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Prof. Estratégia Carreira Jurídica e OAB
3 Legislação Civil Especial
Direto ao Ponto: TJ-SP
Documento última vez atualizado em 12/08/2024 às 15:34.
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Índice
3.1) Estatuto da Terra
3.2) Estatuto das Cidades
3.3) Política Agrícola e Reforma Agrária
3.4) Marco Civil da Internet
3.5) Lei de Proteção de Dados
3.6) Registros de Imóveis: Noções Gerais, Registros, Presunção de Fé Pública e Imóveis da
União. Prioridade, Especialidade , Continuidade. Procedimento de Dúvida
3.7) Lei do Parcelamento do Solo Urbano
3.7.1) Noções gerais
3.7.2) Loteamento
3.7.3) Desmembramento
3.7.4) Aprovação do Projeto
3.7.5) Registro
3.7.6) Contratos
3.7.7) Disposições �nais
3.8) Lei do Condomínio e Incorporação Imobiliária
3.8.1) Condomínio em Edi�cações
3.8.2) Noções gerais
3.8.3) Convenção de condomínio
3.8.4) Despesas de condomínio
3.8.5) Seguro, demolição e reconstrução do condomínio
3.8.6) Administração do condomínio
3.8.7) Incorporação Imobiliária
3.8.8) Noções gerais
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3.8.9) Obrigações do incorporador
3.8.10) Patrimônio de afetação
3.8.11) Lista de Questões
3.9) Política Agrícola e Reforma Agrária
3.9.1) Disposições Constitucionais
3.9.2) Lei da Política Agrícola
3.9.3) Lei da Reforma Agrária
3.9.4) Lista de Questões
3.10) Lei dos Direitos Autorais
3.10.1) Noções Gerais
3.10.2) Obras Intelectuais
3.10.3) Direitos do Autor
3.11) Lei 13.874/2019 – Lei da Liberdade Econômica
3.12) Marco Civil da Internet
3.12.1) Disposições Gerais
3.12.2) Direitos e Garantias do Usuário
3.12.3) Provisão de Conexões e Aplicativos
3.12.4) Atuação do Poder Público
3.12.5) Disposições Finais
3.13) Marco legal das garantias
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Estatuto da Terra
Disposições gerais
Apesar da Independência, o Brasil ainda se utilizava do sistema imperial português para
estruturar as terras nacionais, notadamente as sesmarias, que conviviam com as posses à
margem legal. Somente em 1850, com a Lei 601, é que o país ganhou uma Lei de Terras. A
mudança era necessária, eis que a escravidão se esgotava paulatinamente – a despeito de só
se findar efetivamente 38 anos depois –, a imigração europeia aumentava e a jovem nação
latina iniciava sua transição do modo de produção antigo, baseado no escravagismo, para o
nascente capitalismo proprietário.
Novos tempos que exigiam “novas luzes” e novas leis. A terra se torna mercadoria, cujo alto
custo impedia que os ex-escravos e imigrantes a acessassem legalmente, vedando o ingresso a
um bem tão vasto e ainda inculto. Essa situação, que empurrava boa parte da população a
simplesmente se apossar das terras, prenunciava os conflitos que viriam a ocorrer nas décadas
seguintes.
Não à toa, o ET foi um dos primeiros estatutos jurídicos forjados integralmente no seio do
movimento golpista de 1964, em substituição à vetusta Lei de Terras. O objetivo, evidente, era
frear o movimento campesino que rapidamente se organizava e ganhava volume no governo
deposto de João Goulart e que trazia os “ventos de desordem” que os governantes, agora
fardados, supostamente pretendiam evitar. Além disso, o ET tinha evidenciado outro objetivo:
colonizar as vastas faixas de terras do Brasil setentrional, que deixavam nossas fronteiras
perigosamente desguarnecidas.
Assim, o duplo propósito de obstar os inimigos internos e externos era alcançado pela Reforma
Agrária e pela Colonização, os dois eixos centrais da política agrária traçados pelo ET. O
primeiro, porém, pouco avançou nos “anos de chumbo”, e as sucessivas e frustradas tentativas
de pacificar os conflitos agrários, quase duzentos anos depois, continuam.
A despeito das críticas contundentes, o ET merece elogio no quesito técnico. É uma lei
extremamente avançada para o seu tempo, e mesmo atualmente. Não obstante, em que pese a
qualidade da lei, sua aplicação nunca foi adequadamente alcançada. A contraprova, cotidiana, é
a continuidade de movimentos sociais desejosos por terras, ante a desigualdade fundiária que
remanesce, e os contínuos conflitos armados que, infelizmente, ainda clamam por vidas no
campo, reiteradamente.
As provas se aproveitam dessa técnica avançada do ET e, muitas vezes, acabam tratando das
tecnicalidades mesmo da Lei, o que exige sua atenção redobrada.
Princípios e definições
O ET regula os direitos e obrigações concernentes aos bens imóveis rurais, para os fins de
execução da reforma agrária e promoção da política agrícola. Mas, e o que é reforma agrária?
E o que é política agrícola? Os §§ do art. 1º assim definem:
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O ET assegura, por um lado, a propriedade privada à terra, mas a condiciona, por outro, à
função social da propriedade. O contrário de ser fórmula vazia, como propugnada por muitos, o
próprio ET deixa claro o que se entende por função social. O art. 2°, §1º, estabelece que a
propriedade da terra desempenha integralmente a sua função social quando,
simultaneamente:
Para que isso seja possível, é dever do Poder Público:
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Todo agricultor tem direito a permanecer na terra que cultiva, dentro dos termos e limitações
do ET e das normas de trabalho. Igualmente se assegura às populações indígenas o direito à
posse das terras que ocupam ou que lhes sejam atribuídas de acordo com a legislação especial
que disciplina o regime tutelar a que estão sujeitas. Veja que não se fala em “propriedade” às
populações indígenas no §4º, mas em “posse”, ao contrário da proteção proprietária dada,
em geral, no caput.
A proteção proprietária é dada não apenas às pessoas naturais, mas também às pessoas
jurídicas. O art. 3º reconhece às entidades privadas, nacionais ou estrangeiras, o
direito à propriedade da terra em condomínio, quer sob a forma de cooperativas
quer como sociedades abertas constituídas na forma da legislação em vigor. No
entanto, os estatutos das cooperativas e demais sociedades, que se organizarem na
forma prevista acima, devem ser aprovados pelo Instituto Brasileiro de Colonização e
Reforma Agrária – INCRA, que estabelecerá condições mínimas para a democratização
dessas sociedades.
Na sequência, o ET traz, no art. 4º, uma série de definições e conceitos que serão retomados e
aplicados ao longo da lei. Atente porque essas definições são EXTREMAMENTE COMUNS
NAS PROVAS:
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Estatuto das Cidades
Mas, como definir as dimensões dessas propriedades (minifúndio, latifúndio, propriedade
familiar), num país de dimensões continentais como o Brasil? Fazer isso em Portugal é
fácil, dado o tamanho diminuto do país; fazer isso na Alemanha, um país nem tão
pequeno assim, também é fácil, dadas as desigualdades regionais bem menos
acentuadas desse Estado. Mas fazer isso no Brasil é tarefa intangível, já que temos
desigualdades regionais que tornam impossível a missão de definir o que é
minifúndio/latifúndio no entorno das metrópoles, nos celeiros agrícolas do centro-sul, no
semiárido nordestino e nas áreas fronteiriças da Amazônia Legal.
Atento à realidade rural brasileira, o ET estabelece, no art. 5°, que a dimensão da área
dos módulos de propriedade rural será fixada para cada zona de características
econômicas e ecológicas homogêneas, distintamente, por tipos de exploração rural
que nela possam ocorrer. No caso de exploração mista, o módulo será fixado pela
média ponderada das partes do imóvel destinadas a cada um dos tipos de exploração
considerados.
InstrumentosA alternativa C está incorreta, nos termos do art. 26, § 1º, da Lei nº 13.709: “É vedado ao
Poder Público transferir a entidades privadas dados pessoais constantes de bases de
dados a que tenha acesso, exceto: I - em casos de execução descentralizada de
atividade pública que exija a transferência, exclusivamente para esse fim específico e
determinado, observado o disposto na Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 2011 (Lei de
Acesso à Informação); III - nos casos em que os dados forem acessíveis publicamente,
observadas as disposições desta Lei. IV - quando houver previsão legal ou a
transferência for respaldada em contratos, convênios ou instrumentos congêneres; ou V
- na hipótese de a transferência dos dados objetivar exclusivamente a prevenção de
fraudes e irregularidades, ou proteger e resguardar a segurança e a integridade do
titular dos dados, desde que vedado o tratamento para outras finalidades”.
A alternativa D está incorreta, nos termos do art. 41, caput e § 1º, da Lei nº 13.709: “O
controlador deverá indicar encarregado pelo tratamento de dados pessoais. § 1º A
identidade e as informações de contato do encarregado deverão ser divulgadas
publicamente, de forma clara e objetiva, preferencialmente no sítio eletrônico do
controlador”.
A alternativa E está incorreta, nos termos do art. 48, caput e § 1º, da Lei nº 13.709: “O
controlador deverá comunicar à autoridade nacional e ao titular a ocorrência de
incidente de segurança que possa acarretar risco ou dano relevante aos titulares. § 1º A
comunicação será feita em prazo razoável, conforme definido pela autoridade nacional,
e deverá mencionar, no mínimo: (...)”.
Tratamento de dados pessoais de crianças e adolescentes
Em se tratando de tratamento de dados pessoais de crianças e de adolescentes, a LGPD tem
norma específica, tendo em vista a sensibilidade aguçada envolvida. O art. 14 determina que o
tratamento de dados pessoais de crianças e de adolescentes deverá ser realizado em seu
melhor interesse, nos termos da LGPD e do ECA.
Para que seja feito o tratamento de dados pessoais de crianças, deve-se obter o
consentimento específico e em destaque dado por pelo menos um dos pais ou pelo
responsável legal (§1º). Nesse caso, os controladores devem manter pública a informação
sobre os tipos de dados coletados, a forma de sua utilização e os procedimentos para o
exercício dos direitos previstos no art. 18, prevê o §2º.
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Podem ser coletados dados pessoais de crianças sem o consentimento antes mencionado?
Sim, quando a coleta for necessária para contatar os pais ou o responsável legal, utilizados
uma única vez e sem armazenamento. Igualmente, podem ser coletados tais dados para
proteção da criança. De qualquer forma, em nenhum caso poderão ser repassados a terceiro
sem o consentimento específico supramencionado (§3º).
Agora, desçamos à Terra novamente. Muito comum que crianças e adolescentes tenham
acesso praticamente irrestrito a recursos de tecnologia em casa. Computadores, celulares,
tablets e toda a parafernália tecnológica que nos rodeia está a apenas um dedo de distância.
Como o controlador do aplicativo Candy Crush saberá que eu assisti meu filho na inserção de
dados pessoais? Como o aplicativo Saúde do iPhone sabe que eu consenti no tratamento de
dados obtidos simplesmente porque a pessoa carrega o celular no bolso?
Primeiro, os controladores não deverão condicionar a participação dos titulares em jogos,
aplicações de internet ou outras atividades ao fornecimento de informações pessoais além
das estritamente necessárias à atividade (§4º). Não só isso, estabelece o §5º que o
controlador deve realizar todos os esforços razoáveis para verificar que o consentimento
exigido foi dado pelo responsável pela criança, consideradas as tecnologias disponíveis.
Ora, atualmente é razoável a um aplicativo altamente rentável, como o Candy Crush, que ele
seja obrigado a exigir autenticação biométrica ou facial dos responsáveis legais pela criança?
Evidente que sim. Boa parte dos novos celulares vêm com recurso biométrico e todos eles, já
há muitos anos, contam com câmera. Isso é tecnologicamente viável.
O Candy Crush certamente alegará, com grande dose de razão, que isso traz custos extras. E
traz. Mas a equação é simples. Se o aplicativo não quer ter de obter esse consentimento, basta
não tratar dados pessoais, ou seja, deixar as pessoas acessá-lo sem armazenar informações.
Mas não é potencialmente a informação que ele armazena uma fonte de recursos no “mercado
das informações” digitais? Precisamente. Veja que muitos desses aplicativos têm, há muito
tempo, um bônus, que é o de utilizar as informações das pessoas gratuitamente. Não podem,
portanto, reclamar de um ônus, qual seja o de tratar essas informações de maneira adequada,
clara e pública.
Por fim, as informações sobre o tratamento de dados referidas deverão ser fornecidas de
maneira simples, clara e acessível. Isso deve levar em consideração as características físico-
motoras, perceptivas, sensoriais, intelectuais e mentais do usuário, com uso de recursos
audiovisuais quando adequado, de forma a proporcionar a informação necessária aos pais ou ao
responsável legal e adequada ao entendimento da criança (§ 6º).
Há um detalhe no art. 14 da LGPD. Ao passo que o caput trata de “crianças e
adolescentes”, o §1º fala apenas em “crianças”. Erro do legislador ou intencional?
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Não sei. E nem você. O fato é que se aparecesse na minha prova “o tratamento de
dados pessoais de crianças e adolescentes deverá ser realizado com o consentimento
específico e em destaque dado por pelo menos um dos pais ou pelo responsável legal”,
eu marcaria INCORRETO. Falo isso porque a literalidade do §1º diz “crianças”.
Isso porque o art. 2º da Lei 8.069/1990, o ECA, estabelece que se considera criança a
pessoa até 12 anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre 12 e 18 anos de
idade. Crianças e adolescentes compreendem faixas etárias distintas.
Pela literalidade da LGPD, portanto, não é necessário obter o consentimento dos
responsáveis legais daqueles que tenham mais de 12 anos, mas o é caso o
absolutamente incapaz tenha menos de 16 anos. Se eu fosse um examinador
melindroso, confundiria você ainda mais: absolutamente e relativamente incapaz.
Isso porque toda criança é absolutamente incapaz (porque tem menos de 12 anos), mas
há adolescentes que são absolutamente incapazes (entre 12 e 16 anos) e adolescentes
que são relativamente incapazes (entre 16 e 18 anos). Sacou que dá pra jogar com esses
conceitos e fazer pegadinhas bobas, mas fáceis de cair, se você não estiver 100% ligado?
Término do tratamento de dados
Os dados podem ser tratados eternamente? Não. De acordo com o art. 15, o término do
tratamento de dados pessoais ocorrerá nas seguintes hipóteses:
I��Verificação de que a finalidade foi alcançada ou de que os dados deixaram de ser
necessários ou pertinentes ao alcance da finalidade específica almejada;
II��Fim do período de tratamento;
III��Comunicação do titular, inclusive no exercício de seu direito de revogação do
consentimento, resguardado o interesse público;
IV��Determinação da autoridade nacional, quando houver violação ao disposto na lei.
Alcançado o término do tratamento de dados, o que fazer com eles? Estabelece o art. 16
que os dados pessoais devem ser eliminados após o término de seu tratamento, no
âmbito e nos limites técnicos das atividades. Autoriza-se, porém, sua conservação
para:
I��Cumprimento de obrigação legal ou regulatória pelo controlador;
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II��Estudo por órgão de pesquisa, garantida, sempre que possível, a anonimização dos
dados pessoais;
III��Transferência a terceiro, desde que respeitados os requisitos de tratamento de
dados dispostos na lei;
IV��Uso exclusivo do controlador, vedado seu acesso por terceiro,e desde que
anonimizados os dados;
Direitos do titular
De maneira sóbria, a LGPD estabelece que a titulariade dos dados pessoais é da
própria pessoa natural. Isso é assegurado pelo art. 17, que ainda menciona os direitos
fundamentais de liberdade, de intimidade e de privacidade. Por isso, rege o art. 18 que o
titular dos dados pessoais tem direito a obter do controlador, em relação aos dados
do titular por ele tratados, a qualquer momento e mediante requisição:
No caso específico do inc. V, a portabilidade dos dados pessoais não inclui dados que já
tenham sido anonimizados pelo controlador. A previsão do §7º é lógica, já que, nesse
caso, o controlador já não sabe mais precisamente a quem pertencem os dados
anonimizados.
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O titular dos dados pessoais tem o direito de peticionar em relação aos seus dados
contra o controlador perante a autoridade nacional (§1º) e também perante os
organismos de defesa do consumidor (§8º). Ele igualmente pode se opor a tratamento
realizado com fundamento em uma das hipóteses de dispensa de consentimento, em
caso de descumprimento legal (§2º).
Para exercer esses direitos, o titular ou o representante legalmente constituído deve
fazer requerimento expresso ao agente de tratamento (§3º). O requerimento tem de ser
gratuito ao titular (§5º). Em caso de impossibilidade de adoção imediata da providência,
o controlador enviará ao titular resposta em que poderá (§4º):
I��Comunicar que não é agente de tratamento dos dados e indicar, sempre que
possível, o agente;
II��Indicar as razões de fato ou de direito que impedem a adoção imediata da
providência;
O responsável deverá informar de maneira imediata aos agentes de tratamento com os
quais tenha realizado uso compartilhado de dados a correção, a eliminação, a
anonimização ou o bloqueio dos dados, para que repitam idêntico procedimento (§6º).
Exceção se verifica nos casos em que tal comunicação seja comprovadamente
impossível ou implique esforço desproporcional.
Como se fará a confirmação de existência ou o acesso a dados pessoais, depois da
requisição do titular? Depende de como ela será feita, minudencia o art. 19 em seus dois
incisos.
Se for em formato simplificado, imediatamente. Agora, se for por meio de
declaração clara e completa, que indique a origem dos dados, a inexistência de
registro, os critérios utilizados e a finalidade do tratamento, observados os segredos
comercial e industrial, a informação deve ser fornecida no prazo de até 15 dias,
contados da data do requerimento do titular. A autoridade nacional pode dispor de
forma diferenciada acerca dos prazos previstos acima para os setores específicos (§4º).
Os dados pessoais devem ser armazenados em formato que favoreça o exercício do
direito de acesso (§1º). O fornecimento dessas informações pode se dar, a critério do
titular tanto por meio eletrônico, seguro e idôneo para esse fim, quanto sob forma
impressa (§2, incisos).
Quando o tratamento tiver origem em contrato ou no consentimento do titular, ele pode
solicitar cópia eletrônica integral de seus dados pessoais, observados os segredos
comercial e industrial, nos termos de regulamentação da autoridade nacional (§3º). A
cópia tem de ser emitida em formato que permita a sua utilização subsequente, inclusive
em outras operações de tratamento.
O art. 20 da LGPD ainda prevê ao titular dos dados o direito a solicitar revisão de
decisões tomadas unicamente com base em tratamento automatizado de dados
pessoais que afetem seus interesses, incluídas as decisões destinadas a definir o seu
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perfil pessoal, profissional, de consumo e de crédito ou os aspectos de sua
personalidade. Houve sutil mudança do dispositivo com a Lei 13.709/2019, que deixou de
exigir que a revisão fosse feita por “pessoa física”.
O controlador deve fornecer, sempre que solicitadas, informações claras e adequadas a
respeito dos critérios e dos procedimentos utilizados para a decisão automatizada (§1º).
Se não forem dadas essas informações, sob a justificativa de segredo comercial e
industrial, a autoridade nacional pode realizar auditoria para verificação de aspectos
discriminatórios em tratamento automatizado de dados pessoais (§2º).
A justificativa pode ser plausível, ou não. Por exemplo, o Google não se tornou o
maior motor de buscas na internet à toa. Nem o Facebook se tornou a maior rede social
do mundo por puro acaso.
Ambos os aplicativos se tornaram os maiores de sua espécie precisamente por se
utilizarem de algoritmos complexos que lhes trouxeram vantagens em relação aos
concorrentes. Não podem ser tornados públicos esses critérios e procedimentos sem
que haja uma perda econômica grave a ambos.
Os dados pessoais referentes ao exercício regular de direitos pelo titular não podem
ser utilizados em seu prejuízo, esclarece o art. 21. Essa é uma questão complexa, já que
dificilmente uma sociedade empresarial de concessão de crédito não levará em conta o
histórico do consumidor que já ajuizou dezoito ações revisionais de contrato bancário,
ou um empregador simplesmente ignorará que o candidato a emprego já reclamou
quatorze vezes contra empregadores prévios. A lei, porém, proíbe tais práticas.
Por fim, o art. 22 determina que a defesa dos interesses e dos direitos dos titulares de
dados pode ser exercida em juízo, individual ou coletivamente, na forma do disposto na
legislação pertinente, acerca dos instrumentos de tutela individual e coletiva. No caso,
aplicáveis as normas do CDC, do CPC/2015, da Lei da Ação Civil Pública etc.
Tratamento de dados pessoais pelo poder público
Regras
O tratamento de [2]dados pessoais pelas pessoas jurídicas de direito [3] público refe [4]ridas na
Lei 12.527/2011 (Lei de Acesso à Informação – LAI), deve ser realizado para o atendimento de
sua finalidade pública, na persecução do interesse público, determina o art. 23. Esse
tratamento tem de ter por objetivo executar as competências legais ou cumprir as atribuições
legais do serviço público, desde que:
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I. Sejam informadas as hipóteses em que, no exercício de suas competências, re [5]alizam o
tratamento de dados pessoais, fornecendo informações claras e atualizadas sobre a previsão
legal, a finalidade, os procedimentos e as práticas utilizadas para a execução dessas atividades,
em veículos de fácil acesso, preferencialmente em seus sítios eletrônicos;
III. Seja indicado um encarregado quando realizarem operações de tratamento de [6] dados
pessoais, nos termos do art. 39 da LGPD.
A autoridade nacional pode dispor sobre as formas de publicidade das operações [7] de
tratamento (§1º). No entanto, as disposições da LGPD não dispensam essas pessoas jurídicas de
instituir as autoridades previstas na LAI (§2º). Aém disso, prevê o art. 7º, §2º, que a forma de
disponibilização das informações previstas no § 1º e no inc. I do caput do art. 23 pode ser
especificada pela autoridade nacional.
Os prazos e procedimentos para exercício dos direitos do titular perante o Pod [8]er Público
devem observar o disposto em legislação específica, em especial as disposições constantes da
Lei 9.507/1997 (Lei do Habeas Data), da Lei 9.784/1999 (Lei Geral do Processo Administrativo)
e da Lei 12.527/2011 (Lei de Acesso à Informação).
Os serviços notariais e de registro exercidos em caráter privado, por delegaçã [9]o, têm o
mesmo tratamento dispensado às pessoas jurídicas de direito público (§4º). Isso significa
que esses serviços devem fornecer acesso aos dados por meio eletrônico para a Administração
Pública (§5º).
Já as empresas públicas e as sociedades de economia mista que atuam em regime [10]de
concorrência (sujeitas ao disposto no art. 173 da CF/1988) têm o mesmo tratamento
dispensado às pessoas jurídicas de direito privado particulares, esclarece art. 24.
Excepcionalmente, porém, determinao parágrafo único, que se as empresas públi [11]cas e as
sociedades de economia mista estiverem operacionalizando políticas públicas, e no âmbito
da execução delas, passam a ter o mesmo tratamento dispensado às pessoas jurídicas de
direito público.
Os dados devem ser mantidos em formato interoperável e estruturado para o uso [12]
compartilhado, com vistas à execução de políticas públicas, à prestação de serviços públicos,
à descentralização da atividade pública e à disseminação e ao acesso das informações pelo
público em geral (art. 25). O estabelecimento de um pretenso e-Gov, inclusive, depende dessa
interoperabilidade.
O uso compartilhado de dados pessoais pelo Poder Público deve atender a finali [13]dades
específicas de execução de políticas públicas e atribuição legal pelos órgãos e pelas entidades
públicas. Ademais, devem ser respeitados os princípios de proteção de dados pessoais
elencados no art. 6º, aduz o art. 26.
Porém, o Poder Público não pode transferir a entidades privadas dados pessoai [14]s
constantes de bases de dados a que tenha acesso, restringe o §1º. Só poderá fazê-lo em
determinadas hipóteses e desde que os contratos e convênios para tanto sejam comunicados à
autoridade nacional:
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Primeiro, em casos de execução descentralizada de atividade pública que exija a
transferência, exclusivamente para esse fim específico e determinado, observado o
disposto na LAI (inc. I);
Segundo, nos casos em que os dados forem acessíveis publicamente (inc. III);
Terceiro, quando houver previsão legal ou a transferência for respaldada em contratos,
convênios ou instrumentos congêneres (inc. IV);
Quarto, na hipótese de a transferência dos dados objetivar exclusivamente a prevenção de
fraudes e irregularidades, ou proteger e resguardar a segurança e a integridade do titular
dos dados, desde que vedado o tratamento para outras finalidades (inc. V.)
A comunicação ou o uso compartilhado de dados pessoais de pessoa jurídica de direito público
a pessoa de direito privado deve ser informado à autoridade nacional, obriga o art. 27. O
parágrafo único prevê que essas informações são objeto de regulamentação específica. Em
regra, de toda sorte, depende-se de consentimento do titular.
No entanto, dispensa-se o consentimento do titular nas hipóteses de dispensa legal de
consentimento (inc. I). Também é dispensável o consentimento nos casos de uso
compartilhado de dados (inc. II). E, por fim (inc. III), dispensa-se-a quando houver (a)
execução descentralizada de atividade pública, (b) acessibilidade pública dos dados, (c)
previsão legal ou respaldo em instrumento contratual, (d) objetivo exclusivo vinculado à
segurança (hipóteses do art. 26, §1º).
De acordo com o art. 29, a autoridade nacional pode solicitar, a qualquer momento, aos órgãos
e às entidades do Poder Público a realização de operações de tratamento de dados pessoais,
informações específicas sobre o âmbito e a natureza dos dados e outros detalhes do
tratamento realizado. Pode, também, emitir parecer técnico complementar para garantir o
cumprimento da Lei. Por fim, compete à autoridade nacional estabelecer normas
complementares para as atividades de comunicação e de uso compartilhado de dados
pessoais (art. 30).
Responsabilidade
Em que pese o estabelecimento de um rol de deveres bem extenso e da criação de uma esfera
de proteção absurdamente grande para os dados pessoais, a LGPD é curiosamente lacônica
quando da responsabilização. Apenas dois artigos tratam do assunto. Ambos, porém, pouco
dizem a respeito.
Segundo o art. 31, quando houver infração à LGPD em decorrência do tratamento de dados
pessoais por órgãos públicos, a autoridade nacional poderá enviar informe com medidas
cabíveis para fazer cessar a violação. Além disso, a autoridade nacional poderá solicitar a
agentes do Poder Público a publicação de relatórios de impacto à proteção de dados pessoais
e sugerir a adoção de padrões e de boas práticas para os tratamentos de dados pessoais pelo
Poder Público. (art. 32).
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Registros de Imóveis: Noções Gerais, Registros, Presunção de Fé
Pública e Imóveis da União. Prioridade, Especialidade , Continuidade.
Procedimento de Dúvida
[15]
Das atribuições
A primeira disposição do Registro de Imóveis contida na LRP traz os atos levados a cabo na
Serventia. O ato principal do Registro de Imóveis, como está disposto no caput do art. 167,
é a matrícula do imóvel (ou fólio real, ou folha real, em detrimento à folha pessoa, vigente
antes de 1973). No entanto, variados registros e averbações são também realizados nesse
cartório. Quais são eles? Prepare-se, porque a lista é looooonga.
Primeiro, vou realçar o texto em amarelo nas situações nas quais você deve prestar
mais atenção, porque trazem o registro e a averbação de atos que não parecem afetos
ao registro imobiliário. Segundo, vou realçar o texto em verde nas situações nas quais
temos mais frequentemente questões, pegadinhas e confusões nos concursos. Assim,
espero facilitar um pouco a você, quando for retomar o estudo das situações sujeitas ao
registro ou averbação na LRP.
Quanto ao registro, atente porque o art. 168 estabelece que na designação genérica de
registro (registro lato sensu ou em sentido amplo), também estão englobadas a
inscrição e a transcrição a que se referem as leis em geral.
Atos sujeitos a REGISTRO (registro stricto sensu) junto ao Registro de Imóveis,
segundo o art. 167, inc. I:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 52/354
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1) instituição de bem de família;
2) hipotecas legais, judiciais e convencionais;
3) contratos de locação de prédios, nos quais tenha sido consignada cláusula de
vigência no caso de alienação da coisa locada (consoante regra do parágrafo único do
art. 167, o registro será efetuado no RI da circunscrição onde o imóvel estiver
matriculado, mediante apresentação de uma via do contrato assinado pelas partes,
admitida a forma eletrônica e bastando a coincidência entre o nome de um dos
proprietários e o do locador);
4) penhor de máquinas e de aparelhos utilizados na indústria, instalados e em
funcionamento, com os respectivos pertences ou sem eles;
5) penhoras, arrestos e sequestros de imóveis;
6) servidões em geral;
7) usufruto e uso sobre imóveis e habitação, quando não resultarem do direito de
família;
8) rendas constituídas sobre imóveis ou a eles vinculadas por disposição de última
vontade;
9) contratos de compromisso de compra e venda de cessão deste e de promessa de
cessão, com ou sem cláusula de arrependimento, que tenham por objeto imóveis não
loteados e cujo preço tenha sido pago no ato de sua celebração, ou deva sê-lo a
prazo, de uma só vez ou em prestações;
10) enfiteuse;
11) anticrese;
12) convençõesantenupciais;
14) cédulas de crédito industrial;
15) contratos de penhor rural;
16) empréstimos por obrigações ao portador ou debêntures, inclusive as conversíveis
em ações;
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 53/354
17) incorporações, instituições e convenções de condomínio;
18) contratos de promessa de venda, cessão ou promessa de cessão de unidades
autônomas condominiais e de promessa de permuta, a que se refere a Lei do
Condomínio e Incorporação Imobiliária (Lei 4.591/1964), quando a incorporação ou a
instituição de condomínio se formalizar na vigência dela;
19) dos loteamentos urbanos e rurais;
20) dos contratos de promessa de compra e venda de terrenos loteados em
conformidade com o Decreto-Lei do Loteamento e Venda de Terrenos (58/1937), e
respectiva cessão e promessa de cessão, quando o loteamento se formalizar na
vigência desta Lei;
21) citações de ações reais ou pessoais reipersecutórias, relativas a imóveis;
23) julgados e atos jurídicos entre vivos que dividirem imóveis ou os demarcarem
inclusive nos casos de incorporação que resultarem em constituição de condomínio e
atribuírem uma ou mais unidades aos incorporadores;
24) sentenças que nos inventários, arrolamentos e partilhas, adjudicarem bens de raiz
em pagamento das dívidas da herança;
25) atos de entrega de legados de imóveis, dos formais de partilha e das sentenças de
adjudicação em inventário ou arrolamento quando não houver partilha;
26) arrematação e da adjudicação em hasta pública;
27) dote;
28) sentenças declaratórias de usucapião;
29) compra e venda pura e da condicional;
30) permuta e da promessa de permuta;
31) dação em pagamento;
32) transferência, de imóvel a sociedade, quando integrar quota social;
33) doação entre vivos;
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 54/354
Estão sujeitos a REGISTRO, ainda, segundo o art. 246, §2º:
34) desapropriação amigável e das sentenças que, em processo de desapropriação,
fixarem o valor da indenização;
35) alienação fiduciária em garantia de coisa imóvel;
36) imissão provisória na posse, quando concedida à União, aos Estados, ao Distrito
Federal, aos Municípios ou às suas entidades delegadas, e respectiva cessão e
promessa de cessão;
37) termos administrativos ou sentenças declaratórias da concessão de uso especial
para fins de moradia;
39) constituição do direito de superfície de imóvel urbano;
40) contrato de concessão de direito real de uso de imóvel público;
41) legitimação de posse;
42) conversão da legitimação de posse em propriedade da Lei do Programa Minha
Casa, Minha Vida– PMCMV (art. 60 da Lei 11.977/2009);
43) Certidão de Regularização Fundiária (CRF);
44) legitimação fundiária;
45) do contrato de pagamento por serviços ambientais, quando este estipular
obrigações de natureza propter rem;
46. do ato de tombamento definitivo, sem conteúdo financeiro;
47. do patrimônio rural em afetação em garantia;
48. de outros negócios jurídicos de transmissão do direito real de propriedade sobre
imóveis ou de instituição de direitos reais sobre imóveis, ressalvadas as hipóteses de
averbação previstas em lei e respeitada a forma exigida por lei para o negócio jurídico,
a exemplo do art. 108 do CC/2002.
terra indígena com demarcação homologada, em nome da União.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 55/354
Atos sujeitos a AVERBAÇÃO junto ao Registro de Imóveis, segundo o art. 167, inc. II:
1) convenções antenupciais e do regime de bens diversos do legal, nos registros
referentes a imóveis ou a direitos reais pertencentes a qualquer dos cônjuges,
inclusive os adquiridos posteriormente ao casamento;
2) cancelamento da extinção dos ônus e direitos reais;
3) contratos de promessa de compra e venda, das cessões e das promessas de cessão
do Decreto-Lei do Loteamento e Venda de Terrenos (58/1937), quando o loteamento
se tiver formalizado anteriormente à vigência da LRP;
4) mudança de denominação e numeração dos prédios, edificação, reconstrução,
demolição, desmembramento e loteamento de imóveis (pode o oficial providenciar,
preferencialmente por meio eletrônico, a requerimento e às custas do interessado, os
documentos comprobatórios necessários perante as autoridades competentes, permite
o 246, §1º-A);
5) alteração do nome por casamento ou por desquite, ou, ainda, outras circunstâncias
que, de qualquer modo, tenham influência no registro ou nas pessoas nele
interessadas (pode o oficial providenciar, preferencialmente por meio eletrônico, a
requerimento e às custas do interessado, os documentos comprobatórios necessários
perante as autoridades competentes, permite o 246, §1º-A);
6) atos pertinentes a unidades autônomas condominiais da Lei de Condomínios
(4.591/1964), quando a incorporação tiver sido formalizada anteriormente à vigência da
LRP;
7) cédulas hipotecárias;
8) caução e cessão fiduciária de direitos reais relativos a imóveis;
9) sentenças de separação de dote;
10) restabelecimento da sociedade conjugal;
11) cláusulas de inalienabilidade, impenhorabilidade e incomunicabilidade impostas a
imóveis, bem como da constituição de fideicomisso;
12) decisões, recursos e seus efeitos, que tenham por objeto atos ou títulos registrados
ou averbados;
13) nomes dos logradouros, decretados pelo poder público, de ofício;
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 56/354
14) sentenças de separação judicial, divórcio e nulidade ou anulação de casamento,
quando nas respectivas partilhas existirem imóveis ou direitos reais sujeitos a registro;
15 - rerratificação do contrato de mútuo com pacto adjeto de hipoteca em favor de
entidade integrante do SFH, ainda que importando elevação da dívida, desde que
mantidas as mesmas partes e que inexista outra hipoteca registrada em favor de
terceiros;
16) contrato de locação, para os fins de exercício de direito de preferência (consoante
regra do parágrafo único do art. 167 a averbação será efetuada no RI da circunscrição
onde o imóvel estiver matriculado, mediante apresentação de uma via do contrato
assinado pelas partes, admitida a forma eletrônica e bastando a coincidência entre o
nome de um dos proprietários e o do locador);
17) Termo de Securitização de créditos imobiliários, quando submetidos a regime
fiduciário;
18) notificação para parcelamento, edificação ou utilização compulsórios de imóvel
urbano;
19) extinção da concessão de uso especial para fins de moradia;
20) extinção do direito de superfície do imóvel urbano;
21) da cessão do crédito com garantia real sobre imóvel (ressalvado o disposto no item
35, abaixo);
22) reserva legal;
23) servidão ambiental;
24) destaque de imóvel de gleba pública originária;
26) auto de demarcação urbanística;
27) extinção da legitimação de posse;
28) extinção da concessão de uso especial para fins de moradia;
29) extinção da concessão de direito real de uso;
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 57/354
Ainda estão sujeitos a AVERBAÇÃO, segundo o art. 246, §3º, e o art. 247,
respectivamente:
30) da sub-rogação de dívida, da respectiva garantia fiduciária ou hipotecária e da
alteração das condições contratuais, em nome do credor que venha a assumir essa
condição nos termos do art. 31 da Lei da Alienação Fiduciária de Imóveis (art. 31 da Lei
9.514/1997) ou do art. 347 do CC/2002, realizada em ato único, a requerimento do
interessado, instruído com documento comprobatório firmado pelo credor original e
pelo mutuário (ressalvado o disposto no item 35, abaixo);
31. certidão de liberação de condições resolutivas dos títulos de domínio resolúvel
emitidos pelos órgãos fundiários federais na Amazônia Legal;
32. termo de quitação de contrato de compromisso de compra e venda registrado e
do termo de quitação dos instrumentos públicos ou privados oriundos da implantação
de empreendimentos ou de processo de regularização fundiária, firmado pelo
empreendedor proprietário de imóvel ou pelo promotor do empreendimentoou da
regularização fundiária objeto de loteamento, desmembramento, condomínio de
qualquer modalidade ou de regularização fundiária, exclusivamente para fins de
exoneração da sua responsabilidade sobre tributos municipais incidentes sobre o
imóvel perante o Município, não implicando transferência de domínio ao
compromissário comprador ou ao beneficiário da regularização;
34. da existência dos penhores previstos no art. 178 da LRP, de ofício, sem conteúdo
financeiro, por ocasião do registro no livro auxiliar em relação a imóveis de titularidade
do devedor pignoratício ou a imóveis objeto de contratos registrados no Livro nº 2 -
Registro Geral;
35. da cessão de crédito ou da sub-rogação de dívida decorrentes de transferência do
financiamento com garantia real sobre imóvel, nos termos do Capítulo II-A da Lei da
Alienação Fiduciária de Imóveis (Lei 9.514/1997;
36. do processo de tombamento de bens imóveis e de seu eventual cancelamento,
sem conteúdo financeiro;
37. da extensão da garantia real à nova operação de crédito, nas hipóteses autorizadas
por lei.
existência de domínio privado nos limites da terra indígena, durante o processo
demarcatório;
declaração de indisponibilidade de bens, na forma prevista na Lei.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 58/354
Além desses casos, serão averbados na matrícula as sub-rogações e outras
ocorrências que, por qualquer modo, alterem o registro ou repercutam nos direitos
relativos ao imóvel, estabelece o art. 246. Já o art. 247-A, incluído pela Lei 13.865/2019,
dispensa o habite-se para a averbação de construção residencial urbana unifamiliar de
um só pavimento finalizada há mais de 5 anos em área ocupada predominantemente por
população de baixa renda, inclusive para o fim de registro ou averbação decorrente de
financiamento à moradia.
As averbações a que se referem os itens 4 e 5 acima vistas devem ser feitas a
requerimento dos interessados, com firma reconhecida, instruído com documento dos
interessados. Esse documento deve estar acompanhado do documento comprobatório
fornecido pela autoridade competente. A alteração do nome só poderá ser averbada
quando devidamente comprovada por certidão do Registro Civil.
Cuidado para não confundir o registro do contrato de locação com cláusula de
vigência (item 3 do inc. I do art. 167) com a averbação do contrato de locação para
exercício da preferência na aquisição (item 16 do inc. II do art. 167). Registra-se o
contrato de locação para vigência (manutenção da locação mesmo que o imóvel seja
vendido para terceiros) e ao contrário averba-se o contrato de locação para
preferência (preferência do locatário sobre terceiros na venda).
Todos os atos de registro e averbação acima nominados são obrigatórios e devem
ser efetuados na Serventia da situação do imóvel. Prevê o art. 169 que, no entanto,
há três exceções.
Primeiro, as averbações devem ser efetuadas na matrícula ou à margem do registro a
que se referem, ainda que o imóvel tenha passado a pertencer a outra circunscrição,
observado o disposto art. 178, em seus §§1º, inc. I ("Cada imóvel terá matrícula própria,
que será aberta por ocasião do primeiro ato de registro ou de averbação caso a
transcrição possua todos os requisitos elencados para a abertura de matrícula"), e 18
("Quando se tratar de transcrição que não possua todos os requisitos para a abertura de
matrícula, admitir-se-á que se façam na circunscrição de origem, à margem do título, as
averbações necessárias"), prefixa o inc. I (primeira exceção). Porém, segundo o art. 170,
o desmembramento territorial posterior ao registro não exige sua repetição no novo
cartório.
Por isso, cuidado. A regra não exige que se meu imóvel passar a outra circunscrição eu
terei de fazer todos os atos nos dois Ofícios, mas apenas todas as averbações específicas
daquele específico registro.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 59/354
Assim: tenho um imóvel na 1ª circunscrição e registrei uma hipoteca (A). O imóvel
mudou de circunscrição, para a 2ª, e registrei nova hipoteca (B), agora na nova
circunscrição. Todas as averbações relativas à hipoteca A devem ser averbadas na 1ª
circunscrição. Todas as averbações relativas à hipoteca B devem ser averbadas na 2ª
circunscrição. Por quê? Porque o registro da hipoteca A está na 1ª e o registro da
hipoteca B está na 2ª. Ou seja, não há repetição de averbações nas duas circunscrições,
apenas averbações em circunscrições diferentes, a depender de onde foi feito o registro.
Igualmente, os registros relativos a imóveis situados em duas ou mais circunscrições,
serão abertas matrículas em ambas as serventias dos registros públicos (inc. II, segunda
exceção). Nesses casos, consoante regra do §3º, as matrículas devem ser abertas (i)
com remissões recíprocas; (ii) com a prática dos atos de registro e de averbação apenas
no registro de imóveis da circunscrição em que estiver situada a maior área, averbando-
se, sem conteúdo financeiro, a circunstância na outra serventia; e (iii) se a área for
idêntica em ambas as circunscrições, adota-se o mesmo procedimento e se procede aos
registros e às averbações na serventia de escolha do interessado, averbada a
circunstância na outra serventia, sem conteúdo financeiro.
O §1º determina que, no registro do loteamento e do desmembramento que abranger
imóvel localizado em mais de uma circunscrição imobiliária, deve ser observada a
mesma regr do inc. II, supramencionada. Assim, as matrículas das unidades imobiliárias
devem ser abertas na serventia do registro de imóveis da circunscrição em que estiver
situada a unidade imobiliária, procedendo-se às averbações remissivas.
E, por fim, uma terceira exceção (inc. IV) ocorre nos casos de abertara de matrícula na
serventia da situação do imóvel. Nesse caso, o oficial comunica o fato à serventia de
origem, para o encerramento, de ofício, da matrícula anterior.
Ademais, orienta o §2º do art. 169 que as informações relativas às alterações de
denominação de logradouro e de numeração predial sejam enviadas pelo Município à
serventia do registro de imóveis da circunscrição onde estiver situado o imóvel, por
meio do SERP. As informações de alteração de numeração predial podem ser arquivadas
para uso oportuno e a pedido do interessado.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 60/354
Quanto às linhas férreas, há um problema territorial. Como são bens imóveis sujeitos à
hipoteca, disciplinada especificamente pelos arts. 1.502 a 1.505 do CC/2002, seria necessário
registrar os atos relativos a elas em cada uma das Serventias Imobiliárias pelas quais passa a
estrada de ferro. Isso, numa via de longa distância, como inclusive é o mais comum, acarretaria
na necessidade de registrar todos os atos em muitos e muitos cartórios. A consequência
prática disso seria uma inviabilização dos registros sobre as linhas férreas.
Para evitar esses problemas, o art. 171 da LRP estabelece que os atos relativos a vias férreas
devem ser registrados na circunscrição imobiliária onde se situa o imóvel. A requerimento
do interessado, o oficial do cartório do registro de imóveis dessa circunscrição abrirá a
matrícula da área correspondente, com base em planta, memorial descritivo e certidão
atualizada da matrícula ou da transcrição do imóvel, caso exista, podendo a apuração do
remanescente ocorrer em momento posterior.
Da escrituração
Prevê o art. 172 que é no Registro de Imóveis que devem ser feitos o registro e a
averbação dos títulos ou atos constitutivos, declaratórios, translativos e extintos de
direitos reais sobre imóveis reconhecidos em lei, sejam esses atos entre vivos ou
mortis causa quer para sua constituição, transferência e extinção, quer para sua
validade em relação a terceiros, quer para a sua disponibilidade.
Para tanto, a escrituração dos atos será feita nos livros arquivados na Serventia. Que
livros são esses? Segundo o art. 173, incisos, os livros são cinco:
3. Legislação CivilEspecial
3. Legislação Civil Especial 61/354
Tal qual acontece como regra geral dos Registros Públicos (art. 3º, §2º), os livros
mencionados acima podem ser substituídos por fichas. No entanto, o Livro nº 1, de
Protocolo, não pode ser substituído por fichas! Isso porque o Protocolo tem enorme
importância no Registro Imobiliário. Só se pensar a questão de uma eventual
apresentação de plúrimas hipotecas; qual delas teria preferência? A apresentada e
prenotada no Procolo primeiro, pelo que o uso de fichas poderia, culposa ou
dolosamente, acabar embaralhando a questão da prioridade, daí a regra do art. 173.
O Livro nº. 1, de Protocolo, deve conter, para sua escrituração, segundo os incisos do
art. 175:
Por sua vez, o art. 176 estabelece que o Livro nº. 2, de Registro Geral, é destinado à
matrícula dos imóveis e ao registro ou averbação dos atos relacionados no art. 167,
exceto os atos atribuídos ao Livro nº 3, como mostrarei adiante. A escrituração do Livro
nº 2 obedecerá às seguintes normas:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 62/354
Nos casos de desmembramento, parcelamento ou remembramento de imóveis rurais, a
identificação prevista acima deve ser obtida a partir de memorial descritivo. Esse memorial
deve ser assinado por profissional habilitado e com a devida Anotação de Responsabilidade
Técnica – ART, além de conter as coordenadas dos vértices definidores dos limites dos imóveis
rurais, georreferenciadas ao Sistema Geodésico Brasileiro – SGB e com precisão posicional a
ser fixada pelo INCRA. Garante-se a isenção de custos financeiros aos proprietários de imóveis
rurais cuja somatória da área não exceda a quatro módulos fiscais.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 63/354
Essa identificação é obrigatória para efetivação de registro, em qualquer situação de
transferência de imóvel rural. No entanto, porque custosa, difícil e por depender de
uma série de medidas a serem implementadas, não se tornou obrigatória no prazo
comum de vigência legal trazida pela LINDB (45 dias), mas em prazos diferenciados a
serem fixados por ato do Poder Executivo.
