água corrente que certamente traria benefícios à sua saúde física e psíquica. Neste aspecto o empenho de Jorge Marum, na construção de sua narrativa jurídica em favor de um paquiderme confinado em espaço restrito e sem qualquer contato com outros membros da espécie, vai ao encontro do pensamento crítico de José Saramago, cuja cosmovisão solidária também contempla o Outro biologicamente diferente de nós. Palavras do escritor Prêmio Nobel de Literatura: “Pudesse eu, fecharia todos os zoológicos do mundo. Pudesse eu, proibiria a utilização de animais nos espetáculos de circo. Não devo ser o único a pensar assim, mas arrisco o protesto, a indignação, a ira da maioria a quem encanta ver animais atrás de grades ou em espaços onde mal podem mover-se como lhes pede a sua natureza. (…) Pobres, animais, vítimas inermes da crueldade humana”. A mensagem deixada pelo laureado romancista português, já ao final da vida, não deixa de ser um sensível apelo de irmandade interespécie que, sem dúvida, aflora pelos caminhos da educação, na esperança de amar e transformar as coisas. Aparece aqui outra grande vocação de Jorge Marum: a arte de ensinar. Não foi à toa que, há anos, ele é professor de Direito Ambiental da Faculdade de Direito de Sorocaba, atividade esta que lhe permite transmitir aos alunos toda sua experiência adquirida na prática. Ao adentrar nos domínios do mundo natural, as reflexões jurídicas apresentadas nas aulas trazem temas para lá de relevantes e atuais: ética ambiental, unidades de conservação, áreas de preservação permanente, biodiversidade, ecossistemas, legislação, direito comparado, interdisciplinaridade, mínimo existencial, competências e princípios ambientais, responsabilidade objetiva, responsabilidade penal da pessoa jurídica, aquecimento global, mudanças climáticas, patrimônio genético e direitos dos animais. Neste autêntico dossel de assuntos verdejantes, Marum traz exemplos práticos, decerto inspirados por sua experiência profissional, a envolver questões atinentes a biomas, Sistema Nacional de Unidades de Conservação, Código Floresta, órgãos ambientais, planos municipais de saneamento básico e resíduos sólidos, EIA-RIMA, marco legal, mineração, combate a agrotóxicos, biossegurança e proteção dos animais, além de abordar assuntos atinentes ao meio ambiente urbano, que envolvem Estatuto da Cidade, Lei de Zoneamento e Plano Diretor. Assuntos tantos que dariam um livro. Foi assim que nasceu Direito Ambiental sistematizado. O livro ora apresentado é uma espécie de síntese da vida profissional e acadêmica de Jorge Marum, em atividades que se entrelaçam, se fundem e se abrem, como pétalas do conhecimento, àqueles que se importam com a sobrevivência do planeta e o respeito a todas as espécies que nele habitam. Trata-se de uma obra que, do presente, se projeta para o futuro. Que dialoga e aprende com a natureza. Que intercala leis positivas e naturais. Que aproxima direito e educação. Que se põe a pensar sobre o valor da vida, alargando o alcance da ética ambiental. Uma obra, enfim, que desafia o secular paradigma que considera o ser humano como senhor absoluto do mundo natural, expondo em seus capítulos a raiz de muitos problemas centrais que colocam em risco o mundo em que vivemos. Como se costuma dizer, não é mais possível continuar enxergando a Terra como fonte inesgotável de recursos, e os animais como eternos escravos do homem. É preciso que a ciência jurídica, diante das perspectivas globais pouco otimistas que se anunciam neste século caracterizado pelo crescimento da tecnologia e, também, das incertezas, interaja sempre com outros saberes, para que o direito avance e se torne, verdadeiramente, uma garantia de equilíbrio e bem viver a todos os seres. Laerte Levai Pesquisador de Ética e Direitos dos Animais no Diversitas-Núcleo de Estudo das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos (FFCLH/USP). Desenvolve Pós-doc. em Direito Animal pelo Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal da Bahia (PPGD-UFBA). Como promotor de Justiça do MPSP atuou, por mais de três décadas, na área criminal ambiental em São José dos Campos e no Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente (GAEMA Núcleo Paraíba do Sul). Autor do livro “Direito dos Animais: a teoria na prática” (Appris, 2023) INTRODUÇÃO Este livro é fruto de mais de 30 anos de vivência teórica e prática na área do Direito Ambiental. Tudo começou em meados dos anos 1980, quando fui atraído pela área, antes mesmo de ingressar no Ministério Público, na ocasião em que, ainda estudante de Direito e jornalista amador, fui entrevistar a então promotora de Justiça de Piedade, interior de São Paulo, Dr.a Parisina Lopes Zeigler, sobre o caso de dois caçadores presos por assassinarem, no sertão de Tapiraí, um casal de bugios, com a fêmea ainda grávida. A Dr.a Parisina percebeu o meu interesse pela área e, como tinha muitos casos ambientais em andamento, convidou-me para estagiar na Promotoria. Convite aceito com muito entusiasmo, visto que o amor pela natureza me acompanhava desde criança e a possibilidade de defendê-la por meio do Direito era muito empolgante. O estágio depois prosseguiu sob a orientação de outro promotor igualmente entusiasta do Direito Ambiental, Dr. Daniel Isídio de Almeida. Tendo ingressado como promotor de Justiça no Ministério Público de São Paulo, em 1989, pude ainda por um tempo seguir a liderança e o exemplo de Édis Milaré, um dos pioneiros na defesa do meio ambiente em Juízo, então coordenador da área na instituição e hoje um grande doutrinador do Direito Ambiental, que nos chamava de “promotores verdes” (no meu caso, duplamente…). Em dezembro de 1989, durante minha primeira designação como promotor substituto, na comarca de Iguape, deparei-me com alguns inquéritos civis, coisa rara na época, e acabei ajuizando três ações civis públicas ambientais. No mês seguinte, designado para a Capital, fui chamado à Corregedoria. Temeroso, entrei no gabinete do assessor do corregedor, que estava com o meu relatório em mãos e questionou: “vejo aqui que você entrou com trêsambiental. 6.14 Supressão de Vegetação O Art. 26 dispõe que a supressão de vegetação nativa, tanto de domínio público como de domínio privado, para o chamado uso alternativo do solo, somente é permitida nos casos previstos na própria Lei Florestal e é condicionada à autorização do órgão estadual competente do Sisnama, dependendo ainda do cadastramento do imóvel no CAR, de que trata o Art. 29.201 O requerimento de autorização de supressão de que trata o caput conterá, entre outros requisitos, a previsão da reposição ou compensação florestal, nos termos do § 4º do Art. 33 (art. 26, § 3º). No caso de reposição florestal, deverão ser priorizados projetos que contemplem a utilização de espécies nativas do mesmo bioma onde ocorreu a supressão (§ 4º). 6.15 Exploração Florestal O Art. 31 permite a exploração de florestas nativas e formações sucessoras, de domínio público ou privado, ressalvados os casos previstos nos Art. 21, 23 e 24 (Reserva Legal), desde que haja o devido licenciamento pelo órgão competente do Sisnama, “mediante aprovação prévia de Plano de Manejo Florestal Sustentável - PMFS que contemple técnicas de condução, exploração, reposição florestal e manejo compatíveis com os variados ecossistemas que a cobertura arbórea forme”. 6.16 Controle dos Produtos Florestais O Art. 35 trata do controle da origem da madeira, do carvão e de outros produtos ou subprodutos florestais, que deverá incluir um sistema nacional que integre os dados dos diferentes entes federativos, coordenado e fiscalizado e regulamentado pelo órgão federal competente do Sisnama. Nesse sentido, a Instrução Normativa n° 21, de 24 de dezembro de 2014, criou o Sistema Nacional de Controle da Origem dos Produtos Florestais (Sinaflor), que “integra o controle da origem da madeira, do carvão e de outros produtos ou subprodutos florestais, sob coordenação, fiscalização e regulamentação do Ibama”. É livre a extração de lenha e demais produtos de florestas plantadas, desde que nas áreas não consideradas de preservação permanente e de Reserva Legal (Art. 35, § 2º). Da mesma forma, o corte ou a exploração de espécies nativas plantadas em área de uso alternativo do solo são permitidos independentemente de autorização prévia, “devendo o plantio ou reflorestamento estar previamente cadastrado no órgão ambiental competente e a exploração ser previamente declarada nele para fins de controle de origem” (Art. 35, § 3º). 6.17 Transporte e Armazenamento O transporte, por qualquer meio, e o armazenamento de madeira, lenha, carvão e outros produtos ou subprodutos florestais oriundos de florestas de espécies nativas, para fins comerciais ou industriais, dependem licença do órgão competente do Sisnama (Art. 36). Conforme o § 1º do Art. 36, “a licença prevista no caput será formalizada por meio da emissão do DOF (Documento de Origem Florestal), que deverá acompanhar o material até o beneficiamento final”. Segundo § 3º, todo aquele que recebe ou adquire, para fins comerciais ou industriais, madeira, lenha, carvão e outros produtos ou subprodutos de florestas de espécies nativas é obrigado a exigir a apresentação do DOF e munir-se da via que deverá acompanhar o material até o beneficiamento final. 6.18 Comércio O comércio de plantas vivas e outros produtos oriundos da flora nativa também dependerá de licença do órgão estadual competente do Sisnama e de registro no Cadastro Técnico Federal de Atividades Potencialmente Poluidoras ou Utilizadoras de Recursos Ambientais, previsto no Art. 17 da Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, sem prejuízo de outras exigências cabíveis (Art. 37). Já a exportação de plantas vivas e outros produtos da flora dependerá de licença do órgão federal competente do Sisnama, observadas as condições estabelecidas no caput (Art. 37, parágrafo único). 6.19 Uso do Fogo Nas palavras de Édis Milaré, “o uso do fogo para fins agrícolas é prática comum e muito antiga, assim como há muito vem sendo objeto de questionamento acerca de seus benefícios, em razão dos possíveis impactos ao ambiente e à saúde humana”.202 De fato, é sabido que o fogo destrói não apenas a vegetação, mas também sementes, nutrientes e microrganismos do solo, além de ameaçar a vida e a integridade física de animais e seres humanos. Isso sem contar a fumaça produzida pelo fogo, que polui a atmosfera e é igualmente nociva à vida e à saúde de seres vivos. 203 Por tais motivos, o Art. 38 da Lei 12.651/2012 proíbe o uso de fogo na vegetação, prática que, além de infração administrativa, pode configurar o crime previsto no Art. 41 da Lei 9.605/98204 e ensejar a responsabilidade civil pelo dano ambiental.205 Os incisos do Art. 38 trazem algumas exceções a essa proibição, por exemplo, em locais ou regiões cujas peculiaridades justifiquem o emprego do fogo em práticas agropastoris ou florestais, mediante prévia aprovação do órgão estadual ambiental competente do Sisnama, para cada imóvel rural ou de forma regionalizada, que estabelecerá os critérios de monitoramento e controle (inc. I). Também é permitido o emprego da queima controlada em Unidades de Conservação, em conformidade com o respectivo plano de manejo e mediante prévia aprovação do órgão gestor da unidade, visando ao manejo conservacionista da vegetação nativa, cujas características ecológicas estejam associadas evolutivamente à ocorrência do fogo (inc. II). O § 2º do Art. 38, por sua vez, excetua da proibição do uso do fogo as práticas de prevenção e combate aos incêndios, bem como as práticas de agricultura de subsistência exercidas pelas populações tradicionais206 e indígenas. O §§ 3º e 4º do Art. 38 determinam que, na apuração da responsabilidade pelo uso irregular do fogo em terras públicas ou particulares, a autoridade competente para fiscalização e autuação deverá comprovar o nexo de causalidade entre a ação do proprietário ou qualquer preposto e o dano efetivamente causado. 6.20 Apoio e Incentivo Os artigos 41 e seguintes tratam do apoio e do incentivo à preservação e recuperação do meio ambiente. Segundo o Art. 41, é o Poder Executivo federal autorizado a instituir, sem prejuízo do cumprimento da legislação ambiental, programa de apoio e incentivo à conservação do meio ambiente, bem como para adoção de tecnologias e boas práticas que conciliem a produtividade agropecuária e florestal com redução dos impactos ambientais, como forma de promoção do desenvolvimento ecologicamente sustentável. Entre as linhas de ação previstas nos incisos está o pagamento ou incentivo a serviços ambientais, definido como Retribuição, monetária ou não, às atividades de conservação e melhoria dos ecossistemas e que gerem serviços ambientais, tais como, isolada ou cumulativamente: a) o sequestro, a conservação, a manutenção e o aumento do estoque e a diminuição do fluxo de carbono; b) a conservação da beleza cênica natural; c) a conservação da biodiversidade; d) a conservação das águas e dos serviços hídricos; e) a regulação do clima; f) a valorização cultural e do conhecimento tradicional ecossistêmico; g) a conservação e o melhoramento do solo; h) a manutenção de Áreas de Preservação Permanente, de Reserva Legal e de uso restrito. Trata-se da materialização do princípio do “protetor- recebedor”, tema que posteriormente foi detalhado na Lei 14.119/21, que institui a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais. Também é prevista, no inciso II do Art. 41, a compensação pelas medidas de conservação ambiental necessárias para o cumprimento dos objetivos dessa lei, utilizando-se dos seguintes instrumentos, dentre outros, a obtenção de crédito agrícola com taxas de juros menores, bem como limites e prazos maiores que os praticados no mercado, a contratação do seguro agrícola em condições melhores que as praticadas no mercado, a dedução das Áreas de Preservação Permanente, de Reserva Legal e de uso restrito da base de cálculo do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR), gerando créditos tributários etc. Ainda como parte do programa de apoio e incentivo à preservaçãoe recuperação do meio ambiente o Art. 44 prevê a criação da Cota de Reserva Ambiental (CRA). Cuida-se, segundo Abelha Rodrigues, de um título de crédito, instituído como incentivo econômico para a manutenção de áreas com vegetação nativa para além daquelas obrigatórias.207 A CRA constitui título nominativo representativo de área com vegetação nativa, existente ou em processo de recuperação, nas seguintes condições: I - sob regime de servidão ambiental, instituída na forma do art. 9º- A da Lei 6.938/81; II - correspondente à área de Reserva Legal instituída voluntariamente sobre a vegetação que exceder os percentuais exigidos no art. 12 desta Lei; III - protegida na forma de Reserva Particular do Patrimônio Natural - RPPN, nos termos do art. 21 da Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000; IV - existente em propriedade rural localizada no interior de Unidade de Conservação de domínio público que ainda não tenha sido desapropriada. Diz o § 1º do Art. 44 que a emissão de CRA será feita mediante requerimento do proprietário, após a inclusão do imóvel no CAR e a emissão de laudo comprobatório emitido pelo próprio órgão ambiental ou por entidade credenciada, assegurado o controle do órgão federal competente do Sisnama. O vínculo de área à CRA será averbado na matrícula do respectivo imóvel no registro de imóveis competente (§ 3º). É obrigatório o registro da CRA pelo órgão emitente, no prazo de 30 dias, contado da data da sua emissão, em bolsas de mercadorias de âmbito nacional ou em sistemas de registro e de liquidação financeira de ativos autorizados pelo Banco Central do Brasil (Art. 47). A CRA pode ser transferida, onerosa ou gratuitamente, a pessoa física ou a pessoa jurídica de direito público ou privado, mediante termo assinado pelo titular da CRA e pelo adquirente (Art. 48). 6.21 Controle do Desmatamento Dispõe o Art. 51 que o órgão ambiental competente, […] ao tomar conhecimento do desmatamento em desacordo com o disposto nesta Lei, deverá embargar a obra ou atividade que deu causa ao uso alternativo do solo, como medida administrativa voltada a impedir a continuidade do dano ambiental, propiciar a regeneração do meio ambiente e dar viabilidade à recuperação da área degradada. Obviamente que, além do embargo, que pode e deve ser realizado por órgão competente de qualquer ente federativo que tiver conhecimento da infração, nos termos do Art. 17, § 2º, da Lei Complementar 140/2011,208 o órgão ambiental competente deverá impor as sanções administrativas correspondentes, nos termos dos artigos 70 e seguintes da Lei 9.605/98 e seu regulamento. Isso sem contar as respectivas responsabilidades criminal e civil, conforme o caso. 6.22 Programas de Regularização Ambiental (PRAs) O Art. 59 determina que a União, os Estados e o Distrito Federal deverão implantar Programas de Regularização Ambiental (PRAs) de posses e propriedades rurais, com o objetivo de adequá-las aos termos da Lei. Na regulamentação dos PRAs, a União estabelecerá normas de caráter geral e os Estados e o Distrito Federal ficarão incumbidos do seu detalhamento por meio da edição de normas de caráter específico, em razão de suas peculiaridades territoriais, climáticas, históricas, culturais, econômicas e sociais, conforme preceitua o Art. 24 da Constituição Federal (§ 1º). Segundo o § 2º, a inscrição do imóvel rural no CAR é condição obrigatória para a adesão ao PRA, que deve ser requerida nos prazos estabelecidos no § 4º do Art. 29. O termo de compromisso de adesão ao PRA constitui título executivo extrajudicial (§ 3º). Dispõe o Art. 60 que a assinatura de termo de compromisso para regularização de imóvel ou posse rural perante o órgão ambiental competente suspenderá a punibilidade dos crimes previstos nos Art. 38, 39 e 48 da Lei 9.605/98, enquanto o termo estiver sendo cumprido. Outrossim, a prescrição ficará interrompida durante o período de suspensão da pretensão punitiva (§ 1º) e será extinta a punibilidade com a efetiva regularização prevista na Lei (§ 2º). 6.23 Regras de Transição O Art. 61-A, incluído pela Lei 12.727/2012, traz algumas regras de transição que amenizam o rigor da proteção das Áreas de Preservação Permanente, começando pelo caput, que abre exceção para a continuidade das atividades agrossilvipastoris, de ecoturismo e de turismo rural nas Áreas de Preservação Permanente, nas chamadas áreas rurais consolidadas até 22/07/2008. Os parágrafos desse artigo, por sua vez, regulamentam a recomposição das faixas marginais em áreas consolidadas ao longo de cursos d’água naturais, nascentes e olhos d’água perenes e no entorno de lagos e lagoas naturais, em metragens diferentes conforme o tamanho dos imóveis. 6.24 Outros Instrumentos de Proteção O Art. 70 possibilita ao poder público federal, estadual ou municipal a instituição de outros instrumentos de proteção da flora, além do disposto na própria lei e “sem prejuízo da criação de unidades de conservação da natureza, na forma da Lei n.º 9.985, de 18 de julho de 2000, e de outras ações cabíveis voltadas à proteção das florestas e outras formas de vegetação”, por exemplo: I - proibir ou limitar o corte das espécies da flora raras, endêmicas, em perigo ou ameaçadas de extinção, bem como das espécies necessárias à subsistência das populações tradicionais, delimitando as áreas compreendidas no ato, fazendo depender de autorização prévia, nessas áreas, o corte de outras espécies; II - declarar qualquer árvore imune de corte, por motivo de sua localização, raridade, beleza ou condição de porta-sementes; III - estabelecer exigências administrativas sobre o registro e outras formas de controle de pessoas físicas ou jurídicas que se dedicam à extração, indústria ou comércio de produtos ou subprodutos florestais. 6.25 Motosserras O Art. 69, tendo em vista o potencial destrutivo das motosserras, regulamenta a venda e a posse dessas máquinas, dispondo que são obrigados a registro no órgão federal competente do Sisnama os estabelecimentos comerciais responsáveis pela comercialização de motosserras, bem como aqueles que as adquirirem. O § 1º estabelece que a obrigatoriedade da licença para o porte e uso de motosserras, que deverá ser renovada a cada dois anos. Além disso, os fabricantes de motosserras são obrigados a imprimir, em local visível do equipamento, numeração cuja sequência será encaminhada ao órgão federal competente do Sisnama e constará nas correspondentes notas fiscais (§ 2º). O descumprimento dessas normas poderá configurar o crime: Art. 51 da Lei 9.605/98.209 6.26 Proibição do Retrocesso Como visto, a nova Lei Florestal abrandou a proteção ambiental em determinadas situações (v.g., cômputo da APP na Reserva Legal) em comparação com o Código revogado. A doutrina e a jurisprudência, no entanto, têm entendido pela irretroatividade desses dispositivos para atingir situações consolidadas, em função do princípio da proibição do retrocesso em matéria de Direito Ambiental. Esse princípio é extraído da dicção do Art. 225, § 1º, III, in fine, da CRFB.210 Segundo o STJ, O novo Código Florestal não pode retroagir para atingir o ato jurídico perfeito, direitos ambientais adquiridos e a coisa julgada, tampouco para reduzir de tal modo e sem as necessárias compensações ambientais o patamar de proteção de ecossistemas frágeis ou espécies ameaçadas de extinção, a ponto de transgredir o limite constitucional intocável e intransponível da incumbência do Estado de garantir a preservação e restauração dos processos ecológicos essenciais (art. 225, § 1º, I).211 Conforme Ingo Wolfgang Sarlet e Tiago Fensterseifer, o princípio constitucional da proibição do retrocesso (ou regressividade) ecológico […] apresenta-se como uma garantia constitucional, com base, entre outros, nos princípios da segurança jurídica e da confiança, objetivando blindar as conquistas legislativas – e também administrativas – no âmbito dos direitos fundamentais ecológicos contra retrocessos que venham a comprometer seu gozo e exercício. Tal garantia evidencia o processo evolutivo ecumulativo que subjaz ao reconhecimento dos direitos fundamentais ao longo da trajetória histórico-constitucional […].212 Segundo os mesmos autores, a não adoção de medidas de proteção ao meio ambiente “por parte do Estado – nas esferas municipal, estadual e federal –, no sentido de assegurar a eficácia e efetividade do direito fundamental em questão, resulta […] em prática inconstitucional, passível de controle judicial, tanto sob a via abstrata quanto difusa”.213 Herman Benjamin considera que a proibição do retrocesso “transformou-se em princípio geral do Direito Ambiental, a ser invocado na avaliação da legitimidade de iniciativas legislativas destinadas a reduzir o patamar de tutela geral do meio ambiente”. No REsp 1.434.797-PR, o STJ reconheceu “a existência de direitos adquiridos ambientais, no sentido de impedir a redução do patamar normativo de proteção ambiental vigente”. Da mesma forma, o STF, no julgamento da ADI 4.717/DF, aplicou o princípio da proibição do retrocesso socioambiental. 6.27 Gestão de Florestas Públicas Fora do sistema da Lei Florestal, mas fazendo referência a florestas, a Lei 11.284/2006 dispõe sobre a gestão de florestas públicas para produção sustentável. Válida para União, DF, Estados e Municípios, trata da gestão direta e da concessão da exploração das florestas, mediante licitação. Como já visto, a concessão florestal é instrumento econômico da Política Nacional do Meio Ambiente, nos termos do Art. 9º, XIII, da Lei 6.938/81. Segundo o Art. 3º da Lei 11.284/2006, para os fins do disposto nessa lei, consideram-se: I - florestas públicas: florestas, naturais ou plantadas, localizadas nos diversos biomas brasileiros, em bens sob o domínio da União, dos Estados, dos Municípios, do Distrito Federal ou das entidades da administração indireta; II - recursos florestais: elementos ou características de determinada floresta, potencial ou efetivamente geradores de produtos ou serviços florestais; III - produtos florestais: produtos madeireiros e não madeireiros gerados pelo manejo florestal sustentável; IV - serviços florestais: turismo e outras ações ou benefícios decorrentes do manejo e conservação da floresta, não caracterizados como produtos florestais; […] VI - manejo florestal sustentável: administração da floresta para a obtenção de benefícios econômicos, sociais e ambientais, respeitando-se os mecanismos de sustentação do ecossistema objeto do manejo e considerando-se, cumulativa ou alternativamente, a utilização de múltiplas espécies madeireiras, de múltiplos produtos e subprodutos não madeireiros, bem como a utilização de outros bens e serviços de natureza florestal; VII - concessão florestal: delegação onerosa, feita pelo poder concedente, do direito de praticar manejo florestal sustentável para exploração de produtos e serviços numa unidade de manejo, mediante licitação, à pessoa jurídica, em consórcio ou não, que atenda às exigências do respectivo edital de licitação e demonstre capacidade para seu desempenho, por sua conta e risco e por prazo determinado. Sobre o tema, Édis Milaré comenta que “é oportuna a inovação legislativa, que acompanha a exigência crescente por mecanismos desta natureza para a gestão ambiental, a fim de incentivar e propiciar a conservação do meio ambiente”.214 O Art. 6º, § 3º, da mesma lei abre uma exceção à exigência de licitação, dispondo que […] o Poder Público poderá, com base em condicionantes socioambientais definidas em regulamento, regularizar posses de comunidades locais sobre as áreas por elas tradicionalmente ocupadas ou utilizadas, que sejam imprescindíveis à conservação dos recursos ambientais essenciais para sua reprodução física e cultural, por meio de concessão de direito real de uso ou outra forma admitida em lei, dispensada licitação. 6.28 Crimes A Lei 9.605/98, em seus artigos 38, 39, 41, 42, 45, 46, 48, 49, 50, 50-A e 51, tipifica vários crimes relativos a florestas e áreas protegidas. Analisaremos mais detidamente esses crimes em capítulo próprio. 166 Apud Édis Milaré, Direito do Ambiente, 12. ed., p. 149. 167 Direito do Ambiente, 12. ed., p. 1594. 168 Cf. Aldo Rebelo, “O novo Código Florestal brasileiro pacificou o país”. SNA News, 21 mar. 2022. Disponível em: https://www.sna.agr.br/artigo-o-novo-codigo-florestal-brasileiro-pacificou-o-pais-por-aldo-rebelo/ 169 Cf., por exemplo, José Renato Nalini, Ética ambiental, 4. ed., p. 116 e segs. 170 Cf., nesse sentido, o artigo “O campeão da proteção florestal, de autoria de Evaristo de Miranda, doutor em Ecologia e chefe-geral da Embrapa Territorial publicado na Revista Oeste. Disponível em: https://revistaoeste.com/revista/edicao-59/o-campeao-da-protecao-florestal/ 171 Apud Direito do Ambiente, p. 1253. 172 Cf. Milaré, op. cit., p. 1252. 173 Op. cit., p. 208. 174 Idem. 175 Direito do Ambiente, 5. ed., “Glossário”. 176 Op. cit., Amado, p. 223. 177 Apud José Afonso da Silva, op. cit. p. 188. 178 Art. 3º, XIX: leito regular: a calha por onde correm regularmente as águas do curso d’água durante o ano. “O que se pretende proteger não é somente o leito menor ou o médio, mas também o leito maior resultante da expansão sazonal dos rios” (Milaré, p. 1257). 179 O Art. 5º determina que, na implantação de reservatório d’água artificial destinado a geração de energia ou abastecimento público, é obrigatória a aquisição, desapropriação ou instituição de servidão administrativa pelo empreendedor das Áreas de Preservação Permanente criadas em seu entorno, conforme estabelecido no licenciamento ambiental, observando-se a faixa mínima de 30 metros e máxima de 100 metros em área rural, e a faixa mínima de 15 metros e máxima de 30 metros em área urbana. 