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A Commedia Dell ’Arte e o Teatro Popular 51 Caro (a) aluno (a) A commedia dell’arte do século XVI extrai tipos so- ciais, através das máscaras e do jogo cênico físico tradi- cional do teatro antigo, elementos presentes nas mani- festações do teatro popular das quais trataremos até o século XIX, nesta unidade. Bom estudo! Objetivos da Unidade Ao final desta unidade você será capaz de: • Identificar elementos que compõem a tradicio- nal commedia dell’arte e refletir sobre a sua relação com a sociedade de seu tempo; • reconhecer elementos do teatro de máscaras e componentes da cultura física de interpretação; • relacionar e comparar no tempo e no espaço a atuação dos tipos sociais oriundos da commedia dell’arte; • refletir sobre os efeitos estéticos no Teatro Fei- ra, a partir das limitações impostas pela censura oficial. Conteúdos da Unidade 3 1. Da Commedia Dell’Arte a Molière. 2. O Teatro de Feira. O teatro da commedia dell’arte aduz elementos da Comédia Nova grega e compõe uma estrutura de co- média de máscaras que se torna tradição no teatro po- 52 pular e estará presente no Teatro de Feira, na comédia de Molière e posteriormente no Teatro de Boulevard, comungando elementos do circo, da ópera, da dança. Paralelamente desenvolve-se o teatro burguês que se diferencia pelo gosto estético e pela sua inserção e dis- posição espacial. 1. Da Commedia Dell’Arte a Molière A Commedia dell’arte constitui-se hoje em referên- cia para os artistas do teatro popular, principalmente para os que se utilizam dos recursos do teatro de ani- mação, onde a máscara ocupa lugar importante e tem o poder de romper estruturas de interpretação realista, alinhavando ações inusitadas. A máscara caracteriza, deste modo, o ator do te- atro de animação, distinguindo-o fundamentalmente da atuação convencional do ator no palco. No mundo ocidental, tem origem nas pantomimas dionisíacas da Grécia Antiga. Mais tarde reaparece no gênero teatral latino denominado Atelana, proveniente da Comédia Nova grega, de Menandro (343 a.C-292 a.C), cujas per- formances caricaturam gestos e máscaras ao extremo. Estas fontes se popularizam e reaparecem nos perso- nagens utilizados pela commédia dell’arte. A origem deste nome está ligada aos profissionais italianos comedian- tes da arte (1550) que extraem tipos sociais dos elemen- tos grotescos e mascarados do carnaval para compor seus personagens, criando situações farsescas. Os co- mediantes italianos espalham-se pela Europa, principal- mente em Paris, popularizando a comédia de máscaras 53 a tal ponto, que commedia dell’arte passa exclusivamente a designar o jogo de máscaras improvisado com persona- gens fixos, falantes e acrobáticos. Assim, de modo geral, uma trupe de comedian- tes passou a compor duplas que adotavam nomes de acordo com cada região da Itália: a dupla zanni (um, o ingênuo Arlequin1. Procedência: pequeno demônio medieval, sempre de roupas remendadas e máscara negra com uma verruga, que deve ter sido queimada pelo fogo do inferno. O outro, o desempregado “pro- fissional” virador e cínico Briguela, sempre de másca- ra oliva, nariz aquilino, o pai dos valetes de comédia. Procedência: possível escravo das comédias latinas); um, o egoísta, sensual, corcunda espirituoso Polichi- nelo. Procedência: possível descendente dos corcun- das latinos. O outro, o cândido Pedrolino ou Pierrô2. 1 Um Arlequin, fonte: www.google.com.br/ pt.wikipedia.org.wiki/teatro 2 Um Pedrolino, fonte: www.google.com.br/ pt.wikipedia.org.wiki/teatro 1 2 54 Descendente dos parvos das sotties, comédias medie- vais, será ascendente dos funâmbulos do século XIX, do palhaço); (Um, o doce gnomo, Franca-tripa e o outro, o fanfarrão cantor e músico, Zani Corneto); a dupla amo- rosa (o elegante Cintio e a jovem Isabel, ou a cortesã Colombina3 e o Capitão, soldado fanfarrão e ridículo); a dupla dos libidinosos anciãos sots, personagens con- siderados tolos, também oriundos das sotties, (o avaro, libertino Pantaleão4 e pedante e ignorante Doutor. 3 Uma Colombina, fonte: www.google.com.br/pt.wikipedia.org.wiki/teatro 4 Um Pantaleão, fonte: www.google.com.br/pt.wikipedia.org.wiki/teatro Segundo o estudioso da comédia de máscaras Pier- re Louis Duchartre (Apud DEGAINE, 2002, p. 167) o charme, poesia, beleza, strip-tease, dança, amor, ciúme, candura, cinismo, grande cultura ou graças nativas das mulheres estão reunidas na personagem Colombina que engendra a serviçal Frosine, de Molière (1622-1673). 3 4 55 Os comediantes, que por questões morais já ha- viam sido banidos de Estados da Itália pelo Papa em 1585, foram também expulsos da França em 1697 pelo rei Luis XIV5, devido ao tipo de representação popular que faziam, considerada de mau tom pelas autoridades e pelo teatro de elite daquele país. Seus tipos sociais tor- naram-se imortais6. 5 Comediantes italianos sendo banidos de Paris em 1697- museu de Be- las Artes do Havre- Franca. Fonte: COUTY, Daniel et Alain Reys. Le théâtre.Paris: Bordas, 1980. 