Que ato é esse? O Decreto 4.449/2002, que regulamenta esse dispositivo, fixando
prazos que vão de 90 dias (a imóveis com mais de 5.000ha) a 22 anos (imóveis com
menos de 25ha). Ou seja, para determinados imóveis, só se efetiva a transferência com a
identificação georreferenciada pelo SGB do INCRA; enquanto para outros ainda pode ser
feita a identificação à “moda antiga”. Na legislação pertinente, você encontrará esses
prazos, contados a partir de 20/11/2002, conforme o próprio Decreto taxativamente
estabelece.
Para essa identificação (§§3º e 4º), é dispensada a anuência dos confrontantes, bastando
para tanto a declaração do requerente de que respeitou os limites e as confrontações. A
dispensa da anuência dos confrontantes na averbação do georreferenciamento de
imóvel rural, prevista no §13, foi incluída pela Lei 13.838/2019.
O Decreto 4.449/2002 estabelece as situações de gratuidade na identificação das
áreas rurais que exigem georreferenciamento pelo SGB do INCRA:
Art. 8º. Os custos financeiros de que tratam o § 3º do art. 176 e o § 3º do art. 225 da Lei nº
6.015, de 1973, compreendem os valores cobrados pelo Incra para a certificação dos trabalhos
técnicos.
Parágrafo único. A isenção prevista neste Decreto não dispensa que o interessado promova, a
suas expensas, a medição de sua propriedade com observância aos requisitos técnicos
estabelecidos no art. 9º.
Ainda sobre as terras rurais, genericamente, o §5º do art. 176 prevê que cabe ao INCRA
certificar que a poligonal objeto do memorial descritivo não se sobrepõe a nenhuma
outra constante de seu cadastro georreferenciado e que o memorial atende às
exigências técnicas, conforme ato normativo próprio.
Quanto às glebas públicas, a certificação do memorial descritivo será referente
apenas ao seu perímetro originário. Não se exige, na efetivação do registro do imóvel
destacado de glebas públicas, a retificação do memorial descritivo da área
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 64/354
remanescente, que somente ocorrerá a cada 3 anos, contados a partir do primeiro
destaque, englobando todos os destaques realizados no período.
Com a criação do direito real de laje no âmbito do CC/2002 pela Lei 13.465/2017, o §9º
do art. 176 estabelece que a instituição do direito real de laje ocorrerá por meio da
abertura de uma matrícula própria no registro de imóveis e por meio da averbação
desse fato na matrícula da construção-base e nas matrículas de lajes anteriores,
com remissão recíproca.
Igualmente, com a criação da multipropriedade ou time-sharing (condomínio edilício
no tempo) pela Lei 13.777/2018, o §10 passou a exigir que, além da matrícula do imóvel,
exista também uma matrícula para cada fração de tempo, na qual se registram e
averbam os atos referentes à respectiva fração de tempo.
Assim, cria-se uma matrícula própria, mas não uma inscrição imobiliária específica. A exceção
fica com o §11. Em função de legislação tributária municipal, pode cada fração de tempo ser
objeto de inscrição imobiliária individualizada.
Pode uma fração de tempo ser destinada à realização, no imóvel e em suas instalações, em
seus equipamentos e em seu mobiliário, de reparos indispensáveis ao exercício normal do
direito de multipropriedade, permite o art. 1.358-N do CC/2002. Se essa fração de tempo para
reparos for atribuída aos multiproprietários, proporcionalmente às respectivas frações (inc. II),
deve constar da matrícula referente à fração de tempo principal de cada multiproprietário, não
sendo ela objeto de matrícula específica (§12 do art. 176 da LRP).
É facultada a abertura da matrícula na circunscrição onde estiver situado o imóvel, a
requerimento do interessado ou de ofício, por conveniência do serviço, permite o §14.
Mesmo que que ausentes alguns elementos de especialidade objetiva ou subjetiva,
desde que haja segurança quanto à localização e à identificação do imóvel, a critério do
oficial, e que constem os dados do registro anterior, a matrícula pode nesses termos,
prevê o §15. Porém, se não forem suficientes os elementos de especialidade objetiva ou
subjetiva, será exigida a retificação, no caso de requerimento do interessado na forma
prevista no § 14, perante a circunscrição de situação do imóvel, rege o §16.
Veja-se que os elementos de especialidade objetiva ou subjetiva que não alterarem elementos
essenciais do ato ou negócio jurídico praticado, quando não constantes do título ou do acervo
registral, podem ser complementados por outros documentos ou, quando se tratar de
manifestação de vontade, por declarações dos proprietários ou dos interessados, sob sua
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 65/354
responsabilidade (§17). Finaliza o §18 com a previsão de que quando se tratar de transcrição que
não possua todos os requisitos para a abertura de matrícula, admite-se que se façam na
circunscrição de origem, à margem do título, as averbações necessárias.
No caso de aquisição originária, como numa usucapião, não há matrícula. O mesmo ocorre
quando há aquisição originária relativa a bem já registrado no todo ou em parte, a exemplo de
usucapião de parte de uma gleba de terras maior. Nesse caso, prevê o art. 176-A. o registro de
aquisição originária enseja a abertura de matrícula relativa ao imóvel adquirido, (i) se não
houver, se (ii) atingir parte de imóvel objeto de registro anterior, ou (iii) se atingir, total ou
parcialmente, mais de um imóvel objeto de registro anterior.
Essa matrícula deve ser aberta com base em planta e memorial descritivo do imóvel utilizados
na instrução do procedimento administrativo ou judicial que ensejou a aquisição (§1º). Já as
matrículas atingidas devem, conforme o caso, ser encerradas ou receber averbação dos
respectivos desfalques. Nessa situação, dispensa-se a retificação do memorial descritivo daárea remanescente (§2º).
Fixa o §4º que se a área adquirida em caráter originário for maior do que a constante do
registro existente, a informação sobre a diferença apurada deve ser averbada na matrícula
aberta. Tal providência é necessária para, eventualmente, se apurar algum questionamento,
fático ou jurídico.
De toda forma, eventuais divergências entre a descrição do imóvel constante do registro e
aquela apresentada pelo requerente não obstam o registro (§4º-A). Isso porque a aquisição
originária, pela própria natureza jurídica, não pode ser obstada por elementos constantes de
registro derivado.
Exemplifiquei com a usucapião a aplicação da regra. Não obstante, não só a ela se aplicam tais
disposições. O §5º traz rol exemplificativo de aquisições originárias sujeitas ao registro:
Voltando aos livros, segundo o art. 177, o Livro nº 3, do Registro Auxiliar, se destina ao registro
dos atos que, sendo atribuídos ao Registro de Imóveis por disposição legal, não digam respeito
diretamente a imóvel matriculado. Mas, e o que “não diz respeito diretamente ao imóvel
matriculado”? O art. 178 estabelece textualmente o que se deve registrar no Livro nº 3:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 66/354
Veja que, em regra, são os itens que eu realcei lá no começo da aula em amarelo, porque
não têm eles a ver com o registro imobiliário, numa primeira olhada (só faltou aí o dote, que
acaba se enquadrando nas convenções antenupciais, e a citação). Fica aí a dica, então,
para estudar e lembrar dos atos estranhos registrados; tão estranhos que registrados em
livro específico, o Livro nº 3.
Por sua vez, o Livro nº 4 é o “Indicador Real”, ou seja, o repositório de todos os imóveis que
figurarem nos demais livros, devendo conter sua identificação, referência aos números de
ordem dos outros livros e anotações necessárias. O Indicador Real é uma espécie de “mapa”
ou “inventário” do registro imobiliário.
Esse livro, como dito anteriormente, pode usar o sistema de fichas. Se não for utilizado o
sistema de fichas, prevê o §1º do art. 179, o Livro nº 4 deve conter também o número de
ordem, que seguirá ao infinito, nos livros da mesma espécie. Se for, os oficiais devem ter, para
auxiliar a consulta, um livro-índice ou fichas pelas ruas, quando se tratar de imóveis urbanos, e
pelos nomes e situações, quando rurais.
Já o Livro nº. 5, que é o “Indicador Pessoal”, na previsão do art. 180, deve ser dividido
alfabeticamente, funcionando como repositório dos nomes de todas as pessoas que,
individual ou coletivamente, ativa ou passivamente, direta ou indiretamente, figurarem nos
demais livros, fazendo-se referência aos respectivos números de ordem.
I. Emissão de debêntures, sem prejuízo do registro eventual e definitivo, na matrícula do
imóvel, da hipoteca, anticrese ou penhor que abonarem especialmente tais emissões,
firmando-se pela ordem do registro a prioridade entre as séries de obrigações emitidas pela
sociedade;
II. Cédulas de crédito industrial, sem prejuízo do registro da hipoteca cedular;
III. Convenções de condomínio edilício, condomínio geral voluntário e condomínio em
multipropriedade;
IV. Penhor de máquinas e de aparelhos utilizados na indústria, instalados e em
funcionamento, com os respectivos pertences ou sem eles;
V. Convenções antenupciais;
VI. Contratos de penhor rural;
VII. Os títulos que, a requerimento do interessado, forem registrados no seu inteiro teor, sem
prejuízo do ato, praticado no Livro nº 2.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 67/354
Tal qual ocorria com o Livro nº 4, se não for utilizado o sistema de fichas, o Livro nº 5 deve
conter também o número de ordem de cada letra do alfabeto, que seguirá indefinidamente,
nos livros da mesma espécie. Os oficiais ainda podem adotar, para auxiliar as buscas, um
livro-índice ou fichas em ordem alfabética.
Segundo o art. 181, caput e parágrafo único, podem ser abertos e escriturados,
concomitantemente, até 10 livros de Registro, no Registro de Imóveis. A exceção fica por
conta do Livro nº 1, que não permite abertura e escrituração de mais de um livro,
concomitantemente, nunca!
No caso do Livro nº 2, do Registro Geral, a escrituração deve seguir o algarismo final da
matrícula, ou seja, as matrículas de número final 1 feitas no Livro 2-1, as de final dois no Livro 2-
2 e as de final três no Livro 2-3, e assim, sucessivamente.
Do processo de registro
I. Noções Gerais
Preveem os arts. 182 a 184 que deve ser colocado o número de ordem nos títulos
apresentados ao protocolo do Registro Imobiliário, que é encerrado diariamente.
Esse número será em razão da rigorosa sequência de sua apresentação. Deve,
portanto, reproduzir-se, em cada título, o número de ordem respectivo e a data de sua
prenotação. Assim, o número de ordem 248 de 17/02/2009 precede o número de
ordem 250 de 18/02/2009, mas este é precedido pelo número de ordem 249, de
18/02/2009.
Após o protocolo do título, procede-se ao registro, se estiver em ordem, ou se emite a
nota devolutiva, sen não. Em que prazo deve ser feito o registro ou devolução? Pela
previsão explícita do art. 188, dentro do prazo de 10 dias, contado da data do
protocolo, salvo nos casos previstos em contrário.
Consoante regra do §1º do art. 188, se não houver exigência ou falta de pagamento de custas e
emolumentos, devem ser registrados, no prazo de 5 dias:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 68/354
I - as escrituras de compra e venda sem cláusulas especiais, os requerimentos de averbação de
construção e de cancelamento de garantias;
II - os documentos eletrônicos apresentados por meio do SERP; e
III - os títulos que reingressarem na vigência da prenotação com o cumprimento integral das
exigências formuladas anteriormente.
E se oficial descumprir esses prazos? O §2º determinar a aplicação das penas previstas no art.
32 da Lei 8.935/1994 (Lei dos notários e registradores), nos termos estabelecidos pela
Corregedoria do CNJ:
Art. 32. Os notários e os oficiais de registro estão sujeitos, pelas infrações que praticarem,
assegurado amplo direito de defesa, às seguintes penas:
I - repreensão;
II - multa;
III - suspensão por noventa dias, prorrogável por mais trinta;
IV - perda da delegação.
No entanto, não podem ser registrados, no mesmo dia, títulos pelos quais se constituam direitos
reais contraditórios sobre o mesmo imóvel, como prevê o art. 190. Se forem apresentados
títulos nessas condições, prevalecem, para efeito de prioridade de registro, os títulos
prenotados no Protocolo sob número de ordem mais baixo, protelando-se o registro dos
apresentados posteriormente, pelo prazo de, pelo menos, um dia útil.
Assim, se prenotados três títulos contraditórios numa mesma sexta-feira, registra-se o
apresentado primeiro na própria sexta-feira, o segundo na segunda-feira subsequente e o
terceiro apenas na terça-feira.
Segundo o art. 192, porém, isso não se aplica às escrituras públicas, da mesma data e
apresentadas no mesmo dia, que determinem, taxativamente, a hora da sua lavratura,
prevalecendo, para efeito de prioridade, a que foi lavrada em primeiro lugar.
Quem faz a escrituração do protocolo? Segundo o art. 185 essa tarefa incumbe tanto ao oficial
titular como ao seu substituto legal. Pode ainda o escrevente auxiliar expressamente designado
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 69/354
pelo oficial titular ou pelo seu substituto legal fazê-lo, mediante autorização do juiz
competente, ainda que os primeiros não estejam nem afastados nem impedidos.
E por que razão esse número de ordem é tão relevante? A resposta está cristalina no art.
186, que estabelece que o número de ordem determina a prioridade do título, e esta a
preferência dos direitos reais, ainda que apresentados pela mesma pessoa mais de
um título simultaneamente.
Se o título a ser registrado é de permuta, e pertencendo os imóveis à mesma circunscrição,
devem ser feitosos registros nas matrículas correspondentes, sob um único número de ordem
no Protocolo, segundo o art. 187. Se for apresentado título de uma segunda hipoteca, com
referência expressa à existência de outra anterior, o oficial, depois de prenotá-lo, aguardará
durante 30 dias que os interessados na primeira promovam a inscrição. Esgotado esse prazo,
que correrá da data da prenotação, sem que seja apresentado o título anterior, o segundo será
inscrito e obterá preferência sobre aquele, prevê o art. 189.
Caso o título seja apresentado apenas em via física, deve ser digitalizado, devolvido aos
apresentantes e mantidos exclusivamente em arquivo digital, nos termos estabelecidos pela
Corregedoria do CNJ (art. 194).
O art. 195 deixa claro que se o imóvel não estiver matriculado ou registrado em nome
do outorgante, o oficial exigirá a prévia matrícula e o registro do título anterior,
qualquer que seja a sua natureza, para manter a continuidade do registro. Ou seja, se
D aparece na Serventia com um contrato de compra e venda celebrado com C, mas no
registro consta o nome de B, necessário é, primeiro, registrar o título de transferência
(compra e venda, doação, partilha etc.) ocorrido entre B e C, para somente depois
registrar-se o título de transferência de C para D.
Estando tudo certo com o título, o Titular do Serviço fará a matrícula. Essa matrícula, segundo o
art. 196, deve ser feita à vista dos elementos constantes do título apresentado e do registro
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 70/354
anterior que constar do próprio cartório. Isso garante a continuidade na cadeia dominial e a
compreensão exata de como ocorreu a sucessão de eventos relativamente ao imóvel.
Para assegurar isso, inclusive, o art. 197 exige que quando o título anterior estiver registrado em
outro cartório, o novo título seja apresentado juntamente com certidão atualizada,
comprobatória do registro anterior, e da existência ou inexistência de ônus.
Suponha que você compareça ao Registro de Imóveis no final do dia. O registro pretendido,
porém, é complexo. Pode o oficial suspender sua realização e continuar no dia seguinte? Para
responder à questão, basta se lembrar da questão da prioridade. E se no dia seguinte outrem
chega antes de você ao cartório, com título que contradiz o seu? Seu registro será feito
posteriormente, a despeito de você ter chegado antes, no dia anterior...
Por isso, estabelece o art. 208 que o registro começado dentro das horas fixadas não
será interrompido, salvo motivo de força maior declarado, prorrogando-se
expediente até ser concluído. Nesse caso, durante a prorrogação, nenhuma nova
apresentação será admitida, lavrando-se o termo de encerramento no Protocolo. Isso
tudo de modo a evitar conflitos registrais.
Realizado o registro, nas vias dos títulos restituídas aos apresentantes, serão declarados
resumidamente, por carimbo, os atos praticados, pela regra expressa do art. 211.
Pois bem, aqui finaliza-se o registro, se tudo estiver certo.
Por fim, dois pontos. O art. 195-A, incluído pela Lei 12.424/2011 e alterado pela Lei 13.465/2017,
estabelece a abertura de matrícula de parte ou da totalidade de imóveis públicos oriundos de
parcelamento do solo urbano implantado, ainda que não inscrito ou registrado. Trata-se de
situação de regularização fundiária urbana. O art. 195-B, também incluído pela Lei 12.424/2011,
foi profundamente alterado pela Lei 13.465/2017 e pela Lei 14.620/2023, que estabeleceu
critérios de legitimação fundiária como forma de registrar a propriedade. Nesse caso, o
processo tradicional de regularização título a título será substituído por um reconhecimento de
aquisição originária de propriedade, a partir de cadastro aprovado pelo poder público. Para isso,
os municípios precisam reconhecer essas ocupações como consolidadas e irreversíveis.
Imóveis destinados a atividades profissionais ou comerciais também são beneficiados.
II. Do procedimento de dúvida
Já tratei do procedimento de dúvida anteriormente. Por isso, não vou repetir o que já disse,
apenas fazendo remissão àquela aula. De toda sorte, para evitar que você tenha de retornar a
ela, transcreverei os artigos da LRP sobre o assunto, que não são muito numerosos, mas muito
relevantes.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 71/354
Se a leitura dos dispositivos legais bastar para refrescar sua memória, ótimo! Se tiver alguma
dúvida, o procedimento (com o perdão do trocadilho) é retornar àquela aula, OK? Acompanhe,
se for o caso, os dispositivos:
Art. 198. Se houver exigência a ser satisfeita, ela será indicada pelo oficial por escrito, dentro
do prazo previsto no art. 188 desta Lei e de uma só vez, articuladamente, de forma clara e
objetiva, com data, identificação e assinatura do oficial ou preposto responsável, para que:
V - o interessado possa satisfazê-la; ou
VI - caso não se conforme ou não seja possível cumprir a exigência, o interessado requeira que
o título e a declaração de dúvida sejam remetidos ao juízo competente para dirimi-la.
§ 1º O procedimento da dúvida observará o seguinte:
I - no Protocolo, o oficial anotará, à margem da prenotação, a ocorrência da dúvida;
II - após certificar a prenotação e a suscitação da dúvida no título, o oficial rubricará todas as
suas folhas;
III - em seguida, o oficial dará ciência dos termos da dúvida ao apresentante, fornecendo-lhe
cópia da suscitação e notificando-o para impugná-la perante o juízo competente, no prazo de
15 (quinze) dias; e
IV - certificado o cumprimento do disposto no inciso III deste parágrafo, serão remetidos
eletronicamente ao juízo competente as razões da dúvida e o título.
§ 2º A inobservância do disposto neste artigo ensejará a aplicação das penas previstas no art.
32 da Lei nº 8.935, de 18 de novembro de 1994, nos termos estabelecidos pela Corregedoria
Nacional de Justiça do Conselho Nacional de Justiça.
Art. 199 - Se o interessado não impugnar a dúvida no prazo referido no item III do artigo
anterior, será ela, ainda assim, julgada por sentença.
Art. 200 - Impugnada a dúvida com os documentos que o interessado apresentar, será ouvido o
Ministério Público, no prazo de dez dias.
Art. 201 - Se não forem requeridas diligências, o juiz proferirá decisão no prazo de quinze dias,
com base nos elementos constantes dos autos.
Art. 202 - Da sentença, poderão interpor apelação, com os efeitos devolutivo e suspensivo, o
interessado, o Ministério Público e o terceiro prejudicado.
Art. 203 - Transitada em julgado a decisão da dúvida, proceder-se-á do seguinte modo:
I - se for julgada procedente, os documentos serão restituídos à parte, independentemente de
translado, dando-se ciência da decisão ao oficial, para que a consigne no Protocolo e cancele a
prenotação;
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 72/354
II - se for julgada improcedente, o interessado apresentará, de novo, os seus documentos, com
o respectivo mandado, ou certidão da sentença, que ficarão arquivados, para que, desde logo,
se proceda ao registro, declarando o oficial o fato na coluna de anotações do Protocolo.
Apesar de o art. 199 fazer remissão ao inc. III do caput do art. 198, ele foi revogado pela Lei
14.382/2022, a Lei do SERP. A norma foi de maneira praticamente idêntica reproduzida no inc.
III do §1º do mesmo art. 198. Ou seja, houve apenas uma mudança topológica, sem que se
perca o sentido do art. 199. Em que pese a readequação mais técnica do art. 198 ela foi, no
mínimo, desnecessária e feita de maneira açodada, como se vê.
Vale lembrar que a decisão que resolve a dúvida tem natureza administrativa e não impede
o uso do processo contencioso competente, em que pese resulte de procedimento no qual
há contraditório e intervenção do Poder Judiciário, por intermédio de sentença de juiz
competente para tanto. É o que, inclusive, Walter Ceneviva deixa explícito em sua obra sobre
Direito Notarial e Registral:
Dúvida define o procedimentoadministrativo, pelo qual o serventuário submete à decisão
judicial, a pedido do interessado, a exigência apresentada por aquele e não satisfeita por este.
Atente, também, porque no procedimento de dúvida somente serão devidas custas, a ser pagas
pelo interessado, quando a dúvida for julgada procedente, pela previsão do art. 207. Ou seja, se
o titular da Serventia tiver razão, as custas são devidas; se não, nada se deve.
Segundo o art. 205, cessam automaticamente os efeitos da prenotação se, decorridos
20 dias do seu lançamento no Protocolo, o título não tiver sido registrado por
omissão do interessado em atender às exigências legais. Atente, porém, ao parágrafo
único. Nos casos de procedimentos de regularização fundiária de interesse social, os
efeitos da prenotação cessarão decorridos 40 dias de seu lançamento no protocolo.
Impossibilitado o registro, depois de feita a prenotação, ou caso o apresentante desista do
registro, a importância relativa às despesas pelos emolumentos previstos Regimentos de Custas
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 73/354
do Estado respectivo (ou do DF, se for o caso) deve ser restituída, deduzida a quantia
correspondente às buscas e à prenotação.
O art. 206-A fixa regras de pagamento. Antecipo que essas regras se aplicam às unidades
federativas que adotem forma de pagamento por meio de documento de arrecadação,
estabelece o §5º. De volta ao caput, quando o título for apresentado para prenotação, o
usuário poderá optar:
I. Por depósito do pagamento antecipado dos emolumentos e das custas; ou
II. Por recolhimento do valor da prenotação e depósito posterior do pagamento do valor
restante, no prazo de 5 dias, contado da data da análise pelo oficial que concluir pela aptidão
para registro
Os efeitos da prenotação serão mantidos durante o prazo do inc. II. Nesse caso, os
procedimentos registrais devem ser finalizados com a realização dos atos solicitados e a
expedição da respectiva certidão, determinam os §§1º e 2º.
Se, porém, não for feito o pagamento nesse prazo, autoriza-se a devolução do título apto
para registro. Mais importante ainda, perdem-se os efeitos da prenotação, fixam os §§1º e
3º, o que impacta, de maneira muitíssimo importante, por exemplo, na prioriedade registral
imobiliária). Além disso, sou reembolsado pelo valor da prenotação, pago antecipadamente?
Segundo o §6º, não, pois a reapresentação de título que tenha sido devolvido por falta de
pagamento dos emolumentos depende do pagamento integral do depósito prévio; ou seja, o
valor da prenotação serve como uma espécie de arras cartoriais.
Os títulos apresentados por instituições financeiras e demais instituições autorizadas a
funcionar pelo BACEN ou por entidades autorizadas pelo BACEN ou pela CVM a exercer as
atividades de depósito centralizado ou de registro de ativos financeiros e de valores mobiliários,
nos termos dos arts. 22 e 28 da Lei 12.810/2013, respectivamente, podem efetuar o pagamento
dos atos pertinentes à vista de fatura, permite o §4º.
Lembra-se que o art. 188 fixava prazo de 10 dias para para que o oficial procedesse ao registro
ou emitisse nota devolutiva? Pois bem, o §7º do art. 206-A afasta qualquer dúvida a respeito da
conjugação das normas, já que o prazo previsto no caput do art. 188 (pagamento da prenotação
antecipada e prazo de 5 dias para pagamento diferido do valor restante) não é computado
dentro do prazo do art. 188. Ou seja, se optar por pagar parceladamente, o usuário deverá
aguardar prazo maior.
III. Da retificação do registro
Se o registro ou a averbação forem omissas, imprecisas ou não exprimirem a verdade,
deve-se fazer a retificação, segundo estabelece o art. 212. Veja que, segundo o art. 213, §8º,
que mesmo as áreas públicas podem ser demarcadas ou ter seus registros retificados pelo
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 74/354
procedimento de retificação, desde que constem do registro ou sejam logradouros
devidamente averbados.
A retificação será feita pelo Oficial do Registro de Imóveis competente, a requerimento do
interessado, por meio de procedimento administrativo. Esse procedimento, talqualmente o
procedimento de dúvida, é de natureza administrativa.
Nada impede, porém, que a parte prejudicada recorra à via judicial, conforme deixa claro o
parágrafo único do art. 213. Não poderia ser diferente, evidentemente, em vista da previsão do
art. 5º, inc. XXXV, da CF/1988.
Veja que, pela via judicial, não há natureza administrativa no feito. Nesse caso, a despeito de o
Serviço Registral se subordinar, juridicamente, ao Tribunal de Justiça do Estado no qual se
situa, a retificação de registro de interesse manifestado pela União é de competência da
Justiça Federal, dada a natureza jurisdicional da ação, e não administrativa, entende o STJ (CC
11.610/RJ).
Igualmente, caso a União impugne ação de retificação de registro imobiliário, dado seu
interesse na causa, o procedimento deve ser deslocado à Justiça Federal, conforme a
jurisprudência do STJ (CC 147.474/SP). Novamente, complemento, já que a impugnação de
ratificação registral também tem natureza judicial.
Veja, portanto, que reconhecer se a decisão tem natureza administrativa ou judicial é
fundamental para haver ou não deslocamento da competência da Justiça Estadual para a
Justiça Federal nos casos em que litiga a União a respeito de registro imobiliário.
Passo agora à análise do procedimento de retificação do registro ou da averbação, previsto no
art. 213. A retificação pode ser feita de ofício ou a requerimento da parte interessada, a
depender das circunstâncias.
Pode ser feita a retificação de ofício ou a requerimento do interessado nos casos de
(inc. I):
a) omissão ou erro cometido na transposição de qualquer elemento do título;
b) indicação ou atualização de confrontação;
c) alteração de denominação de logradouro público, comprovada por documento
oficial;
d) reprodução de descrição de linha divisória de imóvel confrontante que já tenha sido
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 75/354
Por outro lado, pode ser feita a retificação, apenas a requerimento do interessado, no
caso de (inc. II):
a) inserção ou alteração de medida perimetral de que resulte, ou não, alteração de área,
instruído com planta e memorial descritivo assinado por profissional legalmente
habilitado, com prova de anotação de responsabilidade técnica no competente Conselho
Regional de Engenharia e Arquitetura – CREA, bem assim pelos confrontantes.
Cuidado, porque conforme a previsão do art. 213, §16, nessa última retificação
mencionada são considerados confrontantes somente os confinantes de divisas que
forem alcançadas pela inserção ou alteração de medidas perimetrais.
Uma vez atendidos os requisitos de minudenciação do imóvel (previstos no art. 225), o
oficial averbará a retificação, conforme reza o art. 213, §1º.
Um desses requisitos é a nomeação dos confrontantes do imóvel. Se a planta não
contiver a assinatura de algum confrontante, este será notificado pelo Oficial, a
requerimento do interessado, para se manifestar em 15 dias. Promove-se a notificação
pessoalmente, pelo correio (com AR), por solicitação do Oficial de Registro de Imóveis,
pelo Oficial de Registro de Títulos e Documentos da comarca da situação do imóvel ou
do domicílio de quem deva recebê-la.
Prevê o §3º que não sendo encontrado o confrontante ou estando em lugar incerto e
não sabido, tal fato será certificado pelo oficial encarregado da diligência, promovendo-
se a notificação do confrontante mediante edital, com prazo de 15 dias, publicado por
duas vezes em jornal local de grande circulação.
Pois bem. Pode o confrontante agir de três maneiras: concordar, discordar ou
silenciar a respeito da notificação de retificação. Se concordar, retifica-se; se silenciar,
presume-se, nos termos do §4º, sua anuência; se impugnar, fundamentadamente, deve o
oficial intimar o requerente e o profissionalque houver assinado a planta e o memorial a
fim de que, no exíguo prazo de 5 dias, se manifestem sobre a impugnação.
Com a impugnação, pode o interessado agir de duas maneiras: concordar com o
impugnante, mediante transação, ou discordar, rebatendo a impugnação. Nesse caso,
prevê o §6º, o oficial remeterá o processo ao juiz competente, que decidirá de plano
ou após instrução sumária, salvo se a controvérsia versar sobre o direito de
propriedade de alguma das partes, hipótese em que remeterá o interessado para as
vias ordinárias.
Conforme o STJ (AgInt no AREsp 1.698.166/SP), na ação de retificação de registro
público imobiliário, a apresentação de impugnação por interessado legítimo resulta em
objeto de retificação;
e) inserção ou modificação dos dados de qualificação pessoal das partes, comprovada
por documentos oficiais, ou mediante despacho judicial quando houver necessidade
de produção de outras provas.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 76/354
reconhecimento de existência de pretensão resistida. Por isso, torna-se necessário a
remessa das partes à jurisdição contenciosa.
Necessário é fazer sempre a retificação? Não, pois caso dois ou mais confrontantes,
por meio de escritura pública, alterem ou estabeleçam as divisas entre si,
desnecessário é o procedimento. Se houver transferência de área, deve haver o
recolhimento do ITBI, desde que preservadas, se rural o imóvel, a fração mínima de
parcelamento e, quando urbano, a legislação urbanística.
Em outras palavras, nada impede que seja feita uma transação entre os confrontantes,
desde que isso respeite a legislação sobre o parcelamento do solo e desde que pagos os
tributos incidentes. Do contrário, a retificação realizada por meio de transação direta
entre as partes poderia violar o parcelamento do solo rural ou urbano e/ou a legislação
tributária.
Atente porque o §10 estabelece que se entendem como confrontantes os proprietários
e titulares de outros direitos reais e aquisitivos sobre os imóveis contíguos. Em se
tratando de condomínio geral, será ele representado por qualquer dos condôminos; no
caso de condomínio edilício, será ele representado, conforme o caso, pelo síndico (se já
edificado) ou pela Comissão de Representantes (se ainda em regime de incorporação,
nos termos da Lei 4.591/1964), fixam os incs. I e II. Ao contrário, nos termos do inc. III,
não se incluem como confrontantes os detentores de direitos reais de garantia,
hipotecária ou pignoratícia, ou os titulares de crédito vincendo, cuja propriedade
imobiliária esteja vinculada, temporariamente, à operação de crédito financeiro.
Se, realizadas buscas, não for possível identificar os titulares do domínio dos imóveis
confrontantes do imóvel retificando, deve ser colhida a anuência de eventual ocupante.
Os interessados não identificados devem ser notificados por meio de edital eletrônico,
publicado uma vez na internet, para se manifestarem no prazo de 15 dias úteis, com as
implicações previstas no §4º do art. 213, determina o §17.
Na sequência, no §11, estabelecem-se as situações que independem de retificação:
I. A regularização fundiária de interesse social realizada em Zonas Especiais de
Interesse Social – ZEIS, promovida por Município (ou DF), quando os lotes já estiverem
cadastrados individualmente ou com lançamento fiscal há mais de 10 anos;
II. A adequação da descrição de imóvel rural ao georreferenciamento do INCRA (arts.
176, §§ 3º e 4º e 225, §3º);
III. A adequação da descrição de imóvel urbano decorrente de transformação de
coordenadas geodésicas entre os sistemas de georreferenciamento oficiais;
IV. A averbação do auto de demarcação urbanística e o registro do parcelamento
decorrente de projeto de regularização fundiária de interesse social do PMCMV (Lei
11.977/2009);
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 77/354
Em qualquer caso, pode o próprio Oficial realizar diligências no imóvel para a
constatação de sua situação em face dos confrontantes e localização na quadra.
Segundo estabelece o §13, não havendo dúvida quanto à identificação do imóvel, o
título anterior à retificação poderá ser levado a registro se requerido pelo
adquirente, promovendo-se o registro em conformidade com a nova descrição, bem
como se prorrogará a prenotação do título anterior à retificação, durante a análise da
retificação de registro.
Ao contrário, verificado a qualquer tempo não serem verdadeiros os fatos constantes do
memorial descritivo, respondem os requerentes e o profissional que o elaborou pelos
prejuízos causados, independentemente das sanções disciplinares e penais.
Em regra, a retificação dos registros depende do pagamento dos respectivos
emolumentos. Porém, na dicção do §15, não são devidos custas ou emolumentos
notariais ou de registro decorrentes de regularização fundiária de interesse social a
cargo da Administração Pública, por razões bastante óbvias.
Não deixando margem para dúvidas, o art. 216 claramente estabelece que o registro
pode também ser retificado por sentença em processo contencioso.
IV. Da declaração de nulidade (nulificação) do registro
Em que pese o termo anulação ser usado, em regra, para ambas as invalidades que
viciam o negócio jurídico, tanto a nulidade, quanto a anulabilidade, vou usar o termo
nulificar para evitar que você pense, em algum momento, de que se trata de
anulabilidade. Em outras palavras, refiro-me à nulificação (declaração de nulidade), nos
casos de nulidade, e de anulação, nos casos de anulabilidade.
Não vou me adentar nos detalhes técnicos, mas apesar das semelhanças, a própria
natureza das ações é diversa. A anulação de ato jurídico é ação (des)constitutiva, ao
passo que a nulificação é ação declaratória. Consequentemente, a anulação caduca,
enquanto a nulidade é incaducável, nas palavras de Agnelo Amorim Filho.
Conforme o art. 214, as nulidades de pleno direito do registro, uma vez provadas,
invalidam-no, independentemente de ação direta. Em outras palavras, desnecessário
manejar ação judicial para tanto, podendo o próprio juiz competente, em procedimento
administrativo, invalidar (nulificar ou declarar a nulidade) o registro. Exige-se que a prova
seja robusta, escorada em documento escrito e, preferencialmente, dotado de fé-
pública, de modo a não haver dúvida quanto à nulidade do ato registral.
Em que pese a discussão, parece que a nulidade apontada pelo dispositivo não é
apenas a nulidade ínsita ao próprio registro, mas também a do título causal que lhe
V. O registro do parcelamento de glebas para fins urbanos anterior a 19/12/1979, que
esteja implantado e integrado à cidade, no âmbito do PMCMV (art. 71 da Lei
11.977/2009).
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 78/354
dá sustentáculo. Vale lembrar que isso não impede, de maneira alguma, o acesso à via
judicial, em homenagem ao art. 5º, inc. XXXV da CF/1988, mais uma vez, dado que o
procedimento, aqui, é de natureza administrativa, talqualmente ocorre no
procedimento de dúvida e no procedimento de retificação.
De qualquer forma, não se pode simplesmente invalidar o ato sem permitir que os
interessados se manifestem, de maneira tão sumária quanto arbitrária. A nulidade
somente será decretada depois de ouvidos os atingidos, prevê o §1º do art. 214. Ouvidos
os interessados, o juiz decide, mas cabe Apelação ou Agravo, conforme o caso.
Se o juiz entender que a superveniência de novos registros poderá causar danos de
difícil reparação poderá determinar de ofício, a qualquer momento, ainda que sem
oitiva das partes, o bloqueio da matrícula do imóvel. A previsão do §3º serve para que
os interessados prossigam rumo à solução do problema o quanto antes, o mais
rapidamente possível, dada a relevância da questão.
Nesse caso, se bloqueada a matrícula, o oficial não poderá mais nela praticar qualquer ato,
salvo com autorização judicial. Permite-se, todavia, aos interessados a prenotação de seus
títulos, que ficarãoda Política Urbana
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 8/354
A opção do legislador, como falei no item anterior, foi deixar à União, basicamente, a legislação
geral sobre as normas urbanísticas, bem como apoiar os demais entes federados na execução
das políticas urbanas.
Essa opção se explica por duas razões: a estrutura política, derivada da descentralização
das competências públicas, por conta da organização do Estado brasileiro em uma República
composta por três camadas distintas de entes federados; e a dimensão continental do país.
Contrariamente a Estados Unitários, como a França, o Brasil adota o princípio federativo. Ainda
que alvo de intensa crítica pela teoria constitucional, dados os excessivos poderes da União,
tanto em termos legislativos quanto em termos orçamentários, a organização do Estado
brasileiro leva em conta a participação conjunta dos diferentes entes federativos.
Além disso, ainda que fôssemos, de fato ou de direito, um Estado Unitário, seria impossível à
União executar as políticas públicas de maneira vertical nos mais diferentes rincões brasileiros.
As dimensões do país impedem a tomada de decisões centralizadas na execução das políticas
urbanas.
Cabe ao Município (que engloba o DF, nesse caso), o mais local dos entes federados, executar
as políticas urbanas no detalhe, na minúcia. Conhecem os Municípios suas próprias
possiblidades, necessidades, dificuldades e virtudes.
Não será um burocrata da União, num dos prédios dos Ministérios ao longo do Eixo
Monumental brasiliense, a saber quais são essas necessidades e possibilidades em cada
realidade social dos milhares de Municípios Brasil afora; isso é impossível. Mas são as próprias
pessoas envolvidas nessas decisões que terão condições de fazê-lo. Daí o acerto dessa escolha
política.
No entanto, de modo a compatibilizar o desenvolvimento nacional, o ECid traz uma série
de instrumentos padronizados para a execução das políticas urbanas. Vale mencionar
que o art. 4º não traz um rol taxativo, ou seja, nada impede que os Municípios criem
outros instrumentos de política urbana que creiam ser mais adequados à suas
próprias realidades sociais. Obviamente, deve haver uma compatibilização desses
instrumentos com as demais normas jurídicas, tanto no plano legislativo local, quanto
estadual e federal. Ou seja, um Município não pode simplesmente criar um instrumento
que expropria a propriedade privada sem indenização e um devido processo legal, por
exemplo.
Para os fins do ECid, serão utilizados, entre outros, sete instrumentos específicos:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 9/354
1. Planos nacionais, regionais e estaduais de ordenação do território e de desenvolvimento
econômico e social
2. Planejamento das regiões metropolitanas, aglomerações urbanas e microrregiões
3. Planejamento municipal
4. Institutos tributários e financeiros
5. Institutos jurídicos e políticos
6. Estudo prévio de impacto ambiental – EIA
7. Estudo prévio de impacto de vizinhança – EIV
Para o planejamento municipal, são vários os instrumentos trazidos pelo ECid:
Já os institutos tributários e financeiros são três:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 10/354
Política Agrícola e Reforma Agrária
[1]
Lei da política agrícola
I. Princípios e objetivos
O art. 1° estabelece que a LPA fixa os fundamentos, define os objetivos e as
competências institucionais, prevê os recursos e estabelece as ações e instrumentos
da política agrícola, relativamente às atividades agropecuárias, agroindustriais e de
planejamento das atividades pesqueira e florestal. Entende-se por atividade agrícola a
produção, o processamento e a comercialização dos produtos, subprodutos e derivados,
serviços e insumos agrícolas, pecuários, pesqueiros e florestais, para efeitos da LPA.
Quais são os pressupostos da política agrícola? O art. 2º fixa-os detalhadamente:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 11/354
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Por outro lado, estabelece o art. 3°, ainda mais detalhadamente, os objetivos da política
agrícola:
3. Legislação Civil Especial
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Já o art. 4° estabelece que as ações e instrumentos de política agrícola referem-se a:
3. Legislação Civil Especial
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Marco Civil da Internet
Os instrumentos de política agrícola devem se orientar pelos planos plurianuais. De
modo a instrumentalizar a política agrícola, o art. 5° da LPA instituiu o Conselho
Nacional de Política Agrícola – CNPA, vinculado ao Ministério da Agricultura e
Reforma Agrária – MARA (atualmente, Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento – MAPA). Desativado em 1992, foi recriado em 2003. São suas
atribuições:
A Lei 8.174/1991 dispõe sobre princípios de política agrícola, estabelece em detalhe
atribuições do CNPA, tributação compensatória de produtos agrícolas, amparo ao
pequeno produtor e regras de fixação e liberação dos estoques públicos. Essa lei ainda
possui dois regulamentos estabelecidos por Decreto.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 14/354
Disposições gerais
O MCI estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da internet no Brasil
e determina as diretrizes para atuação do Poder Público (União, Estados, Distrito Federal e
Municípios) em relação à matéria, deixa claro já o art. 1º. A disciplina do uso da internet no
Brasil tem como fundamentos, prevê expressamente o art. 2º:
Que princípios irão iluminar a legislação para o cumprimento desses fundamentos?
Segundo o art. 3º, a disciplina do uso da internet no Brasil tem os seguintes princípios:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 15/354
Ressalte-se, ainda, que o parágrafo único desse artigo expressamente afiança que os
princípios expressos no MCI não excluem outros previstos no ordenamento jurídico
pátrio relacionados à matéria ou nos tratados internacionais em que o Brasil seja
parte. Ainda no campo das diretrizes, o art. 4º deixa claro que a disciplina do uso da
internet no Brasil tem por objetivo a promoção de:
O MCI encerra a parte das disposições gerais com uma série de conceitos que serão aplicados
ao longo do desenvolvimento da do texto legal. De acordo com o art. 5º, para os efeitos da
Lei, considera-se:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 16/354
Por fim, o art. 6º do MCI traz um critério interpretativo um tanto incomum quando da
análise da legislação pertinente: a natureza da internet, seus usos e costumes particulares
e sua importância para a promoção do desenvolvimento humano, econômico, social e
cultural. Assim, para além dos fundamentos, princípios e objetivos previstos, o intérprete deve
levar em conta os elementos supramencionados.
Direitos e garantias do usuário
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especialcom o prazo prorrogado até a solução do bloqueio (impedimento do início
da fluência do prazo legal).
Por fim, atente porque a nulidade não será decretada se atingir terceiro de boa-fé que já
tiver preenchido as condições de usucapião do imóvel, estabelece o §5º. Nesses casos, a
única solução que resta é a via judicial.
Facilitando um pouco, o art. 215 estabelece, sem deixar margem a dúvidas, que são nulos os
registros efetuados após sentença de abertura de falência, ou do termo legal nele fixado, salvo
se a apresentação tiver sido feita anteriormente.
Por fim, novamente para aclarar, o art. 216 prevê que o registro pode também ser tornado
nulo por sentença em processo contencioso, ou por efeito do julgado em ação de anulação
ou de declaração de nulidade de ato jurídico, ou de julgado sobre fraude à execução.
V. Da usucapião extrajudicial
Inovação trazida pelo CPC/2015 é a possibilidade de se adquirir a propriedade urbana ou
rural por usucapião que dispensa a intervenção judicial. Trata-se de anômala situação de
ausência de contencioso, na qual aquele que perde a propriedade usucapida e aquele que
passa a ostentar o título de propriedade o fazem de maneira amigável, sem intervenção direta
do Poder Judiciário, mas por meio de seus agentes delegados.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 79/354
Prevista no art. 216-A, a usucapião extrajudicial é procedimento administrativo. Apesar
de ser procedimento administrativo, a usucapião extrajudicial não veda que se
recorra à via judicial, do mesmo modo que os procedimentos de dúvida, retificação e
anulação.
O pedido administrativo de reconhecimento extrajudicial de usucapião é processado
diretamente perante o cartório do Registro de Imóveis da Comarca em que estiver situado o
imóvel usucapiendo. Atente-se porque, a despeito de ser procedimento administrativo, deve
o interessado estar representado por advogado, exatamente do mesmo modo como ocorre
no divórcio extrajudicial (art. 733 do CPC/2015, mas instituído pela Lei 11.441/2007) e no
inventário extrajudicial (art. 610 do CPC/2015, também instituído pela mesma Lei)
Como se faz o pedido de usucapião extrajudicial? Deve o interessado formular pedido,
acompanhado dos seguintes documentos:
Quanto a esse último requisito, o §15 permite que no caso de ausência ou insuficiência, a
posse e os demais dados necessários podem ser comprovados em procedimento de
justificação administrativa perante a serventia extrajudicial. Nesse caso, deve-se obedecer,
no que couber, às regras dos arts. 381, §5º, 382 e 383 do CPC (que trata da produção
antecipada de provas).
Diferentemente do prazo comum de 30 dias que o oficial tem para registrar o ato, contados da
prenotação, no pedido de usucapião extrajudicial, autuado pelo registrador, prorroga-se o
I. Ata notarial lavrada pelo tabelião, atestando o tempo de posse do requerente e seus
antecessores, conforme o caso e suas circunstâncias, aplicando-se o disposto no art. 384 do
CPC (que dispõe sobre a Ata Notarial);
II. Planta e memorial descritivo assinado por profissional legalmente habilitado, com prova de
ART no respectivo Conselho, e pelos titulares registrados ou averbados na matrícula do
imóvel usucapiendo e na matrícula dos imóveis confinantes;
III. Certidões negativas dos distribuidores da comarca da situação do imóvel e do domicílio do
requerente;
IV. Justo título ou quaisquer outros documentos que demonstrem a origem, a continuidade, a
natureza e o tempo da posse, tais como o pagamento dos impostos e das taxas que incidirem
sobre o imóvel.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 80/354
prazo da prenotação até o acolhimento ou a rejeição do pedido, segundo o §1º do art. 216-A.
Se a planta não contiver a assinatura de quaisquer dos titulares de direitos registrados ou
averbados na matrícula do imóvel usucapiendo e na matrícula dos imóveis confinantes, esses
serão notificados pelo registrador competente, pessoalmente ou pelo correio (com AR), para
manifestar seu consentimento expresso em 15 dias.
Concordando, dá-se continuidade ao procedimento; discordando, o oficial remete os
autos ao Juízo; silenciando, interpreta-se a ausência de manifestação como
concordância. O §2º estabelece, na redação dada pela Lei 13.465/2017, que o
silêncio se interpreta como CONCORDÂNCIA!