180 Art. 3º, XVII: nascente: afloramento natural do lençol freático que apresenta perenidade e dá início a um curso d’água. 181 Art. 3º, XVIII: olho d’água: afloramento natural do lençol freático, mesmo que intermitente. 182 Art. 3º, V: pequena propriedade ou posse rural familiar: aquela explorada mediante o trabalho pessoal do agricultor familiar e empreendedor familiar rural, incluindo os assentamentos e projetos de reforma agrária, e que atenda ao disposto no Art. 3º da Lei n.º 11.326, de 24 de julho de 2006 (agricultura familiar). 183 Art. 3º, VII: manejo sustentável: administração da vegetação natural para a obtenção de benefícios econômicos, sociais e ambientais, respeitando-se os mecanismos de sustentação do ecossistema objeto do manejo e considerando-se, cumulativa ou alternativamente, a utilização de múltiplas espécies madeireiras ou não, de múltiplos produtos e subprodutos da flora, bem como a utilização de outros bens e serviços. 184 REsp 994.811/2008, cf. Amado, op. cit., p. 244. 185 Op. cit., p. 1258. 186 Art. 3º, VIII: são consideradas de utilidade pública: a) as atividades de segurança nacional e proteção sanitária; b) as obras de infraestrutura destinadas às concessões e aos serviços públicos de transporte, sistema viário, inclusive aquele necessário aos parcelamentos de solo urbano aprovados pelos Municípios, saneamento, energia, telecomunicações, radiodifusão, bem como mineração, exceto, neste último caso, a extração de areia, argila, saibro e cascalho; c) atividades e obras de defesa civil; d) atividades que comprovadamente proporcionem melhorias na proteção das funções ambientais referidas no inciso II deste artigo; e) outras atividades similares devidamente caracterizadas e motivadas em procedimento administrativo próprio, quando inexistir alternativa técnica e locacional ao empreendimento proposto, definidas em ato do Chefe do Poder Executivo federal. 187 Art. 3º, IX: são consideradas de interesse social: a) as atividades imprescindíveis à proteção da integridade da vegetação nativa, tais como prevenção, combate e controle do fogo, controle da erosão, erradicação de invasoras e proteção de plantios com espécies nativas; b) a exploração agroflorestal sustentável praticada na pequena propriedade ou posse rural familiar ou por povos e comunidades tradicionais, desde quenão descaracterize a cobertura vegetal existente e não prejudique a função ambiental da área; c) a implantação de infraestrutura pública destinada a esportes, lazer e atividades educacionais e culturais ao ar livre em áreas urbanas* e rurais consolidadas,** observadas as condições estabelecidas nessa lei; d) a regularização fundiária de assentamentos humanos ocupados predominantemente por população de baixa renda em áreas urbanas consolidadas, observadas as condições estabelecidas na Lei n.º 11.977/2009; e) implantação de instalações necessárias à captação e condução de água e de efluentes tratados para projetos cujos recursos hídricos são partes integrantes e essenciais da atividade; f) as atividades de pesquisa e extração de areia, argila, saibro e cascalho, outorgadas pela autoridade competente; g) outras atividades similares devidamente caracterizadas e motivadas em procedimento administrativo próprio, quando inexistir alternativa técnica e locacional à atividade proposta, definidas em ato do Chefe do Poder Executivo federal. *Art. 3º, XXVI – área urbana consolidada: aquela que atende os seguintes critérios: a) estar incluída no perímetro urbano ou em zona urbana pelo plano diretor ou por lei municipal específica; b) dispor de sistema viário implantado; c) estar organizada em quadras e lotes predominantemente edificados; d) apresentar uso predominantemente urbano, caracterizado pela existência de edificações residenciais, comerciais, industriais, institucionais, mistas ou direcionadas à prestação de serviços; e) dispor de, no mínimo, 2 (dois) dos seguintes equipamentos de infraestrutura urbana implantados: 1. drenagem de águas pluviais; 2. esgotamento sanitário; 3. abastecimento de água potável; 4. distribuição de energia elétrica e iluminação pública; e 5. limpeza urbana, coleta e manejo de resíduos sólidos (Redação do inciso alterada pela Lei 14.285/21. **Art. 3º, IV – área rural consolidada: área de imóvel rural com ocupação antrópica preexistente a 22 de julho de 2008, com edificações, benfeitorias ou atividades agrossilvipastoris, admitida, neste último caso, a adoção do regime de pousio. Lei 11.428/2006, Art. 3º, III – pousio: prática que prevê a interrupção de atividades ou usos agrícolas, pecuários ou silviculturais do solo por até 10 (dez) anos para possibilitar a recuperação de sua fertilidade. 188 Art. 3º, X: são consideradas atividades eventuais ou de baixo impacto ambiental: a) abertura de pequenas vias de acesso interno e suas pontes e pontilhões, quando necessárias à travessia de um curso d’água, ao acesso de pessoas e animais para a obtenção de água ou à retirada de produtos oriundos das atividades de manejo agroflorestal sustentável; b) implantação de instalações necessárias à captação e condução de água e efluentes tratados, desde que comprovada a outorga do direito de uso da água, quando couber; c) implantação de trilhas para o desenvolvimento do ecoturismo; d) construção de rampa de lançamento de barcos e pequeno ancoradouro; e) construção de moradia de agricultores familiares, remanescentes de comunidades quilombolas e outras populações extrativistas e tradicionais em áreas rurais, onde o abastecimento de água se dê pelo esforço próprio dos moradores; f) construção e manutenção de cercas na propriedade; g) pesquisa científica relativa a recursos ambientais, respeitados outros requisitos previstos na legislação aplicável; h) coleta de produtos não madeireiros para fins de subsistência e produção de mudas, como sementes, castanhas e frutos, respeitada a legislação específica de acesso a recursos genéticos; i) plantio de espécies nativas produtoras de frutos, sementes, castanhas e outros produtos vegetais, desde que não implique supressão da vegetação existente nem prejudique a função ambiental da área; j) exploração agroflorestal e manejo florestal sustentável, comunitário e familiar, incluindo a extração de produtos florestais não madeireiros, desde que não descaracterizem a cobertura vegetal nativa existente, nem prejudiquem a função ambiental da área; k) outras ações ou atividades similares, reconhecidas como eventuais e de baixo impacto ambiental em ato do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) ou dos Conselhos Estaduais de Meio Ambiente. 189 Direito do Ambiente, 12. ed., p. 1643. 190 Art. 3º, VI – uso alternativo do solo: substituição de vegetação nativa e formações sucessoras por outras coberturas do solo, como atividades agropecuárias, industriais, de geração e transmissão de energia, de mineração e de transporte, assentamentos urbanos ou outras formas de ocupação humana. 191 A Zona Costeira é definida pelo parágrafo único do Art. 2º da Lei 7.661/88, que institui o Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro, como “o espaço geográfico de interação do ar, do mar e da terra, incluindo seus recursos renováveis ou não, abrangendo uma faixa marítima e outra terrestre, que serão definidas pelo Plano”. 192 Op. cit., p. 263. 193 Idem. 194 Abelha Rodrigues, op. cit., p. 254. 195 Milaré, op. cit., p. 1271. 196 Op. cit., p. 203. 197 Art. 3º, I, Amazônia Legal: os Estados do Acre, Pará, Amazonas, Roraima, Rondônia, Amapá e Mato Grosso e as regiões situadas ao norte do paralelo 13º S, dos Estados de Tocantins e Goiás, e ao oeste do meridiano de 44º W, do Estado do Maranhão. 198 Disponível em: https://mpsp.mp.br/w/do-24-01-2023 199 Cf. Frederico Amado, op. cit., p. 314. 200 A Lei n.º 10.257 (Estatuto da Cidade) prevê o direito de preempção em seu Art. 4º, IV, m, como um dos instrumentos da política urbana, tratando-se do direito que confere ao Poder Público municipal preferência para aquisição de imóvel urbano objeto de alienação onerosa entre particulares (Art. 25). A matéria será vista em capítulo próprio. 201 O Art. 11 da LC 140/2011 diz que “a lei poderá estabelecer regras próprias para atribuições relativas à autorização de manejo e supressão de vegetação, considerada a sua caracterização como vegetação primária ou secundária em diferentes estágios de regeneração, assim como a existência de espécies da flora ou da fauna ameaçadas de extinção”. Trataremos desse tema em capítulo futuro. 202 Direito do ambiente, 12. ed., p. 1651. 203 Sobre o tema, vide Evaristo de Miranda, “Fogo aumenta na Europa e diminui no Brasil”. Revista Oeste, 26 ago. 2022. Disponível em: https://revistaoeste.com/revista/edicao-127/fogo-aumenta-na-europa-e-diminui-no- brasil/ 204 Art. 41. Provocar incêndio em mata ou floresta: Pena – reclusão, de dois a quatro anos, e multa. Parágrafo único. Se o crime é culposo, a pena é de detenção de seis meses a um ano e multa. 205 Evaristo de Miranda explica a diferença entre queimadas e incêndios florestais: “Muitos confundem queimadas e incêndios florestais. Queimadas são um fenômeno generalizado na agricultura tropical. Mais de 98% das queimadas praticadas no Brasil são de natureza agrícola. O agricultor decide quando e onde queimar. É uma prática controlada, desejadas e faz parte de seu sistema de produção. Tem objetivos e resultados esperados. Exige cuidados, como aceiros e ausência de ventos. E depende de muito de fatores meteorológicos. […] Os incêndios florestais são de natureza acidental, indesejados e difíceis de controlar. Basta ver o Canadá. Ocorrem em vegetações florestais propícias pela comburência e combustibilidade das árvores. Essas vegetações encontram-se essencialmente no Sul e Sudeste. Florestas degradadas, entremeadas por arbustos e gramíneas, matas de araucária e floresta atlântica caducifólia de planalto, além das áreas de pinus e eucaliptus, são as mais propícias a incêndios. Na floresta tropical úmida, um incêndio em vegetação primária é difícil de ocorrer e de se propagar”. “Incêndios no Canadá e queimadas no Brasil: dois pesos e poucas medidas”. Revista Oeste, 7 jul. 2023. Disponível em: https://revistaoeste.com/revista/edicao-172/incendios-no-canada-e-queimadas-no-brasil- dois-pesos-e-poucas-medidas/ 206 Segundo o Art. 3º, II, da Lei 11.428/2006 (Lei da Mata Atlântica), população tradicional é aquelavivendo em estreita relação com o ambiente natural, dependendo de seus recursos naturais para a sua reprodução sociocultural, por meio de atividades de baixo impacto ambiental, por exemplo, ribeirinhos, quilombolas etc. 207 Op. cit., p. 288. 208 Art. 17. Compete ao órgão responsável pelo licenciamento ou autorização, conforme o caso, de um empreendimento ou atividade, lavrar auto de infração ambiental e instaurar processo administrativo para a apuração de infrações à legislação ambiental cometidas pelo empreendimento ou atividade licenciada ou autorizada. […] § 2o Nos casos de iminência ou ocorrência de degradação da qualidade ambiental, o ente federativo que tiver conhecimento do fato deverá determinar medidas para evitá-la, fazer cessá-la ou mitigá-la, comunicando imediatamente ao órgão competente para as providências cabíveis. 209 Art. 51. Comercializar motosserra ou utilizá-la em florestas e nas demais formas de vegetação, sem licença ou registro da autoridade competente: Pena – detenção, de três meses a um ano, e multa. 210 Art. 225, § 1º, III: “definir, em todas as unidades da Federação, espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos, sendo a alteração e a supressão permitidas somente através de lei, vedada qualquer utilização que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua proteção”. 211 STJ, REsp 1.462.208, Rel. Min. Humberto Martins; apud: Abelha Rodrigues, op. cit., p. 247. 212 Op. cit., p. 112. 213 Idem. 214 Direito do ambiente, 12. ed., p. 1107. CAPÍTULO 7 BIOMA MATA ATLÂNTICA Ecossistema de floresta de encosta da Serra do Mar brasileira, considerado o mais rico do mundo em biodiversidade. (Édis Milaré) 7.1 Introdução Como visto no capítulo correspondente, para a garantia do direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, o Art. 225, § 4º, da Constituição Federal, houve por bem destacar alguns dos grandes biomas nacionais, dispondo que a Floresta Amazônica brasileira, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira são patrimônio nacional e sua utilização far-se-á, na forma da lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos naturais. Trata-se de espaços territoriais especialmente protegidos em sentido lato, nos termos do § 1º, inciso III, do mesmo dispositivo. Note-se que há outros grandes biomas não mencionados no dispositivo, como o Cerrado e a Caatinga, que, não obstante a omissão constitucional, também merecem atenção. Dos grandes biomas nacionais, por enquanto somente a proteção do Bioma Mata Atlântica recebeu detalhada regulamentação legal, por meio da Lei 11.428/2006. 7.2 Bioma e Ecossistema Antes de adentrar no estudo da proteção legal do Bioma Mata Atlântica, é interessante fixar alguns conceitos básicos, como bioma e ecossistema. Na definição de Édis Milaré, bioma é um Amplo conjunto de ecossistemas terrestres, caracterizados por tipos fisionômicos semelhantes de vegetação com diferentes tipos climáticos. São grandes ecossistemas que compreendem várias comunidades bióticas em diferentes estágios de evolução, em vasta extensão geográfica. Por necessidade ecológica, os biomas apresentam intensa e extensa interação edáfica e climática, definindo assim as condições ambientais características. É a unidade ecológica imediatamente superior ao ecossistema. Há biomas terrestres e aquáticos. Os grandes biomas brasileiros são a Floresta Amazônica, a Mata Atlântica, o Pantanal Mato-Grossense, o Cerrado, a Caatinga, o Domínio das Araucárias, as Pradarias e os ecossistemas litorâneos. Há autores que acrescentam outros biomas.215 Ecossistema, por sua vez, teve sua definição legal veiculada no Art. 2º, I, da Lei n.º 14.119/2021 (Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais), verbis: “complexo dinâmico de comunidades vegetais, animais e de microrganismos e o seu meio inorgânico que interagem como uma unidade funcional”. Conforme Milaré, “o ecossistema é a unidade básica da Ecologia”.216 7.3 Mata Atlântica Segundo Édis Milaré, a Mata Atlântica é o Ecossistema de floresta de encosta da Serra do Mar brasileira, considerado o mais rico do mundo em biodiversidade. A Mata Atlântica era a segunda maior floresta tropical úmida do Brasil, só comparável à Floresta Amazônica. Originalmente percorria o litoral brasileiro de ponta a ponta, estendendo-se do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, e ocupava uma área de 1,3 milhão que quilômetros quadrados. Atualmente restam apenas cerca de 5% de sua extensão original; em alguns lugares, como no Rio Grande do Norte, nem vestígios. A variabilidade climática ao longo de sua distribuição é grande, indo desde climas temperados superúmidos no extremo sul a tropical úmido e semiárido no Nordeste. O relevo acidentado da Zona Costeira adiciona ainda mais variabilidade a este ecossistema. A grande quantidade de matéria orgânica em decomposição sobre o solo dá à mata fertilidade suficiente para suprir toda a rica vegetação; um solo pobre mantém uma floresta riquíssima em espécies, graças à rápida reciclagem da enorme quantidade de matéria orgânica que se acumula ao húmus. Um dos principais motivos para preservar o que restou da Mata Atlântica é sua biodiversidade; calcula-se que nela existam dez mil espécies de plantas, 131 espécies de mamíferos, 214 espécies de aves, 23 de marsupiais, 57 de roedores, 183 de anfíbios, 143 de répteis e 21 de primatas. O mico-leão-dourado, uma das espécies mais ameaçadas do mundo, só é encontrada em uma pequena área de mata atlântica no Rio de Janeiro.217 7.4 A Lei 11.428/2006 – LBMA Dando cumprimento ao mandamento constitucional, a Lei 11.428/2006 dispõe sobre a utilização e proteção da vegetação nativa do Bioma Mata Atlântica. Conforme seu Art. 1º, “a conservação, a proteção, a regeneração e a utilização do Bioma Mata Atlântica, patrimônio nacional, observarão o que estabelece esta Lei, bem como a legislação ambiental vigente, em especial a Lei. 4.771/65”. Observe-se que, embora a lei faça menção ao antigo Código Florestal, é evidente que, com a revogação da Lei. 4.771/65, deve- se interpretar que a proteção do bioma também se faz pela Lei 12.651/2012. Na verdade, a LBMA, válida para um grande bioma específico, acrescenta uma camada extra de proteção às áreas já protegidas genericamente pelo Código Florestal, válido em todo o território nacional. Conforme Abelha Rodrigues, não se trata de uma lei que impede o uso, pois “o legislador cuida de normatizar, mas não de impedir a utilização econômica do bioma, destacando-se um regime jurídico fixado de acordo com os estágios de regeneração da vegetação”.218 Essa lei também é importante porque traz vários princípios e conceitos de Direito Ambiental, que complementam e esclarecem dispositivos do Código Florestal e de outras leis ambientais, compondo o sistema. Com efeito, em julgado relatado pelo Ministro Herman Benjamin, o STJ declarou que há uma relação de coexistência e complementariedade entre a Lei da Mata Atlântica e os demais microssistemas-irmãos que compõem a ordem jurídica florestal: A ordem jurídica florestal, no cotejo com a ordem jurídica ambiental, é tão só uma entre várias que no corpo desta se alojam, prisioneira aquela de inescapável vocação de unidade e coexistência harmônica com os microssistemas-irmãos elementares e temáticos (faunístico, hídrico, climático, de Unidades de Conservação, da Mata Atlântica), tudo em posição de subserviência aos domínios da norma constitucional e da nave-mãe legislativa ambiental – a Lei da Política Nacional do Meio Ambiente –, que a eles todos se sobrepõem e contra eles todos prevalecem. Dispensável, nesse diapasão, advertir que a possibilidade de conflito somente se coloca entre duas normas que se encontrem, hierarquicamente, em pé de igualdade.219 Sobre a abrangência da LBMA, Frederico Amado observa que “a Lei 11.428/2006 – LBMA, para os seus fins, adotou uma definição ampla” de Mata Atlântica.220 Com efeito, dispõe o Art. 2ºque, para os efeitos dessa lei, Consideram-se integrantes do Bioma Mata Atlântica as seguintes formações florestais nativas e ecossistemas associados, com as respectivas delimitações estabelecidas em mapa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, conforme regulamento: Floresta Ombrófila Densa; Floresta Ombrófila Mista, também denominada de Mata de Araucárias; Floresta Ombrófila Aberta; Floresta Estacional Semidecidual; e Floresta Estacional Decidual, bem como os manguezais, as vegetações de restingas, campos de altitude, brejos interioranos e encraves florestais do Nordeste. O parágrafo único desse dispositivo, porém, ressalva que somente os remanescentes de vegetação nativa no estágio primário e nos estágios secundário inicial, médio e avançado de regeneração na área de abrangência definida no caput desse artigo terão seu uso e conservação regulados por essa lei. Em outras palavras, tendo em vista que grande parte do bioma já sofreu ocupação humana, o que se protege são os remanescentes de mata atlântica dentro da área original do bioma. Pode ocorrer, por exemplo, de existir remanescentes de mata atlântica até mesmo em áreas densamente urbanizadas, como é o caso do Parque Trianon, em plena Avenida Paulista, em São Paulo.221 7.5 Conceitos O Art. 3º da Lei 11.428/2006, como se tornou comum na legislação ambiental, traz importantes conceitos, aplicáveis não apenas ao Bioma Mata Atlântica, mas a todo o Direito Ambiental. Segundo esse dispositivo, consideram-se, para os efeitos dessa lei: I - pequeno produtor rural: aquele que, residindo na zona rural, detenha a posse de gleba rural não superior a 50 hectares, explorando-a mediante o trabalho pessoal e de sua família, admitida a ajuda eventual de terceiros, bem como as posses coletivas de terra considerando-se a fração individual não superior a 50 hectares, cuja renda bruta seja proveniente de atividades ou usos agrícolas, pecuários ou silviculturais ou do extrativismo rural em 80% no mínimo; II - população tradicional: população vivendo em estreita relação com o ambiente natural, dependendo de seus recursos naturais para a sua reprodução sociocultural, por meio de atividades de baixo impacto ambiental; III - pousio: prática que prevê a interrupção de atividades ou usos agrícolas, pecuários ou silviculturais do solo por até dez anos para possibilitar a recuperação de sua fertilidade; IV - prática preservacionista: atividade técnica e cientificamente fundamentada, imprescindível à proteção da integridade da vegetação nativa, tal como controle de fogo, erosão, espécies exóticas e invasoras; V - exploração sustentável: exploração do ambiente de maneira a garantir a perenidade dos recursos ambientais renováveis e dos processos ecológicos, mantendo a biodiversidade e os demais atributos ecológicos, de forma socialmente justa e economicamente viável; VI - enriquecimento ecológico: atividade técnica e cientificamente fundamentada que vise à recuperação da diversidade biológica em áreas de vegetação nativa, por meio da reintrodução de espécies nativas; VII - utilidade pública: a) atividades de segurança nacional e proteção sanitária; b) as obras essenciais de infraestrutura de interesse nacional destinadas aos serviços públicos de transporte, saneamento e energia, declaradas pelo poder público federal ou dos Estados; VIII - interesse social: a) as atividades imprescindíveis à proteção da integridade da vegetação nativa, tais como: prevenção, combate e controle do fogo, controle da erosão, erradicação de invasoras e proteção de plantios com espécies nativas, conforme resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA; b) as atividades de manejo agroflorestal sustentável praticadas na pequena propriedade ou posse rural familiar que não descaracterizem a cobertura vegetal e não prejudiquem a função ambiental da área; c) demais obras, planos, atividades ou projetos definidos em resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente. 7.6 Objetivos O Art. 6º da Lei 11.428/2006 traça seus objetivos, declarando que a proteção e a utilização do Bioma Mata Atlântica têm por objetivo geral o desenvolvimento sustentável e, por objetivos específicos, a salvaguarda da biodiversidade, da saúde humana, dos valores paisagísticos, estéticos e turísticos, do regime hídrico e da estabilidade social. 7.7 Princípios O parágrafo único do Art. 6º enuncia importantes princípios de Direito Ambiental, que transcendem o âmbito da Mata Atlântica, determinando que, na proteção e na utilização do Bioma Mata Atlântica, serão observados os princípios da função socioambiental da propriedade, da equidade intergeracional, da prevenção, da precaução, do usuário-pagador, da transparência das informações e atos, da gestão democrática, da celeridade procedimental, da gratuidade dos serviços administrativos prestados ao pequeno produtor rural e às populações tradicionais e do respeito ao direito de propriedade. Vejamos alguns desses princípios: 7.7.1 Função Socioambiental da Propriedade Como já mencionado em capítulo anterior, o Art. 5º, inciso XXII, da Constituição Federal garante o direito de propriedade e o inciso XXIII do mesmo artigo exige que a propriedade cumpra sua função social. Desdobrando esse dispositivo, o § 2º do Art. 182 trata da função social da propriedade urbana e o Art. 186 fala da função social da propriedade rural. Em relação a ambas, a função social somente é cumprida de forma plena se houver o uso adequado e a necessária proteção dos recursos ambientais. Ademais, o Art. 2º da Lei 12.651/2012 (Código Florestal) dispõe que As florestas existentes no território nacional e as demais formas de vegetação nativa, reconhecidas de utilidade às terras que revestem, são bens de interesse comum a todos os habitantes do País, exercendo-se os direitos de propriedade com as limitações que a legislação em geral e especialmente esta Lei estabelecem. E o Art. 1.228, § 1º, do Código Civil enuncia que O direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais e de modo que sejam preservados, de conformidade com o estabelecido em lei especial, a flora, a fauna, as belezas naturais, o equilíbrio ecológico e o patrimônio histórico e artístico, bem como evitada a poluição do ar e das águas. Desses dispositivos constitucionais e legais, pode-se inferir o princípio da função socioambiental da propriedade. Com efeito, segundo Amado, Já se fala atualmente em função socioambiental da propriedade, uma vez que um dos requisitos para que a propriedade rural alcance a sua função social é o respeito à legislação ambiental (art. 186, II, da CRFB), bem como a propriedade urbana, pois o plano diretor (art. 182, § 2º) deverá necessariamente considerar a preservação ambiental, a exemplo da instituição de áreas verdes.222 7.7.2 Princípios da Prevenção e da Precaução A Lei 11.428/2006 introduz na legislação dois importantes princípios de Direito Ambiental: o princípio da prevenção e o princípio da precaução. Esses princípios baseiam-se na percepção de que, uma vez ocorrido, um dano ambiental dificilmente é integralmente reparado. Uma espécie extinta ou uma floresta destruída são danos irreparáveis. Sendo assim, o Direito Ambiental não pode se limitar a buscar a reparação ou compensação desses danos. Segundo Milaré, os princípios da prevenção e da precaução “são basilares em Direito Ambiental, concernindo à prioridade que deve ser dada às medidas que evitem o nascimento de agressões ao ambiente, de modo a reduzir ou eliminar as causas de ações suscetíveis de alterar a sua qualidade”.223 O eminente autor, que anteriormente considerava que o princípio da precaução estava contido no da prevenção, passou a diferenciá-los. Para tanto, cita o jurista francês Michel Prieur, segundo quem o princípio da prevenção embasa as ações administrativas de cunho preventivo, inclusive a avaliação de impactos, ao passo que o princípio da precaução lida com a irreversibilidade de certas agressões ambientais e com as incertezas científicasque cercam tais casos.224 Conforme Milaré, prevenção vem do latim prae (antes) venire (vir) e significa “ato ou efeito de antecipar-se, chegar antes”. Já precaução vem de prae (antes) cavere (tomar cuidado) e “sugere cuidados antecipados com o desconhecido”. A prevenção trata dos riscos ou impactos já conhecidos pela ciência (perigo concreto), ao passo que a precaução se destina a gerir riscos ou impactos desconhecidos (perigo abstrato).225 Sobre o tema, Sarlet e Fensterseifer observam que Por força dos princípios da prevenção e da precaução, o Estado deve atuar para se antecipar à ocorrência do dano ambiental propriamente, tanto diante do perigo em face de causas em relação às quais já há domínio e conhecimento científico atestando o seu prejuízo ecológico, quanto em face do risco de ocorrência em temas ainda controversos em termos científicos.226 O princípio da prevenção está previsto implicitamente no Art. 225 da CRFB, especialmente na exigência de EIA-RIMA (inciso IV do § 1º). Segundo Amado, esse princípio incide quando “já se tem base científica para prever os danos ambientais decorrentes de determinada atividade lesiva ao meio ambiente, devendo-se impor ao empreendedor condicionantes no licenciamento ambiental mitigar ou elidir os prejuízos”.227 O licenciamento ambiental, portanto, é um exemplo de aplicação desse princípio. O princípio da precaução, por sua vez, consta do Princípio 15 da Declaração do Rio (Eco/92), nos seguintes termos: “Quando houver ameaça de danos sérios ou irreversíveis, a ausência de absoluta certeza científica não deve ser utilizada como razão para postergar medidas eficazes e economicamente viáveis para precaver a degradação ambiental”. Em outras palavras, a incerteza científica milita a favor do meio ambiente (in dubio pro natura), invertendo o ônus da prova, de sorte que é o empreendedor quem deve provar que a atividade não traz riscos.228 Como ensina Amado, caso não haja essa comprovação, a atividade não deve ser liberada.229 Segundo Milaré, o princípio da precaução está implicitamente previsto no inciso V do § 1º do Art. 225, quando incumbe ao Poder Público “controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente”.230 Esse princípio incide, por exemplo, na produção de organismos geneticamente modificados (Lei 11.105/2005 – Biossegurança). É interessante registrar que o filósofo conservador Roger Scruton, em seu Filosofia Verde, dedica todo um capítulo para criticar o princípio da precaução, que, para ele, decorre de uma cultura atual de aversão ao risco e pode ser utilizado para proibir quase tudo. Lembra que a humanidade aprende por tentativa e erro, porém esse princípio substitui essa técnica por uma “tentativa sem erro, com a qual não podemos aprender”. Ao “confiscar o risco”, esse princípio tolheria o progresso e impediria o desenvolvimento do “senso de responsabilidade”. Utilizando o princípio conservador da prudência, o filósofo escreve que “uma decisão racional não pressupõe não correr riscos, mas sim saber escolhê-los, ajustando-os continuamente diante dos desafios e dos perigos”.231 7.8 Classificação da Vegetação O Art. 11 da Lei Complementar 140/2011 dispõe que a lei poderá estabelecer regras próprias para atribuições relativas à autorização de manejo e supressão de vegetação, “considerada a sua caracterização como vegetação primária ou secundária em diferentes estágios de regeneração, assim como a existência de espécies da flora ou da fauna ameaçadas de extinção”. É o que acontece, por exemplo, em áreas com remanescentes de Mata Atlântica, nos termos da Lei 11.428/2006. Com efeito, o Art. 4º da LBMA enuncia uma classificação da vegetação nativa do Bioma Mata Atlântica, baseada no grau de desenvolvimento e regeneração, a fim de que depois se estabeleçam regras próprias de proteção conforme essa classificação. Segundo esse dispositivo, a vegetação da Mata Atlântica divide-se em vegetação primária e vegetação secundária, subdividindo-se essa vegetação secundária nos estágios avançado, médio e inicial de regeneração. O § 2º desse artigo determina que a definição dessas espécies de vegetação fica a cargo do Conama, levando em conta os seguintes parâmetros básicos: I - fisionomia; II - estratos predominantes; III - distribuição diamétrica e altura; IV - existência, diversidade e quantidade de epífitas; V - existência, diversidade e quantidade de trepadeiras; VI - presença, ausência e características da serapilheira; VII - sub-bosque; VIII - diversidade e dominância de espécies; IX - espécies vegetais indicadoras. Regulamentando esse dispositivo, a Resolução Conama n.