6 O clássico da dramaturgia popular brasileira, o Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, empresta o espírito do zanni da comédia de máscaras para compor os personagens João Grilo e Chicó. 5 56 7 Identificada como um gênero de teatro popular, a farsa remonta às peças satíricas gregas e à comédias latinas, mas ganha força como gênero medie- val que mostrava a vida cotidiana dos burgos e das aldeias. Em pares de versos octassílabos, não trazia rubrica nos textos e sugeria movimentação dos atores com poucos recursos cênicos. Divertiam apontando decadên- cia de costumes e desvio de comportamento moral. Ramos (2006, p. 144) aponta dois temas invariáveis na farsa, o marido traído e o enganador enganado; O menino e o cego seria um exemplo do segundo tema, além de ser a farsa mais antiga, segundo o pesquisador. Contudo, uma das mais conhecidas é A farsa do advogado Pathelin, que trata do conflito conjugal. No Brasil é bastante encenado o primeiro tema inscrito na peça A farsa da Inês Pereira, que Gil Vicente criou a partir do mote Mais quero asno que me carregue do que cavalo que me derrube. O dramaturgo que viveu no século XVI, imortalizou o gênero na língua portuguesa, fazendo o transito da tradição do Medieval para o Renascentismo. 8 Pintura anônima. Coleção da Comédia Francesa de Paris. Uma Parada imaginária com os comediantes de várias épocas. À esq., Molière. Fonte: COUTY, Daniel et Alain Reys. Le théâtre.Paris: Bordas, 1980. Jean-Baptiste Poquelin Molière, utilizou muito dos personagens da commedia dell’arte, nos anos 1670, nas cha- madas comédies-ballets, um gênero cômico de encenação que ele criou. Molière deve sua carreira à criação e en- cenação de farsas7 na corte, mas é o criador da comédia clássica de caracteres e de costumes8 . 8 57 2. O Teatro de Feira As famosas fei- ras parisienses de Saint Germain, Saint Ovide e Saint Laurent, geral- mente fundadas a partir de 1482, no início, foram abertas para o comércio de feirantes camponeses, com venda de animais, aves, tecidos, ferramentas e objetos usuais. Àquela época via-se entre outros artistas, exibido- res de ursos, acrobatas, malabaristas e marionetistas. Os últimos tornaram-se comuns a partir de 1668. Tentativas de teatro eram quebradas por conta do monopólio. “So- mente os dançarinos de corda tinham o ‘direito de falar’, mas quando estivessem na corda9!” Seus personagens têm papéis sociais definidos como as máscaras da commédia dell’arte, mas sobretudo o dramaturgo francês soube dar elegância e refinamen- to irônico à comédia, livrando-a das referências grosseiras para lhe atribuir um caráter mais sutil, dramático e filosó- fico. Dom Juan (1665) ilustra bem esta tendência. Entre as mais conhecidas estão Tartufo ou o impostor (1664- 1667), Sganarelo (1660), O doente imaginário (1672), O avarento (1668). 9Arlequin: - Colombina, eu te amo/ Colombina: - Mentiroso! (o diálogo é feito sem falas somente através de placas escritas). Fonte:COUTY, Daniel et Alain Reys. Le théâtre.Paris: Bordas, 1980 9 58 10 Homem que aponta a placa com a vara para a plateia ler – E agora, so- prando como quem tragou um bom tabaco!/ A plateia lê a placa, cantando as falas das personagens: - Bom dia Arlequin!/ - Vens tu, Colombina? / - Meu querido Arlequin, voce é um coquete! Fonte: DEGAINE, André. Histoire du theatre dessiné. Saint Genouph: Nizet, 2002. (DEGAINE, 2002, p. 226). A limitacão e a cres- cente censura à expressão do teatro popular vai se repe- tir sem cessar até o século XVIII na França. Em 1707, os atores de feira que ocupavam pequenas salas foram proibidos de falar e em 1709, de cantar. Surgem as peças com diálogos escritos em placas, ou rolos de papel que os atores mostravam ao público. Um outro ator, com uma varinha ia apon- tando os diálogos que acompanhavam a mímica e o público lia ou cantava em voz alta. Assim apa- rece em 1714 o termo “ópera cômica”, devido à mistura que os atores fa- ziam com a fala e o canto, soprados pela plateia, que se tornou intérprete tam- bém, conforme observa- mos na ilustração10. A Realeza outorgava o direito de expressão da voz no palco aos comediantes das companhias reco- nhecidas, a Comédia Francesa e a Ópera Francesa. A história contada por Dagaine (p. 227), expressa em 9 quadrinhos, dá uma noção da situação, acompanhando 10 59 11 Quadrinho 1- Vejam, é Arlequin! /Quadrinho 2 – Bom dia, Arle- quin! – Bela Colombina! (voz de fora:) – Parem!!!/ Quadrinho 3 - (o comissário do rei, lendo o edital:) – Proibido dialogar: privilégio da Comédia-Francesa!! /Quadrinho 4– Vamos tentar cantar! (dizem os comediantes)./ Quadrinho 5 - (voz do Comissário:) Nãaao!!!/ Qua- drinho 6 - (Comissário, lendo novamente o edital:) – Proibido cantar: privilégio da Ópera!!