Prévia do material em texto
1 CBI of Miami 2 CBI of Miami DIREITOS AUTORAIS Esse material está protegido por leis de direitos autorais. Todos os direitos sobre o mesmo estão reservados. Você não tem permissão para vender, distribuir gratuitamente, ou copiar e reproduzir integral ou parcialmente esse conteúdo em sites, blogs, jornais ou quaisquer veículos de distribuição e mídia. Qualquer tipo de violação dos direitos autorais estará sujeito a ações legais. 3 CBI of Miami Funções Executivas e seu Papel no Desenvolvimento do Ser Humano e da Aprendizagem Patrícia Botelho As funções executivas (FE) são um conjunto de habilidades relacionadas a um mesmo agrupamento de regiões cerebrais que trabalham em conjunto buscando atingir objetivos. Essas regiões cerebrais estão localizadas principalmente no córtex pré-frontal que apresenta circuitos que são consolidados e modificados a partir das experiencias da infância, porém continuam a se desenvolver até a idade adulta. Outras regiões como o sistema límbico, por exemplo, são interconectadas com o córtex pré-frontal e estão relacionadas com o desenvolvimento das FE. Esse desenvolvimento ocorre de maneira progressiva ao longo da vida até a idade adulta, e sofre um declínio com o avanço da idade (Comitê Científico do Núcleo Ciência Pela Infância [CCNCPI], 2016; GAZZANIGA, IVRY & MANGUN, 2006). Podemos defini-la com um conjunto de habilidades cognitivas que permite a realização de comportamentos direcionados a atingir objetivos e metas, agindo de maneira voluntária, autônoma e auto-organizada. Permitem ainda, lidar com situações novas e ajustar, adaptar e flexibilizar os comportamentos para responder a demandas do ambiente (GAZZANIGA, IVRY & MANGUN, 2006). Existem diferentes modelos representativos e explicativos das habilidades de FE. Em abordagem neuropsicológica, o conceito de FE foi sistematizado pela primeira vez por Muriel Lezak em 1982. Diante disso, ela descreveu quatro domínios para as FE: volição (motivação, intenção e autoconsciência em comportamentos intencionais); planejamento (identificar sequência de passos necessários para atingir objetivos ou resolver problemas); ação intencional (efetuar a sequência de ações ou modificá-la); e desempenho efetivo (autocorreção, monitoramento e regulação do comportamento). Posteriormente, abordagens mais socioafetivas e emocionais apresentaram uma perspectiva para a compreensão dos comportamentos e processos psicopatológicos de diferentes transtornos como o déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), esquizofrenia, autismo e transtornos de conduta. O modelo de autorregulação de Barkley de 1997 foi desenvolvido para a explicar os déficits cognitivos e 4 CBI of Miami comportamentais presentes no TDAH. Neste modelo, a autorregulação organiza e congrega todos os componentes das FE, sendo eles: comportamento orientado para a meta; regras e falas autodirigidas; elaboração de planos futuros; e controle de impulsos. Além da inibição do comportamento, faz parte dos componentes básicos das funções executivas a memória de trabalho, autorregulação do afeto, motivação e da estimulação, internalização da fala, e análise e síntese do comportamento (UEHARA et al. 2013). Mais recentemente, houve a proposição da divisão das FE em processos executivos “frios” que seriam processos lógicos e cognitivos, e processos executivos “quentes” que envolvem aspectos emocionais, crenças, e desejos, bem como a regulação do afeto, motivação, tomada de decisões, teoria da mente, julgamento moral e comportamento social. Os dois tipos de processos estão presentes em conjunto nas FE (em consenso com outras teorias) (UEHARA et al. 2013). Em modelos cognitivos mais recentes há consenso teórico que descreve as FE como processos mentais top-down que envolvem três habilidades fundamentais: memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva. A memória de trabalho (MT) como discutida no módulo 2, permite armazenar e manipular informações tanto verbais quanto visuoespaciais, auditivas, táteis, olfativas e gustativas. Portanto, podemos dizer que apresentamos dois tipos de memória de trabalho: verbal e não verbal. Essa habilidade permite organizar informações, relacionar acontecimentos, pensar em alternativas ao planejamento e agir de maneira criativa. O controle inibitório (CI) permite evitar distrações, impulsos e ações automáticas controlando a atenção, pensamento, comportamento e emoções. A partir disso, existe três tipos de aspectos do controle inibitório: controle inibitório da atenção permite manter a atenção e foco em detrimento a outros estímulos; a inibição cognitiva permite resistir a pensamentos e memórias não intencionais a fim de manter o foco na tarefa; e por fim o autocontrole