º 388/3007 dispõe sobre a convalidação das resoluções que definem a vegetação primária e secundária nos estágios inicial, médio e avançado de regeneração da Mata Atlântica para fins do disposto no Art. 4º, § 1º, da Lei n.º 11.428/2006, em especial a Resolução n.º 10, de 1 de outubro de 1993. A Resolução Conama n.º 10/93, por sua vez, em seu Art. 2º, I, define vegetação primária como a vegetação de máxima expressão local, com grande diversidade biológica, sendo os efeitos das ações antrópicas mínimos, a ponto de não afetar significativamente suas características originais de estrutura e de espécies. O inciso II do mesmo artigo define vegetação secundária ou em regeneração como aquela resultante dos processos naturais de sucessão, após supressão total ou parcial da vegetação primária por ações antrópicas ou causas naturais, podendo ocorrer árvores remanescentes da vegetação primária. A vegetação secundária comporta subtipos, conforme o grau de regeneração. O Art. 3º da mesma Resolução dispõe que os estágios de regeneração da vegetação secundária a que se refere o Art. 6º do Decreto n.º 750/93 passam a ser assim definidos: estágio inicial,232 estágio médio233 e estágio avançado de regeneração.234 O Art. 5º da Resolução em comento determina que a vegetação primária ou a vegetação secundária em qualquer estágio de regeneração do Bioma Mata Atlântica não perderão esta classificação nos casos de incêndio, desmatamento ou qualquer outro tipo de intervenção não autorizada ou não licenciada. 7.9 Regime Jurídico Geral Os Art. 7º e seguintes da LBMA tratam do chamado regime jurídico geral de proteção e utilização do Bioma. O Art. 7º inicia estabelecendo que a proteção e a utilização do Bioma Mata Atlântica far-se-ão dentro de condições que assegurem as seguintes condições: I - a manutenção e a recuperação da biodiversidade, vegetação, fauna e regime hídrico do Bioma Mata Atlântica para as presentes e futuras gerações; II - o estímulo à pesquisa, à difusão de tecnologias de manejo sustentável da vegetação e à formação de uma consciência pública sobre a necessidade de recuperação e manutenção dos ecossistemas; III - o fomento de atividades públicas e privadas compatíveis com a manutenção do equilíbrio ecológico; IV - o disciplinamento da ocupação rural e urbana, de forma a harmonizar o crescimento econômico com a manutenção do equilíbrio ecológico. O Art. 8º determina que deve haver critérios diferenciados a informar a autorização para o corte, a supressão e a exploração da vegetação do Bioma Mata Atlântica, conforme se trate de vegetação primária ou secundária, nesta última, levando-se em conta o estágio de regeneração. Conforme o Art. 9º, a exploração eventual, sem propósito comercial direto ou indireto, de espécies da flora nativa, para consumo nas propriedades ou posses das populações tradicionais ou de pequenos produtores rurais, independe de autorização dos órgãos competentes, conforme regulamento. O parágrafo único desse dispositivo determina que os órgãos competentes, sem prejuízo do disposto no caput, deverão assistir as populações tradicionais e os pequenos produtores no manejo e exploração sustentáveis das espécies da flora nativa. Nos termos do Art. 10, o poder público deverá fomentar o enriquecimento ecológico da vegetação do Bioma Mata Atlântica,bem como o plantio e o reflorestamento com espécies nativas, em especial as iniciativas voluntárias de proprietários rurais. Nos casos em que o enriquecimento ecológico exigir a supressão de espécies nativas que gerem produtos ou subprodutos comercializáveis, será exigida a autorização do órgão estadual ou federal competente, mediante procedimento simplificado (§ 1º). O Art. 11 estabelece algumas vedações, dispondo que o corte e a supressão de vegetação primária ou secundária, nos estágios avançado e médio de regeneração do Bioma Mata Atlântica ficam vedados quando: I - a vegetação: a) abrigar espécies da flora e da fauna silvestres ameaçadas de extinção, em território nacional ou em âmbito estadual, assim declaradas pela União ou pelos Estados, e a intervenção ou o parcelamento puserem em risco a sobrevivência dessas espécies; b) exercer a função de proteção de mananciais ou de prevenção e controle de erosão; c) formar corredores entre remanescentes de vegetação primária ou secundária em estágio avançado de regeneração; d) proteger o entorno das unidades de conservação; ou e) possuir excepcional valor paisagístico, reconhecido pelos órgãos executivos competentes do Sistema Nacional do Meio Ambiente - SISNAMA; II - o proprietário ou posseiro não cumprir os dispositivos da legislação ambiental, em especial as exigências da Lei 4.771/65 (Código Florestal, vale o novo), no que respeita às Áreas de Preservação Permanente e à Reserva Legal. Parágrafo único. Verificada a ocorrência do previsto na alínea a do inciso I deste artigo, os órgãos competentes do Poder Executivo adotarão as medidas necessárias para proteger as espécies da flora e da fauna silvestres ameaçadas de extinção caso existam fatores que o exijam, ou fomentarão e apoiarão as ações e os proprietários de áreas que estejam mantendo ou sustentando a sobrevivência dessas espécies. O Art. 12 trata dos novos empreendimentos que impliquem o corte ou a supressão de vegetação do Bioma Mata Atlântica, os quais deverão ser implantados preferencialmente em áreas já substancialmente alteradas ou degradadas. O Art. 13 abre exceções em razão das peculiaridades de algumas situações especiais: Os órgãos competentes do Poder Executivo adotarão normas e procedimentos especiais para assegurar ao pequeno produtor e às populações tradicionais, nos pedidos de autorização de que trata esta Lei: I - acesso fácil à autoridade administrativa, em local próximo ao seu lugar de moradia; II - procedimentos gratuitos, céleres e simplificados, compatíveis com o seu nível de instrução; III - análise e julgamento prioritários dos pedidos. Na dicção do Art. 14, a supressão de vegetação primária e secundária no estágio avançado de regeneração somente poderá ser autorizada em caso de utilidade pública. Já a vegetação secundária em estágio médio de regeneração poderá ser suprimida nos casos de utilidade pública e interesse social. Todos os casos devem ser devidamente caracterizados e motivados em procedimento administrativo próprio, quando inexistir alternativa técnica e locacional ao empreendimento proposto, ressalvado o disposto no inciso I do Art. 30 e nos §§ 1º e 2º do Art. 31 dessa lei. O Art. 14, § 1º, estabelece a regra de que a supressão de que trata o caput desse artigo dependerá de autorização do órgão ambiental estadual competente, com anuência prévia, quando couber, do órgão federal ou municipal de meio ambiente, ressalvado o disposto no § 2º desse artigo. O § 2º do mesmo artigo abre exceção à regra da competência estadual, determinando que a supressão de vegetação no estágio médio de regeneração situada em área urbana dependerá de autorização do órgão ambiental municipal competente, desde que o município possua conselho de meio ambiente, com caráter deliberativo e plano diretor, mediante anuência prévia do órgão ambiental estadual competente fundamentada em parecer técnico. O § 3º do Art. 14 exige que, na proposta de declaração de utilidade pública disposta na alínea b do inciso VII do Art. 3º dessa lei235, o proponente indique de forma detalhada a alta relevância e o interesse nacional. Reforçando o já estabelecido na Constituição Federal, o Art. 15 determina que, na hipótese de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente, o órgão competente exigirá a elaboração de Estudo Prévio de Impacto Ambiental, ao qual se dará publicidade, assegurada a participação pública. Diz o Art. 16 que, na regulamentação dessa lei, deverão ser adotadas normas e procedimentos especiais, simplificados e céleres, para os casos de reutilização das áreas agrícolas submetidas ao pousio. O Art. 17 trata da compensação pelo corte ou supressão de vegetação do Bioma Mata Atlântica, dispondo que o corte ou a supressão de vegetação primária ou secundária nos estágios médio ou avançado de regeneração do Bioma Mata Atlântica, autorizados por essa lei, ficam condicionados à compensação ambiental, na forma da destinação de área equivalente à extensão da área desmatada, com as mesmas características ecológicas, na mesma bacia hidrográfica, sempre que possível na mesma microbacia hidrográfica, e nos casos previstos nos Art. 30 e 31, ambos dessa lei, em áreas localizadas no mesmo Município ou região metropolitana. O § 1º desse artigo ressalva que, verificada pelo órgão ambiental a impossibilidade da compensação ambiental prevista no caput, será exigida a reposição florestal, com espécies nativas, em área equivalente à desmatada, na mesma bacia hidrográfica, sempre que possível na mesma microbacia hidrográfica. Conforme o § 2º, a compensação ambiental a que se refere este artigo não se aplica aos casos previstos no inciso III do Art. 23 dessa lei (pequeno produtor ou populações tradicionais236) ou de corte ou supressão ilegais, os quais ensejarão compensações maiores, a título de penalidades administrativas (Art. 26 e 27 do Decreto 6.660/2008). Segundo o Art. 18, no Bioma Mata Atlântica é livre a coleta de subprodutos florestais, tais como frutos, folhas ou sementes, bem como as atividades de uso indireto, desde que não coloquem em risco as espécies da fauna e flora, observando-se as limitações legais específicas e em particular as relativas ao acesso ao patrimônio genético, à proteção e ao acesso ao conhecimento tradicional associado e de biossegurança. O corte eventual de vegetação primária ou secundária nos estágios médio e avançado de regeneração do Bioma Mata Atlântica, para fins de práticas preservacionistas e de pesquisa científica, será devidamente regulamentado pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente e autorizado pelo órgão competente do Sisnama (Art. 19). 7.10 Regime Jurídico Especial Os artigos 20 e seguintes traçam o regime jurídico especial para o corte e a supressão da vegetação do Bioma Mata Atlântica, conforme os respectivos estágios. Com relação à vegetação primária, o Art. 20 determina que o seu corte ou supressão somente serão autorizados em caráter excepcional, quando necessários à realização de obras, projetos ou atividades de utilidade pública, pesquisas científicas e práticas preservacionistas. O parágrafo único averba que o corte e a supressão de vegetação, no caso de utilidade pública, obedecerão ao disposto no Art. 14 dessa lei, além da realização de Estudo Prévio de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima). Tratando-se de vegetação secundária em estágio avançado de regeneração, o Art. 21 estabelece que o corte, a supressão e a exploração somente serão autorizados, em caráter excepcional, quando necessários à execução de obras, atividades ou projetos de utilidade pública, pesquisa científica e práticas preservacionistas ou nos casos previstos no inciso I do Art. 30 da lei. O Art. 22 especifica que o corte e a supressão previstos no inciso I do Art. 21, no caso de utilidade pública serão realizados na forma do Art. 14, devendo ser realizado Estudo Prévio de Impacto Ambiental, bem como na forma do Art. 19 para os casos de práticas preservacionistas e pesquisas científicas.O Art. 23 cuida do corte, da supressão e da exploração da vegetação secundária em estágio médio de regeneração, os quais somente serão autorizados, “em caráter excepcional, quando necessários à execução de obras, atividades ou projetos de utilidade pública ou de interesse social, pesquisa científica e práticas preservacionistas”. Também poderão ser autorizados, quando “necessários ao pequeno produtor rural e populações tradicionais para o exercício de atividades ou usos agrícolas, pecuários ou silviculturais imprescindíveis à sua subsistência e de sua família, ressalvadas as áreas de preservação permanente e, quando for o caso, após averbação da reserva legal, nos termos da Lei 4.717/65”. Por fim, também podem ser autorizados nos casos previstos nos §§ 1º e 2º do Art. 31 da lei (atividades minerárias). Segundo o Art. 24, o corte e a supressão da vegetação secundária em estágio médio de regeneração, de que trata o inciso I do Art. 23, nos casos de utilidade pública ou interesse social, obedecerão ao disposto no Art. 14. Já na hipótese do inciso III do Art. 23, a autorização é de competência do órgão estadual, informando-se ao Ibama (parágrafo único). O Art. 25 trata do corte, da supressão e da exploração da vegetação secundária em estágio inicial de regeneração do Bioma Mata Atlântica, os quais devem ser autorizados pelo órgão estadual competente. O parágrafo único desse artigo determina corte, a supressão e a exploração de que trata este artigo, nos estados em que a vegetação primária e secundária remanescente do Bioma Mata Atlântica for inferior a 5% da área original, deverão submeter-se ao regime jurídico aplicável à vegetação secundária em estágio médio de regeneração, ressalvadas as áreas urbanas e regiões metropolitanas. A prática agrícola do pousio, nos estados da Federação onde tal procedimento é utilizado tradicionalmente, é admitido pelo Art. 26. Pousio é definido pelo Art. 3º, III, da LBMA, como a prática que prevê a interrupção de atividades ou usos agrícolas, pecuários ou silviculturais do solo por até dez anos, a fim possibilitar a recuperação de sua fertilidade. É o conhecido “descanso” da terra. Conforme o Art. 28, o corte, a supressão e o manejo de espécies arbóreas pioneiras nativas em fragmentos florestais em estágio médio de regeneração, em que sua presença for superior a 60% em relação às demais espécies, poderão ser autorizados pelo órgão estadual competente, observado o disposto no Código Florestal. A lei em comento trata de forma diferenciada os remanescentes da Mata Atlântica localizados em áreas urbanas. Como escreve Frederico Amado, “a LBMA restringiu ainda mais a exploração da Mata Atlântica nas áreas urbanas e regiões metropolitanas, proibindo a supressão de vegetação primária para fins de loteamento e edificação”.237 Com efeito, dispõe o Art. 30: É vedada a supressão de vegetação primária do Bioma Mata Atlântica, para fins de loteamento ou edificação, nas regiões metropolitanas e áreas urbanas consideradas como tal em lei específica, aplicando-se à supressão da vegetação secundária em estágio avançado de regeneração as seguintes restrições: I - nos perímetros urbanos aprovados até a data de início de vigência desta Lei, a supressão de vegetação secundária em estágio avançado de regeneração dependerá de prévia autorização do órgão estadual competente e somente será admitida, para fins de loteamento ou edificação, no caso de empreendimentos que garantam a preservação de vegetação nativa em estágio avançado de regeneração em no mínimo 50% (cinquenta por cento) da área total coberta por esta vegetação, ressalvado o disposto nos arts. 11, 12 e 17 desta Lei e atendido o disposto no Plano Diretor do Município e demais normas urbanísticas e ambientais aplicáveis; II - nos perímetros urbanos aprovados após a data de início de vigência desta Lei, é vedada a supressão de vegetação secundária em estágio avançado de regeneração do Bioma Mata Atlântica para fins de loteamento ou edificação. No mesmo sentido, o Art. 31 acrescenta que, nas regiões metropolitanas e áreas urbanas, assim consideradas em lei, o parcelamento do solo para fins de loteamento ou qualquer edificação em área de vegetação secundária, em estágio médio de regeneração, do Bioma Mata Atlântica, devem obedecer ao disposto no Plano Diretor do Município e demais normas aplicáveis e dependerão de prévia autorização do órgão estadual competente, ressalvado o disposto nos Art. 11, 12 e 17 dessa lei. Já nos perímetros urbanos aprovados até a data de início de vigência dessa lei, a supressão de vegetação secundária em estágio médio de regeneração somente será admitida, para fins de loteamento ou edificação, no caso de empreendimentos que garantam a preservação de vegetação nativa em estágio médio de regeneração em no mínimo 30% da área total coberta por essa vegetação (§ 1º). Nos perímetros urbanos delimitados após a data de início de vigência dessa lei, a supressão de vegetação secundária em estágio médio de regeneração fica condicionada à manutenção de vegetação em estágio médio de regeneração em no mínimo 50% da área total coberta por esta vegetação (§ 2º). As atividades minerárias na Mata Atlântica também estão sujeitas a regime jurídico especial, dispondo o Art. 32 que a supressão de vegetação secundária em estágio avançado e médio de regeneração para fins de atividades minerárias somente será admitida mediante: I - licenciamento ambiental, condicionado à apresentação de Estudo Prévio de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental - EIA/RIMA, pelo empreendedor, e desde que demonstrada a inexistência de alternativa técnica e locacional ao empreendimento proposto; II - adoção de medida compensatória que inclua a recuperação de área equivalente à área do empreendimento, com as mesmas características ecológicas, na mesma bacia hidrográfica e sempre que possível na mesma microbacia hidrográfica, independentemente do disposto no art. 36 da Lei n. 9.985/2000 (SNUC). 7.11 Incentivos Econômicos Os Art. 33 e seguintes estipulam incentivos econômicos para a proteção e manutenção da Mata Atlântica. Determina o Art. 33 que o poder público, sem prejuízo das obrigações dos proprietários e posseiros estabelecidas na legislação ambiental, estimulará, com incentivos econômicos, a proteção e o uso sustentável do Bioma Mata Atlântica. Nos termos do § 1º, na regulamentação dos incentivos econômicos ambientais, serão observadas as seguintes características da área beneficiada: I - a importância e representatividade ambientais do ecossistema e da gleba; II - a existência de espécies da fauna e flora ameaçadas de extinção; III - a relevância dos recursos hídricos; IV - o valor paisagístico, estético e turístico; V - o respeito às obrigações impostas pela legislação ambiental; VI - a capacidade de uso real e sua produtividade atual. O Art. 35 estabelece que a conservação, em imóvel rural ou urbano, da vegetação primária ou da vegetação secundária em qualquer estágio de regeneração do Bioma Mata Atlântica, representa cumprimento função social e é de interesse público, podendo, a critério do proprietário, as áreas sujeitas às restrições de que trata a LBMA ser computadas para efeito da Reserva Legal e seu excedente utilizado para fins de compensação ambiental ou instituição de Cota de Reserva Ambiental (CRA). O parágrafo único desse artigo, determinando que, ressalvadas as hipóteses previstas em lei, as áreas de preservação permanente não integrarão a Reserva Legal, ficou anacrônico diante do que veio a dispor o Art. 15 da Lei 12.651/2012. O Art. 36 institui um Fundo de Restauração do Bioma Mata Atlântica destinado ao financiamento de projetos de restauração ambiental e de pesquisa científica. Segundo o Art. 37, constituirão recursos desse Fundo: I - dotações orçamentárias da União; II - recursos resultantes de doações, contribuições em dinheiro, valores, bens móveis e imóveis, que venha a receber de pessoas físicas e jurídicas, nacionais ou internacionais; III - rendimentos de qualquer natureza, quevenha a auferir como remuneração decorrente de aplicações do seu patrimônio; IV - outros, destinados em lei. Serão beneficiados com recursos do Fundo de Restauração do Bioma Mata Atlântica, conforme o Art. 38, os projetos que envolvam conservação de remanescentes de vegetação nativa, pesquisa científica ou áreas a serem restauradas, implementados em Municípios que possuam plano municipal de conservação e recuperação da Mata Atlântica, devidamente aprovado pelo Conselho Municipal de Meio Ambiente. Terão prioridade de apoio os projetos destinados à conservação e à recuperação das áreas de preservação permanente, reservas legais, reservas particulares do patrimônio natural e áreas do entorno de unidades de conservação (§ 1º). Os projetos poderão beneficiar áreas públicas e privadas e serão executados por órgãos públicos, instituições acadêmicas públicas e organizações da sociedade civil de interesse público que atuem na conservação, restauração ou pesquisa científica no Bioma Mata Atlântica (§ 2º). Dispõe o Art. 41 que o proprietário ou posseiro que tenha vegetação primária ou secundária em estágios avançado e médio de regeneração do Bioma Mata Atlântica receberá das instituições financeiras benefícios creditícios, entre os quais, prioridade na concessão de crédito agrícola, para os pequenos produtores rurais e populações tradicionais (inc. I). O Art. 34 dispõe que as infrações dos dispositivos que regem os benefícios econômicos ambientais, sem prejuízo das sanções penais e administrativas cabíveis, sujeitarão os responsáveis a multa civil de três vezes o valor atualizado recebido ou do imposto devido em relação a cada exercício financeiro, além das penalidades e demais acréscimos previstos na legislação fiscal. O § 1º considera solidariamente responsável por inadimplência ou irregularidade a pessoa física ou jurídica doadora ou propositora de projeto ou proposta de benefício. Conforme o § 2º, a existência de pendências ou irregularidades na execução de projetos de proponentes no órgão competente do Sisnama suspenderá a análise ou concessão de novos incentivos, até a efetiva regularização. 7.12 Infrações e Penalidades O Art. 42 trata das infrações e respectivas penalidades pelo descumprimento dos preceitos da LBMA, em combinação com outros diplomas legais. Dispõe esse artigo que […] a ação ou omissão das pessoas físicas ou jurídicas que importem inobservância aos preceitos desta Lei e a seus regulamentos ou resultem em dano à flora, à fauna e aos demais atributos naturais sujeitam os infratores às sanções previstas em lei, em especial as dispostas na Lei n. 9.605/98 e seus decretos regulamentadores. A Lei n.º 9.605/98 trata das responsabilidades administrativa e penal por danos ou ameaças ao meio ambiente, havendo ainda a possibilidade da responsabilização civil, nos termos das Lei 6.938/81 e 7.347/85. Essas três formas de responsabilização serão vistas em capítulos próprios. 7.13 Disposições Finais Já nas disposições finais, o Art. 46 determina que […] os órgãos competentes adotarão as providências necessárias para o rigoroso e fiel cumprimento desta Lei, e estimularão estudos técnicos e científicos visando à conservação e ao manejo racional do Bioma Mata Atlântica e de sua biodiversidade. O Art. 47, por sua vez, estabelece que, para os efeitos do inciso I do caput do Art. 3º dessa lei (pequena propriedade), “somente serão consideradas as propriedades rurais com área de até cinquenta hectares, registradas em cartório até a data de início de vigência desta Lei, ressalvados os casos de fracionamento por transmissão causa mortis”. 7.14 Crime Por fim, o Art. 48 da LBMA incluiu o Art. 38-A na Lei 9.605/98, instituindo um tipo penal específico para a proteção da Mata Atlântica: Destruir ou danificar vegetação primária ou secundária, em estágio avançado ou médio de regeneração, do Bioma Mata Atlântica, ou utilizá-la com infringência das normas de proteção: pena - detenção, de um a três anos, ou multa, ou ambas as penas cumulativamente. Parágrafo único: se o crime for culposo, a pena será reduzida à metade. 215 Direito do ambiente, 5. ed., Glossário. 216 Idem. 217 Idem, grifos no original. 218 Op. cit., p. 211. 219 STJ, PET no REsp 1240122/PR. 220 Op. cit., p. 446. 221 Disponível em: ttps://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/meio_ambiente/parques/regiao_centrooeste/index.php? p=5773 222 Op. cit., p. 77. 223 Direito do ambiente, 12. ed., p. 255. 224 Ibidem, p. 256. 225 Idem. 226 Op. cit., p. 390. 227 Op. cit., p. 58-59. 228 Cf. Rodrigues, op. cit., p. 380; Amado, op. cit., p. 60. 229 Op. cit., p. 59. 230 Op. cit., p. 259. 