/ Quadrinho 7- Só nos resta fazer mímica! (di- zem os comediante)./ Quadrinho 8 - (Comissário:) Ah, bom, isto é permitido.../Quadrinho 9 - (O Pierrô:) – e isto vai prosseguir menos de um século mais tarde com o grande mímico Deburau. Fonte: DEGAINE, André. Histoire du theatre dessiné. Saint Genouph: Nizet, 2002. a nossa versão em português11 no rodapé: Os saltimbancos e as marionetes ganham larga expressão no teatro que atua fora da Comedia France- sa. Com o retorno dos italianos, em 1762, no teatro de feira há uma fusão entre a comédia italiana e a ópera cômica. Os autores italianos misturam-se aos franceses em espaço de salas de teatro, como o famoso Hotel de 11 60 Borgonha e aos poucos desaparecem, salvo exceções, mas a arquitetura do chamado teatro italiano surge em salas fixas naquele país para ficar, bem como se espalha esta concepção espacial de teatro para diversos países. No Brasil, quando se fala em palco italiano, a referência está sendo feita à caixa cênica frontal ao público, que tem lugar distinto, protegida com toda sorte de maqui- narias para efeitos teatrais visuais. O teatro Dona Maria, ilustrado por Ortega y Gasset como espaço teatral, pos- sui esta caixa cênica, embora o público ocupe espaços laterais além do frontal. Além do teatro de Feira, teve evidência até me- ados do século XIX o Teatro de Boulevard. Destaca-se o Boulevard Du Temple12, onde se concentrava o Teatro de Parada, que exibia nos terraços para os transeuntes um extrato da atrações que aconteceriam no interior das casas teatrais. Bobéche (1791-1841) e seu parceiro Ga- limafré formarão uma das mais populares duplas neste gênero peculiar13. 12 Litografia, acervo do Museu Carnavalet de Paris, o velho Boulevard du Temple. Fonte: COUTY, Daniel et Alain Reys. Le théâtre.Paris: Bordas, 1980. 12 61 13 Teatro de Parada de BOBECHE E GALIMAFRÉ no Boulevard Du Temple, Pintura de Jean Roller, Museu Carnavalet de Paris. Fonte: COU- TY, Daniel et Alain Reys. Le théâtre.Paris: Bordas, 1980. Ressalta-se, paralelamente, entre os séculos XVIII e XIX a ascensão do teatro do poder real, cujo espaço físico vai se adaptando para o gosto clássico e a disposição do público nele, também14. Voltado para a caixa cênica, descrito por Dagaine (2002, p. 246) ca- racteriza categorias sociais: nos camarotes, os oficiais e os notáveis; na orquestra, gente rica; no 1º balcão, os mundanos; no 2º balcão, os burgueses abastados; no 3º balcão, artesãos e comerciantes; o pouleiro, galeria su- perior, também chamada de “paraíso”, para as catego- rias sociais mais pobres. A relação da postura de quem faz teatro com o espaço físico, plateia e espetáculo será bastante discutida no século XX, enquanto reflexo de uma sociedade de classes. 13 62 14 Fig. 14a: Uma representação privada para a nobreza do século XVII, sobre a vida de Charles de Valois. Afresco realizado a partir de gravuras de Abraham Rosse. Chateau de Grosbois à Boissy-Saint-Léger; Fig. 14b: Louis XIII, Richelieu, Ana da Austria, na inauguração do Palá- cio Cardinal,1641, representação de uma tragicomédia de Desmarets de Saint-Sorlin. Fonte: COUTY, Daniel et Alain Reys. Le théâtre.Paris: Bordas, 1980. 14a 14b 63 Síntese da Unidade Vimos nesta unidade que a comédia antiga de máscaras, da Comédia Nova para a Commédia dell’arte, adquire proporções universais, ao unir as modalidades das artes cênicas e avançar no tempo, atravessando sé- culos. Sai do lugar de origem e penetra em outros países como a França, onde avulta-se através do Teatro de Fei- ra e o Teatro de Boulevard. Exercícios Propostos Recolha da literatura popular referências de personagens que agem em duplas e compare-os com os zanni Arlequin e Brighela. Ex: João Grilo e Chicó (Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna; D. Qui- xote e Sancho Pança de Miguel de Cervantes); Bastião- Matheus (Bumba-meu-boi) etc. Relacione as duplas e organize com os alunos uma brincadeira, a partir do desenho, chegando a um roteiro e à interpretação. Boa pesquisa e diversão! Referências Bibliográficas DEGAINE, André. Histoire du theatre dessiné. Saint Genouph: Nizet, 2002. Da Tradição ao Teatro Moderno Experimental 67 Caro (a) aluno (a) Nesta unidade verificaremos a herança da tradição teatral e seus efeitos na moderna encenação da passa- gem do século XIX para o século XX, que se posiciona como um teatro pedagógico, preocupado fundamental- mente com a pesquisa e com a sociedade de seu tempo. Bom estudo! Objetivos da Unidade Ao final desta unidade você será capaz de: • Refletir sobre a sua relação do teatro moderno com os elementos que compõem a tradição teatral; • reconhecer a prática teatral de compromisso peda- gógico ético e estético; • relacionar e comparar a atuação do teatro popular na sociedade da Idade Média com o momento atual; • distinguir diferentes práticas e pensamentos teatrais. Conteúdos da Unidade 4 1. A Tradicão no Pensamento dos Encenadores Modernos. 2. O Teatro D’Art. 3. Meyerhold: do Grotesco e o Popular à Biomecânica. 