Caso não seja encontrado o notificando ou caso ele esteja em lugar incerto ou não
sabido, tal fato será certificado pelo registrador, que deverá promover a sua
notificação por edital mediante publicação, por duas vezes, em jornal local de grande
circulação, pelo prazo de 15 dias cada um, interpretado-se o silêncio do notificando
como concordância. O órgão jurisdicional correcional pode, a partir de Regulamento,
substituir a publicação jornalística pela publicação do edital em meio eletrônico.
Na sequência, conforme previsão do §3º, o oficial deve dar ciência à União, ao Estado, ao
Distrito Federal e ao Município, pessoalmente, por intermédio do oficial de registro de títulos e
documentos, ou pelo correio (com AR), para que se manifestem, em 15 dias, sobre o pedido.
Igualmente, deve ele promover a publicação de Edital em jornal de grande circulação, onde
houver, para a ciência de terceiros eventualmente interessados, que poderão se manifestar em
15 dias.
Se houver alguma dúvida, prevê o §5º que podem ser solicitadas ou realizadas diligências
pelo oficial. Igualmente, em qualquer caso, pode o interessado suscitar o procedimento de
dúvida, nos termos já vistos.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 81/354
Lei do Parcelamento do Solo Urbano
Noções gerais
[16]
Você verá a análise da Lei 6.766/1979, a Lei do Parcelamento do Solo Urbano, que chamarei de
LPS. A LPS trata, em verdade, de dois temas distintos, mas que têm ampla conexão: o
Loteamento e o Desmembramento.
Com a população crescendo, há um adensamento das áreas urbanas e as edificações avançam
sobre áreas rurais nas franjas das cidades, sobre grandes áreas urbanas subaproveitadas e
mesmo sobre áreas menores em regiões de grande valorização imobiliária. Para tanto, é
necessário lotear ou desmembrar áreas para edificações, daí a relevância da LPS.
Dois certames das Carreiras Jurídicas cobram muito frequentemente a aplicação da LPS:
Promotor de Justiça e Procurador do Município. A VUNESP, inclusive, é uma banca que tem
especial predileção pelos temas da LPS. Nada obstante, essa lei especial aumentou bastante
sua incidência também nas demais provas das Carreiras Jurídicas (salvo a Defensoria Pública,
que não habitualmente cobra) e nas demais bancas, como o CESPE e a FCC.
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
Inicialmente, há de se verificar que a Lei 6.766/1979 – LPS trata das normas gerais sobre o
tema, que, segundo o art. 1º, podem ser complementadas pelos Estados, DF e Municípios.
O parcelamento regular é aquele realizado em conformidade com as normas
próprias da LPS e a das normas dos Estados e Municípios (ou do Distrito Federal),
relativamente à sua aprovação e implantação. O parcelamento irregular será aquele
que passou pelo rito de aprovação, conforme veremos adiante, mas não foi executado
ou implantado conforme sua aprovação.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 82/354
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Já o parcelamento clandestino é aquele que sequer foi submetido à aprovação dos órgãos
próprios. Ou seja, o proprietário do terreno objeto do parcelamento fez a divisão da área
sem que o Poder Público tivesse conhecimento da secessão em lotes. Materialmente
falando, pode ser que o parcelamento seja adequado, executado ou implantado conforme a
norma legal, apesar de, na prática, geralmente não o ser.
Portanto, o parcelamento irregular é aprovado, mas implantado em desacordo
(materialmente irregular), ao passo que o parcelamento clandestino não é nem mesmo
aprovado (formalmente irregular).
Nos casos de parcelamento clandestino, enquanto não se promover, por meio de ação
própria, a decretação de invalidade do registro e o respectivo cancelamento, a pessoa
indicada no registro público continua a ser havida como proprietária do imóvel, segundo o
STJ (REsp 990.507/DF).
O parcelamento do solo urbano pode ser feito por loteamento ou desmembramento. No que
reside a diferença entre ambos? Segundo o art. 2º, §1º, considera-se loteamento a subdivisão
de gleba em lotes destinados à edificação, com abertura de novas vias de circulação, de
logradouros públicos ou prolongamento, modificação ou ampliação das vias existentes.
Já o desmembramento, nos termos do §2º, é a subdivisão da gleba de terras em lotes
destinados a edificação, com aproveitamento do sistema viário existente, desde que não
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 83/354
implique na abertura de novas vias e logradouros públicos, nem no prolongamento,
modificação ou ampliação dos já existentes.
Ou seja, no loteamento teremos uma área de terras (gleba) que é parcelada em
áreas menores (lotes) com novo arruamento, ao passo que no desmembramento não
há novo arruamento.
Resta ainda mais uma diferença entre o loteamento e o desmembramento, referente ao
direito registral. Ao passo que o loteamento deve ser registrado, o desmembramento deve
ser apenas averbado, salienta Rizzardo, dada a interpretação a ser feita do art. 167, inc. I, item
19, c/c art. 167, inc. II, item 4, respectivamente, da Lei 6.015/1973, a Lei de Registros Públicos –
LRP.
Prevê o §8º que o loteamento pode ter acesso controlado. Esse controle de acesso deve ser
regulamentado por ato do poder público local, sendo vedado o impedimento de acesso a
pedestres ou a condutores de veículos, não residentes, devidamente identificados ou
cadastrados. Assim, ao lado do loteamento tradicional e do loteamento condominial, pode
haver um loteamento de acesso controlado.
A LPS chega a conceituar o lote. No §4º estabelece-se que lote é o terreno servido de
infraestrutura básica cujas dimensões atendam aos índices urbanísticos mínimos
definidos pelo Plano Diretor ou Lei Municipal para a zona em que se situe. O tamanho
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 84/354
mínimo, portanto, é variável, dependendo do Município e mesmo de cada bairro/
área/setor de cada Município.
Além disso, o lote em si pode ser constituído sob a forma de imóvel autônomo
(loteamento tradicional), como é o comum, ou de unidade imobiliária integrante de
condomínio de lotes (loteamento condominial), como ocorre naqueles “condomínios
internos de sobrados”, por exemplo (§7º).
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
Por fim, ainda quanto aos conceitos, o art. 2º-A, inserido pela Lei 14.118/2021, prevê que se
considera empreendedor, para fins de parcelamento do solo urbano, o responsável pela
implantação do parcelamento. Quem será esse responsável? Segundo a norma, além
daqueles indicados em regulamento próprio, pode ser:
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
De acordo com o art. 2º, §º, a infraestrutura básica dos terrenos é constituída pelos
equipamentos urbanos de:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 85/354
Atente, porém, porque se exige menos infraestrutura básica dos parcelamentos situados nas
Zonas Habitacionais de Interesse Social – ZHIS, definidas por lei. Nas ZHIS se exige:
Não é necessário implantar iluminação pública, esgotamento sanitário (mas apenas
soluções para tanto) ou energia elétrica pública, ou seja, criar possibilidade de uso de
fossa séptica individual e energia elétrica doméstica já é suficiente.
E quem custeia essa infraestrutura? O STJ (REsp 43.735/SP, REsp 191.907/SP, REsp
205.901/SP) já fixou o entendimento de que não é abusiva cláusula contratual que
relega ao promitente comprador o custeio de infraestrutura no caso de contrato que
envolva parcelamento do solo urbano.
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
É possível fazer o parcelamento do solo em qualquer região? Segundo o art. 3º, não, mas
apenas em zonas urbanas, de expansão urbana ou de urbanização específica, assim
definidas Pelo Plano diretor ou aprovadas por Lei Municipal.
Verificada que a zona é urbana ou de expansão, pode-se fazer o parcelamento irrestritamente?
Também não, já que a LPS limita o parcelamento a determinadas áreas específicas. Não se
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 86/354
Questão 2022 | 4000814600
(CESPE / PGM-Belo Horizonte-MG - 2017) Chamado para analisar projetos de
parcelamento de solo urbano em áreas impróprias, determinado procurador municipal
veri�cou hipótese de proibição absoluta.
Com base nas disposições da Lei n.º 6.766/1979, é correto a�rmar tratar-se, na situação,
de parcelamento do solo em terrenos
A) onde as condições geológicas não aconselham a edi�cação.
B) alagadiços e sujeitos a inundações.
C) aterrados com material nocivo à saúde pública.
D) com declividade igual ou superior a 30%.
Solução
Gabarito: A) onde as condições geológicas não aconselham a edi�cação.
A alternativa A está correta, conforme o art. 3º, parágrafo único, inc. IV: “Não será
permitido o parcelamento do solo em terrenos onde as condições geológicas não
aconselham a edi�cação”. Não há exceção, sendo a proibição absoluta, portanto.
permite o parcelamento do solo em terrenos (art. 3º, parágrafo único):
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 87/354
A alternativa B está incorreta, art. 3º, parágrafo único, inc. I: “Não será permitido o
parcelamento do solo em terrenos alagadiços e sujeitos a inundações, antes de tomadas
as providências para assegurar o escoamento das águas”. Essa, portanto, é proibição
relativa, que pode ser revista, cumpridas as exigências.
A alternativa C está incorreta, art. 3º, parágrafo único, inc. II: “Não será permitido o
parcelamento do solo em terrenos que tenham sido aterrados com material nocivo à
saúde pública, sem que sejam previamente saneados”. Essa, portanto, é proibição
relativa, que pode ser revista, cumpridas as exigências.
A alternativa D está incorreta, art. 3º, parágrafo único, inc. III: “Não será permitido o
parcelamento do solo em terrenos com declividade igual ou superior a 30% (trinta por
cento), salvo se atendidas exigências especí�cas das autoridades competentes”. Essa,
portanto, é proibição relativa, que pode ser revista, cumpridas as exigências.
Loteamento
A LPS, para além daqueles critérios presentes no art. 3º, parágrafo único, aplicáveis ao
parcelamento em geral, seja ele feito por meio de loteamento, seja ele feito por meio de
desmembramento, ainda exige outros requisitos para o loteamento, especificamente.
Segundo o art. 4º, os loteamentos devem atender aos seguintes requisitos mínimos (que
podem ser ampliados pelo Estados, DF e Municípios, como eu disse no início da aula):
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial88/354
Mas não só. A municipalidade pode – e deve – exigir áreas para a implantação de
equipamentos públicos comunitários, destinado à educação (creches, escolas,
bibliotecas e universidades), à cultura (teatros e cinemas), à saúde (postos de saúde,
hospitais, asilos), lazer (parques, praças e academias ao ar livre) e similares.
Além disso, como nas demais áreas da cidade, o Poder Público competente pode exigir, em
cada loteamento, a reserva de faixa non aedificandi destinada a equipamentos urbanos,
para abastecimento de água, serviços de esgotos, energia elétrica, coletas de águas
pluviais, rede telefônica e gás canalizado.
Se necessário for, a reserva de faixa não-edificável vinculada a dutovias será exigida no âmbito
do respectivo licenciamento ambiental, observados critérios e parâmetros que garantam a
segurança da população e a proteção do meio ambiente (§3º). No caso de lotes integrantes
de condomínio de lotes, poderão ser instituídas limitações administrativas e direitos reais
sobre coisa alheia em benefício do poder público, da população em geral e da proteção da
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 89/354
paisagem urbana, tais como servidões de passagem, usufrutos e restrições à construção de
muros (§4º).
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
Imagine que o imóvel urbano está parcialmente situado numa Área de Proteção Permanente –
APP ou tem uma parcela sobre a qual há impedimento à construção – área non aedificandi.
Deve pagar IPTU sobre toda a área ou apenas sobre a parcela sobre a qual não há restrição à
edificação?
Segundo o STJ (AgRg no REsp 1.469.057/AC), não se afasta a incidência do IPTU sobre as
APPs ou áreas non aedificandi que atingem parte de imóvel urbano. A razão? O fato gerador
da exação permanece íntegro, qual seja, a propriedade localizada na zona urbana do município.
A legislação municipal deve definir, para cada zona em que se divida o território do Município,
os usos permitidos e os índices urbanísticos de parcelamento e ocupação do solo, que
incluirão, obrigatoriamente, as áreas mínimas e máximas de lotes e os coeficientes máximos de
aproveitamento. Não há mais, na lei, um percentual mínimo a respeito.
Quanto ao tamanho dos lotes, fixado na LPS com o mínimo de 125m2, é necessário atentar
para um detalhe. Mesmo em sendo a área inferior à área prevista na legislação parcelar
urbana, é cabível ação de usucapião do possuidor. Isso porque não prevê a legislação
constitucional requisito de piso, mas apenas de teto de metragem, para a aquisição da
propriedade de maneira originária pela passagem do tempo.
Assim, é irrelevante para a ação de usucapião o tamanho da área usucapida (em termos
mínimos), não podendo o Município se obstar a ela e nem o Oficial do Registro se negar a
efetivar a medida, já decidiu o STF (RE 422.349). A razão é óbvia, eis que se a CF/1988 não
exigiu requisito de metragem mínima, há completa inversão de valores ao se obstar a
usucapião com fundamento em norma infraconstitucional.
Do contrário, haveria, nesse caso, uma releitura da Constituição à luz da Lei infraconstitucional,
o que é completo absurdo. Por isso, a Corte fixou a tese de que preenchidos os requisitos do
art. 183 da CF/1988, o reconhecimento do direito à usucapião especial urbana não pode ser
obstado por legislação infraconstitucional que estabeleça módulos urbanos na respectiva
área em que situado o imóvel (dimensão do lote).
De volta à LPS, ela tem duas fases; a primeira, a Fase Preliminar, e a segunda, a Fase do
Projeto Definitivo. A primeira fase ocorre quando o interessado busca as diretrizes para
elaborar seu projeto. A segunda ocorre quando, com base nessas diretrizes, o interessado
formula o pedido perante a Administração Pública, colacionando os documentos necessários.
Começo com a Fase Preliminar. Prevê o art. 6º que antes da elaboração do projeto, o
interessado deverá solicitar à Prefeitura Municipal que defina as diretrizes para o uso do solo,
traçado dos lotes, do sistema viário, dos espaços livres e das áreas reservadas para
equipamento urbano e comunitário. Para tanto, deve o loteador apresentar um requerimento
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 90/354
próprio e a planta do imóvel contendo, pelo menos:
Posteriormente, a Prefeitura Municipal (ou o DF) indicará, nas plantas apresentadas junto
com o requerimento, de acordo com as diretrizes de planejamento estadual e municipal,
as informações necessárias para o loteador realizar o loteamento. Essas diretrizes
vigorarão pelo prazo máximo de quatro anos, prevê o parágrafo único do art. 7º.
Atente, porém, que o art. 8o dispensa essas diretrizes para os Municípios com menos
de 50 mil habitantes e aqueles cujo Plano Diretor contiver diretrizes de urbanização
para a zona em que se situe o parcelamento.
Feito isso tudo (ou dispensado, conforme a exceção do art. 8º), o projeto será apresentado à
Prefeitura Municipal (ou ao DF), acompanhado de certidão atualizada da matrícula da gleba, de
certidão negativa de tributos municipais e do instrumento de garantia. Trata-se da segunda
etapa, a Fase do Projeto Definitivo.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 91/354
Desmembramento
O projeto será acompanhado dos desenhos técnicos (croquis), que conterão variadas
informações, como (art. 9º, §1º): subdivisão das quadras em lotes, com dimensões e
numeração; sistema de vias de circulação e praças; e indicação em planta do
escoamento das águas pluviais.
Já o memorial descritivo deve conter, obrigatoriamente, pelo menos (art. 9º, §2º):
descrição do loteamento, com características e fixação das zonas de uso
predominante; condições urbanísticas e as limitações que incidem sobre os lotes e
suas construções; indicação das áreas públicas que passarão ao domínio do
município; e enumeração dos equipamentos urbanos, comunitários e dos serviços
públicos ou de utilidade pública.
E se for constatado, a qualquer tempo, que a certidão da matrícula apresentada não tem mais
correspondência com os registros e averbações cartorárias do tempo da sua apresentação?
Nesse caso, serão consideradas insubsistentes tanto as diretrizes expedidas anteriormente
quanto as aprovações consequentes.
E quem tem competência para julgar recurso em impugnação de registro de loteamento
urbano? Cuidado! Primeiro, lembre-se de que o pedido de registro de loteamento urbano,
iniciado perante o Oficial de Registros Públicos, tem caráter eminentemente administrativo. A
natureza jurídica do pedido não se transmuda pelo fato de a impugnação intentada por
terceiros ser decidida no âmbito do Judiciário.
Isso porque o juiz, ao fazê-lo, não exerce, a toda evidência, atividade típica jurisdicional. Trata-
se de decisão – repito, novamente – de caráter eminentemente administrativo. Se é
administrativa, o recurso administrativo não vai para o Tribunal respectivo, eis que o Tribunal
aprecia em grau recursal decisão de natureza jurisdicional. O órgão competente é a
Corregedoria do Tribunal de Justiça ou o Conselho Superior da Magistratura.
Trata-se da mesma lógica aplicável às questões que envolvem os registros públicos em geral.
Incumbe ao Poder Judiciário, de modo atípico, exercer função correcional e regulatória sobre
a atividade registral e notarial, a ser exercida, nos termos da Lei de Organização Judiciária e
Regimento Interno de cada Estado, pelo Juiz Corregedor, Corregedorias dos Tribunais e
Conselho Superior da Magistratura.
Por isso, a via recursal deve, igualmente, observar os comandos legais pertinentes ao correlato
procedimento administrativo. Assim, cabe recurso administrativo, e não apelação, da
decisão que julga a impugnação ao registro de loteamento, entende o STJ (REsp 1.370.524-
DF).
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 92/354
Aprovação do Projeto
Novamente, a LPS, para além daqueles critérios presentes no art. 3º, parágrafo único,
aplicáveis ao parcelamento em geral,seja ele feito por meio de loteamento, seja ele feito por
meio de desmembramento, ainda exige outros requisitos para o desmembramento,
especificamente.
Segundo o art. 10, para a aprovação de projeto de desmembramento, o interessado apresentará
requerimento à Prefeitura ou ao DF, acompanhado de certidão atualizada da matrícula da gleba
e de planta do imóvel a ser desmembrado, contendo a indicação de:
Mas por que os requisitos do desmembramento são mais simples que os do loteamento?
Primeiro, em vista do menor impacto causado na cidade. Segundo, porque, de resto, no
que couber, aplicam-se as disposições urbanísticas vigentes para as regiões em que
se situem ou, na ausência destas, as disposições urbanísticas para os loteamentos,
segundo prevê o art. 11 da LPS.
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
Por fim, o parágrafo único estabelece que a municipalidade deve fixar os requisitos exigíveis
para a aprovação de desmembramento de lotes decorrentes de loteamento cuja destinação da
área pública tenha sido inferior à mínima prevista no §1º do art. 4º da Lei.
Ademais, tanto no loteamento quanto no desmembramento, mais exigências podem ser
feitas, desde que haja previsão legal autorizativa. Os requisitos da LPS são mínimos, e não
exaustivos. Pode, inclusive, haver exigências tanto do Município quanto do Estado, já que a
competência para legislar acerca da urbanização é concorrente, como já assentou o STJ (RMS
8693-OR/1999).
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 93/354
Realizado o projeto, seja para o loteamento, seja para o desmembramento, é necessário que o
Poder Público o aprove, para que sua implementação comece. Prevê o art. 12, de maneira um
tanto óbvia, que o projeto deve ser aprovado pela Municipalidade, que também deve fixar as
diretrizes aludidas anteriormente especialmente quanto aos loteamentos.
A exceção fica por conta dos Municípios inseridos no cadastro nacional de municípios com
áreas suscetíveis à ocorrência de deslizamentos de grande impacto (CNMAS), inundações
bruscas ou processos geológicos ou hidrológicos correlatos, cuja aprovação do parcelamento
(loteamento ou desmembramento) fica vinculada ao atendimento dos requisitos constantes da
carta geotécnica de aptidão à urbanização.
Esse cadastro, conforme o art. 6º, inc. VI da Lei 12.608/2012, a lei que cria a Política Nacional
de Proteção e Defesa Civil – PNPDEC, compete à União criar e manter. Essa lei inseriu o art.
3º-A à Lei 12.340/2010, a Lei que trata das transferências da União aos demais entes federados
para a execução de ações de prevenção em áreas de risco de desastres e de resposta e de
recuperação em áreas atingidas por desastres.
Depois de insistentes tentativas de variados MPEs e do MPF, o cadastro foi criado. O Decreto
10.692/2021 institui o Cadastro Nacional de Municípios com Áreas Suscetíveis à Ocorrência de
Deslizamentos de Grande Impacto, Inundações Bruscas ou Processos Geológicos ou
Hidrológicos Correlatos (se você prefere a sigla completa, o CNMASODGIIBPGHC).
Segundo a Lei 12.340/2010, com a criação do Cadastro, a aplicação da LPS se torna mais
complexa, exigindo, por exemplo, que o loteador observe se sua área não se enquadra numa
das áreas de risco, que podem impedir a edificação no terreno. Veja as disposições a respeito:
Art. 3º-A. O Governo Federal instituirá cadastro nacional de municípios com áreas suscetíveis à
ocorrência de deslizamentos de grande impacto, inundações bruscas ou processos geológicos
ou hidrológicos correlatos, conforme regulamento.
§ 1º A inscrição no cadastro previsto no caput dar-se-á por iniciativa do Município ou mediante
indicação dos demais entes federados, observados os critérios e procedimentos previstos em
regulamento.
§ 2º Os Municípios incluídos no cadastro deverão:
I - elaborar mapeamento contendo as áreas suscetíveis à ocorrência de deslizamentos de
grande impacto, inundações bruscas ou processos geológicos ou hidrológicos correlatos;
II - elaborar Plano de Contingência de Proteção e Defesa Civil e instituir órgãos municipais de
defesa civil, de acordo com os procedimentos estabelecidos pelo órgão central do Sistema
Nacional de Proteção e Defesa Civil – SINPDEC;
III - elaborar plano de implantação de obras e serviços para a redução de riscos de desastre;
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 94/354
IV - criar mecanismos de controle e fiscalização para evitar a edificação em áreas suscetíveis à
ocorrência de deslizamentos de grande impacto, inundações bruscas ou processos geológicos
ou hidrológicos correlatos;
V - elaborar carta geotécnica de aptidão à urbanização, estabelecendo diretrizes urbanísticas
voltadas para a segurança dos novos parcelamentos do solo e para o aproveitamento de
agregados para a construção civil.
§ 3º A União e os Estados, no âmbito de suas competências, apoiarão os Municípios na
efetivação das medidas previstas no § 2o.
§ 4º Sem prejuízo das ações de monitoramento desenvolvidas pelos Estados e Municípios, o
Governo Federal publicará, periodicamente, informações sobre a evolução das ocupações em
áreas suscetíveis à ocorrência de deslizamentos de grande impacto, inundações bruscas ou
processos geológicos ou hidrológicos correlatos nos Municípios constantes do cadastro.
§ 5º As informações de que trata o § 4o serão encaminhadas, para conhecimento e
providências, aos Poderes Executivo e Legislativo dos respectivos Estados e Municípios e ao
Ministério Público.
§ 6º O Plano de Contingência de Proteção e Defesa Civil será elaborado no prazo de 1 (um)
ano, sendo submetido a avaliação e prestação de contas anual, por meio de audiência pública,
com ampla divulgação.
§ 7º São elementos a serem considerados no Plano de Contingência de Proteção e Defesa
Civil, a ser elaborado pelo Município:
I - indicação das responsabilidades de cada órgão na gestão de desastres, especialmente
quanto às ações de preparação, resposta e recuperação;
II - definição dos sistemas de alerta a desastres, em articulação com o sistema de
monitoramento, com especial atenção dos radioamadores;
III - organização dos exercícios simulados, a serem realizados com a participação da população;
IV - organização do sistema de atendimento emergencial à população, incluindo-se a
localização das rotas de deslocamento e dos pontos seguros no momento do desastre, bem
como dos pontos de abrigo após a ocorrência de desastre;
V - definição das ações de atendimento médico-hospitalar e psicológico aos atingidos por
desastre;
VI - cadastramento das equipes técnicas e de voluntários para atuarem em circunstâncias de
desastres;
VII - localização dos centros de recebimento e organização da estratégia de distribuição de
doações e suprimentos.
Art. 3º-B. Verificada a existência de ocupações em áreas suscetíveis à ocorrência de
deslizamentos de grande impacto, inundações bruscas ou processos geológicos ou
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 95/354
hidrológicos correlatos, o município adotará as providências para redução do risco, dentre as
quais, a execução de plano de contingência e de obras de segurança e, quando necessário, a
remoção de edificações e o reassentamento dos ocupantes em local seguro.
§ 1º A efetivação da remoção somente se dará mediante a prévia observância dos seguintes
procedimentos:
I - realização de vistoria no local e elaboração de laudo técnico que demonstre os riscos da
ocupação para a integridade física dos ocupantes ou de terceiros;
II - notificação da remoção aos ocupantes acompanhada de cópia do laudo técnico e, quando
for o caso, de informações sobre as alternativas oferecidas pelo poder público para assegurar
seu direito à moradia.
§ 2º Na hipótese de remoção de edificações, deverão ser adotadas medidas que impeçam a
reocupação da área.
§ 3º Aqueles que tiverem suas moradias removidas deverão ser abrigados, quando necessário,
e cadastrados pelo Município para garantia de atendimento habitacionalem caráter definitivo,
de acordo com os critérios dos programas públicos de habitação de interesse social.
Igualmente, para evitar maiores problemas, é proibida a aprovação de projeto de
loteamento e desmembramento em áreas de risco definidas como não edificáveis no
Plano Diretor ou em legislação dele derivada. Superadas essas questões, o projeto,
quando aprovado, deve ser executado no prazo constante do cronograma de execução,
sob pena de caducidade da aprovação.
Excepcionalmente, o Estado irá disciplinar a aprovação, pelos Municípios, de loteamentos e
desmembramentos em determinadas situações. Segundo o art. 13, necessita-se da aprovação
estadual quando o loteamento:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 96/354
Atente porque a última situação só se aplica aos loteamentos em áreas urbanas, sendo
inaplicável aos meros desmembramentos da gleba em lotes. Ou seja, é irrelevante o
tamanho da área a ser desmembrada, não se exigindo autorização do Estado.
No caso de loteamento ou desmembramento localizado em área de município integrante de
região metropolitana, o exame e a anuência prévia à aprovação do projeto caberão à
autoridade metropolitana. E como se definem as Áreas de Interesse Especial
supramencionadas? Pela previsão do art. 14, compete aos Estados defini-las, por decreto.
E quem e como se definem as normas para esses projetos, seja de loteamento, seja de
desmembramento? Pela previsão do art. 15, compete aos Estados, por decreto, prevê-las.
A lei municipal deve definir os prazos para que um projeto de parcelamento do solo
apresentado seja aprovado ou rejeitado e para que as obras executadas sejam
aceitas ou recusadas. E se o Poder Público ultrapassar esse tempo? Nesses casos
tem-se o projeto por rejeitado, segundo a previsão do art. 16, §1º da LPS. Caso o
proprietário experimente prejuízo, por conta disso, assegura-se a ele indenização por
eventuais danos derivados da omissão.
Caso a legislação municipal seja omissa quanto a esses prazos, serão eles de 90 dias
para a aprovação ou rejeição e de 60 dias para a aceitação ou recusa fundamentada
das obras de urbanização.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 97/354
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
Aprovado o projeto, os espaços livres de uso comum, as vias e praças, as áreas
destinadas a edifícios públicos e outros equipamentos urbanos, constantes do
projeto e do memorial descritivo, não poderão ter sua destinação alterada pelo
loteador. A exceção fica por conta das hipóteses de caducidade da licença ou
desistência do loteador.
A desistência do loteador, porém, não pode ocorrer livremente, condicionando-se à
verificação de determinados requisitos legais, como mostrarei mais adiante.
Há, portanto, evidente resposabilidade do Município e do Estado, a depender do caso, no que
tange ao parcelamento do solo urbano. O Município é responsável por omissão quando o
loteamento irregular se dá em área de preservação ambiental. No caso, o ente municipal é
responsabilizado solidariamente em conjunto com o Estado e os demais responsáveis,
como o loteador.
O Município tem o poder-dever de controlar loteamentos e parcelamentos de terra para,
inclusive, impedir o uso ilegal do solo, sendo o exercício dessa atividade obrigatório e
vinculado. Não há, portanto, que se falar em poder discricionário da Administração Pública,
entende o STJ (REsp 292.846/SP).
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 98/354
Registro
Em outro julgamento a respeito, o STJ (REsp 1.113.789/SP) confirmou a tese anteriormente
sufragada pela Corte de que o Município não pode se eximir do dever de regularizar
loteamentos irregulares, se os loteadores e responsáveis, devidamente notificados, deixam
de proceder com as obras e melhoramentos indicados pelo ente público. O simples fato de
o município ter multado os loteadores e embargado as obras realizadas no loteamento em nada
muda o panorama, devendo proceder, ele próprio e às expensas do loteador, nos termos da
responsabilidade que lhe é atribuída.
Ultrapassada a fase de aprovação do projeto de parcelamento, seja por loteamento, seja por
desmembramento, o “parcelador” deverá submetê-lo ao registro (lato sensu) imobiliário
dentro de 180 dias, sob pena de caducidade da aprovação. E se o “parcelador” perder esse
prazo? Terá de reiniciar o calvário burocrático do zero?
Evidente que não. A solução que se impõe é que seja o pedido feito novamente à instância
administrativa, apenas. A Administração Pública, então, reavalia o projeto, mas pode, se for o
caso, impor novas exigências, se houver interesse público decorrente das alterações
urbanísticas. O pedido deve vir acompanhado de uma série de documentos:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 99/354
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 100/354
Questão 2022 | 4000814601
(MPE / MPE-GO - 2016) No tocante à Lei Federal nº 6.766/79 (Lei do Parcelamento do
Solo), assinale a alternativa falsa:
A)
os espaços livres de uso comum, as vias e praças, as áreas destinadas a edifícios públicos
e outros equipamentos urbanos, constantes do projeto e do memorial descritivo, não
poderão ter sua destinação alterada pelo loteador, desde a aprovação do loteamento,
salvo as hipóteses de caducidade da licença ou desistência do loteador, sendo, neste
caso, observadas as exigências legais.
B)
A existência de protestos, de ações pessoais ou de ações penais, exceto as referentes a
crime contra o patrimônio e contra a administração, não impedirá o registro do
loteamento se o requerente comprovar que esses protestos ou ações não poderão
prejudicar os adquirentes dos lotes. Se o o�cial do registro de imóveis julgar insu�ciente
a comprovação feita, suscitará a dúvida perante o juiz competente.
C)
a infraestrutura básica dos parcelamentos situados nas zonas habitacionais declaradas
por lei como de interesse social (ZHIS) consistirá, no mínimo, dentre outros requisitos,
Cuidado! Com a Lei 14.382/2022, o lapso temporal exigido para as certidões dos
cartórios de protestos de títulos caiu de 10 para 5 anos. Os prazos das demais
certidões (cíveis e penais) foram mantidas em 10 anos. Apesar de estranho, faz
sentido, já que a prescrição das dívidas em geral, pelo art. 206, §5º, do Código Civil,
ocorre em 5 anos.
Os três prazos citados acima serão contados a partir da data do pedido de registro
(lato sensu) do parcelamento, devendo todas elas serem extraídas em nome daqueles
que, nos mencionados períodos, tenham sido titulares de direitos reais sobre o imóvel.
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
A existência de protestos, de ações pessoais ou de ações penais, exceto se referentes a
crime contra o patrimônio e contra a Administração Pública, não impedirá o registro do
loteamento se o requerente comprovar que esses protestos ou ações não poderão
prejudicar os adquirentes dos lotes. Se o Oficial do Registro de Imóveis julgar insuficiente a
comprovação feita, suscitará a dúvida perante o juiz competente.
Atente porque a submissão da negativa do Oficial ao juiz é em caráter de procedimento
administrativo, qual seja a dúvida, regulada pela LRP. Por isso, recurso de eventual decisão do
juiz igualmente tem caráter administrativo (recurso administrativo), não jurisdicional (apelação).
Inexiste aí atuação jurisdicional do magistrado.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 101/354
solução para o esgotamento sanitário e para energia elétrica pública e domiciliar.
D)
a lei municipal de�nirá os prazos para que um projeto de parcelamento apresentado seja
aprovado ou rejeitado e para que as obras executadas sejam aceitas ou recusadas e,
transcorridos os prazos sem a manifestação do Poder Público, o projeto será considerado
rejeitado ou as obras recusadas, assegurada a indenização para eventuais danos derivados
da omissão.
Solução
Gabarito: C)
a infraestrutura básica dos parcelamentos situadosnas zonas habitacionais
declaradas por lei como de interesse social (ZHIS) consistirá, no mínimo,
dentre outros requisitos, solução para o esgotamento sanitário e para energia
elétrica pública e domiciliar.
A alternativa A está correta, de acordo com o art. 17: “Os espaços livres de uso comum,
as vias e praças, as áreas destinadas a edifícios públicos e outros equipamentos urbanos,
constantes do projeto e do memorial descritivo, não poderão ter sua destinação alterada
pelo loteador, desde a aprovação do loteamento, salvo as hipóteses de caducidade da
licença ou desistência do loteador, sendo, neste caso, observadas as exigências do art.
23 desta Lei”.
A alternativa B está correta, conforme o art. 18, § 2º: “A existência de protestos, de ações
pessoais ou de ações penais, exceto as referentes a crime contra o patrimônio e contra a
administração, não impedirá o registro do loteamento se o requerente comprovar que
esses protestos ou ações não poderão prejudicar os adquirentes dos lotes. Se o O�cial do
Registro de Imóveis julgar insu�ciente a comprovação feita, suscitará a dúvida perante o
juiz competente”.
A alternativa C está incorreta, consoante o art. 2º, § 6o, inc. IV: “A infraestrutura básica
dos parcelamentos situados nas zonas habitacionais declaradas por lei como de interesse
social (ZHIS) consistirá, no mínimo, de soluções para o esgotamento sanitário e para a
energia elétrica domiciliar”.
A alternativa D está correta, na combinação do art. 16, caput (“A lei municipal de�nirá os
prazos para que um projeto de parcelamento apresentado seja aprovado ou rejeitado e
para que as obras executadas sejam aceitas ou recusadas”) com seu § 1º (“Transcorridos
os prazos sem a manifestação do Poder Público, o projeto será considerado rejeitado ou
as obras recusadas, assegurada a indenização por eventuais danos derivados da
omissão”).
Ademais, a declaração do cônjuge prevista na LPS não afasta a legislação civil comum. Ou
seja, como o art. 1.647, inc. I, exige a autorização do cônjuge casado em qualquer regime de
bens, exceto da separação absoluta de bens, para a alienação ou gravação dos bens imóveis, a
declaração do cônjuge quanto ao consentimento do registro do loteamento não afasta a
necessidade de este consentir para os atos de alienação ou promessa de alienação de
lotes, ou de direitos a eles relativos, que venham a ser praticados pelo outro cônjuge.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 102/354
Importante exceção à necessidade de se juntar ao pedido de registro do parcelamento o
título de propriedade está presente no art. 18, §5º da LPS. Segundo esse dispositivo, será
dispensado o título de propriedade quando se tratar de parcelamento popular,
destinado às classes de menor renda, em imóvel declarado de utilidade pública, com
processo de desapropriação judicial em curso e imissão provisória na posse, desde
que promovido pela União, Estados, Distrito Federal, Municípios ou suas entidades
delegadas, autorizadas por lei a implantar projetos de habitação.
Nesses casos, dispensa-se uma série de documentos, consequentemente. Não se exige
nenhum dos documentos 1 a 4 e 7 (da lista acima), mantendo-se a necessidade de
apresentação apenas dos documentos listados nos itens 5 e 6 (cópia do ato de aprovação e
exemplar do contrato padrão de alienação). Apesar da dispensa de vários documentos, exige-se
que o parcelamento seja instruído com cópias autenticadas da decisão que tenha concedido a
imissão provisória na posse, do decreto de desapropriação, do comprovante de sua publicação
na imprensa oficial e, quando formulado por entidades delegadas, da lei de criação e de seus
atos constitutivos.
Assim, em resumo, nos casos de parcelamento destinado às classes de menor renda, em
imóvel declarado de utilidade pública, com processo de desapropriação judicial em curso e
imissão provisória na posse, desde que promovido pelo Poder Público, com autorização em lei
a implantar projetos de habitação, exige-se apenas:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 103/354
Na hipótese de o loteador ser companhia aberta, as certidões - de (i) ações penais com
respeito ao crime contra o patrimônio e contra a Administração Pública; (ii) dos cartórios de
protestos de títulos, em nome do loteador, pelo período de 5 anos; (iii) de ações cíveis relativas
ao loteador, pelo período de 10 anos e; (iv) de ações penais contra o loteador, pelo período de
10 anos - podem ser substituídas por exibição das informações trimestrais e demonstrações
financeiras anuais constantes do sítio eletrônico da Comissão de Valores Mobiliários - CVM,
fixa o § 6º. Além disso, o §7º estabelece que quando demonstrar de modo suficiente o estado
do processo e a repercussão econômica do litígio, a certidão esclarecedora de ação cível ou
penal poderá ser substituída por impressão do andamento do processo digital.
Colacionados os documentos ao pedido, o Oficial encaminha comunicação à Prefeitura e
publica, em resumo e com pequeno desenho (totalmente inútil) da localização da área,
edital do pedido de registro em 3 dias consecutivos, podendo este ser impugnado no prazo
de 15 dias corridos, contados da data da última publicação.
Nas capitais, a publicação do edital se fará no Diário Oficial do Estado e num dos jornais de
circulação diária. Nos demais municípios, a publicação se fará apenas num dos jornais locais,
se houver, ou, não havendo, em qualquer jornal da região.
Sem impugnações, o registro é feito imediatamente. Com impugnações, o Oficial intima o
requerente e a municipalidade para se manifestar no prazo de 5 dias, sob pena de
arquivamento do processo. Com tais manifestações o processo será enviado ao juiz
competente para decisão. O juiz, então, ouve o MP em 5 dias e decide de plano ou após
instrução sumária.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 104/354
Se forem apresentadas maiores indagações, esclarecimentos cuja solução se dará com
prova judicial ou perícia, o caso deve ser remetido às vias ordinárias (leia-se: judicial).
Aqui fica claro que o pedido e eventual recurso à negativa a respeito do registro do
parcelamento têm natureza administrativa. A decisão judicial é atípica, sem natureza
jurisdicional, mas apenas administrativa.
Em qualquer caso, registrado o loteamento, o Oficial comunicará, por certidão, o seu
registro à Prefeitura.
Se o Oficial efetuar registro em desacordo com as exigências da LPS fica sujeito a
multa equivalente a 10 vezes os emolumentos regimentais fixados para o registro, na
época em que for aplicada a penalidade pelo juiz corregedor do cartório, sem prejuízo
das sanções penais e administrativas cabíveis.
O registro do loteamento será feito, por extrato, no livro próprio do Registro de Imóveis.
Sempre deve ser feito o registro do loteamento com uma indicação para cada lote, a
averbação das alterações, a abertura de ruas e praças e as áreas destinadas a espaços
livres ou a equipamentos urbanos. Lembro, novamente, que o desmembramento é
averbado, e não registrado.
Com o avanço da zona urbana para os limites das cidades, pode ocorrer que a área a ser
loteada acabe avançando sobre mais de uma circunscrição imobiliária. Nesses casos,
como se faz o procedimento registral, já que cada circunscrição tem sua competência
própria?
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 105/354
Nesses casos, o registro será requerido primeiramente perante aquela em que estiver
localizada a maior parte da área loteada. Procedido o registro nessa circunscrição, o
interessado requererá, sucessivamente, o registro do loteamento em cada uma das
demais, comprovando perante cada qual o registro efetuado na anterior, até que o
loteamento seja registrado em todas.
Denegado registro em qualquer das circunscrições, essa decisão será comunicada, pelo
Oficial, às demais para efeito de cancelamento dos registros feitos. Não se cancelam os
registros nas demais se o motivo do indeferimento naquela não se estenderà área
situada sob a competência desta, e desde que o interessado requeira a manutenção
do registro obtido.
Apesar de o loteamento poder se estender pela área de mais de uma circunscrição,
o art. 21, §1º da LPS veda que um lote se situe em mais de uma circunscrição
imobiliária.
O legislador, já antevendo os problemas que poderiam ser causados caso o loteador
fizesse o pedido simultâneo em mais de uma circunscrição, vedou que esse expediente
fosse utilizado. Assim, os pedidos de registro do mesmo loteamento realizados
simultaneamente perante diferentes circunscrições são considerados nulos pela LPS.
Ao inverso, sendo necessário registrar o loteamento em mais de uma circunscrição,
enquanto não procedidos todos os registros, considera-se o loteamento como não
registrado para os efeitos da Lei.
Veja-se que a partir do registro do loteamento, vias, praças, espaços livres e áreas
destinadas a edifícios públicos e outros equipamentos urbanos, constantes do
projeto e do memorial descritivo, passam a integrar o domínio do Município.
Se o parcelamento do solo já tiver sido implantado, mas ainda não tiver sido registrado, a
municipalidade poderá requerer, por meio da apresentação de planta de parcelamento
elaborada pelo loteador ou aprovada pelo Município e de declaração de que o
parcelamento se encontra implantado, o registro das áreas destinadas a uso público, que
passarão dessa forma a integrar o seu domínio.
E quando se cancela o loteamento? Segundo o art. 23, por consequência de:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 106/354
Questão 2022 | 4000814603
(VUNESP / PGM-Registro-SP - 2016) Quanto ao parcelamento do solo, assinale a
alternativa correta.
A)
Considera-se loteamento a subdivisão de gleba em lotes destinados a edi�cação, com
aproveitamento do sistema viário existente, desde que não implique na abertura de
novas vias e logradouros públicos.
B)
Poderá ser permitido o parcelamento do solo em terrenos alagadiços e sujeitos a
inundações, após tomadas as providências para assegurar o escoamento das águas.
C)
Não será permitido o parcelamento do solo em áreas de preservação ecológica ou
naquelas onde a poluição impeça condições sanitárias suportáveis, mesmo após a sua
correção.
D)
O Poder Público competente não poderá exigir, no loteamento, a reserva de faixa non
aedi�candi destinada a equipamentos urbanos.
E)
Não é possível à Prefeitura e ao Estado oporem-se ao cancelamento do registro do
loteamento.
Solução
Gabarito: B)
Poderá ser permitido o parcelamento do solo em terrenos alagadiços e
sujeitos a inundações, após tomadas as providências para assegurar o
escoamento das águas.
A alternativa A está incorreta, conforme o art. 2º, § 1º: “Considera-se loteamento a
subdivisão de gleba em lotes destinados a edi�cação, com abertura de novas vias de
Mas podem a Prefeitura e o Estado se opor ao cancelamento sem motivação alguma,
por pura discricionariedade? Não! Segundo o art. 23, §1º, a oposição só pode ocorrer se
o cancelamento causar inconveniente comprovado para o desenvolvimento urbano
ou se já se tiver realizado qualquer melhoramento na área loteada ou adjacências.
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 107/354
circulação, de logradouros públicos ou prolongamento, modi�cação ou ampliação das
vias existentes”.
A alternativa B está correta, pela literalidade do art. 3º, parágrafo único, inc. I: “Não será
permitido o parcelamento do solo em terrenos alagadiços e sujeitos a inundações, antes
de tomadas as providências para assegurar o escoamento das águas”.
A alternativa C está incorreta, segundo o art. 3º, parágrafo único, inc. V: “Não será
permitido o parcelamento do solo em áreas de preservação ecológica ou naquelas onde a
poluição impeça condições sanitárias suportáveis, até a sua correção”.
A alternativa D está incorreta, consoante regra do art. 5º: “O Poder Público competente
poderá complementarmente exigir, em cada loteamento, a reserva de faixa non
aedi�candi destinada a equipamentos urbanos”.
A alternativa E está incorreta, de acordo com o art. 23, § 1º: “A Prefeitura e o Estado só
poderão se opor ao cancelamento se disto resultar inconveniente comprovado para o
desenvolvimento urbano ou se já se tiver realizado qualquer melhoramento na área
loteada ou adjacências”.
Contratos
O pedido de cancelamento deve ser público. Por isso, o Oficial deve publicar, em resumo,
edital do pedido de cancelamento, impugnável por 30 dias contados da data da última
publicação. Findo esse prazo, com ou sem impugnação, o processo será remetido ao juiz
competente.
O juiz deve proceder a uma vistoria judicial destinada a comprovar a inexistência de
adquirentes instalados na área loteada. Feita a vistoria, segue para homologação do pedido de
cancelamento, ouvido o MP.
Logicamente que o cancelamento por decisão judicial não precisa desse procedimento e nem
de publicidade específica, dado que o rito jurisdicional já terá englobado essas circunstâncias e
exigências.
Em qualquer situação, o processo de loteamento, em todas as suas fases, e os contratos
depositados em cartório poderão ser examinados por qualquer pessoa, a qualquer tempo,
independentemente do pagamento de custas ou emolumentos, ainda que a título de busca. A
previsão do art. 24 da LPS, portanto, é excepcional em relação aos atos do Registro de Imóveis,
que se pautam, em regra, pela onerosidade.
É necessário ainda analisar os dispositivos da LPS acerca da transmissão de propriedade entre
os particulares, especificamente quanto à venda de imóvel derivada do parcelamento do
solo.
Realizados todos os trâmites e aprovado o projeto de loteamento ou de desmembramento,
o loteador deverá submetê-lo ao registro imobiliário dentro de 180 dias. Não o fazendo,
estabelece o art. 18, há caducidade da aprovação.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 108/354
A partir da aprovação, qualquer alteração ou cancelamento parcial do loteamento
registrado dependerá de acordo entre o loteador e os adquirentes de lotes atingidos
pela alteração, bem como da aprovação pelo órgão competente. É igualmente
necessário que a alteração seja averbada no Registro de Imóveis, em complemento ao
projeto original, de acordo com o art. 28.