231 Op. cit., p. 95 e segs. 232 “a) fisionomia herbáceo/arbustiva de porte baixo, com cobertura vegetal variando de fechada a aberta; b) espécies lenhosas com distribuição diamétrica de pequena amplitude; c) epífitas, se existentes, são representadas principalmente por líquenes, briófitas e pteridófitas, com baixa diversidade; d) trepadeiras, se presentes, são geralmente herbáceas; e) serapilheira, quando existente, forma uma camada fina pouco decomposta, contínua ou não; f) diversidade biológica variável com poucas espécies arbóreas ou arborescentes, podendo apresentar plântulas de espécies características de outros estágios; g) espécies pioneiras abundantes; h) ausência de sobosque”. 233 “a) fisionomia arbórea e/ou arbustiva, predominando sobre a herbácea, podendo constituir estratos diferenciados; b) cobertura arbórea, variando de aberta a fechada, com a ocorrência eventual de indivíduos emergentes; c) distribuição diamétrica apresentando amplitude moderada, com predomínio de pequenos diâmetros; d) epífitas aparecendo com maior número de indivíduos e espécies em relação ao estágio inicial, sendo mais abundantes na floresta ombrófila; e) trepadeiras, quando presentes são predominantemente lenhosas; f) serapilheira presente, variando de espessura de acordo com as estações do ano e a localização; g) diversidade biológica significativa; h) subosque presente”. 234 “a) fisionomia arbórea, dominante sobre as demais, formando um dossel fechado e relativamente uniforme no porte, podendo apresentar árvores emergentes; b) espécies emergentes, ocorrendo com diferentes graus de intensidade; c) copas superiores, horizontalmente amplas; d) distribuição diamétrica de grande amplitude; e) epífitas, presentes em grande número de espécies e com grande abundância, principalmente na floresta ombrófila; f) trepadeiras, geralmente lenhosas, sendo mais abundantes e ricas em espécies na floresta estacional; g) serapilheira abundante; h) diversidade biológica muito grande devido à complexidade estrutural; i) estratos herbáceo, arbustivo e um notadamente arbóreo; j) florestas neste estágio podem apresentar fisionomia semelhante à vegetação primária; l) subosque normalmente menos expressivo do que no estágio médio; m) dependendo da formação florestal, pode haver espécies dominantes”. 235 Obras essenciais de infraestrutura de interesse nacional destinadas aos serviços públicos de transporte, saneamento e energia, declaradas pelo poder público federal ou dos Estados. 236 Quando necessários ao pequeno produtor rural e populações tradicionais para o exercício de atividades ou usos agrícolas, pecuários ou silviculturais imprescindíveis à sua subsistência e de sua família, ressalvadas as áreas de preservação permanente e, quando for o caso, após averbação da reserva legal. 237 Op. cit., p. 453. CAPÍTULO 8 O SISTEMA NACIONAL DAS UNIDADES DE CONSERVAÇÃO (SNUC) Não faz muito tempo, por exemplo, descobriu-se, na Secretaria de Agricultura do Acre, um decreto do presidente Hermes da Fonseca, datado de 25 de julho de 1911, criando quatro reservas florestais naquele antigo território, numa área total de 5 milhões de hectares, justificadas pela grande preocupação com a depredação dos recursos naturais em todo o país. (José Afonso da Silva) 8.1 Introdução No passado, certas florestas eram objeto de proteção, mas não por seu valor ecológico, e sim por sua importânciaações civis públicas em um mês”. Suspense. “Queria lhe dar os parabéns”, completou o Dr. Nelson Gonzaga de Oliveira, para meu alívio! Aprendi que Corregedoria não deve servir só para vigiar e punir, mas também para orientar e incentivar. Alguns anos depois, tive também o privilégio de fazer parte de um grupo de promotores ambientalistas liderados pelo então procurador de Justiça coordenador da área no estado de São Paulo e hoje ministro do Superior Tribunal de Justiça e eminente doutrinador do Direito Ambiental, Dr. Antônio Herman de Vasconcellos e Benjamin. Integrando esse grupo pude participar de produtivas reuniões e de profícuos congressos e seminários ao lado de colegas que se transformaram em luminares do Direito Ambiental, como Laerte Fernando Levai, que me honra com o prefácio deste livro, Daniel Roberto Fink, Fernando Reverendo Vidal Akaoui e tantos outros. Na faina diária da Promotoria de Justiça do Meio Ambiente em diversas comarcas do interior de São Paulo, primeiro como substituto, depois como titular em Iguape, Tatuí e Sorocaba, mesmo acumulando diversas outras atribuições, foram centenas, quiçá milhares de representações, atendimentos, reuniões, procedimentos preparatórios, inquéritos civis, termos de ajustamento de conduta, audiências públicas e ações civis públicas na defesa judicial e extrajudicial do meio ambiente. Há 30 anos exercendo, por opção, o cargo de 4º Promotor de Justiça de Sorocaba, pude somar, à atuação ambiental, as áreas de Habitação e Urbanismo e Patrimônio Histórico, com evidentes interfaces com o Direito Ambiental. A prática profissional e o necessário estudo me levaram naturalmente à docência da disciplina de Direito Ambiental na septuagenária Faculdade de Direito de Sorocaba, minha alma mater, para a qual tive a honra de ser escalado pelo então diretor, Dr. Hugo Leandro Maranzano. E foi nessa prazerosa e estimulante atividade que comecei a elaborar o material que resultou neste livro. São apostilas que, sem pretender substituir a doutrina especializada, costumo disponibilizar semanalmente aos alunos, procurando sistematizar e resumir o vasto e intrincado universo do Direito Ambiental. Ano a ano, o material foi atualizado, complementado e enriquecido, principalmente buscando atender às necessidades e às dúvidas dos alunos, com os quais também aprendi. Foi também na docência do Direito Ambiental que pude perceber a falta, no mercado editorial brasileiro, de um manual introdutório da disciplina que abrangesse o essencial da matéria em linguagem simples e acessível, tanto para estudantes, como para profissionais do Direito. Com efeito, a literatura jurídica ambiental já conta com obras de fôlego, verdadeiros tratados, como são o Direito Ambiental brasileiro, do pioneiro Paulo Affonso Leme Machado, o Direito do ambiente, de Édis Milaré, o Direito Ambiental esquematizado, de Frederico Amado, e o Direito Ambiental esquematizado, de Marcelo Abelha Rodrigues e vários outros. Conta também com obras de caráter mais monográfico, como o Direito Ambiental constitucional, de José Afonso da Silva, Direito Constitucional ecológico, de Ingo Wolfgang Sarlet e Tiago Fensterseifer, e Ética ambiental, de José Renato Nalini, dentre outros. Sem qualquer demérito para essas e outras obras de grande qualidade e importância, o fato é que, salvo melhor juízo, faltava um manual nos moldes ora apresentado. A obra, portanto, não pretende esgotar o tema, nem se aprofundar em pormenores, mas apenas servir como manual de consulta e guia, uma espécie de “mapa do caminho”, para ser utilizado no dia a dia, e a partir do qual o estudante e o profissional possam depois se aprofundar no amplo universo do Direito Ambiental, sobretudo utilizando a doutrina abalizada citada ao longo do texto. Assim é que, depois de uma breve introdução geral à questão da ecologia e da importância da preservação ambiental, tema cada vez mais candente na atualidade, o texto vem estruturado a partir da Constituição Federal, com seu capítulo específico sobre o meio ambiente e disposições esparsas relativas ao tema. No âmbito infraconstitucional, passa pelo exame das competências ambientais dos entes federativos estipuladas na Lei Complementar 140/2011 e pela disciplina geral da Política Nacional do Meio Ambiente dada pela Lei 6.836/81. Em seguida, os temas são divididos, para fins didáticos, em setores correspondentes aos recursos ou bens ambientais mais relevantes: flora, água, solo, ar, fauna e biodiversidade. Trata também da questão do clima, tema abrangente e que hoje domina o debate público ambiental em âmbito mundial e norteia políticas públicas e as atividades do setor privado. Por fim, o texto também aborda as formas de defesa administrativa e judicial do meio ambiente, por meio da explanação das responsabilidades administrativa, civil e criminal pelo dano ou pela ameaça ao meio ambiente. Também por opção didática, não há capítulos exclusivos para tratar do Direito Internacional do Meio Ambiente e dos princípios do Direito Ambiental. Isso, no entanto, não significa que esses temas foram ignorados, sendo abordados ao longo dos diversos capítulos, conforme a necessidade. Na crença de que o Direito Ambiental é uma poderosa ferramenta para a defesa do meio ambiente, a obra pretende ser útil para estudantes de graduação, aspirantes à OAB, candidatos a concursos públicos e profissionais, não apenas da área jurídica, mas de todos os campos acadêmicos e profissionais que lidam com a matéria. O autor. CAPÍTULO 1 MEIO AMBIENTE E ECOLOGIA A civilização tem isto de terrível: o poder indiscriminado do homem abafando os valores da natureza. Se antes recorríamos a esta para dar uma base estável ao Direito (e, no fundo, essa é a razão do Direito Natural), assistimos, hoje, a uma trágica inversão, sendo o homem obrigado a recorrer ao Direito para salvar a natureza que morre. (Miguel Reale) 1.1 Introdução A Terra é o habitat do ser humano, o único possível, talvez mesmo a longo prazo. É a nossa casa comum (oikos). Pode também ser comparada a uma imensa nave espacial, que transporta toda a humanidade para um destino comum, numa viagem que não tem volta e não se sabe quando nem como irá terminar. O que se sabe é que os estoques de água e de oxigênio dessa nave são limitados e não podem ser repostos, nem fabricados, podendo apenas ser reciclados. Também não há como jogar o esgoto, nem o lixo para fora, podendo-se apenas tratá-los ou reciclá-los. Há um limite para a produção de alimentos, enquanto o número de passageiros só aumenta. Pensando dessa forma, podemos enxergar mais claramente a necessidade de cuidar do nosso planeta e a responsabilidade de todos por esse cuidado. Também podemos pensar na Terra como algo que não é nosso, mas que nos foi emprestado pelo Criador e pelo qual, portanto, devemos zelar da melhor forma possível, e que, ao devolvermos, deve estar, no mínimo, no mesmo estado em que recebemos. Claro que, sendo um bem tão precioso e que vai ser herdado por nossos filhos, netos e bisnetos, o ideal é que o devolvamos numa condição melhor do que aquela em que o recebemos. O planeta Terra existe há bilhões de anos e sempre passou por alterações, tanto em sua superfície, como no seu interior e em sua atmosfera. Essas alterações decorreram de fenômenos naturais e correspondem, grosso modo, às eras geológicas (pleistoceno, holoceno etc.). Nos últimos três séculos, no entanto, conforme observam Sarlet e Fensterseifer, a magnitude da intervenção do ser humano no planeta é tão grande que já se fala numa nova era geológica, “com o término do Período Geológico do Holoceno (ou Holocênico) e o início do novo Período Geológico do Antropoceno (“Era dos Seres Humanos”)”.1 Esse epíteto não é exatamente uma homenagem, ressaltam os autores. No entanto, como bem adverte José Renato Nalini, não é propriamente o planeta que corre risco, mas a humanidade e outras formas: “o planeta poderá prosseguir em sua existência física por não se sabe quanto tempo mais. Porém, prescindirá da espécie humana para isso”.2econômica ou mesmo simbólica. Historicamente, considera-se que a primeira reserva ambiental criada no mundo foi o Parque Nacional de Yellowstone, nos EUA, em 1872, sob a influência do escritor e ecologista John Muir. No Brasil, Dom Pedro II, criou em 1861, a Floresta da Tijuca iniciando um programa de recuperação da vegetação que, ao longo de 13 anos, ali plantou mais de 100.000 árvores nativas. Hoje, essa floresta compõe o Parque Nacional da Tijuca, a maior floresta urbana do mundo. Criado em 1961, o Parque tem cerca de 4.000 hectares.238 As primeiras reservas florestais formais foram criadas em 1911, no então território do Acre, porém nunca implantadas de fato.239 O primeiro Parque Nacional brasileiro foi o de Itatiaia, criado em 1937. No entanto, até a edição da Lei 9.985/2000, que instituiu o Sistema Nacional das Unidades de Conservação (SNUC), não havia uma sistematização adequada do tema e muitos parques e reservas ambientais eram criados, mas não implantados, sendo conhecidos como “parques de papel”. 8.2 Fundamentos Constitucionais Como já visto em capítulo anterior, o Art. 225, § 1o, inciso III, da Constituição Federal prevê, como um dos instrumentos do Poder Público para a assegurar a efetividade do direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, a definição, em todas as unidades da Federação, de “espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos, sendo a alteração e a supressão permitidas somente através de lei”, vedando “qualquer utilização que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua proteção”. Trata-se dos espaços territoriais especialmente protegidos, dentre os quais estão as Unidades de Conservação. Em matéria de competência material, dispõe o Art. 23 da CRFB: É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios: […] III - proteger os documentos, as obras e outros bens de valor histórico, artístico e cultural, os monumentos, as paisagens naturais notáveis e os sítios arqueológicos […] VI - proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas formas; VII - preservar as florestas, a fauna e a flora […]”. Quanto à competência legislativa, determina o Art. 24 que […] compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre: […] VI - florestas, caça, pesca, fauna, conservação da natureza, defesa do solo e dos recursos naturais, proteção do meio ambiente e controle da poluição; VII - proteção ao patrimônio histórico, cultural, artístico, turístico e paisagístico; […]. E, segundo o art. 30, “compete aos Municípios: I - legislar sobre assuntos de interesse local […]. Desses dispositivos constitucionais, infere-se a competência de todos os entes federativos para instituir e manter unidades de conservação da natureza. 8.3 Fundamentos Legais Tratando da repartição de competências materiais e da cooperação entre os entes federados em matéria ambiental, a Lei Complementar 140/2011 estabelece, em seu Art. 3º, que […] constituem objetivos fundamentais da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, no exercício da competência comum a que se refere esta Lei Complementar: I - proteger, defender e conservar o meio ambiente ecologicamente equilibrado, promovendo gestão descentralizada, democrática e eficiente […]. Ao especificar as ações administrativas dos entes estatais, a mesma lei incumbe à União, aos Estados e aos Municípios “definir espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos” (artigos 7º, X; 8º, X; e 9º, X, e 10). Nos termos do Art. 9º, VI, da Lei 6.938/81 (Política Nacional do Meio Ambiente), “a criação de espaços territoriais especialmente protegidos pelo Poder Público federal, estadual e municipal, tais como áreas de proteção ambiental, de relevante interesse ecológico e reservas extrativistas” constitui instrumento da Política Nacional do Meio Ambiente. 8.4 A Lei 9.985/2000 Atendendo ao mandamento constitucional, a Lei 9.985/2000 instituiu o Sistema Nacional das Unidades de Conservação (SNUC), estabelecendo critérios e normas para a criação, implantação e gestão das unidades de conservação (Art. 1º). Supriu, assim, uma deficiência na legislação ambiental brasileira, que possibilitava a criação dos chamados “parques de papel” (nunca implantados) e outras reservas ambientais sem critérios uniformes e normas eficientes. Unidades de Conservação são espaços territoriais e seus recursos ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente instituídos pelo Poder Público, com objetivos de conservação e limites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção (Art. 2º, I). Conforme Milaré, as Unidades de Conservação são espaços territoriais especialmente protegidos em sentido estrito (stricto sensu), ao passo que as Áreas de Preservação Permanente, a Reserva Legal, as Áreas de Uso Restrito e as Áreas Verdes Urbanas, previstas no Código Florestal, também são ETEPs, estas em sentido amplo (lato sensu).240 8.4.1 Conceitos Além do conceito de unidade de conservação (inc. I), o Art. 2º da Lei 9.985/2000, em seus incisos II e XIX, apresenta vários conceitos, válidos não apenas para o Sistema das Unidades de Conservação, mas para o Direito Ambiental em geral, verbis: II - conservação da natureza: o manejo do uso humano da natureza, compreendendo a preservação, a manutenção, a utilização sustentável, a restauração e a recuperação do ambiente natural, para que possa produzir o maior benefício, em bases sustentáveis, às atuais gerações, mantendo seu potencial de satisfazer as necessidades e aspirações das gerações futuras, e garantindo a sobrevivência dos seres vivos em geral; III - diversidade biológica: a variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas; IV - recurso ambiental: a atmosfera, as águas interiores, superficiais e subterrâneas, os estuários, o mar territorial, o solo, o subsolo, os elementos da biosfera, a fauna e a flora; V - preservação: conjunto de métodos, procedimentos e políticas que visem a proteção a longo prazo das espécies, habitats e ecossistemas, além da manutenção dos processos ecológicos, prevenindo a simplificação dos sistemas naturais; VI - proteção integral: manutenção dos ecossistemas livres de alterações causadas por interferência humana, admitido apenas o uso indireto dos seus atributos naturais; VII - conservação in situ: conservação de ecossistemas e habitats naturais e a manutenção e recuperação de populações viáveis de espécies em seus meios naturais e, no caso de espécies domesticadas ou cultivadas, nos meios onde tenham desenvolvido suas propriedades características; VIII - manejo: todo e qualquer procedimento que vise assegurar a conservação da diversidade biológica e dos ecossistemas; IX - uso indireto: aquele que não envolve consumo, coleta, dano ou destruição dos recursos naturais; X - uso direto: aquele que envolve coleta e uso, comercial ou não, dos recursos naturais; XI - uso sustentável: exploração do ambiente de maneira a garantir a perenidade dos recursos ambientais renováveis e dos processos ecológicos, mantendo a biodiversidade e os demais atributos ecológicos, de forma socialmente justa e economicamente viável; XII - extrativismo: sistema de exploração baseado na coleta e extração, de modo sustentável, de recursos naturais renováveis; XIII - recuperação: restituição de um ecossistema ou de uma população silvestre degradada a uma condição não degradada, que pode ser diferente de sua condição original; XIV - restauração: restituição de um ecossistema ou de uma população silvestre degradada o mais próximo possível da sua condição original; […] XVI - zoneamento: definição de setores ou zonas em uma unidade de conservação comobjetivos de manejo e normas específicos, com o propósito de proporcionar os meios e as condições para que todos os objetivos da unidade possam ser alcançados de forma harmônica e eficaz; XVII - plano de manejo: documento técnico mediante o qual, com fundamento nos objetivos gerais de uma unidade de conservação, se estabelece o seu zoneamento e as normas que devem presidir o uso da área e o manejo dos recursos naturais, inclusive a implantação das estruturas físicas necessárias à gestão da unidade; XVIII - zona de amortecimento: o entorno de uma unidade de conservação, onde as atividades humanas estão sujeitas a normas e restrições específicas, com o propósito de minimizar os impactos negativos sobre a unidade; XIX - corredores ecológicos: porções de ecossistemas naturais ou seminaturais, ligando unidades de conservação, que possibilitam entre elas o fluxo de genes e o movimento da biota, facilitando a dispersão de espécies e a recolonização de áreas degradadas, bem como a manutenção de populações que demandam para sua sobrevivência áreas com extensão maior do que aquela das unidades individuais. 8.4.2 Sistema Nacional Como visto, a criação de espaços territoriais especialmente protegidos é competência comum federal, estadual e municipal (artigos 9, VI, da Lei da Lei 6.938/81, e 7º, X; 8º, X; e 9º, X, e 10 da LC 140/2011). Nesse sentido, dispõe o Art. 3º da Lei 9.985/2000 que o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC) é constituído pelo conjunto das unidades de conservação federais, estaduais e municipais. 8.4.3 Objetivos do SNUC Nos termos do Art. 4º, o Sistema Nacional das Unidades de Conservação (SNUC) tem os seguintes objetivos: I - contribuir para a manutenção da diversidade biológica e dos recursos genéticos no território nacional e nas águas jurisdicionais; II - proteger as espécies ameaçadas de extinção no âmbito regional e nacional; III - contribuir para a preservação e a restauração da diversidade de ecossistemas naturais; IV - promover o desenvolvimento sustentável a partir dos recursos naturais; V - promover a utilização dos princípios e práticas de conservação da natureza no processo de desenvolvimento; VI - proteger paisagens naturais e pouco alteradas de notável beleza cênica; VII - proteger as características relevantes de natureza geológica, geomorfológica, espeleológica, arqueológica, paleontológica e cultural; VIII - proteger e recuperar recursos hídricos e edáficos (solo); IX - recuperar ou restaurar ecossistemas degradados; X - proporcionar meios e incentivos para atividades de pesquisa científica, estudos e monitoramento ambiental; XI - valorizar econômica e socialmente a diversidade biológica; XII - favorecer condições e promover a educação e interpretação ambiental, a recreação em contato com a natureza e o turismo ecológico; XIII - proteger os recursos naturais necessários à subsistência de populações tradicionais, respeitando e valorizando seu conhecimento e sua cultura e promovendo-as social e economicamente. 8.4.4 Diretrizes do SNUC As diretrizes do SNUC são estabelecidas pelo Art. 5º, que determina que o Sistema será regido diretrizes que: I - assegurem que no conjunto das unidades de conservação estejam representadas amostras significativas e ecologicamente viáveis das diferentes populações, habitats e ecossistemas do território nacional e das águas jurisdicionais, salvaguardando o patrimônio biológico existente; II - assegurem os mecanismos e procedimentos necessários ao envolvimento da sociedade no estabelecimento e na revisão da política nacional de unidades de conservação; III - assegurem a participação efetiva das populações locais na criação, implantação e gestão das unidades de conservação; IV - busquem o apoio e a cooperação de organizações não- governamentais, de organizações privadas e pessoas físicas para o desenvolvimento de estudos, pesquisas científicas, práticas de educação ambiental, atividades de lazer e de turismo ecológico, monitoramento, manutenção e outras atividades de gestão das unidades de conservação; V - incentivem as populações locais e as organizações privadas a estabelecerem e administrarem unidades de conservação dentro do sistema nacional; VI - assegurem, nos casos possíveis, a sustentabilidade econômica das unidades de conservação; VII - permitam o uso das unidades de conservação para a conservação in situ de populações das variantes genéticas selvagens dos animais e plantas domesticados e recursos genéticos silvestres; VIII - assegurem que o processo de criação e a gestão das unidades de conservação sejam feitos de forma integrada com as políticas de administração das terras e águas circundantes, considerando as condições e necessidades sociais e econômicas locais; IX - considerem as condições e necessidades das populações locais no desenvolvimento e adaptação de métodos e técnicas de uso sustentável dos recursos naturais; X - garantam às populações tradicionais cuja subsistência dependa da utilização de recursos naturais existentes no interior das unidades de conservação meios de subsistência alternativos ou a justa indenização pelos recursos perdidos; XI - garantam uma alocação adequada dos recursos financeiros necessários para que, uma vez criadas, as unidades de conservação possam ser geridas de forma eficaz e atender aos seus objetivos; XII - busquem conferir às unidades de conservação, nos casos possíveis e respeitadas as conveniências da administração, autonomia administrativa e financeira; e XIII - busquem proteger grandes áreas por meio de um conjunto integrado de unidades de conservação de diferentes categorias, próximas ou contíguas, e suas respectivas zonas de amortecimento e corredores ecológicos, integrando as diferentes atividades de preservação da natureza, uso sustentável dos recursos naturais e restauração e recuperação dos ecossistemas. 8.4.5 Órgãos Gestores Nos termos do Art. 6º, o SNUC será gerido pelos seguintes órgãos, com as respectivas atribuições: I – Órgão consultivo e deliberativo: o Conselho Nacional do Meio Ambiente - Conama, com as atribuições de acompanhar a implementação do Sistema; II - Órgão central: o Ministério do Meio Ambiente, com a finalidade de coordenar o Sistema; e III - órgãos executores: o Instituto Chico Mendes e o Ibama, em caráter supletivo, os órgãos estaduais e municipais, com a função de implementar o SNUC, subsidiar as propostas de criação e administrar as unidades de conservação federais, estaduais e municipais, nas respectivas esferas de atuação. Dentre os órgãos gestores merece destaque o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, cuja incumbência principal é gerir as unidades de conservação federais. Trata-se de uma autarquia em regime especial, criada dia 28 de agosto de 2007, pela Lei 11.516. O ICMBio é vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e integra o Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama). Compete ao Instituto executar as ações do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, podendo propor, implantar, gerir, proteger, fiscalizar e monitorar as UCs instituídas pela União. Cabe-lhe ainda fomentar e executar programas de pesquisa, proteção, preservação e conservação da biodiversidade e exercer o poder de polícia ambiental para a proteção das Unidades de Conservação federais.241 8.4.6 Classificações Conforme Abelha Rodrigues, as unidades de conservação podem ser: a) públicas ou privadas; b) de proteção integral ou de uso sustentável; c) de uso direto ou indireto dos seus recursos ambientais. A mais importante das classificações é aquela que decorre do Art. 7º da Lei 9.985/2000, segundo o qual as unidades de conservação integrantes do SNUC dividem-se em dois grupos, com características específicas: I – Unidades de Proteção Integral, cujo objetivo básico das é preservar a natureza, sendo admitido apenas o uso indireto dos seus recursos naturais, com exceção dos casos previstos nesta Lei (Art. 7º, § 1º). II – Unidades de Uso Sustentável, cujo objetivo básico das é compatibilizara conservação da natureza com o uso sustentável de parcela dos seus recursos naturais (Art. 7º, § 2º). 