4. A Contribuição dos Futuristas no Teatro - do Tea- tro de Síntese ao Teatro de Militância. Nos últimos anos do século XIX a revolução tec- nológica aproxima a tradicão e o o experimentalismo, 68 fronteiras começam a ser eliminadas e surge o ence- nador no teatro, que além das marcações cênicas e o cuidado com as inflexões dos atores, vai cuidar da ce- nografia, banindo o cenário pintado, com os recursos da iluminação elétrica. Para situarmos o nível de apro- ximação e a relação de linguagem que daí se estabelece, enfocaremos, de início o teatro asiático e em seguida o surgimento de encenadores. A partir do naturalismo de Antoine e do realismo da escola de Stanislavski, inaugura- -se uma obrigação estética no palco e também a ética. Em torno desta postura, autores e diretores revolucionários se reunirão, porém expandindo tendências teatrais de ca- ráter experimental, evidenciando a autonomia teatral que chega ao século XXI. Nesta autonomia, valoriza-se a es- sência estética do teatro popular da qual fará proveito para fundar uma ética dos novos tempos. Não mais somen- te o método stanislavskiano, concentrado em ensinar osalunos no seu estúdio, surgem novas estéticas1 e também grupos de militância social que saem dos seus espaços teatrais para ir ao encontro do povo, em comu- nidades e escolas, difundindo a arte te- atral, formando pú- blico e incentivando prática teatral e de cidadania. 1 Espetáculo moderno experimental: Orlando Furioso, encenação de Luca Ronconi, teatro físico inspirado em Artaud, que arranca o espectador de sua comodidade burguesa. Fonte: COUTY, Daniel et Alain Reys. Le théâtre.Paris: Bordas, 1980. 1 69 1. A Tradição no Pensamento dos Encenadores Modernos Em 1887, Paris, André Antoine (1858-1953) com a criação do Théâtre-Libre, em oposicão ao teatro de mero divertimento, temos a primeira teorização de concepção teatral assinada por um diretor, integran- do a cenografia ao trabalho do ator. Em 1889, Berlim, inaugura-se a Freie Buhne e em 1898, o Teatro de Arte de Moscou, de Constantin Stanislavski (1863-1938) e Nemirovitch-Dantchenko. A partir daí ocorre, extrapo- lando fronteiras, um fenomeno artístico ligado ao natu- ralismo que não se limita aos produtos, mas às pesqui- sas e práticas teatrais. Novos encenadores superam esta fase, investi- gando procedimentos cênicos das primeiras manifesta- ções dionisíacas, das atelanas, da commedia dell´arte, da tragédia grega, do teatro elisabetano, do século de ouro espanhol, dos mistérios medievais, das trupes italianas, do teatro de feira e de boulervad dos séculos XVI, XVII e XVIII, avançando até o seguinte. Munidos destes estudos, comparam estas tradições ocidentais com as orientais. O teatro ocidental antigo e o asiático assemelha- se pela utilização de máscaras, pela atuação no palco somente com atores masculinos, pela ausência de sepa- ração entre cena e sala e pelo jogo cênico com códigos (veja máscaras da commedia dell’arte) e ausência de realis- mo. A diferença é que o asiático, tradicionalmente, se desenvolve em ambientes fechados, ao contrário do an- tigo ocidental. No Vietnam, por exemplo, em Annam, o palco e os bastidores evocam o proskénion e a skéné 70 grega, espaços de atuação cênica. Consultam astrólogos e geofísicos para construírem os espaços adequados no tempo e no ambiente (DEGAINE, 2002). Destacam-se o teatro chinês e o japonês nos pro- cedimentos cênicos asiáticos. O teatro chinês tradicio- nal ressalta a mímica, a ópera e a acrobacia, entre outras práticas. O personagem mais popular é o rei dos macacos (conotação de comediante). Ardiloso, arrogante, inde- pendente, zombeteiro, versátil, reações imprevisíveis, o rei semeia desordem até mesmo entre os deuses. Este teatro surgiu por volta do século 27a.C e somente em 1902 começa a utilizar-se da fala ao modo ocidental, com A dama das camélias. No Japão, a origem é ligada ao divino, a jovem Amaterasu, deusa do sol, que zangada, escondeu- -se numa gruta, privando o mundo da luminosidade. Os outros deuses enfeitam a entrada da gruta, cantam e dançam adornados de sedas e guirlandas. Intrigada, a deusa sai da gruta e se rende ao mundo com sua luz. O teatro japonês, tradicionalmente, expressa-se em duas formas de representação: o teatro Nô e o Teatro Ka- 2 Espaco de representacão do teatro Nô. www.google.com.br/pt.wikipedia.org.wiki/teatro_no. 2 71 buki2. O Nô, forma fixada no século XIV d.C, é uma arte austera e intelectual, desenvolvida e apreciada pelos nobres samurais. Para o ator, o que vale é a capacidade, talento e poder. É emanação do Zen, concentração, as- ceticismo, superação de si mesmo. As máscaras do Nô, a princípio foram para dois atores, como na tragédia pri- mitiva: o Waki (protagonista) e o Shité (segundo ator). O primeiro questiona o segundo, criando para este, o pre- texto para a dança e o canto. Às vezes o espetáculo so- fre a intervenção cômica do Kyiôgen, como entremez, um recurso também do teatro ocidental, utilizado para aliviar a tensão do público durante a apresentação dos trágicos, que durava longas horas. Em o Nô, o jogo cêni- co3 é estilizado e apresentado em códigos. Ao longo da passarela de acesso à cena, um sino bate três vezes: se o ator faz uma pausa ao 1º sinal, ele é um perso- nagem divino. Se ele para ao 2º sinal, é um semi-deus. Caso ele se imobilize ao 3º sinal, então é humano. O Kabuki, ao contrário do Nô, mais popular, apresenta melodramas feéricos com a realidade cotidia- na sob situações fantásticas ou grotescas. O dispositivo cênico imita o Nô, possuindo salas recortadas por passa- relas. Os