O art. 26 estipula que os compromissos de compra e venda, as cessões ou
promessas de cessão poderão ser feitos por escritura pública ou por instrumento
particular. No entanto, a lei prefixa parte do conteúdo do contrato, estabelecendo
numerosas cláusulas obrigatórias:
Atente porque as regras previstas nesse dispositivo não são numerus clausus, consistindo
em espécie de contrato obrigatório. São elas disposições que a LPS exige que sejam
inseridas, mas isso não impede que as partes acordem a respeito de outras disposições
não expressamente previstas. O STJ, inclusive, entende que transferir o ônus de
pagamento das obras de infraestrutura ao adquirente não viola a LPS.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 109/354
Feito o contrato, uma via deve ser arquivada no registro imobiliário, após o registro e
anotações devidas, junto com o instrumento procuratório, caso tenha alguma das partes
assinado o pacto por procurador, nos termos do §2º.
Admite-se, ainda, segundo o §3º, nos parcelamentos populares, a cessão da posse em
que estiverem provisoriamente imitidas União, Estados, DF, Municípios e suas
entidades delegadas, o que poderá ocorrer por instrumento particular, ao qual se
atribui, para todos os fins de direito, caráter de escritura pública. Essa cessão
constitui crédito contra o expropriante, de aceitação obrigatória em garantia de
contratos de financiamento habitacional.
Em havendo desapropriação da área pelo Poder Público, por sentença, a referida posse se
converte em propriedade e o compromisso de compra e venda pode, então, ser averbado
junto ao Registro de Imóveis, na matrícula relativa ao lote (§5º). Com a quitação dos valores,as
promessas passam a valer como justo título para o registro da propriedade do lote adquirido,
quando acompanhados da respectiva prova de quitação (§6º).
Além das cláusulas obrigatórias previstas no art. 26, a Lei 13.786/2018 determinou a inserção de
um quadro-resumo nos contratos de compra e venda, cessão ou promessa de cessão de
loteamento. Inclusive, esse quadro-resumo deve estar no início do contrato, de modo a
facilitar a identificação das principais informações pelo adquirente. Segundo o art. 26-A, o
quadro-resumo deve conter:
I. Preço total a ser pago pelo imóvel
II. O valor referente à corretagem, suas condições de pagamento e identificação precisa
de seu beneficiário
III. Forma de pagamento do preço, com indicação clara dos valores e vencimentos das
parcelas
IV. Índices de correção monetária aplicáveis ao contrato e, quando houver pluralidade de
índices, período de aplicação de cada um
V. Consequências do desfazimento do contrato, seja mediante distrato, seja por meio de
resolução contratual motivada por inadimplemento de obrigação do adquirente ou do
loteador, com destaque negritado para as penalidades aplicáveis e para os prazos para
devolução de valores ao adquirente
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 110/354
VI. Taxas de juros eventualmente aplicadas, se mensais ou anuais, se nominais ou efetivas,
seu período de incidência e sistema de amortização
VII. Informações acerca da possibilidade do exercício, por parte do adquirente do imóvel,
do direito de arrependimento previsto no art. 49 do CDC, em todos os contratos firmados
em estandes de vendas e fora da sede do loteador ou do estabelecimento comercial
VIII. Prazo para quitação das obrigações pelo adquirente após a obtenção do termo de
vistoria de obras
IX. Informações acerca dos ônus que recaiam sobre o imóvel
X. Número do registro do loteamento ou do desmembramento, a matrícula do imóvel e a
identificação do cartório de registro de imóveis competente
XI. Termo final para a execução do projeto (referido no §1º do art. 12) e data do protocolo
do pedido de emissão do termo de vistoria de obras
Identificada a ausência de quaisquer dessas informações, concede-se prazo de 30 dias
para aditamento do contrato e saneamento da omissão (§1º). Escoado o prazo sem que a
omissão seja sanada, caracteriza-se justa causa para rescisão contratual por parte do
adquirente.
A efetivação das consequências do desfazimento do contrato depende de anuência prévia e
específica do adquirente a seu respeito, mediante assinatura junto a essas cláusulas, detalha o
a§2º. Essas cláusulas devem ser redigidas com destaque, permitindo sua imediata e fácil
compreensão, em conformidade com o que exige o art. 54, §4º, do CDC.
Segundo o art. 25, são irretratáveis os compromissos de compra e venda, cessões e
promessas de cessão e, desde que registrados, conferem direito real oponível a
terceiros.
O dispositivo exige, ainda, que, para tanto, o contrato deve atribuir direito à adjudicação
compulsória ao comprador (a execução coativa). Isso ocorrerá por meio da inserção de
cláusula que veda o exercício de direito de arrependimento ou simplesmente pela
inexistência dessa cláusula no contrato.
No entanto, a jurisprudência atenua esse entendimento, compreendendo que essa
cláusula viola os objetivos da lei e, portanto, deve ser desconsiderada. Assim, mesmo
que haja cláusula de arrependimento, isso não retira do adquirente a possibilidade
de adjudicar compulsoriamente o bem.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 111/354
No caso de compromisso de compra e venda feito sobre loteamento e a venda de
terrenos para pagamento em prestações, não se pode estabelecer cláusula de
arrependimento. Isso porque, segundo a construção clássica da distinção entre as arras
penitenciais e as arras confirmatórias, o estabelecimento de cláusula de arrependimento
impediria a adjudicação compulsória do bem pelo compromissário adquirente.
Tal previsão traria evidente lesão ao adquirente, que poderia acabar tendo de se retirar
de um imóvel em virtude do arrependimento do vendedor, no caso de aquisição de um
imóvel situado em um loteamento cujo pagamento estava a ser feito em prestações. É o
entendimento do STF, na antiquíssima Sùmula 166.
Para ouvir ao áudio correspondente, acesse o LDI.
A Corte (Súmula 413) assentou também que a adjudicação compulsória, no caso de
compromisso de compra e venda, pode ser realizada mesmo que o imóvel ainda não tenha
sido loteado. Assim, ordena-se a abertura de matrícula própria, destacada da “matrícula mãe”,
como ocorre nos loteamentos ou de estabelecimento de condomínio edilício.
Essa medida, na esteira da anterior, pretende proteger o adquirente. A rigor, não seria possível
adjudicar compulsoriamente o bem, porque o bem, propriamente dito, ainda não existiria.
Existiria apenas uma expectativa de sua existência, quando do loteamento. No entanto, o
potencial lesivo dessa interpretação é evidentemente grande. Assim, por determinação judicial,
o promitente-adquirente não apenas adjudicará compulsoriamente o bem, como também o
cindirá, abrindo-se competente matrícula para registro.
Para ouvir ao áudio correspondente, acesse o LDI.
Como isso ocorrerá? Primeiro, veja-se que não importa a terminologia usada, se
compromisso de compra e venda, promessa de cessão, a proposta de compra, a reserva de
lote ou qualquer outro. Se do contrato constar a manifestação da vontade das partes, a
indicação do lote, o preço e modo de pagamento, e a promessa de contratar, aplica-se o
regime da Lei.
Pois bem, se o promitente-vendedor não cumprir a obrigação, ou seja, realizar o
contrato definitivo que permite o registro, o credor poderá notificá-lo para outorga
do contrato no prazo de 15 dias, sob pena de proceder-se ao registro de pré-
contrato, passando as relações entre as partes a serem regidas pelo contrato-padrão.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 112/354
Ele pode se negar a fazê-lo, porém, demonstrando que a parte que o requereu não
comprovou haver cumprido a sua prestação, nem a ofereceu na forma devida. Nesse
caso, em havendo impugnação, ela é processada na forma da obrigação de fazer,
contida nos arts. 815 e ss. do CPC.
O direito real estabelecido pelos compromissos é cessível por ato inter vivos e
transmissível por sucessão decorrente da morte do compromissário, prevê o art. 29. Os
cessionários e sucessores são obrigados a respeitar os compromissos de compra e venda em
todas as suas cláusulas, sendo nula qualquer disposição em contrário, ressalvado o direito do
herdeiro ou legatário de renunciar à herança ou ao legado.
Para dar segurança jurídica a essas transações, a insolvência de qualquer das partes não
rescindirá os contratos de compromisso de compra e venda ou de promessa de cessão que
tenham por objeto a área loteada. No caso de falência do proprietário da área loteada ou do
titular de direito sobre ela, incumbirá ao administrador dar cumprimento aos referidos
contratos; se do adquirente do lote, seus direitos serão levados à praça. De uma forma ou de
outra, os contratos mantêm-se incólumes.
De modo a simplificar essas contratações, o art. 31 permite que o contrato particular possa
ser transferido por simples trespasse, lançado no verso das vias em poder das partes, ou
por instrumento em separado, com subsequente registro.
Pode o adquirente ceder o contrato a terceiros, independentemente da anuência do
loteador. No entanto, seguindo a regra obrigacional geral de cessão de crédito, a eficácia
da cessão só ocorrerá depois da notificação do loteador, ou do registro (que goza de
eficácia erga omnes) da cessão na matrícula do imóvel. Nesse caso, estabelece o §2º do art. 31,
uma vez registrada a cessão, feita sem anuência do loteador, o oficial do Registro deve lhe dar
ciência, por escrito, dentro de 10 dias.
Ao promitente-comprador, inclusive, resta possível defender seu direito real contra terceirospor meio das ações possessórias. Igualmente, cabe mesmo proteger sua “sombra” de
propriedade com a ação reivindicatória, aponta a doutrina.
Em caso de inadimplemento do adquirente, deve o loteador constituí-lo em mora. O art. 32,
§1º, exige que a notificação seja realizada pelo oficial do Registro, para oportunizar a
purgação da mora. Conforme o art. 49, a notificação pode ser feita pelo Oficial de Títulos e
Documentos, que, na orientação do STJ, pode ser feita por Oficial outro que não o de
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 113/354
domicílio do devedor.
Certificado o inadimplemento e cancelada a averbação do registro, exige o art. 32-A a
restituição dos valores pagos ao adquirente, atualizados com base no índice
contratualmente estabelecido para a correção monetária das parcelas do preço do
imóvel. O que pode ser descontado dos valores pagos pelo adquirente?
I. Valores correspondentes à eventual fruição do imóvel, até o equivalente a 0,75%
sobre o valor atualizado do contrato, cujo prazo será contado a partir da data da
transmissão da posse do imóvel ao adquirente até sua restituição ao loteador
II. Montante devido por cláusula penal e despesas administrativas, inclusive arras ou
sinal, limitado a um desconto de 10% do valor atualizado do contrato
III. Encargos moratórios relativos às prestações pagas em atraso pelo adquirente
IV. Débitos de tributos sobre a propriedade, contribuições condominiais, associativas
ou outras de igual natureza que sejam a estas equiparadas e tarifas vinculadas ao
lote, bem como tributos, custas e emolumentos incidentes sobre a restituição e/ou
rescisão
V. Comissão de corretagem, desde que integrada ao preço do lote
O pagamento da restituição deve ocorrer em até 12 parcelas mensais. O §1º fixa o início após
um prazo de carência. Quais são os prazos de carência para o pagamento das 12 parcelas
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 114/354
mensais?
O §3º esclarece que esse procedimento não se aplica aos contratos e escrituras de compra e
venda de lote em alienação fiduciária previstos na Lei n° 9.514/1997. Curiosamente, nos casos
de inadimplemento ocasionada pelo adquirente, o art. 32, §2º, determina que no prazo de 60
dias, contado da constituição em mora, fica o loteador obrigado a alienar o imóvel mediante
leilão judicial ou extrajudicial, nos termos da referida Lei 9.514/1997. Ou seja, em caso de
inadimplemento do adquirente, a Lei 6.766/1979 não se aplica à Lei 9.514/1997, mas a Lei
9.514/1997 se aplica à Lei 6.766/1979...
Uma vez cancelado o registro por inadimplemento do contrato e tendo havido o pagamento
de mais de 1/3 do preço, o oficial menciona tal fato no ato do cancelamento e a quantia paga.
Aí, o vendedor deve, sob pena de não obter novo registro relativo ao mesmo lote, segundo o
art. 35:
O art. 35, §2º prevê que no caso de não se encontrar o interessado, o oficial deve depositar
a quantia em estabelecimento de crédito, segundo a ordem prevista no art. 840, inc. I, do
CPC/2015, em conta com incidência de juros e correção monetária. O §3º, por sua vez,
dispensa a comprovação prévia de restituição para efetivação de novo registro se as partes
convencionarem de modo diverso e de forma expressa no distrato.
Ao contrário, se a mora é do credor, porque se recusa a receber as prestações ou
impõe obstáculos ao devedor, o art. 33 prevê que o oficial o notifique para vir receber
as importâncias depositadas pelo devedor no próprio Registro de Imóveis.
Decorridos 15 dias sem manifestação, considera-se efetuado o pagamento, a menos
que ele impugne o depósito, alegando inadimplemento do devedor.
Em qualquer caso, havendo resolução contratual derivada do inadimplemento do
adquirente, o art. 34 estabelece que as benfeitorias necessárias ou úteis deverão ser
indenizadas, sendo absolutamente ineficaz qualquer disposição contratual em
contrário. De modo a evitar edificações que violem a ordem urbana, o §1º diz que não
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 115/354
Questão 2022 | 4000814604
(VUNESP / PGM-Marília -SP - 2016) Sobre a legislação federal que dispõe sobre o
parcelamento do solo, é correto a�rmar que:
A)
se considera desmembramento a subdivisão de gleba em lotes destinados a edi�cação,
com abertura de novas vias de circulação, de logradouros públicos ou prolongamento,
modi�cação ou ampliação das vias existentes.
B)
a legislação estadual de�nirá, para cada zona em que se divida o território dos
Municípios, os usos permitidos e os índices urbanísticos de parcelamento e ocupação do
solo, que incluirão, obrigatoriamente, as áreas mínimas e máximas de lotes e os
coe�cientes máximos de aproveitamento.
C)
nos Municípios cuja legislação for omissa, os prazos serão de noventa dias para a
aprovação ou rejeição de um projeto de parcelamento e de sessenta dias para a
aceitação ou recusa fundamentada das obras de urbanização executadas.
D) é possível que um mesmo lote situe-se em mais de uma circunscrição.
E)
é permitida a venda ou promessa de venda de parcela de loteamento ou
desmembramento ainda que não registrado.
Solução
Gabarito: C)
nos Municípios cuja legislação for omissa, os prazos serão de noventa dias
para a aprovação ou rejeição de um projeto de parcelamento e de sessenta
dias para a aceitação ou recusa fundamentada das obras de urbanização
executadas.
devem ser indenizadas as benfeitorias feitas em desconformidade com o contrato ou
com a lei.
Já o art. 36 traz as hipóteses nas quais o registro do compromisso, cessão ou
promessa de cessão poderão ser cancelados:
Obviamente, é proibido vender ou prometer vender parcela de loteamento ou
desmembramento não registrado, fixa o art. 37. Nesses casos, estipula o art. 38, o
adquirente deve suspender o pagamento das prestações restantes e notificar o loteador
para suprir a falta.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 116/354
A alternativa A está incorreta, pela literalidade do art. 2º, § 2º: “Considera-se
desmembramento a subdivisão de gleba em lotes destinados a edi�cação, com
aproveitamento do sistema viário existente, desde que não implique na abertura de
novas vias e logradouros públicos, nem no prolongamento, modi�cação ou ampliação dos
já existentes”.
A alternativa B está incorreta, segundo o art. 4º, § 1º: “A legislação municipal de�nirá,
para cada zona em que se divida o território do Município, os usos permitidos e os
índices urbanísticos de parcelamento e ocupação do solo, que incluirão,
obrigatoriamente, as áreas mínimas e máximas de lotes e os coe�cientes máximos de
aproveitamento”.
A alternativa C está correta, conforme o art. 16, § 2º: “Nos Municípios cuja legislação for
omissa, os prazos serão de noventa dias para a aprovação ou rejeição e de sessenta dias
para a aceitação ou recusa fundamentada das obras de urbanização”.
A alternativa D está incorreta, de acordo com o art. 21, § 1º: “Nenhum lote poderá situar-
se em mais de uma circunscrição”.
A alternativa E está incorreta, pela regra do art. 37: “É vedado vender ou prometer
vender parcela de loteamento ou desmembramento não registrado”.
Com a suspensão, o adquirente passa a depositar as prestações devidas no Registro
de Imóveis, que por sua vez as colocará no banco, na forma do art. 840, inc. I, do
CPC. Qualquer movimentação dessa conta, então, passa a depender de autorização
judicial. Feito isso, podem ocorrer duas situações, segundo os §§ do art. 38:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 117/354
O art. 39 da Lei ainda prevê que será nula de pleno direito qualquer cláusula de
resolução de contrato por inadimplemento do adquirente, quando o loteamento não
estiver regularmente inscrito. Assim, veda-se que o vendedor tome medidas coercitivas
em face dos adquirentes no caso de loteamento irregular.
O STJ já fixou entendimento (REsp 1.304.370/SP) de que descabe, por parte do
loteador, ação de rescisão de contrato de promessa de compra e venda de lote
situadoem loteamento irregular, ante a ilicitude do objeto. Trata-se de medida que visa
a punir o loteador irregular.
Assim, se o adquirente do terreno em loteamento irregular deixa de adimplir as parcelas
mensais, descabe a resolução do contrato. Deve, no caso, a ação ser extinta sem
resolução de mérito.
No caso de loteamento irregular, as parcelas vincendas devem ser depositadas
perante o Oficial do Registro de Imóveis, como manda a LPS. Assim, não deve o
adquirente continuar a pagar o vendedor, nem depositar judicialmente as parcelas, mas
efetuar os depósitos mensais junto no cartório.
A medida visa a coibir loteamentos irregulares, de modo que o vendedor terá onerado
seu patrimônio para ressarcir os cofres públicos pelos gastos que tiver com a
regularização. Como parte desses gastos é de competência do loteador, ao fazer o
loteamento de modo irregular, ele onera o Município, que deve ser ressarcido (REsp
1.189.173/AC).
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
Além disso, ponto para o qual que você precisa atentar é a competência para julgamento das
ações relativas à LPS. Comumente, a competência é da Justiça Estadual. No entanto, se o
loteamento irregular se assenta em área de propriedade da União (como é comum no
Distrito Federal), a competência para julgamento de crimes previstos pela LPS é da Justiça
Federal, fixou o STJ (CC 35.747-DF).
Por fim, segundo o art. 36-A, as atividades desenvolvidas pelas associações de proprietários
de imóveis, titulares de direitos ou moradores em loteamentos ou empreendimentos
assemelhados, desde que não tenham fins lucrativos, bem como pelas entidades civis
organizadas em função da solidariedade de interesses coletivos desse público com o
objetivo de administração, conservação, manutenção, disciplina de utilização e convivência,
visando à valorização dos imóveis que compõem o empreendimento, tendo em vista a sua
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 118/354
Disposições �nais
natureza jurídica, vinculam-se, por critérios de afinidade, similitude e conexão, à atividade de
administração de imóveis. Por isso, essa administração sujeita seus titulares à normatização
e à disciplina constantes de seus atos constitutivos, cotizando-se na forma desses atos para
suportar a consecução dos seus objetivos.
O adquirente de condomínio irregular não pode se eximir de pagar as cotas condominiais sob a
escusa de que ele é irregular. O adquirente do imóvel recebe os benefícios de ter sua
propriedade em um condomínio, pelo que deve pagar as cotas.
Em regra, o que os condomínios fazem quando o condômino inadimplente não possui
patrimônio facilmente atacável? Requerem a penhora da própria propriedade condominial.
Mas, e há como se fazer isso num condomínio irregular, já que o condômino não é, de direito,
proprietário da área? Segundo o STJ, é admissível a penhora dos direitos sobre fração de
imóvel, ainda que situado em condomínio irregular, pela execução das quantias não pagas a
título de cotas do próprio condomínio (REsp 901.906/DF).
Por se tratar de uma situação que, em regra, versa sobre áreas limítrofes entre a zona rural e a
zona urbana, o art. 53 da LPS estabelece que todas as alterações de uso do solo rural para
fins urbanos dependerão de prévia audiência do INCRA. Se se tratar de região metropolitana
urbana, o respectivo órgão metropolitano também deve ser ouvido.
Igualmente, não é incomum que a expansão urbana se dê para efetivar o direito à
moradia das pessoas de menor renda. Por isso, são considerados de interesse público
os parcelamentos vinculados a planos ou programas habitacionais de iniciativa entes
federados locais (Prefeitura ou DF), ou entidades autorizadas por lei, em especial as
regularizações de parcelamentos e de assentamentos.
Para facilitar a inclusão da moradia, não se exige documentação que não seja a mínima
necessária e indispensável aos registros no cartório competente nas ações e nas intervenções
relativas às áreas de interesse público.
Em arremate, a LPS tipifica várias condutas relativas aos atos que orbitam em torno do
parcelamento do solo. Ainda que não sejam comuns, é importante que você ao menos as
“tenha visto”. Isso porque, vez ou outra se questiona o assunto nas provas:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 119/354
Lei do Condomínio e Incorporação Imobiliária
Art. 50. Constitui crime contra a Administração Pública.
I - dar início, de qualquer modo, ou efetuar loteamento ou desmembramento do solo para fins
urbanos, sem autorização do órgão público competente, ou em desacordo com as disposições
desta Lei ou das normas pertinentes do Distrito Federal, Estados e Municípios;
II - dar início, de qualquer modo, ou efetuar loteamento ou desmembramento do solo para fins
urbanos sem observância das determinações constantes do ato administrativo de licença;
III - fazer ou veicular em proposta, contrato, prospecto ou comunicação ao público ou a
interessados, afirmação falsa sobre a legalidade de loteamento ou desmembramento do solo
para fins urbanos, ou ocultar fraudulentamente fato a ele relativo.
Pena: Reclusão, de 1(um) a 4 (quatro) anos, e multa de 5 (cinco) a 50 (cinquenta) vezes o maior
salário mínimo vigente no País.
Parágrafo único - O crime definido neste artigo é qualificado, se cometido:
I - por meio de venda, promessa de venda, reserva de lote ou quaisquer outros instrumentos
que manifestem a intenção de vender lote em loteamento ou desmembramento não registrado
no Registro de Imóveis competente.
II - com inexistência de título legítimo de propriedade do imóvel loteado ou desmembrado,
ressalvado o disposto no art. 18, §§ 4o e 5o, desta Lei, ou com omissão fraudulenta de fato a ele
relativo, se o fato não constituir crime mais grave.
Pena: Reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos, e multa de 10 (dez) a 100 (cem) vezes o maior
salário mínimo vigente no País.
Art. 51. Quem, de qualquer modo, concorra para a prática dos crimes previstos no artigo
anterior desta Lei incide nas penas a estes cominadas, considerados em especial os atos
praticados na qualidade de mandatário de loteador, diretor ou gerente de sociedade.
Art. 52. Registrar loteamento ou desmembramento não aprovado pelos órgãos competentes,
registrar o compromisso de compra e venda, a cessão ou promessa de cessão de direitos, ou
efetuar registro de contrato de venda de loteamento ou desmembramento não registrado.
Pena: Detenção, de 1 (um) a 2 (dois) anos, e multa de 5 (cinco) a 50 (cinquenta) vezes o maior
salário mínimo vigente no País, sem prejuízo das sanções administrativas cabíveis.
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
Você verá a análise da Lei 4.591/1964, a Lei do Condomínio em Edificações e Incorporação
Imobiliária, que passo a chamar a partir de agora de LCEI.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 120/354
Condomínio em Edi�cações
A LCEI trata, em verdade, de dois temas distintos, mas que têm ampla conexão: o Condomínio
e a Incorporação Imobiliária. É habitual que uma edificação, especialmente na zona urbana, e
especialmente em grandes centros, locais nos quais atualmente habita boa parte da população
brasileira, seja feita por incorporação imobiliária. Na sequência, finalizada a incorporação,
estabelece-se propriedade em regime condominial. Ou seja, a vinculação entre uma coisa e
outra é evidente.
Há um tipo de cargo no qual essa Lei cai com frequência enorme: Titular de Serviços de Notas
e de Registros. As provas para provimento de cartórios exigem com habitualidade elementos
da LCEI, dada a relevância dela para o Registro de Imóveis, pelo que você verá muitas questões
desse cargo.
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
A noção de condomínio é vista nas aulas regulares de Direito Civil. Condomínio é sinônimo de
multipropriedade ou copropriedade, ou seja, a situação na qual determinado bem é titularizado
por mais de um proprietário, ao mesmo tempo.
De regra, o condomínio17/354
O MCI reconhece que o acesso à internet é essencial ao exercício da cidadania. Por isso, o
art. 7º assegura ao usuário os seguintes direitos:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 18/354
O inc. X do art. 7º (“exclusão definitiva dos dados pessoais que tiver fornecido a
determinada aplicação de internet, a seu requerimento, ao término da relação entre as
partes, ressalvadas as hipóteses de guarda obrigatória de registros previstas nesta Lei”)
passa a ter nova redação com a Lei 13.706/2018, a Lei de proteção de dados pessoais –
LPD. A lei, de 15/08/2018, tem vacatio legis prevista no art. 65 de 18 meses. Assim,
vigente em 16/02/2020, o inc. X do art. 7º contará com duas ressalvas.
Além das “hipóteses de guarda obrigatória de registros previstas nesta Lei”, também se
ressaltam as “hipóteses de guarda obrigatória de registros previstas” na lei “que dispõe
sobre a proteção de dados pessoais”. Não há alteração sensível, portanto. Os dados
pessoais serão apagados, a requerimento do interessado, exceto nos casos de guarda
obrigatória de dados previstos no MCI e na LPD.
A garantia do direito à privacidade e à liberdade de expressão nas comunicações é
condição para o pleno exercício do direito de acesso à internet. Por isso, prevê o parágrafo
único do art. 8º que são nulas de pleno direito as cláusulas contratuais que violam essa
garantia. De modo a verticalizar esse raciocínio, o art. 8º estabelece que são nulas as
cláusulas contratuais que:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 19/354
Provisão de conexões e aplicativos
I. Neutralidade de rede
Talvez a parte mais importante do MCI seja exatamente a neutralidade da rede. Objeto de
intensa crítica por parte das empresas de telecomunicações e objeto de aplauso dos
defensores da rede livre, o art. 9º deixa claro que, pela neutralidade da rede, o responsável
pela transmissão, comutação ou roteamento tem o dever de tratar de forma isonômica
quaisquer pacotes de dados, sem distinção por conteúdo, origem e destino, serviço,
terminal ou aplicação.
Fica fácil de entender o que a neutralidade da rede significa com uma analogia rodoviária.
Imagine dois veículos na rodovia que liga São Paulo ao Rio de Janeiro, uma Ferrari e uma
Brasília. A Ferrari corre muito mais, o que lhe permite chegar ao Rio de Janeiro muito mais
rapidamente. A Brasília, porém, também consegue percorrer o mesmo trecho, sem restrições.
Agora, se a rodovia estiver absurdamente congestionada, provavelmente os dois carros
chegarão ao Rio ao mesmo tempo. Se a rodovia estiver parada, ambos ficarão parados no
mesmo lugar. Se dentro da Brasília há uma pessoa ou cinco, o congestionamento não muda a
situação delas. Se dentro da Ferrari há um riquíssimo empresário e na Brasília um simples
empregado, a rodovia e o tráfego são os mesmos.
Ou seja, cada pessoa pode ter um carro que corre mais ou menos, mas a estrada será a mesma
para todos. Não há uma faixa exclusiva para determinados veículos, ou para determinadas
pessoas, ou para carros que vêm de ou vão para um lugar específico. Isso é a neutralidade da
rede. A rede é a rodovia e os dados são os carros.
Quando vemos a rodovia – ou a rede – do alto de um avião, não conseguimos distingui-los.
Não sabemos de onde eles vêm nem para onde vão, nem de quem são ou para quem são. São
pequenos pontos percorrendo uma estrada, apenas. Assim são os dados da internet. Pontos
numa estrada.
O mesmo vale para a internet: o provedor de acesso pode ofertar velocidades de conexão
diferentes (como habitualmente se faz com planos de empresas de telecomunicações, e,
continuando com a analogia automobilística, as pessoas podem ter carros mais ou menos
rápidos), mas não pode distinguir ou discriminar os dados dos diferentes usuários.
Assim, se eu uso minha conexão para jogar MMORPG, visitar sites de notícias estrangeiros,
assistir seriados num aplicativo, conversar com a minha família que mora no exterior por
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 20/354
videoconferência, transmitir aulas de Direito pelo Youtube navegar pelo Facebook para stalkear
a vida dos meus amigos, ouvir o podcast do Salvo Melhor Juízo, acessar minha caixa de e-
mails, responder mensagens no site do meu escritório de advocacia, enfim, fazer o que eu bem
entender, não pode o provedor discriminar meus pacotes de dados. Mesmo que o que eu faça
seja ilícito ou imoral, a neutralidade é plena. Cada uma dessas ações gera pacotes de dados,
que, para o tráfego on line são todos iguais, em termos de volume de dados, mas que poderiam
ser filtrados para “discriminar” usuários e aplicativos.
Dessa forma, um provedor de telecomunicações poderia restringir meu acesso a determinados
sites ou aplicativos que ele julgasse economicamente ruins para ele, como um aplicativo de
seriados que concorreria com o grupo de telecomunicações que também vende pacotes de
televisão a cabo. Ou o grupo econômico X restringiria o acesso a domínios e aplicativos do
grupo econômico Y, e assim por diante.
(MPT / MPT - 2017) Sobre o Marco Civil da Internet, analise as seguintes
afirmativas:
I - A disciplina do uso da internet no Brasil tem como fundamento o respeito à liberdade
de expressão, o reconhecimento da escala mundial da rede, os direitos humanos, o
desenvolvimento da personalidade e o exercício da cidadania em meios digitais, a
pluralidade e a diversidade, a abertura e a colaboração, a livre iniciativa, a livre
concorrência e a defesa do consumidor e a finalidade social da rede.
II - A disciplina do uso da internet no Brasil tem como um de seus princípios a
neutralidade da rede, que se trata da vedação de sua utilização ou controle para fins
políticos ou partidários.
III - São nulas de pleno direito as cláusulas contratuais que violem a garantia à
privacidade e à liberdade de expressão nas comunicações.
IV - Como meio de exercício de cidadania, não é permitida a suspensão da conexão à
internet em virtude de débito diretamente decorrente de sua utilização.
Assinale a alternativa CORRETA:
a) Apenas as assertivas II e IV estão incorretas.
b) Apenas as assertivas I e III estão incorretas.
c) Apenas a assertiva III está correta.
d) Todas as assertivas estão corretas.
Comentários
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 21/354
O item I está correto, na literalidade do art. 2º, caput e incisos: “A disciplina do uso da
internet no Brasil tem como fundamento o respeito à liberdade de expressão, bem
como o reconhecimento da escala mundial da rede; os direitos humanos, o
desenvolvimento da personalidade e o exercício da cidadania em meios digitais; a
pluralidade e a diversidade; a abertura e a colaboração; a livre iniciativa, a livre
concorrência e a defesa do consumidor; e a finalidade social da rede”.
O item II está incorreto, porque o art. 3º, inc. IV (“A disciplina do uso da internet no
Brasil tem os seguintes princípios: preservação e garantia da neutralidade de rede”) se
remete, indiretamente, ao art. 9º estabelece, em linhas gerais, o que significa a
neutralidade da rede: “O responsável pela transmissão, comutação ou roteamento tem o
dever de tratar de forma isonômica quaisquer pacotes de dados, sem distinção por
conteúdo, origem e destino, serviço, terminal ou aplicação”. Ou seja, a neutralidade
nada tem a ver com “utilização ou controle para fins políticos ou partidários”.
O item III está correto, pela conjugação do art. 8º (“A garantia do direito à privacidade e
à liberdade de expressão nas comunicações é condição para o pleno exercício do
direito de acesso à internet”) com seu parágrafo único (“São nulas de pleno direito as
cláusulas contratuais que violem o disposto no caput”).
O item IV está incorreto, dada a permissão explícita do art. 7º, inc. IV: “O acesso à
internet é essencial ao exercício da cidadania, e ao usuário são assegurados os
seguintes direitos: não suspensão da conexão à internet, salvo por débito diretamente
decorrente deé extraordinário em relação ao direito de propriedade, que se presume
individual e exclusivo, dadas suas peculiares características, que incluem um certo caráter
egoístico na fruição. Por isso, o condomínio sempre será uma titularização não ordinária da
propriedade.
O condomínio geral, de qualquer forma, não se confunde com o condomínio edilício. Este é,
na prática, a forma mais comum de condomínio. Igualmente, quando se pensa em
condomínio em edificações, pensa-se no condomínio edilício voltado à zona urbana. O próprio
art. 6º da Lei Especial deixa isso bem claro:
Sem prejuízo do disposto nesta Lei, regular-se-á pelas disposições de direito comum o
condomínio por quota ideal de mais de uma pessoa sobre a mesma unidade autônoma.
Em outras palavras, o que o art. 6º quer dizer é que uma coisa é condomínio comum ou geral
e outra coisa é condomínio em edificações. Nada impede, porém, que uma unidade
habitacional, inserida num condomínio horizontal ou vertical (condomínio edilício), possa ser
cotitularizada por mais de um proprietário (condomínio comum ou geral).
Em que pese o Código Civil, nos arts. 1.331 e ss., ter tratado do condomínio edilício, a Lei
4.591/1964, Lei do Condomínio em Edificações e Incorporação Imobiliária – LCEI,
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 121/354
permanece em vigor naquilo que não confrontar com o CC/2002, que disciplinou a matéria.
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
Inclusive, antes de arrematarmos o tópico introdutório, ressalto que a LCEI regula as infrações
a que se sujeitam os incorporadores imobiliários. Não é tema frequete, mas vale trazer, desde
já, para que você comece a se familiarizar com o tema:
Art. 63. É lícito estipular no contrato, sem prejuízo de outras sanções, que a falta de
pagamento, por parte do adquirente ou contratante, de 3 prestações do preço da construção,
quer estabelecidas inicialmente, quer alteradas ou criadas posteriormente, quando fôr o caso,
depois de prévia notificação com o prazo de 10 dias para purgação da mora, implique na
rescisão do contrato, conforme nêle se fixar, ou que, na falta de pagamento, pelo débito
respondem os direitos à respectiva fração ideal de terreno e à parte construída adicionada, na
forma abaixo estabelecida, se outra forma não fixar o contrato.
§ 1º Se o débito não fôr liquidado no prazo de 10 dias, após solicitação da Comissão de
Representantes, esta ficará, desde logo, de pleno direito, autorizada a efetuar, no prazo que
fixar, em público leilão anunciado pela forma que o contrato previr, a venda, promessa de
venda ou de cessão, ou a cessão da quota de terreno e correspondente parte construída e
direitos, bem como a sub-rogação do contrato de construção.
§ 2º Se o maior lanço obtido fôr inferior ao desembôlso efetuado pelo inadimplente, para a
quota do terreno e a construção, despesas acarretadas e as percentagens expressas no
parágrafo seguinte será realizada nova praça no prazo estipulado no contrato. Nesta segunda
praça, será aceito o maior lanço apurado, ainda que inferior àquele total.
§ 3º No prazo de 24 horas após a realização do leilão final, o condomínio, por decisão unânime
de Assembléia-Geral em condições de igualdade com terceiros, terá preferência na aquisição
dos bens, caso em que serão adjudicados ao condomínio.
§ 4º Do preço que fôr apurado no leilão, serão deduzidas as quantias em débito, tôdas as
despesas ocorridas, inclusive honorário de advogado e anúncios, e mais 5% a título de
comissão e 10% de multa compensatória, que reverterão em benefício do condomínio de todos
os contratantes, com exceção do faltoso, ao qual será entregue o saldo, se houver.
§ 5º Para os fins das medidas estipuladas neste artigo, a Comissão de Representantes ficará
investida de mandato irrevogável, isento do impôsto do sêlo, na vigência do contrato geral de
construção da obra, com podêres necessários para, em nome do condômino inadimplente,
efetuar as citadas transações, podendo para êste fim fixar preços, ajustar condições, sub-rogar
o arrematante nos direitos e obrigações decorrentes do contrato de construção e da quota de
terreno e construção; outorgar as competentes escrituras e contratos, receber preços, dar
quitações; imitir o arrematante na posse do imóvel; transmitir domínio, direito e ação;
responder pela evicção; receber citação, propor e variar de ações; e também dos podêres ad
juditia, a serem substabelecidos a advogado lealmente habilitado;
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 122/354
Noções gerais
§ 6º A morte, falência ou concordata do condomínio ou sua dissolução, se se tratar de
sociedade, não revogará o mandato de que trata o parágrafo anterior, o qual poderá ser
exercido pela Comissão de Representantes até a conclusão dos pagamentos devidos, ainda que
a unidade pertença a menor de idade.
§ 7º Os eventuais débitos fiscais ou para com a Previdência Social, não impedirão a alienação
por leilão público. Neste caso, ao condômino sòmente será entregue o saldo, se houver, desde
que prove estar quite com o Fisco e a Previdência Social, devendo a Comissão de
Representantes, em caso contrário, consignar judicialmente a importância equivalente aos
débitos existentes dando ciência do fato à entidade credora.
§ 8º Independentemente das disposições dêste artigo e seus parágrafos, e como penalidades
preliminares, poderá o contrato de construção estabelecer a incidência de multas e juros de
mora em caso de atraso no depósito de contribuições sem prejuízo do disposto no parágrafo
seguinte.
§ 9º O contrato poderá dispor que o valor das prestações pagas com atraso, seja corrigível em
função da variação do índice geral de preços mensalmente publicado pelo Conselho Nacional
de Economia, que reflita as oscilações do poder aquisitivo da moeda nacional.
§ 10. O membro da Comissão de Representantes que incorrer na falta prevista neste artigo,
estará sujeito à perda automática do mandato e deverá ser substituído segundo dispuser o
contrato.
Art. 64. Os órgãos de informação e publicidade que divulgarem publicamente sem os requisitos
exigidos pelo § 3º do artigo 32 e pelos artigos 56 e 62, desta Lei, sujeitar-se-ão à multa em
importância correspondente ao dôbro do preço pago pelo anunciante, a qual reverterá em
favor da respectiva Municipalidade.
Extrai-se do art. 1º da LCEI o âmbito de aplicação do condomínio, qual seja, a edificação
ou conjunto de edificações com um ou vários pavimentos, construídos sob forma
isolada entre si, com partes exclusivas e comuns, destinados a fins residenciais ou
não-residenciais, que podem ser alienados, no todo ou em parte, objetivamente
considerados. Cada unidade constitui propriedade autônoma, sujeita às limitações
da Lei.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 123/354
O Enunciado 89 da I Jornada de Direito Civil amplia essa compreensão, prevendo que as
normas do condomínio edilício se aplicam, no que couber, aos condomínios assemelhados,
tais como loteamentos fechados, multipropriedade imobiliária e clubes de campo. Assim, a
aplicabilidade da LCEI aumenta exponencialmente, por interpretação extensiva desse
Enunciado.
De modo a individualizar cada unidade, elas devem ser assinaladas por designação
especial, numérica ou alfabética, para efeitos de identificação e discriminação. É o que
se vê comumente, quando se dá a cada apartamento um número (Edifício X, apto. 3205),
uma letra (Edifício X, apto. C) ou uma indicação alfanumérica (Edifício X, apto. B-35).
Cada uma das unidades, para além da parte que constitui propriedade exclusiva, inclui,
como parte inseparável, uma fração ideal do terreno e coisas comuns, expressa sob
forma decimal ou ordinária (§2º).
As unidades, individual e diretamente, podem ou não ter saída à via pública. Usualmente,
quando visualizamos um condomínio, não têm as unidades saída direta à via pública;
antes, é necessário acessar uma passagem comum. Com ou sem saída direta, o art. 2ºestabelece que cada uma das unidades será sempre tratada como objeto de
propriedade exclusiva, qualquer que seja o número de suas peças e sua destinação,
inclusive edifício-garagem, com ressalva das restrições que se lhe imponham.
Quanto à garagem, porém, há de se atentar para uma peculiaridade. Ela pode constituir uma
unidade autônoma ou parte da propriedade da área exclusiva detida pelo proprietário. No
primeiro caso, a garagem terá uma fração ideal das áreas comuns correspondentes, e
destacada da fração ideal do apartamento; no segundo, ao contrário, a garagem, constituindo
parte do apartamento, não possuirá fração ideal independente.
Em regra, a vaga de garagem pode ser transferida apenas a outro condômino,
independentemente da alienação da unidade autônoma a que corresponder. A LCEI
determina a vedação da transferência da vaga a pessoas estranhas ao condomínio, mas o
CC/2002 passou a permitir a alienação, desde que expressamente prevista na convenção.
Isso é relevante, especialmente, em edifícios comerciais, nos quais há menos “pessoalização”
desse tipo de propriedade. Contrariamente, quando se tratar de edifício-garagem, ou seja, de
edificação destinada exclusivamente a vagas de garagens, às vagas serão atribuídas frações
ideais de terreno específicas (art. 2º, §3º).
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 124/354
A respeito do tema, o Enunciado 91 da I Jornada de Direito Civil, é polêmico. Isso porque ele é
bastante adequado aos condomínios residenciais, já que o trânsito de pessoas estranhas ao
condomínio é bastante limitado, sendo que, em regra, não é possível a alguém adentrar nas
dependências do condomínio sem a autorização de um dos moradores.
Porém, em se tratando de condomínio comercial, a proibição à locação de garagens a terceiros
estranhos ao condomínio parece militar por se considerar excessiva. Numerosos condomínios
comerciais não restringem o acesso de pessoas em suas dependências ou fazem um controle
bastante pequeno. De qualquer sorte, a restrição a locação de área de garagem a estranhos
ao condomínio depende da convenção do condomínio ou de decisão da assembleia geral.
Para ouvir ao áudio correspondente, acesse o LDI.
Ainda sobre a vaga de garagem, o art. 1.338 do CC/2002 é um dos artigos que dizem menos
do que deveria ter dito. Estabelece que se o condômino alugar área de garagem, prefere-se,
em condições iguais, quaisquer dos condôminos a estranhos. Havendo pluralidade de
condôminos preferem-se os possuidores. É a lógica do Direito Civil.
De outra banda, prevê o art. 1.322 que “Quando a coisa for indivisível, e os consortes não
quiserem adjudicá-la a um só, indenizando os outros, será vendida e repartido o apurado,
preferindo-se, na venda, em condições iguais de oferta, o condômino ao estranho, e entre os
condôminos aquele que tiver na coisa benfeitorias mais valiosas, e, não as havendo, o de
quinhão maior”. Essa regra é própria do condomínio geral.
No condomínio edilício, não há preferência dos demais condôminos na alienação da coisa. Isso
porque ao contrário do condomínio edilício, no qual há partes de uso exclusivo, no condomínio
geral há copropriedade sobre a coisa toda, o que explica o direito de preferência. Não há razão
prática para se estabelecer direito de preferência dos demais condôminos no caso de
condomínio edilício. Novamente, é a lógica do Direito Civil.
E se o condômino (de um condomínio edilício) resolver alienar sua vaga de garagem, que tem
matrícula própria? A rigor, não há preferência para os demais condôminos, evidentemente, mas
razões de ordem prática indicam que a melhor solução seria justamente estabelecer
preferência a eles. Essa é a racionalidade do Enunciado 320, que, conjugando o art. 1.322 com
o art. 1.338 prevê que há preferência dos demais condôminos não apenas na locação, mas
igualmente na alienação da vaga de garagem.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 125/354
Para ouvir ao áudio correspondente, acesse o LDI.
Somando-se o art. 1º, §2º com o art. 1º, conseguimos visualizar a diferença entre o condomínio
geral e o condomínio em edificações. Naquele, há uma copropriedade integral, sem que cada
proprietário possa exercer, com exclusividade, a propriedade sobre qualquer fração da coisa
comum. Neste, ao contrário, há áreas exclusivas, que somente são utilizáveis pelo
proprietário individual, e áreas comuns, que são utilizáveis por todos os condôminos.
O art. 3º da LCEI deixa isso bem claro, dispondo que:
O terreno em que se levantam a edificação ou o conjunto de edificações e suas instalações,
bem como as fundações, paredes externas, o teto, as áreas internas de ventilação, e tudo o
mais que sirva a qualquer dependência de uso comum dos proprietários ou titulares de direito
à aquisição de unidades ou ocupantes, constituirão condomínio de todos, e serão insuscetíveis
de divisão, ou de alienação destacada da respectiva unidade. Serão, também, insuscetíveis de
utilização exclusiva por qualquer condômino.
Há, portanto, um misto de propriedade individual e de propriedade comum nos
condomínios edilícios. Mas, como fica a transferência dessa propriedade complexa para
terceiros? O art. 3º já deixou claro que não se pode alienar ou subdividir a fração ideal
correspondente às partes de uso comum, de maneira destacada da unidade
autônoma.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 126/354
O art. 4º, por sua vez, estabelece que na alienação de cada unidade, a transferência de
direitos pertinentes à sua aquisição e a constituição de direitos reais sobre ela
independem do consentimento dos condôminos. Ou seja, a alienação da unidade em
condomínio, que inclui a área exclusiva e a fração ideal sobre as áreas comuns, é
livre, tal qual qualquer propriedade em geral.
Em que pese a LCEI prever que a alienação ou transferência do bem dependa de prova
de quitação das obrigações do alienante para com o respectivo condomínio, o CC/2002
revogou tacitamente essa norma. Pode haver livre disposição, ainda que existam
débitos, mas prevê o art. 1.345 que o adquirente da unidade responde pelos débitos
existentes, inclusive multas e juros moratórios. Trata-se, assim, de bom exemplo de
obrigação real.
O condomínio pode, segundo o art. 7º, ser instituído por ato entre vivos ou por testamento,
com inscrição obrigatória no Registro de Imóvel, dele constando:
O Enunciado 504 da V Jornada de Direito Civil prevê situação comum nas incorporações
imobiliárias. A instituição e convenção de condomínio não são registradas pelos adquirentes,
mas pelo próprio proprietário da coisa a ser cindida. Por isso, entende-se que a escritura pode
ser firmada pelo titular único da edificação, mesmo antes da alienação das unidades
autônomas.
Para ouvir ao áudio correspondente, acesse o LDI.
Pode, igualmente, ser instituído condomínio em edifício futuro, sujeito a implantação
posterior. Nesse caso, o art. 8º exige:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 127/354
Convenção de condomínio
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O art. 9º da LCEI estabelece que os proprietários das unidades autônomas, em
edificações a serem construídas, em construção ou já construídas, devem elaborar,
por escrito, a Convenção de condomínio. Igualmente, devem, por contrato ou por
deliberação em assembleia, aprovar o Regimento Interno da edificação ou do conjunto
de edificações.