8.4.7 Unidades de Proteção Integral As Unidades de Proteção Integral têm por objetivo básico preservar a natureza, sendo admitido apenas o uso indireto dos seus recursos naturais, com exceção dos casos previstos nesta Lei (Art. 7º, § 1º). Nos termos do Art. 2º, IX, uso indireto é aquele que não envolve consumo, coleta, dano ou destruição dos recursos naturais. Segundo o Art. 8º, o grupo das Unidades de Proteção Integral é composto pelas seguintes espécies de unidade de conservação: I – Estação Ecológica; II – Reserva Biológica; III – Parque Nacional; IV – Monumento Natural; V – Refúgio de Vida Silvestre. Vejamos como a lei trata cada uma delas: 8.4.7.1 Estação Ecológica (ESEC) A Estação Ecológica tem como objetivo a preservação da natureza e a realização de pesquisas científicas (Art. 9º). Essa categoria de unidade de conservação é de posse e domínio públicos, sendo que as áreas particulares incluídas em seus limites serão desapropriadas, de acordo com o que dispõe a lei (§ 1º). Nela, é proibida a visitação pública, exceto quando com objetivo educacional, de acordo com o que dispuser o Plano de Manejo da unidade ou regulamento específico (§ 2º). A pesquisa científica depende de autorização prévia do órgão responsável pela administração da unidade e está sujeita às condições e às restrições por esse estabelecidas, bem como àquelas previstas em regulamento (§ 3º). Dispõe o § 4º do Art. 9º que na Estação Ecológica só podem ser permitidas alterações dos ecossistemas no caso de: I - medidas que visem a restauração de ecossistemas modificados; II - manejo de espécies com o fim de preservar a diversidade biológica; III - coleta de componentes dos ecossistemas com finalidades científicas; IV - pesquisas científicas cujo impacto sobre o ambiente seja maior do que aquele causado pela simples observação ou pela coleta controlada de componentes dos ecossistemas, em uma área correspondente a no máximo três por cento da extensão total da unidade e até o limite de um mil e quinhentos hectares. 8.4.7.2 Reserva Biológica (REBIO) A Reserva Biológica tem como objetivo a preservação integral da biota e demais atributos naturais existentes em seus limites, sem interferência humana direta ou modificações ambientais, excetuando-se as medidas de recuperação de seus ecossistemas alterados e as ações de manejo necessárias para recuperar e preservar o equilíbrio natural, a diversidade biológica e os processos ecológicos naturais (Art. 10). A Reserva Biológica é de posse e domínio públicos, sendo que as áreas particulares incluídas em seus limites serão desapropriadas, de acordo com o que dispõe a lei (§ 1º). É proibida a visitação pública, exceto aquela com objetivo educacional, de acordo com regulamento específico (§ 2º). A pesquisa científica depende de autorização prévia do órgão responsável pela administração da unidade e está sujeita às condições e às restrições por este estabelecidas, bem como àquelas previstas em regulamento (§ 3º). 8.4.7.3 Parque Nacional (PN) O Parque Nacional tem como objetivo básico a preservação de ecossistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza cênica, possibilitando a realização de pesquisas científicas e o desenvolvimento de atividades de educação e interpretação ambiental, de recreação em contato com a natureza e de turismo ecológico (Art. 11). O Parque Nacional é de posse e domínio públicos, sendo que as áreas particulares incluídas em seus limites serão desapropriadas, de acordo com o que dispõe a lei (§ 1). A visitação pública está sujeita às normas e restrições estabelecidas no Plano de Manejo da unidade, às normas estabelecidas pelo órgão responsável por sua administração e àquelas previstas em regulamento (§ 2º). A pesquisa científica depende de autorização prévia do órgão responsável pela administração da unidade e está sujeita às condições e às restrições por este estabelecidas, bem como àquelas previstas em regulamento (§ 3º). As unidades dessa categoria, quando criadas pelo Estado ou Município, serão denominadas, respectivamente, Parque Estadual e Parque Natural Municipal (§ 4º). 8.4.7.4 Monumento Natural (MONAT) O Monumento Natural tem como objetivo básico preservar sítios naturais raros, singulares ou de grande beleza cênica (Art. 12). Essa categoria de unidade de conservação pode ser constituída por áreas particulares, desde que seja possível compatibilizar os objetivos da unidade com a utilização da terra e dos recursos naturais do local pelos proprietários (§ 1º). Havendo incompatibilidade entre os objetivos da área e as atividades privadas ou não havendo aquiescência do proprietário às condições propostas pelo órgão responsável pela administração da unidade para a coexistência do Monumento Natural com o uso da propriedade, a área deve ser desapropriada, de acordo com o que dispõe a lei (§ 2º). A visitação pública está sujeita às condições e às restrições estabelecidas no Plano de Manejo da unidade, às normas estabelecidas pelo órgão responsável por sua administração e àquelas previstas em regulamento (§ 3º). 8.4.7.5 Refúgio de Vida Silvestre (RVS) O Refúgio de Vida Silvestre tem como objetivo proteger ambientes naturais, onde se asseguram condições para a existência ou reprodução de espécies ou comunidades da flora local e da fauna residente ou migratória (Art. 13). Essa categoria de unidade de conservação pode ser constituída por áreas particulares, desde que seja possível compatibilizar os objetivos da unidade com a utilização da terra e dos recursos naturais do local pelos proprietários (§ 1º). Havendo incompatibilidade entre os objetivos da área e as atividades privadas ou não havendo aquiescência do proprietário às condições propostas pelo órgão responsável pela administração da unidade para a coexistência do Refúgio de Vida Silvestre com o uso da propriedade, a área deve ser desapropriada, de acordo com o que dispõe a lei (§ 2º). A visitação pública está sujeita às normas e às restrições estabelecidas no Plano de Manejo da unidade, às normas estabelecidas pelo órgão responsável por sua administração e àquelas previstas em regulamento (§ 3º). A pesquisa científica depende de autorização prévia do órgão responsável pela administração da unidade e está sujeita às condições e às restrições por esse estabelecidas, bem como àquelas previstas em regulamento (§ 4º). 8.4.8 Unidades de Uso Sustentável Diferentemente das Unidades de Proteção Integral, as Unidades de Uso Sustentável têm por objetivo básico compatibilizar a conservação da natureza com o uso sustentável de parcela dos seus recursos naturais (Art. 7º, § 2º). Uso sustentável significa a exploração do ambiente de maneira a garantir a perenidade dos recursos ambientais renováveis e dos processos ecológicos, mantendo a biodiversidade e os demais atributos ecológicos, de forma socialmente justa e economicamente viável (Art. 2º, XI). Segundo o Art. 14, constituem o grupo das Unidades de Uso Sustentável as seguintes categorias de unidade de conservação: I – Área de Proteção Ambiental; II – Área de Relevante Interesse Ecológico; III – Floresta Nacional; IV – Reserva Extrativista; V – Reserva de Fauna; VI – Reserva de Desenvolvimento Sustentável; e VII – Reserva Particular do Patrimônio Natural. 8.4.8.1 Área de Proteção Ambiental (APA) A Área de Proteção Ambiental é uma área em geral extensa, com um certo grau de ocupação humana, dotada de atributos abióticos, bióticos, estéticos ou culturais especialmente importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas e tem como objetivos básicos proteger a diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais (Art. 15). A APA é constituída por terras públicas ou privadas (§ 1º). Respeitados os limites constitucionais, podem ser estabelecidas normas e restrições para a utilização de uma propriedade privada localizada em uma Área de Proteção Ambiental(§ 2º). As condições para a realização de pesquisa científica e visitação pública nas áreas sob domínio público serão estabelecidas pelo órgão gestor da unidade (§ 3º). Nas áreas sob propriedade privada, cabe ao proprietário estabelecer as condições para pesquisa e visitação pelo público, observadas as exigências e restrições legais (§ 4º). A Área de Proteção Ambiental disporá de um Conselho presidido pelo órgão responsável por sua administração e constituído por representantes dos órgãos públicos, de organizações da sociedade civil e da população residente, conforme se dispuser no regulamento dessa lei (§ 5º). 8.4.8.2 Área de Relevante Interesse Ecológico (Arie) A Área de Relevante Interesse Ecológico é uma área em geral de pequena extensão, com pouca ou nenhuma ocupação humana, com características naturais extraordinárias ou que abriga exemplares raros da biota regional, e tem como objetivo manter os ecossistemas naturais de importância regional ou local e regular o uso admissível dessas áreas, de modo a compatibilizá-lo com os objetivos de conservação da natureza (Art. 16). Essa categoria de unidade de conservação é constituída por terras públicas ou privadas (§ 1º). Respeitados os limites constitucionais, podem ser estabelecidas normas e restrições para a utilização de uma propriedade privada localizada em uma Área de Relevante Interesse Ecológico (§ 2º). 8.4.8.3 Floresta Nacional (Flona) A Floresta Nacional é uma área com cobertura florestal de espécies predominantemente nativas e tem como objetivo básico o uso múltiplo sustentável dos recursos florestais e a pesquisa científica, com ênfase em métodos para exploração sustentável de florestas nativas (Art. 17). Essa categoria de unidade de conservação é de posse e domínio públicos, sendo que as áreas particulares incluídas em seus limites devem ser desapropriadas, de acordo com o que dispõe a lei (§ 1º). Nas Florestas Nacionais é admitida a permanência de populações tradicionais que a habitam quando de sua criação, em conformidade com o disposto em regulamento e no Plano de Manejo da unidade (§ 2º). A visitação pública é permitida, condicionada às normas estabelecidas para o manejo da unidade pelo órgão responsável por sua administração (§ 3º). A pesquisa é permitida e incentivada, sujeitando-se à prévia autorização do órgão responsável pela administração da unidade, às condições e às restrições por este estabelecidas e àquelas previstas em regulamento (§ 4º). A Floresta Nacional disporá de um Conselho Consultivo, presidido pelo órgão responsável por sua administração e constituído por representantes de órgãos públicos, de organizações da sociedade civil e, quando for o caso, das populações tradicionais residentes (§ 5º). A unidade desta categoria, quando criada pelo Estado ou Município, será denominada, respectivamente, Floresta Estadual e Floresta Municipal (§ 6º). 8.4.8.4 Reserva Extrativista (RESEX) A Reserva Extrativista é uma área utilizada por populações extrativistas tradicionais, cuja subsistência baseia-se no extrativismo e, complementarmente, na agricultura de subsistência e na criação de animais de pequeno porte, e tem como objetivos básicos proteger os meios de vida e a cultura dessas populações e assegurar o uso sustentável dos recursos naturais da unidade (Art. 18). A Reserva Extrativista é de domínio público, com uso concedido às populações extrativistas tradicionais, conforme o disposto no Art. 23 dessa lei e em regulamentação específica, sendo que as áreas particulares incluídas em seus limites devem ser desapropriadas, de acordo com o que dispõe a lei (§ 1º). A RESEX será gerida por um Conselho Deliberativo, presidido pelo órgão responsável por sua administração e constituído por representantes de órgãos públicos, de organizações da sociedade civil e das populações tradicionais residentes na área, conforme se dispuser em regulamento e no ato de criação da unidade (§ 2º). A visitação pública é permitida, desde que compatível com os interesses locais e de acordo com o disposto no Plano de Manejo da área (§ 3º). A pesquisa científica é permitida e incentivada, sujeitando-se à prévia autorização do órgão responsável pela administração da unidade, às condições e às restrições por esse estabelecidas e às normas previstas em regulamento (§ 4º). O Plano de Manejo da unidade será aprovado pelo seu Conselho Deliberativo (§ 5º). São proibidas a exploração de recursos minerais e a caça amadorística ou profissional (§ 6º). A exploração comercial de recursos madeireiros só será admitida em bases sustentáveis e em situações especiais e complementares às demais atividades desenvolvidas na Reserva Extrativista, conforme o disposto em regulamento e no Plano de Manejo da unidade (§ 7º). 8.4.8.5 Reserva de Fauna (Refau) A Reserva de Fauna é uma área natural com populações animais de espécies nativas, terrestres ou aquáticas, residentes ou migratórias, adequadas para estudos técnico-científicos sobre o manejo econômico sustentável de recursos faunísticos (Art. 19). A Refau é de posse e domínio públicos, sendo que as áreas particulares incluídas em seus limites devem ser desapropriadas, de acordo com o que dispõe a lei (§ 1º). A visitação pública pode ser permitida, desde que compatível com o manejo da unidade e de acordo com as normas estabelecidas pelo órgão responsável por sua administração (§ 2º). É proibido o exercício da caça amadorística ou profissional (§ 3º). A comercialização dos produtos e subprodutos resultantes das pesquisas obedecerá ao disposto nas leis sobre fauna e regulamentos (§ 4º). 8.4.8.6 Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) A Reserva de Desenvolvimento Sustentável é uma área natural que abriga populações tradicionais, cuja existência baseia-se em sistemas sustentáveis de exploração dos recursos naturais, desenvolvidos ao longo de gerações e adaptados às condições ecológicas locais e que desempenham um papel fundamental na proteção da natureza e na manutenção da diversidade biológica (Art. 20). A Reserva de Desenvolvimento Sustentável tem como objetivo básico preservar a natureza e, ao mesmo tempo, assegurar as condições e os meios necessários para a reprodução e a melhoria dos modos e da qualidade de vida e exploração dos recursos naturais das populações tradicionais, bem como valorizar, conservar e aperfeiçoar o conhecimento e as técnicas de manejo do ambiente, desenvolvido por essas populações (§ 1º). Essa categoria de unidade de conservação é de domínio público, sendo que as áreas particulares incluídas em seus limites devem ser, quando necessário, desapropriadas, de acordo com o que dispõe a lei (§ 2º). O uso das áreas ocupadas pelas populações tradicionais será regulado de acordo com o disposto no Art. 23 dessa lei e em regulamentação específica (§ 3º). A Reserva de Desenvolvimento Sustentável será gerida por um Conselho Deliberativo, presidido pelo órgão responsável por sua administração e constituído por representantes de órgãos públicos, de organizações da sociedade civil e das populações tradicionais residentes na área, conforme se dispuser em regulamento e no ato de criação da unidade (§ 4º). Nela, é permitida e incentivada a visitação pública, desde que compatível com os interesses locais e de acordo com o disposto no Plano de Manejo da área. Também é permitida e incentivada a pesquisa científica voltada à conservação da natureza, à melhor relação das populações residentes com seu meio e à educação ambiental, sujeitando-se à prévia autorização do órgão responsável pela administração da unidade, às condições e às restrições por este estabelecidas e às normas previstas em regulamento. Sempre deve ser sempre considerado o equilíbrio dinâmico entre o tamanho da população e a conservação. É admitida a exploração de componentes dos ecossistemas naturais em regime de manejo sustentável e a substituição da cobertura vegetal por espécies cultiváveis, desde que sujeitas ao zoneamento, às limitações legais e ao Plano de Manejo da área (§ 5º). O Plano de Manejo da Reserva deDesenvolvimento Sustentável definirá as zonas de proteção integral, de uso sustentável e de amortecimento e corredores ecológicos e será aprovado pelo Conselho Deliberativo da unidade (§ 6º). 8.4.8.7 Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) A Reserva Particular do Patrimônio Natural é a única categoria de unidade de conservação que pode ser criada por iniciativa particular, embora com a participação do poder público. Trata-se de uma área privada, gravada com perpetuidade, com o objetivo de conservar a diversidade biológica (Art. 21). Esse gravame deverá constar de termo de compromisso assinado perante o órgão ambiental, a ser averbado à margem da inscrição no Registro Público de Imóveis (§ 1º). O órgão ambiental verificará a existência de interesse público na instituição da RPPN. Nessa categoria de unidade de conservação só poderá ser permitida, conforme se dispuser em regulamento, a pesquisa científica e a visitação com objetivos turísticos, recreativos e educacionais (§ 2º). Os órgãos integrantes do SNUC, sempre que possível e oportuno, prestarão orientação técnica e científica ao proprietário de Reserva Particular do Patrimônio Natural para a elaboração de um Plano de Manejo ou de Proteção e de Gestão da unidade (§ 3º). 8.4.9 Criação, Desafetação, Implantação e Gestão Nos termos do Art. 22 da Lei do SNUC, as unidades de conservação são criadas por ato do Poder Público, que pode ser uma lei ou um decreto, exceto a RPPN, que pode ser criada por portaria do órgão ambiental.242 A criação de uma unidade de conservação deve ser precedida de estudos técnicos e de consulta pública que permitam identificar a localização, a dimensão e os limites mais adequados para a unidade, conforme se dispuser em regulamento (§ 2º). No processo de consulta, o Poder Público é obrigado a fornecer informações adequadas e inteligíveis à população local e a outras partes interessadas (§ 3º). Na criação de Estação Ecológica ou Reserva Biológica, não é obrigatória a consulta (§ 4º). O subsolo e o espaço aéreo, sempre que influírem na estabilidade do ecossistema, integram os limites das unidades de conservação (Art. 24). As unidades de conservação do grupo de Uso Sustentável podem ser transformadas, total ou parcialmente, em unidades do grupo de Proteção Integral, por instrumento normativo do mesmo nível hierárquico do que criou a unidade, desde que obedecidos os procedimentos de consulta estabelecidos no § 2º do Art. 22 (§ 5º). A ampliação dos limites de uma unidade de conservação, sem modificação dos seus limites originais, exceto pelo acréscimo proposto, pode ser feita por instrumento normativo do mesmo nível hierárquico do que criou a unidade, desde que obedecidos os procedimentos de consulta estabelecidos no § 2º desse artigo (§ 6º). Já a desafetação ou redução dos limites de uma unidade de conservação só pode ser feita mediante lei específica, mesmo que eventualmente criada por decreto (§ 7º). Esse dispositivo ecoa a determinação constante do Art. 225, § 1o, inciso III, da Constituição Federal no sentido de que a alteração e a supressão das unidades de conservação somente poderão ocorrer por meio de lei. A propósito, na ADI 4.717/DF, o plenário do STF reconheceu a impossibilidade de diminuição ou supressão de espaços territoriais especialmente protegidos, por meio de medida provisória, somente admitindo que isso ocorra por meio de lei formal.243 Nos termos do Art. 22-A, quando da criação das unidades de conservação, o Poder Público poderá, ressalvadas as atividades agropecuárias e outras atividades econômicas em andamento e obras públicas licenciadas, na forma da lei, decretar limitações administrativas provisórias ao exercício de atividades e empreendimentos efetiva ou potencialmente causadores de degradação ambiental, para a realização de estudos com vistas na criação de Unidade de Conservação, quando, a critério do órgão ambiental competente, houver risco de dano grave aos recursos naturais ali existentes. Sem prejuízo da restrição e observada a ressalva constante do caput, na área submetida a limitações administrativas, não serão permitidas atividades que importem em exploração a corte raso da floresta e demais formas de vegetação nativa (§ 1º). A destinação final da área submetida ao disposto nesse artigo será definida no prazo de sete meses, improrrogáveis, findo o qual fica extinta a limitação administrativa (§ 2º). 8.4.9.1 Zona de Amortecimento, Corredores Ecológicos e Mosaico As unidades de conservação, exceto Área de Proteção Ambiental e Reserva Particular do Patrimônio Natural, devem possuir uma zona de amortecimento e, quando conveniente, corredores ecológicos (Art. 25). O órgão responsável pela administração da unidade estabelecerá normas específicas regulamentando a ocupação e o uso dos recursos da zona de amortecimento e dos corredores ecológicos de uma unidade de conservação (§ 1º). Os limites da zona de amortecimento e dos corredores ecológicos e as respectivas normas de que trata o § 1º poderão ser definidas no ato de criação da unidade ou posteriormente (§ 2º). Quando existir um conjunto de unidades de conservação de categorias diferentes ou não, próximas, justapostas ou sobrepostas, e outras áreas protegidas públicas ou privadas, constituindo um mosaico, a gestão do conjunto deverá ser feita de forma integrada e participativa, considerando-se os seus distintos objetivos de conservação, de forma a compatibilizar a presença da biodiversidade, a valorização da sociodiversidade e o desenvolvimento sustentável no contexto regional (Art. 26). 8.4.9.2 Plano de Manejo As unidades de conservação devem dispor de um Plano de Manejo (Art. 27), que deve abranger a área da unidade de conservação, sua zona de amortecimento e os corredores ecológicos, incluindo medidas com o fim de promover sua integração à vida econômica e social das comunidades vizinhas (§ 1º). Na elaboração, atualização e implementação do Plano de Manejo das Reservas Extrativistas, das Reservas de Desenvolvimento Sustentável, das Áreas de Proteção Ambiental e, quando couber, das Florestas Nacionais e das Áreas de Relevante Interesse Ecológico, será assegurada a ampla participação da população residente (§ 2º). O Plano de Manejo de uma unidade de conservação deve ser elaborado no prazo de cinco anos, a partir da data de sua criação (§ 3º). O Plano de Manejo poderá dispor sobre as atividades de liberação planejada e cultivo de organismos geneticamente modificados nas Áreas de Proteção Ambiental e nas zonas de amortecimento das demais categorias de unidade de conservação, observadas as informações contidas na decisão técnica da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) sobre: I – o registro de ocorrência de ancestrais diretos e parentes silvestres; II – as características de reprodução, dispersão e sobrevivência do organismo geneticamente modificado; III – o isolamento reprodutivo do organismo geneticamente modificado em relação aos seus ancestrais diretos e parentes silvestres; e IV – situações de risco do organismo geneticamente modificado à biodiversidade (§ 4º). Cada unidade de conservação do grupo de Proteção Integral disporá de um Conselho Consultivo, presidido pelo órgão responsável por sua administração e constituído por representantes de órgãos públicos, de organizações da sociedade civil, por proprietários de terras localizadas em Refúgio de Vida Silvestre ou Monumento Natural, quando for o caso, e, na hipótese prevista no § 2º do Art. 42, das populações tradicionais residentes, conforme se dispuser em regulamento e no ato de criação da unidade (Art. 29). As unidades de conservação podem ser geridas por organizações da sociedade civil de interesse público com objetivos afins aos da unidade, mediante instrumento a ser firmado com o órgão responsável por sua gestão (Art. 30). 8.4.9.3 Atividades Proibidas São proibidas, nas unidades de conservação, quaisquer alterações, atividades ou modalidades de utilização em desacordo com os seus objetivos, o seu Plano de Manejo e seus regulamentos (Art.28). Até que seja elaborado o Plano de Manejo, todas as atividades e obras desenvolvidas nas unidades de conservação de proteção integral devem se limitar àquelas destinadas a garantir a integridade dos recursos que a unidade objetiva proteger, assegurando-se às populações tradicionais porventura residentes na área as condições e os meios necessários para a satisfação de suas necessidades materiais, sociais e culturais (parágrafo único). É proibida também a introdução nas unidades de conservação de espécies não autóctones (Art. 31). Excetuam-se do disposto neste artigo as Áreas de Proteção Ambiental, as Florestas Nacionais, as Reservas Extrativistas e as Reservas de Desenvolvimento Sustentável, bem como os animais e plantas necessários à administração e às atividades das demais categorias de unidades de conservação, de acordo com o que se dispuser em regulamento e no Plano de Manejo da unidade (§ 1º). Nas áreas particulares localizadas em Refúgios de Vida Silvestre e Monumentos Naturais, podem ser criados animais domésticos e cultivadas plantas considerados compatíveis com as finalidades da unidade, de acordo com o que dispuser o seu Plano de Manejo (§ 2º). 8.4.9.4 Pesquisa Científica Os órgãos executores articular-se-ão com a comunidade científica com o propósito de incentivar o desenvolvimento de pesquisas sobre a fauna, a flora e a ecologia das unidades de conservação e sobre formas de uso sustentável dos recursos naturais, valorizando-se o conhecimento das populações tradicionais (Art. 32). As pesquisas científicas nas unidades de conservação não podem colocar em risco a sobrevivência das espécies integrantes dos ecossistemas protegidos (§ 1º). A realização de pesquisas científicas nas unidades de conservação, exceto Área de Proteção Ambiental e Reserva Particular do Patrimônio Natural, depende de aprovação prévia e está sujeita à fiscalização do órgão responsável por sua administração (§ 2º). Os órgãos competentes podem transferir para as instituições de pesquisa nacionais, mediante acordo, a atribuição de aprovar a realização de pesquisas científicas e de credenciar pesquisadores para trabalharem nas unidades de conservação (§ 3º). 8.4.9.5 Exploração Comercial A exploração comercial de produtos, subprodutos ou serviços obtidos ou desenvolvidos a partir dos recursos naturais, biológicos, cênicos ou culturais ou da exploração da imagem de unidade de conservação, exceto Área de Proteção Ambiental e Reserva Particular do Patrimônio Natural, dependerá de prévia autorização e sujeitará o explorador a pagamento, conforme disposto em regulamento (Art. 33). 8.4.9.4.6 Recursos e Doações Os órgãos responsáveis pela administração das unidades de conservação podem receber recursos ou doações de qualquer natureza, nacionais ou internacionais, com ou sem encargos, provenientes de organizações privadas ou públicas ou de pessoas físicas que desejarem colaborar com a sua conservação (Art. 34). A administração dos recursos obtidos cabe ao órgão gestor da unidade, e esses serão utilizados exclusivamente na sua implantação, gestão e manutenção (parágrafo único). Os recursos obtidos pelas unidades de conservação do Grupo de Proteção Integral mediante a cobrança de taxa de visitação e outras rendas decorrentes de arrecadação, serviços e atividades da própria unidade serão aplicados, de acordo com os seguintes critérios: I – até cinquenta por cento, e não menos que vinte e cinco por cento, na implementação, manutenção e gestão da própria unidade; II – até cinquenta por cento, e não menos que vinte e cinco por cento, na regularização fundiária das unidades de conservação do Grupo; III – até cinquenta por cento, e não menos que quinze por cento, na implementação, manutenção e gestão de outras unidades de conservação do Grupo de Proteção Integral (Art. 35). Nesse sentido, por meio do Decreto 10.623/2021, regulamentando o Art. 34 da Lei 9.985/2000, o governo federal instituiu o programa “Adote um Parque”, para permitir que pessoas físicas e jurídicas, nacionais e estrangeiras, doem bens e serviços que serão destinados a atividades de preservação de unidades de conservação. A primeira fase do programa é voltada exclusivamente as 132 unidades de conservação federais na Amazônia. Os parques ocupam 15% do bioma, totalizando 63,6 milhões de hectares. Os recursos serão aplicados diretamente pelos parceiros nas unidades adotadas. Futuramente, a ideia é expandir o programa para parques nacionais localizados em outros biomas do país. Entre as ações de proteção ambiental no escopo do programa, estão a prevenção e combate a incêndios e desmatamentos, recuperação de áreas degradadas, consolidação e implementação de planos de manejo, vigilância e monitoramento dos parques. As pessoas físicas e jurídicas que adotarem os parques serão reconhecidas pelo governo federal como “Parceiros do Meio Ambiente” e poderão divulgar essa parceria. A adoção será de um ano, podendo ser renovada por até cinco anos. A primeira empresa a patrocinar uma unidade de conservação será a rede Carrefour no Brasil.244 Mais recentemente, a Coca-Cola também aderiu ao programa. 