figurinos, adereços e maquiagem são de cores violentas, quase vulgares. Este teatro teve início em 1603 3 Representacão do teatro Nô. www.google.com.br/pt.wikipedia.org.wiki/teatro_no 3 72 2. O Teatro D’Art A noção de Teatro d’Art implica compromisso com valores polêmicos que ocasionam uma ruptura com os valores cristalizados, gerando crise no teatro. Fato que impulsiona o surgimento do diretor teatral como encenador, elemento que vai constituir-se na principal figura do jogo cênico, a partir do momento em que submeterá o texto e os demais recursos teatrais à sua visão cênica. O Teatro d’Art, teatr iskousstva em rus- so, ou ainda o termo khoudogi, utilizado por Constantin Stanislavski4 e seu grande parceiro Dantchenko, define- se como um programa estético de educação espiritual e moral dos artistas e do público para designar seu es- tabelecimento teatral. Estes dois homens se encontram no final do século XIX para fundar uma estética e ética teatral. Um compromisso acima de tudo com a busca, tendo como missão três pilares básicos: o código éti- co, um trabalho coletivo e uma atividade pedagógica. Um teatro acessível a todos, será o lema do novo tea- tro, que vai enfrentar sérios problemas financeiros. Sta- nislavski acredita a princípio, numa empresa de grupo, autônoma, sem fins comerciais. Dantchenko, mais rea- lista, percebe que fundado sobre tal base, a dificuldade financeira tão logo fará desmoronar os propósitos ex- através de uma dançarina sagrada, Okuni, que se liberta da religião e funda uma trupe de dançarinos profanos. 4 Constantin Stanislavski 73 perimentais e educativos. Mas o empenho do sacerdo- tismo teatral stanislavkiano, consegue definir o verda- deiro artista como amador no sentido de compromisso com a pesquisa, com a beleza interior e com a busca do equilibrio e harmonia. Disciplina acima do talento e trabalho exaustivo levarão a proposta do teatr ikousstva à longevidade. A grandeza da escola de Constantin Sanis- lavski também se deve à consciência da necessidade da convivência com diferenças, que se traduzia pelo respei- to às novas ideias e concepções teatrais. O respeito e a atenção do mestre Constantin às ideias de discípulos ou parceiros como Vesovólod Meyerhold (1874- 1942), foi exemplo disto. Stanislavski, em outubro de 1917, fase da Revolução Russa, bem acreditou na importância dos estúdios para salvar o teatro transformador, artístico, que pudesse recuperar ‘sua alma’ e pronto para se re- construir sob as bases da coletividade, o teatro acessível a todos. Este teatro com tais propósitos, em 1919 se in- tegrou aos teatros nacionais subvencionados sob a sigla de MKHAT. Infelizmente, logo desapareceram nomes como o de Checov, cujas obras A muda, tio Vania, inau- guraram uma nova dramaturgia que demandava, a seu tempo, novos princípios cênicos, merecendo a atenção e a organização de importantes registros de Stanislavksi. Um trabalho que trouxe os princípios básicos de atua- ção para o teatro contemporâneo. Infelizmente, naquele período, o governo revolucionário, para impor seus ide- ais, segundo as necessidades de afirmação do modelo do realismo socialista, valorizou o social e o ideológico em detrimento da criacão artística. Como consequên- cia, a noção do realismo de Stanislavski foi bastante dis- torcida ou desprezada. Contudo, o modelo verdadeiro 74 fundado na imposição do diretor teatral como elemento de combate ao vedetismo, a organização e disciplina de trupe vai fundar, por suavez, a necessidade de pedago- gia teatral: uma pesquisa incansável em torno do jogo cênico, do repertório. Na Europa também eleva-se uma consciência de que o teatro de arte jamais abrigará um determinado mé- todo como definitivo. Em 1927, inspirados no mestre Jacques Copeau (1879-1949), os diretores Louis Jouvet, Gaston Baty, Charles Dullin e Georges Pitoëff fundam na França uma Associação, o Cartel Frances (1927-1939), que pauta pelos mesmos princípios do Teatro de Arte de Moscou, a escola de Stanislavski. Vale mencionar neste cenário de transformação, aberto a novas linguagens, o inglês Edward Gordon Craig (1872-1966), idealizador da supermarionete em cena para substituir o ator. Ele introduziu o formalismo no teatro, assim como o suíço Adolphe Appia (1862- 1928), que influenciou as ideias revolucionárias de cena de Vesovólod Meyerhold. Enquanto Richard Vagner modifica o espaço cênico e musical, a concepção cênica de Appia conquista espaço tridimensional. Ele capta a mobilidade musical e a experiência do tempo visual, ba- nindo o cenário pintado, até então usado na cenografia, e também introduzindo um jogo intenso de iluminação. Suprime a rampa e a cortina que separa o palco da pla- teia. O lugar se torna abstrato, arquitetural, iluminado e o ator completa o espaço, construído a partir do corpo humano. O homem será o palco, a medida de todas as coisas, e somente através do ator, o teatro poderá ser uma nova arte em processo da cena não-descritiva, mas sensorial. 