A Convenção deve, posteriormente, ser registrada no Registro de Imóveis, bem como a
averbação das suas eventuais alterações sucessivas. Mas, qual é o quorum de aprovação
da Convenção? Segundo o §2º do art. 9º considera-se aprovada e obrigatória para os
proprietários das unidades a Convenção que reúna as assinaturas de titulares de
direitos que representem, no mínimo, 2/3 das frações ideais que compõem o
condomínio.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 128/354
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
E o quedeve estar contido na Convenção? O §3º não limita o conteúdo da Convenção, mas
estabelece regras mínimas que devem lá estar contidas:
Veja que o art. 9º, §3º, alínea m da LCEI estabelecia o seguinte: “Além de outras normas
aprovadas pelos interessados, a Convenção deverá conter a forma e o quorum para a
aprovação do Regimento Interno quando não incluídos na própria Convenção”. Dentre as várias
normas que foram tacitamente revogadas estava o referido dispositivo, por força do art. 1.351 do
CC/2002.
Em sua redação original, o art. 1.351 estabelecia que “Depende da aprovação de dois terços dos
votos dos condôminos a alteração da convenção e do regimento interno; a mudança da
destinação do edifício, ou da unidade imobiliária, depende de aprovação pela unanimidade dos
condôminos”. A Lei 10.931/2004 deu nova redação a esse artigo, que passou a prever que
“Depende da aprovação de 2/3 (dois terços) dos votos dos condôminos a alteração da
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 129/354
convenção; a mudança da destinação do edifício, ou da unidade imobiliária, depende da
aprovação pela unanimidade dos condôminos”.
Posteriormente, a Lei 14.405/2022 modificou novamente o art. 1.351, que passou a ter a
seguinte redação: “Depende da aprovação de 2/3 (dois terços) dos votos dos condôminos a
alteração da convenção, bem como a mudança da destinação do edifício ou da unidade
imobiliária”. Houve mudança quanto ao quórum da mudança da destinação do edifício e das
unidades imobiliárias.
Desde 2004, e mesmo depois da alteração de 2022, o CC/2002 deixou de minudenciar a
exigência de quorum para a alteração do regimento interno, pelo que restou o questionamento
acerca de qual quorum seria necessário. O Enunciado 248 da III Jornada de Direito Civil prevê,
logicamente, que não havendo exigência legal a respeito de quorum, o quorum para alteração
do regimento interno do condomínio edilício pode ser livremente fixado na convenção.
Para ouvir ao áudio correspondente, acesse o LDI.
O CC/2002 ainda agrega outras disposições à Convenção estabelecida na LCEI, como as
sanções aos condôminos e a competência das diferentes assembleias. Ademais, o art. 10 prevê
as condutas proibidas aos condôminos:
No caso de transgressão dessas regras, o §1º estabelece que o condômino ficará sujeito ao
pagamento de multa prevista na Convenção ou no regulamento do condomínio. O art. 1.336,
§2º do CC/2002, por sua vez, limita essa multa a 5 vezes o valor da cota condominial,
independentemente de perdas e danos, caso prevista tal multa da Convenção (se não, depende
de assembleia com deliberação por 2/3 dos condôminos).
Quanto ao “uso da unidade de forma nociva”, foco de disputa nos condomínios edilícios são os
pets dos condôminos. A proibição prevista na convenção de condomínio à presença de
animais em unidades autônomas residenciais deve ser analisada de acordo com os níveis
de sossego, saúde e segurança do condomínio, bem como com as especificidades do caso
concreto, como por exemplo, a utilização terapêutica de animais de maior porte.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 130/354
Questão 2022 | 4000814577
(FCC / AL-PB - 2013) Quanto ao condomínio em edi�cações, é correto a�rmar:
A)
A convenção que constitui o condomínio edilício deve ser subscrita pelos titulares de, no
mínimo, três quartos das frações ideais, tornando-se obrigatória contra terceiros a partir
do Registro no Cartório Imobiliário.
B)
Institui-se o condomínio edilício exclusivamente por ato entre vivos, registrado no
Cartório de Registro de Imóveis.
C) A convenção condominial deve necessariamente ser feita por escritura pública.
D)
O condômino, ou possuidor, que não cumpre reiteradamente com os seus deveres
perante o condomínio poderá, por deliberação de três quartos dos condôminos
restantes, ser constrangido a pagar multa correspondente até ao quíntuplo do valor
atribuído à contribuição para as despesas condominiais, conforme a gravidade das faltas
e a reiteração, independentemente das perdas e danos que se apurem.
E)
Não é permitido ao condômino alienar parte acessória de sua unidade imobiliária, seja a
outros condôminos, seja a terceiros, pois o acessório vincula-se ao principal.
Solução
Gabarito: D)
O condômino, ou possuidor, que não cumpre reiteradamente com os seus
deveres perante o condomínio poderá, por deliberação de três quartos dos
condôminos restantes, ser constrangido a pagar multa correspondente até ao
quíntuplo do valor atribuído à contribuição para as despesas condominiais,
conforme a gravidade das faltas e a reiteração, independentemente das
perdas e danos que se apurem.
A alternativa A está incorreta, nos termos do art. 9º, 2º da LCEI: “Considera-se aprovada,
e obrigatória para os proprietários de unidades, promitentes compradores, cessionários e
promitentes cessionários, atuais e futuros, como para qualquer ocupante, a Convenção
Evita-se, assim, a vedação abusiva na convenção, já que, à toda evidência, não é de se esperar
que um iguana, uma tartaruga ou um peixe, sejam capazes de desassossegar a vizinhança. O
caso concreto deve ditar quando a restrição é válida ou abusiva, fixa o Enunciado 566 da VI
Jornada de Direito Civil.
Para ouvir ao áudio correspondente, acesse o LDI.
Mas é possível alterar a fachada? Segundo o art. 10, §2º, o proprietário poderá fazer obra que
modifique sua fachada, se obtiver a aquiescência da unanimidade dos condôminos.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 131/354
que reúna as assinaturas de titulares de direitos que representem, no mínimo, 2/3 das
frações ideais que compõem o condomínio”.
A alternativa B está incorreta, segundo o art. 7º: “O condomínio por unidades autônomas
instituir-se-á por ato entre vivos ou por testamento, com inscrição obrigatória no Registro
de Imóvel, dêle constando; a individualização de cada unidade, sua identi�cação e
discriminação, bem como a fração ideal sôbre o terreno e partes comuns, atribuída a
cada unidade, dispensando-se a descrição interna da unidade”.
A alternativa C está incorreta, pela literalidade do art. 9º: “Os proprietários, promitentes
compradores, cessionários ou promitentes cessionários dos direitos pertinentes à
aquisição de unidades autônomas, em edi�cações a serem construídas, em construção
ou já construídas, elaborarão, por escrito, a Convenção de condomínio, e deverão,
também, por contrato ou por deliberação em assembléia, aprovar o Regimento Interno da
edi�cação ou conjunto de edi�cações”.
A alternativa D está correta, na dicção do art. 1.337 do CC/2002: “O condômino, ou
possuidor, que não cumpre reiteradamente com os seus deveres perante o condomínio
poderá, por deliberação de três quartos dos condôminos restantes, ser constrangido a
pagar multa correspondente até ao quíntuplo do valor atribuído à contribuição para as
despesas condominiais, conforme a gravidade das faltas e a reiteração,
independentemente das perdas e danos que se apurem”.
A alternativa E está incorreta, pela leitura do art. 2º, § 2º: “O direito de que trata o § 1º
dêste artigo poderá ser transferido a outro condômino, independentemente da alienação
da unidade a que corresponder, vedada sua transferência a pessoas estranhas ao
condomínio”.
E para fins tributários, como é tratado o condomínio? Ele não é, lembre-se das aulas de Teoria
Geral do Direito Civil, uma pessoa jurídica. Até tem CNPJ (Cadastro Nacional das Pessoas
Jurídicas), mas não é PJ, contraditoriamente. O CNPJ justifica-se apenas para facilitar
determinadas relações jurídicas, como a aquisição de um bem em nome do condomínio e o
pagamento de funcionários. O condomínio edilício é o típico exemplo de uma “pessoa jurídica
que pessoa jurídica não é”.
Não à toa, o art. 11 estabelece com clareza que para efeitos tributários, cada unidade
autônoma será tratada como prédio isolado, contribuindo o respectivo condômino,
diretamente, com as importâncias relativas aos impostos respectivos.
Porém, o Enunciado 90 da I Jornada deDireito Civil, alterado pelo Enunciado 246 da III
Jornada, prevê ainda que deve ser reconhecida personalidade jurídica ao condomínio
edilício. O condomínio é tradicionalmente exemplificado como um ente
despersonalizado, cuja presentação (na terminologia ponteana mais técnica) se dá pelo
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 132/354
Despesas de condomínio
Questão 2022 | 4000814585
(FCC / TJ-PE - 2015) Em Assembleia Geral Extraordinária do Condomínio Edifício Parque
das Aves, e para a qual todos os condôminos foram convocados, por maioria absoluta de
votos foi deliberada a cobrança de uma contribuição mais alta dos condôminos em cujas
unidades haviam sido realizadas reformas que as valorizaram e cujos proprietários
ocupam as duas vagas de garagem pertencentes a cada apartamento, enquanto a
maioria dos moradores só ocupava uma delas. Essa deliberação é
A)
inválida, porque, salvo disposição em contrário na convenção, a contribuição para as
despesas do condomínio deve ser proporcional à fração ideal atribuída a cada unidade.
B)
inválida, porque, em um condomínio, deve ser igual a contribuição dos condôminos,
independentemente do valor da unidade autônoma.
C)
válida, porque a decisão foi tomada em assembleia geral extraordinária, por maioria
absoluta, atendendo à disposição legal que rege a matéria concernente à cobrança de
síndico; no entanto, como ele pode, inclusive, ter CNPJ, compreende-se a motivação do
Enunciado. Objetivamente, ele continua sendo um ente despersonalizado.
Quanto às despesas condominiais, o CC/2002 avançou em relação à LCEI. Ela, no art.
12, prevê que cada condômino concorrerá nas despesas do condomínio, recolhendo,
nos prazos previstos na Convenção, a quota-parte que lhe couber em rateio.
Como se fará esse rateio? Salvo disposição em contrário na Convenção, a fixação da
quota no rateio corresponderá à fração ideal de cada unidade. Em caso de
inadimplemento do condômino, compete ao síndico arrecadar as contribuições, se
necessário for, por via executiva.
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 133/354
despesas condominiais.
D)
inválida, porque salvo disposição em contrário da convenção, a contribuição para as
despesas do condomínio deve ser proporcional à área de cada unidade
E)
válida, porque as decisões tomadas em assembleia regularmente convocada sempre
obrigam a todos os condôminos.
Solução
Gabarito: A)
inválida, porque, salvo disposição em contrário na convenção, a contribuição
para as despesas do condomínio deve ser proporcional à fração ideal atribuída
a cada unidade.
A alternativa A está correta, na forma do art. 12, §1º da LCEI: “Salvo disposição em
contrário na Convenção, a �xação da quota no rateio corresponderá à fração ideal de
terreno de cada unidade”.
A alternativa B está incorreta, já que pode haver diferentes valores cobrados de
diferentes condôminos, em vista da fração ideal do terreno de cada um.
A alternativa C está incorreta, porque, conforme mencionamos, o art. 12, §1º exige que se
estabeleça em contrário não em assembleia, mas na Convenção, o que não ocorreu.
A alternativa D está incorreta, na sua parte �nal, pois a variação se dá em decorrência
da fração ideal do terreno, não da área da unidade.
A alternativa E está incorreta, pelas mesmas razões já mencionadas nas alternativas
anteriores
Quanto aos limites dos acessórios da taxa condominial mensal, o CC/2002 alterou
radicalmente a LCEI, diminuindo o limite máximo da multa de 20% para 2%. O valor dos juros
moratórios de 1% ao mês foi mantido. Como o CC/2002 silenciou a respeito da correção
monetária, entende-se que a LCEI continua válida, permitindo-se sua cobrança.
Mas o CC/2002 foi adiante, já que o art. 1.337 permite que se cobre multa correspondente até
ao quíntuplo do valor atribuído à contribuição para as despesas condominiais, no caso de
condômino que não cumpra insistentemente com os seus deveres perante o condomínio,
conforme a gravidade das faltas e a reiteração, independentemente das perdas e danos que se
apurem.
Prevê o 1.337 que o condômino que não cumpre repetidamente com os seus deveres perante
o condomínio pode, por deliberação de três quartos dos condôminos restantes, ser
constrangido a pagar multa correspondente até ao quíntuplo do valor atribuído à contribuição
para as despesas condominiais. O valor da multa vai variar conforme a gravidade das faltas e a
reiteração, independentemente das perdas e danos que se apurem.
No entanto, o dispositivo legal não prevê procedimento algum para imputação da penalidade,
apenas seus limites. Segundo o Enunciado 92 da I Jornada de Direito Civil, essas sanções não
podem ser aplicadas sem a garantia do exercício do direito de defesa do condômino que
se pretende punir.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 134/354
Para ouvir ao áudio correspondente, acesse o LDI.
Além do mais, o parágrafo único do art. 1.337 do CC/2002 prevê que o condômino que, por
seu frequente comportamento antissocial, gerar incompatibilidade de convivência com os
demais condôminos ou possuidores, poderá ser constrangido a pagar multa correspondente ao
décuplo do valor atribuído à contribuição para as despesas condominiais, até ulterior
deliberação da assembleia.
Não só. O Enunciado 508 da V Jornada de Direito Civil estabelece que é justificável a
exclusão do condômino antissocial, desde que a ulterior assembleia prevista na parte final
do parágrafo único do art. 1.337 delibere a propositura de ação judicial com esse fim,
asseguradas todas as garantias inerentes ao devido processo legal. Assim, se mesmo
depois de todas as penalidades pecuniárias, a assembleia reconhece não haver alternativa e
resolve propor ação judicial, pode-se, por meio dela, excluir o condômino, afastando-se seus
poderes proprietários.
Para ouvir ao áudio correspondente, acesse o LDI.
E quanto aos créditos das cotas condominais: quem tem preferência na execução, o
condomínio ou o credor hipotecário? O STJ definiu que o condomínio detém essa
preferência, na Súmula 478. Essa interpretação é uma consequência da compreensão mesma
de condomínio: a copropriedade.
Trata-se, mais uma vez, da boa e velha lógica do Direito Civil que eu friso tanto. O direito dos
coproprietários se sobrepõe, portanto, ao direito daqueles que detêm garantia real. É, a rigor,
um raciocínio semelhante à preferência dada primeiro ao coproprietário, em detrimento do
locatário, na alienação do bem locado.
Você lembra que, pelas regras de preferência, com o perdão da tautologia, o proprietário tem
preferência em relação àquele que detém um direito real limitado; igualmente, o detentor de
um direito real tem preferência sobre o detentor de um direito obrigacional? Se sim, fica fácil
compreender várias regras.
Para ouvir ao áudio correspondente, acesse o LDI.
E se a discussão envolver crédito tributário e cota condominial? O STJ (REsp 1.584.162/SP)
estabelece que, na execução de dívidas condominiais e tributárias, os créditos tributários
gozam de preferência sobre o produto da alienação. De novo, basta lembrar da lógica do
Direito Civil, já que o interesse particular não pode se sobrepor ao interesse público, sujeitando-
se a propriedade privada à funcionalização social.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 135/354
Ademais, o STJ (REsp 1.564.030/MG) já definiu que não pode o condomínio restringir o
acesso do condômino inadimplente às áreas de uso comum, notadamente as de lazer, eis
que o ordenamento civil já prevê penalidades para o inadimplente. Do contrário, haveria
verdadeiro bis in idem, já que o inadimplente estaria sujeito às penas pecuniárias previstas em
lei, bem como às penas não pecuniárias impostas pelo condomínio, representado pelo síndico.
Há nesses casos, evidente abuso de direito e desproporção na penalização da conduta do
condômino, mesmo que seja ele recalcitrante no inadimplemento. A Corte entende quequanto ao inadimplemento, a norma jurídica não deixa espaço de discricionariedade na
criação, implementação e imposição de penas ao condômino. Inclusive, uma das poucas
exceções previstas na Lei 8.009/1990 à impenhorabilidade do bem de família é precisamente o
inadimplemento das cotas condominiais.
E qual a lógica que, no fundo, levou o STJ a decidir nesse sentido? A lógica é que as partes
comuns, que se traduzem numa fração ideal ao condômino, fazem parte do direito de
propriedade. A base do seu uso, portanto, se conecta intrinsecamente com a propriedade, que
não pode ser limitada por ato do condomínio, exceto nas situações previstas a condômino
que tem comportamento antissocial.
Ainda quanto à questão da cota condominial, na V Jornada de Direito Civil foi aprovado o
Enunciado 505. Segundo ele, é nula a estipulação que, dissimulando ou embutindo multa acima
de 2%, confere suposto desconto de pontualidade no pagamento da taxa condominial, pois
configura fraude à lei, e não redução por merecimento.
Para ouvir ao áudio correspondente, acesse o LDI.
Na realidade, a discussão é semelhante, se não idêntica à ocorrida no seio da Lei 8.245/1991, a
Lei de Locações, a respeito do desconto de pontualidade fornecido, em geral, pelas
imobiliárias. O STJ, no AgRg no REsp 1.217.181, entendeu que tal prática é possível e não viola as
normas do CC/2002.
Nada obstante, me parece possível compatibilizar o entendimento permissivo do STJ
estampado no AgRg no REsp 1.217.181 com o entendimento restritivo do Enunciado 505 do
CJF. A chave de resolução está no contrato de locação e na decisão do STJ a respeito do
mesmo tema, mas aplicado à relação locatícia, como ficou assentado no REsp 832.293/PR.
O desconto para pagamento pontual do aluguel – abono ou bônus pontualidade – é liberalidade
e tem o objetivo de induzir o condômino a cumprir corretamente seu encargo de maneira
pontual e até antecipada. A multa contratual, por sua vez, tem natureza de sanção, incidindo
apenas quando houver atraso no cumprimento da prestação, sendo uma consequência, de
caráter punitivo, pelo não cumprimento do que fora acordado, desestimulando tal
comportamento.
Assim, em princípio, as cláusulas de abono pontualidade e de multa por impontualidade são
válidas, segundo o STJ (REsp 832.293/PR). Para isso, porém, a Corte estabeleceu as seguintes
exigências: a) deve haver desconto para pagamento em datas precedentes ao vencimento
do título, a título de bônus de pontualidade; b) deve incidir a multa contratual, quando do
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 136/354
Seguro, demolição e reconstrução do condomínio
pagamento após o vencimento, tendo como base de cálculo da sanção o valor cheio do
aluguel.
Deve-se verificar no contrato de locação a compatibilidade entre as datas para a incidência de
abono pontualidade e de multa por impontualidade, portanto. Por isso, aplicando esse mesmo
entendimento à questão condominial, permitir-se-á, me parece, a previsão de abono-
pontualidade, em convivência com a multa moratória prevista no art. 1.336, §1º do
CC/2002, desde que cumpridas as exigências supracitadas. Inversamente, se a multa e o
desconto se aplicam no mesmo dia, ela é fraudatória e deve ser afastada:
De volta à LCEI, o art. 12, §4º, prevê que as obras que interessarem à estrutura integral da
edificação ou conjunto de edificações, ou ao serviço comum, serão feitas com o concurso
pecuniário de todos os proprietários ou titulares de direito à aquisição de unidades, mediante
orçamento prévio aprovado em assembleia geral, podendo incumbir-se de sua execução o
síndico ou outra pessoa, com aprovação da assembleia.
O CC/2002 vai adiante, estabelecendo o quorum para cada tipo de obra. Vejamos:
De maneira excepcional, a propriedade em condomínio edilício vincula a contratação de
seguro da edificação, em vista do potencial danoso que pode atingir número substancial
de pessoas. Esse seguro, segundo o art. 13, deve abranger todas as unidades
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 137/354
autônomas e partes comuns, contra incêndio ou outro sinistro que cause destruição
no todo ou em parte, computando-se o prêmio nas despesas ordinárias do
condomínio.
O seguro deve ser feito obrigatoriamente dentro de 120 dias, contados da data da
concessão do "habite-se", sob pena de ficar o condomínio sujeito à multa mensal
equivalente a 1/12 do IPTU.
Bom, mas o seguro serve para cobrir eventuais prejuízos (contrato essencialmente
aleatório, portanto), correto? E se ocorrer o pior? Nesse caso, o art. 14 estabelece que,
na ocorrência de sinistro total, ou que destrua mais de dois terços de uma
edificação, seus condôminos devem se reunir em assembleia especial, deliberando
sobre a sua reconstrução ou venda do terreno e materiais, por quorum mínimo de
votos que representem metade mais uma das frações ideais do respectivo terreno.
Nessa assembleia surgirão duas possíveis opções:
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
E o que acontece no caso de a minoria não concordar com a reedificação? Nesse caso, a
maioria poderá adquirir as partes dos dissidentes, mediante avaliação judicial, feita em
vistoria.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 138/354
Se a minoria se recusar a transmitir a propriedade, a maioria pode adjudicar, por sentença, as
frações ideais da minoria. Para exercitar tal ação, o art. 15, §1º, da LCEI exige que a maioria
deposite judicialmente o valor arbitrado na vistoria para avaliação.
Feito o depósito, o juiz, liminarmente, pode autorizar a adjudicação à maioria, e a minoria
poderá levantar as importâncias depositadas. O Oficial do Registro de Imóveis, nesses casos,
fará constar do registro que a adjudicação foi resultante de medida liminar.
Feito o depósito, será ordenada a citação, com o prazo de 10 dias para a
contestação. Preste atenção, pois esse prazo é diverso do estabelecido pelo NCPC.
Ademais, agora, o prazo é contado em dias úteis, mas continua sendo de 10 dias, e
não de 15 dias, como na norma processual geral.
Atente também porque o dispositivo determina a citação por mandado, mas não
parece haver razão específica para tanto. Nesse sentido, a citação passaria a ser
feita na forma do art. 240 c/c art. 231 do NCPC, prioritariamente por carta com aviso
de recebimento. Não há posição fechada a respeito na doutrina ou na jurisprudência,
mas creio que essa seja a solução mais razoável para a releitura do dispositivo
especial à luz das regras do CPC.
Se não contestado, o juiz, imediatamente, julgará o pedido. Se contestado o pedido, segue o
processo e o juiz julga, posteriormente. Se a sentença fixar valor superior ao da avaliação feita
na vistoria, o condomínio em execução restituirá à minoria a respectiva diferença, acrescida de
juros de mora de 1% ao mês, desde a data da concessão de eventual liminar, ou pagará o total
devido, com os juros da mora a contar da citação.
Transitada em julgado a sentença, servirá ela de título definitivo para a maioria, que a deverá
registrar no Registro de Imóveis.
E, se ao contrário, o sinistro tiver destruído menos de 2/3 da edificação? O síndico
promoverá o recebimento do seguro e a reconstrução ou os reparos nas partes
danificadas.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 139/354
Administração do condomínio
Outra situação que pode ocorrer é que o imóvel, por motivos urbanísticos ou
arquitetônicos, ou, ainda, no caso de condenação do edifício pela autoridade pública, em
razão de sua insegurança ou insalubridade, precise ir ao chão. Nesse caso, o art. 17
estabelece que os condôminos que representem, pelo menos 2/3 do total de unidades
isoladas e frações ideais correspondentes a 80% do terreno e coisas comuns
poderão decidir sobre a demolição e reconstrução do prédio, ou sua alienação.
Veja, com atenção, que o requisito é duplo: 2/3 do total das unidades E frações ideais de mais
de 80% do terreno. Isso porque, em determinadosedifícios, compostos de vários apartamentos
bem pequenos e alguns poucos enormes, pode haver discrepância nos números. Exige-se,
portanto, o cumprimento do requisito duplo.
Tal qual ocorria no caso de sinistro, a minoria não fica obrigada a contribuir para as obras,
mas se assegura à maioria o direito de adquirir as partes dos dissidentes, mediante avaliação
judicial, na mesma forma já vista.
Igualmente, no caso de desgaste, pela ação do tempo, das unidades habitacionais de uma
edificação, que deprecie seu valor unitário em relação ao valor global do terreno onde se
acha construída, os condôminos, pelo quorum mínimo de votos que representem 2/3 das
unidades isoladas e frações ideais correspondentes a 80% do terreno e coisas comuns,
poderão decidir por sua alienação total, procedendo-se em relação à minoria na mesma forma
anteriormente vista.
Por fim, conforme prevê o art. 18, a aquisição parcial de uma edificação, ou de um conjunto de
edificações, ainda que por força de desapropriação, importará no ingresso do adquirente no
condomínio, ficando sujeito às disposições da LCEI, bem assim às da convenção do
condomínio e do regulamento interno.
Não vou detalhar a administração do condomínio aqui, eis que isso é objeto das aulas
regulares de Direito Civil, já que as disposições do CC/2002 acabaram por soterrar essa parte
da LCEI. Isso porque o CC/2002 foi adiante da LCEI, detalhando bastante as regulações
anteriormente previstas.
O síndico, que é eleito na forma da Convenção, administra o condomínio e pode ser reeleito
indefinidamente. Igualmente, o prazo de seu mandato é livre, limitado apenas ao prazo de 2
anos.
Conforme dicção do art. 22, §2º, as funções administrativas podem ser delegadas a pessoas de
confiança do síndico, e sob a sua inteira responsabilidade, mediante aprovação da assembleia
geral dos condôminos. Já o §6º prevê que a Convenção poderá prever a eleição de
subsíndicos, com mandato limitado também a dois anos, com reeleições indefinidas.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 140/354
Incorporação Imobiliária
Consoante o §4º desse mesmo artigo, o síndico pode ser condômino ou pessoa física
ou jurídica estranha ao condomínio. Em qualquer caso, será fixada a remuneração
pela mesma assembleia que o eleger, salvo se a Convenção dispuser diferentemente.
Prevê o art. 22, §1º, que compete ao síndico, para além do que dispõe o CC/2002:
Se estabelecido em Convenção, estipula o art. 22, §3º, que dos atos do síndico cabe
recurso para a assembleia, convocada pelo interessado.
Preste atenção, pois o CC/2002 revogou tacitamente o §5º desse artigo, que previa que
a destituição do síndico seria feita por aprovação da assembleia por 2/3 dos condôminos
presentes. Agora, segundo o art. 1.349 do CC/2002, é necessário o voto da maioria
absoluta dos condôminos, ou seja, metade mais um de todos os condôminos,
independentemente de sua presença na assembleia, para que o síndico seja
destituído do posto.
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
Em caso de assembleia geral ordinária, o art. 24, §2º, exige que o síndico, nos oito dias
subsequentes à assembleia, comunique aos condôminos o que tiver sido deliberado, inclusive
no tocante à previsão orçamentária e ao rateio das despesas.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 141/354
Noções gerais
A edificação de unidades imobiliárias por incorporação imobiliária é tratada pela mesma Lei do
Condomínio em Edificações e Incorporações Imobiliárias – LCEI, Lei 4.591/1964, com extensas
mudanças operadas por leis posteriores. A aplicação da LCEI para as incorporações é
mandatória, segundo o art. 28. Para tanto, prevê o parágrafo único, considera-se incorporação
imobiliária a atividade exercida com o intuito de promover e realizar a construção, para
alienação total ou parcial, de edificações ou conjunto de edificações compostas de unidades
autônomas.
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
O conceito de incorporador é trazido pela própria lei no art. 29. O incorporador
abrange tanto pessoa física quanto jurídica, sendo que esta pode estar organizada
em empresa ou não, edificando ou não, desde que compromisse ou efetive a venda
de frações ideais de terreno objetivando a vinculação de tais frações a unidades
autônomas, em edificações a serem construídas ou em construção sob regime
condominial, ou que meramente aceite propostas para efetivação de tais transações,
coordenando e levando a termo a incorporação e responsabilizando-se, conforme o
caso, pela entrega, a certo prazo, preço e determinadas condições, das obras
concluídas.
O art. 30 ainda estende a condição de incorporador a proprietários e titulares de direitos
aquisitivos que contratem a construção de edifícios que se destinem à constituição em
condomínio, sempre que iniciarem as alienações antes da conclusão das obras.
Em quaisquer dos casos, responde o alienante como incorporador, quando já houver
sido aprovado e estiver em vigor, ou pender de aprovação de autoridade
administrativa, o respectivo projeto de construção. Ao ser contratada a venda, ou
promessa de venda ou de cessão das frações de terreno, presume-se a vinculação entre
a alienação das frações do terreno e o negócio de construção.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 142/354
Ainda que o art. 29 permita que o incorporador seja praticamente qualquer um (pessoa física
ou jurídica, empresa, empresário ou não, que edifica ou não), o art. 31 limita a figura do
incorporador ao:
O §3º do art. 31 taxativamente prevê a responsabilidade solidária dos incorporadores
imobiliários, sejam eles quem forem, nos termos do caput, mesmo que a obra esteja no
período de carência no qual pode ele desistir da incorporação (como você verá adiante).
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
Ainda quanto a quem pode ser considerado incorporador, o STJ (AgRg nos EDcl no REsp
1.107.117/SC) tem julgado relevantíssimo sobre o tema. A rescisão do contrato de permuta de
terreno por unidades construídas, havida entre a incorporadora e o dono do terreno, de
maneira extrajudicial, com cláusula que afasta a responsabilidade deste em relação aos
adquirentes de unidades, é ineficaz.
Ou seja, já no REsp 282.740 a Corte passou a entender que se o proprietário de terreno que o
aliena a terceiro, dele recebendo em pagamento futuros apartamentos decorrentes de
edificação a ser erigida no local, cujo contrato de compra e venda foi rescindido por transação,
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 143/354
Obrigações do incorporador
é responsável pelo ressarcimento de tudo quanto foi pago pelos compradores de outros
apartamentos vendidos por aquele terceiro quando o primitivo negócio ainda estava vigente.
Por isso, é ineficaz, com relação aos adquirentes das unidades imobiliárias, qualquer cláusula
exoneratória de responsabilidade dos alienantes do terreno, haja vista que ela vincularia apenas
as partes que tivessem participado do pacto. Assim, a reintegração de posse aos alienantes do
terreno, proprietários do imóvel, só se defere se cumpridas as exigências do §2º do art. 40 da
Lei 4.591/1964.
De qualquer sorte, toda incorporação deve indicar expressamente o incorporador, e é
obrigatório que seu nome permaneça indicado ostensivamente no local da construção. Para
alienar ou onerar as frações ideais de terrenos e acessões que corresponderão às futuras
unidades, o art. 32 exige que o incorporador registre, no registro de imóveis competente, do
memorial de incorporação composto pelos seguintes documentos:
a) título de propriedade de terreno, ou de promessa, irrevogável e irretratável, de compra e
venda ou de cessão de direitos ou de permuta do qual conste cláusula de imissão na posse do
imóvel, não haja estipulações impeditivas de sua alienação em frações ideais e inclua
consentimento para demolição e construção, devidamente registrado;
b) certidões negativas de impostosfederais, estaduais e municipais, de protesto de títulos de
ações cíveis e criminais e de ônus reais relativamente ao imóvel, aos alienantes do terreno e ao
incorporador;
c) histórico dos títulos de propriedade do imóvel, abrangendo os últimos 20 anos,
acompanhado de certidão dos respectivos registros;
d) projeto de construção devidamente aprovado pelas autoridades competentes;
e) cálculo das áreas das edificações, discriminando, além da global, a das partes comuns, e
indicando, para cada tipo de unidade a respectiva metragem de área construída;
f) certidão negativa de débito para com a Previdência Social, quando o titular de direitos sobre
o terreno for responsável pela arrecadação das respectivas contribuições;
g) memorial descritivo das especificações da obra projetada, segundo modelo de memorial
descritivo dos acabamentos de edificação;
h) avaliação do custo global da obra, atualizada à data do arquivamento, calculada com base
nos custos unitários publicados mensalmente pelos sindicatos estaduais da indústria da
construção civil, discriminando-se, também, o custo de construção de cada unidade,
devidamente autenticada pelo profissional responsável pela obra;
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 144/354
i) instrumento de divisão do terreno em frações ideais autônomas que contenham a sua
discriminação e a descrição, a caracterização e a destinação das futuras unidades e partes
comuns que a elas acederão;
j) minuta de convenção de condomínio que disciplinará o uso das futuras unidades e partes
comuns do conjunto imobiliário;
l) declaração em que se defina a quota-parte da área das unidades a serem entregues em
pagamento do terreno;
m) certidão do instrumento público de mandato, referido no §1º do art. 31;
n) declaração expressa em que se fixe, se houver, o prazo de carência;
o) revogado.
p) declaração, acompanhada de plantas elucidativas, sobre o número de veículos que a
garagem comporta e os locais destinados à guarda dos mesmos.
O incorporador anexa todos esses documentos ao pedido de incorporação a ser registrado na
matrícula do imóvel; eles são examinados pelo Oficial de Registro de Imóveis, que os arquiva,
fazendo o competente registro. O registro do memorial de incorporação sujeita as frações do
terreno e as respectivas acessões a regime condominial especial, investe o incorporador e os
futuros adquirentes na faculdade de sua livre disposição ou oneração e independe de anuência
dos demais condôminos, esclarece o §1º-A.
Caso falte algum documento, o Oficial tem 10 dias para apresentar, por escrito, todas os
requisitos que julgar necessários ao arquivamento.
Satisfeitas as referidas exigências, o Oficial tem prazo de 10 dias para fornecer certidão e
devolver a segunda via autenticada da documentação, quando apresentada por meio físico,
com exceção dos documentos públicos. Cabe ainda ao Oficial, em caso de divergência,
suscitar a dúvida, segundo as normas processuais aplicáveis.
Prevê o §7º que o Oficial de Registro de Imóveis responde, civil e criminalmente, se
efetuar o arquivamento de documentação contraveniente à lei ou der certidão sem o
arquivamento de todos os documentos exigidos.
Igualmente, ele responde, quando não observar os prazos supramencionados,
perante a autoridade judiciária competente, em montante igual ao dos emolumentos
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 145/354
devidos pelo registro, aplicável por quinzena ou fração de quinzena de superação de
cada um daqueles prazos (§8º).
Contrariamente, ele não responde (§9º) pela exatidão dos documentos que lhe forem
apresentados para arquivamento em obediência ao disposto nas alíneas e, g, h, l, e p do art. 32
(área da edificação, memorial descritivo, custo global da obra, quota-parte das unidades e
plantas das garagens), desde que assinados pelo profissional responsável pela obra.
Pois bem, com o correto e completo arquivamento, o Oficial determina, na forma da Lei de
Registros Públicos – LRP (Lei 6.015/1973), o número do registro. A LRP tem alguns detalhes
sobre o registro da incorporação imobiliária:
Art. 237-A. Após o registro do parcelamento do solo ou da incorporação imobiliária, até a
emissão da carta de habite-se, as averbações e registros relativos à pessoa do incorporador ou
referentes a direitos reais de garantias, cessões ou demais negócios jurídicos que envolvam o
empreendimento serão realizados na matrícula de origem do imóvel e em cada uma das
matrículas das unidades autônomas eventualmente abertas.
§ 1o Para efeito de cobrança de custas e emolumentos, as averbações e os registros relativos
ao mesmo ato jurídico ou negócio jurídico e realizados com base no caput serão considerados
como ato de registro único, não importando a quantidade de unidades autônomas envolvidas
ou de atos intermediários existentes.
§ 2o Nos registros decorrentes de processo de parcelamento do solo ou de incorporação
imobiliária, o registrador deverá observar o prazo máximo de 15 (quinze) dias para o
fornecimento do número do registro ao interessado ou a indicação das pendências a serem
satisfeitas para sua efetivação.
§ 3º O registro da instituição de condomínio ou da especificação do empreendimento
constituirá ato único para fins de cobrança de custas e emolumentos.
De volta à LCEI, tanto o número do registro quanto o cartório devem constar, segundo o §3º do
art. 32, obrigatoriamente, dos anúncios, impressos, publicações, propostas, contratos,
preliminares ou definitivos, referentes à incorporação, salvo dos anúncios "classificados" (pela
curta extensão).
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 146/354
Com isso, o adquirente pode consultar toda a documentação da incorporação, antes de
realizar a aquisição, por meio de certidão, autenticação da cópia dos documentos
fornecidos pelo incorporador, ou cópia dos documentos. Isso é relevante porque,
segundo o §5º, a existência de ônus fiscais ou reais, salvo os impeditivos de
alienação, não impedem o registro, que será feito com as devidas ressalvas,
mencionando-se, em todos os documentos, extraídos do registro, a existência e a
extensão dos ônus. Assim, o adquirente sabe, de antemão, sobre os ônus relativos ao
imóvel.
Porém, o art. 37 exige que se o imóvel estiver gravado de ônus real ou fiscal ou se contra os
alienantes houver ação que possa comprometer o imóvel, o fato será obrigatoriamente
mencionado em todos os documentos de ajuste, com a indicação de sua natureza e das
condições de liberação. Igualmente, deve constar, se for o caso, o fato de encontrar-se
ocupado o imóvel, esclarecendo-se a que título se deve essa ocupação e quais as condições
de desocupação.
Friso súmula importantíssima editada pelo STJ (Súmula 308), que determina que o agente
financeiro e a construtora, quando negociam, não podem exigir que a hipoteca constituída
sobre as unidades individuais seja executada contra os adquirentes dos imóveis.
Por isso, o entendimento da Corte é de que, mesmo que firmada a hipoteca entre a construtora
e o agente financeiro, ela é ineficaz perante os adquirentes do imóvel. O STJ entende,
inclusive, que é irrelevante se a hipoteca fora firmada anteriormente à celebração do
compromisso de compra e venda (situação na qual, a rigor, o adquirente teria como tomar
conhecimento da hipoteca, se registrada) ou depois (situação na qual a eficácia seria
questionável por si só).
Para ouvir ao áudio correspondente, acesse o LDI.
No caso de incorporação sobre imóvel objeto de imissão na posse concedida à União, aos
Estados, ao Distrito Federal, aos Municípios ou às suas entidades delegadas, fica dispensada a
apresentação, relativamente ao ente público, dos documentos das alíneas a, b, c, f e o desse
artigo (comprovante de propriedade, certidões negativas de tributos e atestado de idoneidade
financeira), devendo o incorporador celebrar contrato de cessão de posse com os adquirentes
das unidades autônomas, consoante a regra do §13do art. 32.
Pela previsão da Lei 14.382/2022, quando demonstrar de modo suficiente o estado do processo
e a repercussão econômica do litígio, a certidão esclarecedora de ação cível ou penal pode ser
substituída por impressão do andamento do processo digital. Ademais, o registro do memorial
de incorporação e da instituição do condomínio sobre as frações ideais constitui ato registral
único (§§ 14 e 15 do art. 32)
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 147/354
Os contratos que envolvam a incorporação imobiliária de unidades autônomas são
irretratáveis. Uma vez registrados, conferem direito real oponível a terceiros,
atribuindo direito à adjudicação compulsória perante o incorporador ou a quem o
suceder, inclusive na hipótese de insolvência posterior ao término da obra (art. 32, §2º).
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
Feito o registro da incorporação, prevê o art. 33 da Lei 4.591/1964 que ele terá validade de 180
dias. Passado o prazo, se a incorporação ainda não se houver concretizado, o incorporador só
poderá negociar unidades depois de atualizar a documentação referida no art. 32, revalidando
o registro por igual prazo.
Atente, porque o art. 12 da Lei 4.864/1965, mesmo sem revogar expressamente o art. 33 da Lei
4.591/1964, elevava para 180 dias o prazo de validade de registro da incorporação,
derrogando-se-o parcialmente. Corrigindo essa distorção entre as normas, a Lei 14.382/2022,
finalmente, deu nova redação ao art. 33 da lei para a compatibilizar com a Lei 4.864/1965.
O art. 34 da LCEI ainda permite ao incorporador prever prazo de carência, dentro do qual
lhe é lícito desistir do empreendimento, dado o vulto econômico, em geral, que essas obras
têm. Esse prazo de carência deve ser expresso em declaração que acompanha a
documentação arquivada no Registro de Imóveis, fixando-se nela as condições que autorizarão
o incorporador a desistir do empreendimento.
Esse prazo é limitado ao prazo de validade do registro, que, com a previsão do art. 12 da
Lei 4.864/1965, é de 180 dias. Caso esse prazo seja revalidado, em caso de concretização
posterior da incorporação, o prazo de carência é também ampliado. O prazo de carência deve
ser sempre mencionado nos pré-contratos, cessões e promessas de compra e venda.
Caso o incorporador efetivamente desista da incorporação, deve denunciá-la por escrito ao
Registro de Imóveis, comunicando-se, também por escrito, cada um dos adquirentes ou
candidatos à aquisição, sob pena de responsabilidade civil e criminal do incorporador. Tal é a
previsão expressa do §4º do art. 34 da LCEI.
A desistência será averbada no registro da incorporação, arquivando-se em cartório o
respectivo documento. Independentemente do que ocorrer, o prazo de carência é
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 148/354
improrrogável, prevê o §6º, pelo que a não realização do empreendimento passa a significar
inadimplemento pelo incorporador, respondendo ele pelos efeitos da mora, na forma
obrigacional.
Efetivada a denúncia da incorporação, o incorporador tem até 30 dias para restituir
aos adquirentes as importâncias pagas. Não o fazendo no prazo, prevê o art. 36 que
eles podem cobrar os valores pela via executiva, reajustado o seu valor, a contar da
data do recebimento, pela inflação, mais juros de 6% ao ano, sobre o total corrigido.
Findo o prazo de carência, se houver, ou contada da data do documento de ajuste preliminar, o
incorporador terá o prazo máximo de 45 dias para promover a celebração do competente
contrato relativo à fração ideal de terreno, do contrato de construção e da Convenção do
condomínio. Mais uma vez, atente porque, apesar de não haver revogação expressa do
dispositivo, o art. 13 da Lei 4.864/1965 eleva esse prazo para 60 dias.
Pode o corretor de imóveis denunciar a incorporação, caso o incorporador não o faça no prazo
de carência, nos 5 dias subsequentes. Nesse caso, ele fica solidariamente responsável com o
incorporador pela devolução das quantias que os adquirentes ou candidatos à aquisição houver
entregado ao incorporador, resguardado seu direito de regresso (art. 35, §3º).
Se o incorporador e/ou o corretor não outorgarem o contrato definitivo de compra e
venda, a carta-proposta ou o documento de ajuste preliminar poderão ser averbados
no Registro de Imóveis pelo adquirente. Essa averbação conferirá, segundo o §4º desse
artigo, direito real oponível a terceiros, com o consequente direito à obtenção
compulsória do contrato correspondente.
Nessa situação, prevê o §5º, o incorporador incorrerá também na multa de 50% sobre
a quantia que efetivamente tiver recebido, cobrável por via executiva, em favor do
adquirente ou candidato à aquisição.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 149/354
E qual é o prazo prescricional para essa cobrança? O STJ (REsp 1.497.254/ES) firmou
entendimento de que prazo prescricional quinquenal do art. 27 do CDC não se aplica a
qualquer hipótese de inadimplemento contratual em relações de consumo.
O referido prazo se restringe às ações que buscam a reparação de danos causados por fato do
produto ou do serviço. Por isso, a ação do adquirente contra a incorporadora que visa a
cobrança da multa prevista no art. 35, § 5º, da Lei 4.591/1964 se submete ao prazo
prescricional de 10 anos, o prazo geral decenal do art. 205 do CC/2002.
Inserido pela Lei 13.786/2018, o art. 35-A passou a exigir que os contratos de compra e venda,
promessa de venda, cessão ou promessa de cessão de unidades autônomas integrantes de
incorporação imobiliária sejam iniciados por um quadro-resumo. O que deve conter o quadro-
resumo dos contratos na incorporação imobiliária?
I. O preço total a ser pago pelo imóvel
II. O valor da parcela do preço a ser tratada como entrada, a sua forma de pagamento,
com destaque para o valor pago à vista, e os seus percentuais sobre o valor total do
contrato
III. O valor referente à corretagem, suas condições de pagamento e a identificação precisa
de seu beneficiário
IV. A forma de pagamento do preço, com indicação clara dos valores e vencimentos das
parcelas
V. Os índices de correção monetária aplicáveis ao contrato e, quando houver pluralidade
de índices, o período de aplicação de cada um
VI. As consequências do desfazimento do contrato, seja por meio de distrato, seja por
meio de resolução contratual motivada por inadimplemento de obrigação do adquirente ou
do incorporador, com destaque negritado para as penalidades aplicáveis e para os prazos
para devolução de valores ao adquirente
VII. As taxas de juros eventualmente aplicadas, se mensais ou anuais, se nominais ou
efetivas, o seu período de incidência e o sistema de amortização
VIII. As informações acerca da possibilidade do exercício, por parte do adquirente do
imóvel, do direito de arrependimento previsto no art. 49 da Lei 8.078/1990 (CDC), em
todos os contratos firmados em estandes de vendas e fora da sede do incorporador ou do
estabelecimento comercial
IX. O prazo para quitação das obrigações pelo adquirente após a obtenção do auto de
conclusão da obra pelo incorporador
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 150/354
X. As informações acerca dos ônus que recaiam sobre o imóvel, em especial quando o
vinculem como garantia real do financiamento destinado à construção do investimento
XI. O número do registro do memorial de incorporação, a matrícula do imóvel e a
identificação do cartório de registro de imóveis competente
XII. O termo final para obtenção do auto de conclusão da obra (Habite-se) e os efeitos
contratuais da intempestividade prevista no art. 43-A
Caso haja omissão de quaisquer dessas informações, será concedido prazo de 30 dias para
aditamento do contrato e saneamento da omissão (§1º). Ultrapassado o prazo, essa
omissão, se não sanada, caracterizará justa causa para rescisão contratual por parte do
adquirente.
Além disso, a efetivação das consequências do desfazimento do contrato,referidas no inc. VI,
dependerá de anuência prévia e específica do adquirente a seu respeito, mediante assinatura
junto a essas cláusulas (§2º). Tais cláusulas devem ser redigidas com destaque, permitindo sua
imediata e fácil compreensão, como exige o §4º do art. 54 do CDC.