envolve a capacidade de manter o controle de comportamentos apesar de impulsos e emoções. Esses dois componentes, MT e CI, são dependentes um do outro, uma vez que é necessário manter objetivos em mente para analisar o que deve ser filtrado ou inibido. Além disso, para se trabalhar com informações mentalmente é necessário inibir comportamentos e 5 CBI of Miami estímulos e resistir a distrações (CCNCPI, 2016; DIAMOND, 2013; DIAS & SEABRA, 2013; UEHARA et al. 2013). O último componente das funções executivas é a flexibilidade cognitivas. Esta habilidade envolve a capacidade de mudar de perspectiva em relação ao pensamento e comportamento. Analisar uma mesma informação a partir de diferentes ângulos e visões é papel da flexibilidade cognitiva. O desenvolvimento deste componente depende da evolução dos outros dois anteriores, uma vez que para mudar a perspectiva é necessário inibir a forma de pensar anterior e com o auxílio da memória de trabalho acrescentar novos pensamentos. A partir da integração destes três componentes, outras habilidades surgiriam (planejamento, tomada de decisão, resolução de problemas e raciocínio) (CCNCPI, 2016; DIAS & SEABRA, 2013). Diante disso, as FE é um constructo multidimensional, em que os componentes são habilidades distintas, porém, relacionadas. Sendo assim, este conjunto de habilidades permite os indivíduos pensar antes de agir, desenvolver diferentes pensamentos e ideias, resolver problemas inesperados, analisar as situações de diferentes ângulos e possibilidades, reconsiderar opiniões e focar em suas atividades evitando distrações (CCNCPI, 2016). Então qual a importância das funções executivas para o desenvolvimento e para a vida? É na primeira infância que a capacidade de plasticidade cerebral apresenta maior e melhor período sensível para diversas habilidades cognitivas, incluindo as FE. As FE se desenvolvem desde muito cedo no desenvolvimento humano, por volta doa 12 meses de vida até os 20 anos de idade em que se estabiliza até a velhice em que ocorrem um declínio. Por isso é importante que estímulos precoces e estimulação do ambiente ocorram desde cedo visando garantir melhores condições de desenvolvimento (CCNCPI, 2016; MENEZES et al. 2012). As FE são essenciais para que ao longo do desenvolvimento os indivíduos possam gerenciar diferentes aspectos da vida de maneira autônoma, ou seja, apresentando independência, tomar decisões e assumir responsabilidades. A partir disso, tornam-se possível a construção de reflexões próprias. Este conjunto de habilidades permite lembrar e associar diferentes informações, 6 CBI of Miami repensar e rever estratégias, planejar e filtrar distrações. Possibilita com isso organizar diferentes atividades do dia a dia, planejar e executar diferentes etapas para atingir objetivos e metas a longo prazo, concluir tarefas mesmo que ocorram distrações e obstáculos, controlar impulsos, manter o foco, refazer e reanalisar objetivos e erros e realizar diferentesatividades ao mesmo tempo. Caso o funcionamento destas funções esteja alterado, prejuízos cotidianos podem ocorrer como dificuldades com estabelecimento e organização de rotinas, formulação e execução de projetos e resolução de problemas entre outras dificuldades tanto na escola quanto no trabalho. Portanto, um bom desenvolvimento das funções executivas propicia melhor desenvolvimento da aprendizagem e desempenho acadêmico, melhores relacionamentos, bem como maior realização profissional e pessoal não adotando comportamentos de risco, por exemplo (CCNCPI, 2016). Sendo assim, as FE são importantes em diferentes desfechos da vida como carreira, no casamento e saúde física e mental. Em relação ao desempenho acadêmico, as habilidades de FE são preditoras de habilidades acadêmicas básicas como aritmética, escrita e leitura podendo ser até mais importante do que o QI (ARRUDA, 2015; GONÇALVES et al. 2017). Fatores como nível socioeconômico, dificuldades em ajuste psicossocial, crianças com baixo desempenho acadêmico, crianças expostas a álcool ou tabaco durante a gestação, escolaridades dos pais, ambiente familiar desorganizado, entre outros fatores, aumentam o risco para prejuízos de FE. Na população infantil fatores relacionados a dificuldades e FE podem indicar maiores risco a problemas de saúde mental e dificuldades cognitivas (Arruda, 2015). Portanto, intervenções precoces e preventivas podem diminuir prejuízos futuros ao longo da vida. A síndrome disexecutiva é o comprometimento das habilidades de FE que acarretam diferentes alterações cognitivo-comportamentais como dificuldades em selecionar informações, distrações, dificuldades em tomar decisões, problemas de organização, comportamento perseverante em erros e estratégias pouco