8.4.9.4.6 EIA/RIMA O Art. 36 determina que, nos casos de licenciamento ambiental de empreendimentos de significativo impacto ambiental, assim considerado pelo órgão ambiental competente, com fundamento em estudo de impacto ambiental e respectivo relatório – EIA/RIMA, o empreendedor é obrigado a apoiar a implantação e manutenção de unidade de conservação do Grupo de Proteção Integral, de acordo com o disposto neste artigo e no regulamento dessa lei. O montante de recursos a ser destinado pelo empreendedor para esta finalidade não pode ser inferior a meio por cento dos custos totais previstos para a implantação do empreendimento, sendo o percentual fixado pelo órgão ambiental licenciador, de acordo com o grau de impacto ambiental causado pelo empreendimento (§ 1º). Ao órgão ambiental licenciador compete definir as unidades de conservação a serem beneficiadas, considerando as propostas apresentadas no EIA/RIMA e ouvido o empreendedor, podendo inclusive ser contemplada a criação de novas unidades de conservação (§ 2º). Quando o empreendimento afetar unidade de conservação específica ou sua zona de amortecimento, o licenciamento a que se refere ao caput desse artigo só poderá ser concedido mediante autorização do órgão responsável por sua administração, e a unidade afetada, mesmo que não pertencente ao Grupo de Proteção Integral, deverá ser uma das beneficiárias da compensação definida nesse artigo (§ 3º). A obrigação de que trata o caput desse artigo poderá, em virtude do interesse público, ser cumprida em unidades de conservação de posse e domínio públicos do grupo de Uso Sustentável, especialmente as localizadas na Amazônia Legal (§ 4º). 8.4.9.4.7 Infrações e Penalidades Preceitua o Art. 38 que a ação ou omissão das pessoas físicas ou jurídicas que importem inobservância aos preceitos dessa lei e a seus regulamentos ou resultem em dano à flora, à fauna e aos demais atributos naturais das unidades de conservação, bem como às suas instalações e às zonas de amortecimento e corredores ecológicos, sujeitam os infratores às sanções previstas em lei. Em se tratando de infrações administrativas e penais, os tipos e as respectivas sanções estão previstos na Lei 9.605/98 e seu regulamento. Conforme o caso, a infração pode também ensejar a responsabilidade civil, nos termos das Leis 6.938/81 e 7.347/85, temas esses a serem tratados oportunamente. 8.4.9.4.8 Populações Tradicionais Dispõe o Art. 23 da Lei 9.985/2000 que a posse e o uso das áreas ocupadas pelas populações tradicionais nas Reservas Extrativistas e Reservas de Desenvolvimento Sustentável serão regulados por contrato, conforme se dispuser no regulamento da lei. Essas populações devem obrigar-se a participar da preservação, recuperação, defesa e manutenção da unidade de conservação (§ 1º). O uso dos recursos naturais pelas referidas populações obedecerá às seguintes normas: I – proibição do uso de espécies localmenteameaçadas de extinção ou de práticas que danifiquem os seus habitats; II – proibição de práticas ou atividades que impeçam a regeneração natural dos ecossistemas; III – demais normas estabelecidas na legislação, no Plano de Manejo da unidade de conservação e no contrato de concessão de direito real de uso (§ 2º). O Art. 42, por sua vez, preceitua que as populações tradicionais residentes em unidades de conservação nas quais sua permanência não seja permitida serão indenizadas ou compensadas pelas benfeitorias existentes e devidamente realocadas pelo Poder Público, em local e condições acordados entre as partes. § 1o O Poder Público, por meio do órgão competente, priorizará o reassentamento das populações tradicionais a serem realocadas. § 2o Até que seja possível efetuar o reassentamento de que trata esse artigo, serão estabelecidas normas e ações específicas destinadas a compatibilizar a presença das populações tradicionais residentes com os objetivos da unidade, sem prejuízo dos modos de vida, das fontes de subsistência e dos locais de moradia dessas populações, assegurando-se a sua participação na elaboração das referidas normas e ações. § 3o Na hipótese prevista no § 2o, as normas regulando o prazo de permanência e suas condições serão estabelecidas em regulamento. 8.4.10 Reservas da Biosfera Paralelamente ao Sistema Nacional das Unidades de Conservação, o Art. 41 da Lei 9.985/2000 prevê a Reserva da Biosfera, consistente num modelo, adotado internacionalmente, de gestão integrada, participativa e sustentável dos recursos naturais, com os objetivos básicos de preservação da diversidade biológica, o desenvolvimento de atividades de pesquisa, o monitoramento ambiental, a educação ambiental, o desenvolvimento sustentável e a melhoria da qualidade de vida das populações. A Reserva da Biosfera é constituída por: I – uma ou várias áreas-núcleo, destinadas à proteção integral da natureza; II – uma ou várias zonas de amortecimento, onde só são admitidas atividades que não resultem em dano para as áreas-núcleo; e III – uma ou várias zonas de transição, sem limites rígidos, onde o processo de ocupação e o manejo dos recursos naturais são planejados e conduzidos de modo participativo e em bases sustentáveis (§ 1º). Sua composição é formada por áreas de domínio público ou privado (§ 2º), podendo ser integrada por unidades de conservação já criadas pelo Poder Público, respeitadas as normas legais que disciplinam o manejo de cada categoria específica (§ 3º). Cada unidade é gerida por um Conselho Deliberativo, formado por representantes de instituições públicas, de organizações da sociedade civil e da população residente, conforme se dispuser em regulamento e no ato de constituição da unidade (§ 4º). A Reserva da Biosfera é reconhecida pelo Programa Intergovernamental “O Homem e a Biosfera – MAB”, estabelecido pela Unesco, organização da qual o Brasil é membro (§ 5º) No Brasil, já foram reconhecidos pela Unesco, como Reservas de Biosfera, a Mata Atlântica, o Cinturão Verde da Cidade de São Paulo, o Cerrado, o Pantanal, a Floresta Amazônica etc. 8.4.11 Cadastro Nacional Já em sede de disposições finais e transitórias, pode-se destacar que, no Art. 50, determina-se que o Ministério do Meio Ambiente organizará e manterá um Cadastro Nacional de Unidades de Conservação, com a colaboração do Ibama e dos órgãos estaduais e municipais competentes. Esse cadastro conterá os dados principais de cada unidade de conservação, incluindo, dentre outras características relevantes, informações sobre espécies ameaçadas de extinção, situação fundiária, recursos hídricos, clima, solos e aspectos socioculturais e antropológicos (§ 1º). O Art. 55 determina que as unidades de conservação e áreas protegidas criadas com base nas legislações anteriores e que não pertençam às categorias previstas nessa lei serão reavaliadas, no todo ou em parte, no prazo de até dois anos, com o objetivo de definir sua destinação com base na categoria e função para as quais foram criadas. 8.4.12 Crime A Lei 9.605/98, em seu Art. 40, prevê um crime específico relativo às unidades de conservação: causar dano direto ou indireto às Unidades de Conservação e às áreas de que trata o Art. 27 do Dec. 99.274/90 (áreas circundantes das UCs, num raio de 10 Km), independentemente de sua localização. A pena é reclusão, de um a cinco anos. A ocorrência de dano afetando espécies ameaçadas de extinção no interior das Unidades de Conservação de Proteção Integral será considerada circunstância agravante para a fixação da pena (§ 2º). Se o crime for culposo, a pena será reduzida à metade (§ 3º). Nos termos do Art. 40-A, § 2º, a ocorrência de dano afetando espécies ameaçadas de extinção no interior das Unidades de Conservação de Uso Sustentável será considerada circunstância agravante para a fixação da pena. 238 Disponível em: http://www.rbma.org.br/rbma/pdf/11_Parque%20Nacional%20da%20Tijuca.pdf 239 Disponível em: https://www.halacsolcha.org/index.php/halac/article/view/318 240 Op. cit., p. 1203. 241 Disponível em: https://www.icmbio.gov.br/portal/oinstituto 242 Cf. Amado, op. cit., p. 285. 243 Cf. Sarlet e Fensterseifer, op. cit. p. 455. 244 Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2021-02/governo-lanca- programa-de-captacao-de-recursos-para-amazonia CAPÍTULO 9 RECURSOS AMBIENTAIS: ÁGUA Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Água, que é tão útil e humilde, e preciosa e casta. (São Francisco de Assis) 9.1 Introdução A água é essencial para a vida no planeta e, embora aparentemente abundante, na verdade é um bem caro e limitado. Primeiramente, é preciso lembrar que a quantidade total de água no planeta é fixa, não se podendo fabricar esse recurso ambiental, mas apenas retirá-lo da natureza.245 Além disso, conforme Milaré, “embora ¾ da superfície da Terra sejam cobertos de água (curiosamente, a mesma proporção do corpo humano), apenas 2,5% desse total são formados por água doce, aproveitável para o consumo humano e animal, para irrigação e outros usos condizentes”.246 Desses 2,5%, 80% estão contidos “na criosfera, em geleiras e nos polos do Planeta. (Portanto, menos de 1% está disponível.) Isso nos permite concluir que a água, ao contrário do que se possa imaginar, não é, paradoxalmente, um recurso abundante e tampouco barato”.247 Segundo Nalini, “a água significa, para o século XXI, o mesmo que o petróleo significou para o século XX”.248 Além de ser cara e rara, a água potável é mal distribuída, tanto no Brasil como no mundo. Enquanto muitos países sofrem com escassez de água e a China está importando água do Canadá,249 o Brasil abriga 12% da água doce disponível no Planeta. Esse total, porém, está mal distribuído em território nacional, com 80% dele na Amazônia, onde a densidade populacional é baixa, enquanto o Nordeste e até mesmo, mais recentemente, o Sudeste, enfrentam escassez de água. Além disso, grande parte das águas com potencial de aproveitamento está poluída. Cerca de 90% do esgoto doméstico e 70% dos efluentes industriais são despejados nos corpos d’água. Cerca de 40% da água tratada é desperdiçada nas redes, sendo que a média mundial é de 10%.250 E não é apenas a água doce que merece atenção. Embora de certa forma negligenciada em função da grande atenção direcionada atualmente ao clima e às florestas, a poluição marítima, provocada por derrames de óleo, detritos diversos e especialmente plástico, tem atingido níveis preocupantes, para não dizer alarmantes. Em artigo publicado na revista Oeste em junho de 2023, denominado “O sétimo continente” (um “continente” de plástico), o cientista Evaristo de Miranda relata que, “a cada minuto, o equivalente a um caminhão de lixo plástico é lançado nos oceanos”. E informa: Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a poluição plástica mata mais de 1 milhão de aves marinhas e 100 mil mamíferos marinhos no planeta todos os anos. E, seguindo as cadeias alimentares, por meio dos peixes esses detritos plásticos chegam aos pratose ao sistema digestivo dos humanos, e até ao leite materno.251 Milaré conclui o capítulo sobre a água de sua obra afirmando que “a gestão dos recursos hídricos, por tudo já exposto, talvez seja o maior desafio para o jurista na atualidade”.252 A água, em suma, é um bem ambiental da mais alta importância, constituindo, por isso, objeto de tutela do Direito Ambiental, tratando-se, nas palavras de Édis Milaré, de “recurso ambiental primário”.253 9.2 Panorama Histórico No Brasil, as Constituições anteriores à de 1988 trataram da propriedade de rios e lagos e da competência para legislar sobre a matéria. O Código Civil de 1916 falava da propriedade de águas particulares e da proteção das águas contra a poluição, sempre sob o ponto de vista do direito de vizinhança. O primeiro diploma legal a cuidar especificamente do assunto foi o Código de Águas (Decreto 24.643/34), ainda em vigor, porém com muitos dispositivos não recepcionados pela Constituição de 1988, como o que trata de “águas particulares” (art. 8º). O Código Penal traz o crime de corrupção ou poluição de água potável (art. 271). Desde o Decreto 23.793/34, os Códigos Florestais protegem a vegetação no entorno das nascentes e dos corpos d’água (rios, lagos etc.).254 Em 1990, o Brasil promulgou a Convenção Sobre o Direito do Mar, de 1982, com dispositivos voltados à proteção do ambiente marítimo. Como já referido, as águas interiores, superficiais e subterrâneas, os estuários e o mar territorial estão entre os bens ou recursos ambientais, listados no nos termos Art. 3º, V, da Lei 6.938/81. Finalmente, em 1997, foi editada a Lei 9.433, que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos, incrementando a proteção das águas não apenas como bem econômico, mas também sob o ponto de vista ambiental. 9.3 Fundamentos Constitucionais O Art. 225 da Constituição Federal não menciona expressamente a água, mas, obviamente, protege esse precioso recurso ambiental ao consagrar o direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado (caput), bem como ao determinar a preservação dos ecossistemas (§ 1º, I), dos espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos (§ 1º, III) etc. Ainda conforme o Art. 225, em seu § 4º, a Zona Costeira é patrimônio nacional, e sua utilização far-se-á, na forma da lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos naturais, dentre os quais se destaca a água. A Constituição de 1988 transformou todos os corpos d’água (rios, lagos etc.) em bens públicos de uso comum do povo.255 De acordo com o STJ, “a Constituição Federal aboliu expressamente a dominialidade privada dos cursos de água” (REsp 763.591). Com efeito, segundo o Art. 20, são bens da União: “III - os lagos, rios e quaisquer correntes de água em terrenos de seu domínio, ou que banhem mais de um Estado, sirvam de limites com outros países, ou se estendam a território estrangeiro ou dele provenham, bem como os terrenos marginais e as praias fluviais”, bem como “V - os recursos naturais da plataforma continental e da zona econômica exclusiva; VI - o mar territorial”. Já o Art. 26 dispõe que são bens dos Estados: “I - as águas superficiais ou subterrâneas, fluentes, emergentes e em depósito, ressalvadas, neste caso, na forma da lei, as decorrentes de obras da União”. Portanto, não existem águas municipais, nem águas particulares, não tendo sido recepcionados dispositivos legais em sentido contrário. Já os Art. 1.288 a 1.296 do Código Civil devem ter interpretação conforme à Constituição, ou seja, no sentido de que os corpos d’água ali mencionados não pertencem aos proprietários dos imóveis onde se localizam.256 Em matéria de competência legislativa, dispõe o Art. 22 que compete privativamente à União legislar sobre águas (inc. IV). Não obstante, Milaré alerta para o fato de que a proteção do recurso água “pode ser também regulamentada pelos Estados e Municípios, em vista de suas competências concorrente e suplementar para legislar sobre a preservação da fauna, da flora e do meio ambiente, bem como de combater a poluição em todas as suas formas”.257 Tratando da competência legislativa concorrente, o Art. 24 dispõe que compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre: “VI - florestas, caça, pesca, fauna, conservação da natureza, defesa do solo e dos recursos naturais, proteção do meio ambiente e controle da poluição”. No que concerne à competência material (Art. 21), compete à União: “XIX - instituir sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos e definir critérios de outorga de direitos de seu uso”. O Art. 23, por sua vez, estabelece que é competência comum (material) da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios: “proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas formas” (inc. VI), bem como “registrar, acompanhar e fiscalizar as concessões de direitos de pesquisa e exploração de recursos hídricos e minerais em seus territórios” (inc. XI). 9.4 O Código de Águas Conforme Édis Milaré, o Código de Águas – Decreto 24.643/34, “foi o primeiro diploma legal que possibilitou ao Poder Público disciplinar o aproveitamento industrial das águas e, de modo especial, o aproveitamento e exploração de energia hidráulica”.258 Não obstante ser nominalmente um decreto, trata- se, materialmente, de lei ordinária, “de cunho essencialmente privatista, direcionado à tutela do direito individual e econômico”.259 Tais circunstâncias, aliadas ao fato de que, na parte da dominialidade das águas, o Código ficou obsoleto, ensejam o diminuto interesse desse diploma legal para o Direito Ambiental. 9.5 Competências Conforme o Art. 7º, VII, da Lei Complementar 140/2011, compete à União “promover a articulação da Política Nacional do Meio Ambiente com as de Recursos Hídricos, Desenvolvimento Regional, Ordenamento Territorial e outras”. Aos demais entes federativos, conforme a mesma lei, compete executar a Política Nacional do Meio Ambiente e demais políticas nacionais relacionadas à proteção ambiental, inclusive a de Recursos Hídricos (Art. 8º, I; 9º, I, e 10). 9.6 A Política Nacional de Recursos Hídricos A Lei 9.433/97, conhecida como “Lei das Águas”, instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH), elaborada sob a influência da Conferência Internacional sobre Água e Meio Ambiente organizada pela ONU em Dublin, Irlanda, em janeiro de 1992. Dessa conferência resultou a Declaração de Dublin, cujo primeiro princípio afirma que “a água doce é um recurso finito e vulnerável, essencial para garantir a vida, o desenvolvimento e o meio ambiente”.260 9.6.1 Recursos Hídricos Amado esclarece que “a expressão água é gênero, sendo recurso hídrico a água como bem econômico”.261 Segundo o mesmo autor, “de acordo com o Vocabulário Básico de Recursos Naturais e Meio Ambiente do IBGE, recursos hídricos são a quantidade das águas superficiais e/ou subterrâneas presente em uma região ou bacia, disponível para qualquer tipo de uso”.262 9.6.2 Fundamentos O Art. 1º da Lei 9.433/97 proclama que a Política Nacional de Recursos Hídricos é baseada nos seguintes fundamentos: I - a água é um bem de domínio público; II - a água é um recurso natural limitado, dotado de valor econômico; III - em situações de escassez, o uso prioritário dos recursos hídricos é o consumo humano e a dessedentação de animais; IV - a gestão dos recursos hídricos deve sempre proporcionar o uso múltiplo das águas; V - a bacia hidrográfica é a unidade territorial para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e atuação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos; VI - a gestão dos recursos hídricos deve ser descentralizada e contar com a participação do Poder Público, dos usuários e das comunidades. Como se vê, o Art. 1º, I, da Lei 9.433/97, ecoando a Constituição Federal, reitera que a água é um bem de domínio público. Conforme Frederico Amado, trata-se de bem de uso comum do povo, inexistindo águas de propriedade particularno Brasil, como, aliás, já decidiu o STJ no REsp 518.744. Segundo o mesmo autor, […] esse processo de publicização das águas decorre de sua escassez, especificamente das águas doces, em virtude do desperdício mundial e da poluição irracional das correntes de água, sendo estratégico para o Estado brasileiro converter as águas em bens públicos, visando uma tutela mais rígida para preservar os interesses nacionais, pois preservá-las com boa qualidade é imprescindível condição para a continuidade da vida em todas as suas formas.263 Dentre os fundamentos listados no Art. 1º também merece destaque a bacia hidrográfica, referida no inciso V como “a unidade territorial para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e atuação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos”. Segundo Édis Milaré, bacia hidrográfica é “a área total de drenagem que alimenta uma determinada rede hidrográfica; espaço geográfico de sustentação dos fluxos d’água de um sistema fluvial hierarquizado”.264 Frederico Amado, por sua vez, explica que bacia hidrográfica é a área “onde ocorre a drenagem das águas destinadas a um curso de água, normalmente um grande rio. Ou seja, normalmente vários cursos de água convergem para um rio principal, formando uma bacia hidrográfica. Trata-se da unidade territorial sobre a qual será construída a PNRH”.265 9.6.3 Objetivos Conforme o Art. 2º da Lei 9.433/97, são objetivos da Política Nacional de Recursos Hídricos: I - assegurar à atual e às futuras gerações a necessária disponibilidade de água, em padrões de qualidade adequados aos respectivos usos; II - a utilização racional e integrada dos recursos hídricos, incluindo o transporte aquaviário, com vistas ao desenvolvimento sustentável; III - a prevenção e a defesa contra eventos hidrológicos críticos de origem natural ou decorrentes do uso inadequado dos recursos naturais; IV - incentivar e promover a captação, a preservação e o aproveitamento de águas pluviais. 9.6.4 Diretrizes O Art. 3º estabelece as diretrizes gerais de ação para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos, a saber: I - a gestão sistemática dos recursos hídricos, sem dissociação dos aspectos de quantidade e qualidade; II - a adequação da gestão de recursos hídricos às diversidades físicas, bióticas, demográficas, econômicas, sociais e culturais das diversas regiões do País; III - a integração da gestão de recursos hídricos com a gestão ambiental; IV - a articulação do planejamento de recursos hídricos com o dos setores usuários e com os planejamentos regional, estadual e nacional; V - a articulação da gestão de recursos hídricos com a do uso do solo; VI - a integração da gestão das bacias hidrográficas com a dos sistemas estuarinos e zonas costeiras. 9.6.5 Instrumentos No Art. 5º são listados os instrumentos da Política Nacional de Recursos Hídricos, verbatim: I - os Planos de Recursos Hídricos; II - o enquadramento dos corpos de água em classes, segundo os usos preponderantes da água; III - a outorga dos direitos de uso de recursos hídricos; IV - a cobrança pelo uso de recursos hídricos; V - a compensação a municípios; VI - o Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos. Os Art. 6º e seguintes detalham esses instrumentos. 9.6.5.1 Planos de Recursos Hídricos O Art. 6º cuida dos Planos de Recursos Hídricos, instrumentos definidos como planos diretores que visam a fundamentar e orientar a implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e o gerenciamento dos recursos hídricos. O Art. 8º determina que os Planos de Recursos Hídricos serão elaborados por bacia hidrográfica, por Estado e para o país, ou seja, cada bacia hidrográfica deve ter o seu plano, assim como cada estado da Federação e a União. A propósito, informa Frederico Amado que “o Plano Nacional de Recursos Hídricos foi aprovado em 2006, por meio da Resolução CNRH 58”.266 9.6.5.2 Enquadramento dos Corpos D’água O enquadramento dos corpos de água em classes, segundo os usos preponderantes da água, como instrumento da Política Nacional de Recursos Hídricos, é objeto do Art. 9º e visa a “assegurar às águas qualidade compatível com os usos mais exigentes a que forem destinadas” (inc. I) e “diminuir os custos de combate à poluição das águas, mediante ações preventivas permanentes” (inc. II). O Art. 10 diz que as classes de corpos de água serão estabelecidas pela legislação ambiental. Conforme o Art. 8º, VII, da Lei 6.938/81, compete ao Conama: “estabelecer normas, critérios e padrões relativos ao controle e à manutenção da qualidade do meio ambiente com vistas ao uso racional dos recursos ambientais, principalmente os hídricos”. O enquadramento vigente é feito pela Resolução Conama n. 357/2005, que “dispõe sobre a classificação dos corpos de água e diretrizes ambientais para o seu enquadramento, bem como estabelece as condições e padrões de lançamento de efluentes, e dá outras providências”. 