De maneira um tanto controvertida, o STJ fixou o entendimento, em sede de Embargos de
Divergência em Recurso Especial, que a cobrança de juros compensatórios antes da entrega
das chaves ao adquirente num contrato de incorporação imobiliária é lícita. Esses são os
chamados pela prática comercial, e também pelo STJ, de “juros no pé”, expressão cunhada
para designar a cobrança de juros compensatórios cobrados do promitente-vendedor pela
incorporadora-vendedora, antes da entrega das chaves, ou seja, quando o imóvel objeto do
contrato ainda está “no pé”, sem ter sido erigido/entregue ainda (EREsp 670.117/PB).
Caso a incorporação se realize em terreno de pessoa que receberá como pagamento, total ou
parcial, unidades a serem construídas, prevê o art. 39 que se deve discriminar no contrato a
parcela que, se houver, será paga em dinheiro e a quota-parte da área das unidades a serem
entregues em pagamento do terreno que corresponderá a cada uma das unidades, a qual
deverá ser expressa em metros quadrados.
Por outro lado, deve constar, também, de todos os documentos de ajuste, se o alienante do
terreno ficou ou não sujeito a qualquer prestação ou encargo. Assim, sabe-se com segurança,
e de antemão, o valor efetivamente pago pelo terreno, o que facilita eventuais execuções no
caso de a incorporação não se efetivar e eventuais indenizações, se houver.
No caso de rescisão de contrato de alienação do terreno ou de fração ideal, ficarão rescindidas
as cessões ou promessas de cessão de direitos correspondentes à aquisição do terreno. Nessa
hipótese, consolida-se, para o alienante em cujo favor se opera a resolução, o direito sobre a
construção porventura existente (art. 40, §1º).
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 151/354
Se já houver comercialização das unidades da construção, os adquirentes das
frações poderão obter do alienante do terreno o valor da parcela de construção que
tenham adicionado à unidade, salvo se a rescisão houver sido causada por eles
mesmos, como no caso de desistência da incorporação, prevê o art. 40, §2º.
Para evitar locupletamento ilícito e prejuízo dos adquirentes, nessas eventualidades, não
pode o alienante do terreno em cujo favor se operou a resolução voltar a negociar seus
direitos sobre a unidade autônoma sem a prévia indenização aos titulares das frações
ideais.
O tema analisado no REsp 1.107.117, tratado acima, voltou à pauta do STJ, com uma pequena
diferença. Aqui,
Em caso analisado pelo STJ (REsp 1.537.012/RJ), os proprietários cederam seus terrenos para a
construção, permutando-o por unidades imobiliárias, mas a construtora não apenas não
construiu como também teve sua falência decretada. Para compreender a lógica desse julgado,
basta lembrar que para a LCEI, os proprietários do terreno, ao o cederem à incorporação,
passam a ser incorporadores também, tornando-se responsáveis.
Consequência disso é que os proprietários do terreno, com a falência da construtora, teriam
ou de finalizar a obra e entregar as unidades aos promitentes compradores, ou indenizá-
los. No caso, os proprietários do terreno não fizeram nem uma coisa, nem outra, violando a
norma do art. 40, §3º LCEI.
Assim, a Corte entendeu que permanece a obrigação de consulta prévia aos promitentes
compradores de unidades autônomas em caso de resolução do contrato de permuta realizado
entre os proprietários do terreno e a construtora e novo contrato com terceiros.
Há de se verificar ainda a imposição do imposto sobre o lucro imobiliário quando da
alienação do terreno. Isso porque o alienante do terreno tem de recolher o imposto de renda
de 15% sobre o ganho de capital, apurável pela diferença do valor pago na aquisição e o valor
recebido na alienação (há regras detalhadas quanto à verificação desses valores; entretanto,
como são normas tributárias, não vou entrar nesse aspecto).
Como o pagamento do imposto fica a cargo do alienante do terreno, o art. 46 da LCEI prevê
que o adquirente (incorporador) pode reter o pagamento das últimas prestações anteriores à
data-limite em que é lícito pagar, sem reajuste, o referido imposto, caso o vendedor não
apresente a quitação até 10 dias antes do vencimento das prestações cujo pagamento torne
inferior ao débito fiscal a parte do preço a ser ainda paga até a referida data-limite.
Se o adquirente retiver esses valores, ele ficará responsável para todos os efeitos perante o
Fisco, pelo recolhimento do tributo, adicionais e acréscimos, inclusive pelos reajustamentos
que vier a sofrer o débito fiscal.
No entanto, podem as partes transferir o ônus diretamente ao adquirente, incorporador
imobiliário. Nesse caso, prevê o art. 47, deve-se explicitar o montante que tal obrigação
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 152/354
atingiria, se sua satisfação se desse na data da escritura.
Aí, o adquirente será tido, para todos os efeitos, como responsável perante o Fisco. Na
eventualidade de haver restituição do imposto de renda, a parcela restituível será feita ao
adquirente.
Quanto ao pagamento pela aquisição das unidades imobiliárias, o art. 41 estabelece que quando
essas unidades forem contratadas pelo incorporador por preço global (compreendendo quota
de terreno e construção), devem ser discriminadas, no contrato, o preço da quota de terreno e
o da construção.
Pode-se estipular que, na hipótese de o adquirente atrasar o pagamento de parcela
relativa à construção, os efeitos da mora recairão não apenas sobre a aquisição da
parte construída, mas, também, sobre a fração ideal de terreno, ainda que esta tenha
sido totalmente paga.
Igualmente, pode-se estipular o inverso, ou seja, que, na hipótese de o adquirente
atrasar o pagamento da parcela relativa à fração ideal de terreno, os efeitos da mora
recairão não apenas sobre a aquisição da fração ideal, mas, também, sobre a parte
construída, ainda que totalmente paga.
Segundo a norma do art. 43, quando o incorporador contratar a entrega da unidade a prazo e
preços certos, determinados ou determináveis, deve observar as seguintes obrigações:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 153/354
Se o incorporador paralisar ou retardar excessivamente as obras, o juiz o notifica
para que no prazo mínimo de 30 dias as reinicie ou torne a dar-lhes o andamento
normal. Desatendida a notificação, poderá o incorporador ser destituído pela maioria
absoluta dos votos dos adquirentes, sem prejuízo da responsabilidade civil ou penal
que couber, sujeito à cobrança executiva das importâncias comprovadamente devidas,
facultando-se aos interessados prosseguir na obra.
Nesse caso, demonstrado o atraso na obra, é chamado o incorporador a indenizar os
adquirentes. Sendo chamado a indenizar, cabe ação regressiva do incorporador contra o
construtor, se for o caso e se a este couber a culpa. Vale lembrar que a responsabilidade entre
incorporador e construtor, caso sejam pessoas distintas, é solidária.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 154/354
Em caso de falência do incorporador, não sendo possível à maioria prosseguir na
construção das edificações, os adquirentes das unidades serão credores
privilegiados pelas quantias que houver pago ao incorporador, respondendo
subsidiariamente os bens pessoais deste. O art. 43, inc. III trata, portanto, de uma
espécie de “desconsideração da personalidade jurídica”, em caso de inadimplemento,
pelo incorporador falido, da restituição dos valores pagos, não sendo possível a
finalização da obra.
Se o incorporador insolvente tiver optado pelo regime da afetação e não sendo possível à
maioria prosseguir na construção, prevê o inc. VII que a assembleia geral poderá, pelo voto de
2/3dos adquirentes, deliberar pela venda do terreno, das acessões e demais bens e direitos
integrantes do patrimônio de afetação, mediante leilão ou outra forma que se estabelecer.
Feita a venda, distribui-se entre os adquirentes, na proporção dos recursos que
comprovadamente tiverem aportado, o resultado líquido da venda, depois de pagas as
dívidas do patrimônio de afetação e deduzido e entregue ao proprietário do terreno a quantia
que lhe couber, nos termos do contrato anteriormente tratado.
Não se obtendo, na venda, a reposição dos aportes efetivados pelos adquirentes, reajustada na
forma da lei e de acordo com os critérios do contrato celebrado com o incorporador, os
adquirentes serão credores privilegiados pelos valores da diferença não reembolsada,
respondendo subsidiariamente os bens pessoais do incorporador, na forma do art. 43, inc. III.
Na sequência, prevê o art. 43, §1º, que, deliberada a destituição tratada anteriormente, o
incorporador será notificado extrajudicialmente pelo Oficial do Registro de Imóveis da
circunscrição em que estiver localizado o empreendimento. No prazo de 15 dias, contado da
data da entrega da notificação na sede do incorporador ou no seu endereço eletrônico, deve o
incorporador:
I - Imitir a Comissão de Representantes na posse do empreendimento, entregando-se os
documentos correspondentes à incorporação; e os comprovantes de quitação das quotas
de construção de sua responsabilidade
II - Efetivar o pagamento das quotas que estiverem pendentes, de modo a viabilizar a
realização da auditoria a que se refere o art. 31-C
Consoante os §§ 2º e 3º, da ata da Assembleia Geral – registrada no registro de títulos e
documentos – que deliberar a destituição do incorporador deverão constar os nomes dos
adquirentes presentes e as informações que constituam documento hábil para (i) averbação da
destituição do incorporador na matrícula do registro de imóveis da circunscrição em que
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 155/354
estiver registrado o memorial de incorporação; e (ii) implementação das medidas judiciais ou
extrajudiciais necessárias:
à imissão da comissão de representantes na posse do empreendimento;
à investidura da comissão de representantes na administração e nos poderes para a prática
dos atos de disposição que lhe são conferidos pelos arts. 31-F e 63;
à inscrição do respectivo condomínio da construção no CNPJ; e
quaisquer outros atos necessários à efetividade da norma instituída no caput deste artigo,
inclusive para prosseguimento da obra ou liquidação do patrimônio da incorporação.
As unidades não negociadas pelo incorporador e vinculadas ao pagamento das
correspondentes quotas de construção nos termos do § 6º do art. 35 ficam indisponíveis e
insuscetíveis de constrição por dívidas estranhas à respectiva incorporação até que o
incorporador comprove a regularidade do pagamento. Por fim, fica autorizada a Comissão de
Representantes a promover a venda das unidades referidas, expirado o prazo da notificação,
com aplicação do produto obtido no pagamento do débito correspondente (§§ 4º e 5º).
Contrariamente, caso a edificação chegue ao fim, concluindo-se integralmente, deve-se
requerer a concessão do “habite-se” junto à autoridade administrativa. Com a concessão, o art.
44 estabelece que incumbe ao incorporador a averbação da construção em
correspondência às frações ideais discriminadas na matrícula do terreno. Caso demore
para fazê-lo, responde ele perante os adquirentes pelas perdas e danos que resultem da
demora no cumprimento dessa obrigação.
Como há solidariedade na responsabilidade civil entre construtor e incorporador, caso o
incorporador não requeira a averbação mencionada, pode o próprio construtor requerê-la, para
afastar sua responsabilidade, prevê o art. 44, §1º. Se tanto o incorporador quanto o construtor
forem omissos, a averbação poderá ser requerida por qualquer dos adquirentes de unidade.
A entrega do imóvel em até 180 dias corridos da data estipulada contratualmente
como data prevista para conclusão do empreendimento não permite a resolução do
contrato por parte do adquirente nem enseja o pagamento de qualquer penalidade
pelo incorporador. O art. 43-A, porém, exige que isso seja expressamente pactuado, de
forma clara e destacada.
Se a entrega atrasar para além desse prazo de graça, pode o adquirente resolver o
contrato, sem prejuízo da devolução da integralidade de todos os valores pagos e da
multa estabelecida, em até 60 dias corridos contados da resolução, corrigidos,
corrigidos com base no índice contratualmente estabelecido para a correção monetária
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 156/354
das parcelas do preço do imóvel (na previsão do art. 67-A, §8º). O §1º do art. 43-A exige,
evidentemente, que o adquirente não tenha dado causa ao atraso.
O adquirente, por sua vez, pode não pretender resolver o contrato, mas o preservar.
Nesse caso, determina o §2º que é devida ao adquirente adimplente, por ocasião da
entrega da unidade, indenização de 1% do valor efetivamente pago à incorporadora,
para cada mês de atraso, pro rata die, corrigido monetariamente conforme índice
estipulado em contrato.
Esse percentual é superior ao que vinha a jurisprudência dos tribunais estaduais fixando. Em
geral, os TJs fixavam algo em torno de 0,5% a 0,6% do valor do imóvel, num certo paralelismo
com o aluguel. Agora, a penalidade aos alienantes se torna mais rígida.
De toda sorte, esclarece o §3º que a multa mensal de 1% para o caso de manutenção não pode
ser cumulada com a multa pela resolução. Trata-se de regra óbvia, que remete à distinção da
cláusula penal moratória (para o caso de mora, que permite manutenção da obrigação) e
cláusula penal indenizatória (para o caso de inadimplemento absoluto com consequente
resolução).
Por fim, necessário analisar como se fará o cálculo dos valores a pagar pelo ou a restituir
ao adquirente nas situações de desfazimento do contrato. Prevê o art. 67-A que em caso
distrato ou resolução por inadimplemento absoluto de obrigação do adquirente, este
fará jus à restituição das quantias que houver pago diretamente ao incorporador,
atualizadas com base no índice contratualmente estabelecido para a correção
monetária das parcelas do preço do imóvel.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 157/354
No entanto, devem ser deduzidos do valor pago, cumulativamente:
Os débitos do adquirente correspondentes às deduções dos itens 3 a 6 podem ser pagos
mediante compensação com a quantia a ser restituída. O §3º do art. 67-A, portanto, evidencia
que a comissão de corretagem e a pena convencional não podem ser compensadas com os
valores pagos pelo adquirente, devendo ser cobradas pelas vias próprias.
Esses descontos e retenções estão limitados aos valores efetivamente pagos pelo adquirente,
salvo em relação às quantias relativas à fruição do imóvel (§4º).
Além disso, o §9º prevê um caso de isenção da cláusula penal. Não se exigirá seu pagamento
na hipótese de o adquirente que der causa ao desfazimento do contrato encontrar comprador
substituto que o sub-rogue nos direitos e obrigações originalmente assumidos. Para tanto,
necessário que haja a devida anuência do incorporador e a aprovação dos cadastros e da
capacidade financeira e econômica do comprador substituto.
De toda sorte, em que prazo o incorporador deverá restituir os valores pagos pelo
adquirente? Depende do tipo de incorporação havida.
Se a incorporação estiver submetida ao regime do patrimônio de afetação (arts. 31-A e
ss.), ele deve fazer a restituição – depois de fazer as deduções devidas – no prazo de 30
dias após o Habite-se ou documento equivalente expedido pelo órgão público municipal
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 158/354
competente. Nessa hipótese, permite o §5º que a pena seja estabelecida até o limite de
50% da quantia paga.
Já se a incorporação não estiver submetida ao regime dosua utilização”.
A alternativa A está correta, portanto.
No entanto, o próprio MCI abre, no §1º, a possibilidade de discriminação ou degradação do
tráfego, por meio de Regulamento, nos termos das atribuições privativas do Presidente da
República previstas no inciso IV do art. 84 da CF/1988. Para tanto, devem ser ouvidos o Comitê
Gestor da Internet – CGIbr e a Agência Nacional de Telecomunicações – ANATEL. A
discriminação ou degradação do tráfego somente poderá decorrer de:
Na discriminação ou a degradação do tráfego prevista acima, o Presidente da República
deve:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 22/354
Na provisão de conexão à internet, onerosa ou gratuita, bem como na transmissão, comutação
ou roteamento, é vedado bloquear, monitorar, filtrar ou analisar o conteúdo dos pacotes de
dados, respeitado o disposto anteriormente.
Esse regulamento foi feito dois anos depois da entrada em vigor do MCI, por meio do Decreto
8.771/2016, que já em seu art. 4º estabelece que a discriminação ou a degradação são
medidas excepcionais, realizadas apenas quando indispensáveis à prestação adequada de
serviços e aplicações e desde que cumpridos os seguintes requisitos técnicos:
I - tratamento de questões de segurança de redes, tais como restrição ao envio de
mensagens em massa (spam) e controle de ataques de negação de serviço; e
II - tratamento de situações excepcionais de congestionamento de redes, tais como rotas
alternativas em casos de interrupções da rota principal e em situações de emergência.
A fiscalização desses requisitos técnicos compete à ANATEL, com base nas diretrizes
estabelecidas pelo CGIbr. Quando pode haver a degradação ou a discriminação decorrente
da priorização de serviços de emergência? Somente nos casos do art. 8º do Decreto
Regulamentador, que estabelece que essa transmissão de dados será gratuita:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 23/354
O art. 9º do Decreto ainda proíbe condutas unilaterais ou acordos entre o responsável pela
transmissão, pela comutação ou pelo roteamento e os provedores de aplicação nas
seguintes situações:
As ofertas comerciais e os modelos de cobrança de acesso à internet devem, segundo art. 10º
do Decreto, preservar uma internet única, de natureza aberta, plural e diversa, compreendida
como um meio para a promoção do desenvolvimento humano, econômico, social e cultural,
contribuindo para a construção de uma sociedade inclusiva e não discriminatória.
II. Proteção de registros, dados pessoais e comunicações privadas
Depois de esmiuçar a neutralidade da rede, o pilar fundamental do MCI, a lei trata da proteção
de dados virtuais. A guarda e a disponibilização dos registros de conexão e de acesso a
aplicações de internet reguladas pelo MCI, bem como de dados pessoais e do conteúdo de
comunicações privadas, devem atender à preservação da intimidade, da vida privada, da
honra e da imagem das partes direta ou indiretamente envolvidas, afiança o art. 10.
Por isso, em regra, esses dados são protegidos e não podem ser repassados a terceiros. O
provedor responsável pela guarda somente será obrigado a disponibilizar esses registros de
forma autônoma ou associados a dados pessoais ou a outras informações que possam
contribuir para a identificação do usuário ou do terminal, mediante ordem judicial. Igualmente
necessária ordem judicial para que seja fornecido o conteúdo das comunicações privadas.
As autoridades administrativas que detenham competência legal podem requisitar o
acesso aos dados cadastrais que informem qualificação pessoal, filiação e endereço, na
forma da lei, independentemente de autorização judicial, excepciona o §3º.
De qualquer forma, as medidas e os procedimentos de segurança e de sigilo devem ser
informados pelo responsável pela provisão de serviços de forma clara e atender a padrões
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 24/354
definidos em regulamento, respeitado seu direito de confidencialidade quanto a segredos
empresariais.
Em qualquer operação de coleta, armazenamento, guarda e tratamento de registros, de
dados pessoais ou de comunicações por provedores de conexão e de aplicações de
internet em que pelo menos um desses atos ocorra em território nacional, deverão ser
obrigatoriamente respeitados a legislação brasileira e os direitos à privacidade, à proteção
dos dados pessoais e ao sigilo das comunicações privadas e dos registros, exige o art. 11. Essa
regra vale também para os dados coletados em território nacional e ao conteúdo das
comunicações, desde que pelo menos um dos terminais esteja localizado no Brasil.
Não importa se a pessoa jurídica que trata dos dados esteja sediada no exterior, como é
bastante comum. A legislação brasileira deve ser respeitada desde que essa corporação
oferte serviço ao público brasileiro ou pelo menos uma integrante do mesmo grupo
econômico possua estabelecimento no Brasil.
O Decreto Regulamentador, em seus arts. 13 e 14, também estabelece como os provedores de
conexão e de aplicações de internet devem prestar informações que permitam a verificação
quanto ao cumprimento da legislação brasileira acima mencionada. Igualmente fica a cargo do
Decreto a regulamentação do procedimento para apuração de infrações cometidas.
Segundo os arts 17 a 21 do Decreto 8.771/2016, a fiscalização fica a cargo dos seguintes
órgãos:
A par das sanções cíveis, criminais e administrativas já existentes, incluindo as aplicáveis pelos
órgãos supramencionados (ANATEL, SNC e SBDC), o MCI ainda estabelece sanções
próprias, que podem ser aplicadas de forma isolada ou cumulativa:
O parágrafo único fixa hipótese de responsabilidade solidária entre a empresa
estrangeira e sua filial, sucursal, escritório ou estabelecimento situado no País pelo
pagamento da multa mencionada. Lembre-se, solidariedade não se presume, e o MCI
expressamente a estabelece.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 25/354
1. Responsabilidade por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros
A jurisprudência do STJ vinha se fixando no sentido de que os provedores de aplicações, como
o Facebook e o defunto Orkut, se responsabilizariam pelos danos causados pelo conteúdo
publicado. Em algumas situações, os próprios provedores de conexão eram responsabilizados
pelos tribunais.
O MCI acabou com algumas dessas disputas, especificamente quanto aos provedores de
conexão de internet, ao deixar claro, no art. 18, que o provedor de conexão à internet não se
responsabiliza civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros.
Outro problema frequente era – e é – que muitas das decisões judiciais que ordenavam a
restrição a ou a remoção de conteúdos na rede eram – e são – lacônicas, ou mesmo
absolutamente desproporcionais em relação à proteção pretendida.
Talvez o mais famoso caso de todos, o “Caso Cicarelli”, ocorrido em 2007, demonstre bem
como o magistrado poderia, antes do MCI, extrapolar, e muito, o poder de cautela. Na época,
foi postado um vídeo íntimo da subcelebridade em questão, sendo que o Youtube nada fazia,
alegando que era apenas a plataforma de disponibilização do conteúdo, e não o produtor dele.
Não apenas o vídeo postado no YouTube foi retirado do ar, como, após outros usuários terem
postado novos vídeos, com alteração do nome, o próprio Youtube ficou fora do ar. À época, a
atitude do Judiciário foi altamente criticada, equiparando-se o Brasil a países tradicionalmente
conhecidos pela ferrenha repressão à web, como a China, o Irã e o Sudão.
Vale lembrar que, para que um conteúdo ofensivo seja retirado da rede, não é necessária
ordem judicial. O interessado pode notificar o provedor do serviço para fazê-lo, se ele viola as
políticas de privacidade da empresa, por exemplo, o que é muito comum no Facebook e no
Youtube.
No entanto, a notificação extrajudicial não obriga nem responsabiliza o provedor, que pode,
a seu critério, acatar o pedido e retirar o conteúdopatrimônio de afetação, ele deve
fazer a restituição – depois de fazer as deduções devidas – no prazo de de 180 dias, contado
da data do desfazimento do contrato, em parcela única.
Caso ocorra a revenda da unidade antes de transcorrido esses prazos, o remanescente deve
ser pago em até 30 dias da revenda, fixa o §7º. Nesse caso, o valor deve ser atualizado com
base no índice contratualmente estabelecido para a correção monetária das parcelas do preço
do imóvel.
Se o contrato for firmado em estandes de vendas e fora da sede do incorporador, permite-
se ao adquirente o exercício do direito de arrependimento, no prazo improrrogável de 7
dias. Exercido, haverá a devolução de todos os valores eventualmente antecipados, inclusive a
comissão de corretagem, determina o §10. Como se faz uso do direito de arrependimento?
O §11 exige que o adquirente o faça por meio de carta registrada, com aviso de
recebimento. Considera-se a data da postagem (Teoria da expedição do art. 434 do CC/2002)
como data inicial da contagem do prazo. Transcorrido o prazo sem que tenha sido exercido o
direito de arrependimento, observa-se a irretratabilidade do contrato (art. 32, §2º da Lei
4.591/1964).
Nas hipóteses de leilão de imóvel em promessa de compra e venda ou de alienação fiduciária
em garantia, seja por execução judicial, seja por procedimento extrajudicial, a restituição dos
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 159/354
Patrimônio de afetação
valores deve ser feita de acordo com os critérios estabelecidos na respectiva lei especial ou
com as normas aplicáveis à execução em geral. O §14 do art. 67-A da LCEI, em resumo,
remete ao Decreto-Lei 58/1937 (trata do loteamento e a venda de terrenos para pagamento em
prestações), à Lei 6.766/1979 (parcelamento do solo urbano), à Lei 9.514/1997 (alienação
fiduciária em garantia de bens imóveis) e ao CPC/2015.
O objetivo da Lei 13.786/2018 era, evidentemente, de disciplinar a resolução e o distrato no
caso de venda de imóveis, dada a alta litigiosidade existente no mercado. No entanto, de
maneira surpreendente, o §13 dispõe que as partes podem, em comum acordo, por meio de
instrumento específico de distrato, definir condições diferenciadas.
Abrem-se as portas, ao que parece, a novos abusos e, consequentemente, novas discussões
judiciais. Espera-se, no entanto, que os objetivos da norma não sejam novamente frustrados.
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
Inovação importantíssima trazida pela Lei 10.931/2004 à LCEI é o regime de
incorporação imobiliária sob afetação, que cai assustadoramente nas provas, se ligue!
O regime de afetação traz exceção à regra legal de que cada pessoa possui um
único patrimônio. No ordenamento jurídico brasileiro, não é possível apartar
determinados bens do patrimônio da pessoa, seja ela física ou jurídica.
No entanto, a LCEI traz a possibilidade de se seccionar o patrimônio da pessoa jurídica.
Segundo o art. 31-A, a critério do incorporador, a incorporação poderá ser submetida ao regime
da afetação, pelo qual o terreno e as acessões objeto de incorporação imobiliária, bem como
os demais bens e direitos a ela vinculados, mantêm-se apartados do patrimônio do
incorporador e constituirão patrimônio de afetação, destinado à consecução da incorporação
correspondente e à entrega das unidades imobiliárias aos respectivos adquirentes.
Atente que o patrimônio de afetação não é obrigatório, mas opcional ao incorporador. Se o
fizer, o patrimônio afetado à incorporação se destina unicamente à consecução da entrega
das unidades imobiliárias e deixa de se comunicar com o restante do patrimônio do
incorporador. Isso fica claro no §1º:
O patrimônio de afetação não se comunica com os demais bens, direitos e obrigações do
patrimônio geral do incorporador ou de outros patrimônios de afetação por ele constituídos e
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 160/354
Questão 2022 | 4000814589
(CESPE / MPOG - 2015) O patrimônio de afetação visa proteger o empreendimento
afetado contra os riscos patrimoniais de outros negócios do incorporador, impedindo que
os eventuais insucessos deste, em outros negócios, inter�ram na estabilidade
econômico-�nanceira da incorporação objeto da afetação.
Solução
Gabarito: Certo.
O item está correto, eis que essa é exatamente a pretensão da norma, como �ca claro no
art. 31-A: “A critério do incorporador, a incorporação poderá ser submetida ao regime da
afetação, pelo qual o terreno e as acessões objeto de incorporação imobiliária, bem como
os demais bens e direitos a ela vinculados, manter-se-ão apartados do patrimônio do
incorporador e constituirão patrimônio de afetação, destinado à consecução da
incorporação correspondente e à entrega das unidades imobiliárias aos respectivos
adquirentes”.
só responde por dívidas e obrigações vinculadas à incorporação respectiva.
Separado o patrimônio afetado à incorporação, o incorporador responde pelos prejuízos
que causar ao patrimônio de afetação. Por isso, os bens e direitos integrantes do patrimônio
de afetação somente poderão ser objeto de garantia real em operação de crédito cujo produto
seja integralmente destinado à consecução da edificação e à entrega das unidades imobiliárias.
Isso é relevante porque, em caso de débitos superiores aos créditos do incorporador, o
patrimônio afetado a determinada incorporação não é atingido por eventuais credores em
regime de recuperação judicial ou pedido de falência, como se verá adiante.
No caso de cessão, plena ou fiduciária, de direitos creditórios oriundos da comercialização das
unidades imobiliárias componentes da incorporação, o produto da cessão também passará a
integrar o patrimônio de afetação.
Os recursos financeiros integrantes do patrimônio de afetação serão utilizados para
pagamento ou reembolso das despesas inerentes à incorporação. Já o reembolso do
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 161/354
preço de aquisição do terreno somente poderá ser feito quando da alienação das
unidades autônomas, na proporção das respectivas frações ideais, considerando-se tão-
somente os valores efetivamente recebidos pela alienação.
A LCEI exclui, porém, do patrimônio de afetação, segundo prevê o art. 31-A, §8º:
No caso de conjuntos de edificações distintas em terreno onde não houver
edificação alguma, poderão ser constituídos patrimônios de afetação separados,
tantos quantos forem edifícios diferentes, desde que tal situação esteja declarada no
memorial descritivo da incorporação. Nesse caso, segundo o art. 31-A, §9º, serão
constituídos tantos patrimônios de afetação, quantos sejam:
Por sua vez, prevê o art. 31-A, §10 que a “constituição de patrimônios de afetação separados de
que trata o §9º deverá estar declarada no memorial de incorporação”. Muitos interpretaram que
a averbação do termo de afetação deveria se dar em conjunto com o memorial descritivo. A
lei, porém, nunca mencionou tal exigência, atendo-se meramente a exigir que o termo fosse
“declarado no memorial de incorporação”.
Ora, se o termo deve ser declarado no memorial, evidentemente que aquele precede este; ou
seja, o termo pode ser feito mesmo que memorial ainda não exista. Isso é lógico. O Enunciado
324 da IV Jornada de Direito Civil, para afastar qualquer controvérsia, permite que se faça a
averbação do termo de afetação de incorporação imobiliária a qualquer tempo, mesmo
antes do registro do respectivo Memorial de Incorporação no Registro de Imóveis.
Para ouvir ao áudio correspondente, acesse o LDI.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 162/354
O §11 ainda prevê uma das situações mais comuns em incorporação imobiliária no Brasil. Nas
incorporações objeto de financiamento, a comercialização das unidades deverá contar com
a anuência da instituição financiadora ou deverá ser a ela cientificada, conforme vier a ser
estabelecido no contrato de financiamento.
Nesses casos, a contratação de financiamento e constituiçãode garantias não
implicam a transferência para o credor de nenhuma das obrigações ou
responsabilidades do cedente, do incorporador ou do construtor, permanecendo estes
como únicos responsáveis pelas obrigações e pelos deveres que lhes são imputáveis.
Isso vale, inclusive, no financiamento realizado mediante transmissão, para o credor, da
propriedade fiduciária sobre as unidades imobiliárias integrantes da incorporação, bem
como a cessão, plena ou fiduciária, de direitos creditórios decorrentes da
comercialização dessas unidades.
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
A afetação patrimonial, por ter relevantes impactos sobre os direitos reais, necessita de
averbação no Registro de Imóveis. Se for o caso, também os titulares de direitos reais de
aquisição sobre o terreno devem firmar o termo, como exige o art. 31-B. Nesse sentido, o
Enunciado 323 da IV Jornada de Direito Civil estabelece que se dispensa a anuência dos
adquirentes de unidades imobiliárias no "termo de afetação" da incorporação imobiliária.
Para ouvir ao áudio correspondente, acesse o LDI.
A averbação não será obstada pela existência de ônus reais que tenham sido
constituídos sobre o imóvel objeto da incorporação para garantia do pagamento do
preço de sua aquisição ou do cumprimento de obrigação de construir o
empreendimento. Do contrário, haveria uma contradição, impedindo-se a constituição
da afetação pela aquisição do terreno utilizado na própria incorporação.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 163/354
Questão 2022 | 4000814594
(FMP / TJ-MT - 2014) Sobre o patrimônio de afetação nas incorporações imobiliárias,
assinale a a�rmativa correta.
A)
Considera-se constituído mediante averbação, a qualquer tempo, no Registro de Imóveis,
de termo �rmado pelo incorporador e, quando for o caso, também pelos titulares de
direitos reais de aquisição sobre o terreno.
B)
A sua averbação será obstada pela existência de ônus reais que tenham sido constituídos
sobre o imóvel objeto da incorporação para garantia do pagamento do preço de sua
aquisição.
C)
Os efeitos da decretação da falência ou da insolvência civil do incorporador atingem o
patrimônio de afetação constituído, e o terreno, as acessões e demais bens, direitos
creditórios, obrigações e encargos objeto da incorporação passarão a integrar
automaticamente a massa concursal.
D)
O incorporador somente poderá negociar as unidades autônomas após ter averbado, no
Registro de Imóveis competente, o patrimônio de afetação que se distinguirá de seu
patrimônio pessoal.
E)
Será extinto, de pleno direito, pela revogação, em razão do esgotamento do prazo de
validade do registro de incorporação, que será de 120 dias e não poderá ser prorrogado.
Solução
Gabarito: A)
Considera-se constituído mediante averbação, a qualquer tempo, no Registro
de Imóveis, de termo �rmado pelo incorporador e, quando for o caso,
também pelos titulares de direitos reais de aquisição sobre o terreno.
A alternativa A está correta, segundo a norma do art. 31-B: “Considera-se constituído o
patrimônio de afetação mediante averbação, a qualquer tempo, no Registro de Imóveis,
de termo �rmado pelo incorporador e, quando for o caso, também pelos titulares de
direitos reais de aquisição sobre o terreno”.
A alternativa B está incorreta, de acordo com o art. 31-B, parágrafo único: “A averbação
não será obstada pela existência de ônus reais que tenham sido constituídos sobre o
imóvel objeto da incorporação para garantia do pagamento do preço de sua aquisição ou
do cumprimento de obrigação de construir o empreendimento”.
A alternativa C está incorreta, por aplicação do art. 31-A, § 1º: “O patrimônio de afetação
não se comunica com os demais bens, direitos e obrigações do patrimônio geral do
incorporador ou de outros patrimônios de afetação por ele constituídos e só responde por
dívidas e obrigações vinculadas à incorporação respectiva”.
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 164/354
A alternativa D está incorreta, duplamente. Primeiro, pela redação do art. 33 (“O registro
da incorporação será válido pelo prazo de 120 dias, �ndo o qual, se ela ainda não se
houver concretizado, o incorporador só poderá negociar unidades depois de atualizar a
documentação a que se refere o artigo anterior, revalidando o registro por igual prazo”),
que permite prorrogação. Segundo, porque o art. 12 da Lei 4.864/1965, mesmo sem
revogar expressamente esse artigo, eleva para 180 dias o prazo de validade de registro
da incorporação.
Estabelecida a afetação patrimonial, como se faz para haver certeza quanto à sua manutenção?
O art. 31-C prevê a possibilidade de se nomear, pela Comissão de Representantes e pela
instituição financiadora da construção, às suas expensas, pessoa física ou jurídica para
fiscalizar e acompanhar o patrimônio de afetação.
Essa nomeação não transfere qualquer responsabilidade pela obra. A pessoa nomeada, em
razão do conhecimento de informações sensíveis, como comerciais e tributárias, responsabiliza-
se legalmente pela falta de zelo, dedicação e sigilo sobre a eventual publicidade sobre elas.
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
O art. 31-D estabelece as obrigações do incorporador:
E como se extingue o patrimônio de afetação? O art. 31-E da LCEI estabelece que o
patrimônio de afetação se extingue pela:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 165/354
Questão 2022 | 4000814596
(FCC / TJ-CE - 2014) Na incorporação imobiliária, quando submetida ao regime de
afetação,
A)
o terreno e as acessões, objetos de incorporação imobiliária, bem como os demais bens
e direitos a ela vinculados, manter-se-ão apartados do patrimônio do incorporador e
constituirão patrimônio de afetação, destinado à consecução da incorporação
correspondente e à entrega das unidades imobiliárias aos respectivos adquirentes
B)
somente a instituição �nanciadora da construção poderá nomear pessoa física ou jurídica
para �scalizar e acompanhar o patrimônio de afetação, em razão do direito ao sigilo
Por ocasião da extinção integral das obrigações do incorporador perante a instituição
financiadora do empreendimento e após a averbação da construção, a afetação das unidades
não negociadas será cancelada mediante averbação, sem conteúdo financeiro, do respectivo
termo de quitação na matrícula matriz do empreendimento ou nas respectivas matrículas das
unidades imobiliárias eventualmente abertas, prevê o § 2º. Ademais, fixa o § 4º, após a
denúncia da incorporação, deve-se proceder ao cancelamento do patrimônio de afetação,
mediante o cumprimento das obrigações previstas no art. 31.
Obviamente, a decretação da falência ou da insolvência civil do incorporador não atinge os
patrimônios de afetação constituídos, não integrando a massa concursal o terreno, as
acessões e demais bens, direitos creditórios, obrigações e encargos objeto da
incorporação, estabelece o art. 31-F.
O Enunciado 628 da VIII Jornada de Direito Civil prevê que os patrimônios de afetação não
se submetem aos efeitos de recuperação judicial da sociedade instituidora. Por isso, eles
prosseguem sua atividade com autonomia e incomunicáveis em relação ao seu patrimônio
geral, aos demais patrimônios de afetação por ela constituídos e ao plano de recuperação até
que extintos, nos termos da legislação respectiva, quando seu resultado patrimonial, positivo ou
negativo, será incorporado ao patrimônio geral da sociedade instituidora.
Para ouvir ao áudio correspondente, acesse o LDI.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 166/354
bancário e �scal que tem o incorporador.
C)
o patrimônio de afetação não se comunica com os demais bens, direitos e obrigações do
patrimônio geral do incorporador, exceto com outros patrimônios de afetação por ele
constituídos, respondendo apenas por obrigações vinculadas às incorporações de um
mesmo incorporador.
D)
há necessidade de prévia averbação, no Registrode Imóveis, de termo �rmado pelo
incorporador e, quando for o caso, também pelos titulares de direitos reais de aquisição
sobre o terreno.
E)
os efeitos da decretação da falência ou da insolvência do incorporador atingem os
patrimônios de afetação constituídos, integrando a massa concursal o terreno, mas não as
acessões e demais bens e direitos creditórios objeto da incorporação.
Solução
Gabarito: A)
o terreno e as acessões, objetos de incorporação imobiliária, bem como os
demais bens e direitos a ela vinculados, manter-se-ão apartados do patrimônio
do incorporador e constituirão patrimônio de afetação, destinado à
consecução da incorporação correspondente e à entrega das unidades
imobiliárias aos respectivos adquirentes
A alternativa A está correta, na forma do art. 31-A da LCEI: “A critério do incorporador, a
incorporação poderá ser submetida ao regime da afetação, pelo qual o terreno e as
acessões objeto de incorporação imobiliária, bem como os demais bens e direitos a ela
vinculados, manter-se-ão apartados do patrimônio do incorporador e constituirão
patrimônio de afetação, destinado à consecução da incorporação correspondente e à
entrega das unidades imobiliárias aos respectivos adquirentes”.
A alternativa B está incorreta, consoante regra do art. 31-C: “A Comissão de
Representantes e a instituição �nanciadora da construção poderão nomear, às suas
expensas, pessoa física ou jurídica para �scalizar e acompanhar o patrimônio de
afetação”.
A alternativa C está incorreta, na dicção do art. 31-A, §1º: “O patrimônio de afetação não
se comunica com os demais bens, direitos e obrigações do patrimônio geral do
incorporador ou de outros patrimônios de afetação por ele constituídos e só responde por
dívidas e obrigações vinculadas à incorporação respectiva”.
A alternativa D está incorreta, de acordo com o art. 31-B: “Considera-se constituído o
patrimônio de afetação mediante averbação, a qualquer tempo, no Registro de Imóveis,
de termo �rmado pelo incorporador e, quando for o caso, também pelos titulares de
direitos reais de aquisição sobre o terreno”.
A alternativa E está incorreta, na regra do art. 31-F: “Os efeitos da decretação da falência
ou da insolvência civil do incorporador não atingem os patrimônios de afetação
constituídos, não integrando a massa concursal o terreno, as acessões e demais bens,
direitos creditórios, obrigações e encargos objeto da incorporação”.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 167/354
Em 60 dias após a decretação da falência ou da insolvência civil do incorporador ou da
paralisação da obra por mais de 30 dias, sem justa causa, o condomínio dos adquirentes, ou a
instituição financiadora, se houver, deve deliberar sobre os termos da continuação da obra ou
da liquidação do patrimônio de afetação. Abrem-se duas opções aos adquirentes, portanto:
No caso de continuidade da obra, prevê o §3º desse artigo, a Comissão de
Representantes ficará investida de mandato irrevogável para firmar com os
adquirentes das unidades autônomas o contrato definitivo a que estiverem obrigados
o incorporador, o titular do domínio e o titular dos direitos aquisitivos do imóvel objeto
da incorporação em decorrência de contratos preliminares, mesmo depois de concluída
a obra.
Esse mandato da Comissão lhe confere poderes para transmitir domínio, direito, posse e ação,
manifestar a responsabilidade do alienante pela evicção e imitir os adquirentes na posse das
unidades respectivas.
Em regra, o contrato definitivo de compra e venda se condiciona ao pagamento da última
prestação. No entanto, nos casos acima mencionados, previstos no art. 31-F, caput, o §6º desse
artigo fixa que os contratos definitivos serão celebrados mesmo com os adquirentes que
tenham obrigações a cumprir perante o incorporador ou a instituição financiadora. Nessa
situação, o adquirente deve comprovar que está adimplente, condicionando-se a outorga do
contrato à constituição de garantia real sobre o imóvel, para assegurar o pagamento do débito
remanescente.
Continuada a obra, os adquirentes ficarão automaticamente sub-rogados nos direitos, nas
obrigações e nos encargos relativos à incorporação, inclusive aqueles relativos ao contrato de
financiamento da obra, se houver. Cada adquirente responderá individualmente pelo saldo
porventura existente entre as receitas do empreendimento e o custo da conclusão da
incorporação na proporção dos coeficientes de construção atribuíveis às respectivas unidades,
se outro critério de rateio não for deliberado em assembleia geral por 2/3 dos votos dos
adquirentes.
O §12, incisos, do art. 31-F prevê que a Comissão deve fazer o balanço entre os créditos e
débitos da incorporação. Se houver sobras entre as receitas e o custo da conclusão da
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 168/354
incorporação, o valor correspondente a esse saldo deverá ser entregue à massa falida pela
Comissão.
Já no caso de liquidação do patrimônio de afetação, prevê o §7º desse artigo, a
Comissão de Representantes ficará investida de mandato irrevogável para, em nome
dos adquirentes, efetivar a alienação do terreno e das acessões, transmitindo posse,
direito, domínio e ação, manifestar a responsabilidade pela evicção, imitir os futuros
adquirentes na posse do terreno e das acessões.
A Comissão terá poderes para firmar o respectivo contrato de venda, promessa de
venda ou outra modalidade de contrato compatível com os direitos objeto da
transmissão. Alienados os direitos, a Comissão prestará contas aos adquirentes,
entregando-lhes o produto da alienação, no prazo de 5 dias da data em que tiver
recebido o preço ou cada parcela do preço. Esses valores devem ser depositados em
juízo, prevê o §10.
Para assegurar as medidas necessárias ao prosseguimento das obras ou à liquidação do
patrimônio de afetação, a Comissão, no prazo de 60 dias da assembleia, deve promover, em
leilão público, a venda das frações ideais e respectivas acessões que, até a data da decretação
da falência ou insolvência não tiverem sido alienadas pelo incorporador.
Nesse caso, o arrematante ficará sub-rogado, na proporção atribuível à fração e acessões
adquiridas, nos direitos e nas obrigações relativas ao empreendimento, inclusive nas obrigações
de eventual financiamento.
Por fim, há ordem de preferência na aquisição desses direitos (§17):
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 169/354
Lista de Questões
Política Agrícola e Reforma Agrária
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
[17]
Você verá um tema relativamente complexo: a política agrícola e a reforma agrária. Complexo
porque envolve uma série de dispositivos legais que formam um sistema específico,
profundamente vinculado com um ramo do Direito Privado que apenas recentemente
conseguiu atingir sua autonomia: o Direito Agrário.
O fundamento último deste peculiar ramo extraído do Direito das Coisas é, certamente, a
política agrícola. E, esta, por sua vez, é fundamental para o Brasil, dado que, a despeito das
profundas mudanças havidas pela nossa jovem nação nas últimas décadas, ainda vivemos num
país em que a terra exerce papel fundamental e gera disputas e conflitos constantes.
Posso encontrar elementos da política agrícola em ao menos cinco dispositivos legais centrais:
a CF/1998, que, no título da ordem econômica e financeira, traz capítulo específico para a
política agrícola e fundiária e a reforma agrária; a Lei 4.504/1964, o Estatuto da Terra – ET; a
Lei 8.171/1991, Lei da Política Agrícola – LPA, que dispõe sobre a política agrícola nacional; a Lei
8.629/1993, Lei da Reforma Agrária – LRA, que regulamenta os dispositivos constitucionais
acerca da reforma agrária; Lei Complementar 76/1993 – LC 76, que dispõe sobre o
procedimento contraditório especial para o processo de desapropriação de imóvel rural, por
interesse social, para fins de reforma agrária; e, por fim, a Lei 13.465/2017, que dispõe sobre a
regularização fundiária rural e urbana, alterandovárias disposições normativas acerca do
“grande tema” da política agrícola e da reforma agrária.
Meu objetivo, obviamente, não será exaurir essas normas. Igualmente, não me focarei em
apenas uma ou outra lei especial, já que o tema está contido num “sistema”. Trata-se de uma
análise mais voltada a um “assunto” do que a uma “lei”, portanto. Até porque a LPA tem mais de
100 artigos, a LRA quase 30, a LC 76, outros 25 e a Lei 13.465/2017 com seus mais de 100
artigos, é verdadeira colcha de retalhos legislativa.
Infelizmente, foi essa última norma aprovada a toque de caixa pelo Executivo, de maneira
absolutamente açodada e sem (necessária e profunda) discussão parlamentar, por meio de MP
(759/2016), em verdadeira afronta às basilares normas constitucionais que regem o tema.
Revogando numerosos dispositivos legais de variadas leis, inserindo aqui e acolá outros tantos e
dando redação nova a ainda outros, pretendeu essa norma criar um “estatuto jurídico da
regularização fundiária”.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 170/354
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Disposições Constitucionais
Assim, após o mapa de questões das provas realizadas nos últimos tempos que versaram sobre
o assunto, vi que temos com frequência a cobrança sobre os dispositivos constitucionais
(objeto da primeira parte da aula), a cobrança de alguns dispositivos bem esparsos (meia dúzia
de artigos) da LPA (objeto da segunda parte) e a cobrança de uma gama maior de artigos
(aproximadamente 10) da LRA (objeto da terceira parte). Lateralmente, trarei a você
questionamentos sobre alguns aspectos pontuais da LC 76.