eficazes, dificuldades em estabelecer novos comportamentos e repertórios, dificuldade de abstração e antecipação de consequências. Além disso, ocorrem dificuldades em relação a ajustes sociais, e em habilidades como linguagem expressiva, memória e planejamento. Essas alterações podem ser 7 CBI of Miami encontradas em quadros e transtornos como o TDAH, transtorno obessissivo- compulsivo, síndrome de Tourette, transtornos do espectro autista, transtornos de aprendizagem e a síndrome de Prader-Willi (DIAS et al. 2010). E como podemos avaliar as FE? Para avaliação das FE os testes podem ser considerados testes de FE simples quando avaliam os componentes e domínios separadamente. São exemplos de testes de FE simples teste Stroop, Digitos ordem inversa ou blocos de corsi, trilhas parte B. Porém, testes que buscam avaliar mais de um fator são caracterizados como teste de FE complexas, podendo ser destacado testes como Torre de Londres ou Torre de Hanói, teste de Categorização de cartas de Wisconsin e teste de fluência verbal (Menezes et al. 2012). Além dos testes neuropsicológicos de desempenho, as escalas ou questionários também podem ser utilizados como a Behavior Rating Inventary of Executive Functions (BRIEF) (Menezes et al. 2012). A seguir serão apresentados os instrumentos com dados normativos para a população brasileira. Nome do instrumento Habilidade avaliada Idade para aplicação Teste Stroop – diferentes versões e cartões para amostra brasileira. Atenção seletiva e inibição de respostas. Diferentes versões com diferentes populações e normas para crianças a partir de 4 anos até idoso de 85 anos. Trail Making Test. Atenção visual e funções executivas. 7 a 10 anos Adulto maiores de 18 anos. Teste de Trilhas: parte A e B. Flexibilidade cognitiva, atenção visual. 3 a 14 anos Adulto: 19 a 32 anos. Teste de fluência verbal. Acesso lexical e comportamentos de seguir regras e controle inibitório. Variação de estudos com dados para indivíduos entre 6 e 88 anos. 8 CBI of Miami Teste Hayling. Controle inibitório e iniciação, velocidade de processamento e flexibilidade cognitiva. Crianças a partir de 6 anos e adultos a partir dos 19 anos. Torre de Londres. Planejamento e solução de problemas. 4 anos a 8 anos 11 anos a 14 anos Adultos de 19 a 32 anos. Torre de Hanói. Planejamento e resolução de problemas. 4 a 6 anos 9 a 16 anos. Teste Wisconsin de Classificação de cartas. Raciocínio abstrato e flexibilidade cognitiva. 6 anos até 89 anos. Teste dos cinco dígitos. Velocidade e eficiência mental, atenção, flexibilidade cognitiva e inibição. 6 a mais de 76 anos. Fonte: Miotto et al. 2018; Miotto et al. 2019. Portanto, a avaliação neuropsicológica das FE permite avaliar os componentes separadamente e compreender quais processos encontram-se prejudicados. Assim, cabe ao neuropsicológico selecionar adequadamente os testes a serem utilizados. Referências Bibliográficas ARRUDA, M. A. Intervenções no contexto escolar. In: Dias, N. M. & Mecca, T. P. Contribuições da neuropsicologia e da psicologia para intervenção no contexto educacional. São Paulo: Memnon. (2015). COMITÊ Científico do Núcleo Ciência Pela Infância Estudo nº III: Funções Executivas e Desenvolvimento na primeira infância: Habilidades Necessárias para a Autonomia. (2016). http://www.ncpi.org.br. DIAS, N. M.; MENEZES, A. & SEABRA, A. G. Alterações das funções executivas em crianças e adolescentes. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, 1(1), 80-95. (2010). http://www.ncpi.org.br/ 9 CBI of Miami DIAS, N. M & SEABRA, A. G. Funções executivas: desenvolvimento e intervenção. Temas sobre Desenvolvimento; 19(107), 206-12. (2013) GONÇALVES, H. A.; VIAPIANA, V. F.; SARTORI, M. S.; GIACOMONI, C. H.; STEIN, L. M. & FONSECA, R. P. Funções executivas predizem o processamento de habilidades básicas de leitura, escrita e matemática? Revista Neuropsicologia Latinoamericana, 9 (3), 42-54. (2017) MENEZES, A.; GODOY, S.; TEIXEIRA, M. C. T. V.; CARREIRO, L. R. R. & SEABRA, A. G. Definições teóricas acerca das funções executivas e da atenção. In: Seabra, A. G. & Dias, N. M. Avaliação Neuropsicológica Cognitiva: Atenção e funções executivas. V. 1. São Paulo: Memnon. (2012) MIOTTO, E. C; CAMPANHOLO, K. R.; SERRAO, V. T.; TREVISAN, B. T. Manual de avaliação neuropsicológica: a prática da testagem cognitiva. Vol. 2. São Paulo: Memnon. (2019) MIOTTO, E. C; CAMPANHOLO, K. R.; SERRAO, V. T.; TREVISAN, B. T. Manual de avaliação neuropsicológica: a prática da testagem cognitiva. Vol.1. São Paulo: Memnon. (2018) UEHARA, E.; CHARCHAT-FICHMAN, H. & LANDEIRA-FERNANDEZ, J. Funções executivas: Um retrato integrativo dos principais modelos e teorias desse conceito. Revista Neuropsicologia Latinoamericana, 5 (3), 25-37. (2013)