9.6.5.3 Outorga Tratando-se de bens públicos, o uso dos recursos hídricos somente é possível por meio do instrumento da outorga. Conforme Amado, a outorga de direito de uso de recursos hídricos é definida como “o ato administrativo mediante o qual a autoridade outorgante competente faculta ao requerente o direito de uso dos recursos hídricos, por prazo determinado, nos termos e condições expressas no respectivo ato, consideradas as legislações específicas vigentes”267. Sendo, em regra, onerosa, é um exemplo da aplicação do princípio do usuário-pagador (Art. 4º, VII, da Lei 6.938/81). Pela outorga o Poder Público controla o uso dos recursos hídricos, podendo suspendê-la em caso de infração ou necessidade ou mesmo revogá-la. É o que dispõe o Art. 11, que o regime de outorga de direitos de uso de recursos hídricos tem como objetivos assegurar o controle quantitativo e qualitativo dos usos da água e o efetivo exercício dos direitos de acesso à água. A outorga é uma figura sui generis em Direito Administrativo. Com efeito, ensina Frederico Amado a outorga “ostenta a natureza de autorização administrativa, conquanto tenha prazo que limite a sua precariedade, desnaturando em parte seu regime jurídico”, pois a revogação poderá se dar apenas nas hipóteses previstas em lei.268 Segundo Milaré, a outorga não é um ato meramente discricionário, como são as autorizações em geral, porém não tem o caráter definitivo, como as licenças em geral. Para esse autor, a outorga não se enquadra em nenhuma dessas duas categorias, constituindo categoria autônoma.269 Conforme o Art. 12, estão sujeitos à outorga pelo Poder Público os direitos dos seguintes usos de recursos hídricos: I - derivação ou captação de parcela da água existente em um corpo de água para consumo final, inclusive abastecimento público, ou insumo de processo produtivo; II - extração de água de aquífero subterrâneo para consumo final ou insumo de processo produtivo; III - lançamento em corpo de água de esgotos e demais resíduos líquidos ou gasosos, tratados ou não, com o fim de sua diluição, transporte ou disposição final; IV - aproveitamento dos potenciais hidrelétricos; V - outros usos que alterem o regime, a quantidade ou a qualidade da água existente em um corpo de água. Milaré adverte que “uma das diretrizes da gestão de recursos hídricos é sua integração na gestão ambiental (Art. 3º, III, da Lei 9.433/97)”. Ora, “várias atividades que se utilizam das águas são, por sua vez, também sujeitas ao licenciamento ambiental”. Nos termos da Resolução Conama 237/97, o licenciamento é condicionado à prévia outorga (Art. 10, § 1º). Dessa forma, trata-se de “outorga preventiva”, que não permite o uso da água antes da concessão da licença ambiental.270 A outorga pode ser dispensada em alguns casos, tendo em conta a insignificância do volume de recursos hídricos utilizados. O § 1º do Art. 12 trata dos casos de dispensa de outorga, assentando que independem de outorga pelo Poder Público, conforme definido em regulamento: “o uso de recursos hídricos para a satisfação das necessidades de pequenos núcleos populacionais,distribuídos no meio rural” (inc. I), “as derivações, captações e lançamentos considerados insignificantes” (inc. II) e “as acumulações de volumes de água consideradas insignificantes” (inc. III). Nos termos do Art. 13, toda outorga estará condicionada às prioridades de uso estabelecidas nos Planos de Recursos Hídricos (Art. 1º, III) e deverá respeitar a classe em que o corpo de água estiver enquadrado e a manutenção de condições adequadas ao transporte aquaviário, quando for o caso. O parágrafo único desse artigo dispõe que a outorga de uso dos recursos hídricos deverá preservar o uso múltiplo desses, em obediência ao princípio estabelecido no Art. 1º, inciso IV. O Art. 14 determina que a outorga deverá ser efetivada por ato da autoridade competente do Poder Executivo Federal, dos Estados ou do Distrito Federal, podendo o Poder Executivo Federal delegar aos Estados e ao Distrito Federal competência para conceder outorga de direito de uso de recurso hídrico de domínio da União (§ 1º). A outorga de direito de uso de recursos hídricos poderá ser suspensa, parcial ou totalmente, em definitivo ou por prazo determinado, nas seguintes circunstâncias, arroladas no Art. 15: I - não cumprimento pelo outorgado dos termos da outorga; II - ausência de uso por três anos consecutivos; III - necessidade premente de água para atender a situações de calamidade, inclusive as decorrentes de condições climáticas adversas; IV - necessidade de se prevenir ou reverter grave degradação ambiental; V - necessidade de se atender a usos prioritários, de interesse coletivo, para os quais não se disponha de fontes alternativas; VI - necessidade de serem mantidas as características de navegabilidade do corpo de água. Toda outorga de direitos de uso de recursos hídricos far-se-á por prazo não excedente a 35 anos, renovável (Art. 16). O Art. 18 deixa claro que a outorga não implica a alienação parcial das águas, que são inalienáveis, conferindo apenas o direito de seu uso. 9.6.5.4 Cobrança Os Art. 19 e seguintes tratam do instrumento da Política Nacional de Recursos Hídricos consistente na cobrança pelo uso da água. Segundo o Art. 19, a cobrança pelo uso de recursos hídricos objetiva: “reconhecer a água como bem econômico e dar ao usuário uma indicação de seu real valor” (inc. I) “incentivar a racionalização do uso da água” (inc. II) e “obter recursos financeiros para o financiamento dos programas e intervenções contemplados nos planos de recursos hídricos”. O Art. 20 determina que que serão cobrados os usos de recursos hídricos sujeitos à outorga, nos termos do Art. 12, reforçando que a outorga é, em regra, onerosa. O Art. 21 estabelece que, na fixação dos valores a serem cobrados pelo uso dos recursos hídricos, devem ser observados, dentre outros, os seguintes parâmetros: I – nas derivações, captações e extrações de água, o volume retirado e seu regime de variação; II – nos lançamentos de esgotos e demais resíduos líquidos ou gasosos, o volume lançado e seu regime de variação e as características físico-químicas, biológicas e de toxidade do afluente. Segundo Milaré, essa cobrança não tem natureza de imposto, “pois este é pago genericamente, sem vinculação a um fim determinado”, nem de taxa, porque “não se relaciona à prestação de um serviço público”. Trata-se, escreve o autor, de um “preço público, pago pelo uso de bem público, no interesse particular, como ocorre, por exemplo, com o estacionamento em vias públicas de intenso tráfego”.271 O Art. 22 determina que os valores arrecadados com a cobrança pelo uso de recursos hídricos serão aplicados prioritariamente na bacia hidrográfica em que foram gerados e serão utilizados “no financiamento de estudos, programas, projetos e obras incluídos nos Planos de Recursos Hídricos” (inc. I) e “no pagamento de despesas de implantação e custeio administrativo dos órgãos e entidades integrantes do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos” (inc. II). O § 2º do mesmo artigo permite que os valores previstos no caput sejam aplicados a fundo perdido em projetos e obras que alterem, de modo considerado benéfico à coletividade, à qualidade, à quantidade e ao regime de vazão de um corpo de água. 9.6.6 Competências Federais, Estaduais e Municipais Como visto, dispõe o Art. 7º, VII, da Lei Complementar 140/2011 competir à União “promover a articulação da Política Nacional do Meio Ambiente com as de Recursos Hídricos, Desenvolvimento Regional, Ordenamento Territorial e outras”. Nesse sentido, dispõe o Art. 29 da Lei 9.433/97 que, na implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos, compete ao Poder Executivo Federal: I - tomar as providências necessárias à implementação e ao funcionamento do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos; II - outorgar os direitos de uso de recursos hídricos, e regulamentar e fiscalizar os usos, na sua esfera de competência; III - implantar e gerir o Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos, em âmbito nacional; IV - promover a integração da gestão de recursos hídricos com a gestão ambiental. Aos estados, aos municípios e ao Distrito Federal cumpre executar a Política Nacional de Recursos Hídricos no âmbito de suas respectivas competências. Nessa conformidade, o Art. 30 trata das competências estatuais, dispondo que, na implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos, cabe aos Poderes Executivos Estaduais e do Distrito Federal, na sua esfera de competência: I - outorgar os direitos de uso de recursos hídricos e regulamentar e fiscalizar os seus usos; II - realizar o controle técnico das obras de oferta hídrica; III - implantar e gerir o Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos, em âmbito estadual e do Distrito Federal; IV - promover a integração da gestão de recursos hídricos com a gestão ambiental. No âmbito local, dispõe o Art. 31 que, na implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos, os Poderes Executivos do Distrito Federal e dos municípios promoverão a integração das políticas locais de saneamento básico, de uso, ocupação e conservação do solo e de meio ambiente com as políticas federal e estaduais de recursos hídricos. 9.6.7 Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos O Art. 32 cria o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH), com os seguintes objetivos: I - coordenar a gestão integrada das águas; II - arbitrar administrativamente os conflitos relacionados com os recursos hídricos; III - implementar a Política Nacional de Recursos Hídricos; IV - planejar, regular e controlar o uso, a preservação e a recuperação dos recursos hídricos; V - promover a cobrança pelo uso de recursos hídricos. Integram o SINGREH, nos termos do Art. 33, I – o Conselho Nacional de Recursos Hídricos; I-A – a Agência Nacional de Águas; II – os Conselhos de Recursos Hídricos dos Estados e do Distrito Federal; III – os Comitês de Bacia Hidrográfica; IV – os órgãos dos poderes públicos federal, estaduais, do Distrito Federal e municipais cujas competências se relacionem com a gestão de recursos hídricos; V – as Agências de Água. 9.6.7.1 Conselho Nacional de Recursos Hídricos O Art. 34 dispõe que o Conselho Nacional de Recursos Hídricos, mencionado no inc. I do Art. 33, é composto por: I - representantes dos Ministérios e Secretarias da Presidência da República com atuação no gerenciamento ou no uso de recursos hídricos; II - representantes indicados pelos Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos; III - representantes dos usuários dos recursos hídricos; IV - representantes das organizações civis de recursos hídricos.272 O Conselho Nacional de Recursos Hídricos será gerido por: I – um presidente, que será o ministro de Estado do Desenvolvimento Regional; II – um secretário-executivo, que será o titular do órgão integrante da estrutura do Ministério do Desenvolvimento Regional responsável pela gestão dos recursos hídricos (Art. 36). Compete ao Conselho Nacional de Recursos Hídricos, conforme o Art. 35: I - promover a articulação do planejamentoSerá, na verdade, um imenso e desolado deserto. Os problemas ambientais que afligem o planeta são bem conhecidos: poluição do ar, das águas e do solo, destruição das florestas, mudanças climáticas, escassez de água potável, acúmulo de lixo, rompimento de barragens etc. A grande questão é que as demandas humanas são infinitas, em contraste com os recursos finitos da Terra. Décadas atrás se falava num cálculo segundo o qual se todos os seres humanos que vivem na Terra tivessem um nível de vida de classe média, o planeta não suportaria. Esse cálculo parece estar ultrapassado: segundo o Relatório Planeta Vivo 2002, do Fundo Mundial para a Natureza, a humanidade “já está consumindo 20% além da capacidade de reposição e suporte do meio ambiente terrestre”.3 As consequências já sentidas são mortes, doenças, epidemias (e pandemias), fome, sede, guerras, baixa qualidade de vida, migrações, extinção de espécies etc. Conforme Frederico Amado, já há uma nova categoria de refugiados, os “refugiados ambientais”, que podem chegar a 50 milhões neste século.4 No livro Colapso, o renomado cientista Jared Diamond observa que a maior parte dos colapsos das antigas civilizações foi provocada por problemas ecológicos, […] pelo fato de as pessoas terem destruído inadvertidamente os recursos ambientais dos quais as suas sociedades dependiam. A suspeita de suicídio ecológico não intencional – ecocídio – vem sendo confirmada por descobertas em décadas recentes.5 No entanto, conforme o mesmo autor, “pela primeira vez na história enfrentamos o risco de um colapso global”.6 A diferença é que, dessa vez, estamos conscientes do problema e o ecocídio pode ser considerado doloso. 1.2 O Que Fazer? É praticamente consenso mundial que a chave para resolver — ou, pelo menos, amenizar — os problemas ambientais é a busca do desenvolvimento sustentável, conceito formulado, em 1987, no Relatório Bruntland, que consiste em satisfazer as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras (atuais?) de suprir suas próprias necessidades. Todavia, os problemas são tantos e tão complexos que podemos ficar perplexos e paralisados, sem saber o que fazer ou por onde começar. Um bom começo é seguir o lema ambientalista cunhado pelo filósofo Ulrich Beck, em 1972: “pense globalmente, aja localmente”. Com esse lema em mente, devemos, em primeiro lugar, ter presente que a proteção do meio ambiente é dever de todos (da “coletividade”, nos termos do Art. 225, caput, da Constituição Federal). É o que se chama de “cidadania ambiental”. Ou seja: com a consciência e o conhecimento dos problemas ambientais globais, procurar fazer o possível para melhorar o nosso entorno (casa, bairro, cidade, município, região metropolitana…). Estamos fazendo a nossa parte? Nesse sentido, o Direito Ambiental pode ser uma útil e poderosa ferramenta para a defesa e a melhoria do meio ambiente. 1.3 Ecologia Quando se fala em meio ambiente e Direito Ambiental, logo vem à mente o termo Ecologia. Ao que consta, o termo foi cunhado pelo cientista Ernst Haeckel, em 1866, e vem da junção dos vocábulos gregos: oikos (casa) + logos (conhecimento, ciência). Nas palavras do filósofo Ávila Coimbra, é a “Ciência do Hábitat”, “pois é o conhecimento do mundo como nossa casa”.7 Conforme Roger Dajoz, citado por Ávila Coimbra, “a ecologia é a ciência que estuda as condições de existência dos seres vivos e as interações, de qualquer natureza, existentes entre esses seres vivos e seu meio”.8 A preocupação com o meio ambiente é fruto do chamado movimento ecológico, que surgiu após a II Guerra Mundial e ganhou força nos anos 60 e 70 do século XX. Esse movimento teve precursores visionários, como São Francisco de Assis, com seu Cântico das Criaturas (1224). Mais adiante, vem o Iluminismo dos séculos XVIII e XIX, especialmente a vertente inglesa, com seu culto à beleza das paisagens, destacando-se o poeta romântico W. Wordsworth (1770-1850). No século XIX, o poeta romântico J. W. Goethe (1749-1832) e o naturalista Alexander von Humboldt (1769-1859), ambos alemães, deram grandes contribuições, cada um em sua seara. Nos EUA, o escritor Henry David Thoreau, com a obra Walden (1854), expressou o amor à natureza e influenciou gerações, e o ativista John Muir (1838- 1914) contribuiu para a criação dos primeiros parques ecológicos. No século XX, o filósofo Aldo Leopold, na obra A sand county almanac (1948), lançou o conceito de “ecocentrismo”, fundamentando a proteção do meio ambiente não apenas nos interesses humanos ou na preservação da vida, mas sim na necessidade de proteger o planeta como um todo. O movimento ecológico ganhou força com a impactante obra de Rachel Carson, Primavera silenciosa (1962), na qual ela denuncia os males dos agrotóxicos utilizados sem critério na época, envenenando plantações e levando à extinção de pássaros e insetos. Em 1972, James Lovelock, com A hipótese Gaia, apresentou a Terra como um organismo vivo e integrado. Em 1973, Arne Naess, em sua Ecologia profunda, sustentou que a natureza possui um valor intrínseco, independentemente de seu valor de uso pelo ser humano. Em 1975, o filósofo neoutilitarista australiano Peter Singer lançou a obra Libertação animal, defendendo a proteção integral dos animais por seu valor intrínseco, e não por sua utilidade ao ser humano. Essas e outras obras formaram o substrato teórico do movimento ecológico e da ética ambiental. Neste século, o movimento ecológico ganhou impulso com a questão climática, decorrente do aquecimento global, que gera mudanças climáticas, já se falando em “emergência climática” planetária, a justificar medidas cada vez mais drásticas. Essa questão vem permeando as discussões internacionais e influi fortemente na política, no direito, na economia e na sociedade, impondo mudanças de paradigmas, como a economia verde, fontes alternativas de energia, governança ambiental etc.9 É simbolizada pelo conceito ESG (Environmental, Social and Governance, na sigla em inglês), que vem permeando ações governamentais e da iniciativa privada. 1.4 Ética Ambiental Como decorrência do movimento ecológico, surgiu um novo ramo da ética: a Ética Ambiental. Segundo Nalini, “a ética é a ciência do comportamento moral do homem na sociedade” e, atualmente, abrange quatro esferas de relacionamento de que o ser humano tem necessidade: o conhecimento de si próprio, o relacionamento com o outro, o culto ao divino ou a transcendência e a interação com a natureza, de onde deriva a ética ambiental.10 Conforme o mesmo autor, “a ameaça ao ambiente é questão eminentemente ética. Sua proteção eficiente depende de uma conversão, de uma alteração de conduta”.11 Nesse sentido, Aldo Leopold, pioneiro dessa nova ética, formulou o seguinte postulado: “uma coisa está bem enquanto tende a preservar a integridade, estabilidade e a beleza da comunidade biótica. Está mal, se tende a fazer o contrário”. O também filósofo Hans Jonas afirma que a ética ambiental é uma ética da responsabilidade, responsabilidade com os outros; o futuro da humanidade e o futuro da natureza são inseparáveis.12 Segundo Milaré, trata-se de uma ética de “terceira geração” (a primeira é individual, a segunda é social, a terceira é planetária): preocupa-se com “a sobrevivência do Planeta Terra, com todos os seus ecossistemas e a família humana”.13 Basicamente, há três visões distintas sobre o fundamento ético da proteção ao meio ambiente: o antropocentrismo, o biocentrismo e o ecocentrismo. No antropocentrismo, protege-se o meio ambiente, porque este é importante para a vida, a saúde e o bem-estar do ser humano. Segundo António Almeida, citado por Frederico Amado,14 “o antropocentrismo defende a centralidade indiscutível do ser humano e valoriza a natureza de um ponto de vista instrumental. Tal centralidade não implica a negação da necessidade de preservação da natureza […]”. Pelo biocentrismo, a proteção do meio ambiente visa beneficiar todas as formas de vida, sem uma consideração especial com o ser humano ou visando à utilidadede recursos hídricos com os planejamentos nacional, regional, estaduais e dos setores usuários; II - arbitrar, em última instância administrativa, os conflitos existentes entre Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos; III - deliberar sobre os projetos de aproveitamento de recursos hídricos cujas repercussões extrapolem o âmbito dos Estados em que serão implantados; IV - deliberar sobre as questões que lhe tenham sido encaminhadas pelos Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos ou pelos Comitês de Bacia Hidrográfica; V - analisar propostas de alteração da legislação pertinente a recursos hídricos e à Política Nacional de Recursos Hídricos; VI - estabelecer diretrizes complementares para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos, aplicação de seus instrumentos e atuação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos; VII - aprovar propostas de instituição dos Comitês de Bacia Hidrográfica e estabelecer critérios gerais para a elaboração de seus regimentos; VIII - (vetado) IX – acompanhar a execução e aprovar o Plano Nacional de Recursos Hídricos e determinar as providências necessárias ao cumprimento de suas metas; X - estabelecer critérios gerais para a outorga de direitos de uso de recursos hídricos e para a cobrança por seu uso. XI - zelar pela implementação da Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB);273 XII - estabelecer diretrizes para implementação da PNSB, aplicação de seus instrumentos e atuação do Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens (SNISB); XIII - apreciar o Relatório de Segurança de Barragens, fazendo, se necessário, recomendações para melhoria da segurança das obras, bem como encaminhá-lo ao Congresso Nacional. Segundo o Art. 45, a Secretaria-Executiva do Conselho Nacional de Recursos Hídricos será exercida pelo órgão integrante da estrutura do Ministério do Desenvolvimento Regional responsável pela gestão dos recursos hídricos. Dispõe o Art. 46 que compete à Secretaria Executiva do Conselho Nacional de Recursos Hídricos: I – prestar apoio administrativo, técnico e financeiro ao Conselho Nacional de Recursos Hídricos; II – (revogado); III – instruir os expedientes provenientes dos Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos e dos Comitês de Bacia Hidrográfica; V – elaborar seu programa de trabalho e respectiva proposta orçamentária anual e submetê-los à aprovação do Conselho Nacional de Recursos Hídricos. 9.6.7.2 Comitês de Bacia Hidrográfica Os Art. 37 a 40 da Lei 9.433/97 tratam dos Comitês de Bacia Hidrográfica, que são “órgãos colegiados com atribuições normativas, deliberativas e consultivas a serem exercidas na bacia hidrográfica de sua jurisdição”.274 Nas palavras de Édis Milaré, “um Comitê funciona como se fosse o parlamento da correspondente bacia”.275 Os Comitês de Bacia Hidrográfica terão como área de atuação, normalmente, a área de uma bacia hidrográfica (Art. 37, I), podendo, no entanto, corresponder a “uma sub-bacia hidrográfica de tributário do curso de água principal da bacia, ou de tributário desse tributário” (inc. II) ou, mesmo, a “um grupo de bacias ou sub-bacias hidrográficas contíguas” (inc. III). São competências dos Comitês de Bacia Hidrográfica, no âmbito de sua área de atuação, conforme o Art. 38: I - promover o debate das questões relacionadas a recursos hídricos e articular a atuação das entidades intervenientes; II - arbitrar, em primeira instância administrativa, os conflitos relacionados aos recursos hídricos; III - aprovar o Plano de Recursos Hídricos da bacia; IV - acompanhar a execução do Plano de Recursos Hídricos da bacia e sugerir as providências necessárias ao cumprimento de suas metas; V - propor ao Conselho Nacional e aos Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos as acumulações, derivações, captações e lançamentos de pouca expressão, para efeito de isenção da obrigatoriedade de outorga de direitos de uso de recursos hídricos, de acordo com os domínios destes; VI - estabelecer os mecanismos de cobrança pelo uso de recursos hídricos e sugerir os valores a serem cobrados; IX - estabelecer critérios e promover o rateio de custo das obras de uso múltiplo, de interesse comum ou coletivo. Das decisões dos Comitês de Bacia Hidrográfica caberá recurso ao Conselho Nacional ou aos Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos, de acordo com sua esfera de competência (Art. 38, parágrafo único). Nos termos do Art. 39, os Comitês de Bacia Hidrográfica são compostos por representantes: I - da União; II - dos Estados e do Distrito Federal cujos territórios se situem, ainda que parcialmente, em suas respectivas áreas de atuação; III - dos Municípios situados, no todo ou em parte, em sua área de atuação; IV - dos usuários das águas de sua área de atuação; V - das entidades civis de recursos hídricos com atuação comprovada na bacia. 9.6.7.3 A Agência Nacional de Águas (ANA) Dispõe o Art. 33, I-A, que a Agência Nacional de Águas (ANA) compõe o Conselho Nacional de Recursos Hídricos. Conforme Frederico Amado, a ANA “é uma autarquia federal em regime especial, criada pela Lei 9.984/2000”.276 Os Art. 2° e 3° da Lei 14.026/2020, conhecida como “Novo Marco Legal do Saneamento Básico”, alteram a Lei 9.984/2000 (que criou a ANA) para renomear a agência como Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), […] entidade federal de implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos, integrante do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (Singreh) e responsável pela instituição de normas de referência para a regulação dos serviços públicos de saneamento básico. 9.6.7.4 Agências de Águas Segundo Frederico Amado, “as Agências de Águas funcionarão como Secretarias Executivas dos Comitês de Bacias Hidrográficas”, ou seja, “as Agências de Águas serão as ‘pontas’ do SINGREH, atuando como órgãos executores dos Comitês de Bacias Hidrográficas”.277 Com efeito, dispõe o Art. 41 que as Agências de Água exercerão a função de secretaria executiva do respectivo Comitê de Bacia Hidrográfica. As Agências de Água terão a mesma área de atuação de um ou mais Comitês de Bacia Hidrográfica (Art. 42). O Art. 43 dispõe que a criação de uma Agência de Água é condicionada ao atendimento dos seguintes requisitos: “I - prévia existência do respectivo ou respectivos Comitês de Bacia Hidrográfica; II - viabilidade financeira assegurada pela cobrança do uso dos recursos hídricos em sua área de atuação”. O Art. 44 cuida das competências das Agências de Água, determinando que a elas compete, no âmbito de sua área de atuação: I - manter balanço atualizado da disponibilidade de recursos hídricos em sua área de atuação; II - manter o cadastro de usuários de recursos hídricos; III - efetuar, mediante delegação do outorgante, a cobrança pelo uso de recursos hídricos; IV - analisar e emitir pareceres sobre os projetos e obras a serem financiados com recursos gerados pela cobrança pelo uso de Recursos Hídricos e encaminhá-los à instituição financeira responsável pela administração desses recursos; V - acompanhar a administração financeira dos recursos arrecadados com a cobrança pelo uso de recursos hídricos em sua área de atuação; VI - gerir o Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos em sua área de atuação; VII - celebrar convênios e contratar financiamentos e serviços para a execução de suas competências; VIII - elaborar a sua proposta orçamentária e submetê-la à apreciação do respectivo Comitê de Bacia Hidrográfica; IX - promover os estudos necessários para a gestão dos recursos hídricos em sua área de atuação; X - elaborar o Plano de Recursos Hídricos para apreciação do respectivo Comitê de Bacia Hidrográfica; XI - propor ao respectivo Comitê de Bacia Hidrográfica: a) o enquadramento dos corpos de água nas classes de uso, para encaminhamento ao respectivo Conselho Nacional ou Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos, de acordo com o domínio destes; b) os valores a serem cobrados pelo uso de recursos hídricos; c) o plano de aplicação dos recursos arrecadados com a cobrançapara este. Por fim, segundo o ecocentrismo, deve-se proteger a Biosfera (Terra, Gaia) como um todo, um organismo integrado e com valor intrínseco, independentemente do seu interesse para o ser humano. Como veremos em momento oportuno, essas diferentes visões servirão para fundamentar posições jurídicas em matéria de Direito Ambiental. Atualmente, entre os estudiosos e aplicadores do Direito Ambiental, inclusive no Supremo Tribunal Federal, parece prevalecer o paradigma ecocêntrico. 1.5 Visão Conservadora Atualmente, a militância ambientalista é praticamente monopolizada pela visão de esquerda do espectro político. A chamada Nova Esquerda adotou o meio ambiente como uma de suas principais bandeiras. Nesse contexto, é interessante observar que o filósofo conservador britânico Roger Scruton (1944-2020) vê uma convergência entre o conservadorismo, que se posiciona à direita no espectro político, e o ambientalismo, afastando-se, aqui, do liberalismo contemporâneo, que em certas vertentes vê as preocupações ambientais como um entrave ao livre mercado. Em suas obras, especialmente em Filosofia verde, Scruton lembra que o conservador luta para conservar aquilo que merece ser preservado, inclusive, obviamente, a natureza. Segundo o filósofo, essa atitude, no conservadorismo, decorre do amor compartilhado por nosso lar comum (oikophilia) e deve se expressar por meio da intendência zelosa, da gestão fiduciária e de iniciativas locais (“pequenos pelotões”, na expressão de Burke), contra o radicalismo salvacionista, que mais atrapalha do que ajuda na conservação da natureza. Em suas palavras, Conservadorismo e conservação são dois aspectos de uma única política de longo prazo: gerenciar recursos e assegurar a sua renovação. Esses recursos incluem o capital social das leis, dos costumes e das instituições; incluem também o capital material contido no meio ambiente e o capital econômico de uma economia livre sob o regime das leis.15 1.6 Meio Ambiente O que é, então, meio ambiente, objeto de proteção do Direito Ambiental? Conforme Ávila Coimbra, a expressão é formada por meio, com conotação espacial, “estar num meio significa, na prática, estar dentro dele, por ele envolvido”; e por ambiente, do latim, amb (ao redor, à volta), ire (ir), “tudo o que vai à volta, o que rodeia determinado ponto ou ser”.16 Ao que consta, a expressão foi usada pela primeira vez pelo cientista francês Saint-Hilaire, em 1835 (milieu ambiant): meio como contexto, espaço ou lugar; ambiente, do latim, o que rodeia por todos os lados. Daí vieram as expressões environment (inglês), ambiente (italiano), medio ambiente (espanhol), environnement (francês), Umwelt (alemão) etc. Meio ambiente é, então, definido por Ávila Coimbra como o […] conjunto dos elementos físicos, químicos, e biológicos e de suas múltiplas relações, ordenados para a perpetuação da vida e organizados em ecossistemas naturais e sociais, constituindo uma realidade complexa e marcada pela ação da espécie humana.17 A lei da Política Nacional do Meio Ambiente, por sua vez, define meio ambiente como “conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas” (Art. 3º, inciso I, da Lei 6.938/81). Numa definição mais abrangente, que leva em conta não apenas o meio ambiente natural como o artificial, produto da ação humana, a Resolução Conama 306 assim define meio ambiente: “conjunto de condições, leis, influência e interações de ordem física, química, biológica, social, cultural e urbanística, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas” (Resolução Conama n.