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
A base de sustentação da política agrícola e da reforma agrária, no Brasil, está assentada
na Constituição Federal de 1988. Já de cara, o art. 184 da CF/1988 estabelece que
compete somente à União desapropriar por interesse social, para fins de reforma
agrária, os imóveis rurais. Os demais entes federativos estão excluídos dessa
possibilidade, portanto, numa tentativa de harmonização da política agrícola em nível
nacional. Veja as disposições constitucionais a respeito:
Art. 184. Compete à União desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o
imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social, mediante prévia e justa indenização
em títulos da dívida agrária, com cláusula de preservação do valor real, resgatáveis no prazo de
até vinte anos, a partir do segundo ano de sua emissão, e cuja utilização será definida em lei.
§ 1º As benfeitorias úteis e necessárias serão indenizadas em dinheiro.
§ 2º O decreto que declarar o imóvel como de interesse social, para fins de reforma agrária,
autoriza a União a propor a ação de desapropriação.
§ 3º Cabe à lei complementar estabelecer procedimento contraditório especial, de rito
sumário, para o processo judicial de desapropriação.
§ 4º O orçamento fixará anualmente o volume total de títulos da dívida agrária, assim como o
montante de recursos para atender ao programa de reforma agrária no exercício.
§ 5º São isentas de impostos federais, estaduais e municipais as operações de transferência de
imóveis desapropriados para fins de reforma agrária.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 171/354
Atente porque a definição de imóvel rural, na desapropriação para fins de reforma agrária,
é aferida pela sua destinação, não interessando que esteja localizado em zona urbana, há
muito entende a jurisprudência.
Pode-se desapropriar qualquer imóvel? Não. Desapropria-se desde que a área não esteja
cumprindo sua função social, mediante prévia e justa indenização em títulos da dívida
agrária, com cláusula de preservação do valor real, resgatáveis no prazo de até 20 anos, a
partir do segundo ano de sua emissão, e cuja utilização será definida em lei própria.
Atente porque, a despeito de a indenização ser feita em títulos da dívida agrária, o §1º
estabelece que as benfeitorias úteis e necessárias serão indenizadas em dinheiro.
Obviamente se abrangem aí também as acessões, sendo esse dispositivo mais um no qual o
legislador utilizou atecnicamente o termo “benfeitoria”, no sentido mais pedestre do termo,
esquecendo-se das acessões.
Primeiro, a União publica um decreto para declarar o imóvel como de interesse
social, para fins de reforma agrária. Com isso, autoriza-se a União a propor a ação
de desapropriação. Ou seja, a desapropriação depende de procedimento judicial, exige
o §2º. Mas como funciona esse procedimento? O §3º relegou à lei complementar
estabelecer procedimento contraditório especial, de rito sumário, para o processo
judicial de desapropriação. Trata-se da LC 76/1993.
Essa ação tramitará na Justiça Federal, como determina §1º do art. 2º da LC 76. Fixa o art. 4º
que se intentada a desapropriação parcial, o proprietário pode requerer, na contestação, a
desapropriação de todo o imóvel. Isso pode ser feito quando a área remanescente ficar
reduzida a superfície inferior à da pequena propriedade rural; ou quando prejudicada
substancialmente em suas condições de exploração econômica, caso seja o seu valor inferior
ao da parte desapropriada.
A petição inicial, além dos requisitos previstos no CPC, deve ser instruída com os
documentos exigidos pelo art. 5º e indicar a oferta de preço do expropriante:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 172/354
Determina ainda o art. 9º da LC 76 que a contestação seja oferecida no prazo de 15 dias. Ela,
porém, tem matéria limitada, podendo versar sobre qualquer matéria de interesse da defesa,
exceto a apreciação quanto ao interesse social declarado.
Para atender aos custos envolvidos nas desapropriações, o art. 184, §4º da CF/1988 exige que o
orçamento fixe anualmente o volume total de títulos da dívida agrária, assim como o montante
de recursos para atender ao programa de reforma agrária no exercício. Para facilitar e baratear
a reforma agrária, o §5º estabelece que são isentas de impostos federais, estaduais e
municipais as operações de transferência de imóveis desapropriados para fins de reforma
agrária.
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
Por outro lado, alguns imóveis rurais são insuscetíveis de desapropriação para fins de
reforma agrária. A norma constitucional preferiu deixar claro quando há impossibilidade
de desapropriação, de modo a afastar quaisquer dúvidas. Segundo o art. 185, são
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 173/354
Questão 2022 | 4000814849
(CESPE / PGE-SE - 2017) Um imóvel rural produtivo, mas que não cumpre a sua função
social, poderá ser desapropriado para �ns de reforma agrária, segundo a CF.
Solução
Gabarito: Errado.
O item está incorreto, já que na literalidade do art. 185, inc. II da CF/1988 (“São
insuscetíveis de desapropriação para �ns de reforma agrária a propriedade produtiva”)
não é possível tal ato, aindaque a jurisprudência e a doutrina a�rmem em contrário.
insuscetíveis de desapropriação para fins de reforma agrária:
A norma infraconstitucional deve ainda garantir tratamento especial à propriedade
produtiva, fixando normas para o cumprimento dos requisitos relativos à sua função
social. De antemão, porém, o art. 186 já estabelece, genericamente, que a função social
é cumprida quando a propriedade rural atende, simultaneamente, segundo critérios
e graus de exigência estabelecidos em lei, aos seguintes requisitos:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 174/354
Questão 2022 | 4000814850
(FCC / MPE-PA - 2014) A política agrícola
A) será desenvolvida integralmente fundada no cooperativismo.
B)
será planejada e executada com a participação efetiva do setor de produção, envolvendo
produtores e trabalhadores rurais, bem como dos setores de comercialização, de
armazenamento e de transportes.
C)
será planejada e executada com a participação efetiva do setor de produção, envolvendo
apenas produtores e trabalhadores rurais.
D) não abrange as atividades �orestais.
E) não abrange as atividades pesqueiras.
Solução
Gabarito: B)
será planejada e executada com a participação efetiva do setor de produção,
envolvendo produtores e trabalhadores rurais, bem como dos setores de
A política agrícola será planejada e executada na forma da lei infraconstitucional, com a
participação efetiva do setor de produção, envolvendo produtores e trabalhadores rurais,
bem como dos setores de comercialização, de armazenamento e de transportes. Segundo o
art. 187, a política agrícola deve levar em conta, especialmente:
O planejamento agrícola deve ser entendido de maneira ampla. Incluem-se no planejamento
agrícola as atividades agroindustriais, agropecuárias, pesqueiras e florestais, e não apenas
a agricultura sem sentido estrito, esclarece o §1º do art. 187. Esse planejamento deve
compatibilizar as ações de política agrícola e de reforma agrária.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 175/354
comercialização, de armazenamento e de transportes.
A alternativa A está incorreta, já que o cooperativismo é apenas uma das possibilidades
de desenvolvimento da política agrícola.
A alternativa B está correta, na literalidade do art. 187 da CF/1988: “A política agrícola
será planejada e executada na forma da lei, com a participação efetiva do setor de
produção, envolvendo produtores e trabalhadores rurais, bem como dos setores de
comercialização, de armazenamento e de transportes”.
A alternativa C está incorreta, como visto na parte �nal do art. 187 da CF/1988, incluindo
também “setores de comercialização, de armazenamento e de transportes”.
A alternativa D está incorreta, de acordo com o art. 187, §1º da CF/1988: “Incluem-se no
planejamento agrícola as atividades agroindustriais, agropecuárias, pesqueiras e
�orestais”.
A alternativa E está incorreta, igualmente, por aplicação do supracitado art. 187, §1º da
CF/1988.
Questão 2022 | 4000814851
(FCC / PGE-MA - 2015) O Estado do Maranhão, compatibilizando sua política agrária
com a política agrícola e com o plano nacional de reforma agrária, alienou uma área de
Outro componente da política agrícola e da reforma agrária, ao lado da desapropriação em
caso de descumprimento da função social da propriedade, é a utilização das terras públicas.
Vale lembrar que, de acordo com o art. 191, parágrafo único, os imóveis públicos não podem
ser adquiridos por usucapião.
Faço aqui um adendo. Em se tratando de usucapião de terras particulares, o STJ, numa das
súmulas mais antigas, afasta a alteração de foro nas ações de usucapião especial em razão
da presença da União ou de qualquer de seus entes na lide, mantendo-se o da situação do
imóvel. Trata-se da Súmula 11, que reconhece a primazia do foro de situação do imóvel para tais
ações.
Para ouvir ao áudio correspondente, acesse o LDI.
Por outro lado, o art. 188 estabelece que a destinação de terras públicas e devolutas seja
compatibilizada com a política agrícola e com o plano nacional de reforma agrária.
No entanto, a alienação ou a concessão, a qualquer título, de terras públicas com área
superior a 2.500ha, a pessoa física ou jurídica, ainda que por interposta pessoa, dependerá
de prévia aprovação do Congresso Nacional. A exceção fica por conta das alienações e
das concessões de terras públicas para fins de reforma agrária.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 176/354
três mil hectares de terras devolutas para reforma agrária. Esta alienação, segundo a
Constituição Federal, é
A)
nula, uma vez que a alienação ou a concessão, a qualquer título, de terras públicas com
área superior a dois mil e quinhentos hectares a pessoa física ou jurídica, ainda que por
interposta pessoa, dependerá de prévia aprovação do Senado Federal.
B)
nula, uma vez que a alienação ou a concessão, a qualquer título, de terras públicas com
área superior a dois mil e quinhentos hectares a pessoa física ou jurídica, ainda que por
interposta pessoa, dependerá de prévia aprovação do Congresso Nacional.
C)
válida, uma vez que a Administração Pública pode alienar livremente suas terras
devolutas.
D)
válida, uma vez que a Administração Pública pode alienar terras devolutas com área
inferior a cinco mil hectares sem prévia aprovação do Congresso Nacional.
E)
válida, uma vez que a Administração Pública pode, no contexto citado, alienar suas terras
devolutas para �ns de reforma agrária sem prévia aprovação do Congresso Nacional.
Solução
Gabarito: E)
válida, uma vez que a Administração Pública pode, no contexto citado, alienar
suas terras devolutas para �ns de reforma agrária sem prévia aprovação do
Congresso Nacional.
A alternativa A está incorreta, já que o art. 188, §1º da CF exige aprovação do Congresso
Nacional.
A alternativa B está incorreta, eis que apesar de o art. 188, §1º da CF (“A alienação ou a
concessão, a qualquer título, de terras públicas com área superior a dois mil e quinhentos
hectares a pessoa física ou jurídica, ainda que por interposta pessoa, dependerá de
prévia aprovação do Congresso Nacional”) trazer a exigência de aprovação parlamentar
nacional, o §2º traz exceção: “Excetuam-se do disposto no parágrafo anterior as
alienações ou as concessões de terras públicas para �ns de reforma agrária”.
A alternativa C está incorreta, evidentemente, eis que a alienação não é livre, como se
extrai do art. 188, §1º da CF.
A alternativa D está incorreta, porque o §1º do art. 188 da CF trata de 2.500 e não 5.000
ha.
A alternativa E está correta, na conjugação dos §§1º e 2º do art. 188, supracitados.
Os beneficiários da distribuição de imóveis rurais pela reforma agrária receberão
títulos de domínio ou de concessão de uso, inegociáveis pelo prazo de 10 anos,
esclarece o art. 189. Pretende-se evitar que a reforma agrária sirva de porta de entrada
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 177/354
de terras “gratuitas” no mercado agrário, gerando disparidades mercadológicas e a
manutenção de beneficiários que dos benefícios não necessitam. O título de domínio e a
concessão de uso serão conferidos ao homem ou à mulher, ou a ambos,
independentemente do estado civil.
Atente porque o art. 18 da LRA inclui, ao lado dos títulos de domínio e de concessão de uso,
a concessão de direito real de uso – CDRU, instituído pelo art. 7º do Decreto-Lei 271/1967 (na
inclusão feita pela Lei 11.481/2007). A CDRU, segundo o §1º desse dispositivo, é igualmente
inegociável por prazo decenal. E o que é a CDRU?
É instituída a concessão de uso de terrenos públicos ou particulares remunerada ou gratuita,
por tempo certo ou indeterminado, como direito real resolúvel, para fins específicos de
regularização fundiária de interesse social, urbanização, industrialização, edificação, cultivo da
terra, aproveitamento sustentável das várzeas, preservação das comunidades tradicionais e
seus meios de subsistência ou outras modalidades de interesse social em áreas urbanas.Permite-se concessão de uso do espaço aéreo sobre a superfície de terrenos públicos ou
particulares, tomada em projeção vertical, nos termos e para os fins mencionados
anteriormente, na forma que for regulamentada, consoante o art. 8º do Decreto-Lei 271/1967.
Ela pode ser contratada, segundo o art. 7º, §1º do Decreto, por instrumento público ou
particular, ou por simples termo administrativo, e será inscrita e cancelada em livro
especial no Registro de Imóveis. Desde a inscrição da concessão, o concessionário pode fruir
plenamente do terreno para os fins estabelecidos no contrato, respondendo por todos os
encargos civis, administrativos e tributários que venham a incidir sobre o imóvel e suas rendas.
Fica resolvida a concessão antes de seu termo, se o concessionário der ao imóvel destinação
diversa da estabelecida no contrato ou termo, ou descumpra cláusula resolutória do ajuste,
perdendo, nesse caso, as benfeitorias de qualquer natureza, explicita o §3º. Essa concessão,
salvo disposição contratual em contrário, transfere-se por ato inter vivos, ou por sucessão
legítima ou testamentária, como os demais direitos reais sobre coisas alheias, registrando-
se a transferência.
A aquisição e arrendamento de terras, no Brasil, por estrangeiros, não é ilimitada. Segundo o
art. 190 da CF, lei própria (Lei 5.709/1971) deve regular e limitar a aquisição ou o arrendamento
de propriedade rural por pessoa física ou jurídica estrangeira e estabelecerá os casos que
dependerão de autorização do Congresso Nacional.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 178/354
Questão 2022 | 4000814852
(CESPE / PGE-SE - 2017) Situação hipotética: Determinada propriedade rural é produtiva
e cumpre sua função social em metade de sua extensão, ao passo que, na outra metade,
são cultivadas plantas psicotrópicas ilegais.
Assertiva: Nessa situação, eventual desapropriação recairá somente sobre a metade que
se destina ao cultivo de plantas psicotrópicas ilegais.
Solução
Gabarito: Errado.
O item está incorreto, já que o art. 243 da CF/1988 (“As propriedades rurais e urbanas de
qualquer região do País onde forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas
ou a exploração de trabalho escravo na forma da lei serão expropriadas e destinadas à
reforma agrária e a programas de habitação popular, sem qualquer indenização ao
proprietário e sem prejuízo de outras sanções previstas em lei, observado, no que couber,
o disposto no art. 5º”) não prevê tal hipótese, sendo a desapropriação analisada pela
propriedade como um todo.
Por fim, para repreender a prática de dois ilícitos sensíveis, a CF prevê não a
desapropriação, mas a expropriação de terras no art. 243. Segundo esse dispositivo, as
propriedades rurais e urbanas na quais forem localizadas culturas ilegais de plantas
psicotrópicas ou a exploração de trabalho escravo serão expropriadas. Essas áreas,
se forem rurais, serão destinadas à reforma agrária, e, se urbanas, destinar-se-ão a
programas de habitação popular.
Essa expropriação, ao contrário da desapropriação, não gera dever de indenizar ao
Poder Público; o proprietário perde as terras sem qualquer contraprestação. Todo e
qualquer bem de valor econômico apreendido em decorrência do tráfico ilícito de
entorpecentes e drogas afins e da exploração de trabalho escravo será confiscado e
reverterá a fundo especial com destinação específica, na forma da lei. Obviamente que
as sanções penais também serão aplicadas.
Vistas as regras constitucionais, passo a analisar as regras infraconstitucionais a respeito da
política agrícola, a LPA, e da reforma agrária, a LRA.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 179/354
Lei da Política Agrícola
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
I. Princípios e objetivos
O art. 1° estabelece que a LPA fixa os fundamentos, define os objetivos e as
competências institucionais, prevê os recursos e estabelece as ações e instrumentos
da política agrícola, relativamente às atividades agropecuárias, agroindustriais e de
planejamento das atividades pesqueira e florestal. Entende-se por atividade agrícola a
produção, o processamento e a comercialização dos produtos, subprodutos e derivados,
serviços e insumos agrícolas, pecuários, pesqueiros e florestais, para efeitos da LPA.
Quais são os pressupostos da política agrícola? O art. 2º fixa-os detalhadamente:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 180/354
Por outro lado, estabelece o art. 3°, ainda mais detalhadamente, os objetivos da política
agrícola:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 181/354
Já o art. 4° estabelece que as ações e instrumentos de política agrícola referem-se a:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 182/354
Os instrumentos de política agrícola devem se orientar pelos planos plurianuais. De modo a
instrumentalizar a política agrícola, o art. 5° da LPA instituiu o Conselho Nacional de Política
Agrícola – CNPA, vinculado ao Ministério da Agricultura e Reforma Agrária – MARA
(atualmente, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA). Desativado em
1992, foi recriado em 2003. São suas atribuições:
A Lei 8.174/1991 dispõe sobre princípios de política agrícola, estabelece em detalhe atribuições
do CNPA, tributação compensatória de produtos agrícolas, amparo ao pequeno produtor e
regras de fixação e liberação dos estoques públicos. Essa lei ainda possui dois regulamentos
estabelecidos por Decreto.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 183/354
II. Planejamento e pesquisa agrícola
O art. 8° da LPA prevê que o planejamento agrícola será feito em consonância com o que
dispõe o art. 174 da CF, de forma democrática e participativa, através de planos nacionais
de desenvolvimento agrícola plurianuais, planos de safras e planos operativos anuais,
observadas as definições constantes da lei.
Os planos de safra e os planos plurianuais, elaborados de acordo com os instrumentos gerais
de planejamento, considerarão o tipo de produto, fatores e ecossistemas homogêneos, o
planejamento das ações dos órgãos e entidades da administração federal direta e indireta, as
especificidades regionais e estaduais, de acordo com a vocação agrícola e as necessidades
diferenciadas de abastecimento, formação de estoque e exportação. Os planos devem prever a
integração das atividades de produção e de transformação do setor agrícola, e deste com os
demais setores da economia.
O art. 13 autoriza a importação de material genético para a agricultura desde que não
haja proibição legal. Já o art. 12 define que a pesquisa agrícola deve:
III. Produção, comercialização, abastecimento e armazenagem
Outra preocupação da LPA é a manutenção do abastecimento e da armazenagem do mercado
nacional. Trata-se de questão de segurança alimentar e que traz impactos profundos numa
sociedade notadamente agrária. Para isso, o Poder Público formará, localizará
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 184/354
adequadamente e manterá estoques reguladores e estratégicos, visando a garantir a
compra do produtor, na forma da lei, assegurar o abastecimento e regular o preço do
mercado interno, determina o art. 31.
Os estoques reguladores devem contemplar, prioritariamente, os produtos básicos,
para salvaguardar a segurança alimentar, e devem ser adquiridos preferencialmente de
organizações associativas de pequenos e médios produtores, para fomentar a
agricultura familiar. A formação e a liberação destes estoques obedecem a regras
pautadas no princípio da menor interferência na livre concorrência. Por isso, devem ser
observados prazos e procedimentos preestabelecidos e de amplo conhecimento público,
sem ferir a margem mínima do ganho real do produtor rural, assentada em custos de
produção atualizados e produtividades médias históricas.
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
O curioso art. 33, que teve o caput vetado, mas não seus parágrafos,deixa claro, no §2º,
que a garantia de preços mínimos far-se-á através de financiamento da
comercialização e da aquisição dos produtos agrícolas amparados. Nesse sentido, os
alimentos considerados básicos terão tratamento privilegiado para efeito de preço
mínimo.
Já as vendas dos estoques públicos serão realizadas através de leilões em bolsas de
mercadorias, ou diretamente, mediante licitação pública, ordena o art. 35. Ademais, exige o
art. 42, em caráter obrigatório, o cadastro nacional de unidades armazenadoras de produtos
agrícolas. Por fim, exige-se padronização, fiscalização e classificação de produtos animais,
subprodutos e derivados e seus resíduos de valor econômico, bem como dos produtos de
origem animal destinados ao consumo e à industrialização para o mercado interno e externo
(art. 37).
IV. Fundo Nacional de Desenvolvimento Rural
A LPA dispõe sobre o Fundo Nacional de Desenvolvimento Rural – FNDR, até hoje não criado,
tendo sido vetados os principais dispositivos a respeito dele pelo Presidente Fernando Collor.
Ainda assim, algumas normas sobre o financiamento rural sobreviveram. O art. 81 prevê as
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 185/354
Lei da Reforma Agrária
Questão 2022 | 4000814853
(CESPE / Câmara dos Deputados - 2014) Julgue os próximos itens, a respeito da reforma
agrária. O não cumprimento da função social da propriedade enseja sua desapropriação
por interesse social, para �ns de reforma agrária.
fontes de recursos financeiros para o crédito rural:
Por sua vez, o art. 82 estabelece as duas fontes de recursos financeiros para o seguro
agrícola (eram originariamente sete, mas foram as demais igualmente vetadas):
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
A LRA horizontaliza os verticais dispositivos constitucionais acerca da reforma agrária, tema
esse sensível na realidade socioeconômica brasileira. Vale lembrar que a CF exige que a
desapropriação seja realizada na propriedade rural que não cumprir a função social. O art. 2º
da LPA esclarece, mais uma vez, que compete à União desapropriar por interesse social, para
fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 186/354
Solução
Gabarito: Certo.
O item está correto, conforme estabelece a parte �nal do art. 2º, §1º da Lei 8.629/1993:
“Compete à União desapropriar por interesse social, para �ns de reforma agrária, o
imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social”.
Para isso, fica a União, através do órgão federal competente, autorizada a ingressar
no imóvel de propriedade particular para levantamento de dados e informações,
mediante prévia comunicação escrita ao proprietário, preposto ou seu representante
(§2º). Na ausência destes, a comunicação será feita mediante edital, a ser publicado, por
três vezes consecutivas, em jornal de grande circulação na capital do Estado de
localização do imóvel. No caso de fiscalização decorrente do exercício de poder de
polícia, será dispensada essa comunicação, esclarece o §5º.
Não será considerada, para os fins da LPA, qualquer modificação, quanto ao domínio, à
dimensão e às condições de uso do imóvel, introduzida ou ocorrida até 6 meses após a data da
comunicação para levantamento de dados e informações exigidas.
De modo a tentar evitar a propagação de conflitos agrários e de invasão da propriedade
privada, §6º prevê que o imóvel rural de domínio público ou particular objeto de
esbulho possessório ou invasão motivada por conflito agrário ou fundiário de caráter
coletivo não será vistoriado, avaliado ou desapropriado nos 2 anos seguintes à sua
desocupação. Em caso de reincidência, esse prazo é dobrado, passando a 4 anos.
De um lado, portanto, tenta-se objetivamente apaziguar os conflitos agrários, limitando-se o
acesso à terra às áreas livres de conflitos; subjetivamente também o faz a LRA, limitando ao
acesso à terra por meio da reforma agrária. Exclui-se do Programa Nacional de Reforma
Agrária – PNRA quem, já estando beneficiado com lote em Projeto de Assentamento, ou
sendo pretendente desse benefício na condição de inscrito em processo de cadastramento e
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 187/354
seleção de candidatos ao acesso à terra, for efetivamente identificado como participante
direto ou indireto em conflito fundiário. Caracteriza-se o conflito fundiário por invasão ou
esbulho de imóvel rural de domínio público ou privado em fase de processo administrativo de
vistoria ou avaliação para fins de reforma agrária, ou que esteja sendo objeto de processo
judicial de desapropriação em vias de imissão de posse ao ente expropriante. Igualmente se
exclui quem for efetivamente identificado como participante de invasão de prédio público, de
atos de ameaça, sequestro ou manutenção de servidores públicos e outros cidadãos em
cárcere privado, ou de quaisquer outros atos de violência real ou pessoal praticados em tais
situações.
Penaliza-se também a entidade a que se vinculam essas pessoas. O §8º determina que a
entidade, a organização, a pessoa jurídica, o movimento ou a sociedade de fato que, de
qualquer forma, direta ou indiretamente, auxiliar, colaborar, incentivar, incitar, induzir ou
participar de invasão de imóveis rurais ou de bens públicos, ou em conflito agrário ou fundiário
de caráter coletivo, não receberá, a qualquer título, recursos públicos. Se a transferência ou
repasse dos recursos públicos já tiverem sido autorizados, assistirá ao Poder Público o direito
de retenção, bem assim o de rescisão do contrato, convênio ou instrumento similar.
Por outro lado, para evitar que um proprietário tivesse obstada a desapropriação, a LRA
também traz sanções a ele. Segundo o art. 2º-A, na hipótese de fraude ou simulação de
esbulho ou invasão, por parte do proprietário ou legítimo possuidor do imóvel, o órgão
executor do PNRA aplicará pena administrativa de R$55.000,00 a R$ 535.000,00 e o
cancelamento do cadastro do imóvel no Sistema Nacional de Cadastro Rural, sem prejuízo das
demais sanções penais e civis cabíveis. Esses valores são atualizados, a partir de 05/2000, no
dia 1º/01 de cada ano, com base na variação acumulada IGP-DI, no respectivo período.
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
A desapropriação para fins de reforma agrária é uma sanção pelo fato de a propriedade
não cumprir sua função social, não apresentando a devida produtividade. Por isso, nesses
casos, a indenização com os títulos da dívida agrária (TDAs), que podem ser resgatados ao
longo de vários anos.
Não se pode confundir essa desapropriação, porém, com a desapropriação para a
manutenção de colônias ou cooperativas de povoamento e trabalho agrícola, nos termos do
art. 2º, inc. III, da Lei 4.132/1962. Essa Lei se assenta no art. 5º, inc. XXIV, da CF/1988, e não no
art. 184.
Nesses casos, a desapropriação ocorre para atender sua finalidade social de maneira mais
adequada, geralmente para evitar conflitos sociais com potencial de gerar graves
consequências. Nessas desapropriações, mesmo que a área seja produtiva e
aparentemente cumpra sua função social, pode haver a perda da propriedade privada. Por
isso, o depósito da indenização deve ser feito em dinheiro, já decidiu o STF (MS 26.192); ou
seja, é como se a União estivesse à força comprando o imóvel rural.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 188/354
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
Para os efeitos desta lei, conceituam-se (art. 4º):
Talqualmente a CF, o §1º do art. 4º estabelece que são insuscetíveis de desapropriação
para fins de reforma agrária a pequena e a média propriedade rural, desde que o seu
proprietário não possua outra propriedade rural. O dispositivo não menciona a
propriedade produtiva, porém. Já o §2º estabelece a obrigatoriedade de manutenção no
Sistema Nacional de Cadastro Rural (SNCR) de informações específicas sobre imóveisrurais com área de até um módulo fiscal.
O art. 5º praticamente repete o art. 184 da CF. Esmiúça, porém, o resgate dos títulos da
dívida agrária. Segundo o §3º, os títulos da dívida agrária serão resgatáveis a partir do
segundo ano de sua emissão, em percentual proporcional ao prazo, observados os
seguintes critérios:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 189/354
Na hipótese de acordo administrativo ou acordo realizado no âmbito do procedimento previsto
na LC 76, o pagamento será efetuado de forma escalonada em Títulos da Dívida Agrária – TDA,
resgatáveis em parcelas anuais, iguais e sucessivas, a partir do segundo ano de sua emissão,
observadas as seguintes condições:
Esses prazos, quando iguais ou superiores a 10 anos, poderão ser reduzidos em cinco anos,
desde que o proprietário concorde em receber o pagamento do valor das benfeitorias úteis
e necessárias integralmente em TDA. Com a aceitação, os prazos de resgates dos respectivos
títulos serão fixados mantendo-se a mesma proporcionalidade estabelecida para aqueles
relativos ao valor da terra e suas acessões naturais, possibilitam os §§5º e 6º.
Rege o §7º que na aquisição por compra e venda ou na arrematação judicial de imóveis rurais
destinados à implementação de projetos integrantes do PNRA, o pagamento poderá ser feito
em dinheiro, na forma estabelecida em regulamento. Na hipótese de decisão judicial transitada
em julgado fixar a indenização da terra nua ou das benfeitorias indenizáveis em valor superior
ao ofertado pelo expropriante, corrigido monetariamente, a diferença será paga na forma do
art. 100 da CF (§8º). Esses procedimentos (§§7º e 8º) foram incluídos pela Lei 13.465/2017, que
excepcionou a regra de que a desapropriação é paga por títulos da dívida agrária.
O art. 8º, de modo a evitar problemas, coloca que mesmo que dado imóvel agrícola não
seja plenamente utilizado, mas esteja oficialmente destinado à execução de
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 190/354
Questão 2022 | 4000814854
(CESPE / Câmara dos Deputados - 2014) Em relação à política agrícola, julgue os itens
que se seguem. Os instrumentos de política agrícola devem orientar-se pelos planos
plurianuais e considerar os fatores e ecossistemas homogêneos, a vocação agrícola e as
necessidades diferenciadas de abastecimento, formação de estoque e exportação.
Solução
Gabarito: Errado.
O item está incorreto, já que o art. 8° da Lei 8.171/1991 estabelece que o planejamento
agrícola se faz através de planos nacionais de desenvolvimento agrícola plurianuais,
planos de safras e planos operativos anuais: “O planejamento agrícola será feito em
consonância com o que dispõe o art. 174 da Constituição, de forma democrática e
participativa, através de planos nacionais de desenvolvimento agrícola plurianuais,
planos de safras e planos operativos anuais, observadas as de�nições constantes desta
lei”.
atividades de pesquisa e experimentação que objetivem o avanço tecnológico da
agricultura, também estará sendo aproveitado racional e adequado o
aproveitamento de imóvel rural. Obviamente, não basta que um hectare de uma
fazenda 20.000 ha seja utilizado para pesquisa. As atividades de pesquisa devem utilizar
no mínimo, 80% da área total aproveitável do imóvel. Além disso, devem estar
consubstanciadas tais atividades em projeto:
Por outro lado, prevê o §3º desse artigo que “Os planos de safra e os planos plurianuais,
elaborados de acordo com os instrumentos gerais de planejamento, considerarão o tipo de
produto, fatores e ecossistemas homogêneos, o planejamento das ações dos órgãos e
entidades da administração federal direta e indireta, as especificidades regionais e estaduais, de
acordo com a vocação agrícola e as necessidades diferenciadas de abastecimento, formação
de estoque e exportação”.
Ou seja, “considerar os fatores e ecossistemas homogêneos, a vocação agrícola e as
necessidades diferenciadas de abastecimento, formação de estoque e exportação”,
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 191/354
mencionados pelo enunciado, recai sobre os “planos de safra e os planos plurianuais” e não
sobre o “planejamento agrícola” em geral.
Densificando o conceito mais aberto da função social da propriedade previsto em sede
constitucional, a LRA, além de repetir, no art. 9º, incisos, os requisitos para seu cumprimento
(aproveitamento racional e adequado; utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e
preservação do meio ambiente; observância das disposições que regulam as relações de
trabalho; exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores), também
distingue as áreas aproveitáveis das não aproveitáveis para efeitos de aplicação legal.
Assim, para que se verifique se determinado imóvel rural cumpre ou não cumpre a
função social da propriedade, não basta analisar sua área total, mas deve ser analisado se
a área é aproveitável ou não. Assim, uma fazenda de 5.000 ha terá considerados apenas
4.000 ha para verificação do aproveitamento adequado e racional se os outros 1.000 ha
estiverem ocupados por estradas, rios, áreas de preservação permanente etc.
Para efeito do que dispõe a LRA, o art. 10 estabelece que não se consideram
aproveitáveis as áreas:
Não obstante essas regras, o STF (MS 25.066) fixou o entendimento de que a desapropriação
para fins de reforma agrária deve levar em consideração, para cálculo da área, a área
global do imóvel rural, e não apenas as áreas aproveitáveis. Assim, é irrelevante que parte da
área não seja agricultável, seja qual for a razão do impedimento ao seu aproveitamento.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 192/354
O STJ, no mesmo sentido, entende que a definição de pequena, média ou grande
propriedade rural se obtém a partir da área total do imóvel, não se podendo valer apenas da
área aproveitável, que é utilizada pelo ET apenas para fins de cálculo do ITR. Por isso, preste
atenção: o uso da área aproveitável vale apenas para questões tributárias, mas não vale
para a definição do tipo de propriedade e nem para a desapropriação para a reforma
agrária (REsp 1.161.517/GO).
Seguindo essa lógica, a reforma agrária certamente não atingirá seus objetivos se os
assentamentos forem realizados em áreas impróprias à agricultura. Dar terras imprestáveis e
não dar terras é praticamente a mesma coisa. A realidade brasileira mostrou, porém, que os
problemas são mais profundos.
Grande parte dos problemas dos assentamentos realizados a partir da década de 1990
relacionaram-se e ainda se relacionam à falta de meios para que as terras agricultáveis
fossem/sejam trabalhadas, inviabilizando boa parte desses assentamentos. Em outras palavras,
numa sociedade capitalista global como a contemporânea, a agricultura tornou-se atividade
altamente competitiva e que exige investimentos polpudos.
Meramente repassar terras a alguém é, também, o mesmo que não repassar. Há a necessidade
de acompanhamento e de incentivos para que os beneficiários da reforma agrária permaneçam
na terra. Do contrário, assiste-se a numerosas ilegalidades, como a alienação irregular de terras
por boa parte dos assentados que ficam sem condições de produzir racionalmente a pessoas
sem intenções muito republicanas.
Antevendo esses problemas, o art. 17 da LRA exige que o assentamento de
trabalhadores rurais seja realizado em terras economicamente úteis, de preferência
na região por eles habitada. Para tanto, necessário observar-se:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 193/354
De modo a consolidar os projetos supramencionados, o Poder Executivo pode conceder
créditos de instalação aos assentados. Essa concessão obedecerá às disposições
regulamentares próprias, que estabelecem prazos, carências, termos, condições, rebates para
liquidação e procedimentos simplificados para o cumprimento do dispositivo legal.
Estão previstas essas regras no Decreto 9.066/2017, que ordena ao INCRA a gestão operacionalda concessão dos créditos destinados exclusivamente aos beneficiários do Programa Nacional
de Reforma Agrária – PNRA. Em se tratando de contratação de instituição financeira federal
para a operacionalização dessa concessão, dispensa-se a licitação.
A quitação dos créditos concedidos pelo Poder Executivo para a instalação aos assentados
não é um requisito para a liberação das condições resolutivas do título de domínio ou da
CDRU, autorizada a cobrança da dívida na forma legal.
Independentemente da implementação dos requisitos exigidos anteriormente, considera-se
consolidado o projeto de assentamento que atingir o prazo de 15 anos de sua implantação,
salvo por decisão fundamentada do INCRA (se o assentamento contar, em 1º/06/2017, com 15
anos ou mais de criação, deve ser consolidado em até 3 anos).
De outra banda, o processo de seleção das famílias beneficiárias do PNRA segue o regramento
do Decreto 9.311/2018. Novamente, essa função fica a cargo do INCRA, a quem compete
promovê-la em articulação com os demais entes de todos os níveis governamentais
responsáveis pelas políticas públicas complementares e necessárias à efetivação do programa.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 194/354
Questão 2022 | 4000814855
(FCC / TJ-PI - 2015) Os bene�ciários da distribuição de imóveis rurais pela reforma
agrária receberão APENAS títulos de
A) concessão de uso inegociáveis pelo prazo de dez anos ou títulos de domínio.
B) domínio ou de concessão de uso, sendo ambos inegociáveis pelo prazo de dez anos.
C) domínio inegociáveis pelo prazo de dez anos.
D) concessão de uso inegociáveis pelo prazo de dez anos.
E) domínio inegociáveis pelo prazo de dez anos ou títulos de concessão de uso.
A titulação, como dito anteriormente (no item das disposições constitucionais), foi ampliada
pela LRA, incluindo-se a CDRU, instituída pelo Decreto-Lei 271/1967, prevê o art. 18. Mais uma
vez, aqui, a LRA minudencia os dispositivos constitucionais.
De modo a consolidar os projetos supramencionados, o Poder Executivo pode conceder
créditos de instalação aos assentados. Essa concessão obedecerá às disposições
regulamentares próprias, que estabelecem prazos, carências, termos, condições, rebates para
liquidação e procedimentos simplificados para o cumprimento do dispositivo legal.
Estão previstas essas regras no Decreto 9.066/2017, que ordena ao INCRA a gestão operacional
da concessão dos créditos destinados exclusivamente aos beneficiários do Programa Nacional
de Reforma Agrária – PNRA. Em se tratando de contratação de instituição financeira federal
para a operacionalização dessa concessão, dispensa-se a licitação.
A quitação dos créditos concedidos pelo Poder Executivo para a instalação aos assentados
não é um requisito para a liberação das condições resolutivas do título de domínio ou da
CDRU, autorizada a cobrança da dívida na forma legal.
Independentemente da implementação dos requisitos exigidos anteriormente, considera-se
consolidado o projeto de assentamento que atingir o prazo de 15 anos de sua implantação,
salvo por decisão fundamentada do INCRA (se o assentamento contar, em 1º/06/2017, com 15
anos ou mais de criação, deve ser consolidado em até 3 anos).
De outra banda, o processo de seleção das famílias beneficiárias do PNRA segue o regramento
do Decreto 9.311/2018. Novamente, essa função fica a cargo do INCRA, a quem compete
promovê-la em articulação com os demais entes de todos os níveis governamentais
responsáveis pelas políticas públicas complementares e necessárias à efetivação do programa.
A titulação, como dito anteriormente (no item das disposições constitucionais), foi ampliada
pela LRA, incluindo-se a CDRU, instituída pelo Decreto-Lei 271/1967, prevê o art. 18. Mais uma
vez, aqui, a LRA minudencia os dispositivos constitucionais.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 195/354
Solução
Gabarito: B)
domínio ou de concessão de uso, sendo ambos inegociáveis pelo prazo de dez
anos.
A alternativa A está incorreta, já que a inegociabilidade decenal se aplica apenas ao
domínio e à concessão de direito real de uso, mas não à concessão de uso, na literalidade
do art. 18, §1º da Lei 8.629/1993: “Os títulos de domínio e a CDRU são inegociáveis pelo
prazo de dez anos, contado da data de celebração do contrato de concessão de uso ou
de outro instrumento equivalente, observado o disposto nesta Lei”. Não obstante, a regra
constitucional torna inegociável também a concessão de uso.
A alternativa B está correta, na literalidade do art. 189 da CF: “Os bene�ciários da
distribuição de imóveis rurais pela reforma agrária receberão títulos de domínio ou de
concessão de uso, inegociáveis pelo prazo de dez anos”.
Atenção, porém, ao art. 18 da Lei 8.629/1993, que amplia os títulos, incluindo a CDRU: “A
distribuição de imóveis rurais pela reforma agrária far-se-á por meio de títulos de
domínio, concessão de uso ou concessão de direito real de uso - CDRU instituído pelo art.
7º do Decreto-Lei no 271, de 28 de fevereiro de 1967”.
A alternativa C está incorreta, porque incompleta, conforme visto.
A alternativa D está incorreta, pelas mesmas razões da alternativa C.
A alternativa E está incorreta, pelas mesmas razões vistas na alternativa A.
Os §§10 e 11 do art. 18 trazem previsão bastante problemática em termos práticos. Isso
porque, falecendo qualquer dos concessionários do contrato de concessão de uso ou
da CDRU, seus herdeiros ou legatários receberão o imóvel, cuja transferência será
processada administrativamente. No entanto, os sucessores não podem fracionar o
imóvel. Isso traz certa “camisa-de-força” aos sucessores, já que, nem sempre, como é
comum, todos os filhos do concessionário têm ligação com a terra ou pretendem
trabalhá-la.
Os títulos de domínio, a concessão de uso ou a CDRU serão conferidos ao homem, na
ausência de cônjuge ou companheira, à mulher, na ausência de cônjuge ou
companheiro, ou ao homem e à mulher, obrigatoriamente, nos casos de casamento
ou união estável. Por fim, o §8o ainda prevê que não são considerados reembolsáveis:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 196/354
O art. 18-B esclarece que se for identificada a ocupação ou a exploração de área
objeto de projeto de assentamento por indivíduo que não se enquadre como
beneficiário do PNRA, o ocupante será notificado para desocupação da área, nos
termos estabelecidos em regulamento, sem prejuízo de eventual responsabilização nas
esferas cível e penal.
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
Novamente visando a atingir público-alvo específico, que possui características
socioeconômicas próprias, a lei estabelece quem tem preferência e quem está proibido
de se beneficiar do PNRA. O art. 19 prevê a ordem de preferência na distribuição dos
projetos de assentamento de lotes aos beneficiários do PNRA:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 197/354
Esse processo de seleção é realizado pelo INCRA, com ampla divulgação do edital de
convocação na internet e no Município em que será instalado o projeto de assentamento, bem
como nos Municípios limítrofes. No caso de projetos de assentamentos ambientalmente
diferenciados, definidos em regulamento, o processo de seleção será restrito às famílias que já
residam na área.
Caso a capacidade do projeto de assentamento não atenda todos os candidatos
selecionados, será elaborada lista dos excedentes, com prazo de validade de 2 anos, a qual
será observada de forma prioritária quando houver substituição dos beneficiários originários dos
lotes, nas hipóteses de desistência, abandono ou reintegração de posse. Esgotada essa lista
dos candidatos excedentes, ou expirada sua validade, será instaurado novo processo de
seleção específico para os lotes vagos no projeto de assentamento em decorrência de
desistência, abandono ou reintegração de posse.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 198/354
Dentro dessas preferências, quais são aspreferências? Sim, a Lei 13.465/2017
estabeleceu preferências nas preferências! Assim, observados os critérios do art. 19,
cabe ao INCRA classificar os candidatos a beneficiários do PNRA segundo os
critérios do art. 19-A (regulamento próprio estabelecerá a “pontuação” dos
candidatos, com base nesses critérios):
Prevê o §3º que em caso de empate, terá preferência o candidato de maior idade, em
cumprimento às regras do Estatuto do Idoso.
Por outro lado, o art. 20 estabelece quem está proibido de se beneficiar do PNRA. Não
poderá ser selecionado como beneficiário dos projetos de assentamento da LRA
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 199/354
quem:
À exceção do último caso (menor de 18 anos não emancipado), as disposições e limitações
constantes se aplicam aos cônjuges e companheiros. A exceção fica por conta do
convivente que, em caso de separação judicial ou de fato, não tenha sido beneficiado pelo
programa de reforma agrária, de regularização fundiária ou de crédito fundiário (§1º).
Não se aplica a restrição também aos ocupantes de cargo, emprego ou função pública
remunerada que prestem serviços de interesse comunitário à comunidade rural ou à
vizinhança do projeto de assentamento, desde que o exercício do cargo, do emprego ou da
função pública seja compatível com a exploração da parcela pelo indivíduo ou pelo núcleo
familiar beneficiado. Mas o que se considera “serviços de interesse comunitário”? Para o §3º
da LRA, são as atividades prestadas nas áreas de saúde, educação, transporte, assistência social
e agrária.
E se a situação de exclusão não for prévia à seleção do projeto de assentamento,
mas posterior? Ou seja, o beneficiário assume cargo público, torna-se proprietário rural,
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 200/354
Lista de Questões
Lei dos Direitos Autorais
torna-se cotista de sociedade empresária ou assume atividade não agrária, auferindo
renda incompatível com a prevista? Prevê o §4º que a pessoa não perderá a condição
de beneficiário, desde que a atividade assumida seja compatível com a exploração
da parcela pelo indivíduo ou pelo núcleo familiar beneficiado.
[18]
Tratarei da Lei 9.610/1998, a Lei dos Direitos Autorais, a LDA. Trata-se de uma lei bem extensa
(115 artigos) e detalhada. A LDA, ao revogar a Lei 5.988/1973 (outrora LDA), aglutinou diversos
dispositivos esparsos em outras normas e ainda agrupou várias leis extravagantes.
No entanto, pode respirar tranquilo, pois o que é cobrado nas provas é um conteúdo bem mais
restrito da LDA. Os temas da LDA aparecem com frequência em certames que não são ligados
à área jurídica, mas a cargos públicos correlatos à área, como certames para Editores,
Redatores, Agências de Cinema, Televisão e Radiodifusão, Fotógrafos, Intérpretes (incluindo de
Libras), Músicos etc.
Não adianta ficar batendo cabeça com esse tipo de questão. Eu trago uma ou outra questão, de
cargos desse gênero, quando elas têm ligação, relativamente ao conteúdo cobrado, com aquilo
que pode aparecer na sua prova, já que aí sim esse tipo de questão possibilitaria a você treinar.
Por isso, não adianta eu ficar tratando da LDA inteira, de cabo a rabo, quando eu sei, com base
no mapa de questões que fiz dessa Lei Especial, que alguns poucos artigos são objeto
frequente das provas. Vou focar nesses e frisar bem os pontos cobrados pelas bancas. Os
demais temas, que não aparecem nas provas, não serão tratados, portanto.
Eu preciso – e você também – focar naquilo que é relevante para a sua prova, aquilo que
efetivamente pode aparecer no seu certame. Não adianta fazer uma “LDA comentada” e deixar
você perdendo tempo com temas irrelevantes. Do contrário, bastaria a você ler a LDA “seca”.
Esse é um tema bastante importante, já que na contemporaneidade vivemos numa “era da
pirataria”. O Brasil, inclusive, é famoso por violar reiteradamente direitos autorais, propriedade
intelectual e propriedade industrial. O país não chega a fazê-lo de maneira sistemática e com
apoio estatal, como faz a China, mas ainda há pouco combate.
O Estratégia e muitos outros Cursos online, inclusive, são diretamente afetados pelo assunto, já
que muitos concurseiros, por diversas razões, acabam recorrendo a picaretas que violam os
direitos autorais dos professores. Eu, inclusive, tenho direitos autorais sobre este livro
eletrônico.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 201/354
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Noções Gerais
No Estratégia, eu e nossos colegas temos contratos a regular a relação desses direitos autorais.
Ao longo da aula você compreenderá como isso funciona. De maneira bastante simplificada, eu
cedo meus direitos patrimoniais de autor ao Estratégia para que ele comercialize o material a
você.