75 O Teatro d´Art chega à contemporaneida- de, movido por alavancas sacerdotais e formais, a tudo transformando. Entre os nomes que pesquisam o teatro asiáti- co, vale lembrar Vsevólod Meyerhold5. Ele transcen- de o realismo, Liga-se ao pensamento de Maeterlinck (1862-1949), representante radical do simbolismo. Inspira-se na teatralidade do alemão Georg Funchs (1868-1949), que ataca o natu- ralismo, preconiza a teatralização, influenciando artistas até o expressionismo. Meyerhold busca fontes orien- tais, valorizando a essência da cabotinagem: “o culto da cabotinagem, estou certo disto, reaparecerá quan- do renascer o teatro antigo, ajudará o ator a voltar-se para as leis fundamentais da teatralidade. Afirma que os atores, quando se determinarem a reconstruir as ce- nas antigas e escavar o saber das antigas iconografias, darão maior importância e poder ao seu jogo técnico6” (MEYERHOLD, 1973, p. 187). Em consequência, prestigia em seu trabalho o funambulismo do Teatro de Feira, o gesto e a máscara. Vsevólod idealiza o teatro para as grandes massas, dentro de uma nova visão de produção de espetáculos. O experimentador estabelece seu código que permitirá o estudo dos princípios da representação de 5 Pintura de Alexander y Golovin – retrato de Meyerhold 6 Versão nossa, em português. 5 76 3. Meyerhold: do Grotesco e o Popular à Biomecânica O artista define o termo grotesco, como o elemen- to recondutor de expressão artística à essência almejada, por meio de atitudes desproporcionais, grosseiramente cômicas, bizarras, num clima de non sense. A natureza ar- bitrária do método permite tiradas que associam, sem razão aparente, conceitos inseparáveis. Um método que decompõe o real, servindo-se de formas espaciais e tem- porais. Cria a plenitude da vida através da estilização, ne- gligenciando o compromisso com os detalhes, de modo rigorosamente sintético. Associando os contrários, exa- cerbando conscientemente as contradições, não atua se- não pela originalidade. O que fundamenta o grotesco é o desejo constante do criador, de arrancar o espectador de grandes épocas teatrais: rompimento com a ribalta, ce- nários suspensos, construção de dispositivos tridimen- sionais, subordinação do ator ao ritmo da dicção e dos movimentos plásticos, reaproveitamento e reinvenção espacial de antigos sistemas do teatro popular elisabe- tano e espanhol. Procedimentos que permitem estudos dos princípios da representação de grandes épocas e origens teatrais. No espetáculo O baile de máscaras (1933- 1934) inscreve-se a herança dionisíaca de máscaras e pantomimas de trupes satíricas, redivivas na commedia dell’arte. A obra celebra os estertores do teatro burguês e redimensiona o sentido da máscara, numa síntese de arte nova projetada para o futuro e para o grande públi- co popular, dentro de uma visão socialista. 77 um plano para um outro inesperado. É a luta da forma e do fundo. É o esforço de subordinar o psicologismo ao objetivo decorativo, onde teatro japonês seria o exemplo. Dentro deste aspecto reside a expressividade: a mímica, os movimentos do corpo, os gestos e poses dos atores ao lado da ambientação, da arquitetura. Para localizar o contraste como elemento do gro- tesco, Meyerhold aponta o estilo gótico de uma catedral, que ao mesmo tempo em que lança o homem em busca do infinito, de Deus, surpreendentemente, vê -se cerca- do pelos cenários e personagens monstruosos que o ar- rastam aos porões infernais. O diretor russo se inspirava também em Dostoiévski: Irmãos Karamázov marcava, por exemplo, a presença medieva inscrita entre o bem e o mal, habitando a alma de seus personagens. Com a encenação de Meyerhold, as estruturas medievais também vem à tona, para serem estudadas, enfocadas, revistas. Ele fuça um tipo de espetáculo, co- mum no século XV, denominado Mistério, do latim mi- nisterium, ministério, serviço público. Como na Grécia e na Roma antiga, o Mistério reunia todas as classes sociais, porém com o objetivo de representar o ensi- namento de uma história santa, sob forma de diversão. Vejamos a pintura de Jean Fouquet (1452-1460), alusiva ao teatro de arena – Mistério de Santa Apolline7: Para tirar efeitos didáticos, os mistérios não ti- nham escrúpulos em utilizar-se de situações grotescas, ações inesperadas, passando do plano real para o fan- tástico. O quadro apresenta a cena central do Mistério. Segundo Konigson (1975, p. 77), apesar do realismo aparente, a cena tem uma construção plástica, cujas normas são picturais e não teatrais. Trata-se então, de 78 7 Pintura de Jean Fouquet (1452-1460), Mistério de Santa Apolline. Fonte: www.afautearousseau.hautetfort.com/media/01/02/302418289.gif situar a realidade do espaço teatral representado além dessa construção. Diante da cena central do martírio, ao mesmo tempo em que a santa é martirizada, un fol, (um parvo) na expressão de Konigson, deixa-se levar pela farsa obcena, quando bate na própria nádega seminua. A alusão fol, seria dada ao típico farceur ou escomoteur, que introduzia a tragicomédia no Mistério. O encenador teatral russo, para resgatar o sentido puro do termo cabotino, esclarece que este seria o ator ambulante, o verdadeiro escamoteur [que será visto