º 306, de 5 de julho de 2002). 1 Direito Constitucional ecológico, p. 15. 2 Ética ambiental, p. 16. 3 Frederico Amado, Direito Ambiental esquematizado, 7. ed., p. 2. 4 Ibidem, p. 3. 5 Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso, 9. ed., p. 18, grifos no original. 6 Ibidem, p. 41. 7 O outro lado do meio ambiente, 2002, p. 20. 8 Ibidem, p. 21. 9 No Brasil, por exemplo, em 2023, o Ministério do Meio Ambiente foi rebatizado como Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e está prevista a criação de uma autoridade climática para zelar para que a questão climática seja levada em conta em todos as decisões governamentais. Na reforma tributária em andamento, são previstos vários mecanismos de extrafiscalidade voltados à proteção ambiental. 10 Nalini, Op. cit., p. 13. 11 Ibidem, p. 17. 12 Cf. Roger Scruton, Filosofia verde, p. 83. 13 Direito do ambiente, 8. ed., p. 142. 14 Op. cit., p.5. 15 Op. cit., p. 15. 16 Op. cit., p. 24. 17 Op. cit., p. 32. CAPÍTULO 2 DIREITO AMBIENTAL: NOÇÕES PRELIMINARES E PANORAMA GERAL O Direito, em seu conjunto, é indispensável ao ordenamento feliz da vida da família humana em sua permanência na Casa Comum. Por sua vez, o Direito do Ambiente estabelece as bases indispensáveis ao bom relacionamento da sociedade com o seu entorno (local, nacional e planetário), para estabelecer – de maneira racional, científica e social – os fundamentos e objetivos dessas relações. (Édis Milaré) 2.1 Direito Ambiental Conforme José Afonso da Silva, sob o ponto de vista objetivo, Direito Ambiental pode ser definido como o “conjunto de normas jurídicas disciplinadoras da proteção da qualidade do meio ambiente”. Como ciência, assinala o mesmo autor, o Direito Ambiental “busca o conhecimento sistematizado das normas e princípios ordenadores da qualidade do meio ambiente”.18 Frederico Amado, por sua vez, define Direito Ambiental como o “ramo do direito público composto por princípios e regras que regulam as condutas humanas que afetem, potencial ou efetivamente, direta ou indiretamente, o meio ambiente, quer o natural, o cultural ou o artificial”.19 Como relata Talden Farias, teria sido Paulo Affonso Leme Machado pioneiro da área no Brasil, […] o primeiro a usar e a defender a terminologia Direito Ambiental como a mais adequada, já que na década de 1970 a expressão Direito Ecológico estava mais em voga. Ou seja, é um dos raros juristas que batizou um ramo da Ciência Jurídica.20 Interessante observar que, segundo Sarlet e Fensterseifer, diante do fortalecimento do paradigma ecocêntrico, “cada vez mais autores começam a questionar a própria raiz antropocêntrica da expressão Direito Ambiental, propondo a sua substituição por Direito Ecológico”.21 Édis Milaré, por sua vez, prefere a denominação Direito do Ambiente, embora registre que “não importam as denominações”.22 Sem entrar na discussão sobre a melhor denominação, fato é que Direito Ambiental é a denominação oficial, porquanto utilizada pelo Ministério da Educação em suas Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Direito, publicadas em 2021.23 Trata-se, enfim, de disciplina jurídica autônoma, dotada de um conjunto de princípios e normas específicos. 2.2 Panorama Histórico Os mais antigos diplomas jurídicos já continham normas de proteção ao que hoje se chama de meio ambiente. Até as primeiras décadas do século XX, no entanto, essa proteção jurídica era feita sob uma perspectiva utilitarista, isto é, protegiam-se os elementos da natureza em função de sua utilidade para o ser humano. Renato Guimarães Junior, em interessante estudo sobre a história do Direito Ambiental, lembra que documentos como o Código de Hamurabi, o Livro dos Mortos do antigo Egito e o hino persa de Zaratustra já demonstram a preocupação dessas antigas civilizações com o respeito à natureza.24 A preservação do meio ambiente também foi uma preocupação da lei mosaica, quando determinava que, em caso de guerra, fosse poupado o arvoredo.25 A Magna Carta, assinada por João Sem Terra, em 1215, também continha minuciosos dispositivos sobre a utilização das florestas. O mesmo autor assinala que esse documento “divide-se em verdade, depois, só depois, em dois diplomas: a Carta da Floresta, na época muito mais importante e polêmica, e a Carta das Liberdades, hoje tão reverenciada em todos os sistemas jurídicos”.26É que as florestas pertenciam ao rei, sendo proibidas aos súditos a caça e a exploração da madeira. Outros países europeus, como Portugal e Espanha, também tradicionalmente tiveram normas de proteção à natureza em seus ordenamentos jurídicos, por exemplo, a proibição do corte do carvalho e do sovereiro em Portugal e o crime de poluição das águas previsto nas Ordenações Filipinas (1603).27 Além das Filipinas, as Ordenações Afonsinas (1446) e as Manuelinas (1521) também proibiam o corte de árvores frutíferas e a caça e a pesca por meios cruéis. Curiosamente, a pena era o degredo para o Brasil… No Brasil colônia, o Regimento do Pau-Brasil, de 1605, pretendeu proteger essas árvores nobres da exploração descontrolada. Na época do Império, o Código Criminal (1830) proibia o corte ilegal de madeiras. Em 1911, foi criada a primeira Reserva Florestal, no então Território do Acre, nunca implantada de fato. O Código Civil de 1916 estabelecia o direito de vizinhança contra interferências nocivas e proibia a poluição das águas, propiciando a ação cominatória, inclusive contra indústrias. O Código Penal, já em 1940, tipificou o crime de corrupção ou poluição de “água potável” (Art. 271). Uma nova fase se inaugura com o nosso primeiro Código Florestal, destinado especificamente à proteção das florestas (Decreto 23.793/34).28 A primeira lei específica de proteção aos animais data do mesmo ano (Decreto 24.645/34). O segundo Código Florestal foi a Lei 4.771/65. Da mesma época, são os Códigos de Caça (hoje Lei de Proteção à Fauna), de Pesca e de Mineração (1967). Marco pioneiro e importantíssimo foi a Lei da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei 6.938/81), seguida da Lei da Ação Civil Pública (Lei 7.347/85), instrumento essencial para a defesa do meio ambiente em juízo. 2.3 Constituições Brasileiras Até 1988, as Constituições brasileiras praticamente ignoraram o meio ambiente. A Constituição Imperial de 1824, talvez já prevendo as consequências da Revolução Industrial, proibia indústrias nocivas à saúde das pessoas. No entanto, ao que parece, a norma não teve a devida efetividade, embora a indústria no Brasil da época fosse ainda incipiente. A Constituição republicana de 1891 foi ainda mais lacônica, apenas estabelecendo a competência da União para legislar sobre suas minas e terras, o que poderia significar qualquer coisa em termos ambientais. A Constituição de 1934 lembrou-se da proteção das belezas naturais e do patrimônio histórico artístico e cultural. Também previu a competência da União para legislar sobre minas, águas, florestas, caça e pesca. As Constituições de 1937, 1946 e 1967 apenas repetiram esses dispositivos. A Emenda Constitucional n.º 1, de 1969, foi a que, pela primeira vez, usou o termo “ecológico” (Art. 172).29 A Constituição democrática de 1988 constituiu um marco histórico no Direito Ambiental brasileiro, sendo a primeira a tratar do meio ambiente e a consagrá-lo como direito fundamental, além de prever instrumentos importantes para a sua garantia, como a ação popular e a ação civil pública. Voltaremos ao tema no Capítulo 3. 2.4 Direito Comparado No Direito Comparado, a Constituição da então Alemanha Ocidental, de 1949, estabeleceu a competência estatal para proteger a fauna e a flora e combater a poluição. No campo socialista, as Constituições da Bulgária (1971), de Cuba (1976) e da URSS (1977) previam a defesa do meio ambiente, porém de forma inefetiva, como lembra Herman Benjamin,30 haja vista o histórico de desastres ambientais provocado por tais regimes, como a destruição do Mar de Aral e a tragédia de Chernobyl. A Constituição de Portugal (1976) foi primeira a tratar o meio ambiente como um direito, seguida pelas Constituições da Espanha (1978), do Chile (1981) e da Argentina (1994), entre outras. A Constituição do Equador, de 2008, inovou ao consagrar a natureza (“Pacha Mama”) como sujeito de direitos. No âmbito infraconstitucional, a legislação ambiental dos EUA foi pioneira e constituiu exemplo para o mundo, destacando-se os seguintes diplomas legais: Clean Air Act (1963 e 1970), National Environmental Policy Act (NEPA) e Environmental Protection Agency (EPA, 1970), Federal Water Pollution Control Act – Clean Water Act (1972) etc. Além disso, várias Constituições estaduais estabelecem normas ambientais. Na União Europeia, o Direito Comunitário é rico em matéria de legislação protetiva do meio ambiente, aplicando-se no âmbito interno dos países membros e muitas vezes se constituindo em barreiras para a entrada de produtos importados de países de fora do bloco, como é o caso do Brasil. 2.5 Direito Internacional Como é cediço, o meio ambiente desconhece limites municipais, estaduais, nem nacionais, havendo questões que transcendem as fronteiras entre os países, como são as mudanças climáticas, a desertificação, a diminuição da camada de ozônio etc. Daí, a importância do estabelecimento de tratados e convenções internacionais nessa área. Historicamente, podem ser citadas a Convenção de Londres para a criação de parques na África (1933), a Convenção sobre a Atividade Baleeira (1946), a Convenção de Paris sobre poluição nuclear (1960) etc. Em 1966, o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC), assinado pelo Brasil, previu o direito ao mínimo existencial, incluindo meio o ambiente: Art. 12, 1. Os Estados Partes do presente Pacto reconhecem o direito de toda pessoa de desfrutar o mais elevado nível possível de saúde física e mental. 2. As medidas que os Estados Partes do presente Pacto deverão adotar com o fim de assegurar o pleno exercício desse direito incluirão as medidas que se façam necessárias para assegurar: a) A diminuição da mortinatalidade e da mortalidade infantil, bem como o desenvolvimento é das crianças; b) A melhoria de todos os aspectos de higiene do trabalho e do meio ambiente; c) A prevenção e o tratamento das doenças epidêmicas, endêmicas, profissionais e outras, bem como a luta contra essas doenças; d) A criação de condições que assegurem a todos assistência médica e serviços médicos em caso de enfermidade. O grande marco inaugural do Direito Internacional Ambiental foi a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, na Suécia, em 1972, reunindo representantes de 113 países e de mais de 400 instituições governamentais e não governamentais. Dessa conferência resultou a Declaração da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, primeiro documento internacional a reconhecer o meio ambiente como um direito humano. Segundo a Declaração, “o homem tem o direito fundamental à liberdade, à igualdade e ao desfrute de condições de vida adequadas em um meio ambiente de qualidade tal que lhe permita levar uma vida digna e gozar de bem-estar, tendo a solene obrigação de proteger e melhorar o meio ambiente para as gerações presentes e futuras” (Princípio 1). Interessante também o Princípio 4, segundo o qual, “nos países em desenvolvimento, a maioria dos problemas ambientais estão motivados pelo subdesenvolvimento”. No âmbito da Convenção de Estocolmo foi criado o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). O Brasil teve um papel polêmico nessa Conferência, ao que consta reclamando que os países desenvolvidos pretendiam solapar o desenvolvimento dos demais, sobrepondo a preservação ambiental ao necessário crescimento econômico. Do mesmo ano de 1972 é a Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural, concluída em Paris, no âmbito da Unesco. Em 1973, foi assinada a Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e Flora Selvagens em Perigo de Extinção (CITES), de grande importância para o combate ao tráfico de animais e vegetais, à qual o Brasil aderiu. Em 1992, vinte anos após a Convenção de Estocolmo, foi realizada no Rio de Janeiro a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio/92 ou Eco/92). No âmbito dessa cúpula, foi proclamada a Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento,estabelecendo que “os Estados devem cooperar num espírito de parceria global para conservar, proteger e restaurar a saúde e a integridade do ecossistema da Terra” (Princípio 7). Foi também firmada a Convenção sobre a Diversidade Biológica e editada a Agenda 21, definida como “um instrumento de planejamento para a construção de sociedades sustentáveis, em diferentes bases geográficas, que concilia métodos de proteção ambiental, justiça social e eficiência econômica”.31 No mesmo ano, foi firmada em Nova York a Convenção- Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, posteriormente complementada pelo Protocolo de Kyoto (1997) e pelo Acordo de Paris (2015) e determinou a realização de conferências anuais das partes, as chamadas “COPs”. Na Declaração e programa de ação de Viena (1993), editada na Conferência Mundial sobre Direitos Humanos, foi proclamado que o direito ao desenvolvimento deve ser realizado de modo a satisfazer as “necessidades ambientais e de desenvolvimento das gerações presentes e futuras”. Conforme dispõe a Constituição Federal em vigor, os tratados e convenções internacionais, celebrados pelo presidente da República (Art. 83, VIII) e aprovados pelo Congresso Nacional (Art. 49, I), têm força de lei no território nacional, sendo que aqueles que versem sobre Direitos Humanos e que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais (Art. 5º, § 3º). O meio ambiente, destarte, foi consagrado como um verdadeiro direito humano, entre os chamados de terceira geração. Isso porque, conforme o esquema proposto pelo teórico britânico T. H. Marshall, os Direitos Humanos surgiram em gerações consecutivas, sendo os de primeira geração os direitos civis e políticos e os de segunda geração os direitos sociais. Os direitos de terceira geração são os direitos dos povos e da humanidade ou direitos de solidariedade, categoria na qual figura o direito ao meio ambiente. Também se fala em direitos de quarta geração: direitos à democracia, à informação e ao pluralismo. É importante notar, no entanto, que hoje se fala mais propriamente em dimensões de direitos, pois a sua classificação em gerações pode dar a ideia de que uma geração teria substituído a outra, o que não acontece, já que eles são cumulativos. Conforme a doutrina, os Direitos Humanos, quando consagrados na Constituição, ganham o status de direitos fundamentais. É o que acontece, no Brasil, com o direito ao meio ambiente, já que a nossa Constituição proclama: Art. 225. todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. O direito ao meio ambiente também é considerado um direito difuso, categoria identificada na década de 1970 por juristas como o italiano Mauro Cappelletti, que, transcendendo os direitos individuais, não coincidem, necessariamente, com o interesse público, enquanto interesse da Administração. É clássica a pergunta de Cappelletti “a quem pertence o ar que eu respiro?”. Direito ou interesse difuso é definido no Art. 81, parágrafo único, inciso I, da Lei n.º 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor) como aquele “transindividual (ou metaindividual), de natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas indeterminadas e ligadas por circunstâncias de fato”. Desenvolveremos melhor esse tema em outros capítulos. 2.6 Panorama da Legislação Vigente O Brasil possui uma das mais pródigas legislações ambientais do mundo,32 destacando-se as seguintes leis: Lei 6.938/81 (Política Nacional do Meio Ambiente); Lei 7.347/85 (Ação Civil Pública); Lei 9.433/97 (Política Nacional de Recursos Hídricos); Lei 9.605/98 (Crimes Ambientais); Lei 9.985/2000 (Unidades de Conservação); Lei 12.305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos); Código Florestal (Lei 12.651/2012); Lei 14.026/2020 (“Novo Marco” do Saneamento Básico); Lei 12.187/2009 (Política Nacional sobre Mudança do Clima – PNMC); Lei Complementar 140/2011 (Competências Ambientais) etc. O Direito Ambiental também está presente nas Constituições Estaduais e em leis estaduais, Leis Orgânicas Municipais, leis municipais, bem como em decretos, resoluções, portarias etc. 2.7 Relações com Outras Disciplinas Conforme será visto nos capítulos seguintes, o Direito Ambiental relaciona-se com o Direito Internacional, o Direito Constitucional, o Direito Administrativo, o Direito Penal, o Direito Civil, o Direito Processual, o Direito do Trabalho, o Direito Tributário etc. Além disso, o Direito Ambiental utiliza conhecimentos e conceitos de outras ciências, como Biologia, Física, Engenharias, Arquitetura e Urbanismo, História, Geografia etc. 18 Op. cit., p. 45. 19 Op. cit., p. 15. 20 “A trajetória de Paulo Affonso Leme Machado e o Direito Ambiental brasileiro”. Revista Consultor Jurídico, 21 maio 2016. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2016-mai-21/ambiente-juridico-trajetoria-paulo- affonso-leme-machado-direito-ambiental-brasileiro, grifado no original. 21 Op. cit., p. 22, grifado no original. 22 Direito do Ambiente, RT, Prefácio à 8ª edição. 23 Disponível em: http://portal.mec.gov.br/docman/abril-2021-pdf/181301-rces002-21/file 24 “O futuro do Ministério Público como guardião do meio ambiente e a história do direito ecológico”. In: Justitia, v. 113, p. 152-153. 25 Deuteronômio, 20, 19. 26 Art. cit., p. 154-155. 27 Ibidem, p. 162-163. 28 Por terem sido editados pelo chamado “governo provisório”, de Getúlio Vargas, que prescindia do Parlamento, os decretos da época tinham força de lei e alguns deles foram recepcionados como tal pelas Constituições posteriores, inclusive a atual. 29 “Art. 172. A lei regulará, mediante prévio levantamento ecológico, o aproveitamento agrícola de terras sujeitas a intempéries e calamidades. O mau uso da terra impedirá o proprietário de receber incentivos e auxílios do Govêrno (sic)”. 30 Antonio Herman de V. Benjamin, “Direito Constitucional Ambiental brasileiro”, in: Direito Constitucional Ambiental brasileiro, J. J. Gomes Canotilho e José Rubens Morato Leite (org.), Saraiva, 4. ed. 31 Disponível em: https://antigo.mma.gov.br/responsabilidade-socioambiental/agenda-21/agenda-21- global.html 32 Sobre o tema, cf. Evaristo de Miranda, “O campeão da proteção florestal”. Revista Oeste, 7 maio 2021. Disponível em: https://revistaoeste.com/revista/edicao-59/o-campeao-da-protecao-florestal/ CAPÍTULO 3 DIREITO AMBIENTAL CONSTITUCIONAL Os mais recentes modelos constitucionais elevam a tutela ambiental ao nível não de um direito qualquer, mas de um direito fundamental. (Herman Benjamin) 3.1 Introdução Como vimos no capítulo anterior, a partir do Pacto Internacional de Direitos Econômicos Sociais e Culturais (PIDESC, 1966) e da Declaração de Estocolmo (1972), consolida- se a ideia de que o meio ambiente é um direito em si, e não um instrumento para a proteção de outros bens ou direitos, configurando-se, ademais, como um direito humano. A Constituição Alemã, de 1949, inaugurou o Direito Ambiental Constitucional, mas primeira Constituição a reconhecer o meio ambiente como um direito fundamental foi a de Portugal (1976). Esta foi o modelo para a Constituição brasileira de 1988. Vimos também que, no Brasil, a tutela jurídica do meio ambiente foi inaugurada pela Lei 6.938/81, ao estabelecer a responsabilidade civil objetiva do causador do dano ambiental, além das responsabilidades administrativa e criminal. A primeira lei brasileira a consagrar expressamente o meio ambiente como um direito foi a Lei da Ação Civil Pública, listando o meio ambiente como um dos interesses difusos tuteláveis por essa espécie de ação (Lei 7.347/85, Art. 1º, I). A Constituição de 1988 foi a primeira Constituição brasileira a tratar do meio ambiente, sendo também a primeira consagrar o meio ambiente ecologicamente equilibrado como um direito fundamental,contendo ainda um vasto aparato de normas protetivas desse direito, no que é chamado de “Constituição Ambiental”. O que mudou? Como observa Marcelo Abelha Rodrigues, […] antes, o que ocorria era a proteção de alguns microbens ambientais específicos (recursos ambientais), contudo sem viés ecológico, mas apenas sanitário e econômico. Atualmente, é o macrobem (equilíbrio ecológico) que é protegido a partir da função ecológica dos microbens (recursos ambientais).33 Conforme salientam Sarlet e Fensterseifer, o meio ambiente é, inegavelmente, um direito humano, já esboçado no Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, de 1966 (Art. 12), e assim proclamado na Declaração de Estocolmo, de 1972. Foi também consagrado como tal no Protocolo de San Salvador à Convenção Americana sobre Direitos Humanos em Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, de 1988 (Art. 2 e 11), e na Opinião Consultiva 23/2017, da Corte Interamericana de Direitos Humanos.34 Uma vez abrigado na Constituição Federal, o meio ambiente torna-se também um direito fundamental.35 Sua natureza, segundo José Afonso da Silva, é de direito social, porquanto localizado no capítulo da Ordem Social.36 Conforme Édis Milaré, trata-se também de um direito público subjetivo, “vale dizer, exigível e exercitável em face do próprio Estado”.37 É também direito difuso, nos termos do Art. 129, III, da Constituição Federal, e do Art. 1º, I, da Lei 7.347/85. Sobre o fato de não figurar no rol do Art. 5º, nem no Título dos Direitos e Garantias Fundamentais, comenta Abelha Rodrigues que […] embora a Constituição Federal brasileira não tenha incluído o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado de modo expresso nos direitos e garantias fundamentais, há muito a doutrina já reconhece que esse direito possui tal natureza (direito fundamental), na medida em que não há vida, não há dignidade, não há isonomia, não há segurança, não há saúde sem a existência de um meio ambiente ecologicamente equilibrado.38 Da qualificação do meio ambiente como direito fundamental, resulta sua aplicabilidade imediata (Art. 5º, § 1º) e sua natureza de cláusula pétrea (Art. 60, § 4º, IV) e de norma de eficácia plena.39 3.2 Objeto de Tutela O que a Constituição tutela é o direito ao “meio ambiente ecologicamente equilibrado”, qualificado como “bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras gerações” (Art. 225, caput). Segundo José Afonso da Silva, há dois objetos de tutela: “um imediato, que é a qualidade do meio ambiente; e outro mediato, que é a saúde o bem-estar e a segurança da população”.40 Tutela-se, pois, o meio ambiente, assim definido pela lei: “conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas” (Art. 3º, I, da Lei 6.938/81).41 O direito tutelado, no entanto, não é a qualquer meio ambiente, mas, sim, a um meio ambiente ecologicamente equilibrado. Conforme José Afonso da Silva, ecologicamente equilibrado significa equilibrado segundo a Ecologia, que é a ciência do habitat ou “ciência que estuda as condições da existência dos seres vivos e as interações, de qualquer natureza, existentes entre seres vivos e seu meio”.42 Sobre o tema, escreve Abelha Rodrigues que “o equilíbrio ecológico é o bem jurídico (imaterial) que constitui o objeto de direito a que alude o texto constitucional”.43 Imaterial porque é abstrato, um conceito, não se referindo a um bem material específico. Assim, […] conjugando o mandamento constitucional com a definição de meio ambiente constante do art. 3º, I, da Lei n. 6.938/81 – no sentido de que é formado pela interação de diversos fatores bióticos e abióticos –, temos que o direito ambiental visa proteger exatamente o equilíbrio nessa interação. E mais: a proteção a cada um desses elementos justifica-se na medida em que serve à manutenção desse equilíbrio.44 O Art. 225, caput, da Constituição Federal também qualifica o meio ambiente como um bem de uso comum do povo. É, portanto, um bem público. Nos termos do Código Civil, “são públicos os bens do domínio nacional pertencentes às pessoas jurídicas de direito público interno” (Art. 98). Bens de uso comum do povo, por sua vez, são aqueles “tais como rios, mares, estradas, ruas e praças” (Art. 99, I). A propósito dos bens de uso comum do povo, ensina Hely Lopes Meirelles, […] no uso comum do povo os usuários são anônimos, indeterminados, e os bens utilizados o são por todos os membros da coletividade – uti universi –, razão pela qual ninguém tem direito ao uso exclusivo ou a privilégios na utilização do bem…45 Importante ressaltar, ainda, como ensinam Sarlet e Fensterseifer, que, por força do tratamento constitucional de “bem de uso comum do povo” dispensado ao ambiente, “o Poder Público passa a figurar, não como proprietário de bens ambientais – por exemplo, das águas e da fauna –, mas como gestor, o qual administra bens que não são dele e, por isso, deve explicar convincentemente sua gestão”.46 Ademais, é um bem indisponível.47 3.3 Estrutura do Direito Segundo José Afonso da Silva, o direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado é composto por três conjuntos de normas: norma princípio ou matriz (caput); instrumentos de garantia da efetividade do direito (§ 1º); determinações particulares, em relação a objetos e setores específicos (§§ 2º a 7º).48 A norma princípio ou matriz está contida no caput: Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. Dessa norma, por sua vez, emanam vários princípios que informam o Direito Ambiental. A doutrina identifica que o caput do Art. 225 veicula os princípios do desenvolvimento sustentável, da solidariedade ou equidade intergeracional e do mínimo existencial ambiental. 3.3.1 Desenvolvimento Sustentável O princípio do desenvolvimento sustentável foi proclamado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMED) da ONU, no relatório Nosso Futuro Comum, coordenado pela então primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, publicado em 1987. Nos termos desse relatório, o desenvolvimento sustentável é aquele que “atende às necessidades atuais sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades”. Segundo Amado, é a capacidade de utilizar os recursos e os bens da natureza sem comprometer a disponibilidade desses elementos para as gerações futuras.49 Sarlet e Fensterseifer destacam os três eixos nucleares do conceito de desenvolvimento sustentável: ecológico, social e econômico. Os mesmos autores asseveram que o conceito de desenvolvimento “transcende, substancialmente, a ideia limitada de crescimento econômico”, lembrando que […] a Declaração sobre Direito ao Desenvolvimento (1986), da qual o Brasil é signatário, no § 1º do seu art. 1º, dispõe que “o direito ao desenvolvimento é um direito humano inalienável, em virtude do qual toda pessoa e todos os povos estão habilitados a participar do desenvolvimento econômico, social, cultural e político, para ele contribuir e dele desfrutar, no qual todos os direitos humanos e liberdades fundamentais possam ser plenamente realizados.50 3.3.2 Solidariedade Intergeracional Segundo Sarlet e Fensterseifer, citando Ramón Martín Mateo, o desenvolvimento sustentável “vai mais além de uma mera harmonização entre a economia e a ecologia, incluindo novos valores morais relacionados à solidariedade”, inclusive “considerando a dimensão intergeracional que lhe é inerente”.51 Ligado, portanto, ao desenvolvimento sustentável, o princípio da solidariedade ou equidade intergeracional, por sua vez, significa que […] as presentes gerações devem preservar o meio ambiente