Quando alguém viola esses direitos autorais, ele viola duplamente. Primeiro, ou o pirata
realizou contrafação direta ou indireta, por cessão não autorizada de terceiro, violando os
direitos do Estratégia. Segundo, violou meus direitos morais e patrimoniais de autor. Assim,
pode sofrer, na esfera patrimonial, sanção tanto do Estratégia quanto minha.
Além das sanções patrimoniais, há também sanções criminais, claro. As sanções cíveis, porém,
são bastante rígidas, incluindo o pagamento de indenizações e multas. Infelizmente, porém, o
comércio ilegal ainda persiste.
A LDA, já no art. 1º, estabelece os limites de sua aplicação, notadamente ampliando-os.
Como? Prevendo que os direitos autorais abrangem os direitos de autor e os que lhes
são conexos, ou seja, não apenas os direitos autorais stricto sensu, mas também os que
são conexos a eles.
O que são esses direitos conexos? A LDA também traz, em seu bojo, regramento sobre
os direitos conexos aos direitos autorais:
Art. 89. As normas relativas aos direitos de autor aplicam-se, no que couber, aos direitos dos
artistas intérpretes ou executantes, dos produtores fonográficos e das empresas de radiodifusão.
Parágrafo único. A proteção desta Lei aos direitos previstos neste artigo deixa intactas e não
afeta as garantias asseguradas aos autores das obras literárias, artísticas ou científicas.
Art. 96. É de setenta anos o prazo de proteção aos direitos conexos, contados a partir de 1º de
janeiro do ano subsequente à fixação, para os fonogramas; à transmissão, para as emissões das
empresas de radiodifusão; e à execução e representação pública, para os demais casos.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 202/354
Porém, o art. 6º da LDA traz ressalva importante. Estabelece o dispositivo que não são
de domínio da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios as obras
por eles simplesmente subvencionadas. Ou seja, não há direito autoral aos entes
públicos mencionados que financiam determinada obra, que simplesmente
subvencionam a criação de algo. O direito autoral continua sendo daquele que criou a
obra em questão.do ar. Ao contrário, com ordem judicial,
as coisas são um tanto diferentes...De modo a assegurar a liberdade de expressão e impedir a
censura, o provedor de aplicações de internet somente pode ser responsabilizado
civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros se, após ordem judicial
específica, não tomar as providências para, no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço
e dentro do prazo assinalado, tornar indisponível o conteúdo apontado como infringente,
ressalvadas as disposições legais em contrário, prevê o art. 19.
Para evitar os “erros jurisprudenciais do passado”, o §1º exige que a ordem judicial contenha,
sob pena de nulidade, identificação clara e específica do conteúdo apontado como
infringente, que permita a localização inequívoca do material.
O STJ entende que para a aplicação desse dispositivo é necessário que o interessado
providencie o URL – Uniform Resource Locator, ou, em português, Localizador Uniforme de
Recursos, qual seja o “endereço de rede no qual se encontra algum recurso informático, como
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 26/354
por exemplo um arquivo de computador ou um dispositivo periférico”, o bom e velho
conhecido www.
Atualmente, já há discussões a respeito das limitações sobre essa exigência. Isso porque o
conteúdo se replica rapidamente na rede (e o caso da Cicarelli é exemplar) e às vezes é
praticamente impossível indicar dezenas, centenas ou mesmo milhares de links. Igualmente, às
vezes o próprio produtor do conteúdo, ao ter retirada a página do ar, recoloca o conteúdo com
outro “www” (isso acontece aqui no Estratégia com variados piratas).
Os casos de infrações a direitos de autor ou a direitos conexos, que dependam de
aplicação da regra supracitada, dependem de previsão legal específica, respeitada a
liberdade de expressão e demais garantias previstas no art. 5º da CF/1988. Essa lei, até o
momento, ainda não foi editada. Ficam, então, os direitos do autor ou conexos, relativamente à
internet, desprotegidos?
Não, já que o art. 31 estabelece que até a entrada em vigor da lei específica, a
responsabilidade do provedor de aplicações de internet por danos decorrentes de
conteúdo gerado por terceiros, quando se tratar de infração a direitos de autor ou a
direitos conexos, continuará a ser disciplinada pela legislação autoral vigente. Trata-se da
lei 9.610/1998, a Lei de Direitos Autorais – LDA, que, obviamente, não previa o desmesurado
desenvolvimento que a internet teria anos depois.
Em se tratando de ressarcimento por danos decorrentes de conteúdos disponibilizados na
internet relacionados à honra, à reputação ou a direitos de personalidade, bem como sobre
a indisponibilização desses conteúdos por provedores de aplicações de internet, poderão ser
apresentadas perante os Juizados Especiais, permite o §3º do art. 19.
O magistrado pode, nesses casos, antecipar, total ou parcialmente, os efeitos da tutela
pretendida no pedido inicial, existindo prova inequívoca do fato e considerado o interesse
da coletividade na disponibilização do conteúdo na internet, desde que presentes os
requisitos de verossimilhança da alegação do autor e de fundado receio de dano irreparável
ou de difícil reparação.
O STJ ainda entende que o provedor de pesquisa não se responsabiliza, em regra. Porém,
haverá responsabilidade subjetiva do provedor de busca, quando:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 27/354
Se o provedor de aplicações de internet tiver informações de contato do usuário diretamente
responsável pelo conteúdo acima referido deve comunicar-lhe os motivos e informações
relativos à indisponibilização de conteúdo, com informações que permitam o contraditório e a
ampla defesa em juízo, salvo expressa previsão legal ou expressa determinação judicial
fundamentada em contrário. O parágrafo único do art. 20 estabelece que quando solicitado
pelo usuário que disponibilizou o conteúdo tornado indisponível, o provedor de aplicações
de internet que exerce essa atividade de forma organizada, profissionalmente e com fins
econômicos substituirá o conteúdo tornado indisponível pela motivação ou pela ordem
judicial que deu fundamento à indisponibilização.
O provedor de aplicações de internet que disponibilize conteúdo gerado por terceiros é
subsidiariamente responsável pela violação da intimidade decorrente da divulgação, sem
autorização de seus participantes, de imagens, de vídeos ou de outros materiais contendo
cenas de nudez ou de atos sexuais de caráter privado. Isso ocorrerá quando, após o
recebimento de notificação pelo participante ou seu representante legal, deixar de
promover, de forma diligente, no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço, a
indisponibilização desse conteúdo, deixa claro o art. 21.
A notificação deve conter, como as decisões judiciais, sob pena de nulidade, elementos que
permitam a identificação específica do material apontado como violador da intimidade do
participante e a verificação da legitimidade para apresentação do pedido.
Veja-se que essa situação específica, que envolve material com nudez ou ato sexual,
diferencia-se da geral, relativa aos demais casos, na qual o provedor só após
determinação judicial. Aqui, basta a notificação do interessado e a ausência de tomada de
medidas pelo provedor de aplicações. A razão é bastante óbvia, dado o caráter viral que esse
tipo de material tem na rede.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 28/354
(FCC / DPE-RS - 2017) Uma das seções da Lei n° 12.965/2014, trata da
responsabilidade por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros na
internet. Nesta seção da Lei, afirma-se que
a) o provedor de conexão à internet sempre será responsabilizado civilmente por danos
decorrentes de conteúdo gerado por terceiros.
b) se após ordem judicial específica o provedor de aplicações de internet não tornar
indisponível o conteúdo apontado como infringente, poderá ser responsabilizado
civilmente por danos decorrentes deste conteúdo gerado por terceiros.
c) as causas que versem sobre ressarcimento por danos decorrentes de conteúdos
disponibilizados na internet relacionados à honra ou à reputação só poderão ser
apresentadas perante juizados superiores.
d) o juiz não poderá antecipar os efeitos da tutela pretendida no pedido inicial, mesmo
existindo prova inequívoca do fato e receio de dano irreparável ou de difícil reparação.
e) o provedor de aplicações de internet que disponibilize conteúdo gerado por terceiros
não poderá ser responsabilizado pela violação da intimidade decorrente da divulgação,
sem autorização de seus participantes, de imagens ou vídeos contendo cenas de nudez
de caráter privado.
Comentários
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 29/354
A alternativa A está incorreta, como prevê o art. 18: “O provedor de conexão à internet
não será responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por
terceiros”.
A alternativa B está correta, na literalidade do art. 19: “Com o intuito de assegurar a
liberdade de expressão e impedir a censura, o provedor de aplicações de internet
somente poderá ser responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo
gerado por terceiros se, após ordem judicial específica, não tomar as providências para,
no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço e dentro do prazo assinalado, tornar
indisponível o conteúdo apontado como infringente, ressalvadas as disposições legais
em contrário”.
A alternativa C está incorreta, porque o art. 19, §3º (“As causas que versem sobre
ressarcimento por danos decorrentes de conteúdos disponibilizados na internet
relacionados à honra, à reputação ou a direitos de personalidade, bem como sobre a
indisponibilização desses conteúdos por provedores de aplicações de internet, poderão
ser apresentadas perante os juizados especiais”) não condiciona a propositura da ação
ao JEC, mas permite que seja, apenas.
A alternativa D está incorreta,Pelas características próprias, os direitos autorais são tratados como bens móveis por
equiparação, pela previsão literal do art. 3º da Lei. No entanto, essa previsão seria
desnecessária em face da previsão do art. 83, inc. III, do CC/2002 (“Consideram-se
móveis para os efeitos legais os direitos pessoais de caráter patrimonial e respectivas
ações”). O legislador, porém, preferiu afastar qualquer questionamento.
Por tratar de direitos que em geral transbordam as fronteiras nacionais, a LDA se aplica
também aos estrangeiros domiciliados no exterior, desde que tal proteção seja assegurada
em acordos, convenções e tratados em vigor no Brasil. Igualmente, prevê o parágrafo único
do art. 2º, a LDA se aplica aos brasileiros e às pessoas domiciliadas no estrangeiro, desde que
esse país assegure aos brasileiros ou pessoas domiciliadas no Brasil a reciprocidade na
proteção aos direitos autorais ou equivalentes.
Ademais, o art. 4º da LDA estabelece que os negócios jurídicos sobre os direitos autorais
devem ser interpretados restritivamente. Esse artigo segue a lógica do art. 114 do CC/2002
(“Os negócios jurídicos benéficos e a renúncia interpretam-se estritamente”). Isso porque, ao
negociar patrimonialmente um direito autoral, o autor, em alguma medida, renuncia a ele, daí a
previsão da lei especial (LDA), em consonância com a lei geral (CC/2002).
Nesse sentido, o STJ reconheceu que o projeto arquitetônico, enquanto obra intelectual, faz jus
à proteção conferida pela Lei dos Direitos Autorais em seu art. 7º, inc. X. A Corte, valendo-se
do art. 4º, entendeu que como no contrato celebrado entre o arquiteto e o proprietário da
casa não houve transmissão dos direitos autorais, a interpretação restritiva devia imperar.
Não houve autorização do arquiteto, portanto, na utilização da obra, a despeito de o
proprietário ter aquiescido. Necessário, então, seria a autorização de ambos para a utilização,
pela empresa, da imagem da casa em sua propaganda.
Por fim, veja-se que como não houve transferência dos direitos autorais pelo arquiteto ao dono
da casa, este nada deveria ter recebido, já que não detinha esses direitos sobre a casa. Seu
direito se limitava a, com base no projeto, edificar a casa, dado que esse era o objetivo do
projeto arquitetônico, e não reproduzir sua fachada, ou produzir miniaturas do imóvel, por
exemplo (REsp 1.562.617/SP).
Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 203/354
A primeira parte da LDA ainda traz, em seu art. 5º, uma série de conceitos técnicos
necessários à aplicação da Lei. Veja cada um deles:
Como se prova a contrafação para fins criminais? Para a configuração do delito de violação de
direito autoral e a comprovação de sua materialidade, é suficiente a perícia realizada por
amostragem do produto apreendido, nos aspectos externos do material, e é desnecessária a
identificação dos titulares dos direitos autorais violados ou daqueles que os representem, rege
a Súmula 574 do STJ.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 204/354
O simulcasting nada mais é do que a transmissão simultânea de determinado conteúdo por
meios diferentes. Imagine uma música transmitida por uma rádio simultaneamente pela “radio
comum” e pela radio web. A previsão do art. 31 da LDA é bastante clara a respeito: “As
diversas modalidades de utilização de obras literárias, artísticas ou científicas ou de
fonogramas são independentes entre si, e a autorização concedida pelo autor, ou pelo
produtor, respectivamente, não se estende a quaisquer das demais”.
Assim, autorizada a transmissão, e pagos os direitos autorais pela rádio, a transmissão virtual,
ainda que por simulcasting, não se engloba naquela. São transmissões independentes entre si e
que exigem autorizações diferentes e pagamento respectivo dos direitos autorais.
No caso do webcasting, o fato de a execução ocorrer on demand, com o usuário selecionando
a programação de um cardápio pré-existente, tampouco afasta a necessidade de autorização e
o dever de arcar com os direitos autorais junto ao ECAD.
Segundo o art. 5º, inc. II, considera-se transmissão ou emissão: “a difusão de sons ou de sons e
imagens, por meio de ondas radioelétricas; sinais de satélite; fio, cabo ou outro condutor;
meios óticos ou qualquer outro processo eletromagnético”. Igualmente, prevê o art. 68, §2º,
que “Considera-se execução pública a utilização de composições musicais ou lítero-musicais,
mediante a participação de artistas, remunerados ou não, ou a utilização de fonogramas e
obras audiovisuais, em locais de frequência coletiva, por quaisquer processos, inclusive a
radiodifusão ou transmissão por qualquer modalidade, e a exibição cinematográfica”.
Ou seja, a transmissão de webcasting, mesmo que on demand, também é considerada
transmissão pública para fins da LDA, atraindo sua aplicação e consequentemente
sujeitando o transmissor ao pagamento dos direitos autorais ao ECAD (REsp 1.559.264-RJ).
Quanto às obras de direito autoral, continua a LDA, há uma série de conceitos sobre sua
criação. Podemos classificar a obra de diversas formas:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 205/354
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 206/354
A LDA, além disso, ainda menciona dois conceitos sobre as obras objeto da legislação especial:
Por fim, o mesmo art. 5º ainda define os agentes ligados aos direitos autorais:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 207/354
Obras Intelectuais
A LDA reconhece a distinção entre autor e titular. Autor é, como o nome diz, quem detém a
autoria da obra, ou seja, é a pessoa natural que cria a obra, a partir de seu intelecto; trata-
se do titular originário. Detentor é quem detém, por alguma relação jurídica, os direitos
autorais derivados dessa criação, como ocorre com as pessoas jurídicas; trata-se do titular
derivado.
Assim, nesse tipo de caso, há duas relações jurídicas. Uma entre a sociedade empresarial que
contrata o produto e a empresa que o produz, horizontal, e outra entre a sociedade empresarial
que o produz e a pessoa natural de criou a obra, uma relação vertical. São duas relações
distintas. De qualquer modo, o “ente” pessoa jurídica (empresa que produz) e pessoa natural
(criador) é detentor, nos termos do art.11, parágrafo único, da Lei 9.610/1998, dos instrumentos
protetivos para tutelar os direitos do autor afetados (REsp 1.473.392/SP).
O art. 5º, inc. XIII, esclarece que são intérpretes ou executantes “todos os atores, cantores,
músicos, bailarinos ou outras pessoas que representem um papel, cantem, recitem, declamem,
interpretem ou executem em qualquer forma obras literárias ou artísticas ou expressões do
folclore”. Repare na parte final: “obras literárias ou artísticas ou expressões do folclore”.
Música é obra artística; saudação de voz de ligação telefônica, não. Por isso, as músicas dos
Beatles rendem milhões e a pessoa da espera do call center (“olá, todos os nossos atendentes
estão ocupados”), a Alexa ou a Siri, nada. A gravação de mensagem telefônica não se
enquadra na noção, mesmo que elastecida, do supracitado dispositivo legal, não atraindo a
aplicação dos direitos conexos (neighboring rights) ao do autor (REsp 1.630.851/SP).
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 208/354
I. Proteção
Ao tratar das obras intelectuais, o art. 7º estabelece que elas são protegidas por lei.
Mas, o que são obras intelectuais? São as criações do espírito, expressas por
qualquer meio ou fixadas em qualquer suporte, tangível ou intangível, conhecido ou
que se invente no futuro.
Trata-se de proteção bastante ampla, já que a LDA reconhece, no próprio texto legal,
que não é possível listar todas as “criações do espírito”, ou seja, criações humanas que
não são corpóreas, ainda que possam estar corporificadas em algum meio ou suporte.
De modo sincero, a Lei ainda prevê que, com o desenvolvimento tecnológico,segundo o art. 19, §4º: “O juiz, inclusive no procedimento
previsto no § 3o, poderá antecipar, total ou parcialmente, os efeitos da tutela pretendida
no pedido inicial, existindo prova inequívoca do fato e considerado o interesse da
coletividade na disponibilização do conteúdo na internet, desde que presentes os
requisitos de verossimilhança da alegação do autor e de fundado receio de dano
irreparável ou de difícil reparação”.
A alternativa E está incorreta, dada a previsão do art. 21: “O provedor de aplicações de
internet que disponibilize conteúdo gerado por terceiros será responsabilizado
subsidiariamente pela violação da intimidade decorrente da divulgação, sem autorização
de seus participantes, de imagens, de vídeos ou de outros materiais contendo cenas de
nudez ou de atos sexuais de caráter privado quando, após o recebimento de notificação
pelo participante ou seu representante legal, deixar de promover, de forma diligente, no
âmbito e nos limites técnicos do seu serviço, a indisponibilização desse conteúdo”.
2. Requisição judicial de registros
Hodiernamente, os dados e registros de conexão e de acesso a aplicações de internet
são bastante relevantes para os processos judiciais, dado que é pela web que boa parte
das pessoas acaba travando inúmeras relações jurídicas. Uma miríade de possiblidades
probatórias se descortina com a rede.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 30/354
Lei de Proteção de Dados
Não à toa, o art. 22 permite que a parte interessada possa, com o propósito de formar
conjunto probatório em processo judicial cível ou penal, em caráter incidental ou
autônomo, requerer ao juiz que ordene ao responsável pela guarda o fornecimento
de registros de conexão ou de registros de acesso a aplicações de internet.
No entanto, tal pedido não pode vir “no seco”, apenas cumpridos os requisitos legais
comuns. O parágrafo único prevê expressamente que o requerimento contenha, sob
pena de inadmissibilidade:
A partir desse requerimento, devidamente instruído, o juiz deve tomar as providências
necessárias à garantia do sigilo das informações recebidas e à preservação da
intimidade, da vida privada, da honra e da imagem do usuário, podendo determinar
segredo de justiça, inclusive quanto aos pedidos de guarda de registro.
Disposições gerais
Do que trata a LGPD? Ela dispõe sobre o tratamento de dados pessoais, inclusive nos meios
digitais, por pessoa natural ou por pessoa jurídica de direito público ou privado. E por que é
necessário tratar dos dados das pessoas? De acordo com o art. 1º, o objetivo é proteger os
direitos fundamentais de liberdade e de privacidade e o livre desenvolvimento da
personalidade da pessoa natural.
O parágrafo único ainda prevê que as normas gerais contidas na lei são de interesse nacional e,
por isso, devem ser observadas pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios.
A norma disciplina da proteção de dados pessoais e tem certos fundamentos a lhe sustentar.
Conforme o art. 2º, a proteção de dados pessoais tem como fundamentos:
Respeito à privacidade
Autodeterminação informativa
Liberdade de expressão, de informação, de comunicação e de opinião
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 31/354
Inviolabilidade da intimidade, da honra e da imagem
Desenvolvimento econômico e tecnológico e inovação
Livre iniciativa, livre concorrência e defesa do consumidor
Direitos humanos, livre desenvolvimento da personalidade, dignidade e exercício da
cidadania pelas pessoas naturais
Qual o âmbito de aplicação da proteção dos dados pessoais? Enuncia o art. º que a lei se
aplica a qualquer operação de tratamento realizada por pessoa natural ou por pessoa
jurídica de direito público ou privado, independentemente do meio, do país de sua sede ou
do país onde estejam localizados os dados, desde que:
Atente para o inc. I. Se a operação de tratamento de dados for realizada no território nacional,
deve ser aplicado o inc. IV do art. 4º, visto no quadro abaixo, exige o §2º do art. 3º. Se, de um
lado, a lei prevê as hipóteses nas quais ela se aplica, inversamente, prevê o art. 4º que a lei
NÃO se aplica ao tratamento de dados pessoais:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 32/354
No caso de dados pessoais utilizados para fins acadêmicos, aplicam-se as regras dos arts. 7º e
11. O art. 7º versa sobre o tratamento de dados pessoais e o art. 11 sobre o tratamento de dados
pessoais sensíveis.
Ou seja, apesar de a LGPD não se aplicar aos dados com fins acadêmicos, no geral, ela se
aplica especificamente quanto a esses dois aspectos. Isso porque, é sabido, é comum o uso
extensivo de dados pessoais em pesquisas acadêmicas.
No caso de tratamento de dados para fins de segurança lato sensu, versados no inc. III
(segurança pública, defesa nacional, segurança do Estado e atividade de investigação e
repressão), há alguns cuidados a tomar. Primeiro, esse tipo de dados é regido por legislação
específica, que deve prever medidas proporcionais e estritamente necessárias ao atendimento
do interesse público, observados o devido processo legal, os princípios gerais de proteção e os
direitos do titular previstos da lei (§1º). Até o momento, porém, a lei ainda não foi editada.
Segundo, determina o §2º do art. 4º que fica vedado o tratamento desses dados por pessoa
jurídica de direito privado. Poderão as pessoas jurídicas de direito privado fazê-lo, desde
que sob tutela de pessoa jurídica de direito público, que serão objeto de informe específico
à autoridade nacional. Ainda assim, as pessoas jurídicas de direito privado não poderão, em
nenhum caso, obter a totalidade dos dados pessoais de banco de dados a esse respeito, salvo
por aquela que possua capital integralmente constituído pelo poder público (§4º).
Terceiro, a autoridade nacional deve emitir opiniões técnicas ou recomendações referentes às
exceções previstas no tratamento de dados para fins de segurança lato sensu. Deve, ainda,
solicitar aos responsáveis relatórios de impacto à proteção de dados pessoais (§3º).
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 33/354
Na sequência, o art. 5º da LGPD traz uma série de conceitos para a aplicação da lei. Isso
é algo bastante comum em leis mais “técnicas”, que extrapolam os limites jurídicos,
geralmente no setor de tecnologia, engenharia ou saúde. Assim, esses são conceitos
que VOCÊ DEVE DECORAR:
Dado pessoal (stricto sensu): informação relacionada a pessoa natural identificada ou
identificável.
Dado pessoal sensível: dado pessoal sobre origem racial ou étnica, convicção religiosa,
opinião política, filiação a sindicato ou a organização de caráter religioso, filosófico ou
político, dado referente à saúde ou à vida sexual, dado genético ou biométrico, quando
vinculado a uma pessoa natural.
Dado anonimizado: dado relativo a titular que não possa ser identificado, considerando a
utilização de meios técnicos razoáveis e disponíveis na ocasião de seu tratamento.
Banco de dados: conjunto estruturado de dados pessoais, estabelecido em um ou em
vários locais, em suporte eletrônico ou físico.
Titular: pessoa natural a quem se referem os dados pessoais que são objeto de
tratamento.
Controlador: pessoa natural ou jurídica, de direito público ou privado, a quem
competem as decisões referentes ao tratamento de dados pessoais.
Operador: pessoa natural ou jurídica, de direito público ou privado, que realiza o
tratamento de dados pessoais em nome do controlador.
Encarregado: pessoa indicada pelo controlador, que atua como canal de comunicação
entre o controlador e os titulares e a autoridade nacional.
Agentes de tratamento: o controlador e o operador.
Tratamento: toda operação realizada com dados pessoais, como as que se referem a
coleta, produção, recepção, classificação, utilização, acesso, reprodução, transmissão,
distribuição, processamento, arquivamento, armazenamento, eliminação, avaliação ou
controle da informação, modificação, comunicação,transferência, difusão ou extração.
Anonimização: utilização de meios técnicos razoáveis e disponíveis no momento do
tratamento, por meio dos quais um dado perde a possibilidade de associação, direta ou
indireta, a um indivíduo.
Consentimento: manifestação livre, informada e inequívoca pela qual o titular concorda
com o tratamento de seus dados pessoais para uma finalidade determinada.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 34/354
Bloqueio: suspensão temporária de qualquer operação de tratamento, mediante guarda
do dado pessoal ou do banco de dados.
Eliminação: exclusão de dado ou de conjunto de dados armazenados em banco de
dados, independentemente do procedimento empregado.
Transferência internacional de dados: transferência de dados pessoais para país
estrangeiro ou organismo internacional do qual o país seja membro.
Uso compartilhado de dados: comunicação, difusão, transferência internacional,
interconexão de dados pessoais ou tratamento compartilhado de bancos de dados
pessoais por órgãos e entidades públicos no cumprimento de suas competências legais,
ou entre esses e entes privados, reciprocamente, com autorização específica, para uma
ou mais modalidades de tratamento permitidas por esses entes públicos, ou entre entes
privados.
Relatório de impacto à proteção de dados pessoais: documentação do controlador
que contém a descrição dos processos de tratamento de dados pessoais que podem
gerar riscos às liberdades civis e aos direitos fundamentais, bem como medidas,
salvaguardas e mecanismos de mitigação de risco.
Órgão de pesquisa: órgão ou entidade da administração pública direta ou indireta ou
pessoa jurídica de direito privado sem fins lucrativos legalmente constituída sob as leis
brasileiras, com sede e foro no país, que inclua em sua missão institucional ou em seu
objetivo social ou estatutário a pesquisa básica ou aplicada de caráter histórico,
científico, tecnológico ou estatístico.
Autoridade nacional: órgão da administração pública responsável por zelar, implementar
e fiscalizar o cumprimento da LGPD ei em todo o território nacional.
Chamo sua atenção para dois detalhes, que têm mais probabilidade de aparecerem
numa prova, dado o potencial de pegadinhas. Primeiro, distingue-se dado pessoal de
dado pessoal sensível, sem que se conceitue precisamente o que é dado pessoa. Por
isso, tudo o que não é dado pessoal sensível é dado pessoal stricto sensu. Por exemplo,
endereço ou CPF.
Segundo, veja que apenas controlador e operador são considerados agentes de
tratamento, mas não o encarregado. Além disso, o controlador e o operador podem
ser pessoas jurídicas, mas o encarregado sempre será pessoa natural.
No tratamento de dados pessoais deve-se observar o princípio da boa-fé. Além desse
princípio geral do Direito Privado, quais outros princípios específicos devem ser
observados? O art. 6º os minudencia:
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 35/354
Finalidade: realização do tratamento para propósitos legítimos, específicos, explícitos e
informados ao titular, sem possibilidade de tratamento posterior de forma incompatível
com essas finalidades.
Adequação: compatibilidade do tratamento com as finalidades informadas ao titular, de
acordo com o contexto do tratamento.
Necessidade: limitação do tratamento ao mínimo necessário para a realização de suas
finalidades, com abrangência dos dados pertinentes, proporcionais e não excessivos em
relação às finalidades do tratamento de dados.
Livre acesso: garantia, aos titulares, de consulta facilitada e gratuita sobre a forma e a
duração do tratamento, bem como sobre a integralidade de seus dados pessoais.
Qualidade dos dados: garantia, aos titulares, de exatidão, clareza, relevância e
atualização dos dados, de acordo com a necessidade e para o cumprimento da
finalidade de seu tratamento.
Transparência: garantia, aos titulares, de informações claras, precisas e facilmente
acessíveis sobre a realização do tratamento e os respectivos agentes de tratamento,
observados os segredos comercial e industrial.
Segurança: utilização de medidas técnicas e administrativas aptas a proteger os dados
pessoais de acessos não autorizados e de situações acidentais ou ilícitas de destruição,
perda, alteração, comunicação ou difusão.
Prevenção: adoção de medidas para prevenir a ocorrência de danos em virtude do
tratamento de dados pessoais.
Não discriminação: impossibilidade de realização do tratamento para fins
discriminatórios ilícitos ou abusivos.
Responsabilização e prestação de contas: demonstração, pelo agente, da adoção de
medidas eficazes e capazes de comprovar a observância e o cumprimento das normas
de proteção de dados pessoais e, inclusive, da eficácia dessas medidas.
(CEBRASPE - TJDFT - JUIZ – 2023) De acordo com a Lei Geral de Proteção de
Dados Pessoais, a compatibilidade do tratamento dos dados pessoais com as
finalidades informadas ao titular de acordo com o contexto do tratamento, consiste
no princípio da
a) adequação.
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 36/354
b) finalidade.
c) segurança.
d) qualidade dos dados.
e) transparência.
Comentários
A alternativa A está correta, já que o princípio da adequação consiste na
compatibilidade do tratamento com as finalidades informadas ao titular, de acordo com
o contexto do tratamento.
A alternativa B está incorreta, já que o princípio da finalidade consiste na realização do
tratamento para propósitos legítimos, específicos, explícitos e informados ao titular, sem
possibilidade de tratamento posterior de forma incompatível com essas finalidades.
A alternativa C está incorreta, já que o princípio da segurança consiste na utilização de
medidas técnicas e administrativas aptas a proteger os dados pessoais de acessos não
autorizados e de situações acidentais ou ilícitas de destruição, perda, alteração,
comunicação ou difusão.
A alternativa D está incorreta, já que o princípio da qualidade de dados consiste na
garantia, aos titulares, de exatidão, clareza, relevância e atualização dos dados, de
acordo com a necessidade e para o cumprimento da finalidade de seu tratamento.
A alternativa E está incorreta, já que o princípio da transparência consiste na garantia,
aos titulares, de informações claras, precisas e facilmente acessíveis sobre a realização
do tratamento e os respectivos agentes de tratamento, observados os segredos
comercial e industrial.
Tratamento dos dados pessoais
Ao versar sobre o tratamento de dados pessoais, a lei distingue os dados pessoais
(informação relacionada a pessoa natural identificada ou identificável) dos dados pessoais
sensíveis (dado pessoal sobre origem racial ou étnica, convicção religiosa, opinião política,
filiação a sindicato ou a organização de caráter religioso, filosófico ou político, dado referente à
saúde ou à vida sexual, dado genético ou biométrico, quando vinculado a uma pessoa natural).
Mas não só.
Distingue-se ainda o tratamento dos dados pessoais lato sensu, que englobam os dados
pessoais stricto sensu e dados pessoas sensíveis, dos dados pessoais de crianças e
adolescentes.
Requisitos para tratamento dos dados pessoais
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 37/354
Quando é possível tratar de dados pessoais? Na dicção do art. 7º, o tratamento de dados
pessoais somente poderá ser realizado nas seguintes hipóteses:
I. Mediante o fornecimento de consentimento pelo titular;
II. Para o cumprimento de obrigação legal ou regulatória pelo controlador
III. Pela administração pública, para o tratamento e uso compartilhado de dados necessários à
execução de políticas públicas previstas em leis e regulamentos ou respaldadas em contratos,
convênios ou instrumentos congêneres;
IV. Para a realização de estudos por órgão de pesquisa, garantida, sempre que possível, a
anonimização dos dados pessoais;
V. Quando necessário para a execução de contrato ou de procedimentos preliminaresrelacionados a contrato do qual seja parte o titular, a pedido do titular dos dados;
VI. Para o exercício regular de direitos em processo judicial, administrativo ou arbitral (neste
caso, nos termos da Lei 9.307/1996, a Lei de Arbitragem);
VII. Para a proteção da vida ou da incolumidade física do titular ou de terceiro;
VIII. Para a tutela da saúde, exclusivamente, em procedimento realizado por profissionais de
saúde, serviços de saúde ou autoridade sanitária;
IX. Quando necessário para atender aos interesses legítimos do controlador ou de terceiro,
exceto no caso de prevalecerem direitos e liberdades fundamentais do titular que exijam a
proteção dos dados pessoais;
X. Para a proteção do crédito, inclusive quanto ao disposto na legislação pertinente.
Em regra, o tratamento de dados pessoais exige fornecimento de consentimento específico
do titular (art. 7º, inc. I), mas em outras hipóteses não se exige o consentimento (art. 7º,
incs. II a X). No entanto, é dispensada a exigência do consentimento para os dados
tornados manifestamente públicos pelo próprio titular, resguardados os direitos do titular e
os princípios previstos na lei (§4º).
Mesmo quando o controlador obteve o consentimento da pessoa, se necessitar comunicar ou
compartilhar dados pessoais com outros controladores deve obter consentimento específico
do titular para esse fim, exige o §5º. Evidentemente, isso não se exige quando se trata de
dispensa do consentimento.
Assim, por exemplo, se uma farmácia obteve minha autorização para tratamento de meus
dados pessoais, exige-se que ela obtenha autorização específica para compartilhar essas
informações com terceiros. No entanto, se a informação é exigida por entidade de proteção de
crédito, não é necessário minha anuência, pelo que a farmácia pode fornecer meus dados a
essa pessoa jurídica diretamente.
De qualquer forma, a eventual dispensa da exigência do consentimento – seja pela publicação
dos dados pelo titular, seja pela dispensa legal – não desobriga os agentes de tratamento das
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 38/354
demais obrigações previstas em lei. Isso vale, especialmente, para a observância dos princípios
gerais e para a garantia dos direitos do titular, detalha o §6º.
Não à toa, o §3º determina que o tratamento de dados pessoais cujo acesso é público deve
considerar a finalidade, a boa-fé e o interesse público que justificaram sua
disponibilização. Por isso, pode-se dar publicidade a respeito dos rendimentos de um servidor
público, mas não é adequado que se detalhe que um certo desconto em sua folha foi feito para
indenizar alguém, por exemplo.
Além disso, o tratamento posterior dos dados pessoais a que se referem os §§3º e 4º pode ser
realizado para novas finalidades, desde que observados os propósitos legítimos e específicos
para o novo tratamento e a preservação dos direitos do titular, assim como os fundamentos e
os princípios previstos na lei (§7º).
E como se dará o consentimento do titular? De acordo com o art. 8º, o consentimento deve
ser fornecido por escrito ou por outro meio que demonstre a manifestação de vontade do
titular. Assim, a lei exige forma escrita para o consentimento, mas não afasta a validade de
consentimento dado verbalmente, desde que, por exemplo, ele tenha sido gravado em vídeo.
Isso é bastante salutar, especialmente numa sociedade de massas na qual ficar guardando
montanhas de papel é injustificável, física e economicamente. Além disso, num contato
telefônico, por exemplo, isso seria praticamente impossível. De qualquer sorte, cabe ao
controlador que detém os dados o ônus da prova de que o consentimento foi obtido em
conformidade com o disposto na lei (§2º).
O consentimento deve ser específico, ou seja, deve referir-se a finalidades determinadas.
Assim, nulas são as autorizações genéricas para o tratamento de dados pessoais, não deixa
margem de dúvida o §4º.
Veda-se, consequentemente, o tratamento de dados pessoais mediante vício de consentimento
(art. 8º, §3º). Reiterando essa noção, o art. 9º, §1º, estabelece que na hipótese em que o
consentimento é requerido, esse será considerado nulo caso as informações fornecidas ao
titular tenham conteúdo enganoso ou abusivo ou não tenham sido apresentadas previamente
com transparência, de forma clara e inequívoca.
E é possível que esse consentimento esteja contido dentro do próprio contrato celebrado pelo
titular dos dados? Sim, caso o consentimento seja fornecido por escrito, isso é possível, desde
que conste de cláusula destacada das demais cláusulas contratuais (art. 8º, §1º).
De outra banda, o consentimento pode ser revogado a qualquer momento mediante
manifestação expressa do titular. O §5º esclarece que a revogação se faz por procedimento
gratuito e facilitado. Ficam desde já ratificados os tratamentos realizados sob amparo do
consentimento anteriormente manifestado enquanto não houver requerimento de eliminação.
E se for alterada a finalidade específica do tratamento, a forma e duração do tratamento, a
identificação do controlador ou o uso compartilhado de dados, o que ocorre? Obriga o §6º que,
nesses casos, o controlador informe ao titular, com destaque de forma específica do teor das
alterações. Pode o titular, nos casos em que o seu consentimento é exigido, revogá-lo caso
discorde da alteração.
3. Legislação Civil Especial
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De modo a facilitar o controle do titular sobre seus dados, ele deve ter acesso facilitado às
informações sobre o tratamento de seus dados. Isso deve ser disponibilizado de forma clara,
adequada e ostensiva acerca de, entre outras, características previstas em regulamentação
para o atendimento do princípio do livre acesso (art. 9º):
I. Finalidade específica do tratamento;
II. Forma e duração do tratamento, observados os segredos comercial e industrial;
III. Identificação do controlador;
IV. Informações de contato do controlador;
V. Informações acerca do uso compartilhado de dados pelo controlador e a finalidade;
VI. Responsabilidades dos agentes que realizarão o tratamento;
VII. Direitos do titular (com menção explícita aos direitos previstos no art. 18);
Quando o tratamento de dados pessoais for condição para o fornecimento de produto ou
de serviço ou para o exercício de direito, o titular será informado com destaque sobre esse
fato. Deve ser também informado sobre os meios pelos quais poderá exercer seus direitos de
titular elencados no art. 18 da Lei, estatui o §3º.
E quando o controlador pode obter e tratar dados pessoais? Essa é uma das questões mais
importantes da LGPD, já que, atualmente, a maioria dos dados pessoais colhidos não parece ter
necessidade. Você já não foi abordado por algum atendente exigindo uma longa lista de
informações ao tentar comprar um chiclete ou uma aspirina?
Pois é. Por isso, o controlador somente pode fundamentar o tratamento de dados pessoais para
finalidades legítimas. Mas, o que é uma finalidade legítima? O art. 10 traz um rol
exemplificativo (numerus apertus) de situações concretas que permitem legitimamente
fundamentar o tratamento de dados pessoais:
Apoio e promoção de atividades do controlador;
Proteção, em relação ao titular, do exercício regular de seus direitos ou prestação de
serviços que o beneficiem, respeitadas as legítimas expectativas dele e os direitos e
liberdades fundamentais;
Veja que a primeira situação traz uma margem de discricionariedade expressiva. Mas não é
bem assim. Quando o tratamento for baseado no legítimo interesse do controlador, somente
os dados pessoais estritamente necessários para a finalidade pretendida poderão ser
tratados (§1º).
O controlador ainda deverá adotar medidas para garantir a transparência do tratamento de
dados baseado em seu legítimo interesse (§2º). Além disso, a autoridade nacional poderá
solicitar ao controlador relatório de impacto à proteção de dados pessoais,quando o
3. Legislação Civil Especial
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tratamento tiver como fundamento seu interesse legítimo, observados os segredos comercial e
industrial (§3º).
Tratamento de dados pessoais sensíveis
O tratamento de dados pessoais sensíveis tem regulamentação específica, em razão, bem, da
“sensibilidade” dos dados. Mas, o que é mesmo “dado sensível”? Dados pessoais sensíveis são
aqueles sobre origem racial ou étnica, convicção religiosa, opinião política, filiação a sindicato
ou a organização de caráter religioso, filosófico ou político, dado referente à saúde ou à vida
sexual, dado genético ou biométrico, quando vinculado a uma pessoa natural.
Pois bem. Não pode haver tratamento de dados pessoais sensíveis com a mesma liberdade que
há em relação aos demais dados pessoais stricto sensu. De acordo com o art. 11, o tratamento
de dados pessoais sensíveis somente pode ocorrer nas seguintes hipóteses:
A) Cumprimento de obrigação legal ou regulatória pelo controlador;
B) Tratamento compartilhado de dados necessários à execução, pela administração pública, de
políticas públicas previstas em leis ou regulamentos;
C) Realização de estudos por órgão de pesquisa, garantida, sempre que possível, a
anonimização dos dados pessoais sensíveis;
D) Exercício regular de direitos, inclusive em contrato e em processo judicial, administrativo e
arbitral (neste caso, nos termos da Lei 9.307/1996, a Lei de Arbitragem);
E) Proteção da vida ou da incolumidade física do titular ou de terceiro;
F) Tutela da saúde, exclusivamente, em procedimento realizado por profissionais de saúde,
serviços de saúde ou autoridade sanitária;
G) Garantia da prevenção à fraude e à segurança do titular, nos processos de identificação e
autenticação de cadastro em sistemas eletrônicos, resguardados os direitos mencionados no
art. 9º da lei e exceto no caso de prevalecerem direitos e liberdades fundamentais do titular
que exijam a proteção dos dados pessoais;
Prevê o §1º que essa regra se aplica a qualquer tratamento de dados pessoais que revele
dados pessoais sensíveis e que possa causar dano ao titular. A ressalva fica por conta do
disposto em legislação específica.
A comunicação ou o uso compartilhado de dados pessoais sensíveis entre controladores com
objetivo de obter vantagem econômica pode ser objeto de vedação ou de regulamentação por
3. Legislação Civil Especial
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parte da autoridade nacional (§3º). Antes disso, porém, deve ouvir os órgãos setoriais do Poder
Público, no âmbito de suas competências.
Além disso, veda-se a comunicação ou o uso compartilhado entre controladores de dados
pessoais sensíveis referentes à saúde com objetivo de obter vantagem econômica. As
exceçções ficam por conta da portabilidade de dados consentida pelo titular e das
transações financeiras e administrativas resultantes do uso e da prestação dos serviços de
que trata este parágrafo (§4º, incs. I e II). Isso ocorre, por exemplo, na migração de um plano
de saúde a outro.
Igualmente vedado às operadoras de planos de saúde o tratamento de dados de saúde para a
prática de seleção de riscos na contratação de qualquer modalidade, assim como na
contratação e exclusão de beneficiários (§5º). Trata-se de norma evidente, para evitar a
discriminação de potenciais contratantes.
Especificamente nos casos de cumprimento de obrigação legal ou regulatória pelo controlador
e de tratamento compartilhado de dados necessários à execução de políticas públicas (alíneas
“a” e “b” supramencionadas), é dispensado o consentimento do titular. No entanto, exige-se
(§2º) publicidade à referida dispensa de consentimento, nos termos do inc. I do art. 23 da lei.
E se os dados, mesmo que sensíveis, forem anonimizados? O art. 12 prevê que os dados
anonimizados não serão considerados dados pessoais para os fins legais. Ou seja,
podem ser utilizados mais livremente.
No entanto, se o processo de anonimização ao qual foram submetidos for revertido,
utilizando exclusivamente meios próprios, ou quando, com esforços razoáveis, puder ser
revertido, não são eles considerados anonimizados (caput), e continuam a ser tratados
como dados pessoais. Podem ser igualmente considerados como dados pessoais os dados
utilizados para formação do perfil comportamental de determinada pessoa natural, se
identificada (§2º).
A determinação do que seja razoável deve levar em consideração fatores objetivos, tais como
custo e tempo necessários para reverter o processo de anonimização, de acordo com as
tecnologias disponíveis, e a utilização exclusiva de meios próprios (§1º). A autoridade nacional
poderá dispor sobre padrões e técnicas utilizados em processos de anonimização e realizar
verificações acerca de sua segurança, ouvido o Conselho Nacional de Proteção de Dados
Pessoais – CNPDP (§3º).
O art. 13 permite que, na realização de estudos em saúde pública, os órgãos de pesquisa
tenham acesso a bases de dados pessoais. Esses dados devem ser tratados
exclusivamente dentro do órgão e estritamente para a finalidade de realização de estudos
3. Legislação Civil Especial
3. Legislação Civil Especial 42/354
e pesquisas e mantidos em ambiente controlado e seguro, conforme práticas de segurança
previstas em regulamento específico.
A segurança deve incluir, sempre que possível, a anonimização ou pseudonimização dos dados,
bem como considerem os devidos padrões éticos relacionados a estudos e pesquisas. A
divulgação dos resultados ou de qualquer excerto do estudo ou da pesquisa em nenhuma
hipótese pode revelar dados pessoais (§1º).
Veja que a LGPD distingue a anonimização da pseudonimização. A anonimização é o ato de
tornar um dado anônimo, de modo que não se saiba quem é o titular. Já o §4º define a
pseudonimização como o tratamento por meio do qual um dado perde a possibilidade de
associação, direta ou indireta, a um indivíduo, senão pelo uso de informação adicional
mantida separadamente pelo controlador em ambiente controlado e seguro.
E quem é responsável por isso? Prevê o §2º que o órgão de pesquisa é o responsável pela
segurança da informação; não permitida, em circunstância alguma, a transferência dos
dados a terceiro.
Por fim, o acesso aos dados supramencionados será objeto de regulamentação por parte da
autoridade nacional e das autoridades da área de saúde e sanitárias, no âmbito de suas
competências, arremata o §3º.
(FGV - TJ-ES - Juiz Substituto – 2023) Sobre a Lei Geral de Proteção de Dados
Pessoais (Lei nº 13.709/2018), é correto afirmar que:
a) o tratamento de dados pessoais sensíveis somente poderá ocorrer quando o seu
titular autorizar;
b) poderá ser considerado dado pessoal aquele utilizado para formação do perfil
comportamental de determinada pessoa natural, se identificada;
c) é sempre vedado ao poder público transferir a entidades privadas dados pessoais
constantes de bases de dados a que tenha acesso;
d) o operador é o responsável por indicar o encarregado pelo tratamento de dados
pessoais, cuja identidade e informações de contato deverão ser públicas;
e) o controlador deverá comunicar, no prazo de 48 horas, à autoridade nacional e ao
titular a ocorrência de incidente de segurança que possa acarretar risco ou dano
relevante aos titulares.
Comentários
A alternativa correta é a letra B. A questão trata sobre a Lei Geral de Proteção de Dados.
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A alternativa A está incorreta, nos termos do art. 11, II, da Lei nº 13.709: “O tratamento de
dados pessoais sensíveis somente poderá ocorrer nas seguintes hipóteses: II - sem
fornecimento de consentimento do titular, nas hipóteses em que for indispensável para:
(...)”
A alternativa B está correta, nos termos do art. 12, § 2º, da Lei nº 13.709: “Poderão ser
igualmente considerados como dados pessoais, para os fins desta Lei, aqueles utilizados
para formação do perfil comportamental de determinada pessoa natural, se identificada”.