abun- dantemente até o século XVIII nas ruas de Paris]. Ele lembra que nos mistérios, os organizadores deixavam as tarefas mais difíceis da representação justamente para o fol. Há uma peça teatral do dramaturgo português, século XVI, Gil Vicente e uma outra de Bertolt Brecht, 7 79 século XX, que ajudam a entender o sentido do escamo- teur para o teatro de Meyerhold: A essência da crítica vicentina vai se apoiar na fi- gura do “parvo”, o fol, elemento humano extraído di- retamente das sotties medievais. Gil Vicente em O juiz da Beira utiliza-se de sua ignorância, ingenuidade e tolice para expor a hipocrisia da sociedade e denunciar a in- versão de valores. Bertolt Brecht, fundador do Teatro Berliner Ensemble, Alemanha (1949), em O círculo de Giz Caucasiano fará algo semelhante. Em ambas as peças te- atrais há um juiz, que fora dos padrões, aplica sentenças absurdas, mas que no fundo são justas ou no mínimo servem para desmascarar procedimentos cristalizados ou viciosos da sociedade (SARAIVA, 1972, p. 324). A trajetória de Vsovólod é marcada também por grandes encontros. Entre estes, verifica-se a presença de Maiakóvski, um outro vanguardista futurista russo, na obra Mistério Bufo. A encenação já apresentaa transição em direção ao construtivismo. Em 1922, Meyerhold, claramente opõe-se ao teatro do mestre Stanislavski, para inaugurar uma cultura física do teatro. Meyerhold, ao opor-se ao realismo, preconiza o teatro de convenção em que o jogo do teatro, a im- provisação, faz-se, segundo as regras estabelecidas pelo ator e pelo espectador. Fascinado pelos tipos da com- media dell’arte8 cujas vestes, caricaturas e desenvolvi- mento são fixos, ele exige de seus atores uma disciplina de atletas, capazes de criar um sistema de signos que o público deverá compreender, decifrar à medida que se torna um conhecedor do espetáculo. Somente o ator é o que conta para Meyerhold. Ele suprime toda de- coração parasita, até mesmo os volumes de Appia e as 80 sóbrias cortinas de Craig são banidos. O seu teatro torna os atores ginastas, acrobatas, subordi- nados ao ritmo da dicção e dos mo- vimentos plásticos. Daí o surgimento do famoso método denominado “bio- mecânica”, que faz surgir o novo ator. Uma afirmação de- finitiva e valorizada do ator comediante, do jogral, do palhaço, do cantor, do prestidigitador. Para falar do método, o diretor rus- so não hesitava em ter à mãos um boneco guignol (um boneco de luvas). A partir da marionete, da sua fisiono- mia, da máscara, todas as possibilidades e movimentos expressivos seriam possíveis. 8 4. Da Contribuição dos Futuristas com o Teatro de Síntese à Militância O futurismo, primeiro movimento de vanguarda do séc. XX (Milão-1909) dirigido por Fellipo T. Ma- rinetti, franco-italiano nascido em 1876, revoluciona 8 A commedia dell”arte na pintura de Marco Marcola - The Art Institute of Chi- cago. Fonte: COUTY, Daniel et Alain Reys. Le théâtre.Paris: Bordas, 1980. 81 o teatro. Rompe com os cânones do teatro burguês e busca fontes dos prazeres brincantes mais primitivos na expressão do coletivo. Piedigrutta, local pobre de Nápolis, que avança ao mar sobre as montanhas, vai inspirar uma iniciativa, das mais interessantes e importantes em termos de res- gate da cultura popular do movimento futurista. Trata- se de um carnaval que concentra todas as manifestações populares dentro de uma festa coletiva que dura muitos dias, numa determinada época. Esta festa será carre- ada para o teatro futurista, dentro de uma elaboração erudita que vai se caracterizar pelos fortes elementos populares universais ali contidos. Essencialmente dioni- síaca, nos remete diretamente àquela, do deus Dioníso da colheita do vinho, em que os cultivadores, desfilam carnavalescamente em carroções, ébrios e saciados pela nova safra. De cima dos carroções, os alegres homens provocavam a população, que replicava com farsas gro- tescas e improvisadas. A população do carnaval de Piedigrutta napolita- na também se utilizava do gramelot, uma arte de exprimir sons onomatopaicos para brincar e provocar uns aos outros. Os futuristas registraram toda sorte de acordes musicais e gestos grosseiros, ruídos e inventividades vi- suais, recriando todos estes elementos no denominado “teatro da surpresa”. Os artistas Cangiullo (músico) e Balla (artista plástico), a pedido de Marinetti, presidiram a criatividade, reconstruindo os instrumentos típicos do carnaval, profundos e grotescos que expressam o dese- jo de vida, em oposição à mediocridade. “Queremos a vida como uma sinfonia “fragmen- tária” e “dinâmica” dos gestos, da palavra, dos ruídos e 82 das luzes”. La brievété, será a palavra chave da síntese fu- turista. Multiplicidade de microações dinâmicas, onde os personagens se movimentam, falam, comem. Será igual- mente importante um outro adjetivo, o “autônomo”, que no grego significa fazer a sua própria lei, não obedecer aos outros. Introduzem da mesma forma, o “irreal”, um outro termo para acabar de vez com o naturalismo. O teatro “autônomo” e “irreal”, será então a exi- bição de peças curtíssimas, satíricas e simbólicas9,e que vão servir de inspiração ao agit-prop - agitação e pro- paganda10. Movimento cultural soviético da revolução russa, cujas encenações combatem a ideologia do teatro convencional da classe burguesa e posteriormente in- fluenciarão o cenário internacional. 9 O presente, paródia polêmica de Decio Cinti, focaliza o interior de uma familia burguesa medíocre, introduz o recurso do grotesco para demolí-la: o Grand Guignol, [que significava o teatro de riso e terror no final do Séc. XIX, no Boulevard Du Temple de Paris]. Cena típica do cotidiano medíocre. Avó, mãe e filha. Gestos repetitivos de atividades caseiras, esperando algo insólito na vida. Finalmente chega o pai, quebrando a harmonia da cena: barbudo, sinistro, do avesso, indeciso. Cada uma delas espera um presente, imagina-o, adivinha-o, segundo suas expectativas. Ele abre a caixa e lhes oferece a cabeça decepada de uma mulher. Ambas dizem: “ Ah!, comme c’est beau! Merci...[ Ah ! como é belo !] Je ne jamais eu de chapeau aussi beau![ nunca tive um chapéu tão belo assim !].” Eis uma provocação futurista, cena típica do teatro sentimental burguês com intervenção do teatro Grand Guignol. 10 Grupos de artistas e povo da Rússia pós-vitória bolchevique de 1917, com a preocupação de socialização do conhecimento, saíram às ruas para difundir suas ideias sociais e políticas através da arte. Os russos realiza- ram propaganda maciça dos ideais da revolução : milhares de soldados, entre trabalhadores, chegaram a representar cenas de massas. De atores do plano real, passavam para o ficcional com o fito de comemorar suas vitórias ou propagar o novo ideário político. Estas manifestações transfor- maram-se num movimento de repercussão internacional, que receberam o nome de agit-prop, do russo agitatsiya-propaganda, agitação e propaganda. Para disseminar informativos e insuflar ânimo revolucionário, os agentes → 83 desenvolveram inúmeras técnicas ágeis de comunicação, como o “jornal- vivo”, o “teatro invisível”, entre outras (GARCIA, 1990). Utilizaram-se também dos melodramas, do teatro de variedades, do cabaré, do guignol, do circo, da commedia dell’arte e outras modalidades artísticas. O movimento ganha em teatralidade quando entra na Alemanha, enriquecendo-se com a cultura popular operária através de seus conjuntos corais, misto de dança, canto e poesia e outras tradições populares. Acrescentam-se influências do teatro de vanguarda, ressaltando o Movimento Futurista, já que ambos combatiam a ideologia do teatro convencional da classe burguesa. Com o intento de atingir o máximo possível da população, criaram trens e barcos de agitação, nos quais montavam um esquema itinerante educativo com atividades diversificadas, incluindo danças populares, conferências, cantos, cinema, teatro etc. → Síntese da Unidade Vimos que as raízes dionisíacas da cultura grega, o teatro de tradicão asiático, os mistérios medievais e a commedia dell’arte constituem-se em base no processo do teatro popular que se universaliza. O Teatro de Feira e o português, através de Gil Vicente, tomam estas fontes como referência, e a soma de todos aparece em proce- dimentos da moderna encenação, compromissada com criação de métodos e com o ensino teatral. Entre ou- tros nomes relevantes, temos Stanislavski, Meyerhold, assim como artistas envolvidos com o chamado Théâtre d’Art e o movimento futurista, um conjunto que com- põe o significado expoente teatral do século. A postura estética do futurismo vai servir aos procedimentos do revolucionário movimento social denominado agit-prop, agitação e propaganda (Rússia). 84 Referências Bibliográficas BANU, Georges. (org.) Les cites du théâtre d’ Art - de Stanislavski a Strehler. Paris : éditions théâtrales, Académie Experimentale des Théâtres, 2000. BRECHT, Bertolt. O círculo de giz caucasiano. Na selva das cidades. A exceção e a regra. Trad. Geir Campos. Rio de Janeiro: Civ. Brasileira, 1977, Vol 3. DEGAINE, André. Histoire du theatre dessiné. Saint Genouph: Nizet, 2002. GARCIA, Silvana. Teatro da militância. SãoPaulo: Perspectiva, 1990. KONIGSON, Elie. L´espace théâtral medieval. Pa- ris: Éd. National de la Recherche Scientifique, 1975. LISTA, Giovanni. Futurisme. Manifestes. Documents. Proclamations. Lausanne: L’ age d’ homme, 1973. Exercícios Propostos Pesquise o teatro de Gil Vicente, escolha uma far- sa, faça uma leitura dela, comparando o parvo com o pedrolino da commedia dell’arte (o pierrô). Pesquise situa- ções parecidas de nossa realidade e então arrisque uma gostosa improvisação cênica com seus alunos. Divirta-se! 85 MEYERHOLD Vsevólod. Théâtre années 20. Écrits sur le théâtre. Trad., préfce et notes Béatrice Picon- Vallin. La Cité: L´Âge d´Homme, 1973, Tome I. PEIXOTO, Fernando (Org.). Vianinha. São Paulo: Brasiliense, 1983. SARAIVA, Antônio José. Para a história da cultura de Portugal., Lisboa: Publicações Europa-América, ju- lho/ 1972 vol.2. VÉLEJOV, Leonid. Tendencias fundamentales de La dirección escénica soviética. Ciclo de conferên- cias. México: Centro de las artes escénicas, IV Confe- rência, 20/11/ 1987.